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APOSTILA-INTRODUÇÃO-A-TCC

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2 
 
SUMÁRIO 
1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 5 
2 INTRODUÇÃO A TERAPIA COGNITIVA COMPORTAMENTAL ............... 6 
2.1 O contexto histórico da terapia cognitiva .............................................. 8 
2.2 Origens da terapia cognitiva ............................................................... 12 
2.3 A revolução cognitiva ......................................................................... 14 
2.4 A natureza da cognição ...................................................................... 16 
2.5 A terapia cognitivo-comportamental (TCC) ........................................ 17 
2.6 Fundamentos ..................................................................................... 18 
3 PENSAMENTOS AUTOMÁTICOS ........................................................... 19 
3.1 Erros cognitivos: pensamentos automáticos distorcidos .................... 21 
4 AS CRENÇAS CENTRAIS ........................................................................ 23 
4.1 Crenças intermediárias ....................................................................... 25 
4.2 Princípios da terapia cognitiva para todos os pacientes ..................... 27 
4.3 Características básicas ...................................................................... 29 
4.4 Intervenção clínica em terapia cognitiva............................................. 31 
4.5 O princípio básico da terapia cognitiva e o modelo cognitivo de 
psicopatologia ........................................................................................................ 32 
4.6 Princípios, técnicas e estratégias de intervenção clínica.................... 34 
4.7 Técnica do questionamento socrático ................................................ 36 
4.8 Estratégias para a formulação de perguntas no questionamento 
socrático 37 
4.9 Observações clínicas do fenômeno cognitivo .................................... 39 
4.10 Esquemas ....................................................................................... 44 
4.11 Tipos de esquemas ......................................................................... 48 
4.12 O modelo cognitivo em uma versão inicial ...................................... 48 
4.13 A teoria de modos ........................................................................... 50 
 
3 
 
5 RELAÇÃO TERAPÊUTICA ....................................................................... 55 
5.1 Características e habilidades fundamentais do terapeuta .................. 57 
5.2 O funcionamento da relação terapêutica ............................................ 59 
5.3 Fim da relação .................................................................................... 62 
6 CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA RELAÇÃO TERAPÊUTICA ............. 63 
6.1 Aliança em geral ................................................................................. 63 
6.2 Aliança terapêutica ............................................................................. 64 
6.3 Aliança na terapia cognitivo-comportamental ..................................... 66 
6.4 Vinculação .......................................................................................... 67 
6.5 Resistência ......................................................................................... 69 
6.6 Resistência de validação .................................................................... 69 
6.7 Resistência da vítima ......................................................................... 69 
6.8 Resistência moral ............................................................................... 70 
6.9 Resistência esquemática .................................................................... 70 
6.10 Autoconsciência .............................................................................. 71 
6.11 Risco aversão ................................................................................. 71 
6.12 Autosistema de desvantagens ........................................................ 72 
6.13 Competências do terapeuta ............................................................ 73 
6.14 Micro competências ........................................................................ 77 
6.15 Capacidades ................................................................................... 78 
6.16 Competências terapêuticas na condução da terapia cognitiva ....... 80 
6.17 Sequência interpessoal ................................................................... 81 
6.18 A empatia como facilitador da relação terapêutica .......................... 84 
7 NO PROCESSO TERAPÊUTICO ............................................................. 88 
7.1 Evoluindo no processo terapêutico .................................................... 90 
8 CHEGANDO ÀS CRENÇAS CENTRAIS .................................................. 93 
9 FINALIZANDO O PROCESSO ................................................................. 96 
 
4 
 
10 AVALIAÇÃO COGNITIVO-COMPORTAMENTAL ................................. 96 
11 REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS .................................................... 100 
12 BILBIOGRAFIA .................................................................................... 103 
 
 
 
 
 
5 
 
1 INTRODUÇÃO 
Prezado aluno! 
O Grupo Educacional FAVENI , esclarece que o material virtual é semelhante 
ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - 
um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma 
pergunta , para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum 
é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a 
resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas 
poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em 
tempo hábil. 
Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa 
disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das 
avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que 
lhe convier para isso. 
A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser 
seguida e prazos definidos para as atividades. 
Bons estudos! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
6 
 
2 INTRODUÇÃO A TERAPIA COGNITIVA COMPORTAMENTAL 
 
Fonte: actinstitute.org 
A Terapia Cognitiva é uma prática que pode ser considerada recente no 
universo terapêutico, tendo sido extensamente testada desde o primeiro estudo de 
resultado em 1977 (Beck, 1997b). A partir dos primeiros movimentos exploratórios de 
Aaron Beck, e ao longo de todo o material já desenvolvido até a época atual, nota-se 
o foco de sua teoria e prática terapêutica voltado para os estudos da psicopatologia e 
elaboração de modelos psicoterapêuticos (Beck, Rush, Shaw, e Emery, G., 1997a; 
Knapp e Beck, 2008). 
Como afirma Knapp (2004), os primeiros estudos importantes e as primeiras 
abordagens cognitivo-comportamentais para o tratamento dos transtornos emocionais 
começaram a surgir na década de 60 com autores como Aaron Beck (1963, 1967, 
1976), Albert Ellis (1994), Lazarus (1966), Meichenbaum (1973) e Mahoney (1974), 
entre outros. 
Tal movimento se deu em prosseguimento a um período em que, para alguns 
pesquisadores e historiadores (Gardner, 1996; Baars, 1986) ocorreu a chamada 
“revolução cognitiva”, a partir da qual processos cognitivos como pensamentos, 
percepções, crenças, memórias, etc., começaram a ser investigados cientificamente, 
em confronto com a hegemonia do movimento behaviorista, que considerava qualquerinvestigação com conteúdos mentais não científica. 
 
7 
 
Segundo Dobson (2001), todas as terapias cognitivo-comportamentais derivam 
de um modelo cognitivo prototípico e compartilham alguns pressupostos básicos, 
mesmo quando apresentam diferentes abordagens conceituais e estratégicas nos 
diversos transtornos. 
Sendo assim existem algumas proposições fundamentais que definiriam 
as características que estão no núcleo das terapias cognitivo-comportamentais: 
 A atividade cognitiva influencia o comportamento; 
 A atividade cognitiva pode ser monitorada e alterada e; 
 O comportamento desejado pode ser influenciado mediante a mudança 
cognitiva. 
 Pensamentos automáticos; 
 Identifica comportamentos negativos e limitantes – especialmente por 
trás de doenças, sem olhar a doença em si, mas analisando os 
comportamentos da pessoa doente; 
 Cria estratégias para trocar comportamentos disfuncionais por 
comportamentos benéficos; 
 Identifica quais sentimentos, emoções e pensamentos estão 
relacionados a esses comportamentos; 
 Busca uma reestruturação cognitiva, elaborando pensamentos 
alternativos e flexíveis; 
 Identifica as distorções cognitivas, elaborando pensamentos alternativos 
e flexíveis; 
 Identifica as distorções cognitivas que prejudicam a forma saudável de 
pensar (generalização, vitimização, personalização, catastrofização, 
entre outros); 
 Busca as crenças que fazem a pessoa pensar de determinadas 
maneiras, reformulando o sistema de esquemas e crenças; 
 Busca a raiz das crenças, o evento ou experiência que gerou essa 
crença, resinificando essas memórias de dor e amenizando o impacto 
emocional. 
Em 1956, Aaron Beck (Beck e Alford, 2000) dá início à história da Terapia 
Cognitiva na tentativa de fornecer apoio empírico para certas formulações 
psicodinâmicas de depressão, que Beck entendia como certas na época, encontrando 
 
8 
 
alguns fenômenos inconsistentes com o modelo psicanalítico, especificamente a 
conceitualização psicanalítica de Freud que afirma que pacientes deprimidos 
manifestam hostilidade retrofletida, expressada como masoquismo, ou uma 
necessidade de sofrer. 
 Entretanto, diante de respostas de sucesso em atribuições de tarefa graduada 
em ambiente controlado, os pacientes deprimidos pareciam melhorar em vez de 
resistir a tais experiências. Após novos estudos empíricos o resultado foi a 
reformulação da depressão como um transtorno caracterizado por uma profunda 
tendência negativa. A teoria cognitiva de psicopatologia e psicoterapia vai então 
considerar a cognição como a chave para os transtornos psicológicos. 
Dessa forma, segundo Beck (1964) e Ellis (1994), a Terapia Cognitiva baseia-
se no modelo cognitivo, que levanta a hipótese de que as emoções e comportamentos 
das pessoas são influenciados por sua percepção de eventos. Não é uma situação 
por si só que determina o que as pessoas sentem, mas, antes, o modo como elas 
interpretam e pensam sobre a situação. 
A Psicologia Cognitivo-comportamental vem ganhando espaço entre as 
diversas abordagens teóricas, principalmente pela sua objetividade e eficácia 
terapêutica, o que pode ser considerado uma vantagem no tratamento de 
diversos problemas, bem como de alguns transtornos psiquiátricos 
(NEUFELD; CAVENAGE, 2010; apud Karbonara K; 2014). 
2.1 O contexto histórico da terapia cognitiva 
A terapia cognitiva foi desenvolvida por Aaron T. Beck, na Universidade da 
Pensilvânia no início da década de 60, como uma psicoterapia breve, estruturada, 
orientada ao presente, para depressão, direcionada a resolver problemas atuais e a 
modificar os pensamentos e os comportamentos e os comportamentos disfuncionais 
(Beck, 1964). 
Desde aquela época, Beck e outros vêm adaptando com sucesso essa terapia 
para um conjunto surpreendentemente diverso de populações e desordens 
psiquiátricas (ver, por exemplo, Freeman & Beck, 1989). Essas adaptações mudaram 
o foco, a tecnologia e a duração do tratamento, porém os pressupostos teóricos em si 
permaneceram constantes. 
 
9 
 
Resumidamente, o modelo cognitivo propõe que o pensamento distorcido ou 
disfuncional (que influencia o humor e o comportamento do paciente) seja comum a 
todos os distúrbios psicológicos. 
A avaliação realista e a modificação no pensamento produzem uma melhora 
no humor e no comportamento. A melhora duradoura resulta da modificação das 
crenças disfuncionais básicas dos pacientes. 
Diversas formas de terapia cognitivo – comportamental foram desenvolvidas 
por outros teóricos importantes, notadamente a terapia racional – emotiva de Albert 
Ellis (Ellis, 1962), a modificação cognitiva – comportamental de Donald Meichenbaum 
(Meichenbaum, 1977) e a terapia multimodal de Arnold Lazarus (Lazarus, 1076). 
Contribuições importantes foram feitas por muitos outros, incluindo Michael 
Mahoney (1991), Vittorio Guidano e Giovanni Liotti (1983). Panoramas históricos da 
área fornecem uma rica descrição de como as diferentes correntes da terapia 
cognitiva se originaram e cresceram (Arnkoff & Glass, 1992; Hollon & Beck, 1993). 
A terapia cognitiva, conforme desenvolve e refinada por Aaron Beck, é 
enfatizada como singular no sentido de que é um sistema de psicoterapia com uma 
teoria da personalidade e da psicopatologia unificadas, apoiadas por evidências 
empíricas substanciais. 
Ela tem uma terapia operacionalizada com uma ampla gama de aplicações 
também apoiadas por dados empíricos, que são prontamente derivados da teoria. A 
terapia cognitiva foi extensamente testada desde a publicação do primeiro estudo de 
resultado, em 1977 (Rush, Beck, Kovacs & Hollon, 1977). 
Estudos controlados demonstraram sua eficácia no tratamento do transtorno 
depressivo maior ( Ver Dobson, 1989, para uma meta-análise), transtorno de 
ansiedade generalizada ( Butler, Fennell, Robson & Gelder, 1991), transtorno do 
pânico (Barlow, Craske, Cerney & Klosko, 1989; Beck, Sokol, Clark, Berchick & Wright, 
1992; Clarck, Salkovski, Hacmann, Middleton & Geider, 1992), fobia social ( Gelernter 
et al., Heimberg et al., 1990), abuso de substância ( Woody et al, 1983), transtornos 
alimentares ( Agras et. Al., 1992; Fairburn, Jones, Peveler, Hope & Doll, 1991; Garner 
et al., 1993), problemas de casais (Baucom, Syers & Scher, 1990) e depressão de 
pacientes internados (Bowers, 1990; Miller, Norman, Keitner, Bishop & Dow, 1989; 
Thase, Bowler & Harden, 1991). 
 
10 
 
A terapia cognitiva está correntemente sendo aplicada no mundo inteiro como 
o único tratamento ou como um tratamento adjuntivo para outros transtornos. Alguns 
exemplos são transtorno obsessivo- compulsivo (Salkovskis & Kirk, 1989), transtornos 
de estresse pós-traumático (Dancu & Foa1992; Parrot & Howes, 1991), transtorno da 
personalidade (Beck et al.., 1990; Layden, Newman, Freeman & Morse, 1993; Youg, 
1990), depressão recorrente (R. DeRubeis, comunicação pessoal, outubro 1993), dor 
crônica, (Miller, 1991; Turk, Meichenbaum & Genest 1983), Hipocondríase ( Warwick 
& Salkovskis, 1989) e esquizofrenia ( Chadwick & Lowe, 1990; Kingdon & Turknington, 
1994; Perris, Ingelson & Johnson, 1993). 
A terapia cognitiva para populações diferentes de pacientes psiquiátricos está 
sendo estudada: internos em prisões, crianças escolares, pacientes médicos com uma 
ampla variedade de doenças, entre muitos outros. 
Persons, Burns e Perloff (1988) verificaram que a terapia cognitiva é efetiva 
para pacientes com diferentes níveis de educação, renda e background. Ela foi 
adaptada para trabalho com pacientes de todas as idades, da pré-escola (Knell,1993) 
até os idosos (Casey & Grant, 1993; Thopson, Davies, Gallagher & Krantz, 1986). 
A terapia cognitiva tem o tratamentoindividual, e também foi modificada para 
terapia de grupo (Beutler et al., 1987; Freeman, Schrodt, Gilson & Ludgate, 1993), 
para problemas de casais (Baucom & Epstein, 1990; Dattilio & Padesky, 1990) e para 
a terapia familiar (Bedrosian & Bozicas, 1994; Epstein, Schlesinger & Dryden, 1988). 
Com tantas aplicações, como a terapia cognitiva permanece 
reconhecível? 
Em todas as formas de terapia cognitiva que fora derivada do modelo BECK, o 
tratamento baseia-se tanto em uma formulação cognitiva de um transtorno específico 
como em sua aplicação á conceituação ou entendimento do paciente individual. 
 O terapeuta busca, de uma variedade de formas, produzir a mudança 
cognitiva- mudanças no pensamento e no sistema de crenças do paciente, visando 
promover mudança emocional e comportamental duradoura. 
Para um melhor entendimento do caminhar evolutivo da Terapia Cognitiva, 
faz-se necessário observar os estudos relacionados ao desenvolvimento na 
teoria e tratamento da depressão, iniciado por Beck na década de 60. O 
modelo cognitivo do tratamento da depressão surgiu como uma alternativa 
aos modelos psicanalítico e behaviorista, preponderantes na época (Beck, 
Clark e Alford, 1999 apud; Gonçalves Carlos 2014). 
 
11 
 
Descontentamentos relacionados aos dois modelos surgiram por estes não se 
mostrarem mais suficientes para a tarefa de explicar o fenômeno da depressão. É 
neste contexto que a Terapia Cognitiva de Beck surge como uma abordagem 
alternativa de teoria e tratamento, observando-se a transição de uma teoria radical 
behaviorista estímulo-resposta para uma perspectiva cognitiva de processamento de 
informação. Entretanto, a Terapia Cognitiva não foi um mero resultado de um 
emergente zeitgeist cognitivo por volta dos anos 70. O fator de maior influência para 
o desenvolvimento do modelo cognitivo foram os experimentos de Beck e suas 
observações clínicas. 
Segundo Beck, Alford e Clark (1999a), nos anos 60, a teoria e terapia 
psicanalítica dominavam a perspectiva psicológica da depressão. Esta era baseada 
na formulação psicanalítica freudiana publicada em Luto e Melancolia (Freud, 1917), 
que caracterizava a depressão como raiva retrofletida resultado de perda de objetos 
próximos que se tornaram parte do ego da pessoa depressiva. 
A noção real ou imaginária de perda de um objeto amado junto com o conceito 
de raiva retrofletida formavam a pedra fundamental do entendimento psicanalítico da 
depressão, e os psicanalistas viam os sintomas como a autocrítica ou a auto 
discriminação, muito característicos na depressão, como confirmadores do conceito 
de hostilidade retrofletida. 
Conceitos posteriores como a proeminência de características da fase anal 
(obsessividade) e oral (dependência) presentes na personalidade do depressivo, ou a 
perda da autoestima, onde o ego vê-se em uma situação sem esperança e 
desamparada, dentre outros, também tomaram lugar na perspectiva psicanalítica mais 
do que o conceito de processos intrapsíquicos como a depressão retrofletida. 
Apesar da influência dos conceitos psicanalíticos em evolução, havia uma 
considerável insatisfação com a teoria e tratamento psicanalíticos uma vez que muitos 
dos conceitos centrais do modelo não podiam ser operacionalmente definidos com 
suficiente precisão para permitir investigações empíricas. 
 Além do mais, quando pesquisas experimentais eram realizadas, predições 
derivadas do modelo não eram validadas. Pelo lado behaviorista, o modelo de 
depressão nos anos de 1960 e início de 1970 era primariamente baseado no 
condicionamento operante da teoria da aprendizagem, que via a depressão como uma 
resposta super generalizada (perda de interesse e prazer em uma gama de 
 
12 
 
atividades), acionada por um determinado estímulo ou evento, e teorias recentes 
consideram a redução na efetividade de reforço positivo como o problema central da 
depressão. 
Apesar da evolução de modelos da depressão, e da compatibilidade com o 
método experimental, a deficiência destas teorizações continuou a ser questionada 
com relação à validade como modelo clínico da depressão. 
Como era de se supor, as teorias e terapias behavioristas e psicanalistas da 
depressão sofreram intensas críticas em meados dos anos 70. A teoria mais influente 
adotada por behavioristas, a Teoria do Desamparo Aprendido de Martin Seligman 
(1975), era na verdade uma teoria que não se baseava exclusivamente em conceitos 
comportamentais, e usava construtos cognitivos para explicar os fenômenos da 
depressão ou da ansiedade. 
Foi durante este período de descontentamento que prevalecia nos modelos 
psicológicos da época, que a abordagem de Beck sobre a depressão como transtorno 
do pensamento, ganhou o interesse de clínicos e pesquisadores com orientação 
behaviorista (Beck et al., 1999a). 
2.2 Origens da terapia cognitiva 
De acordo com Sternberg (2010), por mais longe que os registros possam ir na 
direção do passado, esses relatos documentados não registram os primeiros esforços 
para compreender como os seres humanos pensam. 
Entretanto de uma forma geral atribui-se as origens das bases mais antigas da 
psicologia cognitiva à filosofia e à fisiologia. Os problemas levantados nesses dois 
campos continuam a influenciar a maneira pela qual a psicologia cognitiva se 
desenvolve. 
Sternberg (2010) acredita que a oposição entre as ideias de Platão e Aristóteles 
continuam a influenciar o modo de conceber a cognição. Aristóteles, um naturalista e 
biólogo tanto quanto um filósofo, acreditava que a adquirimos conhecimento pela 
evidência empírica, obtida por meio da observação. 
Por sua vez, Platão achava que métodos empíricos têm pouco mérito, pois a 
verdadeira realidade situa-se nas formas abstratas, e não nas cópias imperfeitas da 
realidade observáveis no mundo externo as nossas mentes. 
 
13 
 
É uma discussão presente nos dias atuais entre psicólogos cognitivos, as 
capacidades e aptidões, como a habilidade linguística ou a inteligência, são inatas, 
como uma posição platônica sustenta, ou adquiridas por meio de interações com o 
ambiente, como sustenta Aristóteles. Muitos psicólogos cognitivos contemporâneos 
buscam uma síntese que permita uma combinação entre essas duas visões. 
Sternberg (2010) acredita que esta oposição entre as ideias contrastantes do 
Racionalismo e Empirismo, se acentua a partir das obras do racionalista francês René 
Descartes (1596-1650), que considerava o método introspectivo e reflexivo como 
superior aos métodos empíricos para se encontrar a verdade; e do empirista inglês 
John Locke (1632 – 1704), adepto do método da observação empírica, acreditando 
que os seres humanos nasciam sem qualquer conhecimento e precisando busca-lo 
através da experiência empírica, cunhando o termo tábula rasa que se referiria à 
mente humana nascida vazia que seria preenchida pelos caracteres inscritos pela vida 
e a experiência. No século XVIII surge o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), 
que tenta sintetizar as posições do Racionalismo e do Empirismo. 
Para Kant, inatas são as estruturas da mente, as do pensamento e as dos 
sentidos, e adquiridos são os dados captados pelos sentidos. Ou seja, para Kant a 
forma do conhecimento é inata, mas o conteúdo vem da experiência. Mais à frente, 
Wilhelm Wundt (1832-1920) contribuiu com suas ideias para o desenvolvimento do 
Estruturalismo, considerado a primeira grande escola de pensamento na Psicologia, 
que tem como característica básica buscar entender a estrutura da mente e suas 
percepções pela análise dessas percepções em seus componentes construtivos. 
 Wundt, considerado o fundador da Psicologia Experimental, utilizava uma 
grande variedade de métodos em suas pesquisas,sendo uma delas a introspecção 
experimental, que consiste em um olhar interior pelas informações que passam pela 
consciência. 
Como alternativa ao Estruturalismo, surge o Funcionalismo, sugerindo que os 
psicólogos devessem se concentrar mais nos processos de pensamentos do que em 
seus conteúdos, buscando entender o que as pessoas fazem, e por que as pessoas 
fazem. Willian James (1842-1910) foi personagem importante nesse processo. 
Assim como o Funcionalismo, o Associacionismo foi mais uma escola influente 
na Psicologia, e consistia em investigar como os eventos e as ideias podem se 
associar na mente propiciando a aprendizagem. Hermann Ebbinghaus (1850-1909) 
 
14 
 
foi o primeiro pesquisador a aplicar os princípios do associacionismo de maneira 
sistemática. 
Em rejeição ao behaviorismo radical que não via qualquer utilidade para os 
conteúdos ou mecanismos mentais e que orientava os psicólogos a se concentrar no 
estudo do comportamento observável, surgem alguns trabalhos de psicólogos 
chamados neobehavioristas, dentre eles Edward Tolman (1886-1959), que acreditava 
que para entender o comportamento era necessário se levar em conta o propósito e 
o plano para o comportamento, sendo o comportamento dirigido a algum objetivo. 
Para alguns, Tolman é considerado como o precursor da Psicologia Cognitiva. 
E por último nesse relato histórico, não se pode deixar de comentar o 
movimento da Gestalt, também crítica ao behaviorismo, pois em sua visão não se 
compreende totalmente um comportamento quando se desmembram os fenômenos 
em partes menores. 
Para a Gestalt, dentro de sua máxima: o todo é diferente da soma de suas 
partes, compreendem-se melhor os fenômenos psicológicos quando se olha para eles 
como todos organizados e estruturados. 
O Cognitivismo é uma abordagem mais recente, que acredita que grande 
parte do comportamento humano pode ser compreendida a partir de como as 
pessoas pensam, sendo o Cognitivismo, em parte, uma síntese das formas 
anteriores de análise como o Gestaltismo e o Behaviorismo (Sternberg, 2010 
apud Gonçalves Carlos 2014). 
2.3 A revolução cognitiva 
Por volta dos anos 20, 30 e 40, um intenso direcionamento de estudos voltados 
a cognição, possibilitou desafiar a hegemonia do movimento behaviorista, que não 
considerava como científica qualquer investigação que tivesse como objetos 
conteúdos mentalistas, tais como pensamentos, percepções, crenças, memórias, 
desejos etc. 
 Avanços tecnológicos das ciências da informação e da computação, e novas 
pesquisas sobre o modelo neural do comportamento, levaram pesquisadores como o 
matemático e neurofisiologista Warren MacCulloch, o matemático John Von Newmann 
e o psicólogo Karl Lashley a se reunirem em um simpósio, em 1948, sobre 
Mecanismos Cerebrais do Comportamento, realizado no California Institute of 
 
15 
 
Technology com o intuito de compartilhar suas pesquisas que tinham em comum o 
impacto sobre as concepções do funcionamento da mente. 
Outro simpósio ocorre em 1956 sobre a Teoria da Informação e reúne cientistas 
como Allen Newel, Herbert Simon, Noam Chomsky, George Miller, entre outros, 
constituindo-se como marco histórico do surgimento de uma nova ciência chamada 
Ciência Cognitiva (Gardner, 1996). 
A segunda metade dos anos cinquenta é um momento histórico que define com 
claridade a natureza da psicologia cognitiva, tendo como influência decisiva nesse 
processo a publicação de Noam Chomsky, em 1957, Syntactc Structures, e sua crítica, 
em 1957, com relação à posição de Skinner sobre a linguagem em Verbal Behavior 
(Rivière, 1991). 
Castañon (2007) defende a tese de que o surgimento do Racionalismo Crítico 
teve papel fundamental no surgimento da ciência cognitiva e do cognitivismo, 
afirmando que a aplicação do método científico ao estudo da mente só se tornou 
possível quando o próprio conceito da ciência sofreu alteração dramática, que 
começou a acontecer após o surgimento da obra de Karl Popper. 
Ainda de acordo com Castañon, a forma com que o Racionalismo Crítico critica 
o Positivismo Lógico e o método indutivo na ciência modificou a forma como se 
compreende o empreendimento científico, estabelecendo-se como posição central na 
Filosofia da Ciência contemporânea, e tornando evidente a conclusão de que o 
Racionalismo Crítico é a filosofia da ciência que melhor oferece suporte ao 
Cognitivismo e a psicologia cognitiva. 
 Tal movimento teve início em 1934 com a publicação de A Lógica da 
Investigação Científica de Popper. Aaron Beck (Beck e Alford, 2000) revela ser um 
dos cognitivistas que apoia o desenvolvimento de sua teoria nas ideias de Popper. 
Muito embora os primeiros textos centrais sobre modificação cognitiva tenham 
aparecido na década de 70, já na década de 60 uma atenção maior aos conteúdos 
cognitivos começa a emergir. O modelo comportamental tradicional, disponível até 
então, apontava limitações de uma abordagem comportamental não mediacional para 
explicar o comportamento humano. 
 Um número crescente de teóricos e terapeutas começaram a se identificar 
como cognitivos ou cognitivo-comportamentais em termos de orientação, entre os 
quais podemos citar: Beck, Ellis, Cautela, Meichenbaum e Mahoney, surgindo, desde 
 
