Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 1
Introdução 
 
1.Âmbito da teoria geral do direito civil 
 
 Não se vai falar curar problemas específicos de direitos das coisa, de família, 
sucessões ou de crédito. 
Caracterizar figuras, equacionar problemas, formular soluções respeitantes a todo o 
domínio do direito civil ou, pelo menos, comum a normas e relações pertencentes a mais do 
que uma das referidas quatro partes especiais do direito civil. 
 
Teoria que visa reduzir algo amplo; tenta sintetizar. 
Apresenta um sistema de noções relacionadas entre si. 
Teoria da parte geral do direito civil; parte geral – pandectística. 
 
2.Conteúdo da teoria geral do direito civil. Plano do curso 
 
 Impõe-se o conhecimento das fontes actuais do direito civil português. 
 
Fontes de direito civil:
 não tanto os modos de surgimento da regra, mas as próprias 
sedes onde se localiza o direito civil já nascido. 
 Considera-se, então, os diplomas fundamentais do sistema de direito civíl português. 
 É também essencial o conhecimento dos princípios básicos que formam a arquitectura 
do nosso sistema de direito civíl. 
 
3.Divisão da teoria geral do direito civil: teoria geral do ordenamento 
jurídico civil e teoria geral da relação jurídica civil 
 
Direito, em sentido objectivo:
 conjunto de princípios regulamentadores, de regras de 
conduta, de normas de disciplina social. 
Direito, em sentido subjectivo:
 sinónimo de poder ou faculdade. 
Teoria geral da norma jurídica:
 é a teoria geral do direito objectivo. 
Teoria geral da relação jurídica:
 é a teoria geral do direito subjectivo. 
 A divisão da TGDC nestas duas partes é legítima porque utiliza como critérios de 
arrumação e referência dos problemas e soluções, duas categorias fundamentais do 
conhecimento do direito: - norma jurídica 
 - relação jurídica
 
 
 A norma ou regra jurídica é uma dimensão fundamental do direito – é um veículo 
imprescindível da realização dos valores jurídicos. 
 O direito visa realizar determinados valores, fundamentalmente a certeza desse 
disciplina e a segurança da vida dos homens, por um lado, e a «rectidão» ou «razoabilidade» 
das soluções, por outro. A realização da igualdade exige uma consideração normativa – geral – 
da realidade social a que o direito se aplica. A estatuição prescrita pelo direito para um situação 
deve ser aplicável às situações do mesmo tipo ou género. 
 A existência de um direito recto e certo implica, pois, a sua formalização normativa, a 
formulação de prescrições gerais. 
 
 O conceito de relação jurídica está na base da sistematização do nosso código civil. 
 Estabelece-se uma parte geral que engloba as temas relevantes aos elementos 
comuns às outras quatro partes e estas, por sua vez, correspondem ao direito aplicável a 
quatro espécies ou modalidades diversas de relações jurídicas. Esta sistematização é 
conhecida por: sistematização germânica.
 Diverso era o plano francês. 
 O direito não regula o homem isolado ou considerado em função das suas finalidades 
individuais, mas o homem no seu comportamento convivente. O direito pressupõe a vida dos 
homens uns com os outros e visa disciplinar os interesses contra postos nesse entrecruzar de 
actividades e interesses. 
 Relação jurídica: ligação entre os homens, traduzida em poderes e vinculaçoes. 
 Várias vozes têm formulado um veredicto anti-humano. O sujeito da relação jurídica 
são as pessoas colectivas. Tal ponto de vista dirige-se, pois, a um modo de arrumação, a uma 
forma de exposição, mais do que ao conteúdo das soluções expressas. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 2
4.O direito civil como parte do direito privado 
 
 O direito civil é direito privado.
 Segundo um clássica distinção o direito divide-se em 
dois grandes ramos: - direito público 
 - direito privado 
 O direito civil constitui o direito privado geral. 
 
5.Direito público e privado 
 
 A teoria dos interesses é frequentemente referida para distinguir direito público do 
privado. 
 Estaríamos perante uma norma de direito público: quando o fim dessa norma fosse a 
tutela de um interesse público, isto é, um interesse da colectividade; deparar-se-ia uma norma 
de direito privado: quando a norma visa tutelar ou satisfazer interesses individuais, isto é, 
interesses dos particulares. 
 
A este critério pode-se dirigir várias críticas: 
 
a)
 As normas de direito privado não se dirigem apenas à realização de interesses dos 
particulares, tenso em vista frequentemente, também, interesses públicos. Isso leva à 
intervenção pública. 
 As normas de direito público, por sua vez, para além do interesse público visado, 
pretendem, também, dar adequada tutela a interesses dos particulares. 
 Todas as normas, por cima dos interesses específicos e determinados que visam, 
miram um fundamental interesse público: o da realização do direito ou, se quisermos, da 
segurança e da rectidão. 
 b)
 O critério apreciado só poderá tentar manter-se se procurar exprimir apenas uma 
nota tendencial: o direito público tutelaria predominantemente interesses da colectividade e o 
direito privado protegeria predominantemente interesses dos particulares. 
 1 – Não pode saber-se, em muitos casos, qual o interesse predominante. 
 2 – Há normas que, dado o lugar da sua inserção no sistema jurídico e dada a 
tradição e o desenvolvimento histórico do direito, são pacificamente classificadas como 
de direito privado e, todavia, visam predominantemente interesses públicos. 
 
 
O direito público:
 disciplina relações entre entidades que estão numa posição de 
supremacia e subordinação. 
 
O direito privado:
 regula relações entre entidades numa posição relativa de igualdade 
ou equivalência 
 a) O direito público regula, por vezes, relações entre entidades numa relação de 
equivalência ou igualdade, como acontece com as relações entre autarquias locais. 
 b) O direito privado disciplina, também, algumas vezes, situações onde existem 
posições relativas de supra-ordenação e infra-ordenação, como acontece com o poder 
paternal. 
 Pode apenas dizer-se que a equivalência ou posição de igualdade dos sujeitos das 
relações jurídicas é normalmente característica da relação disciplinada pelo direito privado e a 
supremacia e subordinação característica normal da relação de direito público. 
 
 
A teoria dos sujeitos
 é hoje em dia o critério mais adequado, em virtude de assentar 
na qualidade dos sujeitos das relações jurídicas disciplinadas pelas normas a qualificar como 
de direito público ou privado. 
 Segundo este critério o direito privado regula as relações jurídicas estabelecidas entre 
particulares ou entre particulares e o Estado ou outros entes públicos, mas intervindo o Estado 
ou esses entes públicos em veste particular, isto é, despidos de «imperium» ou poder 
soberano. 
 É necessário, para se nos deparar uma norma de direito público, que pelo menos um 
dos sujeitos da relação disciplinada seja um ente titular de «imperium», de autoridade, que 
intervenha nessa veste. 
 
 Os dois sectores não se separam de forma tão absoluta e completa. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 3
 No domínio do direito do trabalho é discutido onde deve passar a linha divisória. O 
direito do trabalho contém normas de direito público (ex.: regras sobre intervenção 
administrativa na disciplina colectiva das relações de trabalho; as normas do chamado direito 
da previdência social), e normas de direito privado (ex.: normas reguladoras do contrato 
individual de trabalho) 
 
6.Alcance prático da distinção entre direito público e privado 
 
 A divisão efectuada e a exacta integração de cada norma na categoria correspondente,revestem interesse no próprio plano de aplicação do direito. 
 
 A distinção entre direito público e privado vai muitas vezes determinar as vias judiciais 
a que o particular que se considera lesado pelo Estado ou por uma autarquia local deve 
recorrer ou vice-versa. 
 Se o particular tem uma pretensão contra o Estado ou contra um ente público, há que 
averiguar, se a relação jurídica donde essa pretensão deriva é uma relação de direito público 
ou privado. 
 As acções entre particulares ou entre um ente particular e o Estado ou outra pessoa 
colectiva pública derivadas duma relação de direito privado devem ser propostas nos tribunais 
judiciais. 
 Quando o assunto entre particulares e entes públicos ou entre estes diz respeito a 
relações jurídicas de direito público ou a efeitos jurídicos com elas conexionadas são 
competentes os tribunais administrativos. 
 
 A responsabilidade civil, isto é, a obrigação de indemnizar os prejuízos sofridos, 
decorrente de uma actividade de órgãos, agentes ou representantes do Estado está sujeita a 
um regime diverso, consoante os danos são causados no exercício de uma actividade de 
gestão pública ou privada. 
 Se os danos resultam de uma actividade de gestão pública, os pedidos de 
indemnização feitos à administração são apreciados por tribunais administrativos. 
 Se os danos resultam de uma actividade de gestão privada, os pedidos de 
indemnização contra a administração central ou local, são deduzidos perante os tribunais 
judiciais. 
 Actividade de gestão pública:
 é a actividade da administração disciplinada pelo 
direito público. 
 
Actividade de gestão privada: é a que é regida pelo direito privado. 
 
7.O direito civil como direito privado comum. O direito comercial e do 
trabalho. A autonomia de outros ramos do direito. 
 
 O direito civil constitui o núcleo fundamental do direito privado. 
Constituir o núcleo fundamental do direito privado não significa ser todo o direito 
privado, mas apenas o direito privado comum ou geral. 
Historicamente, o direito privado confunde-se com direito civil, regendo este, sem 
restrições, todas as relações jurídicas entre sujeitos privados. O desenvolvimento da sociedade 
fez surgir ou acentuou necessidades específicas de determinados sectores da vida dos 
homens. Daí que fossem surgindo regras especiais para esses sectores particulares, 
estatuindo, para os domínios respectivos, regimes diversos dos que se aplicam à generalidade 
das relações jurídico-privadas do mesmo tipo. Essas normas especiais, em dado momento, 
passaram a compendiar-se. Dentro do direito privado surgiram assim, por especialização 
relativamente às normas do direito civil, ramos autónomos de direito. 
Esses ramos autónomos são: - direito comercial 
 - direito trabalho 
 Estes são direito privado especial, enquanto o direito civil é direito privado 
comum.
 O direito comercial e o direito do trabalho dão às particulares relações jurídico-
privadas a que se aplicam, uma disciplina diferente da que o direito civil dá às relações jurídico-
privadas em geral. 
 Neste domínio das relações patrimoniais ligadas ao comércio ou à actividade laboral, 
se aplicam, todavia, por força do referido caracter subsidiário do direito civil, muitas normas 
gerais que assim cobrem todo o domínio do direito privado. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 4
 Daí que, com propriedade, se possa dizer ser o direito civil um direito privado comum e 
subsidiário dos ramos autónomos jurídico-privados. Daí que, com propriedade, a teoria geral do 
direito civil seja uma teoria geral do direito privado 
 
 O direito comercial: disciplina os actos de comércio, sejam ou não comerciantes as 
pessoas que nele intervêm. 
 Como actos de comércio considera o código comercial certos tipos que descreve, bem 
como os actos dos comerciantes conexionados com o seu comércio, ainda que não se 
integrem nos tipos correspondentes aos actos objectivamente comerciais. 
 O direito comercial é identificado pelos autores como uma disciplina de formas e 
mecanismos jurídicos cuja génese visa servir as finalidades das empresas. 
 As necessidades próprias do comércio, das suas especificidades, decorre a disciplina 
especial, relativamente ao direito civil, que é proporcionada pelo direito comercial. 
 
 
O direito do trabalho:
 na sua parte privatística, disciplina directamente o trabalho 
subordinado prestado a outrem. 
 É executado por força de um contrato de trabalho, contrato entre o trabalhador e a 
entidade patronal. 
 A actividade laboral, prende-se com importantíssimos problemas e interesses ligados à 
vida económica da colectividade, à situação social dos trabalhadores, à formação profissional, 
etc. 
A disciplina das relações de trabalho tem, em maior ou menor escala, de se afastar do 
regime geral dos contratos, quanto à sua constituição, efeitos e extinção, em ordem a dar 
satisfação a exigências do tipo indicado. 
Enquanto o código civil de 1867 regulava o contrato de trabalho nos termos gerais dos 
contratos, tratando o trabalho como qualquer outra prestação, o desenvolvimento industrial e 
comercial posterior, o crescimento das empresas, a concentração operária vieram a determinar 
uma profunda modificação neste domínio. 
A entidade patronal estaria normalmente em posição da impor ao trabalhador 
condições inaceitáveis, condições que este se veria obrigado a aceitar por a sua sobrevivência 
depender necessariamente da alienação da sua força de trabalho. 
Eis porque no domínio laboral se veio a verificar um rigoroso intervencionismo estatal, 
formulador de normas imperativas ou reconhecedor de convenções colectivas de trabalho, 
negociadas a nível de classes organizadas e não dos indivíduos. 
 
O direito comercial e o do trabalho regulam certos actos e relações jurídicas em termos 
especiais, diversos de regulamentação que o direito civil dá aos negócios jurídicos patrimoniais 
em geral; essa especialidade decorre das particulares necessidades que a zona de vida 
respectiva se fazem sentir. 
 
8.Sentido do direito civil: a autonomia da pessoa, a igualdade, a disciplina 
da vida quotidiana do homem comum. 
 
 O direito civil contém a disciplina positiva da actividade de convivência da pessoa 
humana com as outras pessoas. Tutela os interesses dos homens em relação com outros 
homens. 
 
 Esta disciplina recta da vida do homem é realizada pelo direito civil numa perspectiva 
de autonomia da pessoa do desenvolvimento da sua personalidade. 
 A autonomia é uma ideia fundamental do direito civil. 
 Esta autonomia, poder de autodeterminação nas relações com as outras pessoas, 
supõe necessariamente a igualdade ou paridade de situação jurídica dos sujeitos. 
 Outra ideia caracterizadora do sentido do direito civil é a de que este se encontra 
directamente ao serviço da plena realização da pessoa na sua vida com as outras pessoas. 
Tem essa função enquanto está construído à volta da ideia de autonomia da pessoa e a 
autonomia é condição básica da personalidade. 
 
 A organização estadual proporciona ao particular meios eficazes e indispensáveis para 
o pleno desenvolvimento na sua personalidade e quanto ao exercício desses meios, o 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 5
particular encontra-se em situação de plena autonomia. Ex.: a faculdade de poder obter 
tratamento hospitalar, frequentar escolas. 
 Estes meios de direito público, são, numa visão personalista, estruturas instrumentais 
ao serviço da pessoa humana. Toda a sua aparelhagem visa criar condições que facilitem ou 
melhorem a realização da personalidade na vida dos homens. Seria exagerado dizer que só 
o direito civil é o direito da pessoa. 
 Não pode esquecer-se ser fundamentalmente a vida das pessoas, que o direito visa 
facilitar ou melhorar, uma convivênciacom outras pessoas humanas; que visa precisamente 
assegurar a autonomia e a realização da personalidade no plano das relações com as outras 
pessoas. 
 O direito civil situa-se no núcleo mais íntimo e fundamental da sociedade; disciplina as 
relações sociais de pessoa para pessoa 
 
 O direito civil disciplina substancialmente as relações de pessoa a pessoa e porque é 
um ordenamento jurídico, tutela coercitivamente os interesses das pessoas. 
 A tutela é operada, impondo ao infractor dos seus comandos, a necessidade de 
reconstituir os interesses da pessoa lesada. Esta tutela evidencia claramente estarmos no 
plano das relações de pessoa a pessoa, onde se manifestam apenas interesses dos 
particulares. 
 Quando um comportamento lesivo de outrem, além do prejuízo causado à pessoa, lesa 
o interesse social com certa intensidade, a reacção do direito civil reforçada pelo direito 
criminal, ordenamento dirigido à protecção dos valores da colectividade, isto é, com especial 
relevo comunitário. 
 
9.Sequência (pág.45) 
 
PARTE I 
 
Teoria geral do ordenamento jurídico civil 
 
(I)Fontes do direito civil português 
 
10.Formas de surgimento das normas jurídicas civis 
 
 Os modos de aparecimento das normas integradoras do ordenamento jurídico civil vêm 
indicados nos primeiros artigos do código civil. Estas disposições iniciais regulam a matéria das 
fontes de direito. 
 
 Dispõe o artigo 1º do código civil que são fontes de direito: as leis e as normas 
corporativas. 
 Lei: toda a disposição imperativa e geral de criação estadual, isto é, emanada dos 
órgãos estaduais competentes segundo a CRP. 
 Normas corporativas: disposições gerais e imperativas emanadas das entidades 
reconhecidas na CRP com a designação de organismos corporativos. Estas não são hoje fonte 
de direito. 
 
 O código civil refere-se igualmente aos usos conformes aos princípios de boa fé. Os 
usos só valem quando a lei o determinar; não se exige a consciência da obrigatoriedade dos 
referidos usos por parte dos que o adoptam. 
 
 O costume não é reconhecido como fonte de direito, nem sequer como modo de 
integração de lacunas da lei, não se reconhecendo um direito consuetudinário vigente. 
 
 A jurisprudência está igualmente excluída do quadro das fontes de direito. 
 Missão do julgador: cabe-lhe, em face do caso concreto, dar vida à norma legal, 
precisando-a e concretizando-a. Esta «concretização» da lei implica uma explicitação das suas 
virtualidades e um desenvolvimento e enriquecimento dela, embora integrada no quadro ou no 
sistema legal. 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 6
 O carácter constitutivo desta intervenção judicial é sobretudo importante no que se 
refere à aplicação aos casos da vida de conceitos indeterminados e cláusulas gerais em que 
aliás o código civil é fértil. O julgador considerará certos momentos racionais e denominadores 
objectivos. 
 Este carácter constitutivo da intervenção judicial é ainda claramente manifestado no 
caso particular de certas cláusulas gerais, fiscalizadoras ou sindicantes da aplicação das 
restantes normas do ordenamento jurídico. O sistema jurídico auto-limitou-se: criando meios 
de controlo dos resultados da aplicação das restantes normas. É o caso do princípio do abuso 
de direito. 
 
 Apesar do carácter concretizador da actividade do juiz não podemos atribuir à 
jurisprudência o carácter de fonte de direito. 
 É que os resultados a que o julgador chegou só têm força vinculativa para o caso 
concreto a ser decidido. 
 
11.Diplomas fundamentais do direito civil português 
 
 A lei é a fonte mais importante. 
 O vértice de todo o ordenamento jurídico é constituído pelo direito constitucional. 
Seguramente que se encontrarão, na CRP princípios determinantes do conteúdo do direito civil 
português. 
 É igualmente importante para o direito civil o artigo 36º, que contém princípios 
fundamentais sobre família, casamento e filiação. 
 
 Como já foi dito o código civil de 1966 está sistematizado segundo a sistematização 
germânica. 
 Assenta esta sistematização na classificação germânica das relações jurídicas de 
direito privado, que é feita preceder de uma parte geral. Nesta parte atende-se à disciplina das 
relações jurídicas em geral. 
 Em conformidade com este plano o código civil divide-se da seguinte forma: 
 
LIVRO I – Parte geral 
- das leis, sua interpretação e aplicação – 1º a 65º 
- das relações jurídicas – 66º a 396º 
LIVRO II – Direito das obrigações 
- das obrigações em geral – 397º a 873º 
- dos contratos em especial – 874º a 1250º 
LIVRO III – Direito das coisas 
- da posse – 1251º a 1301º 
- do direito de propriedade – 1302º a 1438º 
- do usufruto, uso e habitação – 1439º a 1490º 
- da enfiteuse – 1492º a 1523º 
- do direito de superfície – 1524º a 1542º 
- das servidões prediais – 1543º a 1575º 
LIVRO IV – Direito da família 
- disposições gerais – 1576º a 1586º 
- do casamento – 1587º a 1795º 
- da filiação – 1796º a 1972º 
- da adopção – 1973º a 2002º 
- dos alimentos – 2003º a 2020º 
LIVRO V – Direito das sucessões 
- das sucessões em geral – 2024º a 2130º 
- da sucessão legítima – 2131º a 2150º 
- da sucessão legitimária – 2151º a 2178º 
- da sucessão testamentária – 2179º a 2334º 
 
Este é o chamado sistema externo do código civil. Trata-se dum aspecto formal. 
 
Correspondendo as 4 partes especiais do código civil aos 4 tipos de relações jurídicas, 
é oportuna a definição de cada um desses tipos de relações. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 7
Direito das obrigações:
 vínculos jurídicos por virtude dos quais uma pessoa fica 
adstrita para com outra à realização de uma prestação. 
Direitos reais:
 relações de um sujeito jurídico com todas as outras pessoas, por força 
das quais aquele sujeito adquire um poder directo e imediato sobre uma coisa. 
Direito da família: relações emergentes do casamento, parentesco, afinidade ou 
adopção. 
Direito das sucessões:
 relações dirigidas a actuar a transmissão dos bens por morte 
do seu titular. 
 
12.O sistema do código civil de 1966: coordenação da parte geral e das 
partes especiais 
 
 O sistema externo do código civil português assenta numa parte geral e em 4 partes 
especiais. Dentro de algumas destas partes especiais encontra-se também, um conjunto de 
disposições gerais. 
 Desta relação entre uma parte geral e as partes especiais resulta que as normas 
contidas no código não se dispõem segundo um mero alinhamento ou contiguidade, mas 
segundo uma ordenação que deve estar presente no espírito do julgador. 
 
13.O código civil de 1966: características do tipo de formulações legais 
utilizado 
 
 Um código civil pode corresponder a modelos diversos, sob o ponto de vista do tipo de 
formulação legal adoptado. Um autor alemão (LARENZ) distingue 3 tipos de formulação legal: 
 1 – formulação casuística:
 prevendo o maior número possível de situações da vida. 
 2 – formulação de conceitos gerais-abstractos:
 tipos de situações da vida. 
 3 – formulação de directivas: o legislador recorre a linhas de orientação. 
 
 O código civil português adopta fundamentalmente o tipo de formulação mediante 
conceitos gerais-abstractos. 
 Este método possibilita um mais elevado grau de segurança e uma razoabilidade das 
soluções em geral mas pode levar o juiz a decisões menos rectas para o caso concreto. 
 A atenuação desta desvantagem foi visada pelo legislador do código civil português 
introduzindo neste diploma legal cláusulas gerais para uma possibilidade de adaptação às 
várias situações da vida. 
 
 Quanto à linguagem utilizada pelo código civil português de 1966, esta é de carácter 
técnico, especializado.
 
 Contém um «direito de juristas», expresso em linguagem de técnicos.14.O código civil português: as circunstâncias históricas da sua 
elaboração e a legislação anterior 
 
 Os trabalhos dirigidos à elaboração do actual código civil português estenderam-se por 
cerca de 22 anos. 
 
 Com a entrada em vigor do código civil de 1966, cessou a vigência do código de 
Seabra de 1867. 
 Era um código onde se combinava o nosso direito tradicional, com a doutrina dos 
nossos jurisconsultos oitocentistas. 
 O seu conteúdo reflecte influências do direito romano, canónico, jusnaturalista 
setecentista e do liberalismo individualista. 
 O seu mundo filosófico-cultural nítido é o individualismo, traduzido em liberdade 
contratual e no respeito inflexível pelas convenções privadas. Na sua original sistematização, 
toma o indivíduo e a sua trajectória vital como critério de sistematização («visão 
antropocêntrica» - CABRAL DE MONCADA). 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 8
 Durante a sua vigência foram publicados alguns diplomas que alteraram o regime de 
algumas matérias nele disciplinadas: 
 
a) Lei do divórcio – 1910 
b) Leis da família – 1911 
c) Estabelecimento do registo civil obrigatório – 1911 
d) Concordata com a Santa Sé – 1940 
 
 Antes da entrada em vigor do código civil de 1867 o principal diploma do nosso direito 
civil identifica-se com as ordenações filipinas (1603). 
 
(II)Os princípios fundamentais do direito civil português 
 
(1)Introdução 
 
15.As normas aplicáveis às relações de direito civil. Direito civil e direito 
constitucional. Aplicação de normas constitucionais às relações entre 
particulares 
 
 As normas de direito civil estão fundamentalmente contidas no código civil português 
de 1966. 
 Alguns diplomas avulsos regulam, porém, igualmente, matérias do direito privado 
comum. 
 Problemas de direito civil podem encontrar a sua solução numa norma que não é de 
direito civil, mas de direito constitucional. 
 O legislador deve emitir normas de direito civil não contrárias à CRP; o juiz e os órgãos 
administrativos não devem aplicar normas inconstitucionais. 
 
A aplicação de normas constitucionais à actividade privada faz-se: 
 
 
a)
 através de normas de direito privado que reproduzem a seu conteúdo (ex.: direito ao 
nome – artigo 72º do CC e 26º da CRP). 
 b) através de cláusulas gerais e conceitos indeterminados, cujo conteúdo é preenchido 
com os valores constitucionalmente consagrados (ex.: ordem pública do artigo 280º do CC). 
 
c)
 em casos absolutamente excepcionais, por não existir clausula geral ou conceito 
indeterminado adequado, uma norma constitucional reconhecedora de um direito fundamental 
aplica-se independentemente da mediação de uma regra de direito privado (ex.: a protecção 
contra o uso incorrecto da informática, nos termos do artigo 35º da CRP, embora se pudesse 
sustentar que esta protecção dos cidadãos já se encontrava guarida no artigo 17º e 80º do 
CC). 
 
 Parece conveniente e susceptível de conduzir a resultados mais razoáveis que a 
aplicação das normas constitucionais a actividades privadas se faça com referencia a 
instrumentos e regras próprios do direito civil. 
 
 Ex.: será nulo um contrato ou cláusula geral pela qual alguém se obrigue a professar 
ou a abandonar certa religião. Tal estipulação contraria o citado preceito constitucional. 
 
 Os preceitos constitucionais na sua aplicação às relações de direito privado devem 
conciliar o seu alcance com o de certos princípios fundamentais do direito privado – eles 
próprios conformes à CRP. 
 O princípio da igualdade que caracteriza, em termos gerais, a posição dos 
particulares em face do Estado, não pode, no domínio das convenções entre particulares, 
sobrepor-se à liberdade contratual, salvo se o tratamento desigual implica a violação de um 
direito de personalidade de outrem. 
 
 O princípio da igualdade perante a lei parece impor necessariamente a 
inconstitucionalidade de quaisquer normas de direito civil que não sejam normas gerais. As 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 9
normas aplicáveis a uma só situação ou a um conjunto de situações seriam normas 
inconstitucionais (ex.: leis-medida; leis-providência; leis-provisão ou leis individuais). 
 O princípio da igualdade impõe que o legislador não possa tratar arbitrariamente o 
essencialmente igual como desigual, nem o essencialmente desigual arbitrariamente como 
igual. 
 
16.A existência de princípios básicos do direito civil. Carácter histórico 
desses princípios de ordenação sistemática interna. A autonomia e a 
igualdade como seus pressupostos actuais 
 
 A massa das normas jurídicas não é um conjunto desordenado de preceitos avulsos, 
desprovidos de conexão uns com os outros. 
 Há uma ordenação dessas normas (a nível não apenas formal, mas substancial ou 
material). 
 
 Quer os princípios conformadores do nosso actual modelo de direito civil, quer as 
normas que os aceitam e desenvolvem, são elementos válidos numa dada circunstância 
espacial e temporal. 
 Este quadro de princípios, que fundamenta e retrata sinteticamente o direito civil actual, 
não brotou por espontânea geração no solo da vida social de hoje. Trata-se de um produto 
histórico, determinado pelos dados sociológicos, culturais e históricos que condicionam toda a 
organização da sociedade em cada momento e em cada lugar. 
 
Podemos considerar 7 ideias, princípios ou instituições que fundamentam o nosso actual 
direito civil, o penetram e são por ele desenvolvidos: 
 
I – o reconhecimento da pessoa e dos direitos de personalidade 
II – o princípio da liberdade contratual 
III – a responsabilidade civil 
IV – a concessão da personalidade jurídica às pessoas colectivas 
V – a propriedade privada 
VI – a família 
VII – o fenómeno sucessório 
 
(2)O reconhecimento da pessoa e dos direitos de personalidade 
 
17.O reconhecimento dos direito de personalidade jurídica de todos os 
seres humanos 
 
 O direito só pode ser concebido, tendo como destinatário os seres humanos em 
convivência. A aplicação do direito civil a essa convivência humana desencadeia uma teia de 
relações jurídicas entre os homens, relações traduzidas em poderes (direitos) e deveres 
jurídicos «lato sensu». 
Os seres humanos não são necessariamente, do ponto de vista lógico, pessoas em 
sentido jurídico (ex.: escravatura). As pessoas em sentido jurídico não são necessariamente 
seres humanos (ex.: associações, sociedades, fundações). 
 
Artigo 66º n.º 1 CC «Reconhece-se personalidade jurídica a todo o ser humano a partir 
do nascimento completo e com vida». 
 
A personalidade jurídica, a sua susceptibilidade de direitos e obrigações, corresponde a 
uma condição indispensável da realização por cada homem dos seus fins ou interesses na vida 
com os outros. Bem se compreende que no nosso tempo não sofra discussão o 
reconhecimento dessa qualidade jurídica a todos os seres humanos. 
 
18.O reconhecimento de um círculo de direitos de personalidade 
 
 A susceptibilidade de direitos e obrigações implica a titularidade real e efectiva de 
alguns direitos e obrigações. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 10 
 
Direitos de personalidade:
 a pessoa é titular de um certo número de direitos 
absolutos, que se impõem ao respeito de todos os outros, incidindo sobre os vários modos de 
ser físicos ou morais da sua personalidade. 
 
Os direitos de personalidade incidem sobre:
 a vida da pessoa, a sua saúde física, 
integridade física, honra, liberdade física e psicológica, o seu nome, imagem, reserva sobre a 
intimidade da vida privada. 
 Este é um círculo de direitos necessários; um conteúdo mínimo e imprescindível 
da esfera jurídica de cada pessoa.
 
 O direito protege os vários modos de serfísicos ou morais da personalidade. A violação 
de alguns desses aspectos da personalidade é até um facto ilícito criminal, que desencadeia 
uma punição estabelecida pelo código penal. 
 Os direitos de personalidade são irrenunciáveis; podem todavia ser objecto de 
limitações voluntárias que não sejam contrárias aos princípios da ordem pública (artigo 81º). 
 
(3)O princípio da liberdade contratual 
 
19.A liberdade contratual manifestação da autonomia da vontade no 
domínio dos contratos 
 
 A produção de efeitos jurídicos resulta principalmente, no tocante à actuação humana 
juridicamente relevante, de actos de vontade. 
 Negócios jurídicos:
 os actos jurídicos, cujos efeitos são produzidos por força da 
manifestação de uma intenção e em coincidência com o teor declarado dessa intenção. 
 O negócio jurídico é uma manifestação do princípio da vontade ou princípio da 
autonomia privada subjacente a todo o direito privado. 
 
Autonomia da vontade:
 o poder reconhecido aos particulares de auto-regulamentação 
dos seus interesses, de autogoverno da sua esfera jurídica. Os particulares podem estabelecer 
a ordenação das respectivas relações jurídicas. 
 Este autogoverno da sua esfera jurídica, manifesta-se, desde logo, na realização de 
negócios jurídicos, de actos pelos quais os particulares ditam a regulamentação das suas 
relações, constituindo-as, modificando-as, extinguindo-as e determinando o seu conteúdo. É 
também a autonomia privada que se manifesta no poder de livre exercício dos seus direitos ou 
de livre gozo dos seus bens pelos particulares. 
 
 A autonomia privada ou autonomia da vontade encontra os veículos da sua realização 
nos direitos subjectivos e na possibilidade de celebração de negócios jurídicos. 
 
 A autonomia privada é uma ideia fundamental deste ramo do direito. 
 Cabe ao direito civil uma função de protecção ou defesa dos direitos constituídos ao 
abrigo da sua função modeladora. 
 
 O negócio jurídico é um meio de actuação da autonomia privada. 
 Uma importante classificação dos negócios jurídicos é a resultante do critério do 
número e modo de disposição das declarações de vontade que os integram. Segundo ela, os 
negócios jurídicos agrupam-se em duas classes: 
 
 - negócios jurídicos unilaterais: perfaz-se com uma só declaração de vontade. 
- negócios jurídicos bilaterais:
 constituído por duas ou mais declarações de vontade 
convergentes, tendentes à produção de um resultado jurídico unitário. Só há negócio 
jurídico bilateral, quando uma parte formula e comunica uma declaração de vontade 
(proposta) e a outra manifesta a sua anuência (aceitação). 
 
 Nos negócios unilaterais a autonomia da vontade está sujeita a muito maiores 
restrições do que nos contratos: 
 
 a)
 os negócios unilaterais constitutivos de obrigações são apenas os que estiverem 
previstos na Lei (princípio da tipicidade). 
 
b)
 nos negócios unilaterais modificativos vigora também o princípio da tipicidade. 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 11 
20.Aspectos contidos no princípio da liberdade contratual: a liberdade de 
conclusão ou celebração dos contratos e a liberdade de modelação do 
conteúdo contratual. Os contratos de adesão 
 
 Artigo 405º do CC. 
 Esta disposição legal consagra apenas a liberdade de modelação ou liberdade de 
fixação ou estipulação do conteúdo contratual. 
 Da norma citada emerge, contudo, o reconhecimento da liberdade de celebração ou 
conclusão dos contratos. 
 
 
1 – Liberdade de celebração dos contratos:
 consiste na faculdade de livremente 
realizar contratos ou recusar a sua celebração. Segundo tal princípio a ninguém pode ser 
impostos contratos contra a sua vontade ou aplicadas sanções por força de uma recusa de 
contratar nem a ninguém pode ser imposta a abstenção de contratar. 
 
Restrições à liberdade de celebração dos contratos: 
 
 a) na consagração de um dever jurídico de contratar, pelo que a recusa de contratar 
de uma das partes não impede a formação do contrato (ex.: estatuto da ordem dos médicos, 
relativos aos deveres de prestação de serviços que impendem sobre os médicos). 
 b)
 na proibição de celebrar contratos com determinadas pessoas. 
 c) na sujeição do contrato a autorização de outrem, eventualmente de uma 
autoridade pública. 
 
 
2 – Liberdade de modelação do conteúdo contratual: consiste na faculdade 
conferida aos contraentes de fixarem livremente o conteúdo dos contratos. 
 
As partes podem: 
 
 a) realizar contratos com as características dos contratos previstos e regulados na lei 
(contratos típicos). 
 b)
 celebrar contratos nominados aos quais acrescentam as cláusulas que lhes 
aprouver eventualmente conjugando-se 2 ou mais contratos diferentes (contratos mistos = 
ex.: x vale 1000. A vende a B por 200. Negócio de compra e venda + doação de 800). 
 c)
 concluir contratos diferentes dos contratos expressamente disciplinados na lei 
(contratos atípicos). 
 
 A liberdade de fixação ou modelação do conteúdo do contratos conhece também 
algumas restrições, aludidas no artigo 405º. 
 
Eis algumas dessas restrições: 
 
 
a)
 submete-se o contrato aos requisitos do artigo 280º (são nulos os contratos 
contrários à lei, à ordem pública a aos bons costumes). 
 
b)
 são anuláveis em geral os chamados negócios usurários (artigo 282º. ex.: cobrança 
de juros excessivos). 
 
c)
 a conduta das partes contratuais deve pautar-se pelo princípio da boa fé. 
 
d)
 a lei reconhece e admite certos contratos-tipo que, celebrados a nível de categorias 
económicas ou profissionais, contêm normas a que os contratos individuais, celebrados entre 
pessoas pertencentes às referidas categorias, têm de obedecer (contratos normativos). 
 
e)
 alguns contratos em especial estão necessariamente sujeitos a determinadas 
normas imperativas. 
 
 Uma importante limitação de ordem prática à liberdade de modelação do conteúdo 
contratual é a que se verifica nos chamados contratos de adesão. 
 Uma das partes formula unilateralmente as cláusulas negociais e a outra parte aceita 
as condições, mediante adesão ao modelo ou impresso que lhe é apresentado, ou rejeita-as, 
não sendo possível modificar o ordenamento negocial apresentado. 
 Teoricamente não há aqui restrições à liberdade de contratar. Simplesmente esta 
liberdade seria a de não satisfazer uma necessidade importante, pois os contratos de adesão 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 12 
surgem normalmente em zona de comércio onde o fornecedor está em situação de monopólio 
ou quase monopólio. Daí que o particular, impelido pela necessidade, aceite as condições 
elaboradas pela outra parte, mesmo que lhe sejam desfavoráveis ou pouco equitativas – daí a 
restrição factual à liberdade de contratar. 
 Vantagens dos contratos de adesão: racionalização e normalização da actividade 
contratual dirigida a um número elevado e indeterminado de clientes. 
 Na ausência de legislação específica, os tribunais portugueses, como fez e continua a 
fazer a jurisprudência estrangeira, devem considerar nulas certas cláusulas abusivas contidas 
em contratos de adesão. 
 
21.Domínio principal de aplicação da liberdade contratual: os contratos 
obrigacionais 
 
 Nos contratos com eficácia real, isto é, constitutivos, modificativos ou extintivos de 
direitos reais, há liberdade de celebração, mas a liberdade de fixação do conteúdo contratual 
sofre um importante restrição. 
 Os contraentes, podendo embora celebrar contratos inominados, não podem constituir 
direitos reais que se não integrem nos tipos previstos na lei (princípio da tipicidade). 
 
 Nos contratos familiares, isto é, com eficácia no domínio das relações de família, há 
liberdade de concluir ou não o respectivo contrato – éo pensamento da autonomia que subjaz 
e enforma o direito civil. 
 Quanto à liberdade de fixação do conteúdo contratual ela está excluída no domínio dos 
contratos familiares pessoais. O casamentos, perfilhação, ou adopção são tipos contratuais 
rígidos, cujos efeitos estão preordenados na lei, não podendo ser modificados pelas partes. 
 
 Nos contratos sucessórios, a regra do nosso direito é a da proibição dos pactos 
sucessórios, só se derrogando esta regra em casos limitadíssimos (artigo 1700º). 
 A sucessão voluntária resulta, quase sempre, de um negócio unilateral – o testamento. 
Quanto a este, há liberdade de celebração e liberdade de fixação do conteúdo, salvo algumas 
restrições. 
 
22.Referência esquemática às principais figuras e problemas 
disciplinados pelo direito das obrigações 
 
 O princípio da liberdade contratual tem no domínio dos contratos obrigacionais o seu 
campo de eleição. 
 
Obrigação ou direito de crédito:
 é o vínculo jurídico por virtude do qual uma pessoa 
fica adstrita para com outra à realização de uma prestação. 
 
 O código civil regula as fontes das obrigações, isto é, os factos jurídicos que dão 
origem ao vínculo obrigacional. Considera como tais o contrato (artigo 405º), o negócio 
unilateral (artigo 457º), a gestão de negócios (artigo 464º), o enriquecimento sem causa (artigo 
473º) e a responsabilidade civil (artigo 483º). 
 
23.O princípio da liberdade contratual e o sistema económico e social. 
Liberdade contratual, economia de mercado e economia planificada 
(pág.109) 
 
(4)A responsabilidade civil 
 
24.Noção. Características gerais 
 
 Na vida social os comportamentos adoptados por uma pessoa causam muitas vezes 
prejuízos a outrem. O devedor não executa ou executa defeituosamente a prestação a que 
está adstrito; o condutor de um veículo atropela um transeunte; um indivíduo destroi uma coisa 
de outrem. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 13 
 Deverá o prejuízo ficar a cargo da pessoa em cuja esfera jurídica ele foi produzido ou 
deverá antes impor-se a obrigação do seu ressarcimento à pessoa cujo comportamento 
provocou uma lesão na esfera de outrem? 
 
 A responsabilidade civil depara-se-nos quando a lei impõe ao autor de certos factos 
ou ao beneficiário de certa actividade a obrigação de reparar os danos causados a outrem. A 
responsabilidade civil actua, através do surgimento da obrigação de indemnização. Esta tem 
precisamente em vista tornar indemne, isto é, sem dano o lesado; visa colocar a vítima na 
situação em que estaria sem a ocorrência do facto danoso. 
 
Responsabilidade civil:
 consiste na necessidade imposta pela lei a quem causa 
prejuízos a outrem de colocar o ofendido na situação em que estaria sem a lesão (artigo 483º e 
562º). Esta reconstitução da situação inicial deve em principio ter lugar mediante uma 
reconstituição natural. Quando a reconstituição natural for impossível, insuficiente ou 
excessivamente onerosa, a reposição do lesão na situação em que estaria sem o facto lesivo 
terá lugar mediante uma indemnização em dinheiro ou por equivalente (restituição por 
equivalente). Esta indemnização é a hipótese largamente maioritária, pois raramente o lesado 
ficará completamente indemnizado com a reconstituição natural, mesmo quando esta for 
possível. 
 
 No dano patrimonial estão compreendidos o dano emergente, ou seja, o prejuízo 
imediato sofrido pelo lesado, e o lucro cessante, quer dizer, as vantagens que deixaram de 
entrar no património do lesado em consequência da lesão (artigo 564º n.º 1). 
 O direito civil português manda atender também na fixação da indemnização aos danos 
não patrimoniais (danos morais) que, pela sua gravidade, mereçam tutela do direito (artigo 
496º n.º 1). Estes danos não patrimoniais resultam da lesão de bens estranhos ao património 
do lesado (a integridade física, saúde, tranquilidade, bem-estar, liberdade, honra, reputação). 
Não sendo estes prejuízos avaliáveis em dinheiro, a atribuição de uma soma pecuniária 
correspondente legitima-se, não pela ideia de indemnização ou reconstituição, mas pela de 
compensação. 
 Os interesses cuja lesão desencadeia um dano não patrimonial são infungíveis, não 
podem ser reintegrados mesmo por equivalente. Mas é possível contrabalançar o dano, 
compensá-lo mediante satisfações derivadas da utilização do dinheiro. 
 
