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Resenha O sorriso de Monalisa

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Resenha do Filme: O Sorriso de Monalisa
Em 1953, uma nova professora de história da arte, Katherine Watson (Julia Roberts), chega à escola mais conservadora dos Estados Unidos. Aulas de oratória, elocução, postura, como cruzar e descruzar as pernas são parte do currículo. O tradicionalismo é tamanho que uma enfermeira é expulsa da escola por dar um método contraceptivo a uma aluna. O filme de 2003, apesar de alguns clichês, conta com boas atuações e torna-se interessante pela maneira que retrata esse conservadorismo que focalizava a vida da mulher nos anos 50: “Daqui pra frente sua única responsabilidade será cuidar do seu marido e filhos.” “Podem estar aqui para tirar uma nota alta, mas a nota mais importante será a dele, não a minha”. Além disso, o longa perpassa também o conservadorismo existente nas concepções que envolvem a arte: “Picasso fará pelo século XX o que Michelangelo fez pelo Renascimento”, você diz em sua tese. “Então, estas telas produzidas hoje só com borrões de tinta merecem tanto nossa atenção quanto a capela Cistina?”
Nesse sentido, somos levados a refletir “o que é arte? Quando uma obra é boa ou ruim? E quem decide?” Uma vaca pintada em um painel é considerada brilhante por alguém. Isso é arte? Qualquer fotografia é arte? Seria se fosse tirada por Ansel Adams (fotógrafo dos Estados Unidos)? E a foto da mãe da personagem de Julia Roberts, seria arte se tivesse sido tirada por algum fotógrafo que já fosse considerado artista? Mas, o que define um artista? “Monalisa sorri no quadro de Da Vinci. Mas está feliz? Ela parece feliz, então o que importa?“. O que há por trás do sorriso de cada umas das mulheres do filme?
No sorriso de Betty (Kirsten Dunst), encontramos uma menina que não aceita que alguém seja mais feliz que ela. Persegue a felicidade que acredita encontrar no casamento, mas, ao ser traída pelo marido, percebe que a aparência de uma vida feliz não se tratava da felicidade de fato. No sorriso de Joan (Julia Stiles), descobrimos uma possível estudante de direito incentivada pela professora que dizia que ela poderia, sim, fazer os dois, estudar e cuidar da casa e do marido. Contudo, após ser aceita em Yale, a estudante percebe que prefere apenas estar casada. ”Você disse que a gente poderia ser o que quisesse, eu escolhi isso”, diz ela à Katherine. “É longe demais pra voltar e servir o jantar às 17h”. Já no sorriso de Connie (Ginnifer Goodwin), notamos o desespero escancarado na falta de autoestima de uma menina que não se achava bonita o bastante para ter um futuro marido.
As ideias que giravam nos anos 50 eram relativas à grande felicidade de ser uma mulher casada e cuidar do marido e dos filhos. Hoje talvez seja fácil e oportuno que critiquemos isso tudo. Mas, você mulher moderna, já se imaginou naquele contexto? Afinal, somos produtos do meio. Reproduzimos costumes e padrões de comportamento. Alguém disse um dia que a função da mulher no mundo já estava pré-estabelecida antes mesmo de ela nascer. E demorou até que alguém começasse a questionar esta “verdade”.
Simone de Beauvoir foi uma das grandes pioneiras do feminismo no mundo. Através da reprodução da arte, perde-se algo equivalente à tradição, pois, se algo pode ser copiado, ao invés de uma ocorrência única, temos uma ocorrência em massa. Walter Benjamim analisou as consequências sociais e artísticas da reprodução da arte em “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica” (publicado em 1936 e em 1955). Segundo o autor, “o processo de reprodução provoca um profundo abalo da tradição, na medida em que coloca a reprodução ao encontro de quem apreende, atualiza o reproduzido em cada uma das suas situações”. No enredo presente no filme, a professora Katherine distoa do pensamento da época, pois não almeja um marido, como diz em uma cena: “eu gostaria de me casar, mas se isso não acontecer, tudo bem”. Por esse e outros motivos, era considerada subversiva: Deixemos os padrões, os conceitos pré-estabelecidos. Não só com o que “significa” ser mulher, mas com tudo aquilo em que pensamos e acreditamos por que alguém quis que fosse assim. Pensemos no que consideramos arte. Naquilo que avaliamos como bom ou ruim. Se as escolhas que fazemos são feitas por nós, de fato. O “certo” é certo segundo quem? “Família certa. Arte certa. Pensar certo.” “Dispensa o esforço de pensar por si mesma”.