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Boa-fé objetiva no Processo Civil

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vem amparado na 
chamada teoria dos atos próprios, segundo a qual se entende que ninguém 
é lícito fazer valer um direito em contradição com a sua anterior conduta 
interpretada objetivamente segundo a lei, segundo os bons costumes e a 
boa-fé. O seu efeito primordial é impedir que a parte que tenha violado 
deveres contratuais exija o cumprimento pela outra parte, ou valha-se do 
seu próprio incumprimento para beneficiar-se de disposição contratual ou 
legal. 
 
Quanto aos fundamentos da teoria dos atos próprios exposta acima, José 
Moacyr Nascimento (2011, p. 1) resume didaticamente: 
a função negativa e limitadora da boa-fé objetiva colima, em epítome, 
resguardar a confiança, que por vezes foi sedimentada por atos próprios 
daquele que irá violá-la. É que a própria concepção de incoerência 
conclama dois paradigmas alimentados pelo próprio agente violador: o 
primeiro paradigma advém de atos, gestos, palavras e intenções que o cria; 
após isso, o segundo paradigma em confronto com primeiro fazer surgir a 
incongruência e a desconfiança. 
 
Portanto, de acordo com a teoria dos atos próprios, conclui-se que os 
paradigmas, se isolados no espaço e tempo, não são necessariamente injustos, 
ilícitos, imorais; a contradição só é abusiva se a justaposição dos atos gere a quebra 
da confiança legítima estabelecida. (NASCIMENTO, 2011, p. 1). 
Assim, observa-se as funções da boa-fé objetiva, vendo-se, ainda, no 
próximo capítulo, a possibilidade de sua aplicação no âmbito do processo civil. 
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2 – BOA-FÉ OBJETIVA NO PROCESSO CIVIL 
 
Ao analisar as funções da boa-fé objetiva que foram cunhadas pela doutrina 
com base nas cláusulas dispostas no Código Civil de 2002, pode-se perceber que 
elas podem ser adaptadas ao processo civil, tendo em vista que este também regula 
relações entre partes que necessitam de lealdade, confiança mútua e eticidade. 
Essencialmente, o bem-estar dos indivíduos que compõem a sociedade é 
responsabilidade do Estado, e havendo conflitos e desordens entre as pessoas, 
cabe ao Estado por meio do sistema processual eliminar tais conflitos, devolvendo à 
sociedade a paz desejada. Desta forma, ao utilizar o processo mediante o exercício 
da jurisdição o Estado busca atingir seus objetivos sociais, políticos e jurídicos. 
(CINTRA-GRINOVER-DINAMARCO, 2010, p. 41). 
Atualmente, tendo em vista que o Estado tem como fundamento os direitos 
sociais, um de seus principais objetivos é promover a concretização dos valores 
humanos, seja como pacificadora dos conflitos sociais através de sua função 
jurisdicional ou para advertir os encarregados do sistema, quanto à necessidade de 
fazer do processo um meio efetivo para a realização da Justiça. Portanto, o bem-
comum é a finalidade primordial do Estado contemporâneo, que no caso da 
jurisdição é a pacificação de forma justa. (CINTRA-GRINOVER-DINAMARCO, 2010, 
p. 31) 
O objetivo principal que o Estado visa obter, através do processo, é a 
pacificação dos conflitos sociais com justiça, como expõe (CINTRA-GRINOVER-
DINAMARCO, 2010, p. 41): 
Seja ao legislar ou ao realizar atos de jurisdição, o Estado exerce o seu 
poder (poder estatal). E, assim como a jurisdição desempenha uma função 
instrumental perante a ordem jurídica substancial (para que esta se 
imponha em casos concretos) – assim também toda a atividade jurídica 
exercida pelo Estado (legislação e jurisdição, consideradas globalmente) 
visa a um objetivo maior, que é a pacificação social. É antes de tudo para 
evitar ou eliminar conflitos entre pessoas, fazendo justiça, que o Estado 
legisla, julga e executa (o escopo social magno do processo e do direito 
como um todo). 
 
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Além do mais, a jurisdição tem como escopo tutelar as relações jurídicas 
com base nos princípios constitucionais, sendo o processo instrumento para 
concretizar objetivos políticos e sociais do Estado. 
 
