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XIII JORNADA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO – JEPEX 2013 – UFRPE: Recife, 09 a 13 de dezembro. 
 
ESTUDOS DOS TABUS ALIMENTARES DE PERNAMBUCO 
Airles Ribeiro Fragoso¹, Emmanuela Prado de Paiva² 
 
 
Introdução 
Desde o homem primitivo acredita-se que ao se alimentar, ele usava seus sentidos como forma seletiva na escolha 
de alimentos, sendo por aromas ou sabor. O ato que era essencial para sobrevivência aos poucos foi se transformando 
em prazer e tomando caracteristicas culturais e de identidade de um povo. Ou seja, comer bem é um atrativo para os 
homens desde as primeiras civilizações e tornou-se um componente cultural, do mesmo modo que a língua, os 
costumes, a religião e a celebrações tradicionais de um povo, assim alimentar-se implica em atos biológicos, culturais 
e sociais,CARNEIRO (2003). 
Como afirma POULAN (2004), “para além da nutrição biológica, não menos importante, é preciso alimentar a 
alma”. Ou seja, intríseco ao alimento no que tange o seu valor nutricional e características bioquímicas está o valor 
social que é agregado a ele no processo de formação do hábito alimentar de uma população. 
Um alimento pode se tornar símbolo da cultura de um povo, pode-se tornar sagrado para uma religião ou numa 
celebração religiosa ou ser restrito o seu consumo atráves de mitos e tabus alimentares. 
Assim, o nosso objetivo de realizar um levantamento histórico e social dos tabus alimentares pernanbucanos e fazer 
uma busca bibliografica que elucidem a escolha de determinados elementos para compor os tabus alimentares 
pernambucanos. 
 
Material e métodos 
A. Material 
Bibliografia formada por livros, artigos, dissertações que tinham como tema: História da alimentação, hábitos 
alimentares, tabus alimentares e influências de culturas na alimentação pernambucana. 
B. Métodos 
A pesquisa foi realizada através do levantamento bibliográfico com foco na história e sociologia da alimentação 
que pudessem explicar a formação e fudamentos de tabus alimentares na gastronomia pernambucana. Diante da 
bibliografia encontrada foi feita uma pesquisa minuciosa para encontrar citações de tabus alimentares em registros 
literários. 
Os tabus encontrados foram classificados segundo MAUÉS (1980), para depois se buscar em autores 
pernambucanos que dissertam sobre a alimentação e cultura pernambucana as possíveis explicações para a existência 
de alguns tabus alimentares mais difundido entre a população do estado, e com esse material em posse foi 
confeccionado um artigo cientifíco ainda não publicado. 
 
Resultados e Discussão 
Afirma CASTRO (1938) que os tabus são uma interdição, uma proibição categorica que surge sem um mandante, e 
é construido sem nenhuma lógica científica, assim entende-se que a função de restringir sem explicar ou comprovar 
uma proibição tem mais valores sociais do que científicos. 
No caso dos alimentos, o tabu se faz pelo sentimento de medo. O indíviduo quando entra em contato, seja visual ou 
desgustando, com um alimento ou mistura de vários outros ingredientes é tomado por um reflexo de privação 
(memória afetiva) que o faz consumir ou não a preparação culinária. 
Os tabus alimentares podem ser classificados, segundo MAUÉS (1980) em tabu segmentar, que é determinado o 
consumo do alimento em função de categorias específicas ( sexo, status social, religião) ,ou seja, a proibição não tem 
fundamento na fase da vida do consumidor ou do ingrediente, é quando ele surge de uma criação social, ligado a 
hábitos e história; tabus de método, que é sobre a forma de obtenção do alimento, ou seja, a maturação do alimento ou 
aquisição do recurso na natureza; tabus de história de vida, estabelecido em relação ao tempo/fase do comensal. Essa 
restrição em relação a quem consome o alimento pode estar relacionado a faixa etária ou ciclos de vida como: infância, 
puberdade, velhice, gravidez, ciclo menstrual, recuperação (saúde). 
Na grande maioria dos casos, esses tabus alimentares são sustentados na oralidade, quando são passados de geração 
para geração com características folcloristas. A Gastronomia Pernambucana, assim como a Brasileira, foi constituída 
 
¹ Discente do Curso de Bacharelado em Gastronomia, Departamento de Tecnologia Rural. Universidade Federal Rural de Pernambuco. Rua Dom Manuel 
de Medeiros, s/n, Dois Irmãos, Recife, PE, CEP 52171-900. E-mail: airles.neto@hotmail.com. 
²Professor Adjunto do Curso de Bacharelado em Gastronomia. Departamento de Tecnologia Rural, Universidade Federal Rural de Pernambuco. Rua Dom 
Manuel de Medeiros, s/n, Dois Irmãos, Recife, PE, CEP 52171-900 
XIII JORNADA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO – JEPEX 2013 – UFRPE: Recife, 09 a 13 de dezembro. 
 
