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See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.net/publication/281346788 Apostila de Dermatologia UFPR Research · August 2015 CITATIONS 0 READS 14,967 1 author: Some of the authors of this publication are also working on these related projects: Prostate Cancer View project Laparoscopic Surgery View project Frederico Ramalho Romero Universidade Estadual do Oeste do Paraná 117 PUBLICATIONS 1,170 CITATIONS SEE PROFILE All content following this page was uploaded by Frederico Ramalho Romero on 30 August 2015. 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O desenho acima mostra a camada epidérmica, a camada dérmica subjacente e a hipoderme. A epiderme é constituída, da superfície para o interior, das seguintes camadas: Camada córnea; Camada de células espinhosas; Camada granulosa e Camada basal. A maturação progressiva das células basais em células epiteliais escamosas queratinizadas, leva, em média, 28 dias. As patologias costumam acometer principalmente as células das camadas basal e espinhosas. O pêlo, também representado na figura, é composto por um bulbo, uma haste e uma bainha externa. Quando há uma inflamação nessa estrutura, nós a chamamos de folite. O termo alopécia se refere a ausência, congênita ou não, de pêlos ou cabelos do corpo. As glândulas sebáceas são compactas e são constituídas por células glandulares claras, brancacentas, com núcleo central. Figura 1 - Desenho esquemático de um corte transversal da pele DERMATOLOGIA - 2 As glândulas sudoríparas, por sua vez, têm a função de produzir suor para a regulação da temperatura corporal. Além desses componentes, a pelo também apresenta colágeno, fibroblastos, nervos e outros componentes comuns a todos os tecidos. Definições macroscópicas Antes de descrevermos as características clínicas e histológicas das patologias dermatológicas, vamos definir antes alguns termos usados na dermatologia. Pápula É uma lesão elevada, sólida, de consistência firme, que não apresenta água no seu interior e geralmente contém processo inflamatório. Seu tamanho geralmente é inferior a 5 mm. Existem mais de 30 doenças que cursam com pápula. Dentre elas, nós temos: Verruca vulgaris inicial; Leishmaniose Inicia como uma pápula e desenvolve-se para pústula; Liquen planus Apresenta pápulas altamente pruriginosas; Sífilis secundária; Sarna É muito pruriginosa e ocorre principalmente em crianças; Hiperplasia sebácea; Carcinoma de células basais Inicialmente; Queratose seborreica; Hanseníase. Tubérculo É uma lesão semelhante a pápula. Ou seja, é elevado, sólido, de consistência firme e sem água no seu interior. O que os diferencia é que o tubérculo é maior que 5 mm e geralmente é mais profundo do que a pápula. O tubérculo, assim como a pápula, pode as vezes ser altamente pruriginoso. Placa É uma alteração localizada, geralmente maior do que 5 mm de extensão, elevada mas plana, eritematosa e com alteração da cor. DERMATOLOGIA - 3 Algumas doenças que podem cursar com placa são as seguintes: Psoríase; Hanseníase; Dermatite seborreica; Dermatite eczematosa; Sífilis secundária Associada a pápula; Ptiríase rósea. Vesícula É uma lesão elevada, com fluido no seu interior, geralmente menor que 5 mm, freqüentemente múltipla e com a epiderme circundante eritematosa. O herpes é um dos microorganismos responsáveis pela formação das vesículas. Bolha A bolha é uma lesão elevada, com fluido no seu interior, maior que 5 mm e que evolui a partir de vesículas. É por isso que elas estão freqüentemente acompanhadas por vesículas. Ainda, as bolhas podem ser intra-epidérmicas ou subepidérmicas. A dor é uma manifestação clínica que pode ocorrer quando as vesículas ou as bolhas rompem-se. Síndrome para-neoplásica As bolhas apresentadas nas extremidades de um paciente com mais de 50 anos geralmente fazem parte da síndrome para-neoplásica de neoplasias do trato gastrointestinal; Epidermólise bolhosa É uma doença congênita em que o paciente forma bolhas a partir de traumatismos mínimos devido a ausência de elementos colágenos e elásticos; Porfirias Alterações metabólicas, com agravamento pela luz solar, que forma bolhas hemorrágicas ou pústulas; Eritema multiforme “Lesões em alvo”. Pústula É a vesícula ou bolha que apresenta fluido purulento no seu interior. Acne; DERMATOLOGIA - 4 Foliculite. Úlcera A úlcera é uma solução de continuidade na epiderme e porção da derme que pode ser provocada ou patológica e que se distingue da escoriação por deixar seqüelas quando cura. Retocolite ulcerativa idiopática Pode apresentar uma úlcera chamada pioderma gangrenoso; Leishmaniose Produz úlceras em 98% dos casos. Crosta É uma concreção do exsudato dos neutrófilos com fibrina, hemácias e restos celulares. São freqüentemente encontradas na superfície de lesões ulceradas. As crostas podem ser: Serosas, Hemáticas ou Melicéricas É uma lesão elevada, seca, de tamanho variado, da qual aflui um fluidoamarelado (semelhante ao mel). Ela é muito comum no impetigo contagioso. Nódulo O nódulo é uma massa tumoral sólida, maior que 1 cm, localizado na derme ou na hipoderme (subcutâneo), podendo ou não fazer saliência. Por isso, ele é mais palpável do que visível. Micoses profundas; Hanseníase O nódulo lepromatoso freqüentemente é uma lesão associada a madarose; Sarcoidose; Tuberculose; Sífilis tardia; Deve-se fazer o seu diagnóstico diferencial com os tumores como, por exemplo: Melanoma; Carcinoma de células escamosas; Carcinoma de células basais; Hemangioma Tumor vascular benigno; Sarcoma de Kaposi Antigamente, era mais freqüente nos membros inferiores de pessoas idosas. Atualmente, está mais ligada a AIDS; Neurofibromatose de pele; Linfomas de células T. Eritrodermia É a alteração da coloração normal da pele para o vermelho. DERMATOLOGIA - 5 Ictiose1 É uma lesão que se assemelha a escama de peixe. A ictiose pode ser genética mas sua maioria é adquirida e faz parte das síndromes para-neoplásicas. Fissura É uma solução de continuidade retilínea que compromete a epiderme e a derme. Escama É composta por massas celulares corneificadas que se tornam aparentes na superfície da pele e se destacam facilmente. A escama geralmente tem cor brancacenta e aspecto farináceo. Necrose epidérmica É uma situação geralmente induzida por algumas drogas e que também provoca a descamação da pele. Quando difusas e graves, as necroses epidérmicas tem grande chance de levar ao óbito. Vegetação A vegetação é uma lesão elevada, circunscrita e constituída por projeções que lembram um couve-flor. Ela resulta do espessamento dérmico e epidérmico. Como exemplo de vegetações, nós temos: Verruca vulgaris; Cromoblastomicose. Alopécia É a perda de pêlos ou cabelos do corpo, podendo ser ela parcial ou total. Cisto Cisto é uma elevação globosa e móvel, com flutuação à palpação, que geralmente apresenta uma cavidade preenchida por cebo. Liquenificação É uma área de espessamento da pele com acentuação das marcas cutâneas que resultam de atrito repetido, crônico e prolongado. 1 Do latim, “icti(o) = peixe; ose = estado” (N do A) DERMATOLOGIA - 6 Mácula É uma alteração localizada da cor da pele, sem alterações na superfície ou na textura da pele. Sua coloração pode ser acrômica, hipercrômica ou eritematosa. As máculas ocorrem principalmente em: Dermatite de contato; Fase inicial dos nevus; Processos inflamatórios; Lentigo maligno melanoma Inicia como mácula atingindo idosos, principalmente em face; Esclerose tuberosa Mácula hipocrômica; Outras hipermelanoses Aumento da cor da pele de causas desconhecidas. Exulceração É a perda parcial ou completa da epiderme e que cura sem deixar cicatriz. A escoriação é uma forma de exulceração mecanicamente provocada. Telangiectasia2 Dilatação ao longe dos vasos. Petéquias São manchas decorrentes do extravasamento de sangue dos vasos da pele e mucosa. São lesões puntiformes, redondas e planas, de coloração vermelho vivo ou púrpura, de diâmetro entre 1 e 3 mm e não pulsáteis. Equimoses As equimoses são maiores que as petéquias, de cor purpúrea ou púrpuro-azulada evoluindo para verde, amarelo e castanho com o tempo. Tem tamanho e forma variáveis e são decorrentes do extravasamento de sangue dos vasos, com freqüência secundária a traumatismos e também de distúrbios hemorrágicos. Não são pulsáteis. 2 Do latim, “tel(e) = ao longe; angi(o) = vaso; ectas = dilatação; ia = estado” (N do A) DERMATOLOGIA - 7 Definições microscópicas As definições microscópicas são as seguintes: Hiperceratose3 Aumento da proliferação da camada córnea da epiderme. Paraceratose4 É uma ação ao longo da camada córnea que se caracteriza pela retenção de núcleos picnóticos nas células escamosas com hiperceratose. Hipergranulose5 A hipergranulose se caracteriza pelo aumento da proliferação das células da camada granulosa. Geralmente está associada a hiperceratose. Acantose6 É o aumento da proliferação das células espinhosas da epiderme. Ela pode ser regular, irregular ou pseudo- carcinomatosa. Balanonização Acúmulo de líquido no citoplasma de células espinhosas que aumentam de tamanho, tornando-se pálidas. Quando severa, resulta na rotura da membrana celular, ocorrendo a formação de bolha intra-epidérmica, de aspecto reticulado (degeneração reticular). Espongiose7 Ação da camada epidérmica semelhante a uma esponja, alargando o espaço intercelular por acúmulo de líquido. Freqüentemente se acompanha de linfócitos e pode formar vesículas intra-epidérmicas. É muito comum nos eczemas. Exocitose8 3 Do latim, “hiper = excesso; cerat(o) = corno; ose = ação” (N do A) 4 Do latim, “par(a) = ao longo de; cerat(o) = corno; ose = ação” (N do A) 5 Do latim, “hiper = excesso; granul(o) = camada granulosa; ose = ação” (N do A) 6 Do latim, “acant(o) = espinhoso; ose = ação” (N do A) 7 Do latim, “espongia = esponja; ose = ação” (N do A) 8 Do latim, “ex(o) = para fora; cit(o) = célula; ose = ação” (N do A) DERMATOLOGIA - 8 Saída de células inflamatórias (linfócitos, neutrófilos e eosinófilo) para fora dos vasos sangüíneos da derme em direção a epiderme. Degeneração hidrópica9 da camada basal Degeneração das células da camada basal por acúmulo de serosidades, tornando-as volumosas, vacuolizadas. Devido a destruição das células basais e de melanócitos (que faz parte das células da camada basal), pode ocorrer derrame de pigmento melânico na derme. Acantólise10 É a dissolução, ou perda da coesão, entre as células espinhosas da epiderme por lesão das junções intercelulares (desmossomas). Ela ocorre com a formação de bolha intra- epidérmica, assim como a balanonização e a espongiose. Disceratose11 Mau estado da camada córnea da epiderme por queratinização prematura das células espinhosas. Podem aparecem em processos benignos e malignos. Papilomatose12 É o alongamento excessivo das papilas epidérmicas, constituindo projeções digitiformes acima da superfície da epiderme. Pérola córnea É uma estrutura formada por queratinização irregular e concêntrica de um grupo de células. Ela é observada principalmente em carcinomas epidermóides bem diferenciados. No entanto, pode também ocorrer em processos inflamatórios e em neoplasias benignas. Atrofia13 A atrofia da epiderme caracteriza-se principalmente por uma diminuição do número de células da camada espinhosa. É o oposto da acantose. 9 Do latim, “hidrópica = aquela que tem hidropsia; hidropsia = acúmulo de serosidades no tecido celular” (N do A) 10 Do latim, “acant(o) = espinhoso; lise = dissolução” (N do A) 11 Do latim, “dis = mau estado; cerat(o) = corno; ose = ação” (N do A) 12 Do latim, “papil(i) = papila; ose = ação” (N do A) 13 Do latim, “a = ausência; trof(o) = nutrição; ia = estado” (N do A) DERMATOLOGIA - 9 Pústula espongiforme Caracteriza-se por uma espongiose contendo neutrófilos dentro do líquido e formando microabscessos. Corpúsculo de Civatte É uma estrutura que ocorre em doenças em que há degeneração hidrópica da camada basal e representa um acúmulo circunscrito de colágeno, fibrina, imunoglobulinas e resto de queratinócitos. DERMATOLOGIA - 10 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ DermatologiaEczemas ou dermatites Definição Atualmente, os eczemas e as dermatites têm sido usados como sinônimos, mas isso não é muito apropriado porque as dermatites compreendem todos os processos inflamatórios da pele. Assim, o nome mais apropriado para descrever os eczemas seria dermatite eczematosa. A palavra eczema vem do grego e significa “fervor do sangue”, o que descreve muito bem a manifestação clínica dessa patologia. O eczema é um processo sindrômico e, assim, ele é o termo clínico utilizado para denominar diversas condições patológicas diferentes que comumente se caracterizam por um processo inflamatório dermo-epidérmico com lesões papulovesiculares avermelhadas, em um estágio inicial, que evoluem para formar placas. Como a pele não tem muitos modos de se defender, ela vai ficando mais espessa, ou seja, descamativa, escamosa e com acentuação das linhas cutâneas, ao que se denomina liquenificação. Classificação Houve uma tentativa de classificar os eczemas, mas nunca se conseguiu um consenso comum. A grosso modo, nós podemos classificá-los em: Eczemas endógenos Também chamados de constitucionais ou atópicos, que derivam de alterações internas do próprio indivíduo. Eczemas exógenos Quando são derivados de alguma agressão externa. A resposta inflamatória dos eczemas endógenos é basicamente humoral, ou seja, mediada por células B, enquanto que os eczemas exógenos têm uma resposta celular, mediada por células T. Ainda, como os eczemas são um processo sindrômico, eles existem em vários tipos. Desta forma, algumas diferenças clínicas nos permitem classificá-los, também, nas seguintes categorias: Dermatite irritante primária Dermatite alérgica de contato Dermatite atópica Dermatite fotoeczematosa Dermatite eczematosa mediada por drogas DERMATOLOGIA - 11 Incidência Devido as diversas substâncias químicas que nós entramos em contato diariamente, estudos mostraram que, em um ambulatório geral, aproximadamente 20 pacientes, entre 1.000, vão apresentar dermatite eczematosa e, destes, 60% vão ser uma dermatite alérgica de contato. Dermatite irritante primária É a dermatite causada por certos agentes que provocam uma reação eczematosa em 100% dos indivíduos expostos. É isso que difere este tipo de eczema da dermatite alérgica de contato, em que apenas alguns indivíduos vão desenvolver uma resposta eczematosa. O tempo de aparecimento das lesões vai depender da saturação e da concentração da substância, do tempo de exposição, da área acometida, da temperatura ambiente, etc. Não é necessário período de incubação. A dermatite irritante primária é causada principalmente por ácidos, álcalis e certas substâncias de plantas. Esse tipo de eczema tem muito interesse para a medicina do trabalho, porque quase 50% dos casos estão relacionados com lesões de pele ligadas ao trabalho e o sítio mais comumente envolvido são as mãos. Dermatite alérgica de contato Como já foi dito, o eczema provocado pela hipersensibilidade de contato (reação tipo IV) acomete