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Educação e o meio ambiente Vilson sérgio de CArVAlHo 1ª edição Brasília/dF - 2018 Autores Vilson sérgio de CArVAlHo Produção equipe Técnica de Avaliação, revisão linguística e editoração Sumario Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa ..................................................................................................... 4 Introdução ............................................................................................................................................................................. 6 Unidade I – A Dimensão Socioambiental da Educação ......................................................................................... 7 Aula 1 Introdução: a relação entre educação e meio ambiente ................................................................................ 8 Aula 2 Afinal, o que é Educação Ambiental? ...................................................................................................................13 Unidade II – Educação Ambiental de Ontem e de Hoje ......................................................................................25 Aula 3 A Trajetória da EA: Das Grandes Conferências à Política Nacional (Lei nº 9.795/99) .........................26 Aula 4 Diferentes esferas, um mesmo objetivo .............................................................................................................41 Unidade III – Promoção da Sustentabilidade e Enfrentamento da Crise Ambiental ................................56 Aula 5 Educação ambiental, desenvolvimento e promoção da sustentabilidade .............................................57 Aula 6 Crise Ética e Crise Ecológica ...................................................................................................................................74 Referências ..........................................................................................................................................................................84 4 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de estudos e Pesquisa. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. Cuidado importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado. Importante indicado para ressaltar trechos importantes do texto. Observe a Lei Conjunto de normas que dispõem sobre determinada matéria, ou seja, ela é origem, a fonte primária sobre um determinado assunto. 5 ORGANIzAçãO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESqUISA Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. é importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Saiba mais informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Sugestão de estudo complementar sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Posicionamento do autor importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado. 6 Introdução o propósito desta disciplina é apresentar a educação Ambiental como uma dimensão intrínseca da educação, enfatizando sua importância em face da crise socioambiental em que a humanidade se encontra mergulhada. em um primeiro momento, o estudo das aulas que compõem este caderno permitirá aos alunos conhecer melhor um pouco de sua história, seus níveis de atuação, tendências, algumas de suas ferramentas de trabalho e, principalmente, seu potencial transformador através da formação de uma consciência ecológica. em um segundo momento, destaca-se a importância na educação Ambiental como um elemento estratégico para a promoção de um desenvolvimento sustentável, isto é, um desenvolvimento sensível à causa ambiental. o caderno termina fazendo uma importante reflexão sobre a relação entre a crise ecológica em que nos encontramos e a grave crise de valores que a promoveu, revelando que, no fundo, somos todos educadores ambientais. esperamos que você aproveite bastante seu conteúdo e assuma esse papel. Objetivos este caderno de estudos tem como objetivos ajudar você a: » entender melhor a crise socioambiental planetária que o mundo atravessa em pleno século XXi; » conhecer a educação Ambiental e sua importância a partir do estudo de suas dimensões: formal, não formal e informal; » esclarecer como a educação Ambiental pode facilitar o estímulo e a promoção de um desenvolvimento ecologicamente equilibrado, podendo ser utilizada de forma ativa e preventiva; » aprender como a crise ambiental está amparada em uma séria crise ética cuja solução implica a adoção de novos valores sensíveis à preservação do meio ambiente. 7 A Dimensão Socioambiental da Educação UNIDADE I 8 Apresentação Aqui iremos apresentar uma noção geral do que abordaremos na disciplina como um todo, enfocando, de forma sucinta, a relação entre educação e Meio Ambiente, fundamento do que entendemos por educação Ambiental, e ajudando a pensar mais a fundo a riqueza de um tema que está diretamente associado à sobrevivência humana. Objetivos esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: » obter uma compreensão mais ampla, crítica e consciente do que é o meio ambiente em suas diferentes dimensões: naturais, sociais, culturais, econômicas, etc. » compreender o ser humano como parte integrante da natureza; » reconhecer a dimensão socioambiental da educação e seu papel estratégico no sentido de conferir-lhe sentido e garantir que ela contribua na formação do aluno cidadão; » despertar para o papel e a importância da educação Ambiental e os valores a ela associados de cidadania, solidariedade, responsabilidade e ética ambiental. 1 AUlA INTRODUçãO: A RELAçãO ENTRE EDUCAçãO E mEIO AmbIENTE 9 INTRODUçãO: A RELAçãO ENTRE EDUCAçãO E mEIO AmbIENTE • AUlA 1 Introdução A relação entre educação e meio ambiente gostaria de dar-lhe as boas-vindas ao estudo deste caderno. esperamos que você aproveite bastante os temas aqui discutidos não deixando de conhecer melhor os significados e as definições associadas ao que chamamos de edUCAÇÃo AMBienTAl. Por meio de diferentes formas e estratégias, a educação Ambiental quer promover ampla conscientização ecológica que leve o homem a repensar sua postura diante da vida; fomentando, assim, um amplo processo de responsabilização individual e coletiva da sociedade em face do meio ambiente do qual faz parte. Assim sendo, queremos convidar você a seguir pelas trilhas da educação Ambiental e aprender maissobre o que ela é, para que efetivamente serve, seus limites e potenciais, para, a partir daí, termos condições de responder com mais segurança à proposta que ela faz a cada um de nós. Disponível em: <http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2016/03/04/educacao-ambiental-pode-virar-disciplina- obrigatoria-nas-escolas>. Acesso em: 21 ago. 2017. Para entendermos com clareza o que é educação Ambiental, é preciso, inicialmente, reconhecer a existência de uma profunda relação entre Educação e Meio Ambiente. não há a menor chance de se planejar, promover e realizar um processo educativo de qualidade, isto é, sério e eficiente, para a formação do cidadão, se o meio ambiente não for considerado. se não valorizamos o ambiente do qual emerge o educando – entendendo esse conceito dessa forma ampla, o que implica considerar não apenas suas dimensões físico-químicas, mas, também, as sócio-histórica e político-cultural – estaremos cometendo um grave erro pedagógico, na medida em que não será possível usar em aula elementos da realidade do aluno, de seu contexto, e, portanto, de seu relacionamento cotidiano, o que pode prejudicar severamente seu aprendizado. do mesmo modo, se desconsiderarmos o ambiente para onde o educando irÁ leVAr os conhecimentos aprendidos, ou seja, onde terá a possibilidade de aplicá-los ou utilizá-los para compreender melhor a sua realidade, tal educação será no mínimo inútil para não dizer alienada 10 AUlA 1 • INTRODUçãO: A RELAçãO ENTRE EDUCAçãO E mEIO AmbIENTE e desmotivante. Com isso, queremos chamar atenção a duas premissas, quando se trata de pensar a educação Ambiental: a. A verdade de que, desacompanhada da dimensão ambiental, a “educação perde parte de sua essência e pouco pode contribuir para a continuidade da vida humana” (CArVAlHo, 2002, p. 36), em outras palavras, ela perde seu sentido e corre o risco de tornar-se inútil; b. o reconhecimento de que essa perda de sentido se dá na medida em que toda educação é também ambiental. o reconhecimento das premissas anteriores não significa que estejamos aqui ingenuamente ignorando a existência de um tipo de prática pedagógica tradicional e tecnicista, que não seria sequer cidadã, que diria ambiental; o que infelizmente é inegável se examinarmos o contexto brasileiro. o próprio sistema educacional como um todo, na sociedade capitalista, é permeado determinantemente por interesses que confirmam a manutenção de um cristalizado sistema de classes obstáculo difícil de tranpor rumo a uma educação verdadeiramente libertadora. Com efeito, reconhecer a existência desse perverso sistema utilitarista, dito “educacional”, não anula a verdade de que a educação – enquanto um fator essencial à plena realização pessoal, assim como ao progresso e ao desenvolvimento da sociedade (HoCHleiTner, 1996) – traz, necessariamente, em seu âmago, uma dimensão ambiental, manifesta por intermédio de suas múltiplas expressões (naturais, biológicas, mentais, sociais, históricas, culturais, políticas, econômicas). Pensar o processo educativo apenas em um âmbito pessoal e interpessoal corresponderia à suposição de que a educação se processa em uma ilha isolada, não recebendo impactos socioculturais nem tendo qualquer contribuição à formação de uma sociedade mais justa. Como expõe o nosso grande mestre Paulo Freire (1997): [...] não há educação fora das sociedades humanas assim como não há homens isolados (...) o homem é um ser de raízes espaço-temporais. A instrumentação da educação (...) depende da harmonia que se consiga entre a vocação ontológica deste “ser situado e temporalizado e as condições especiais desta temporalidade e desta situacionalidade (Freire, 1997, p. 61). se considerarmos a finalidade da educação dentro dos princípios da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/96), veremos que, de acordo com seu artigo 2º, a educação teria por finalidade “o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. A pergunta então a se fazer seria: é possível a concretização desses objetivos, desconsiderando a dimensão ambiental? Para refletir Antes de prosseguir, reflita sobre as duas premissas acima: Qual a sua opinião a respeito? Você concorda que, desacompanhada da dimensão ambiental, a educação perde parte de sua essência? Julga que toda educação é Ambiental? registre suas opiniões a respeito, de maneira que, ao final do estudo deste caderno, você possa comparar como sua opinião foi reforçada ou alterada em função de seu aprendizado. 11 INTRODUçãO: A RELAçãO ENTRE EDUCAçãO E mEIO AmbIENTE • AUlA 1 Marcos reigota (1991), um dos grandes estudiosos sobre o tema, afirmou, categoricamente, em um de seus artigos, que “o momento atual exige que não falemos mais em Educação Ambiental, mas simplesmente em educação”, como direito inalienável do homem, visando à não só a utilização racional dos recursos naturais, mas, também, à participação nas decisões que lhe dizem respeito, estabelecendo uma nova relação com a natureza, desenvolvendo uma nova razão que não seja sinônimo de autodestruição (reigoTA, 1991 apud rUTWosKi, 1993, p. 55). Apesar de nossa avançada constituição, no que concerne às questões ambientais (vide art. 225), só recentemente essas questões foram introduzidas de modo oficial no sistema escolar. em termos legais, somente em 1999 a educação Ambiental foi transformada em lei (lei nº 9.795/99), devendo, assim, ser mais difundida e reconhecida oficialmente como um componente urgente da educação. Todavia, ainda existem resistências aos pontos aqui abordados, e muitos docentes insistem em desconsiderar tais verdades. Alguns promovem educação ambiental sem ter consciência disso, ao relacionar o conteúdo de aula com a temática socioambiental, mas muitos insistem em sua prática pedagógica fragmentada, porém confortável, à medida que o reconhecimento da dimensão ambiental na prática educativa exige do professor maior qualificação para lecionar os conteúdos de sua área de trabalho de forma interdisciplinar, a partir de uma visão mais holística. Para entender o valor da temática ambiental, é importante compreender o valor de cada vida que integra esse grande ecossistema vital que denominamos Gaia. Saiba mais Gaia - gaia ou ge é a denominação da terra na mitologia grega, na qual ela é personificada como elemento gerador das raças divinas: urano (céu), as montanhas e Ponto (mar), Cronos, oceano, etc. Mais tarde, a ideia de gaia como geradora de deuses foi sendo substituída pela ideia de fertilidade da terra. Hoje, ao nos referirmos ao termo, referenciamos a Teoria de lovelock, segundo a qual o planeta terra é visto como um grande ser vivo, como um grande superorganismo autorregulador. Veja outros dados na obra de: CArVAlHo, V. Educação Ambiental e Desenvolvimento Comunitário. rio de Janeiro: WAK, 2002. Falar de uma educação Ambiental, independente da estratégia a ser utilizada ou do âmbito em que ela será desenvolvida, significa, acima de qualquer coisa, falar de uma educação para a vida em plenitude. das vidas presentes em um MiCroeCosssiTeMA celular até as vidas que garantem a sustentabilidade de um macroecossistema, como uma grande floresta. Saiba mais Ecossistema é a principal unidade de estudo da ecologia. A palavra tem origem nas palavras gregas oikos (eco = casa) + sistema (onde se vive). Pode ser entendida como um sistema composto tanto pelos seres vivos (meio biótico) quanto pelo lugar onde vivem (meio abiótico) além das relações destes entre si. o meio biótico envolve seres vivos autótofros, isto é, capazes de produzir seu próprio alimento como as plantas, e os heterótrofos, que não conseguem sintetizar seu próprio alimento como os animais. o meio abiótico, por sua vez, compreende elementos como o clima, a luz solar, os minerais. o conjuntode interações do meio biótico com o abiótico geram um ciclo de energia presente tanto em um microssistema como uma poça d´água (microssistema) como o próprio planeta como um todo (macrossistema). 12 AUlA 1 • INTRODUçãO: A RELAçãO ENTRE EDUCAçãO E mEIO AmbIENTE Para tratar dessas questões, é necessário enfocarmos uma série de temas que extrapolam as discussões sobre natureza e Meio AMBienTe em seus aspectos físicos e bioquímicos. em outras palavras, se quisermos compreender e defender a vida por meio da educação Ambiental, faz-se necessário discutirmos diversos temas de relevância social, como a valorização do patrimônio histórico, a preservação cultural, a promoção da saúde, a luta pela qualidade de vida, pelo acesso à escolaridade gratuita, pelo fim do desemprego, da violência, da exclusão social, da miséria e de muitos outros males sociais que têm impactos ambientais por vezes irreversíveis. A partir de tudo que vimos nesta aula, não é difícil entender porque afirmamos que a educação Ambiental é interdisciplinar por natureza e que trabalhar com ela é confiar no poder transformador e revolucionário da educação, que, se por um lado não pode mudar o mundo, pode, por outro, mudar a cabeça dos que nele vivem, conduzindo o ser humano a problematizar a realidade à sua volta e o seu papel nela como membro integrante. Sintetizando A legislação nacional define meio ambiente como “o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”, art. 3º, inc. i, da lei nº 6.938/1981 (lei da Política nacional do meio ambiente). Contudo, entender o que é meio ambiente implica tratar de algo que foi produzido histórica e culturalmente por meio de lutas e exploração. em outras palavras, a natureza reflete a devastação de nossos sistemas econômicos e sociais e, principalmente, de nossa crise de valores. Resumo nesta aula: » vimos aqui, resumidamente, como são profundas e complexas as relações entre educação e meio ambiente; » aprendemos a compreender a educação ambiental como uma dimensão da educação; » analisamos o que é educação ambiental a partir do exame de suas características e sua importância no momento atual; » entendemos a urgência da educação ambiental como uma forma de fazer frente à grave crise ambiental que o homem vem atravessando. 13 Apresentação Vimos, na aula anterior, como são amplas e complexas as relações entre educação e Meio Ambiente, e porque toda educação pode ser entendida como Ambiental, já que aquela não pode prescindir de sua dimensão ambiental, se quiser ser verdadeiramente útil e efetiva, atendendo aos requisitos da ldB. nesta aula, estudaremos de uma maneira mais aprofundada a definição, as dimensões, os fundamentos e a história da educação Ambiental. Vamos lá? Objetivos esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: » entender com clareza o conceito e o papel da eA frente à crise ambiental vigente, resultado, particularmente, de uma postura antropocêntrica, e o decorrente sentimento de dominação da natureza por parte do homem; » refletir sobre qual dos âmbitos da eA apresentados você melhor se identifica e conhecer, para uma atuação mais comprometida com a área, os valores que ela defende; » adotar em seu cotidiano posturas e práticas sustentáveis condizentes com a proposta da eA de levar o homem a se enxergar como parte integrante da natureza. 2 AUlA AfinAl, O quE é EDucAçãO AmbiEntAl? 14 AUlA 2 • AfinAl, O quE é EDucAçãO AmbiEntAl Que tal irmos direto ao ponto desta aula respondendo à pergunta: o que é educação Ambiental? A educação Ambiental pode ser entendida como um: ProCesso CrÍTiCo TrAnsForMAdor CAPAZ de ProMoVer UM QUesTionAMenTo MAis ProFUndo soBre A reAlidAde AMBienTAl nA QUAl o HoMeM se inTegrA, leVAndo-o A AssUMir UMA noVA MenTAlidAde eColÓgiCA, PAUTAdA no resPeiTo MÚTUo Ao Meio AMBienTe e Aos QUe dele FAZeM PArTe. o primeiro elemento-chave dessa definição é o de processo. A ideia de processo implica a realização de algo que demanda certo tempo e envolve uma série de variáveis, muitas delas difíceis de serem controladas. Muitas vezes, o trabalho dos educadores ambientais é o de iniciar esse processo lento e gradual, sem certeza absoluta de seus resultados. é como lançar sementes à terra. não sabemos se irão germinar e crescer. Podemos controlar alguns fatores como preparar a terra, adubando-a ou regando-a. Todavia, não conseguiremos controlar todas as variáveis envolvidas em suas fases de crescimento ou as mudanças climáticas que certamente irão afetá-la, acelerando ou retardando seu crescimento. o segundo diz respeito ao termo CrÍTiCo. A palavra se opõe ao termo “ingênuo”. Ao aprendemos mais sobre alguma coisa qualquer, passamos de uma consciência ingênua – leiga ou parcialmente leiga – para uma consciência crítica – conhecedora do objeto estudado. no caso da educação Ambiental, é fundamental que aprendamos mais sobre o meio ambiente e suas características. é necessário conhecer os ciclos fundamentais da natureza, os grandes biomas do planeta, os animais em risco de extinção, o perigo dos agrotóxicos, dos transgênicos, a degradação promovida pelo homem em seu habitat; enfim, uma série de informações que possam viabilizar um posicionamento crítico (consciente) em face de determinada situação. Atenção Para melhor entender essa definição, o ideal é irmos passo a passo a partir da compreensão dos elementos-chave que a compõem e que merecem ser problematizados com vistas ao entendimento da educação Ambiental e de seus desdobramentos. Saiba mais “Processo” é um Termo que se refere ao modo de proceder, operar ou ensinar. relaciona-se à técnica ou ao procedimento. no caso da educação Ambiental, ou em qualquer outro tipo de ação educativa, o autor chama atenção para as dificuldades de se obter resultados a curto prazo e aponta a própria deflagração de um processo como uma vitória do educador. 15 AfinAl, O quE é EDucAçãO AmbiEntAl • AUlA 2 Saiba mais Bioma: Já vimos a definição de ecossistema. o Bioma é um conjunto de ecossistemas que funcionam de forma estável e guardam entre si certa homogeneidade, considerando elementos como região (espaço geográfico), clima, vegetação, solo, altitude, etc. A palavra vem de (Bios = Vida) e (oma = grupo ou massa). em geral, no mundo, foram identificados 11 tipos de bioma: florestas tropicais, desertos, savanas, entre outros. Contudo, podem também existir sistemas mistos que combinem mais de um bioma. o Brasil possui seis biomas: Amazônia (maior bioma brasileiro), Caatinga, Cerrado, Pampa, Mata Atlântica e Pantanal (uma das maiores extensões úmidas do planeta). Para saber mais, consulte o site do ministério do meio ambiente (www.mma.gov.br). são ingênuos os posicionamentos da conservação ou proteção do ambiente natural desligados de outros questionamentos inter-relacionados direta ou indiretamente às temáticas ambientais, como as questões de foro político, cultural e econômico. Para o educador ambiental que deseja lutar por determinada causa, é fundamental conhecer o problema ambiental pelo qual se deseja enfrentar, buscando, antes de tudo, conhecer suas causas e consequências e, igualmente, pesquisando ampla e profundamente todos as informações pertinentes a ele (extensão do problema). o terceiro refere-se à ideia de TrAnsForMAÇÃo, possibilitada através do aprendizado. o conhecimento nos torna não apenas conscientes – o que, por si só, já representa uma mudança de ótica, de postura, de atuação frente a uma realidade sobre a qual nada ou pouco se sabia – mas, também, torna-nos mais responsáveis sobre o objeto conhecido. se eu não sabia que meu comportamento prejudicava algo ou alguém e, ainda assim, cometia-o, eu tenhouma parcela de culpa totalmente diferente da que eu teria se fosse consciente do mal que eu cometo em relação às suas consequências. A consciência muitas vezes nos faz cúmplices e, no caso da realidade socioambiental, pretende demonstrar o quanto todos nós somos um pouco responsáveis pelo processo de degradação ambiental que enfrentamos. do mesmo modo, é essa consciência ecológica que nos desperta não apenas para a culpa, mas para a certeza de que a possibilidade de transformação dessa triste realidade não pode advir de outro modo se não pela participação ativa de cada um de nós. o quarto termo a destacar leva-nos a entender que não apenas estamos inseridos no meio ambiente: “inTegrA”. se eu integro algo, faço parte desse algo, ou melhor, sou também esse algo. se alguém faz mal a esse algo, é também a mim que o faz. se eu faço mal a esse algo, é a mim mesmo que estou fazendo. A compreensão de que todos nós, homens e mulheres, adultos e crianças, pobres Atenção A esse suicídio que o autor se refere, chamamos de “ecocídio”. é uma espécie de suicídio indireto, uma vez que o homem não se mata, mas mata o ambiente do qual faz parte, o que acaba a longo prazo promovendo sua própria morte. 