16 
 
então, uma diversidade de abordagens cognitivo-comportamentais, atingindo vários 
graus de aplicação e sucesso (Knapp e Beck, 2008). 
Modelos terapêuticos derivam seus nomes dos seus objetos de estudo ou de 
sua metodologia. É o caso do Behaviorismo, que pelo aspecto prático consiste da 
análise e modificação do comportamento, e é também o caso das terapias cognitivas 
clássicas que analisam e visam modificar as estruturas cognitivas (Balbi, 2008). 
2.4 A natureza da cognição 
Para Beck e Alford (2000), a teoria cognitiva tem a função de explicar o papel 
da cognição nos inter-relacionamentos entre variáveis clinicamente relevantes, como 
a emoção, o comportamento e os relacionamentos interpessoais. 
A teoria cognitiva forneceria então instrumentos conceituais para a ação ou 
prática efetiva em contextos clínicos que incluiriam sistemas interativos em muitos 
níveis, particularmente interpessoais e sociais (Beck et al., 1997a). 
Beck e Alford (2000) fazem uma apresentação formal da teoria cognitiva e 
apresenta uma definição de cognição: 
A teoria cognitiva de psicopatologia e psicoterapia considera a cognição a 
chave para os transtornos psicológicos. “Cognição” é definida como aquela função 
que envolve deduções sobre nossas experiências e sobre a ocorrência e o controle 
de eventos futuros. 
A teoria cognitiva sugere a importância da percepção fenomenológica das 
relações entre os eventos; na teoria cognitiva clínica, a cognição inclui o processo de 
identificar e prever relações complexas entre eventos, de modo a facilitar a adaptação 
a ambientes passíveis de mudanças. 
Ainda segundo Beck e Alford (2000), a cognição inclui todas as estruturas 
teóricas necessárias no apoio do processamento de informações, podendo incluir o 
processo metacognitivo de pensar sobre o pensamento, juntamente com os objetos 
ou eventos que constituem o conteúdo do pensamento, constituindo. 
O organismo humano teria a propriedade de agir com a intenção e propósito de 
modificar seu ambiente ou a sua própria resposta a este ambiente, e nesse aspecto, 
a teoria cognitiva reconhece a cognição como mecanismo que pode, em parte, ser 
 
17 
 
determinado ou controlado por variáveis externas, ao mesmo tempo, a natureza da 
consciência humana inclui o potencial para causalidades e criatividade. 
A teoria cognitiva, de acordo com Beck e Alford (2000), não sugere que o 
aparato cognitivo seja capaz de captar, ou representar diretamentea realidade, ou 
seja, a experiência humana não construiria o mundo unilateralmente, mas consistiria 
de uma interação com o mundo ou o ambiente, onde fenômenos internos e externos 
invadiriam o sistema nervoso humano interagindo com o sistema cognitivo. 
Visto de outra perspectiva, a cognição faz a mediação entre o ambiente e o 
organismo humano, que Beck e Alford (2000) presumem ser uma característica 
evolutiva resultado da seleção natural. 
 Ao adaptar-se efetivamente ao mundo, o sistema cognitivo humano 
desenvolveu-se em transações com o ambiente natural, demonstrando que, diferente 
do “comportamento do computador”, a teoria cognitiva incorpora princípios ou 
características ecológicas bem como de processamento de informação. 
2.5 A terapia cognitivo-comportamental (TCC) 
“Psicoterapia cognitivo-comportamental é uma prática de ajuda psicológica que 
se baseia em uma ciência e uma filosofia do comportamento caracterizada por uma 
concepção naturalista e determinista do comportamento humano, pela adesão a um 
empirismo e a uma metodologia experimental como suporte do conhecimento e por 
uma atitude pragmática quanto aos problemas psicológicos” (RANGÉ, 2001). 
A denominada "revolução cognitiva", como coloca CABALLO (1996), iniciada 
dentre outros, com Mahoney e Beck, constituiu um grande marco na terapia 
comportamental, o que pode-se dizer por sua vez, que deu início à Terapia Cognitiva 
Comportamental (TCC), em certo sentido, uma junção entre a Terapia 
Comportamental e a Terapia Cognitiva. Desde seu surgimento, a TCC evoluiu muito 
e, atualmente encontra-se como uma das abordagens centrais em diversas áreas de 
atuação da Psicologia, tendo conquistado sua aceitação e admiração pelas práticas e 
resultados que produz, e pela singularidade de seu enfoque. 
Basicamente a terapia cognitiva visa a identificação de pensamentos 
distorcidos, sua averiguação na realidade e a correção dos mesmos com um objetivo 
de maior magnitude, ou seja, a mudança de crenças disfuncionais que se encontram 
 
18 
 
subjacentes a estes pensamentos distorcidos. Para isto ela utiliza-se de diversas 
técnicas cognitivas, como a reestruturação cognitiva, distração, parada do 
pensamento, etc. Já a terapia comportamental faz uso de princípios de aprendizagem, 
estabelecidos experimentalmente, para enfraquecer e eliminar comportamentos 
inapropriados e mal adaptativos. 
Diversas técnicas comportamentais são utilizadas, tais como, a exposição ao 
vivo, dessensibilização sistemática, exposição e prevenção de resposta, etc. Utiliza-
se a expressão terapia cognitivo-comportamental (TCC), para se designar a junção 
da terapia cognitiva e da terapia comportamental. Segundo o modelo cognitivo-
comportamental, a psicoterapia deverá atuar sobre os pensamentos deflagrados por 
uma dada situação estimulante, uma vez que tais pensamentos geram os sentimentos 
e os comportamentos que caracterizam a relação do indivíduo com o ambiente que o 
cerca. 
2.6 Fundamentos 
Nessa atmosfera, Aaron Beck inicia movimentos exploratórios, que irão servir 
de início para o desenvolvimento da Terapia Cognitiva. Como ele próprio narra (Beck, 
2006), depois de sua pós-graduação em psicanálise, no Philadelphia Psychoanalytic 
Society, em 1956: 
Depois que me graduei no Instituto de Psicanálise, eu estava ansioso para 
validar os conceitos psicanalíticos para torná-los mais aceitáveis a sociedade 
científica. Como a depressão era o transtorno mais comum em minha prática, 
decidi focar nesse transtorno. (Psychoanalytic Society, em 1956; apud 
Gonçalves Carlos 2014). 
De acordo com a psicanálise, indivíduos depressivos experimentam uma raiva 
inconsciente contra pessoas próximas, mas essa raiva é inaceitável, sendo reprimida 
e retornando contra seu self. 
 Então a questão era validar esse construto de hostilidade retrofletida. Como, 
segundo a teoria Freudiana, os sonhos são a “estrada real” para o inconsciente, Beck 
teve a ideia de procurar por material de hostilidade no conteúdo dos sonhos de 
pessoas deprimidas, utilizando-se de uma escala de hostilidade nos sonhos. Para a 
surpresa de Beck, ele descobriu que os sonhos de pessoas deprimidas continham 
menos hostilidade do que pessoas não deprimidas (Beck, 2006). 
 
19 
 
Essa descoberta inesperada, ainda segundo Beck (2006) parecia contradizer o 
modelo motivacional da psicanálise que postulava que os sonhos, assim como os 
sintomas, eram expressões de desejos proibidos, porém inconscientes. Beck 
reexamina os sonhos e observa uma anomalia nos sonhos dos depressivos, longe de 
expressarem hostilidade, viam-se como vítimas da ação de outras pessoas ou 
circunstâncias; eram rejeitados, abandonados ou frustrados. 
Novamente, Beck volta-se às experiências com a hipótese de que os sonhos 
eram expressões de necessidade de sofrer, derivada de sentimento de culpa sobre a 
hostilidade inconsciente. Esta série de experimentos resultou no desenvolvimento de 
um instrumento para medição da profundidade e severidade da depressão, chamado 
Beck Depression Inventory (BDI), permitindo a ampliação dos experimentos, ainda 
sob a hipótese da autoagressão, não foi validada, fazendo com que Beck começasse 
a questionar a necessidade da existência de um profundo construto motivacional 
como necessidade de sofrer (Beck e Clark, 1988). 
Como resultado conclusivo diante da série de experimentos realizados originou 
a seguinte questão: Poderiam o conteúdo manifesto dos sonhos, expectativas 
negativas, e sensibilidade ao fracasso simplesmente refletirem como os pacientes 
viam a si mesmos e suas experiências? (Beck et al., 1999a). O resultado dos estudos 
pode ser observado no relato de Beck (1967): 
...levado à conclusão que certos padrões cognitivos podem ser responsáveis 
pela tendência dos pacientes em fazerem julgamentos com tendências 
negativas de si, do mundo e do futuro. Os padrões cognitivos, embora menos 
proeminentes em períodos de não depressão, se tornam ativados durante a 
depressão. (Beck 185 apud Gonçalves Carlos 2014). 
3 PENSAMENTOS AUTOMÁTICOS 
Pensamentos automáticos são um fluxo de pensamento que coexiste com um 
fluxo de pensamento mais manifesto (Beck, 1964). A maior parte do tempo mal 
estamos ciente destes pensamentos, embora com apenas um pouquinho de 
treinamento possamos facilmente trazer estes pensamentos à consciência (Judith S. 
Beck - Terapia Cognitiva). 
Exemplo: Ao atravessar a rua você, com certeza, olha para os dois lados, 
mesmo que esteja em rua de mão única. Isso porque, sem que você perceba, passa 
 
20 
 
automaticamente a ideia que se deve olhar sempre para os dois lados antes de 
atravessar a rua. 
Muitos dos nossos pensamentos automáticos não causam problema algum, 
muito pelo contrário, precisamos de rapidez de raciocínio, e são os pensamentos 
automáticos que possibilitam isso. O problema aparece quando esses pensamentos 
automáticos não correspondem à realidade. 
Por exemplo, quando em depressão as pessoas costumam ter uma série de 
pensamentos automáticos negativos e falsos, como por exemplo: “Não adianta sair 
da cama, nada de bom pode acontecer na minha vida”. 
O modelo cognitivo afirma que a interpretação de uma situação (em vez da 
situação em si), frequentemente expressa em pensamentos automáticos, influencia 
as respostas emocional, comportamental, e fisiológica subsequentes. Evidentemente, 
determinados eventos são quase universalmente aflitivos: um ataque pessoal, 
rejeição ou fracasso. 
Pessoas com transtornos psicológicos, no entanto, com frequência interpretam 
erroneamente situações neutras ou até mesmo positivas e, desse modo, seus 
pensamentos automáticos são tendenciosos. Examinado criticamente e corrigindo 
erros de seu pensamento,muitas vezes os pacientes sentem – se melhor. 
Embora os pensamentos automáticos pareçam surgir espontaneamente, eles 
se tornam bastante previsíveis, uma vez que as crenças subjacentes do paciente 
sejam identificadas. O terapeuta cognitivo está preocupado em identificar os 
pensamentos que são disfuncionais, ou seja, os que distorcem a realidade, que são 
emocionalmente aflitivos e/ou interferem com a habilidade do paciente de atingir suas 
metas. Pensamentos automáticos disfuncionais são quase sempre negativos, a 
menos que o paciente seja maníaco ou hipomaníaco, tenham um transtorno de 
personalidade narcisístico ou seja um viciado em drogas. 
Os pensamentos automáticos são usualmente breves, e o paciente com 
frequência está mais ciente da emoção que sente em decorrência do pensamento do 
que do pensamento em si. Sentando –se na sessão, por exemplo, um paciente pode 
estar um pouco ciente de sentir-se ansioso, triste, irritado ou embaraçado, porém 
inconsciente dos seus pensamentos automáticos até que o terapeuta o questione. A 
emoção que o paciente sente é logicamente conectada ao conteúdo do pensamento 
automático. 
 
21 
 
 
Os pensamentos automáticos estão comumente em uma forma “ abreviada”, 
mas podem, com facilidade, ser soletrados quando o terapeuta pergunta pelo sentido 
do pensamento, os pensamentos podem estar em uma forma verbal, visual (imagem) 
ou em ambas as formas. Os pensamentos podem ser avaliados de acordo com a sua 
validade e a sua utilidade. 
O tipo mais comum de pensamento automático é distorcido de algum modo e 
ocorre apesar das evidências objetivas em contrário. O segundo tipo de pensamento 
automático é preciso, porém a conclusão que o paciente extrai pode ser distorcida. 
Por exemplo, “ Eu não fiz o que eu prometi para a minha colega de quarto” é um 
pensamento válido, mas a conclusão, “ Portanto, eu sou uma má pessoa” e não é. 
Um terceiro tipo de pensamento automático é também preciso, porém 
decididamente disfuncional. Então os pensamentos automáticos coexistem com um 
fluxo mais manifesto de pensamentos, surgem espontaneamente e não são 
embasados em reflexão ou deliberação. As pessoas estão usualmente mais cientes 
da emoção associada, porém, com um pouco de treinamento, podem tornar-se cientes 
do seu pensamento. 
Os pensamentos são relevantes a problemas pessoais estão associados a 
emoções específicas, dependendo de seu conteúdo e significado. Elas são 
frequentemente breve e fugazes, em forma abreviada e podem ocorrer em uma forma 
verbal e/ou imaginária. As pessoas com frequência aceitam seus pensamentos 
automáticos como verdadeiros, sem reflexão ou avaliação. Identificar, avaliar e 
responder a pensamentos automáticos (de uma forma mais adaptativa) usualmente 
produz uma mudança positiva em afeto. 
3.1 Erros cognitivos: pensamentos automáticos distorcidos 
Ao longo da vida, o ser humano cria estratégias para provar para ele mesmo 
que seu sistema de crenças está correto, desenvolvendo pensamentos distorcidos e 
disfuncionais que viram automáticos. Os pacientes tendem a cometer erros em seu 
pensamento. Com frequência, há uma tendência sistemática negativa no 
processamento cognitivo dos pacientes que sofrem de um transtorno psiquiátrico 
(Beck, 1976). 
 
22 
 
Quando o paciente expressa um pensamento automático, o terapeuta anota 
(mentalmente, verbalmente ou por escrito) o tipo de erro que ele parece estar 
cometendo. Embora alguns pensamentos automáticos sejam verdadeiros, muitos são 
falsos ou apenas possuem algumas parcelas de verdade. Erros típicos de 
pensamento incluem: 
 Pensamento do tipo tudo – ou – nada (também chamado de 
pensamento preto – e – branco, polarizado ou dicotômico): você vê 
uma situação em apenas duas categorias em vez de em um contínuo. 
Exemplo: “ Se eu não for um sucesso total, eu sou um fracasso” 
 Catastrofizando: (também denominado adivinhação): você prevê o 
futuro negativamente sem considerar outros resultados mais prováveis. 
Exemplo: “ Eu ficarei tão aborrecida que não serei capaz de agir direito” 
 Desqualificando ou desconsiderando o positivo: você 
irrazoavelmente diz para si mesmo que experiências, atos ou 
qualidades positivas não contam. Exemplo: Eu fiz bem aquele projeto, 
mas isso não significa que eu seja competente; eu apenas tive sorte”. 
 Argumentação emocional: Você pensa que algo deve ser verdade 
porque você “sente” (em realidade, acredita) isso de maneira tão 
convincente que acaba por ignorar ou desconsiderar evidências 
contrárias. Exemplo: “ Eu sei que faço muitas coisas certas no trabalho, 
mas eu ainda me sinto como se eu fosse um fracasso”. 
 Rotulando: Você coloca um rótulo global e fixo sobre si mesmo ou 
sobre os outros sem considerar que as evidências poderiam ser mais 
razoavelmente conduzidas a uma conclusão menos desastrosa. 
Exemplo: “ Eu sou um perdedor. Ele não presta”. 
 Magnificação/minimização: quando você avalia a si mesmo, outra 
pessoa ou situação, você magnifica irracionalmente o negativo e/u 
minimiza o positivo. Exemplo: “ Receber uma nota medíocre prova quão 
inadequada eu sou. Obter notas altas não significa que eu sou 
inteligente”. 
 Filtro mental (também denominado abstração seletiva): você presta 
atenção indevida a um detalhe negativo em vez de considerar o quadro 
geral. Exemplo: “ Porque eu tirei uma nota baixa na minha avaliação [ 
 
23 
 
que também continha várias notas altas] isso significa que eu estou 
fazendo um trabalho deplorável”. 
 Leitura mental: você acha que sabe o que os outros estão pensando, 
falhando assim ao considerar outras possibilidades mais prováveis. 
Exemplo: “ ele está pensando que eu não sei nada sobre esse projeto”. 
 Supergeneralização: você tira uma conclusão negativa radical que vai 
muito além da situação atual. Exemplo: “ [ porque eu me senti 
desconfortável no encontro] eu não tenho o que é necessário para fazer 
amigos. ” 
 Personalização: você acredita que os outros estão se comportando 
negativamente devido a você, sem considerar explicações mais 
plausíveis para o seu comportamento. Exemplo: “ o encanador foi rude 
comigo porque eu fiz algo errado”. 
 Declarações do tipo “ eu deveria” e “ eu devo” (também chamadas 
imperativas): Você tem uma ideia exata estabelecida de como você 
ou os outros deveriam comportar – se você superestima quão ruim é 
que essas expectativas não sejam preenchidas. Exemplo: “ É terrível 
que eu tenha cometido um erro. Eu deveria sempre dá o melhor de 
mim”. 
 Visão em túnel: você vê apenas os aspectos negativos de uma 
situação. Exemplo: “ O professor do meu filho não sabe fazer nada 
direito. Ele é crítico, insensível e ensina mal”. 
E uma outra opção é oferecer a lista de distorções para o paciente mas verificar 
apenas uns dois ou três erros mais comuns a esse paciente para que ele não se torne 
confuso tentando focalizar todos. Quando o paciente pode determinar o tipo de 
distorção que está fazendo, ele pode amiúde avaliar mais objetivamente a validade 
do seu pensamento. 
4 AS CRENÇAS CENTRAIS 
As crenças centrais, são ideias mais centrais da pessoa a respeito do self, e 
alguns autores referem-se a elas pela denominação de esquemas. Beck (1964) 
 
24 
 
diferencia os dois conceitos sugerindo que os esquemas são estruturas cognitivas 
dentro do pensamento, cujo o conteúdo específico são as crenças centrais. 
Ademais, ele teoriza ainda que as crenças centrais negativas essencialmente 
se encaixam em duas categorias amplas; as associadas a desamparo e as associadas 
ao fato de não ser amado (Beck, no prelo). Alguns pacientes têm crenças centrais que 
se encaixam em uma das categorias, enquanto outrostem crenças centrais que se 
encaixam em ambas as classes. Essas crenças se desenvolvem na infância à medida 
que a criança interage com outras pessoas significativas e encontra uma série de 
situações que confirmem essa ideia. 
 Durante grande parte de suas vidas, a maioria das pessoas pode manter as 
crenças centrais relativamente positivas (por exemplo, “ Eu estou substancialmente 
em controle”; “ Eu posso fazer a maioria das coisas de forma competente”; “ Eu sou 
um ser humano funcional “; “ Eu sou amável”; “ Eu sou digno”). 
As crenças centrais negativas podem vir à tona apenas durante momentos de 
aflição psicológica. (Alguns pacientes com transtorno de personalidade, no entanto, 
podem ter as crenças centrais negativas quase que continuamente ativadas). 
Frequentemente, ao contrário dos pensamentos automáticos, a crença central que os 
pacientes “ sabem” ser verdade sobre si mesmos não é totalmente percebida até que 
o terapeuta descasque as camadas, continuando a perguntar pelo sentido dos 
pensamentos do paciente como no exercício da flecha descendente. 
É importante também observar que os pacientes também podem ter as crenças 
centrais negativas sobre outras pessoas e seus mundos, como, por exemplo, “ As 
outras pessoas não são confiáveis”; “ As outras pessoas vão magoar-me”; “ O mundo 
é um lugar corrompido”. Ideias supergeneralizadas, estabelecidas, como essas, com 
frequência precisam ser avaliadas e modificadas além das crenças centrais sobre o 
eu. As crenças centrais negativas são usualmente globais, supergenarilzadas e 
absolutistas. Quando uma crença central é ativada, o paciente é facilmente capaz de 
processar informações que apoiam, mas ele frequentemente falha em reconhecer 
distorce as informações que são contrárias à crença central. 
 O terapeuta começa a formular uma conceituação (incluindo as crenças 
centrais) desde o início da terapia, fazendo isso a princípio mentalmente ou 
particularmente no papel. Em algum momento na terapia, ele partilha sua 
 
25 
 
conceituação com o paciente, apresentando –a em forma de hipótese e perguntando 
se isso “ parece ser verdadeiro” para ele. 
A fim de decidir quando e quanto de sua conceituação partilha com um 
paciente, o terapeuta considera o seguinte: 
 Quão forte é a sua aliança terapêutica, quão fortemente o paciente acredita no 
modelo cognitivo, quão ativadas estão suas crenças centrais na sessão, o quanto de 
insight ele já tem, quão concreto é o seu pensamento, e assim por diante. Então, 
embora o terapeuta tenha estado conceituando as crenças centrais do paciente desde 
o início, ele cuidadosamente escolhe quando e como tentará começar a modificar a 
crença central. 
Os terapeutas em geral ensinam os pacientes a aprender as ferramentas de 
identificar, avaliar e adaptativamente responder aos pensamentos automáticos e 
crenças intermediarias utilizando as mesmas ferramentas para as crenças centrais. 
Ás vezes, no entanto, o terapeuta e o paciente automaticamente tentam avaliar, no 
início da terapia, uma crença central pelo fato de ela ter sido expressa em forma de 
um pensamento automático, e tal avaliação frequentemente exerce pouco efeito. 
 Em um outro caso, o terapeuta pode intencionalmente testar a modificabilidade 
de uma crença central mesmo antes que eles tenham feito muito trabalho em nível de 
pensamento automático e de crença intermediária. 
O grau de dificuldade para identificar e modificar as crenças centrais varia de 
paciente para paciente. Em geral, os pacientes que estão em aflição emocional 
significativa são os mais facilmente capazes (do que os outros) de expressar as suas 
crenças centrais pelo fato de essas crenças estarem ativadas na sessão. 
4.1 Crenças intermediárias 
Composta por atitudes, regras, e suposições criadas para que o indivíduo 
consiga se adaptar e sobreviver à ideia absoluta e negativa que ele tem a respeito de 
si mesmo e também são mecanismos de sobrevivência para adaptação do indivíduo. 
As crenças intermediárias correspondem ao segundo nível de pensamento e não são 
diretamente relacionadas às situações, ocorrendo sob a forma de suposições ou 
regras, derivam e reforçam as crenças centrais. 
 
26 
 
As crenças nucleares são nossas ideias e conceitos mais enraizados e 
cristalizados acerca de nós mesmo, dos outros e do mundo, são constituídas desde 
as nossas experiências ainda na infância e se solidificam e se fortalecem ao longo da 
vida, moldando desta maneira o jeito de ser e agir do ser humano. 
O que não é modificando ou corrigido em fase desadaptativa, tratando –se de 
crenças disfuncionais, pode chegar à fase adulta como verdades absolutas (KNAPP. 
2004). 
Judith Beck (1997) propõe que, as crenças centrais disfuncionais podem 
ser divididas em três grupos: 
 Crenças nucleares de desamparo (Helpless-ness): Crenças 
sobre impotente, frágil, vulnerável, carente, desamparado, 
necessitado. 
 Crenças nucleares de desamor (Unlovability): Crenças sobre 
ser indesejável, incapaz de ser gostado, incapaz de ser amado, 
sem atrativos, rejeitado, abandonado, sozinho. 
 Crenças nucleares de desvalor (Unworthness): Crenças 
sobre ser incapaz, incompetente, inadequado, ineficiente, falho, 
defeituoso, enganador, fracassado, sem valor. 
O modelo básico da TCC se baseia na premissa da inter-relação entre 
cognição, emoção e comportamento. Para cada situação diferente há um pensamento 
relacionado à mesma, para cada pensamento há uma emoção e subsequente um 
comportamento, o que justifica diferentes pessoas (WRIGHT, 2008). 
Dessa forma, os eventos ativam os pensamentos, que geram como 
consequência, emoções e comportamento, como mostra a figura: 
 Fonte: docplayer.com 
 
27 
 
Os indivíduos também possuem crenças nucleares disfuncionais a respeito dos 
outros e do mundo. As crenças nucleares são absolutistas, generalistas e 
cristalizadas, podendo permanecer latente o tempo todo, e ativadas nos transtornos 
emocionais, com isso, o processo da informação torna –se tendencioso no sentido de 
extrair da realidade apenas informações que confirmam a crença disfuncional. 
(KNAPP, 2004). 
Por fim, segundo (CAMINHA, 2003) o sucesso da terapia começa quando o 
paciente torna-se capaz de anotar, perceber e responder aos pensamentos 
automáticos, realizando assim, exercícios de metacognição, pensar sobre o que se 
está pensando. Desta maneira se quebra a sequência do esquema, e em última 
instância, altera o sentido estrutural, fazendo com que haja diminuição de valência da 
crença central. 
O paciente aprende a questionar os pensamentos e chegar junto com o 
problema, se auto monitorando, para intervir antes de o problema se manifestar, 
tornando-se assim seu próprio terapeuta. 
Em suma, as crenças centrais requerem um trabalho sistemático consistente. 
Algumas técnicas, aplicáveis à reestruturação de pensamentos automáticos 
e crenças intermediárias, podem ser usadas em combinação com técnicas 
mais especializadas orientadas especificamente em direção a crenças 
centrais (Beck, 1997, pg. 199, apud Alvarenga R.2008). 
4.2 Princípios da terapia cognitiva para todos os pacientes 
 A terapia cognitiva se baseia em uma formulação em contínuo 
desenvolvimento do paciente e de seus problemas em termos 
cognitivos. 
 A terapia requer uma aliança terapêutica segura, o terapeuta deve fazer 
com que o paciente tenha confiança, também tem que criar a 
cordialidade, empatia, atenção, respeito genuíno e tenha competência 
para com o paciente. 
 A terapia cognitiva enfatiza colaboração e participação ativa. A princípio 
o terapeuta é mais ativo em sugerir uma direção para as sessões de 
terapia e em resumir o que o pacientee ele irão discuti durante uma 
sessão. O terapeuta tem a função de tornar-se crescentemente ativa na 
sessão de terapia: decidir sobre que tópicos falar, identificar as 
 
