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A Daseinsanalyse de Medard-Boss: medicina e psicanálise mais correspondentes ao existir humano 1. Vida Medard Boss faz análise didática com Freud. Torna-se assistente de Eugen Bleuler. Entra em contato com a psicopatologia fenomenológica e os trabalhos de Binswanger Binswanger nota as possibilidades abertas para a ontologia heideggeriana no campo psicológico. Em seu artigo sonho e existência ele propõe a concepção do ser aí, ser no mundo como modo de superar a dicotomia sujeito objeto no pensamento médico e psicanalítico. É por intermédio dos estudos de Binswanger que Boss entra em contato com as ideias de Heidegger estressas inserir tempo. Boss faz estudos com Carl Jung E entra em contato com as críticas à metapsicologia freudiana – critica sua matriz mecanicista que restringe a compreensão dos fenômenos. Durante a Segunda Guerra, Boss tem a oportunidade de ler ser e tempo de Heidegger. Boss estava intrigado com a vivência do tempo. Estudo sobre temporalidade na melancolia: o tempo fica represado . Ô futuro é bloqueado, a atenção se volta para o passado, o presente é estagnado. Boss descobre na descrição feita por Heidegger da existência humana a fundamentação de que a medicina e a psicanálise careciam. Boss e Heidegger passam a se corresponder . dessas correspondências, surgem os seminários de Zollikon. Sendo fundamentada numa compreensão fenomenológica da existência humana, isto é, atenta aos pressupostos que obscurecem e aprisionam a existência, a Daseinsanálise de Boss é apresentada como uma terapia amparada numa fundamentação mais humana e mais correspondente ao Dasein da medicina. Terapia, aqui , é um termo empregado em sentido lato , significa todo tratamento que vise a cura, isto é, a libertação daquilo que aprisiona. Nos Seminários de Zollikon a Daseinsanalyse é delimitada como [...] a totalidade de uma disciplina possível, que se coloca como tarefa demonstrar os fenômenos existenciais comprováveis do Dasein social-histórico e individual relacionados no sentido de uma antropologia ôntica, de cunho daseinsanalítico. Esta Daseinsanalyse antropológica pode-se dividir, por sua vez, em a) uma antropologia normal e b) uma patologia daseinsanalitica a ela relacionada. Assim, Boss assume como tarefa a elaboração de uma disciplina terapêutica fundamentada numa compreensão mais correspondente ao modo de ser humano. A seu ver, a Medicina e a Psicologia falham nessa missão, pois, embora assumam o homem como tema de suas pesquisas e tratamentos, seus estudos científico-naturais passam ao largo de compreender a experiência humana cotidiana. Em 1972 é convidado pelo Dr. Solon Spanoudis para realizar um seminário no Brasil. Aqui, em 1973, funda a Associação Brasileira de Analise e Terapia Existencial Daseinsanálise, que. em 1985, é renomeada Associação Brasileira de Daseinsanalyse. Realiza palestras na PUC SP em 1973. na USP em 1980 no Rio de Janeiro em 1982 e 1989. 2. Medicina Data de 1940 o primeiro livro escrito por Boss, o qual questiona o modelo científico-natural de interpretação do adoecimento humano, propondo que questões psicológicas. tradicionalmente relegadas a segundo plano pela medicina. manifestam-se corporalmente. Boss, como todos os psicanalistas de sua época, é médico e escreve para médicos. Mas. como médico, descobre que os mecanismos fisiológicos não são os únicos modos de adoecimento humano. Com esse livro, Boss inaugura seu debate com a Psicossomática, cujas questões trabalha até o fim de sua vida Boss faz uma crítica à medicina tradicional: para compreender o sofrimento de alguém que adolesce não basta entender os mecanismos fisiológicos deste adoecimento. Procura se entender qual é o significado, o sentido do adoecimento para o indivíduo. O adoecimento é entendido como uma privação de possibilidades existenciais (esta compreensão baseia-se na noção de ser no mundo ). O adoecimento pode deixar para trás possibilidades existenciais que nunca mais serão retomadas, já que somos seres histórico temporais. O adoecimento não é apenas biológico, mas é também um adoecimento existencial, que interrompe possibilidades, limita projetos. Propondo a Daseinsanalyse como uma medicina mais correspondente à existência humana, Boss critica a medicina científico-natural por não