16 AUlA 2 • AfinAl, O quE é EDucAçãO AmbiEntAl ou ricos, compomos juntos o meio ambiente com seus ricos e complexos ecossistemas é uma das lições mais valiosas da educação Ambiental. Por intermédio da sua mensagem, entendemos que, ao destruir o planeta, não estamos destruindo apenas o nosso lar, o único que conhecemos com características específicas próprias a nossa sobrevivência, mas a nós mesmos, em uma espécie de suicídio lamentável. A ideia de integrar algo nos remete igualmente ao pensamento de que não estamos sós. de que somos tão somente mais uma espécie viva que, junto com centenas de outras, tem vivido nesse planeta vencendo desafios e buscando sobreviver. de que tudo o que acontece a um único ser vivo nessa grande teia, que é esse grande ecossistema vital, o qual ajudamos a compor, afeta-nos profundamente, ainda que de maneira tardia. Não existe um ser vivo, animal ou vegetal, que não esteja de algum modo interligado a outros de uma forma equilibrada. essa é uma das leis mais importantes do cosmos. outro termo a destacar é o vocábulo resPeiTo, cuja reflexão mais apurada leva-nos a nos aprofundar no conceito de ética. A «ética do cuidado» que leonardo Boff (1999) tanto ressalta em suas obras. respeitar algo é procurar entendê-lo e aceitá-lo como ele é, ainda que com ele não concordemos. infelizmente não respeitamos a lógica da natureza, comumente ignoramos as necessidades de outros seres vivos além de nós e desrespeitamos seus ciclos e sua existência em nome de valores econômicos e antropocêntricos. Por fim, destacamos o vocábulo adjetivado “nova mentalidade”. ora, se estamos falando de algo novo, então isso significa algum tipo de mudança, se não uma inovação, pelo menos uma renovação a partir de ideias e ideais antigos que não servem mais para entender o meio ambiente. essa nova mentalidade é que nos faz enxergar, a partir de tudo que foi dito anteriormente, a nós mesmos (e isso envolve a forma como lidamos conosco, com as nossas atitudes, posturas, escolhas, etc.) e ao meio do qual fazemos parte. é essa nova mentalidade que nos faz ver a vida a partir de uma lógica diferenciada, pautada em valores sustentáveis, e isso se traduz em nosso cotidiano na hora de usar a água, nos alimentar, fazer compras, dirigir, descartar nossos resíduos e tantas outras atividades. Passamos a ser mais responsáveis ambientalmente com nossos comportamentos, e isso não é uma mudança pequena ou simples, pois está alicerçada em uma visão crítica e política (no sentido amplo da palavra) sobre a forma de como temos vivido e como temos deixado os demais seres vivos viverem. essa é a mudança que a educação Ambiental verdadeiramente almeja. não se trata apenas de aprender, mas de ter a sabedoria de colocar em prática. sem essa mentalidade nova, que ocorre de dentro para fora, isso é muito difícil. Saiba mais Antropocêntrico: Termo referente a ideia do ser humanocomo centro ou a medida de todas as coisas. 17 AfinAl, O quE é EDucAçãO AmbiEntAl • AUlA 2 é claro que sempre teremos as leis, elas são fundamentais à vida na coletividade e à garantia de direitos fundamentais. Contudo, a verdadeira mudança não acontece pelo medo de que sejamos denunciados ou pegos “com a mão na massa”, pelas multas que teríamos de pagar ou por outras sanções quaisquer previstas em lei, e sim por uma convicção interior de que não está certo continuarmos vivendo como antes, ignorando e desrespeitando aquilo que somos, nós somos a natureza. é isso que chamamos aqui de “nova mentalidade ecológica”. A crise socioambiental com a qual o homem se depara em pleno século XXi é, antes de tudo, um reflexo de uma grave crise de ética. A ausência de uma postura ética técnico-científica que pudesse ordenar as ações do homem sobre a natureza, baseada no respeito mútuo entre esses dois elementos, ajuda-nos a compreender melhor como a civilização moderna pode alcançar um estágio prejudicial à própria continuidade da vida no planeta. não é por acaso que a origem da palavra ética, advinda da raiz grega ethos (costume), é a mesma, refere-se ao local onde o homem vive, mora ou passa grande parte de seu tempo. Vale destacar que o objetivo da educação Ambiental não se resume a disseminar informações sobre o meio ambiente, mas a promover uma nova postura diante da vida, UMA PosTUrA éTiCA do ViVer, que se dedica não apenas a situações referentes ao esgotamento e à deterioração dos recursos naturais por meio da poluição ou da extinção de espécies. é uma nova postura diante das injustiças sociais, do empobrecimento sociocultural e da desigual distribuição de renda, promotora de desigualdades (CArVAlHo, 2003). Assim como qualquer processo educativo tem como fim a aprendizagem no seu sentido mais amplo, ou seja, a percepção e adaptação mental de impressões, informações e experiências no sentido de ampliar, aprofundar e transformar conhecimentos, conceitos, atitudes e comportamentos tanto individuais quanto grupais (doHMen, 1981)), a educação Ambiental, da mesma maneira, também assume como meta principal determinada aprendizagem individual. entendida enquanto uma necessidade permanente, a aprendizagem pretendida pela educação Ambiental visa a que o indivíduo reconheça e compreenda melhor o meio ambiente do qual faz parte, buscando novas formas de relacionamento com ele, pautadas nos princípios de respeito e integração ambiental. A educação ambiental e seus âmbitos Ao afirmarmos que alguém está realizando algum trabalho de educação Ambiental, faz-se necessário compreender que tipo de atividade está sendo implementada e identificar em que âmbito a educação está sendo promovida, pois isso nos ajudará a entender melhor o alcance Sugestão de estudo Para ver outras definições de educação Ambiental, não deixe de conferir o site: <http:// www.apoema.com.br/definicoes.htm>. 18 AUlA 2 • AfinAl, O quE é EDucAçãO AmbiEntAl do trabalho efetivado em termos de seus limites e potencialidades. Atualmente, existem três âmbitos de atuação da educação Ambiental: formal, não formal e informal. Vejamos cada um deles e sua importância para o estudo da educação Ambiental. ÂmbITO FORmAL (ou institucional) Disponível em: <http://www.diariodonoroeste.com.br/noticia/cotidiano/estadual/53576-educacao-ambiental-sera- incluida-no-curriculo-das-escolas-do-parana-em-2014>. Acesso em: 10 dez. 2015. nesse âmbito, existe um currículo estruturado com uma intenção particular bem definida, com mecanismos avaliativos, sequências temporais, dentro de um processo geralmente conduzido na instituição escolar, abrangendo quatro níveis de ensino: 1º e 2º graus, a graduaçãoe a pós- graduação (BrÜgger, 1994, p. 32). no caso da educação Ambiental, o trabalho nesse âmbito é o mais frequente, e se efetiva juntamente com professores e alunos, dentro de uma postura interdisciplinar que valoriza a participação do alunado no processo de aprendizagem e cuja orientação de seu foco pedagógico é voltada aos problemas objetivos de sua realidade (oliVeirA, 1993, p. 18). de acordo com a UnesCo, a educação Ambiental pode ser entendida nesse âmbito: [...] desde a simples introdução de conceitos ambientais nas disciplinas tradicionais, até a integração total em torno de um projeto de ação passando pela convergência de disciplinas que possuem certas afinidades teóricas e metodológicas (UnesCo apud BeZerrA; CosTA, 1992, p. 39). Quando se tem a pretensão de desenvolver no ser humano, desde seus primeiros anos de vida, uma atitude de respeito e integração ambiental, não há dúvidas de que a promoção da educação Ambiental em todos os níveis de ensino deve ser um imperativo. isso talvez explique porque a maior parte dos projetos e/ou programas de educação Ambiental no estado do rio de Janeiro tem trabalhado nesse âmbito de atuação, enxergando docentes e discentes como agentes multiplicadores de opinião e revendo a própria unidade escolar como uma grande agência de formação e desenvolvimento social. Procura-se atuar não apenas sobre os conhecimentos explícitos da escola, mas, também, os valores e as ideologias que perpassam a instituição e são transmitidos através da dinâmica de suas relações, do currículo ativo e das metodologias empregadas (gArCiA, 1993, p. 35). 19 AfinAl, O quE é EDucAçãO AmbiEntAl • AUlA 2 recentemente, esse âmbito vem se dividindo em: Educação ambiental formal presencial Educação ambiental formal não presencial no segundo caso, inserem-se as propostas de educação Ambiental a distância, em que o educando tem a oportunidade de realizar uma série de cursos e se manter informado sobre as últimas produções na área por meio de Cds, livros, sites, softwares. essa é uma proposta ainda bastante discutida em função da metodologia utilizada e da conscientização ambiental que pode vir a produzir. o ideal é que ela seja efetivada por uma equipe experiente que valorize os encontros presenciais com os educandos como parte integrante do funcionamento, de modo a suprir o distanciamento entre professor e aluno, bem como do aluno com a natureza em geral. Disponível em: <http://brasilescola.uol.com.br/educacao/formacao-formadores-educacao-ambiental-via-modalidade-. htm>. Acesso em: 10 dez. 2015. Sugestão de estudo Para um aprofundamento no estudo sobre educação Ambiental não presencial, recomenda-se a leitura da obra CArVAlHo, V. Interfaces entre Educação Ambiental e Educação a Distância. rio de Janeiro: WAK, 2015. esse livro traz uma série de artigos sobre educação a distância e uma pesquisa na área realizada no âmbito de um curso de Pedagogia de uma universidade particular do rio de Janeiro. Saiba mais Ecopedagogia: no âmbito da Educação Ambiental Formal, Moacir Gadotti, conhecido educador, prefere o uso do termo Ecopedagogia. Uma proposta de Educação Ambiental formal voltada a uma substituição da racionalidade da dominação por uma racionalidade da comunicação, por meio de uma reorientação curricular. Para saber mais, consulte a obra de gadotti (1996) destacada na bibliografia deste caderno. 20 AUlA 2 • AfinAl, O quE é EDucAçãO AmbiEntAl Um ÂmbITO NãO FORmAL Disponível em: <http://ama-amigosdaterra.org/educacao-ambiental>. Acesso em: 10 dez. 2015. esse âmbito, por sua vez, tem como foco a comunidade e suas unidades vitais, como igrejas, escolas, clubes, centros comunitários, associações, etc. nesse âmbito de trabalho, os enfoques que privilegiam uma precisão cronológica e um ritmo avaliativo determinante são descartados e os fatores a eles inerentes, relevados a segundo plano em relação ao tempo de reação da comunidade dentro de um processo mais amplo. Fora do espaço curricular, existe uma série de atividades desenvolvidas em termos de educação Ambiental não formal, como a promoção de campanhas, palestras, encontros, congressos, reuniões e aplicação de programas mais sistematizados de trabalho com comunidades (MACiel et al., 1994). Por exigirem mais tempo, considerando a comunidade como um todo, em um trabalho conjunto com as muitas unidades vitais que a compõem (comércio local, associações diversas, clubes, escolas e outras), os projetos de educação Ambiental nesse âmbito infelizmente são ainda bastante reduzidos. Um ÂmbITO INFORmAL Disponível em: <http://www.caritas.pt/setubal/index.php?option=com_content&view=article&id=2636:inclusao-de- utentes-nas-actividades-da-bandeira-azul&catid=99:noticias& itemid=31>. Acesso em: 10 dez. 2015. 21 AfinAl, O quE é EDucAçãO AmbiEntAl • AUlA 2 Atividades de educação Ambiental nesse âmbito geralmente são efetivadas através de meios informais de comunicação, tais quais jornais, panfletos, cartas, cartazes, filmes, programas de rádio e TV, podendo se concretizar em qualquer lugar. Apesar dos inegáveis resultados, o problema do trabalho educativo nesse âmbito refere-se ao fator avaliativo, de difícil mensuração em termos do impacto real obtido. em programas realmente efetivos de educação Ambiental, esse âmbito de trabalho é aliado a um dos dois anteriormente apresentados. ou seja, ele funciona como um reforçador coadjuvante das estratégias formais e não formais de educação Ambiental. os motivos são óbvios: não se faz educação Ambiental distribuindo folhetos ou passando vídeos, essas atividades fazem parte de algumas etapas com finalidades e estratégias específicas dentro de uma pedagogia educativa mais ampla. nesse sentido, vale sublinhar que a proposta que a eA traz é a formação de uma consciência crítica, pautada na participação e na responsabilidade social, e não apenas de educar para a ecologia ou fornecer aos educandos um conjunto de informações ambientais. Apesar de serem essencialmente diferentes encerrando diretrizes variadas e formas de concretização distintas, esses âmbitos não devem, em absoluto, ser entendidos como manifestações estratégicas isoladas de uma modalidade educativa, mas, sim, como partes de um mesmo modelo de pensamento e ação na luta por uma melhor qualidade de vida. é extremamente comum em um programa de educação Ambiental o emprego simultâneo de estratégias que privilegiam um ou outro âmbito de atuação, de acordo com determinado momento da realização do trabalho, não existindo restrições quanto ao espaço pedagógico a ser utilizado. independente do âmbito em que determinado projeto ou programa de educação Ambiental esteja inserido, o importante é que este tenha possibilidade de cumprir seu compromisso social, ou seja, o de “informar, conscientizar, convocar, questionar, denunciar, sensibilizar e contribuir para a mudança de base do ser humano”, uma passagem da razão à solidariedade baseada em uma nova ética socioambiental (grÜn, 1994). é por esse compromisso que o valor da educação Ambiental pode ser considerado tanto do ponto de vista preventivo, atuando antes que o problema ambiental venha a ocorrer (estando este na eminência de acontecer ou não), quanto do ponto de vista defensivo, agindo durante e depois de o problema ecológico já ter se manifestado, buscando maneiras de saná-lo ou, no mínimo, atenuá-lo. Sugestão de estudo Para conhecer as diferentes possibilidades metodológicas aplicadas aos âmbitos da educação Ambiental, é recomendável a leitura da obra de Pedrini, A.; sAiTo, C. (orgs.). Paradigmas Metodológicos da Educação Ambiental. Petrópolis: Vozes, 2015. 22 AUlA 2 • AfinAl, O quE é EDucAçãO AmbiEntAl E o que diz a lei? embora não seja aqui nosso objetivo fazer uma análise legal mais aprofundada da educação Ambiental, vale a pena se pretendemos compreendermelhor os diferentes âmbitos acima citados e a sua efetivação no contexto brasileiro. é importante dar uma boa conferida em alguns artigos da lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, a começar pelo primeiro deles: Art. 1o – entendem-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade. o caráter dado a essa educação está explicitado no Art. 2o: Art. 2º: A educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não formal. Para garantir ampla presença, a lei atribui incumbências ao Poder Público, às instituições educativas, à mídia, aos órgãos do sistema nacional de Meio Ambiente (sisnAMA), às empresas, entidades de classe, instituições públicas e privadas e à sociedade como um todo. Saiba mais SISNAMA O que é o SISNAMA? é um conjunto articulado de órgãos, entidades, regras e práticas responsáveis pela proteção e pela melhoria da qualidade ambiental, estruturando-se por meio dos seguintes níveis político-administrativos: » Órgão superior – Conselho de governo, que reúne a Casa Civil da Presidência da república e todos os ministros. Tem a função de assessorar o presidente da república na formulação da política nacional e das diretrizes nacionais para o meio ambiente e os recursos naturais. » Órgão consultivo e deliberativo – Conselho nacional do Meio Ambiente (ConAMA). reúne os diferentes setores da sociedade e tem caráter normatizador dos instrumentos da política ambiental. » Órgão central – Ministério do Meio Ambiente. Tem a função de planejar, coordenar, supervisionar e controlar as ações relativas à política do meio ambiente. » Órgão executor – instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos recursos naturais renováveis (iBAMA). está encarregado de executar e fazer executar as políticas e diretrizes governamentais definidas para o meio ambiente. » Órgãos seccionais – de caráter executivo, essa instância do sisnAMA é composta por órgãos e entidades estaduais responsáveis pela execução de programas e projetos, assim como pelo controle e fiscalização de atividades degradadoras do meio ambiente. são, em geral, as secretarias estaduais de Meio Ambiente. 23 AfinAl, O quE é EDucAçãO AmbiEntAl • AUlA 2 » Órgãos locais – Trata-se da instância composta por órgãos ou entidades municipais responsáveis pelo controle e fiscalização dessas atividades em suas respectivas jurisdições. são, quando elas existem, as secretarias Municipais de Meio Ambiente. A mesma lei estabelece (art. 4o, inc. i a Viii) como princípios básicos da educação Ambiental: » o enfoque humanista, holístico, democrático e participativo; » a concepção de meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o socioeconômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade; » o pluralismo de ideias e concepções pedagógicas, na perspectiva da inter, multi e transdisciplinaridade; » a vinculação entre a ética, a educação, o trabalho e as práticas sociais; » a garantia de continuidade e permanência do processo educativo, a permanente avaliação crítica do processo educativo; » a abordagem articulada das questões ambientais locais, regionais, nacionais e globais; » o reconhecimento e o respeito à pluralidade e à diversidade individual e cultural. A observância a esses princípios permite ao legislador concluir aquilo que está explícito no artigo 5º, quando este esclarece os objetivos de educação Ambiental. em outras palavras, esse artigo se presta a responder à pergunta: para que serve a educação Ambiental? ArTigo 5º i - o desenvolvimento de uma compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos ecológicos, psicológicos, legais, políticos, sociais, econômicos, científicos, culturais e éticos; iV- o incentivo à participação individual e coletiva, permanente e responsável, na preservação do equilíbrio do meio ambiente, entendendo-se a defesa da qualidade ambiental como um valor inseparável do exercício da cidadania; V - o estímulo à cooperação entre as diversas regiões do País, em níveis micro e macrorregionais, com vistas à construção de uma sociedade ambientalmente equilibrada, fundada nos princípios da liberdade, igualdade, solidariedade, democracia, justiça social, responsabilidade e sustentabilidade; Vi - o fomento e o fortalecimento da integração com a ciência e a tecnologia; Vii - o fortalecimento da cidadania, autodeterminação dos povos e solidariedade como fundamentos para o futuro da humanidade. 24 AUlA 2 • AfinAl, O quE é EDucAçãO AmbiEntAl A escola, enquanto uma instituição produtora de conhecimentos e formadora de opiniões, assume papel preponderante na concretização dos objetivos legais acima expressos. o ideal é que o processo de conscientização ecológica comece cedo em um trabalho de base com as crianças que já vão crescendo e se desenvolvendo pautadas em ideais de sustentabilidade e respeito ao ambiente do qual são parte integrante. Contudo, infelizmente, como já denunciaram vários autores, como Henrique leff (1999), frequentemente os valores para um ambiente saudável têm sido reduzidos na escola à conservação da natureza física, enquanto os princípios têm sido internalizados no ensino formal como uma listagem de problemas socioambientais causados pela ação humana. A forma sugerida por leff para superar visões restritas é olhar para a eA como algo que requer a construção de novos objetos interdisciplinares de estudo através da problematização dos paradigmas dominantes, da formação dos docentes e da incorporação do saber ambiental emergente em novos programas curriculares (leFF, 1999). no entanto, desenvolver um novo olhar que possibilite o entendimento da questão ambiental de forma não linear, crítica e multidimensional tem sido um difícil desafio constante para todos os que atuam na área. Afinal, ninguém disse que tarefa seria fácil. Resumo nesta aula: » Tivemos a chance de analisar de perto o que é educação Ambiental através do estudo de seus diferentes âmbitos de Análise; » Analisamos como a lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, define a educação Ambiental, seus princípios e objetivos, define responsabilidades em seus diferentes âmbitos e a garante como um direito da população; » refletimos sobre o papel da escola como facilitadora dos processos de conscientização ecológica, muito embora ainda persista nela uma visão reducionista da questão ambiental; » Vimos o quanto a eA precisa superar compreensões restritas não apenas sobre ela, mas também sobre a própria natureza e o meio ambiente. 25 A Educação Ambiental de Ontem e de Hoje UNIDADE II 26 Apresentação na unidade anterior, tivemos a chance de refletir mais sobre o que é educação Ambiental a partir da consideração de seus elementos e, principalmente, da análise de diferentes autores que atuam na área. nesta aula, estudaremos melhor sua trajetória histórica, ou seja, o caminho que a educação Ambiental seguiu desde o seu surgimento. Focaremos, de uma forma mais consistente, o período relativo à década de 60 até seus desafios atuais em pleno século XXi. Objetivos esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: » compreender um pouco da evolução da educação até atingir seu clímax através da Política nacional de educação Ambiental; » entender que os eventos que marcaram a educação Ambiental contribuíram não apenas para uma melhor definição dela, como também para seu aperfeiçoamento e conquistas;» reconhecer os principais avanços da educação Ambiental no campo da legislação; » ter a clareza de que a história da educação Ambiental continua por meio de nossas atitudes e posturas, a partir do que realizamos na área em um processo de construção permanente. 3 AUlA A TRAjETóRIA DA EA: DAS GRANDES CONFERêNCIAS à POLíTICA NACIONAL (LEI Nº 9.795/1999) 27 A TRAjETóRIA DA EA: DAS GRANDES CONFERêNCIAS à POLíTICA NACIONAL (LEI Nº 9.795/1999) • AUlA 3 Analisando a Trajetória da Educação Ambiental Disponível em: <http://www.autossustentavel.com/2014/06/tempo-vou-te-fazer-um-pedido.html>. Acesso em: 10 dez. 2015. o surgimento da educação ambiental se dá a partir do final da década de 60, sob a influência da contracultura e dos movimentos sociais que reivindicam melhor qualidade de vida e questionam o padrão de desenvolvimento da sociedade ocidental. nesse momento, a educação Ambiental desponta como alternativa, mas, sobretudo, como uma importante estratégia na busca de saídas possíveis para a procura de novos rumos que possam dar conta de nossa trajetória comum, que deverá passar a ser sustentada, agora, desde a tomada de consciência de que o planeta vive uma crise sem precedentes em sua história. As grandes conferências As décadas de 70 e 80 no cenário oficial, a educação Ambiental é lançada em 1972, na Conferência das nações Unidas para o Ambiente Humano, em estocolmo, suécia. Assim, essa atividade passa a ser uma importante ferramenta na construção de um futuro necessariamente sustentável e comum a todos. A partir desse pressuposto, o mundo observa a importância premente de tratar a educação Ambiental como uma espécie de alvo de uma série de importantes encontros de autoridades internacionais. Ainda na conferência de estocolmo, em 1968, a recomendação 96, resultante do documento final da conferência, afirmava que o desenvolvimento da educação Ambiental é o elemento crítico para o combate à crise ambiental do mundo, sendo de grande importância estratégica dentro dos esforços de busca de melhoria de qualidade de vida (diAs, 1992). Saiba mais Conferência da Biosfera (1968): Antes da Conferência de estocolmo em 1972, já havia ocorrido a Conferência da Biosfera em Paris no ano de 1968. essa conferência marcou a primeira vez que os povos e governos do mundo se reuniram para discutir a Biosfera como preocupação internacional. nessa conferência, já se percebia certa ênfase na aplicação e nos desenvolvimentos de Programas em educação Ambiental. 