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TURISMO, CULTURA E GLOBALIZAÇÃO: A TURISMOFOBIA A PARTIR DE DUAS TEORIAS SOBRE O CICLO DE VIDA DE UM DESTINO TURÍSTICO . LUIS EDUARDO PAIVA MENDES[footnoteRef:2] [2: Aluno do curso de bacharelado em Turismo da Universidade Federal do Maranhão.] RESUMO O termo globalização começou a ser usado no final da década de 80 com o intuito de sugerir a ideia de unificação do mundo, como resultado da vitória do neoliberalismo. Trata-se de um fenômeno que ganhou notoriedade após a Segunda Guerra Mundial, embora a história nos mostre indícios de sua existência ao longo da vida humana. Um outro fenômeno que já existia antes das duas grandes guerras, mas que só teve maior expressividade em um período posterior, é o Turismo. Sendo a decolagem do turismo iniciada em 1945 e se estendendo até os dias de hoje, onde houve uma maior popularização das viagens. No entanto, esse é um modelo não planejado chamado de turismo de massa e que é um contraponto ao modelo ideal denominado de turismo sustentável. Do turismo de massa surgiu uma aversão ao Turismo por parte da comunidade receptora chamado de turismofobia. O presente artigo busca estudar a relação turismo e globalização a partir do fenômeno da globalização e seu posicionamento dentro de dois modelos teóricos sobre a vida de um destino turístico, para tal se usou de um estudo qualitativo de abordagem descritiva a partir de uma pesquisa bibliográfica. Palavras-chaves: Globalização. Turismo. Turismofobia. Destino Turístico. Irridex. 1. INTRODUÇÃO Através do processo de globalização é possível afirmar que o mundo sofre constantes mudanças relevantes, das quais permitem a criação de novos meios de interação entre as pessoas e novas formas de desfrutarem de suas rotinas, as quais são regularmente influenciadas por meio do capitalismo. As inovações tecnológicas e o desenvolvimento do fluxo comercial mundial significam motivos do crescimento do processo de globalização e seus avanços nos últimos anos. Na concepção de Arantes (2000) globalização pode significar a sociedade sem fronteiras, interdependência, paridade, fluxo em todos os sentidos, um conjunto que pode trazer oportunidades bem como também riscos para todos. Desse modo compreende-se que a sociedade moderna está ligada de forma direta a novos paradigmas, acentuado por meio do fenômeno da globalização e de suas implicações que segundo Bauman (2000), significa falar das novas tecnologias, da aceleração do tempo, da fragmentação do espaço e das coletividades, provocando o crescimento do individualismo. Compreende-se que o turismo pode funcionar como elo entre sociedades distintas, acrescentando ao visitante e o receptor interações que por vezes seriam possíveis. O turismo é uma atividade econômica crescente, de acordo com a Organização Mundial do Turismo (OMT) em 2016, aproximadamente 1,2 bilhões de pessoas se deslocaram pelo mundo. Desse total, 51% viajaram rumo a Europa. Turismo e globalização estão estritamente ligados e, neste trabalho, a reflexão que se fará sobre a relação dos dois, será a partir de um fenômeno chamado de Turismofobia, que diz respeito ao ato dos destinos rejeitarem o turismo após sua consolidação, com enfoque em duas teorias sobre ciclo de vida de um destino turístico, a primeira de Jean-Francesc Valls e a segunda, o índice IRRIDEX de Doxey. Este trabalho está estruturado em 5 tópicos, a saber: esta introdução, os procedimentos metodológicos, um sobre a relação turismo e globalização, outro acerca da turismofobia e o ciclo de vida de um destino turístico e as considerações finais 2. METODOLOGIA “A metodologia inclui as concepções teóricas de abordagem, o conjunto de técnicas que possibilitam a construção da realidade e o sopro divino do potencial criativo do investigador.” (MINAYO, 2001, p. 16). Portanto, a metodologia é o caminho a ser seguido na criação do conhecimento científico, se configurando como um instrumento a serviço da pesquisa. Sendo assim para a confecção deste trabalho foi utilizada a pesquisa bibliográfica, descritiva e exploratória de natureza qualitativa. Bibliográfica porque abrangerá estudos anteriores acerca dos temas globalização, turismo, turismofobia e as teorias do ciclo vida de um lugar turístico. Descritiva e exploratória, onde de acordo com Veal (2011, p. 29) “procura descobrir, descrever ou mapear padrões de comportamento em áreas ou atividades que não foram previamente estudadas.” Na análise dos fatos, buscou-se relacionar o fenômeno em questão – turismofobia – ao que diz as teorias do ciclo vida de um destino turístico. 