Devem verificar-se outros pressupostos para o surgimento da responsabilidade civil: 
 
 1 – Necessário se torna que o facto seja ilícito, isto é, violador de direitos subjectivos ou 
interesses alheios tutelados por uma disposição legal. 
 
2 –
 Nexo de causalidade entre facto e dano. 
 
3 –
 Facto lesivo. 
 
 
Culpa:
 reprovação ou censura da conduta desrespeitadora dos interesses tutelados 
pelo direito. Esta pode resultar da existência de uma intenção de causar um dano violando uma 
proibição (dolo) ou da omissão dos deveres de cuidado, diligência ou perícia exigíveis para 
evitar o dano (negligência). 
 
 Ao lado da responsabilidade civil deve considerar-se a responsabilidade criminal. 
 
Responsabilidade civil:
 dirige-se à restauração, específica ou por equivalente, dos 
interesses individuais lesados. 
 
Responsabilidade criminal:
 visa satisfazer interesses da comunidade, ofendida pelo 
facto ilícito criminal. 
 
A pena traduz-se: 
 
- na produção de um mal a sofrer pelo agente criminoso, com a finalidade de retribuir o 
mal causado à sociedade com a infracção (retribuição). 
- de intimidar as outras pessoas, mostrando-lhes como a sociedade reage ao crime 
(prevenção geral). 
- de impedir o próprio infractor de cometer novas infracções (prevenção especial). 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 14 
25.Responsabilidade por actos ilícitos, pelo risco e por actos lícitos. 
 
 O nosso sistema jurídico opta pela responsabilidade subjectiva. 
 Compreende-se a exigência da culpa como «conditio sine qua non» da 
responsabilidade. É essa a solução pelas razões seguintes: 
 
 
a)
 a segurança que a responsabilidade objectiva confere às potenciais vítimas de 
danos, protegendo os bens dos indivíduos contra quaisquer lesões decorrentes da actividade 
de outrem, é neutralizada pela paralisação de iniciativas que a ponderação das possibilidades 
de dano produzirá no homem em acção. 
 
b)
 substituir ao directamente lesado o autor não culposo do prejuízo. 
 
c)
 exigir a culpa do sujeito é fazer apelo à liberdade moral do homem e é apresentar os 
danos como consequências evitáveis, assim se estimulando zelos e cuidados em impedi-los. 
 
 No núcleo da responsabilidade jurídica estará assim a ideia de responsabilidade moral. 
Esta pertence ao domínio da consciência e dos deveres do homem para consigo próprio. 
 
 
Responsabilidade pelo risco
 é consagrada em algumas hipóteses especiais. Trata-se 
de domínios em que o homem tira partido de actividades que, potenciando as suas 
possibilidades de lucro, importam um aumento de risco para os outros. 
 Se alguém, criando para si uma possibilidade de lucro, cria para os outros riscos 
acrescentados é justo por a cargo daquele a indemnização dos danos originados pelas suas 
actividades lucrativas («ubi commoda, ibi incommoda»). Ex.: danos causados por animais 
(502º), acidentes causados por veículos de circulação terrestre (503º), danos causados por 
instalações de energia eléctrica ou gás (509º). 
 
 O nosso sistema jurídico admite, também, com carácter excepcional, alguns casos 
contados de responsabilidade por actos lícitos ou intervenções lícitas. 
 Pretende-se em tais casos compensar o sacrifício de um interesse menos valorado na 
composição de um conflito teleológico, porque uma prevalência absoluta e total do interesse 
oposto seria injusta. 
 Apesardo carácter conforme ao direito da actuação do sujeito, pareceu excessivo não 
dar à pessoa sacrificada uma reparação. Exs: responsabilidade emergente de certos casos de 
estado de necessidade; passagem forçada. 
 
26.Responsabilidade contratual e extra-contratual. 
 
 Responsabilidade contratual: originada pela violação de um direito de crédito ou 
obrigação em sentido técnico. 
 Responsabilidade extra-contratual:
 resulta da violação de um dever geral de 
abstenção contraposto a um direito absoluto. 
 
(5)A concessão de personalidade jurídica às pessoas colectivas 
 
27.A personalidade colectiva e os tipos de pessoas colectivas 
 
 Ao lado da personalidade jurídica reconhecida a todas as pessoas singulares, o nosso 
direito civil, verificados certos requisitos, atribui personalidade jurídica às chamadas pessoas 
colectivas. 
 
Pessoas colectivas:
 são colectividades de pessoas ou complexos patrimoniais 
organizados em vista de um fim comum ou colectivo a que o ordenamento jurídico atribui a 
qualidade de sujeitos de direitos. 
 
A pessoa colectiva, em sentido lato, tem 3 modalidades fundamentais: 
 
 a) associações: colectividades de pessoas que não têm por fim o lucro económico dos 
associados. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 15 
 b) fundações:
 complexos patrimoniais ou massas de bens afectados por uma 
liberalidade à prossecução de uma finalidade estabelecida pelo fundador ou em harmonia com 
a sua vontade. 
 c) sociedades:
 conjunto de pessoas que contribuem com bens ou serviços para o 
exercício de uma actividade económica dirigida à obtenção de lucros e à sua distribuição pelos 
sócios. 
 
28.Natureza da personalidade colectiva 
 
 A existência de pessoas colectivas resulta da existência de interesses humanos 
comuns. 
 A criação de um autónomo centro de imputação das relações jurídicas ligadas à 
realização desses interesses permite uma mais fácil e eficaz consecução do escopo visado. 
 
Doutrina: 
 
 Teoria da ficção: a lei, ao estabelecer a personalidade jurídica das pessoas colectivas, 
estaria a proceder como se as pessoas colectivas fossem pessoas singulares. 
 
Teoria organicista:
 a personalidade jurídica não resulta de uma concessão 
discricionária do legislador, mas é a consequência, imposta pela natureza das coisas, da 
existência de um organismo real. 
 
 A personalidade jurídicas das pessoas colectivas é uma criação do espírito humano no 
campo do direito, em ordem à realização de fins jurídicos. 
 A personalidade jurídica dos indivíduos: é imposta, pelas concepções ético-jurídicas 
de tipo humanista hoje vigentes, como uma exigência forçosa da dignidade da pessoa humana 
e do direito ao respeito inerente a todo o ser humano. 
 A personalidade jurídica das pessoas colectivas:
 é uma mecanismo técnico-jurídico 
– um modelo, uma forma, um operador para a polarização das relações jurídicas ligadas à 
realização de certo fim colectivo. 
 
(6)A propriedade privada 
 
29.O problema do domínio sobre os bens como problema fundamental de 
uma sociedade 
 
 No desenvolvimento da sua vida o homem serve-se das coisas, utilizando-as para 
satisfazer as suas necessidade e para conseguir os seus fins. 
 Enquanto as pessoas são fins em si mesmas, as coisas são meios ao serviço dos fins 
das pessoas. 
 O homem tem necessidades de se servir das coisas como condição da sua 
sobrevivência e do seu progresso. A detenção, o uso e a disposição das coisas permite ao 
homem satisfazer necessidade fundamentais ou secundárias e potencia a sua possibilidade 
real de se propor determinadas finalidades e de escolher entre várias vias para a realização 
desses fins. 
 
 Mas, se o direito se desinteressasse, por absurdo, de submeter os poderes dos 
homens sobre as coisas à sua disciplina, o poder de facto sobre as coisas não se impunha ao 
respeito das outras pessoas. Teria que ser defendido com a força do seu titular. 
 Sendo os bens escassos em relação às necessidades sentidas pelo homem, e 
procurando este subtrair-se ao império das necessidades, seria inevitável a luta pela sua 
apropriação. Seria impossível a vida em comum. 
 Constitui missão fundamental do direito, organizar os poderes dos homens sobre as 
coisas e o conteúdo das relações entre os homens a respeito das coisas. 
 
30.Fenomenologia da propriedade ao longo da história e no momento 
actual (pág.131) 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 16 
31.Características do direito de propriedade no nosso sistema jurídico 
 
 A tutela constitucional da propriedade privada está expressamente consagrada no 
artigo 62º n.º 1 da CRP. 
 O proprietário tem poderes indeterminados. Não se limitam os poderes do proprietário 
senão através das concretas restrições pela lei impostas. 
 
 O direito da propriedade é dotado de uma certa elasticidade – extinto um direito 
real que limite a propriedade da coisa, reconstitui-se a plenitude da propriedade sobre ela. 
 
 A sua qualificação como um direito perpétuo não o deixa poder extinguir-se pelo não 
uso. 
 
32.Os direitos reais limitados 
 
 A propriedade é o direito real máximo, o de conteúdo pleno e polimórfico. 
 
Direitos reais limitados:
 toda uma série de direitos reais de conteúdo ou estrutura 
bem diversa e ao serviço de funções ou interesses de natureza diferenciada. Não conferem a 
plenitude dos poderes sobre uma coisa. 
 São direitos sobre coisa alheia. 
 
 Direitos reais de gozo: aqueles que conferem um poder de utilização, total ou parcial, 
duma coisa e, por vezes, também o de apropriação dos frutos que a coisa produza. Ex.: 
usufruto, uso, habitação, superfícies, servidões prediais. 
 
 Direitos reais de garantia: conferem o poder de um credor obter o pagamento da 
dívida de que é titular activo. Ex.: penhor, hipoteca. 
 
 
Direitos reais de aquisição:
 conferem a um determinado indivíduo a possibilidade de 
se apropriar de uma coisa, de adquirir uma coisa. 
 
(7)A família 
 
33.A família, como realidade natural e social, perante o direito legislado 
 
 Família: realidade natural e social, cuja existência material, psicológica e moral se 
manifesta, desde logo, em planos ou domínios da vida estranhos ao plano jurídico. 
 O surgimento e a vida da família realizam-se e assentam numa série de 
comportamentos pessoais e realidades psicológicas e morais, que o direito reconhece, aceita e 
considera, ao formular a sua regulamentação da instituição familiar. Ex. de comportamentos: 
amor, amizade, confiança, lealdade, vida em comum, solidariedade. 
 
 Apesar da família na sua concreta e natural existência no seio da vida social conter 
uma ordenação íntima, não pode a lei deixar de considerar essa realidade e esse mundo de 
relações, estabelecendo sobre este o manto de uma disciplina, tanto quanto possível, 
completa. 
 
A disciplina da instituição familiar impõe, atentas as seguintes razões: 
 
 a)
 a ordenação concreta e institucional da família, mesmo que aceite pelo legislador, 
não contém uma disciplina de todos os problemas respectivos em termos acabados e 
categóricos, tornando-se necessária uma formulação certa, precisa e completa do regime 
jurídico correspondente. 
 
b)
 a consagração legislativa de um regime, vinca mais vivamente o sentimento dos 
deveres e direitos dos membros da família, facilita o fluente curso da vida familiar e permite, em 
situações de crise, disciplinar com justiça e certeza a posição dos sujeitos. 
 
c)
 pode o Estado visar uma modificação da disciplina da família para um sentido 
diverso do correspondente ao direito vivido espontaneamente na realidade social. 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 17 
 O direito da família é caracterizado por uma acentuadopredomínio de normas 
imperativas. É um direito institucional. 
 
34.Referência sumária ao direito da família português 
 
 Ao direito da família continua a dedicar o código civil um livro – o livro IV. 
 Na ordem jurídica portuguesa, continua a verificar-se, quanto à disciplina de acto 
matrimonial, uma coexistência da ordem jurídica estadual e da canónica. 
 
(8)O fenómeno sucessório ou sucessão por morte 
 
35.O destino das relações jurídicas após a morte do seu titular 
 
 Põe-se em qualquer comunidade o problema de saber qual o destino das relações 
jurídicas existentes na titularidade de uma pessoa singular após a morte desta. 
 Razões de relevante conveniência social tornam contra-indicado um regime de 
extinção de todas as relações jurídicas no momento da morte do seu titular. 
 Tal regime, implicando a exoneração dos devedores à morte do seu credor, o prejuízo 
dos credores por morte do devedor e a vacatura ou a aquisição pelo Estado dos bens do 
falecido, seria um contra-estímulo às actividades e iniciativas de caracter patrimonial das 
pessoas, uma fonte de riscos para os credores, uma causa de litígios e perturbação da paz 
social. 
 Fenómeno sucessório: é o chamamento de uma ou mais pessoas à titularidade das 
relações patrimoniais de uma pessoa falecida e a consequente devolução dos bens que a esta 
pertenciam. 
 
 A transmissão das relações jurídicas patrimoniais para outra pessoa por força da morte 
do seu titular é reconhecida pelos sistemas jurídicos na actualidade e ao longo da historia. 
 
 As justificações apresentadas para a sucessão legitimária são as que ressaltam da 
descrição das duas linhas evolutivas: 
 
 
a)
 a conservação na família de um património, para que todos em maior ou menor 
medida concorreram, e que assegura a permanência e coesão do agregado familiar. 
 b) cumprimento do dever moral de assistência recíproca entre familiares, mesmo para 
além da morte. 
 
36.Referência sumária ao direito sucessório português 
 
 
Sucessão legítima:
 consiste no chamamento dos herdeiros legítimos à sucessão, por 
o autor da sucessão não ter disposto válida e eficazmente, no todo ou em parte, dos seus 
bens. 
 O chamamento faz-se por ordem de classes sucessíveis, preferindo dentro de cada 
classe os parentes de grau mais próximo aos de grau mais afastado. 
 
Artigo 2133º 
 
 a) cônjuge e descendentes 
 b) cônjuge e ascendentes 
 c) irmãos e seus descendentes 
 d) outros colaterais até ao quarto grau 
 e) Estado 
 
 
Sucessão legitimária:
 consiste no chamamento dos herdeiros legitimários à sucessão 
na chamada legítima, isto é, numa porção de bens que o testador não pode dispor, por ser 
destinada por lei aos referidos herdeiros. 
 Sucessão testamentária:
 consiste no chamamento à sucessão dos herdeiros 
designados em testamento, isto é, num acto unilateral e revogável pelo qual um indivíduo 
dispõe de todos os seus bens ou parte deles para depois da morte. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 18 
PARTE II 
 
Teoria geral da relação jurídica. Preliminares 
 
37.Conceito de relação jurídica 
 
 
Em sentido amplo:
 é toda a relação da vida social relevante para o direito, isto é, 
produtiva de efeitos jurídicos e, portanto, disciplinada pelo direito. 
 
Em sentido restrito ou técnico:
 é a relação da vida social disciplinada pelo direito, 
mediante atribuição a uma pessoa de um direito subjectivo e a imposição a outra pessoa de um 
dever jurídico ou de uma sujeição. 
 Instituto jurídico: conjunto de normas legais que estabelecem a disciplina de uma 
série de relações jurídicas em sentido abstracto, ligadas por uma afinidade, normalmente a de 
estarem integradas no mesmo mecanismo jurídico ou ao serviço da mesma função. 
 
38.Estrutura da relação jurídica (enunciado geral) 
 
 Toda a relação jurídica existe entre sujeitos; incidirá normalmente sobre um objecto; 
promana de um facto jurídico; a sua efectivação pode fazer-se através de uma garantia (ex.: 
providências coercitivas). 
 
Abuso de direito 
 
 Extrema ratio da verificação da ilicitude. Última hipótese de averiguar se o acto é ilícito. 
 Uma situação de abuso de direito: verifica-se quando há desconformidade entre 
imagem estrutural do direito e entre a função atribuída ao direito. 
 Para a doutrina em geral o abuso de direito:
 é quando alguém usa o direito de forma 
clamorosamente injusta. Esta forma “clamorosamente injusta” é identificada por um controlo 
extra-jurídico feito através dos tribunais. Isto faz com que desapareça a liberdade 
característica do direito subjectivo. 
 ORLANDO DE CARVALHO
 não concorda e defende que abuso de direito: é quando 
um direito está a ser usado por um sujeito para causar prejuízo a outro sujeito. 
 
39.Estrutura da relação jurídica (cont.): direitos subjectivos propriamente 
ditos e potestativos 
 
 
Direito subjectivo:
 poder jurídico (reconhecido pela ordem jurídica a uma pessoa) de 
livremente exigir ou pretender de outrem um comportamento positivo ou negativo ou de por um 
acto de livre vontade, só de per si ou integrado por um acto livre de autoridade pública, produzir 
determinados efeitos jurídicos que inevitavelmente se impõem a outra pessoa. 
 O direito subjectivo está dependente da vontade do seu titular. 
 
 Em termos funcionais, o direito subjectivo identifica-se com o interesse visado. 
 Este aspecto funcional repercute-se na estrutura do direito, pois não se trata de 
poderes de livremente exigir um comportamento, mas de poderes-deveres. Quer dizer: a 
consideração exclusiva do aspecto estrutural não nos evidencia a razão de certas diferenças, 
mas evidencia as diferenças, reflectindo o elemento funcional. 
 
O direito subjectivo engloba duas modalidade fundamentais: 
 
 a) os direitos subjectivos propriamente ditos: consiste no poder de exigir ou 
pretender de outrem um determinado comportamento positivo ou negativo. 
 
 Direito subjectivo (em sentido amplo):
 «mecanismo de regulamentação, adoptado 
pelo direito, que consiste na concreta situação de poder que faculta a uma pessoa em sentido 
jurídico intervir autonomamente na esfera jurídica de outrem». 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 19 
 Contrapõe-se-lhe o dever jurídico da contraparte – um dever de «facere» ou de «non 
facere». 
 
Dever jurídico:
 é a necessidade de realizar o comportamento a que tem direito o titular 
activo da relação jurídica. Exs: direitos de crédito, reais, personalidade, família. 
 Poder de exigir ou pretender: se a contraparte não cumpre o dever jurídico a que 
está adstrita, pode obter dos tribunais e autoridades subordinadas a estes providências 
coercitivas aptas a satisfazer o seu interesse. 
 O titular do direito pode, recorrendo à autoridade pública, ser reposto, ao menos por 
equivalente, na situação lesada ou obter outras sanções. 
 
Classificação dos direitos subjectivos: 
 
a) Atende-se à ligação intrínseca ou extrínseca entre pessoas 
 
 
- inatos:
 existem desde o nascimento. Ex.: direitos de personalidade. 
 
- natos:
 adquirem-se quando o sujeito faz algo que é tutelável pelo direito. Ex.: direito 
de autor ou ao nome. 
 
b) Atende-se a relações intrínsecas ou extrínsecas relacionadas com certos estados em 
que as pessoas de encontram.
 Ex.: só se tem direitos de pai se se tiver um filho 
 
 - essenciais: a pessoa não pode ser privada desses direitos sem se privar de certos 
estados. 
 
- não essenciais: 
 
c) Atende-se à natureza dos bens em jogo 
 
 
- patrimoniais:
 são susceptíveis de os bens em causa serem redutíveis a bem 
pecuniário. 
 - pessoais: não é susceptível de ser transformado em dinheiro. 
 
d) Atende-se aos titulares passivos; a quem o direito se impõe- relativo: imposto a pessoas certas e determinadas (ex.: crédito). 
 - absoluto:
 imposto à colectividade; impõe “erga omnes” (ex.: direito de propriedade). 
 
e) Atende-se à possibilidade do sujeito se desligar do direito; transferir para outra 
pessoa 
 
 - disponível:
 pode transferir (ex.: direitos patrimoniais). 
 - indisponível:
 não pode transferir (ex.: direitos pessoais sobretudo essenciais). 
 
Tipos de direitos subjectivos (lado activo) 
 
 - Critério estrutural 
 
 
 - direito potestativo:
 inevitabilidade de consequências jurídicas que criam. 
 
- direitos subjectivos (sentido estrito) 
- direitos de personalidade:
 sobre a própria pessoa; o objecto do 
direito é a própria pessoa titular do 
direito de personalidade. Excepção: 
direitos sobre outras pessoas. 
- direitos de crédito:
 trata-se/impõem a pessoas certas e 
determinadas. 
- direitos reais:
 incidem sobre coisas; poderes directos e imediatos 
sobre uma coisa. 
 
 - Critério institucional 
 
 
 - direitos da pessoa:
 direitos de personalidade; potestativos; de crédito; reais. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 20 
 
- direitos das obrigações:
 
direitos de crédito –
 para o tráfego de bens 
 
 direitos potestativos – resolver/revogar negócio 
 
 direitos reais de garantia 
 direitos das coisas –
 tratam ordenação de 
domínios das coisas. 
 
- direitos da família:
 que se desenvolvem em torno da instituição familiar. 
 
 direitos potestativos:
 modificativo; extintivo 
 
 direitos de crédito:
 dos cônjuges 
 direitos reais: bens do casamento 
 
- direitos sucessórios:
 sucessão mortis causa 
 direito potestativo – a aceitação da herança 
 
 direito crédito –
 dívidas da herança 
 
direitos reais –
 aquisição propriedade 
 
Tipos de direitos subjectivos (lado passivo em sentido estrito) 
 
 - dever jurídico:
 necessidade de adoptar determinado comportamento. 
 - sujeição
 a um determinado direito potestativo. 
 
b) os direitos potestativos: são poderes jurídicos de, por um acto livre de vontade, só 
de per si ou integrado por uma decisão judicial, produzir efeitos jurídicos que inelutavelmente 
se impõem à contraparte. 
 
Sujeição:
 situação de necessidade em que se encontra o adversário de ver produzir-se 
forçosamente uma consequência na sua esfera jurídica por mero efeito do exercício do direito 
pelo seu titular. 
 
a) direitos potestativos constitutivos: produzem a constituição de uma relação 
jurídica, por um acto unilateral do seu titular. Exs: constituição da servidão de passagem em 
benefício do prédio encravado (1550º). 
b) direitos potestativos modificativos:
 tendem a produzir uma simples modificação 
numa relação jurídica existente e que continuará a existir, embora modificada. Ex.: mudança de 
servidão para outro sítio. 
c) direitos potestativos extintivos:
 tendem a produzir a extinção de uma relação 
jurídica existente. 
 
Faculdades jurídicas primárias:
 «faculdades ou poderes em que se desdobra o 
poder de autodeterminação e através dos quais a pessoa se transforma em sujeito de efectivas 
relações jurídicas civis». 
Faculdades jurídicas secundárias:
 «poderes ou faculdades que constituem 
manifestações ou irradiações de direitos subjectivos existentes». 
 
40.Estrutura da relação jurídica (cont.); o dever jurídico e a sujeição 
 
 O lado passivo da relação jurídica:
 traduz-se num dever jurídico ou numa sujeição. 
 
 
No dever jurídico, o sujeito do dever, expondo-se embora a sanções, tem a 
possibilidade prática de não cumprir. 
 
Direitos relativos:
 quando os deveres jurídicos impendem sobre uma ou mais pessoas 
determinadas. 
 Direitos absolutos:
 quando se impõem a todas as pessoas. 
 
 Sujeições:
 situação de necessidade inelutável, em que está constituído o adversário 
do titular de um direito potestativo, de suportar na sua esfera jurídica as consequências 
constitutivas, modificativas ou extintivas do exercício daquele direito. 
 Aqui, diversamente do dever jurídico, trata-se de uma necessidade inelutável. O 
sujeitado não pode violar ou infringir a sua situação. Ex.: o direito potestativo dirigido à 
constituição de uma servidão em beneficio de um prédio encravado, não pode deixar de 
produzir esse efeito, mesmo sem ou contra a vontade do proprietário do prédio confinante. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 21 
 
Estado de sujeição:
 o sujeitado suporta as consequências de um direito; contra pólo 
do exercício de um direito potestativo. 
 
41.Estrutura da relação jurídica: relação jurídica simples ou singular e 
complexa 
 
 
Relação jurídica complexa:
 uma série de direitos subjectivos e deveres ou sujeições 
conexionadas ou unificadas por um qualquer aspecto. 
 Tratando-se de relações emergentes de um contrato obrigacional, esse quadro, numa 
posição recíproca de instrumentalidade e interdependência, é uma relação obrigacional em 
sentido amplo ou relação obrigacional complexa. 
 Assim, a relação formada entre comprador e vendedor de uma máquina não é só 
constituída pelo dever de pagar o preço e pelo correlativo direito ao preço. O devedor do preço 
é simultaneamente credor da entrega da máquina e existem outros vínculos entre as partes do 
contrato, v.g., eventuais direitos a uma indemnização por força de um não cumprimento, 
deveres acessórios (ex.: o do vendedor de guardar a máquina, embalá-la, promover o seu 
transporte), deveres laterais (ex.: o de informar sobre as condições do funcionamento da 
máquina), direitos potestativos (ex.: de resolução ou modificação do contrato). 
 
 Ónus:
 necessidade de adopção de um comportamento para realização de um 
interesse próprio. 
 No ónus o onerado «precisa de». 
 No dever jurídico o obrigado «deve». 
 
 
Expectativa jurídica:
 a situação activa, juridicamente tutelada, correspondente a um 
estádio dum processo complexo e formação sucessiva de um direito. 
 
42.Elementos da relação jurídica: sujeitos, objecto, facto jurídico e 
garantia 
 
 Sujeitos: são as pessoas entre quem se estabelece o enlace, o vínculo respectivo. 
 São os titulares do direito subjectivo e das posições passivas correspondentes: dever 
jurídico ou sujeição. 
 Os sujeitos são pessoas pois a personalidade jurídica é precisamente a 
susceptibilidade de ser titular de direitos e de obrigações, a susceptibilidade de ser titular de 
relações jurídicas. 
 
 Objecto:
 é aquilo sobre que incide os poderes do titular da relação. Estes formam o 
conteúdo da relação jurídica. 
 Podem ser objecto de relações jurídicas outras pessoas, coisas corpóreas ou 
incorpóreas, modos de ser da própria pessoa e outros direitos. 
 
 Facto jurídico: é todo o facto produtivo de efeitos jurídicos. 
 O facto jurídico tem um papel condicionante do surgimento da relação; é uma condição 
ou pressuposto da sua existência. 
 
 Garantia: é o conjunto de providências coercitivas, postas à disposição do titular activo 
de uma relação jurídica, em ordem a obter satisfação do seu direito. 
 Trata-se da possibilidade, própria das relações jurídicas, de o seu titular activo por em 
movimento o aparelho sancionatório estadual para reintegrar a situação correspondente ao seu 
direito, em caso de infracção, ou para impedir uma violação receada. 
 
Espécies de relações jurídicas; perspectiva estática 
 
 - singular:
 apenas uma pessoa ocupa o local de sujeito activo. 
 - plural: mais do que uma pessoa em qualquer dos lados. 
 
 - bilateral:
 apenas duas partes/pólos de interesses (ex.: contrato de arrendamento). 
 - plurilateral: várias frentes de interesses(ex.: contrato de sociedade). 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 22 
 
- instantâneas:
 esgotam-se num único momento temporal embora os seus efeitos se 
projectem para o futuro (ex.: doação). 
 - duradouras:
 têm como cerne os direitos de personalidade. 
 
 - autónomas:
 não depende de outras relações jurídicas. 
- não autónomas:
 dependem de outras relações jurídicas (ex.: casamento; relações 
patrimoniais dependentes da filiação). 
 
- simples:
 aquela que pressupõe sujeito activo (com direito) e passivo (com dever); 
estrutura linear. 
- complexas: situação mais vulgar; um facto jurídico que faz surgir à sua volta um 
enredo enorme (ex.: constituição de uma sociedade). 
 
 Ónus:
 necessidade de adoptar determinado comportamento para alcançar 
determinado interesse; se não se adoptar o comportamento, o interesse não é satisfeito mas 
não há sanção sobre o onerado. Ex.: o ónus da prova recai sobre o lesante; registo predial não 
é obrigatório mas quem não o fizer tem desvantagens. 
 
Combinações de relações jurídicas 
 
 As relações jurídicas podem combinar-se entre si, sendo nesta zona que devem 
localizar-se figuras que vulgarmente se deslocam para outras regiões (ex.: a noção de 
património, que se localiza erradamente na teoria das coisas e dos objectos). 
 
Duas combinações de relações jurídicas: 
 
a) Acessoriedade: combinação de relações jurídicas (duas, normalmente) em que uma 
delas (a acessória) é meramente instrumental em ordem à outra (a principal), ficando 
em face dela em posição de dependência. 
Neste sentido, é uma combinação vertical, desenvolvendo uma estrutura de supra-
infra-ordenação. É o caso das relações de garantia especial das obrigações (tanto 
pessoais: fiança e subfiança; como reais: consignação de rendimentos, penhor, 
hipoteca, privilégios creditórios e direitos de retenção). 
Dependem do direito de crédito, extinguindo-se quando a relação creditícia se 
extingue. 
 
b) Pertinência: combinação de relações jurídicas através do seu ennucleamento comum 
em certo pólo (em regra, uma pessoa). 
Neste sentido, é uma combinação horizontal, desenhando uma estrutura circular ou 
esférica. Há uma combinação pertinencial necessária, indefectível em todos os sujeitos 
ou pessoas em sentido jurídico: e a esfera jurídica, que coenvolve todas as relações 
jurídicas activas e passivas que se centram num sujeito (como todo o sujeito, pelo facto 
de o ser, tem um mínimo de relações jurídicas as relações inatas, nas pessoas 
humanas, ou as relações intrassociais ou reais, nas pessoas stricto sensu -, toda a 
pessoa tem esfera jurídica). 
 
 Património:
 conjunto de relações jurídicas de carácter patrimonial. 
 O património de cada 1 é um círculo mais pequeno dentro da grande esfera jurídica de 
cada um. 
 Património global:
 conjunto de relações jurídicas activas e passivas avaliáveis em 
dinheiro de que uma pessoa é titular; todo o activo e passivo de determinada pessoa. 
 Património ilíquido: conjunto de direitos avaliáveis em dinheiro, pertencentes a uma 
pessoa, abstraindo das obrigações; activo (+); sem descontar o passivo; valor sempre maior ou 
igual a zero (0). 
 Património líquido: saldo patrimonial; passivo (-); ao activo tira-se o passivo; é maior, 
igual ou menor que zero (0). 
 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 23 
Afectação: 
 
 - geral: todo o património está afecto a obrigações. 
 - especial:
 que se destina apenas a satisfazer certos encargos. 
 
Perspectiva dinâmica 
 
Processos fundamentais: 
 
 - aquisição de direitos:
 pode-se ter por objecto direitos que surjam ex novo, pode 
versar também sobre direitos preexistentes, que mudam apenas de titular, e tal é, de resto, o 
caso normal. 
 - constituição de direitos:
 trata-se sempre de direitos que surgem ex novo, ainda que 
porventura sobre a base de um direito anterior. 
 
 Alguma doutrina considera que não há constituição de direitos sem aquisição. 
 Havendo aquisição não implica constituição. A maior parte dos casos não implica 
constituição. 
 Ex.: A doa a B. B adquire um direito já constituído. Apenas houve mudança de titular. 
 
 Aquisição originária: um direito surge ex novo; o direito não depende 
juridicamente/genericamente do facto anterior mas sim do facto aquisitivo. Pode ser que não 
preexistisse à aquisição de qualquer direito dum anterior titular (ex.: ocupação de coisas 
móveis abandonadas ou que nunca tiveram dono). 
 Pode suceder também que preexistisse à aquisição o direito dum titular anterior, direito 
que se extinguiu ou ficou limitado ou comprimido em virtude da aquisição. Mas o direito do 
adquirente não se filia no do titular anterior. 
 O direito do adquirente será um direito novo da mesma natureza e conteúdo que o 
direito extinto. 
 
 Aquisição derivada:
 pressupõe um direito do anterior titular (o mesmo ou outro mais 
amplo); depende do facto aquisitivo bem como do direito anterior (quanto à amplitude. Não 
pode ser mais amplo que o anterior). 
 É acompanhada da extinção subjectiva do direito do anterior titular ou da sua limitação 
ou compressão, havendo entre os 2 fenómenos um nexo causal e não meramente cronológico. 
 Na aquisição derivada intervém portanto uma relação entre o titular anterior e o novo. 
 
 
Exemplos de aquisição de direitos originária: 1318º - aquisição de móveis; 
sucessória; contratual. 
 
Exemplos de aquisição de direitos derivada: 
 
 - translativas:
 um direito que se adquire coincide com o direito do anterior titular (A 
doa a B. B adquire o direito de A tal e qual). Ou transmissão parcial do direito (A tem terreno de 
1000 m2 e vende apenas 500 m2). 
 - constitutivas:
 adquire um direito ex novo mas o seu conteúdo cabe no direito anterior 
(A adquire direito de usufruto a B. B vê o seu direito de propriedade limitado embora continue a 
existir. O objecto é o mesmo; dois direitos sobre o mesmo objecto). 
- restitutivas: a hipótese de o titular de um direito real limitado se demitir dele, 
unilateral ou contratualmente, recuperando assim, o proprietário, a plenitude dos seus poderes, 
em virtude da conhecida elasticidade ou força expansiva do direito de propriedade. 
Por qualquer razão extingue-se o direito filial e o direito progenitor expande-se; volta a 
adquirir a dimensão inicial uma vez que deixa de estar reprimido. 
 
 
 
 
 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 24 
Espécies de relações jurídicas; perspectiva estática 
 
(II)Aquisição, modificação e extinção de relações jurídicas 
 
89.Preliminares 
 
 Os facto jurídicos desencadeiam determinados efeitos. Esses efeitos jurídicos 
consistem fundamentalmente numa aquisição, modificação ou extinção de relações jurídicas. 
 
90.Conceito e modalidade de aquisição de direitos. Aquisição originária e 
derivada. Modalidades desta última 
 
 Um direito é adquirido por uma pessoa quando esta se torna titular dele. 
 
Aquisição de direitos:
 é a ligação de um direito a uma pessoa. 
 Constituição de direitos:
 é o seu surgimento, é a criação de um direito que não 
existia anteriormente. Toda a constituição de um direito implica a sua aquisição, dado não 
existirem direitos sem sujeito. 
 
 Impõe-se distinguir entre aquisição derivada e sucessão. 
 Sucessão:
 é o subingresso de uma pessoa na titularidade de todas as relações 
jurídicas ou determinada ou determinadas relações jurídicas de outrem. Coincide com a 
aquisição derivada translativa, pois só nesta é que o direito adquirido é o mesmo do anterior 
titular. A sucessão diz respeito também às dívidas e não só aos direitos. 
 
91.Importância da distinção entre aquisição derivada e originária 
 
 Na aquisiçãooriginária, a extensão do direito adquirido depende apenas do facto ou 
título aquisitivo. 
 Na aquisição derivada, a extensão do direito do adquirente depende do conteúdo do 
facto aquisitivo, mas depende ainda da amplitude do direito do transmitente, não podendo em 
regra ser maior que a deste direito (nemo plus juris in alium transferre potest quam ipse 
habet). 
 Este princípio caracterizador da aquisição derivada comporta, todavia, excepções. 
Estas excepções significam que, em certas hipóteses, o adquirente, não obstante a aquisição 
ser derivada, pode obter um direito que não pertencia ao transmitente ou é mais amplo do que 
aqueles que pertenciam a este. 
 
 Noção de terceiros para efeitos de registo predial:
 são as pessoas que do mesmo 
autor ou transmitente adquiram direitos incompatíveis (total ou parcialmente) sobre o mesmo 
prédio. 
 
 a) dos institutos do registo predial, do registo de automóveis e registos similares 
(aeronaves, navios, quotas sociais). 
 Por força destes institutos devem ser inscritos, com o fim de lhes dar publicidade, em 
livros existentes em repartições especiais (conservatórias no caso do registo predial e 
automóvel), os diversos actos inerentes a bens imóveis, a veículos automóveis ou aos 
restantes bens indicados, em particular os actos de que resulte a aquisição de direitos reais 
sobre os mesmos bens. 
 O registo não é o meio de aquisição dos direitos, sendo o acto plenamente eficaz «inter 
partes», seus herdeiros ou representantes, mesmo na falta de registo. A consequência da falta 
de registo é a ineficácia do acto em relação a terceiros. 
 Ex.: se Abel vendeu um prédio ou automóvel a Bia e de pois a Caca, Bia e Caca são 
terceiros entre si e prevalece a venda a Caca, se foi primeiramente registada, embora Abel já 
não fosse o verdadeiro proprietário, pois a sua venda a Bia é plenamente válida e eficaz «inter 
partes». 
 Logo, verifica-se uma excepção ao princípio, segundo o qual na aquisição derivada o 
adquirente (C) não pode adquirir um direito, se este não existia na titularidade do transmitente 
(A). 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 25 
 b) da inoponibilidade da simulação a terceiros de boa fé.
 
 Os negócios jurídicos simulados são nulos e, como tal, não produzem quaisquer 
efeitos. Se o simulado adquirente dum prédio, porém, vender ou doar, por acto verdadeiro, o 
mesmo prédio a um terceiro e este ignorar a simulação, o terceiro adquire validamente esse 
objecto (243º). O terceiro adquire, portanto, de quem não era proprietário, ao invés do que 
prescreve o princípio «nemo plus juris...». 
 
c) da eventual inoponibilidade das nulidades e anulabilidades a terceiro de boa 
fé. 
 Por força do princípio «nemo plus juris...», se A transmitiu, por negócio nulo ou 
anulável, um prédio a B e este o transmitiu a C, declarado nulo ou anulado o primeiro acto, o 
segundo seria também nulo e, consequentemente, C devia restituir o prédio. Isto porque as 
nulidades e anulações operam em face de terceiros e não só em face da contraparte. 
 O actual código civil estabelece (291º) um regime de inoponibilidade a terceiros de boa 
fé, adquirentes a título oneroso, das nulidade e anulações de negócios respeitantes a imóveis 
ou moveis sujeitos a registo, desde que a acção tendente à declaração de nulidade ou à 
anulação não seja proposta e registada dentro dos 3 anos posteriores à conclusão do negócio. 
 Assim se realiza, através desta inovação do código de 1966, a protecção do terceiro de 
boa fé, adquirente «a non domino», sendo os direitos deste sacrificados, por força da 
invalidade do negócio donde resultaram os direitos do seu transmitente, apenas na hipótese de 
este ser invalidado nos 3 anos subsequentes à sua realização. 
 
 Para que um terceiro estar protegido é preciso a verificação de alguns requisitos: 
 
- Existir um terceiro. 
- O terceiro tem que estar de boa fé (que não se traduz no simples desconhecimento 
do negócio anterior (simulação), aquele que desconhecia e não tinha a obrigação 
de saber; o que não sabia mas desconfiava, está de má fé). 
- É preciso que esteja em causa a aquisição de um direito sujeito a registo. 
- O objecto do negócio tem que ser bem imóvel ou bem móvel sujeito a registo (ex.: 
veículos). 
- Que o negócio entre B e C seja oneroso (não doação). 
- É preciso que o registo seja anterior ao registo de acção de invalidade do negócio 
anterior. 
- É preciso que tenham passado pelo menos 3 anos desde o negócio inválido sem 
que tenha sido intentada uma acção com vista à sua invalidade. 
 
 Por exigência da protecção da confiança dos terceiros e dos interesses do comércio 
jurídico, resulta uma excepção ao princípio geral da aquisição derivada: «nemo plus juris in 
alium transferre potest quam ipse habet». 
 
 Princípio do trato sucessivo:
 um registo só pode ser feito havendo registo anterior do 
transmitente (A -> B -> C. C só regista se B o tiver feito e anteriormente A). 
 Mesmo assim, o registo não garante que a pessoa inscrita como último adquirente o 
seja realmente. Daí que o registo seja facultativo. 
 
 
Sistema de registo declarativo: o direito adquire-se por mero efeito do contrato; se o 
contrato for válido o direito é adquirido independentemente do registo; regista-se aquilo que se 
diz adquirir 
 
Sistema de registo constitutivo:
 para se adquirir o direito tem que se registar; é o 
registo que cria o direito; pressupõe meios (equipas técnicas, peritos)/ conhecimento exacto 
sobre o que incidem os direitos. 
 
 No nosso caso, a hipoteca (687º) é constitutivo. 
 O registo não é obrigatório mas é um ónus. Em Portugal não há «registo de bens» mas 
sim «aquisições de direitos» sobre bens. 
 
 Efeito automático:
 o registo da aquisição de um direito em nome próprio faz com que 
se pressuponha a titularidade do direito (mesmo assim trata-se de uma presunção ilidível). 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 26 
 
Efeito lateral:
 outros que não o central e o automático (o facto de se registar produz 
determinados efeitos). 
 Efeito central:
 aquisições sujeitas a registo, não registadas, não são oponíveis a 
terceiros e a regra geral que vale no direito primeiramente adquirido é substituída pela regra da 
prevalência do primeiro registo. 
 
92.Modificação de direitos 
 
 Tem lugar a modificação de direitos (do lado activo) quando, alterado ou mudado um 
elemento de um direito, permanece a identidade do referido direito, apesar da vicissitude 
ocorrida. A perduração do direito, apesar da modificação verificada, significa que o 
ordenamento jurídico continua a tratar o direito como se não tivesse tido lugar a alteração. O 
direito é o mesmo e não um direito novo. 
 