apenas os indivíduos susceptíveis a um determinado agente. Nas fases iniciais da gênese de suas lesões, as células de Langerhans, localizadas na camada granulosa da epiderme, reconhecem o antígeno alérgico e promovem uma ativação endotelial, que causa uma adesão dos linfócitos T circulantes com memória imunológica para essa antígeno, que deve ter sido exposto ao organismo em outra ocasião. Uma vez que essas células T chegam ao sítio onde se encontra o antígeno, elas elaboram uma resposta com recrutamento para um enorme número de células inflamatórias que dirigem-se para a epiderme (exocitose). Esse processo ocorre em 24 horas e é responsável pelo eritema e pelo intenso prurido inicial que caracteriza a fase aguda da dermatite alérgica de contato. Figura 1 - Dermatite irritante primária DERMATOLOGIA - 12 Hoje em dia, é muito freqüente a presença de eczema de contato por bijuterias. O diagnóstico tanto da dermatite alérgica de contato como da dermatite irritante primária, assim como a identificação do agente causador, é feito através da história clínica e da localização da lesão, que geralmente limita-se a área de contato, mas que também pode apresentar disseminação. Dermatite atópica Também denominada de dermatite constitucional, é uma dermatite que começa na infância. Na manifestação infantil, que vai de 2 meses até 2 anos de idade, ela atinge principalmente as bochechas, o pescoço, as regiões extensoras dos membros superiores e os genitais. Nesta fase, há intolerância a certos tipos de alimentos como ovos e leite, inclusive o leite materno, podendo haver espasmos, vômitos e diarréia. Depois disso, dos 2 aos 10 anos de idade, a localização clássica e fundamental da dermatite atópica, que não deve ser esquecida, são as dobras cutâneas, principalmente as grandes dobras dos cotovelos e dos joelhos, mas, também, as dobras do pescoço, das pálpebras, etc. A dermatite atópica geralmente evolui para a cura a medida que o indivíduo vai envelhecendo, mas uma variante persistente tende a se localizar nas mãos, pescoço, face, genitália ou pernas. Uma condição associada a dermatite atópica, que é um critério menor de diagnóstico, é a prega orbicular dupla na criança, que apresenta uma prega, normalmente ausente, logo abaixo da inserção dos cílios inferiores. Dos indiví- duos adultos, praticamente 100% daqueles que apresentarem Figura 2 - Dermatite eczematosa atópica Figura 3 - Prega orbicular dupla que freqüentemente acompanha as crianças com dermatite atópica DERMATOLOGIA - 13 olheira vão apresentar uma história pessoal ou familiar de reação atópica, seja ela de rinite, bronquite ou dermatite. Os agentes que mais comumente causam dermatite atópica são sabonetes e água quente. Dermatite fotoeczematosa Existem alguns eczemas de contato que necessitam de ação coadjuvante da luz ultravioleta para apresentarem manifestações clínicas e, assim, são também chamados de eczemas fotoalérgicos. Tratamento O tratamento do eczema é feito através do afastamento do contactante. Porém, caso isso não seja possível, pode-se tratá-lo, na sua fase aguda, com compressas de permanganato de potássio, soro fisiológico ou ácido acético diluído; com a administração de anti-histamínicos e com o uso de corticóides tópicos. As compressas auxiliam no tratamento dos processos inflamatórios através da evaporação do líquido nela contida, que retira calor do tecido e produz vasoconstrição. Anti-histamínicos A histamina é um produto da descarboxilação da histidina, que é produzida pelo organismo e estocada no interior dos mastócitos e dos basófilos. Quando ela é liberada por essas células para os tecidos, ela atua, basicamente, causando vasodilatação dos vasos de pequeno calibre, produzindo eritema e calor; e aumentando a permeabilidade vascular, produzindo edema. Sua ação depende da sua ligação com receptores que estão no endotélio e na musculatura lisa dos capilares, principalmente os receptores H1, que tem uma resposta rápida e transitória. Em processos crônicos, os receptores H2 também se tornam importantes. Sua resposta é lenta, mas duradoura. Os anti-histamínicos que geralmente são utilizados terapeuticamente são os anti-histamínicos anti-H1 e anti-H2. Os medicamentos anti-H1 são utilizados principalmente nos processos alérgicos e dermatoses em geral, enquanto os anti- histamínicos anti-H2, como a cimetidina, por exemplo, são utilizados para tratar gastrites e processos onde os níveis de ácido clorídrico do estômago estão descompensados. Quanto aos anti-histamínicos anti-H1, eles podem ser classificados quanto a sua forma de administração: Uso tópico Atualmente,não se deve utilizar anti-histamínicos topicamente devido ao risco de haver sensibilização do indivíduo com uma conseqüente reação anafilática, numa segunda exposição. Outros medicamentos que são contra-indicados topicamente devido a esse risco são as penicilinas, os anestésicos e a sulfa. DERMATOLOGIA - 14 Difenildramina; Levocabascitina. Uso sistêmico Primeira geração Etanolaminas; Etilenodiaminas; Alquilaminas; Piperazinas; Fenotiazinas (Fenergan®). Segunda geração Alquilaminas; Piperazinas; Piperidinas (Claritin®). A diferença entre os anti-histamínicos de primeira ou segunda geração é a sua ação no SNC. Os medicamentos de primeira geração são capazes de atravessar a barreira hemato-encefálica e causar sedação e sonolência. Contudo, alguns pacientes podem fazer um efeito paradoxal com excitação. Em caso de intoxicação, os anti-histamínicos de primeira geração podem gerar convulsão, principalmente em crianças. Além disso, eles têm efeito antimuscarínico, ou seja, podem provocar secura na boca, retenção urinária, etc. Quanto maior a idade, maiores os efeitos colaterais dos anti-histamínicos de primeira geração. Por sua vez, os anti-histamínicos de segunda geração não são capazes de atravessar a barreira hemato-encefálica ou, se atravessam, é em quantidade mínima que não chega a causar sedação. Eles também não apresentam efeito antimuscarínico. Desta forma, quando se for receitar um anti-histamínico de primeira geração, deve-se prevenir o paciente quanto a dirigir, ingerir bebidas alcoólicas, etc. De preferência, deve-se instruir ao paciente que ele permaneça em repouso. O uso de anti-histamínicos em dermatoses e urticárias é muito importante para o alívio do prurido. Quanto ao eritema e o edema, apesar deles agirem no sentido de diminuírem sua intensidade, geralmente esses sinais não involuem, principalmente nas situações crônicas. Corticosteróides Os dois principais tipos de hormônios corticosteróides são os mineralocorticóides e os glicocorticóides. Os mineralocorticóides receberam este nome pelo fato de afetarem especialmente os eletrólitos dos líquidos extracelulares, em particular o sódio e o potássio. DERMATOLOGIA - 15 Os glicocorticóides são assim denominados pelo importante efeito que exercem de aumentar o nível de glicemia. Todavia, os glicocorticóides possuem efeitos adicionais sobre o metabolismo das proteínas e das gorduras que são provavelmente tão importantes, senão mais, quanto os seus efeitos sobre o metabolismo dos carboidratos. Ainda, grandes quantidades de glicocorticóides podem bloquear a inflamação. A inflamação, basicamente, pode ser dividida em cinco estágios principais: Liberação de substâncias químicas que ativam o processo inflamatório como a histamina, a bradicinina, enzimas proteolíticas, etc.; Aumento do fluxo sangüíneo para a área inflamada, causando eritema; Perda de grandes quantidades de plasma, com conseqüente formação de edema; Infiltração da área por leucócitos e Cicatrização do tecido. Quando grandes quantidades de corticosteróides são secretadas ou administradas em um indivíduo, dois efeitos antiinflamatórios básicos ocorrem: 1. Bloqueio dos estágios iniciais do processo inflamatório através de: Estabilização das membranas lisossômicas; Diminuição da permeabilidade dos capilares; Supressão do sistema imune, determinando acentuada redução da reprodução dos linfócitos e Redução da febre. 2. Caso a inflamação já tenha começado, rápida resolução do processo e aumento na velocidade de cicatrização Através do bloqueio da maioria dos fatores que promovem a inflamação. Os efeitos colaterais que podem resultar do uso de corticóides são: Telangiectasias Irreversível; Atrofia cutânea É um efeito reversível, mas que demanda mais tempo de tratamento do que a patologia primária em si; Infecção Como os corticosteróides são imunossupressores, deve-se considerar a possibilidade de haver uma infecção secundária, principalmente por fungos. Então, deve-se também fazer um tratamento coadjuvante com antibióticos; Insuficiência adrenal O uso crônico de corticóides sistêmicos pode levar a uma alteração na formação de CRH (fator de liberação de corticotropina) pelo hipotálamo e conseqüentemente, uma redução na síntese de ACTH pela hipófise anterior; Hiperglicemia Como já foi dito, os glicocorticóides atuam no metabolismo dos carboidratos, aumentando a gliconeogênese; DERMATOLOGIA - 16 Osteoporose Os glicocorticóides também podem atuar na massa óssea e seu uso crônico leva a osteoporose em 20 a 30% dos pacientes através da redução da atividade dos osteoblastos e do aumento da reabsorção óssea pela ativação dos osteoclastos; Aumento na degradação de proteínas É um efeito dos corticosteróides com o objetivo de aumentar a quantidade de aminoácidos para a gliconeogênese Pode levar a uma fraqueza muscular acentudada, estrias violáceas, etc.; Síndrome de Cushing Mobilização de gordura da parte inferior do corpo e deposição simultânea na região torácica e abdominal superior, dando origem a denominada “corcova de búfalo”; e “face em lua cheia” decorrente do aspecto edematoso da face. DERMATOLOGIA - 17 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Dermatologia Urticária Definição A urticária é formada por lesões sólidas, achatadas, de formas variáveis (arredondadas, arciformes, irregulares), freqüentemente eritematosas e quase sempre pruriginosas. A palavra urticária provém de ‘urtiga’, designação comum a diversas plantas da família das urticáceas, cujas folhas são cobertas de pêlos finos, os quais, em contato com a pele, produzem um ardor irritante, devido a ação do ácido fórmico. A lesão da urticária tem a característica de ser fugaz, ou seja, desaparece em cerca de horas. Quando ela permanece por mais de 24 horas, nós podemos estar diante de uma urticária- vasculite ou de uma outra dermatose. Patogênese Anafilaxia é o conjunto de sinais e sintomas que são causados pela liberação de mediadores, principalmente a histamina, pelos mastócitos e basófilos, que causam vasodilatação e contração da musculatura lisa. Essas células são estimuladas por agentes como a IgE, complementos (principalmente o C3a e o C5a) e mecanismos não-imunes. A urticária nada mais é do que a manifestação da anafilaxia na pele. Desta forma ela geralmente é acompanhada por manifestações sistêmicas, em maior ou menor grau, como por exemplo, broncoconstrição, rinite, náuseas, diarréia, etc. Dependendo da gravidade da reação, pode haver inclusive uma certa taxa de morbidade e mortalidade. Por isso, na história clínica é importante se fazer uma boa investigação e avaliar nos antecedentes familiares quanto a presença de reações atópicas. Figura 1 - Lesão da urticária DERMATOLOGIA - 18 Etiologia Existem diversos mecanismos que podem causar urticária. Eles podem ser divididos em mecanismos imunes ou mecanismos não-imunes. Mediados por IgE Diátese atópica O aparecimento de urticária em pacientes com história de reação atópica na ausência de um agente específico é atribuída a uma diátese atópica; Haptenos Penicilina Outros antibióticos; Antígenos completos Venenos Insulina Estreptoquinase Alimentos Imunoglobulinas heterólogas Extrato de alergenos; Estímulo físico Frio Raios solares Irritação mecânica; Ativadores não imunológicos dos mastócitos Opiáceos Agem diretamente sobre os mastócitos fazendo com que eles liberem os mediadores Antibióticos Curare Meios contrastados; Mediados por anafilotoxinas Geralmente, o quadro clínico das lesões mediadas por anafilotoxinas(complemento) se manifesta pelo que nós chamamos de urticária-vasculite que, apesar de apresentar prurido, tem como sintomatologia principal a dor. Suas lesões também são denominadas contusiformes porque depois da sua resolução, 2 ou 3 dias após seu aparecimento, elas deixam uma área de coloração púrpura, semelhante a uma contusão. As lesões urticária-vasculite são, na verdade, vasculites que se assemelham clinicamente as urticárias. Crioglobulinemia Macroglobulinemia Doenças do tecido conjuntivo Lupus Eritematoso Sistêmico Vasculite por hipersensibilidade DERMATOLOGIA - 19 Fármacos Doença do soro Plasma humano ou produtos sangüíneos Imunoglobulinas Membranas de diálise; Moduladores do metabolismo do ácido aracdônico Antiinflamatórios não-esteroidais Tartrazina; Mecanismos desconhecidos Exercício Geralmente apresentam lesões estimuladas pelo suor que são pequenas e localizadas no tronco Anafilaxia recorrente Urticária colinérgica com anafilaxia Urticária induzida pelo frio com anafilaxia Mastocitose É um quadro em que os mastócitos estão aumentados em número e são constantemente ativados. Apresenta placas e pápulas associadas a uma hipermelanose, que dá a elas uma coloração mais acastanhada Drogas Fatores psicológicos. Incidência Um estudo na Suécia com 35.330 pessoas mostrou que aproximadamente 0,12% das mulheres e 0,14% dos homens apresentaram urticária. Destes, 33% eram urticárias agudas, ou seja, que apresentavam episódios recorrentes de urticária a menos de 6 semanas, e 67% eram crônicas (com surtos persistindo por mais de 6 semanas). Nos casos agudos é mais comum a descoberta dos agentes etiológicos. Nos casos crônicos, porém, é mais difícil a determinação da sua etiologia, ficando sem causa determinada cerca de 30 a 40% dos pacientes. Os pacientes que mais freqüentemente chegam a nós são os pacientes portadores de urticária crônica. Tabela 1 - Incidência/prevalência de reações anafiláticas nos Estados Unidos Etiologia Incidência/prevalência Todas as causas 1 a cada 2.700 pacientes hospitalizados Picada de inseto 0,4 a 0,8% da população Infusão de Dextran 1 a cada 383 pacientes tratados Hemodiálise 1 em cada 1.000 a 5.000 Imunoterapia 0,1 por milhão de injeções Contraste radiográfico 1 em cada 1.000 a 14.000 injeções Procedimentos anestésicos gerais 1 em cada 300 pacientes Penicilina 1 a 7,5 por milhão de pessoas DERMATOLOGIA - 20 Manifestações clínicas Como já foi dito, o quadro clínico da urticária decorre da liberação de mediadores químicos pelos mastócitos e basófilos. Assim, nós vamos ter determinada reação de acordo com o local onde forem liberados esses mediadores. Pele Prurido Urticária Angioedema É a liberação de histamina nas partes moles do corpo como, por exemplo, pálpebras, lábios, dorso de mão, etc. As vezes, este sintoma pode aparecer isoladamente, sem urticária “Flushing” Cianose; Olhos Lacrimejamento Prurido Injeção conjuntival; Nariz Sintomatologia proveniente de rinite Prurido Espirros