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Boa-fé objetiva no Processo Civil

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processual 
de colaboração entre as partes que deve ser buscado pelo legislador. (VIANA, 
GAGLIANO, 2012, p. 2). 
 
2.4 - Criação de Deveres Anexos no Processo 
Ao verificar que o processo cooperativo tem como fundamento a boa-fé 
objetiva, pode-se observar, além de suas funções de interpretação e de limitação do 
exercício de direitos abusivos, a sua função criadora de deveres, tendo em vista que 
a colaboração processual deve ocorrer de forma leal e honesta. 
Neste sentido, sobre as funções da boa-fé objetiva aplicadas ao processo 
civil, explicita Mariana Pretel (2009, p. 181): 
A função interpretativa atuaria no sentido de avaliar as condutas das partes 
conforme os ditames exigidos no processo (celeridade, perfeita solução das 
controvérsias, solidariedade, etc.); a de criação de deveres anexos, como 
forma de efetivação do dever de lealdade não explicitado pelas partes, mas 
ínsito no processo, tal qual em qualquer relação jurídica (deveres de 
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esclarecimento, de prestação de contas, de segurança, entre outros) e; por 
último, a limitação ao exercício de direitos subjetivos condicionaria as 
posturas dos litigantes (vedando, por exemplo, a lide temerária e o 
comportamento contraditório). 
 
Desta forma, a atuação da boa-fé objetiva no processo cooperativo não se 
resumiria apenas a tratar de combater atitudes abusivas em juízo, mas de um 
recurso do sistema processual para fazer com que as partes tenham uma conduta 
irrepreensível, de acordo com os escopos da jurisdição do Estado Constitucional. 
Vejam-se alguns deveres das partes que surgem em decorrência do princípio da 
boa-fé objetiva. 
 
2.4.1 - Deveres das Partes 
Dever de Lealdade: 
Este dever decorre da própria essência da boa-fé objetiva, pois ao atuar em 
uma relação jurídica, a parte deve agir com honestidade e lealdade para não causar 
prejuízos intencionais e imotivados à contraparte. (PRETEL, 2009, p. 69). 
A lealdade é valor afeito ao respeito pelo outro, para evitar qualquer ato que 
lese, prejudique, frustre e inviabilize a finalidade instrumental do processo. 
(NASCIMENTO, 2011, p. 2). 
A deslealdade atinge gravemente a dignidade da contraparte ao quebrar a 
confiança depositada. 
Dever de Cooperação: 
Este dever exige das partes ampla colaboração e impõe a obrigação de 
cumprir ao que lhe for determinado, com o intuito de que a relação jurídica atinja sua 
finalidade, ainda que esta conduta beneficie apenas a contraparte. (NASCIMENTO, 
2011, p. 2). 
Dever de Informação: 
Este dever determina que as partes tem de prestar as informações 
necessárias, na medida do possível, para que o Magistrado possa fundamentar suas 
decisões e escolher o caminho processual que entender correto. 
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Ademais, vale ressaltar que “o direito à informação será ponderado de 
acordo com o princípio da proporcionalidade, ante interesses opostos de igual 
dignidade constitucional.” (PRETEL, 2009, p. 70). 
Dever de Segurança: 
Refere-se aos cuidados com os bens e direitos da outra parte em situações 
que possam oferecer perigo. (PRETEL, 2009, p. 72). 
Dever de Prestação de Contas: 
É um dever acessório da própria relação jurídica, onde ambas as partes 
devem prestar as contas necessárias, por direito, ao conhecimento da parte 
adversa. (PRETEL, 2009, p. 72). 
 
2.4.2 - Deveres do Juiz 
 No processo cooperativo, juntamente com a busca pela efetividade da tutela 
jurisdicional, deve ser valorizado o princípio do contraditório pautado na boa-fé, 
visando a cooperação entre as partes e o Juiz para chegar a um processo com mais 
Justiça. (PARCHEN, 2012, p. 10). Assim pode-se destacar alguns dos principais 
deveres do Juiz: 
Dever de esclarecimento: 
O dever de esclarecimento impõe ao órgão julgador a obrigação de se 
esclarecer junto às partes quanto às suas dúvidas, para evitar que a decisão seja 
fundamentada em fatos ou direitos equivocados. 
Corroborando tal afirmação são as palavras de Laura Fernandes Parchen 
(2012, p. 10-11): 
 A concretização desse dever favorece a igualdade de armas no processo 
civil, porquanto o magistrado, diante de fatos ainda não esclarecidos, não 
pode adotar o cômodo entendimento de aplicação do ônus da prova, pois, 
segundo GRASSI DE GOUVEA, apenas após a concretização desse poder-
dever de esclarecer fatos, com, inclusive, a determinação de provas de 
ofício, é que se poderá invocar a regra de julgamento travestida no ônus da 
prova. 
 