 Modificação subjectiva:
 se na modificação do direito tem lugar uma substituição do 
respectivo titular, permanecendo a identidade objectiva do direito. 
 Tem lugar nesta hipótese uma situação de substituição. É o que se verifica nos 
direitos de crédito, e quanto a actos «inter vivos», com a cessão de créditos e com a sub-
rogação nos créditos (ex.: A empresta dinheiro a B. A diz a cede a C o direito de ser ele a 
receber o dinheiro de B. B paga a dívida a C). 
 A sucessão entre-vivos nas relações obrigacionais – substituição de sujeitos sem 
extinção da relação jurídica e surgimento de uma nova, isto é, sem novação, mas antes com 
perduração da entidade do vínculo – pode ter lugar, também, do lado passivo, surgindo então a 
assunção da dívida e pode referir-se à relação contratual, normalmente através da cessão da 
posição contratual. 
 A modificação subjectiva das relações jurídicas, quer do lado activo, quer do lado 
passivo, pode ter lugar por sucessão «mortis causa». 
 Também se pode falar de uma situação de multiplicação. É o que se verifica quando 
aum sujeito se substituem vários. 
Neste caso, a multiplicação pode ocorrer por: 
 
- sucessão (A transmite o mesmo direito para B e C); 
- adjunção (um novo devedor assume a obrigação para com o credor, 
permanecendo juntamente com o devedor inicial [assunção cumulativa]). 
 
Pode, por último, existir uma situação de concentração. Neste caso, um direito 
inicialmente pertencente a dois sujeitos passa a pertencer a um único terceiro (A+B -> C). 
 
 
Modificação objectiva:
 se na modificação do direito se muda o conteúdo ou o 
objecto
 do direito, permanecendo este idêntico. 
 Muda o conteúdo
 se ex.: é concedida pelo credor ao devedor uma prorrogação do 
prazo para o cumprimento. 
 
Muda o objecto
 se ex.: não cumprindo o devedor culposamente a obrigação, o seu 
dever de prestar é substituído por um dever de indemnizar. 
 
 A modificação também pode surgir do lado activo sendo esta sempre subjectiva. 
Verifica-se também uma situação de substituição, multiplicação e concentração. 
 Só pode haver substituição do devedor se o credor aceitar. 
 
93.Extinção de direitos 
 
 A extinção de um direito tem lugar quando um direito deixa de existir na esfera jurídica 
de uma pessoa. Quebra-se a relação de pertinência entre um direito e a pessoa do seu titular. 
 
 Extinção subjectiva: se o direito sobrevive em si, apenas mudando a pessoa do seu 
titular. O direito mudou de titularidade; extinguiu-se para aquele sujeito, mas subsiste na esfera 
jurídica de outrem. Ocorre por vontade do titular do direito extinto; sem a vontade do mesmo 
titular; ou contra a sua vontade. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 27 
 A extinção subjectiva ou perda de direitos verifica-se sempre que tem lugar um 
sucessão na titularidade dos direitos; o sucessor adquire ou subingressa na titularidade do 
direito e este extingue-se para o autor ou transmitente. 
 
 Extinção objectiva: existe se o direito desaparece, deixando de existir para o seu 
titular ou para qualquer pessoa. Não há aquisição derivada, sucessão ou transmissão. 
 É o que acontece se há destruição do objecto; abandono de um objecto; não 
exercício do direito. 
 Este último caso pode ocorrer por: 
- Não uso (direitos reais sobre coisa alheia; direitos reais limitados ex.: servidão de 
passagem). 
- Renúncia (abandono de uma situação de prevalência. Ex.: 265ºn1; 302). 
- Prescrição: refere-se a direitos subjectivos em sentido estrito (ex.: direitos de 
crédito 304º). O beneficiário da prescrição, completada esta, pode recusar o 
cumprimento da prestação ou opôr-se ao exercício do direito prescrito. 
- Caducidade: direito de accionar está em causa; direitos potestativos: arguir a 
nulidade do negócio; ao fim de um ano extingue-se por caducidade. 
- Decadência: quando o direito deixa de existir por a formação posterior de um 
direito incompatível. 
 
No plano das combinações jurídicas: a sucessão num património 
(designadamente, na herança). Sucessão a título universal e sucessão e 
título particular. O fenómeno da sub-rogação real 
 
 A sucessão num património tem o seu paradigma na sucessão mortis causa. Mas 
também é sucessão num património a adjudicação a um sócio ou terceiro, numa sociedade em 
dissolução, da totalidade do património social ou de uma quota parte a líquota dele. 
 Sucessor a título universal é o que sucede na totalidade ou numa quota parte ideal do 
património. 
 Sub-rogação real: pode ser directa (a coisa é directamente substituída por outra: 
troca de um prédio por outro, de um prédio por acções) e indirecta (a coisa é substituída por 
um preço e o preço por outra coisa: A vende a B um prédio e com o preço compra a C um 
automóvel). 
 A sub-rogação real joga naturalmente (faz parte da fisiologia) num património (de 
liquidação), pois o que interessa é manter o conjunto de valor (activo) que garante o passivo. 
 
Sucessos acidentais da vida da relação jurídica: Pendência, Aquiescência 
e Revivescência 
 
 Pendência:
 quando uma relação jurídica plenamente formada não pode funcionar em 
pleno porque o sujeito activo ainda não existe ou não está ainda determinado. 
 É o caso das aquisições derivadas constitutivas (constituição de usufruto, de superfície) 
 
 Aquiescência: quando um RJ já funcionou em pleno, mas por um obstáculo análogo 
deixa de ter o seu funcionamento normal, ficando como que adormecida. 
 É o que acontece com as aquisições derivadas translativas sujeitas a condição ou 
termo suspensivos; é o caso das RJ do ausente, que se extinguiram pela sua morte. 
 
 Revivescência:
 quando na Pendência ou Aquiescência, o obstáculo cessa e a RJ 
funciona, ou funciona de novo, em pleno. 
 
OS SUJEITOS DA RELAÇÃO JURÍDICA CIVIL 
 
Das pessoas humanas 
 
 A subjectividade jurídica (a qualidade de quem é sujeito de direito) supõe no homem a 
personalidade jurídica, que, por seu turno, supõe a personalidade humana. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 28 
 É porque o homem é pessoa – pessoa humana – que ele se reconhece como pessoa 
em sentido jurídico e, logo, como sujeito para o direito. A personalidade humana é um prius 
da personalidade jurídica. 
 A personalidade jurídica não é algo que subsista por si mesmo, mas porque existe a 
personalidade humana. Há personalidade jurídica quando existe (logo que existe e enquanto 
existe) personalidade humana. 
 A personalidade jurídica é a projecção no direito (do normativo jurídico) da 
personalidade humana. 
 Do que resultam os seguintes corolários: 
1) Essencialidade:
 a personalidade é essencial, pois pressupõe a personalidade 
humana. Só com personalidade humana há personalidade jurídica. 
 2) Indissolubilidade: a personalidade jurídica é indissolúvel da personalidade humana, 
existindo tanto e enquanto esta personalidade existir. O que involve a irrecusabilidade da 
personalidade jurídica. 
 3) Ilimitabilidade:
 a personalidade jurídica é tão ilimitada como a personalidade 
humana. O que exclui as chamadas gradações de personalidade, ou o numerus clausus dos 
direitos de personalidade. 
 
 A personalidade jurídica traduz-se em subjectividade jurídica, que é a qualidade de 
quem é “sujeito de direito”, ou seja, de quem tem a susceptibilidade abstracta de ser titular de 
direitos e deveres. Se a personalidade jurídica, como projecção da personalidade humana, 
constitui juridicamente um esse, a subjectividade jurídica constitui um posse. Posse abstracto: 
poder de ser abstractamente titular de direitos e obrigações. 
 Todavia, é um posse necessário: ninguém é verdadeiramente pessoa jurídica se não 
tiver o estatuto permanente de sujeito de direito. 
 A subjectividade jurídica, como susceptibilidade abstracta de se ser titular de direitos e 
obrigações, reclama a Capacidade Jurídica: a susceptibilidade concreta de se ser titular de 
tais direitos e deveres. 
 Trata-se já não de um posse abstracto, mas de um posse concreto: de me ser 
reconhecida a possibilidade de ter o direito A ou o direito B. Algo quantificável, de teoricamente 
variável de pessoa para pessoa jurídica, de sujeito para sujeito de direito. 
 A plenitude e a igualdade de direitos constituem a reivindicação número um que a 
personalidade formula actualmente ao Poder. 
 Capacidade de Exercício de direitos:
 a capacidade para intervir por si próprio ou 
através de representante voluntário. 
 
Da personalidade 
 
 
66º n.º1
 – O nascimento entende-se como a separação do feto do ventre materno. 
Exige-se além disso, que seja com vida e completo, excluindo-se quer os nados-mortos, quer 
os que morrem durante o parto ou antes da secção do cordão umbilical. 
 
 Ao princípio de que a personalidade jurídica começa com o nascimento parece opor-se 
a situação jurídica dos nascituros, a quem a lei reconhece direitos.Realmente, não só aos já concebidos mas ainda aos não concebidos a lei faculta que 
se façam doações (952º) e que se defiram sucessões (os concebidos, em qualquer espécie de 
sucessão – 2033º n.º1; os não concebidos, só na sucessão testamentária e contratual – 2033º 
n.º2). 
 Segundo o 1798º, o filho reputa-se concebido dentro dos primeiros 120 dias dos 300 
que precedem o nascimento. Quem nasce 300 dias depois da doação ou da morte do autor da 
herança reputa-se como não concebido; quem nasce dentro desses 300 dias reputa-se como 
concebido. (esquema caderno, dia 3/12/2002) 
 
(II)Pessoas singulares 
 
47.Personalidade jurídica. Termo da personalidade 
 
a) A morte 
 
 Nos termos do n.º1 do 68º do CC, a personalidade cessa com a morte. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 29 
 No momento da morte, a pessoa perde os direitos e deveres da sua esfera, 
extinguindo-se os de natureza pessoal e transmitindo-se para os sucessores mortis causa os 
de natureza patrimonial. 
 PIRES DE LIMA, ANTUNES VARELA: vêem no 71º n.º1 («os direitos de personalidade 
gozam igualmente de protecção depois da morte do respectivo titular») um desvio à cessação 
da personalidade com a morte. 
 Problema discutido é a questão de saber se a lesão do direito à vida é susceptível de 
reparação. Entre nós essa reparação é admitida com base no 70º constituindo a ofensa à vida 
a máxima ofensa possível da personalidade e no 496º, onde o n.º3 textualmente prescreve a 
possibilidade de atender aos danos não patrimoniais sofridos pela vítima. 
 
O que está em causa é a transmissão do direito de compensação (atribuível pela 
ilícita supressão da vida) e não da transmissão do direito à vida. 
 Qualquer falecimento, pondo termo à personalidade e desencadeando efeitos jurídicos 
significativos, deve ser registado na repartição do registo civil da área onde ocorreu ou se 
encontra o cadáver. 
 
b) Presunção de comoriência 
 
 Nos termos do 68º n.º2 «quando certo efeito jurídico depender da sobrevivência de 
uma a outra pessoa, presume-se em caso de dúvida, que uma e outra falecem ao mesmo 
tempo». Consagra-se uma presunção de comoriência (isto é, de mortes simultâneas) 
susceptível de prova em contrário – iuris tantum. 
 Esta presunção tem enorme importância prática, especialmente no que concerne a 
efeitos sucessórios: não de verificarão fenómenos de transmissão entre os comorientes. 
 Ex.:
 um casal tem 2 filhos, A e B. Suponhamos que num acidente de viação morre o 
casal juntamente com o filho A. Se considerarmos que as mortes foram simultâneas, na 
totalidade da herança dos pais sucede apenas o filho sobrevivo B. Já se considerarmos 
simultâneas apenas as mortes dos pais, provando-se que o filho A morreu algumas horas mais 
tarde, a herança é dividida pelos dois filhos (A e B), passando a quota de A para o seu avô 
ainda vivo. 
 Há outras legislações que, em vez de presunção de comoriência, consagram antes 
presunções de premoriência. No direito inglês presume-se sempre a premoriência do mais 
velho. 
 
c) O desaparecimento da pessoa 
 
 Artigo 68º n.º3: 
 «Tem-se por falecida a pessoa cujo cadáver não foi encontrado ou reconhecido, 
quando o desaparecimento se tiver dado em circunstâncias que não permitam duvidar da 
morte dela». 
 
 O desaparecimento de uma pessoa nestas circunstâncias, por não se encontrar ou não 
ser possível identificar o cadáver (ex.: afundamento de navio), implica a abertura do chamado 
processo de justificação judicial do óbito, a cargo do Ministério Público, nos termos do 247º e 
248º do código do registo civil. 
 Julgada a justificação, o conservador lavrará o respectivo assento de óbito. 
 Se mais tarde se vier a verificar ter havido engano ou incorrecção, requerer-se-á a 
invalidade ou rectificação do assento de óbito, nos termos do 299º e segs. 
 Neste caso parece deverem aplicar-se as regras da morte presumida (114º e segs.). 
 
66.Ausência 
 
 O termo «ausência», a que se referem os artigos 89º a 121º, não coincide com o 
significado que vulgarmente se atribui a este vocábulo de simples não presença de alguém em 
certo local. 
 Por outro lado, as providências que a lei refere nos artigos citados, pressupõem um 
sentido técnico de «ausência», traduzido num desaparecimento sem notícias. 
 É com este sentido técnico de não presença de alguém acompanhada da falta de 
notícias que o termo ausência é tomado, para o efeito de providenciar pelos bens da pessoa 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 30 
ausente, carecidos de administração, em virtude de não ter deixado representante legal ou 
voluntário (procurador). 
 O direito faculta a tomada de medidas tendentes a evitar os prejuízos decorrentes 
da falta de administração dos bens da pessoa ausente. 
 Essas medidas, traduzidas no requerimento e instauração da curadoria provisória e 
da curadoria definitiva, ou da declaração da morte presumida, têm subjacentes uma 
presunção de maior ou menor probabilidade de regresso do ausente, ou, ao invés, da sua 
morte. Nenhuma delas está dependente da anterior, podendo recorrer-se desde logo à 
declaração de morte presumida, se se verificarem os requisitos legais de que depende. 
Medidas legais 
 
Curadoria provisória: 
 Os pressupostos de que a lei faz depender a nomeação de um curador provisório são: 
1) O desaparecimento de alguém sem notícias; 
2) A necessidade de prover acerca da administração dos seus bens; 
3) A falta de representante legal ou de procurador (89º). 
Tanto o Ministério Público como qualquer interessado, têm legitimidade para requerer a 
curadoria provisória, a qual deve ser deferida a uma das seguintes pessoas: cônjuge, algum ou 
alguns dos herdeiros presumidos. O curador funciona como um simples administrador 
(94º). 
A curadoria provisória termina, nos termos da lei (98º): 
a) Pelo regresso do ausente; 
b) Se o ausente providenciar acerca da administração dos bens; 
c) Pela comparência da pessoa que legalmente represente o ausente ou de procurador 
bastante; 
d) Pela entrega dos bens aos curadores definitivos (com a curadoria definitiva); 
e) Pela certeza da morte do ausente; pela declaração de morte presumida. 
 
Curadoria definitiva: 
A probabilidade de a pessoa ausente não regressar é nesta fase maior, visto que a lei 
só possibilita o recurso à justificação da ausência no caso de terem de corrido dois anos sem 
se saber do ausente ou cinco anos no caso de ele ter deixado representante legal ou 
procurador bastante (99º). 
A legitimidade para o pedido de instauração da curadoria definitiva pertence também 
aqui ao Ministério Público ou a algum dos interessados, sendo estes, além do cônjuge, os 
herdeiros do ausente e todos os que tiverem sobre os seus bens qualquer direito dependente 
da sua morte. 
Após a justificação da ausência proceder-se-á à abertura de testamentos (101º) e à 
partilha e entrega dos bens aos herdeiros (103º), os quais são tidos como curadores definitivos 
(104º) e não como proprietários desses bens (não podendo dispor deles). 
A curadoria definitiva termina (112º): 
a) Pelo regresso do ausente; 
b) Pela notícia da sua existência e do lugar onde reside; 
c) Pela certeza da sua morte; 
d) Pela declaração da morte presumida. 
 
Morte presumida: 
Decorridos 10 anos sobre a data das últimas notícias, ou passados 5 anos, se 
entretanto o ausente tiver completado 80 anos de idade. 
Contudo, se a pessoa ausente for menor, é necessário que decorram 5 anos sobre a 
data em que ele completaria a maioridade, se fosse vivo, para que possa ser declarada a morte 
presumida (114º n.º2). Para menores só pode pedir-se quando estes façam 23 anos. 
O 115º prescreve que a declaração de morte presumida produz os mesmos efeitos que 
a morte física. Algumas disposições da lei atenuam, todavia, os efeitosdesta equiparação. 
 Ex.: o casamento não cessa, embora o 116º dê ao cônjuge a possibilidade de contrair 
novo casamento sem necessidade de recorrer ao divórcio. 
 Os sucessores passam a ser tratados não como meros administradores (curadores) 
mas como proprietários dos bens. 
 Na esfera patrimonial, em caso de regresso, verifica-se um fenómeno de sub-rogação 
real, isto é, o tem o ausente direito: 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 31 
a) Aos bens directamente adquiridos por troca com os bens do seu património (sub-
rogação directa); 
b) Aos bens adquiridos com o preço dos alienados, se no documento de aquisição se fez 
menção da proveniência do dinheiro (sub-rogação indirecta); 
c) Ao preço dos bens alienados (sub-rogação directa). 
 
Obviamente, ser-lhe-á devolvido o património que era seu, no Estado em que se 
encontrar. Havendo, porém, má fé dos sucessores – e exacta consiste no conhecimento pelos 
sucessores de que o ausente era vivo à data da declaração de morte presumida -, o ausente 
tem direito também à indemnização do prejuízo sofrido. (119º). 
 
48.Direitos de personalidade 
 
 Designa-se por esta fórmula um certo número de poderes jurídicos pertencentes a 
todas as pessoas, por força do seu nascimento. 
 Toda a pessoa jurídica é, efectivamente, titular de alguns direitos e obrigações. Mesmo 
que, no domínio patrimonial lhe não pertençam por hipótese quaisquer direitos sempre a 
pessoa é titular de um certo número de direitos absolutos que se impõem ao respeito de todos 
os outros, incidindo sobre os vários modos de ser físicos ou morais da sua personalidade. São 
os chamados direitos de personalidade. 
 São direitos gerais (todos deles gozam), extrapatrimoniais (embora as suas violações 
possam originar uma reparação em dinheiro, não têm, em si mesmos, valor pecuniário) e 
absolutos. 
 Incidem os direitos de personalidade sobre a vida da pessoa, a sua saúde física, 
integridade física, honra, liberdade física e psicológica, o seu nome, a sua imagem, a reserva 
sobre a intimidade da sua vida privada. É este um círculo de direitos necessários; um 
conteúdo mínimo e imprescindível da esfera jurídica de cada pessoa.
 
 O direito protege os vários modos de ser físicos ou morais da personalidade. A violação 
de alguns desses aspectos da personalidade é mesmo um facto ilícito criminal, que 
desencadeia uma punição estabelecida no código penal. 
 
 Quais serão os direitos de personalidade? 
 O 70º contém uma norma de tutela geral da personalidade, da qual se podem 
desentranhar um direito à vida, à integridade física, à liberdade, à honra. A consagração desta 
protecção geral da personalidade permite conceder tutela a bens pessoais não tipificados. 
 A ofensa de qualquer destes bens está sancionada no n.º2 do mesmo artigo. Mantém-
se, depois da morte do respectivo titular, a protecção dos que possam continuar a ser 
ofendidos (71º n.º1). 
 Em caso de lesão de que provenha a morte, o direito a indemnização é deferido às 
pessoas referidas nos 495º e 496º. 
 
 O CC, certamente para afastar quaisquer dúvidas previsíveis sobre a sua inclusão na 
tutela geral operada pelo 70º, prevê expressamente no artigo 80º o chamado direito à reserva 
sobre a intimidade da vida privada. 
 Reconhece-se assim merecedora de tutela a natural aspiração da pessoa ao resguardo 
da sua vida privada. 
 
 Os direitos de personalidade são inalienáveis e irrenunciáveis, dada a sua 
essencialidade relativamente à pessoa, da qual constituem o núcleo mais profundo. Constituem 
«o mínimo necessário e imprescindível do conteúdo da personalidade». Neste sentido podem 
dar-se-lhe hoje as consabidas denominações da escola do direito natural racionalista: «direitos 
inatos» ou «direito originários». 
 
 A irrenunciabilidade dos direitos de personalidade não impede a eventual relevância do 
consentimento do lesado: este não produz a extinção do direito e tem um destinatário que 
beneficia dos seus efeitos. 
 
 Direito geral de personalidade:
 «direito que abrange todas as manifestações 
previsíveis e imprevisíveis da personalidade humana», tendo por objecto a pessoa no seu todo. 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 32 
 Direitos especiais de personalidade: 
 
- Direito à vida 
 É o direito à conservação da vida, entendendo-se esta como a simples existência 
biológica. A sanção penal do aborto não é assim defesa deste direito, mas da vida intra-uterina 
enquanto bem jurídico autónomo. 
 Este direito é tutelado pela CRP bem como pelo código penal (131º e ss.). 
 O titular do direito não pode dispor dele sem cometer um ilícito (suicídio; eutanásia), 
mas nestes casos não faz sentido falar em responsabilidade civil uma vez que o lesante é o 
mesmo que sofreu a lesão. 
 Pode haver lugar a compensação (visto que é afectado um bem não patrimonial) mas 
quem a exige são os sucessores, na qualidade de sucessores e com base no direito que surge 
no momento exacto da morte desse sujeito. 
 
 - Direito à integridade física 
É o direito a não ser lesado na integridade físico-psíquica tal como possuiria se não se 
verificasse tal lesão. 
Este direito é também tutelado pela CRP e penalmente. 
 
- Direito à liberdade 
É o direito à livre conformação da pessoa. 
Esta liberdade pode ser:
 
positiva
 (o direito de fazer algo) ou negativa (o direito de se 
recusar a fazer algo). 
Pode ainda ser: física (liberdade sexual) ou moral (política; religiosa). 
Em termos de liberdade negativa não se pode aplicar a sanção pecuniária compulsória. 
 
- Direito à inviolabilidade pessoal 
1- Projecção física 
a) Direito à imagem 
 79º - o direito de controlar a captação/divulgação de qualquer elemento de 
identificação da pessoa. 
Captação:
 violação 
Divulgação: violação mais grave. Divulgação indirecta: =imitação. 
Manipulação da imagem:
 usa-se a imagem e adultera-se; violação do direito à 
imagem + à verdade. 
b) Direito à palavra 
As regras anteriores são aplicadas analogicamente. 
 
2- Projecção moral 
a) Direito à honra (direito à reputação; honra extrínseca): 
A imagem que a pessoa projecta de si nas outras pessoas; a imagem que os outros 
têm de nós. 
A honra pode ser violada com o trazer a público de determinados factos sejam eles 
verdadeiros ou falsos. 
Podem identificar-se 4 círculos de honra: 
 
- Honra propriamente dita:
 dignidade humana; honestidade; 
 - Honra deontológica: ou profissional; bom nome e reputação; ex.: maus profissionais; 
 - Honra económica:
 direito ao crédito pessoal; 
 - Honra ...: direito ao decoro (:forma de vestir; forma de estar). 
 
 Os 2 últimos círculos variam de pessoa para pessoa. São, por isso, variáveis. 
 
 A honra também é protegida criminalmente. 
 No direito civil
 a honra pode ser violada com a divulgação de factos reais. 
 No direito penal
 a honra só é violada com a divulgação de factos falsos. 
 Ex.: se um jornal diz determinadas coisas acerca de uma pessoa, o direito à honra é, 
em termos de direito civil, violado. 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 33 
 Os 3 primeiros círculos não são direitos disponíveis:
 isto é, não estão sujeitos a 
limitações dos titulares do direito; o titular não pode limitar o direito. 
 No direito ao decoro pode haver consentimento válido. O direito é disponível logo, o 
titular pode limitar o direito. 
 Admite-se consentimentos vinculantes: pressupõe vínculo contratual (ex.: modelos 
fotográficos). 
 
 Há frequentemente conflitos entre o direito de honra e o direito à informação, os quais 
são resolvidos pelo 335º. 
 Quando se trata de uma matéria com relevante interesse público, o direito de 
informação prevalece sobre o direito à honra. Nas restantes situações isto não se verifica.O direito à honra não é consagrado num artigo específico do CC mas é aflorado no 79º 
n.º3. No 79º n.º2 apresentam-se algumas situações onde se justifica a violação do direito à 
imagem, situações que afastam, portanto, a ilicitude. 
Contudo, em caso de violação ao direito à honra, este é sempre ilícito. 
 
3- Projecção vital 
a) Direito ao carácter 
Ninguém poderá estar sujeito sem consentimento a meios que permitam revelar o seu 
carácter. 
b) Direito à história pessoal 
Direito ao percurso da pessoa: ex.: biografias não autorizadas (“Os amores de Manuel” 
-> é preciso a autorização de Manuel e dos “amores”). 
 c) Direito à intimidade da vida privada 
 Este é um direito que incide sobre informações. 
 Existe dentro de si 3 esferas: 
 
 1 - Privada: ex.: casa, morada; aspectos não relativos à própria pessoa mas que estão 
relacionados consigo. 
 
2 - Pessoal:
 ex.: gostos, preferências sexuais; âmbito mais restrito; aspectos 
intrínsecos à natureza da própria pessoa. 
 3 - Secreta: aspectos secretos da vida íntima. 
 
 As coisas secretas podem ser secretas: por natureza (ex.: diários) e por determinação 
da pessoa (coisas que cabe ao próprio o ónus da prova do seu carácter secreto). 
 Esta distinção é essencial no que diz respeito, por exemplo, à fase de determinação da 
importância da violação. 
 d) Direito à verdade pessoal 
 Direito à liberdade negativa, relativa aos dados de confidencialidade pessoal. 
 
 - Direito à identidade pessoal 
 Abrange a: identificação (não confundabilidade da pessoa; certa pessoa é “a” pessoa 
e não “uma” pessoa; este é, aliás, um direito inato) e a identidade em sentido estrito (direito 
ao nome). 
 A nossa lei não permite a homonímia (o mesmo nome). Contudo, o nome igual não 
pode ser utilizado de forma a prejudicar outro. 
 
 - Direito à criação pessoal e direito moral de autor 
 O primeiro é um direito inato. 
 O segundo é não inato e pressupõe o direito de criação pessoal mas surge só após a 
criação que se traduz numa obra. 
 A criação tem que ter duas características: 
 
 - originalidade:
 a obra tem que ser “a” obra. 
 - objectivação:
 a obra tem que ganhar consistência no sentido de ser objectivada. 
 
 Obra:
 conjunto de sinais subjectivamente organizados e objectivamente expressos. 
 O direito de autor: abrange o aspecto moral e o aspecto patrimonial (direito real; de 
propriedade sobre a obra). 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 34 
 O direito de autor é vitalício e depois da morte transmite-se para os herdeiros. Ao fim 
de 50 anos, cai no domínio público. 
 
 Tutela deste direito: 
 
 - direito à paternidade da obra; 
 - direito ao inédito; 
 - direito à intangibilidade da obra
 (direito à obra não ser adulterada); 
 - direito à dignidade da obra (direito a participar das valorizações extraordinárias da 
obra). 
 
 O direito moral de autor pode, portanto, ser violado de inúmeras formas. 
 É possível violação simultânea do direito à honra e do direito moral de autor. 
 
 - Direito ao tratamento dos dados pessoais 
 Tem em conta, por exemplo, as violações potenciadas pela utilização da informática. 
 
Do consentimento do ofendido 
 
 O consentimento pode também determinar a inexistência de lesão (exclusão do facto) 
ou a justificação dela (justificação do facto), embora sempre limitado pela ordem jurídica e 
pelos bons costumes (81º n.º1 e 340º CC). 
 O consentimento não extingue o direito de personalidade. Este tem importância na 
medida em que, pode ser relevante para aferir da violação. 
 O consentimento tem limites:
 superiores (direito à vida não pode ser limitado assim 
como o direito à integridade física) e inferiores (as exigências da vida em sociedade levam a 
que certas lesões sejam irrelevantes (ex.: encontrões no autocarro)). 
 Há 3 tipos de consentimento: 
 
 - vinculante: origina um compromisso jurídico autêntico, designadamente um contrato. 
 - autorizante:
 constitutivo de um compromisso jurídico sui generis, que atribui a outrem 
um poder (fáctico) de agressão. 
 - tolerante:
 não atribui um poder de agressão, mas justifica implicitamente a mesma: 
340º n.º1. 
 
Nas intervenções e tratamentos médico-cirúrgicos em benefício próprio 
 
 A lei penal dispõe hoje que «as intervenções e outros tratamentos que, segundo o 
estado dos conhecimentos e da experiência da medicina, se mostrem indicados e forem 
levados a cabo, de acordo com a leges artis, por um médico ou outra pessoa legalmente 
autorizada a empreendê-los com intenção de prevenir, diagnosticar, debelar ou minorar uma 
doença, um sofrimento, uma lesão ou fadiga corporal ou uma perturbação mental, não se 
consideram ofensas corporais». 
 Não havendo consentimento do paciente, haverá violação, não do direito à 
integridade física, mas da liberdade de vontade, excepto se se verificar qualquer das 
seguintes hipóteses: 
 -
 se o consentimento, só puder ser obtido com adiamento que implique um perigo para 
a vida ou grave perigo para o corpo ou para a saúde; 
 -
 se o consentimento, foi dado para uma intervenção ou tratamento diferente, mas o 
que foi realizado é imposto pelo estado dos conhecimentos ou experiência da medicina, como 
meio para evitar um perigo para o corpo ou para a saúde, e não se verificarem circunstancias 
que permitam concluir com segurança que o consentimento seria recusado. 
 
 O consentimento e o correlativo dever de esclarecimento têm de ser mais 
rigorosos ainda nas intervenções ou tratamentos estéticos do que nos curativos.
 Além 
disso, o consentimento é irrelevante sempre que há uma desproporção enorme entre o 
benefício a obter e o risco da atitude médico-cirúrgica, pois nesse caso é contra os bons 
costumes. 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 35 
Nas intervenções e tratamentos médico-cirúrgicos em benefício alheio ou 
geral: 
 
 Exigência interrogável e rigorosa do consentimento com dever de esclarecimento. Não 
se pode admitir o consentimento presumido ou hipotético ou o consentimento por 
representante legal. 
 Nas disposições em benefício de outrem, o cientista, deve atender a se se trata de: 
elementos caducáveis; regeneráveis ou não regeneráveis.
 
 
 - caducáveis: não há problema; 
 - regeneráveis:
 idem; 
 - não regeneráveis:
 a licitude depende do risco que a perda representa para o dador, 
da vantagem que a aquisição representa para o receptor, das técnicas de extracção, das 
possibilidades de recuperação, etc. 
 
 O direito a partes destacáveis do corpo humano 
 Anote-se que o consentimento em ceder-se certo elemento orgânico quando este vier a 
destacar-se do organismo, encontra-se, mesmo no caso de ser lícito, sujeito ao regime das 
disposições da integridade física em benefício alheio, não sendo, como vimos, convertível em 
autêntica obrigação. 
 
49.Capacidade jurídica e capacidade para o exercício de direitos 
 
 À personalidade jurídica é inerente a capacidade jurídica ou capacidade de gozo de 
direitos. 
 O artigo 67º estabelece que «as pessoas podem ser sujeitos de quaisquer relações 
jurídicas, salvo disposição legal em contrário: nisto consiste a sua capacidade jurídica». 
 Fala-se de capacidade jurídica para referir a aptidão para ser titular de um círculo, 
maior ou menor, de relações jurídicas. 
 Ou há uma pessoa jurídica ou não há. Há uma capacidade jurídica maior ou menor. 
 
 Distinta da noção de capacidade jurídica é a de capacidade de exercício de 
direitos. 
 Melhor se falaria de capacidade de agir. 
 A expressão capacidade de exercício de direitos sugere tratar-se unicamente da 
susceptibilidade de exercitar direitos deixando de fora o cumprimento das dívidas e a aquisição 
de direitos ou a aquisição de direitos ou a assunção de obrigações. 
 Capacidade de exercício ou deagir: é a idoneidade para actuar juridicamente, 
exercendo direitos ou cumprindo deveres, adquirindo direitos ou assumindo obrigações, por 
acto próprio e exclusivo ou mediante um representante voluntário ou procurador. 
 A pessoa, dotada da capacidade de exercício de direitos, age pessoalmente, isto é, 
não carece de ser substituída, na prática dos actos que movimentam a sua esfera jurídica, por 
um representante legal (designado na lei ou em conformidade com ela) e age 
autonomamente, isto é, não carece do consentimento, anterior ou posterior ao acto, de outra 
(assistente). 
 A incapacidade de exercício de direitos pode ser suprida pela representação 
legal ou pela assistência.
 
 
50.Capacidade negocial. Modalidades: capacidade negocial de gozo 
(capacidade jurídica negocial) e capacidade negocial de exercício 
 
 Estas noções traduzem-se na referência das noções, mais genéricas, de capacidade 
jurídica e de capacidade para o exercício de direitos ao domínio dos negócios jurídicos. 
Contrapõe-se-lhes a incapacidade negocial de gozo e a incapacidade negocial de 
exercício. 
 Incapacidade negocial de gozo: provoca a nulidade dos negócios jurídicos 
respectivos e é insuprível, isto é, os negócios a que se refere nem podem ser concluídos por 
outra pessoa em nome do incapaz, nem por este com autorização de outra entidade. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 36 
 
Incapacidade negocial de exercício:
 provoca a anulabilidade dos negócios jurídicos 
respectivos e é suprível, não podendo os negócios a que se refere ser realizados pelo incapaz 
ou por um seu procurador. 
 Esta é suprível por: 
 
 
- representação legal:
 ex.: 124º - suprimento da incapacidade dos menores pelo 
poder paternal. 
 - assistência:
 ex.: 153º - «os inabilitados são assistidos por um curador». 
 Representação: é a forma de suprimento da incapacidade, traduzida em ser admitida 
a agir outra pessoa em nome e no interesse do incapaz. Essa pessoa é denominada 
representante legal, por ser designada pela lei ou em conformidade com ela. 
 Não se trata de um representante voluntário, isto é, escolhido e legitimado para agir 
pelo representado – e não se admite aqui um representante voluntário, dada a incapacidade do 
representado. 
 
 Assistência:
 tem lugar quando a lei admite o incapaz a agir, mas exige o 
consentimento de certa pessoa ou entidade. 
 Enquanto o representante legal actua em vez do incapaz, o assistente destina-se 
a autorizar o incapaz a agir, pertencendo a iniciativa do acto a este último.
 O 
representante substitui o incapaz na actuação jurídica; o assistente impede o incapaz de agir 
ou intervém ao lado dele. 
 
51.Determinação da capacidade negocial de gozo 
 
 A regra geral, por inerência do conceito de personalidade, é capacidade jurídica. 
 Existem contudo algumas restrições: 
 
1) Incapacidades nupciais (impedimentos dirimentes absolutos e impedimentos dirimentes 
relativos 1601º e 1602º); 
2) Incapacidade de testar dos menores não emancipados e dos interditos por anomalia 
psíquica (2189º); 
3) Incapacidade para perfilhar dos menores de 16 anos, dos interditos por anomalia 
psíquica e dos notoriamente dementes no momento da perfilhação (1850º). 
 
Não se trata, todavia, de absoluta incapacidade, pois a restrição não resulta da 
consideração de uma qualidade do disponente em si. 
Há uma restrição do poder de disposição em certa direcção e por isso o código 
qualifica estes casos como indisponibilidade relativa. 
 
52.Determinação da capacidade negocial de exercício. Generalidades 
 
 Pessoas colectivas 
 Estas possuem plena capacidade negocial de exercício. 
 A capacidade de exercício das pessoas colectivas só sofrerá restrição quando, 
excepcionalmente, estiverem privadas dos seus órgãos, agindo outras entidades em seu nome 
e no seu interesse ou quando, para dados efeitos, seja necessária a autorização de certas 
entidades alheias à pessoa colectiva. 
 
 Pessoas singulares 
 Em princípio todas têm capacidade de exercício de direitos. 
 
53.Enumeração das incapacidades de exercício estatuídas pelo código civil 
 
 As incapacidades de exercício estabelecidas pelo código civil resultam: 
 
a) Da menoridade; 
b) Da interdição; 
c) Das inabilitações. 
 
O interesse determinante das incapacidades é o interesse do próprio incapaz. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 37 
62.Valor dos negócios jurídicos indevidamente realizados pelos incapazes 
 
 Incapacidade jurídica de gozo 
 Os negócios feridos duma incapacidade jurídica negocial (incapacidade de gozo) são 
nulos.
 
 A lei não o diz de uma forma genérica, mas é essa a solução geralmente defendida e a 
que se impõe, dada a natureza dos interesses que determinam as incapacidades de gozo. 
Poderá encontrar-se-lhes fundamento legal no 249º. 
 Para alguns negócios a lei resolve expressamente o problema. 
 Para o testamento, o artigo 2190º prescreve a nulidade. 
 Para o casamento, o 1631º a), estatui a solução da anulabilidade e o mesmo se 
determina no 1861º para a perfilhação. 
 
 Incapacidade de exercício 
 Nesta hipótese tem lugar a anulabilidade dos actos praticados pelos incapazes. 
 Na incapacidade de menores, dos interditos ou dos inabilitados, anulabilidade tem as 
características enunciadas no 125º, aplicável por forças dos 139º e 156º. 
 A invalidade só pode ser requerida pelas pessoas indicadas naquela disposição, dentro 
dos prazos aí referidos, variáveis consoante o autor da acção de anulação e pode ser sanada 
por confirmação das pessoas com legitimidade para a invocar. 
 Nas incapacidades conjugais, as sanções dos actos indevidamente praticados constam 
do 1687º. 
 
64.Capacidade e legitimidade 
 
 A distinção é oriunda do direito processual e aí se evidencia com nitidez, mas 
manifesta-se também no direito material. 
 
Capacidade:
 é um modo de ser ou qualidade do sujeito em si. 
 
Legitimidade:
 supõe uma relação entre o sujeito e o conteúdo do acto e, por isso, é 
antes uma posição, um modo de ser para com os outros. 
 Em princípio, têm legitimidade para um certo negócio os sujeitos dos interesses cuja 
modelação é visada pelo negócio. 
 Haverá carência de legitimidade, sempre que se pretenda fazer derivar dum negócio 
efeitos (alienação ou aquisição de direitos, assunção de obrigações, etc.), que vinculem outras 
pessoas, que não os intervenientes no negócio (ex.: venda de coisa alheia, contrato a cargo de 
outrem, etc.). 
 Nem sempre é assim, todavia. 
 Por vezes, um indivíduo tem o poder de desencadear efeitos de direito numa esfera 
jurídica alheia (ex.: representação legal ou voluntária). 
 Outras vezes um indivíduo não pode celebrar livremente (carece de uma autorização). 
 
 Na extensão do conceito de ilegitimidade estão abrangidas manifestações jurídicas 
cujo tratamento é diverso. 
 Enquanto as incapacidades de exercício geram anulabilidades, as ilegitimidades 
originam sanções diversas:
 à venda de coisa alheia corresponde a nulidade (892º); ao 
negócio consigo mesmo, a anulabilidade (261º); à representação sem poderes e ao abuso de 
representação, a ineficácia em relação ao representado. 
 
2º Semestre 
 
54.Incapacidade dos menores 
 
 Amplitude 
 Abrange, em princípio, quaisquer negócios de natureza pessoal ou patrimonial. É uma 
incapacidade geral
 (123º). 
 Existem algumas excepções à incapacidade: 
 
1. os menores podem praticar actos de administração ou disposição dos bens que o 
menor haja adquirido por seu trabalho (127º a)); 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 38 
2. são válidos os negócios jurídicos próprios da vida corrente do menor, que, estando 
ao alcance da sua capacidade natural, só impliquem despesas, ou disposiçõesde 
bens, de pequena importância (127º b)); 
3. são válidos os negócios relativos à profissão, arte ou ofício que o menor tenha sido 
autorizado a exercer, ou os praticados no exercício dessa profissão, arte ou ofício 
(127º c)); 
4. podem contrair validamente casamento, desde que tenham idade superior a 16 
anos (1601º a)), (sendo certo, todavia, que a oposição dos pais ou do tutor constitui 
um impedimento impediente, e como tal, não implicando a nulidade do acto, dá 
lugar à aplicação de sanções especiais. 
 
Podem fazer testamento se emancipados (2189º); podem perfilhar quando tiverem 
mais de 16 anos (1850º, especialmente o n.º2). 
 
Duração 
A incapacidade termina quando o menor atingir a idade de 18 anos ou for emancipado 
(122º, 129º, 130º, 133º), salvo se, na primeira hipótese, estiver pendente contra o menor, ao 
atingir a maioridade, acção de interdição ou inabilitação (131º). 
O único facto constitutivo da emancipação é o casamento
 (132º). 
O legislador entendeu que, fixada a idade núbil nos 16 anos, conviria manter a 
emancipação resultante do casamento, com base na consideração de que à situação de 
casado convém a plena capacidade de exercício de direitos decorrente da emancipação. 
 
Efeitos 
Os negócios jurídicos praticados pelo menor contrariamente à proibição em que se cifra 
a incapacidade estão feridos de anulabilidade (125º). 
As pessoas com legitimidade para arguir essa anulabilidade são: 
 
- O representante do menor, dentro de um ano a contar do conhecimento do acto 
impugnado; 
- O próprio menor, dentro de um ano a contar da cessação da incapacidade; 
- Qualquer herdeiro, dentro de um ano a contar da morte, se o hereditando morreu 
antes de ter expirado o prazo em que podia, ele próprio, requerer a anulação 
(125º). 
 
