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Boa-fé objetiva no Processo Civil

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da República e gerou uma reinterpretação de todo o direito civil e 
processual civil (PRETEL, 2009, p.18). 
O professor Igor Cezne (2007, pg 249) corrobora neste sentido, ao afirmar 
que: 
De qualquer forma, a substancial mudança de paradigma, deixando de lado 
os ranços liberais, ocorreu com a promulgação da Constituição Federal de 
1988, que pôs em evidencia a pessoa humana como fundamento da 
República brasileira de maneira a garantir-lhe especialmente os valores da 
dignidade e da igualdade material. 
 
Portanto, a partir da promulgação da Magna Carta em 1988, a boa-fé 
objetiva já era aceita e podia ser vista na doutrina e jurisprudência. No entanto, a 
boa-fé em seu prisma objetivo somente foi positivada com o advento do Código de 
Defesa do Consumidor no ano de 1990 e posteriormente no Novo Código Civil de 
2002 (PRETEL, 2009, p. 35). 
Deste modo, percebe-se que a inserção da boa-fé objetiva no ordenamento 
jurídico brasileiro não foi novidade, mas sim, a positivação através do sistema 
legislado. (CEZNE 2007, pg 254). 
Neste sentido, lembra Cesar Augusto Luiz Leonardo (2006, p.18) que o 
Código do Consumidor teve efetivamente os primeiros dispositivos que positivaram a 
boa-fé objetiva: 
foi no Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/90) que a boa-fé foi 
positivada como princípio norteador das relações jurídicas tuteladas por 
esta lei. Ainda que limitado às relações consumeristas, o artigo 4º, inciso III, 
dispõe como princípio da política nacional de relações de consumo, a 
harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo e 
compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de 
desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a viabilizar os 
princípios nos quais se funda a ordem econômica (artigo 170, da 
Constituição Federal), sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas relações 
entre consumidores e fornecedores. 
Ainda, o artigo 51, inciso IV, desta mesma lei, expressa que são nulas de 
pleno direito as cláusulas que sejam incompatíveis com a boa-fé ou a 
equidade. 
 
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Deste modo, percebe-se que a boa fé objetiva foi efetivamente consagrada 
no ordenamento jurídico pátrio no Código de Defesa do Consumidor, pois provinda 
dos preceitos constitucionais, essa espécie de boa-fé passou então a ser 
empregada para interpretações contratuais, integração de obrigações firmadas, 
revelando-se essencial, para que fosse garantido que as partes de um negócio 
jurídico obrassem com lealdade perante outrem no cumprimento dos contratos 
consumeristas. (AMARAL, 2009). 
Mais de uma década após a entrada em vigor do Código de Defesa do 
Consumidor, surgiu o novo Código Civil brasileiro no ano de 2002, positivando o 
princípio da boa-fé objetiva, ao prever, por exemplo, no artigo 422, que: “Os 
contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em 
sua execução, os princípios de probidade e boa fé” (NUNES, 2012, p.10). 
Judith Martins Costa (2004, p. 44-45), sobre o Código Civil de 2002, afirma 
que foi utilizado o princípio da boa-fé tanto em sua forma subjetiva quanto na 
objetiva, como regra de conduta. De modo, que a boa-fé objetiva no campo 
obrigacional passou a derivar desta expressividade legal, e não somente da 
Constituição Federal como princípio implícito. 
Miguel Reale ao projetar o Novo Código Civil baseou-se em três grandes 
paradigmas, a eticidade, a socialidade e a operabilidade. Sendo que a boa-fé 
objetiva é a maior demonstração da eticidade, assegurando às pessoas relações 
jurídicas sob um comportamento suportável, aceitável em determinado tempo e 
lugar (ROSENVALD, 2009, p. 459). 
Hoje em dia, a boa-fé vem sendo observada sob os seus múltiplos ângulos, 
significando que, como princípio, opera, concomitantemente, como postulado ético 
basilar da ordem jurídica e critério de aplicação das normas existentes (PRETEL, 
2009, p.18). 
Assim, conclui Mariana Pretel (2009, p.38): 
A boa-fé objetiva, por derradeiro, muito mais importante do que se encontrar 
positivada, caracteriza-se como princípio constitucional e como cláusula 
geral. Trata-se de um reconhecido valor, que modifica a hermenêutica dos 
operadores do direito em todas as áreas. 
 