3. GLOBALIZAÇÃO E TURISMO O termo globalização começou a ser usado no final da década de 80, com o intuito de sugerir a ideia de unificação do mundo, como resultado da vitória do neoliberalismo, da interrupção da construção nacional do terceiro mundo e da desintegração da União Soviética no final do século XX. (HOBSBAW, 1995). Para Bauman (199, p. 5), A “globalização” está na ordem do dia; uma palavra da moda que se transforma rapidamente em um lema, uma encantação mágica, uma senha capaz de abrir as portas de todos os mistérios presentes e futuros. Para alguns, “globalização” é o que devemos fazer se quisermos ser felizes; para outros, é a causa da nossa infelicidade. Para todos, porém, “globalização” é o destino irremediável do mundo, um processo irreversível; é também um processo que nos afeta a todos na mesma medida e da mesma maneira. Estamos todos sendo “globalizados” — e isso significa basicamente o mesmo para todos. Os autores nos levam a inferir que a globalização é um fenômeno que ganhou notoriedade após a Segunda Guerra Mundial, embora a história nos mostre indícios de sua existência ao longo da vida humana. Um outro fenômeno que já existia antes das duas grandes guerras, mas que só teve maior expressividade em um período posterior é o Turismo. Lickorish e Jenkins (2000) apresentam o fenômeno turístico a partir de quatro fases de desenvolvimento, a saber: O turismo pré-histórico; A era das ferrovias; O entre guerras e a decolagem do turismo. Sendo na decolagem do turismo – iniciada em 1945 e se estendendo até os dias de hoje – onde houve uma maior popularização das viagens. Para Ramos e Costa, esse período de decolagem está associado as transformações que a nossa sociedade passava. Nos anos 1990 a sociedade sentiu uma acentuada mudança em termos comportamentais, com o aumento do rendimento das famílias, o crescimento das economias, as novas tecnologias, transportes e comunicações. As viagens tornaram-se acessíveis aos cidadãos comuns, o que permitiu a sua popularização e a consequente facilidade de deslocação. (RAMOS e COSTA, 2017, p. 24) Os autores ainda afirmam que o turismo ganhou novos paradigmas comerciais, surgiram novos destinos, e tudo isso contribuiu para mudanças na balança de rendimentos através da geração de emprego e renda, e essas características, fazem do turismo – até o presente momento – uma das maiores indústrias do mundo. Os autores ainda afirmam que O Crescimento do Turismo nas últimas décadas, e a tomada de consciência da sua importância para a economia e para o emprego dos países, nomeadamente pela criação de valor acrescentado e receitas públicas, origina a que diversos organismos internacionais como as Nações Unidas, a OMT e a Eurostat se reúnam e trabalhem no sentido de quantificar os efeitos do Turismo, para que os agentes económicos possam tomar as decisões com base em factos macroeconómicos e micro- económicos. (RAMOS e COSTA, 2017, p. 27) D’Arrigo e Bühler (2008, p. 6 apud. Rodrigues, 1999:12) ao comentar sobre a relação turismo e globalização, informam que a atividade turística deve buscar uma integração com a cultura local. O fenômeno da globalização, tal como uma moeda, tem duas faces- o verso e o reverso, que correspondem ao global e o fragmento- um não vive sem o outro. Fortalecer as diferenças- expressas pelo lugar- significa alimentar o global. O turismo vive das especificidades, uma vez que as pessoas se deslocam em busca do novo, do inusitado,da aventura, de um lugar- caracterizado pela sua força identitária. Essa busca por novos lugares e novas experiências em um local diferente ao de residência fixa, leva ao surgimento dos chamados lugares turísticos, para Rodrigues (2011) Os “lugares turísticos” são assim construídos pela mídia especializada como algo que difere do cotidiano (conotação convencional negativa). Já o que está lá, distante - o lugar turístico, aquele que prima pelo deslocamento, é almejado (sempre colorido e visto de forma positiva). (RODRIGUES, 2011, p.5) Sendo assim, o lugar turístico (ou destino turístico) passa a ser o objeto de desejo de turistas, e o marketing sobre esses locais e a forma “colorida” com que eles são apresentados, servem ainda mais para reforçar essas ideias. Apesar de seus, inegáveis, benefícios dentro de uma perspectiva econômica, cada vez mais se faz necessário que se analise os seus outros impactos do turismo sobre a região receptora. Segundo Pires (2004), Tão relevante quanto o aspecto econômico da atividade turística, é a dimensão social e cultural que o abriga. O Turismo é um fenômeno de aproximação ou afastamento das pessoas. Através do contato que promove entre as diferentes culturas, uma vez que coloca ao mesmo tempo em um espaço temporariamente compartilhado a pluralidade cultural da humanidade. (PIRES, 2004, s.p.) O bom desenvolvimento da atividade turística requer planejamento, este é a sua espinha dorsal e sua ausência pode resultar em algo executado sem considerar as singularidades do lugar turístico. O não planejamento do turismo leva ao que a literatura chama de turismo massa, isto é, um tipo de atividade que se desenvolve de forma desordenada e que não leva em consideração questões como o meio ambiente, a população local e, a já falada, singularidades do destino. (BENI, 1997) Um fenômeno ligado ao turismo de massa e que tem sido tema frequente nos veículos de comunicação, principalmente em 2017, é a Turismofobia. 