28 AUlA 3 • A TRAjETóRIA DA EA: DAS GRANDES CONFERêNCIAS à POLíTICA NACIONAL (LEI Nº 9.795/1999) A partir desse momento, decidiu-se que se faria um grande encontro internacional para se tratar da implementação da educação Ambiental no mundo, o que ocorreu em Belgrado na ex– iugoslávia, em 1975. na conferência de Belgrado, como ficou conhecido esse primeiro marco, foram formulados princípios e orientações para o ProgrAMA MUndiAl de edUCAÇÃo AMBienTAl, documento esse conhecido como CArTA de BelgrAdo, que marca um passo importante e traz uma proposta ética alternativa para a crise global. Saiba mais Que tal conhecer melhor a famosa CArTA de BelgrAdo 1975? Veja por meio de tópicos como a educação Ambiental foi pensada neste famoso documento: Objetivos da educação ambiental Consciência: adquirir maior sensibilidade e consciência do meio ambiente em geral e dos problemas decorrentes; Conhecimento: adquirir uma compreensão básica do meio ambiente, em sua totalidade, dos problemas conexos, e da presença e função da humanidade nele, o que justifica uma responsabilidade crítica; Atitudes: adquirir valores sociais, um profundo interesse pelo meio ambiente, e a vontade de participar ativamente em sua proteção e melhoramento; Aptidões: adquirir aptidões necessárias para resolver os problemas ambientais; Capacidade de Avaliação: avaliar as medidas e os programas de educação Ambiental em função dos fatores ecológicos, políticos, econômicos, sociais, estéticos e educacionais; Participação: desenvolver seu sentimento de responsabilidade e tomar consciência da urgente necessidade de prestar atenção aos problemas do meio ambiente, para assegurar que se adotem medidas adequadas. Disponível em: < http://www.meioambiente.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=71 >. Acesso em: 21 ago. 2017. Três anos depois de estocolmo, foi criado o ProgrAMA inTernACionAl de edUCAÇÃo AMBienTAl (PieA), em conjunto com a UnesCo, que atua promovendo cursos, programas de capacitação e formação, eventos, além de produzir informativos e publicações sobre o assunto no mundo. o PieA é também o responsável pela importante publicação Environmental Education Series, que relata experiências de todo o mundo, e do boletim periódico Contacto, distribuído em várias línguas para todos os continentes. A partir daí, seguindo recomendações da UnesCo e do PnUMA, foi organizada a Conferência de Tbilisi (atual geórgia, na antiga União das repúblicas socialistas soviéticas – Urss) em 1977, conhecida como a “Primeira Conferência intergovernamental sobre educação Ambiental”, onde foram traçados os principais fundamentos, recomendações, objetivos e estratégias de ação. Constitui-se um dos principais documentos produzidos, no qual estão as principais orientações pedagógicas e sugestões estratégicas para o desenvolvimento da educação Ambiental, sendo até hoje considerado um importante instrumento, indispensável à consulta. 29 A TRAjETóRIA DA EA: DAS GRANDES CONFERêNCIAS à POLíTICA NACIONAL (LEI Nº 9.795/1999) • AUlA 3 na Conferência de Tbilisi, a educação Ambiental foi definida como uma dimensão da educação com uma orientação específica. Vejamos sua definição: [...] uma dimensão dada ao conteúdo e à prática da educação, orientada para a resolução dos problemas concretos do meio ambiente através de enfoques interdisciplinares, e de uma participação ativa e responsável de cada indivíduo e da coletividade (diAs, 1992 p. 31). durante a década de 70, vários acordos foram ratificados pelos governos de diversos países, mostrando uma mobilização em quase todo o mundo com a questão ambiental, sobretudo com a educação Ambiental, considerada primordial e de relevante interesse nacional em vários países, que a incluíram em seus planos e estratégias nacionais. no Brasil, o quadro, no entanto, era bastante diferente. refletindo a posição dos países ditos “em desenvolvimento”, a preocupação com a questão ambiental se fazia sentir como um freio para o franco processo de desenvolvimento almejado pela política militarista de então. logo, a política brasileira desde cedo mostrou-se avessa às tendências preservacionistas mundiais, que eram percebidas de forma antagônica, como verdadeiras inimigas do desenvolvimento. Após quase duas décadas de atraso, depois de difíceis negociações e pressões internacionais, o governo brasileiro começa os primeiros movimentos de aceitação das novas tendências mundiais, e apenas durante a década de 80 o país começa a promover uma série de medidas a fim de regulamentar a Política nacional de Meio Ambiente. Mediante a lei no 6.938, de 31 de agosto de 1981, aprovou-se a criação do sistema nacional de Meio Ambiente (sisnAMA), do Conselho nacional de Meio Ambiente (ConAMA) e do Cadastro Técnico Federal de Atividades e instrumentos de defesa Ambiental. o ConAMA define a educação Ambiental como “um processo de formação e informação, orientado para o desenvolvimento da consciência crítica sobre as questões ambientais, e de atividades que levem à participação das comunidades na preservação do equilíbrio ambiental” (MoTA JÚnior, 2009). na lei nº 6.938/1981, a educação Ambiental aparece no art. 2º, inc. X, onde se lê: “educação ambiental a todos os níveis do ensino, inclusive a educação da comunidade, objetivando capacitá- la para a participação ativana defesa do meio ambiente”. em 1986, é realizado o i seminário sobre Universidade e Meio Ambiente, na Universidade de Brasília (UnB), onde surgem importantes resoluções e sugestões, sendo considerado como um dos primeiros e principais documentos gerados por experiências brasileiras. o ano de 1988 é marcado pela Assembleia nacional Constituinte, a primeira após o extenso período de regime militar autoritário. os constituintes começam a se preocupar com as questões de meio ambiente e criam uma comissão parlamentar para debater a questão com a participação popular. é 30 AUlA 3 • A TRAjETóRIA DA EA: DAS GRANDES CONFERêNCIAS à POLíTICA NACIONAL (LEI Nº 9.795/1999) promulgada, então, a Constituição da república Federativa do Brasil, contendo um capítulo para tratar a questão ambiental, no qual se pode ler, no capítulo Vi, art. 225, inc. Vi: “Promover a Educação Ambiental em todos os níveis e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente”. no ano seguinte, é criado o instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos recursos naturais renováveis (iBAMA), por meio da junção de outros órgãos públicos. o iBAMA cria então a divisão de educação Ambiental (died), que passa a ser responsável pelos núcleos de educação Ambiental (neAs) nos estados, cuja função é elaborar projetos, divulgar e desenvolver atividades sobre o assunto. Os anos 90 – o início da participação do empresariado: A onU declara 1990 o Ano inTernACionAl do Meio AMBienTe, e o Brasil se prepara para sediar o mais importante evento governamental já ocorrido no país, a rio-92, ou Conferência das nações Unidas para o Meio Ambiente e desenvolvimento (CnUMAd), oficialmente denominada “Conferência de Cúpula da Terra”. ocorrida no rio de Janeiro, em junho de 1992, a reunião contou com representantes de 182 países, e 103 chefes de estado estiveram presentes, aprovando cinco acordos oficiais internacionais: a declaração do rio sobre Meio Ambiente e desenvolvimento ou Carta do rio; a Agenda 21; a declaração das Florestas; a Convenção-Quadro sobre Mudanças climáticas e a Convenção sobre Biodiversidade. Paralelamente ao evento oficial que ocorria afastadamente, em local de acesso restrito, no rio Centro, estava acontecendo um megaevento popular, de proporções ainda maiores. o Fórum global, como ficou conhecido, reuniu cerca de 10.000 organizações não governamentais (ongs), que se aglomeraram debaixo de imensas tendas para discutirem os problemas que atingiam o mundo de então. Foi o primeiro encontro popular a reunir representantes de todas as partes do mundo com vistas a discutir seus problemas. durante 15 dias, o rio de Janeiro presenciou a deliberação de importantes tratados aprovados pelas ongs em discussões abertas ao público. entre os Tratados, destaca-se o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global resultante dos trabalhos da Jornada internacional de educação Ambiental, um dos documentos mais importantes produzidos para a área, no qual podem ser encontrados princípios, plano de ação, sistema de coordenação, monitoramento e avaliação, grupos a serem envolvidos e recursos. A elaboração do Tratado foi um esforço coletivo conseguido em função da coordenação de Moema Viezzer e omar ovalles, que lançaram, em 1995, o Manual Latino Para refletir Você percebeu quantas definições existem para educação Ambiental e como elas foram se aperfeiçoando ao longo de cada conferência? Com qual definição você se identificou mais? 31 A TRAjETóRIA DA EA: DAS GRANDES CONFERêNCIAS à POLíTICA NACIONAL (LEI Nº 9.795/1999) • AUlA 3 Americano de Educação Ambiental, um valioso livro contendo sugestões metodológicas de ação. segundo Pedrini (1998, p. 24), esse Tratado, “enriquece os já existentes e difere deles pelo fato de ter sido produzido pelo homem comum, e ser fruto de calorosas discussões entre educadores”. em 1993, o iBAMA divulga uma cartilha básica sobre a educação Ambiental em que aparece a seguinte definição oficial: A educação Ambiental é um processo permanente no qual os indivíduos e a comunidade tomam consciência de seu meio ambiente e adquirem conhecimentos, valores, habilidades, experiências e determinação que os tornam aptos a agir – individual e coletivamente – e resolver problemas ambientais presentes e futuros (PreFeiTUrA do rio de JAneiro, 2017, p. 1). durante o ano de 1994, o rio de Janeiro sedia o i encontro Brasileiro de Ciências Ambientais, no qual são apresentados vários trabalhos na área ambiental, inclusive em educação Ambiental. esse encontro constitui-se um marco inicial, fundando um foro de debates acadêmicos, sendo seus anais uma rica fonte de pesquisa e informação. Ainda em 94, o iBAMA cria o Programa nacional de educação Ambiental (PneA), lançando em 95 as “diretrizes de educação Ambiental” (deA), que prevê a criação do Programa de estudos e Pesquisas em educação Ambiental (PePeA). esse programa ainda não foi cumprido, assim como o PneA e o deA, que faltam ser implementados plenamente. os anos de 1995 e 1996 assistem à mobilização das ongs brasileiras de uma forma mais eficaz e madura. As ongs se organizam, elaboram seus estatutos e começam a funcionar através de projetos. Vários desses projetos têm um caráter preparatório para a implementação e o desenvolvimento das Agenda 21 locais. A realização da eCo–Aplicada 95, iV encontro latino-Americano de educadores Ambientais, também no rio, dá indicações dos movimentos e articulações das ongs e do Poder Público para tornar realidade o projeto Agenda 21. nesse ano, fortalecem-se as redes de educação Ambiental, sendo são Paulo o ponto de maior profusão delas. Assim, por esforços coletivos, algumas cidades brasileiras, por meio de suas prefeituras e dos movimentos sociais, já começavam, a passos largos, a implementar, em 1997, o programa da Agenda 21 local, em suas regiões. e durante a rio+5, em março de 97, Conferência que visava a debater os avanços realizados nos cinco anos após a rio-92, algumas experiências já puderam ser mostradas. no rio de Janeiro, destacam-se as atuações das ongs defensores da Terra, grUde (grupo de defesa ecológica), iser (instituto de estudos da religião), roda Viva, entre outras. sugestão de estudo Um dos documentos mais conhecidos na área de educação Ambiental é o “Tratado de educação Ambiental para sociedades sustentáveis e responsabilidade global”, desenvolvido no Fórum Paralelo durante a rio-92. Para maiores informações, acesse o site <http://portal.mec.gov. br/secad/arquivos/pdf/educacaoambiental/tratado.pdf> data de Acesso: 21/08/2017. 32 AUlA 3 • A TRAjETóRIA DA EA: DAS GRANDES CONFERêNCIAS à POLíTICA NACIONAL (LEI Nº 9.795/1999) em 97, também se celebrou a aprovação da nova lei de diretrizes e Bases da educação (ldB), de autoria do antropólogo, educador e senador darcy ribeiro, falecido no mesmo ano. A nova ldB, ou lei darcy ribeiro, como ficou conhecida, coloca a educação Ambiental no currículo básico escolar como disciplina pedagógica complementar aos 20% adicionais de carga horária adicionados por lei para o ensino básico. Para alguns educadores, a lei darcy ribeiro é considerada um retrocesso por colocar a educação Ambiental como uma disciplina a mais, não correspondendo às premissas sugeridas de interdisciplinaridade e participação voluntária. no entanto, a realidade do país evidencia a necessidade de uma organização mais formal para que a educação Ambiental se torne viável e exequível; além do mais, a lei permite a flexibilidade desse ponto para as situações em que é possível a interdisciplinaridade; por outro lado, alguns educadores consideram a educação Ambiental a nova forma da educação em si, em razão de suas características. o ano de 1998 foi marcado pela grande produção de importantes publicações na área, incluindo trabalhos inéditos contandoa trajetória da educação Ambiental no Brasil e as reflexões sobre algumas experiências práticas já desenvolvidas, como o importante trabalho organizado por Pedrini (1998), que reúne textos de diversos autores da área. A pesquisa nacional “o que o brasileiro pensa do meio ambiente, do desenvolvimento e da sustentabilidade” trouxe as análises quantitativas e qualitativas de entrevistas realizadas com lideranças atuantes da área ambiental, tais como empresários, políticos, membros de movimentos sociais, cientistas, entre outros. o ano de 1999 é marcado pela consolidação das redes e de encontros regionais, além de uma intensa produção de coletâneas de artigos publicados em livros. Conferências e encontros científicos também marcam esse ano que viu ser sancionada a lei de educação ambiental, instituindo-a como disciplina obrigatória em todos os níveis de ensino e também como uma saudável polêmica ainda hoje discutida sem um consenso por muitos educadores ambientais. A recente lei de educação ambiental, que teve a participação da sociedade civil em sua elaboração, trouxe consequências no estado do rio de Janeiro bastante interessantes no que diz respeito à consolidação dos setores militantes na educação ambiental regional. grupos ambientalistas militantes passaram a ter mais coesão e interação entre si, buscando, via internet, uma articulação maior dos esforços. Uma importante rede foi montada, chamada eAlatina, em que diariamente cerca de 70 pessoas estão conectadas em rede, trocando informações sobre a área de interesse. Além dessa rede, podem ser encontrados hoje mais de centenas sites sobre educação ambiental na internet, a maioria mantida por ongs, embora também haja universidades, órgãos públicos e empresas especializadas em oferecer o serviço de implementação de programas de educação ambiental. 33 A TRAjETóRIA DA EA: DAS GRANDES CONFERêNCIAS à POLíTICA NACIONAL (LEI Nº 9.795/1999) • AUlA 3 O início de um novo milênio no ano de 2000, a então criada Coordenação geral de educação Ambiental (CoeA), do Ministério da educação, promove uma importante teleconferência sobre os Parâmetros Curriculares em Ação sobre o Meio Ambiente (PAMA), na qual participam mais de 1.500 escolas em todo o território nacional. em 2001, a CoeA promove o seminário nacional de educação Ambiental, reunindo secretarias de educação Municipais e estaduais e instituições em todo o país, investindo na disseminação dos PCns que utilizam a problemática ambiental como tema transversal. em 2002, ocorre, em Joanesburgo, na África do sul, a iii Conferência internacional sobre Meio Ambiente e desenvolvimento, conhecida como a RIO+10. esse encontro foi o que obteve o maior quórum entre fóruns de debates promovidos pela onU, contou com a presença de 226 chefes de estado. Muitos consideraram o encontro um fracasso por frustrar as intenções dos ambientalistas, no que diz respeito à consignação de importantes tratados, como a Convenção do Clima e da Biodiversidade, por parte das nações mais ricas. Além disso, a educação Ambiental foi discutida minimamente em um grupo de trabalho liderado pela comitiva brasileira, as nossas 100 melhores experiências foram apresentadas e o Brasil despontou como liderança e referência em questões ambientais no ponto de vista jurídico e em educação Ambiental. Uma contradição que nos faz indagar se estamos fazendo, mais uma vez, a conhecida “política para inglês ver”. dando um salto no tempo, aconteceu, em 2012, a rio+20, A Conferência das nações Unidas sobre desenvolvimento sustentável (CnUds) de 13 a 22 de junho na cidade do rio de Janeiro. A rio+20 foi assim conhecida porque marcou os vinte anos de realização da Conferência das nações Unidas sobre Meio Ambiente e desenvolvimento (rio-92) e contribuiu para definir a agenda do desenvolvimento sustentável para as próximas décadas. A conferência teve três objetivos principais: a) a promoção da economia verde; b) a tomada de ações no contexto do desenvolvimento sustentável; e c) a adoção de maneiras visando ao fim da pobreza. durante a ii Jornada internacional de educação Ambiental, foi elaborado o Plano de Ação do Tratado Saiba mais na rio+10, apesar das vitórias no que se refere a questões relativas ao saneamento, chegou-se a um consenso para que fosse reduzido pela metade até 2015 o número de pessoas sem acesso a saneamento básico e para o estabelecimento de um acordo sobre patentes no âmbito da oMC, no qual países pobres não poderiam ser impedidos de ter acesso a medicamentos essenciais. no entanto, o que se viu foi muito mais o cinismo das diplomacias, que pouco contribuíram para o avanço na conferência e que fizeram com que muitos acordos acabassem ficando um tanto vagos e com validade questionável. Para refletir de todos os eventos citados, quais seriam aqueles que você destacaria como os mais importantes para a consolidação da educação Ambiental? Procure justificar sua escolha. 34 AUlA 3 • A TRAjETóRIA DA EA: DAS GRANDES CONFERêNCIAS à POLíTICA NACIONAL (LEI Nº 9.795/1999) de educação Ambiental para sociedades sustentáveis e responsabilidade global, que inclui a formação de uma rede Planetária de educação Ambiental. Contudo, os resultados da Conferência não foram o esperado. os impasses, principalmente entre os interesses dos países desenvolvidos e dos em desenvolvimento, acabaram frustrando os objetivos da Conferência. o documento final apresenta várias intenções e adia para os próximos anos a definição de medidas práticas para garantir a proteção do meio ambiente. não foram poucos os analistas que disseram que a crise econômica mundial, principalmente nos estados Unidos e na europa, prejudicou as negociações e as tomadas de decisão práticas. lembre-se de que os próximos capítulos dessa história – e quem sabe até os mais importantes – podem ainda não estar escritos. ou melhor, poderão ser escritos por você, seu grupo, seu trabalho, enfim, por todos aqueles que desejam se comprometer com a construção de um mundo melhor. Vejamos, agora, um pouco de legislação Ambiental: Introdução à Legislação Ambiental existem várias leis brasileiras que representam avanços importantes na luta pela construção de uma nova relação entre homem e meio ambiente pautada em princípios de sustentabilidade. Vejamos aqui algumas das principais e mais importantes quando o assunto é educação Ambiental. Sugestão de leitura no site <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6938.htm>, você irá encontrar a lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, referente à Política nacional do Meio Ambiente na íntegra. não deixe de ler. 1. Uma das primeiras leis que cita a educação ambiental é a lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, que institui a PolÍTiCA nACionAl do Meio AMBienTe. essa lei aponta para a necessidade de que a educação Ambiental seja oferecida “a todos os níveis de ensino, inclusive a educação da comunidade, objetivando capacitá-la para uma participação ativa na defesa do meio ambiente”. 2. o decreto nº 88.351/1983 regulamentou essa lei conferindo sua competência ao poder público. Provocações o livro “educação Ambiental: Princípios e Práticas”, de genebaldo Freire dias, é uma das principais referências sobre a história da educação Ambiental. Boa parte do histórico aqui relatado está baseado na obra do autor. seu livro reúne a íntegra de importantes documentos internacionais e nacionais, permitindo a acessibilidade da informação sobre o assunto para um maior número de pessoas. Assim vale a pena lê-lo. 35 A TRAjETóRIA DA EA: DAS GRANDES CONFERêNCIAS à POLíTICA NACIONAL (LEI Nº 9.795/1999) • AUlA 3 3. em 1985, foi criada a lei nº 7.347/85, que regulamentou a ação civil pública por danos causados ao meio ambiente e aos bens e direitos de valor artístico, paisagístico, estético e histórico. A partir dela, qualquercidadão que testemunhasse um crime ambiental poderia mover uma ação contra o agente, denunciando, assim, o ocorrido. 4. A ConsTiTUiÇÃo FederAl do BrAsil, promulgada no ano de 1988, uma das mais avançadas do mundo do ponto de vista ambiental, estabelece, em seu artigo 225, que: Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações (BrAsil, 1988). Cabendo ao Poder Público “promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente”. 5. A lei de direTriZes e BAses dA edUCAÇÃo, lei nº 9.394, de 20 de deZeMBro de 1996, reafirma os princípios definidos na Constituição com relação à educação Ambiental: A educação Ambiental será considerada na concepção dos conteúdos curriculares de todos os níveis de ensino, sem constituir disciplina específica, implicando desenvolvimento de hábitos e atitudes sadias de conservação ambiental e respeito à natureza, a partir do cotidiano da vida, da escola e da sociedade (BrAsil, 1996). no âmbito da educação Ambiental Formal, o ano de 1997, no qual foram divulgados os novos PArÂMeTros CUrriCUlAres nACionAis (PCns), representa um marco importante para a educação Ambiental. os PCns foram desenvolvidos pelo MeC com o objetivo de fornecer orientação para os professores. A proposta é que eles sejam utilizados como “instrumento de apoio às discussões pedagógicas na escola, na elaboração de projetos educativos, no planejamento de aulas e na reflexão sobre a prática educativa e na análise do material didático”. os PCns enfatizam a interdisciplinaridade e o desenvolvimento da cidadania entre os educandos; a partir do estabelecimento de alguns temas especiais, têm de ser discutidos pelo conjunto das disciplinas da escola, não devendo se constituir em disciplinas específicas. são os chamados temas transversais. o grande avanço da educação Ambiental no plano formal foi o reconhecimento, juntamente com os demais temas transversais definidos pelos PCns – ética, saúde, orientação sexual e pluralidade cultural –, do meio ambiente como um deles. Tal reconhecimento deixava claro que o meio ambiente não podia mais ser compreendido a partir de uma visão reducionista, apenas como uma área ligada à Biologia, às Ciências ou à geografia, mas, sim, uma temática interdisciplinar que atravessa todos os campos de conhecimento merecendo ser amplamente estudada e analisada pelas diferentes áreas, sem exceção. Tal posição reitera posicionamentos assumidos pelo movimento 36 AUlA 3 • A TRAjETóRIA DA EA: DAS GRANDES CONFERêNCIAS à POLíTICA NACIONAL (LEI Nº 9.795/1999) ambientalista de que a educação Ambiental não pode ser entendida e aplicada a partir de uma visão disciplinar, ratificando a necessidade de que essa supere a típica fragmentação do conhecimento e considere sua aplicabilidade a partir das esferas local e global. o Volume 9 dos PCns, o qual se refere mais especificamente às questões de ordem ambiental, esclarece que “as questões ambientais não se referem apenas à proteção da vida no planeta, mas também à melhoria do meio ambiente e da qualidade de vida nas comunidades” (PCns, vol. 9, p. 23). os PCns definem a educação Ambiental como uma proposta revolucionária que, se bem empregada, “pode levar a mudanças de comportamento pessoal de atitudes e de valores de cidadania que podem ter fortes consequências sociais” (PCns, vol. 9, p. 27). Apenas para se ter uma ideia da importância que os PCns deram à educação Ambiental, veja como esta foi pensada no que diz respeito aos seus objetivos no ensino Fundamental, oferecendo aos alunos: › conhecimento e compreensão integrada de noções básicas de meio ambiente; › adoção de posturas sustentáveis em casa e na escola compatíveis com essa compreensão; › observação e análises críticas de fatos e situações ambientais pertinentes ao tema; › percepções de fenômenos de causa e efeito na natureza importantes para a compreensão do meio ambiente e de seus diferentes ecossistemas; › domínio de procedimentos de conservação e manejo de recursos naturais; › percepção e valorização da diversidade natural e sociocultural; › identificação pessoal como parte integrante do meio ambiente. 