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FIORIN. José Luiz. Intertextualidade e Interdiscursividade. In: BRAIT, B. (Org.). Bakthin: outros conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2010, 161-193.
Intertextualidade e Interdiscursividade 
· Em Bakhtin não há uma especificidade sobre tais termos. No conjunto da sua obra aparece apenas uma única vez o termo intertextual. Essa é uma questão polêmica, bastante complexa e considerada por muitos como um problema de tradução. 
· Como nota Sirio Possenti, “sob diversos nomes – polifonia, dialogismo, heterogeneidade, intertextualidade – cada um implicando algum viés específico, como se sabe, o interdiscurso reina soberano há algum tempo” (Possenti, 2003, p. 253)
· Assim, a questão é: 
a) investigar se o interdiscurso está presente na obra de Bakhtin, ainda que com outro nome;
b) tentar distinguir interdiscursividade e intertextualidade com base nos pressupostos bakhtinianos.
O Aparecimento do Termo Intertextualidade
· Intertextualidade – primeira palavra bakhtiniana a ganhar prestígio no Ocidente graças a Júlia Kristeva – antes mesmo que termos como dialogismo tivessem notoriedade no campo da pesquisa linguística e literária.
· A Preocupação de Kristeva (1967), era discutir o texto literário. Segundo ela, para Bakthin, o discurso literário “não é um ponto (um sentido fixo), mas um cruzamento de superfícies textuais, um diálogo de várias escrituras” (idem, p.439) Todo texto constrói-se, assim, “como um mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto” (idem, p.440). Em sua leitura da obra de Bakhtin, Kristeva identifica discurso e texto: "O discurso (o texto) é um cruzamento de discursos (de textos) em que se lê, pelo menos, um outro discurso (texto)" (Idem, p. 84). Afirma ainda que, no lugar da noção de intersubjetividade, instala-se a de intertextualidade (Idem, p. 441). Bakhtin opera com a noção de intertextualidade, porque considera que o "diálogo é a única esfera possível da vida da linguagem" (Idem, p. 443). Por isso, ele vê "a escritura como leitura do corpus literário anterior e o texto como absorção e réplica a um outro texto" (Idem, p. 444). Está aí entronizada a noção de intertextualidade como procedimento real de constituição do texto. Mais tarde, Kristeva vai elaborar a proposta teórica de uma ciência do texto, a que denominou Semanálise (Kristeva, 1974).
· Segundo a opinião corrente, o texto é "a superfície fenomênica da obra literária: é o tecido das palavras utilizadas na obra e organizadas de maneira a impor um sentido estável e tanto quanto possível único" (Idem, p. 1.677). Como diz Barthes, no fundo, ele não passa de "um objeto perceptível pelo sentido da visão" (Idem. ibid.). 
· Dizer que o texto é prática significante quer dizer que "a significação se produz, não no nível de uma abstração (a língua), tal como postulara Saussure, mas como uma operação, um trabalho, em que se investem, ao mesmo tempo e num só movimento, o debate do sujeito e do Outro e o contexto social" (1994, p. 1.681). O texto é uma produtividade, porque é o teatro do trabalho com a língua, que ele desconstrói e reconstrói (Idem, ibid.). É significância, porque é um espaço polissêmico, onde se entrecruzam vários sentidos possíveis, A significância é um processo, em que o sujeito se debate com o sentido e se desconstrói (Idem, p. 1.682).
· Nesse conjunto de níveis e de objeto, o que é exatamente a intertextualidade? Qualquer referência ao Outro, tomado como posição discursiva: paródias, alusões, estilizações, citações, ressonâncias, repetições, reproduções de modelos, de situações narrativas, de personagens, variantes linguísticas, lugares comuns, etc. O conceito foi sendo utilizado de maneira muito frouxa, ao longo do tempo. É hora, entretanto, de voltar à obra de Bakhtin e começar a discutir os problemas enunciados na introdução.
A Questão do Interdiscurso em Bakhtin
· A questão do Interdiscurso aparece, em Bakhtin, sob o nome de dialogismo.
· Para que possamos analisar mais detalhadamente esse conceito, é necessário um distanciamento das seguintes concepções recorrentes da obra de Bakhtin: 
a) Dialogismo = diálogo como interação face a face; 
b) Existência de dois tipos de dialogismo: entre interlocutores e entre discursos.
· Essas duas afirmações parecem equivocadas pois O dialogismo não se confunde com a interação face a face. Em segundo lugar, não se pode dizer que haja dois dialogismos: entre interlocutores e entre discursos. O dialogismo é sempre entre discursos. O interlocutor só existe enquanto discurso. Há, pois, um embate de dois discursos: o do locutor e o do interlocutor, o que significa que o dialogismo se dá sempre entre discursos.
· Mas o que é efetivamente dialogismo em Bakhtin? 
