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Boa-fé objetiva no Processo Civil

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(PRETEL, 2009, p.22). 
Ademais, vale destacar, que o instituto da boa-fé não repercute somente no 
âmbito obrigacional dos contratos, mas em qualquer relação jurídica, pois atribui ao 
juiz um maior poder, cabendo-lhe adequar a aplicação judicial à realidade social, 
analisando especificadamente cada caso concreto (PRETEL, 2009, p.24). 
De acordo com a lição de Couto e Silva (2008, p. 42): 
O princípio da boa-fé endereça-se sobretudo ao juiz e o instiga a formar 
instituições para responder aos novos fatos, exercendo um controle 
corretivo do Direito estrito, ou enriquecedor do conteúdo da relação 
obrigacional, ou mesmo negativo em face do Direito postulado pela outra 
parte. A principal função é a individualizadora em que o juiz exerce atividade 
similar a do pretor romano, criando o "direito do caso". O aspecto capital 
para a criação judicial é o fato de a boa-fé possuir um valor autônomo, não 
relacionado com a vontade. (...) 
 
Portanto, o princípio da boa-fé por ser baseado em critérios objetivos, 
permitiu ao juiz não seguir estritamente o que consta em lei, podendo aplicar os 
valores éticos da sociedade conforme a singularidade de cada caso concreto 
(AMARAL, 2009). 
Esta liberdade concedida ao juiz é justificada no interesse coletivo de 
cooperação, promovendo valores constitucionais como o solidarismo, e, 
incentivando o sentimento da justiça social e a repressão a todas as condutas que 
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importem em desvio aos padrões comportamentais de honestidade e lisura. 
(ROSENVALD, 2009, p. 459). 
Pode-se observar, com base na evolução histórica que será exposta a 
seguir, que o desenvolvimento da sociedade e do direito evidenciou alguns valores 
sociais, que só poderão ser alcançados ao ser concedida uma certa liberdade ao 
juízes para julgar conforme os princípios éticos da sociedade. 
 
1.2 - Evolução Histórica 
Sinteticamente, pode se afirmar que a expressão de boa-fé tem origem no 
direito romano, em que já se percebia um conceito dúplice, com a diferenciação da 
“bona fides” e da “fides bona” (PRETEL, 2009, p.17) 
Especifica-se tal diferenciação nas palavras de Mariana Pretel (2009, p.17): 
Se, por um lado, analisava-se a crença de um sujeito para avaliar se este 
procedia conforme os ditames legais, por outro, todas as relações eram 
fundadas na confiança e o juiz, dentro do processo formulário, era remetido 
a critérios de decisão éticos, sociais e de equidade. 
 
Para resolver as lides nas relações jurídicas romanas, a jurisprudência 
estabeleceu a bonae fidei iudicia como a ação apropriada, de modo, que 
possibilitava ao juiz não só verificar a conformidade com a lei e com a obrigação 
firmada, mas também analisar os deveres impostos pela fides bona (NUNES, p.5). 
Ademais, Judith Martins Costa (2000, p. 120) aduz que a boa-fé que surgiu 
com o processo da bonae fidei iudicia, que conferiu ao magistrado, nas hipóteses 
em que não havia texto expresso em lei, o poder para decidir de acordo com as 
circunstâncias concretas. Portanto, o juiz deveria julgar segundo os ditames da boa-
fé. 
Todavia, no período da Idade Média, houve um atraso na utilização da boa-
fé objetiva. Com o domínio então exercido pela Igreja Católica, a boa-fé começou a 
se traduzir como a ausência de pecado, dentro do contexto dos ideais cristãos 
(PRETEL, 2009, p.17). 
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Gustavo Henrique Schneider Nunes (2012, p.5) em seus estudos corroborou 
com tal afirmação: 
Tal interpretação era procedida em razão de o Direito Canônico ter laços 
morais e éticos muito mais estreitos do que os traçados pelo Direito 
Romano. Tanto é assim que quem procedesse com negligência voluntária 
ou habitual, ou seja, que não procedesse de maneira cuidadosa no decorrer 
da relação jurídica estaria cometendo pecado. 
 