A anulabilidade pode ser invocada normalmente por via de excepção, sem 
dependência de prazo, se o negócio não estiver cumprido. 
O direito de invocar a anulabilidade é precludido pelo comportamento malicioso do 
menor, no caso de este ter usado de dolo ou má fé a fim de se fazer passar por maior ou 
emancipado (126º). 
Nesta hipótese, ficam inibidos de invocar a anulabilidade, não só o menor mas 
também os herdeiros ou representante. 
 
Como se supre a incapacidade do menor 
 
A incapacidade do menor é suprimida pelo instituto da representação. 
Os meios de suprimentos da incapacidade dos menores através da representação, 
são, em primeira linha o poder paternal e, subsidiariamente, a tutela. 
 
Poder paternal 
Compete aos pais, no interesse dos filhos, velar pela segurança e saúde destes, prover 
ao seu sustento, dirigir a sua educação, representá-los, ainda que nascituros, e administrar os 
seus bens. 
O poder paternal pertence, pois, aos pais, não distinguindo a lei poderes especiais do 
pai ou mãe em virtude do princípio da igualdade (1901º) 
Há a salientar a divisão «poder paternal relativamente à pessoa dos filhos» e 
«relativamente aos bens dos filhos». 
Na vertente pessoal salienta-se: o poder de educar os filhos (1885º 1886º 1878º); o 
poder de custodia, ou seja, de guardar os filhos na sua própria casa ou lugar à escolha (1887º); 
o direito ao respeito mutuo (1874º). 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 39 
Na vertente patrimonial salienta-se: o poder de administração dos bens (1878º 1897º) e 
o reciproco dever de elementos (1874º 1878º). 
De mencionar a extinção do usufruto legal dos pais sobre os bens dos filhos, embora 
possam utilizar o seu rendimento nos termos do 1896º, isto é, na satisfação de necessidade da 
família. 
Estão excluídos da administração dos pais certos bens mencionados no 1888º. O 
artigo seguinte enumera actos cuja validade depende de autorização do tribunal. 
As infracções aos artigos 1889º e 1892º geram anulabilidade dos respectivos actos, 
nos termos do artigo 1893º. 
 
Tutela 
É o meio normal de suprimento do poder paternal. Deve ser instaurada sempre que se 
verifique alguma das situações previstas no 1921º. 
O tutor – órgão executivo da tutela – tem poderes de representação abrangendo, e 
princípio, tal como os do pai, a generalidade da esfera jurídica do menor. O poder tutelar é, 
todavia, menos amplo que o poder paternal. 
Há certos actos que são vedados ao tutor e que o pai pode praticar, pelo menos com 
autorização judicial; há actos que o pai pode praticar livremente, devendo o tutor solicitar 
autorização judicial (ex.: aplicação de capitais do menor na aquisição de bens). 
As sanções para a infracção das proibições impostas ao tutor constam dos artigos 
1939º e 1940º e variam conforme os casos, sendo predominantemente invalidades de tipo 
misto
 e não puras nulidades ou anulabilidades. 
 
55.Incapacidade dos interditos 
 
 Quem pode ser interdito 
 A incapacidade resultante de interdição é aplicável apenas a maiores, pois os menores 
embora dementes, surdos-mudos ou cegos, estão protegidos pela incapacidade por 
menoridade. 
 São fundamentos de interdição as situações de anomalia psíquica (abrangendo 
deficiências do intelecto, da afectividade ou da vontade), surdez-mudez ou cegueira, quando 
pela sua gravidade tornem o interditando incapaz de reger a sua pessoa e bens (138º). 
 Quando a anomalia psíquica não vai ao ponto de tornar o demente inapto para a 
prática de todos os negócios, ou quando os reflexos da surdez-mudez ou da cegueira sobre o 
discernimento do surdo-mudo ou do cego não excluem totalmente a sua aptidão para gerir os 
seus interesses, o incapaz será inabilitado. 
 As deficiências físico-psíquicas que são fundamento da interdição devem ser habituais 
ou duradouras e actuais. 
 Não basta todavia a existência das deficiências naturais, referidas no 138º, para existir 
a incapacidade. Torna-se necessária uma sentença judicial que, no termo de um processo 
especial, declare a incapacidade. Parece haver lugar apenas à alternativa interdição ou 
inabilitação, consoante a gravidade das deficiências. 
 O regime da incapacidade por interdição é idêntico ao da incapacidade por 
menoridade, quer quanto ao valor dos actos praticados em contravenção, quer quanto aos 
meios de suprir a incapacidade (139º). 
 
 Como se supre a incapacidade dos interditos 
 É suprida mediante o instituto da representação legal. 
 Estabelece-se uma tutela regulada pelas mesma normas que regulam a dos menores e 
que é deferida pela ordem estabelecida no artigo 143º. 
 Quando a tutela recair nos pais, estes exercem o poder paternal como se o interdito 
fosse menor. 
 A sentença de interdição definitiva deve ser registada, sob pena de não poder ser 
invocada contra terceiro de boa fé (147º) 
 
 Efeitos 
 É óbvio que só é suprível uma incapacidade de exercício de direitos. Por isso, quanto 
ao casamento, não há possibilidade de suprimento da incapacidade dos interditos por anomalia 
psíquica (1601º); estamos perante uma incapacidade negocial de gozo. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 40 
 Só os interditos por surdez-mudez ou cegueira têm plena capacidade matrimonial. 
Também quanto ao testamento, só os interditos por anomalia psíquica estão feridos de uma 
incapacidade do tipo incapacidade de gozo, tendo os surdos-mudos e cegos capacidade 
testamentária de gozo e exercício. 
 
56.Valor dos actos praticados pelo interdito 
 
Três períodos 
 
1- Anteriormente à publicidade da acção 
 
 Acerca das condições da anulação destes actos, rege o 150º, cuja estatuição remete 
para o disposto acerca da incapacidade acidental. A incapacidade acidental está prevista e 
regulada no 257º, nos termos do qual a declaração negocial feita por quem se encontrava 
acidentalmente incapacitado de entender o sentido dela ou que não tinha o livre exercício da 
sua vontade é anulável, desde que: 1-o facto seja notório;2-conhecido pelo declaratário. 
 
2-Na pendência do processo de interdição 
 
 Se o acto foi praticado depois de publicados os anúncio da proposição da acção, e a 
interdição vem a ser decretada, haverá lugar à anulabilidade, desde que «se mostre que o 
negócio causou prejuízo ao interdito» (149º). 
 A interpretação mais chegada ao texto do 956º do código de processo civil era a de 
que permitia a anulação de negócios que, tendo sido embora celebrados nas condições em 
que o faria uma pessoa normal e sensata, se vieram a tornar desvantajosos para o interdito por 
força de eventualidades posteriores. 
 Nestes termos os negócios praticados pelo interdicendo, na pendência do processo de 
interdição, só serão anuláveis, se forem considerados prejudiciais numa apreciação reportada 
ao momento da prática do acto, não se tomando em conta eventualidades ulteriores (ex.: 
valorização de terreno) que tornariam agora vantajoso não o ter realizado. 
 O prejuízo verificar-se-á, quanto aos negócios onerosos, sempre que um contratante 
sensato e prudente na gestão dos seus bens não teria celebrado o negócio naqueles termos. 
 Uma doação, seja qual for a sua justificação moral, importa sempre, irremediavelmente, 
um empobrecimento imediato do doador, podendo eventualmente, por força de ulteriores 
vicissitudes, causar-lhe grave dano. 
 
3-Depois do registo da sentença de interdição definitiva 
 
 Os negócios jurídicos praticados neste período estão feridos de anulabilidade (148º). 
 Quanto ao prazo para a invocação da anulabilidade, e ás pessoas com legitimidade 
para a arguir, é aplicável, por força do 139º, com as necessárias adaptações, o 125º. Podem 
assim requerer a anulação o representante do interdito, durante a vigência da interdição, no 
prazo de um ano a contar do conhecimento do negócio, o próprio interdito, no prazo de um ano 
a contar do levantamento da interdição e qualquer herdeiro deste, no prazo de um ano a contar 
da morte do incapaz. 
 Trata-se, por outro lado, de uma invalidade sanável por confirmação das pessoas com 
legitimidade para a invocar. 
 
57.Quando cessa a incapacidade dos interditos 
 
 A incapacidade dos interditos não termina, sem mais, com a cessação da incapacidade 
natural. Torna-se necessário o levantamento da interdição. Podem requerer o levantamento o 
próprio interdito ou qualquer das pessoas com legitimidade para requerer a interdição (151º). 
 
58.Incapacidade dos inabilitados 
 
 As inabilitações são uma fonte de incapacidade. Resultam, tal como as interdições, de 
uma decisão judicial. 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 41 
 Quando tem lugar a incapacidade dos inabilitados 
 As pessoas sujeitas a inabilitação estão indicadas no 152º: indivíduos cuja anomalia 
psíquica, surdez-mudez ou cegueira, embora de carácter permanente, não seja tão grave que 
justifique a interdição; indivíduos que se revelem incapazes de reger o seu património por 
habitual prodigalidade ou pelo abuso de bebidas alcoólicas ou estupefacientes. 
 A primeira categoria (anomalias psíquicas, surdez-mudez ou cegueira que provoquem 
uma mera fraqueza de espírito e não uma total inaptidão do incapaz). 
 A segunda categoria – habitual prodigalidade – abrange os indivíduos que praticam 
habitualmente actos de delapidação patrimonial (não confundir com a administração infeliz ou 
pouco perspicaz). Trata-se da prática de actos de dissipação, despesas desproporcionadas 
aos rendimentos, improdutivas e injustificáveis. 
 A terceira categoria – abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes – representa 
uma inovação do código civil. O abuso de bebidas alcoólicas ou de estupefacientes tem de 
importar uma alteração do carácter, ainda que traduzida apenas na anormal dependência 
dessas drogas, sem o que não pode haver inabilitação. 
 Em qualquer dos casos basta que se prove a existência de um perigo actual de actos 
prejudiciais ao património, mesmo que se não tenha verificado ainda um dano concreto. 
 
 Verificação e determinação judicial da inabilitação 
 A incapacidade dos inabilitados não existe pelo simples facto da existência das 
circunstâncias referidas no 152º. Torna-se necessária uma sentença de inabilitação, no termo 
de um processo judicial, tal como acontece com as interdições. A sentença pode determinar 
uma extensão maior ou menor da incapacidade. 
 
 Meios de suprir a incapacidade 
 A incapacidade dos inabilitados é suprida, em princípio, pelo instituto da assistência, 
pois estão sujeitos a autorização do curador os actos de disposição entre vivos, bem como os 
especificados na sentença (153º). Pode, todavia, determinar-se que a administração do 
património do inabilitado seja entregue pelo tribunal ao curador (154ºn.º1). Neste caso 
funciona, como forma de suprimento da incapacidade, o instituto da representação. 
 Constata-se, portanto, que, à distinção entre inabilitações e interdições, não 
corresponde, necessariamente, uma diversidade das formas do respectivo suprimento, pois se 
é certo que nas inabilitações tem lugar, tendencialmente, a assistência, pode, todavia, intervir, 
tal como nas interdições, a representação. 
 
Valor dos actos praticados pelo inabilitado 
 A lei não regula directamente este problema, sendo aplicáveis as disposições que 
vigoram acerca do valor dos actos dos interditos, por força do 156º. Há que aplicar, portanto, os 
148º 149º 150º. 
 As características da anulabilidade são, com as necessárias adaptações, as do 125º, 
aplicável por remissão dos 139º 156º. 
 
59.Quando cessa a incapacidade dos inabilitados 
 
 A incapacidade só deixa de existir quando for levantada a inabilitação. 
 O 155º contém, acerca do levantamento da inabilitação, um regime particular. 
Estabelece-se que, quando a inabilitação tiver por causa a prodigalidade ou o abuso de 
bebidas alcoólicas ou de estupefacientes, o seu levantamento exige as condições seguintes: 
 1-Prova de cessação daquelas causas de inabilitação 
 
2-Decurso de um prazo de 5 anos sobre o trânsito em julgado da sentença da 
inabilitação ou da sentença que desatendeu um pedido anterior de levantamento. 
 
 Com estes prazos, pretende-se sujeitar o inabilitado a um período de prova, para evitar 
o risco de dissimulação ou fingimento, acerca da sua regeneração. 
 
61.Incapacidades acidentais 
 
 O actual código não inclui a regulamentação da incapacidade acidental (257º) na 
secção relativa às incapacidades; regula-a conjuntamente com as várias hipóteses de falta ou 
vícios de vontade na declaração negocial. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 42 
 O 257º abrange todos os casos em que a declaração negocial é feita por quem, devido 
a qualquer causa (embriaguês, estado hipnótico, intoxicação, delírio, ira, etc.) estiver 
transitoriamente incapacitado de se representar o sentido dela ou não tenha livre exercício da 
sua vontade. 
 Qual a estatuição respectiva? Os actos referidos são anuláveis desde que o facto seja 
notório (cognoscível) ou conhecido do declaratário. A anulação está sujeita ao regime geral das 
anulabilidades (287º e ss.), pois não se prescreve qualquer regime especial. 
 
60.Incapacidades (ilegitimidades) conjugais 
 
 As restrições à livre actuação jurídica, derivadas do casamento, são tradicionalmente 
designadas por incapacidades. Não se pretende defender os cônjuges contra uma 
incapacidade natural, aliás, inexistente, mas proteger os interesses do outro cônjuge e da 
família. Mais correctamente se falará, a este respeito, de ilegitimidade. 
 
 A aplicação do princípio da igualdade dos cônjuges, no domínio da administração e da 
alienação dos bens do casal, alterou profundamente as soluções do direito anterior. 
 A regra dos bens do casal é esta: cada um dos cônjuges tem a administração dos seus 
bens próprios (1678º n.º1),pertencendo a ambos (em conjunto) a administração dos bens 
comuns (1678º n.º3). 
 Esta regra tem, contudo, algumas excepções. 
 Assim, quanto à administração dos bens próprios, cada um dos cônjuges tem a 
administração: 
 
1-dos bens próprios do outro cônjuge, por ele exclusivamente utilizados como 
instrumento de trabalho (1678º e)). 
 
2-dos bens próprios do outro cônjuge, se este se encontrar impossibilitado de exercer a 
administração por achar num lugar remoto ou não sabido, ou por qualquer outro motivo (1678º 
f)). 
 3-dos bens próprios do outro cônjuge, se este lhe conferir por mandato esse poder. 
 
 Quanto à administração dos bens comuns, à regra (administração conjunta) opõem-se 
as seguintes excepções: 
 
 
1-cada um dos cônjuges tem legitimidade para a prática de actos de administração 
ordinária (1678º n.º3) 
 
2-cada um dos cônjuges tem a administração: 
 a) dos proveitos que receba pelo seu trabalho (1678º n.º2 a)) 
 b) dos seus direitos de autor (= b)) 
 c) dos bens comuns por ele levados para o casamento ou adquiridos a título gratuito 
depois do casamento, bem como dos sub-rogados em lugar deles (= c)) 
 d) dos bens que tenham sido doados ou deixados a ambos os cônjuges, com exclusão 
da administração do outro cônjuge, salvo se se tratar de bens doados ou deixados por conta da 
legitima desse outro cônjuge (= d)) 
 e) dos bens móveis comuns por ele exclusivamente utilizados como instrumento de 
trabalho (= e)) 
 f) dos bens comuns se o outro cônjuge se encontrar ausente ou impossibilitado (= f)) 
 g) dos bens comuns do outro cônjuge se este lhe conferir por mandato esse poder (= g) 
 
 O casamento continua a ser fonte de ilegitimidades conjugais. Tais ilegitimidades 
constam dos 1682º 1682º-A 1682º -B e 1683º. 
 Assim, carecem de consentimento de ambos os cônjuges, em qualquer regime de 
bens, inclusive no regime de separação: 
 1-a alienação ou oneração de móveis (próprios ou comuns) utilizados conjuntamente 
por ambos na vida do lar ou como instrumento comum de trabalho. 
 
2-a alienação ou oneração de móveis próprios ou comuns de que não tenha a 
administração. 
 3-a alienação, oneração, arrendamento ou constituição de outros direitos pessoais de 
gozo sobre a casa de morada de família. 
 
4-a disposição do direito ao arrendamento da casa de morada da família. 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 43 
 Carecem de consentimento de ambos os cônjuges, apenas nos regimes de comunhão 
(geral ou de adquiridos), mas não já no regime de separação de bens: 
 
1-a alienação, oneração, arrendamento ou constituição de outros direitos pessoais de 
gozo sobre imóveis próprios ou comuns. 
 2-a alienação, oneração ou locação do estabelecimento comercial, próprio ou comum. 
 
3-o repúdio de heranças ou legados. 
 
 Como se supre a ilegitimidade conjugal 
 A ilegitimidade conjugal supre-se pelo consentimento do outro cônjuge (1682º n.º1e 3, 
1682º-A e 1682º-B) o consentimento conjugal, que deve ser especial para cada acto, está 
sujeito à forma exigida para a procuração e pode ser judicialmente suprido, havendo injusta 
recusa, ou impossibilidade, por qualquer causa, de o prestar (1684º). 
 
 Sanções da ilegitimidade conjugal 
 De acordo com o 1687º, os actos praticados contra o disposto nos n.º1 e 3 do 1682º, 
nos 1682º-A, 1682º-B e no n.º2 do 1683º, são anuláveis a requerimento do cônjuge que não 
deu o consentimento ou dos seus herdeiros (n.º1), nos 6 meses subsequentes à data em que o 
requerente teve conhecimento do acto, mas nunca depois de decorridos 3 anos sobre a sua 
celebração (nº2). 
 À alienação ou oneração de bens (móveis ou imóveis) próprios do outro cônjuge, feita 
sem legitimidade, são aplicáveis as regras relativas à alienação de coisa alheia, isto é, são 
nulas nos termos dos 892º e ss. 
 
Falência e Insolvência 
 
 Por si só, não são incapacidades. 
 A falência é a impossibilidade de uma pessoa, singular ou colectiva, não poder cumprir 
obrigações, pontualmente. 
 MOTA PINTO: falência – instituto privado dos comerciantes; insolvência – aplica-se aos 
não comerciantes. 
 Esta posição acaba com o Código das falências (DL 132/93, 23 Abril). A falência deixou 
de ser um instituto dos comerciantes para passar a ser das empresas. 
 
 Pode-se falar em: sociedades (os sujeitos); empresas (objecto na titularidade dos 
comerciantes [não têm personalidade jurídica]); comerciantes (individuais ou sociedades). 
 
 Artigo 1º do código: falência – são as empresas em situação de insolvência; 
 N.º 3: insolvência – carência de meios próprios e falta de crédito (note-se a importância 
do crédito). 
 
 A falência (deve ser o último recurso) é admitida em relação a devedores não titulares 
da empresa. Antes da falência deve ser tentada a recuperação da empresa. 
 O instituto da insolvência foi abolido e passou a ser um requisito da falência. A 
insolvência é revelada por “factos-índice” , cuja verificação determina a insolvência. Estes 
podem ser: falta de cumprimento das obrigações; fuga do titular; dissipação/extravio de bens; 
falta de liquidez na designação dos titulares. 
 
Recuperação da empresa 
 
 A falência (que respeita os devedores titulares ou não da empresa insolvente) não 
existe ipso facto, há que ser declarada. Existe um processo que acaba numa sentença judicial 
que tem que ser registada. Esta sentença fixa a residência do falido, fixa o prazo para os 
credores exigirem o crédito, nomeia o liquidatário judicial, etc. 
 
 Efeitos 
- O falido é impedido de dispor dos bens presentes/futuros, que passam a integrar a 
“massa falida”; 
- A “massa falida” é inoponível; 
- O falido não pode mais exercer o comércio, nem pode administrar bens de 
menores (quase inabilitado); 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 44 
- O falido pode trabalhar (aliás, faz todo o sentido para poder encontrar meio para 
pagar dívidas); 
- É nomeado o liquidatário judicial para administrar. É nomeado pelo juiz e “ajudado” 
pela comissão de credores. 
 
Valor dos actos praticados pelo falido 
 
 Antes da declaração 
 
- Os actos podem ser resolúveis em benefício da “massa falida”; 
- Podem ser impugnados por “impugnação pauliana”. 
 
Esta situação está prevista no 610º e ss. e é uma tentativa de garantir os credores. 
 
Requisitos para a impugnação pauliana: 
- momento em que nasce o crédito: 
o se o crédito for anterior ao acto do devedor, verifica-se a impugnação 
pauliana; 
o se o crédito for posterior ao acto do devedor, não há impugnação pois o 
credor devia ter-se acautelado devido à situação do devedor, contudo, se 
se verificar dolo no acto do devedor, pode haver impugnação. 
- Impossibilidade de satisfação do crédito ou o seu agravamento: 
o Há impugnação se resultar do acto a impossibilidade, para o credor, de 
obter a satisfação integral do seu crédito, ou agravamento dessa 
impossibilidade. 
- Má fé (612º) (no sentido subjectivo): 
o Se o acto for oneroso – só é impugnável se o devedor e o terceiro tiverem 
agido de má fé; 
o Se o acto for gratuito – a impugnação procede ainda que ambos 
estivessem de boa fé. 
 
Em negócios, por exemplo, de compra e venda, o falido pode vender bens da massa 
falida sendo estes negócios válidos. Contudo, quem os adquirir não os pode opor a terceiros. 
Assim sendo, os bens continuam a integrar a massa falida. Se o falido conseguir pagar a 
massa falida, pode já, quem adquiriu os bens, opô-los. 
 
Fundamentos do levantamento da falência 
 
1- Quitação (inexistência da dívida: a dívida foi paga) dos credores; 
a. Remissão da dívida; 
b. Repetição (devolução) do indevido; 
2- Homologação do acordo extraordinário entre credor e devedor; 
3- Decurso de 5 anos do trânsito em julgado. 
 
A situação do falido não é incapacidade.Os seus actos não são inválidos, 
tratando-se apenas de uma ilegitimidade.
 
 
65.Domicílio 
 
 O ordenamento jurídico dá relevância, para variados efeitos, à noção de domicílio, 
como ponto de conexão entre a pessoa e um determinado lugar. 
 Assim: 
a) o foro geral, em matéria de competência territorial dos tribunais, isto é, o tribunal 
competente para quaisquer acções, salvo disposição especial, é o domicílio do réu; 
b) a prestação debitória
 deve ser efectuada no lugar do domicílio do devedor (722º) e, 
no caso de obrigações pecuniárias, no lugar do domicílio que o credor tiver ao tempo 
do cumprimento (774º); 
c) a sucessão por morte
 abre-se no lugar do último domicílio do seu autor (2031º); 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 45 
d) o elemento de conexão
 decisivo para a determinação, segundo o direito internacional 
privado, da lei aplicável a relações conexionadas com várias ordens jurídicas, é, em 
alguns casos, o domicilio (32º). 
 
É, igualmente, no domicílio da pessoa que devem ser praticadas as diligências ou 
efectuadas as comunicações dirigidas a dar-lhe conhecimento pessoal de um facto. 
Há uma presunção de presença da pessoa no domicílio, com o que se visa impedir 
escapatórias. 
 
Noção 
O conceito de domicílio voluntário geral é-nos fornecido pelo 82º e coincide com o lugar 
de residência habitual. 
 Não se trata do local onde a pessoa se encontra em cada momento, isto é, não 
coincide com o paradeiro (225º). 
 Não se confunde também com a residência, com o local onde a pessoa está a viver 
com alguma permanência. Sem dúvida que a residência habitual onde a pessoa vive 
normalmente, onde costume regressar após ausências mais curtas ou mais longas, nos 
fornece o critério do domicilio do 82º. 
 Uma pessoa pode ter dois ou mais domicílios, se tem duas ou mais residências 
habituais. 
 Em regra, o estabelecimento do domicílio, bem como o seu termo, resultam de um acto 
voluntário (de residir habitualmente num certo local ou de aí exercer uma profissão). Este acto 
voluntário não é, porém, um negócio jurídico, mas um simples acto jurídico, verificando-se a 
produção, por força da lei, dos efeitos jurídicos respectivos, mesmo que a pessoa em causa 
não os tivesse em mente ou até os quisesse impedir. 
 
 Ao lado do domicílio voluntário geral, a lei reconhece um domicílio profissional (83º) e 
um domicílio electivo (84º). 
 Domicílio profissional: verifica-se para as pessoas que exercem uma profissão e é 
relevante para as relações que a esta se referem, localizando-se no lugar onde a profissão é 
exercida. 
 Domicílio electivo:
 é um domicílio particular, estipulado, por escrito, para 
determinados negócios. As partes convencionam que, para todos os efeitos jurídicos, se têm 
por domiciliadas em certo local, diferente do seu domicílio geral ou profissional. 
 
 O nosso direito conhece alguns casos de domicílio legal, isto é, independente da 
vontade. É o que ocorre com o domicílio legal dos menores e interditos (85º), com o dos 
funcionários públicos (87º), e com o dos agentes diplomáticos portugueses (88º). 
 
(III)PESSOAS COLECTIVAS 
 
67.Conceito de pessoa colectiva. Função socioeconómica do instituto da 
personalidade colectiva 
 
 As pessoas colectivas são organizações constituídas por uma colectividade de pessoas 
ou por uma massa de bens, dirigidos à realização de interesses comuns ou colectivos, às quais 
a ordem jurídica atribui a personalidade jurídica. 
 Trata-se de organizações integradas essencialmente por pessoas ou essencialmente 
por bens, que constituem centros autónomos de relações jurídicas – autónomos mesmo em 
relação aos seus membros ou às pessoas que actuam como seus órgãos. 
 À categoria das pessoas colectivas pertencem o Estado, os municípios, os distritos, as 
freguesias, as associações recreativas ou culturais, as fundações, as sociedades comerciais, 
etc. 
 
 Na definição referiu-se organizações constituídas por uma colectividade de pessoas e 
organizações constituídas por uma massa de bens. 
 Há com efeito duas espécies fundamentais de pessoas colectivas: 
 
 Corporações: têm um substrato integrado por um agrupamento de pessoas singulares 
que visam um interesse comum, egoístico ou altruístico. Essas pessoas ou associados 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 46 
organizam a corporação, dão-lhe existência e cabe-lhes disciplinar a sua vida e destino. 
Dirigem-na de dentro, tendo nas suas mãos, através da modificação dos estatutos ou de outras 
deliberações, a sorte da corporação. São corporações as associações desportivas, culturais, 
recreativas, mutualistas, as sociedades comerciais, etc. 
 Fundações: têm um substrato integrado por um conjunto de bens adstrito pelo 
fundador a um escopo ou interesse de natureza social. Criada a fundação, o fundador fica fora 
dela. É a sua vontade que regula a fundação, mas tal como está fixada no acto de instituição e 
nos estatutos, e não em renovadas manifestações. 
 
68.Elementos constitutivos das pessoas colectivas: o substrato e o 
reconhecimento 
 
 Podemos legitimamente reconduzir a dois os seus elementos constitutivos: substrato e 
reconhecimento. 
 Substrato: é um elemento complexo, integrado por vários subelementos; é o elemento 
de facto, o conjunto de dados anteriores à outorga da personalidade jurídica. 
 Reconhecimento:
 elemento a que a lei se refere expressamente (158º), é o elemento 
de direito, transformador de uma organização ou ente de facto num ente ou pessoa jurídica. 
Pode dizer-se que o reconhecimento é o elemento formal e o substrato o elemento material. 
 
Substrato. Noção 
 
 O substrato é o conjunto de elementos da realidade extrajurídica, elevado à qualidade 
de sujeito jurídico pelo reconhecimento. É a realidade que dá peso terreno à pessoa colectiva, 
que lhe dá existência no mundo exterior, fazendo-a ser algo mais do que uma superestrutura 
pairando sobre o vácuo. 
 Importa saber o vários subelementos em que o substrato se pode decompor. 
 
Elemento pessoal ou patrimonial 
 O elemento pessoal verifica-se nas corporações. É a colectividade de indivíduos que se 
agrupam para a realização, através de actividades pessoais e meios materiais, de um escopo 
ou finalidade comum. É o conjunto de associados. 
 O elemento patrimonial intervém nas fundações. É o complexo de bens que o fundador 
afectou à consecução do fim fundacional (tal massa de bens designa-se habitualmente por 
dotação). 
 
 Por que motivo se fala na existência de um elemento pessoal apenas das 
corporações e de um elemento patrimonial nas funções? 
 Nas corporações só o elemento pessoal é relevante, só ele sendo um componente 
necessário do substrato da pessoa colectiva. Pode existir a corporação, sem que lhe pertença 
um património; basta pensar numa associação para a qual os associados concorrem apenas 
com serviços dirigidos à prossecução do fim comum, sem que os referidos serviços sejam 
susceptíveis de avaliação pecuniária. 
 Por sua vez nas fundações só o elemento patrimonial assume relevo no interior da 
pessoa colectiva, estando a actividade pessoal – necessária à prossecução do escopo 
fundacional – ao serviço da afectação patrimonial – estando subordinada a esta, em segundo 
plano ou até, rigorosamente, fora do substrato da fundação. 
 
 Elemento teleológico 
 A pessoa colectiva deve prosseguir uma certa finalidade, justamente o fim em causa 
determinante da formação da colectividade social ou da dotação funcional. 
 Torna-se necessário que o escopo visado pela pessoa colectiva satisfaça certos 
requisitos: 
1- Deve revestir os requisitos gerais do objecto de qualquer negócio jurídico (280º); 
2- Deve ser comum aos seus membros ou colectivo. Manifesta-se a sua exigência quanto 
às sociedades, v.g., na nulidadedo chamado pacto leonino, estabelecida no 994º; 
3- Põe-se, por vezes, o problema de saber se o escopo das pessoas colectivas deve ser 
duradouro ou permanente. Não é legítima a exigência deste requisito em termos de a 
sua falte impedir forçosamente a constituição de uma pessoa colectiva, defende grande 
parte da doutrina. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 47 
Elemento intencional 
Trata-se do intento de constituir uma nova pessoa jurídica («animus personificandi»), 
distinta dos associados, do fundador ou dos beneficiários. 
 A exigência deste elemento radica na circunstância de a constituição duma pessoa 
colectiva ter na origem um negócio jurídico: o acto de constituição nas associações (167º), o 
contrato de sociedade
 para as sociedades (980º) e o acto de instituição nas fundações 
(186º). 
 Ora nos negócios jurídicos os efeitos determinados pela ordem jurídica dependem da 
existência e do conteúdo duma vontade (intenção) correspondente. 
 
 Elemento organizatório 
 A pessoa colectiva é integrada, igualmente, por uma organização destinada a introduzir 
na pluralidade de pessoas e de bens existente uma ordenação unificadora. Essa organização 
traduz-se num conjunto de preceitos disciplinadores das características e do funcionamento da 
pessoa colectiva (preceitos contidos nos estatutos ou no acto de constituição ou instituição) e 
na existência de órgãos, isto é, de «centros institucionalizados de poderes funcionais a exercer 
pelo indivíduo ou pelo colégio de indivíduos que nele estiverem providos com o objectivo de 
exprimir a vontade juridicamente imputável a essa pessoa colectiva». Acresce-se que o número 
e características dos órgãos da pessoa colectiva e a designação dos indivíduos que os 
preenchem obedece aos estatutos e, no silencio destes, à lei. 
 Os órgãos da pessoa colectiva podem ser deliberativos ou executivos (representativos). 
 
69.Elementos constitutivos da pessoa colectiva: substrato e 
reconhecimento (cont.) 
 
O reconhecimento. Noção. Modalidades 
 
 O reconhecimento é o elemento de direito, redutor da dispersão e pluralidade do 
substrato à unidade, à qualidade de sujeito de Direito. 
 Verificado o reconhecimento, surge uma nova pessoa jurídica: a pessoa colectiva. 
Como sujeito jurídico a pessoa colectiva torna-se titular de relações jurídicas, designadamente 
de relações jurídicas estabelecidas com os associados, os fundadores, os serventuários, os 
beneficiários ou terceiros. 
 São possíveis várias modalidades de reconhecimento. 
 Pode ter lugar um reconhecimento normativo, isto é, derivado automaticamente da 
lei e um reconhecimento individual ou por concessão, isto é, traduzido num acto individual 
e discricionário de uma autoridade pública que, perante cada caso concreto, personificará ou 
não o substrato. 
 O reconhecimento normativo pode, ainda, revestir duas formas: 
 Reconhecimento normativo incondicionado:
 se a ordem jurídica atribuir 
personalidade jurídica de plano, sem mais exigências a todo o substrato completo da pessoa 
colectiva (sistema de livre constituição das pessoas colectivas). Um tal sistema dificilmente 
existirá em qualquer direito positivo, não existindo, desde logo, em Portugal. 
 Reconhecimento normativo condicionado: também esta modalidade de 
reconhecimento é de carácter global, isto é, derivado de uma norma jurídica dirigida a uma 
generalidade de casos e não de uma apreciação individual, caso por caso. Também esta 
modalidade de reconhecimento traduz um grau de liberdade e facilidade na constituição de 
pessoas colectivas superior ao reconhecimento por concessão. 
 A lei formula em geral a exigência de determinados pressupostos ou requisitos, que 
devem acrescer aos elementos caracterizadores de um substrato e, verificados esses 
requisitos, a pessoa colectiva é automaticamente constituída, sem necessidade de uma 
apreciação de oportunidade e conveniência por parte do Estado. 
 
 Entre nós o reconhecimento normativo condicionado vigora no domínio das sociedades 
comerciais e civis em forma comercial e das associações e o reconhecimento por concessão é 
exigido para as fundações (excepção). 
 Quanto às associações, o regime do reconhecimento normativo condicionado resulta 
do 158º n.º1, e quanto às fundações, a exigência de um reconhecimento individual por parte da 
autoridade pública para a aquisição da personalidade jurídica resulta expressamente do n.º2. 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 48 
Pessoas colectivas de direito público e privado 
 
I - Pessoas colectivas de direito privado e utilidade pública:
 são as que se 
propõem em escopo de interesse público, ainda que, concorrentemente, se dirijam à satisfação 
dum interesse dos próprios associadas ou do próprio fundador. 
 
a)Pessoas colectivas de fim desinteressado ou altruístico:
 nestas pessoas 
colectivas o interesse próprio que os associados ou o fundador querem satisfazer é um 
interesse de natureza altruística: o interesse de promover certos interesses de outras pessoas 
(beneficiários). Os associados ou o fundador tomam a peito determinados interesses alheios. E 
trata-se de pessoas colectivas de utilidade pública, porque à comunidade social importa que 
tais interesses sejam satisfeitos. 
 
b)Pessoas colectivas de fim interessado ou egoístico:
 nestas pessoas colectivas, 
que serão sempre – pode dizer-se – de tipo corporativo, o escopo visado interesse de modo 
egoístico aos próprios associados, mas é tal que ao mesmo tempo interessa à comunidade 
1-Pessoas colectivas de fim ideal: o objectivo egoístico que uma pessoa colectiva se 
proponha pode consistir num interesse de natureza ideal (não económica): recreio, desporto, 
instrução, cultura física ou intelectual, etc. 
2-Pessoas colectivas de fim económico não lucrativo:
 aqui a pessoas colectiva 
pretende conseguir certas vantagens patrimoniais para os seus associados: subsídios 
pecuniários no caso de invalidez, empréstimos, etc. Trata-se, pois, de uma finalidade 
económica. Mas não de uma finalidade lucrativa, pois não se cuida propriamente de obter 
lucros para repartir pelos associados. 
 
II- Pessoas colectivas de direito privado e utilidade particular:
 a finalidade própria 
destas pessoas colectivas é de mero interesse particular. São as que têm maior peso e existem 
em maior número. Têm por objecto o lucro. 
Exemplo é a sociedade comercial que tem uma disciplina privativa no código comercial. 
Quando falamos de sociedade comercial: tipo contratual autónomo que tem que 
preencher determinados requisitos. Só podem ser constituídas para o exercício de certas 
actividades económicas, nomeadamente, de frutificação do que é posto em comum pelos 
sócios; pretende-se a repartição de lucros. 
 
Pessoas colectivas de “mera utilidade pública”:
 este é um estatuto reconhecido 
pelo Estado após uma requisição do particular. O regime geral está fixado no Decreto-Lei 
460/77. destina-se a pessoas colectivas que prosseguem objectos importantes para 
determinada população mas em conjunto com a administração central. 
 
Espécies ou tipos de sociedades 
 
 A primeira distinção a estabelecer dentro das sociedades é entre sociedades civis e 
sociedades comerciais. 
 As sociedades comerciais são as que, a mais das notas genéricas do 980º, têm «por 
objecto praticar um ou mais actos de comércio». As sociedades a que falte esta diferença 
específica são sociedades civis. 
 Estas, aliás, podem constituir-se sob forma comercial, segundo algum dos 4 tipos de 
sociedades comerciais conhecidas pela nossa lei, ficando sujeitas às disposições do código 
comercial, excepto quanto à falência. 
 As sociedades comerciais têm personalidade jurídica. É o que resulta do 108º código 
comercial. Quanto às sociedades civis têm indiscutivelmente personalidadejurídica as 
constituídas sob forma comercial pois é-lhes aplicável o referido artigo. Resumindo, não têm 
personalidade jurídica; não praticam actos de comércio; a sua actividade (natural) não se 
insere no código comercial; a responsabilidade dos sócios é pessoal e solidária [porque não 
têm personalidade jurídica] (sociedades em nome colectivo); têm capacidade testamentária 
passiva (2033º) e capacidade judiciária (2936º). 
 
 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 49 
Tipos legais de sociedades 
 
a) Sociedades em nome colectivo – caracterizam-se pela responsabilidade pessoal, 
solidária e ilimitada dos sócios perante os credores sociais; 
 
b) Sociedades anónimas – os sócios estão isentos de responsabilidade pessoal pelas 
dívidas da sociedade e os credores sociais só se podem pagar pelos bens sociais; o 
capital social está dividido em fracções a cada uma das quais corresponde uma acção; 
cada sócio responde, para com a sociedade, pelo capital que subscreveu, isto é, pelo 
montante das acções respectivas, nada mais tendo a satisfazer, mesmo que os outros 
sócios estejam em dívida para com a sociedade; 
 
c) Sociedades em comandita – são uma combinação entre os tipos anteriores, pois 
intervêm nelas sócios que assumem responsabilidade ilimitada como os sócios das 
sociedades em nome colectivo (Comanditados) e sócios que só arriscam o valor das 
suas entradas como os accionistas das sociedades anónimas (comanditários); 
 
d) Sociedades por quotas – os sócios também não respondem, tal como nas anónimas, 
pelas dividas da sociedade; respondem para com a sociedade pela realização da sua 
quota, isto é, pela parte que lhes cabe do capital social, e ainda, solidariamente com os 
demais, pelas prestações devidas à sociedade por algum ou alguns dos outros 
associados por força da não realização integral das suas quotas. 
 
Cooperativas 
 
 Antigamente eram uma subespécie de sociedades. No antigo regime, as cooperativas 
não eram bem cooperativas. 
 Não são sociedades; não visam o lucro. O seu regime está presente no código 
cooperativo. O seu capital é variável bem como a sua composição (princípio da porta aberta). 
Aplica-se subsidiariamente o código comercial. 
 A sua constituição dá-se mediante a verificação de princípios cooperativos com por 
exemplo o princípio da porta aberta. 
 Podem exercer actividades económicas, sociais, culturais, etc. 
 
Associações 
 
 Emerge de negócio bilateral ou plurilateral. 
 A sua constituição tem que ser por escritura pública sob pena de nulidade. O 167º diz o 
que a escritura deve conter para respeitar a forma legal. Se algum aspecto for omisso, a 
associação não adquire personalidade jurídica. 
 Segundo o 168º, os estatutos da associação estão a sujeitos a publicidade (série III, 
DR). Se falta a publicidade, esta traduz-se numa inoponibilidade a terceiros. 
 A associação tem órgãos deliberativos (ex.: assembleia geral), executivos (ex.: órgão 
de administração), de fiscalização (ex.: conselho fiscal). 
 Segundo o 177º, as suas decisões são anuláveis e o 182º fala acerca da sua extinção 
(da associação). 
 
Fundações 
 
 Derivam de uma só pessoa, sendo portanto, um negócio jurídico unilateral. 
 Neste caso há uma dotação que é afecta á prossecução de determinado fim. 
 A sua instituição é feita por: acto entre vivos (escritura pública, 185º) ou testamento (a 
fundação apresenta-se tal qual está prevista no testamento). Também aqui só há produção de 
efeitos se for publicitada (185º n.º5). 
 A instituição é um acto irrevogável pelos herdeiros do fundador. 
 O reconhecimento da fundação é requerido pelo fundador ou pelos herdeiros e, a partir 
do requerimento do reconhecimento, a fundação é irrevogável. 
 Cabe ao instituidor dizer quais os bens afectos, bem como o modo de funcionamento 
da fundação. Os limites à vontade do instituidor e ao fim da fundação estão previstos no 189º. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 50 
Segundo o 191º, a vontade do instituidor pode ser afastada se houver prejuízo sobre o 
património da fundação. 
 Neste caso, o reconhecimento é individual e verificam-se dois pressupostos: 
- interesse social da fundação; 
- suficiência dos bens (188º n.º2). 
 
Quanto ao primeiro, verifica-se um juízo discricionário para o seu apuramento. No 
segundo caso, a administração já actua de forma vinculada. 
Sem reconhecimento, não há fundação. Neste caso, o que fazer com os bens (em caso 
de testamento)? Os bens devem ser entregues a uma colectividade que prossiga fins análogos 
ao da fundação. 
A fundação é extinta segundo o 192º por: disposição da lei; ou por autoridade pública. 
A aquisição de personalidade/capacidade jurídica está presente no 160º havendo 
relação com o 158º. 
 