compreender o sentido do adoecer humano, focalizando apenas os mecanismos que explicam o processo biológico, Critica-a também por cindir a existência humana em aspectos biológicos e psicológicos. relegando os psicológicos a outro profissional. O ser-doente é entendido como uma possibilidade existencial. Desde a psicanálise, já se procurava pelo significado do adoecimento corpóreo em sua relação com o psicológico (conversão histérica). O médico Franz Alexander formula uma categorização dos sintomas psicossomáticos como expressões substitutivas de emoções reprimidas, acompanhamentos fisiológicos naturais de determinadas emoções ou sintomas meramente fisiológicos. Medard Boss entra nesse debate na busca de uma nova compreensão do adoecer humano. A Psicossomática metapsicológica não fornece a compreensão buscada, pois mantém a divisão entre corpo e psiquismo e, fiel ao modelo mecanicista científico-natural, propõe explicações sobre o funcionamento do adoecer. Boss em todos os seus livros e artigos mostra que o corpo e um existencial do Dasein, isto é, um de seus aspectos ontológicos, sendo. portanto, modo de ser-no-mundo. Boss critica o determinismo mecanicista da psicanálise fala do inconsciente como uma ficção. Na psicoterapia, a fala é reveladora dos modos de ser no mundo e dos pressupostos de como se deveria ser, afim de recuperar a liberdade de ser. A psicoterapia é um processo de desocultação de Imperativos aprisionadores, que frequentemente impedem a apropriação de possibilidades existenciais. Quando deixamos de lado possibilidades existenciais, nos sentimos culpados, em débito com nosso ser. A origem da nossa culpa é o nosso deixar nos necessitar pelo mundo e a divida que o ser humano tem e sempre terá com o mundo, até a sua morte, é a de deixar sua essência se realizar, o que só acontece depois de ele próprio ter realizado suas possibilidades de exploração provenientes do futuro e ter deixado as coisas do mundo se manifestarem sob a luz de sua existência. Sente-se culpado, assim, aquele que não deixa possibilidades existenciais se darem. Sentimo-nos culpados por ter feito algo que, olhando para trás, gostaríamos de não ter feito, Ao lançarmo-nos em possibilidades, deixamos outras para trás. No caso da culpa, impedimos constantemente outros futuros possíveis. Mas os sentimentos de culpa surgem pelo fixar-se no passado, no que deveria ter sido, deixando de abrir-se para novas possibilidades de ser-no-mundo-com-outros. Tornamo-nos, assim, mais em divida com nosso ser num processo que Boss chama de curto-circuito da culpa. Esses sentimentos de culpa atrofiam a existência. São provenientes de proibições e limitações e estão frequentemente associados à moralidade. São exigências e regras que reduzem e mutilam as possibilidades de viver. A superação da culpa se dá pelo apropriar-se da essência humana como possibilidade, isto é, assumindo o passado como o já acontecido, sobre o qual o futuro se abre. Fiel ao modelo psicoterapêutico descrito por Freud, Boss propõe como regra fundamental da psicoterapia a associação livre. que possibilita ao processo de autodescobrimento psicoterapêutico chegar a um estar-aberto ao próprio ser e às possibilidades singulares que se desvelam na clareira que somos. Por isso, o Daseinsanalista reconhece na relação do paciente com o analista, erroneamente interpretado pela metapsicologia como transferência, o motor do processo de libertação. O daseinsanalista é aquele que,· atento aos significados que se insinuam no mundo do paciente, mas que ele recusa, resguarda-os na desocultação, cuidando para que não voltem ao velamento. Cabe ao daseinsanalista Descobrir junto ao paciente quais são e como são os modos de estar com ele. O processodaseinsanalítico tem como objetivo, portanto, que o existente assuma livremente seu estar-culpado diante das possibilidades vitais dadas a ele. se ele se decide; nesse sentido, a um ter-consciência e um deixar-se usar adequado. Então ele não mais experimenta o estar-culpado essencial da existência humana como uma carga e uma opressão de Culpa, carga e opressão serão superadas pela vontade que deixa feliz de estar à disposição, sem reservas. de todos os fenómenos, como seu guardião. como seu âmbito aclarador de aparecer e desfraldar. Ao estar-solicitado e ao estar-chamado por tudo aquilo