4. O CICLO DE VIDA DE UM DESTINO TURÍSTICO E A TURISMOFOBIA Para Valls (2006), um destino turístico pode ser entendido como um espaço geográfico determinado, com características de clima, raízes, infra-estruturas e serviços próprios; com certa capacidade administrativa para desenvolver instrumentos comuns de planejamento; que adquire centralidade atraindo turistas mediante produtos perfeitamente estruturados e adaptados às satisfações buscadas, graças à valorização e ordenação dos atrativos disponíveis; dotado de uma marca e que se comercializa tendo em conta seu caráter integral. (VALLS, 2006, p. 16) O autor entende os destinos como espaços estruturados e que pensam na valorização dos seus atrativos, esse tipo de turismo que acontece de forma ordenada, pode ser entendido como turismo sustentável. Vale ressaltar que o turismo sustentável não é um segmento – como ecoturismo, turismo religioso, turismo de sol e praia e etc… - mas sim um modelo de desenvolvimento que deve ser adotado em todos os segmentos. Valls (2006) também afirma que o turismo possui estágios de desenvolvimentos aos quais ele chama de ciclo de vida. O ciclo de vida de um destino está ligado a manutenção e conservação dos seus atrativos que podem resultar em condições concretas de desenvolvimento, ou não. Esse ciclo seria formado pelas seguintes fases: Início, desenvolvimento, expansão, maturidade e declínio e obsolescências. A fase do início é caracterizada que pelas motivações que levam ao surgimento de um lugar turístico, essas motivações pode ser produzida a partir de fatores endógenos e exógenos, estamos falando de uma fase onde os preços são relativamente baixos, a concorrência é pequena e o local ainda sofre de alguns problemas de infraestrutura. (VALLS, 2006). Valls (2006) ainda destaca que é difícil estabelecer uma fronteira entre a fase de desenvolvimento e sua antecessora, haja vista que uma sucede a outra de forma natural. Entre as principais características dessa fase estão o surgimento de novos empreendimentos, principalmente do setor hoteleiro. Seguindo um caminho natural, na expansão os destinos costumam apresentar alguns problemas como por exemplo o crescimento da concorrência, a chegada de empresas de cadeia internacional, o que pode levar os pequenos empreendedores a abandonar os seus negócios. Já a maturidade é alcançada quando dificilmente se pode crescer mais em números de clientes e quando se acrescentam as tensões da economia turística, que começaram a se manifestar na fase anterior, e as margens entram numa fase aguda de decréscimo. (VALLS, 2006, p.44) A última fase, o declínio, “é a consequência natural das fases anteriores, sem freio ou planejamento (…) aparecem novos processos, sistemas e tecnologias que tornam obsoletas a estrutura e a gestão do destino” (VALLS, 2006, p.44) Além de problemas de conjuntura econômica - ligados a oferta e demanda, por exemplo - a falta de planejamento pode resultar também em uma aversão a atividade turística por parte da comunidade autóctone. O ano de 2017, a saber, foi marcado pelo uso constante do termo “turismofobia” na imprensa especializada para se referir a aversão que comunidade local cria pela atividade turística, principalmente em destinos já consolidados da Europa Ocidental. A sustentabilidade, pensada para o turismo, é constituída através do equilíbrio entre população e a sua identidade cultural, pelo que o uso do espaço turístico pelos não residente não pode de forma alguma destruir a relação histórica já existente. (VALLS, 2006). Dessa forma, entende-se que de forma alguma o turismo deve ser sobrepor ao bem-estar do residente, para Dias (2017, s.p) A turismofobia é decorrência da falta de planejamento da política turística que não define com clareza a capacidade de carga dos destinos de tal modo que a comunidade local receba os benefícios da atividade e não os problemas que podem descaracterizar a localidade tornando-a mesmo pouco atrativa para futuros visitantes. Domínguez (2017, p. 25) diz que O turismo, de certo modo, “paga” por sua presença crescente na economia e na ecologia urbana; face visível da transição para a cidade pós-industrial, segundo o modelo neoliberal, cujas contradições afloram de forma cada vez mais evidente. No entanto, seria limitador pensar na conflituosidade em torno do desenvolvimento turístico