Portanto, verifica-se que, sob a influência da religião, o Direito Canônico teve 
outra abordagem sobre a boa-fé, tratando-a como a ausência de pecado, isto é, a 
crença subjetiva de que a conduta é desprovida de pecado. No entanto, mesmo 
diminuindo a abrangência da boa-fé, é no Direito Canônico que a boa-fé passa a ser 
conceitualmente unificada e define-se como princípio geral do Direito (MARTINS-
COSTA, 2000, p. 131). 
Na modernidade, o princípio da boa-fé foi considerado apenas em sua parte 
subjetiva, pois com a elevação dos valores liberais e individualistas impostos pela 
burguesia, o princípio da boa-fé foi inteiramente absorvido pelo dogma da autonomia 
da vontade. Os contratos faziam lei entre as partes e a vontade destas era a lei 
absoluta, afastando o Estado de qualquer interferência, como afirma Mariana Pretel 
(2009, p. 17-18). 
Na época do surgimento das codificações, a boa-fé objetiva ainda foi 
desprezada, porque estes sistemas eram totalmente fechados e vigorava somente o 
que constava na lei (PRETEL, 2009, p.18). 
Neste período a interpretação jurídica tinha forte influência da escola 
exegética, que privilegiava os aspectos gramaticais e lógicos dos códigos escritos, e 
acreditava ter na lei todas as respostas para os fatos jurídicos. 
Cesar Augusto Luiz Leonardo (2006, p. 15) demonstra algumas codificações 
que trouxeram a boa-fé subjetiva, mas não deram enfoque à boa-fé objetiva: 
 
Neste ínterim, algumas legislações trouxeram previsão acerca do tema, tais 
como as Ordenações Afonsinas (1446), o Código de Civil Francês (1804), o 
Código Comercial brasileiro (1850), e o Código Civil português (1867). 
Todos estes estatutos se limitaram a uma previsão da boa-fé subjetiva e, 
sobretudo, em sede de relações contratuais. Ademais, dado o predomínio 
da Escola Exegética e o positivismo jurídico, os dispositivos supracitados 
tiveram pouca relevância. 
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Pode se concluir que a interpretação restrita ao constante na lei e os ideais 
da classe burguesa, que buscava apenas a liberdade econômica, acabou por adiar o 
desenvolvimento da boa-fé objetiva, o que apenas ocorreu no direito alemão 
(PRETEL, 2009, p.18). 
A codificação alemã foi o maior avanço para o desenvolvimento do conceito 
da boa-fé objetiva. Após a 1ª Guerra Mundial, a doutrina e jurisprudência germânica 
incumbiram-se de lograr concretude ao princípio da boa-fé (PRETEL, 2009, p.18). 
O Código Alemão, BGB (Bürgerliches Gesetzbuch), adotou a distinção entre 
a boa-fé, reconhecendo a concomitância do instituto em seus conceitos objetivo e 
subjetivo (PRETEL, 2009, p.30). 
O ordenamento jurídico alemão distinguia nitidamente a boa-fé objetiva da 
subjetiva, com emprego de terminologias distintas. Treu und Glauben é a expressão 
alemã designativa da vertente objetiva da boa-fé, enquanto para a subjetiva, utiliza-
se o termo guter Glauben, ambos com previsão expressa no BGB (LEONARDO, 
2006, p.15). 
Conforme a tradução de MENEZES CORDEIRO (2001, p. 223, apud 
LEONARDO 2006, p.15), pode-se verificar os principais dispositivos que regem a 
boa-fé objetiva no BGB: 
Dois parágrafos consagram a aplicação geral Treu und Glauben e, portanto, 
merecem destaque – são eles: o § 157, do BGB, segundo o qual “os 
contratos interpretam-se como o exija a boa fé, com consideração pelos 
costumes do tráfego”, e o § 242, do mesmo repositório legal, que dispõe 
que “o devedor está adstrito a realizar a prestação tal como o exija a boa fé, 
com consideração pelos costumes do tráfego”. 
 
Como conclui Mariana Pretel (2009.p.32): 
O direito alemão passou a buscar uma nova adequação à vida, mormente 
com a atuação conjunta dos magistrados, tornando-se, por conseguinte, um 
instrumento para o cumprimento da função social a que é precipuamente 
destinado. 
 
Assim, baseado no direito alemão, o conceito da boa-fé começou a ser 
difundido nos demais ordenamentos jurídicos e, consequentemente, no brasileiro. 
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No ordenamento jurídico pátrio, a Constituição Federal de 1988 foi o passo 
fundamental para a caracterização da duplicidade de conceitos da boa-fé, pois 
consagrou princípios como o da dignidade da pessoa humana dentre os 
fundamentos

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