28 
 
distorções de pensamentos no do paciente, resumir pontos importantes 
e projetar tarefas de casa. 
 A terapia cognitiva é orientada em meta e focalizada em problemas. 
 A terapia cognitiva inicialmente enfatiza o presente, o tratamento da 
maioria dos pacientes envolve um forte foco sobre problemas atuais e 
sobre situações específicas que são aflitivas para o paciente. 
 A terapia cognitiva é educativa, visa ensinar o paciente a ser seu próprio 
terapeuta e enfatiza prevenção de recaída. 
 A terapia cognitiva visa ter um tempo limitado, no entanto nem todos os 
pacientes fazem progresso suficiente em apenas alguns meses. Alguns 
pacientes requerem um ou dois anos de terapia ou possivelmente mais, 
para modificar as crenças disfuncionais muito rígidas e os padrões de 
comportamento que contribuem para a sua angústia crônica 
 As sessões de terapia cognitiva são estruturadas, não importa qual o 
diagnóstico ou estágio do tratamento, o terapeuta cognitivo tende a 
aderi, a uma estrutura estabelecida em cada sessão. 
 A terapia cognitiva ensina os pacientes a identificar, avaliar e responder 
a seus pensamentos e crenças disfuncionais. O terapeuta ajuda focalizar 
um problema específico, identificar seu pensamento disfuncional, avaliar 
a validade do pensamento, e projetar um plano de ação e ele faz isso 
através de questionamento socrático ou descoberta orientada, através 
de questionamento, ele também a orienta em avaliar a validade e a 
funcionalidade das suas crenças. 
 A terapia cognitiva utiliza uma variedade de técnicas para mudar 
pensamento, humor e comportamento. Embora as estratégicas 
cognitivas como questionamento socrático e descoberta orientada sejam 
centrais a terapia cognitiva, técnicas de outras orientações 
(especialmente terapia comportamental e terapia Gestalt) são também 
usadas dentro de uma estrutura cognitiva. O terapeuta seleciona 
técnicas com base em sua formulação de caso e seus objetivos em 
sessões específicas. Esses princípios básicos se aplicam a todos os 
pacientes. A terapia, no, entanto, varia consideravelmente de acordo 
com o paciente individual, a natureza de suas dificuldades, suas metas, 
 
29 
 
sua habilidade de formar um vínculo terapêutico forte, sua motivação 
para mudar, sua experiência prévia com terapia e suas preferências de 
tratamento. A ênfase no tratamento depende do transtorno (s) particular 
do paciente. A terapia cognitiva para transtorno de ansiedade 
generalizada, por exemplo, enfatiza a reavaliação de risco em situações 
particulares e os recursos de pessoa para lidar com ameaça (Beck & 
Emery, 1985). Tratamento para transtornos de pânico envolve a 
testagem das interpretações errôneas catastróficas do paciente 
(usualmente previsões errôneas ameaçadoras da sanidade ou a vida) 
de sensações corporais ou mentais (Clark, 1989). Anorexia requer uma 
modificação de crenças sobre valor pessoal e controle (Garner & Bemis, 
1985). O tratamento para abuso de substância focaliza-se em crenças 
negativas sobre o eu e crenças facilitadoras ou permissivas em relação 
ao uso de substância (Beck, Wright, Newman & Liese, 1993). 
4.3 Características básicas 
As principais características da Terapia Cognitiva, como um sistema de 
psicoterapia, são: 
 Constitui um sistema de psicoterapia integrado. Combina o modelo 
cognitivo de personalidade e de psicopatologia a um modelo aplicado, 
que reúne um conjunto de princípios, técnicas e estratégias terapêuticas 
fundamentado diretamente em seu modelo teórico. Conta, ainda, com 
comprovação empírica através de um volume respeitável de estudos 
controlados de eficácia. Em outras palavras, satisfaz os critérios básicos 
que lhe conferem o status de sistema de psicoterapia. 
 Demonstra aplicabilidade eficaz, segundo estudos controlados, em 
várias áreas: na área tradicional da Psicologia Clínica, em que TCC é 
aplicada à depressão, aos transtornos de ansiedade (ansiedade 
generalizada, fobias, pânico, hipocondria, transtorno obsessivo-
compulsivo), à dependência química, aos transtornos alimentares, aos 
transtornos de stress pós-traumático, aos transtornos de personalidade, 
à terapia com casais e em grupo etc., com adultos, crianças e 
 
30 
 
adolescentes. A Terapia Cognitiva padrão, reunindo técnicas e 
estratégias terapêuticas destinadas à realização de seus objetivos 
básicos, é modificada para aplicação a diferentes áreas de 
especialidade, refletindo modelos teóricos e aplicados particulares para 
cada classe de transtorno. 
 Aplica-se ainda às áreas de educação, esportes e organizações, sendo 
também utilizada com sucesso como coadjuvante no tratamento de 
distúrbios orgânicos, área em que conta com um grande volume de 
estudos científicos. E, no caso particular das psicoses, as publicações 
se avolumam nas áreas de esquizofrenia e transtorno bipolar, indicando 
resultados encorajadores. Representa um processo terapêutico diretivo 
e semiestruturado, orientado à resolução de problemas. É colaborativa, 
ou seja, reflete um processo em que ambos, terapeuta e paciente, têm 
um papel ativo e estabelecem colaborativamente metas terapêuticas, as 
agendas de cada sessão, tarefas entre sessões etc. Requer a 
socialização do paciente ao modelo, a fim de que ele possa 
desempenhar seu papel como colaborador ativo. Envolve uma relação 
genuína entre terapeuta e paciente, baseada em empatia terapêutica, 
em que o terapeuta é amigável, caloroso e genuíno. 
 As sessões, bem como o processo terapêutico, são semiestruturadas, 
envolvendo tarefas entre as sessões. É focal, requerendo uma definição 
concreta e específica dos problemas do paciente e das metas 
terapêuticas. 
 Tem um caráter didático, em que o objetivo não é unicamente ajudar o 
paciente com seus problemas, mas dotá-lo de um novo instrumental 
cognitivo e comportamental, através de prática regular, a fim de que ele 
possa perceber e responder ao real de forma funcional, sendo o 
funcional definido como aquilo que concorre para a realização de suas 
metas. Nesse sentido, as intervenções são explícitas, envolvendo 
feedback recíproco entre o terapeuta e o paciente. É um processo 
terapêutico de tempo curto e limitado, podendo sua aplicação variar 
entre aproximadamente 12 e 24 sessões, tornando-a apropriada ao 
contexto socioeconômico atual, e possibilitando sua utilização pelo 
 
31 
 
sistema de saúde público, bem como pelos convênios e seguros de 
saúde. 
Mostra-se eficaz para diferentes populações, independentemente de cultura 
e níveis socioeconômico e educacional (Serra et al., 2001 apud, 2014). 
A reunião de todas essas características seguramente nos permite afirmar que 
a terapia cognitiva representa uma mudança de paradigma no campo das 
psicoterapias. 
4.4 Intervenção clínica em terapia cognitiva 
Destacamos diversas fases. Na primeira, enfatiza-se a definição da estratégia 
de intervenção, ou seja, a conceituação cognitiva do paciente e de seus problemas, a 
definição de metas terapêuticas e do planejamento do processo de intervenção. Na 
segunda fase, a terapeuta objetiva a normalização das emoções do paciente, a fim de 
promover a motivação do paciente para o trabalho terapêutico e sua vinculação ao 
processo. 
Nesse sentido, o terapeuta prioriza o que podemos chamar de intervenção em 
nível funcional, concentrando-se no desafio de cognições disfuncionais, iniciando os 
primeiros esforços em resolução de problemas, e encorajando o desenvolvimento, 
pelo paciente, de habilidadespróprias para a resolução de problemas. 
 Na terceira fase, o terapeuta enfatiza a intervenção em nível estrutural, ou seja, 
o desafio de crenças e esquemas disfuncionais, objetivando promover a 
reestruturação cognitiva do paciente. 
Na quarta fase, de terminação, promove-se, através de várias técnicas, a 
assimilação e generalização dos ganhos terapêuticos bem como a prevenção de 
recaídas. O objetivo último dos esforços terapêuticos é dotar o paciente de estratégias 
cognitivas e comportamentais, a fim de capacitá-lo para a promoção e preservação 
continuadas de uma estrutura cognitiva funcional. 
 
32 
 
4.5 O princípio básico da terapia cognitiva e o modelo cognitivo de 
psicopatologia 
O princípio básico da Terapia Cognitiva pode ser resumido da seguinte 
forma: 
Nossas respostas emocionais e comportamentais, bem como nossa motivação, 
não são influenciadas diretamente por situações, mas sim pela forma como 
processamos essas situações, em outras palavras, pelas interpretações que fazemos 
dessas situações, por nossa representação dessas situações, ou pelo significado que 
atribuímos a elas. As nossas interpretações, representações ou atribuições de 
significado, por sua vez, refletem-se no conteúdo de nossos pensamentos 
automáticos, contidos em vários fluxos paralelos de processamento cognitivo que 
ocorrem em nível pré-consciente. 
O conteúdo de nossos pensamentos automáticos, pré-conscientes, reflete a 
ativação de estruturas básicas inconscientes, os esquemas e crenças, e o significado 
atribuído pelo sujeito ao real. 
Um exemplo simples para ilustrar esse princípio: 
Suponhamos que nos encontremos casualmente com um amigo que não nos 
cumprimenta. Se pensarmos “ele não quer mais ser meu amigo”, nossa emoção será 
tristeza e nosso comportamento será possivelmente afastarmo-nos do amigo. 
Se, porém, pensarmos “oh, será que ele está aborrecido comigo? ”, nossa 
emoção será apreensão e nosso comportamento será procurar o amigo e perguntar o 
que está havendo. Ou ainda, se pensarmos “quem ele pensa que é para não me 
cumprimentar? Ele que me aguarde! ”, nossa emoção poderia ser raiva e o 
comportamento, confrontaríamos o amigo. 
Porém, diante da mesma situação, podemos ainda pensar “não me 
cumprimentou... acho que não me viu”; e, nesse caso, nossas emoções e 
comportamentos seguiriam inalterados. 
Este exemplo ilustra, portanto, que nossas interpretações, representações, ou 
atribuições de significado atuam como variável mediacional entre o real e as nossas 
respostas emocionais e comportamentais. 
Daí decorre que, para modificar emoções e comportamentos, intervimos sobre 
a forma do indivíduo processar informações, ou seja, interpretar, representar ou 
atribuir significado a eventos, em uma tentativa de promover mudanças em seu 
 
33 
 
sistema de esquemas e crenças. Essas intervenções objetivariam uma reestruturação 
cognitiva do paciente, o que o levará a processar informação no futuro de novas 
formas. 
O modelo cognitivo de personalidade pode ser resumido como segue: 
Através de sua história, e com base em experiências relevantes desde a 
infância, desenvolvemos um sistema de esquemas, localizado em nível inconsciente 
ou, utilizando conceitos da Psicologia cognitiva, em nossa memória implícita. 
Esquemas, nesse sentido, podem ser definidos como superestruturas 
cognitivas, que refletem regularidades passadas, conforme percebidas pelo sujeito. 
Ao processarmos eventos, os esquemas implicitamente organizam os elementos da 
percepção sensorial, ao mesmo tempo em que são atualizados por eles, em uma 
relação circular. 
Os esquemas ainda dirigem o foco de nossa atenção, incorporadas aos 
esquemas, desenvolvemos crenças básicas e pressuposições intermediárias 
específicas para diferentes classes de eventos, as quais são ativadas em vista de 
eventos críticos elicitadores. 
A ativação dessas crenças reflete-se em nosso pré-consciente, nos conteúdos 
dos pensamentos automáticos, que representam nossa interpretação do evento, ou o 
significado atribuído a ele. Estes, por sua vez, influenciam a qualidade e intensidade 
de nossa emoção e a forma de nosso comportamento, frente a essa determinada 
situação. 
Daí decorre que a teoria cognitiva básica reflete um paradigma de 
processamento de informação, baseado em esquemas, como um modelo de 
funcionamento humano. Quanto ao sistema de processamento de informação, este 
envolve estruturas, processos e produtos, envolvidos na representação e 
transformação de significado, com base em dados sensoriais derivados do ambiente 
interno e externo. 
 As estruturas e processos do sistema atuariam a fim de selecionar, 
transformar, classificar, armazenar, evocar e regenerar informação, segundo uma 
forma que faça sentido para o indivíduo em sua adaptação e funcionamento. Central, 
portanto, para o modelo cognitivo é a capacidade para atribuição de significado. 
Quanto ao modelo cognitivo de psicopatologia, de forma semelhante, este 
propõe que, durante o desenvolvimento e em vista de regularidades do real interno e 
 
34 
 
externo, indivíduos podem gradualmente perder sua flexibilidade cognitiva, isto é, a 
capacidade para atualizar continuamente seus esquemas em vista de novas 
regularidades. 
Estes esquemas enrijecendo-se se tornariam disfuncionais, predispondo o 
indivíduo a distorções cognitivas e à resistência ao reconhecimento de interpretações 
alternativas, que, em conjunto com fatores biológicos, motivacionais e sociais, 
originariam os transtornos emocionais. 
Fundamental, portanto, para o modelo cognitivo de psicopatologia e o modelo 
aplicado de intervenção clínica é a hipótese da vulnerabilidade cognitiva, segundo a 
qual indivíduos portadores de transtornos emocionais apresentam uma rigidez, ou 
uma tendência aumentada a distorcer eventos, no momento de processá-los. 
E, uma vez feita uma atribuição, resistem ao reconhecimento de interpretações 
alternativas. Outra hipótese básica para o modelo da Terapia Cognitiva refere-se à 
primazia das cognições, segundo a qual as cognições têm primazia sobre as emoções 
e comportamentos, embora não de uma forma rigidamente causal e temporal. 
4.6 Princípios, técnicas e estratégias de intervenção clínica 
Para se promover o que classificamos anteriormente de intervenção funcional 
sobre o conteúdo das cognições, com o objetivo de possibilitar ao paciente a 
modulação de suas emoções, necessitamos primeiramente levá-lo a identificar as 
cognições pré-conscientes que representam a base das emoções adversas, as 
chamadas “cognições quentes”. 
As pessoas naturalmente não entram em contato com seus pensamentos 
automáticos negativos no momento em que experienciam emoções adversas. É, 
portanto, necessário treinar pacientes para identificar seus pensamentos automáticos, 
encorajando, através de questionamento, uma reencenação mental da situação, até 
finalmente fazermos a pergunta-chave: “o que estava passando por sua mente, 
pensamentos e imagens, no momento em que começou a sentir a emoção? ”. 
É importante identificarmos pensamentos ou imagens que correspondam à 
qualidade e intensidade da emoção relatada. Identificada a cognição, passamos ao 
seu desafio, avaliando inicialmente o nível de crença na cognição e a intensidade da 
emoção associada. 
 
35 
 
Para desafiar a cognição, podemos buscar evidências que a apoiem ou a 
contrariem, interpretações alternativas, por exemplo, “de que forma alternativa você 
poderia pensar? ”, ou “como outro pensaria diante da mesma situação? ”, ou ainda 
“como aconselharia outro na mesma situação? ”. ” Podemos ainda recorrer a um 
desafio mais pragmático, perguntando “qual a sua meta nessa situação? ”, “acognição 
ajuda ou atrapalha na realização de sua meta? ”, e “qual o efeito de se crer em uma 
interpretação alternativa? ”. 
Utilizamos enfim formas, apropriadas à situação, de questionamento socrático, 
ou seja, formas aparentemente imparciais, a fim de encorajar nosso paciente a 
resinificar ou reinterpretar a situação, utilizando outras linhas de raciocínio e outras 
perspectivas diante das mesmas classes de eventos. 
Ao final, solicitamos ao paciente que reavalie agora seus pensamentos e 
emoções originais, encorajando-o a definir planos de ação para lidar com os 
mesmos eventos no futuro: 
Como pensar, sentir e agir diferentemente? Além dessas técnicas de 
intervenção funcionais, podemos utilizar ainda técnicas de distanciamento ou 
deslocamento de atenção, visando a normalização das emoções, apenas mantendo 
em mente que tais técnicas promovem apenas alívio emocional temporário, devendo 
ser utilizadas com parcimônia e em alternância com tentativas efetivas de 
reestruturação cognitiva. 
Inicialmente, conduzimos a identificação e os desafios de cognições em 
sessão; gradualmente, porém, encorajamos o paciente a realizar o mesmo entre as 
sessões, utilizando inclusive formulários para registro e desafio de pensamentos 
automáticos negativos, encontrados em manuais de TCC. 
Na fase intermediária da terapia, ou seja, de intervenção sobre esquemas e 
crenças, objetivamos a reestruturação cognitiva do indivíduo, que o levará a processar 
o real de uma nova forma. 
Focalizamos, nessa fase, a identificação e desafio de crenças disfuncionais. 
Crenças representam os esquemas traduzidos em palavras. São consideradas 
disfuncionais quando predispõem a transtornos emocionais. Caracterizam-se por 
refletir rigidez, estarem associadas a emoções muito fortes, denotarem um caráter 
excessivo, supergeneralizado, extremo e irracional, podendo, muitas delas, ser 
culturalmente reforçadas. 
 
36 
 
Podem ser inferidas por corresponder a temas recorrentes durante o 
tratamento, tipos de erros cognitivos frequentes, avaliações globais, por exemplo, “sou 
incapaz”, ou “ninguém me entende”, ou ainda “o mundo é cheio de perigos”, e 
memórias ou ditos familiares, por exemplo “tal pai, tal filho” ou “tirar 10 não é mais que 
obrigação”. 
A identificação de crenças requer um cuidado maior do que dos pensamentos 
automáticos, pois, se abordarmos uma crença precocemente, poderemos ativar a 
resistência do paciente, dificultando referências futuras à mesma crença. 
Necessitamos, portanto, através de esforços consistentes de conceituação 
cognitiva, baseados em toda a informação que conseguirmos coletar, refinar 
continuamente as nossas hipóteses de crenças disfuncionais, abordando-as apenas 
quando já se tornaram evidentes para o indivíduo. 
 Em outras palavras, devemos abordar as crenças disfuncionais apenas 
quando já houver um volume considerável de evidências, que possibilitem ao paciente 
estar preparado para reconhecê-las como disfuncionais e estar motivados a substituí-
las por crenças mais funcionais. 
Na última fase, de terminação, conforme anteriormente indicado, empregamos 
uma variedade de técnicas para promover a generalização das estratégias adquiridas 
durante o processo clínico e das novas formas de perceber e responder ao real, 
reforçando-se o novo sistema de esquemas e crenças, em uma tentativa de se 
prevenir recaídas e garantir a preservação de uma estrutura cognitiva funcional. 
4.7 Técnica do questionamento socrático 
Apontado como essencial para o andamento das sessões em terapia cognitivo-
comportamental, o uso do questionamento socrático se destina a identificação de 
problemas e ao direcionamento de metas, que devem sempre ser planejadas e 
centradas firmemente na linha do questionamento. 
Os terapeutas cognitivistas costumeiramente usam algumas questões básicas 
ou suas variações para ajudar os pacientes no ponderamento de seus pensamentos. 
As perguntas realizadas são direcionadas ao paciente com propósito de estimular a 
curiosidade e o desejo de indagar, proporcionando que o mesmo seja envolvido no 
processo de aprendizagem. 
 
37 
 
A utilização de tal técnica deve ser feita segundo a identificação e registro dos 
pensamentos disfuncionais e do encorajamento do paciente a avaliá-los, por meio de 
perguntas que o levem a pensar, e dessa forma, ter verdadeira compreensão na 
tomada de decisões racionais, segundo suas próprias conclusões. 
Desta forma, paciente e terapeuta fazem juntos um exame das evidências que 
apoiam seu pensamento e das evidências que são contrárias ao seu pensamento, de 
modo a encontrar novas possibilidades na interpretação de suas sensações físicas. 
Ao se utilizar o modo guiado do questionamento, o terapeuta maximiza o 
envolvimento do paciente nas sessões e em todo o processo terapêutico de modo a 
reduzir a possibilidade de o terapeuta impor suas ideias e conceitos. Ademais, essa 
formulação socrática pretende que o paciente aprenda a entender e solucionar seus 
problemas, equipando -se com as habilidades necessárias para lidar com eventuais 
problemas que possam vir a ocorrer. 
Entretanto, com o aumento das habilidades de solução de problemas por parte 
do paciente, o terapeuta se desvia mais ativamente em guiar o tratamento, 
proporcionando assim que paciente se torna seu próprio terapeuta. Isso acontece 
devido ao processo colaborativo da descoberta guiada, em que o paciente sai da 
posição passiva e adota uma postura proativa. 
4.8 Estratégias para a formulação de perguntas no questionamento socrático 
Ao utilizar o questionamento socrático para a modificação dos pensamentos 
automáticos, os terapeutas devem levar em consideração as seguintes estratégias 
abaixo na elaboração de perguntas (p.86). 
 Faça perguntas que revelem oportunidades de mudança. As boas 
perguntas socráticas geralmente abrem um leque de possibilidades, 
desta forma, tente fazer perguntas que ajudem os pacientes a repararem 
no quanto a modificação do pensamento pode reduzir emoções 
dolorosas ou melhorar sua capacidade de enfrentamento. 
 Faça perguntas que tragam resultados. As melhores perguntas 
socráticas ocorrem quando rompem um padrão de pensamento 
desadaptativo rígido e apresentam aos pacientes alternativas razoáveis 
e produtivas. Ou seja, quando são desenvolvidas novas percepções, e 
 
38 
 
a modificação do pensamento institui uma mudança emocional positiva. 
Se seu questionamento socrático parecer não estar produzindo qualquer 
resultado emocional ou comportamental, deve-se revisar a formulação 
de caso e consequentemente sua estratégia. 
 Faça perguntas que envolvam os pacientes no processo de 
aprendizagem. Como o propósito de ajudar os pacientes a se 
especializarem em “pensar sobre o pensamento”. As perguntas do 
questionamento socrático devem estimular a curiosidade dos pacientes 
e incentivá-los a olharem a partir de novas perspectivas. Possibilitando 
assim que o paciente possa fazer perguntas a si mesmos. 
 Elabore perguntas de forma que seja produtivo para o paciente. Formule 
perguntas que sejam um desafio suficiente para fazer com que o 
paciente pense, mas que não o faça sentir-se pressionado ou intimidado, 
assim deve-se levar em consideração o nível de funcionamento 
cognitivo, os sintomas e a capacidade de concentração do paciente, com 
o intuito de fazer com que o mesmo tenha boas chances de ser capaz 
de responder. 
 Evite fazer perguntas de comando. Não se deve usar o questionamento 
socrático como um meio hierárquico entre paciente e terapeuta, mas sim 
como um método para aumentar a capacidade de o paciente pensar de 
maneira flexível e criativa. (Certamente, você terá alguma ideia sobre 
ondeo questionamento socrático pode levar e quais resultados você 
espera obter, mas faça perguntas que respeite a capacidade de os 
pacientes pensarem por si mesmos. Deixe os pacientes responderem as 
perguntas sempre que possível). 
 Use perguntas de múltipla escolha. O bom questionamento socrático é 
feito de perguntas abertas, de forma a permitir um grande número de 
respostas ou mudanças nas respostas. Embora as perguntas do tipo sim 
ou não ou de múltipla escolha possam ser eficazes em algumas 
ocasiões, a maioria das perguntas socráticas devem deixar espaço para 
várias respostas. 
 
39 
 
Desta forma, o paciente inserido nesta abordagem terapêutica é 
constantemente estimulado a segmentar seu sofrimento psíquico para auto 
exploração, em consequência de seus aprendizados adquiridos. 
Assim sendo, a técnica do questionamento socrático apesar de simples e 
polivalente, abrange inúmeras vantagens nesse processo, compreendendo desde a 
intensificação da relação terapêutica, estimulação da indagação, maior entendimento 
das cognições e comportamentos importantes, bem como, a acessão do engajamento 
ativo do paciente na terapia. 
Além do mais, ao se utilizar essa técnica, os benefícios obtidos além de serem 
conservados, são acrescidos, de forma que o paciente tende a ganhar mais 
espaço nas sessões e em todo o processo terapêutico e obtêm-se maior 
redução da possibilidade do terapeuta impor suas ideias e conceitos. O que 
não passa a se tornar uma dificuldade, posto que o sujeito é equipado com 
as habilidades necessárias para lidar com eventuais problemas que possam 
surgir (Medeiros F.A. apud 2017). 
4.9 Observações clínicas do fenômeno cognitivo 
Concomitantemente às anomalias que surgiram em suas pesquisas empíricas, 
e as observações de Beck ao tratar de pacientes deprimidos também não eram 
consistentes com a teoria psicanalítica (Beck, at al., 1999). 
Entretanto, Beck seguia o protocolo psicanalítico da livre associação, 
solicitando que seus pacientes relatassem tudo o que lhes viesse à mente durante as 
sessões de terapia. Beck (1997b, 1999a) relata então que durante essas sessões os 
pacientes não estavam reportando certos tipos de ideações que eram importantes 
para entender a natureza dos transtornos psicológicos. 
Além disso, pacientes falhavam em tais relatos não por resistência ou defesa, 
mas pelo fato de não terem sido treinados para focar em tais pensamentos. Para 
ilustrar, Beck (1997b) cita um caso de uma paciente que presumivelmente estava 
seguindo a “regra” da associação livre, falando sobre suas aventuras sexuais, quando 
ao final da sessão Beck faz sua pergunta usual: “Como você se sentiu durante esta 
sessão”? E a paciente responde: “Me senti tremendamente ansioso doutor”. 
Beck então esclareceu a ansiedade baseado em sua leitura psicanalítica do 
relato da paciente, teve a concordância da mesma e perguntou ao final: “Você se sente 
melhor agora que sabe o motivo”? E a paciente respondeu: “Não, eu me sinto pior”. E 
Beck ao explorar um pouco mais escutou o seguinte pensamento relatado pela 
 
40 
 
paciente: “Bem, na verdade eu pensei que talvez estivesse lhe aborrecendo, e agora 
que disse isso tudo, eu tenho certeza de que estava aborrecendo”. 
 E ao final deste exercício exploratório, Beck descobriu que sua paciente tinha, 
de forma recorrente, o pensamento de estar sempre aborrecendo as pessoas, o que 
a deixava sempre muito ansiosa. 
Observações seguintes com outros pacientes revelaram que também tinham 
fluxos de pensamentos que previamente não haviam sido relatados durante as 
sessões de livre associação. Apesar de inicialmente tais fluxos de pensamentos 
automáticos se tratassem de transferência (pensamentos sobre o terapeuta), 
investigações adicionais revelaram que indivíduos tinham pensamentos automáticos 
em suas interações com outras pessoas. 
Ficou claro então para Beck que os pacientes estavam constantemente se 
comunicando consigo próprios nessa instância automática (Beck, 1976). Como 
resultado de uma instrução explicita a seus pacientes para focar em seus 
pensamentos automáticos, e a reparar sua presença, Beck observou a redução o 
número de características acerca dos pensamentos automáticos negativos. 
 Beck (1963, 1976) então percebeu que os tais pensamentos automáticos 
tendiam a: 
 Serem fugazes, 
 Específicos e discretos, 
 Altamente espontâneos, 
 Serem plausíveis para o paciente, 
 Ter um tema consistente muito embora idiossincrático ao indivíduo, 
 Preceder excitação emocional e; 
 Envolver uma distorção da realidade. 
A partir da descoberta dos pensamentos automáticos em suas observações 
clínicas, demonstrando uma negatividade generalizada com relação ao self, e ao 
futuro, que pode ser entendido como pessimismo, Beck começa a formular sua teoria 
cognitiva da depressão. 
Segundo Beck e Alford (1997b), muitos achados e conceitos empíricos que 
parecem corresponder a muitas observações clínicas de processamento cognitivo 
automático foram gerados na dita “revolução cognitiva” e, além disso, que a própria 
 
41 
 
teoria cognitiva incorpora alguns dos conceitos relevantes, tais como: processamento 
pré-atencional, capacidade cognitiva, e processamento inconsciente. 
Beck (1970) afirma que uma maior ênfase nas descrições individuais de 
eventos internos pode levar a uma mais completa visão da psicopatologia humana e 
a mecanismos de mudança de comportamento. Produtos ideacionais como: 
pensamentos, ideias, atitudes, sonhos e devaneios forneceriam matéria prima a 
teóricos cognitivos para formular conceitos e modelos. 
 E que tais estudos realizados sobre a introspecção sugerem que a organização 
cognitiva, longe de ser somente uma simples ponte na cadeia estímulo resposta, é um 
sistema quase autônomo em seu próprio direito. 
Apesar de este sistema interagir em larga extensão com o meio ambiente, se 
mostra, em alguns momentos, relativamente independente deste mesmo meio. Como 
exemplo: quando a pessoa está em um devaneio, ou sob o domínio de um estado 
anormal como a depressão. 
De acordo com Beck, Rush, Shaw e Emery (1997a), não haveria razão teórica 
para que processos cognitivos relevantes para a psicopatologia operem inteiramente 
dentro da percepção fenomenal consciente, sugerindo a seguinte sequência: 
Situação → crença → interpretação → afeto → comportamento. 
Onde estruturas ou esquemas de crenças existentes são ativados por 
circunstâncias ambientais → o processamento esquemático (de significado), quer 
consciente ou inconsciente gera uma interpretação → e a interpretação específica 
leva ao afeto que é seguido pelo comportamento específico que por sua vez modifica 
a situação original. 
Os conceitos pensamentos automáticos e inconsciente cognitivo possuem 
muitos aspectos em comum, embora a observação clínica tenha mostrado que os 
pensamentos automáticos são com frequência muito facilmente admitidos à 
percepção consciente, a situação teórica da noção de automatismo sugere que esse 
processamento cognitivo talvez seja melhor denominado de pré-consciente. 
 Desta forma, os terapeutas cognitivos naturalmente empregam técnicas 
designadas para tornar os pensamentos automáticos, que, inicialmente, são em 
grande extensão inconscientes, mais sujeitos à percepção da consciência através de 
técnicas cognitivas, tais como distração ou reorientação dos recursos de atenção 
(Beck, 1976; Beck e Alford, 2000). 
 