como um fenômeno recente e eminentemente urbano, embora essas pareçam ser as coordenadas típicas do fenômeno da “turismofobia”. Para o autor os conflitos em torno da atividade turística tem se intensificado, principalmente a partir da adoção de práticas neoliberais dentro de nossa sociedade e possibilitaram uma aceleração no crescimento do turismo nos últimos anos, no entanto é limitador pensar que essa seja uma problemática que relaciona o fenômeno só a conjuntura atual, haja vista que os conflitos permeiam a atividade turística desde a primeira viagem – que pode ser definida como turismo – organizada por Thomas Cook (1841). Dessa forma, a turismofobia representaria a aversão dos autóctones ao turismo e a figura do turista, que seria o personagem responsável por transgredir a “paz” da região receptora. Dentro do ciclo de vida proposto por Valls (2006) esta fato está ligado diretamente a expansão, onde uma série de variáveis, por vezes, não são considerados como a capacidade de carga, questões ambientais e a própria cultura local. Além do ciclo proposto por Valls, a turismofobia é um fenômeno que pode ser relacionado ao índice de irritabilidade de Doxey, “um dos primeiros e mais influentes modelos teóricos que tentaram explicar a relação entre desenvolvimento turístico e impacto social no destino turístico” ( DOMÍNGUEZ,2017, p. 27). Esse índice ficou conhecido como IRRIDEX e foi criado em 1975, onde busca “identificar e explicar os efeitos cumulativos do desenvolvimento do turismo sobre as relações sociais e a evolução da mudança nas atitudes dos moradores com relação aos turistas.” (AIRES e FORTES, 2011, p.24). No IRRIDEX, um destino turístico é composto pelas seguintesfases: euforia, a chegada de turistas seja festejada pela população local, a predisposição aos visitantes evolui em termos cada vez mais negativos à medida que seu número aumenta. Da euforia se passaria, primeiro, à apatia, depois ao incômodo e, por fim, ao antagonismo. (DOMÍNGUEZ, 2017, p.27 – grifo nosso) O antagonismo é uma fase caracterizada pela hostilidade dos residentes para com o turismo e passam a culpá-los por todos acontecimentos maléficos ao seu bem-estar. Nessa fase começam a aparecer manifestações públicas de descontamento por parte dos residentes, como as pichações anti-turismo em Barcelona ou quando encapuzados furaram os pneus de ônibus turístico na mesma cidades. Foram justamente esses acontecimentos, junto a alguns outros que culminaram no uso constante da palavra turismofobia para descrever esses ataques. Portanto, conclui-se que é na fase de antagonismo que a turismofobia melhor se encaixa dentro do índice IRRIDEX. 5 – CONSIDERAÇÕES FINAIS Cada vez mais se tem falado em globalização para fazer referência a uma série de acontecimentos após as duas grandes guerras, curiosamente a atividade turística só começou a viver uma fase de decolada no mesmo período. O turismo está diretamente ligado a globalização, uma vez que foram as mudanças advindas destas que possibilitaram aos seres humanos se deslocar cada vez mais de seu lugar de origem para outras destinos. No entanto, esses deslocamentos muita das vezes gera desconforto nos residentes de grandes destinos turísticos, o ano de 2017 foi marcado por manifestações públicas desse desconforto que receberam o nome de turismofobia. A literatura acerca do turismo traz alguns modelos teóricos que apontam para a existência da turismofobia, embora ela ainda não receba esse nome. No ciclo de vida de um destino turístico proposto por Valls (2006) a turismofobia estaria ligada ao crescimento desordenado do lugar turístico e aos diversos malefícios que isso acarreta a população local, gerando graves tensões. Já no IRRIDEX, de Doxey (1975), essa fase corresponderia ao antagonismo. Aqui os visitantes passam veemente a recusar o turismo e o turista e o consideram os culpados por todos os acontecimentos maléficos ao seu bem-estar. No IRRIDEX essas manifestações são públicas e explícitas, semelhantes aos diversos ataques ocorridos a turistas em algumas localidades da Europa Ocidental, especialmente na Espanha. Os estudos sobre turismofobia ainda são poucos, isso se explica devido a juventude do fenômeno que só começou a ganhar enfoque no último ano. Apesar disso, vale lembrar que conflitos sempre permearam a atividade turística. Por fim, sugere-se novos estudos sobre a temática para que haja um aprofundamento sobre ela e assim venha a se encontrar mecanismo que possam auxiliar no processo de reversão dessa situação. REFERÊNCIAS AIRES, Jussara Danielle Martins; FORTES, Lore. O MODELO IRRIDEX DE DOXEY: BREVES CONSIDERAÇÕES ACERCA DE SUA APLICAÇÃO EM PONTA NEGRA (NATAL-RN). Revista Iberoamericana de Turismo, Natal, p.23-33, 2011. 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