160º - capacidade de gozo. Há limitações relativamente à capacidade das pessoas 
singulares; a das pessoas colectivas é mais reduzida pois apenas se lhes aplicam os direitos 
necessários e convenientes. 
“Princípio da especialidade do fim” – norteia a medida da capacidade das pessoas 
colectivas; o fim da pessoa colectiva determina a sua capacidade. 
 
76.Capacidade para o exercício de direitos das pessoas colectivas. 
 
 Trata-se dum problema de natureza conceitual. 
 A capacidade para o exercício de direitos ou capacidade de agir consiste na aptidão 
para por em movimento a capacidade jurídica por actividade própria, sem necessidade de se 
ser representado ou assistido por outrem. Ora as pessoas colectivas carecem de um 
organismo físico-psíquico, só podendo agir por intermédio de certas pessoas físicas, cujos 
actos projectarão a sua eficácia na esfera jurídica do ente colectivo. Logo as pessoas 
colectivas, não podendo agir elas mesmas, mas apenas através de determinadas pessoas 
singulares (assembleia geral, conselho de administração, directores, administradores-
delegados, gerentes, etc.), estariam necessariamente privadas daquela capacidade. 
 Esta proposição negatória da capacidade de agir das pessoas colectivas não está, 
todavia, isenta de contestação possível, bem podendo vir a chegar-se à conclusão oposta. 
Tudo depende da natureza do vínculo entre a pessoa colectiva e aquelas pessoas físicas que 
procedem em seu nome e no seu interesse: será um nexo de verdadeira organicidade, ou de 
mera representação? 
 Se se concluir pela organicidade, então pode aceitar-se terem as pessoas colectivas 
capacidade para o exercício de direitos, pois a relação entre um órgão e o ente em que se 
integra, é de verdadeira identificação e, assim, agindo o órgão é a própria pessoa que age; se 
se concluir pela representação, então deve rejeitar-se a tese da capacidade para o exercício de 
direitos das pessoas colectivas, pois há autonomia entre as personalidades jurídicas do 
representante e do representado. 
 
 A lei fala indiferentemente em órgãos (162º) e em representantes (163º, 165º), não 
tomando estes termos no sentido rigoroso em que ficaram definidos. A resposta à pergunta 
“órgãos ou representantes?” infere-se da solução dada pela lei e um concreto problema de 
regulamentação: o problema da responsabilidade civil extracontratual das pessoas colectivas. 
 
 Na verdade resulta da lei não haver, em princípio, responsabilidade civil extracontratual 
dos representados pelos actos dos seus representantes. 
 Este tipo de responsabilidade só pode resultar dum comportamento (acção ou 
omissão) próprio. 
 Quanto à representação voluntária, também, em princípio, não há responsabilidade do 
representado pelos actos ilícitos extracontratuais do seu procurador. Só num caso bem 
delimitado a lei impõe essa responsabilidade no âmbito da representação voluntária: é a 
hipótese do 500º (“aquele que encarrega outrem de qualquer comissão responde, 
independentemente de culpa, pelos danos que o comissáriocausar...”). Nesta hipótese uma 
pessoa (o comitente) responde, mesmo sem culpa, com fundamento no risco: se beneficia 
duma actividade alheia – a do comissário – deve suportar os riscos respectivos. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 51 
 A situação prevista no 500º abrange, apenas, um sector caracterizado da 
representação voluntária: os casos em que o procurador pode ser considerado um comissário 
nos termos e para os efeitos do mesmo artigo. Ora tal qualificação só lhe pode caber quando 
estiver numa relação de dependência em face do representado – quando estiver submetido a 
um poder de direcção, a uma autoridade deste. Só então se poderá dizer que foi encarregado 
de uma comissão, nos termos do 500º. 
 Sendo assim, tal situação nenhuma analogia apresenta com a ligação entre a pessoa 
colectiva e os seus «representantes», pois estes – pelo menos o órgão mais qualificado – não 
são encarregados de uma comissão, mas são eles próprios formuladores da vontade da 
pessoa colectiva, os titulares de toda a iniciativa e não meros comitidos. 
 
 Constata-se, portanto, que o instituto da representação, legal ou voluntária, não importa 
qualquer responsabilidade dos representados pelos actos ilícitos extracontratuais dos seus 
representantes, salvo no caso particular do 500º, que prevê uma hipótese sem analogia com a 
situação das pessoas colectivas. 
 Ora no 165º estatui-se a responsabilidade civil dos entes colectivos. Logo as pessoas 
físicas que agem em seu nome e no seu interesse são ou integram verdadeiros órgãos e 
portanto as pessoas colectivas têm capacidade para o exercício de direitos. 
 
77.Capacidade jurídica (capacidade de gozo de direitos) das pessoas 
colectivas 
 
 A capacidade jurídica das pessoas colectivas é um «status» inerente à sua existência 
como pessoas jurídicas (67º). Não é, todavia, uma capacidade igual para todas, nem, muito 
menos, igual à capacidade de que desfrutam as pessoas singulares. É uma capacidade jurídica 
específica, enquanto a das pessoas singulares é de carácter geral. 
 A lei refere-se-lhe expressamente para o efeito de a limitar. Essas limitações constam 
do 160º e são as seguintes: 
 
 1ª - estão exceptuadas do âmbito da capacidade jurídica das pessoas colectivas as 
relações jurídicas vedadas por lei ou que sejam inseparáveis da personalidade singular. 
 As pessoas colectivas podem, também, ser titulares dos chamados direitos de 
personalidade (pelo menos de alguns): direito ao nome (72º), etc. 
 
 2ª -
 resulta, «a contrario» do 160º n.º1, estarem fora da capacidade jurídica das 
pessoas colectivas os direitos e obrigações que não sejam necessários ou convenientes à 
prossecução dos seus fins. Tal restrição já constava da legislação anterior (34º do código civil: 
não podiam ser sujeitos de relações estranhas «aos interesses legítimos do seu instituto«). É o 
chamado princípio da «especialidade do fim». 
 
 A personalidade colectiva é um mecanismo aparelhado pela ordem jurídica para mais 
fácil e eficaz realização de certos interesses (os correspondentes aos fins estatutários). 
 As pessoas colectivas de fim desinteressado ou egoístico ideal não estão de todo 
incapacitadas para praticar actos de natureza lucrativa, em ordem a obter recursos para a 
prossecução dos seus fins. 
 
78.Responsabilidade civil das pessoas colectivas 
 
Responsabilidade contratual 
 
 Seria uma situação de favor, injustificável, a exclusão dessa forma de 
responsabilidade, com o reverso desfavorável para a própria pessoa colectiva de, dificilmente, 
encontrar quem com ela transaccionasse a crédito. Devem portanto responder pelos factos dos 
seus órgãos, agentes ou mandatários que produzam o inadimplemento de uma obrigação em 
sentido técnico. 
 Assim resulta claramente do 165º («as pessoas colectivas respondem civilmente»: esta 
expressão abrange quer a responsabilidade contratual, quer a extracontratual), aplicável às 
associações, às fundações e também às sociedades, por assim o justificar a analogia das 
situações (175º). 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 52 
 
O princípio geral do nosso código em matéria de responsabilidade contratual, 
está enunciado no 798º.
 Daí resulta ser necessário para o surgimento da obrigação de 
indemnizar que tenha havido culpa do devedor no não cumprimento, estabelecendo-se no 799º 
uma presunção refutável de culpa na caso de não cumprimento defeituoso. Deve, portanto, 
verificar-se a culpa dos órgãos ou agentes da pessoa colectiva pelo inadimplemento da 
obrigação. 
 O 165º estatui que as pessoas colectivas respondem nos mesmos termos em que os 
comitentes respondem pelos actos ou omissões dos seus comissários. Nestes termos, desde 
que o inadimplemento tenha sido culposo e dele resultem danos, o ente colectivo responde 
para com o credor, não se tornando necessário mais nenhum requisito. É o que resulta do 800º 
para o qual se deve considerar como feita remissão do 165º, na hipótese de responsabilidade 
contratual. Aliás, se se considerar que a remissão é feita para o 500º, o que não nos parece 
exacto, o regime é o mesmo em virtude de o inadimplemento da obrigação se dever sempre 
considerar como tendo ocorrido «no exercício da função que lhe foi confiada». 
 
Responsabilidade extracontratual 
 
 A responsabilidade extracontratual das pessoas colectivas é a melhor solução «de jure 
condendo», por força do princípio de justiça segundo o qual quem emprega determinadas 
pessoas para vantagem própria deve suportar os riscos da sua actividade. 
 Ao alargamento das potencialidades do sujeito na satisfação dos seus interesses 
próprios deve corresponder a responsabilidade pelos danos causados por esse alargamento 
(«ubi commoda, ibi incommoda»). 
 A solução afirmativa do problema da responsabilidade extracontratual está 
expressamente consagrada no 165º para os actos praticados por órgãos (representantes), 
agentes ou mandatários. 
 O 165º remete para a responsabilidade dos comitentes por actos dos seus comitidos. 
Tal responsabilidade – na hipótese da responsabilidade aquiliana – consta do 500º, integrado 
nas disposições relativas à responsabilidade pelo risco (responsabilidade objectiva), isto é, em 
que se prescinde da culpa do responsável. Resulta desta disposição que, para a pessoa 
colectiva responder, se devem verificar os pressupostos seguintes: 
 
 1)Que sobre o órgão, agente ou mandatário recaia igualmente a obrigação de 
indemnizar (500º n.º1); 
 
2)Que o acto danoso haja sido praticado pelo órgão, agente ou mandatário no exercício 
da função que lhe foi confiada; 
 
3)Ao lado da pessoa colectiva fica igualmente adstrito à obrigação de indemnizar o 
órgão, agente ou mandatário (500º n.º1); 
 
4)A pessoa colectiva que tiver satisfeito a indemnização ao lesado tem direito de 
regresso contra o órgão, agente ou mandatário, podendo exigir-lhe o reembolso de tudo quanto 
haja pago, desde que tenha havido culpa deste no plano das relações internas. 
 
(II)TEORIA GERAL DO OBJECTO DA RELAÇÃO JURÍDICA 
 
80.Objecto da relação jurídica. Conceito. Objecto e conteúdo 
 
 Fala-se de objecto da relação jurídica para referir o objecto do direito subjectivo que 
constitui o lado activo da mesma relação. 
 O direito subjectivo traduz-se num poder atribuído a uma pessoa. Este poder, e as 
faculdades que o integram, podem, quase sempre, ser exercitados sobre um determinado 
«quid», corpóreo ou incorpóreo. Esse poder e essas faculdades incidem sobre determinado 
ente (coisa ou pessoa); conferem a possibilidade de exercer uma soberania ou domínio sobre 
um bem, sobre um objecto (coisa corpórea ou incorpórea, prestação, pessoa, incluindo um 
determinado modo de ser da própria pessoa, outro direito). 
 O objecto de uma relação jurídica é precisamente o «quid» sobre que incidem os 
poderesdo seu titular activo. A satisfação do interesse, que corresponde ao aspecto funcional 
do direito, exige a subordinação de um bem ao poder do titular do direito. Esse bem, que 
constitui o ponto de incidência do direito, está submetido aos poderes, à supremacia do titular 
activo da relação jurídica e é o objecto desta. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 53 
 Objecto de relações jurídicas (objecto de direitos subjectivos é, pois, todo o «quid», 
todo o ente, todo o bem sobre que podem recair direitos subjectivos). 
 
 Facilmente se distinguem, assim, as noções de objecto de um direito e de conteúdo do 
mesmo direito. 
 
Objecto:
 é aquilo sobre que recaem os poderes do titular do direito. 
 
Conteúdo:
 é o conjunto dos poderes ou faculdades que o direito subjectivo comporta. 
 Objecto do direito de propriedade são os poderes conferidos pelo ordenamento jurídico 
ao proprietário (poderes de usar, fruir, dispor). 
 
 Definido, assim, o objecto das relações jurídicas, mediante uma identificação com o 
bem sobre que incidem os poderes do titular actual, parece dever concluir-se que os direitos 
potestativos não têm objecto. 
 Na verdade o exercício destes direitos não se traduz na incidência de quaisquer 
poderes ou de qualquer domínio sobre um bem submetido a essa supremacia. São direitos a 
uma modificação jurídica (extinção, modificação ou constituição de relações jurídicas). Actuam 
com carácter conformador sobre o mundo, puramente pensado, das relações jurídicas. 
 
81.Objecto imediato e objecto mediato 
 
 Pode distinguir-se entre objecto mediato e imediato dos direitos subjectivos. A distinção 
exprime a diversidade entre aquilo que directamente está submetido aos poderes ideais que 
integram um direito subjectivo e aquilo que só de uma forma mediata ou indirecta, isto é, 
através de um elemento mediador, está submetido àqueles poderes. 
 
 A distinção nem sempre se verifica. 
 Nos direitos reais não há intermediário entre o titular do direito e a coisa. O proprietário, 
o usufrutuário, etc., estão em contacto directo com o objecto do seu direito, colhendo 
directamente dele as respectivas utilidades, sob a tutela do ordenamento jurídico que actua 
positivamente (atribuição de poderes ao proprietário, ao usufrutuário, etc.) e negativamente 
(imposição de um dever geral de abstenção a todos os outros). 
 A distinção verifica-se nas obrigações (direitos de crédito) de prestação de coisa certa 
e determinada. Nelas o objecto imediato do direito do credor é o comportamento do próprio 
devedor, isto é, a prestação, o acto de entrega da coisa. O objecto mediato é a própria coisa 
que deve ser entregue ao credor; na verdade, ao contrário do titular dos direitos reais, o credor 
só tem direito à coisa através da prestação do devedor. Entre o credor (ou o seu direito) e a 
coisa intromete-se a pessoa do devedor. Nas obrigações de prestação de facto (ex.: A obriga-
se para com o empresário B a dar um recital de piano) já a distinção entre objecto imediato e 
objecto mediato se apresenta evanescente. 
 
82.Possíveis objectos de relações jurídicas 
 
 O 202º estabelece equivalência entre o conceito de coisa e o de objecto de relações 
jurídicas e enuncia o artigo seguinte várias classificações das coisas. Cremos, contudo, que 
aquela equivalência não é inteiramente rigorosa, pois as coisas, sendo é certo a espécie mais 
corrente de objectos de relações jurídicas, não esgotam contudo a extensão do conceito de 
objecto jurídico. Quis-se certamente restringir o conceito de coisa àquilo que pode ser objecto 
de direitos, afastando um conceito amplo, puramente filosófico, de coisa. 
 Vejamos de per si cada um dos possíveis objectos de relações jurídicas, quer os que 
inquestionavelmente o são, quer os que suscitam dúvidas. 
 
 1)Pessoas: 
 Estes direitos sobre outras pessoas, nos sistemas jurídicos modernos, têm um 
conteúdo especial, pois não são direitos subjectivos do tipo comum, mas antes poderes-
deveres ou poderes funcionais. Exemplos desta figura são os direitos integrados nos institutos 
de poder paternal e do poder tutelar. 
 
 2)Prestações: 
 Nos direitos de crédito o objecto é uma conduta ou acto humano: a prestação. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 54 
 Nestes direitos o objecto não é rigorosamente uma coisa (res), mas um comportamento 
do devedor (uma actividade nas obrigações de prestação de coisa ou de prestação de facto 
positivo; uma abstenção nas obrigações de prestação de facto negativo, referidas no 829º a). 
 
 3)Coisas materiais ou corpóreas: 
 Nenhuma dúvida se pode suscitar acerca da possibilidade de realidades físicas, 
carecidas de personalidade jurídica (coisas materiais), serem objecto de direitos subjectivos. 
 É, contudo, necessário que estes objectos corpóreos revistam certos requisitos: 
existência autónoma, idoneidade para satisfazer interesses humanos, isto é, devem ser úteis, 
possibilidade de sujeição jurídica ao poder exclusivo de um ou alguns homens, isto é, devem 
ser apropriáveis. 
 
 4)Coisas incorpóreas ou bens imateriais: 
 A actividade espiritual do homem pode ser exercida no sentido da criação de obras, 
produtos do engenho, da inteligência ou da sensibilidade humanas. Em consequência dessa 
aplicação do espírito humano surgem obras artísticas, literárias, cientificas, intelectuais, 
invenções industriais, etc. 
 Estes bens têm valor patrimonial autónomo, pois podem ser explorados 
economicamente. Para além do seu valor patrimonial, alguns deles estão intimamente ligados 
à personalidade do seu autor, pois ela está reflectida na obra criada. Compreende-se assim 
que o direito reconheça esses bens e tutele os aspectos patrimonial e pessoal apontados. 
 
 5)Direitos subjectivos: 
 Pode pôr-se o problema de saber se um direito subjectivo pode constituir objecto de 
outro direito subjectivo. Exemplos: penhor de direitos, usufruto de direitos de crédito, etc.. 
 
 6)A própria pessoa (certas manifestações ou modos de ser físicos ou morais da 
pessoa): 
 Alguns autores contestam veemente a legitimidade da figura dos direitos sobre a 
própria pessoa. Saber se, a esse respeito, se deve falar em direitos sobre certos modos de ser 
da pessoa ou antes em posições jurídicas fundamentais do homem, que são o pressuposto de 
todos os direitos, é um problema de construção dogmática, fundamentalmente teórico, e, 
portanto, de importância limitada no quadro dos fins da ciência do Direito. 
 
(II)As coisas e o património 
 
83.Noção jurídica de coisa 
 
 Num sentido corrente e amplo coisa é tudo o que pode ser pensado, ainda que não 
tenha existência real e presente. 
 Num sentido físico coisa é tudo o que tem existência corpórea ou, pelo menos, é 
susceptível de ser captado pelos sentidos. 
 Quanto ao sentido jurídico de coisa, há que considerar o 202º, onde se contém a 
seguinte definição: «Diz-se coisa tudo aquilo que pode ser objecto de relações jurídicas». 
 
 Não pode considerar-se rigorosa tal definição. Acresce não se divisar um qualquer 
valor operacional ou prático na inclusão de uma definição deste tipo num código, revestindo a 
noção explicitada no 202º um significado puramente expositivo, de tipo manualístico e, nesse 
plano, como dissemos, incorrecto. 
 Com efeito há entes susceptíveis de serem objecto de relações jurídicas que não são 
coisas em sentido jurídico. Pensemos nas pessoas, nas prestações, nos modos de ser ou bens 
da própria personalidade. 
 Quanto aos bens imateriais, objecto dos direitos de autor ou de propriedade industrial, 
e aos direitos, objecto de certas figuras de direitos sobre direitos, podem integrar-se no 
conceito de coisas, embora tenham um regime especial relativamente ao regime geral das 
coisas e não estejam previstas nas várias classificações das coisas enumeradasno 203º. São 
coisas incorpóreas.
 
 Conjugando todas estas ideias podemos definir as coisas em sentido jurídico como «os 
bens (ou os entes) de carácter estático, desprovidos de personalidade e não integradores do 
conteúdo necessário desta, susceptíveis de constituírem objecto de relações jurídicas. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 55 
 Os bens de carácter estático, carecidos de personalidade, só são coisas em sentido 
jurídico quando puderem ser objecto de relações jurídicas. Para esse efeito devem apresentar 
as seguintes características: 
 
 a)Existência autónoma ou separada (uma casa é uma coisa, não sendo todavia cada 
uma das pedras ou das paredes que a integram, enquanto absorvida ou incluída no todo); 
 b)Possibilidade de apropriação exclusiva por alguém
 (não são coisas os bens que 
escapam ao domínio do homem, de qualquer homem, como por exemplo e por enquanto, as 
estrelas, os planetas, etc., ou os que, por falta de possibilidade de delimitação ou captura, são 
necessariamente aproveitados por todos os homens, como por exemplo, a camada 
atmosférica, a luz solar, etc. 
 c)Aptidão para satisfazer interesses ou necessidades humanas (o homem é a 
medida e o critério do relevo jurídico das coisas; por isso não são coisas, pois para nada 
servem, uma gota de agua, um grão de areia, etc.) 
 
Inversamente não é necessário: 
 
 
a)Que se trate de bens de natureza corpórea (a energia eléctrica é uma coisa como o 
são os objectos dos direitos de autor e da propriedade industrial); 
 
b)Que se trate de bens permutáveis, isto é, com valor de troca (pode tratar-se de bens 
com valor meramente pessoal); 
 
c)Que se trate de bens efectivamente apropriados (pode tratar-se das «res nullius», 
como os animais bravios ou os peixes não apropriados, ou de coisas abandonadas; basta, 
portanto, que sejam bens apropriáveis). 
 
 O código civil define no 204º e seguintes as coisas imóveis e móveis, as coisas simples 
e compostas, as coisas fungíveis, as coisas consumíveis, as coisas divisíveis, as coisas 
principais e as coisas acessórias ou pertenças, as coisas futuras. 
 Dá também o conceito de frutos (212º: tudo o que a coisa produz periodicamente, sem 
prejuízo da sua substância), noção muito importante dada a sua aplicação no regime do 
usufruto e da posse (os frutos da coisa cabem ao possuidor da boa fé, mas não já ao possuidor 
de má fé). 
 Definem-se igualmente as benfeitorias (216º: despesas feitas para conservar ou 
melhorar a coisa), noção igualmente importante dada a sua aplicação no regime da posse, do 
arrendamento, etc. O mesmo artigo considera e define três modalidades de benfeitorias: 
necessárias (indispensáveis para manter a coisa), úteis (não são indispensáveis mas mantêm 
o valor da coisa), voluptuárias (destina-se ao recreio). 
 
(III)TEORIA GERAL DO FACTO JURÍDICO 
 
(1)Dos factos jurídicos em geral 
 
(I)Conceitos e Classificações 
 
87.Noção de facto jurídico 
 
 Facto jurídico é todo o acto humano ou acontecimento natural juridicamente relevante. 
Esta relevância jurídica traduz-se, principalmente, senão mesmo necessariamente, na 
produção de efeitos jurídicos. 
 
88.Classificação dos factos jurídicos 
 
 A primeira grande classificação dos factos jurídicos é a que se pode estabelecer entre 
factos voluntários ou actos jurídicos e factos jurídicos involuntários ou naturais. 
 Os primeiros resultam da vontade como elemento juridicamente relevante; são 
manifestação ou actuação de uma vontade; são acções humanas tratadas pelo direito 
enquanto manifestações de vontade. 
 Os segundos são estranhos a qualquer processo volitivo – ou porque resultam de 
causas de ordem natural ou porque a sua eventual voluntariedade não tem relevância jurídica. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 56 
 Os factos jurídicos voluntários podem ser lícitos ou ilícitos. 
 Os actos ilícitos são contrários à ordem jurídica e por ela reprovados; importam uma 
sanção para o seu autor (infractor de uma norma jurídica). 
 Os actos lícitos são conformes à ordem jurídica e por ela consentidos. 
 
 Os factos voluntários ou actos jurídicos podem, segundo outra classificação de carácter 
fundamental, distinguir-se em negócios jurídicos e simples actos jurídicos ou actos jurídicos 
«stricto sensu». Estamos no domínio dos factos voluntários; apesar disso nem sempre os 
efeitos jurídicos respectivos são produzidos por terem sido queridos e na medida em que o 
foram. A distinção entre negócios jurídicos e simples actos jurídicos assenta precisamente 
neste critério da relação que intercede entre a vontade ou volição das partes dirigida a um 
resultado e os efeitos jurídicos produzidos. 
 Os negócios jurídicos são factos voluntários, cujo núcleo essencial é integrado por uma 
ou mais declarações de vontade a que o ordenamento jurídicos atribui efeitos jurídicos 
concordantes com o conteúdo da vontade das partes, tal como este é objectivamente (de fora) 
apercebido. Os efeitos dos negócios jurídicos produzem-se «ex voluntate» e não apenas «ex 
lege». É o que sucede com o testamento e com os contratos. 
 Os simples actos jurídicos são factos voluntários cujos efeitos se produzem, mesmo 
que não tenham sido previstos ou queridos pelos seus autores, embora muitas vezes haja 
concordância entre a vontade destes e os referidos efeitos. Não é, todavia, necessária uma 
vontade de produção dos efeitos correspondentes ao tipo de simples acto jurídico em causa 
para essa eficácia se desencadear. Os efeitos dos simples actos jurídicos ou actos jurídicos 
«stricto sensu» produzem-se «ex lege» e não «ex voluntate». 
 
 Dentro dos simples actos jurídicos é usual fazer-se uma distinção entre: 
 
 Os quase-negócios jurídicos: traduzem-se na manifestação exterior de uma vontade. 
É o caso da interpelação do devedor, da gestão de negócios, da notificação da cessão de 
créditos, etc. 
 Os actos reais ou operações jurídicas:
 traduzem-se na efectivação ou realização de 
um resultado material ou factual a que a lei liga determinados efeitos jurídicos. É o caso da 
acessão (uma coisa de uma pessoa une-se a uma coisa de outra pessoa) industrial (resultado 
de acção humana) ou natural (derivada de causa naturais); da especificação; da ocupação de 
animais ou coisas móveis, da descoberta de um tesouro, etc. 
 
(II)DO NEGÓCIO JURÍDICO E DO SIMPLES ACTO JURÍDICO 
 
(1)Conceito, elementos e classificações 
 
(I)Conceito e elementos 
 
94.Conceito e importância do negócio jurídico 
 
 Os negócios jurídicos são actos jurídicos constituídos por uma ou mais declarações de 
vontade, dirigidas à realização de certos efeitos práticos, com intenção de os alcançar sob 
tutela do direito, determinando o ordenamento jurídico a produção dos efeitos jurídicos 
conformes à intenção manifestada pelo declarante ou declarantes. 
 O que é verdadeiramente constitutivo do negócio é o comportamento declarativo – a 
existência de um comportamento que, exteriormente observado, apareça como manifestação 
de uma vontade de certos efeitos práticos sob a sanção do ordenamento jurídico. 
 
 A importância do negócio jurídico manifesta-se na circunstância de esta figura ser um 
meio de auto-ordenação das relações jurídicas de cada sujeito de direito. Estamos perante o 
instrumento principal de realização do princípio da autonomia da vontade ou autonomia 
privada. 
 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 57 
95.Relação entre a vontade exteriorizada na declaração negocial e os 
efeitos jurídicos do negócio. 
 
 Teoria dos efeitos jurídicos 
 Para esta doutrina os efeitos jurídicos produzidos, tais como a lei os determina, são 
perfeita e completamente correspondentes ao conteúdo da vontade das partes. Os próprios 
efeitos derivadosde normas supletivas resultariam da tácita vontade das partes. Haveria uma 
vontade das partes dirigida à produção de determinados e precisos efeitos jurídicos. 
 Este ponto de vista não fornece o correcto diagnóstico ou o correcto critério para a 
determinação da relação que intercede no negócio jurídico entre a vontade dos seus autores e 
os efeitos jurídicos respectivos. Aliás, a ser esta doutrina correcta, só os juristas 
completamente informados sobre o ordenamento podiam celebrar negócios jurídicos. Ora, o 
que sucede é que as partes dos vários negócios não têm uma representação completa e 
exacta de todos os efeitos que o ordenamento jurídico atribui às suas declarações de vontade. 
 Por outro lado, se é certo que algumas normas supletivas consagram cláusulas usuais 
ou de estilo do comércio jurídico, não é menos verdade que elas só deixam de se aplicar 
quando uma vontade real contrária for manifestada, não bastando provar-se que as partes não 
pensaram no ponto ou até provavelmente não teriam querido aquele regime. 
 
 Teoria dos efeitos práticos 
 Para esta doutrina a teoria dos efeitos jurídicos não é realista – está longe da realidade. 
As partes manifestam apenas uma vontade de efeitos práticos ou empíricos, normalmente 
económicos, sem carácter ilícito. A estes efeitos práticos ou empíricos manifestados, faria a lei 
corresponder efeitos jurídicos concordantes. 
 Também esta concepção é inaceitável. Tal como define o negócio jurídico este não se 
distingue dos compromissos ou convenções celebradas sob o império de outros ordenamentos 
normativos (cortesia, moral, praxes sociais, etc.). 
 
 Teoria dos efeitos prático-jurídicos 
 É o ponto de vista correcto. Os autores dos negócios jurídicos visam certos resultados 
práticos ou materiais e querem realizá-los por via jurídica. Têm, pois, também uma vontade de 
efeitos jurídicos. A vontade dirigida a efeitos práticos, não é única nem é a decisiva – decisivo 
para existir um negócio é a vontade de os efeitos práticos queridos serem juridicamente 
vinculativos, a vontade de se gerarem efeitos jurídicos nomeadamente deveres jurídicos, 
correspondentes aos efeitos práticos. Há uma «intenção dirigida a um determinado efeito 
económico juridicamente garantido». 
 Simplesmente não se trata de uma representação completa dos efeitos jurídicos 
correspondentes àquela vontade de efeitos práticos – esses efeitos jurídicos completos serão 
determinados pela lei. 
 
 Por falta de intenção de efeitos jurídicos nestes termos, distinguem-se os negócios 
jurídicos dos chamados negócios de pura obsequiosidade. Estes são promessas ou 
combinações da vida social, às quais é estranho o intuito de criar, modificar ou extinguir um 
vinculo jurídico (ex.: o convite para um passeio, para um jantar). 
 
 A falta de vontade de efeitos jurídicos distingue, igualmente, os negócios jurídicos do 
chamados gentlemen’s agreements. 
 Estas convenções são combinações sobre a matéria que é normalmente objecto de 
negócios jurídicos, mas que, excepcionalmente, estão desprovidas de intenção de efeitos 
jurídicos. É o caso de um empréstimo de honra ou de uma disposição de bens para depois da 
morte, em que o disponente confia pura e simplesmente na honorabilidade dos herdeiros a 
quem cumpre executar a disposição. 
 
 Pode surgir a dúvida sobre se numa dada hipótese existe um negócio de pura 
obsequiosidade ou um negócio jurídico – ou antes sobre se existe um «agreement» ou um 
negócio jurídico. 
 Se a dúvida for do primeiro, é a parte interessada em demonstrar a existência do 
negócio jurídico que tem o ónus da prova respectivo. Se a dúvida for do segundo tipo, é a parte 
interessada em demonstrar a inexistência da intenção negocial que tem o onus probandi. 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 58 
96.Elementos dos negócios jurídicos 
 
 Elementos essenciais 
 Sendo o negócio jurídico um acto que só desempenha a sua função na medida em que 
for válido, não vemos razão para afastar a sistematização tradicional que considera elementos 
essenciais de todo e qualquer negócio jurídico os requisitos ou condições gerais de validade de 
qualquer negócio. 
São eles a capacidade das partes (e a legitimidade, quando a sua falta implique 
invalidade e não apenas ineficácia), a declaração de vontade sem anomalias e a idoneidade do 
objecto. Existem também as condições especiais de validade, sendo estas a estipulação que 
caracteriza um determinado negócio jurídico. 
 
Elementos naturais 
São os efeitos negociais, derivados de disposições legais supletivas. Não é necessário 
que as partes configurem qualquer cláusula para a produção destes efeitos, podendo, todavia, 
ser excluídos por estipulação antecipadamente formulada. 
São exemplos de normas supletivas, e consequentemente de efeitos correspondentes 
a elementos naturais dos respectivos tipos de negócio jurídico, os artigos 964º (doação), 885º 
(compra e venda), 1030º (locação), etc. 
 
Elementos acidentais 
São as cláusulas acessórias dos negócios jurídicos. Trata-se das estipulações que não 
caracterizam o tipo negocial em abstracto, mas se tornam imprescindíveis para que o negócio 
concreto produza os efeitos a que elas tendem. 
É o caso das cláusulas de juros, da cláusula condicional, submetendo os efeitos do 
negócio a um evento futuro e incerto, da estipulação de lugar e tempo para o cumprimento da 
obrigação, etc. 
 
(II)Classificações dos negócios jurídicos 
 
97.Negócios jurídicos unilaterais e contratos ou negócio jurídicos 
bilaterais 
 
 O código civil contém uma regulamentação geral do negócio jurídico, abrangendo 
assim as duas modalidades. 
 O critério classificativo é o do número e modo de articulação das declarações 
integradoras do negócio. 
 Nos negócios unilaterais há uma só declaração de vontade ou várias declarações, mas 
paralelas, formando um só grupo. 
 Nos contratos ou negócios bilaterais há duas ou mais declarações de vontade, de 
conteúdo oposto, mas convergente, ajustando-se na sua comum pretensão de produzir 
resultado jurídico unitário, embora com um significado para cada parte. Há assim uma oferta ou 
proposta e a aceitação, que se conciliam num consenso. É o caso paradigmático da compra e 
venda. 
 
 Acerca dos negócios unilaterais importa focar as seguintes notas ou 
características do regime dos negócios unilaterais: 
 
1) é desnecessária a aceitação do adversário; 
2) vigora o princípio da tipicidade; 
3) uma importante distinção neste domínio é a que se deve estabelecer entre negócios 
unilaterais receptícios e negócios unilaterais não receptícios; nos primeiros a 
declaração só é eficaz, se for e quando for dirigida e levada ao conhecimento de certa 
pessoa, enquanto nos segundos basta a emissão da declaração, sem ser necessário 
comunicá-la a quem quer que seja. 
 
Alguns exemplos de negócios unilaterais: testamento, renúncia a certos direitos, etc. 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 59 
Acerca dos contratos 
 Não são integrados por dois negócios unilaterais; cada uma das declarações (proposta 
e aceitação) é emitida em vista do acordo. 
 A proposta de contrato é irrevogável depois de chegar ao conhecimento do destinatário 
(230º), mantendo-se durante lapsos de tempo referidos no 228º. 
 Sendo o contrato integrado por duas declarações, põe-se o problema de saber qual o 
momento da sua perfeição. Várias doutrinas abordam a questão: 
a) Doutrina da aceitação: o contrato está perfeito quando o destinatário da proposta 
declarou aceitar a oferta que lhe foi feita; 
b) Doutrina da expedição: o contrato está perfeito quando o destinatário expediu, por 
qualquer meio (telegrama, carta, etc.) a sua aceitação; 
c) Doutrina da recepção: o contrato está perfeito quando a resposta contendo a 
aceitação chega à esferade acção do proponente, isto é, quando o proponente passa 
a estar em condições de a conhecer; 
d) Doutrina da percepção: o contrato só está perfeito quando o proponente tomou 
conhecimento efectivo da aceitação. 
 
Do artigo 224º resulta consagrar o nosso direito a doutrina da recepção, que parece a 
preferível. Não será, todavia, necessário que a declaração chegue ao poder ou à esfera de 
acção do proponente, se, por qualquer meio, foi dele conhecida (224º n.º1). 
Uma importante distinção é a que se faz entre contratos unilaterais e contratos 
bilaterais. 
Os contratos unilaterais geram obrigações apenas para uma das partes. Os contratos 
bilaterais ou sinalagmáticos geram obrigações para ambas as partes, obrigações ligadas entre 
si por um nexo de causalidade ou correspectividade. Assim, a compra e venda, a locação, etc. 
 Importância: a excepção de não cumprimento do contrato (428º) é privativa dos 
contratos bilaterais; mas não já a faculdade de resolução com fundamento em inadimplemento 
ou mora: esta, existindo nos contratos bilaterais, pode ter lugar também nalguns contratos 
unilaterais. 
 Os autores referem também a categoria dos contratos bilaterais imperfeitos. Nestes há 
inicialmente apenas obrigações para uma das partes, surgindo eventualmente mais tarde 
obrigações para a outra parte, em virtude do cumprimento das primeiras e em dados termos. 
Não tem lugar nos contratos bilaterais imperfeitos a condição resolutiva tácita, nem a excepção 
de não cumprimento do contrato. 
 
98.Negócios entre vivos e negócios «mortis causa» 
 
 Os primeiros destinam-se a produzir efeitos em vida das partes; os segundos destinam-
se a só produzir efeitos depois da morte da respectiva parte ou de alguma delas. 
 
 À primeira categoria pertencem quase todos os negócios jurídicos e na sua disciplina 
tem grande importância, por força dos interesses gerais do comércio jurídico, a tutela das 
expectativas da parte que se encontra em face da declaração negocial. 
 Os negócios da segunda categoria são negócios «fora do comércio jurídico», no 
sentido de que, na sua regulamentação, os interesses do declarante devem prevalecer sobre o 
interesse na protecção da confiança do destinatário dos efeitos respectivos. 
 Negócio «mortis causa» é, inequivocamente, o testamento. 
 
 A lei actual proíbe em princípio os pactos ou contratos sucessórios, sob a pena de 
nulidade, apenas admitindo nalguns casos particulares (2028º). Nestes termos, é nulo, por 
exemplo, um contrato de alienação da própria herança mediante um preço ou uma renda 
vitalícia. 
 A regra de proibição dos pactos sucessórios comporta excepções. O código considera 
lícitas certas disposições por morte feitas em convenção antenupcial. Tais convenções podem 
ser, fundamentalmente, de dois tipos: 
a) Instituição contratual de herdeiro ou legatário em favor de qualquer dos esposados, 
feita pelo outro esposado ou por terceiro (1700 n.º1 a)); 
b) Instituição contratual de herdeiro ou legatário em favor de terceiros, feita por qualquer 
dos esposados (1700º n.º 1 b)). 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 60 
99.Negócios consensuais ou não solenes e negócios formais ou solenes 
 
 Os negócios formais ou solenes são aqueles para os quais a lei prescreve a 
necessidade da observância de determinada forma, o acatamento de determinado formalismo 
ou de determinadas solenidades. 
 Os negócios não solenes (consensuais, tratando-se de contratos) são os que podem 
ser celebrados por quaisquer meios declarativos aptos a exteriorizar a vontade negocial; a lei 
não impõe uma determinada roupagem exterior para o negócio. 
 Quando o negócio é formal, as partes não o podem realizar por todo e qualquer 
comportamento declarativo; a declaração negocial deve, nos negócios formais, realizar-se 
através de certo tipo de comportamento declarativo imposto pela lei (por escrito, através de 
certo tipo de documento, mediante uma cerimonia, etc.). 
 
 Quando, nos casos excepcionais em que a lei prescrever uma certa forma (casos que, 
embora representem uma excepção, são numerosos e frequentes), esta não for observada, a 
declaração negocial é nula. 
 Quanto às noções de documento autêntico e documento particular elas estão no 363º. 
 
Documento autêntico:
 são os documentos exarados, com as formalidades legais, 
pelas autoridades publicas nos limites da sua competência ou, dentro do círculo de actividade 
que lhe é atribuído, pelo notário ou outro oficial público provido de fé pública. 
 Documento particular: todos os outros. 
 
100.Negócios reais 
 
 São aqueles negócios em que se exige, além das declarações de vontade das partes, 
formalizadas ou não, a prática anterior ou simultânea de um certo acto material. Os negócios 
reais podem ser classificados quanto aos efeitos e quando à sua constituição. 
 
101.Negócios obrigacionais, reais, familiares e sucessórios 
 
 O critério desta classificação diz respeito à natureza da relação jurídica constituída, 
modificada ou extinta pelo negócio. 
 A sua importância resulta da diversa extensão que o princípio da liberdade contratual 
(405º) reveste cada uma das categorias. 
 
 Quanto aos negócios sucessórios:
 este princípio sofre importantes restrições, 
resultantes de algumas normas imperativas do direito das sucessões. 
 Quanto aos negócios familiares pessoais: a liberdade contratual está praticamente 
excluída, podendo apenas os interessados celebrar ou deixar de celebrar o negócio, mas não 
podendo fixar-lhe livremente o conteúdo, nem podendo celebrar contratos diferentes dos 
previstos na lei. 
 Quanto aos negócios familiares patrimoniais: existe, com alguma largueza, a 
liberdade de convenção (1698º), sofrendo embora restrições (1699º, 1714º). 
 Quanto aos negócios reais:
 o princípio da liberdade contratual sofre considerável 
limitação derivada o princípio da tipicidade, visto que «não é permitida a constituição, com 
carácter real, de restrições ao direito senão nos casos previstos na lei» (1306º). Só podem 
constituir-se direitos reais típicos, embora essa constituição possa resultar de um negócio 
inominado ou atípico. 
 No domínio dos negócios obrigacionais:
 vigora o princípio da liberdade negocial, 
quase inconfinadamente, quanto aos contratos, abrangendo a liberdade de fixação do 
conteúdo dos contratos típicos, de celebração de contratos diferentes dos previstos na lei e de 
inclusão nestes de quaisquer cláusulas (405º); quanto aos negócios unilaterais, vigora, porém, 
o princípio da tipicidade (457º). 
 
102.Negócios patrimoniais e negócios pessoais 
 
 O critério distintivo é, também, o da natureza da relação jurídica a que o negócio se 
refere. 
 Os negócios pessoais são negócios cuja disciplina, quanto a problemas como o da 
interpretação do negócio jurídico e o da falta ou dos vícios da vontade, não tem que atender às 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 61 
expectativas dos declaratários e aos interesses gerais da contratação. Na disciplina dos 
negócios patrimoniais, por exigência de tutela da confiança do declaratário e dos interesses do 
tráfico, a vontade manifestada ou declarada triunfa sobre a vontade real, assim se 
reconhecendo «o valor social da aparência». 
 
103.Negócios onerosos e negócios gratuitos 
 
 A importância da distinção manifesta-se, por exemplo, em matéria da impugnação 
pauliana (612º), de protecção do terceiro adquirente de boa fé «a non domino», etc. 
 Como ideia geral pode reter-se a constatação de, nas doações (paradigma dos 
negócios gratuitos), se valorizarem frequentemente os interesses de terceiros e os do doador 
em maior medida do que os do donatário, quanto aos problemas em que está em causa a 
subsistência da doação. 
 