que quer aparecer na luz de sua existência, abre-se também ao ser humano o inesgotável sentido de sua própria existência. A palavra análise pode assumir o sentido de desfazer de uma trama, soltar, libertar ou desmontar os pedaços de uma construção. O processo daseinsanalítico é, portanto, a libertação da existência para seu poder-ser fundamentado no encontro entre duas pessoas: paciente e daseinsanalista. Esse encontro pode ser descrito como a forma de cuidado que Heidegger, em Ser e tempo, descreve como solicitude libertadora, que é o colocar-se na relação com o outro a fim de torná-lo transparente e livre para si mesmo, capaz de responder ao apelo dos entes que vêm ao seu encontro e realizar a condição humana de ser espaço aberto para todo o ser. A Daseinsanálise é um processo de libertação que depende de o analista se colocar à disposição do paciente. Esse modo de relação com o outro é caracterizado como o de solicitude libertadora. O médico, na sua relação com o enfermo, deve permanecer em um tipo de assistência ou ajuda aqui não se intrometa tanto no outro, tal como se antecipando a ele na sua possibilidade existencial. Deve devolver ao paciente a sua preocupação. No processo terapêutico daseinsanalítico, os sonhos tem espaço privilegiado. Não são realizações de desejos ou manifestações de arquétipos, como sugerem Freud e Jung, mas são reveladores das possibilidades existenciais que uma existência singular está incapaz de se apropriar em sua vida desperta. Considerações finais A releitura da obra metapsicologia é a proposta daseinsanalítica de refundamentar os fenômenos clínicos descobertos por Freud numa compreensão mais pertinente ao existir humano. Considerando a existência como tríplice abertura de mundo a coisas, a outros e a si mesmo, não faz mais sentido se falar em "psicologia” como um estudo do mental. Dessa forma, Boss rompe com a dualidade psique-corpo, que sustenta a diferenciação medicina-psicologia. propondo uma nova compreensão da existência humana. Sua obra e a tentativa de compreender os modos de adoecer humanos como modificações da estrutura do ser-no-mundo saudável. Assim, o adoecimento existencial é compreendido pela Daseinsanalyse de Boss como uma restrição nas possibilidades de ser e na capacidade de superar essa restrição. Pois o ser-no-mundo é a abertura na qual os fenômenos se dão. A existência humana é livre e necessária para o poder ser das coisas e dos outros. A liberdade essencial do Dasein e a liberdade de perceber e responder ao que se manifesta na abertura. Isso é existir. e ek-sistir: e estar "fora" sustentando um mundo significativo comum. Mas essa condição existencial pode ficar limitada, dando lugar aos modos de ser doentes. . A fim de fundamentar uma nova ciência mais correspondente aos modos de ser humano do que a Medicina e a Psicologia, Boss propõe uma patologia geral daseinsanalitica dividida em quatro modos de adoecer: 1) ser-doente caracterizado por uma perturbação evidente da corporeidade do existir humano: 2) ser-doente caracterizado por uma perturbação pronunciada da espacialidade e na temporalidade de seu ser-no-mundo: 3) modos de ser-doente constituindo privações importantes na realização da afinação própria à essência da pessoa: 4) modos de ser-doente constituindo privações importantes na realização do ser-aberto e da liberdade. Nessa patologia geral, aspectos "corporais" e "mentais" se fundem, pois toda restrição afeta o todo da existência. Quanto à etiologia da limitação. a Daseinsanalyse abandona o modelo causal, pois o Dasein não é causado. mas, sim, motivado. Lançado em possibilidades de ser. o ser-aí se relaciona constantemente com aquilo que ainda não e. mas pode ser. Está sempre ligado ao seu futuro, suportado pelo já acontecido em sua vida. Ao daseinsanalista interessa conhecer os incidentes biográficos motivadores que levaram o ser no-mundo a restringir suas possibilidades. Assim, o processo psicoterapêutico é um processo de libertação. que tem como objetivo resgatar a liberdade essencial do dasein, que se encontra limitada. Funda-se sobre a compreensão da existência humana livre de pressupostos iniciada por Heidegger em Ser e tempo. permitindo uma compreensão mais clara dos fenómenos saudáveis e patológicos e abrindo perspectivas para novas possibilidades terapêuticas.