pela miscigenação de hábitos alimentares de várias culturas de povos que formavam a sua população, em especial a 
dos europeus, negros africanos e índios brasileiros, os tabus alimentares que estes traziam foram sendo mesclados à 
medida que ingredientes e técnicas culinárias foram se fundindo. CASTRO (1938), afirma que não existe um tabu 
genuinamente brasileiro, pois estes registros se perderam em partes ao longo do tempo e/ou foram recriados de acordo 
com as necessidades e contextos antropológicos da população que estava sendo formada no país. Neste sentido serão 
relatados os tabus consolidados no cotidiano popular, ou seja, aqueles onde se pode encontrar algum relato 
bibliográfico que explique sua origem e consolidação. Ademais para os que foram possível, se construiu um explicação 
bioquímica para tal evento ser considerado um tabu pernambucano. 
 Consumir Manga com Leite 
 
Um exemplo de tabu típico que existe no Brasil e assim em Pernambuco é a crença que misturar manga com leite 
pode causar indigestão ou até a morte, que nasceu quando os senhores de engenho disseminaram que essa mistura 
poderia ser perigosa para evitar que os escravos se alimentassem do fruto manga, cuja safra era abundante, e tomassem 
leite às escondidadas, por ocasião das ordenhas, diminuindo assim o volume do produto que chegava à casa grande 
(FREYRE,2006). 
 Tomar cachaça com leite 
 
No Brasil e mais específicamente no Nordeste do mesmo, o alimento leite é cercado por várias restrições 
alimentares, como a maioria dos tabus alimentares nordestinos que é de origem folclórica portuguesa, e o leite é 
considerado um alimento completo para os europeus na idade média sendo desnecessária sua mistura com qualquer 
outro alimento (CASCUDO,2004). Este mesmo autor acredita que o tabu alimentar mortal de misturar cachaça com 
leite foi trazido com os portugueses, mas tem origem na Espanha onde ser é comum a expressão “la leche con el vino 
tornase venino”. 
CASCUDO, afirma que algumas regiões de Portugal usavam o álcool do vinho (grappa) para acelerar a 
precipitação de substâncias no leite (coalhada), ou seja, a ideia de ter o leite talhado no estômago pode ter dado origem 
a esse tabu. 
 Consumir ovos e mamão 
 
Não existe registro cientifíco, histórico ou folclórico na relação do consumo desses dois alimentos a efeitos 
maléficos ao corpo humano. O mamão é um fruto rico em fibras e papaína, que é uma enzima proteolítica que ajudam 
a quebrar as proteínas em alimentos, a sua ingestão ajuda digestão humana, porém a ingestão demasiada dessa enzima 
pode atrapalhar na cicatrização de úlceras intestinais ou perfurações como afirma BALBACH e BOARIM (1992). 
Na ingestão de ovos nessa enzima podem acelerar o processo de quebra das protéinas encontradas nas claras e 
gema do ovo que é um alimento que tem grande fermentação no organismo causando gases. 
 
 Carne de Porco é remosa, ou ruim para o sangue 
A palavra remosa tem origem na palavra grega rheumas, que significa secreção, fluído ou escoamento 
(CAVALCANTI, 2010), ou seja, o alimento remosoé aquele que pode causar secreções ao ser humano. 
Esse tabu pode ter se originado no estado de Pernambuco decorrente da influência da presença dos judeus em 
Recife nos séculos XVI e XVII. A vinda de colônias judaícas ao Recife foi incentivada pelos holandeses que 
colonizaram a capitania por 24 anos. Como o governo de Maurício de Nassau pregava uma maior tolerância religiosa 
tornou-se normal que o cotidiano e costume judaicos espalhassem entre a sociedade pernambucana. E como pilar de 
hábito e costumes de um povo a alimentação e a gastronomia, assim como a língua são as primeiras a se disseminar e 
sofrer influências de outras culturas, com a culinária judaica não foi diferente (KAUFMAN, 2010). O povo judeu tem 
dentro de seu cotidiano várias restrições e tabus alimentares religiosos. Esses hábitos alimentares religiosos judaicos 
são conhecidos como kashut que serve como marca de identidade, de código de valores e tradições. 
O não consumo da carne suína é um desses tabus alimentares religiosos que tem como origem escritas no velho 
testamento: O consumo de carne de porco é um tabu fixado entre os judeus, segundo um preceito religioso: 
Entre todos os animais da terra, eis o que podereis comer: podereis comer todo animal que tem a unha fendida e o casco 
dividido, e que rumina. Mas não comereis aqueles que só ruminam ou só têm a unha fendida. A estes, tê-los-eis por impuros: tal 
como o camelo, que rumina, mas não tem o casco fendido. E como o coelho igualmente, que rumina, mas não tem a unha fendida; 
tê-lo-ei por impuros. E como a lebre também, que rumina, mas não tem a unha fendida; tê-la-ei por impura. E enfim, como o porco, 
que tem a unha fendida e o pé dividido, mas não rumina; tê-lo-ei por impuro. “Não comereis da sua carne e não tocareis nos seus 
cadáveres” (Levítico 11, 2-8). 
Porém, logo após a retomada de Pernambuco pelos portugueses, começou uma perseguição aos judeus pela santa 
inquisição católica, e uma das formas de vigiar os novos crisãos e fixar sua adesão a nova religião era a observação nos 
hábitos alimentares. 
O que pode ter sido crucial para a não perseguição dos judeus pela igreja em terras brasileiras foi à disseminação 
de que o consumo de carne de porco poderia acarretar em males a saúde mais precisamente ao sangue e no processo de 
cicatrização. 
 