42 
 
Outra referência ao automatismo do processamento cognitivo é, feita por 
MacNally (1995), quando do estudo dos processos de atenção a estímulos de 
ameaça, e dos processos elaborativos e interpretativos a temas de ameaça, 
mencionando que tais processos são automáticosno sentido de que são 
inconscientes. 
MacNally expressou então três diferentes significados do termo automático no 
contexto dos transtornos de ansiedade, podendo estes ser livres de capacidade, 
significando que eles prosseguem desembaraçadamente e sem interferência de 
processos concorrentes; podem ser inconscientes, ou fora da consciência; e/ou 
involuntários, significando fora do controle consciente. 
Beck e Alford (2000) acrescentam que o fato de os processos serem 
inconscientes não significa que não possam ser modificados em terapia, onde o 
paciente começaria a responder em nível experimental que construiu erroneamente a 
situação, sendo este mecanismo talvez análogo ao que os psicanalistas chamam de 
tornar consciente o inconsciente. 
Com relação à natureza construtivista de significado, Beck (1976, 1997b) define 
que a percepção da experiência seria um processo ativo que envolveria dados 
inspectivos e introspectivos, e que o significado que uma pessoa atribui a uma 
situação, ou a forma como um evento é estruturado (ou construído) por uma pessoa, 
teoricamente determinará como aquela pessoa se sentirá e se comportará. 
A teoria cognitiva não apenas sugere a construção da realidade como também 
postula a especificidade do conteúdo cognitivo, no qual respostas emocionais 
específicas (normais ou anormais) são associadas com diferentes tipos de 
construções. Segundo Beck e Alford (2000), tal visão se alinha com posicionamentos 
de teóricos cognitivos que tratam da importância da abordagem construtivista à 
psicoterapia e psicopatologia, citando como referências Mahoney (1993), Ellis (1993) 
e Meichenbaum (1993). 
Ainda de acordo com Beck e Alford (2000), um tema que suscita a questão da 
natureza humana e da metacognição é o fato de que em contextos sociais onde as 
realidades fenomenológicas se cruzam, existem múltiplas realidades pessoais bem 
como uma realidade ou contexto físico objetivo dentro do qual residem as realidades 
subjetivas, estas realidades são igualmente reais no sentido de que são partes do que 
existe. 
 
43 
 
Uma pessoa que experimentasse um estresse ou um transtorno psicológico 
abstrairia seletivamente informações relevantes aos esquemas prepotentes, e a 
pessoa basearia sua interpretação da situação inteira nesta abstração seletiva e, além 
disso, supondo a mesma entrada de dados, o estado psicopatológico moldaria as 
interpretações muito mais sistematicamente do que o estado não-psicopatológico. 
Desta forma, uma pessoa com transtorno psicológico estaria em um estado 
puramente construtivista. Entretanto, em um estado mais normal, uma pessoa é tanto 
construtivista como empirista/realista. 
Beck e Alford (2000) apontam como diretriz futura para a teoria cognitiva, o 
desenvolvimento adicional da teoria da personalidade, apontando a personalidade 
como talvez sendo o mais complexo dos constructos cognitivos. 
Beck, Freeman e Davis, (2005b) fornecem uma explicação especulativa de 
como os protótipos dos nossos padrões de personalidade poderiam ter-se derivado 
da nossa herança filogenética, ao mencionar que aquelas estratégias geneticamente 
determinadas que facilitassem a sobrevivência e a reprodução seriam, 
presumivelmente, favorecidas pela seleção natural. 
Derivativos dessas estratégias primitivas podem ser observados, de uma forma 
exagerada, nas síndromes de sintomas como: transtornos de ansiedade e depressão, 
e em transtornos de personalidade, como o transtorno de personalidade dependente. 
Beck ainda acrescenta que: o processamento de informação, incluindo processos 
afetivos, antecede a operação de tais estratégias, a avaliação das demandas 
específicas de uma situação precederia e desencadearia uma estratégia adaptativa 
(ou desadaptava), e a maneira pela qual uma situação seria avaliada dependeria, pelo 
menos em parte, das crenças relevantes subjacentes. Tais crenças estão inseridas 
em estruturas mais ou menos estáveis, chamadas de esquemas, que selecionam e 
sintetizam os dados fornecidos. 
O conceito de esquema foi adaptado como uma estrutura em torno da qual se 
organiza e entende a operação dos vários sistemas psicológicos, sugerindo uma 
universalidade na função etológica. Desta forma, Beck e Alford (2000) afirmam que 
quando os distúrbios de personalidade podem ser observados como padrões de 
sistemas idiossincráticos, o processamento esquemático ou de significação estaria 
controlando a operação dos sistemas psicológicos. 
 
44 
 
Beck então resume que para a teoria cognitiva, a personalidade baseia-se na 
operação coordenada de sistemas complexos que foram selecionados ou adaptados 
para assegurar a sobrevivência biológica. 
Com relação à natureza evolutiva da teoria cognitiva, em sua forma geral, a 
terapia cognitiva especifica que a melhora sintomática no transtorno psicológico 
resulta da modificação do pensamento disfuncional, e que a melhora duradoura 
resulta da redução de crenças mal adaptativas. 
Beck e Alford (2000) seguem afirmando que o apoio de pesquisas cognitivas 
básicas experimentais às formulações teóricas selecionadas seria então considerado 
psicoterapia cognitiva. 
Portanto, o terapeuta cognitivo, ao modificar o pensamento e as crenças do 
paciente, estaria livre para tomar emprestados conceitos teóricos de pesquisas 
cognitivas empíricas básicas sem violar os princípios fundamentais da Terapia 
Cognitiva, o que para Beck seria a indicação de que a teoria cognitiva evolui 
juntamente com a pesquisa básica sobre a natureza da cognição. Entretanto presta-
se a função de introduzir a abordagem do conceito de esquema na teoria cognitiva de 
Beck. 
4.10 Esquemas 
Como mencionaram Kristensen, Duarte e Nunes (2008), em um artigo na qual 
publicaram um estudo realizado no intuito de revisar de forma sistemática o conceito 
esquema desadaptativo, diversas terapias cognitivo-comportamentais compartilham 
de pressupostos básicos, assim como terminologia específica, no entanto alguns 
conceitos teóricos fundamentais como esquemas e crenças têm sido aplicados com 
variabilidade indesejável, gerando imprecisão e dificultando comunicação entre 
psicoterapeutas. 
Ainda segundo Kristensen et al. (2008), a palavra esquema tem sua origem na 
palavra grega skhêma, significando forma, aparência, plano ou maneira de ser; e na 
filosofia, esquema foi empregado por Kant (1787-2001) para designar a regra do 
processo na qual uma categoria ou conceito não-empírico é associado a imagem 
mental de um objeto: 
 
45 
 
De fato, os nossos conceitos sensíveis puros não assentam sobre imagem 
dos objetos, mas sobre esquemas. Ao conceito de um triângulo em geral 
nenhuma imagem seria jamais adequada. Com efeito, não atingiria a 
universalidade do conceito pela qual este é válido para todos os triângulos, 
retângulos de ângulos oblíquos, etc., ficando sempre apenas limitada a uma 
parte dessa esfera. O esquema do triângulo só pode existir no pensamento e 
significa uma regra da síntese da imaginação com vista a figuras puras do 
espaço. (Kant, 2001, apud Gonçalves Carlos 2014). 
Sternberg (2010) cita Piaget (1923/1986) como outro precursor do conceito de 
esquema na teoria psicológica, onde a noção de esquema ocuparia uma posição de 
destaque no desenvolvimento cognitivo, Para Piaget, um esquema organizaria a 
experiência e se constituiria justamente a partir da ação no mundo, seriam compostos 
por padrões de ação organizados na memória para compreensão de eventos, 
situações e conceitos quando a pessoa se encontra em contato com o ambiente. 
Beck (1964) definiu esquema como uma estrutura interna relativamente 
duradoura, de armazenamento de características genéricas ou prototípicas de 
estímulos, ideias ou experiênciasque são utilizadas para organizar novas informações 
de uma forma significativa, e assim determinar como os fenômenos serão percebidos 
e conceitualizados. 
Com relação às suas características conteúdos e estruturas, os esquemas 
podem ser simples, como por exemplo, a representação de um objeto inanimado, ou 
mais complexos envolvendo representações de relações pessoais, atitudes em 
relação a si mesmo e aos outros (Beck et al., 2005b). 
Para Beck et al. (1999a), duas características gerais dos esquemas têm 
relevante importância na teoria cognitiva, conteúdo e estrutura. Os esquemas 
difeririam uns dos outros com relação às suas estruturas de três maneiras, a primeira 
é com relação ao seu grau de inter-relação das ideias que o compõem, ou seja, é de 
se esperar que esquemas caracterizados por elementos hermeticamente inter-
relacionados sejam mais fáceis de serem ativados, e mais prontamente pré-dispostos 
a dominar o processamento de informação, uma vez ativados. 
Outra importante característica estrutural é o seu grau de complexidade ou 
número de ideias que o compõem. Esquemas complexos com um número maior de 
ideias inter-relacionadas terão uma grande influência no sistema de processamento 
de informação por serem ativados por uma gama maior de estímulos. 
A terceira característica que compõe o esquema é o seu nível de valência 
(latente ou hipervalente), com relação a sua permeabilidade ou impermeabilidade, 
 
46 
 
flexibilidade ou rigidez, concretude ou abstração. Quando os esquemas estão 
latentes, não estão participando do processamento da informação. Quando estão 
ativados, canalizam o processamento cognitivo durante todo o processo. 
Esquemas rígidos e impermeáveis podem ser particularmente de difícil 
modificação e permanecem inalterados mesmo diante de repetidas informações que 
desconfirmem. Por outro lado, sejam rígidos ou impermeáveis, os esquemas serão 
adaptativos ou mal adaptativos, dependendo sobre o que esquema está 
representando. 
Com relação ao conteúdo dos esquemas, Beck et al. (1999a), afirmam que os 
esquemas contêm representações internas ou crenças que são abstraídas dos dados 
ou experiências recebidas do sistema de processamento de informações, e provém a 
base para as interpretações das experiências de vida. 
 Desta forma, a teoria e a Terapia Cognitiva tem dado foco quase que exclusivo 
ao papel do conteúdo ou significado do esquema, na geração de experiências 
emocionais normais e principalmente anormais, por considerar crucial para a 
determinação do tipo e intensidade de nossas respostas emocionais, o conteúdo de 
tais significados. 
A teoria cognitiva da emoção considera que dois aspectos de conteúdos 
negativos de esquemas autorreferentes são importantes. O primeiro seria referente 
aos diferentes graus de especificidade e generalização, e o segundo com relação a 
vários aspectos do sistema biopsicossocial e da personalidade ou do funcionamento 
psicológico. Com relação aos graus de generalização, Beck et al. (1999a) mencionam 
os três níveis de generalização de esquemas relacionados à depressão. 
O primeiro nível seria relacionado a um nível mais específico de abstração onde 
seriam encontrados esquemas simples, que teriam como função lidar com objetos 
simples, ou ideias muito específicas no nosso convívio físico e social. Um segundo 
nível de generalização ou abstração se mostra em uma classe intermediária de 
crenças, regras ou pressupostos, que as pessoas utilizariam para uma avaliação de 
si, dos outros e de suas experiências. 
Essas crenças intermediárias seriam menos concretas, mais pessoais, e 
aplicadas a uma gama maior de experiências do que esquemas específicos. Uma 
classe de crenças intermediárias encontradas na depressão são as regras 
 
47 
 
condicionais, que tema forma de declarações “se.…então” (“se eu trabalhar duro, 
então terei sucesso”, “se eu for criticado, então é sinal que falhei”) (Beck et al., 2005b). 
Beck (1976) faz referência a mais duas classes de crenças intermediárias, 
identificadas por terapeutas cognitivos: crenças imperativas envolvendo “devo” ou 
“preciso” (“preciso ser amado e ser aceito por todos que encontrar”, “eu nunca posso 
errar”); e crenças compensatórias, que se referem a várias estratégias que as pessoas 
se utilizam para responder as outras crenças centrais e intermediárias, Como 
exemplo: "se eu não satisfazer as outras pessoas, eles irão me odiar”, como crença 
compensatória a crença central: “não sou amável”. 
No nível mais amplo da generalização, Beck (1964) aponta a existência das 
crenças centrais, definindo como as ideias mais centrais que a pessoa tem a respeito 
do self, e que alguns autores denominam esquemas. Beck, no entanto, vai diferenciá-
las sugerindo que os esquemas são estruturas cognitivas dentro do pensamento, e 
que as crenças centrais são o seu conteúdo semântico. 
Beck (1964) prossegue afirmando que as crenças centrais negativas se 
encaixam em duas categorias de ampla gama: as associadas a desamparo e as 
associadas ao fato de não ser amado. Consequentemente (Beck et al., 1999a), a 
maior parte das crenças centrais toma a forma de esquemas conceituais cognitivos, 
formando importante componente para o autoconceito da pessoa, e como exemplo 
cita crenças centrais de pessoas com propensão a depressão: “sou um fracasso”, “sou 
inútil”, “não sou digno de ser amado”. 
Segundo Judith Beck (1997), por causa da natureza genérica das crenças 
centrais, estas são usualmente mais globais, supergeneralizadas e absolutas do que 
as crenças intermediárias, e que se desenvolveriam na infância à medida que a 
criança interage com outras pessoas significativas, e prossegue encontrando 
situações que confirmem essa ideia. 
 Judith Beck prossegue afirmando que durante parte da vida, a maioria das 
pessoas pode manter as crenças centrais relativamente positivas sobre si, e as 
crenças centrais negativas podem vir à tona somente durante momentos de aflição 
psicológica. 
 Acrescenta que tais crenças centrais negativas também podem ser acerca de 
outras pessoas e seus mundos, como exemplo: “outras pessoas não são confiáveis”, 
“o mundo é um lugar onde impera a corrupção”. 
 
48 
 
4.11 Tipos de esquemas 
Beck et al. (2005b) propuseram tipos de esquemas que correspondem a 
diferentes funções ou aspectos do sistema biopsicossocial do organismo. O primeiro 
tipo de esquema seria o esquema cognitivo-conceitual. Estes seriam parte integrante 
da seleção, armazenamento, recuperação e interpretação das informações, e nos 
possibilitariam fazer inferências e interpretações fundamentais sobre nossa 
capacidade de processamento de significados, embora a construção de realidade 
resultante seja, na melhor das hipóteses, uma aproximação do fenômeno atual. 
O segundo tipo de esquema seria o esquema afetivo, que estariam envolvidos 
na percepção de estados emocionais e suas várias combinações, e desempenhariam 
um papel funcional dentro das estratégias psicobiológicas relacionadas à 
sobrevivência do organismo. 
O terceiro tipo de esquema seria o esquema fisiológico, que representaria os 
processos e funções somáticas, e estaria envolvido no processamento de estímulos 
proprioceptivos das vísceras e dos músculos do corpo. Eles são considerados 
rudimentares, mas essenciais para a sobrevivência do organismo. O quarto tipo de 
esquema seria o esquema comportamental. 
Estes representam disposições de códigos de resposta e programas de 
preparação de ações que permitem a ação coordenada e automática de inúmeras 
respostas motoras envolvidas em expressões complexas de comportamentos. E como 
quinto e último tipo de esquema teríamos o esquema motivacional, que teria uma 
relação próximacom os esquemas comportamentais. 
Seriam relevantes para uma variedade de níveis de atividades, direcionamento 
e respostas ao meio ambiente que existem no ser humano. Alguns destes esquemas 
representariam os impulsos automáticos involuntários e inibições associadas com as 
estratégias comportamentais primitivas. 
4.12 O modelo cognitivo em uma versão inicial 
Beck apresentou suas primeiras formulações da natureza cognitiva da 
depressão em dois artigos (Beck, 1963, 1964) publicados nos Archives of General 
Psychiatry. Nestes artigos e em seu primeiro livro referente a este tópico: Depression: 
Causes and Treatment publicado em 1967, Beck argumentou que os pensamentos 
 
49 
 
negativos que há muito haviam sido reconhecidos como sintomas característicos da 
depressão, de fato teriam um papel central na caracterização do transtorno como 
previamente havia se pensado. A depressão seria então um transtorno do 
pensamento e não da emoção. 
O primeiro estudo publicado sobre o modelo cognitivo (Beck, 1963) baseado 
em dados coletados em entrevistas e sessões de psicoterapia de 50 pacientes 
deprimidos e 31 não deprimidos, fornecerem em seus resultados conceitos 
fundamentais importantes para o modelo cognitivo. Como exemplo, Beck cita a noção 
de conteúdo cognitivo específico, que foi postulada nessa ocasião. 
 Beck notou que uma ideação específica caracterizava os diversos transtornos 
psicológicos como: a depressão sendo caracterizada por baixa autoestima e 
tendência a auto culpa; a ansiedade caracterizada por sensação de perigo pessoal; 
hipomania por pensamentos de auto aperfeiçoamento; e paranoia caracterizada por 
estados de acusação contra outros. Emerge então, a partir destes conceitos, a 
formulação do que Beck designou de tríade cognitiva (visão negativa de si, do mundo 
e do futuro). 
Ainda segundo Beck, et al. (1999a), outro conceito introduzido neste referido 
artigo de 1963, foi a noção de erros cognitivos. Beck observou que pacientes 
deprimidos distorciam a realidade de uma maneira sistemática, que resultavam em 
vieses contra si próprios. 
Beck (1963) descreveu inicialmente os erros cognitivos ou distorções 
cognitivas que ocorrem na depressão como sendo: 
 Inferência arbitrária – pulando a conclusões na ausência de evidências 
ou diante de evidências contrárias, 
 Abstração seletiva – focar em detalhes fora do contexto ignorando 
outras características principais da situação, 
 Supergeneralização – pulando a conclusões baseado em uma ou mais 
informações isoladas, 
 Maximização ou minimização – exagerar ou minimizar a magnitude ou 
significância de um evento, 
 Personalização – tendência a relacionar eventos externos a si próprios, 
 Pensamento dicotômico – ver a situação em duas categorias apenas, 
tudo ou nada. 
 
50 
 
Beck (1964) afirmou então que padrões negativos de pensamentos precediam 
aos outros sintomas da depressão, e, desta forma, o modelo cognitivo representava 
uma mudança fundamental na conceitualização da depressão como um transtorno do 
pensamento em oposição ao que se supunha na época como sendo um transtorno 
emocional. 
Tendo delineado uma caracterização da depressão, Beck (1967) virou sua 
atenção para as possíveis variáveis cognitivas que predispusessem fatores de 
vulnerabilidade para esta, propondo então a vulnerabilidade da pessoa propensa à 
depressão como atributo da constelação de atitudes negativas duradouras sobre si 
mesmo, sobre o mundo e sobre o futuro. 
Estas atitudes seriam formas estereotipadas repetitivas de construção de 
significados através de uma variedade de situações. E como tal devem ser 
consideradas manifestações de organizações cognitivas ou estruturas chamadas 
esquemas, que podem ser definidos como estruturas cognitivas para filtrar, codificar 
e avaliar os estímulos que incidem sobre o organismo. 
 Permitem então aos indivíduos dar sentido ao ambiente em que estão 
inseridos dividindo-o e organizando em aspectos psicológicos de relevância. 
Entretanto, esquemas também direcionam todos os processos cognitivos, sejam 
ruminações e pensamentos automáticos ou processamentos cognitivos de eventos 
externos. 
As estruturas, esquemas, podem ter qualidades como: flexibilidade ou rigidez, 
abstração ou concretude, permeabilidade ou impermeabilidade, abertura ou 
fechamento (Beck, 1964, 1967). 
4.13 A teoria de modos 
A premissa central da teoria cognitiva tem sido que estruturas idiossincráticas 
de significados mal adaptativas ou esquemas, formam a base de disfunções 
cognitivas dos transtornos emocionais, e também que as ativações de certos 
esquemas cognitivos idiossincráticos representavam o problema central na depressão 
e poderiam ser apontados como tendo papel primário na produção de vários sintomas 
cognitivos, emocionais e comportamentais (Beck, 1964). 
 
51 
 
Apesar do apoio de estudos experimentais clínicos sobre o papel dos 
esquemas na depressão, e o fato de que as formulações clínicas tem sido úteis no 
entendimento e tratamento da psicopatologia, Beck (2004) afirma que através dos 
anos vem se tornando evidente que a teoria não explica muitos fenômenos e 
conclusões experimentais, e lista uma quantidade de problemas psicológicos, que no 
seu entendimento, não são adequadamente consideradas pelo modelo de esquemas 
individuais, ou seja, o processamento esquemático linear. 
Incluídos entre tais problemas: 
 A multiplicidade de sintomas relacionados, que abrangem os domínios 
cognitivos, emocionais, motivacionais e comportamentais, na presença 
de um transtorno psicopatológico. 
 Evidência de um viés esquemático em vários domínios, sugerindo que 
uma organização de esquemas mais global e complexa está envolvida 
em reações psicológicas intensas. 
 A descoberta de uma vulnerabilidade específica, ou diátese, para os 
estressores específicos que são congruentes com um transtorno 
particular 
 A grande variedade de reações psicológicas “normais” que são 
evocadas por uma miríade de circunstâncias da vida. 
 A ligação entre conteúdo, estrutura e função na personalidade. 
 Observação de variedades na intensidade das reações específicas de 
um indivíduo frente a um conjunto de circunstância ao longo do tempo. 
 O fenômeno da sensibilização (“ignição”): recorrências sucessivas de 
um transtorno disparadas por experiências progressivamente menos 
intensas. 
 Enfraquecimento dos sintomas tanto por farmacoterapia como por 
psicoterapia. 
 Aparente continuidade de muitos fenômenos psicopatológicos na 
personalidade. 
 A relevância do modelo de humores normais. 
 O relacionamento entre o processamento da informação consciente e o 
não consciente. 
 
