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Boa-fé objetiva no Processo Civil

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a contradição, até porque o ordenamento prevê situações em que a 
incoerência é lícita, e muitas vezes decorrem da própria natureza ou finalidade do 
instituto. (LEONARDO, 2006, p. 34). 
Assim, SCHREIBER (2005, p. 124 apud LEONARDO, 2006, p. 34-35) ensina 
que a proibição do fato próprio pressupõe: 
a) um factum proprium, ou seja, uma conduta inicial; b) a legítima confiança 
de outrem na conservação do sentido objetivo desta conduta; c) um 
comportamento contraditório com este sentido objetivo, que viola a 
confiança criada pelo fato próprio; e, por fim d) um dano ou, no mínimo, um 
potencial de dano a partir da contradição. 
 
Nesta senda, verifica-se que a finalidade deste instituto da boa-fé não é 
condenar toda e qualquer conduta contraditória, haja vista que a contradição muitas 
vezes é possível; esta teoria visa resguardar a confiança legítima criada pelo ato 
próprio, que seria frustrada diante de um comportamento incoerente. (LEONARDO, 
2006, p. 35). 
A função controladora da boa-fé, além proibir o abuso de direito, também 
proíbe condutas contraditórias que abalem a legítima confiança das partes. Tais 
condutas contraditórias podem ser vistas de forma melhor ao analisarmos os 
institutos que derivam desta teoria dos atos próprios, quais sejam o “venire contra 
factum proprium”, a “regra tu quoque”, a “suppresio/surrectio”, a “exceptio doli”, 
dentre outros. (LEONARDO, 2006, p. 35). 
 
Primeiramente, Menezes Cordeiro (2007, p. 745 apud NASCIMENTO, 2011, 
p. 1), conceitua o venire contra factum proprium: 
Venire contra factum proprium postula dois comportamentos da mesma 
pessoa, lícitos em si e diferidos no tempo. O primeiro – o factum proprium – 
é, porém, contrariado pelo segundo. (...) Há venire contra factum proprium, 
em primeira linha, numa de duas situações: quando uma pessoa, em termos 
que, especificamente, não a vinculem, manifeste a intenção de não ir 
praticar determinado acto e, depois, o pratique e quando uma pessoa, de 
modo, também, a não ficar especificamente adstrita, declare pretender 
avançar com certa actuação e, depois, se negue. 
 
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Judith Martins Costa (2000, p. 471), apoiada nos ensinamentos de Menezes 
Cordeiro, dispõe sobre os elementos fundamentais do venire contra factum 
proprium: 
O seu fundamento técnico-jurídico – e daí a conexão com a boa-fé objetiva 
– reside na proteção da confiança da contraparte, a qual se concretiza, 
neste específico terreno, mediante a configuração dos seguintes elementos 
, objetivos e subjetivos: a) a atuação de um fato gerador de confiança, nos 
termos em que esta é tutelada pela ordem jurídica; b) a adesão da 
contraparte – porque confiou – neste fato; c) o fato de a contraparte exercer 
alguma atividade posterior em razão da confiança que nela foi gerada; d) o 
fato de ocorrer, em razão da conduta contraditória do autor do fato gerador 
da confiança, a supressão do fato no qual fora assentada a confiança, 
gerando o prejuízo ou iniquidade insuportável para quem confiara. 
 