 A distinção dos negócios jurídicos em onerosos e gratuitos tem comocritério o 
conteúdo e finalidade do negócio nos termos que a seguir se evidenciam. 
 Os negócios onerosos pressupõem atribuições patrimoniais de ambas as partes, 
existindo, segundo a perspectiva destas, um nexo ou relação de correspectividade entre as 
referidas atribuições patrimoniais (normalmente traduzidas em prestações). Cada uma das 
partes faz uma atribuição patrimonial que considera retribuída ou contrabalançada pela 
atribuição da contraparte. 
 Cada uma das prestações ou atribuições é o correspectivo (a contrapartida) da outra, 
pelo que, se cada parte obtém da outra uma vantagem, está a pagá-la com um sacrifício que é 
visto pelos sujeitos do negócio como correspondente. 
 Não é necessário um equilíbrio ou uma equivalência das prestações ou atribuições 
patrimoniais, consideradas pelo seu valor objectivo ou normal. 
 
 Os negócios gratuitos
 caracterizam-se, ao invés, pela intervenção de uma intenção 
liberal (animus donandi). Uma parte tem a intenção, devidamente manifestada, de efectuar 
uma atribuição patrimonial a favor de outra, sem contrapartida ou correspectivo. A outra parte 
procede com a consciência e vontade de receber essa vantagem sem um sacrifício 
correspondente. 
 Nos negócios gratuitos cria-se – e há acordo das partes sobre este ponto – uma 
vantagem patrimonial para um dos sujeitos sem nenhum equivalente. O acto é a título gratuito 
quando for realizado com uma particular intenção ou causa que é a de proporcionar uma 
vantagem à outra parte. 
 
104.Contratos comutativos e contratos aleatórios 
 
 É uma subdivisão a estabelecer dentro dos contratos onerosos. 
 Nos contratos aleatórios as partes submetem-se a uma álea, a uma possibilidade de 
ganhar ou perder. A onerosidade consiste na circunstância de ambas estarem sujeitas ao risco 
de perder, embora, no final de contas, só uma venha a ganhar. 
 Pode haver uma só prestação, dependendo de um facto incerto a determinação de 
quem a realizará (aposta, certos tipos de jogo), pode haver uma prestação certa e outra 
incerta, de maior montante do que aquele (seguro de responsabilidade civil, de incêndio, etc.), 
pode haver duas prestações certas na sua existência, mas uma delas é incerta no seu 
«quantum» (seguro de vida). 
 Exemplos: jogo, aposta, seguro, etc. Os contratos de jogo e de aposta não são 
contratos válidos, nem constituem fonte de obrigações civis. 
 
105.Negócios parciários 
 
 São um subespécie dos negócios onerosos. Caracterizam-se pelo facto de uma pessoa 
prometer certa prestação em troca de uma qualquer participação nos proveitos que a 
contraparte obtenha por força daquela prestação. 
 Exemplos: parceria pecuniária (1121º); certas formas de sociedade; o usualmente 
chamado contrato de consignação (contrato estimatório), nos termos do qual uma das partes 
remeta à outra tantas unidades de certa mercadoria, para que esta as venda, com o direito de 
uma participação nos lucros e a obrigação de restituir as unidades não vendidas, etc. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 62 
(II)ELEMENTOS ESSENCIAIS DO NEGÓCIO JURÍDICO 
 
(1)Capacidade e legitimidade 
 
107.Remissão 
 
 São requisitos ou pressupostos gerais de validade dos negócios jurídicos a capacidade 
e a legitimidade. 
 A capacidade:
 traduz-se num modo de ser ou qualidade do sujeito em si. No domínio 
dos negócios jurídicos fala-se de capacidade negocial de gozo (ou capacidade jurídica 
negocial) e de capacidade negocial de exercício. Estas noções traduzem-se na referência a 
este domínio das noções mais genéricas de capacidade jurídica e de capacidade para o 
exercício de direitos. 
 
A capacidade negocial de gozo:
 é a susceptibilidade de ser titular de direitos e 
obrigações derivados de negócios jurídicos. 
 A capacidade negocial de exercício: é a idoneidade para actuar juridicamente, 
exercendo ou adquirindo direitos, cumprindo ou assumindo obrigações, por actividade própria 
ou através de um representante voluntário. 
 A legitimidade:
 é uma relação entre o sujeito e o conteúdo do acto (a relação jurídica 
que está em jogo no negócio). 
 
(2)A declaração negocial 
 
(I)Noções gerais 
 
108.A declaração negocial como verdadeiro elemento do negócio jurídico 
 
 Trata-se de um verdadeiro elemento do negócio, uma realidade componente ou 
constitutiva da estrutura do negócio. 
 A declaração negocial é um elemento verdadeiramente integrante do negócio jurídico, 
conduzindo a sua falta à inexistência material do negócio. 
 
109.Conceito de declaração negocial 
 
 Pode definir-se a declaração de vontade negocial como o comportamento que, 
exteriormente observado, cria a aparência de exteriorização de um certo conteúdo de vontade 
negocial, caracterizando, depois, a vontade negocial como o intenção de realizar certos efeitos 
práticos, com ânimo de que sejam juridicamente tutelados e vinculantes. Dá-se assim um 
conceito objectivista de declaração negocial, fazendo-se consistir a sua nota essencial, não 
num elemento interior – uma vontade real, efectiva, psicológica –, mas num elemento exterior – 
o comportamento declarativo. 
 O comportamento externo, em que se traduz a declaração, manifesta normalmente 
uma vontade, formada sem anomalias e coincidente com o sentido exteriormente captado 
daquele comportamento. 
 A declaração pretende ser o instrumento de exteriorização da vontade psicológica do 
declarante – essa é a sua função. É porém, à luz das soluções dispensadas pelo ordenamento 
jurídico a uma série de problemas, que se deve definir, com coerência, o conceito de 
declaração negocial, realçando o aspecto subjectivista (vontade manifestada, manifestação de 
vontade, etc.) ou o aspecto objectivista (comportamento objectivo, aparência de vontade, acto 
social, etc.). 
 Os problemas decisivos para o efeito de determinar o conceito de declaração negocial 
– correspondente aos dados do sistema – são o da divergência entre a vontade e a declaração 
e dos vícios de vontade, o da interpretação da declaração negocial, etc. Tais problemas têm 
subjacente um conflito entre os interesses do declarante, por um lado, e os do declaratário e do 
comércio jurídico, por outro. 
 Ora, o direito civil conhece hoje um estádio de evolução que põe na primeira linha a 
protecção das expectativas dos declaratários e da segurança do comércio jurídico, dando 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 63 
assim relevância à «aparência» e a uma «exigência de cognoscibilidade», a expensas da 
vontade real e psicológica. 
 
 O código civil não toma partido, directamente, como é natural, numa questão 
dogmática; mas é manifesto o intuito do legislador de se não comprometer, sequer ao nível 
terminológico, com as concepções voluntarísticas, pois não emprega a expressão «declaração 
de vontade», falando antes em «declaração negocial». 
 
110.Breve referência aos actos jurídicos de natureza não negocial 
 
 A lei portuguesa começa logo por regular a problemática posta pelo negócio jurídico, 
alude a «actos jurídicos que não sejam negócios jurídicos», mas não toma posição sobre qual 
a compreensão ou a extensão da categoria «negócio jurídico», reservando assim esse domínio 
à doutrina. 
 
 Foram já definidos os conceitos de negócio jurídico e de acto não negocial (simples 
acto jurídico), fazendo-se agora remissão para as noções então formuladas. 
 O 295º manda aplicar aos actos negociais as disposições da doutrina geral do negócio 
jurídico, na medida em que a analogia das situações o justifique. Daí se infere que não se 
aplicarão aquelas normas, sempre que não haja uma verdadeira analogia de situações. 
 
 Aos actos pessoais (perfilhação, adopção, etc.), e mesmo que a lei o não diga 
expressamente, não se aplicam, portanto, as disposições inspiradas pela tutela da confiança 
dos declaratários e dasegurança e celeridade do comércio jurídico. 
 Quanto aos actos mais correntemente qualificados como simples actos jurídicos ou 
actos não negociais (ex.: interpelação do devedor, gestão de negócios, domicilio voluntário 
geral, certas notificações, etc.), quais as normas da regulamentação geral do negócio jurídico 
aplicáveis ou não, segundo o critério da analogia das situações? 
 Os quase-negócios jurídicos ou actos jurídicos quase-negociais traduzem-se na 
manifestação exterior de uma vontade e existe quase sempre uma consciência e até uma 
intenção de relevância jurídica da vontade exteriorizada. Aplicar-se-lhe-ão, em regra, as 
normas sobre capacidade, recepção da declaração pelo destinatário, interpretação, vícios da 
vontade e representação. 
 As operações jurídicas ou actos materiais ou actos reais traduzem-se na efectivação ou 
realização de um resultado material ou factual, a que a lei liga determinados efeitos jurídicos; 
desencadeiam, por força da lei, a produção desses efeitos, embora normalmente ou, pelo 
menos, frequentemente estes não sejam visados. Não se exige para a produção dos 
respectivos efeitos a capacidade, nem se aplicam, em geral, os preceitos sobre vícios da 
vontade, interpretação, recepção de declarações, representação. 
 
111.Elementos constitutivos normais da declaração negocial 
 
 Numa declaração negocial podem distinguir-se normalmente os seguintes elementos: 
a) A declaração propriamente dita (elemento externo) – consiste no comportamento 
declarativo; 
b) A vontade (elemento interno) – consiste no querer, na realidade volitiva que 
normalmente existirá e coincidirá com o sentido objectivo da declaração. 
 
O elemento interno – a vontade real – pode decompor-se analiticamente em três 
subelementos. 
 
 A vontade de acção 
 Consiste na voluntariedade (consciência e intenção) do comportamento declarativo. 
 Pode faltar a vontade de acção. Assim acontece se uma pessoa, por acto reflexo ou 
distraidamente, sem se aperceber do facto, faz um gesto e este objectivamente aparece como 
uma declaração negocial (ex.: aceitação de uma proposta). É igualmente o caso da coacção ou 
violência absoluta (coacção física) – é esta a hipótese mais viável e significativa de falta de 
vontade de acção. 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 64 
A vontade da declaração ou vontade da relevância negocial da acção 
 Consiste em o declarante atribuir ao comportamento querido o significado de uma 
declaração negocial. Este subelemento só está presente, se o declarante tiver a consciência e 
a vontade de que o seu comportamento tenha significado negocial vinculativo – consciência e 
vontade de que o seu comportamento produza efeitos negociais no campo do direito. A 
declaração deve corresponder a um «sic volo sic jubeo», vinculativo do declarante. 
 Pode faltar a vontade da declaração. Uma pessoa, julgando subscrever uma simples 
ficha de assinatura para o arquivo de um banco, assina uma declaração negocial. Um indivíduo 
entra num leilão e faz um gesto de saudação a um amigo; segundo as praxes do lugar esse 
facto significa uma oferta de certa importância pelo objecto leiloado. 
 
 A vontade negocial, vontade do conteúdo da declaração ou intenção do resultado 
 Consiste na vontade de celebrar um negócio jurídico de conteúdo coincidente com o 
significado exterior da declaração. É uma vontade efectiva correspondente ao negócio concreto 
que apareceu exteriormente declarado. 
 Pode haver um desvio na vontade negocial. É o caso de o declarante ter atribuído aos 
termos da declaração um sentido diverso do sentido que exteriormente é captado. 
 Uma pessoa quer comprar a Quinta do Mosteiro e declara querer comprar a Quinta da 
Capela – que é um outro prédio – por julgar erradamente que este é o seu nome. 
 
 Constatamos, portanto, poder verificar-se uma falta de vontade de acção, uma falta de 
vontade da declaração e um desvio na vontade negocial. Em todos estes casos surge um 
dissídio, uma divergência, entre a vontade e a declaração. 
 Tal divergência pode, aliás, resultar ainda de um desvio na vontade de acção (lapsus 
linguae ou lapsus calami). O declarante quer escrever uma coisa e engana-se ao escrever. 
 
112.Declaração negocial expressa e declaração negocial tácita 
 
 Generalidades 
 Os negócios jurídicos realizam uma ampla autonomia privada, como já se sabe, na 
medida em que, quanto ao seu conteúdo, vigora o princípio da liberdade negocial (405º). 
Quanto à forma é igualmente reconhecido pelo ordenamento jurídico um critério de liberdade : 
princípio da liberdade declarativa. Tal princípio está consagrado nos 217º e 219º. 
 Por vezes, a lei exige, porém, que a declaração negocial seja expressa. Ex.: 957º, 731º 
 Outras vezes a lei tem o cuidado de frisar que um certo negócio pode ter lugar por 
declaração tácita (ex.: 302º, 2056º), o que já resultaria do princípio geral do 217º. 
 Os termos da distinção 
 O critério da distinção entre declaração tácita e declaração expressa consagrada pela 
lei (217º) é o proposto pela teoria subjectiva: a declaração é expressa quando feita por 
palavras, escrito ou quaisquer outros meios directos, frontais, imediatos de expressão da 
vontade e é tácita quando do seu conteúdo directo se infere um outro, isto é, quando se destina 
a um certo fim, mas implica e torna cognoscível, a latere, um autoregulamento sobre outro 
ponto – em via oblíqua, imediata, lateral – («quando se deduz de factos que, com toda a 
probabilidade, a revelam»). 
 Resulta claramente da formulação legal que a inequivocidade dos factos concludentes 
não exige que a dedução, no sentido do autoregulamento tacitamente expresso, seja forçosa 
ou necessária, bastando que, conforme os usos do ambiente social, ela possa ter lugar com 
toda a probabilidade. 
 
113.O valor do silêncio como meio declarativo 
 
 Trata-se, principalmente, de saber se o silêncio – entendido não apenas como um 
«nada dizer», mas como um «nada fazer», uma total omissão – pode considerar-se um facto 
concludente (declaração tácita) no sentido da aceitação de propostas negociais. 
 O código civil resolve o problema no 218º, estabelecendo que o silêncio não vale como 
declaração negocial, a não ser que esse valor lhe seja atribuído por lei, convenção ou uso. 
 Repudia-se, pois, o velho brocardo do direito canónico «qui tacet consentire videtur», 
mesmo que o sujeito pudesse e devesse falar, pois a atribuição ao silêncio do valor de 
consenso negocial, não é, como regra geral, razoável. Só lhe caberá tal significado, havendo 
norma legal ou convenção das partes nesse sentido, bem como na hipótese de um uso 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 65 
prevalente em certo círculo social (uso geral, v.g., no caso de uma pessoa enviar 
habitualmente a outra mercadorias que esta recebe, sem aceitar nem rejeitar, e paga em 
devido tempo, criando-se entre ambas uma prática deste tipo). 
 É a solução mais razoável. Seria inaceitável dar expressão legislativa ao tópico «quem 
cala consente». Com efeito, o silêncio é, em si mesmo, insignificativo e quem cala pode 
comportar-se desse modo pelas mais diversas causas, pelo que deve considerar-se irrelevante 
– sem querer dizer sim, nem não – um comportamento omissivo. 
 
114.Declaração negocial presumida. Declaração negocial ficta 
 
 
A declaração negocial presumida
 tem lugar quando a lei liga a determinado 
comportamento o significado de exprimir uma vontade negocial, em certo sentido, podendo 
ilidir-se tal presunção mediante prova em contrário (350º n.º1 e 2). 
 
A declaração negocial ficta
 tem lugar sempre que a um comportamento seja atribuído 
um significado tipicizado, sem admissão de prova em contrário (350º n.º2 no fim). 
 
115.Protesto e reserva 
 
 Emitido certo comportamento declarativo, pode o seuautor recear que lhe seja 
imputado, por interpretação, um certo sentido. Para o impedir, o declarante afirma abertamente 
não ser esse o seu intuito. 
 A esta contradeclaração dá-se o nome de protesto. O protesto tem o nome de reserva 
(subespécie de protesto), quando consiste na declaração de que um certo comportamento não 
significa renúncia a um direito próprio, ou reconhecimento de um direito alheio. Exemplos: o 
mutuante recebe certa importância, a título de juros, mas, julgando ter direito a receber mais, 
declara não prescindir do excedente. 
 Afirma-se comummente que o protesto não vale quando o comportamento declarativo 
só consente a interpretação contra a qual o declarante se quer acautelar. 
 
116.Forma da declaração negocial 
 
 Vantagens e inconvenientes do formalismo negocial (pág. 430) 
 
 Ponderando as vantagens e inconvenientes do formalismo negocial, sancionou o CC 
(219º) o princípio da liberdade de forma ou da consensualidade (sendo este último termo 
rigoroso, apenas, para os contratos). 
 O formalismo exigível para um certo negócio pode ser imposto pela lei (forma legal) ou 
resultar de uma estipulação ou negócio jurídico das partes (forma convencional), como 
acontece, por exemplo, quando durante as negociações prévias se convenciona que o futuro 
ou os futuros negócios entre as partes se deverão revestir de certa forma. 
 O problema da legitimidade da forma convencional é debatido na doutrina; o CC 
resolveu-o no sentido da admissibilidade e eficácia dos negócios determinativos da forma 
(223º). É óbvio, porém, que o reconhecimento das estipulações das partes sobre forma do 
negócio não significa que os particulares possam afastar, por acordo, as normas legais que 
exigem requisitos formais para certos actos, pois trata-se de normas imperativas. O 
reconhecimento da forma convencional significa, apenas, poderem as partes exigir 
determinados requisitos para um acto, pertencente a um tipo negocial que a lei regula não 
formal ou sujeita a um formalismo menos solene. 
 
 Âmbito da forma exigida 
 No que toca ao problema de saber quais as cláusulas ou estipulações negociais a que 
a forma legal é aplicável, quanto exigida, MANUEL ANDRADE entendia que a forma abrangia, 
não só as cláusulas essenciais do negócio jurídico, mas também as estipulações acessórias, 
típicas ou atípicas, quer as contemporâneas da conclusão do negócio, quer as subsequentes, 
mas já se não estenderia tal exigência aos chamados pactos abolitivos ou extintivos. 
 O CC consagrou esta regra, na medida em que estatui, em princípio, que as 
estipulações acessórias anteriores ao negócio ou contemporâneas dele devem revestir a forma 
exigida pela lei para o acto, sob pena de nulidade (221º). Admitem-se, contudo, na mesma 
disposição, restrições a este princípio. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 66 
 Reconhece-se a validade de estipulações verbais anteriores ao documento exigido 
para a declaração negocial ou contemporâneas dele, desde que se verifiquem, 
cumulativamente, as seguintes condições: 
 
a) Que se trate de cláusulas acessórias – não deve tratar-se de estipulações essenciais 
e parece dever igualmente tratar-se de estipulações adicionais, que complementem o 
documento, que estejam para além do conteúdo do mesmo e não de estipulações que 
o contradigam, que estejam em contrário dele. 
b) Que não sejam abrangidas pela razão de ser da exigência do documento – por 
exemplo, nada se diz num contrato de compra e venda sobre o lugar e tempo de 
pagamento do preço, mas prova-se que as partes convencionaram verbalmente que o 
preço seria pago em certo local e data; parece que tal acordo verbal deve ser 
respeitado, não havendo lugar à aplicação de quaisquer normas supletivas. 
c) Que se prove que correspondem à vontade das partes – este requisito é óbvio, pois 
traduz-se na prova de que a estipulação existiu; se sobre o ponto acessório há cláusula 
no documento, o pacto verbal não será válido, pois tem de se admitir que as partes, 
regulando aquele ponto no documento, não quiseram de todo o pacto verbal anterior 
ou contemporâneo. Por outro lado, é manifesto que há uma presunção natural de o 
documento ser completo, pelo que, na dúvida sobre a existência de uma estipulação 
acessória, anterior ou simultânea, adicional, é de decidir contra a sua existência. 
 
Tome-se, todavia, em atenção que a possibilidade de as estipulações acessórias não 
formalizadas, a que se refere o 221º, produzirem efeitos é bem menor do que «prima facie» 
pode parecer. Isto dado o disposto no 394º que declara inadmissível a prova por testemunhas, 
se tiver por objecto convenções contrárias ou adicionais ao conteúdo de documentos 
autênticos ou particulares. 
 Assim se defende o conteúdo dos documentos contra os perigos da precária prova 
testemunhal. Da coordenação do 221º com o 394º resulta que as estipulações adicionais não 
formalizadas, anteriores ou contemporâneas do documento, não abrangidas pela razão 
determinante da forma, só produzirão efeitos, se tiver lugar a confissão ou se forem provadas 
por documento embora menos solene do que o exigido para o negócio. 
 
Consequências da inobservância da forma 
 
A) Distinção doutrinal entre formalidades substanciais (são insubstituíveis por outro 
género de prova, gerando a sua falta a nulidade do negócio) e formalidades probatórias (a 
sua falta pode ser suprida por outros meios de prova mais difíceis de conseguir [ex.: 
confissão]). 
B) Consequências da inobservância da forma no nosso direito: 
 
a) Inobservância da forma legal:
 em conformidade com a orientação da generalidade 
das legislações e com os motivos de interesse público que determinam as exigências legais de 
forma, o CC liga à inobservância da forma legal a nulidade, e não mera anulabilidade. 
Poderá parecer, à primeira vista, que tal solução conduzirá a resultados injustos. Com 
efeito, nula, por falta de forma, uma compra em que o comprador já pagou o preço ou um 
mútuo em que a quantia mutuada já foi entregue ao mutuário, parece que haveria um 
locumpletamento injusto do vendedor ou do mutuário, pois não seria obrigado a entregar a 
coisa vendida ou a restituir a importância recebida, dada a nulidade dos contratos donde 
resultaria essa obrigação. 
Não se verifica, todavia, tal locumpletamento à custa alheia, pois, uma vez declarado 
nulo o negócio, deverá ser restituído tudo o que tiver sido prestado em consequência do 
negócio viciado. É o que resulta do 289º. 
A nulidade deixará de ser a sanção para a inobservância da forma legal, sempre que, 
em casos particulares, a lei determine outra consequência (220º). Pode suscitar-se, a este 
propósito, o problema de saber se o nosso direito, nalguns casos, não considerará certas 
formalidades como simplesmente probatórias. 
Há que tomar em conta o 364º integrado nas disposições sobre direito probatório 
material constantes do mesmo. Aí se reafirma no n.º1 o princípio geral, segundo o qual os 
documentos autênticos, autenticados ou particulares são formalidades substanciais. No n.º2, 
são expressa, se resultar claramente da lei que foi exigido apenas para prova da declaração. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 67 
Donde se infere que quaisquer documentos (autênticos ou particulares) serão formalidades 
probatórias, nos casos excepcionais em que resultar claramente da lei que a finalidade tida em 
vista ao ser formulada certa exigência de forma foi apenas a de obter prova segura acerca do 
acto e não qualquer das outras finalidades possíveis do formalismo negocial (obrigar as partes 
a reflexão sobre as consequências do acto, assegurar a reconhecibilidade do acto por terceiros 
ou o seu controle no interesse da comunidade, etc.). 
Na doutrina nacional e estrangeira já se tem posto o problema de saber se a 
possibilidadede invocação da nulidade por vício de forma não pode ser excluída por aplicação 
da cláusula geral de boa fé ou do abuso de direito, entre nós sancionada no 334º: «É ilegítimo 
o exercício de um direito, quando o titular excede manifestamente os limites impostos pela boa 
fé, pelos bons costumes ou pelo fim social ou económico desse direito». 
Deverá admitir-se a invocação da nulidade com fundamento em vício de forma, quando 
essa invocação por uma das partes constitua um abuso de direito, isto é, quando o 
comportamento do invocante, globalmente considerado, seja intoleravelmente ofensivo do 
nosso sentido ético-jurídico? 
Assim, por exemplo, será verdadeiramente escandalosa, «excedendo manifestamente 
os limites impostos pela boa fé, pelos bons costumes ou pelo fim social ou económico desse 
direito» (334º), a arguição da nulidade, com fundamento em vício de forma, por um contratante 
que a provocou, fazendo como que falsificar por outrem a sua própria assinatura ou induzindo 
dolosamente a outra parte a não insistir pela formalização do negócio ou procedendo em 
termos de criar na outra parte a expectativa de que a nulidade jamais seria arguida, aceitando, 
v.g., públicos, reiterados e dispendiosos testemunhos de gratidão por uma liberdade feita, aliás, 
sem a forma devida. 
MANUEL DE ANDRADE inclinava-se, embora não categoricamente, para a solução da 
improcedência da arguição da nulidade, quando esta arguição revista as características de um 
abuso de direito. 
Sem dúvida que a aplicação das regras de forma pode conduzir a uma ou outra 
solução de menos equidade, não podendo, todavia, afastar-se a sua aplicação nesses casos, 
pois trata-se de um preço conscientemente pago para fruir o rendimento social correspondente 
às vantagens do formalismo negocial. Entre essas vantagens está a criação e tutela do valor 
de segurança jurídica, que só pode ser plenamente realizado, sacrificando o critério de «justiça 
de cada caso». Esta perspectiva é correcta, pois, de outro modo, renunciar-se-ia à realização 
do interesse público que subjaz à formulação das exigências de formalismo negocial. 
 
b) Inobservância da forma convencional:
 rege a este respeito o 223º. É óbvio que, 
tratando-se de averiguar quais as consequências da falta de requisitos formais que a lei não 
exige, mas as partes convencionaram, a resposta ao problema posto deve ser pedida, em 
primeiro lugar, à vontade das partes. O 223º limita-se a estabelecer presunções que, como 
todas as presunções legais, são em princípio meramente relativas ou «iuris tantum» (350º). 
Essas presunções são duas, variando com o facto que é base da presunção. Assim: 
 
1. Se a forma especial foi estipulada antes da conclusão do negócio, consagra-se 
um presunção de essencialidade, isto é, presume-se que, sem a observância da forma, 
o negócio é ineficaz; a forma tem pois carácter constitutivo; 
2. Se a forma foi convencionada após o negócio ou simultaneamente com ele, 
havendo, nesta última hipótese, fundamento para admitir que as partes se quiseram 
vincular desde logo, presume-se que as partes não quiseram substituir o negócio, 
suprimindo-o e concluindo-o de novo, mas apenas visaram consolidá-lo ou qualquer 
outro efeito. 
 
117.Perfeição da declaração negocial 
 
 Como já se disse, a declaração negocial com um destinatário ganha eficácia logo que 
chegue ao seu poder ou é dele conhecida. As declarações não receptivas tornam-se eficazes 
logo que o vontade se manifesta na forma adequada. 
 Viu-se também que desta doutrina constante do 224º, decorre ter a nossa lei optado 
pela doutrina da recepção quanto ao momento da conclusão dos contratos. Quer dizer: o 
contrato está perfeito quando a resposta, contendo a aceitação, chega à esfera de acção do 
proponente, isto é, quando o proponente passa a estar em condições de a conhecer. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 68 
 Sabe-se já também que a proposta de contrato, depois de recebida pelo destinatário ou 
de ser dele conhecida, é irrevogável. Esta só poderá eventualmente ficar sem efeito, se o 
destinatário receber uma retractação do proponente ou dela tiver conhecimento, antes de 
receber a proposta ou ao mesmo tempo que esta (230º n.º2). Não vigora, pois, entre nós, a 
doutrina que admite a revogação da proposta se a referida revogação chegar ao destinatário 
antes de este ter expedido a aceitação. 
 Em coerência com a irrevogabilidade, a morte ou a incapacidade do proponente não 
obstam à conclusão do contrato, salvo se outra tivesse sido a sua vontade presumível (226º). 
Uma proposta é rejeitada, se foi aceite com aditamentos, limitações ou outras modificações. Se 
a modificação for suficientemente precisa, a aceitação vale, porém, em princípio, como nova 
proposta (233º). 
 A retractação ou revogação da proposta ou da aceitação tem lugar – repete-se –, se a 
declaração revogatória chegou ao poder da outra parte ao mesmo tempo ou antes do que as 
declarações de proposta ou de aceitação; releva, para este efeito, a relação temporal da 
possibilidade de conhecimento, não a ordem do conhecimento efectivo. 
 Registe-se que uma proposta contratual só existirá se for suficientemente precisa, dela 
resultar a vontade de o seu autor se vincular e houver consciência de se estar a emitir uma 
verdadeira declaração negocial. 
 Quando se dirige uma proposta a pessoas indeterminadas, deve entender-se que em 
princípio existe apenas um convite para contratar (ex.: se alguém anuncia num jornal que 
vende certas mercadorias a tanto por quilograma ou envia a lista de preços). 
 Em relação com esta matéria da perfeição da declaração negocial e da formação dos 
contratos, merece destaque o 227º que manda pautar a conduta das partes pelos princípios da 
boa fé, entendida esta num sentido ético, quer durante a fase negociatória, quer durante a fase 
decisória (proposta e aceitação do contrato. 
 Esta responsabilidade pré-contratual tanto vale no caso de ruptura de negociações, 
como no de o contrato se concluir e vir a ser nulo ou ineficaz. 
 O dano a ser ressarcido pela responsabilidade pré-contratual é o chamado dano da 
confiança, resultante de lesão do interesse contratual negativo. Quer dizer: deve colocar-se o 
lesado na situação em que estaria, se não tem chegado a depositar uma confiança, afinal 
frustrada, na celebração dum contrato válido e eficaz. Coisa diversa seria a reparação do 
interesse contratual positivo, que consistiria em colocar as coisas na situação correspondente 
ao cumprimento de um contrato válido. 
 
(II)Interpretação e integração dos negócios jurídicos 
 
(1)Interpretação 
 
118.Em que consiste o problema. Posições possíveis 
 
 O negócio jurídico, como qualquer outra manifestação do espírito humano, postula uma 
interpretação. Só que nos negócios jurídicos – como nas leis – a interpretação não visa pôr em 
relevo um resultado destinado a uma pura assimilação ou compreensão intelectuais (uma 
mensagem) ou afectivas, mas tem em vista evidenciar um conteúdo normativo (um conjunto de 
comandos) que vai pautar a conduta de algumas pessoas (no negócio jurídico, a conduta das 
respectivas partes). 
 A interpretação nos negócios jurídicos é a actividade dirigida a fixar o sentido e alcance 
decisivo dos negócios, segundo as respectivas declarações integradoras. Trata-se de 
determinar o conteúdo das declarações de vontade (interpretado o negócio, isto é, fixado o seu 
sentido, pode, depois, se o sentido fixado, segundo as directrizes da teoria da interpretação, é 
um sentido objectivo, abrir-se um problema de divergência entre a vontade e a declaração) e, 
consequentemente, os efeitos que o negócio visa produzir, em conformidade com tais 
declarações, e virá a produzir, se não houver qualquer motivo de invalidade. 
 Como actividade ou operação dirigida à fixação do sentido negocial, a interpretação 
não podeser abandonada ao senso empírico de cada intérprete, mas deve pautar-se por 
regras ou critérios cuja formulação é, precisamente, o objecto da teoria da interpretação dos 
negócios ou hermenêutica negocial. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 69 
 A teoria da interpretação pode ver alguns dos seus resultados convertidos em 
verdadeiras normas jurídicas onde se fixam princípios ou critérios interpretativos. É o caso dos 
236º e ss. 
 
 Para haver uma declaração a interpretar é necessário estarmos perante um acto ou 
conduta voluntária equiparável, uma acção ou omissão controláveis pela vontade. Não é 
declaração negocial uma manifestação feita durante o sono, em narcose ou em situação que 
exclua toda a direcção consciente da vontade, bem como a coacção absoluta. 
 Não podemos deixar de a considerar como acto determinante, uma manifestação de 
validade que é o fundamento imediato da verificação dos efeitos jurídicos. Além de ser um acto 
determinante (meio de autodeterminação), a declaração é, também, porém, um acto social de 
comunicação, que tem de ter relação com aquele a quem se destina ou o conhece. 
 
 A teoria da interpretação dos negócios jurídicos tem dado lugar à formulação de 
concepções opostas. 
 Basta que se tome conhecimento da existência de posições subjectivistas e 
objectivistas. 
 Para as posições subjectivistas o intérprete deve buscar, através de todos os meios 
adequados, a vontade real do declarante. O negócio valerá com o sentido subjectivo, isto é, 
como foi querido pelo autor da declaração. 
 Para as posições objectivistas o intérprete não vai pesquisar a vontade efectiva do 
declarante, mas um sentido exteriorizado ou cognoscível através de certos elementos 
objectivos. Não se dá relevo necessariamente à vontade real do declarante. 
 De entre as doutrinas objectivistas merece referência, por ser a melhor das suas 
variantes, a chamada teoria da impressão do destinatário; a declaração deve valer com o 
sentido que um destinatário razoável, colocado na posição concreta do real declaratário, lhe 
atribuiria; considera-se o real declaratário nas condições concretas em que se encontra e 
tomam-se em conta os elementos que ele conheceu efectivamente mais os que uma pessoa 
razoável, quer dizer, normalmente esclarecida, zelosa e sagaz, teria conhecido e figura-se que 
ele raciocinou sobre essas circunstâncias como o teria feito um declaratário razoável. 
 
119.Posição adoptada 
 
 Doutrina geral 
 O CC define o tipo de sentido negocial decisivo para a interpretação nos termos 
daquela posição objectivista: «a declaração vale no sentido que um declaratário normal, 
colocado na posição do real declaratário, possa deduzir do comportamento de declarante» 
(236º n.º1). 
 A prevalência do sentido correspondente à impressão do destinatário é, todavia, 
objecto, na lei, de uma limitação, em conformidade com o ponto de vista de LARENZ e 
FERRER COSTA: para que tal sentido possa relevar torna-se necessário que seja possível a 
sua imputação ao declarante, isto é, que este pudesse razoavelmente contar com ele (236º 
n.º1, fim). Não se verificando tal coincidência entre o sentido objectivo correspondente à 
impressão do destinatário e um dos sentidos ainda imputáveis ao declarante, a sanção parece 
ser a nulidade do negócio. 
 Em conformidade com o ditame da velha máxima «falsa demonstratio non nocet», o 
236º n.º2 estabelece que, sempre que o declaratário conheça vontade real do declarante, é de 
acordo com ela que vale a declaração emitida. Neste caso a vontade real, podendo não 
coincidir com o sentido objectivo normal, correspondeu à impressão real do destinatário 
concreto, seja qual for a causa da descoberta da real intenção do declarante. 
 O sentido querido realmente pelo declarante releva, mesmo quando a formulação seja 
ambígua ou inexacta, se o declaratário conhecer este sentido (com as limitações decorrentes, 
para os negócios formais, do 238º n.º2). 
 Quer dizer: a ambiguidade objectiva, ou até a vontade real, se o destinatário a 
conheceu. Houve coincidência de sentidos (o querido e o compreendido), logo, este é o sentido 
decisivo. 
 
 A interpretação abrange também o problema de saber se há ou não uma declaração 
negocial. A resposta afirmativa tem lugar, quando assim se concluir do ponto de vista de um 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 70 
declaratário normal colocado na posição do declaratário real. Em todo o caso não há 
declaração negocial se falta a vontade acção (246º). 
 
 O CC não se pronuncia sobre o problema de saber quais as circunstâncias atendíveis 
para a interpretação. De acordo com o critério propugnado, quanto ao problema do tipo do 
sentido negocial decisivo para a interpretação, também aqui se deverá operar com a hipótese 
dum declaratário normal: serão atendíveis todos os coeficientes ou elementos que um 
declaratário medianamente instruído, diligente e sagaz, na posição do declaratário efectivo, 
teria tomado em conta. 
 
 Quando a interpretação leve a um resultado duvidoso, o problema deve ser resolvido 
nos termos do 237º, que coincide substancialmente com o regime do CC anterior: nos negócios 
gratuitos prevalece o sentido menos gravoso para o disponente e, nos negócios onerosos, o 
que conduzir ao maior equilíbrio das prestações. 
 Se porém a dúvida a que se chegar no termo do labor interpretativo for insanável 
parece que a declaração é ineficaz, por aplicação, ao menos analógica do 224º n.º3. 
 Nos contratos de adesão costuma propugnar-se a princípio de que na dúvida deve 
interpretar-se «contra stipulatorem», isto é, contra o emitente das condições gerais pré-
ordenadas para uma multiplicidade de contratos individuais. 
 
 Desvios 
 A doutrina preferível, em tese geral, quanto ao problema da hermenêutica negocial, 
sofre desvios quanto a certos negócios. Esses desvios traduzem-se: 
 
 a)Num maior objectivismo:
 é o que acontece nos negócios solenes ou formais. 
Quanto a estes, o sentido objectivo correspondente à impressão do destinatário, isto é, o 
sentido correspondente à doutrina geral, não pode valer se não tiver um mínimo de 
correspondência, embora imperfeita, no texto do respectivo documento (238º n.º1). 
 Admite-se que um sentido não traduzido, rudimentarmente sequer, no respectivo 
documento, possa valer, desde que se verifique um duplo condicionalismo: 
1) Corresponder à vontade real e concordante das partes, mesmo no caso de real 
impropriedade das expressões utilizadas («falsa demonstratio non nocet»). 
2) Não oposição a essa validade das razões determinantes da forma do negócio: assim, 
v.g., parece haver obstáculo insuperável, quando essas razões forem, 
predominantemente, razões de certeza ou segurança e quando estejam em causa 
interesses de terceiros. 
 
b)Num maior subjectivismo:
 é o caso das disposições testamentárias. Consagra-se, 
quanto à sua interpretação, o sentido subjectivo, com o limite do «contexto do testamento» 
(2187º n.º1). 
O significado decisivo é que o testador quis dizer, desde que se possa averiguar. Um 
critério normativo de interpretação aponta aqui, diversamente dos negócios «entre vivos», para 
a vontade psicológica do testador: não há que tomar em consideração as possibilidades de 
conhecimento de um destinatário como critério interpretativo, embora, depois da morte, o 
testamento se torne conhecido dos interessados. 
Na pesquisa desta vontade do testador é admitido o recurso à chamada prova 
complementar ou extrínseca, isto é, a elementos ou circunstâncias estranhas aos termos do 
testamento, fundadas em qualquer dos meios de prova geralmente admitidos. 
Exige-se que a vontade do testador, assim reconstituída, tenha um mínimo de 
correspondência, ainda que imperfeita, no contexto (2187º n.º2). Esta limitação é uma 
manifestação do carácter solenedo negócio testamentário. 
A lei não dá qualquer indicação mais precisa, quanto à relação que deve interceder 
entre a intenção testatória e o contexto do documento, limitando-se a estatuir que «não surtirá 
qualquer efeito a vontade do testador que não tenha no contexto um mínimo de 
correspondência, ainda que imperfeitamente expressa». 
Podem continuar a aceitar-se, a este respeito, as ideias expendidas por MANUEL DE 
ANDRADE, para o direito anterior, por não se lhes opor o texto daquele n.º2 do 2187º, antes, 
pelo contrário, as favorecer, na medida em que se contenta com uma expressão ténue da 
intenção do testador no contexto do documento. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 71 
Segundo essas ideias, correspondentes ao texto da disposição do anteprojecto 
transcrita na penúltima nota, o sentido subjectivo, reconstituindo através da prova extrínseca, 
valerá, se o testador usou termos numa acepção pessoal, fora dos usos gerais da língua, mas 
deu a entender isso mesmo no testamento ou usava habitualmente esses termos nessa 
acepção anómala (o testador que se refere à sua garrafeira como a sua “biblioteca”). 
Já aquele sentido subjectivo não valerá se o testador usou termos numa acepção 
extravagante que estava fora dos seus próprios hábitos de linguagem ou incorreu em erro na 
declaração. A nulidade, nesta hipótese, justifica-se pelas razões que estão ligadas à exigência 
de forma dos testamentos. Será de admitir, porém, que esta última solução (nulidade) sofra 
uma excepção. 
Admitir-se-á a relevância do sentido subjectivo, quando, na própria letra do testamento 
seja patente a significação esotérica, não habitual ao testador, dos termos empregues ou o erro 
na declaração (2203º). 
 
(2)Integração 
 
120.Em que consiste 
 
 O problema pode formular-se através da seguinte pergunta: qual a regulamentação das 
questões não previstas pelas partes, ao proverem à elaboração do ordenamento negocial das 
suas relações? 
 
121.Termos em que pode admitir-se 
 
 O critério a utilizar para o efeito de realizar a integração dos negócios jurídicos 
lacunosos é enunciado no 239º. 
 Ressalva a hipótese de existir disposição especial, como será o caso, sempre que haja 
disposição supletiva aplicável, directamente – o que poderá verificar-se, apenas, nos negócios 
típicos – ou por analogia. 
 Na falta de disposição supletiva que possa aplicar-se, o 239º remete para a vontade 
hipotética ou conjectural das partes - «a que elas teriam tido se houvessem previsto o ponto 
omisso». O CC considera que a integração deve ser determinada para cada negócio e não, 
genericamente, para os vários tipos de negócios, como aconteceria se mandasse colmatar as 
lacunas negociais pelo recurso aos usos, consagrando, assim, uma solução plenamente de 
acordo com a ideia de que o negócio jurídico é, em princípio, «lex privata» das partes. 
 Hão-de considerar-se as circunstâncias que dão ao contrato concretamente celebrado 
a sua individualidade e não as características do tipo contratual. A regulamentação de um 
«contrato semelhante» é a que resulta das normas supletivas; nos casos em que o contrato 
não está plena e completamente tipicizado ou se afasta dos tipificados em pontos que a 
regulamentação legal se não adapte ao contrato. 
 