6. em fevereiro de 1989, o governo criou o insTiTUTo BrAsileiro do Meio AMBienTe e dos reCUrsos renoVÁVeis (iBAMA), resultante da união de vários órgãos (SEMA, SUDEPE, IBDF e SUDHEVEA). esse órgão ficou encarregado de formular, coordenar e executar a política ambiental. Com a junção de órgãos, pela primeira vez associou-se no país proteção ambiental e conservacionismo de recursos naturais; notando o avanço do ambientalismo nos países do norte e a popularidade conquistada em relação às questões ambientais, o então governo Collor (1990) percebeu que a ênfase nas questões ambientais deveria ser uma de suas principais bandeiras na busca de uma parceria mais sólida com os países do norte e na manutenção de uma opinião pública favorável. ex.: a nomeação do engenheiro agrônomo lutzemberger para o cargo de secretário do Meio Ambiente. A eco-92 trouxe consigo a possibilidade de impor uma projeção internacional do governo Collor, fazendo com que o país mostrasse na 37 A TRAjETóRIA DA EA: DAS GRANDES CONFERêNCIAS à POLíTICA NACIONAL (LEI Nº 9.795/1999) • AUlA 3 conferência uma face ambiental nunca antes vista em nenhuma anterior, posicionando- se como um dos países líderes na elaboração da Convenção da Biodiversidade, sendo bastante favorável à Convenção sobre Mudança Climática e assumindo posições a favor das estratégias de desenvolvimento sustentável apresentadas na Agenda 21, que, como veremos em capítulo posterior, deve ser entendida como um plano de ação mundial dos países rumo ao desenvolvimento sustentável. é um documento de mais de 600 páginas dividido em 40 capítulos. Quanto às convenções citadas, podemos entendê-las, resumidamente, da seguinte forma: › ConVenÇÃo dAs MUdAnÇAs CliMÁTiCAs: estabelece a necessidade de realização de mais estudos sobre os efeitos das descargas de gases na atmosfera e propõe a cooperação entre países para que sejam socializadas tecnologias limpas de produção reduzindo sensivelmente a emissão de gases na atmosfera responsáveis pela promoção do efeito estufa. › ConVenÇÃo dA BiodiVersidAde: garante a soberania dos estados na exploração dos seus recursos biológicos e estabelece a necessidade de criação de incentivos financeiros para que os estados detentores da biodiversidade tenham como cuidar de sua conservação. o documento traz, em linhas gerais, como conservar a diversidade biológica em cada país de maneira sustentável. destaca-se o Protocolo de Biossegurança, que permite que países deixem de importar produtos que contenham organismos geneticamente modificados. 7. em dezembro de 1994, o governo Brasileiro criou o ProgrAMA nACionAl de edUCAÇÃo AMBienTAl (ProneA). o programa previu três componentes: Capacitação de gestores e educadores, desenvolvimento de Ações educativas e desenvolvimento de instrumentos e Metodologias, estabelecendo-se sete linhas de ação como parte da proposta de uma ação nacional, a ser desenvolvida diretamente, ou através dos estados, que seriam incentivados a iniciar seus processos de elaboração de Programas estaduais de educação Ambiental. As diretrizes são: › transversalidade; › fortalecimento do SISNAMA; › fortalecimento dos sistemas de ensino; › sustentabilidade; › descentralização espacial e institucional; › participação e controle social. A execução das propostas do ProneA foi dividida entre a Coordenação de educação Ambiental do MeC, cuja ação volta-se mais ao sistema de ensino, em todos os níveis, 38 AUlA 3• A TRAjETóRIA DA EA: DAS GRANDES CONFERêNCIAS à POLíTICA NACIONAL (LEI Nº 9.795/1999) e os setores correspondentes no MMA/iBAMA, com atuação, sobretudo, na vertente gestão Ambiental para outros públicos. 8. em 1998, o governo brasileiro sanciona a lei nº 9.605/98 - lei dos CriMes AMBienTAis (lCA). A lCA atendeu parcialmente a reivindicação dos ambientalistas e tratou a questão ambiental sob um enfoque de grande angulação ao reunir em um só texto legal, dividido em cinco seções, delitos que estavam espalhados por diversas legislações, tais como o Código Florestal, Código de Pesca, Código de Caça, Código de Mineração, dispositivos do Código Penal, etc. Tipificaram-se os crimes contra a fauna, a flora, a poluição, o ordenamento Urbano e o Patrimônio Cultural, além de serem previstos os crimes contra a Administração Ambiental. Um outro fator importante na regulamentação dos dispositivos da lCA foi a Publicação do decreto nº 3.179/1999, segundo o qual estabelece literalmente as modalidades de penas e institui valores às multas a serem aplicadas a cada conduta. esse decreto foi publicado com o objetivo de regulamentar e facilitar a aplicação da lei dos crimes ambientais. Tal dispositivo legal penal causou grande impacto na sociedade brasileira, principalmente pelo fato de estabelecer penalidades mais rigorosas e sanções pecuniárias extremamente altas. Após a publicação da lei nº 9.605/1998, o cidadão brasileiro passou a repensar as suas condutas que até então estavam acobertadas por penalidades brandas. 9. o ano de 1999 é considerado um marco na educação Ambiental. isso porque é sancionada, no dia 27 de abril, a lei nº 9.795, que institui a Política Nacional de Educação Ambiental. essa é a mais recente e a mais importante lei para a educação Ambiental. nela, estão definidos os princípios relativos à educação Ambiental que deverão ser seguidos em todo o País. essa lei foi regulamentada em 25 de junho de 2002, por meio do decreto nº 4.281, retomando algumas das ideias defendidas em vários encontros e Conferências nos âmbitos nacional e internacional. essa lei estabelece que todos têm direito à educação ambiental. lembrando que educação Ambiental é definida como: os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade. Para tal esta deve ser entendida como um: componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar Sugestão de estudo A nova lei de CriMes AMBienTAis é constituída de 82 artigos, reunidos em Viii capítulos. Para acessá-la na íntegra, entre no site <http://www.mma.gov.br/port/gab/asin/lei. html>. 39 A TRAjETóRIA DA EA: DAS GRANDES CONFERêNCIAS à POLíTICA NACIONAL (LEI Nº 9.795/1999) • AUlA 3 presente em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não formal (BrAsil, 1999). Política Nacional de Educação Ambiental As diretrizes expressas na Política nacional de educação Ambiental (eA), definida pela lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, trazem orientações quanto aos princípios, aos objetivos, às linhas de atuação e às estratégias de implementação da eA. Por isso, ela é considerada uma das maiores conquistas na área do ponto de vista legal. nas escolas, como já sabemos, a educação ambiental deverá estar presente em todos os níveis de ensino, como tema transversal, sem constituir disciplina específica, como uma prática educativa integrada, envolvendo todos os professores, que deverão ser treinados para incluir o tema nos diversos assuntos tratados em sala de aula. A dimensão ambiental deve ser incluída em todos os currículos de formação dos professores. os professores em atividade deverão receber formação complementar. enquanto uma instituição produtora de conhecimentos e formadora de opiniões, a escola assume um papel preponderante na concretização dos objetivos legais como esses que estamos estudando aqui. o ideal é que o processo de conscientização ecológica comece cedo em um trabalho de base com as crianças, as quais crescerão e se desenvolverão pautadas em ideais de sustentabilidade e respeito ao ambiente do qual são parte integrante. de acordo com a lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, fazem parte dos PrinCÍPios BÁsiCos da educação ambiental: » o enfoque holístico, democrático e participativo; » a concepção do meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, socioeconômico e o cultural; » o pluralismo de ideias e concepções pedagógicas; » a permanente avaliação crítica do processo educativo; » a abordagem articulada das questões ambientais locais, regionais, nacionais e globais; » a vinculação entre ética, educação, trabalho e práticas sociais; » o reconhecimento e o respeito à pluralidade e à diversidade individual e cultural. são oBJeTiVos FUndAMenTAis da educação ambiental, definidos na referida lei (entre outros): » democratização das informações; » fortalecimento da consciência crítica sobre a problemática socioambiental; 40 AUlA 3 • A TRAjETóRIA DA EA: DAS GRANDES CONFERêNCIAS à POLíTICA NACIONAL (LEI Nº 9.795/1999) » incentivo à participação individual e coletiva, de forma permanente e responsável na preservação do meio ambiente; » fortalecimento da cidadania, da autodeterminação dos povos e da solidariedade; » desenvolvimento de uma compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações. Resumo nesta aula: » conhecemos os principais eventos históricos que marcaram a trajetória da educação Ambiental; » entendemos o quanto a realização de tais eventos, provocados por pressões de vários lados, estimulou o desenvolvimento da educação Ambiental; » aproveitamos para entender melhor o conceito de educação Ambiental, sua amplitude e complexidade; » compreendemos que outros encontros e conferências na área virão, mas, se os compromissos assumidos não forem efetivados, continuaremos com a mesma situação de crise ambiental que ora vivenciamos; » estudamos algumas das principais vitórias da educação Ambiental do Brasil no campo da legislação Ambiental; » examinamos particularmente a Política nacional de educação Ambiental (lei nº 9.795/99). 41 Apresentação na aula anterior, acompanhamos o amadurecimento não apenas da educação Ambiental, mas, também, da forma como o meio ambiente foi sendo encarado pelo homem em função da gravidade dos problemas ambientais gerados principalmente devido à ação humana. nesta aula, conheceremos as diferentes esferas da educação Ambiental e, a partir do seu entendimento, esclarecemos por que a educação Ambiental é um importante caminho de reação ao quadro de crise ambiental na qual a humanidade se encontra mergulhada. Objetivos esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: » diferenciar e reconhecer os diferentes âmbitos da educação Ambiental; » compreender melhor os potenciais de reação das diferentes esferas da educação Ambiental ao quadro de crise ambiental que o planeta vive; » experimentar práticas de educação Ambiental sugeridas em seus diferentes âmbitos; » refletir sobre em que âmbito de educação Ambiental poderia contribuir mais; » entender o conceito de impacto ambiental e sua importância dentro da educação Ambiental; 4 AUlA DifErEntEs EsfErAs, Um mESmO ObjETIvO 42 AUlA 4 • DifErEntEs EsfErAs, um mEsmO ObjEtivO em aula anterior, vimos que existem três níveis operacionais da educação Ambiental correspondentes a suas esferas de atuação: ForMAl, nÃo ForMAl e inForMAl. nesta aula, concentrar-nos-emos no estudo das duas primeiras sem deixar de considerar o quanto a educação Ambientalinformal se faz presente nos projetos da área voltados a essas duas esferas. Antes de considerar as peculiaridades de cada nível, é preciso ressaltar que, independente de onde eles se aplicam, todos têm o mesmo objetivo: permitir um novo olhar sobre a realidade ambiental por meio do qual a humanidade assuma uma postura de integração e não de submissão do ambiente às suas necessidades. não importa se estamos promovendo a educação Ambiental em uma escola, uma empresa, um centro comunitário ou uma praça, o objetivo maior é oferecer às pessoas, por meio de diferentes meios, a possibilidade de se entenderem como organismos vivos de uma grande teia da vida, cuja preservação mediante ações conscientes e responsáveis é fundamental. Por intermédio de tal conscientização, pretende-se, de uma maneira mais ampla, a construção de uma nova sociedade pautada em novos padrões civilizatórios ecologicamente sustentáveis. Assim sendo, pode haver mudanças no público-alvo, na linguagem adotada, nos recursos utilizados ou nas estratégias de educação ambiental adotadas, mas nunca em seu objetivo maior. Tal advertência é importante no sentido de lembrar que muitas atividades que aparentam ser de educação ambiental não o são de fato. Camufladas de um discurso ambientalista, muitas ações – ditas de educação ambiental – têm objetivos bastante adversos dos que foram aqui elucidados, tais como favorecimento de interesses pessoais, atividades de marketing político ou empresarial, adestramento ambiental, enriquecimento ilícito, presentes em vários trabalhos que se dizem de “educação Ambiental”. é preciso estar atento para não cair em armadilhas e se deixar usar por um projeto na área cujas proposições teóricas pouco têm a ver com uma prática ambiental efetiva. do mesmo modo, uma série de trabalhos que aparentemente nada têm a ver com educação Ambiental assume, em suas propostas, uma nítida preocupação com a valorização da vida em sua complexidade. Por isso, como diz o ditado, também na área de educação Ambiental, “nem sempre aquilo que parece é”. A Educação Ambiental Formal ou Institucional A chamada educação Ambiental Formal é aquela que se processa no âmbito de uma instituição ou organização com regras próprias a partir de uma cultura específica. 43 DifErEntEs EsfErAs, um mEsmO ObjEtivO • AUlA 4 Conforme esclarece a lei nº 9.795/1999, ela diz respeito à educação ambiental efetivada na educação escolar a ser desenvolvida no âmbito dos currículos das instituições de ensino públicas e privadas, englobando: 1. educação Básica: › educação infantil; › ensino Fundamental e › ensino Médio; 2. educação superior; 3. educação especial; 4. educação Profissional; 5. educação de Jovens e Adultos. durante bastante tempo, tal âmbito de atuação se referia basicamente à instituição escolar, hoje, porém, percebe-se que a educação Ambiental tem sido promovida nas mais diferentes instituições, particularmente em relação àquelas que investem na qualidade de vida de seus funcionários ou assumem sua responsabilidade social. entretanto, as grandes discussões nessa área têm se dado na escola em função da necessidade de preparar as novas gerações para uma atuação ambiental mais consciente e crítica. Além disso, discute-se cada vez mais a importância de que as formações de novos profissionais contemplem noções básicas de educação Ambiental, destacando-se como cada profissão pode contribuir na luta por um ambiente mais saudável. dentro da própria academia, especialmente em torno de 1990, começaram a surgir diferentes grupos e Programas que tinham, senão diretamente, pelo menos enquanto linhas básicas de ação, a inclusão de estudos e pesquisas sobre as questões relacionadas à dinâmica homem x meio ambiente, conferindo à educação Ambiental um certo lugar de destaque, existindo inclusive uma proposta para inclusão da ecologia como disciplina do currículo básico de algumas universidades, como é o caso da Universidade Federal do rio de Janeiro (UFrJ). o que está em xeque é o papel do educador – tão desvalorizado neste país – na reorganização da sociedade baseada nos princípios de justiça social e democracia. na medida em que pretende garantir um meio ambiente sadio para todos os tipos de vida existentes no planeta, inclusive o homem, a educação Ambiental se converte em um apelo à seriedade do conhecimento, mediante a busca de propostas concretas e eficazes de aplicação das ciências e a recriação de valores perdidos ou jamais alcançados (AB’sABer, 1993). existem, ainda, muitas discussões sobre como a educação Ambiental deve se inserir na instituição escolar. Por exemplo, o caso da proposta conjunta do MeC e da CeTesB expressa no documento Ecologia: Uma proposta para o ensino de 1º e 2º graus (1979), nitidamente reducionista e atrasada em relação aos pressupostos internacionais sobre a questão (diAs, 1992). essa proposta encarava 44 AUlA 4 • DifErEntEs EsfErAs, um mEsmO ObjEtivO a ecologia como uma disciplina compartimentalizada, relevando, basicamente, os aspectos naturais e biológicos do meio ambiente, pretendendo-se minimizar e desvirtuar o verdadeiro conteúdo abrangido pela temática ambiental em suas dimensões social, política e cultural. A comunidade ambientalista criticou – e ainda critica – propostas dessa natureza, que, em vez de contribuir para maior desenvolvimento da educação Ambiental no contexto nacional, acabam constituindo-se como um dos maiores bloqueios à compreensão dessa educação, impedindo-a de sair da difundida concepção “verde pelo verde”, para assumir outra de maior amplitude socioambiental, mais condizente com sua realidade. é fato que a educação Ambiental foi introduzida no Brasil por meio do ensino de ecologia em âmbito curricular das ciências físicas e biológicas dentro de uma postura mais conservacionista (gUeVArA, 1994). no entanto, é preciso superar essa herança e possibilitar uma compreensão mais ampla de sua proposta à luz dos princípios e das recomendações das conferências internacionais, o que, de certa forma, inclusive, já se encontra assegurado pelo parecer 226/87 do Conselho Federal de Educação, sobre a necessidade de um enfoque interdisciplinar para a educação Ambiental. Conforme explicita limoeiro (1991): [...] a educação Ambiental não é uma nova disciplina para ser ensinada nas escolas, mas sim um processo educativo que deve permear todas as disciplinas e todos os projetos de desenvolvimento onde apareça a temática ambiental (...) busca informar e formar uma nova mentalidade, no sentido de despertar nos homens a responsabilidade que lhes cabe individual e coletivamente na conservação do meio ambiente (liMoeiro, 1991, p. 18). A lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, reafirmou o imperativo de que a educação Ambiental deve ser trabalhada de forma interdisciplinar e integrada nos diferentes níveis e modalidades de ensino, o entendimento dela como um direito coletivo e a viabilização de sua prática mediante o estímulo à participação coletiva e individual de todo cidadão. essa lei abafou a discussão anterior na medida em que vetou o tratamento da educação Ambiental enquanto uma disciplina (MeC/ CoeA, 2000), muito embora, de vez em quando, propostas com tal concepção retrógrada ainda venham à tona. em razão de sua abordagem holística e integradora, a eA vem sendo trabalhada nas escolas de maneira mais sensível, por meio da concepção, nos PCns, do meio ambiente como um tema transversal (v. 9). na verdade, um dos seis temas transversais definidos em função de quatro critérios básicos: urgência social; questões de abrangência nacional; possibilidade de ensino/aprendizagem na educação fundamental e, por fim, favorecimento da compreensão da realidade e da participação social (tomada de posicionamento frente às questões que interferem na vida coletiva). os outros Saiba maisQuer saber mais? Acesse o site <http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/leis/l9795.htm>. lá você irá encontrar a lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, referente à Política nacional de educação Ambiental na íntegra. não deixe de ler. 45 DifErEntEs EsfErAs, um mEsmO ObjEtivO • AUlA 4 temas selecionados foram: ÉTICA; PLURALIDADE CULTURAL; SAÚDE; ORIENTAÇÃO SEXUAL E TEMÁTICAS LOCAIS; sendo reservado a cada um desses temas uma parte específica dos PCns (v. 8). levando-se em consideração os critérios acima, não é difícil entender por que a temática ambiental foi escolhida para integrar os temas transversais dos PCns, tendo em vista a gravidade da questão ambiental com relação ao momento em que vivemos e a urgência de formar uma consciência ecológica para garantir a sobrevivência da humanidade. Criados pelo MeC, os PCns, tal como conhecemos hoje, tiveram sua versão definitiva em 1998, podendo ser entendidos como um conjunto de proposições elaboradas para servirem de base não apenas à elaboração e à revisão das políticas de currículo dos estados e Municípios, mas, também, à orientação dos próprios investimentos que serão feitos no sistema educacional, propondo princípios pedagógicos e metodológicos a serem observados pelas instituições de ensino da rede pública. o que se pretende nessa esfera, particularmente na instituição escolar, é o reconhecimento tanto de que toda educação só é verdadeiramente completa se leva em consideração a dimensão ambiental, assim como o fato de que a educação Ambiental é uma dimensão essencial do processo pedagógico, auxiliando na construção de nossa identidade e alteridade (loUreiro, 2004; sATo, 2000). entre as diferentes ações implementadas nas instituições de ensino com essa finalidade, podemos citar: » elaboração do Projeto Político Pedagógico da instituição sensível às questões de cunho socioambiental; » incentivo à elaboração de projetos interdisciplinares em que a preocupação ambiental esteja presente; » realização de atividades variadas relacionadas aos desafios socioambientais da área onde a escola se situa, tais quais a questão do lixo, economia de água, violência, desrespeito ao patrimônio local, queimadas, etc.; » promoção de cursos presenciais e semipresenciais de formação e aperfeiçoamento na área ambiental, de modo a sensibilizar professores e alunos para essa temática; » realização de palestras na instituição escolar por parte de profissionais envolvidos na área; » visitas guiadas a áreas de preservação ambiental ou a projetos de educação Ambiental em andamento com alunos e professores. essas são apenas algumas entre várias outras ideias que poderiam ser desenvolvidas com o apoio da equipe escolar. Aos professores em particular, vale reforçar a ideia de que é fundamental saber cativar o aluno para que ele seja receptivo às informações e aprenda a transmiti-las posteriormente. 