Congestão nasal Rinorréia; Boca Prurido Edema Gosto metálico; Vias aéreas superiores Sintomatologia proveniente de laringite Rouquidão Estridor Edema de laringe; Vias aéreas inferiores Quadro de broncoconstrição Dispnéia Taquipnéia Sibilância Broncorréia Insuficiência respiratória Se for uma reação grave Aparelho cardiovascular Hipotensão DERMATOLOGIA - 21 Taquicardia Arritmias Insuficiência cardíaca; Aparelho gastrointestinal Náuseas Vômitos Dor abdominal Distensão abdominal Incontinência urinária e fecal. Diagnóstico O rápido aparecimento e a natureza autolimitada das erupções urticariformes são característicos. Assim, o diagnóstico das urticárias é geralmente feito através de uma anamnese bastante detalhada, tentando-se observar um possível agente etiológico e questionando-se quanto ao uso de medicamentos, picadas de insetos, alimentação, história familiar de atopia, etc.; e, também, através do exame físico do paciente. Exames laboratoriais Os exames laboratoriais não são específicos para o diagnóstico de urticária. A histopatologia não é boa, exceto para a urticária-vasculite, porque a urticária é um fenômeno muito fugaz. Não existe indicação para o teste alérgico. Pode-se até pedir um exame de IgE, que vai se encontrar elevado nas formas mediadas por esta imunoglobulina, mas o diagnóstico é definido geralmente através da história clínica e do exame físico do paciente. Tratamento A identificação do fator etiológico e a sua eliminação são as medidas terapêuticas que fornecem os resultados mais satisfatórios. Contudo, quando isso não é possível, o tratamento da urticária geralmente segue uma ordem cronológica. Inicialmente, utilizam-se os antagonistas H1, tanto de primeira quanto de segunda geração, principalmente na urticária crônica com comprometimento exclusivamente de pele. Na ausência de melhora clínica, pode-se associar antagonistas H2 como a cimetidina, por exemplo. Ainda assim, se não houver melhora, associa-se o uso de corticóides, com exceção dos casos de urticária-vasculite, em que os corticóides devem ser utilizados desde o início do tratamento. DERMATOLOGIA - 22 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Dermatologia Neoplasias cutâneas Oncogênese Fase de iniciação As alterações são mais qualitativas, a nível de DNA, do que quantitativas Fatores Radiação ultravioleta Produz alteração cromossômica quando atinge as células superficiais provocando a descamação da epiderme Quando altera células da camada germinativa, deve ocorrer um reparo natural do organismo sobre o DNA modificado (vigilância imunológica). Se houver falha nesse mecanismo de reparo imunológico, podem se desenvolver células malignas As células displásicas reconhecidas pela vigilância imunológica são destruídas ou fagocitadas pelo MALT (agregados de linfócitos com atividade imunológica), onde essas células podem sofrer replicação (efeito cumulativo da radiação) Agentes virais Como o HPV, por exemplo; Fase de promoção Fatores ambientais Físicos, químicos ou biológicos Atrito repetido Pode provocar alteração na pele, induzindo a multiplicação epitelial. Caso esse tecido apresente alterações prévias de DNA, pode se instalar uma neoplasia; Fase de progressão Depende da história natural de cada neoplasia Fatores ambientais; Fatores constitucionais; Fatores de intervenção médica. Neoplasias benignas Em termos de pele, existem cerca de 150 ou mais neoplasias benignas e malignas. Felizmente, a maioria é benigna. Nevus melanocítico O nevus melanocítico é a neoplasia benigna mais comum que acomete o ser humano. Ele se caracteriza pelas “pintas”, ou seja, uma lesão bem delimitada, de cor única, superfície granulosa e geralmente menor que 5 mm. Quando um nevus melanocítico apresenta pêlos, indica um excelente prognóstico. DERMATOLOGIA - 23 O nevus ocorre devido a transformação de melanócitos dendríticos, que geralmente apresentam-se isolados, em células quase sem dendritos, que crescem formando ninhos celulares ao longo da junção dermo-epitelial. Quanto mais melanina essas células produzirem, mais escura será a lesão. Existe também o nevus melanocítico gigante, que é uma lesão mais perigosa pois 10% deles desenvolvem-se para formar um melanoma. Ceratose seborreica A ceratose seborreica é uma neoplasia benigna muito comum que se apresenta como uma lesão grande (maior que 5 mm), muito bem delimitada, de coloração escura e superfícieladrilhada e oleosa. Tem como diagnóstico diferencial o melanoma maligno. Dermatofibroma É um tumor benigno semelhante a pápula, que não dói, não coça e não arde. Tem como diagnóstico diferencial o sarcoma de Kaposi. Sua principal distinção é o tempo de evolução, que no dermatofibroma é longo, enquanto no sarcoma de Kaposi é repentino. O sarcoma de Kaposi é, atualmente, muito freqüente nos aidéticos. Figura 1 - Nevus melanocítico Figura 2 - Ceratose seborreica Figura 3 - Dermatofibroma DERMATOLOGIA - 24 Hemangioma O hemangioma é uma neoplasia benigna congênita dos vasos, que são de tamanhos variados e também fazem diagnóstico diferencial com o sarcoma de Kaposi. Neoplasias malignas Carcinoma basocelular (CBC) O CBC é a neoplasia maligna de pele que mais acomete o ser humano. Ele tem origem nas células da camada basal e, epidemiologicamente, está intimamente relacionado com a exposição solar e com indivíduos idosos de cor branca. É uma neoplasia que não dá metástases, mas é maligna porque é muito agressiva localmente e pode levar ao óbito. O carcinoma basocelular é muito variável macroscopicamente. Sua manifestação mais comum é uma lesão nódulo-ulcerativa, que inicia como um pequeno nódulo peroláceo (brilhante) que freqüentemente apresenta pequenos vasos telangiectasiados na sua superfície. Figura 4 - Hemangioma Figura 5 - Carcinoma basocelular DERMATOLOGIA - 25 Esse nódulo aumenta lentamente de tamanho e pode sofrer uma ulceração central. Microscopicamente, ele apresenta blocos de células neoplásicas revestidas por uma camada de células em paliçada. Apesar de ser mais comumente encontrado no tronco e nas extremidades, a cabeça e o pescoço também podem ser acometidos. Seu principal diagnóstico diferencial é o fibroadenoma, uma neoplasia benigna de traço familiar que tem uma morfologia muito semelhante ao carcinoma basocelular. Ele também pode ser confundido com diversas dermatoses inflamatórias benignas, principalmente a psoríase. O CBC pigmentado tem, também, diagnóstico diferencial com o melanoma. As modalidades de tratamento do CBC incluem: 1. Calterização e curetagem Método mais empregado pelos dermatologistas É o método de escolha para os tumores menos agressivos e deve ser evitado em lesões recorrentes, histologicamente agressivas ou profundamente invasivas; 2. Exerese cirúrgica Tem a vantagem de oferecer controle histológico É indicado nos tumores agressivos; 3. Criocirurgia Utiliza nitrogênio líquido; Figura 6 - CBC em grande aumento DERMATOLOGIA - 26 4. Radioterapia Possui uma excelente chance de cura para a maioria dos CBC Pode ser utilizada nos pacientes não-operáveis; 5. Cirurgia micrográfica de Mohs Permite um extremo controle histológico e a preservação do tecido não envolvido É utilizado em lesões recorrentes, mal delimitadas, etc. 6. Quimioterapia tópica 5-Fluorouracil Têm um uso limitado; 7. Interferon intralesional. Carcinoma espinocelular (CEC) O carcinoma espinocelular também é uma neoplasia maligna muito relacionada com o sol e com as pessoas de pele clara, que tem origem nas células da camada espinhosa da epiderme. Figura 7 - Carcinoma espino celular localizado em lábio inferior DERMATOLOGIA - 27 Sua manifestação clínica varia amplamente. Comumente, o CEC se apresenta como um nódulo ulcerado ou uma erosão superficial na pele ou no lábio inferior, mas também pode se apresentar como uma pápula verrucosa ou uma placa. Suas margens podem ser mal definidas e sua fixação em estruturas adjacentes pode ocorrer. Ao contrário do CBC, as telangiectasias são incomuns. Etiologicamente, ele tem a ceratose actínica como uma lesão precursora em 4 a 5% dos casos. A ceratose actínica é uma lesão que geralmente localiza-se em áreas expostas e que pode ser máculo-papulosa, espessada, descamativa e muitas vezes limitada a membrana basal. Nesses casos, menos de 1% das neoplasias originam metástases. Pacientes transplantados ou em terapia imunossupressora crônica são particularmente susceptíveis ao CEC. O carcinoma espinocelular localizado nos lábios tem relação com o alcatrão. Esses tumores tem um potencial de metastatização de aproximadamente 11%. Nas cicatrizes crônicas, como as resultantes de queimaduras, o tecido fibrótico aí existente é mais sensível a iniciação e a promoção oncogênica. As lesões espinocelulares vegetantes freqüentemente tem relação com a infecção pelo HPV, que pode agir como um cocarcinógeno da luz ultravioleta. Contudo, essas lesões em geral não tendem a se metastatizar. O carcinoma espinocelular associado a hanseníase tem uma grande agressividade local, mas também não tende a fazer metástases. Sua associação com os pacientes infectados com o HIV é incomum, mas ele pode ser mais agressivo nesses casos. Microscopicamente, os carcinomas espinocelulares têm como característica principal a presença de pérolas córneas, que são conjuntos de células epiteliais queratinizadas concentricamente. Quanto mais pérolas córneas um CEC apresentar, melhor o seu prognóstico, ou seja, mais bem diferenciado ele é. Apesar de serem utilizadas para estadiar o carcinoma espinocelular, as pérolas córneas não são Figura 8 - Ceratose actínica DERMATOLOGIA - 28 estruturas patognomônicas dessa neoplasia. Elas também podem ser encontradas, por exemplo, na leishmaniose. Tabela 1 - Estadiamento do carcinoma espinocelular CLASSIFICAÇÃO DE BRODERS QTD. DE PÉROLAS CÓRNEAS Mais de 75% de células maduras Grau I - Bastante pérolas córneas Mais de 50% de células maduras Grau II - Moderadas pérolas córneas Mais de 25% de células maduras Grau III - Poucas pérolas córneas Menos de 25% de células maduras Grau IV - Pérolas córneas ausentes O diagnóstico do carcinoma espinocelular deve ser feito o mais cedo possível, preferencialmente enquanto ele ainda for um carcinoma “in situ”, quando também é denominado doença de Bowen. Seu tratamento deve ser baseado em alguns fatores de risco que influenciam o comportamento biológico do tumor como, por exemplo: Tamanho; Localização; Diferenciação histológica; Idade e Condição física do paciente. Desta forma, pode-se optar pelas seguintes formas terapêuticas: 1. Exerese cirúrgica; 2. Radioterapia; 3. Cirurgia micrográfica de Mohs. Melanoma Figura 9 - CEC bem diferenciado, com presença de grande número de pérolas córneas DERMATOLOGIA - 29 O melanoma é uma neoplasia maligna que acomete geralmente pessoas entre os 30 e os 60 anos de idade, da raça branca, predominantemente mulheres e que depende da exposição ao sol. Quanto mais precoce uma pessoa fica em exposição solar, mais predisposição para desenvolver melanoma ela tem. Quando diagnosticado precocemente, ele é facilmente tratado e tem um prognóstico excelente. Porém, o melanoma é um tumor muito agressivo e dá metástases rapidamente. Então, o prognóstico passa a ser muito pobre. Esta neoplasia se forma a partir de células dendríticas chamadas melanócitos. Normalmente, cada melanócito fornece melanina para aproximadamente 36 células epiteliais. Quando esses melanócitos se malignizam, eles começam a subir da camada basal para as outras camadas da epiderme e iniciam um crescimento radial superficial, sem invadir a profundidade. Nessa fase, nós dizemos que o melanoma está “in situ”, e é nesta fase que deve ser feito o diagnóstico porque ele ainda não se tornou infiltrativo. Depois dele penetrar e se disseminar pelas outras camadas da epiderme (fase de crescimento vertical), ele pode ultrapassar a membrana basal e, então, tornar-se metastático. Morfologicamente, o melanoma podeser classificado em: Melanoma de disseminação superficial Compreende 70% dos casos; Melanoma nodular Compreende 15% dos casos Quando o melanoma se apresenta nesta forma ele se caracteriza por um nódulo de coloração escura O prognóstico do paciente com melanoma nodular é muito pobre porque ele geralmente não apresenta uma fase de crescimento radial e, freqüentemente, gera metástases precocemente; Acral lentiginoso Compreende 8% dos casos Ocorre principalmente na palma das mãos, sola dos pés, unhas e membranas mucosas; Lentigo maligno melanoma Compreende 6% dos casos e é o melanoma que ocorre nos idosos Geralmente está confinado as áreas expostas ao sol, como a face, o pescoço, os membros, etc.; Figura 10 - Lentigo maligno melanoma DERMATOLOGIA - 30 Outros locais Quando o melanoma compromete as mucosas, o cérebro, o esôfago, etc. Corresponde a 2% dos casos. Figura 11 - Melanoma de disseminação superficial macroscopicamente (acima e a direita) e em microscopia de grande aumento (a esquerda); melanoma nodular (abaixo e a esquerda); e acral lentiginoso (abaixo e a direita) DERMATOLOGIA - 31 As vezes, o melanoma pode apresentar-se macroscopicamente com uma coloração igual a da pele normal, quando ele é chamado de melanoma amelanótico. O fator prognóstico mais importante dos melanomas é o seu estadio clínico no momento do diagnóstico. Uma sobrevida de 5 anos para os estadios clínicos I e II, quando não há evidência de doença em outra topografia além do tumor primário, é esperada para cerca de 85% dos pacientes. Para o estadio clínico III, onde são palpáveis linfonodos regionais contendo células tumorais, aproximadamente 50% dos pacientes tem uma sobrevida igual ou superior a 5 anos. No estadio clínico IV (doença disseminada), a sobrevida em 5 anos é inferior a 5%. Histologicamente, o prognóstico dos melanoma é determinado pelos níveis de Clark e pelos índices de Breslow. Tabela 2 - Prognóstico histológico dos melanomas NÍVEIS DE CLARK Nível I - Células neoplásicas confinadas a epiderme; Nível II - Células neoplásicas atingem a derme papilar; Nível III - Células neoplásicas preenchem a derme papilar mas não a reticular; Nível IV - Há invasão da derme reticular; Nível V - Há invasão do tecido subcutâneo. ÍNDICES DE BRESLOW Invasão da pele menor que 0,75 mm Ausência de metástases Invasão epitelial entre 0,76 e 1,5 mm Possivelmente metastático Invasão epitelial maior que 1,5 mm Há metástases com certeza Quando o melanoma está no nível I de Clark, a sobrevida em 5 anos é de 100%. Já no nível II, a sobrevida em 5 anos é de 92%. A partir do nível III, quando o melanoma já pode metastatizar, a sobrevida torna-se muito menor. Como existem mais de 18 diagnósticos diferenciais para o melanoma, antes de se fazer uma cirurgia em que, as vezes, é necessário retirar extensões enormes de tecido, deve-se sempre fazer uma biópsia para confirmação diagnóstica. Os diagnósticos diferenciais mais comuns para o melanoma são: Carcinoma basocelular pigmentado; Nevus de Clark; Granuloma piogênico; Ceratose seborreica pigmentada; Dermatofibroma; Melanose vulvar Neoplasia benigna; Tungíase “Bicho-de-pé”; Sarcoma de Kaposi. DERMATOLOGIA - 32 Os melanomas podem se