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1.3 - Boa-fé objetiva como Princípio Constitucional 
Primeiramente, vale salientar que existe uma distinção entre os princípios 
constitucionais, entre explícitos e implícitos, sendo que o primeiro é positivado na 
própria Constituição e legitimado pelo poder constituinte, ao passo que o segundo, 
apesar de emanar do ordenamento jurídico, decorre da interpretação dos valores 
insculpidos na Constituição, o que gera um esforço maior para sua concretização, 
segundo ensinamento de Luiz Flávio Gomes (2010). 
Neste mesmo sentido, Judith Martins Costa (2000, p. 319-320) aduz que os 
princípios no ordenamento jurídico pátrio, podem se encontrar expressos, 
consignados na legislação, ou inexpressos (implícitos), devendo ser estabelecidos 
pelo intérprete ao analisar racionalmente o sistema normativo em seus valores. 
Mariana Pretel (2009, p.44) também conceitua esta diferença, pois diz que: 
Existem doutrinadores que procedem a uma distinção entre os princípios 
positivos do direito e princípios gerais do direito. Os primeiros seriam 
aqueles que já pertencem à linguagem do direito, enquanto estes, os que 
seriam valorados segundo as análises descritivas da ciência jurídica, 
descobertos no ordenamento positivo (existem independentemente de 
expressão nas normas legais, porque nelas não se esgotam). 
 
Na elaboração da Constituição Nacional de 1988, percebe-se a valoração 
dos princípios com a função de balizar todo o ordenamento jurídico, pois além de 
expor textualmente diversos princípios, também dispôs reconhecer outros princípios 
abrigados em seu ordenamento, uma vez que o artigo 5º, em seu parágrafo 2º, diz 
que "os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros 
decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados 
internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte." (PRETEL, 2009, 
p. 48-49). 
Portanto, verifica-se que no ordenamento jurídico pátrio são admitidos tanto 
os princípios positivos do direito quanto os princípios gerais do direito (implícitos), 
presentes na Constituição. 
Deste modo, para se perceber a existência de alguns princípios deve ser 
feita uma interpretação ampla do ordenamento, analisando os objetivos políticos, 
sociais e jurídicos insculpidos na Constituição. (NASCIMENTO, 2011, p.1). 
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Pois bem, ao se analisar a Constituição brasileira em seu preâmbulo e no 
seu primeiro artigo pode-se verificar que o Brasil é um Estado Democrático de 
Direito, cujo paradigma é a garantia dos direitos fundamentais observados nos 
princípios constitucionais (COSTA, GOMES, 2012, p.14). 
Ainda, Patricia Ayub da Costa e Sérgio Alves Gomes (2012, p.15), defendem 
o conceito de Estado Democrático de Direito ao considerar que este supera os 
modelos de Estado Liberal e Social, que se preocuparam exclusivamente com o 
interesse individual ou com os aspectos sociais, e não conseguiram resguardar a 
dignidade da pessoa humana. Porquanto, o homem na sociedade deve ser 
respeitado em sua singularidade, com o Estado buscando garantir todas as 
dimensões dos direitos fundamentais inerentes à dignidade da pessoa. 
Também, José Moacyr Nascimento (2011, p.1), ao analisar o preâmbulo da 
Constituição, afirma que o Estado Democrático de Direito instituído deve assegurar 
os valores que devem nortear a conduta social: “o exercício dos direitos sociais e 
individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e 
a justiça.” 
Mariana Pretel (2009, p.55) assevera que os princípios estabelecidos com a 
Constituição de 1988, sejam explícitos ou implícitos, consagraram uma abertura do 
sistema jurídico brasileiro, promovendo a modificação de valores fundamentais, com 
a substituição

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