46 AUlA 4 • DifErEntEs EsfErAs, um mEsmO ObjEtivO Por isso, qualquer estratégia que venha a promover a integração e a reflexão dos participantes sobre o tema socioambiental é bem-vinda. entre essas, poderíamos destacar: » desenvolver técnicas de teatro, jogos, músicas e dinâmicas de grupo (brincadeiras); » aplicar exercícios de ritmos, relaxamento e respiração para despertar os sentidos de observação e o desenvolvimento e equilíbrio corporal; » utilizar jogos verbais que trabalham com a palavra – de gravuras, propagandas, jornais, histórias em quadrinhos, música e livros; » fazer atividades que envolvam o diálogo, trabalhando a linguagem oral, a narração dos fatos, nas mais diferentes formas de construção, tais como conto, poesia, texto informativo; » organizar grupos que gostem de plantar árvores, hortas e jardins; » promover concursos de poesia sobre o tema; » incentivar a elaboração de textos, cartazes e músicas, dando asas à imaginação para a construção do conhecimento; » formular perguntas que ajudem a escrever sobre o assunto, que podem, inclusive, serem aproveitadas sob a forma de um jogo. evidentemente que todas essas estratégias podem ser aproveitadas no contexto ecológico voltadas ao estímulo e ao desenvolvimento da educação Ambiental, de forma a promover, mediante a integração do grupo e a sensibilização para a causa ecológica, uma responsabilização coletiva pela crise ambiental que o ser humano atravessa. Cada uma dessas estratégias possui vantagens e desvantagens e devem ser adaptadas à realidade de cada escola ou, ainda, de cada sala de aula, que, por ser uma realidade única, favorece mais algumas do que outras. Para obter novas ideias de trabalhos em grupo, sugerimos que você consulte a tabela das páginas seguintes, divulgada pela UnesCo/UneP/ieeP (2000), situando-as sob esse prisma. ESTRATÉGIA OCASIÃO PARA USO VANTAGENS DESVANTAGENS DISCUSSãO Em clAssE (grande grupo). Permite que os estudantes exponham suas opiniões oralmente a respeito de determinado problema. » Ajuda o estudante a compreender as questões; » Desenvolve autoconfiança e expressão oral; » Podem ocorrer dificuldades de discussão nos alunos. DiscussãO Em GruPO (pequenos grupos com supervisor-professor). quando assuntos polêmicos são tratados. » Estímulo ao desenvolvimento de relações positivas entre alunos e professores. 47 DifErEntEs EsfErAs, um mEsmO ObjEtivO • AUlA 4 mutirãO DE iDEiAs (atividades que envolvam pequenos grupos, 5-10 estudantes para apresentar soluções possíveis para um dado problema, todas as sugestões são anotadas. tempo limite de 10 a 15 min.) Deve ser usado como recurso para encorajar e estimular ideias voltadas à solução de certo problema. O tempo deve ser utilizado para produzir as ideias e não para avaliá-las. » Estímulo à criatividade, à liberdade; » Dificuldades em evitar avaliações ou julgamentos prematuros e em obter ideias originais. DEbAtE: requer a participação de dois grupos para apresentar ideias e argumentos de pontos de vista opostos. quando assuntos extrovertidos estão sendo discutidos e existam propostas diferentes de soluções. » Permite o desenvolvimento das habilidades de falar em público e ordenar a apresentação de fatos e ideias. » requer muito tempo de preparação. quEstiOnÁriO: desenvolvimento de um conjunto de questões ordenadas a ser submetido a determinado público. usado para obter informações e/ou amostragem de opinião das pessoas em relação à dada questão. » Aplicado de forma adequada, produz excelentes resultados; » Demanda muito tempo e experiência para produzir um conjunto ordenado de questões que cubram as informações requeridas. rEflEXãO: o oposto do mutirão de ideias. é fixado um tempo aos estudantes para que sentem em algum lugar e pensem acerca de um problema específico. usado para encorajar o desenvolvimento de ideias em resposta a um problema. tempo recomendado de 10 a 15 min. » Envolvimento de todos. » não pode ser avaliado diretamente. PrOjEtOs: os alunos, supervisionados, planejam, executam, avaliam e redirecionam um projeto sobre um tema específico. realização de tarefas com objetivos a serem alcançados a longo prazo, com envolvimento da comunidade. » As pessoas recebem e executam o próprio trabalho, assim como podem diagnosticar falhas nele. EXPLORAçãO DO AmbIENTE LOCAL: prevê a utilização/exploração dos recursos locais próximos para estudos, observações, caminhadas, etc. compreensão do metabolismo local, ou seja, da interação complexa dos processos ambientais à sua volta. » Agradabilidade na execução; » Grande participação de pessoas envolvidas; » vivência de situações concretas; » requer planejamento minucioso. Fonte: UNESCO/UNEP/IEEP. no âmbito organizacional (englobando empresas e outras instituições), por sua vez, muitaspropostas em educação Ambiental se confundem com programas de segurança no trabalho, de socialização (área de rH) e até de ergonomia. Como já foi dito antes, vários desses programas possuem necessariamente componentes ambientais, mas isso não significa que eles são de educação Ambiental. Para que um projeto ou programa qualquer mereça tal rótulo, é importante que algumas condições essenciais sejam respeitadas. entre essas condições, é necessário o entendimento da educação Ambiental como elemento mediador de interesses e conflitos dos atores que atuam no meio ambiente por meio do diálogo e do questionamento; como estímulo a uma compreensão do meio ambiente no sentido amplo, considerando suas diferentes dimensões (culturais, políticas, biológicas e sociais), assim como da dinâmica entre elas; como entendimento crítico e histórico das relações entre educação, sociedade, trabalho e meio ambiente; e, finalmente, como preocupação na capacitação de pessoas aptas a se organizarem e intervirem em diferentes espaços pela promoção e valorização da vida dentro de uma perspectiva ecológica (sATo, 2000; loUreiro, 2004). 48 AUlA 4 • DifErEntEs EsfErAs, um mEsmO ObjEtivO dentro da empresa, um Programa de educação Ambiental não deveria ser desenvolvido exclusivamente em seu entorno, como também não poderia ficar restrito a um programa de treinamento visando à sensibilização e à motivação dos funcionários, e sim atuar de forma ativa no próprio posto de trabalho dos operadores. não devemos esquecer que qualquer processo de mudança começa com a conscientização individual. Todo funcionário tem de estar consciente do por que, o que, quando, onde, quem e como, em relação às suas tarefas. Portanto, um eficaz programa de conscientização na área ambiental não pode ser apenas de caráter informativo, mas, sim, de uma postura construtiva em que há o envolvimento de todos na discussão das questões ambientais da empresa, seu desempenho ambiental e o próprio desempenho operacional. somente assim, de forma dinâmica e participativa, serão maiores as chances de os empregados identificarem as questões ambientais no ambiente empresarial e proporem, juntos, soluções para elas, de modo não apenas corretivo, mas, também, e principalmente, preventivo. entre as estratégias para se trabalhar a educação Ambiental nas organizações, poderíamos citar: » promoção de dinâmicas de grupo e jogos cooperativos, em que as questões socioambientais sejam uma prioridade; » análise de textos e vídeos e possibilidade de integração, motivação e tomada de atitude de forma crítica e participativa em relação às questões ambientais; » desenvolvimento de projetos de educação ambiental; » diagnóstico da percepção ambiental de empregados; » promoção de cursos e palestras de sensibilização e mobilização ambiental; » elaboração de boletins, jornais e folders, assim como de apostilas e cartilhas sobre meio ambiente e a responsabilidade social empresarial; » incentivo à participação dos funcionários em atividades relacionadas ao ecoturismo, trilhas ecológicas e outras que os aproximem da natureza; » estabelecimento de parcerias com organizações governamentais e não governamentais para o desenvolvimento conjunto de atividades na área e outros. essas são, evidentemente, algumas ideias na área que podem ser enriquecidas e, como foi dito antes, no que se refere ao contexto escolar, serem adaptadas à realidade de cada instituição. Após o entendimento sobre a educação ambiental formal, vamos agora falar sobre a educação Ambiental não formal. 49 DifErEntEs EsfErAs, um mEsmO ObjEtivO • AUlA 4 A Educação Ambiental Não Formal essa modalidade de educação Ambiental é aquela que se volta ao espaço da rua, da comunidade em geral, abrangendo não uma, mas várias instituições, como as igrejas, as escolas, as associações de moradores, grupos de rua, enfim, a sociedade civil organizada em suas múltiplas expressões. Uma vez que não se trabalha com uma instituição em particular, como é o caso da proposta de educação Ambiental Formal, não existe, nesse nível, uma organização e um planejamento fechado que se baseie em regras definidas. no campo comunitário, as possibilidades de o planejamento sofrer a ação de intempéries são constantes, sendo, inclusive, difícil cumprir os prazos dos órgãos de fomento a trabalhos dessa natureza sujeitos a dificuldades que vão, por exemplo, de encontrar uma linguagem comum ao aprendizado de conviver com o poder paralelo do tráfico, etc. o artigo 13 da Política nacional de educação Ambiental (lei nº 9.795/99) define educação Ambiental não Formal como “as ações e práticas educativas voltadas à sensibilização da coletividade sobre as questões ambientais e à sua organização e participação na defesa da qualidade do meio ambiente”. determinando ao poder público nos níveis federal, estadual e municipal, seu incentivo inclui em seu rol de atividades: i - a difusão, por intermédio dos meios de comunicação de massa, em espaços nobres, de programas e campanhas educativas, e de informações acerca de temas relacionados ao meio ambiente; ii - a ampla participação da escola, da universidade e de organizações não governamentais na formulação e execução de programas e atividades vinculadas à educação ambiental não formal; iii - a participação de empresas públicas e privadas no desenvolvimento de programas de educação ambiental em parceria com a escola, a universidade e as organizações não governamentais; iV - a sensibilização da sociedade para a importância das unidades de conservação; V - a sensibilização ambiental das populações tradicionais ligadas às unidades de conservação; Vi - a sensibilização ambiental dos agricultores; Vii - o ecoturismo. Vale dizer que muitas das estratégias anteriormente citadas no que se refere à educação ambiental formal servem a este âmbito, desde que entendidas em uma visão comunitária. 50 AUlA 4 • DifErEntEs EsfErAs, um mEsmO ObjEtivO esse nível de atuação normalmente requer uma equipe maior de trabalho e a humildade de que não será possível resolver todos os problemas da comunidade através da educação Ambiental. é fundamental definir junto com a comunidade, inclusive com a inclusão de alguns de seus membros na equipe, quais serão as prioridades de atuação e como serão desenvolvidas as atividades mitigadoras dos problemas encontrados. é possível dizer que, de modo geral, a comunidade é o foco do trabalho de educação Ambiental não formal. Mais do que um mero agrupamento de pessoas em uma localidade qualquer, a comunidade representa um grupo de pessoas, mais ou menos entrosado, que comungam do mesmo modo das facilidades e desvantagens de residir em determinada localidade, tendo ali que sobreviver. Por meio de instituições próprias, como associações, clubes e grupos, buscam resolver seus problemas, particularmente no que se refere à qualidade de vida e à subsistência econômica mediante maior fortalecimento político. segundo souza (1993), existem seis aspectos comunitários fundamentais a se considerar como fundamentais para compreender os processos de interação entre a comunidade humana e o meio ambiente: 1. os AsPeCTos FÍsiCos da área, englobando sua localização espacial, comunicação com outras áreas, caracterização territorial e sua população; 2. os AsPeCTos HisTÓriCos da comunidade; 3. os AsPeCTos eConÔMiCos, como as condições de vida e de trabalho da população; 4. os AsPeCTos PolÍTiCos, reunindo as relações de poder existentes nos diferentes grupos e na própria comunidade como um todo; 5. os AsPeCTos CUlTUrAis, considerando as variadas formas de expressão e as visões de mundo da comunidade baseadas em seus interesses e aspirações; 6. os AsPeCTos soCiAis, que envolvem os serviços sociais básicos como educação, saúde, transporte, segurança e comunicação. Todos esses aspectospertinentes à realidade comunitária estão intimamente ligados entre si e com o meio ambiente onde se apresentam e se constituem. Um projeto de educação Ambiental aplicada a uma comunidade precisa considerar esses aspectos em sua totalidade de uma forma integrada, a partir de uma abordagem interativa. é um grande erro pensar a dimensão ambiental apenas do ponto de vista territorial ou geográfico, ignorando os fatores psicossociais que estão indubitavelmente presentes e são determinantes, como já vimos em alguns processos ecológicos. Conforme nos lembra d’Ávila e Maciel (1992), o meio ambiente “é um processo de interação sociocultural, gerado pelo homem e a natureza” (MACiel; d’ÁVilA, 1992, p. 72). nesse contexto, os grupos, as comunidades e a própria sociedade em geral poderiam ser encarados como a materialização da dinâmica homem x meio. 51 DifErEntEs EsfErAs, um mEsmO ObjEtivO • AUlA 4 A parceria com as lideranças locais, moradores antigos da área e comerciantes pode fortalecer o projeto e, principalmente, ajudar o educador ambiental a entender a história da comunidade onde as atividades serão desenvolvidas. do mesmo modo, é fundamental conhecer previamente a história da localidade, seus períodos de desenvolvimento e sua realidade atual do ponto de vista econômico, político, biológico, etc. dados podem ser obtidos não apenas na própria comunidade, mas também nas prefeituras e subprefeituras, onde mapas locais podem ser acessados e copiados. no caso do rio de Janeiro, existe, na biblioteca do estado, um setor dedicado apenas à história dos bairros. A educação Ambiental pode ser entendida como um elemento facilitador do desenvolvimento comunitário, levando a comunidade a entender melhor o ambiente onde vive e sua força comunitária rumo à transformação gradual daquele ambiente no sentido de preservá-lo ou recuperá-lo tanto no âmbito rural quanto urbano. A partir de uma visão estratégica para o desenvolvimento local, como um processo dinâmico de transformação, a educação ambiental pode incentivar práticas de autogestão comunitária, de modo que as comunidades possam desenvolver seus potenciais e competências, preservando seu patrimônio ambiental, superando as limitações e assegurando uma melhoria contínua de qualidade de vida dos seus indivíduos. entre as atividades comunitárias de educação Ambientais, poderíamos citar: » promoção de cursos e palestras relacionadas à área ambiental em instituições locais como igrejas e escolas da comunidade; » desenvolvimento em parceria com empresas locais de projetos de reciclagem, reflorestamento, economia de água e outros; » prática de atividades de sensibilização ambiental em campo aberto (praças) ou em instituições comunitárias, tais como: dramatizações, exposição de filmes e fotos, produção de textos, etc. » desenvolvimento de programas de rádio e/ou TV local (comunitárias) de programas com apelo socioambiental; » estímulo a atividades lúdicas e de cunho artístico que valorizem o ambiente do entorno onde a comunidade está inserida; » criação de fóruns de participação local, com ampla participação comunitária para decidir sobre seu processo de autogestão ambiental. Saiba mais Procure em sua região se existe algo dessa ordem, o que poderá ajudar muito o trabalho de reconhecimento local em termos históricos, assim como de seus potenciais e dificuldades. 52 AUlA 4 • DifErEntEs EsfErAs, um mEsmO ObjEtivO e várias outras atividades dependendo da localidade e da comunidade em questão. As possibilidades são ilimitadas. Por fim, vamos examinar algumas possibilidades de educação Ambiental informal! A Educação Ambiental Informal esta modalidade de educação Ambiental pode ocorrer tanto no âmbito formal quanto no não formal. o que a define como um âmbito particular é sua temporalidade. geralmente, diz respeito à prática de atividades pontuais que não necessariamente estão inclusas em um Programa de educação maior, tais como: » panfletagem; » participação esporádica em programa de rádio e TV; » criação de um jornal/informativo ambiental; » campanhas de conscientização ecológica; » produção de uma cartilha de educação ambiental; » elaboração de um site ou blog voltado para problemas ambientais que sirva à divulgação de informações ambientais de determinada localidade, divulgue eventos, etc. enfim, são atividades esporádicas de educação Ambiental realizadas no âmbito formal e não formal, as quais têm resultado, mas não estão necessariamente presas a um programa ou projeto maior com o compromisso de continuidade. Veja um exemplo do conteúdo de panfletos e/ou cartazes que certamente você já recebeu, nem sempre com os resultados esperados. Algo do tipo: “o que você pode fazer para ajudar o meio ambiente?” ou “Um novo ambiente é minha responsabilidade”, seguido de algo assim: Em casa » evitar o desperdício (água, luz e papel); » comprar produtos de empresas que investem em ações sociais; » jogar no lixo só o que não puder ser aproveitado e separar para reciclagem; » recuse embalagens desnecessárias e corte um terço da montanha de lixo; » comprar alimentos a granel (não levam embalagens dispensáveis); » comprar refil para seus produtos de higiene e limpeza. » comprar embalagens recicladas; » usar detergente biodegradável; » usar panos ao invés de toalhas de papel; » reduzir o tempo do banho; » fechar as torneiras; 53 DifErEntEs EsfErAs, um mEsmO ObjEtivO • AUlA 4 » não jogar lixo no vaso sanitário; » não usar esguicho quando limpar a calçada; » levar pilhas usadas aos postos de coleta; » não desperdiçar comida; » deixar o carro em casa um dia por semana; » não jogar produtos como tinta diretamente no solo, pois ele agride o solo. Na Rua » cuidar para não poluir as ruas; » zelar pelos monumentos e locais históricos em sua rua; » avisar as autoridades quando a segurança de sua rua estiver em risco; » notificar a prefeitura quando a identificação dos logradouros estiver prejudicada de algum modo; » examinar se os poluentes lançados por seu automóvel estão de acordo com as normas fixadas pelos órgãos competentes. » fazer coleta seletiva do lixo; » não jogar lixo em terrenos baldios; » arborizar; » cuidar dos Terrenos baldios; » preservar os Monumentos; » valorizar o ambiente construído por meio de ações individuais e coletivas. » não fazer poluição sonora e visual (ex.: pichar muros e paredes); » não poluir o ar; » lutar pela implantação da coleta seletiva; » fazer campanhas de conscientização ambiental; » estimular outros a participar de processos de educação Ambiental. » cuidar das praças, parques e áreas de lazer; » fazer abrigos nos pontos de ônibus; » fazer campanhas anti-tabagismo; » não queimar folhas e restos de gramas; » não usar produtos descartáveis. essas e outras mensagens são importantes, pois deixam “o seu recado”. Contudo, podem ser ampliadas através de Programas mais consistentes de educação ambiental formal e não formal que as aprofunde e auxilie a população em sua concretização. não adianta apenas jogar o lixo na lata de lixo, mas saber por que isso é importante, o que isso significa e por que todos devem fazê-lo e não apenas eu. nem sempre essas explicações estão presentes em ações desse âmbito. Dicas de atuação Para atuar com segurança nessas esferas, é fundamental conhecer bem a realidade na qual o trabalho será desenvolvido. isso implica conhecer sua história e desenvolvimento; suas regras básicas de 54 AUlA 4 • DifErEntEs EsfErAs, um mEsmO ObjEtivO funcionamento e organização relacional e funcional; sua administração atual e, principalmente, o espaço desta. é importante saber se já existiram projetos anteriores na área ambiental desenvolvidos e, em caso positivo, terconsciência do modo como esses foram implementados e quais foram seus resultados. no caso de projetos malsucedidos, o trabalho do educador ambiental será mais complicado no sentido de romper com os ranços do trabalho anterior. esse momento inicial referente à coleta de dados, a fim de traçar perfil da instituição a ser trabalhada, deve ser feito com calma de modo a se evitar problemas futuros. Consultas a documentos antigos e recentes, entrevistas com funcionários significativos e acesso a todos os espaços físicos da organização são ações fundamentais nesse primeiro momento. se possível, utilize instrumentos como gravadores, máquinas de fotografia e filmadora. Caso esse material não seja viável ou de utilização permitida, então não dispense um bom e velho caderno de anotações. Antes de formular quaisquer estratégias, é fundamental ter claro quais são as reais intenções e os limites da atuação do projeto de educação Ambiental e, finalmente, qual será o apoio financeiro para sua realização. é fundamental adotar critérios éticos durantes todas as fases do trabalho, desde o planejamento até sua execução. A equipe precisa estar bem integrada, consciente de sua responsabilidade e limites de ação. o contato com a comunidade deve ser intenso, inclusive com a participação de alguns de seus integrantes nas equipes de trabalho e coordenação. Todavia, é preciso tomar cuidado para que essa proximidade com a comunidade não promova dependência. A comunidade ou os diferentes setores da empresa ou escola, onde o trabalho será desenvolvido, precisam ter a clareza de que são os seus membros os principais mantenedores e responsáveis pelo sucesso do projeto, e não necessariamente o grupo que iniciou os trabalhos e em breve estará atuando em outra área ou local. Finalizando nossas reflexões, é importante lembrar que a avaliação deve ser constante durante e após a realização do trabalho. se os erros forem percebidos a tempo, maiores complicações poderão ser evitadas. Por isso, é preciso não ter vergonha de reconhecer falhas e, por vezes, recomeçar, sempre que isso for necessário e as avaliações ainda que parciais sinalizarem isso. Resumo nesta aula: » aprendemos que a educação ambiental possui três âmbitos de atuação: formal, não formal e informal; Para refletir A partir das ideias citadas nesta página e na anterior, procure refletir sobre que tipo de práticas de educação Ambiental você poderia fazer ou promover para estimular a conscientização ambiental em seu bairro. 55 DifErEntEs EsfErAs, um mEsmO ObjEtivO • AUlA 4 » refletimos sobre cada um desses três níveis, suas particularidades e potencialidades, aprendendo a reconhecê-los e diferenciá-los; » vimos que não existe uma profissão chamada educador ambiental e que qualquer pessoa que respeite o meio e lute pela sua preservação pode trabalhar na área; » aprendemos uma série de práticas de eA que podem ser aplicadas em casa, na rua, ou mesmo em uma escala maior, no próprio bairro; » entendemos que a educação Ambiental vem se desenvolvendo a cada dia, podendo, inclusive, com o passar dos anos, desenvolver novos âmbitos de atuação ou ampliar ainda mais os já existentes. 56 Promoção da Sustentabilidade e Enfrentamento da Crise Ambiental UNIDADE III 57 Apresentação na aula anterior, vimos um pouco da legislação ambiental vigente. Conhecê-la é importante para entender como a educação Ambiental foi-se firmando como uma área estratégica de atuação preventiva e proativa na resolução de graves problemas causados por impactos ambientais indesejáveis. nesta aula, estudaremos um dos grandes desafios da educação Ambiental: contribuir para que o desenvolvimento de determinada localidade adote os princípios básicos de respeito, preservação e sustentabilidade ambiental. Objetivos esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: » entender as relações entre educação Ambiental e desenvolvimento; » compreender porque nem sempre as propostas de desenvolvimento e educação ambiental são convergentes; » conhecer algumas das propostas alternativas de desenvolvimento, de modo particular, o desenvolvimento sustentável, considerando seus limites e possibilidades; » aprender sobre a importância da Agenda 21 e seus desdobramentos (Agendas 21 locais) para a construção de uma sustentabilidade global; » enxergar o quanto a educação Ambiental é valorizada na Agenda 21 como um caminho viável para a construção dessa referida sustentabilidade. 