disseminar via linfática ou hematogênica. Suas primeiras metástases geralmente se dão para linfonodos regionais. Os principais locais de disseminação hematológica do melanoma são o cérebro, os pulmões, os ossos e o fígado. Em 2% dos casos, devido a ação imunológica no foco primário da lesão, o melanoma pode regredir e desaparecer. Nesses casos, porém, geralmente a expectativa de vida é de 6 meses. Seu tratamento é cirúrgico e o sucesso terapêutico depende da época do diagnóstico. A quimioterapia é apenas paliativa. DERMATOLOGIA - 33 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Dermatologia Dermatoviroses Herpes simples Os herpes simples são vírus antigenicamente distintos, que podem ser divididos em: Herpes simplex virus type I (HSV-I); Herpes simplex virus type II (HSV-II). A exposição desses vírus nas superfícies mucosas ou lesões epiteliais permite sua entrada e início da sua replicação nas células da derme e da epiderme. No hospedeiro sem anticorpos, o herpes simplex virus I pode causar uma doença primária, que acomete principalmente a face e é assintomática em 90% dos casos, mas que pode ter uma grande sintomatologia local. Setenta e cinco porcento dos pacientes infectados pelo Herpes simplex vírus II apresentam-se sem sintomatologia. O HSV-II acomete mais freqüentemente os genitais. Clinicamente, os pacientes infectados pelos herpes simples podem apresentar febre por cerca de 3 dias, seguida pelo aparecimento de eritema local e lesões vesiculares, que podem sofrer maceração pela umidade. Não havendo maiores complicações, o quadro clínico cede em 15 dias. Independentemente do hospedeiro ser sintomático ou não, a partir do momento que ele for infectado, ele vai produzir anticorpos contra o vírus. Acredita-se, então, que o HSV é transportado intra-axonalmente para o corpo celular dos neurônios ganglionares. Não se sabe ainda quais os gânglios que são afetados no humano. Figura 1 - Herpes simplex virus type I (esquerda) e type II (direita) DERMATOLOGIA - 34 Durante a fase inicial da infecção, ocorre replicação viral nos gânglios e nos tecidos neurais contíguos. A seguir, o HSV se dissemina para outras superfícies mucosas através de uma migração centrífuga via os nervos sensitivos periféricos. Uma característica comum a todos os vírus da família Herpesviridae é o fenômeno da latência, meio pelo qual eles podem permanecer no organismo a vida inteira, mesmo que não haja sintomatologia. Contudo, apesar do vírus estar latente, pode haver excreção viral na saliva e nas secreções vaginais, por exemplo. Ou seja, há períodos da doença em que ocorre transmissão do vírus mesmo sem haver lesões. Enquanto o vírus está latente podem haver fatores exógenos, como a luz ultravioleta e o trauma epidérmico e/ou ganglionar; e endógenos, como o estresse, o período pré-menstrual e a imunossupressão, que causem a reativação viral. Quando isso ocorrer, como os níveis de anticorpos vão, a princípio, permanecer inalterados, vai haver manifestação clínica da doença. Sua lesão clássica são vesículas umbilicadas que tem a tendência de formar cachos em uma base eritematosa. Quando o HSV é do tipo I, ele se localiza principalmente na região perioral (gengivoestomatite herpética). A recorrência pode ocorrer de tempos em tempos, dependendo de cada pessoa. Quando ela ocorre, geralmente há alguma sintomatologia prodrômica, quer dizer, surgem alguns sintomas, como prurido e parestesia, por exemplo, que alertam o paciente quanto a uma reativação da doença. Essa situação é importante porque, para haver uma remissão mais rápida, é nesse momento que deve ser administrado o tratamento. As lesões provocadas pelo HSV-I sofrem resolução expontânea em 7 a 10 dias, sem deixar cicatrizes, a não ser que ocorra uma infecção secundária. O perigo da infecção herpética é a sua capacidade de se inocular em outras regiões do corpo como, por exemplo, os olhos, resultando em uma conjuntivite herpética. Na gestante, há um grande risco de haver contaminação fetal. Quando a paciente adquire uma primo-infecção durante o primeiro trimestre de gestação, pode haver alterações fetais com um distúrbio de crescimento, por exemplo. Nos trimestres seguintes, caso o feto não adquira as imunoglobulinas maternas, existe um grande risco de se inocular o vírus no recém-nascido, podendo haver uma disseminação sistêmica com uma evolução, muitas vezes, grave. Caso a mãe já seja portadora dovírus anteriormente a gestação, o feto vai nascer com as globulinas maternas. Um problema secundário muito freqüente que acontece com os portadores de herpes é o eritema multiforme, que é uma doença multicausal e que, em 60 a 80% dos casos, é hipersenssível a infecção herpética. Os cuidados principalmente adotados na infecção herpética são: Hidratação; Analgesia; Antibioticoterapia facultativa Para evitar infecções secundárias. Os principais diagnósticos diferenciais que devem ser investigados são: Síndrome de Stevens-Johnson Farmacodermias; Amigdalites; Pênfigo Com exceção das crianças, que não são acometidas; Síndrome de Behcet. DERMATOLOGIA - 35 Varicela-Zoster virus Por sua vez, o Varicela-Zoster vírus, que também faz parte da família Herpesviridae, pode causar dois tipos de doença: Catapora (varicela); Zoster Reativação dos vírus da varicela que estavam latentes nos gânglios neurais sensitivos. Com relação a patogenia da varicela, existe um período de incubação de aproximadamente 14 dias. Do que se sabe até hoje, o vírus da varicela é o único vírus da família herpes que é transmitido por gotículas de saliva, causando infecção de conjuntiva e/ou da mucosa do trato respiratório superior. A partir disso, pode haver replicação viral nos linfonodos regionais, que resultarão na primeira viremia. Depois, pode ocorrer replicação das partículas virais no fígado, baço e outros órgãos, que provocarão a segunda fase de viremia, que vai, então, causar infecção epidérmica com o aparecimento de exantemas. Então, o VZV permanece em latência até que, frente a qualquer circunstância que possa provocar sua replicação, os vírus percorram o trajeto de algum nervo sensitivo até a pele do paciente, onde eles causam um processo inflamatório lítico epidérmico que resulta em suas lesões. Epidemiologicamente, o zoster é muito freqüente, principalmente no adulto. Quanto maior a idade, maior sua incidência. Figura 2 - Síndrome de Stevens-Johnson DERMATOLOGIA - 36 A característica clínica básica do herpes Zoster é que suas lesões são unilaterais, vesiculosas, que se localizam no trajeto de um nervo sensitivo, não tendendo a atravessar a linha média e que são denominadas popularmente de “cobrero”. Assim, dependendo da sua localização, nós podemos chamar as infecções de cérvico-braquiais, frontais, crurais, braquiais, etc. Devido a intensa proliferação viral nos gânglios e nos nervos simpáticos, pode haver dor, que é mais intensa quanto mais velho for o paciente. Apesar da literatura afirmar que dificilmente há neurite na criança, na prática, é possível de se observá-la com uma certa freqüência. Essa sintomatologia é denominada de nevralgia herpética, e pode se manifestar até 3 dias anteriormente ao quadro cutâneo, quando é chamada de nevralgia pré- eruptiva e tem diagnóstico diferencial com apendicite, infarto agudo do miocárdio, etc. Aproximadamente após um mês do aparecimento das lesões cutâneas, há formação de crostas e, dependendo da intensidade do processo inflamatório, até a formação de ulcerações. As lesões do VZV regridem espontaneamente até 6 semanas após o seu aparecimento, deixando cicatrizes. A grande complicação do Zoster é a nevralgia pós-herpética, que é a permanência da dor mesmo após o desaparecimento das lesões de pele. Classicamente, ela pode permanecer por até 6 meses após a remissão da doença. O tratamento da nevralgia pós-herpética é feito com carbamazepina, que é um antineurítico. Figura 3 - Erupções vesiculosas do herpes zoster Figura 4 - Infecção frontal do herpes zoster DERMATOLOGIA - 37 Tratamento O tratamento das doenças herpéticas é feito basicamente com aciclovir, conhecido comercialmente com o nome de Zovirax®, que pode ser administrado por via endovenosa ou oral, em comprimidos de 200 ou 400 mg. Para o Herpes simples, o tratamento habitual é 5 comprimidos de 200 mg por dia. Para o Varicela-Zoster vírus, deve-se usar 5 comprimidos de 400 mg diariamente, ambos, por um período mínimo de 5 dias. Quando as formas são mais intensas, principalmente nos imunossuprimidos, pode ser usada a administração endovenosa, numa dose de 5 a 10 mg por quilo de peso do paciente. A excreção do aciclovir é renal. Desta forma, se o paciente apresentar insuficiência renal, deve-se diminuir a sua dosagem. Molusco contagioso O molusco contagioso é uma doença mais freqüente em crianças que apresenta-se como uma lesão sólida, séssil, com umbilicação central. Quando se pressiona essa lesão, é excretada uma substância semelhante a um cravo, que contém o vírus. Suas lesões são semelhantes as que ocorrem na infecção herpética, com a diferença de que, no herpes, as lesões básicas são vesículas e não pápulas, como neste caso. O vírus do molusco contagioso é observável a microscopia óptica devido ao seu tamanho. Esta é uma doença autolimitada, porém, com um tempo imprevisível de remissão, que pode acometer qualquer área do organismo. Pode-se realizar a curetagem de suas lesões. Papilomavírus O papilomavírus, também chamado de papovírus ou Human Papiloma Virus (HPV), é uma família que apresenta, atualmente, mais de 50 tipos. Conforme sua classificação, ele tem um tropismo regional e uma resposta cutânea ou epidérmica característica. Figura 5 - Molusco contagioso DERMATOLOGIA - 38 A forma mais comum é a que acomete jovens, causadora das verrugas vulgares, que são erupções hiperceratósicas, exofíticas e que podem apresentar pontos escurecidos decorrentes da trombose dos seus capilares. Devido a essa sua apresentação macroscópica, elas são denominadas popularmente de “olho de peixe”. Geralmente, elas apresentam o fenômeno de Koebner, que é o envolvimento de áreas traumatizadas por novas lesões. As verrugas vulgares tem diagnóstico diferencial com as calosidades, mas sua diferenciação pode ser obtida através de dois sinais: 1. Interrupção das linhas de impressão epidérmicas; 2. Dor a compressão lateral. Seu tratamento pode ser feito cirurgicamente, principalmente quando elas são em pequenas quantidades. As verrugas periungueais são mais difíceis de serem tratadas dessa maneira porque elas podem se infiltrar dentro da unha e, posteriormente, recidivar. Por isso, deve-se tentar inicialmente tratá-la mais conservadoramente, ou seja, por métodos químicos, físicos ou biológicos. As verrugas localizadas na planta dos pés também devem ser tratadas semelhantemente porque, cirurgicamente, tem que se retirar uma grande quantidade de tecido e, também, porque essa região tem uma difícil cicatrização. Figura 6 - Verruca vulgaris plantar Figura 7 - Verruca vulgaris periungueais DERMATOLOGIA - 39 As verrugas também podem ser planas, quando se localizam principalmente em face e onde são confundidas com os cravos. Seu tratamento pode ser feito com ácido retinóico. Nas mucosas, a manifestação mais comum do HPV são os condilomas acuminados (“crista de galo”). Contudo, as cepas mais virulentas podem levar a formação de certos tipos de câncer, como o carcinoma de colo uterino. Em crianças, tem que ser lembrada a possibi- lidade de abuso sexual, mas deve-se também procurar a possibilidade de uma eventual contaminação ocasional. Figura 8 - Verrugas planas localizadas em face DERMATOLOGIA - 40 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Dermatologia Dermatozoonoses Escabiose Causada pelo Sarcoptes scabiei, a escabiose é uma das causas mais comuns de prurido nas dermatoses ao redor do mundo. As fêmeas grávidas, medindo de 0,3 a 0,4 mm de comprimento, penetram exclusivamente na epiderme, onde elas depositam dois a três ovos por dia. O calor é umacondição para a penetração dessas fêmeas, que formam lesões eritematosas, em túnel, resultando em pápulas e vesículas freqüentemente acompanhadas por placas eczematosas, pústulas ou nódulos. Quando escoriadas, essas pápulas podem formar pequenas crostas em sua superfície. Os túneis são bem evidentes em axila, sulcos cutâneos, espaços interdigitais, raízes de membros, linha da cintura, escroto e outras áreas bem aquecidas. Exceto em crianças, a face, o crânio, o pescoço, as palmas da mão e as plantas do pé são preservadas. As larvas que emergem desses ovos depositados na epiderme amadurecem através de uma série de mudas em cerca de 2 semanas e, então, sobem para a superfície da pele, onde elas se reproduzem e subseqüentemente reinvadem a pele do mesmo ou de outro hospedeiro. A transmissão dessas larvas recentemente fertilizadas de pessoa a pessoa ocorre pelo contato pessoal íntimo e é facilitada pela falta de higiene e pela promiscuidade sexual. Figura 1 - Sarcoptes scabiei Figura 2 - Manifestação clínica da escabiose DERMATOLOGIA - 41 Os profissionais da área médica têm um risco particular de contaminação e, normalmente, são infectados na região dos pulsos. Isso ocorre porque como esses profissionais tem o hábito de lavar bastante as mãos, elas se tornam frias e, desta forma, desfavoráveis para a penetração do Sarcoptes scabiei. A transmissão por roupas de cama e banho contaminadas ocorre muito infreqüentemente porque as larvas não sobrevivem muito mais do que um dia sem contato de um hospedeiro. O prurido e o “rush” cutâneo associados a escabiose derivam de uma reação de sensibilidade direta contra a excreção que a larva deposita durante a sua penetração. Por esta razão, uma infestação inicial pode permanecer assintomática por 4 a 6 semanas, enquanto uma reinfestação produz uma reação de hipersensibilidade imediata. Assim, os pacientes com escabiose relatam um prurido intenso que piora a noite e depois de um banho quente. O ato de coçar geralmente destrói a larva que está penetrando, mas os sintomas permanecem mesmo na sua ausência. Assim, a destruição desses patógenos tanto pelo coceira quanto pela imunidade limita a maioria das infestações para menos de 15 larvas por pessoa. Seu tratamento deve ser feito com permethrin a 5%, que é o tratamento de escolha para a escabiose e é menos tóxico que a comumente usada preparação de lindane a 1% (Scabin®, Nedax®, etc.). Ambos os escabicidas devem ser aplicados do pescoço para baixo após o banho e, depois de 8 horas, devem ser removidos com água e sabonete. O lindane é absorvido pela pele e o seu uso contínuo pode produzir dermatites eczematosas e anemia aplástica. Por isso, ele deve ser evitado em mulheres grávidas e crianças e, nos demais, deve ser usado por, no máximo, 3 dias. Medicamentos alternativos incluem o benzoato de benzila a 25% e o monossulfiran (Tetmosol®), que deve ser receitado com cautela porque pode acelerar o metabolismo do álcool. Apesar da infestação efetivamente tratada tornar-se não-infecciosa dentro de um dia, o prurido e o “rush” freqüentemente persistem por semanas ou meses. Saber