2.1 - Escopos da Jurisdição 
Vale ressaltar, que os escopos são os fins almejados com a utilização da 
jurisdição pelo Estado. O processo, instrumento que é da jurisdição, deve seguir 
fundamentos pré-estabelecidos, com objetivos definidos, para pacificar de modo 
justo e educativo. (VINCENZI, 2003, p. 49). 
Brunela Vincenzi (2003, p. 49), expõe sobre as técnicas que devem ser 
buscadas para o processo ser justo em conformidade com os objetivos da 
Constituição: 
A grande meta do processualista contemporâneo passa a ser a realização 
dos escopos sociais e políticos da jurisdição, utilizando-se de técnicas e 
institutos processuais que permitam o exercício das garantias 
constitucionais pelas partes. Como ensina Dinamarco, para tanto “é preciso, 
além do objetivo puramente jurídico da jurisdição, encarar também as 
tarefas que lhe cabem perante a sociedade e perante o Estado como tal”. 
 
Entretanto, ainda que o processo deva seguir técnicas para sua melhor 
utilização, ele não pode ser um fim em si mesmo, “ele deve ser instrumento capaz 
de tutelar os direitos materiais em vigor e não ir de encontro com os valores da 
sociedade.” (CINTRA-GRINOVER-DINAMARCO, 2010, p. 42) 
Verifica-se que o processo não é apenas instrumento técnico, mas 
principalmente ético. E significa, também, que é intimamente influenciado por fatores 
históricos, sociólogos e políticos que estão insculpidos na Constituição, de modo 
que, para o melhor entendimento do processo como fenômeno jurídico e de seus 
princípios, o processualista deve utilizar como instrumento a Carta Magna. (CINTRA-
GRINOVER-DINAMARCO, 2010, p. 85). 
Neste sentido, “A própria Constituição incumbe-se de configurar o direito 
processual não mais como mero conjunto de regras acessórias de aplicação do 
direito material, mas, cientificamente, como instrumento público de realização da 
justiça.” (CINTRA-GRINOVER-DINAMARCO, 2010, p. 86) 
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Ainda, sob a abordagem dos escopos da jurisdição, a serem efetivados 
através do processo, verifica-se a garantia constitucional do devido processo legal, 
pois, as garantias do acesso à Justiça, do contraditório e da tutela adequada e 
tempestiva traçam os limites para o exercício das posições subjetivas no processo, 
isso, “porque pretender a tutela mais célere e adequada do direito material em crise 
é zelar, também, para a realização dos escopos da jurisdição.” (VINCENZI, 2003, p. 
48). 
Assim, pode-se observar que a Constituição, além das garantias 
processuais, consagrou o direito fundamental a um Estado solidário; mais 
especificamente, em seu artigo 3º, inciso I que diz que “constituem objetivos 
fundamentais da República Federativa do Brasil: construir uma sociedade livre, justa 
e solidária”. (VINCENZI, 2003, p. 49-50). 
De tal modo, que o processo além de garantir todos os princípios do devido 
processo legal para cumprir seus escopos fundamentais, também deve zelar por 
uma sociedade solidária. (VINCENZI, 2003, p. 50). 
Desta forma, Brunela Vincenzi (2003, p. 50) explica o significado de 
solidariedade no âmbito processual: 
Solidariedade, mais do que um ideal político, para o restrito aspecto que ora 
se enfoca, é cooperação, lealdade e respeito – sem importar em 
desigualdades substanciais no procedimento. São, na verdade, normas de 
conduta social que não podem ser alijadas da relação jurídica processual. 
 
Consequentemente, ao considerar as garantias individuais do processo 
contidas na Constituição, há sempre de se levar em consideração a norma contida 
no artigo 3º, inciso I, do qual se extrai a regra máxima da solidariedade entre as 
pessoas, garantida e respeitada pelo Estado. (VINCENZI, 2003, p. 50). 
Deste modo, conclui-se que atualmente o Direito é direcionado para a vida 
da sociedade e para solucionar os problemas sociais. Assim assevera Brunela 
Vincenzi (2003, p. 50) que o processo deve estar ligado com os problemas sociais e 
os direitos materiais: 
Não pode ser considerado instrumento diverso do sistema social; deve 
conectar-se com ele, sentir seus anseios, prevenir e solucionar

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