5 AUlA EDucAçãO AmbiEntAl, DESENvOLvImENTO E PROmOçãO DA SUSTENTAbILIDADE 58 AUlA 5 • EDucAçãO AmbiEntAl, DEsEnvOlvimEntO E PrOmOçãO DA sustEntAbiliDADE Examinando o conceito de Desenvolvimento o conceito de desenvolvimento possui diferentes significados. desenvolver pode ser entendido como progredir, avançar, crescer, produzir, criar e muitos outros. Um dos mais interessantes conceitos ligados à etimologia da palavra, refere-se ao ato de “desembrulhar”, ou seja, a junção do prefixo “des” com o sufixo “envolver” (deixar de envolver). o desenvolvimento de uma localidade pode ser pensado por um lado como um “desembrulhar”, um “desenvolver” de um potencial que ela possui e que precisa ser estimulado, liberto. Por outro lado, uma remoção ou retirada do envoltório que cobre grande parte das nações do mundo – constituído pelos efeitos que sua situação de dominação cultural e econômica lhe impuseram –, liberando-as para o autocrescimento em todos os níveis. As estratégias para que isso ocorra são as mais diversas possíveis. Cabe aqui assinalar, desde já, que a maioria delas, durante boa parte dos séculos XiX e XX, ignoraram totalmente as questões ambientais. o meio ambiente era considerado um empecilho em muitas das chamadas políticas de desenvolvimento. Foi preciso que chegássemos a uma situação crítica para que essa situação pudesse ser revista. o desenvolvimento de uma localidade qualquer deve sempre ser pensado a partir de sua história, suas raízes, suas potencialidades e características peculiares; caso contrário, é grande a chance das políticas adotadas fracassarem. o sociólogo guerreiro ramos (1954) dizia com muita propriedade que a estratégia de desenvolvimento de um país é condicionada pela particular contextura, a qual, em cada fase histórica, apresenta sua prioridade específica de necessidades de desenvolvimento. decorre daí a impossibilidade de se transferir planos e estratégias, ou mesmo de se copiar modelos de desenvolvimento de um país para outro. Como expôs Amar (1994), cada sociedade de acordo com sua história e características deve definir o que é e o que quer ser (AMAr, 1994). essa liberdade de escolha, alicerçada nos princípios sócio-históricos e culturais de cada localidade, deve ser entendida como uma necessidade, em qualquer plano de desenvolvimento que ambicione alcançar o bem-estar social de forma democrática, participativa e eficiente. Apesar do termo desenvolvimento possuir muitos significados, durante décadas, predominou- se a ideia de desenvolvimento igual a crescimento ou avanço econômico, e, a partir dela, a prevalência dos fatores econômicos sobre os demais indicadores como os mais decisivos para deliberar se determinada localidade (podendo esta se referir a uma região, um país ou mesmo todo um continente) poderia ser qualificada como desenvolvida ou subdesenvolvida. essa predominância ideológica, como alerta Frederico Zaragoza (1990), diretor geral da UnesCo, só veio a sofrer alterações muito recentemente, quando, “através de eventos de grande alcance, nos demos conta da importância essencial do fator humano e de sua formação para um autêntico desenvolvimento” (ZArAgoZA, 1990, p. 42). 59 EDucAçãO AmbiEntAl, DEsEnvOlvimEntO E PrOmOçãO DA sustEntAbiliDADE • AUlA 5 Saiba mais Subdesenvolvimento: segundo lacoste(1973), existem 15 sintomas básicos que caracterizariam o subdesenvolvimento: (1) insuficiência alimentar; (2) deficiência da agricultura; (3) baixa renda nacional média e baixos níveis de vida; (4) industrialização reduzida; (5) fraco consumo de energia mecânica; (6) situação de subordinação econômica; (7) setor comercial hipertrofiado; (8) estruturas sociais ultrapassadas; (9) fraco desenvolvimento das classes médias; (10) frágil integração nacional; (11) subemprego e desemprego crônico; (12) deficiente nível de instrução; (13) intensa taxa de natalidade; (14) situação sanitária irregular; (15) efeitos negativos da tomada de consciência de sua situação. Confira em lacoste (1973, p. 9-30). Conforme assinala Furtado (1979), ao entender o desenvolvimento como um processo de acumulação de capital impulsionado pelo avanço tecnológico, o economista deu muito pouco, ou mesmo nenhuma, atenção aos efeitos da acumulação de capital no plano cultural e muito menos com relação a seus impactos no meio físico. Falando pelos economistas brasileiros, ele vai confessar que, desde a época do nacional desenvolvimentismo, vigente no Brasil nos anos de 1940 até 1970, “a natureza e seus recursos eram dados como fatores constantes sem que se percebesse sua escassez ou elasticidade de sua oferta” (FUrTAdo, 1979 apud leiTÃo, 1996, p. 152-153). A natureza, diz Furtado, “não ocupava qualquer preocupação aos economistas naquele período e ainda não ocupa” (id., 1999, p. 154). Saiba mais Clube de roma: o Clube de roma é uma associação privada composta de empresários, cientistas e outros participantes da vida pública nacional ou internacional. o relatório em questão, Limits to Growth, foi encomendado em 1970 por essa associação ao instituto Tecnológico de Massachussets (MiT), com o objetivo de analisar os limites físicos do planeta diante da intensa atividade humana e sua crescente multiplicação. Publicado em março de 1972, esse relatório é considerado, apesar de algumas falhas, um marco na história ambiental, por ser um dos primeiros a alertar as graves denúncias cometidas contra o meio ambiente. Toda gama de problemas socioambientais é considerada “como efeitos inesperados” desse modelo economicista (leis, 1995, p. 16), sendo dispensável mencionar, portanto, as irritações que o relatório do Clube de Roma causou a muitos economistas, que não viam no planeta nada mais além do que um grande, rico e inexaurível potencial a ser explorado. Bursztyn (1993) é um dos muitos autores que analisam como a ecologia e a economia, ciências tão próximas em seus objetivos, acabaram se distanciando. A primeira seguindo o rumo do antropocentrismo, vendo a natureza como simples meio de produção; e a segunda, o caminho do biocentrismo, ignorando que o homem precisa da produção para sobreviver e que, igual a qualquer outro animal, também preda os recursos naturais (BUrsZTYn, 1993, p. 8). segundo esse mesmo pesquisador, “a crise ambiental atual e, mais particularmente, a dificuldade de se 60 AUlA 5 • EDucAçãO AmbiEntAl, DEsEnvOlvimEntO E PrOmOçãO DA sustEntAbiliDADE reverter o impasse gerado pelo conflito entre desenvolvimento e meio ambiente” reflete justamente a distância que separa as lógicas entre esses dois conceitos quando, na realidade, o sistema econômico não passa de um subsistema aberto do ecossistema planetário, estando sujeito aos princípios, às leis e aos fundamentos da ecosfera (CAVAlCAnTi, 1995, p. 319). A partir da necessidade interdisciplinar – a que Furtado se refere –, gerada pela variedade de significados pertinentes à noção de desenvolvimento, surgiram os primeiros desdobramentos dela, como foi o caso da diferenciação entre crescimento e desenvolvimento. enquanto a noção de crescimento estaria mais voltada ao plano econômico, a noção de desenvolvimento encerraria uma amplitude um pouco maior, envolvendo diferentes processos que extrapolavam o plano econômico. A essas duas noções, iria se juntar também, um pouco mais tarde (segunda metade do século XViii), a ideia de progresso, consagrada definitivamente a partir da passagem do capitalismo comercial (simples intercâmbio de produtos finais ou semifinais) para o capitalismo industrial (onde já se destacava a presença de elementos como: estrutura de produção; divisão do trabalho e lógica de mercado). Com o surgimento do chamado capitalismo industrial, os capitalistas passaram a ver o mundo à sua volta como um conjunto de elementos da produção, e, como tal, podendo ser abstratamente valorados, comparados e quantificados (FUrTAdo, 1979). o mundo do econômico – e atrelado a esse a noção do desenvolvimento – tornara-se autônomo, independente do mundo biótico- sociocultural. A economia que originalmente tinha por fim estudar os meios para o bem-estar humano, converteu-se num fim em si mesmo, numa ciência em que tudo aquilo para o qual não se pode estabelecer um preço carece de valor (gUiMArÃes, 1997, p. 18). rejeitando essa forma puramente economicista de se pensar o desenvolvimento, Pedro demo (1983) entende que ele não significa apenas “a sociedade que cresce, mas aquela que cresce para ser mais habitável” (deMo, 1983, p. 154). isto é, o desenvolvimento só tem sentido, na medida em que colabore (direta ou indiretamente) para uma melhoria da qualidade de vida da população, sendo impossível a possibilidade de compreendê-lo apenas como crescimento econômico, já que este, visto apenas como uma unidade isolada, não representa um avanço em termos de qualidade de vida. é preciso entender que de uma forma geral a missão fundamental do desenvolvimento deveria ser a promoção humana em todos os níveis. nesse sentido, temos a convicção de que a educação Ambiental pode ser uma estratégia importante a ser utilizada no trabalho de formação de novos valores, com vistas a favorecer a instauração de uma ética ambiental que aproxime o homem do seu meio ambiente, facilitando a dinâmica dos processos de desenvolvimento. 61 EDucAçãO AmbiEntAl, DEsEnvOlvimEntO E PrOmOçãO DA sustEntAbiliDADE • AUlA 5 Programa das nações unidas para o Desenvolvimento (PNUD) As conclusões do informe do Programa das nações Unidas para o desenvolvimento (PnUd) sobre desenvolvimento Humano atestam que o crescimento econômico não melhora automaticamente a vida das pessoas, nem em suas próprias nações, nem em escala internacional (PnUd, 1992, p. 26-36). Toma-se como exemplo a própria situação dos países mais desenvolvidos economicamente, já se demonstra nitidamente a insuficiência do crescimento econômico enquanto um fim do desenvolvimento (goUssAlT, 1987, p. 770-771). Além disso muitos dos países que são considerados como potências econômicas escondem realidades internas de “pobreza, fome, concentração de renda, poluição e massificação cultural” para não citar uma série de outros (PrAZeres, 1995, p. 85). A consciência dessa realidade esclarece a necessidade da busca de concepções mais abrangentes de desenvolvimento que rejeitem abordagens meramente economicistas, tais como a de Mario Bunge (1989), segundo o qual o desenvolvimento encerra quatro aspectos elementares e inter-relacionados: » o biológico (aumento do bem-estar e melhoria da saúde); » o econômico (crescimento financeiro via industrialização); » o político (expansão da liberdade, garantia dos direitos e democratização da tomada de decisões); » o cultural (por meio do enriquecimento da cultura, difusão da educação e avanço tecnológico e científico). não existe desenvolvimento sem um verdadeiro progresso desses quatro aspectos (BUnge, M., 1989, p. 19-22). A ignorância das demais dimensões do desenvolvimento, segundo Jean-Pierre dupuy (1980), deu origem aos grandes desperdícios e degradações ambientais gerando raridades que capitalismo deve contar. A água e o ar, por exemplo, que eram tidos como bens universais, abundantes e gratuitos, passaram aser recursos limitados, escassos e caros. Como ele aponta, as empresas, e particularmente as indústrias, deverão se preocupar cada vez mais com o meio ambiente, não para fazer marketing, ou por filantropia, mas, simplesmente, para poderem continuar ativas. Por outro lado, a acumulação de resíduos pelo não consumo total, ou seja, dos excedentes de forma geral, devido ao desperdício, atingiu níveis absurdos. 62 AUlA 5 • EDucAçãO AmbiEntAl, DEsEnvOlvimEntO E PrOmOçãO DA sustEntAbiliDADE Ao repensar todas essas questões, percebe-se a atualidade do relatório “Limits to Growth” – mesmo sendo este escrito há mais de trinta anos (1970) – ao perguntar sobre o que acontecerá quando o almejado desenvolvimento econômico a que todos os povos estão mobilizados for finalmente alcançado no plano mundial? A resposta dada pelo Clube de roma, tida por alguns como exagerada e apocalíptica, e para outros como realista e profética, foi a de que os recursos naturais não renováveis sofreriam uma pressão de tal ordem, que, aliada aos altíssimos índices de poluição, promoveriam um colapso econômico total (MeAdoWs et al., 1972, p. 40-41). drástica ou não, exagerada ou não, simplista ou não, a verdade é que, apesar de todo avanço tecnológico conseguido até o presente momento, e de não haverem ameaças visíveis no horizonte por enquanto, essa questão continua pairando no ar e ainda não se conseguiu afastá- la completamente (sACHs, 1975, p. 37). segundo o Documento preparatório para o Summit Mundial de Desenvolvimento Social, ocorrido há alguns anos (março de 1995), elaborado pela UnesCo (1994), o desenvolvimento precisa ser encarado como: [...] um direito humano e as ações destinadas a p r o m o v e r u m desenvolvimento social duradouro são tanto um imperativo ético como uma manifestação de um realismo político (...) ele é antes de mais nada social, ele está intimamente relacionado com a paz, os direitos humanos, uma forma de governo democrática, o ambiente e, sobretudo, a cultura e os estilos de vida da população (UnesCo, 1994, p. 3). modelos alternativos de desenvolvimento A existência de diferentes modelos alternativos de desenvolvimento atualmente está diretamente ligada ao confrontamento de duas posições radicais que o mundo vem vivenciando: uma que defende a manutenção e a expansão dos atuais modos de lapidar os recursos naturais do planeta, com doses de capitalismo humanizado; e outra que visa à transformação desses modelos e formas de produção, em programas ecologicamente prudentes e economicamente viáveis para todos. Sugestão de estudo em seu livro “sociologia”, edgar Morin (1998) explicita a necessidade de se pensar os problemas do desenvolvimento como problemas humanos e sociais, implicando sempre uma lógica de retorno ao sujeito, representado pelo homem ou pela sociedade como um todo. Vide Morin (1998, p. 458-459). Sugestão de estudo os recursos naturais não renováveis: são aqueles que “apresentam um estoque finito e tendem ao esgotamento à medida que são explorados”; ao contrário dos recursos naturais renováveis, cuja “exploração teoricamente seria perpétua, desde que a taxa de exploração seja igual à velocidade de sua recuperação”, o que nem sempre é levado em consideração. 63 EDucAçãO AmbiEntAl, DEsEnvOlvimEntO E PrOmOçãO DA sustEntAbiliDADE • AUlA 5 A primeira posição, que compreende os modelos de desenvolvimento clássico ou neoclássico, entende o desenvolvimento a partir de uma ótica capitalista, em que é associado à acumulação de capital aliada à comercialização da mais-valia, tendo por fim a obtenção progressiva de lucro. segundo a pesquisadora indiana Vandana shiva (1993), essa concepção desenvolvimentista, bem como os planos e as metas de atuação a ela relacionados, envolve muito mais do que simples “reprodução de uma forma particular de criação de riquezas”, ela envolve uma “reprodução associada de pobreza e privação” (sHiVA, 1993, p. 40). Parece que os mercados e as economias planejadas não se aperceberam totalmente do valor dos bens e serviços proporcionados pelo meio ambiente, ou dos custos que a sociedade teria de arcar, caso os recursos ambientais fossem reduzidos e os serviços que prestam à humanidade fossem prejudicados (UiCn; PnUMA; WWF, 1991, p. 69). é justamente a partir da incompetência desse modelo – convencionalmente adotado pelo ocidente para resolver as graves dificuldades econômicas do terceiro mundo –, somado aos problemas ambientais decorrentes de uma crise ambiental sem precedentes, que se gerou a necessidade de modelos novos e alternativos de desenvolvimento (lAYrArgUes, 1997, p. 5), pautados na segunda posição mencionada, em que a preocupação com o ambiente e a vida de forma geral se faz sentir com maior notoriedade. Como resultado das ações e estratégias pautadas nesse falido modelo de desenvolvimento economicista clássico, que ainda impera internacionalmente, podem-se ressaltar, segundo Alicia ibarra (1993), cinco efeitos extremamente trágicos e danosos a nível global: 1. uma excessiva concentração de riqueza; 2. uma profunda injustiça social manifestada em realidades dramáticas como a de um analfabetismo que alcança cerca de um milhão de pessoas e o fato de oitocentos a um milhão de pessoas encontrarem-se expostos à fome; 3. um alarmante esgotamento e deterioração dos recursos naturais e dos sistemas sustentadores da vida no planeta; 4. uma dominação cultural e perda da diversidade cultural, em que numerosos povos e etnias têm desaparecido ou estão sob risco de desaparecer, como é o caso de mais de noventa grupos diferentes de indígenas no amazonas; 5. uma concentração de poder tanto a nível global quanto no interior dos países, o que significa basicamente que a população em geral não participa do processo de tomada de decisão sobre assuntos importantes e pertinentes a si (como desenvolvimento, pobreza, violência), embora seus efeitos acabem recaindo sobre ela (iBArrA, 1993, p. 159-160). esses cinco fatores interligados refletem o momento político-histórico-social que hoje atravessamos, no qual a necessidade de um desenvolvimento equilibrado a 64 AUlA 5 • EDucAçãO AmbiEntAl, DEsEnvOlvimEntO E PrOmOçãO DA sustEntAbiliDADE nível mundial transformou-se em uma meta que há muito ultrapassou os limites do “urgencial” para se tornar “imperativo”. Como esclarece ibarra (1993), especialmente por meio do terceiro efeito negativo destacado, o relacionamento entre esse modelo de desenvolvimento e o meio ambiente não tem sido feliz, parecendo sempre que um está na “contramão” do outro, gerando uma série de impactos ambientais. o que, em outras palavras, significa dizer que, em favor de um desenvolvimento crescente e linear, a humanidade sempre optou pela deterioração ambiental, ainda que essa prejudicasse a longo prazo o próprio desenvolvimento a que almejava. Saiba mais o iMPACTo AMBienTAl deve ser entendido como um desequilíbrio provocado por um “choque ecológico”, resultante da ação do homem sobre o meio ambiente. no entanto, pode ser resultado de acidentes naturais: a explosão de um vulcão, meteoro, raio, etc. Pode ser diferenciado em escala local, regional ou global ou por ecossistema afetado: agrícola, urbano. exemplos: desmatamento de florestas (consequências); destruição da biodiversidade; erosão e empobrecimento dos solos; enchente e assoreamento dos rios (extinção das nascentes); problemas de abastecimento de água (rebaixamento do lençol freático); redução ou fim de atividades extrativas (impacto socioeconômico); diminuição dos índices pluviométricos; elevação das temperaturas (redução dos índices pluviométricos); agravamento dos processos de desertificação; proliferação de pragas e doenças (desequilíbrio nas cadeias alimentares); aumento da concentração de gás carbônico na atmosfera – um dos principais responsáveispelo efeito estufa; aquecimento global. Contudo, em resposta a esse ecocídio, o ambiente também reagiu, dando ao homem um “xeque- mate”: ou ele muda sua forma de relacionamento com a natureza, o que implica acatar novas propostas de intercâmbio com ela - passando da dominação à integração e da destruição ao respeito – ou muito em breve não haverá mais natureza alguma para as próximas gerações, abalando seriamente sua possibilidade de existência. os efeitos sensíveis desse xeque-mate – gerado pela insustentabilidade dos atuais modelos economicistas de desenvolvimento – manifestam-se, segundo guimarães (1997), nos âmbitos ecológico – “através do empobrecimento progressivo do patrimônio natural”; ambiental – “pelo declínio da capacidade de recuperação dos ecossistemas”; e político-institucional, já que a ela encontra-se diretamente “relacionada aos sistemas institucionais e de poder que controlam a distribuição e o uso dos recursos naturais (gUiMArÃes, 1997, p. 14). importante: Como afirma leis e Viola (1989), a verdade é que esse modelo neoclássico acabou alimentando uma concepção materialista de viver, gerando, em consequência, uma perda progressiva do sentido da vida. Confira maiores detalhes em: leis; ViolA (1989, p. 5). ocorrido no período de 13 a 19 de março de 97, o encontro Rio+5 (Rio Plus Five) revelou ao mundo que, cinco anos após a realização da Rio-92, a realidade acima sofreu pouquíssimas alterações, 65 EDucAçãO AmbiEntAl, DEsEnvOlvimEntO E PrOmOçãO DA sustEntAbiliDADE • AUlA 5 existindo, ainda, muita coisa precisando sair do papel e se concretizar para a viabilização de uma relação mais estável entre o homem e a natureza. A situação em que se depara a maioria dos sistemas naturais que permitem a vida no planeta ainda é de total precariedade. Apesar do avanço qualitativo – conquistado por meio da instalação de Conselhos nacionais de desenvolvimento sustentável e, de forma especial, da implementação de versões locais da Agenda 21 em mais de mil cidades espalhadas pelo mundo - caracterizada através de algumas inflexões no campo das políticas públicas, a situação mundial continua a despertar preocupações, persistindo a nível global, uma série de problemas de toda ordem, aliados a uma cooperação internacional aquém dos níveis desejados ou prometidos, que só acentuam ainda mais a urgência da implementação e controle mais incisivo de políticas de desenvolvimento sustentável. Desenvolvimento sustentável ou durável em 1987, durante a Assembleia geral das nações Unidas, a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD) apresentou ao mundo uma Agenda global para Mudanças que ficou conhecida como o relatório “Our Common Future” (nosso Futuro Comum), coordenado pela então primeira ministra da noruega: gro Harlem Brundtland, que tinha como meta a orientação dos diferentes países do globo em direção ao desenvolvimento sustentável ou Autossustentável. o título escolhido para nomear o relatório, referindo-se a um futuro “nosso e comum”, já expressava a essência de seu conteúdo, ressaltando a realidade de estarmos todos em um mesmo planeta (nave-mãe), consequentemente sob as mesmas pressões e dificuldades, e onde somente através da soma de esforços seria possível obter resultados favoráveis. Dica do Professor: a CMMAd foi criada na Assembleia geral da onU em 1983, realizando um extensivo trabalho de pesquisa e estudos sobre a situação ambiental e econômica do planeta em um período de cinco anos (1983-1987). Vide outros detalhes em Herculano (1992, p. 10) e layrargues (1996, p. 160-161). sustentabilidade: segundo Andrade (1993), o termo sustentabilidade foi cunhado pela primeira vez em 1713 por Carlowitz, que o empregou para caracterizar uma técnica de uso do solo que garantisse durante um longo período rendimentos para a produção florestal (AndrAde, 1993, p. 18). lançando mão de um termo originário da ecologia natural: a sustentabilidade – usado para denominar a “tendência dos ecossistemas à estabilidade, à homeostase, ao equilíbrio dinâmico, baseado na interdependência e complementaridade das formas vivas diversificadas” (HerCUlAno, 1992, p. 13) – e combinando este à noção de desenvolvimento, a CMMAd quis mostrar a importância de uma correção dos modelos e das estratégias de desenvolvimento até 66 AUlA 5 • EDucAçãO AmbiEntAl, DEsEnvOlvimEntO E PrOmOçãO DA sustEntAbiliDADE então empregadas no mundo, de forma a garantir melhor padrão de vida que se “sustentasse” ao longo dos séculos. embora alguns autores achassem que os termos em si eram contraditórios, a apropriação deles trabalha com a ideia de que “equilibrado” não significa “estacionado”, mas em constante movimento, ou melhor, em sucessivas ações para se manter em equilíbrio, o que anularia a possibilidade de referências a uma situação de “equilíbrio” como uma situação de “imobilidade”. A utilização do conceito em si não é uma ideia original, já que o próprio relatório do Clube de roma, muito antes, também já havia utilizado literalmente o termo sustentável, ao defender a importância do desenvolvimento de um sistema mundial sustentável capaz de satisfazer as necessidades materiais básicas de todos os habitantes do planeta (MeAdoWs, 1972, p. 98). no entanto, apesar de esse e de outros estudos já terem considerado não só a questão das limitações externas da capacidade de resistência dos recursos do planeta, mas, também, as necessidades internas das necessidades humanas, o relatório Brundtland, como também é conhecido, merece destaque pelo mérito de apresentar ao mundo – a partir de um exaustivo trabalho conjunto e interdisciplinar de pesquisa – uma proposta nova e atualizada de desenvolvimento social e econômico que procurava “atender às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras atenderem suas próprias necessidades” (BrUndTlAnd, 1991, p. 46), sublinhando as interconexões existentes entre economia, tecnologia, política e sociedade, e chamando a atenção da comunidade internacional para a importância “da adoção de uma nova postura ética, caracterizada pela responsabilidade tanto entre as gerações, como entre os membros contemporâneos da sociedade atual” (BrÜseKe, 1995, p. 33). Saiba mais Comissão Brundtland A Comissão que gerou o relatório Brundtland foi formada por 21 membros, oriundos de diferentes países, em diferentes estágios de desenvolvimento. gro-Brundtland patrocinou reuniões em diferentes partes do mundo, inclusive em sP, para se discutir problemas ambientais gerais e específicos, bem como as soluções encontradas para estes desde a Conferência de estocolmo (1972). A noção mais atual de sustentabilidade a define como um conceito sistêmico associado a quatro ideias-chave: ambientalmente equilibrado; socialmente aceito; economicamente viável; e socialmente justo. 