isso é importante para que o médico não continue o tratamento desnecessariamente, podendo provocar os sintomas indesejáveis acima mencionados. Assim, o prurido que permanece após o tratamento efetivo pode ser tratado com anti-histamínicos, salicilatos e loção de calamina. Antibióticos orais podem ser necessários para tratar superinfecções bacterianas que não se curam com a terapia convencional. Para prevenir reinfestações, as roupas de cama, de banho e as vestimentas do paciente deveriam ser lavadas em água quente e as pessoas de maior contato, mesmo que assintomáticas, deveriam ser tratadas simultaneamente. Pediculose Existem 3 variantes do Pediculus humanus, o agente etiológico da pediculose. Pediculus humanus corporis É mais comum em pacientes com más condições de higiene; Pediculus humanus capitis É mais comum em mulheres e crianças; Phtirus pubis É mais comum nos adultos, tanto homens quanto mulheres e é considerada uma doença sexualmente transmissível DERMATOLOGIA - 42 Também pode ser encontrado em crianças, principalmente nos cílios, por contaminação. As três subespécies do Pediculus humanus se alimentam pelo menos uma vez por dia do sangue humano (seres hematófagos). A variante corporis infesta as roupas, a variante capitis infesta a cabeça e o Pthirus pubis (o “chato”) infesta principalmente os pêlos da pube. A saliva desses patógenos produz uma lesão maculopapular intensamente irritante ou uma urticária, em pessoas sensibilizadas. O Pediculus corporis, que infesta principalmente as roupas, exceto quando ele está se alimentando, é incapaz de sobreviver por mais de algumas horas longe do hospedeiro humano. Desta forma, ele infesta principalmente pessoas indigentes ou vítimas de desastres que não trocam suas roupas. As lesões pruriginosas são particularmente mais comuns ao redor do pescoço. As infestações crônicas resultam em hiperpigmentação pós-inflamatória e espessamento da pele e são conhecidas como a “doença do vagabundo”. O Pediculus capitis é transmitido diretamente de pessoa a pessoa e ocasionalmente por bonés, gorros, etc. Sua incidência é maior em meninas de idade escolar que têm cabelos compridos. Crianças negras são menos freqüentemente infestadas do que as outras. As lesões pruriginosas são mais comuns no crânio, pescoço e ombros e podem levar a formação de crostas, infecções bacterianas e linfadenopatia regional. Seu diagnóstico diferencial deve ser feito com a dermatite seborreica, que também pode apresentar-se com um intenso prurido na cabeça. O Phtirus pubis é transmitido principalmente por contato sexual mas pode infestar os cílios, os pêlos axilares e os pêlos de outros lugares, assim como os pêlos pubianos. Lesões intensamente pruriginosas e máculas de coloração azuladas (maculae ceruleae) desenvolvem-se no local das picadas. A blefarite geralmente acompanha as infestações dos cílios. O tratamento preferencial é o uso de permethrin tópico (1%) ou de malathion (0,5%), que matam tanto os ovos quanto as lêndeas. Depois disso, os cabelos deveriam ser penteados com um pente fino embebido em solução de vinagre a 50%, para remover os ovos e as lêndeas restantes. Os pentes e as escovas deveriam ser Figura 3 - Pediculus humanus Figura 4 - Phtirus pubis DERMATOLOGIA - 43 desinfetados em água quente a 65 o C por 5 minutos. As roupas e os lençóis também deveriam ser desinfetados através de esterilização pelo calor em uma secadora a 65 o C por 30 minutos. Miíase Miíase é o termo que se refere a infestação por berne. Esses vermes invadem tecidos vivos ou necróticos e produzem diferentes síndromes clínicas dependendo da espécie do vetor biológico. A miíase causada pela mosca Dermatobia hominis é a miíase furunculóide, que é a mais comum no nosso meio. O diagnóstico de miíase furunculóide é presumido quando existem lesões desconfortantes com um poro central em que se observa movimento devido a respiração da larva. Quando submerso em água, este poro pode emitir bolhas. O tratamento da miíase furunculóide é feito através da expressão manual da larva um ou dois dias após o tamponamento do orifício pelo qual a larva respira, que causa o seu sufocamento e induz a larva a emergir para a superfície. Larva migrans A larva migrans é a larva do Ancylostoma braziliense, que causa erupções cutâneas lineares, serpiginosas ou geográficas a partir da sua penetração na pele. Elas emergem dos ovos provenientes das fezes de cães e gatos e amadurecem no solo. O homem se torna infectado após contato epidérmico com o solo em áreas freqüentadas por esses animais, tais como as praias e jardins.Figura 5 - Miíase Figura 6 - Lesões produzidas pela larva migrans DERMATOLOGIA - 44 Depois que as larvas penetram na pele, lesões eritematosas se formam ao longo de tortuosos caminhos em que a larva migra na junção dermo-epitelial, avançando vários centímetros por dia. Essas lesões intensamente pruriginosas podem ocorrer em qualquer lugar do corpo e podem ser numerosas em pacientes que se deitaram no chão. Vesículas e bolhas podem se formar posteriormente. Como as larvas migrans não se amadurecem no ser humano porque suas enzimas são incapazes de lisar o colágeno da pele humana, elas vão morrer após várias semanas, mesmo sem tratamento, com resolução das lesões epidérmicas. Seu tratamento pode ser feito com crioterapia. Os sintomas podem ser aliviados com thiabendazol, administrado oralmente em dose única de 30 a 50 mg/Kg ou por administração tópica de 2 a 5 dias. Também pode- se utilizar albendazol, V.O., em dose única de 400 mg. Tungíase Vulgarmente conhecida por “bicho-de-pé”, a tungíase é causada pela Tunga penetrans, que invade a pele, de preferência entre os dedos, sob as unhas ou na sola de pés descalços. Suas lesões assemelham-se a uma pústula, com uma depressão central de coloração negra, e podem ser pruriginosas ou dolorosas. A tungíase é tratada pela retirada do patógeno e de seus ovos com uma agulha estéril. Em casos disseminados, pode-se usar thiabendazol, de 30 a 50 mg/Kg/dia, durante um período de 15 dias. Loxoceles Picadas de aranhas Loxoceles (aranha marrom) liberam um veneno hemolítico que pode causar uma severa necrose tecidual. A picada dessas aranhas, inicialmente, produz apenas um leve desconforto. Em picadas severas, uma intensa dor local aparece dentro de 2 a 8 horas, acompanhada pela formação de bolhas e eritema local. Depois, pode-se formar uma ulceração profunda de base necrótica no local da picada. Alguns pacientes também podem apresentar uma reação sistêmica caracterizada por febre e mialgias. Hemólise intravascular, hemoglobinúria e insuficiência renal aguda também podem ocorrer. Óbitos já foram relatados, sendo a sua maioria em crianças. Figura 7 - Picada de uma aranha Loxoceles DERMATOLOGIA - 45 O tratamento depende da severidade da picada. Se não houver formação de bolhas, dor intensa ou sinais de necrose isquêmica rapidamente progressiva nas primeiras 6 ou 8 horas, a picada provavelmente não é severa e o tratamento é desnecessário. Quando sintomas de reação local mais séria estão presentes, a uso parenteral de glicocorticóides nas primeiras 24 horas após a picada tem sido preconizado por alguns serviços com o objetivo de retardar a progressão da lesão. Outras medidas terapêuticas consistem principalmente em cuidados locais da picada, como o uso de compressas frias, elevação do membro afetado, desbridamento cirúrgico e tratamento de infecções secundárias. As úlceras geralmente curam-se espontaneamente. Os pacientes com loxocelismo sistêmico deveriam ser hospitalizados e monitorados de perto para evitar hemólise, coagulação intravascular disseminada e insuficiência renal aguda. Apesar de ainda não estar comprovado sua eficiência, é preconizado o uso de glicocorticóides sistêmicos durante a fase aguda da doença, que dura cerca de 2 a 4 dias. DERMATOLOGIA - 46 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Dermatologia Pênfigo Introdução Conceitualmente, o pênfigo constitui um grupo de doenças que se caracterizam pela presença de bolhas na pele e nas mucosas, que derivam de um processo acantolítico induzido por auto-imunidade, demonstrada pela presença de auto-anticorpos ao nível das pontes intercelulares da camada granulosa ou malpighiana. Formas clínicas Pênfigo foliáceo; Pênfigo vulgar; Pênfigo Eritematoso Existem autores que o caracterizam como uma fase inicial do pênfigo foliáceo. O pênfigo eritematoso tem uma evolução benigna e apresenta-se como lesões escamosas no couro cabeludo, lesões eritematosas em face e lesões bolhosas esternais e médio-dorsais. Por isso, tem diagnóstico diferencial com dermatite seborreica, lupus eritematoso cutâneo e com o pênfigo foliáceo. Seu diagnóstico e tratamento são semelhantes ao pênfigo foliáceo; Pênfigo vegetante O pênfigo vegetante é a variante benigna do pênfigo vulgar. Acomete inicialmente as mucosas, evoluindo para as grandes dobras do corpo como as axilas, a região inguinal, etc. Pênfigo foliáceo É uma doença universal. Porém, ele é endêmico em algumas regiões do Brasil como, por exemplo, as zonas rurais do estado do Paraná. Acomete geralmente pacientes com idade abaixo de 40 anos, do sexo feminino e com tendência familiar. A exposição solar pode ser um fator agravante. DERMATOLOGIA - 47 Clinicamente, o pênfigo foliáceo vai se apresentar numa fase inicial com eritema e bolhas tipicamente localizados no crânio, face, pescoço, axila e tronco. Essas lesões podem ser efêmeras ou perdurar por semanas ou meses e podem apresentar ardência, calor e prurido. Devido a essas manifestações clínicas, o pênfigo foliáceo é conhecido popularmente com o nome de “fogo selvagem”. Depois, ele entra numa fase denominada fase eritrodérmica crônica, em que o diagnóstico se torna mais difícil devido a ausência de bolhas, apesar de permanecerem as manifestações de ardência, calor e prurido. Esta fase tem diagnóstico diferencial com a psoríase. A última fase do pênfigo foliáceo é a fase regressiva. O paciente que apresenta o pênfigo tem a epiderme mais sensível e, por isso, está mais predisposto a adquirir certas dermatoses como, por exemplo, escabiose, demotofitoses, verrugas, erupção variceliforme de Kaposi, etc. Também por causa dessa fragilidade epidérmica, o paciente portador de pênfigo foliáceo apresenta o sinal de Nikolsky positivo. Esse sinal, em que se pressiona com o polegar uma área aparentemente normal da pele e observa-se se há ruptura epidérmica, não é patognomônico, mas é altamente indicativo de pênfigo. O sinal de Nikolsky também pode ser visto na síndrome de Stenvens-Johnson e outras poucas doenças dermatológicas. Quando localizado, ele pode ser tratado conservadoramente com glicocorticóides intralesionais. Doenças mais ativas podem geralmente ser controladas com glicocorticóides sistêmicos. Figura 1 - Fase inicial do pênfigo foliáceo Figura 2 - Processo acantolítico do pênfigo foliáceo no terço distal da camada malpighiana Figura 3 - Fase eritrodérmica crônica do pênfigo foliáceo DERMATOLOGIA - 48 Pênfigo vulgar O pênfigo vulgar também tem distribuição universal, mas não tem característica endêmica. Além disso, ele é mais característico nas regiões urbanas. Atinge geralmente pacientes mais idosos do que o pênfigo foliáceo (acima de 40 anos), de ambos os sexos e com uma menor freqüência que o pênfigo foliáceo. Os pacientes com pênfigo vulgar tem uma incidência aumentada de HLA-DR4 e HLA-DRw6. Clinicamente, apresenta-se como lesões bolhosas que vão acometer a pele (camada supra basal) e/ou as mucosas e que, posteriormente, tornam-se flácidas e rompem- se facilmente, deixando áreas desnudas com exsudato fétido que podem apresentar crostas sero-hemorrágicas. Alguns autores descrevem seu odor semelhantemente ao de “ninhos de rato”. O prurido pode estar presente nas lesões iniciais do pênfigo vulgar e a desnudação pode estar associada com a dor severa. Essas lesões geralmente curam sem deixar cicatrizes, exceto naquelas complicadas por infecção secundária ou por lesões mecanicamente produzidas. Contudo, a topografia dessas lesões pode se apresentar com hiperpigmentação pós-inflamatória por algum tempo depois da sua cura. As lesões mucosas podem preceder as cutâneas por longo tempo e são muito semelhantes a estomatite aftosa. O pênfigovulgar geralmente tem manifestações sistêmicas e também apresenta o sinal de Nikolsky positivo. As lesões do pênfigo vulgar tem uma distribuição semelhante as do pênfigo foliáceo, com a diferença que o pênfigo vulgar freqüentemente também acomete mucosas. Aproximadamente 90% dos pacientes apresentam envolvimento da mucosa oral em algum período durante o curso da sua doença. O envolvimento de outras superfícies mucosas como a mucosa vaginal, retal, esofageana, etc. pode ocorrer na doença severa. Sua evolução é quase sempre fatal quando não tratado, geralmente por desidratação e infecções secundárias. Depois do advento da corticoterapia, o prognóstico do pênfigo vulgar melhorou muito. Antes disso, sua taxa de mortalidade variava entre 60 a 90%. Atualmente ela é de apenas 5 a 15%. Fatores de mau prognóstico incluem idade avançada, envolvimento disseminado e necessidade de altas doses de glicocorticóides para o controle da doença. O principal tratamento do pênfigo vulgar é o uso de glicocorticóides sistêmicos. Os pacientes com doença moderada ou severa geralmente começam o Figura 4 - Pênfigo vulgar DERMATOLOGIA - 49 tratamento com 60 a 80 mg/dia de prednisona. Se as lesões continuarem a aparecer dentro de 1 a 2 semanas de tratamento, essa dose deve ser aumentada. Muitos regimes terapêuticos têm associado agentes imunossupresssores para o controle do pênfigo vulgar. Os dois imunossupressores mais freqüentemente usados são a azatioprina (1 mg/kg/dia) e a ciclofosfamida (1 mg/kg/dia). Diagnóstico laboratorial Exame histopatológico Pênfigo foliáceo Bolha intra-epidérmica alta, ou seja, no terço distal da camada malpighiana (figura 2); Pênfigo vulgar Bolha suprabasal; Pênfigo eritematoso Igual ao pênfigo foliáceo; Pênfigo vegetante Hiperceratose, acantose, abscessos intra-epidérmicos com eosinófilos, etc. Exame citológico Giemsa Células epiteliais acantolíticas Imunofluorescência direta A partir do material da própria bolha biopsiada ou da pele ou mucosa normal adjacente a essa bolha Pênfigo foliáceo Anticorpos (IgG) intercelulares encontrados no terço superior da epiderme; Pênfigo vulgar Anticorpos encontrados nos 2/3 inferiores da epiderme; Pênfigo eritematoso Imunoglobulinas G e complementos encontrados na junção dermo-epidérmica; Imunofluorescência indireta Títulos de imunoglobulinas G Pênfigo foliáceo Altos títulos; Pênfigo vulgar Têm correlação com a clínica Pode ser usado para controlar o seu tratamento. DERMATOLOGIA - 50 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Dermatologia Micoses superficiais Introdução Os fungos são seres unicelulares degenerados que não são capazes de fazer fotossíntese. Eles encontram-se distribuídos no solo, na água e nos vegetais. Por isso, algumas regiões possuem uma grande quantidade de fungos, como a região amazônica por exemplo. No homem, o acometimento