52 
 
Diante desse cenário, Beck (2004) apresenta dois acréscimos à teoria do 
processamento esquemático simples, sendo o primeiro baseado na noção de modos, 
uma teia de componentes cognitivos, emocionais e comportamentais. 
Como segunda contribuição, Beck propõe o uso do conceito de cargas, ou 
catexes, com o intuito de explicar as flutuações nos gradientes de intensidade das 
estruturas cognitivas. 
Beck (2004) define modos da seguinte forma: 
Modos são suborganizações específicas dentro da personalidade e incorporam 
os componentes relevantes dos sistemas básicos da personalidade: cognitivo (ou 
processamento da informação), emocional, comportamental e motivacional. 
E continua afirmando que entende cada um desses sistemas como composto 
de estruturas, denominadas esquemas, e dessa forma o sistema cognitivo consistiria 
de esquemas cognitivos, o sistema emocional de esquemas emocionais e assim por 
diante. 
Beck ainda faz referência ao fato de que alguns modos são mais primitivos,no 
sentido de que incorporam mais padrões imediatos, relevantes aos objetos cruciais 
derivados de forma evolucionária, relacionados à sobrevivência e a procriação. 
 Outros modos seriam mais peremptórios e, portanto, ativados por situações 
menos constrangedoras, incluindo situações simples como estudar ou assistir à 
televisão. 
Complementando a sua definição, Beck presume que cada um dos sistemas 
que participam do modo, tem uma função individual específica, mas operam em 
sincronia para implementar uma estratégia coordenada em direção a um objetivo. 
 Cita como exemplo o modo luta-fuga como sendo composto por ameaça 
(sistema cognitivo) sinais de ansiedade ou raiva (sistema emocional) que estimulam 
o indivíduo a fazer algo, a criação de impulso para agir (sistema motivacional), e a 
ação em si (sistema comportamental). 
O componente fisiológico consistiria na mobilização física do ato, a partir 
desta distinção, Beck explica cada sistema como segue: 
Sistema cognitivo: 
Responsável pelas funções envolvidas no processamento de informações e 
atribuição de significados como: seleção dos dados, atenção, interpretação ou 
atribuição de significado, memória ou lembrança, sendo composto de uma variedade 
 
53 
 
de estruturas cognitivas relevantes para a construção das pessoas com relação a si 
mesmas, outras pessoas, seus objetos e expectativas e seu armazenamento de 
memórias, aprendizagem anterior e fantasias. 
Sistema emocional: 
 Responsável pela produção de vários estados emocionais como alegria, 
tristeza, raiva, ansiedade, e suas nuances e combinações, não sendo uma reação 
emocional como uma simples experiência emocional desprovida de qualquer função 
vital, mas como uma parte integrante das estratégias psicobiológicas relacionadas 
com a sobrevivência e procriação. 
Sistemas motivacional e comportamental: 
 Responsáveis por fornecerem o mecanismo para a mobilização ou inibição 
automática do organismo para a ação ou a inação. Incluem as várias estratégias 
emergenciais como luta, fuga e mobilização. Beck esclarece também que o termo 
motivação é utilizado como impulso voluntário automático e as inibições vinculadas as 
estratégias primitivas. 
Sistema fisiológico: 
Envolvido geralmente sempre que um modo relevante de ameaça tenha sido 
ativado, sem se referir à ativação do sistema nervoso central, mas a inervação dos 
sistemas periféricos como o sistema nervoso autônomo, os sistemas motores e os 
sistemas sensoriais. 
Como característica complementar ao processo de representação 
cognitiva na organização dos esquemas, encontram-se os esquemas 
orientativos, que segundo Beck et al. (1999a) podem ser definidos como: 
Os esquemas orientativos são responsáveis por uma atribuição preliminar e 
rudimentar de significados com base em uma combinação de recursos ambientais 
com as várias organizações de construção de significados e estruturas do sistema de 
processamento de informações. 
O nível de orientação da representação esquemática cumpre um papel vital na 
seletividade e ativação dos modos ou esquemas do sistema de processamento de 
informações, agindo como um “detector de características”, atribuindo um significado 
preliminar as situações que vão incidir no aparato cognitivo (Beck, 2004). 
Beck apresenta ainda o sistema de controle consciente, como sendo o 
instrumento dos desejos, metas e valores mais reflexivos, deliberados, conscientes e 
 
54 
 
menos automáticos; tendo como funções tornar o indivíduo livre de medos não 
razoáveis, estabelecer e atingir metas razoáveis, e resolver problemas. 
 E ao contrário dos impulsos reflexivos automáticos dos sistemas motivacional 
e comportamental, estes desejos e metas tem flexibilidade e não são tão imperiosos. 
Este sistema está envolvido com o estabelecimento de controles sobre os sistemas 
primitivos, permitindo a correção dos pensamentos automáticos que são gerados pelo 
sistema cognitivo primitivo, desviando a atenção de pensamentos ou memórias 
desagradáveis, inibindo impulsos disfuncionais, ou ignorando emoções 
desagradáveis (Beck, 2004). 
Para Beck (2004), o componente cognitivo do modo é mais complexo do que o 
simples modo linear original, por se constituir de vários elementos inter-relacionados 
como as crenças básicas, regras compensatórias e estratégias comportamentais, e 
onde os dados visuais, auditivos e outros dados provenientes de estímulos relevantes, 
são processados simultaneamente através de canais múltiplos. 
No modo primário, o processamento de informação altamente focalizado 
resultaria em produtos cognitivos distorcidos. Para exemplificar, Beck cita um modo 
fóbico, onde em virtude do foco dominante no conceito de perigo, seletivamente 
abstrai e interpreta dados relevantes para o perigo específico, e como resultado deste 
processamento cognitivo distorcido, seriam produzidos pensamentos dicotômicos, 
com características de supergeneralização, catastrofização e personalização. 
Para um entendimento mais claro da diferença entre o processamento 
esquemático simples e o processamento baseado em modos, Beck apresenta o 
seguinte exemplo: um aluno entra atrasado em sala de aula, causando reações 
específicas dos outros estudantes, que são modelados pelos seus esquemas 
idiossincráticos como preocupação com o estudante atrasado, incômodo pela 
interrupção, satisfação por ter perdido material importante. 
Tais interpretações e emoções seriam transitórias, e o modelo 
esquemático simples bastaria para explica-lo. Entretanto, ao analisar o cenário 
do ponto de vista do estudante, se faz necessário um modelo mais complexo. 
Vejamos: 
Ao dirigir-se para a sala de aula, o estudante fica preso no engarrafamento, e 
percebe que vai perder material importante para prova. Sugere-se a instigação de um 
modo de medo diante de circunstâncias como o seu mecanismo orientador 
 
55 
 
relacionando o fato ao conceito de vulnerabilidade e perigo é uma parte vital da 
organização cognitiva; e quando a circunstância é percebida como ameaçadora a 
segurança física ou psicológica, aciona o modo primitivo. 
O estudante começa a visualizar fluxo de consequências terríveis decorrente 
de seu atraso como humilhação e marginalização, e lembra-se de outros estudantes 
que fracassaram. Quando o modo primitivo é ativado, os sistemas, cognitivo, afetivo, 
comportamental e fisiológico, são ativados e mantêm-se energizados por algum tempo 
depois que as circunstâncias ativadoras já não existam mais, mantendo-o ansioso por 
um período prolongado. 
5 RELAÇÃO TERAPÊUTICA 
Para Wright, Basco e Thase (2008) várias abordagens psicoterápicas, como a 
terapia psicodinâmica, as terapias não dirigidas e outras formas de psicoterapias, 
abordam a importância da relação terapêutica. 
Mas a terapia cognitivo-comportamental, em comparação com as demais, 
difere pelo seu alto grau de cooperação, seu foco empírico e pelo uso de intervenções 
direcionadas para a ação. Segundo esses autores, Aaron Beck utiliza o termo 
empirismo colaborativo para descrever a relação terapêutica, isto é, terapeuta e 
paciente trabalham juntos, como uma equipe investigai iva, desenvolvendo hipóteses 
e um estilo mais saudável de pensamento, diminuindo, então, os padrões 
improdutivos de comportamento. Descrevem, ainda, que é tarefa do terapeuta 
estruturar a sessão, dar feedback e orientar os pacientes no modelo cognitivo-
comportamental. 
Para que esta relação terapêutica seja sólida, Knapp (2004) salienta que vários 
fatores estão incluídos na postura do terapeuta, entre eles a capacidade empática e o 
interesse genuíno na compreensão dos problemas trazidos pelo paciente, para que 
este possa sentir-se acolhido, validado e atendidoem suas necessidades. Destaca 
também a relevância da habilidade empática do terapeuta, pois na ausência dela o 
progresso da terapia fica prejudicado (Araújo ÒC Shinohara, 2002; Falcone, 2001a, 
2009; Falcone et al., 2007; Rangé, 1995; Oliveira et al., 2006). 
 
56 
 
Durante o processo terapêutico também encontramos barreiras que dificultam 
e impedem a qualidade do relacionamento terapêutico (Beck, 1997; Beck, Freeman, 
Davis, 2005; Falcone, 2004a, 2004b). São elas: 
As demandas da terapia (dificuldade na introdução de técnicas, a fraca 
socialização do paciente quanto ao modelo, falta de motivação para o tratamento, 
além da conscientização das diferentes formas de manejo com pacientes de 
diagnósticos de eixo I, que inclui os transtornos clínicos, os transtornos mentais, bem 
como problemas do desenvolvimento e aprendizado. Nesse eixo é comum incluir 
transtornos com depressão, ansiedade, distúrbio bipolar, TDAH e esquizofrenia. Eixo 
II: inclui transtornos de personalidade ou invasivos, bem como retardo mental. 
Os esquemas de resistências pessoais do paciente (ideias e crenças a respeito 
de seu potencial fracasso na terapia, ideias e crenças a respeito dos efeitos de sua 
mudança sobre os outros) e os esquemas pessoais do terapeuta (ideias e crenças a 
respeito do modelo, quanto a ser um terapeuta cognitivo-comportamental e baixo 
treinamento). 
A partir disso, foi realizado por Falcone (2004) um estudo para avaliar em 
terapeutas cognitivo comportamentais as reações afetivas, cognitivas e 
comportamentais sinalizadoras de resistência manifestadas por pacientes difíceis. 
Para tanto foi aplicado um questionário, com base na literatura, em 58 terapeutas, e 
suas respostas foram categorizadas em três níveis diferentes para os sentimentos, 
pensamentos e comportamentos. Os resultados mostraram que 85% dos terapeutas 
experimentaram sentimentos negativos em relação aos comportamentos resistentes 
do paciente. 
Com relação aos pensamentos, 51,8% dos terapeutas pensaram em buscar 
uma solução para resolver o problema de imediato, em vez de explorar os motivos 
relacionados aos esquemas do paciente, 4,3% dos pensamentos dos terapeutas 
referiam-se a julgamentos negativos sobre o comportamento do paciente. 
 Quanto aos comportamentos, 70,4% dos terapeutas lidaram objetivamente 
com a resistência do paciente, sem tirar o foco na mudança, e 5,6% dos terapeutas 
buscaram investigar os esquemas e padrões de funcionamento do paciente, deixando, 
temporariamente, de focar a mudança. 
 
 
57 
 
Segundo a autora, os terapeutas cognitivo-comportamentais são treinados para 
focalizar a mudança, e nesse sentido tendem a lidar com os impasses da relação 
terapêutica pela solução imediata de problemas, entretanto esse procedimento tende 
a ser ineficaz no tratamento de pacientes difíceis. 
Beck, reforça que é necessário aprender a descobrir e especificar os 
problemas que muitas vezes impedem o processo terapêutico, pois a sua 
análise serve para conceituar como surgiram e planejar como remediá-los, 
(Beck 1997; 2006 apud Andretta I, 2011). 
5.1 Características e habilidades fundamentais do terapeuta 
Características pessoais do terapeuta 
 Postura empática e compreensiva; 
 Aceitação desprovida de julgamento; 
 Autenticidade; 
 Autoconfiança; 
 Flexibilidade na aplicação de técnicas; 
 Alta taxa de comportamentos gestuais: assentimento com a cabeça, 
sorrisos, aproximação do corpo em direção ao cliente; 
 Contato visual; 
 Linguagem acessível; 
 Postura que denote atenção e ao mesmo tempo descontração; 
 Habilidade técnica; 
 Capacidade de refletir empaticamente; 
 Saber controlar a própria ansiedade; 
 Fazer perguntas que facilitarão a descoberta guiada; 
 Fornecer base segura para exploração; 
 Responsividade, ou seja, habilidade para prestar a atenção ao que é 
comunicado pelo paciente, motivação para desenvolver uma relação 
íntima, energia para responder ao ritmo solicitado, habilidade para 
identificar o referencial do paciente, capacidade de eliciar autor 
revelação e sinais não verbais; 
 Imediaticidade verbal, ou seja, responder pronta, direta, honesta e 
intimamente ao que está acontecendo no instante; 
 
58 
 
 Habilidades verbais, ou seja, perguntar, clarificar, refletir, dar 
informações, confrontar, interpretar, resumir, questionar de modo ativo, 
expressivo e fluente; 
 Uso criterioso do humor; 
 Competência linguística: decodificar e usar metáforas, paradoxos. 
Habilidades do terapeuta 
 Avaliar e conceitualizar os pacientes com o modelo cognitivo-
comportamental; 
 Estabelecer e manter uma relação terapêutica colaborativa; 
 Educar o paciente sobre o modelo; 
 Educar o paciente sobre esquemas e ajudá-lo a entender a origem das 
crenças; 
 Estruturar as sessões, ou seja, estabelecer a agenda, revisar e 
prescrever as tarefas de casa, trabalhar com problemas-chave e usar 
feedback; 
 Utilizar a programação de atividades e a tarefa gradual; 
 Utilizar as técnicas cognitivas e comportamentais de acordo com o 
transtorno psiquiátrico; 
 Empregar técnica de registro de pensamentos; 
 Usar técnicas de prevenção de recaída; 
 Formular o caso no modelo; 
 Proporcionar feedback e sumários; 
 Buscar feedback do paciente; 
 Reconhecer os pensamentos e sentimentos do próprio terapeuta 
acionados pela terapia; 
 Buscar supervisão e treinamento em terapia cognitivo-comportamental. 
Atitudes do terapeuta 
 Ser empático, respeitoso, não crítico e colaborativo; 
 Sensível às questões socioculturais, econômicas e educacionais do 
paciente; 
 Buscar o treinamento de competências para terapia cognitivo-
comportamental, durante o treinamento estar aberto às avaliações e ao 
 
59 
 
exame das observações ao vivo ou gravadas (vídeo ou áudio) das 
sessões de tratamento. 
5.2 O funcionamento da relação terapêutica 
Estabelecer, desenvolver e manter a relação: 
As três fases da relação são usadas para organizar os resultados das 
pesquisas, e são as seguintes: estabelecer, desenvolver e manter uma relação. 
Assume-se, que embora estas fases se desenvolvem através da terapia, haverá, 
também, um ciclo através das mesmas, através de um encontro terapêutico, ou de 
mais de um número de semanas ou meses. 
A título de exemplo, uma relação terapêutica poderá ser bem desenvolvida, 
mas uma quebra no tratamento pode resultar numa insatisfação do cliente. Deste 
modo, o terapeuta terá de reparar esta ruptura na relação e poderá, igualmente, voltar 
a recorrer às suas competências de compromisso (Gilbert & Leahy, 2007). 
Revela-se claramente que um desenvolvimento precoce de uma boa relação 
entre o terapeuta e o cliente prediz melhor o resultado e ajuda o cliente a manter-se 
na terapia (Martin, Garske & Davis, 2000 cit in Gilbert & Leahy, 2007). O compromisso 
do cliente com a terapia é o objetivo principal no começo da terapia e pode ser dividido 
nos seguintes objetivos: expectativas, intenções e esperança. 
Denota-se a importância de construir as expectativas positivas do cliente sobre 
a terapia, tanto no papel (aquilo que é esperado do terapeuta e do cliente) como nos 
resultados (Garfield, 1974; Arnkoff, Glass, & Shapiro, 2002 cit in Gilbert & Leahy, 
2007). Um grande número de estudos tem-se dedicado a averiguar aquilo que os 
terapeutas consideram importante para a capacitação de uma integração precoce dos 
clientes nas terapias. 
Um exemplo disto mesmo são dois estudos, que encontraram evidências de 
que os terapeutas avaliam os clientes como mais atrativos se virem que estão mais 
motivados para a mudança, sendo que estes clientes se envolvem melhor na terapia 
(Davis, Cook,Jennings, & Heck, 1977; Tyron, 1990 cit in Gilbert & Leahy, 2007). 
 
 
 
60 
 
Estudos aprofundados permitiram descobrir que os níveis de uma boa relação 
em sessões terapêuticas precoces estavam associados com altos níveis de trabalho 
e de envolvimento, por parte do cliente (Reandeau & Wampold, 1991 cit in Gilbert & 
Leahy, 2007). Finalmente, desenvolver a sensação de esperança dos clientes está 
associado com a manutenção na terapia e com melhores resultados (Gilbert & Leahy, 
2007). 
Os comportamentos dos terapeutas que estão associados com os objetivos de 
intenções, expectativas, motivação e esperança, incluem os três elementos das 
condições terapêuticas de Roger, que são os seguintes: calor, genuidade ou respeito, 
e empatia (Bachelor & Horvath, 1999; Rogers, 1957 cit in Gilbert & Leahy, 2007). 
 A empatia está particularmente ligada a um bom compromisso e é descrita 
como a capacidade do terapeuta de entrar e entender, tanto afetiva como 
cognitivamente, o mundo do cliente (Bohart, Elliot, Greenberg, & Watson, 2002 cit in 
Gilbert & Leahy, 2007). O compromisso também requer a discussão do terapeuta e o 
acordo dos objetivos da terapia do cliente. 
Existem provas de que é importante chegar a um acordo, precocemente na 
terapia (Gilbert & Leahy, 2007). Por exemplo, descobriu-se que sessões anteriores de 
recolha de informação e sessões posteriores de partilha e negociação da formulação 
do problema e planos de tratamento aumentam o compromisso e ajudam a voltar a 
outras sessões de terapia (Tyron, 2002 cit in Gilbert & Leahy, 2007). 
 Por outro lado, um acordo precoce de estabelecimento de objetivos não está 
tão fortemente ligado com o resultado do tratamento (Gilbert & Leahy, 2007). No que 
concerne a isto, Gaston, Marmar, Gallagher, & Thompson (1991, cit in Gilbert & Leahy, 
2007) não encontraram uma associação significativa entre um consenso precoce de 
objetivos e resultados. 
A insatisfação com a relação é a razão mais frequentemente dada para o 
abandono da relação e para uma não-conformidade (Reis & Brown, 1999 cit in Gilbert 
& Leahy, 2007). O segundo objetivo prende-se com a aliança e tem a ver com a 
qualidade e com a força da relação colaborativa entre o cliente e o terapeuta, que 
consiste no mais importante (Winston & Muran, 1996 cit in Gilbert & Leahy, 2007). 
O terceiro objetivo é a expressão emocional e a aceitação emocional. Para 
alguns terapeutas, a relação é o veículo para as emoções serem apoiadas e 
expressas. 
 
61 
 
A relação emocional é vista como uma experiência catártica (Garfield, 1974; 
Truax, 1967 cit in Gilbert & Leahy, 2007), embora para alguns a experiência emocional 
leve à mudança das condições e à compreensão do self, enquanto que outros 
consideram que o insight experimental é a chave para mudar (Warwar & Grennberg, 
2000; Winston & Muran, 1996 cit in Gilbert & Leahy, 2007). 
O quarto, e último objetivo, é a habilitação do cliente para a exploração de 
visões alternativas de si mesmo (Gilbert & Leahy, 2007). Estas são algumas vezes 
referidas como as verdades narrativas: construtivistas sociais descrevem o processo 
na terapia como o cliente e o terapeuta, construindo, juntos, a relação, onde problemas 
antigos são desconstruídos, elevando-se novas narrativas (Crits-Christoph, 1998; 
McGuire e col., 2001; Stiles, Honos-Webb, & Surko, 1998 cit in Gilbert & Leahy, 2007). 
Possíveis ameaças à relação foram agrupadas em: comportamentos do 
terapeuta, comportamentos do cliente e desafios da relação. As ações do terapeuta 
necessitam de evitar ou resolver estas ameaças, que estão agrupadas como reflexão 
do eu, metacomunicação, flexibilidade e reparo (Gilbert & Leahy, 2007). 
Os terapeutas poderão ter sentimentos negativos em relação aos seus 
pacientes, que não demonstram, mas que ainda assim conseguem ter impacto na 
aliança (Gelso & Carter, 1985; Safran e col., 2002 cit in Gilbert & Leahy, 2007). Apesar 
disso, se estes sentimentos forem reconhecidos, sentidos como seus e explorados, 
os terapeutas reportam consequências positivas (Greenberg, 2007; Harris, 1999 cit in 
Gilbert & Leahy, 2007). 
Outros comportamentos que os clientes têm descrito como defensivos e 
intrusivos e como tendo um impacto negativo na relação, incluem terapeutas que 
impõem os seus próprios valores, fazendo comentários irrelevantes, e sendo críticos 
rígidos, aborrecidos, culpabilizadores, moralistas ou indecisos (Ackerman & 
Hilsenroth, 2001 cit in Gilbert & Leahy, 2007). Um uso pobre de técnicas terapêuticas, 
tais como uma contínua aplicação de uma técnica quando não aceite ou considerada 
útil pelo cliente ou pobre uso do silêncio, está ligado com uma fraca relação 
terapêutica (Binder & Strupp, 1997; McLennan, 1996 cit in Gilbert & Leahy, 2007). 
Os clientes, também, tendem a esconder os seus sentimentos negativos (tais 
como medo, hostilidade e raiva) e algumas vezes o terapeuta não está consciente 
daquilo que o paciente está a sentir. 
 
62 
 
Esta deferência do cliente para com o terapeuta tem sido relacionada com um 
resultado fraco (Binder & Strupp, 1997; Beutler, Clarkin, & Bongar, 2000; Warwar & 
Greenberg, 2000 cit in Gilbert & Leahy, 2007). Este tipo de comportamento tem sido 
apelidado, algumas vezes, de client resistance – resistência do cliente. A resistência 
foi originalmente concebida como um conceito psicanalítico do evitamento 
inconsciente do cliente do trabalho analítico (Gilbert & Leahy, 2007). 
O reconhecimento da ruptura na relação, por parte do terapeuta, é um 
primeiro passo importante frente à resolução. Isto impõe que o terapeuta 
esteja apto para refletir sobre a sua própria posição na terapia e sobre os 
seus sentimentos sobre o cliente e como a terapia está a progredir (Binder & 
Strupp, 1997 cit in Gilbert & Leahy, 2007apud Portela C. 2008). 
Safran e Muran (1996, cit in Gilbert & Leahy, 2007) desenvolveram um modelo 
de resolução de ruptura, que contem quatro estágios: ter em atenção ao momento da 
ruptura, explorar a experiência de ruptura, explorar o evitamento e a emergência de 
um desejo ou necessidade. Contudo, Aspland, Llewelyn, Hardy, Barkham e Stiles 
(2006, cit in Gilbert & Leahy, 2007) verificaram que, ao contrário do modelo de Safran, 
os terapeutas não discutem abertamente a questão da ruptura com os seus clientes 
(Gilbert & Leahy, 2007). 
A capacidade de o terapeuta modelar a terapia às necessidades individuais e 
características dos clientes é de suprema importância (Gilbert & Leahy, 2007). 
Sensibilidade apropriada e flexibilidade são requisitos importantes para a manutenção 
da relação terapêutica. (Davis, 1991; Stiles et al., 1998 cit in Gilbert & Leahy, 2007). 
5.3 Fim da relação 
O processo de finalização apresenta um número de desafios significativos para 
o cliente e para o terapeuta. Para auxiliar este processo, Swales e Heard (2007) 
sugerem o desenvolvimento de um claro alvo hierárquico, como o seguinte, para esta 
fase, igualmente: 
 Diminuir comportamentos suicidas e de risco de vida, relacionados com 
o fim da relação terapêutica; por exemplo, comportamentos suicidas 
urgem quando o cliente pensa no seu futuro sem o terapeuta; 
 Diminuir comportamentos relacionados com o fim, que interfiram na 
terapia; por exemplo, o aumento da frequência do pedido da ajuda do 
 
63 
 
terapeuta, repetindo a declaração “Não serei capaz de fazer frente sem 
si”; 
 Aumentar a capacidade de resolver problemas de forma independente; 
 Aumentar a conexão em outras relações efetivas (profissionais e/ou não 
profissionais). 
O terapeuta seguirá a hierarquia acima, mas será necessário que o cliente tome 
uma parte mais ativa na determinação das marcações das sessões e que aja, 
relativamenteaos seus comportamentos e estratégias de análise de soluções, de 
forma mais independente (Swales e Heard, 2007). Idealmente, estes processos 
ocorrem gradualmente através do curso da terapia e são assistidos pelo encarregado 
do caso (Swales e Heard, 2007). 
O cliente também poderá necessitar de ajuda para “fazer luto” pela perda do 
terapeuta (Swales e Heard, 2007). Como em muitas relações, o terapeuta e o cliente 
também podem planear outras maneiras significativas de se despedirem e de 
marcarem a transição de cliente e terapeuta para ex-cliente e ex-terapeuta (Swales e 
Heard, 2007). 
6 CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA RELAÇÃO TERAPÊUTICA 
6.1 Aliança em geral 
Nos últimos anos, muitos investigadores e teóricos de várias tradições têm 
começado a explorar o potencial valor da aliança terapêutica como um constructo 
psicoterapêutico geral. O conceito de “aliança terapêutica” tem origem na literatura 
psicanalítica, com Freud a defender que o paciente e o analista têm de associar-se 
contra os sintomas do paciente, no “pacto analítico”, fundamentado na exploração do 
paciente e na compreensão do analista (Freud, 1973, 1940 cit in Katzow & Safran, 
2007). 
 Apesar de este conceito ter subsistido muito tempo na literatura psicanalítica, 
no final dos anos setenta, recebeu atenção da parte dos investigadores e teóricos da 
psicoterapia. Esta mudança foi influenciada, em parte, pela reformulação de aliança, 
em termos transteóricos, de Edward Bordin (1979, cit in Katzow & Safran, 2007). 
Quase trinta anos depois, o constructo de aliança foi, progressivamente, espalhado 
 
64 
 
para uma variedade de escolas psicoterapêuticas e tem colhido tanto interesse como 
pesquisa para compreender os mecanismos de mudança, dado que, ainda, não se 
demonstrou a consistência efetiva de um dado tratamento (Smith, Glass & Miller, 1980 
cit in Katzow & Safran, 2007). 
6.2 Aliança terapêutica 
Muitos estudos têm demonstrado que uma aliança terapêutica positiva está 
associada a um bom resultado. A aliança reflete três aspectos importantes do trabalho 
terapêutico: o vínculo ou os sentimentos que os participantes têm em relação uns aos 
outros, o nível de acordo existente entre eles sobre os objetivos da terapia e o modo 
como irão alcançar esses objetivos (Bordin, 1979 cit in Greenberg, 2007). O 
desenvolvimento da colaboração tem sido considerado um aspecto fundamental na 
relação terapêutica, suportado empiricamente. 
 Assim, é tão importante criar um clima emocional que proporcione um vínculo 
caloroso de confiança, como estabelecer uma aliança colaborativa ao longo da 
terapia. Isto irá tornar possível o trabalho das emoções: tanto das emoções evitadas 
como emoções reguladas à superfície ou em profundidade (Greenberg, 2007). 
Identificámos algumas formas de ajudar no desenvolvimento e manutenção da 
aliança terapêutica para trabalhar as emoções. A primeira envolve transmitir que o 
principal foco do tratamento são as preocupações do cliente e os seus sentimentos 
dolorosos subjacentes. 
O terapeuta comunica que a intenção nuclear da terapia é ajudar o cliente a 
abrir-se e a revelar os seus sentimentos íntimos, significados e medos – arriscar-se a 
ser vulnerável com o seu terapeuta na esperança de juntos, chegarem a um melhor 
entendimento do mundo interior e exterior do cliente e efetuarem mudanças 
significativas, que irão melhorar o sentimento de desespero do cliente. Sem este 
objetivo exploratório ser negociado, adequadamente, entre as partes, a terapia irá 
acabar prematuramente ou não progredir. Desde o início, o cliente é treinado, 
implicitamente, através do consistente foco empático do terapeuta na experiência 
interna do cliente, para atentar nela (Greenberg, 2007). 
 