 Estabelece-se, todavia, que o juiz se deverá afastar da vontade hipotética ou 
conjectural das partes, quando a solução, que estas teriam estipulado, contrarie os ditames da 
boa fé; neste caso, deve a declaração se integrada de acordo com as referidas exigências da 
boa fé, isto é, de acordo com o que corresponda à justiça contratual (ao que as partes devem 
querer agora e não propriamente o que deveriam ter querido). 
 
 A integração negocial tem limites. Deve atender-se à regulamentação 
concretamente estipulada e situarmo-nos no círculo por ela delimitado, isto é, considerar o que 
um contraente honesto e razoável há-de admitir como exigido pelo contrato. Não pode 
proceder-se na integração como se se estivesse a aplicar uma norma estranha ao contrato. 
 Certos problemas, mesmo que seja evidente a prova da vontade hipotética das partes, 
a partir da finalidade e da conexão dos significados manifestados na regulamentação 
contratual, não podem ser equacionados e resolvidos em sede de integração negocial. 
Designadamente não pode a integração conduzir a uma ampliação do objecto negocial, que foi 
pretendido pelas partes. 
 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 72 
(III)A divergência entre a vontade e a declaração 
 
(1)O problema em geral 
 
122.Formas possíveis de divergência 
 
 Normalmente o elemento interno (vontade) e o elemento externo da declaração 
negocial (declaração negocial) coincidirão. 
 Pode, contudo, verificar-se, por causas diversas, uma divergência entre esses dois 
elementos da declaração negocial. A normal relação de concordância entre a vontade e a 
declaração (sentido objectivo) é afastada, por razões diversas, em certos casos anómalos. À 
relação normal de concordância substitui-se uma relação patológica. Estamos perante um vício 
na formulação da vontade. 
 
 A divergência intencional pode apresentar-se sob uma de três formas principais: 
 
a) Simulação – o declarante emite uma declaração não coincidente com a sua vontade 
real, por força de um arranjo com o declaratário, com a intenção de enganar terceiros. 
b) Reserva mental – o declarante emite uma declaração não coincidente com a sua 
vontade real, sem qualquer arranjo com o declaratário, visando precisamente enganar 
este. 
c) Declarações não sérias – o declarante emite uma declaração não coincidente com a 
sua vontade real, mas sem intuito de enganar qualquer pessoa (declaratário ou 
terceiros). 
 
A divergência não intencional pode consistir: 
 
a) No erro-obstáculo ou na declaração – o declarante emite a declaração divergente da 
vontade real, sem ter consciência dessa falta de coincidência. Trata-se de um lapso, de 
um engano, de um equívoco. 
b) Na falta de consciência da declaração – o declarante emite uma declaração, sem 
sequer ter a consciência (a vontade) de fazer uma declaração negocial, podendo até 
faltar completamente a vontade de agir. 
c) Na coacção física ou violência absoluta – o declarante é transformado num 
autómato, sendo forçado a dizer ou escrever o que não quer, não através de uma 
mera, mas por força do emprego de uma força física irresistível que o instrumentaliza e 
leva a adoptar o comportamento. 
 
124.Teorias que visam resolver o problema da divergência entre a 
vontade e a declaração 
 
 No direito civil moderno várias teorias foram formuladas em vista da solução do 
problema em epígrafe. 
 
 Teoria da vontade 
 Propugna a invalidade do negócio (não vale a vontade real nem a declarada), desde 
que se verifique uma divergência entre a vontade e a declaração e sem necessidade de mais 
requisitos; 
 
 Teoria da culpa «in contrahendo» 
 Assenta na mesma ideia da teoria anterior, com a simples diferença de, em caso de 
dolo ou culpa do declarante, e estando de boa fé o declaratário. O negócio ser válido; dá-se 
mais atenção ao argumento da necessidade de proteger a confiança, por se considerar 
insuficiente a tutela concedida pelo teoria da culpa in contrahendo. 
 
 Teoria da declaração 
 Enquanto a teoria da vontade arranca da consideração de que a essência do negócio 
está apenas na vontade do declarante (dogma da vontade), a teoria da declaração, embora de 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 73 
modo diverso, em conformidade com as suas modalidades, dá relevo fundamental à 
declaração, ou seja, ao que foi exteriormente manifestado. Comporta diversas modalidades: 
 
Modalidade primitiva e extrema:
 consagra-se uma adesão rígida àexpressão literal – 
se a forma ritual foi observada, produzem-se certos efeitos, mesmo que não tenham sido 
queridos. 
 As modalidades modernas e atenuadas, em particular a doutrina da confiança:
 a 
divergência entre a vontade real e o sentido objectivo da declaração, isto é, o que um 
declaratário razoável lhe atribuiria, só produz a invalidade do negócio, se for conhecida ou 
cognoscível do declaratário. 
 
Doutrina da aparência eficaz:
 subscreve os resultados da doutrina da confiança, mas 
limita-a, propugnando a invalidade, também, para a hipótese de o declaratário, não se 
apercebendo do dissídio entre a vontade real e o sentido objectivo, ter, todavia, compreendido 
um terceiro sentido; quer dizer, a validade do sentido objectivo só será de aceitar, em vez da 
invalidade, se o declaratário confiou efectivamente nesse sentido. 
 
(2)A simulação 
 
127.Conceito, elementos e importância prática 
 
 O conceito de negócio simulado está explicitamente formulado no 240º n.º1. em 
correspondência com a orientação da doutrina tradicional, os elementos integradores do 
conceito, referidos naquela disposição, são: 
a) Intencionalidade da divergência entre vontade e a declaração; 
b) Acordo entre declarante e declaratário (acordo simulatório), o que, evidentemente, não 
exclui a possibilidade de simulação nos negócios unilaterais; 
c) Intuito de enganar terceiros. 
 
128.Modalidades da simulação 
 
 Uma primeira distinção é a que se estabelece entre simulação inocente e simulação 
fraudulenta. Esta distinção é aludida no 242º n.º1, no fim, revelando a mesma disposição legal 
a ausência de interesse civilístico da referida dicotomia. 
 A simulação é inocente se houve o mero intuito de enganar terceiros, sem os prejudicar 
e é fraudulenta, se houve o intuito de prejudicar terceiros ilicitamente ou de contornar qualquer 
norma da lei. A simulação fraudulenta é, de longe, a mais frequente. 
 
 Outra destrinça é a que se faz entre simulação absoluta e simulação relativa. 
Na primeira – é o caso da venda fantástica ou da doação simulada com fins de pompa 
ou ostentação – as partes fingem celebrar um negócio jurídico e na realidade não querem 
nenhum negócio jurídico. Há apenas o negócio simulado e, por detrás dele, nada mais. 
Na simulação relativa as partes fingem celebrar um certo negócio jurídico e na 
realidade querem um outro negócio jurídico de tipo ou conteúdo diverso. Por detrás do negócio 
simulado ou aparente ou fictício ou ostentivo há um negócio dissimulado ou real ou latente ou 
oculto. 
 
129.Efeitos da simulação absoluta 
 
 A simulação importa a nulidade do negócio simulado (240º n.º2). de acordo com o 
regime geral, pode qualquer interessado invocar a nulidade e o tribunal declará-la 
oficiosamente (286º, para o qual remete o 242º). 
 Como todas as nulidades, a invalidade dos negócios simulados pode ser arguida a todo 
o tempo (286º), quer o negócio não esteja cumprido (aliás, nesta hipótese, as próprias 
anulabilidades podem ser arguidas, sem dependência de prazo: 287º n.º2), quer tenha tido 
lugar o cumprimento. 
 (Na simulação não pode haver usucapião uma vez que adquiria sendo um possuidor 
precário (1253º c)). 
 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 74 
130.Modalidades da simulação relativa 
 
 A simulação relativa manifesta-se em espécies diversas consoante o elemento do 
negócio dissimulado a que se refere (simulação subjectiva ou dos sujeitos e simulação 
objectiva ou sobre o conteúdo do negócio). 
 Podem ser, desde logo, simulados ou sujeitos do negócio jurídico, mais 
frequentemente um apenas. É o que se verifica na chamada interposição fictícia de pessoas, 
ex.: A, pretendendo dar um prédio a B, finge doar a C para este posteriormente doar a B, 
intervindo um conluio entre os três. Pode igualmente a simulação consistir, não na intervenção 
de um sujeito aparente, mas na supressão de um sujeito real. Ex.: fez-se uma venda de A a B 
e outra de B a C, mas para pagar apenas uma sisa os três sujeitos concordam em documentar 
na escritura pública apenas uma venda da A a C. 
 
 A interposição fictícia de pessoas não se deve confundir com a interposição real. 
 Na interposição fictícia há um conluio (arranjo) entre os dois sujeitos reais da operação 
e o interposto. Este é um simples testa de ferro, um homem de palha. 
 Na interposição real o interposto actua em nome próprio, mas no interesse e por conta 
de outrem, por força de um acordo entre ele e um só dos sujeitos. 
 
 A simulação objectiva ou sobre o conteúdo do negócio pode ser: 
a) Simulação sobre a natureza do negócio – se o negócio ostensivo ou simulado 
resulta de uma alteração do tipo negocial correspondente ao negócio dissimulado ou 
oculto (ex.: finge-se uma venda e quer-se uma doação); 
b) Simulação de valor – incide sobre o «quantum» de prestações estipuladas entre as 
partes. É fundamentalmente – mas não só – o caso da simulação de preço na compra 
e venda, fingindo-se um preço superior ou inferior ao preço real. 
 
131.Efeitos da simulação relativa 
 
 Doutrina geral 
 O negócio fictício ou simulado está ferido de nulidade, tal como na simulação absoluta. 
A simulação relativa põe, todavia, um problema específico que não surgia no caso da 
simulação absoluta. 
 Quid juris, quanto ao negócio disfarçado ou dissimulado? Sanciona-se, a este respeito, 
a solução correspondente à orientação tradicional: o negócio real ou dissimulado será objecto 
do tratamento jurídico que lhe caberia se tivesse sido concluído sem dissimulação (241º). 
Nestes termos poderá o negócio latente ser plenamente válido e eficaz ou poderá ser inválido, 
consoante as consequências que teriam lugar, se tivesse sido abertamente concluído. 
 
 Simulação sobre a natureza do negócio, em prejuízo da Fazenda Nacional 
 O negócio dissimulado (venda ou doação) não é afectado na sua validade pela lei 
fiscal, permanecendo válido e eficaz, se esse for o regime que, à face da lei civil lhe cabe; 
sucede apenas que, além das multas em que os simuladores incorrem, o imposto liquidado 
será o correspondente à natureza do negócio realmente celebrado (negócio dissimulado). 
 
 Efeitos da simulação quanto aos negócios formais 
 Os problemas suscitados pela aplicação aos negócios formais da doutrina geral da 
simulação relativa encontram a sua resposta no 241º n.º1. Aí se estatui que «se, porém, o 
negócio dissimulado for de natureza formal, só é válido se tiver sido observada a forma exigida 
por lei». 
 Resulta do teor desta disposição que, se não se cumpriram, no negócio simulado, os 
requisitos de forma exigidos para o dissimulado, este será nulo por vício de forma, mesmo que 
se tenham observado as formalidades exigidas para o negócio aparente. 
 Para a validade do negócio real torna-se necessária a observância do formalismo que, 
para ele, exige a lei, mesmo que tal forma não seja suficiente para o negócio aparente. 
 O 241º n.º2 consagra a solução de nulidade do negócio dissimulado, tal como foi 
preconizada por BELEZA DOS SANTOS. A lei estabelece que o negócio dissimulado só é 
válido, se for observada a forma exigida e nada diz para a hipótese de as razões do formalismo 
do negócio dissimulado se acharem satisfeitas com a observância das solenidades do negócio 
simulado. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 75 
 Quer dizer: o negócio simulado é nulo por simulação; o negócio dissimulado é nulo por 
vício de forma. Aliás, a favor da solução que defendemos, repare-se que o princípio «falsa 
demonstratio non nocet», só vale no nosso direito, quando as razões determinantes da forma 
se não oponham (238º n.º2). 
 A doutrina exposta é a que vale para a simulação de pessoas e para a simulação sobre 
a natureza do negócio, quanto seja menor que o preço real, não há obstáculode natureza 
formal a que seja eficaz a venda pelo preço efectivamente convencionado. 
 
132.Se há restrições à arguição da simulação pelos próprios simuladores 
 
 O 242º n.º1, atribui legitimidade aos próprios simuladores para a arguição da nulidade 
do negócio simulado, mesmo que a simulação seja fraudulenta. 
 Advirta-se, no entanto, que esta possibilidade de a nulidade ser invocada pelos 
próprios simuladores entre si sofre uma apreciável restrição indirecta por força do 394º n.º2. aí 
se estatui que é inadmissível a prova testemunhal do acordo simulatório e do negócio 
dissimulado, quando invocados pelos simuladores, solução oposta à defendida anteriormente. 
 
(4)Divergência não intencional 
 
140.Coacção física ou coacção absoluta ou ablativa 
 
 O CC prevê, sob a epígrafe «coacção física» (246º), a hipótese de o declarante ser 
«coagido pela força física a emitir» a declaração. Têm-se em vista as hipóteses em que o 
declarante é reduzido à condição de puro autómato (coacção absoluta) e não aquelas em que 
o emprego da força física não chega aos extremos. 
 A coacção física ou absoluta importa, nos termos do 246º, a ineficácia da declaração 
negocial («a declaração não produz efeitos»). A lei, prudente ou ambiguamente, estabelece 
que a declaração não produz qualquer efeito e não fala de nulidade, dado ser discutível a 
qualificação como nulidade ou, antes, como inexistência, parecendo esta última mais exacta. 
Não há qualquer dever de indemnização, a cargo do «declarante». 
 
141.Falta de consciência da declaração 
 
 Falta a vontade de acção ou, pelo menos, a consciência da declaração. 
 Estas hipóteses são abrangidas pelo 246º: «se o declarante não tiver a consciência de 
fazer uma declaração negocial...». Estatui-se que o negócio não produz qualquer efeito, 
mesmo que a falta de consciência da declaração não seja conhecida ou cognoscível do 
declaratário. Trata-se dum caso de nulidade, salvo na hipótese de falta de vontade de acção 
em que parece estar-se, antes, perante um caso de verdadeira inexistência da declaração. 
 Com efeito, quando falta a vontade de acção não há um comportamento humano 
consciente, voluntário, «finalista»; há um comportamento inconsciente, involuntário, reflexo ou, 
na hipótese de coacção física, absolutamente forçado, embora exteriormente pareça estarmos 
perante uma declaração. 
 
 Os interesses do autor do comportamento são tutelados em primeira linha, a expensas 
do interesse na protecção da confiança do declaratário; se o declarante for, porém, culpado da 
falta de consciência da declaração, o declaratário tem direito a ser indemnizado do dano 
coberto pela chamada responsabilidade pré-negocial ou por «culpa in contrahendo». 
 
142.Erro na declaração ou erro-obstáculo 
 
 Conceito 
 No erro-obstáculo: havendo embora uma divergência inconsciente entre a vontade e 
a declaração, há um comportamento declarativo do errante. 
 Nas declarações sob o nome de outrem:
 não há qualquer comportamento por parte 
do sujeito a quem a declaração é atribuída, como acontece se A faz um negócio, fazendo-se 
passar por B, declinando a identidade deste ou falsificando a respectiva assinatura ou pondo 
em circulação um documento assinado por B, mas não emitido por B. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 76 
 Na declaração sob o nome de outrem ninguém pode pretender que o negócio vincule o 
sujeito ao qual, aparentemente, diz respeito, mesmo que a outra parte não se tenha apercebido 
da falsificação. 
 A hipótese pode subsumir-se, directamente ou por analogia, do 246º, pois, tal como em 
certos casos de erro-obstáculo, não há, por parte do declarante aparente, consciência de fazer 
uma declaração negocial. 
 
 Causas e efeitos. Quando há desvio na vontade de acção («lapsus liguae» ou 
«lapsus calami»; erro mecânico) ou desvio na vontade negocial (erro de juízo) 
 Nestas hipóteses o declarante tem a consciência de emitir uma declaração negocial, 
mas, por lapso de actividade (erro mecânico: lapsus linguae ou erro ortográfico) ou por «error 
in judicando» (atribuição às palavras de um significado diverso do seu sentido objectivo), não 
se apercebe de que a declaração tem um conteúdo divergente na sua vontade real. Por esse 
motivo fala-se, para estes caso, de «erro sobre o conteúdo da declaração». 
 
 
a)O princípio geral regulador destas hipóteses consta do 247º, exigindo-se para 
anulação do negócio que «o declaratário conhecesse ou não devesse ignorar a essencialidade, 
para o declarante, do elemento sobre que incidiu o erro». 
 Assim, se A, porque queria comprar o prédio onde nasceu, compra a B o prédio n.º 10, 
quando na verdade aquele prédio é o n.º 20, o comprador poderá anular o negócio, desde que 
prove que o vendedor conhecia ou não devia ignorar que só interessava ao outro contraente o 
prédio onde nasceu. 
 A lei não exige, porém, o conhecimento ou a cognoscibilidade do erro, admitindo a 
anulabilidade em termos excessivamente fáceis e gravosos para a confiança do declaratário e 
para a segurança do tráfico jurídico. Contenta-se com o conhecimento ou a cognoscibilidade da 
essencialidade do elemento sobre que incidiu o erro, embora este conhecimento, como se 
referiu, possa não ter suscitado ao declaratário qualquer suspeita ou dúvida acerca da 
correspondência entre a vontade real e a declarada. 
 
 
b)Certas hipóteses particulares merecem tratamento especial. Assim: 
 
1)Se o declaratário se apercebeu do dissídio entre a vontade real e a declarada e 
conheceu a vontade real do declarante, o negócio valerá de acordo com a vontade real (236º 
n.º2). 
2)Se o declaratário conheceu ou devia ter conhecido o erro, o regime aplicável continua 
a ser a anulabilidade e não a nulidade verdadeira e a própria. Já se viu não ser necessário para 
a anulação, o reconhecimento ou a reconhecibilidade do erro, bastando que seja reconhecível 
a essencialidade do elemento sobre que o declarante errou. 
3)Se o declaratário aceitar o negócio como o declarante queria, a anulabilidade 
fundada em erro não procede (248º). A validação do negócio, nesta hipótese, tem uma 
explicação análoga à da solução indicada em 1). 
4)O erro de cálculo e o erro de escrita, ostensivamente revelados no contexto da 
declaração ou nas circunstâncias que a acompanham, não dão lugar à anulabilidade do 
negócio, mas apenas à sua rectificação (249º). 
5)Se o declaratário compreendeu um terceiro sentido que não coincide nem com o 
querido pelo declarante, nem com o declarado. 
 
(IV)Vícios da vontade 
 
(1)Noções gerais 
 
144.Vícios da vontade 
 
 Conceito 
 Trata-se de perturbações do processo formativo da vontade, operando de tal modo que 
esta, embora concorde com a declaração, é determinada por motivos anómalos e valorados, 
pelo direito, como ilegítimos. A vontade não se formou de um modo julgado normal e são, 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 77 
145.Enumeração dos vícios da vontade a que o nosso direito atribui um 
geral relevância autónoma 
 
 Erro-vício, dolo, coacção moral, incapacidade acidental (257º); igualmente, o Estado de 
necessidade (282º) 
 
146.O regime da lesão e dos vícios redibitórios no CC 
 
Lesão (usura) 
 
 No CC a proscrição da lesão, sob a designação de usura, consta do 282º. Aí se 
determina que é anulável, por usura, um negócio jurídico, quando alguém, explorando a 
situação de necessidade, inexperiência, ligeireza, dependência, Estado mental ou fraqueza de 
carácter de outrem, obteve a promessa ou concessão de benefícios excessivos ou 
injustificados. 
 Estabelece-se no artigo seguinte, uma alternativa para a anulação dos negócios 
usurários: a sua modificação, segundo juízos de equidade, a requerimento do lesado ou da 
parte contrária. 
 
Vícios redibitórios 
 
 OCC não se refere, nas disposições gerais sobre o negócio jurídico, aos vícios ocultos 
do objecto negocial como fundamento autónomo de invalidade. Há, porém, normas que se 
referem a essa hipótese na regulamentação de alguns contratos especiais. É o caso dos 905º e 
913º (venda de coisas oneradas ou defeituosas) e do 1035º (vícios da coisa locada). Em 
ambos os casos a anulabilidade do negócio depende da verificação dos requisitos legais de 
relevância do erro ou do dolo. Para além deste efeito – anulabilidade – a lei regula, porém, 
alguns aspectos particulares da situação. 
 Por força das directivas comunitárias, nem todo o regime está previsto no CC. 
 
147.Qualificação da invalidade proveniente de Erro-vício, dolo, coacção 
ou incapacidade acidental 
 
 Trata-se duma anulabilidade: Erro-vício (251º 252º); dolo (254º); coacção moral 
(256º); incapacidade acidental (257º). 
 As características da anulabilidade são, em face dos 287º e 288º, as seguintes: 
 a)Só pode ser invocada pelo errante, pelo enganado, pelo coacto ou pelo incapaz 
(287º: «as pessoas em cujo interesse a lei estabelece»). 
 b)Só pode ser invocada dentro do ano subsequente à cessação do vício que lhe serve 
de fundamento (287º n.º1, fim). Pode, porém, ser invocada, a todo o tempo, se o negócio não 
estiver cumprido. 
 
c)Pode ser sanada por confirmação da pessoa a quem pertencer o direito de anulação 
(288º). 
 
(2)O erro como vício da vontade 
 
148.Noção 
 
 
Erro-vício:
 traduz-se numa representação inexacta ou na ignorância de uma qualquer 
circunstância de facto ou de direito que foi determinante na decisão de efectuar o negócio. Se 
estivesse esclarecido acerca dessa circunstância – se tivesse exacto conhecimento da 
realidade – o declarante não teria realizado qualquer negócio ou não teria realizado o negócio 
nos termos em que o celebrou. 
 Trata-se pois, de um erro nos motivos determinantes (elementos internos) da vontade. 
 
 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 78 
150.Modalidades 
 
 Em face do CC as categorias que revestem interesse são: 
 
 a)Erro sobre a pessoa do declaratário: erro sobre a identidade (este será, quase 
sempre, um erro-obstáculo) e erro sobre as qualidades; 
 b)Erro sobre o objecto de negócio: pode incidir sobre o objecto mediato (sobre a 
identidade ou sobre as qualidades), ou sobre o objecto imediato (erro sobre a natureza do 
negócio); 
 c)Erro sobre os motivos não referentes à pessoa do declaratário nem ao objecto do 
negócio (252º): é uma noção residual, corresponde ao erro acerca da causa (de direito ou de 
facto ) do código anterior e abrange igualmente o erro sobre a pessoa de terceiro. 
 
152.Condições gerais de relevância do Erro-vício como motivo de 
anulabilidade 
 
 Essencialidade 
 É corrente na doutrina a afirmação de que só é relevante o erro essencial, isto é, 
aquele que levou o errante a concluir o negócio, em si mesmo e não apenas nos termos em 
que foi concluído. O erro foi causa (é indiferente tratar-se de uma situação de causalidade 
única ou de concausalidade) da celebração do negócio e não apenas dos seus termos. O erro 
é essencial se, sem ele, se não celebraria qualquer negócio ou se celebraria um negócio com 
outro objecto ou de outro tipo ou com outra pessoa. 
 Já não relevaria o erro incidental isto é, aquele que influiu apenas nos termos do 
negócio, pois o errante sempre contrataria, embora noutras condições. O erro é incidental se, 
sem ele, o errante, embora noutros termos, sempre celebraria o mesmo negócio (manter-se-ia 
o tipo negocial, o objecto, os sujeitos). 
 O erro, para relevar, deve atingir os motivos determinantes da vontade (251º e 252º). 
 
 Propriedade 
 Trata-se de um requisito que circunscreve o campo de aplicação autónoma do Erro-
vício, como motivo de invalidade. O erro só é próprio quando incide sobre uma circunstância 
que não seja a verificação de qualquer elemento legal da validade do negócio. O erro será 
impróprio, quando, v.g., versar sobre os requisitos legais de forma negocial, a ilicitude do 
objecto mediato ou imediato, a capacidade do errante, etc. 
 
 Escusabilidade 
 Não se formula, na subsecção relativa aos vícios da vontade, qualquer exigência da 
desculpabilidade ou escusabilidade do erro, pelo que se deve reputar consagrada a solução 
segundo a qual tal requisito é dispensável, que é, aliás, a melhor «de iure condendo». Deve, 
todavia, entender-se, que, no caso de erro culposo, os interesses da outra parte, não obstante 
a anulação, não são desprotegidos, pois, com fundamento no 227º (culpa na formação dos 
contratos), o errante, admitido a invocar a anulabilidade, incorrerá em responsabilidade pré-
negocial devendo indemnizar o chamado interesse contratual negativo. 
 
153.Condições especiais de relevância do erro-vício como motivo de 
anulabilidade 
 
 Aos requisitos gerais de relevância do erro – essencialidade e propriedade, nos termos 
expostos – devem acrescer certos requisitos especiais, que variam com as diversas 
modalidades do erro-vício. Há que distinguir, assim, 3 modalidades (sendo, aliás, estatuído o 
mesmo regime para duas delas): o erro sobre os motivos, o erro sobre a pessoa do 
declaratário e o erro sobre o objecto do negócio. 
 
 Erro sobre os motivos 
 Inserem-se nesta categoria os casos em que o erro se não refere à pessoa do 
declaratário, nem ao objecto do negócio. Trata-se, assim, duma noção definida por via 
negativa, que corresponde ao erro acerca da causa (erro de direito ou de facto). 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 79 
 Nos casos deste tipo, o 252º n.º1, permite a anulação, desde que haja uma cláusula 
(expressa ou tácita) no sentido de a validade do negócio ficar dependente da existência da 
circunstância sobre que versou o erro («se as partes houverem reconhecido, por acordo, a 
essencialidade do motivo»). 
 Na 2ª parte do 252º, estabelece-se um regime especial para certos casos de erro sobre 
os motivos: se o erro incidir sobre as circunstâncias que constituem a chamada base negocial, 
haverá lugar à anulabilidade do contrato, nos mesmos termos em que, nos 437º a 439º; se 
dispõe acerca da resolução por alteração das circunstâncias vigentes no momento em que o 
negócio foi concluído («desde que a exigência das obrigações assumidas afecte gravemente 
os princípios da boa fé e não esteja coberta pelos riscos próprios do contrato»). 
 
 Erro sobre o objecto do negócio 
 Está previsto no 251º, quer na hipótese do erro sobre a identidade (na medida em que 
seja um erro-vício e não um erro na declaração), quer na do erro sobre as qualidades. O 
negócio será anulável nos termos previstos no 247º para o erro-obstáculo, isto é, «desde que o 
declaratário conhecesse ou não devesse ignorar a essencialidade, para o declarante, do 
elemento sobre que incidiu o erro». São cabidas acerca deste regime as considerações que, a 
seu propósito, expendemos quando se tratou do erro na declaração e tendentes à conclusão 
de que seria mais razoável ter-se exigido o conhecimento ou a cognoscibilidade do erro. 
 O 251º abrange, igualmente, o chamado erro sobre a natureza do negócio, pois este 
versa sobre os efeitos do negócio, sobre o seu conteúdo, isto é, sobre o seu objecto imediato. 
 
 Erro sobre a pessoa do declaratário 
 Abrange igualmente o erro sobre a identidade e o erro sobre as qualidades. Está 
igualmente previsto no 251º, cabendo-lhe, portanto, o regime correspondente ao erro na 
declaração. 
 
(3)Dolo 
 
154.Conceito 
 
 A noção de dolo consta do 253º n.º1. Trata-se dum erro determinado por um certo 
comportamento da outra parte. 
 Só existirá dolo, quando se verifique o emprego de qualquer sugestão ou artifício com a 
intenção ou consciência de induzir ou manter em erro o autor da declaração (dolo positivo oucomissivo), ou quando tenha lugar a dissimulação, pelo declaratário ou por terceiro, do erro do 
declarante (dolo negativo, omissivo ou de consciência). 
 
155.Modalidades 
 
 a)Dolo positivo e negativo 
 A distinção já foi caracterizada e consta do 253º n.º1. Importa aqui referir apenas que o 
dolo negativo ou omissivo, não existe em todos os casos de silêncio perante o erro em que 
versa o declarante. A omissão de esclarecimento só constituirá dolo ilícito, quando existia um 
dever de elucidar, por força de lei, de estipulação negocial ou das concepções dominantes no 
comércio jurídico (253º n.º1 2ª parte). 
 Costumava assinalar-se à distinção o interesse prático de o dolo negativo de terceiros 
não ser relevante. Essa conclusão não tem hoje qualquer fundamento, pois o 253º n.º1 fala 
expressamente em dissimulação de terceiro; ponto é que exista o dever de elucidar por parte 
do terceiro reticente. 
 
 b)Dolus bonus e malus 
 Só é relevante, como fundamento da anulabilidade e de responsabilidade, o dolus 
malus. A lei tolera a simples astúcia, reputada legítima pelas concepções imperantes num certo 
sector negocial. Com efeito, a lei declara não constituírem dolo ilícito, usuais, considerados 
legítimos, segundo as concepções dominantes no comércio jurídico (253º n.º2). 
 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 80 
 c)Dolo inocente e fraudulento 
 No primeiro há mero intuito enganatório, enquanto no segundo há o intuito ou a 
consciência de prejudicar. A distinção não tem interesse prático, em ambos os casos se 
verificando os mesmos efeitos. 
 
d)Dolo proveniente do declaratário e proveniente de terceiro 
 A distinção tem grande importância, pois, para a relevância do dolo de terceiro, são 
exigidas certas condições suplementares que devem acrescer às do dolo do declaratário e o 
seu efeito é mais restrito. Existirá, não apenas dolo de terceiro, mas também dolo do 
declaratário, se este for cúmplice daquele, conhecer ou dever conhecer a actuação de terceiros 
(254º n.º2). 
 
 e)Dolo essencial ou determinante e dolo incidental 
 A distinção põe-se nos termos em que se pôs para o erro. No dolo essencial o 
enganado (deceptus) foi induzido pelo dolo a concluir o negócio em si mesmo e não apenas 
nos termos em que foi concluído; sem dolo não se teria concluído qualquer negócio. No dolo 
incidental o deceptus apenas foi influenciado quanto aos termos do negócio, pois sempre 
contrataria, embora noutras condições. 
 
156.Condições de relevância do dolo como motivo de anulação 
 
 O principal efeito do dolo é a anulabilidade do negócio (254º n.º1); mas acresce a 
responsabilidade pré-negocial do autor do dolo (deceptor), por ter dado origem à invalidade, 
com o seu comportamento contrário às regras da boa fé, durante os preliminares e a formação 
do negócio (227º). 
 
Condições de relevância do dolo do declaratário como motivo de anulação 
 
 1)Deve tratar-se dum dolus malus (253º n.º2); 
 2)Deve ser essencial ou determinante, embora o dolo incidental também possa vir a 
conduzir à anulação. Este requisito tem algum vago apoio no 254º n.º1. Na hipótese de dolo 
negativo trata-se de uma causalidade hipotética. 
 3)Existência no deceptor da intenção ou consciência de induzir ou manter em erro. É 
um elemento da definição de dolo, constante do 253º n.º1. segundo ele, basta a consciência de 
criar ou manter uma situação de erro, mesmo que esse não seja o propósito de quem a cria ou 
mantém. Se essa consciência existe e, apesar dela, se prossegue ou mantém o 
comportamento que gera ou faz perdurar o erro, há dolo ilícito. 
 4)Ao contrário do que exigem algumas legislações e a própria tradição jurídica, não é 
necessário que o dolo seja unilateral. O próprio dolo bilateral ou recíproco pode ser invocado 
como fundamento de anulação. Na verdade o 254º n.º1 2ª parte dispõe que, «a nulabilidade 
não é excluída pelo facto de o dolo ser bilateral». Tal solução é a que logicamente resulta do 
facto de o fundamento da anulabilidade por dolo ser a viciação da vontade. 
 
Condições de relevância do dolo de terceiro como motivo de anulação (254º n.º2) 
 
 Devem verificar-se os requisitos anteriores e, além disso, há que fazer a seguinte 
distinção: 
 
 a)Se o declaratário conheceu ou lhe foi cognoscível o dolo de terceiro, o negócio será 
sempre anulável. Desde logo, neste caso, haverá dolo negativo do próprio declaratário, se ele 
conheceu efectivamente os artifícios de terceiro; a lei, todavia, estabelece a sanção da 
anulabilidade, mesmo para a hipótese da simples cognoscibilidade do declaratário. 
 b)Se o declaratário não conheceu nem devia conhecer o dolo de terceiro, o negócio só 
será anulável, se ao terceiro deceptor adveio, por força do negócio, directamente algum direito 
(isto é, se existir no contrato cláusula a seu favor e anulação será limitada à cláusula a favor do 
terceiro (invalidade parcial). 
 
 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 81 
157.Fundamento jurídico da anulabilidade por dolo 
 
 O fundamento da anulabilidade por dolo não consiste numa ideia de reparação do 
prejuízo sofrido pelo enganado (o próprio dolo inocente ou altruístico releva), mas na 
adulteração da vontade do «deceptus», tal como sucede com o erro simples. 
 A reparação do prejuízo causado é visada com a responsabilidade civil que impende 
sobre o «deceptor», e não com a anulabilidade. 
 
159.Negócio em que o dolo não tem relevância específica 
 
 Resulta dos artigos 1631º b) e 1636º que no casamento, o dolo não tem relevância 
específica em relação ao erro (no casamento engana quem pode). 
 
(4)Coacção 
 
160.Conceito 
 
 Consta do 255º n.º1 e consiste no «recreio de um mal de que o declarante foi 
ilicitamente ameaçado com o fim de obter dele a declaração». É, portanto, a perturbação da 
vontade, traduzida no medo resultante da ameaça ilícita de um dano (de um mal), cominada 
com o intuito de extorquir a declaração negocial. 
 Só há vício da vontade, quando a liberdade do coacto não foi totalmente excluída, 
quando lhe foram deixadas possibilidades de escolha, embora a submissão à ameaça fosse a 
única escolha normal. Assim estaremos dentro do campo da coacção moral (coacção relativa 
ou compulsiva), mesmo no caso da ameaça com arma de fogo ou no caso de emprego da 
violência física, como começo de execução do mal cominado, para compelir ao negócio. Só 
cairemos no âmbito da coacção física (coacção absoluta ou ablativa), quando a liberdade 
exterior do coacto é totalmente excluída e este é utilizado como puro autómato ou instrumento. 
 
 Não basta um simples medo ou receio; a lei exclui, desde logo, o chamado temor 
reverencial (255º n.º2). Torna-se necessário que o receio provenha de uma ameaça ilícita. 
Exige-se igualmente que a cominação do mal vise extorquir a declaração negocial. 
 
161.Modalidades 
 
 Coacção física (absoluta e moral (relativa) 
 
A coacção física, absoluta ou ablativa reduz o coagido à situação de mero instrumento 
ou autómato. 
 A coacção moral
 ou relativa ou compulsiva reduz a liberdade do coagido mas não a 
elimina (neste sentido coacta voluntas, semper voluntas), sendo o coagido ameaçado de um 
mal se não emitir a declaração; a liberdade do coacto é cerceada, mas não excluída, na 
coacção moral, pois existe sempre uma opção entre padecer o mal cominado ou expor-se à 
sua consumação e celebrar o negócio (A é ameaça de morte ou de agressão ou de difamação, 
se não emitir certa declaração negocial). A primeira dá lugar à inexistência do negócio (246º); a 
segunda à mera anulabilidade (256º). 
 
 Coacção dirigida à pessoa ou à honra ou à fazenda do declarante ou de terceiro 
 No regime geral da coacção não há qualquer diferença de tratamento, consoante o 
bem ameaçado pela cominação ou a pessoa directamentevisada. A ameaça pode dizer 
respeito à pessoa como à honra ou fazenda do declarante ou de terceiro (255º n.º2). 
 
162.Condições de relevância da coacção como motivo de anulabilidade 
 
 Coacção exercida por terceiro 
 A coacção exercida por terceiro provoca a anulabilidade do negócio e põe a cargo do 
coactor uma obrigação de indemnizar o declarante (coagido) e o declaratário (mas, em relação 
a este, apenas, é óbvio, se ele não for cúmplice do terceiro). 
 Ao contrário do dolo de terceiro, o negócio será anulável na sua totalidade (mesmo em 
face do declaratário), quer o coactor seja beneficiado por cláusula a seu favor, existente no 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 82 
contrato, quer não seja, e haja ou não conhecimento ou cognoscibilidade do vício por parte do 
declaratário (256º 1ª parte). 
 A lei desaprova a coacção em tão forte medida que, em face dela, a protecção da 
contraparte cabe, mesmo que esta nada soubesse ou devesse saber da coacção. 
 
163.A coacção moral e o simples temor reverencial 
 
 O temor reverencial (medo de incorrer no desagrado ou desafecto de outrem, a quem 
se deve respeito, gratidão, etc.) não constitui coacção, sendo, assim, irrelevante como motivo 
determinante da vontade. 
 
(5)O estado de necessidade e outras situações como vícios da vontade 
negocial 
 
164.Conceito 
 
 Situação de receio ou temor gerada por um grave perigo que determina o necessitado 
a celebrar um negócio para superar o perigo em que se encontra. 
 Modalidades possíveis, consoante a natureza do facto que lhe dá origem: facto natural 
ou facto humano. 
 
166.Valor dos negócios jurídicos realizados em estado de necessidade 
 
 No CC a hipótese dos negócio em Estado de necessidade deve subsumir-se na 
previsão do 282º, onde se estatui a anulabilidade dos chamados negócios usurários. É nos 
termos de tal disposição, que o legislador concebe sob a designação de usura alguma 
relevância ao velho instituto da lesão, não sancionando um critério puramente objectivo, mas 
exigindo, em conformidade com a fisionomia moderna do instituto. 
 
 Já se sabe que este regime dos 282º e 283º não se aplicará, havendo antes lugar à 
nulidade, quando a pessoa não se aproveita conscientemente da situação de necessidade 
tinha o dever de auxiliar o necessitado (acto contrário à lei ou ofensivo dos bons costumes). 
 
(6)A incapacidade acidental 
 
167.A incapacidade acidental 
 
 O CC regula a incapacidade acidental, não na secção das incapacidades, mas entre a 
falta e os vícios da vontade, dado o facto não se tratar de uma situação permanente do 
indivíduo, mas antes de um desvio no processo formativo da sua vontade em relação às 
circunstâncias normais do seu processo deliberativo. A hipótese está prevista no 257º, onde se 
prescreve a anulabilidade, desde que se verifique um requisito (além da incapacidade 
acidental) destinado á tutela da confiança do declaratário: a notoriedade ou o conhecimento da 
perturbação psíquica. O requisito da notoriedade significa a cognoscibilidade por uma pessoa 
média, colocado na posição concreta do declaratário. 
 
(V)A representação nos negócios jurídicos 
 
168.Conceito 
 
 Infere-se do 258º. A representação traduz-se na prática dum acto jurídico em nome de 
outrem, para na esfera desse outrem se produzirem os respectivos efeitos. Nada mais é 
necessário para existir a representação; para que ela, todavia, seja eficaz, torna-se necessário 
que o representante actue «nos limites dos poderes que lhe competem» (258º) ou que o 
representado realize, supervenientemente, uma ratificação. 
 Os poderes de representação podem ser atribuídos, por um acto voluntário, pelo 
representado ao representante: fala-se, então, de representação voluntária e o acto voluntário 
atribuidor de poderes representativos chama-se procuração. Podem resultar dos estatutos de 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 83 
uma pessoa colectiva (representação orgânica ou estatutária) ou, verificadas certas situações, 
ser concedidos pela lei a representantes legais (pais, tutor, administrador de bens, curador). 
 
 Não há contradição entre a representação e o princípio da autonomia privada. 
 A representação voluntária não contradiz o referido princípio; ao invés, traduz um 
alargamento das possibilidades contidas na referida autonomia. Não há contradição, desde 
logo, porque as possibilidades de actuação jurídico-negocial própria (do representado) não são 
restringidas pelo facto de ter passado a outrem uma procuração. 
 Quanto às pessoas colectivas têm, justamente, capacidade de agir por possuírem 
órgãos que as podem representar. 
 Na representação legal (menores, inabilitados, interditos) não se nos depara, 
igualmente, qualquer contradição com a autonomia privada. Os menores, os interditos e certos 
inabilitados não estão, segundo a perspectiva do ordenamento jurídico, em condições de 
defender os seus interesses e, por isso, não têm capacidade para se autodeterminarem, isto é, 
não disfrutam de autonomia privada. 
 
 Para existir a representação basta que o negócio seja concluído em nome do 
representado, não sendo já necessário que o seja no interesse do representado. Com efeito, se 
a representação legal tem lugar sempre no interesse do representado (incapaz), a 
representação voluntária pode ter lugar por força da chamada in rem suam, caso em que os 
poderes representativos são conferidos no interesse do próprio procurador. 
 
 Não há igualmente coincidência entre as noções de representação e de mandato, 
contrariamente a um equívoco bastante generalizado. Há perfeita autonomia entre as duas 
figuras, pois o mandato é um contrato pelo qual uma das partes se obriga a praticar um ou 
mais actos jurídicos por conta da outra (1157º); trata-se de uma modalidade particular do 
contrato de prestação de serviços. A representação já acima ficou definida e resulta que: 
 
 a)Pode haver mandato sem haver representação 
 Quando o mandatário não recebeu poderes para agir em nome do mandante; age por 
conta do mandante, mas em nome próprio. 
 
 b)Pode haver representação sem haver mandato 
 Não só na hipótese da representação legal, mas também no que toca à representação 
voluntária: esta resulta de um acto – procuração (262º) – que pode existir autonomamente 
(negócio unilateral) ou coexistir com um contrato que, normalmente, será o mandato, mas pode 
ser outro (ex.: contrato de trabalho). 
 