ocorre por alterações climáticas, pela falta de higiene, maceração, pequenos traumatismos, etc. No sentido de classificação, os fungos podem estar compreendidos em 3 grupos: Ceratofitoses Dermatofitoses Candidíases Como fatores predisponentes, nós temos: Idade avançada Porque o indivíduo idoso tem sua pele seca e uma imunidade epidérmica alterada Apresenta-se principalmente nos anexos epidérmicos como a unha; AIDS ou imunossupressão A candidíase é muitas vezes a primeira manifestação clínica da AIDS; Carcinomas, linfomas e leucemias; Antibióticos; Cirurgias Desenvolvem-se pelo uso de antibióticos, alterações do pH, etc. Pacientes transplantados Pelo uso crônico de medicamentos imunossupressores; Pacientes droga-aditos. Ceratofitoses São promovidas pelos fungos que vivem na camada córnea e dela se alimentam. Eventualmente, eles descem para a profundidade e formam granulomas, como a cândida. Assim, sua proliferação é ao nível da camada externa e, por isso, quando curam, eles geralmente não deixam marcas. O grupo mais importante das ceratofitoses é o da pitiríase ou tínea versicolor, que é causada pela Malassezia furfur, um fungo que faz parte da flora normal da nossa pele. A pitiríase versicolor é uma micose muito freqüente, que tem uma incidência exacerbada no verão. Antigamente, os trabalhadores que permaneciam muito tempo próximos ao calor eram os mais afetados. Hoje em dia sua incidência é maior entre os jovens. DERMATOLOGIA - 51 Clinicamente, a pitiríase versicolor manifesta-se como máculas hiper ou hipopigmentadas, ou seja, manchas de coloração variada, bem delimitadas, assintomáticas e localizadas na parte superior do tronco e nos antebraços. Seu diagnóstico é feito pela curetagem da lesão e exame ao microscópio óptico. Seu diagnóstico diferencial é feito principalmente com o vitiligo e a psoríase, principalmente quando houver confluência das lesões, o que torna difícil a localização de seus bordos. Aplicações de clotrimazol, miconazol, ketoconazol ou econazol podem ser efetivas para o tratamento de pequenas áreas de tínea versicolor, mas a aplicação de shampoo de selenium sulfídeo por 10 minutos, diariamente, é mais prática para grandes áreas. Ketoconazol oral também pode ser efetivo. Dermatofitoses As dermatofitoses são um grupo de infecções fúngicas crônicas de pele, cabelo e unhas, que são muito freqüentes no ser humano e que se apresentam sob três gêneros importantes: 1. Microsporum; 2. Trichophytum A espécie schoenleinii pode destruir os folículos epidérmicos, deixando cicatrizes; 3. Epidermophytum. Ao contrário das ceratofitoses, as dermatofitoses quase nunca invadem a camada córnea. As manifestações clínicas variam com o sítio de infecção e a espécie do fungo. Tinea capitis Atinge quase sempre crianças e inicia como uma pequena placa alopécica pruriginosa que pode se infeccionar. O adulto só tem Tinea capitis raramente, porque a partir da adolescência começam a ser liberados ácidos graxos pelos pêlos, que impedem o crescimento dos fungos. A alopécia da T. capitis é denominada “tonsurante 14 ” por causa da sua característica de apresentar a perda dos pêlos na superfície da pele. Desta forma pode-se observar a ponta desses pêlos através de pequenos pontos pretos com o auxílio de uma lupa. O seu diagnóstico diferencial é feito com as alopécias de causa desconhecida, como a alopécia areata, que pode se apresentar como uma placa única ou múltipla ou ser total. 14 Do latim, “tonsura = corte rente do cabelo” (N do A) DERMATOLOGIA - 52 Tinea corporis Apresenta lesões circulares muito bem definidas, com bordos eritematosos e descamativos. São muito pruriginosas e apresentam uma evolução rápida. Placas, vesículas ou pústulas podem estar presentes. Seu diagnóstico diferencial é feito com o granuloma anular, que é uma doença rara; com a forma tuberculóide da hanseníase; com a psoríase e, quando o seu bordo não está muito bem definido, com os eczemas. Tinea cruris Sua incidência é muito grande, principalmente em pacientes obesos e acima dos 30 anos. As vezes, seu bordo não está muito nítido devido ao atrito excessivo nesta topografia. A incidência de T. cruris é mais elevada no paciente com diabetes. Tinea pedis Epidemiologicamente, a Tinea pedis, também conhecida por “pé de atleta”, pode se encontrar em qualquer faixa etária, mas é mais freqüente no adulto. Ela atinge os espaços interdigitais do pé e as regiões plantares, principalmente as partes encobertas, através de pontos descamativos muito pruriginosos, mas pode também extrapolar para o dorso dos pés. Seu diagnóstico diferencial é feito com as dermatites de contato e com oeczema desidrótico, em que o paciente apresenta surtos de bolhas plantares, ligadas ao excesso de sudorese plantar. A psoríase plantar também faz um caso semelhante. Figura 1 - Tinea corporis Figura 2 - Tinea pedis localizada nos espaços interdigitais DERMATOLOGIA - 53 As infecções da mão são menos comuns, mas lembram a T. pedis. Tinea unguium Também conhecida como onicomicose, pode iniciar com uma coloração clara e tornar-se escura, além de poder estar associada a infecções. Quando ela acomete a base ungueal, seu tratamento é muito mais difícil. Figura 3 - Tinea pedis Figura 4 - Onicomicose DERMATOLOGIA - 54 O tratamento das lesões não-inflamatórias do tronco, genitais, mãos e pés geralmente é feito com aplicações de clotrimazol, miconazol, ketoconazol, econazol e ciclopirox, duas vezes ao dia. As lesões hiperceratósicas das palmas das mãos e das solas dos pés respondem lentamente a esses agentes e podem se beneficiar com o uso prévio da loção de Whitfield, para diminuir a espessura da camada córnea. Deve-se tomar cuidado com o uso de loções entre os dedos ou nas fendas genitais e glúteas, porque a maceração contínua nesses lugares predispõe a infecção bacteriana. As lesões moderadamente severas, que não respondem a terapia tópica ou que envolvem o crânio, as unhas ou áreas pilificadas, devem ser tratadas sistemicamente. A droga de escolha é a griseofulvina, administrada duas vezes ao dia, juntamente com as refeições. Seu tratamento deve continuar até que a infecção desapareça. Os casos resistentes a griseofulvina podem responder ao uso de ketoconazol oral. Infecções secundárias podem requerer o uso de agentes antibacterianos. As recorrências de dermatofitoses podem ser reduzidas por medidas como manter o corpo limpo e seco. Candidíase A Candida albicans é o principal agente etiológico da candidíase, mas ela pode ser causada por outros organismos como a C. tropicalis, a C. parapsilosis, a C. glabrata, a etc. Tanto fatores locais quanto sistêmicos podem levar a uma invasão tecidual por cândida. A maceração crônica predispõe a candidíase cutânea. A idade é um fator importante porque a colonização neonatal freqüentemente leva a candidíase oral, assim como a infecção por HIV. Também, os pacientes com diabetes mellitus, portadores de neoplasias hematológicas ou aqueles recebendo antibióticos de amplo espectro ou altas doses de corticosteróides são especialmente susceptíveis a candidíase. Uma solução de continuidade na pele ou nas mucosas pode facilitar a invasão de tecidos profundos, como ocorre na perfuração do trato gastrointestinal por trauma, em cirurgias, queimaduras severas, uso de drogas, etc. Assim como as dermatofitoses, as manifestações clínicas da candidíase também variam de acordo com o sítio de acometimento. DERMATOLOGIA - 55 Infecções orais geralmente apresentam- se como placas hipocrômicas discretas e confluentes, localizadas na mucosa oral e faringeana, mas principalmente na boca e na língua. Essas lesões são freqüentemente indolores, mas a fissuração angular da boca pode ser dolorosa. A candidíase cutânea se apresenta como áreas intertriginosas 15 , paroníquias, balanites, etc. A candidíase que acomete a pele perineal ou escrotal pode se acompanhar por discretas lesões supurativas nas porções internas da coxa. O tratamento da candidíase cutânea é feito através de medidas gerais, que visam reduzir a umidade e o atrito local, associadas a um agente antifúngico tópico. A nistatina, associada ao ciclopirox ou a um derivado azólico, pode ser útil. As infecções vulvovaginais causam prurido, corrimento e, as vezes, dispareunia ou disúria. O exame especular pode revelar uma mucosa inflamada e um fino exsudato com freqüentes estrias de coloração branca. Seu tratamento responde melhor aos derivados azólicos, 15 Do latim, “intertrigine = inflamação eritematosa da pele nas porções onde ocorrem atritos” (N do A) Figura 5 - Candidíase oral em paciente HIV positivo (a esquerda) e associada a estomatite angular (a direita) Figura 6 - Candidíase vulvar DERMATOLOGIA - 56 topicamente, do que a nistatina. O tratamento sistêmico das infecções vulvovaginais com ketoconazol ou fluconazol é mais conveniente do que o tratamento tópico, mas o risco de ocorrerem efeitos colaterais é maior. O granuloma da cândida, também chamado de candidíase mucocutânea crônica, apresenta-se tipicamente como lesões epidérmicas circunscritas e hiperceratósicas, unhas quebradiças e distróficas, lesões de crânio com áreas de alopécia parcial e infecções orais e vaginais. O tratamento de escolha para a candidíase mucocutânea crônica é o ketoconazol, em uma dose de 200 mg/dia. Infecções sistêmicas são muito raras, mas o desfiguramento da face e das unhas pode ser severo. Outros achados incluem epidermofitose crônica, displasia dentária e hipofunção das glândulas tireóides, supra-renais e paratireóides. O uso endovenoso de anfoterecina B é o tratamento de escolha para a candidíase sistêmica. Essa droga é geralmente administrada numa dose de 0,4 a 0,5 mg/kg/dia, ou numa dose dupla em dias alternados, por várias semanas. O procedimento de escolha para o diagnóstico da candidíase é obtido principalmente através da observação de pseudo-hifas na microscopia e da sua confirmação pela cultura. A cultura, isoladamente, não é diagnóstica. 16 Do inglês, “Periodic Acid Schiff” (N do A) Figura 7 - Microscopia corada com PAS 16 para a observação de pseudo-hifas da C. albicans DERMATOLOGIA - 57 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Dermatologia Hanseníase Introdução A hanseníase, ou lepra, é uma infecção granulomatosa crônica que afeta os seres humanos e que atinge os tecidos superficiais, principalmente a pele (dermatotropismo) e os nervos periféricos (neurotropismo). Seu agente etiológico é o Mycobacterium leprae, um bacilo ácido-álcool resistente (BAAR), gram positivo, que é bioquimicamente, antigenicamente e geneticamente semelhante aos outros organismos Mycobacterium. Apesar de não poder ser cultivado em meios artificiais, o bacilo da lepra pode ser inoculado em animais experimentais, onde ele se multiplica numa velocidade extremamente lenta, com um tempo de duplicação de aproximadamente 11 a 13 dias. Esses modelos experimentais tem sido extensivamente utilizados para o estudo de medicamentos terapêuticos e para a obtenção de antígenos utilizados no teste de Mitsuda. Também, os bacilos M. leprae tem a característica de agruparem-se, em resposta a uma substância gelatinosa pouco conhecida, formando as chamadas globias, um compacto sólido contendo centenas de bacilos. Epidemiologia Provavelmente, há cerca de 10 a 20 milhões de pessoas acometidas pela lepra ao redor do mundo. Essa doença é mais comum nos países tropicais, em muitos dos quais a sua taxa de prevalência é de cerca de 1 a 2% da população, mas ela está mais relacionada com uma baixa condição sócio-econômica. No Brasil, a hanseníase é endêmica, apresentando uma prevalência de 1,5 casos a cada 10.000 pessoas. Em algumas regiões, sua freqüência chega a ser de 10 a 15 pessoas em 10.000 indivíduos, como nos estados de Amazonas e Roraima. No Paraná, sua prevalência é de 2 / 10.000 habitantes. A lepra pode se apresentar em qualquer idade, apesar de que sua incidência em crianças menores de 1 ano de idade é rara. Nas crianças, ela se distribui igualmente entre os sexos mas, nos adultos, ela predomina nos homens numa proporção de 2 para 1. A transmissão direta de pessoa a pessoa é tida como a responsável pela maioria dos casos de hanseníase, apesar deapenas pouco menos da metade dos pacientes relatarem um contato prévio com algum portador da doença na sua história clínica. Algumas características são observadas no contágio da lepra de uma pessoa para outra. Por exemplo, o contato deve ser íntimo e prolongado. Isso pode ser observado frente ao fato de que entre os familiares de pacientes lepromatosos não-tratados, o risco de adquirir a doença está aumentado em aproximadamente oito vezes, e a taxa de contágio pode ser tão alta quanto 10%. A porta de entrada do M. leprae provavelmente ocorre via transepidérmica, através de uma solução de continuidade, por exemplo; ou através da mucosa das vias respiratórias superiores. Acredita-se que a sua principal porta de saída seja a mucosa nasal de portadores não-tratados. DERMATOLOGIA - 58 O período de incubação, quando a localização primária do bacilo é ganglionar, é geralmente de 3 a 5 anos, mas tem sido relatada uma variação de 4 meses até várias décadas. Fisiopatologia Os eventos iniciais seguindo a entrada do M. leprae no corpo humano ainda não foram descritos. Os bacilos da lepra são circundados por uma cápsula lipídica densa e inerte, não produzem exotoxinas e causam somente uma pequena resposta inflamatória. Estudos imunológicos e epidemiológicos sugerem que somente uma pequena fração (aproximadamente 10 a 20%) dos pacientes infectados vão desenvolver sinais de doença indeterminada e, destes, apenas 50% vão progredir para uma doença clínica. A intensidade da resposta imune celular frente ao M. leprae correlaciona-se com a classificação clínica e histológica da doença. Quanto maior for a imunidade do indivíduo, mais localizada fica a doença. Assim, indivíduos com lepra tuberculóide tem uma resposta celular intensa ao M. leprae e uma baixa carga bacilar, enquanto pacientes com lepra lepromatosa não apresentam imunidade celular detectável contra o bacilo da lepra. Esta deficiência imunológica dos pacientes com lepra lepromatosa é extremamente específica para a hanseníase. Isto é, os pacientes com lepra reagem bem a superinfecções por outros agentes que necessitem de uma resposta celular. Assim, na lepra lepromatosa é muito comum haver uma intensa bacilemia, e os organismos podem ser freqüentemente observados em esfregaços de sangue periférico. Contudo, sinais de toxicidade sistêmica e febre alta geralmente estão ausentes. Mesmo em estados avançados, as lesões destrutivas da lepra estão limitadas a pele, nervos periféricos, porções anteriores dos olhos, trato respiratório superior, mãos e pés. Uma característica comum a esses locais é que todos eles tem uma temperatura geralmente inferior a 37 o C. Dois sítios de envolvimento preferencial são os nervos ulnar, próximo ao cotovelo; e o fibular, próximo a cabeça da fíbula. Acima e abaixo dessas áreas, quando esses nervos tomam cursos mais profundos, eles são menos severamente envolvidos. Nos pacientes com lepra lepromatosa, também