 
65 
 
Os terapeutas, na fase inicial da terapia, transmitem compreensão e 
reconhecimento pela dor do cliente, validam os seus esforços e focam-se no impacto 
emocional dos eventos na vida do cliente. Devido a uma audição atenta, interesse e 
expressão facial, corporal, incluindo os olhos e as mãos, do terapeuta que transmitam 
a consideração pelo cliente, este começa a sentir-se visto, valorizado e respeitado e, 
por isso, mais inclinado a confiar e a abrir-se. 
 Ao atender ao coração do cliente e a expressar uma confiança incondicional 
nas suas forças e capacidades de crescimento, o terapeuta ajuda a revelar a 
unicidade e força do cliente. É vendo a possibilidade de crescimento noutro ser 
humano, que esta possibilidade é estimulada (Greenberg, 2007). 
A atitude de empatia, profundamente segura do terapeuta, o respeito e apreço 
pelo cliente e o foco nas suas forças e recursos ajudam a criar um vínculo emocional 
de confiança e estima, que ajuda a desenvolver um ambiente e uma base segura para 
a exploração que terá lugar à medida que a terapia progride. 
 A par do vínculo, deve-se proporcionar um racional, desde o início, de que o 
objetivo do tratamento é que a pessoa aceda e se torne consciente dos seus 
sentimentos mais profundos e das suas necessidades relacionadas com as suas 
dificuldades. Se, contudo, as suas emoções são reguladas em profundidade, o 
objetivo é encontrar melhores formas de lidar com os sentimentos que parecem 
avassaladores. É dito às pessoas que os sentimentos proporcionam informação 
importante sobre o modo como elas reagem às situações e que é fulcral tornar claro 
o que as emoções lhes dizem. 
Há uma ênfase forte, desde o começo, em validar e aceitar a dor que as 
pessoas sentem. Quando elas vêm para a terapia, fazem-no porque estão a sofrer e 
sentem alguma forma de dor – é como se qualquer coisa na sua vida ou dentro delas 
se tivesse partido. É através da rapidez e segurança com que o terapeuta delineia a 
natureza da dor prolongada que um vínculo emocional e a colaboração para trabalhar 
nele serão criados. Assim que a dor prolongada é articulada, o sentimento de 
isolamento da pessoa é quebrado. 
Há, então, um sentimento de alívio, pois o sujeito falou, alguém compreendeu 
e, assim, não está tão sozinho na sua luta. Surge a esperança, e o acordo de trabalhar 
na resolução da dor prolongada cria uma aliança, estimulada por esta esperança. 
 
66 
 
Deste modo, resolver a articulação da dor prolongada torna-se o objetivo do 
tratamento e a base da aliança de trabalho (Greenberg, 2007). 
6.3 Aliança na terapia cognitivo-comportamental 
A investigação psicoterapêutica tem, tradicionalmente, feito a distinção entre 
fatores específicos e não específicos. Os primeiros são fatores técnicos específicos 
de um tipo particular de psicoterapia, enquanto os segundos são os factores comuns 
a todas as formas de psicoterapia. A Terapia Cognitivo-Comportamental tem separado 
os fatores não específicos, tal como a aliança, da técnica, que tem sido encarada 
como o agente central de mudança. 
Este facto tem levado a que se dê pouca importância à aliança terapêutica. 
Atualmente, muitos terapeutas cognitivo-comportamentais (Leahy, 1993; Safran, 
1998; Safran & Segal, 1990; Young et al., 2003 cit in Katzow & Safran, 2007) 
conceitualizam a aliança como uma parte integral do tratamento, que pode ser usada, 
conjuntamente, com a técnica para conduzir à mudança (Katzow & Safran, 2007). 
Relativamente à aliança, a Terapia Cognitivo-Comportamental tem defendido a 
importância de estabelecer uma forte relação colaborativa entre paciente e terapeuta, 
onde o terapeuta tem um papel ativo. Beck, Rush, Shaw & Emery (1979, cit in Katzow 
& Safran, 2007) sugerem que os terapeutas devem ser, genuinamente, calorosos, 
empáticos e abertos para que possam estabelecer uma relação terapêutica forte, pelo 
que consigam, colaborativamente, desenvolver objetivos terapêuticos e tarefas para 
trabalho decasa. Os terapeutas são, também, encorajados a dar feedback regular, 
bem como racionais ao paciente, que irão fortalecer a relação (Katzow & Safran, 
2007). 
Ao depararem-se com a resistência em momentos de impasse, os terapeutas 
cognitivos- comportamentais foram, tradicionalmente, aconselhados a continuar a 
aplicar técnicas cognitivo- comportamentais estandardizadas, tais como mudar 
distorções cognitivas, ao contrário de discutir, diretamente, a aliança. 
Hoje em dia, é mais comum enfatizar intervenções como unir a resistência dos 
pacientes a momentos de impasse, ao contrário de mudá-la (e.g. Leahy, 2001 cit in 
Katzow & Safran, 2007). 
 
67 
 
 Muitas abordagens da Terapia Cognitivo-Comportamental, ainda, enfocam o 
empirismo como uma ferramenta para os terapeutas ajudarem os pacientes a 
modificarem as suas cognições, de modo a que se aproximem mais da realidade. Mas, 
tem havido uma mudança no sentido de haver mais ênfase explícita e consistente na 
importância de focar os impasses terapêuticos. 
Exemplificando, Young e colaboradores (2003, Katzow & Safran, 2007) 
enfocam a confrontação empática em momentos de impasse. Isto envolve realçar e 
validar as reações dos pacientes em relação ao terapeuta, considerando 
compreensíveis as suas histórias de vida e, consequentemente, ajudando-os a pôr 
em dúvida algumas das incoerências nas suas crenças. 
 Assim, as técnicas cognitivas estandardizadas e específicas continuam a ser 
utilizadas para ajudar os pacientes a mudarem os seus comportamentos no 
tratamento, mas a importância da relação terapêutica e de lidar com os problemas na 
relação terapêutica têm sido, progressivamente, destacadas (Katzow & Safran, 2007). 
A nossa abordagem foca, principalmente, a aliança como um processo de 
negociação constante (Safran & Muran, 2000 cit in Katzow & Safran, 2007). A partir 
da reformulação transteórica de aliança de Bordin (1979, cit in Katzow & Safran, 2007), 
encaramos a aliança como uma parte intrínseca do processo de mudança e a 
resolução de rupturas como uma componente fulcral do tratamento (Safran, 1998; 
Safran & Muran, 1996, 1998, 2000, 2006; Safran, Muran, Samstang & Stevens, 2002; 
Safran & Segal, 1990 cit in Katzow & Safran, 2007). 
Esta reconceptualização de aliança possibilita-nos ver como as intervenções 
cognitivo- comportamentais tradicionais e assunções funcionam para promover a 
mudança através da aliança, bem como examinar os modos em que elas podem pôr 
obstáculos ao tratamento sob algumas circunstâncias (Katzow & Safran, 2007). 
6.4 Vinculação 
A criação de um vínculo é a maior tarefa nas primeiras três a cinco sessões de 
terapia. Esta é uma parte importante de uma aliança vinculativa inicial e continua a 
ser importante durante todo o tratamento. O clima emocional estabelecido pelo 
terapeuta nas primeiras sessões influencia bastante o resto do tratamento. 
 
68 
 
A criação de um ambiente acolhedor revele-se fulcral para ajudar os pacientes 
a acederem e a concentrarem-se nas sensações dolorosas. No início do tratamento, 
os terapeutas aceitam as experiências dos clientes como são apresentadas, não 
colocando em causa o seu ponto de vista nem sugerindo respostas alternativas 
(Greenberg, 2007). 
Em todas as sessões terapêuticas é importante ajudar os clientes a validarem 
o que sentem para que possam revelar a profundidade e a extensão das suas 
sensações sem medo da crítica ou de serem envergonhados. 
A empatia e a compaixão são antídotos para a vergonha, e uma aceitação 
genuína assegura que o terapeuta não embaraça o cliente (Greenberg & Paivio, 1997; 
Wheeler, 1996 cit in Greenberg, 2007). Os terapeutas não devem transmitir a 
mensagem de que a sensação dos clientes tem de modificar-se, ou que as suas 
sensações são inválidas. Deste modo, devem ajudar o cliente com as suas sensações 
e compreensões facilitando-lhes uma auto- revelação. Se os clientes revelam 
aspectos vulneráveis das suas personalidades subjetivas têm de sentir que estão a 
ser compreendidos, sem serem julgados. 
A confiança e o suporte que se desenvolve entre os participantes ajudam o 
cliente a compartilhar aspectos dolorosos da sua experiência. O processo de se 
revelar a si mesmo exige compreensão e outras contribuições sustentadoras para o 
desenvolvimento de um vínculo terapêutico, que facilita e realça a importância de um 
autoconhecimento. A vinculação é fortalecida quando os clientes começam a ficar 
mais conscientes e experimentam o alívio e os benefícios de explorar a sua própria 
experiência (Greenberg, 2007). 
Além do fornecimento de um clima emocional seguro e responsivo, ajustado 
para as sensações dos pacientes, os terapeutas devem facilitar tipos diferentes de 
processamento e também intervenções específicas que foram encontradas para 
ajudar a resolver determinados problemas afetivo-cognitivos: por exemplo, direção da 
atenção para dentro quando o cliente é externo, promoção de diálogos entre as duas 
partes para facilitar a integração, fornecendo uma visão mais abrangente do outro, 
concentrando-se num sentido pouco nítido, abrindo espaço para promover uma 
compreensão de reações problemáticas (Greenberg, Rice & Elliott, 1993 cit in 
Greenberg, 2007). 
 
69 
 
6.5 Resistência 
A discordância, resistência ou a falta de progresso na terapia podem ser 
entendidas como resultado de estratégias e papéis que a paciente ativa numa 
tentativa de afirmar esquemas pessoais, de evitar perdas posteriores e de defender-
se a si próprio (Leahy, 2001, 2003 cit in Leahy, 2007). Aqui, a assumpção é a de que 
os pacientes estão a tentar proteger-se de danos subsequentes, de desapontamentos, 
do criticismo, ou o que procuram são resultados desejados (e.g. validação, 
legitimidade, sanção moral) pelo terapeuta. Identificamos sete modelos comuns de 
resistência que interferem no processo (Leahy, 2007). 
6.6 Resistência de validação 
O paciente fica preso ao foco exclusivo na validação da dor. O paciente pode 
dar sugestões para uma ação alternativa ou pensar como um inválido: “Não entende 
como me sinto mal”. Lacunas na validação levam a um agravamento de queixas e do 
sofrimento até à obtenção da mesma. Os pacientes podem ter “regras” únicas de auto 
anulação para a validação, tais como “Apenas pode validar-me se concordar que isso 
não é solução”. Potenciais conflitos entre o terapeuta e o paciente podem surgir 
quando o primeiro se torna orientador de tarefas e presencia a validação a interferir 
com objetivos importantes. 
As intervenções para a resistência à validação abrangem, por um lado, o 
reconhecimento da necessidade de validação e, por outro, a divulgação ao paciente 
de que a terapia envolve um dilema – ambas validam a dor e encorajam a mudança – 
e que o paciente pode usar estratégias de auto anulação para escolher a validação 
(e.g. lamentações, catastrofização ou retirar-se) (Leahy, 2001 cit in Leahy, 2007). 
6.7 Resistência da vítima 
O paciente acredita que a sua identidade é definida apenas por ser uma vítima, 
não podendo fazer nada para mudar as coisas, pois ele não é a causa do seu 
problema. O sujeito fica preso a este papel que tem regras específicas para que a 
mudança aconteça: “As outras pessoas pediram desculpa e recompensaram. Assim 
é que consigo obter melhor”. 
 
70 
 
Os esforços que conduzem o paciente em direção a uma mudança individual 
apenas o levam a percepcionar o terapeuta como outro vitimador malicioso. As 
intervenções úteis englobam o reconhecimento da legitimidade das queixas do 
paciente e de que ele é de facto uma vítima. Contudo, pode autorizar-se a tomar em 
consideração objetivos pessoais e recursos disponíveis (Leahy, 2001 cit in Leahy, 
2007). 
6.8Resistência moral 
Nesta situação, o paciente acredita que ao mudar pode correr o risco de violar 
os seus padrões morais ou éticos. Especificamente, observa-se essa ideia no caso 
dos obsessivo- compulsivos ou nos pacientes perfeccionistas, os quais acreditam que 
o seu sentido de responsabilidade e o medo de cometerem erros estão baseados num 
código moral. Deste modo, o terapeuta que encoraja o paciente a abandonar as suas 
necessidades de perfeição é visto como um facilitador de qualidades irresponsáveis e 
repreensíveis no comportamento. 
O terapeuta pode ajudar o paciente a reconhecer que isso é absolutista e que 
o perfeccionismo viola um código de moral universal do enaltecimento da dignidade 
humana, não assegurando a justiça. Assim, o terapeuta não pode rejeitar a 
“resistência moral”, mas, de preferência, tem de implementar necessidades morais 
mais “racionais” e “sensatas” que reconheçam as diferenças humanas e as urgências 
(Leahy, 2001; Nussbaum, 2005; Rawls, 2001 cit in Leahy, 2007). 
6.9 Resistência esquemática 
Neste sentido, os esquemas pessoais do paciente limitam a mudança, uma vez 
que este possui um desequilíbrio confirmado em exames anteriores. Assim, o 
presente e o futuro acarretam evidências de que os esquemas pessoais mal 
adaptativos são válidos. Por exemplo, o paciente que se sente sem esperança, 
possuindo apenas experiências passadas de inaptidão e de insucesso, vai ver a vida, 
primariamente, em termos de letargia, em que o futuro será simplesmente 
desagradável. 
 
71 
 
Esta visão negativa “justifica” o consequente evitamento e a procrastinação. O 
paciente responde às sugestões do terapeuta, explicando: “Você não faz nada de 
concreto. 
 Estou realmente sem soluções” (Gilbert & Irons, 2005 cit in Leahy, 2007). 
Neste caso, o terapeuta pode utilizar técnicas para modificar os esquemas 
persistentes, procurando examinar a origem dos mesmos, desenvolvendo esquemas 
alternativos de adaptação e experimentando estes últimos contra os primeiros (Leahy, 
2001; Leahy, Beck & Beck, 2005; Young, Klosko & Weishaar, 2003 cit in Leahy, 2007). 
6.10 Autoconsciência 
Todos gostamos de acreditar que existe alguma habilidade predita na vida – a 
qual é uma razão do porquê de os esquemas serem “preservadores” na natureza. Um 
tipo particular de auto- consciência na resistência é a tendência para justificar as 
decisões passadas de insucesso – um processo conhecido como “custos ausentes”. 
Nesta situação, o paciente recusa-se a caminhar sobre uma corda de obrigações, pois 
já se encontra demasiado rodeado delas (no seu insucesso). “Não posso abandonar 
pois já despendi demasiado tempo nisto”. 
 Desde que o terapeuta não tenha cometido enganos anteriores para se 
justificar, pode ser difícil para ele compreender o quão complicado é para o paciente 
abandonar a anterior obrigação que só provou ser um “custo ausente”. As 
intervenções para modificar a obrigação de custos ausentes incluem a rejeição da 
obrigação enquanto oportunidade para novas recompensas. Apenas deve existir a 
obrigação de ter uma opinião, de ter um amigo e de poder começar de novo (Leahy, 
2001, 2004 cit in Leahy, 2007). 
6.11 Risco aversão 
Todas as mudanças envolvem um progresso incerto. Quando não são 
conhecidas, espera-se que tenham uma maior variabilidade do que quando o são. As 
resistências pessoais tornam-se, muitas vezes, uma estratégia de risco de tomada de 
decisão. Esta requer a pesquisa de muita informação, a concentração seletiva na 
possibilidade da existência de resultados negativos e, por consequência, na sua 
 
72 
 
amplitude, um elevado nível de atenção no grau de desapontamento e nos baixos 
valores estimados das vantagens positivas: 
“Preciso realmente de saber mais porque isso pode ser verdadeiramente 
terrível se não se realizar e eu vou sentir-me culpado. E para quê? Será que vou gostar 
se isso acontecer da maneira que sugere? ” Os indivíduos que recorrem a estratégias 
de risco/adversas têm mais probabilidade de se tornarem depressivos, ansiosos, 
preocupados, ou de pontuarem mais na Escala Multiaxial de Millon no evitamento, na 
dependência ou na perturbação da personalidade borderline (Leahy, 2002, 2003, 
2005; Leahy & Napolitano, 2005 cit in Leahy, 2007). 
Estes sujeitos utilizam estratégias de reafirmação-pesquisa, de espera, de 
interrupção brusca, de abandono “enquanto está à frente”, desvalorizando as 
mudanças positivas no sentido de evitar as “expectativas que estão adiante”. Entre o 
terapeuta e o paciente podem surgir conflitos quando as sugestões do primeiro para 
a ativação e mudança do comportamento são vistas como apresentando riscos 
inaceitáveis para o paciente, que já está suficientemente perdido. 
 As intervenções incluem a avaliação de pontos de vistas alternativos mais 
flexíveis no cálculo de riscos moderados e das oportunidades para a mudança, no 
sentido de evitar a “paragem” ou a interrupção da terapia demasiado cedo (Leahy, 
2001, 2004 cit in Leahy, 2007). É notável verificar que a chave para a solução do 
problema é a exploração do “medo da mudança” e ter em consideração estes tipos de 
resistência enquanto estratégias de segurança (Gilbert, 2007 cit in Leahy, 2007). 
6.12 Autosistema de desvantagens 
Alguns pacientes vêm para a terapia evidenciando tendências aparentes de 
bem-sucedidos, mas com uma história de comportamentos limitados, destruídos. 
Muitas vezes chamados de “masoquistas” ou “auto anuladores”, estes pacientes 
resistem, abertamente, a esforços para mudar ou fazem meias tentativas de 
encorajamento que estão condenadas a falhar. Nalguns casos, esta estratégia pode 
refletir uma tentativa de ocultar a pessoa avaliada no seu melhor comportamento. 
 
 
 
73 
 
É mais plausível falhar quando o esforço é limitado, uma vez que se pode dizer 
que “não me esforcei verdadeiramente” ou que “não tentei realmente”, preservando-
se, assim, a auto-estima do sujeito acerca do que este pode fazer de acordo com as 
suas melhores condições. 
O terapeuta pode ajudar o paciente, examinando os modelos do auto-sistema 
de desvantagens, avaliando as ideias globais de vergonha acerca do “insucesso” e 
ajudando o paciente a fazer um progresso lento para evitar “colocar-se à frente de si 
mesmo” (Leahy, 2001 cit in Leahy, 2007). 
Devemos ter estas sete dimensões de resistência em mente para, mais tarde, 
explorarmos os esquemas incompatíveis na terapia. Por exemplo, o paciente que 
possua resistência de validação ou de vítima, sentir-se-á especialmente frustrado com 
o terapeuta se este pedir padrões que revelem algumas emoções de “chorão” ou 
“complacente”. Deste modo, algumas dimensões de resistência podem ser 
aumentadas pela contratransferência do terapeuta (Leahy, 2007). 
6.13 Competências do terapeuta 
A medição e avaliação da competência terapêutica na psicoterapia têm 
recebido uma atenção cada vez maior nas duas últimas décadas, conjuntamente com 
o estabelecimento de terapias empiricamente testadas (Barlow, 1994, 1996; Nathan 
& Norman & Gorman, 1998; Kendall & Chambless, 1998 cit in Kazantzis, 2003). 
É pertinente referir que os tratamentos estandardizados oferecem vantagens 
ao estudo do resultado terapêutico, nomeadamente o aumento da validade interna, a 
distinção clara entre condições terapêuticas e o aumento da capacidade de replicar 
descobertas (Luborsky & DeRubeis, 1984 cit in Kazantzis, 2003). 
O objetivo principal de examinar a competência terapêutica é providenciar 
informação pertinente sobre os preditores de resultados terapêuticos de sucesso 
(Dobson & Kazantzis, 2003 cit in Kazantzis, 2003). 
Conhecer a importância da competência e habilidade terapêuticas no resultado 
da terapia tem implicaçõesfundamentais para a prática terapêutica e para o treino dos 
seus praticantes (Shaw & Dobson, 1988 cit in Kazantzis, 2003). E, também, podem 
ser usadas para monitorizar a prática clínica diária e, com feedback e supervisão, 
serem úteis no ajustamento do tratamento (Kazantzis, 2003). 
 
74 
 
Historicamente, tem havido pouca concordância relativamente à definição de 
competência terapêutica. A visão tradicional de competência refere-se ao profissional 
treinado com a experiência necessária, que age segundo a máxima “Uma vez 
competente, sempre competente” (Shaw & Dobson, 1988 cit in Kazantzis, 2003). 
Esta posição defende a captação do potencial e da habilidade do terapeuta, 
esperando uma exibição altamente competente durante um longo período de meses 
ou anos (Kazantzis, 2003). 
Uma definição comum assenta na variação da competência com o tempo e com 
a situação, havendo muitos fatores que influenciam a competência do terapeuta ao 
fazer terapia (Moncher & Prinz, 1991 cit in Kazantzis, 2003). Esta visão sugere que a 
competência é melhor encarada como um “estado” variável e que a habilidade do 
terapeuta muda ao longo do tempo, dos clientes e estados do tratamento. Por isso 
mesmo, defende-se que mesmo um terapeuta experiente requer supervisão 
continuada e avaliação da competência na prática da Terapia Cognitivo-
Comportamental (Kazantzis, 2003). 
É importante salientar que as primeiras definições de competência terapêutica 
concebiam o terapeuta como conhecedor e capacitado para usar todas as abordagens 
terapêuticas (Watters, Rubenstein & Bellissimo, 1980 cit in Kazantzis, 2003). Outras 
definições enfatizaram a habilidade do terapeuta para envolver o cliente numa relação 
terapêutica construtiva (e.g. Cooper, 1975; Strupp, 1986 cit in Kazantzis, 2003). As 
definições multidimensionais e mais extensas focaram a capacidade do terapeuta 
para desenvolver uma conceptualização e um plano de tratamento consistente com a 
abordagem teórica (Schaffer, 1982 cit in Kazantzis, 2003). 
A Associação Americana de Psicologia adoptou uma só definição 
multidimensional, mas expandiu o domínio da competência de modo a incluir o 
envolvimento do terapeuta na administração e supervisão clínicas, e o enaltecimento 
da competência supervisionada (Bent, 1992 cit in Kazantzis, 2003). 
Uma definição contemporânea é a de que a competência terapêutica refere-se 
ao nível em que um determinado tratamento é conduzido em concordância com as 
instruções e intenções do respectivo manual de tratamento (Carroll et al., 2000; 
McGlinchey & Dobson, s.d. cit in Kazantzis, 2003). 
 
75 
 
Contudo, há a suposição de que o terapeuta cognitivo-comportamental será 
capaz de ajustar um tratamento estandardizado, baseando-se na sua 
conceptualização do caso para o cliente (Persons, 1991 cit in Kazantzis, 2003). 
As definições de competência terapêutica levam consigo a noção implícita de 
fidelidade terapêutica, conceito aplicado a dois domínios relacionados da pesquisa da 
Terapia Cognitivo- Comportamental, nomeadamente na avaliação da fidelidade e na 
diferenciação entre terapias (Moncher & Prinz, 1991; Waltz et al., 1993 cit in Kazantzis, 
2003). A fidelidade diz respeito ao grau com que o terapeuta providencia a terapia de 
acordo com o modelo teórico e com regras técnicas prescritas, e a diferenciação 
refere-se ao grau em que as intervenções terapêuticas são distintas de outras terapias 
(Shaw & Dobson, 1988 cit in Kazantzis, 2003). 
 Isto é, a fidelidade terapêutica é monitorizada para assegurar que o tratamento 
dado é tão próximo quanto possível do tratamento pretendido, sem ser “contaminado” 
por outras abordagens (Kazdin, 1996 cit in Kazantzis, 2003). Pode ser discutido que 
há uma confusão entre fidelidade e competência terapêuticas, ou seja, a fidelidade 
terapêutica a um manual de tratamento é necessária, mas suficientemente estudada 
para a competência terapêutica (Crits-Christoph & Mintz, 1991; Waltz et al., 1993 cit 
in Kazantzis, 2003). 
Esta confusão mantém-se devido à elevada correlação entre medidas de 
fidelidade e competência (e.g. Barber & Crits-Christoph, 1996; Barber, Mercer, 
Krakauer & Calvo, 1996; Carroll et al., 2000 cit in Kazantzis, 2003), ao facto dos 
investigadores definirem fidelidade como competência (Shoenwald, Henggeler, 
Brondino & Rowland, 2000 cit in Kazantzis, 2003) e, ainda, ao definirem competência 
e fidelidade como componentes separados da capacidade terapêutica (Weisman et 
al., 1998 cit in Kazantzis, 2003). 
Tomados conjuntamente, a literatura sugere que um terapeuta competente 
possui as seguintes características: a) fidelidade a uma base teórica e conceptual que 
guia as intervenções terapêuticas; b) capacidade para envolver o cliente numa relação 
terapêutica construtiva; c) capacidade para usar o tratamento designado de modo a 
promover as condições necessárias para mudar de acordo com o respectivo manual; 
d) conhecimento de quando se deve ou não aplicar intervenções terapêuticas (Yeaton 
& Sechrest, 1981 cit in Kazantzis, 2003). 
 