 
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Dever de consulta: 
O dever de consultar define que o magistrado deve possibilitar o diálogo com 
as partes. Este dever decorre do princípio do contraditório, o qual assegura aos 
litigantes o direito de tentar influenciar o julgador na solução da controvérsia. 
Consiste, então, na necessidade de o juiz cientificar as partes da orientação jurídica 
a ser adotada antes mesmo da prolação da decisão, para que as partes tenham 
chance de influenciar o seu convencimento, concretizando-se, assim, a cooperação 
ativa e necessária de todos os atores do processo. 
Assim, com base nos ensinamentos de Fredie Didier Jr., Laura Fernandes 
Parchen (2012, p. 11) cita que: 
Nessa senda, evitam-se as decisões-supresa, pois o juiz chama as partes 
para a discussão acerca das possibilidades de solução do litígio, seja 
quanto a questões fáticas, seja quanto à valorização jurídica da causa. 
 
Conclui-se que em decorrência deste dever de consultar o Juiz não pode 
decidir nada sem que as partes sejam intimadas. 
Dever de prevenção: 
O dever de prevenção consiste no dever de o juiz apontar as deficiências 
das postulações das partes, a fim de que possam vir a ser supridas. E identificando 
uma incorreção, deve o juiz advertir sobre o tipo de providência jurisdicional 
adequada. (PARCHEN, 2012, p. 12) 
Laura Fernandes Parchen (2012, p. 12) de acordo com Lúcio Grassi de 
Gouvea, afirma que: 
são quatro as áreas fundamentais de justificação de aplicação do dever de 
prevenção: explicitação de pedidos pouco claros, integração de lacunas da 
exposição de fatos relevantes, necessidade de adequação do pedido 
formulado à situação concreta e a sugestão de certa atuação. É importante 
que se ressalte que, aqui, tem-se o chamado interesse-adequação, 
segundo o qual o juiz deve indicar o modo como o defeito deve ser sanado. 
 
Assim, percebe-se que o Magistrado tem o dever de indicar para as partes 
as deficiências em seus atos processuais que possam ser preenchidas, para que a 
tutela jurisdicional prevaleça sobre um mero defeito instrumental da parte. 
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Dever de auxílio: 
O dever de auxílio consiste no dever imposto ao Juiz de auxiliar as partes no 
exercício dos seus direitos ou deveres processuais. 
Salientando-se que esse dever deve ser desempenhado mantendo a 
neutralidade do Juiz, pois tem a função de auxiliar para a prestação da tutela 
jurisdicional adequada e efetiva e não de corromper a imparcialidade jurisdicional. 
(PARCHEN, 2012, p. 12). 
Compreende-se, a partir da análise destes deveres do Juiz, que o princípio 
da boa-fé objetiva também deve pautar todas as atuações do Magistrado, seja como 
dirigente da relação processual ou de agente responsável pela consecução dos 
objetivos da jurisdição. 
Ressalta-se, ainda, que o dever de comportar-se de acordo com a boa-fé 
objetiva não é apenas das partes e do Magistrado, mas de todo aquele que, de 
qualquer forma, participe do processo, sejam membros do Ministério Público ao 
atuar como fiscal da ordem jurídica, Defensores Públicos, advogados públicos e 
privados e todos os auxiliares da Justiça. (VIANA, GAGLIANO, 2012, p. 10). 
Por fim, impende destacar, que a boa-fé objetiva não é apenas uma regra de 
conduta ética a ser adotada pelas partes das diversas relações jurídicas, de direito 
privado ou de direito público, mas por todos os indivíduos que se relacionam na 
convivência em sociedade, com a finalidade de garantir a paz e a harmonia social. 
 
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CONCLUSÃO 
 
Na primeira

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