são encontradas coleções bacilares no fígado, baço e medula óssea, mas nenhuma disfunção visceral tem sido associada a presença desses bacilos. Manifestações clínicas e histopatológicas A resposta imune variável à infecção pelo M. leprae resulta em um amplo espectro de manifestações clínicas e histológicas, que tem uma forte concordância e que, por isso, vão ser abordadas conjuntamente. Lepra indeterminada Polo inicial ou forma I Os primeiros sinais de lepra são geralmente cutâneos. As lesões de lepra indeterminada são súbitas e são mais DERMATOLOGIA - 59 comumente diagnosticadas nos indivíduos que entraram em contato com pacientes já diagnosticados com lepra. Essas lesões se apresentam na forma de uma ou mais máculas ou placas hipo ou hiperpigmentadas, levemente eritematosas e de bordos indefinidos. Freqüentemente, uma mancha anestésica ou parestésica é o primeiro sinal observado pelo paciente. Contudo, a sensibilidade geralmente está preservada nessas lesões iniciais, particularmente naquelas localizadas na face. A sensibilidade térmica é geralmente a primeira a desaparecer, seguida da sensibilidade dolorosa e da sensibilidade tátil. Seu diagnóstico pode ser feito através dos seguintes critérios: Critério bacteriológico Pouca quantidade de bacilos ou macrófagos; Critério histopatológico Onde se observa um infiltrado inflamatório inespecífico com tropismo para filetes nervosos; Critério imunológico Teste de Mitsuda. Essas lesões podem curar-se espontaneamente em um ou dois anos, mas um tratamento específico é recomendado. Lepra tuberculóide Polo benigno ou forma T As lesões iniciais da lepra tuberculóide, um dos polos do espectro clínico e imunológico da hanseníase, geralmente apresentam-se como máculas hipopigmentadas, muito bem delimitadas, assimétricas e hipoestésicas. Mais tarde, as lesões aumentam de tamanho e suas bordas tornam-se elevadas e endurecidas. Ao contrário, sua região central se torna atrófica e apresenta-se com uma depressão. As lesões completamente desenvolvidas são intensamente anestésicas e apresentam perda de todos os anexos epidérmicos normais, como as glândulas sudoríparas e os folículos pilosos. Essas lesões são geralmente únicas ou apresentam- se em pequeno número. O envolvimento neural ocorre cedo e pode levar a um aumento no tamanho dos nervos. Esse aumento pode ser visualizado à inspeção e à palpação, principalmente nos grandes nervos periféricos, especialmente o fibular e o ulnar. Lesões do nervo fibular podem levar a uma situação denominada “pé caído”, que produz uma marcha conhecida como escarvante, em que o paciente flexiona exageradamente a coxa, a fim de evitar que a cada passo os artelhos rocem o solo; e , na descida da perna, ele bate o pé com força no chão. DERMATOLOGIA - 60 Em alguns casos, uma severa dor neurítica pode estar presente. O envolvimento neural também pode levar a atrofia muscular, especialmente dos pequenos músculos da mão. O quadro histológico consiste em granulomas não-caseosos contendo linfócitos, células epitelióides e, as vezes, células gigantes (de Langerhans). Os bacilos freqüentemente estão ausentes ou são de difícil demonstração. Lepra lepromatosa Polo maligno ou forma V A lepra lepromatosa é a outra forma polar da hanseníase. Seu envolvimento cutâneo é extenso e distribui-se grosseiramente de forma simétrica no organismo. As lesões epiteliais são altamente variáveis e podem incluir máculas, nódulos, placas ou pápulas. Suas bordas são mal definidas e o centro das lesões, elevadas e endurecidas, é convexo, ao contrário da apresentação côncava da lepra tuberculóide. Seus sítios de localização preferencial são a face (bochechas, nariz, sobrancelhas), as orelhas, os pulsos, cotovelos, nádegas e joelhos. A perda das porções laterais das sobrancelhas é comum e é denominada madarose. Tardiamente, a pele da face pode se tornar espessada e enrugada (fácies leonina); e os lobos auriculares podem tornar-se pendulares. Alguns sinais precoces comumente relatados são a obstrução nasal e a epixtase. Linfadenopatia indolor em gânglios inguinais e axilares também pode ocorrer. O envolvimento de troncos nervosos é menos proeminente na forma lepromatosa, mas uma hipoestesia difusa envolvendo as porções Figura 2 - Lâmina, corada com HE, mostrando os granulomas não caseosos da lepra tuberculóide Figura 2 - Nódulo auricular na lepra lepromatosa Figura 3 - Fácies leonina DERMATOLOGIA - 61 periféricas das extremidades é comum na doença avançada. Histologicamente, há uma reação granulomatosa difusa com macrófagos, células espumosas de Virchow e muitos bacilos intracelulares, freqüentemente em massas esferoidais. Células epitelióides e células gigantes geralmente não são encontradas. As célulasespumosas de Virchow são células histiocitárias que permitem a multiplicação dos bacilos no seu interior. Lepra dimorfa ou “borderline” A porção “borderline” do espectro da hanseníase encontra-se entre os polos tuberculóide e lepromatoso e geralmente se subdivide em: “Borderline” tuberculóide; Dimorfa ou “borderline” e “Borderline” lepromatosa. Suas lesões tendem a aumentar em número e heterogeneidade, mas diminuem em tamanho a medida que se aproximam do polo lepromatoso. As lesões de pele da lepra “borderline” tuberculóide geralmente assemelham-se àquelas da doença tuberculóide, com a diferença que elas são em maior número e têm bordas menos bem definidas. O envolvimento de múltiplos nervos periféricos na forma dimorfa é mais freqüente do que na lepra polar tuberculóide. A variabilidade crescente no aspecto das lesões de pele é característica da forma “borderline” lepromatosa. Algumas pápulas e placas podem coexistir com as lesões maculares. Essas lesões tornam-se ainda mais numerosas na doença lepromatosa “borderline”, mas sua distribuição perde a típica simetria bilateral da lepra polar lepromatosa. A histopatologia dos granulomas na lepra “borderline” muda de uma predominância de células epitelióides da doença “borderline” tuberculóide para uma predominância de células macrofágicas na doença “borderline” lepromatosa. Os bacilos estão presente em grande número nos granulomas epidérmicos das formas dimorfa e “borderline” lepromatosa. Por esta razão, estes grupos, em associação com a lepra lepromatosa, são classificados como hanseníases multibacilares. Ao contrário, a forma “borderline” tuberculóide, a lepra tuberculóide e a lepra indeterminada formam o grupo das hanseníases paucibacilares. DERMATOLOGIA - 62 Classificação Classificação de Rabelo Polo inicial ou indeterminado Polo tuberculóide ou benigno Polo lepromatoso, Virchowiano ou maligno; Classificação de Ridley e Jopling Lepra indeterminada Lepra tuberculóide (TT) Lepra lepromatosa (LL) Lepra dimorfa ou “borderline”; Classificação operacional Hanseníases multibacilares Hanseníases paucibacilares. Complicações O fenômeno de Lúcio, caracterizado por arterite, é limitado aos pacientes com doença lepromatosa difusa, infiltrativa e não-nodular. Os casos severos assemelham- se clinicamente a outras formas de vasculite necrotizante e são associados com uma alta taxa de mortalidade. Diagnóstico O diagnóstico da hanseníase pode ser feito clinicamente através da descrição das suas lesões e da pesquisa da sensibilidade superficial dessas lesões. A demonstração dos bacilos ácido-álcool resistentes em esfregaços de pele, corados pelo método de Ziehl-Neelsen, é uma forte evidência para o diagnóstico de lepra. Contudo, deve-se lembrar que na doença tuberculóide os bacilos não são demonstráveis. Sempre que possível, uma biópsia da área afetada da pele deve ser mandada para exame anatomopatológico porque o envolvimento histológico dos nervos periféricos é patognomônico, mesmo na ausência de bacilos. A lepromina é a suspensão de M. leprae mortos pelo calor, obtida a partir de seres humanos altamente infectados ou de animais experimentais, que é injetada intradermicamente na pele do antebraço do paciente suspeito de portar hanseníase. Essa injeção intradérmica produz uma reação em 48 horas denominada de reação de Fernandez e, após 3 ou 4 semanas, uma reação papular mais consistente conhecida como reação de Mitsuda. A reação de Mitsuda é geralmente positiva nos pacientes com lepra tuberculóide e é sempre negativa nos pacientes com lepra lepromatosa. Isso ocorre porque, como já foi dito, a lepra tuberculóide tem uma resposta celular intensa ao M. leprae, enquanto a lepra lepromatosa não suscita resposta celular. DERMATOLOGIA - 63 Contudo, como a reação de Mitsuda pode ser positiva em praticamente qualquer adulto normal (90%), mesmo naqueles residindo em áreas livre de hanseníase endêmica, ela não tem um valor diagnóstico importante. Um teste serodiagnóstico específico para a lepra tem sido desenvolvido. Baseado na detecção do anticorpo contra o glicolipídeo fenólico I, este teste tem uma sensibilidade superior a 95% na doença polar lepromatosa e de aproximadamente 30% na doença tuberculóide. O nível desses anticorpos parece correlacionar-se com a carga bacilar, o que explica sua alta taxa de falso-negativos na doença polar tuberculóide, que é uma forma paucibacilar. A despeito dessa limitação, a especificidade de quase 100% deste teste o torna potencialmente útil para o diagnóstico de certeza da hanseníase. Os diagnósticos diferenciais mais freqüentes da hanseníase incluem: Eritema nodoso; Leishmaniose; Lupus eritematoso; Pitiríase rósea; Pitiríase versicolor; Psoríase; Sarcoidose; Sífilis secundária; Outros. Tratamento A conduta terapêutica da hanseníase é ampla e multidisciplinar. A dapsone (4,4’-diaminodifenilsulfona, DDS ou difenilsulfona) é um antagonista dos folatos que é básico no seu tratamento. A dose diária, no adulto, varia entre 50 a 100 mg. As vantagens da dapsone são que ela é um medicamento barato, seguro durante a gravidez e que tem uma meia-vida longa, de aproximadamente 24 horas, permitindo a sua administração diária. Seus maiores efeitos colaterais, que são relativamente incomuns, incluem hemólise, agranulocitose, hepatite e uma dermatite exfoliativa potencialmente fatal. A utilização da dapsone durante muito tempo como monoterapia provocou o surgimento de cepas de M. leprae resistentes a ela. Cerca de 2 a 30% dos pacientes em tratamento com a dapsone podem desenvolver resistência 2 aria . Por isso, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomendou, desde 1982, o uso associado de drogas na terapia de todos os pacientes leprosos. A rifampicina (RFM) é a droga micobactericida que age mais rapidamente contra os bacilos ácido-álcool resistentes da lepra. Geralmente, sua dosagem diária é de 600 mg. Contudo, o alto custo da rifampicina tem limitado seu uso diário nos países em desenvolvimento, como o Brasil, e desta forma, levou ao estabelecimento de um regime no qual é fornecido uma dose de 600 a 900 mg por mês. Outra droga que pode ser associada a dapsone é a clofazimina (CFZ), uma droga altamente lipofílica que se acumula na pele, no trato gastrointestinal, nos macrófagos DERMATOLOGIA - 64 e nos monócitos. Sua dose diária é geralmente de 50 a 200 mg e sua meia vida é de aproximadamente 70 dias. Seus principais efeitos colaterais ficam restritos a pele e ao trato gastrointestinal como, por exemplo, eritrodermia, ictiose, diarréias e cólicas. Ao contrário da dapsone, seu uso durante a gravidez não é muito seguro. Nas formas multibacilares, o tratamento deve incluir as três drogas, ou seja: Dapsone (DDS) - 100 mg/dia; Rifampicina (RFM) - 600 mg/mês; Clofazimina (CFZ) - 50 mg/dia + 300 mg/mês. Seu tempo de duração mínimo recomendado é de 2 anos. Os regimes terapêuticos contendo duas drogas, geralmente a dapsone e a rifampicina, podem ser adequados para as formas paucibacilares. A OMS recomenda uma duração de 6 meses de tratamento, com uma taxa de recaída de apenas 0,1%. Evidentes melhoras clínicas podem começar a ser vistas a partir do segundo ou terceiro mês de tratamento. A resposta clínica à terapia pode ser confundida por surtos reacionais, que são efeitos colaterais do tratamento, mas a progressão da doença se interrompe e as lesões de pele melhoram gradualmente. Os surtos reacionais que ocorrem frente ao tratamento da lepra podem ser divididos em tipo 1 e tipo 2. Os surtos do tipo 1 são os que apresentam uma reação reversa ao tratamento, ou seja, são aqueles que, em vez de melhorar a doença, produzem o seu agravamento. Nos casosde severa reação reversa, é indicado o uso associado de glicocorticóides. Nos surtos reacionais do tipo 2, ou seja, em que é formado um eritema nodoso leproso (ENL), podem ser usadas drogas antipiréticas e analgésicas. Os casos muito intensos podem ser rapidamente controlados com o uso de altas doses de prednisona (1 a 2 mg/kg/dia). Apesar da talidomida ser a melhor droga para o tratamento efetivo do ENL, em uma dose inicial de 200 mg por dia, seu uso em mulheres grávidas está absolutamente contra-indicado. Em ambos os casos, deve-se manter o tratamento específico. DERMATOLOGIA - 65 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Dermatologia Piodermites Introdução As piodermites podem ser basicamente de dois tipos: Primárias Quando a pele previamente sã é acometida por bactérias piogênicas. Secundárias Quando a pele é infectada secundariamente a uma série de doenças como, por exemplo, a escabiose, eczemas, pênfigo, etc. A proteção contra as infecções epidérmicas é dependente da barreira mecânica provida pela camada córnea, já que a epiderme, em si, é desprovida de vasos sangüíneos. A ruptura desta camada pode permitir a entrada de bactérias para as estruturas mais profundas. O rico plexo capilar existente abaixo das papilas dérmicas provê a nutrição das camadas epidérmicas e as respostas fisiológicas desses capilares a certas agressões tem grande importância na manifestação dos sinais e sintomas clínicos. Esses capilares também podem prover um acesso para a entrada das bactérias no sangue e, desta forma, facilitam a disseminação local e a bacteremia. Os agentes infecciosos mais freqüentemente implicados com as piodermites são os estafilococos e os estreptococos. Os estafilococos são bactérias que fazem parte da flora transitória e permanente da epiderme. Os maiores reservatórios dos estafilococos no nosso corpo, que produzem freqüentes recidivas e dificultam o tratamento, são as narinas, o períneo e as dobras cutâneas, como as axilares, as submamárias, etc. É importante se conhecer a localização desses reservatórios porque, terapeuticamente, caso se trate o foco de infecção sem se preocupar com esses locais, eles podem ser potentes fontes de recidiva. Os estreptococos localizam-se predominantemente na laringe. Apesar das piodermites serem causadas basicamente por esses dois agentes, elas podem se apresentar de diversas maneiras. Isso porque elas podem acometer as várias camadas da epiderme e os seus anexos, criando quadros clínicos específicos com nomenclaturas características. Conforme a manifestação de uma piodermite, ela pode ser mais freqüente em determinadas idades e, também, ser influenciada por alguns fatores como, por