76 
 
Na verdade, uma definição operacional do conceito deveria possuir um esboço 
claro dos comportamentos, técnicas e estratégias necessárias ao modelo teórico, 
assim como uma estandardização da aplicação destes aspectos (Kazantzis, 2003). 
No que concerne à medição da competência terapêutica na Terapia Cognitivo- 
Comportamental, a Escala da Terapia Cognitiva (CTS; Young & Beck, 1980 cit in 
Kazantzis, 2003) foi o primeiro meio sistemático. 
 Depois, a competência terapêutica recebeu mais atenção, no Instituto Nacional 
de Saúde Mental, no programa de investigação sobre o tratamento da depressão 
(Elkin, Parloff, Hadley & Autry, 1985 cit in Kazantzis, 2003), que avaliava a eficácia da 
Terapia Cognitivo-Comportamental, da terapia interpessoal e da medicação para a 
Depressão Major. 
Neste âmbito, foi desenvolvido um novo instrumento: a Escala de Avaliação do 
Estudo Colaborativo da Psicoterapia (CSPRS; Hollon et al., 1984; Hollon, Evans, Elkin 
& Lowery, 1984 cit in Kazantzis, 2003). De fato, as duas escalas mais usadas para 
medir a competência e a fidelidade terapêuticas são a CTS e a CSPRS, em que a 
primeira mede a competência terapêutica enquanto a segunda mede a fidelidade 
terapêutica ao tratamento (concordância). É pertinente referir que nenhum dos 
instrumentos examina as duas, nem foi extensamente validado. 
E, para além de avaliarem os terapeutas durante o treino e a fidelidade total ao 
tratamento, a CTS e a CSPRS têm sido usadas para predizer resultados da Terapia 
Cognitivo-Comportamental (Kazantzis, 2003). 
Deste modo, têm sido realizadas investigações com o objetivo de examinar 
de que modo a competência terapêutica pode predizer resultados da Terapia 
Cognitivo-Comportamental. A premissa básica das investigações é que a 
competência terapêutica está relacionada com o resultado do tratamento e 
que, quando esta alcança um certo critério, através de treino e supervisão, os 
resultados melhoram. E, de facto, a investigação empírica sugere que o papel 
da competência terapêutica é importante na produção de resultados 
terapêuticos positivos na Terapia Cognitivo-Comportamental. Contudo, não 
está claro o modo como generalizar esta descoberta ao complexo ambiente 
de prática clínica diária (Kazantzis, 2003,2007; apud Portela C. 2008). 
Por fim, fica a ressalva de que é importante assegurar que os resultados da 
competência podem ser revistos na sucessão de várias sessões terapêuticas. Ao 
mesmo tempo, é fundamental certificar-se que outros fatores contextuais, tais como a 
qualidade da relação terapêutica, não influenciam ou inflacionam indevidamente os 
resultados da competência (Foley, O’Malley, Rounsaville, Prusoff& Weissman, 1987 
 
77 
 
cit in Kazantzis, 2003). Assim, propõe-se uma examinação mais completa dos fatores 
contextuais, bem como pesquisa sobre como esses fatores podem influenciar os 
resultados da competência (Kazantzis, 2003). 
6.14 Micro competências 
Os terapeutas devem ser competentes a alguns níveis de micro competências 
e existe suporte empírico que mostra que este facto tem um maior impacto nos 
resultados (Ivey & Ivey, 2003; Feltham & Horton, 2006 cit in Gilbert & Leahy, 2007). 
Na relação terapêutica, o terapeuta passará por várias fases, que serão facilitadas 
pelas suas micro competências e que também funcionarão como agentes suavizadora 
da passagem entre elas. De referir, ainda, que as micro- competências envolvem uma 
mistura de questões que convidam o paciente a discutir, a explorar e a narrar a sua 
história. 
As comunicações não-verbais ajudam o paciente a sentir-se seguro e não 
ameaçado. Gilbert (2000, cit in Gilbert & Leahy, 2007) sugere dez fases: 
 Desenvolvimento da comunicação; 
 Exploração de possíveis medos, preocupações e expectativas sobre a 
ida à consulta; 
 Partilha da compreensão e significado; 
 Exploração da história e dedução dos temas-chave e estilos emotivos 
cognitivos: (a) fazer uma perspectiva histórica; (b) trabalhar no “aqui” e 
“agora”; 
 Partilha de objetivos terapêuticos; 
 Explicação da terapia racional; 
 Movimento para conceptualizações alternativas; 
 Monitorização dos sentimentos e cognições internas, e desempenho de 
papéis; 
 Trabalho de casa e desempenho de papéis alternativos. 
 Aumento da consciencialização da relação entre 
pensamentos, sentimentos e comportamento social; 
 
 
 
78 
 
6.15 Capacidades 
O modelo cognitivo de desenvolvimento de capacidades do terapeuta deriva de 
literatura teórica e empírica, particularmente do trabalho de Binder e Skovholt (s.d., cit 
in Bennett-Levy, 2006). Este modelo permite, pela primeira vez, responder a questões 
como “Quais são os mecanismos através dos quais os novos terapeutas aprendem”, 
“Através de que mecanismos os terapeutas experientes aprendem? ”, “Que 
capacidades são mais treináveis e quais as mais relativas e imutáveis? ”. 
Shaw e Bobson (1988, cit in Bennett-Levy, 2006) identificam quatro 
características que um terapeuta competente deve ter, a referir, boa base teórica e 
conceptual para gerir as interações, grande capacidade de memória para se recordar 
dos problemas dos pacientes, saber usar várias técnicas de intervenção para 
promover as mudanças desejáveis no comportamento do paciente, possuir o 
conhecimento de quando devem ser aplicadas, ou não, as intervenções. Cleghorn e 
Levin (1983, cit in Bennett-Levy, 2006) sugerem que existem três elementos chave: 
capacidade conceptual, executável e perceptiva. 
Binder (1999, cit in Bennett-Levy, 2006) defende que um terapeuta competente 
é aquele que possui uma grande abrangência de situações/ações. O modelo baseia-
se em três sistemas (declarativo, procedimental, reflexivo) e representa as relações 
entre eles. O Sistema Declarativo é constituído por três elementos: conhecimento 
conceptual (refere-se a conhecimentos teóricos); interpessoal (o terapeuta deve estar 
orientado para uma aprendizagem particular, apresentando pequenas capacidades, 
quer de projeção, quer de resistência); e técnico (refere-se ao conhecimento 
específico de uma terapia). 
 Este sistema entende, primeiramente, “o porquê” das capacidades e a 
aplicação delas na prática, que devem ser traduzidas em capacidades procedimentais 
(Bennett-Levy, 2006). 
É no Sistema Procedimental que as incertezas declarativas se tornam 
atualizadas na prática e são redefinidas. Os inputs e outputs deste sistema são as 
comunicações entre o cliente e o terapeuta. Neste modelo, o terapeuta aplica a sua 
capacidade interpessoal perceptiva na comunicação com o cliente. Esta informação é 
processada através de dois sistemas: auto- esquema enquanto pessoa e o auto 
esquema enquanto terapeuta. 
 
79 
 
A capacidade interpessoal e perceptiva ocorre quando os terapeutas estão a 
trabalhar com os pacientes, existindo dois elementos básicos de terapia. No input, 
usam as capacidades interpessoais e perceptivas para terem acesso aos sentimentos 
e reações dos clientes. Como output, entende-se as respostas verbais ou não verbais 
que facilitam a comunicação terapêutica. A capacidade interpessoal e perceptiva inclui 
a sobreposição de três atributos: empatia, mindfulness e reflexão sobre a ação. 
A empatia denota uma instância emocional ou rumo à atitude do cliente que 
permite ao terapeuta “operar dentro da moldura de referência do cliente… ouvindo o 
interior como «eu sou outro»… sendo atenuadas as nuances de sentimentos e 
significados…” (Greenberg & Elliot, 1997, pp. 167-168 cit in Bennett-Levy, 2006). 
O mindfulness (Martins, 1997; Safran & Muran, 2000 cit in Bennett-Levy, 2006) 
patenteia a qualidade da atenção. Em contexto terapêutico, Martins tem definido 
mindfulness como “um estado psicológico livre que ocorre quando a atenção se 
encontra flexível e tranquila, sem estar ligada a um ponto de vista particular” (Martins, 
1997, pp. 291-192 cit in Bennett-Levy, 2006). 
O terceiro atributo, reflexão sobre a ação (Schon, 1983, 1987 cit in Bennett-
Levy, 2006), manifesta a capacidade de um perito processar informações complexas 
e deriva de um plano apropriado de ação (Bennett-Levy, 2006). 
O auto esquema refere-se à pessoa do terapeuta: conhecimentos, atitudes, 
capacidades e atributos pessoais. É idiossincrático e está relacionado com a história 
pessoal. Isto poderia incluir experiências pessoais pobres na superação da 
escolaridade ou privação económica, atitude face à deficiência, experiência de luto, 
compaixão, tolerância e ambiguidade, perseverança (Bennett- Levy, 2006). Algumas 
atitudes do terapeuta são derivadas de um conhecimento tácito, atitudes 
estabelecidas de longa data antes da formação do terapeuta. Outras são 
desenvolvidas por um resultado de aprendizagens (Bennett-Levy, 2006). 
As capacidades relacionais interpessoais são derivadas das atitudes do 
terapeuta, conhecimento declarativo interpessoal e existência de auto esquemas. Por 
outro lado, as capacidades conceptuais referem-se à implementação do 
conhecimento conceptual declarativo e à conceptualização do desenvolvimento com 
o paciente. Ainda, as capacidades técnicas reportam-se à implementação de 
conhecimento terapêutico específico (Bennett-Levy, 2006). 
 
80 
 
O papel do Sistema Reflexivo é comparado à análise do passado, experiência 
presente ou futura, consistindo em comparar a informação armazenada do passado 
identificando um plano de ação como necessário. Na atenção centrada, destaca-se a 
reflexão que requer uma atenção centrada. 
 Inicialmente, esta é simulada de vários modos: por um desencontro entre as 
expectativas e a realidade; por curiosidade ou por questões úteis; por um processo de 
aprendizagem formal como a prática reflexiva (Bolton, 2001 cit in Bennett-Levy, 2006); 
ou ação de pesquisa (Kemmis & McTaggart, 2000 cit in Bennett-Levy, 2006). 
O Sistema Reflexivo compromete-se a uma série de operações cognitivas a fim 
de analisar, expandir, comparar e avaliar o conteúdo da consciência. A título 
exemplificativo, podem-se referir as sequências de pensamentos, o 
autoquestionamento persistente, a análise lógica e resolução de problemas. Em 
particular, o autoquestionamento persistente parece ser fulcral para o processo de 
reflexão (Bennett-Levy, 2003 cit in Bennett-Levy, 2006). 
6.16 Competências terapêuticas na condução da terapia cognitiva 
Quem trabalhou para ser um bom terapeuta cognitivo, pode confirmar que é umtrabalho bastante difícil. Um olhar de relance na Escala da Taxa de Terapia Cognitiva 
(CTRS: Young & Beck, 1980 cit in Newman, 2007) revela que é usada para avaliar a 
competência de terapeutas cognitivos no seu trabalho com um determinado cliente 
numa única sessão. 
 Demonstra-se que muitos dos onze itens de critério-chave são processuais, 
como colocação de uma agenda, fazendo perguntas de descoberta guiadas, 
concentrar em cognições-chave e comportamentos, aplicando técnicas 
comportamentais cognitivas, e revendo e tarefa. Isto não significa que o aspecto 
interpessoal da aliança terapêutica seja contemplado pelo CTRS. Há itens que 
avaliam especificamente as capacidades interpessoais do terapeuta, como a 
‘compreensão’, a ‘eficácia’ e a ‘colaboração’. Além disso, os itens processuais, muitas 
vezes, são cotados pelo grau em que são feitos como a autoconfiança interpessoal. 
 
 
 
81 
 
A capacidade interpessoal é necessária, mas não suficiente para o terapeuta 
produzir uma sessão de terapia cognitiva. Se o terapeuta não utiliza os componentes 
processuais da terapia cognitiva, o tratamento será diluído, o cliente não aprenderá a 
automonitorização requerida nem as habilidades de auto modificação que pressagiam 
um bom resultado e manutenção do mesmo. 
Simultaneamente, cada um pode argumentar que a parte da competência do 
terapeuta está na capacidade de ficar concentrado nas tarefas importantes, como 
ordenar intervenções apropriadas, juntando as expressões de medo, raiva, e/ou apatia 
dos clientes (Newman, 2007). 
6.17 Sequência interpessoal 
Apesar do recente aumento de estudos que exploram a relação terapêutica na 
terapia cognitiva, estes ultrapassam bastante o número de estudos sobre um amplo 
campo terapêutico. Roth e Fonagy (1996, cit in Waddington, 2002) descobriram cem 
relatórios de investigação da aliança terapêutica entre 1976 e 1996 e reclamam a 
evidência de uma “relação robusta entre a aliança e o resultado”. Similarmente, na 
sua revisão, Horvarth e Luborsky (1993, cit in Waddington, 2002) concluíram que a 
aliança terapêutica tem sido demonstrada para predizer os efeitos de diversas terapias 
(incluindo terapia cognitiva, terapia psicodinâmica, terapia da gestalt), efeitos das 
medidas (incluindo uso de droga, ajustamento social, melhoria global, remissão da 
depressão) e tratamento cumprido (de quatro a cinquenta sessões). 
Contudo, tem havido alguma especulação que a terapia cognitiva pode ser 
menos influenciada pela qualidade da relação terapêutica (Roth & Fonagy, 1996 cit in 
Waddington, 2002). Estudos recentes sobre a terapia cognitiva apontam revisões para 
explorar o papel da relação terapêutica na terapia cognitiva. 
Estas não se destinam a explorar para fornecer uma lista exaustiva, mas sim a 
apresentar alguns dos estudos mais úteis no domínio da investigação 
(Waddington,2002). 
Vários estudos têm visto a relação terapêutica em sessões individuais. 
Persons e Burns (1985, cit in Waddington, 2002) analisam as sessões 
individuais e encontraram que a relação terapêutica e as crenças reduzidas 
nos pensamentos automáticos têm tido um impacto independente e aditivo 
na final e numa sessão de humor. Contudo, como os clientes fornecem 
avaliações da relação terapêutica, no final da sessão, é possível que as 
mudanças nos pensamentos automáticos possam causar mudanças de 
 
82 
 
humor, que, por sua vez, conduzam a índices automáticos da relação 
(Waddington, 2002; apud Portela C. 2008). 
Raue, Goldfried e Barkham (1997, cit in Waddington, 2002) estudaram sessões 
simples de terapia cognitiva e de terapia psicodinâmica interpessoal. Altos níveis de 
aliança foram associados a terapias, onde se verificava profundidade e tranquilidade 
da sessão, a clientes com melhorada má disposição e ao impacto das sessões. 
Contudo, é impossível determinar qual destas variáveis é a causal (Waddington, 
2002). 
Num estudo com 61 clientes, Tang e De Rubeis (1999, cit in Waddington, 2002) 
estudaram sessões envolvendo um rápido progresso na variação da depressão. Os 
investigadores observaram elevadas mudanças cognitivas na sessão precedente ao 
progresso e elevadas variações na aliança na sessão seguinte ao progresso. Estes 
factos sugerem um papel causal da mudança cognitiva em relação a ambas as 
alianças e respectivas consequências. Contudo, os autores não comentam a variação 
da aliança na sessão que precede o progresso (Waddington, 2002). 
Os estudos elencados sugerem uma associação entre a relação terapêutica e 
o progresso durante sessões únicas. Contudo, a causalidade não é clara e o estudo 
de sessões únicas não pode dar uma explicação óbvia sobre o que acontece durante 
a terapia. Dois estudos com 79 sujeitos exploraram o papel da relação terapêutica 
numa terapia cognitiva e psicodinâmica interpessoal (Stiles, Agnew-Davies, Hardy, 
Barkham & Shapiro, 1998 cit in Waddington, 2002). 
Os autores encontraram uma associação entre variações da aliança de 
qualidade inferior em todas as sessões e resultados. Esta associação era mais forte 
na terapia cognitiva do que na terapia psicodinâmica interpessoal. 
 Os autores admitem a dificuldade em determinar qual dos resultados reflecte 
um papel causal da relação terapêutica ou, simplesmente, a correlação entre o 
progresso na depressão e as elevadas variações da relação. Similarmente, Gaston, 
Thompson, Gallagher, Cournoyer e Gagnon (1998, cit in Waddington, 2002) 
estudaram 120 sujeitos deprimidos de certa idade e verificaram que o nível da 
depressão na pré-terapia e a aliança estabelecida através de cinco, dez, quinze 
sessões, predizem resultados. Contudo, a precedência temporal da ralação 
terapêutica e o seu possível papel causal, são, de novo, inconclusivos (Waddington, 
2002). 
 
83 
 
DeRubeis e Feeley (1990, cit in Waddington, 2002) estudaram 25 indivíduos 
que receberam doze sessões estruturadas de terapia cognitiva para a depressão. Os 
autores descobriram que o uso de técnicas de terapia cognitiva prediz resultados, 
mas a relação terapêutica não, sugerindo, portanto, que esta não detém um papel 
causal no que diz respeito aos resultados. 
Todavia, vários estudos dão suporte à ideia de que a relação terapêutica causa 
impacto nos resultados mais do que a sua associação com intervenções técnicas. 
Burns e Nolen- Hoeksema (1992, cit in Waddington, 2002) concluíram que os clientes 
que tinham terapias mais afetivas e empáticas obtiveram melhores resultados. Fatores 
técnicos e relacionais (força da aliança) têm efeitos independentes e adicionais nos 
resultados (Waddington, 2002). 
Num periódico recente, Feeley, DeRubeis e Gelfand (1999, cit in Waddington, 
2002) argumentaram que, quando a sequenciação temporal das variações do 
processo toma em consideração a relação terapêutica, emerge nada mais do que um 
derivado da alteração do sintoma (Waddington, 2002). 
Muran, Gorman, Safran e Twining (1995, cit in Waddington, 2002) estudaram 
vinte sessões de terapia cognitiva com 53 clientes deprimidos e ansiosos. Os autores 
observaram que a qualidade da relação terapêutica e da mudança cognitiva é preditiva 
de resultados. A relação durante a primeira meia-hora da terapia é mais preditiva de 
resultados do que a relação durante a segunda meia-hora (Waddington, 2002). 
Krupnick et al. (1996, cit in Waddington, 2002) exploraram a contribuição da 
aliança terapêutica nos resultados da terapia cognitivo-comportamental, na terapia 
interpessoal e na medicação antidepressiva com administração clínica, em clientes 
depressivos. As contribuições dos pacientes para a aliança terapêutica estabelecida, 
na terceira sessão, foram associadas a resultados na sessão 16-20 em cada 
condição. 
Isso aumenta a possibilidadede a relação terapêutica ter um impacto não 
apenas nos resultados das terapias psicológicas, incluindo a terapia cognitivo-
comportamental, mas também nos resultados da farmacoterapia. Os investigadores 
sugerem que a associação entre a aliança terapêutica e o resultado não pode ser 
inteiramente atribuída às características principais da terapia (Waddington, 2002). 
Rector, Zuroff e Segal (1999, cit in Waddington, 2002) estudaram o papel da 
mudança cognitiva e a relação terapêutica em vinte sessões de terapia cognitiva em 
 
84 
 
pacientes com depressão e ansiedade. Os investigadores observaram que as 
cognições, no pré-tratamento, são preditivas de formação de aliança e que esta 
mesma prediz, simultaneamente, mudanças nas cognições. Uma interação entre a 
alteração cognitiva e a qualidade da aliança terapêutica parece evidente, mas a 
natureza desta interação não é clara. Os autores sugerem que uma boa relação 
terapêutica pode facilitar intervenções técnicas, as quais, por sua vez, causam 
mudanças cognitivas (Waddington, 2002). 
Outro estudo recente evidencia que, contrariamente ao que afirmava Feely et 
al. (1999, cit in Waddington, 2002), a relação terapêutica tem influência em 
determinados resultados. Hardy et al. (na imprensa) encontrou uma associação entre 
a perturbação de personalidade evitante e um resultado pobre na terapia cognitiva 
para a depressão, que é mediada pela relação terapêutica (Waddington, 2002). 
6.18 A empatia como facilitador da relação terapêutica 
Falcone tem investigado em diversos estudos a empatia como fator 
fundamental da relação terapêutica na terapia cognitivo-comportamental. Afirma que 
a empatia é a capacidade de compreender, de forma apurada, bem como de 
compartilhar ou considerar sentimentos, necessidades e perspectivas de alguém, 
expressando este entendimento de tal maneira que a outra pessoa se sinta 
compreendida e validada (Falcone et al, 2009). Ainda nesse contexto, refere que Carl 
Rogers define a empatia como a “capacidade de perceber o marco de referência 
interior da outra pessoa com os componentes emocionais que lhe pertencem, como 
se fosse essa pessoa, porém sem perder nunca a condição de como se”’ (citado por 
Falcone et al, 2007). 
Deve-se, então, compreender a empatia como um construto multidimensional, 
abrangendo componentes cognitivos, comportamentais e afetivos (Falcone, 2009; 
Falcone et al, 2008). O componente cognitivo da empatia caracteriza-se pela 
capacidade de compreender apuradamente a perspectiva e os sentimentos dos 
outros, por processos inferenciais, representações na memória ou colocando-se no 
lugar da outra pessoa, sem experimentar necessariamente os mesmos sentimentos 
dela. O componente comportamental está vinculado a aspectos verbais e não verbais 
do comportamento. Sendo fundamental para que a outra pessoa sinta-se realmente 
 
85 
 
compreendida e validada (Falcone et al, 2008), já que, algumas vezes, os sinais não 
verbais se sobressaem à comunicação verbal. 
Entretanto, o componente afetivo caracteriza-se pelo interesse genuíno de 
atender às necessidades da pessoa alvo, com sentimentos de compaixão, simpatia e 
preocupação com o seu bem-estar, sem que isso envolva experimentar os mesmos 
sentimentos da pessoa. Não sentindo o que a outra pessoa sente, mas entendendo o 
que é sentido (Falcone et al., 2007). 
A capacidade empática do terapeuta facilita a relação terapêutica que ocorre 
em duas etapas. Na primeira o terapeuta está envolvido em escutar e entender os 
sentimentos e pensamentos do paciente. Na segunda ele empaticamente comunica o 
que compreendeu. A compreensão empática diz respeito a prestar atenção e ouvir 
sensivelmente, enquanto que a comunicação empática está relacionada a expressar 
o sentimento, verbalizando ou não, de forma sensível. 
Nesses momentos devemos focar os sentimentos e pensamentos do paciente 
sem julgá-lo, descrevendo, explicando e validando esses sentimentos e pensamentos, 
promovendo então a auto aceitação e a autoafirmação (Falcone et al, 2007). 
Segundo Del Prette e Del Prette (2001), a comunicação é fundamental para 
transmitir ao outro a informação de que ele está sendo compreendido, de 
maneira verbal e não verbal. A comunicação empática tem a função de: 
 Validar o sentimento do outro; 
 Oferecer consolo como alívio da tensão; 
 Aumentar o vínculo, facilitando assim, o compartilhamento das 
emoções; 
 Oferecer uma comunicação intensificada com o objetivo de aumentar a 
autoestima do outro, bem como reduzir vergonha e culpa. 
Comportamentos verbais incluem a fala não avaliativa, enfoque no conteúdo 
da fala do outro, uso de perguntas esclarecedoras, paráfrase, síntese e a reflexão 
sobre os sentimentos relatados. 
Esses comportamentos devem vir acompanhados de outros não verbais, como 
o contato visual, a postura, os gestos associados, como, por exemplo, balançar a 
cabeça afirmativamente. 
Também devem ser acompanhados dos componentes paralinguísticos, como 
a entonação, fluência, pausas, timbre de voz e velocidade da fala. Neste contexto, a 
 
86 
 
empatia é uma habilidade específica do terapeuta e que pode ser apreendida, a 
compreensão dos significados da outra pessoa é realizada pela escuta reflexiva não, 
importando se esta tenha experienciado ou não uma vivência semelhante. A empatia 
terapêutica é fator que favorece a motivação para a mudança de comportamento 
(Miller & Rolnick, 2001). 
Cabe ainda ressaltar, que a capacidade empática pode ser aprendida, como 
sugere o estudo de Norfolk, Birdi e Walsh (2007), que investigaram o relacionamento 
médico-paciente, em um hospital geral com 37 alunos da faculdade de medicina. 
Estes receberam um treinamento para desenvolver habilidades em três dimensões 
afetivas (atitudes, confiança e motivação), havendo também um grupo controle que 
não recebeu o treinamento. Os que receberam o treinamento tiveram uma melhora 
significativamente maior no relacionamento com os seus pacientes. Já o grupo que 
não recebeu o treinamento registrou uma queda significativa na demonstração de 
engajamento junto ao paciente. 
No contexto da psicologia clínica, a empatia tem sido reconhecidamente 
importante, estando relacionada ao sucesso da terapia, enquanto que sua ausência é 
apontada como prejudicial ao vínculo terapeuta-paciente, ao tratamento e à 
autoestima do paciente. A empatia percebida pelos terapeutas nem sempre é aquela 
observada pelos pacientes, já que a demanda que leva cada um à terapia influi 
diretamente na percepção de se sentirem mais ou menos compreendidos pelos seus 
terapeutas (Falcone et al, 2007). 
Em relação à divergência entre a empatia percebida pelo terapeuta e a 
percebida pelo paciente, Falcone, Gil e Ferreira (2007) verificaram a frequência de 
verbalização empática entre dezesseis psicoterapeutas distribuídos em quatro grupos 
de diferentes abordagens: terapia centrada na pessoa, terapia cognitivo 
comportamental, Gestalt-terapia e a lacaniana. Cada terapeuta entrevistou a mesma 
cliente que apresentou a mesma queixa. O conteúdo foi avaliado por três juízes 
independentes e pela cliente. 
 De acordo com os juízes, foi constatado que o grupo de terapia centrada na 
pessoa revelou frequência de verbalizações empáticas significativamente superior à 
dos grupos de Gestalt-terapia e terapia lacaniana, mas não significantemente superior 
à do grupo de terapia cognitivo-comportamental. Já, com base na avaliação da 
paciente, a frequência do grupo de Gestalt-terapia foi superior à dos terapeutas das 
 
87 
 
três abordagens, seguida do grupo de terapia cognitivo-comportamental, o grupo de 
centrada na pessoa e o grupo de terapia lacaniana. Confirmando assim asdivergências entre a empatia percebida pelo terapeuta e pelo cliente. 
A empatia possui um valor curador, tornando os pacientes mais 
compreensíveis, saindo da posição de avaliação negativa, de rejeição ou 
desaprovação da própria experiência para uma posição de aceitação. 
 Estudos sobre a relação terapêutica eram negligenciados pelos profissionais 
cognitivo-comportamentais, mas isso não queria dizer que eles não eram calorosos e 
empáticos com seus pacientes. Já que o modelo proposto por Beck e colaboradores 
enfatiza um estilo colaborativo, incluindo empatia e calor humano, além do feedback 
que contribui para a construção de um bom vínculo na terapia, facilitando o processo 
de mudança do paciente (Falcone, 2004a). 
A interação empática não constitui o único modo de atuação na relação de 
ajuda, ela cumpre uma função facilitadora da relação terapêutica. Porém, 
verbalizações não empáticas podem acontecer, o que não diminui a qualidade da 
interação terapeuta-cliente (Falcone et aI, 2007). Em estudo, Falcone (2004a) refere 
que pacientes que possuem terapeutas mais calorosos e empáticos apresentam maior 
eficácia no tratamento tanto na redução de sintomas como no aumento na realização 
e execução de tarefas e técnicas apresentadas pelo terapeuta durante o tratamento. 
Em estudo realizado por Gennaro e Lima (2009), com o objetivo de identificar 
considerações de profissionais de saúde e alunos sobre a empatia no relacionamento 
com o paciente, constatou-se que a maioria dos participantes considera a empatia 
como uma habilidade importante para os profissionais da saúde, sendo esta, um 
recurso para o sucesso da terapia. Foi observado também que por mais que os 
participantes verbalizassem a necessidade de um comportamento empático, muitos, 
principalmente os alunos, não o tiveram durante os atendimentos. 
 O que sugere a necessidade de aprofundamento teórico-prático a respeito 
deste tema, já que, de acordo com Gennaro e Lima (2009), os comportamentos não 
empáticos não contribuem para uma relação terapêutica satisfatória, pois tendem a 
invalidar os sentimentos das pessoas, aumentando a culpa ou sentimento de desvalia. 
Outra referência a respeito do mesmo assunto é o estudo de Shattell, Starr e 
Thomas (2007), que investigou como ampliar o potencial terapêutico de profissionais 
 
88 
 
da área da saúde (médicos, psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais 
e conselheiros) que atendem pacientes com transtornos psiquiátricos. 
Foi um estudo qualitativo, com vinte pacientes, e o objetivo era investigar de 
que forma os pacientes psiquiátricos sentiam-se compreendidos e qual era a 
experiência de “ser compreendido”. 
Para isso, solicitaram aos pacientes que descrevessem suas experiências de 
relacionamento com os profissionais que os atendiam (enfermeiros, psiquiatrias, 
psicólogos, assistentes sociais e conselheiros). 
As experiências de relacionamento terapêutico foram expressas em três temas 
figurativos, utilizando as próprias palavras dos pacientes: “referem-se a mim”, 
“conhecem-me como uma pessoa” e “chegar à solução”. 
Percebe-se que a relação terapêutica para pessoas com doenças psiquiátricas 
exige um profundo conhecimento pessoal do profissional que as atende, que é 
adquirido com o tempo, compreensão e habilidade. Conhecer a pessoa como um todo, 
ao invés de conhecer a pessoa apenas como um receptor do serviço de saúde, é 
fundamental para a prática de enfermeiros e outros profissionais com o intuito de 
ampliar o potencial terapêutico. 
7 NO PROCESSO TERAPÊUTICO 
Iniciando o processo terapêutico 
A terapia cognitiva tem como um de seus princípios modificar as cognições dos 
pacientes para que sejam, concomitantemente, modificados as emoções e os 
comportamentos. Antes do início do processo, é importante que o terapeuta avalie o 
nível de ansiedade e expectativas do paciente em relação à terapia. Caso o paciente 
demonstre extrema ansiedade nas primeiras sessões, é produtivo que sejam 
utilizadas técnicas de relaxamento, deixando estratégias mais diretivas para sessões 
intermediárias (Beck, 2007). 
Geralmente o terapeuta cognitivo inicia o processo de mudança terapêutica 
trabalhando pensamentos automáticos. Eles são mais superficiais e mais passíveis 
de mudanças. Porém, a mudança de crenças deve ocorrer o mais breve possível, para 
que o paciente obtenha mudanças reais e permanentes (Beck et al, 1997). 
 