67 EDucAçãO AmbiEntAl, DEsEnvOlvimEntO E PrOmOçãO DA sustEntAbiliDADE • AUlA 5 Saiba mais CIDADES SUSTENTÁVEIS: o documento “Cidades sustentáveis” (MMA, 2000), elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente em parceria com diversos atores do governo e da sociedade civil, sintetiza os debates em torno dos subsídios para elaboração da Agenda 21 Brasileira, no que concerne à incorporação da dimensão ambiental nas políticas urbanas vigentes como um dos seis temas centrais destacados no processo: Agricultura sustentável; Cidades sustentáveis; infraestrutura e integração regional; gestão dos recursos naturais; redução das desigualdades sociais e Tecnologia para o desenvolvimento sustentável. A proposta do desenvolvimento sustentável é, sem dúvida, a mais conhecida entre as demais aqui citadas, sendo, inclusive, a mais divulgada na imprensa e na academia, tornando-se uma espécie de “denominador comum no discurso político internacional, na área diplomática e nas atividades educacionais e legislativas” (AlMeidA JÚnior,1993, p. 43). entidades internacionais como a UnesCo e o Banco Mundial “adotaram-na para marcar uma nova filosofia do desenvolvimento que combina eficiência econômica, justiça social e prudência ecológica” (BrÜseKe, 1995, p. 34-35). Para muitos autores, a adequação “sustentável” em si teria a vantagem de já trazer a marca da multirreferencialidade, levando em consideração outros adjetivos como “integrado”, “equilibrado” ou “endógeno” e acrescentando a estes o princípio de “equidade entre gerações”, aliado À questão dos valores que se agregam ao termo “sustentável”. supondo uma transformação progressiva da economia e da sociedade, ou melhor, pretendendo uma “nova ordem internacional” (HerCUlAno, 1992, p. 11), a proposta do desenvolvimento sustentável é endossada como aquela que implica um processo no qual a exploração de recursos, 68 AUlA 5 • EDucAçãO AmbiEntAl, DEsEnvOlvimEntO E PrOmOçãO DA sustEntAbiliDADE a direção dos investimentos, as mudanças institucionais e a orientação do desenvolvimento tecnológico se harmonizariam para reforçar o potencial presente e futuro e garantir a satisfação das necessidades e aspirações futuras da humanidade (BrUndTlAnd, 1991; lessA, 1993), compreendendo um duplo comprometimento com os seres humanos e a ambiência deles (Mendes, 1995, p. 54). entretanto, sua aplicabilidade e consequente possibilidade de sucesso não são tarefas fáceis, já que requerem, segundo a Comissão Brundtland, uma complexa sustentação de diferentes sistemas interligados e dependentes: [...] um sistema político que assegure a efetiva participação dos cidadãos no processo decisório; um sistema econômico capaz de gerar excedentes e know- how técnico em bases confiáveis e constantes; um sistema social que possa resolver as tensões causadas por um desenvolvimento não equilibrado; um sistema de produção que respeite a obrigação de preservar a base ecológica do desenvolvimento; um sistema tecnológico que busque constantemente novas soluções e um sistema administrativo flexível capaz de autocorrigir (BrUndTlAnd, 1991, p. 70). A dificuldade a que me refiro diz respeito, particularmente, ao montante substancial de recursos a serem dispendidos para a sustentação do equilíbrio entre esses sistemas e os subsistemas a eles relacionados, o que, na maioria dos casos, especialmente para os países em desenvolvimento, constitui-se em uma barreira considerável. Além do custo financeiro, existe uma série de outros fatores que, com certeza, também interferem nesse processo, como a falta de conscientização política devido aos elevados índices de analfabetismo em muitos países; às graves desigualdades sociais e, ainda, às relações desfavoráveis do comércio internacional, tendo em vista o fato de que os países detentores dos produtos manufaturados e de tecnologia avançada (valor mais alto de mercado) terem sempre maior poder de barganha do que os demais países que negociam com matérias-primas. o impasse para aplicabilidade do desenvolvimento sustentável, por meio de projetos exequíveis, está justamente na resolução dessas dificuldades, que não devem ser encaradas como restrições irremovíveis, mas como desafios a serem superados. Agenda 21 e o Desenvolvimento sustentável A elaboração e a aprovação da Agenda 21 pelos países participantes da rio-92 foram marcas importantes no processo de análise crítica do modelo de desenvolvimento existente e do futuro da humanidade e do planeta, no sentido de que proporcionou um instrumento para enfrentar apenas alguns dos desafios principais no mundo contemporâneo: » a eliminação da pobreza; » o aumento da produção de alimentos; 69 EDucAçãO AmbiEntAl, DEsEnvOlvimEntO E PrOmOçãO DA sustEntAbiliDADE • AUlA 5 » o aumento e alternativas para a produção de energia, educação, saúde e qualidade de vida para todos(as); » a preservação e conservação da água e de outros recursos naturais em extinção. Sugestão de leitura Para ter acesso a trechos da Agenda 21, entre neste site do Ministério do Meio Ambiente, e aproveite para conhecer também a Agenda 21 brasileira: <http://www.mma.gov.br/?id_estrutura=18>. esse é um programa de ação para viabilizar a adoção do desenvolvimento sustentável em todos os países ao longo do século XXI. Para alcançar esse fim, a Agenda 21 está dividida em quatro seções com um total de 40 capítulos. A primeira seção refere-se às dimensões sociais e econômicas; a segunda, à conservação e à gestão dos recursos naturais para o desenvolvimento; a terceira, ao fortalecimento dos principais grupos sociais; e a quarta, aos meios de implementação. Todos os capítulos são imprescindíveis ao alcance de uma sociedade sustentável, em que se destacam os seguintes aspectos: 1. cooperação internacional como a esperança da resolução dos problemas globais e a construção de uma economia equitativa; 2. mudança dos padrões de consumo, há o reconhecimento de que as principais causas da degradação ininterrupta do meio ambiente são os padrões insustentáveis de consumo e produção, especialmente nos países industrializados; 3. necessidade da formulação de políticas nacionais que considerem as tendências e os fatores demográficos dentro dos países como ações prioritárias: a erradicação da pobreza, melhoria nas condições de moradia e de saúde e o reconhecimento das mulheres nos modelos de desenvolvimento (sAnTos, 2000). 4. oferecimento, por parte dos estados, de programas de urbanização para melhorarem as condições nas cidades, incluindo: água, saneamento, drenagem, remoção de resíduos, emprego pela estimulação do trabalho de microempresas, etc. Ao mesmo tempo, melhorarem-se as condições nas áreas rurais e os interesses agrícolas e fornecerem-se programas educacionais e de pesquisa; 5. reestruturação do processo de tomadas de decisão para garantir uma participação maior do público. nesse sentido, devem-se buscar meios para garantir a coerência entre planos, políticas e instrumentos das políticas setoriais, econômicas, sociais e ambientais, inclusive as medidas fiscais e o orçamento, nos diversos níveis de atuação; 70 AUlA 5 • EDucAçãO AmbiEntAl, DEsEnvOlvimEntO E PrOmOçãO DA sustEntAbiliDADE 6. necessidade da participação e a cooperação das autoridades locais que são fatores determinantes para alcançar seus objetivos, já que os problemas tratados na Agenda 21 têm suas raízes nas atividades locais; 7. apoio à ciência para assegurar o desenvolvimento sustentável, para oferecer conhecimento que permita a formulação de políticas e estratégias adequadas aos objetivos dele; 8. promoção do ensino no ensino formal, não formal e informal, é indispensável para promover a sensibilização das pessoas e para conferir consciência, ética, valores, técnicas e comportamentos ambientais, em consonância com as exigências desse novo padrão de desenvolvimento. Assim, a Agenda 21 engloba um conjunto de contribuições para os diferentes setores da sociedade, ordenando as grandes questões sobre desenvolvimento e meio ambientes, de forma a orientar as nações e as suas comunidades para o processo de transição da nova concepção de desenvolvimento e sociedade. segundo Berbieri (1997, p. 65), “ela não é um tratado ou convenção capaz de impor vínculos obrigatórios aos estados signatários, na realidade é um plano de intenções não mandatário cuja implementação depende da vontade política dos governantes e da mobilização da sociedade”. Com isso, surge a necessidade de divulgá-la para ampliar o debate dentro da sociedade em torno da construção de um desenvolvimento comprometido com o meio ambiente. nesse sentido, para a implementação de seus programas e recomendações, é necessário que os representantes de cada país, estado, município ou região elaborem e implementem suas próprias Agendas 21. A Agenda 21 brasileira e as Agendas 21 Locais A partir do acordo assumidopelos países durante a elaboração da Agenda 21 global, esses assumiram o compromisso de elaborar e implementar sua própria Agenda 21 nacional. o Brasil iniciou o processo de construção dessa agenda no início da década de noventa e só a concluiu quase dez anos depois. A Agenda 21 Brasileira tem por objetivo instituir um modelo de desenvolvimento sustentável a partir da avaliação da potencialidade e vulnerabilidade de nosso país, determinando estratégias e linhas de ação cooperadas ou partilhadas entre a sociedade civil e o setor público. Sugestão de estudo Pesquise mais sobre a Agenda 21 acessando na internet outros sites que destacam suas temáticas. Veja o exemplo do site a seguir, que destaca artigos de pessoas envolvidas na área, falando sobre o compromisso da população local com os princípios da Agenda 21. Produto ii – sistematização de 100 experiências exitosas de Agendas 21 locais no Brasil. Procure por esta publicação no site: <htttp:// mma.gov.br>. Acesso em: 21 ago. 2017. 71 EDucAçãO AmbiEntAl, DEsEnvOlvimEntO E PrOmOçãO DA sustEntAbiliDADE • AUlA 5 dois documentos compõem a Agenda 21 Brasileira: “Agenda 21 Brasileira – Ações prioritárias”, que estabelece os caminhos preferenciais da construção da sustentabilidade brasileira, e “Agenda 21 Brasileira – Resultado da Consulta Nacional”, produto das discussões realizadas em todo o território nacional. o objetivo maior da Agenda 21 Brasileira é o de contribuir para a construção e implementação de um novo paradigma de desenvolvimento para o país, mantendo firmes os laços entre os atores que promoveram sua construção, ou seja, o governo, a sociedade civil e o setor produtivo (empresariado). é um instrumento importante e estratégico por intermédio do qual deverá ser construída a ponte entre o modelo de desenvolvimento vigente e o desejado com base nas aspirações coletivas de qualidade de vida e sustentabilidade. A chamada Agenda 21 local é o nome do processo de criação e realização de políticas públicas para o desenvolvimento sustentável mediante parcerias entre autoridades locais e os demais setores da sociedade por meio de uma agenda. Pode começar por iniciativa tanto do poder público quanto da sociedade. o plano de ação de uma Agenda 21 local, um dos primeiros itens na elaboração desse tipo de agenda, deve levar em consideração: » a visão da comunidade; » consenso sobre problemas e oportunidades; » metas relativas a cada problema e oportunidade; » objetivos para cada meta; » indicadores; » estratégias de ação para alcançar esses objetivos; » uma descrição dos compromissos de cada parceiro na implementação das ações; » uma estrutura para a avaliação de progresso, inclusive com indicações das condições para que seja iniciado um novo processo de planejamento e ações futuras. Agenda 21 Escolar entre as Agendas 21 escolar, merecem especial atenção as Agendas 21 institucionais, como é o caso da Agenda 21 escolar. Vejamos, aqui, do que ela trata e os principais passos para sua elaboração e implementação. Podemos compreender a Agenda 21 escolar como simplesmente a aplicação da Agenda 21 local no meio de influência da escola, tanto nos recintos escolares quanto no meio familiar e social, onde tal influência é exercida. da mesma forma que as demais agendas, a sustentabilidade social e econômica prefigura tanto o atendimento às necessidades humanas, para uma vida digna e a proteção do meio ambiente, quanto a proteção do ambiente utilizado pelos cidadãos, como formados pelos ecossistemas da região. 72 AUlA 5 • EDucAçãO AmbiEntAl, DEsEnvOlvimEntO E PrOmOçãO DA sustEntAbiliDADE Vejamos, aqui, de forma sintética, os principais passos para implementação desse tipo de Agenda, que, a princípio, pode soar como algo mais complicado do que ela verdadeiramente é: 1º passo: realizar fórum, convocado de maneira oficial, para início dos trabalhos. nesse fórum, deverão ser escolhidos os participantes da comissão de trabalho, presidida por um Coordenador Técnico, com o resumo dos trabalhos anotados por um relator. A comissão deverá contar, na medida do possível, com elementos da escola – tanto do corpo discente quanto do corpo docente, da comunidade, do poder público, das lideranças locais, entidades não governamentais, etc. 2º passo: buscar a participação popular para o fórum e as reuniões periódicas da agenda, para o auxílio na detecção de problemas e em sua erradicação ou minimização. Buscar o auxílio dos órgãos da imprensa, para apoio educacional e jornalístico e de órgãos do poder público ligados aos problemas apontados; 3º passo: promover ações dentro da escola, com os alunos, na pesquisa das situações prejudiciais ou degradantes e na elaboração de concursos, como redação e poesia sobre temas correlatos, por exemplo: “como gostaria de ver minha escola e meu bairro daqui a 10 anos”; gincanas educativas e construtivas, jogos cooperativos, atividades que possam despertar o senso de compromisso pela comunidade; 4º passo: trabalhar com ações práticas e economicamente viáveis, dentro de um processo de educação ambiental entrelaçado com criação de hortas comunitárias, ou hortas individuais, coleta seletiva de lixo e comercialização do lixo reciclável, cursos sobre compostagem dos resíduos orgânicos e sua aplicação nas hortas comunitárias ou individuais, saneamento e tratamento de resíduos nas áreas rurais, etc.; 5º passo: identificar os temas que serão incluídos no documento inicial a ser elaborado pela comissão escolhida e que se chamará “Agenda 21 escolar da escola...”, devendo esses temas serem identificados pela comissão e pela comunidade participante do fórum. os temas não deverão ultrapassar a 12. 6º passo: elaborar projetos e/ou planos estratégicos, ou seja, a discriminação, passo a passo, das atividades necessárias à realização dos objetivos previstos em cada um dos temas selecionados para a agenda, com cálculo de custos, de recursos materiais e humanos; 7º passo: implementação prática, etapa por etapa, daquelas previstas nos projetos e/ou planos estratégicos, angariando os recursos necessários dentro do plano de ação e atendendo às necessidades da etapa em andamento. Pontos a considerar: » a agenda deverá ter como focos: a sustentabilidade econômica da comunidade, a preservação e implementação de áreas de preservação; o cunho permanente da educação 73 EDucAçãO AmbiEntAl, DEsEnvOlvimEntO E PrOmOçãO DA sustEntAbiliDADE • AUlA 5 individual, familiar, social e ambiental, interligados dentro das ações previstas na agenda; o trabalho cooperativo, a criação de núcleos de apoio social, o fortalecimento das instituições oficiais e de lideranças da comunidade; » a agenda 21 nunca termina de fato. ela é sempre reconstruída dentro dos fóruns de discussão e de acordo com a avaliação dos rumos dos trabalhos, as fontes de financiamento, as parcerias, novos problemas que possam surgir, novas soluções encontradas, etc. Provocação Agenda 21 local de seu estado ou Cidade: analise que fatores foram destacados como problemas e possíveis soluções e, finalmente, procure examinar qual seria o papel da educação Ambiental na proposta estudada. Resumo nesta aula: » tivemos a chance de entender com maior profundidade a relação entre educação Ambiental, desenvolvimento e Meio Ambiente; » analisamos diferentes concepções de desenvolvimento, das mais clássicas às alternativas; » conhecemos as principais propostas de desenvolvimento alternativo sensíveis à causa ecológica com ênfase no desenvolvimento sustentável; » vimos que sem uma maior integração entre as propostas de desenvolvimento e as propostas de preservação, conservação e valorização ambiental será impossível o alcance de uma sustentabilidade global; » estudamos os principais aspectos da Agenda 21, sua história e importância para o enfrentamentoda crise socioambiental; » tomamos conhecimento do envolvimento do Brasil na elaboração da Agenda 21 brasileira, desde a sua primeira medida em 1994 até os dias de hoje; » aprendemos sobre as Agenda 21 locais tendo por Agenda 21 escolar aqui considerada nas diferentes etapas do seus processos de elaboração e implementação. 74 Apresentação nesta última aula, veremos como a crise ambiental está enraizada, de fato, em uma grave crise ética, em que os valores pessoais e sociais – marcos de nossa existência – precisam ser repensados a partir de uma sintonia maior com a questão ambiental. A sociedade que valoriza o ter como sinônimo de realização alimentando o consumismo desenfreado e a destruição ambiental precisa valorizar mais o ser e a busca de um equilíbrio maior entre homem e o ambiente. é sobre essa e outras questões que estaremos discutindo nesta aula. Objetivos esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: » entender o que é ética e moral, aprofundando-se na diferenciação entre esses conceitos; » compreender a crise ética sobre a qual a crise ecológica atual se apoia; » compreender as dimensões éticas “da” e “na” educação Ambiental referentes ao âmbito da teoria e da prática da educação Ambiental, respectivamente. 6AUlACRISE ÉTICA E CRISE ECOLóGICA 75 CRISE ÉTICA E CRISE ECOLóGICA • AUlA 6 ética e moral: termos iguais ou diferentes? embora tradicionalmente utilizados como termos sinônimos, ética e moral podem ser considerados, de fato, como conceitos distintos. enquanto a moral é concreta e diz respeito ao nível individual, prático e prescritivo, a ética é mais social, teórica e virtual, constituindo-se como um campo de análise filosófica voltada ao estudo dos fundamentos e à validação de comportamentos socialmente reconhecidos e estimulados (KrÜger, 1998). nesse sentido, a moral se referiria ao conjunto de prescrições admitidas em uma época e sociedade determinadas e ao esforço devido para se conformar a essas prescrições e segui-las; ao passo que a ética seria a doutrina dos costumes, tendo como objeto de estudo a qualificação de condutas em termos do que é bom ou mau (ABBAgnAno, 1998). Muitos autores concordam com essa diferenciação, definindo moral como “um conjunto de prescrições destinadas a assegurar uma vida em comum de forma harmoniosa” e ética como “a avaliação normativa das ações e do caráter de indivíduos e grupos” (JAPiAssU; MArCondes, 1996, p. 93). Todavia, mesmo aceitando com reservas essa distinção no plano teórico, é necessário entender que, na prática, as questões concernentes à moral e à ética estão inteiramente imbricadas, sendo, portanto, difícil precisar uma separação mais rígida entre os dois conceitos. A moral fornece o conteúdo a ser avaliado pela ética, que, por sua vez, alimenta-a estabelecendo, por meio de seu julgamento, que tipo de ação ou pensamento seria moral ou amoral. reforçando essa mesclagem conceitual, Kremer-Marketti (1989) recorda-nos, ainda, que, na concepção anglo-saxã, a ética tem sido definida como a ciência da moral, e a moral, por sua vez, como uma espécie de ética- normativa (KreMer-MArKeTTi, 1989, p. 7-8). o resultado nada esclarecedor desse debate só ratifica a conhecida e vaga afirmação de dussel (1986, p. 118), segundo a qual esse autor sustenta que “a ética não pode ser entendida sem a moral”. independente desse debate conceitual, o fato é que a busca desenfreada pela acumulação de riquezas, a dimensão ética do desenvolvimento técnico-científico, foi, durante anos e anos, secundarizada e descartada, só vindo a ser recuperada muito recentemente, na segunda metade de nosso século, pela pressão de grupos internacionais, de uma minoria de cientistas e pesquisadores conscientes e da própria população civil organizada (em que as ongs vão assumir um papel fundamental). esses grupos começaram a pressionar a própria razão científica quando, em nome dessa, era permitido explorar, oprimir e destruir. A apropriação e o uso dos recursos ambientais não escaparam a essa lógica mercadológica, consumista e destrutiva, na qual possuir e dominar sempre foram palavras de ordem, marcando, de forma profunda, as relações entre homem e meio ambiente através da história. Como aponta Boff (1996), explicitando o engodo, o sonho do crescimento ilimitado produziu o subdesenvolvimento de 2/3 da humanidade, a exaustão dos sistemas vitais e a desintegração progressiva do equilíbrio ambiental (BoFF, 1996, p. 25). 