É o modo de funcionamento real da linguagem; é uma forma de composição do discurso, é um princípio constitutivo da linguagem, enfim... é a relação entre os discursos. (p.167)
· “Como não existe objeto que não seja cercado, envolto, embebido em discurso, todo discurso dialoga com outros discursos, toda palavra é cercada de outras palavras” (Bakhtin, 1992, p. 319)
· Bakhtin não nega a existência do sistema da língua, já que, "por trás de todo texto, encontra-se o sistema da língua" (Idem, p. 331).) Não condena seu estudo; ao contrário, considera-o necessário para estudar as unidades da língua (Idem, pp. 357-8). No entanto, mostra que ele não dá conta do modo de funcionamento real da linguagem (Idem, pp. 346-7). Por isso, propõe uma outra disciplina, a translingüística, que teria por objeto o exame das relações dialógicas entre os enunciados, seu modo de constituição real (Bakhtin, 1970, p. 239; 1992, p. 342).
· As palavras e as orações são as unidades da língua, enquanto os enunciados são as unidades reais de comunicação. As primeiras são repetíveis, os segundos, irrepetíveis, são sempre acontecimentos únicos. (p. 168).
· A relação dialógica é uma relação (de sentido) que se estabelece entre enunciados na comunicação verbal. Dois enunciados quaisquer, se justapostos no plano do sentido (não como objeto ou exemplo linguístico), entabularão uma relação dialógica (Idem, pp. 345-6).
· A primeira característica de um enunciado é ter um autor, ao passo que as unidades da língua não pertencem a ninguém. Os enunciados revelam sempre uma posição de autoria (Bakhtin, 1963, pp. 240-1 ; 1992, p. 308). É por isso que as relações dialógicas não são relações lógicas ou semânticas, mas relações entre distintas posições (Bakhtin, 1963, pp. 24-241).
· As unidades da língua não pertencem e nem são dirigidas a ninguém especificamente. Elas são neutras em si. De modo que, sua significação está condicionada à relação que tem com outras palavras da mesma língua ou de outra. (p.169)
· Um enunciado, por sua vez, pressupõe existência de um autor e de um destinatário. Ele não tem significação, mas um sentido a partir de carga emotiva/expressiva, juízo de valor atribuído. (p.169)
· “Todo enunciado possui uma dimensão dupla, pois revela duas posições: a sua e a do outro.”(p.170) O enunciado é, pois, dialógico.
· [...] “o dialogismo é tanto convergência, quanto divergência; é tanto acordo, quanto desacordo; é tanto adesão, quanto recusa; é tanto complemento, quanto embate” (Faraco, 2003, p. 66). Para o referido autor, “o Círculo de Bakhtin entende as relações dialógicas como espaços de tensão entre os enunciados”. pois, "mesmo a responsividade caracterizada pela adesão incondicional ao dizer de outrem se faz no ponto de tensão deste dizer com outros dizeres (outras vozes sociais)" (Idem, p. 67). Isso significa que, do ponto de vista constitutivo, o dialogismo "deve ser entendido como um espaço de luta entre as vozes sociais" (Idem, ibid.). Assim, pode-se dizer que, constitutivamente, a relação dialógica é contraditória. (p.170)
· O dialogismo vai muito além das formas externas e internas (centrípetas / centrífugas) influenciadoras na composição do enunciado. 
· As vozes não circulam fora do exercício do poder; não se diz o que se quer, quando se quer, como se quer.
· O dialogismo vai muito além dessasformas em que a vozes entram em composição do enunciado, é ele mesmo quem rege o funcionamento do próprio enunciado e sua constituição. Neste sentido, as maneiras de incorporar o discurso do outro constituem-se o próprio modo de funcionamento das unidades reais da comunicação.
· Fiorin, destaca, pois, duas formas de incorporação de distintas vozes no enunciado:
a) O discurso do outro “abertamente citado e nitidamente separado” (formas composicionais: discurso direto e o discurso indireto), as aspas, a negação;
b) Quando o enunciado é internamente dialogizado. (formas composicionais: a paródia, a estilização, a polêmica velada ou clara, o discurso indireto livre. (p. 174)
· O dialogismo é um fenômeno social ou individual?
A teoria defendida por Bakhtin considera tanto o que é de ordem individual como social na relação dialógica do enunciado. Para ele, há inúmeros fenômenos que estão presentes na comunicação real, e por isso mesmo não se trata de uma vinculação estanque. (p.177)
· O dialogismo incessante é “ a única forma de preservar a liberdade do ser humano e do seu inacabamento; uma relação, portanto, em que o outro nunca é reificado; em que os sujeitos não se fundem, mas cada um preserva sua própria posição de extra-espacialidade e excesso de visão e a compreensão daí advinha” ( Faraco, 2003, p. 73-74) A singularidade do sujeito ocorre na “interação viva das vozes sociais” e, por isso, ele é social e singular (idem, p. 83)
· Em síntese: o enunciado mantém relação tanto com os discursos precedentes como com aqueles que lhe sucedem na cadeia da comunicação verbal. Este é o princípio básico do dialogismo. (p. 178)