XIII JORNADA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO – JEPEX 2013 – UFRPE: Recife, 09 a 13 de dezembro. 
 
 Consumir Abacaxi durante ciclo menstrual 
 
Apenas com a descoberta dos hormônios e suas funções no organismo feminino no século XX, é que foi quebrado 
todos os tabus ligados a menstrução. Nasceu durante o império romano e se extendeu até depois da Idade Média a 
noção que o sangue da menstruação era impuro e que deveria não se ter contato com a mulher durante esse período( 
CARVALHO e FALKENBACH, 2009), fazendo que desse tabu surgissem outros que tivessem relação direta com o 
ciclo menstrual, e claro que tabus alimentares se mesclaram e se difundiram nesse contexto. 
Em todo o mundo, o consumo de alguns alimentos em período menstrual é considerado um tabu, em Pernambuco a 
fruta abacaxi foi a escolhida para criar o tabu no consumo de abacaxi enquanto a mulher estiver em ciclo menstrual. 
A escolha dessa fruta pode ser explicada quando CASCUDO ( 2004) coloca em A história da alimentação no 
Brasil “o enfermo de feridas que saboreia o abacaxi, tê-las-á salientes, formando bicos como a fruta servida”. 
 
 Consumir muito açúcar ou doces pode dar verminoses 
 
Não existe nenhuma relação no consumo abusivo de doces com o surgimento de verminoses, o aparecimento dos 
parasitas no corpo humano é decorrente de contaminção de um alimento com ovos ou larvas da verminose. Como o 
surgimento de tabus tem é um processo histórico pode-se destacar o alto consumo e uso de açúcar nas sobremesas 
pernambucanas, uma herança, da exploração colonial da cana-de-açúcar. O aparecimento de verminoses na população 
pode está ligada as más condições de higiene no preparo dos alimentos naquela época. O que é comprovado é que 
verminoses apreciam a glicose, pois transformam os açúcares em glicogênio que serve de reserva para sua 
sobrevivência e reprodução. 
Os tabus alimentares de uma sociedade são originados em um processo histórico e social afetivo, onde essas 
restrições alimentares são passadas e aceitas de geração em geração. Não podemos estudar a construção da 
gastronomia de um local se deixarmos os tabus alimentares e os motivos que o fizeram existir de fora dos estudos 
gastronômicos, pois fazem parte da identidade cultural do povo. 
Tabus esses, que podem ser relacionados a gênero, idade, localidade, acesso a alimentação, fatores econômicos e 
sociais. Mesmo sem ter um registro literário vasto, o número de tabus alimentares que circulam na cultura popular 
ultrapassa os moldes acadêmicos, com seus experimentos e presupostos lógicos, para se multiplicarem no imaginário 
folclórico de uma população. 
 
 
Referências 
BALBACH. A, BOARIM. D. As Frutas na Medicina Natural. Itaquaquecetuba, SP: Editora Missionária, 1992. 
 
CARNEIRO, Henrique. Comida e Sociedade: Uma história da Alimentação. Rio de Janeiro. Ed. Elsevier: Rio de 
Janeiro. 2003. 
 
CARVALHO, Fabiana. FALKENBACH, Atos P. O Histórico da Menstruação e sua Relação com a Saúde da 
Mulher. Buenos Aires, Revista Digital: http://www.efdeportes.com . Ano 14. Nº 135. 2009. Disponível em 
http://www.efdesporte.com/efd135/menstruacao -e-saude-da-mulher.htm acessado em 20 de Maio de 2013. 
 
CASCUDO, Luis Camara. A História da Alimentação no Brasil. Rio de Janeiro. Ed. Global. 2004. 
 
CASTRO, Josué de. Fisiologia dos Tabus. Rio de Janeiro: Ed. Nestlé. 1938. 
 
CAVALCANTI, Maria L. A História dos Sabores de Pernambuco. Recife. Fundação Gilberto Freyre. 2010. 
 
FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. 51º Edição Recife. Ed. Global. 2006 
 
KAUFMAN, Tania Neumann. Cultura Alimentar Judaica em Pernambuco. Recife: 2010. 
 
LEVITÍCO: In Bíblia: tradução ecumênica. São Paulo. Ed. Paulina. 2002. 
 
MAUÉS, Maria Angélica; MAUÉS, Raymundo Heraldo. O folclore da alimentação: tabus alimentares da 
Amazônia. Belém. 1980. 
 
POULAN, João Paulo. A sociologia da Alimentação. São Paulo:Ed. Pauta. 2003. 
 
SOUTO, MAIOR. Mário. Os mistérios do faz-mal. Recife.Comunicação e Editora, 1996.

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