76 AUlA 6 • CRISE ÉTICA E CRISE ECOLóGICA Por isso, afirmamos, de forma convicta, que a crise socioambiental, reflexo da própria crise civilizatória com a qual nos deparamos, foi antecipada, sem dúvida alguma, por uma grave crise de ética. A ausência de uma postura ética técnico-científica que pudesse ordenar as ações do homem sobre a natureza, baseada no respeito mútuo entre esses dois elementos – no reconhecimento tanto da dignidade humana quanto do valor da natureza –, ajuda-nos a compreender o agravamento da crise de tal ordem que a própria continuidade da vida no planeta encontra-se ameaçada. não é por acaso que a origem da palavra ética, advinda da raiz grega ethos (costume), também se refere ao local onde o homem vive, mora ou passa grande parte de seu tempo. A Ética “da” Educação Ambiental desde que a educação Ambiental começa a despontar no cenário mundial, já nas primeiras conferências de que temos registro, como a Conferência de estocolmo (1972), momento em que ela é elevada ao status de “assunto oficial” por possuir uma “importância estratégica”, e a Conferência de Tbilissi (1977), quando fora destacada, como um de seus objetivos principais, a criação de uma consciência de interdependência econômica, política e ecológica do mundo moderno, com a finalidade de acentuar o espírito de responsabilidade e de solidariedade entre as nações, a dimensão ética da educação Ambiental sempre esteve presente tanto no âmbito formal (institucional) quanto no âmbito não formal (sociocomunitário) (CArVAlHo, 2002). o questionamento que a educação Ambiental se propõe a promover no sujeito diria respeito ao nível mais básico do que podemos denominar como a ética “da” educação Ambiental. inspirado em edgard Morin (1998), podemos chamar esse nível primário da ética da educação Ambiental de uma “AUToéTiCA” que se fundamenta na própria consciência moral de cada indivíduo. Tudo começa a partir de um questionamento interior, que, por conseguinte, é dirigido aos nossos valores e critérios pessoais de agir no mundo que nos cerca. é fundamental que essa moral íntima e pessoal do público-alvo, a quem a educação ambiental se dirige, venha a ser calcada em valores ecologicamente prudentes de se viver no meio ambiente. é a partir do conjunto de interrogantes suscitado pelo processo de educação Ambiental que o homem vai se questionar sobre sua atuação e papel no habitat onde se insere, percebendo que é possível aproveitar todos os benefícios que este tem a nos oferecer, sem necessariamente destruí-lo. Fornecer e provocar essas interrogações deve fazer parte das estratégias de qualquer programa de educação Ambiental que pretenda alguma eficácia. o objetivo central da ética que a educação Ambiental pretende disseminar é o de devolver ao homem sua condição de membro da vida, participante ativo da teia de interrelações do ecossistema do qual faz parte. ela é a base para a promoção de um novo contrato natural, a que Michel serres (1991) faz referência, no qual o homem deve abandonar a relação de parasitismo com a natureza e passar a encará-la como algo mais do que mero pano de fundo, para desenvolvimento de sua espécie. é ainda essa ética da educação Ambiental a responsável por oferecer a sustentação 77 CRISE ÉTICA E CRISE ECOLóGICA • AUlA 6 necessária, para que o homem perceba, como aponta Morin (1998), a íntima interligaçãode todo organismo a um ecossistema qualquer, em uma relação básica e fundamental de dependência/ interdependência. Provocação em sua conhecida obra “o Contrato natural”, Michel serres faz um convite ao ser humano de que este abandone uma relação negativa com a natureza e passe a adotar uma postura mais equilibrada na qual a mudança se faz de parasita a parte integrante. Como você vê esse convite e como entende que a educação ambiental facilitaria uma resposta positiva da população a ele? o fato de o homem não ser passivo – como grande parte dos animais irracionais –, diante da ação que a natureza exerce sobre ele, agindo, transformando, adaptando o meio em que vive, não significa que ele tenha necessariamente de assumir uma postura de dominador, ou de plena independência para com esse meio. seja em um nível mais micro, como o metabólico, seja em um nível mais macro, como o planetário, o homem depende diretamente do meio em que vive, bastando imaginar que, se não fosse a presença de elementos naturais como a hidrosfera, que resfria o planeta, e a litosfera, que filtra os raios solares, a vida seria inimaginável. o reconhecimento dessa realidade, a partir da formação de uma consciência ambiental mais ampla, implica a adoção de uma nova lógica de conduta com a natureza, que só assume um significado mais amplo, fundamenta-se em uma ética ambiental com profundos reflexos no cotidiano da sociedade em geral, criando, assim, uma possibilidade de se inserir no arcabouço cultural dela. estimulada e sugerida pela educação Ambiental, a instauração de uma ética ecológica vem questionar ainda dois absurdos: o primeiro, de se pensar uma ética apenas para o homem; e o segundo, de se pensar uma ética para o homem e outra para a natureza de maneira diferenciada. o que se pretende, além de denunciar esses absurdos, é a implantação de uma “ética integradora entre todos os seres viventes e suas relações bioecológicas” (siQUeirA, 1991, p. 17). ou seja, uma ética essencialmente da vida em sua plenitude, enterrando definitivamente o mito da independência plena e/ou da “autonomia da razão”, amargas heranças do cartesianismo. Como analisa grün (1994), é justamente no encontro do homo sapiens, agente moral, dotado de direitos, com a natureza, amoral e sem direitos, que surge o espaço da ética ecológica. esta se volta para uma questão elementar: a de que, mesmo sem direitos legalmente adquiridos, a natureza é dotada de valor, o que requer que as relações com ela estabelecidas estejam pautadas em pressupostos éticos de responsabilidade. o valor a que me refiro não é apenas o valor financeiro, como querem fazer crer o materialismo dialético e o capitalismo selvagem, mas, sim, seu valor essencial, enquanto fator básico para o desenvolvimento do ciclo vital, do qual depende milhares 78 AUlA 6 • CRISE ÉTICA E CRISE ECOLóGICA de espécies de seres vivos, entre os quais o homem é apenas um deles (CArVAlHo, 2002). Com muita propriedade, siqueira (1998) vai direto ao ponto fundamental dessa discussão: A percepção de que “a interdependência do homem e da natureza exige uma ética que não sobreponha o racional ao irracional, mas uma igualdade naquilo que é essencial para ambos: a sobrevivência” (siQUeirA, 1991, p. 17). entendida como um fator-chave para a própria sobrevivência dos seres vivos, tendo como razão axiológica os valores intrínsecos do homem e do meio ambiente, a proposição dessa ética ambiental visa a superar a permissiva moral socioambiental vigente (utilizada para justificar erros crassos de gestão ambiental), em direção a uma ética verdadeiramente libertadora e comprometida com o direito à vida, cada vez mais fragilizado no contexto atual. é precisamente essa ética que entendo como passível de ser reforçada e alimentada, a partir de um sério, amplo e honesto trabalho de educação Ambiental, em que seja possível fornecer a cada cidadão uma espécie de “bússola moral” dirigida a todo e qualquer modo de interagir do homem com o meio ambiente, revelando-lhe, senão o rumo ideal a seguir, pelo menos o mais apropriado. A Ética “na” Educação Ambiental Com emmanuel Kant, aprendemos que uma decisão ética só pode ser resultado de um ato racional, fruto da evolução humana, pois supõe um discernimento sobre o bem e o mal. Apoiado nessa linha de pensamento Kantiana, é possível apontar a ausência de ética como prova de irracionalidade (lAlAnde, 1996). Kant vai afirmar, ainda, que o núcleo da ética é descoberto pela investigação da razão prática, assim distinta da razão que ele qualifica como pura e teórica. esse caráter prático da razão se manifestaria, segundo Kant, na própria possibilidade de ordenar o mundo dos fenômenos, através do pensamento, facultando ao homem decidir sobre o que fazer eticamente em seu livre-arbítrio. seguindo esse percurso Kantiano, e considerando as ideias anteriormente expostas, é possível perceber que, enquanto um processo eminentemente educativo, o grande desafio da educação Ambiental, sem dúvida alguma, é aquele que se passa a nível ético, tanto da ética que ela pretende instaurar, como elemento catalisador de uma nova lógica de relacionamento entre o homem e a natureza; quanto do conjunto de valores dos profissionais que, embora atuando nessa área, muitas vezes se isolam, evitando interagir com outras entidades de propósitos semelhantes; não se desvencilham de vieses político-partidários, mais voltados à efetivação de campanhas Sugestão de estudo é interessante consultar o texto de grün (1994): um debate sobre valores éticos em educação Ambiental para um maior aprofundamento dessa discussão. leia e faça um resumo do que poderá ser útil no desenvolvimento de sua monografia. 79 CRISE ÉTICA E CRISE ECOLóGICA • AUlA 6 eleitoreiras do que para a realização de um trabalho profícuo de educação Ambiental; ou mesmo dos que buscam apenas um espaço na imprensa para autopromoção. deve-se levar também em consideração que, independente da prática de trabalho em educação Ambiental – tanto a nível micro, como dentro de um internato, por meio de oficinas de trabalho (Pedrini, 1998), quanto a nível macro, junto a diferentes comunidades de sete bairros do rio de Janeiro, vide Subprojeto de Mobilização Social/Participação Comunitária, do Programa de educação Ambiental do PDBG –, as pretensões implícitas e explícitas da maior parte dos objetivos a serem alcançados são sempre de caráter ético. isso ocorre simplesmente porque o processo de educação Ambiental encontra-se a serviço de uma ética integradora, sendo, portanto, inadmissível que os meios a serem utilizados para sua aplicação também não fossem escolhidos e administrados segundo critérios éticos. A dimensão ética da educação Ambiental está presente em qualquer projeto de atuação na área, desde a sua elaboração inicial, em que se faz necessário ouvir as demandas da população onde ela será ministrada e permitir que ela participe do seu processo de elaboração e adaptação; até o acompanhamento final dos resultados do trabalho, no qual é preciso aprender com erros, em vez de ignorá-los, para que eles não se repitam em um trabalho posterior. A questão é que poucos atentam para isso, não lhe assegurando a devida importância. Movido pelo ideal de que ela venha a ser mais valorizada, entendo que algumas práticas metodológicas são fundamentais e devem ser ressaltadas na práxis do agente de educação Ambiental, tais quais incentivar à participação, favorecendo o exercício de cidadania da população envolvida; promover o diálogo e solidariedade; manter uma postura de aprendiz e uma transparência no que concerne ao desenvolvimento das diferentes fases do trabalho realizado e dos resultados obtidos com ele. essas práticas, por sua vez, estão inevitavelmente calcadas em valores éticos mais amplos como igualdade, honra, integridade, justiça, liberdade,fraternidade e paz. o que denominei nesta aula de ética na dimensão ambiental (ética dos meios) refere-se, de modo particular, à ética dirigida aos valores e critérios fundamentais, norteadores da práxis do profissional de educação Ambiental consciente de seu papel enquanto agente de transformação de uma realidade extremamente crítica. são esses valores os responsáveis pela manutenção corajosa de uma postura ética diante “dos parcos recursos, da infraestrutura desmontada e de salários ridículos” (Pedrini, 1998, p. 70) com os quais o profissional da área é obrigado a viver. Sugestão de estudo Conheça melhor o pensamento de emmanuel Kant acessando o site: <http://www.mundodosfilosofos.com.br/kant.htm>. 80 AUlA 6 • CRISE ÉTICA E CRISE ECOLóGICA Para refletir EDUCAÇÃO OU ADESTRAMENTO? A educação Ambiental promovida sem o devido cuidado ético pode ser entendida como adestramento, segundo Paula Brügger (1994). A dimensão ética, portanto, não apenas amplia a educação Ambiental sob esse ponto de vista, mas, sim, dá sentido a ela, uma vez que, diante de sua ausência, ela sequer pode ser assim qualificada. o fato de reservar especial atenção à dimensão ética do fazer educação Ambiental, mais dirigida à sua prática, advém, igualmente, do fato de não querer apresentá-la como uma espécie de “remédio milagroso”, solucionador de todos os problemas ambientais. Assim como a educação de modo geral pode vir a ser utilizada como instrumento de controle, deturpação, seleção, exclusão, ou, como diria Brügger, de “adestramento”, é preciso ter certo cuidado com a maneira pela qual a educação Ambiental pode ser utilizada, a partir das intenções de quem a promove e das ideologias sobre as quais suas práticas estariam calcadas (BrÜgger, 1994), muitas vezes descompromissadas com um exercício mais consciente da cidadania (mediante o desenvolvimento do pensamento crítico) ou com uma reflexão ético-ambiental mais ampla e interdisciplinar (CArVAlHo, 2002). Além disso, deve-se ter muito claro o fato de que a educação Ambiental constitui-se em uma das formas de lutar contra a crise ambiental, uma estratégia a ser utilizada contra esta, mas evidentemente não é a única. Mesmo reconhecendo a sua importância, enquanto promotora de uma nova consciência ecológica, é inegável que, desligada de uma política ambiental mais efetiva, acompanhada de uma legislação rígida, ou de ações voltadas para uma distribuição de renda mais igualitária, ou, ainda, para a construção e manutenção de um contexto político- cultural favorável, estaremos agindo no “vazio” e longe de vislumbrar um futuro socioambiental menos desolador. o trabalho com comunidades carentes tem revelado essa complexidade, pois é extremamente complicado se falar em ética ambiental, ou de prioridade para as questões ambientais, quando não se tem sequer com o que se alimentar. Para a socióloga Anna Waehneldt (1996), a especificidade da educação Ambiental se dá na viabilização do conhecimento do meio ambiente em sua totalidade – por meio de seus diferentes aspectos e de suas relações de interdependência – a partir do exame da realidade local, com base nas situações vivenciadas no cotidiano da população. Assim, baseada no estudo de problemas práticos do dia a dia, ela pretende a adoção de “uma nova postura ética solidária” em relação ao meio ambiente. Pela definição de Waehneldt, fica explícito o motivo pelo qual o processo de educação Ambiental deve estar calcado sobre princípios éticos que despertem a responsabilidade ambiental, pois, caso contrário, dificilmente este poderá favorecer ao indivíduo um exercício mais amplo de cidadania ecológica, ou seja, por meio de atitudes adequadas à constituição de um meio ambiente equilibrado e saudável. é preciso estar muito atento às práticas de trabalho – estratégias de aproximação, 81 CRISE ÉTICA E CRISE ECOLóGICA • AUlA 6 atuação e mobilização – que temos utilizado no campo, refletindo, entre outras questões, se existe um distanciamento entre o discurso ético e democrático e uma prática antiética e autoritária. é essencial que o educador ambiental procure se questionar não uma, mas quantas vezes forem necessárias, se realmente ele está assumindo uma postura de aprendiz, daquele que está na comunidade e/ou instituição, em primeiro lugar, para ouvir e aprender sobre a realidade na qual pretende atuar, e não daquele que vem apenas para ensinar, pois já sabe tudo. se realmente ele está favorecendo uma atitude de diálogo com a população, ou simplesmente traz soluções prontas, desconsiderando as sugestões da comunidade em relação a um projeto já elaborado por sua equipe. lembrando que esse tipo de atitude sugere uma comunicação de igual para igual e nunca de quem vem de fora para dizer o que é certo ou errado, dizendo-se “o dono da verdade”. Qualquer falta nos pontos assinalados é, no mínimo, comprometedora, se não for fatal, para o trabalho com educação Ambiental. Querer ser ouvido e respeitado implica, em primeiro lugar, ouvir e respeitar o outro. isso parece uma afirmação banal para alguns, mas é estranho comprovar como praticas elementares são inteiramente dispensadas. surge daí a necessidade, em minha forma de entender a questão, cada vez mais urgente, de que sejam estabelecidas as bases para um código de ética do educador ambiental, isto é, de um conjunto de procedimentos básicos fundamentais para garantir a dimensão ética do processo de educação Ambiental na práxis de seus agentes promotores. Manifestada, por exemplo, no respeito fundamental aos valores culturais, sociais, morais e religiosos da lócus de atuação onde o processo de educação Ambiental está sendo implementado. ou, ainda, na garantia de que a população tenha a possibilidade de participar do processo de educação Ambiental em suas diferentes fases, podendo se defender ou mesmo lutar pelos benefícios que o projeto e/ou programa de educação Ambiental se propôs a gerar, além de uma série de outras disposições relativas ao próprio trabalho de pesquisa e implementação de políticas nessa área. o estabelecimento desse código, que deveria ser pensado, repensado e efetivado com a participação dos diferentes setores envolvidos (órgãos ambientais, associações, ongs, universidades, conselhos e outros), permitiria explicitar melhor o próprio cunho interdisciplinar e político da educação Ambiental, que envolve, sem dúvida alguma, uma complexidade de processos relativos à participação social, à representatividade, à legitimidade e à tomada de decisão, muitos desses insinuados nas entrelinhas do artigo 225 da Constituição Federal ou na lei nº 9.795 reFerenTe À PolÍTiCA nACionAl dA edUCAÇÃo AMBienTAl. sabemos que a educação Ambiental tem uma história recente e que ela ainda está amadurecendo, sendo-lhe pertinente uma série de críticas. entretanto, defendo que, enquanto não iniciarmos Sugestão de estudo o desafio da ética Ambiental: Para explorar mais as discussões desta página, é interessante a leitura da obra “ética e educação Ambiental”, de Mauro grün, publicado pela editora Papirus, 2000. 82 AUlA 6 • CRISE ÉTICA E CRISE ECOLóGICA esse processo de regulamentação ética – adiando esse processo –, estaremos contribuindo para que a educação Ambiental continue sendo desacreditada neste país, em vez de buscarmos aperfeiçoá-la, para a dignificação do próprio trabalho que temos realizado. Resumo nesta aula: » vimos que a crise socioambiental vigente se relaciona diretamente com a crise ética, ou seja, uma crise de valores que caracteriza o projeto civilizatório adotado pelo ser humano; » tivemos oportunidade de refletir sobre as facetas da ética no plano da educação Ambiental: a ética “na” (a que se faz) e a ética “da” educação Ambiental (a que se prega); » entendemos melhor como nossos valores podem comprometer o trabalho de educação Ambiental emqualquer área. Palavras finais Todos somos educadores ambientais de certa forma, todos nós somos educadores ambientais. Todos podemos contribuir para fazer acontecer uma nova ética pautada em valores ecologicamente saudáveis. eu e você, homens e mulheres, jovens e adultos, pobres e ricos, analfabetos e alfabetizados, todos nós, independente de cor, sexo, credo, podemos contribuir para a construção de um mundo melhor do ponto de vista socioambiental. não existem exigências específicas para que alguém se torne um educador ambiental, a não ser o seu compromisso com a mudança do quadro de problemas formadores da chamada crise ambiental. Você não precisa se filiar a nenhuma ong, ter carteirinha ou registro de alguma coisa. não é necessário, embora ajude, ter cursos específicos, nem mesmo é obrigatório ter conhecimentos técnicos de ecologia. Marcos sorrentino, durante uma das Teleconferências de educação Ambiental organizadas pelo MeC, em 1997, disse que educador Ambiental é: [...] todo indivíduo que coloca para si o desafio de implementar a mudança de comportamento, essencial para que o Planeta Terra possa sobreviver e oferecer condições de vida para pessoas que ainda não nasceram ou que já nasceram mas estão excluídas de qualquer benefício. é difícil precisar exatamente quando alguém se torna um educador ambiental. Alguns começam a participar motivados pela defesa de uma espécie animal, ou outro elemento da natureza. 83 CRISE ÉTICA E CRISE ECOLóGICA • AUlA 6 outros se sensibilizam simplesmente pela prática cotidiana de caminhadas, viagens ou outra atividade qualquer na qual a natureza seja um elemento primordial, atribuindo-lhe um valor diferenciado. outros, ainda, começam defendendo os direitos democráticos, na luta contra a poluição de uma fábrica, ou por uma praça no bairro. e há os que tentam solucionar problemas ambientais e, ao mesmo tempo, gerar renda e empregos, por exemplo, pela reciclagem de lixo. no meu caso, a porta de entrada foi a universidade por meio de um Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em ecologia social. A verdade é que as portas da eA são muitas e estão sempre abertas a quem deseja delas se aproximar e oferecer suas competências em prol da construção de uma sustentabilidade global. espero que esta disciplina tenha despertado em você o desejo de abraçar a causa ambiental e lutar para que o homem e a natureza possam viver em equilíbrio. Comece pelo seu exemplo, sua postura consciente e responsável diante de determinadas situações que envolvem o uso racional da água, a reciclagem de materiais, o fim do consumismo, a destinação adequada do lixo, a preservação de determinadas espécies e lugares especiais e tantas outras questões que envolvem uma consciência ambiental. lembre-se de que o seu exemplo, mais do que palavras, é a melhor forma de convencer alguém a abraçar o ambientalismo e ser também um futuro educador ambiental. isso vale para seus filhos, seus amigos e alunos. Faça a sua parte e deixe que os outras vejam e sintam como isso é importante. em casos extremos, denuncie, lembre-se de que, para que o mal prospere, basta que o bem se cale. Portanto, se isso for necessário, denuncie ao órgão ambiental responsável o que está acontecendo. essa também é uma maneira de construir uma sociedade cada vez mais justa e ecologicamente viável. Uma última palavra para finalizar o caderno: não desanime! é comum ouvirmos da boca de várias pessoas, ou mesmo da mídia em geral, que não vale a pena atuar nessa área, uma vez que a causa ambiental é uma causa perdida. o mundo está acabando aos poucos em função dos interesses econômicos, e não há absolutamente nada que possamos fazer. Tenha cuidado com tais afirmações. é bem verdade que a crise ambiental que o homem atravessa não é fácil e que muitas batalhas ambientais foram perdidas. Contudo, também é verdade que, se algumas batalhas foram perdidas, muitas outras, nem sempre noticiadas, foram ganhas, e a guerra ainda não foi vencida. Tenha certeza de que aqueles que veem a natureza apenas como recurso financeiro a ser explorado torcem pela sua desistência e farão o possível para convencê-lo de que reagir é perda de tempo, mas isso não é verdade. Como educador ambiental, posso garantir, a partir de anos de experiência, que vale a pena continuar atuando na área e se orgulhar de que é possível resistir à destruição de nosso planeta. experimente e comprove! Atenção Todos nós somos convidados a sermos educadores ambientais dentro de nossas possibilidades e limitações. A partir do que conversamos, procure refletir sobre como você também poderia ajudar na promoção da educação Ambiental. saiba que muitas portas, como o texto esclarece, estão abertas para você nesse sentido. 84 Referências ABBAgnAno, n. Dicionário de Filosofia. – 2ª ed. – são Paulo: Martins Fontes, 1998. 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