169.Espécies 
 
 a)Distinção entre representação própria, directa ou imediata e a representação 
imprópria, indirecta ou mediata.
 A chamada representação imprópria não é uma verdadeira 
representação, tal como este conceito é pressuposto pelo 258º. Verifica-se no mandato sem 
representação e, eventualmente, noutras hipóteses de interposição real de pessoas. 
 
 b)Distinção entre representação legal e voluntária, tendo como critério a fonte 
donde promanam os poderes representativos. 
 
Representação legal:
 o representante é indicado, verificada cada certa situação, pela 
lei, ou por decisão judicial em conformidade com a lei e tem os poderes definidos pela lei. São 
poderes de grande amplitude, traduzindo-se em legitimidade para representarem, em princípio, 
o menor ou o interdito, em todos os seus assuntos pessoais ou patrimoniais. 
 Representação voluntária:
 os poderes do representante e a respectiva extensão 
provêm da vontade do representado, manifestada na procuração. Esta pode ser geral, e, neste 
caso, só legítima para actos de administração ordinária, ou especial, abrangendo apenas os 
actos nela referidos e os necessários à sua execução. 
 
 c)Representação activa e passiva 
 A primeira é a actuação em nome de outrem na emissão de declarações negociais. A 
segunda traduz-se em receber declarações negociais em nome de outrem,para se produzirem 
os mesmos efeitos que se produziriam se tais declarações fossem recebidas por esse outrem. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 84 
170.Confronto com institutos afins 
 
 a)Representante e o simples núncio 
 O representante, ao contrário do núncio, nunca recebe, nem mesmo quando a 
procuração é especialíssima, um mandato absolutamente especificado e imperativo. 
 Decide, pelo menos, o se do negócio e, frequentemente, mais, isto é, o conteúdo. O 
representante emite uma declaração em nome de outrem; o núncio transmite uma declaração 
de outrem. O núncio é um mero longamanus, um braço mais comprido. O representante 
consuma; o núncio transmite o já consumado. 
 Diversidade de tratamento jurídico: 1) o representante (voluntário) não precisa de ter 
plena capacidade legal, mas carece de capacidade natural de entender e querer, exigida pela 
natureza do negócio que haja de efectuar (263º); quanto ao núncio, bastará a capacidade 
natural para transmitir a declaração de vontade, podendo uma criança actuar como núncio. 2) 
se o representante excede os seus poderes de representação, o negócio é ineficaz em relação 
ao representado (268º), se este não atribuir àquele legitimidade representativa (ratificação); se 
o núncio transmite a sua declaração inexactamente, o «dominos» poderá ficar vinculado nos 
termos da declaração emitida, se não se verificarem os requisitos do 250º para a relevância, no 
sentido da anulabilidade, do erro na transmissão da declaração. 
 
 b)Representação própria e imprópria 
 Na representação imprópria (contrato de comissão, mandato sem representação, etc.), 
não existe a chamada «contemplatio domini», embora se actue no interesse ou por conta de 
outrem; na representação própria existe a «contemplatio domini» (actuação em nome de 
outrem). 
 A representação imprópria ou mediata – na qual o agente, embora actuando no 
interesse de outrem, age em nome próprio – é uma forma de mera representação de 
interesses, que não torna o «dono do negócio» parte ou sujeito do acto jurídico praticado pelo 
«representante». Este é que é parte negocial. 
 
 c)Representação e as diversas formas de colaboração material ou técnica nos 
negócios de outrem 
 A distinção assenta na contraposição negócio jurídico/acto material; o representante 
realiza negócios jurídicos e os dactilógrafos, os operários, os consultores técnicos, etc., actos 
materiais (no sentido de actos não negociais, podendo tratar-se de operações de tipo 
intelectual). 
 
 d)Representação e os contratos para a pessoa a nomear 
 Os contratos para pessoa a nomear, são previstos e disciplinados no 452º e ss. 
 
 
1)Na representação própria o negócio representativo produz efeitos na esfera do 
representado ou, na hipótese de falta de legitimação representativa, é ineficaz; no contrato 
para pessoa a nomear, os direitos e obrigações provenientes do contrato são apropriados, a 
partir da celebração do negócio, pela pessoa nomeada e, não sendo feita a declaração de 
nomeação nos termos legais, o contrato produz os seus efeitos relativamente ao contraente 
originário (455º). 
 
2)Na representação imprópria o mandatário age em nome próprio, adquirindo os 
direitos e obrigações decorrentes dos actos que celebra, e é obrigado a transferir para o 
mandante os direitos adquiridos, sendo este obrigado a assumir as obrigações contraídas pelo 
mandatário; no contrato para pessoa a nomear, um dos contraentes declara contratar para um 
terceiro, reservando-se apenas o direito de o nomear e, uma vez feita a declaração de 
nomeação nos termos do 453º, os efeitos do negócio são encabeçados pela pessoa nomeada, 
retroactivamente, sem necessidade de um acto especial de transmissão dos direitos e das 
dívidas. 
 
 e)Representação e simples autorização ou consentimento para actos de outrem 
 O representante actua e na simples autorização inibe-se ou aprova-se uma iniciativa e 
uma actuação de outrem. 
 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 85 
f)Representação e os contratos a favor de terceiros 
 Na representação, o representante não se torna titular de quaisquer direitos ou 
obrigações em face da contraparte do negócio representativo, sendo sujeitos das relações 
emergentes do referido negócio o representado e a outra parte; nos contratos a favor de 
terceiro, estabelecem-se vínculos jurídicos entre o promissário e o promitente, além do direito 
adquirido pelo terceiro a favor de quem foi convencionada a promessa ou dos outros efeitos 
favoráveis a este (443º n.º2) 
 
171.Admissibilidade da representação 
 
 a)Representação legal.
 A sua admissibilidade e o seu domínio de aplicação resultam 
das disposições que a consagram para o efeito de se suprir a incapacidade dos menores 
(124º), a dos interditos (139º) e, até, eventualmente, a dos inabilitados (154º). 
 
 b)Representação voluntária. É admitida nos 262º e ss. O mandato com 
representação (1178º), no qual está coenvolvida uma procuração, é a fonte mais frequente da 
representação voluntária. 
 
172.Pressupostos da representação 
 
 a)Pressupostos de existência (conceituais) da representação: 
 
 1)«Contemplatio domini»,
 isto é, realização do negócio em nome do representado, 
para que a contraparte saiba ou possa saber com quem negoceia. 
 2)Declaração,
 em maior ou menor escala, de uma vontade própria do representante, e 
não, pura e simplesmente, de uma vontade do representado. Através deste requisito distingue-
se a figura do representante da figura do núncio. 
 
 b)Pressuposto de eficácia da representação: o acto deve estar integrado nos 
limites dos poderes que competem ao representante. O negócio vale em relação ao 
representado. Não vale em relação ao representante; esta não é parte negocial. 
 Deve existir, por parte do representante, legitimação representativa, que pode ser 
originária, isto é, já existente ao tempo do negócio representativo ou conferida, posteriormente, 
através de uma ratificação do negócio (legitimação representativa subsequente). 
 Os actos praticados por um representante sem poderes ou «falsus procurator» (com 
falta total de poderes representativos ou com excedência dos poderes que lhe foram 
atribuídos) são ineficazes em relação à pessoa em nome da qual se celebrou o negócio, salvo 
se tiver lugar a ratificação (268º nº1). 
 O negócio, ineficaz relativamente ao «representado», não é, também, tratado como um 
negócio do representante. Não havendo ratificação, o representante sem poderes, verificada 
culpa sua, como será quase sempre o caso, responde perante a contraparte, com fundamento 
em responsabilidade pré-negocial (227º) ou na existência de uma promessa tácita de garantia, 
sempre existente, se não psicologicamente ao menos objectivamente. 
 O «falsus procurator» responde pelo interesse contratual negativo ou interesse da 
confiança (a contraparte é colocada na situação em que estaria se não tivesse contado com a 
realização do contrato), se desconhecia, com culpa, a falta de poderes (no caso raro de não ter 
culpa, não responde). 
 O 269º manda aplicar o regime do 268º à hipótese de abuso de representação, se a 
outra parte conhecia o abuso ou este lhe era cognoscível. Haverá abuso de representação 
quando o representante actuar dentro dos limites formais dos poderes conferidos, mas de 
modo substancialmente contrário aos fins da representação. 
 O carácter formal ou consensual da ratificação, como , aliás, da procuração, depende 
das exigências formais do negócio representativo (268º n.º2 e 262º n.º2). 
 O negócio consigo mesmo: o chamado negócio consigo mesmo – ex., A, procurador 
de B, compra em nome próprio um objecto que vende em nome de B (autocontrato), 
manifestação particular da representação sem poderes (na medida em que o negócio é 
perfeitamente válido, desdeque o representado tenha especificamente consentido na 
celebração) -, está ferido de anulabilidade (261º) e não de ineficácia, como, «prima facie», se 
poderia pensar e se teria de concluir se o caso não estivesse expressamente hipotizado em 
norma especial (261º). 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 86 
 A extinção da representação é unilateral e pode dar-se por: revogação (por parte do 
representado) ou renúncia (por parte do representante) (265º). Pode dar-se também por causa 
natural, isto é, por conclusão. O 264º faz ainda referência à hipótese de subestabelecimento: o 
representante representa-se por outrem. 
 
(III)Elementos acidentais dos negócios jurídicos (Cláusulas acessórias 
típicas gerais) 
 
(I)Condição 
 
176.Conceito, natureza e importância da estipulação condicional 
 
 As noções de condição suspensiva e de condição resolutiva constam do 270º: 
subordinação pelas partes a um acontecimento futuro e incerto ou da produção dos efeitos do 
negócio jurídico (condição suspensiva) ou da resolução dos mesmos efeitos (condição 
resolutiva). 
 
 Natureza da estipulação condicional 
 Trata-se duma vontade hipotética, embora actual, e efectiva, exteriorizada numa 
declaração única e incindível. 
 
 Razão de ser e importância prática da condição 
 Superação da incerteza objectiva do futuro, através de um regulamento de interesses 
apto a, em qualquer hipótese, realizar a representação que os sujeitos têm do seu interesse. 
Numa especial modalidade permite influir sobre o comportamento de outrem. 
 
178.A aponibilidade da condição 
 
 Princípio geral 
 A cláusula condicional é um elemento acidental, susceptível de ser inserido na 
generalidade dos negócios, por força do princípio da liberdade negocial. 
 
 Valor de condição aposta a um negócio incondicionável 
 Em conformidade com o princípio da incindibilidade do negócio condicional, a 
consequência da aposição duma condição a um negócio incondicionável é a nulidade do 
negócio. Tal solução, na falta de disposição que expressamente a preceitue (ex.: 848º), 
resultará da aplicação analógica do 271º e até genericamente do 294º. 
 
179.Classificação das condições 
 
 Condições suspensivas e resolutivas 
 O critério da distinção, nos termos do 270º, é o da influência que a verificação do 
evento condicionante tem sobre a eficácia do negócio: se a verificação da condição importa a 
produção dos efeitos do negócio, não tendo estes lugar doutro modo, trata-se duma condição 
suspensiva; se a verificação da condição importa a destruição dos efeitos negociais, aquela 
diz-se resolutiva. 
 Saber se uma condição é suspensiva ou resolutiva é um problema de interpretação do 
negócio jurídico, não formulando o CC qualquer presunção geral, nem sendo legítimo propor 
qualquer presunção natural ou de facto com validade geral. 
 
 Condições possíveis e impossíveis. As chamadas condições ilícitas (contrárias à lei) 
 Os conceitos de condição impossível (física ou legalmente) e de condição contrária à 
lei ou à ordem pública ou ofensiva dos bons costumes resultam claramente das considerações 
acerca dos requisitos legais do objecto negocial: sempre que o evento condicionante não 
possa realizar-se por impossibilidade física ou legal, ou seja contrário à lei, à ordem pública ou 
ofensivo dos bons costumes, a condição respectiva terá a qualificação correspondente. 
 A condição que consiste num facto ilícito pode ser lícita, se a cláusula condicional 
representar um contra-estímulo à prática desse acto; só deixará de ser assim, nesta hipótese, 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 87 
sendo, portanto, nula a condição, se repugnar à lei ou aos bons costumes a ideia de que se 
pratique tal acto mediante retribuição. 
 Por outro lado, sendo embora o evento condicionante lícito, pode a condição ser ilícita, 
por força do seu nexo com o restante conteúdo do negócio. 
 
181.Efeitos da condição suspensiva 
 
 Na pendência da condição, isto é, enquanto o evento condicionante não se verificou, 
nem deixou de se poder verificar. Neste período, o credor condicional não tem ainda um direito 
exercitável em relação ao devedor, embora as partes estejam já vinculadas, de tal modo que 
estão sujeitas à produção dos efeitos do negócio, uma vez verificado o evento condicionante. 
 
(II)Termo 
 
183.Conceito 
 
 Cláusula acessória típica pela qual a existência ou a exercitabilidade dos efeitos de um 
negócio são postas na dependência de um acontecimento futuro mas certo, de tal modo que os 
efeitos só começam ou se tornam exercitáveis a partir de certo momento (termo suspensivo ou 
inicial) ou começam desde logo, mas cessam a partir de certo momento (termo resolutivo ou 
final). 
 
185.Aponibilidade do termo 
 
 Em obediência ao princípio da liberdade contratual, as partes gozam da faculdade de 
inserir esta cláusula na generalidade dos negócios. O termo pode ser aposto, em princípio, a 
qualquer negócio jurídico. 
 Esta regra tem excepções, contudo, visto que há negócios que não admitem termo – 
negócios inaprazáveis -, os quais coincidem, em regra, com os negócios incondicionáveis. 
 
186.Modalidades 
 
 Termo inicial, suspensivo ou dilatório (dies a quo ou ex quo) e termo final, 
resolutivo ou peremptório (dies ad quem) 
 Esta distinção é paralela à que separa a condição suspensiva da resolutiva, 
assentando num critério baseado na influência que a verificação do facto futuro (mas certo) tem 
sobre a existência ou a exercitabilidade dos efeitos do negócio. Se os efeitos do negócio só 
começam ou só se tornam exercitáveis a partir de certo momento, o termo diz-se suspensivo 
ou inicial; se começam desde logo, mas cessam a partir de certo momento, o termo diz-se 
resolutivo ou final. 
 
 Termo certo e incerto 
 O termo é certo quando se sabe antecipadamente o momento exacto em que se 
verificará (ex.: o devedor fica obrigado a cumprir a sua prestação no dia 1 de Janeiro de 
determinado ano ou dentro de um mês a contar de certa data), e incerto quando esse momento 
é desconhecido (ex.: consistir o momento da morte de alguém, a qual, como se sabe, é certa, 
mas a sua hora incerta). 
 Chama-se prazo ao período de tempo que decorre entre a realização do negócio e a 
ocorrência do termo, embora se possam atribuir outros sentidos àquela expressão. 279º - 
regime supletivo da contagem dos prazos (importante para os advogados). 
 
(III)Modo, encargo ou cláusula modal 
 
188.Conceito 
 
 Cláusula acessória típica, pela qual, nas doações e liberalidade testamentárias, o 
disponente impõe ao beneficiário da liberalidade um encargo, isto é, a obrigação de adoptar um 
certo comportamento no interesse do disponente, de terceiro ou do próprio beneficiário. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 88 
 Referem-se-lhe os 963º (doações com cláusula modal) e 2244º (instituição de herdeiro 
e nomeação de legatário sujeitas a encargos). 
 
189.Distinção do modo e da condição 
 
 O modo só pode ser aposto à liberalidades, enquanto a cláusula condicional é 
aponível, salvas as excepções constantes da lei, a todos os negócios (gratuitos ou onerosos). 
 Enquanto a cláusula modal se traduz na imposição, ao beneficiário da liberalidade, do 
dever de adoptar uma certa conduta, a condição pode ter como evento condicionante um facto 
de qualquer das partes (credor ou devedor condicional), um facto natural ou de terceiro ou um 
evento de carácter misto. 
 
190.Valor do modo impossível ou ilícito 
 
 No CC há um artigo – 967º - que manda aplicar aos encargos modais, física ou 
legalmente impossíveis, contrários à lei ou à ordem pública ou ofensivos dos bons, apostos às 
doações, as regras estabelecidas em matéria testamentária. Há, assim, identidade de regime 
entreas doações e os testamentos, quanto a este ponto, contrariamente ao que resultava da 
legislação anterior. 
 O 2245º manda aplicar aos encargos impossíveis ou ilícitos o regime estatuído, para as 
condições com as mesmas características, no 2230º. Assim, a cláusula modal impossível 
(física ou legalmente) tem-se por não escrita e não prejudica o donatário, herdeiro ou legatário, 
salvo declaração do doador ou do testador em contrário. Os encargos ilícitos (contrários à lei 
ou à ordem pública ou ofensivos dos bons costumes), têm-se igualmente por não escritos, 
ainda que o disponente disponha o contrário. 
 A nulidade é, portanto, parcial, isto é, mantém-se o restante conteúdo da liberalidade 
que assim resulta ampliada, sendo tal regime supletivo, no que toca ao modo impossível, e 
imperativo, para o modo ilícito. 
 
(IV)Cláusula penal 
 
192.Conceito e importância 
 
 Cláusula penal:
 é a estipulação em que as partes convencionam antecipadamente 
uma determinada prestação, normalmente uma quantia em dinheiro, que o devedor terá de 
satisfazer ao credor em caso de não cumprimento, ou de não cumprimento perfeito da 
obrigação. Pode, assim, revestir duas modalidades: cláusula penal compensatória ou 
moratória, conforme tenha sido estipulada para o não cumprimento da obrigação ou para a 
simples mora do devedor. 
 Aparece normalmente como cláusula do contrato, dele fazendo parte desde a sua 
celebração, mas nada impede que seja convencionada posteriormente, desde que antes da 
verificação do facto constitutivo de responsabilidade. 
 A cláusula penal constitui a fixação antecipada e convencional do montante da 
indemnização, sendo uma cláusula acessória da obrigação principal, pelo que as vicissitudes 
desta se reflectirão na pena convencional (designação por que também é conhecida). Assim, 
se a obrigação principal for nula, nula é a cláusula penal (810º). 
 
 A importância prática da cláusula penal é manifesta, tendo em conta as funções que 
desempenha. 
 Constituindo uma forma de liquidação prévia do dano, segundo a estimativa dos 
próprios contraentes, superam-se assim dificuldades e incertezas várias, mormente de prova 
do dano e da sua extensão. 
 Com efeito, em circunstâncias normais, e na ausência de qualquer cláusula penal, o 
credor, que pretenda ser indemnizado dos prejuízos resultantes da violação do contrato, terá 
de fazer prova, através da acção judicial competente, dos prejuízos sofridos. Existindo uma 
cláusula penal, contudo, o credor deixa de ter de fazer essa prova, sendo o montante da 
indemnização aquele em que as partes tiveram previamente acordado. 
 Supera-se assim, com a estipulação de uma cláusula penal, a incerteza dos 
contraentes quanto à avaliação judicial da indemnização, conhecendo-se de antemão as 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 89 
consequências que advirão de um incumprimento do contrato e evitando-se litígios judiciais 
sobre o montante do dano. 
 Mas além desta importante função que a cláusula penal desempenha – liquidação 
prévia do dano, nos termos acordados pelas partes -, não pode minimizar-se uma outra, para 
que esta figura está especialmente vocacionada: uma função sancionatória, de pressão sobre 
o devedor em ordem à execução correcta do contrato, sobretudo quando a pena é de montante 
elevado. 
 Sabendo o devedor a quantia que terá de entregar ao credor, se não cumprir a 
obrigação, a cláusula penal constituirá um incentivo ao incumprimento tanto maior quanto mais 
elevado for o seu montante, revestindo-se esta função de particular importância sobretudo 
tratando-se de obrigações de prestação de facto infungível ou de contratos em que o 
cumprimento rigoroso das obrigações assume particular significado. 
 
193.Regime 
 
 A cláusula penal é devida independentemente da extensão dos danos, sendo o 
montante da indemnização aquele em que as partes tiverem antecipadamente acordado. 
 Pode acontecer, porém, que esse montante se venha a revelar, nas circunstancias 
concretas, manifestamente excessivo, permitindo-se, neste caso, ao tribunal a redução desse 
montante, em termos equitativos, o mesmo sucedendo se a obrigação tiver sido parcialmente 
cumprida (812º). 
 A possibilidade de redução equitativa de pena manifestamente excessiva, que o CC 
consagra, culmina um movimento que de há muito vinha salientando a necessidade de 
combater cláusulas penais abusivas, visto que o código de Seabra estabelecia apenas que «se 
a obrigação foi cumprida em parte, pode a pena ser modificada na parte proporcional». 
 É certo que a fiscalização judicial da cláusula penal contende com algumas vantagens 
que esta figura apresenta, em termos de poder questionar-se se não ficarão assim 
comprometidas as sua funções de reforço da garantia de cumprimento do contrato e de certeza 
do montante da indemnização em caso de não cumprimento. 
 Esta argumentação foi utilizada, durante algum tempo, como forma de justificar a 
imutabilidade da pena, mas teve de ceder perante as flagrantes injustiças a que, em certos 
casos, esta situação conduzia. O legislador não deixou, todavia, de ter em devida conta, na 
medida ajustada, o bem fundado de tal argumentação, ao fixar a doutrina do 812º, visto que a 
possibilidade de reduzir a cláusula pena depende de o seu montante se mostrar 
manifestamente excessivo, e não apenas de ser superior ao dano. Só em casos excepcionais, 
pois, é, que o tribunal poderá reduzir o montante da cláusula penal, a fim de evitar abusos, pois 
doutra forma, isto é, se fosse permitida a redução da pena sempre que, independentemente da 
desproporção existente, fosse superior ao prejuízo efectivo, anular-se-iam as vantagens que a 
cláusula penal apresenta. 
 
(V)Cláusulas limitativas e de exclusão de responsabilidade civil 
 
194.Conceito e importância prática 
 
 Cláusulas limitativas de responsabilidade: são estipulações através das quais os 
contraentes, no momento da celebração do contrato – ou posteriormente, desde que antes da 
verificação do facto gerador de responsabilidade -, acordam em limitar, de alguma forma, a 
responsabilidade do devedor pelo não cumprimento, cumprimento defeituoso ou mora das 
obrigações assumidas. A limitação da responsabilidade verificar-se-á, quer condicionando-a a 
determinado grau de culpa (v.g., dolo e culpa grave, exonerando, assim, o devedor em caso de 
incumprimento devido a simples culpa leve), quer limitando-a no seu montante. 
 
195.Regime 
 
 O CC não trata da disciplina das cláusulas limitativas e de exclusão de 
responsabilidade em termos claros e sistemáticos, referindo-se a elas apenas no 800º nº2. Aí 
se permite que a responsabilidade do devedor por actos dos representantes legais ou 
auxiliares possa ser convencionalmente excluída ou limitada, mediante acordo prévio, «desde 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 90 
que a exclusão ou limitação não compreenda actos que representem a violação de deveres 
impostos por normas de ordem pública». 
 Tratando-se, porém, de actos directamente praticados pelo próprio devedor, não se 
encontra na lei uma resposta clara e segura sobre o regime daquelas convenções. 
 Quanto à cláusula limitativa de responsabilidade, pensamos não ser abrangida pela 
proibição constante do 809º, norma que impede o credor de renunciar antecipadamente a 
certos direitos, entre eles, o de indemnização, mas da fixação de um limite máximo, esta 
cláusula não cabe na hipótese do 809º. 
 Por outro lado, admite a lei, como vimos, no 810º, a possibilidade de as partes fixarem 
por acordo o montante da indemnização exigível. 
 
(IV)Ineficácia e invalidade dos negócios jurídicos 
 
198.Ineficacia dos negócios jurídicos (latu sensu). Noção. Ineficácia 
stricto sensu e invalidade. Outras formas de ineficácia em sentido lato 
 
 A ineficácia em sentido amplo temlugar sempre que um negócio não produz, por 
impedimento decorrente do ordenamento jurídico, no todo ou em parte, os efeitos que tenderia 
a produzir, segundo o teor das declarações respectivas. 
 A invalidade é uma espécie do género ineficácia: enquanto a ineficácia lato sensu 
compreende todas as hipóteses em que, por causas intrínsecas ou extrínsecas, o negócio não 
deve produzir os efeitos a que tendia, a invalidade é apenas a ineficácia que provém de uma 
falta ou irregularidade dos elementos internos (essenciais, formativos) do negócio. 
 O conceito de ineficácia em sentido estrito definir-se-á, coerentemente, pela 
circunstância de depender, não de uma falta ou irregularidade dos elementos internos do 
negócio, mas de alguma circunstância extrínseca que, conjuntamente com o negócio, integra a 
situação complexa produtiva de efeitos jurídicos. 
 Na invalidade, a ausência de produção dos efeitos negociais resulta de vícios ou 
deficiências do negócio, contemporâneos da sua formação. O mesmo sucede em muitos casos 
de ineficácia em sentido estrito. 
 Há, porém, casos de cessação dos efeitos negociais – e, portanto, de ineficácia em 
sentido lato – por força de eventos posteriores ao momento da sua celebração. Surgem-nos 
com estas características, no quadro conceitual e terminológico do CC, figuras como a 
resolução, revogação, caducidade, denúncia. 
 
200.Inexistência e invalidade (nulidade e anulabilidade) dos negócios 
jurídicos 
 
 Inexistência e invalidade 
 A inexistência é uma figura autónoma, com consequências mais graves do que a 
nulidade e a anulabilidade. Estes dois últimos conceitos serão precisados adiante. 
 Quanto à inexistência, afirma-se estarmos perante esta figura, quando nem sequer 
aparentemente se verifica o «corpus» de certo negócio jurídico (a materialidade 
correspondente à noção de tal negócio) ou, existindo embora essa aparência, a realidade não 
corresponde a tal noção. Pelo contrário, a valoração de um negócio, como nulo ou anulável, 
pressupõe, pelo menos, que o negócio exista, isto é, que se verifiquem os elementos 
correspondentes ao seu tipo, sem embargo de ocorrer, nesses elementos, alguma 
anormalidade. 
 
 Nulidade e anulabilidade. Invalidades mistas 
 A distinção entre nulidade e anulabilidade corresponde, na terminologia do CC à 
anterior distinção doutrinal entre nulidade absoluta e nulidade relativa. 
 O negócio nulo não produz, desde o início, por força da falta ou vício de um elemento 
interno ou formativo, produz os seus efeitos e é tratado como válido, enquanto não for julgada 
procedente uma acção de anulação; exercido, mediante esta acção, o direito potestativo de 
anular, pertencente a uma das partes, os efeitos do negócio são retroactivamente destruídos. 
 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 91 
201.Regime das nulidades 
 
 a)Operam «ipso iure» ou «ipsa vi legis» 
 Não se torna necessário intentar uma acção ou emitir uma declaração nesse sentido, 
nem sequer uma sentença judicial prévia, e podem ser declaradas «ex officio» pelo tribunal 
(286º). 
 b)São invocáveis por qualquer pessoa interessada 
 Isto é, pelo sujeito de qualquer relação jurídica afectada, na sua consistência jurídica 
ou prática, pelos efeitos a que o negócio se dirigia (286º). 
 c)São insanáveis pelo decurso do tempo 
 Isto é, são invocáveis a todo o tempo (286º). A possibilidade da sua invocação 
perpétua pode, porém, ser precludida, no aspecto prático, pela verificação da usucapião 
(prescrição aquisitiva), se a situação de facto foi actuada de acordo com os efeitos a que tendia 
o negócio. 
 d)São insanáveis mediante confirmação (288º «a contrario») 
 Pode, todavia, ter lugar aqui um sucedâneo da confirmação: a chamada renovação ou 
reiteração do negócio nulo. Há algumas diferenças entre a confirmação e a renovação. A 
confirmação é um negócio unilateral; a renovação, nos contratos nulos, é um novo contrato. A 
confirmação tem efeito retroactivo, mesmo em relação a terceiros; a renovação opera «ex 
nunc», mesmo que o fundamento da nulidade tenha desaparecido, embora, por estipulação 
«ad hoc», possa ter eficácia retroactiva nas relações «inter partes». 
 
202.Regime das anulabilidades 
 
 O negócio anulável é, em princípio, apesar do vício, tratado como válido. Se não for 
anulado, no prazo legal e pelas pessoas com legitimidade, passa a ser definitivamente válido. 
Se for anulado, no tempo e forma devidos, considera-se que os efeitos visados não se 
produziram desde o início, como nunca tendo tido lugar. 
 São as seguintes as características das anulabilidades: 
 
 a)Têm de ser invocadas pela pessoa dotada de legitimidade 
 Não podem ser declaradas «ex. officio» pelo juiz. Exigem uma acção especialmente 
destinada a esse efeito, ressalvada a possibilidade da sua arguição por via de excepção, isto é, 
a possibilidade de as pessoas legitimadas se defenderem, arguindo a anulabilidade de 
qualquer negócio jurídico que contra elas seja invocado (287º). 
 b)Só podem ser invocadas por determinadas pessoas 
 E não por quaisquer interessados. Resulta do 287º nº1 que só têm legitimidade para 
arguir a anulabilidade os titulares do interesse para cuja específica tutela a lei a estabeleceu. 
 c)São sanáveis pelo decurso do tempo 
 O CC estabelece em prazo de um ano para a arguição das anulabilidades. Na hipótese 
dos actos afectados por ilegitimidades conjugais, o prazo é de três anos (1687º nº2). 
 Note-se, porém, que a arguição da anulabilidade não está sujeita a qualquer prazo, se 
o negócio não esta cumprido; nesta hipótese, poderá vir-se requerer a anulação a todo o 
tempo, quer por via de acção, quer por via de excepção. 
 d)São sanáveis mediante confirmação (288º) 
 A confirmação é um negócio unilateral pelo qual a pessoa com legitimidade para arguir 
a anulabilidade declara aprovar o negócio viciado. 
 A confirmação não depende de forma especial e pode ser tácita ou expressa (288º 
nº3). 
 
204.Efeitos da declaração de nulidade e da anulação 
 
 1)Operam retroactivamente (289º), o que está em perfeita coerência com a ideia de 
que a invalidade resulta de um vício intrínseco de negócio e, portanto, contemporâneo da sua 
formação. Não se produzem os efeitos jurídicos a que o negócio tendia. 
 2)Não obstante a retroactividade, há lugar à aplicação das normas sobre a situação do 
possuidor de boa fé, em matéria de frutos, benfeitorias, encargos, etc. (289º nº3). 
 3)Em consonância com a retroactividade, haverá lugar à repristinação das coisas no 
estado anterior ao negócio, restituindo-se tudo o que tiver sido prestado ou, se a restituição em 
espécie não for possível, o valor correspondente (289º nº1). 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 92 
 4)A retroactividade da nulidade e da anulação, levada às suas últimas consequências 
lógicas, conduziria à oponibilidade da destruição dos efeitos do negócio em face de terceiros. 
 
206.A invalidade e outras formas de cessação dos efeitos negociais 
(resolução, revogação, caducidade e denúncia) 
 
 Resolução 
 O CC admite a chamada resolução do contrato, com fundamento na lei ou em 
convenção das partes. 
 A resolução tem lugar em situações de variada natureza, resultando, não dum vício da 
formação do contrato, mas dum facto posterior à sua celebração, normalmente um facto que 
vem iludir a legítima expectativa duma parte contratante, seja um facto da contraparte 
(inadimplemento de uma obrigação), seja um facto natural ou social («alteração anormal das 
circunstâncias»). 
 
 a)A resolução pode fazer-se mediante declaração à outra parte (436º); a invalidade, ou 
actua automaticamente (nulidade), ou implica uma acção judicial (anulabilidade). 
 b)A resolução tem, em princípio, efeito retroactivo entre as partes, mas tal efeito não se 
verifica, se contrariar a vontade das partesou a finalidade da resolução, bem como, em 
princípio, nos contratos de execução continuada ou periódica; a invalidade tem efeito 
retroactivo «inter partes», sem estas limitações. 
 c)A resolução nunca prejudica os direitos adquiridos por terceiro (435º), salvo se o 
terceiro adquiriu o seu direito posteriormente ao registo da acção de resolução; a invalidade 
opera os seus efeitos em relação a terceiros. 
 
Revogação 
 Nalguns casos a lei autoriza um dos sujeitos do negócio jurídico a revogá-lo. A 
revogação tem apenas a consequência de extinguir os efeitos do negócio para o futuro («ex 
nunc»); não opera retroactivamente. 
 Pode ter lugar igualmente uma revogação dos contratos por comum acordo, 
eventualmente com eficácia retroactiva «inter partes». É o chamado extintivo ou abolitivo ou 
«contrarius consensus» (406º nº1). Com este «contrarius consensus» as partes, por mútuo 
consentimento, extinguem a relação contratual existente entre eles. 
 
 Caducidade 
 A cessação dos efeitos negociais pode ter lugar, sem carácter retroactivo, sob a forma 
da caducidade. No nosso sistema jurídico abrange este conceito uma série numerosa de 
situações em que as relações jurídicas duradouras de tipo obrigacional criadas pelo contrato ou 
pelo negócio (formando no seu conjunto a relação contratual) se extinguem para futuro por 
força do decurso do prazo estipulado, da consecução do fim visado ou de qualquer outro facto 
ou evento superveniente (ex.: morte de uma pessoa) a que a lei atribui efeito extintivo, «ex 
nunc», da relação contratual. 
 Tentando por em evidência traços específicos da caducidade, a partir das suas 
manifestações legais, devemos assinalar: 
 a)a sua causa é algo de objectivo; 
 b)actua automaticamente ou de pleno direito («ipso iure»); 
 c)não tem carácter retroactivo. 
 
 Denúncia 
 Entre as formas de pôr termo à eficácia de um negócio jurídico, a denúncia caracteriza-
se especificamente por ser a faculdade existente na titularidade de um contratante de, 
mediante mera declaração, fazer cessar uma relação contratual ou obrigacional em sentido 
amplo, a que está vinculado, emergente de um contrato bilateral ou plurilateral. 
 Se não se exige como pressuposto ou requisito da denúncia uma justa causa, um 
motivo particular, a denúncia diz-se ad nutum ou ad libitum. Nela se manifesta uma pura e 
simples vontade, não carecida de justificação (uma nuda voluntas), do autor da denúncia. 
 Deve reconhecer-se, nos contratos de duração ou por tempo indeterminado, a 
existência de um poder de denúncia sem uma específica causa justificativa. O fundamento 
material desta denunciabilidade «ad nutum» é a tutela da liberdade dos sujeitos que seria 
comprometida por um vínculo demasiadamente duradouro. 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 93 
207.Formas de aproveitamento de negócios inválidos. O problema da 
redução dos negócios jurídicos 
 
 Posição do problema 
 O problema da redução dos negócios jurídicos insere-se na disciplina dos efeitos das 
nulidades e anulabilidades pessoais. Trata-se de saber se, no caso de um fundamento de 
invalidade ser relativo apenas (afectar apenas) uma parte do conteúdo negocial, o negócio 
deve valer na parte restante (não afectada) ou deve ser nulo ou anulável na sua totalidade. 
 
 Solução do problema 
 Na doutrina propõe-se, predominantemente, o critério da vontade hipotética ou 
conjectural das partes, «não uma vontade real, mas a vontade como que fingida ou construida 
pelo juiz». Trata-se de averiguar aquilo que as partes teriam querido provavelmente, se 
soubessem que o negócio se opunha parcialmente a alguma disposição legal e não pudessem 
realizá-lo em termos de ser válido na sua integridade. 
 Se é de admitir que as partes, nessa hipótese, prefeririam não realizar qualquer 
negócio, deve concluir-se pela invalidade total. Se se concluir que as partes, provavelmente, 
sempre o teriam realizado na parte não directamente atingida pela invalidade, deve ter lugar a 
redução do negócio. 
 
208.Formas de aproveitamento de negócios inválidos. O problema da 
conversão dos negócios jurídicos 
 
 Os termos do problema 
 Trata-se de saber se, declarado nulo ou anulado totalmente um negócio, este não 
produzirá quaisquer efeitos negociais ou se, dados certos requisitos, não poderá reconstituir-
se, com os materiais do negócio totalmente inválido, um outro negócio, cujo resultado final 
económico-jurídico, embora mais precário, se aproxime do tido em vista pelas partes com a 
celebração do contrato totalmente inválido. 
 
 Requisitos de admissibilidade 
 A doutrina nacional e estrangeira é largamente favorável à conversão dos negócios 
jurídicos, exigindo, todavia, certos requisitos de admissibilidade. Esses requisitos são os 
seguintes: 
 
 1)É necessário que o negócio inválido contenha os requisitos essenciais de forma e 
substância (capacidade, objecto, vontade), necessários para a validade do negócio sucedâneo. 
Assim, a venda verbal de imóveis é inconvertível em promessa de compra e venda, dado o 
410º nº2. 
 2)Exige-se que a vontade hipotética ou conjectural das partes seja no sentido da 
conversão. Só haverá conversão, quando se imponha a conclusão de que as partes teriam 
querido o negócio sucedâneo se, na hipótese de se terem apercebido do vício do negócio 
principal, não pudessem tê-lo celebrado sem essa deficiência. 
 3)É frequentemente exigido pela doutrina que o negócio sucedâneo diga respeito ao 
mesmo objecto material a que respeitava o negócio principal. 
 
 Admissibilidade da conversão no nosso direito 
 A conversão é genericamente regulada no 293º, onde são formulados requisitos 
coincidentes com os enunciados pela doutrina. Acentue-se, a este propósito, que, 
diversamente do que sucede com a redução dos negócios jurídicos, a conversão exige a prova 
da vontade hipotética ou conjectural das partes, não tendo lugar em caso de duvida. 
 Para além desta norma (293º) que resolve, em geral, o problema da conversão dos 
negócios jurídicos, a produção do mesmo fenómeno é, sem atender à vontade hipotética, 
expressamente determinada em disposições particulares (conversão «ope legis»): 946 nº2 
(conversão legal das doações por morte em disposições testamentárias)... 
 
 
 
 
TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL 
Vinnie 2002/2003 © todos os direitos reservados 94 
(III)Eficácia do decurso do tempo nas relações jurídicas 
 
209.Prescrição extintiva e caducidade. Remissão 
 
 O tempo é um facto jurídico não negocial, susceptível de influir, em muitos domínios do 
direito civil, em relações jurídicas do mais diverso tipo. 
 Os problemas mais importantes colocados pela repercussão do decurso do tempo no 
mundo dos efeitos jurídicos referem-se à prescrição extintiva e à caducidade. (93.) 
 
 Há importantes diferenças de regime entre a prescrição e a caducidade. Assim: 
 
 1)Admitem-se estipulações convencionais sobre a caducidade (330º), o mesmo não 
acontecendo a respeito do regime da prescrição, o qual é interrogável (300º); 
 2)A caducidade é apreciada oficiosamente pelo tribunal (333º), diversamente do que 
sucede com a prescrição, que tem que ser invocada, não podendo o tribunal supri-la, de ofício 
(303º); 
 3)A caducidade, em princípio, não comporta causas de suspensão nem de interrupção 
(328º), ao contrário da prescrição que se suspende e interrompe nos casos previstos na lei 
(respectivamente 318º ss. e 323º ss.); 
 4)Por último, a caducidade só é impedida, em princípio, pela prática do acto (331º), 
enquanto que a prescrição se interrompe pela citação ou notificação judicial de qualquer acto 
que exprima, directa ou indirectamente, a intenção de exercer o direito, tendo-se, igualmente, 
por interrompida, 5 dias depois de requerida a citação ou a notificação, se estas não tiverem 
sido feitas por causa não imputável ao requerente (323º).A prescrição extintiva, possam embora não lhe ser totalmente estranhas razões de 
justiça, é um instituto endereçado fundamentalmente à realização de objectivos de 
conveniência ou oportunidade. 
 Diversamente da caducidade, a prescrição arranca, também, da ponderação de uma 
inércia negligente do titular do direito em exercitá-lo, o que faz presumir uma renúncia ou, pelo 
menos, o torna indigno da tutela do Direito, em harmonia com o velho aforismo «dormientibus 
non succurit jus». 
 Na caducidade só o aspecto objectivo da certeza e segurança é tomado em conta. O 
que explica, v.g., que a caducidade seja apreciada oficiosamente pelo tribunal – ao contrário da 
prescrição, que tem que ser invocada -, bem como o facto de influírem sobre o prazo de 
prescrição, e não sobre o da caducidade, situações e acontecimentos que excluem a 
possibilidade de a falta de exercício do direito ser atribuída a inércia do titular – situações e 
acontecimento a que podem suspender ou interromper a prescrição, mas não a caducidade. 
 De referir, por último, que o prazo ordinário da prescrição é de vinte anos (309º), 
prevendo a lei, para certas hipóteses, uma prescrição de cinco anos (310º). Há prazos mais 
curtos para as chamadas prescrições presuntivas (que se fundam na «presunção de 
cumprimento» - 312º), os quais podem ser de seis meses (316º) ou de dois anos (317º). 
 Estas prescrições presuntivas, por serem fundadas numa presunção de cumprimento, 
podem, ao contrário do regime geral da prescrição, ser ilididas por confissão do devedor (306º).

Mais conteúdos dessa disciplina