89 
 
A identificação e modificação de pensamentos e crenças são alguns dos 
objetivos principais almejados pelo terapeuta cognitivo, porém ele deve estar atento à 
“hora certa” de dar cada passo com o paciente. Isto é, caso algumas crenças sejam 
muito rígidas, o paciente poderá avaliar de forma negativa a proposta do terapeuta e 
ficar mais confuso e ansioso. 
 Além disso, a relação terapêutica pode ser prejudicada na medida em que o 
paciente entender, mesmo que erroneamente, que o terapeuta não o compreendia ou 
que é incompetente (Beck, 2007). 
Outro fator que pode prejudicar o início do tratamento é a ativação de crenças 
disfuncionais sobre modificar pensamentos automáticos. De acordo com Beck (2007), 
alguns pacientes podem apresentar regras disfuncionais que podem estar 
relacionadas ao medo de se sentirem melhor (“se eu modificar meus pensamentos, 
eu me sentirei melhor, mas algo ruim ainda poderá acontecer”). Podem distorcer o 
fato de avaliar pensamentos como errôneos ou não verdadeiros (“se meus 
pensamentos estão errados, significa que não sou perfeito”). 
 Nessas situações, a relação terapêutica terá grande importância, pois, na 
medida em que o paciente acreditar no terapeuta, poderá sentir-se confiante a 
reavaliar crenças e regras em relação a si e às situações. 
Os pensamentos automáticos são bastante breves, e o paciente pode ter 
dificuldades em identificá-los. Geralmente o paciente percebe as emoções 
sentidas em decorrência de um pensamento, e não o pensamento 
propriamente dito. Por exemplo, ao ir a uma entrevista de emprego, a pessoa 
pode estar sentindo-se ansiosa, irritada ou triste, porém muito pouco ciente 
dos pensamentos presentes durante a situação. Diante disso, o primeiro 
passo do terapeuta deve ser mostrar como identificar pensamentos 
automáticos e selecionar os principais pensamentos, sobretudo aqueles que 
geram sofrimento (Beck, 1997; apud Andretta I, 2011). 
Para identificar os PA’s, o terapeuta pode utilizar diferentes estratégias, 
como: 
 Questionamento socrático. Pergunta básica: “o que estava passando 
pela sua cabeça naquele momento? ” 
 Descrever uma situação-problema, tentando relembrar possíveis 
pensamentos. 
 Dramatizar com o paciente uma situação que possa auxiliá-lo na 
capturação dos pensamentos envolvidos. 
 
90 
 
 Utilizar o Registro de Pensamentos Disfuncionais (RPD) para que o 
paciente possa identificar pensamentos em situações durante a semana. 
Uma vez identificados os pensamentos automáticos disfuncionais, o 
terapeuta ajudará o paciente a avaliá-los e modificá-los. Para isso, podem ser 
utilizadas estratégias tais como: 
 Verificar o quanto o paciente acredita em cada pensamento, por 
exemplo: “quanto você acredita nesse pensamento agora? ” Assim o 
terapeuta descartará pensamentos que sejam pouco importantes, ou 
que não apresentem significado relevante. 
 Utilizar o questionamento socrático, fazendo perguntas tais como: “será 
que essa é a única forma de avaliar essa situação? ”, “qual é a 
explicação alternativa para essa situação? ”, “o que de pior poderia 
acontecer nessa situação? ” 
 Utilizar outras perguntas-padrão, como: “você poderia estar enganado 
nessa sua interpretação? ”, “qual a consequência de acreditar nisso? ”, 
“o que você pensa quedeve fazer? ” 
 Avaliar quais as evidências que tornam o pensamento verdadeiro e, 
assim, avaliar se ele é coerente com a realidade. 
 Utilizar o RPD. 
 Examinar vantagens e desvantagens de continuar acreditando no 
pensamento que gera sofrimento. 
7.1 Evoluindo no processo terapêutico 
Após educar o paciente sobre o modelo cognitivo e iniciar o processo 
auxiliando-o a identificar e modificar pensamentos disfuncionais, o terapeuta deve 
iniciar a identificação das origens desses pensamentos: as crenças intermediárias e 
centrais disfuncionais. 
Inicialmente, o terapeuta irá identificar as crenças disfuncionais e, durante as 
sessões, quando avaliar que o paciente está pronto emocionalmente, irá apresentar 
ao paciente a parte superior de sua conceituação, mostrando quais seriam as 
possíveis crenças disfuncionais a serem modificadas. Essa medida pode ser tomada 
 
91 
 
mostrando-se explicitamente a conceituação, ou o terapeuta pode, aos poucos, 
apresentar ao seu paciente as crenças que foram sendo identificadas. 
Para que o terapeuta possa identificar crenças intermediárias, ele pode 
observar suposições que estejam constantemente presentes no discurso do paciente. 
Para que essa identificação seja facilitada, Beck (1997) mostra que podemos usar o 
método do “se.… então...” Veja o exemplo de suposição de Giulia: “se eu não fizer as 
coisas perfeitas, as pessoas não vão gostar de mim”. Ela impôs a si que deve sempre 
produzir de forma perfeita, pois se não o fizer os outros não irão amá-la. É uma 
suposição que provavelmente produz pensamentos de rigidez e menos-valia, e, 
consequentemente, gera sofrimento. 
Outra forma de identificar uma crença intermediária é observar as regras que o 
paciente se impõe. Seguindo o exemplo de Giulia, ela acredita fortemente que deva 
fazer tudo perfeitamente, deve sempre ser a melhor. 
Esse tipo de regra que a pessoa se impõe são crenças intermediárias que, no 
caso de Giulia, são disfuncionais. 
Essas regras irão conduzir a pensamentos automáticos de forte cobrança, já 
que Giulia acredita que sempre deve fazer da melhor maneira possível. Essa regra, 
em uma primeira avaliação, pode não parecer disfuncional, mas o terapeuta deve 
estar atento à intensidade com que essa crença é imposta e o quanto o paciente a 
envolve em suas atitudes. 
Fazer o melhor pode parecer saudável, mas quando o paciente cobra-se em 
exagero essa regra pode acabar sendo aplicada em situações inadequadas, gerando 
avaliações errôneas, trazendo forte desconforto e sofrimento ao paciente. O terapeuta 
deve ficar atento ao que ocorre quando a crença na regra está sendo utilizada de 
maneira disfuncional. 
Veja o exemplo: 
 Giulia entregou um relatório a seu chefe dentro do prazo estabelecido. 
Duas colegas entregaram seus relatórios um dia antes, e os demais 
funcionários atrasaram a entrega. Cumprir uma tarefa dentro do prazo 
seria bom para a maioria das pessoas, mas como ela possui a regra de 
que deve sempre ser a melhor, o fato de não ter entregado o relatório 
primeiro lhe traz muito sofrimento, deixando-a muito deprimida. Ao 
analisar essa situação, fica explícita a rigidez de Giulia quanto ao seu 
 
92 
 
desempenho, e que situações corriqueiras podem ser avaliadas e 
interpretadas de forma errônea, transformando-se em situações 
geradoras de emoções muito negativas. 
Para auxiliar na identificação de crenças intermediárias o terapeuta pode utilizar 
técnicas como a “flecha descendente. ” Após identificar pensamentos automáticos 
disfuncionais, o terapeuta deve ter atenção a pensamentos que possam demonstrar 
maior relevância, que sejam mais comuns ou em relação aos quais o paciente 
demonstre maior incômodo. 
 
Estes pensamentos provavelmente estarão ligados às crenças. Para confirmar 
essas hipóteses, o terapeuta deve investigar o sentido da cognição, perguntando o 
significado daquele pensamento. Ao questionar “o que isso significa para você? ”, o 
terapeuta está tentando compreender as suposições ou regras do paciente. De acordo 
com Beck (1997), existem ainda outras perguntas que podem auxiliar na aplicação da 
flecha descendente: 
 “Se isso for verdade, então . . .” 
 “O que há de tão ruim em. ” 
 “Qual a pior parte sobre . . .” 
 “O que isso significa sobre você? ” 
Ao identificar as crenças intermediárias, o terapeuta deve avaliar se as crenças 
identificadas são abrangentes e realmente relevantes para serem trabalhadas. O 
terapeuta deve questionar-se o quanto o paciente acredita naquela crença, o quanto 
afeta sua vida e, ao final, averiguar o quão preparado o paciente está para trabalhar 
sobre determinadas crenças. É importante que se tenha cautela ao apresentar as 
crenças aos pacientes, pois podem ser conteúdos que geram muito sofrimento. 
Uma vez identificadas as crenças intermediárias a serem reestruturadas, o 
terapeuta deve encontrar a melhor forma de apresentá-las ao seu paciente. Após a 
apresentação, técnicas de modificação de crenças devem começar a ser aplicadas. 
Uma forma de iniciar esse trabalho é ver com o paciente as vantagens e desvantagens 
de manter ou modificar determinadas crenças. 
 Essa técnica irá favorecer o enfraquecimento de crenças antigas e rígidas e 
colocá-las sob o questionamento do paciente. De acordo com Beck (1997), o 
terapeuta pode utilizar perguntas como: 
 
93 
 
 “Quais as vantagens de você acreditar nisso? ” 
 “Você realmente precisa de uma crença assim para ser melhor? ” 
 “Quais as desvantagens em manter essa crença? ” 
Outra técnica de modificação de crenças é a técnica das duas teorias (A e B). 
Nessa técnica, o terapeuta estimula o paciente a criar uma explicação alternativa para 
a situação, menos ameaçadora e mais realista. 
Veja o exemplo exposto por Cordioli (2004, p. 87) sobre um caso de 
transtorno obsessivo-compulsivo: 
 Teoria A: Você está de fato contaminado e precisa se lavar, porque 
pode contaminar sua família e ser responsável por doenças e, quem 
sabe, pela morte de familiares. 
 Teoria B: Você é uma pessoa muito sensível a medos de ser 
contaminado, e reage a esses medos de uma forma que compromete 
sua vida: fazendo um excesso de lavagens seguidas. 
 Qual destas alternativas é a mais provável? Você já tentou lidar com este 
problema de acordo com a segunda hipótese, ou seja, como se fosse 
um problema de preocupação ou medo excessivo, e não uma 
possibilidade real? 
8 CHEGANDO ÀS CRENÇAS CENTRAIS 
Conforme dito anteriormente, as crenças centrais são ideias que as pessoas 
têm de si, dos outros, do mundo. São ideias muito centralizadas e difíceis de serem 
acessadas. Essas crenças se desenvolvem na infância na medida em que a criança 
interage com pessoas relevantes, e são reforçadas em diferentes situações. Pode-se 
dizer que a maior parte das crenças desenvolvidas são positivas, mas as negativas 
também podem existir e tomar proporções que prejudiquem o desenvolvimento. 
 Beck (1964) afirma que crenças centrais negativas se enquadram 
basicamente em duas categorias: a) crenças associadas a desamparo; e b) 
crenças associadas ao fato de não ser amado (Beck 1964; apud Andretta I, 
2011). 
Já para Young (2003), existem variados esquemas de crenças desadaptativos 
que interferem na interpretação realista das situações do cotidiano. Os esquemas 
 
94 
 
desadaptativos propostos pelo autor seriam: privação emocional, abandono, 
subjugação, fracasso, desconfiança e abuso, isolamento social e alienação, 
defectividade e vergonha, vulnerabilidade ao dano, dependência e incompetência, 
merecimento e grandiosidade, autos sacrifício, inibição emocional, padrões inflexíveis 
e crítica exagerada, autocontrole e autodisciplinainsuficientes. 
Como em relação às crenças intermediárias, o terapeuta começa pela 
identificação de crenças centrais disfuncionais, e aos poucos vai explorando seus 
achados com o paciente. Para que essa exposição seja segura e adequada, o 
terapeuta deve fortalecer sua aliança terapêutica, avaliar a psicoeducação em relação 
ao modelo cognitivo e o quanto cada uma dessas crenças pode estar ativada na 
sessão, pois isso poderia interferir diretamente no andamento da mudança 
terapêutica. 
O ritmo na identificação e modificação de crenças centrais vai diferir de 
paciente para paciente. Alguns podem trazer, logo no início do tratamento, frases que 
expressem seus mais profundos ideais e outros podem demorar meses até terem 
condições de lidar com conteúdos tão internos. 
O terapeuta pode auxiliar na motivação para a mudança de crenças centrais 
disfuncionais estimulando o paciente a identificar e registrar as vantagens e 
desvantagens da modificação. Outra técnica para auxiliar na motivação é pedir ao 
paciente que se imagine como estaria nos próximos dez anos sem a mudança de suas 
crenças, e como seria se realizasse uma reestruturação destas cognições (Beck, 
2007). 
As técnicas utilizadas para identificação e modificação de crenças centrais são 
as mesmas aplicadas às crenças intermediárias. De acordo com o andamento desse 
processo, o terapeuta deve estar atento à educação do paciente em relação a essas 
ideias, que vão sendo clarificadas. 
É importante que o paciente compreenda que são ideias, e não 
necessariamente verdades, que foram criadas durante a infância, em momentos que 
talvez não tenham sido bem interpretados. Modificá-las não será fácil, mas o terapeuta 
lhe ajudará de diferentes maneiras a avaliar a si e às situações de forma cada vez 
mais realista (Beck, 2007). 
Outro fator importante no processo de avaliação e modificação de crenças 
centrais disfuncionais é o reconhecimento de quando elas são ativadas. O paciente 
 
95 
 
deve identificar em situações de seu cotidiano quando as crenças que estão sendo 
trabalhadas em sessão podem estar sendo ativadas. 
Por exemplo, na conceitualização cognitiva explicitada anteriormente foi 
possível avaliar que Giulia possui a seguinte crença central: “Eu sou incapaz. ” 
A partir disso, o terapeuta poderia iniciar um trabalho de avaliar quais situações 
percebidas como negativas podem estar associadas à sua ideia de incapacidade. Isso 
poderia ser feito da seguinte forma: 
 Identificar situações negativas. 
 Guilia questionar-se: “estou pensando novamente que sou incapaz? ” 
 “Se estiver, há alguma explicação diferente, ou alternativa, para esta 
situação? ” 
 “Qual foi minha reação [emocional ou comportamental]? ” 
Dessa forma Giulia poderá avaliar quando sua crença central fica ativada, e o 
terapeuta tentará verificar se a crença provoca ansiedade ou comportamentos 
disfuncionais. Assim, esse monitoramento auxiliará como método de avaliação e 
modificação de crenças disfuncionais. 
Segundo Beck (2007), variadas técnicas ainda podem ser utilizadas no 
processo de modificação de crenças disfuncionais, tais como: a) agir “como se” (agir 
como se não acreditasse na crença disfuncional, e sim em uma crença mais 
adequada); b) desenvolver um modelo (imaginar um modelo positivo para imitar, que 
poderia ser alguém conhecido, um personagem ou uma figura pública); c) avaliar a 
intensidade da crença na parte emocional e na parte racional. 
É importante que o terapeuta tenha uma visão realista em relação a cada caso 
e esteja ciente de que em determinadas situações as crenças não mudarão 
inteiramente. Em casos de pacientes com transtorno de personalidade, muitas 
crenças apresentarão distorções, e mesmo após meses de tratamento algumas delas 
ainda se manterão ativadas. 
Nestas situações, o terapeuta deve ter metas, tais como enfraquecer o poder 
de crenças centrais e reduzir a frequência de suas ativações, reduzir a angustia e criar 
estratégias de como enfrentar essas crenças quando forem ativadas, ou reforçar 
crenças mais realistas e funcionais. 
 
96 
 
Com isso, é importante que o terapeuta avalie cuidadosamente cada crença, 
reforce sua relação terapêutica e utilize estratégias-padrão e suas variações para 
auxiliar em uma reestruturação cognitiva eficaz (Beck, 2007). 
9 FINALIZANDO O PROCESSO 
Após um árduo processo de reestruturação cognitiva e cessação de sintomas, 
o terapeuta deve avaliar se as metas estabelecidas inicialmente foram cumpridas. Em 
caso positivo, inicia então um processo de alta. O primeiro passo é trabalhar essa 
possibilidade com o paciente e propor um espaçamento das sessões. 
 É importante educar o paciente sobre possíveis recaídas, e que elas fazem 
parte do processo de mudança. Deixar o paciente à vontade para contar seus 
fracassos fortalece a relação terapêutica e a possibilidade de avaliar se as crenças 
centrais disfuncionais foram realmente modificadas. 
Segundo Marlatt e Gordon (1993), estratégias de prevenção à recaída 
devem ser trabalhas nesse processo de alta. É importante: 
 Identificar situação de risco ou “gatilhos” para a ocorrência de antigos 
pensamentos ou crenças; 
 Preparar estratégias de enfrentamento mesmo antes que situações de 
risco ocorram, promovendo maior auto eficácia; 
 Continuar executando o automonitoramento, ou seja, identificar 
pensamentos e crenças que geram sofrimento e questionar sua 
validade; 
 Caso ocorram recaídas, recorrer às estratégias aprendidas na terapia, 
ou buscar sessões de apoio com o terapeuta, avaliando o que deu 
errado; 
 Tomar medicações sob orientação médica. 
10 AVALIAÇÃO COGNITIVO-COMPORTAMENTAL 
O modelo cognitivo propõe que o comportamento e as emoções são 
influenciados pela interpretação que o indivíduo tem dos eventos, sendo esta a 
principal premissa da terapia cognitiva. 
 
97 
 
Com essa base teórico-prática, a terapia cognitiva busca identificar e modificar 
pensamentos disfuncionais e, nesse sentido, a avaliação cognitiva é fundamental no 
início e durante todo o processo terapêutico. Para que a terapia cognitiva atinja seus 
objetivos, o paciente precisa aprender a identificar, avaliar e modificar seus 
pensamentos e crenças disfuncionais (Beck, 1997). 
Segundo Kirk (1997), o objetivo principal na avaliação cognitivo-
comportamental é examinar como e porque uma pessoa se comporta de certas 
maneiras, que são determinadas por situações específicas e pelas interpretações que 
faz delas. A forma como cada um se comporta e os motivos pelos quais esses 
comportamentos são expressos são o foco da avaliação cognitiva e nortearão a 
ênfase em problemas específicos. 
A autora ainda afirma que avaliação “é estabelecer uma formulação e um plano 
de tratamento de comum acordo com o paciente” (Kirk, 1997, p. 23). Construir a 
conceituação do caso juntamente com o paciente o auxilia no aprendizado do modelo 
cognitivo, bem como pode beneficiar na psicoeducação sobre o diagnóstico e o 
tratamento. Independente da abordagem que o terapeuta siga, sendo ele cognitivo ou 
não, a avaliação deve ser realizada logo nas primeiras sessões. 
De acordo com os princípios da terapia cognitiva, a avaliação torna-se um 
diferencial no processo terapêutico, já que conduzirá o diagnóstico e as melhores 
técnicas que se adaptem ao caso. 
É importante lembrar que a avaliação, tanto por instrumentos quanto por meio 
de entrevista, deve ser constantemente revista pelo terapeuta. A permanente 
reavaliação do entendimento do caso contribui para reflexões mais aprofundadas 
sobre as dificuldades do paciente e fornece subsídios mais concretos para um plano 
de tratamento eficaz. 
Blankstein e Segai,explicam que a escolha de técnicas e métodos da 
avaliação deve ser orientada pela literatura relacionada ao transtorno e ao 
plano de intervenção. Por exemplo, caso o terapeuta atenda a um paciente 
com queixas de tristeza e falta de motivação, é importante que instrumentos 
que avaliem o estado de humor sejam utilizados. (Blankstein e Segai 2006 
apud Andretta I, 2011). 
A avaliação cognitivo-comportamental tem um papel educativo e ressalta a 
possibilidade de mudança. Os problemas são classificados em diferentes categorias 
de respostas e a aferição desses problemas deve ocorrer não só no início do 
 
98 
 
processo, mas durante as sessões, o que permite modificações no plano de 
tratamento. 
Por exemplo, durante a sessão pode-se avaliar o nível de ansiedade no 
momento em que se trabalha um tipo de fobia específica, e deixar como tarefa de 
casa que o paciente olhe e traga fotos do objeto fóbico. 
 Na sessão seguinte avalia-se novamente a intensidade dos sintomas de 
ansiedade em relação à essa fobia e, dessa forma, a avaliação orienta em relação à 
efetividade da técnica utilizada. 
A avaliação visa à identificação do que pode estar mantendo o problema e 
precisa ser modificado. Ao avaliar os problemas, é necessário avaliar quatro 
categorias de respostas: fisiológica, comportamental, cognitiva e emocional. 
Terapeutas cognitivo-comportamentais dependem de técnicas de avaliação 
para a seleção de alvos de intervenção e para a mensuração do progresso do 
tratamento (McDermut & Haaga, 2009). 
 Para Malouff (2009), a avaliação clínica tem objetivos diferenciados, sendo um 
deles o planejamento para um tratamento eficaz do problema do paciente. As 
avaliações têm eficácia quando são adaptadas e validadas para a população em 
estudo, sensíveis à mudança e com uma estrutura que permita ao clínico avaliar se o 
paciente está dentro da faixa normal. 
Também é importante considerar o tempo para aplicação e levantamento, o 
custo e a vontade do paciente para responder a cada parte da avaliação, pois para a 
avaliação podem ser utilizadas inúmeras escalas ou questionários. 
Na hora de optar por uma escala, o terapeuta deve estar atento às suas 
características psicométricas, pois a escolha do clínico pode ser baseada, por 
exemplo, no tempo que é gasto para a aplicação do teste. Caso o terapeuta utilize 
com frequência determinada bateria (que, por exemplo, avalie o funcionamento 
emocional e comportamental), medidas mais curtas talvez sejam preferíveis. 
Como vimos, a terapia cognitiva surgiu há poucas décadas, e nesse curto 
tempo tornou – se o mais validado e mais reconhecido sistema de psicoterapia, e a 
abordagem de escolha ao redor do mundo para uma ampla gama de transtornos 
psicológicos. A originalidade e o valor das ideias iniciais de Beck foram reforçados e 
expandidos através de um volume respeitável de estudos e publicações, refletindo 
hoje o que há de melhor no estágio atual do pensamento e da prática psicoterápica, 
 
99 
 
um merecido tributo a Beck e seus colaboradores e seguidores, dentre os quais 
inúmeros têm o privilégio de figurar. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
100 
 
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Aaron T. Beck, Denise Davis e Arthur Freeman/ Livro: Terapia Cognitiva dos 
Transtornos da Personalidade/ ISBN – 9788582714119/ Edição ou reimpressão: 03-
2017/ Idoma: português – 440 páginas. 
Beck, Judith S. / Livro: Terapia cognitiva- comportamental: teoria e prática [ 
recurso eletrônico] / Judith S. Beck, tradução: Sandra Mallamann da Rosa, revisão 
técnica: Paulo Knapp, Elisabeth Meyer. – 2. Ed. – Porto Alegre: Artmed, 2014. / e- 
PUB – Editado também como livro impresso em 2013. / ISBN: 978.85-8271-129-3. 
Deborah Dobson, Keith S. Dobson / Livro A terapia cognitiva baseada em 
evidências/ ISBN – 9781606230206 / Editora sênio – Ciências humanas: Mônica 
Ballejo Canto, Editora responsável por esta obra: Amanhã Munari.

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