exemplo, alterações climáticas, sudorese, pH da pele, etc. O pH ácido da nossa pele é um mecanismo de proteção contra infeções. Considerando as camadas epidérmicas, nós temos: Epiderme Impetigo Ectima DERMATOLOGIA - 66 Comissurite É uma entidade importante que acomete idosos e crianças e que tem diagnóstico diferencial com a candidíase Derme Erisipela Ectima Hipoderme Celulite Abcessos Bem delimitado Flegmões Difuso Quanto aos anexos epidérmicos, nós podemos ter: Folículo piloso Perifoliculite Mais superficial Foliculite Mais profunda Sicose Na barba Esclerosante Na nuca Queloidiana Decalvante Vai destruindo a matriz do pelo e tende a causar áreas de alopécia Hordéolo ou terçol Nos pêlos ciliares (“viúva”) Glândula sudorípara écrina Periporite Superficial Abcesso múltiplo dos lactentes É mais profunda e acontece principalmente no lactente, especialmente nas crianças muito agasalhadas, em épocas de calor, etc. Glândula sudorípara apócrina Hidrosadenite Ocorre principalmente nas regiões axilares, perineais e inguinais Unhas Paroníquia Processo inflamatório doloroso que afeta as pregas da unha Vulgar Panarício Os estafilococos geralmente estão implicados com os processos inflamatórios dos anexos cutâneos, enquanto os estreptococos praticamente não causam esse tipo de infecção. Excepcionalmente, eles podem causar uma paroníquia. Assim, os estreptococos são agentes mais relacionados as patologias das camadas cutâneas, freqüentemente em associação aos estafilococos. Impetigo É uma piodermite superficial exulcerada, porque não atinge a derme e não deixa cicatrizes, que pode levar a formação de bolhas e vesículas. Como essas bolhas rompem-se DERMATOLOGIA - 67 rapidamente, elas geralmente formam crostas com uma coloração amarelada, denominadas crostas melicéricas (semelhantes ao mel). Seu principal agente etiológico é o estreptococo -hemolítico do grupo A de Lancefield e o impetigo acomete principalmente crianças de 2 a 5 anos de idade, durante o verão, devido as águas contaminadas e a maceração da pele. É uma lesão que, frente a boas condições de higiene, evolui para a cura espontaneamente, como já foi dito, sem deixar cicatrizes. Em pessoas de pele mais escura, o impetigo pode deixar áreas de hipocromia nos locais onde se localizavam as lesões, pois o processo infeccioso pode acometer os melanócitos. Clinicamente, ele não costuma apresentar dor, mas freqüentemente pode ser muito pruriginoso, levando a sua auto- inoculação em outros lugares. Quando suas lesões são grandes, pode haver adenopatia inguinal e, as vezes, bacteremia. O exame bacteriológico é indicado para evidenciar o agente etiológico, o que é muito importante para o tratamento. Existem impetigos causados por cepas especiais de estreptococos, chamadas de cepas nefritogênicas, que podem causar uma glomerulonefrite aguda difusa em 5 a 10% dos casos. Quando causados por estafilococos, suas principais complicações são a resistência ao tratamento e a capacidade de formar abcessos. Figura 1 - Impetigo contagioso DERMATOLOGIA - 68 Ectima É uma piodermite superficial ulcerada que é mais profunda que o impetigo, atingindo também a derme, e que cura deixando cicatrizes. Epidemiologicamente, as ectimas vão se encontrar em pessoas com más condições de higiene, nos lavradores e nas pessoas alcoolizadas e desnutridas. Sua principal localização são as pernas. Erisipela Dentro das piodermites epidérmicas, grande destaque têm as erisipelas. Isso porque elas são processos muito agudos que têm um quadro clínico dramático. Conceitualmente, a erisipela é uma dermite linfangítica estreptocóccica, porque ela tem tropismo principalmente pelos os vasos linfáticos da derme. Suas bactérias causadoras podem ser inoculadas em qualquer solução de continuidade da pele, mais freqüentemente nas pernas ou na face. Figura 2 - Ectima DERMATOLOGIA - 69 Clinicamente, vai se formar um cordão linfático, no início, seguido por febre, dor local, formação de uma região eritematosa e edemaciada, de margens bem definidas, que vão dar a pele um aspecto brilhante. Pode também haver formação de adenopatia regional dolorosa. O aparecimento de bolhas flácidas pode ocorrer no segundo ou terceiro dia de infecção, mas sua extensão para tecidos mais profundos é rara. A tendência natural da erisipela é ser autolimitada, desaparecendo em 3 a 4 semanas, com ou sem tratamento, a não ser que haja infecção secundária. Freqüentemente, porém, há obstrução dos vasos linfáticos, o que pode levar a uma linfaestase e um acúmulo de estreptococos nessa localização. Esses focos crípticos de estreptococos são os responsáveis pelas recidivas de tempos em tempos, o que dá uma característica recidivante a erisipela. A linfaestase pode ser responsável por outra complicação das erisipelas, que é a “elefantíase”. Comissurite Figura 3 - Erisipela Figura 4 - “Elefantíase”como complicação da erisipela DERMATOLOGIA - 70 São lesões epidérmicas que acometem principalmente crianças e idosos desdentados. As comissurites são chamadas popularmente de “boqueiras” e apresentam-se como lesões inflamatórias no canto da boca, onde podem se formar fissuras, que secretam uma substância amarelada. Seu principal agente etiológico é o estreptococo. Deve-se fazer seu diagnóstico diferencial com a candidíase. Celulite A celulite é uma condição inflamatória aguda da pele caracterizada por dor local, eritema, edema e calor. Pequenas lesões da epiderme estão associadas com a infecção estreptocóccica enquanto que as celulites estafilocóccicas geralmente estão associadas com soluções de continuidade grandes, úlceras ou abcessos. A febre também é um fator sugestivo de infecção por estreptococos. Foliculite Os folículos pilosos podem servir como uma porta de entrada para um grande número de bactérias, das quais os estafilococos são as mais freqüentes. As foliculites geralmente apresentam-se como uma pústula centrada por um pêlo. Furunculose É uma lesão muito comum na puberdade e no idoso com diabetes mellitus. Apresenta-se como um nódulo eritematoso, muito doloroso, que evolui para necrose com excreção expontânea do seu material (“carnegão”). Figura 5 - Comissurite DERMATOLOGIA - 71 Seu principal agente etiológico são os estafilococos. Antraz é o nome dado a uma situação em que existem furúnculos disseminados e que, nas pessoas de idade, é uma condição quase que patognomônica para a diabetes. Tratamento Local Compressas com água boricada, permanganato de potássio, soro fisiológico, etc. Está contra-indicado o uso de água oxigenada (H2O2) O uso de antibióticos tópicos deve ser restrito aos antibióticos não usados sistemicamente, como a ganamicina por exemplo, para evitar o risco de se desenvolver resistência microbiana Sistêmico Quando o processo é muito intenso Figura 6 - Furúnculo DERMATOLOGIA - 72 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Dermatologia Leishmaniose Introdução A leishmaniose é uma doença causada por qualquer uma das diversas espécies de protozoários do gênero Leishmania. Existem quatro grandes síndromes clínicas: 1. Leishmaniose visceral (ou Calazar); 2. Leishmaniose cutânea; 3. Leishmaniose mucocutânea; 4. Leishmaniose cutânea difusa. Na maioria das vezes, esses parasitas são transmitidos de reservatórios animais para os hospedeiros humanos pela picada de dípteros phlebotomídeos. Etiologia As diferentes espécies de Leishmania assemelham-se muito e são geralmente distinguidas por suas características clínicas e geográficas. Morfologicamente, os protozoários do gênero Leishmania apresentam-se sob duas formas. Parasitando os Phlebotomus ou meios de cultura, eles encontram-se como promastigotas móveis e fusiformes (1,4 a 4 m de diâmetro por 14 a 20 m de comprimento), com um único flagelo anterior, denominado cinetoplasto. A partir do momento que eles são inoculados no interior de hospedeiros mamíferos, eles são fagocitados por monócitos, perdem seu flagelo e se multiplicam como parasitas intracelulares obrigatórios pequenos (2 a 5 m) e ovais, denominados de amastigotas. Epidemiologia A leishmaniose é uma infecção zoonótica que envolve animas roedores, caninos e vários mamíferos selvagens de todos os continentes habitados, com exceção da Austrália. Ela é disseminada quando mosquitos fêmea do gênero Phlebotomus ou Lutzomyia ingerem formas amastigotas a partir do sangue de animais infectados, que se transformam em promastigotas no interior de suas vísceras, migram para as glândulas salivares dos insetos e são depositados na pele de um novo hospedeiro quando eles voltam a se alimentar. Os flebotomíneos se reproduzem principalmente em microambientes quentes e úmidos e podem ser transmitidos aos seres humanos através de dois ciclos: Silvestre Geralmente quando o homem habita áreas florestais. A doença é transmitida a partir de animais silvestres para o ser humano e para os animais domésticos. DERMATOLOGIA - 73 Urbano O estabelecimento da infecção em animais domésticos e no ser humano apresenta-se como um importante reservatório urbano de leishmaniose. Patogênese Quando os mosquitos vão se alimentar do sangue de um animal, eles depositam as formas promastigotas na sua pele. Os produtos da glândula salivar do inseto promovem vasodilatação local e ativam uma resposta imunológica mediada por complemento, que levam os organismos a serem fagocitados pelos macrófagos. Então, essas formas promastigotas transformam-se em amastigotas dentro dos fagolisossomas dos macrófagos e começam a se multiplicar por divisão binária. Eventualmente, eles podem causar a ruptura dessas células e invadir outros macrófagos. A partir daí, o curso da doença vai depender da imunidade celular do hospedeiro. Leishmaniose cutânea e mucocutânea A leishmaniose cutânea é caracterizada pelo desenvolvimento de uma ou múltiplas lesões, localizadas em áreas expostas da pele, que são tipicamente ulceradas. Apesar da sua cura expontânea ser uma regra no velho mundo, no novo mundo, onde se localiza o Brasil, ela geralmente não o é. Os principais agentes etiológicos responsáveis pela leishmaniose no velho mundo são a Leishmania tropica e a Leishmania major. A Leishmania tropica causa a leishmaniose cutânea urbana, uma doença endêmica de crianças e adultos jovens. Seu principal reservatório são os seres humanos, apesar de que animais domésticos também podem agir como hospedeiros. O período de incubação varia entre 2 e 24 meses. Geralmente, as lesões começam como uma pápula única, avermelhada, pruriginosa e localizada principalmente na face. Sua região central freqüentemente sofre ulceração e cresce lentamente, alcançando um tamanho de aproximadamente 2 cm. Linfadenopatia ocorre somente raramente. Sua cura ocorre em cerca de 1 ou 2 anos e pode deixar uma cicatriz hipopigmentada. Uma complicação que freqüentemente ocorre são as recidivas, uma condição caracterizada por lesões Figura 1 - Leishmaniose cutânea causada pela Leishmania tropica DERMATOLOGIA - 74 faciais persistentes apresentando um escasso número de parasitas e uma exagerada resposta de hipersensibilidade a esses antígenos. A Leishmania major é a responsável pela leishmaniose cutânea rural. As leishmanioses que ocorrem no novo mundo são causadas principalmente pelas Leishmania mexicana e pela Leishmania braziliensis. A cura espontânea ocorre com maior freqüência nas doenças causadas pela Leishmania mexicana. Os reservatórios naturais desses organismos inclui uma ampla variedade de mamíferos que habitam as florestas da América Central e da América do Sul. A Leishmania braziliensis causa lesões mucocutâneas que produzem uma ou várias lesões nos membros inferiores, que sofrem uma ulceração extensiva e que, as vezes, curam-se espontaneamente. Depois de anos ou meses, lesões metastáticas podem aparecer na nasofaringe em 2 a 5% dos pacientes. Menos freqüentemente, podem aparecer lesões perineais. A evolução da lesão da mucosa nasal ocorre da seguinte maneira: 1. Edema da pirâmide nasal Mucosa nasal hiperemiada e edematosa; 2. Maior infiltração da pirâmide nasal; 3. Lesão do septo cartilaginoso; 4. Destruição da columela do nariz; 5. Desabamento da pirâmide nasal Nariz de anta, tapir ou camelo; 6. Reações cicatriciais Retração das pirâmidas nasais, resultando em dificuldade para respirar; 7. Perfurações no dorso do nariz Podem resultar em sinusite e infecções de vias aéreas superiores (IVAS) devido a grande quantidade de secreção purulenta. Clinicamente, osprincipais sintomas são obstrução nasal e epixtase. Pode ainda haver uma destruição extensa de estruturas moles, que levam a formação de dolorosas erosões. Febre, anemia e perda de peso também podem ocorrer. Quando há morte, ela é geralmente causada por infecção bacteriana, inanição ou obstrução respiratória. O seu diagnóstico é predominantemente clínico e epidemiológico. A confirmação diagnóstica pode ser realizada através da colheita de material das bordas externas da úlcera. Como os parasitas podem se encontrar em número escasso, caso o esfregaço realizado a partir dessa colheita seja negativo, uma biópsia da margem externa da úlcera deve ser obtida para a observação histológica e para a cultura. Figura 2 - Leishmaniose cutânea causada pela Leishmania braziliensis DERMATOLOGIA - 75 Os principais diagnósticos diferenciais que devem ser avaliados são: Sífilis; Blastomicose; Paracoccidioidomicose; Esporotricose; Hanseníase; Carcinoma basocelular e Ectima. O tratamento das lesões cutâneas, em geral, deveria ser feito com antimoniais sistêmicos por cerca de 20 dias, com o objetivo de reduzir o subsequente risco de desenvolvimento de doença mucocutânea. No Brasil, os principais antimoniais utilizados são: Glucantime 85 mg/ml em ampolas de 5 ml; Stilogluconato de sódio (Pentostan®) 100 mg/ml em ampolas de 5 ml; Pentamidina Numa dose de 3 mg/kg/dia; Anfoterecina B Numa dose de 1 mg/kg/dia, em administração endovenosa, para as lesões mucosas Os principais efeitos colaterais que podem ocorrer são: Desfonforto abdominal; Pancreatite; Mialgias; Artralgias; Anemia; Tombocitopenia; Lecopenia; Alterações eletrocardiográficas; Hipoglicemia; Lesões renais; Hipertermia; Hipopotassemia e Alterações cardíacas. Leishmaniose cutânea difusa A leishmaniose cutânea difusa é freqüentemente encontrada na Venezuela, Peru, Brasil, México e República Dominicana, no novo mundo, e na Etiópia, no velho mundo. Os paciente geralmente apresentam uma deficiência específica na imunidade celular aos antígenos da Leishmania. Essa doença é caracterizada por uma disseminação massiva de lesões de pele sem envolvimento visceral. O quadro clínico freqüentemente apresenta uma semelhança com a lepra lepromatosa. DERMATOLOGIA - 76 Seu diagnóstico não é difícil porque suas lesões apresentam um grande número de organismos. A leishmaniose cutânea difusa é progressiva e refratária ao tratamento. Altas doses de antimoniais (20 mg/kg duas vezes ao dia por 30 dias) e ciclos múltiplos de anfoterecina ou pentamidina são freqüentemente requeridos na produção da remissão, mas a obtenção de cura é rara. View publication statsView publication stats https://www.researchgate.net/publication/281346788