Portanto, não é razoável que uma pessoa pratique determinado ato ou 
conjunto de atos e, em seguida, adote uma conduta oposta, seja no âmbito privado 
ou nas relações processuais. (VIANA, GAGLIANO, 2012, p. 6). 
Também, seguindo a teoria dos atos próprios pode-se ver os institutos do tu 
quoque, surrectio, supressio e exceptio doli, todas com o objetivo de proteger a 
confiança legítima contra atos incoerentes. 
A expressão Tu quoque pode vir da célebre frase “Tu quoque, Brutus, fili 
mi!”, historicamente atribuída ao imperador romano Júlio César, ao constatar que foi 
traído pelo seu filho Brutus. (VIANA & GAGLIANO, 2012, p. 9). 
Ou seja, a locução “Tu quoque” que pode ser traduzida como "tu também" 
tem a ver com traição, pois está relacionada aos casos em que o sujeito exige da 
outra parte algo que também foi por ele descumprido ou negligenciado. (MEZZOMO, 
2006, p. 1). 
Deste modo, a regra tu quoque tem a função de coibir abusos de 
contrariedade ou aproveitamento da própria torpeza ou ilicitude, na relação de 
contraprestações própria dos contratos bilaterais. (MARTINS-COSTA, 2000, p. 464). 
Judith Martins Costa (2000, p. 465) explica sobre a função da regra tu 
quoque relacionada a boa-fé objetiva ao visar manter a harmonia nas relações 
contratuais: 
É justamente nesta perspectiva que se verifica a relação entre o sinalagma 
e a regra do tu quoque, considerado como especificação da boa-fé objetiva. 
Se o sinalagma traduz, como é bem verdade, a existência e a configuração 
dos deveres contrapostos, que devem manter posição de relativo equilíbrio 
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entre si, a violação de uma das prestações nele implicadas caracteriza 
justamente uma violação ao sinalagma que está na estrutura essencial dos 
contratos bilaterais. Como melhor explicita Menezes Cordeiro, se assim 
ocorrer, os deveres contrapostos revelados pelo sinalagma nos contratos 
bilaterais “perderiam a identidade e o sentido que os define”. Em 
consequência, se o ordenamento não tutelasse a inserção sistemática 
expressa na regra do tu quoque, estaria a alterar “toda a harmonia da 
estrutura sinalagmática, atingindo, com isso, a outra prestação, razão pela 
qual conclui: “A justificação e medida do tu quoque estão, pois, nas 
alterações que a violação primeiro perpetrada tenha provocado no 
sinalagma”. 
 
Deste modo, conforme este instituto, a parte que continuamente violou uma 
regra não pode invocar esta mesma regra em seu favor. (MEZZOMO, 2006, p. 1). 
Sendo assim, percebe-se que por meio do tu quoque, visa-se evitar ações 
injustas que perturbem o equilíbrio que deve reger a dinâmica das relações jurídicas, 
inclusive da relação jurídica processual. (VIANA e GAGLIANO, 2012, p. 9). 
A supressio ou “Verwirkung” da doutrina alemã consiste na redução do 
conteúdo obrigacional ou perda de um direito pela inércia de uma das partes em 
exercer seu direito ou faculdades por um razoável lapso temporal, gerando na outra 
parte legítima expectativa. (MEZZOMO, 2006, p. 1). 
Menezes Cordeiro (2007, p. 378 apud SANTOS, 2008, p. 207) define a 
supressio: 
Supressio é a expressão proposta para traduzir Verwirkung, isto é, a 
situação em que incorre a pessoa que, tendo suscitado noutra, por força de 
um não-exercício prolongado, a confiança de que a posição em causa não 
seria actuada, não pode mais fazê-lo, por imposição da boa-fé. 
 
Ainda, concluem Salomão Viana e Pablo Stolze Gagliano (2012, p. 7): 
Na supressio, malgrado o direito não tenha sido extinto pela decadência e 
nem se possa falar em prescrição, o que há é, metaforicamente, um silêncio 
ensurdecedor, ou seja, um comportamento omissivo tal - no que se refere 
ao exercício de um direito - que um movimento posterior, tendente a 
exercitar aquele direito, soa incompatível com as legítimas expectativas até 
então geradas pelo silêncio. 
 
A surrectio, ao contrário da supressio, representa uma ampliação do 
conteúdo obrigacional. São institutos correlatos em que a atitude de uma das partes 
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gera na outra a expectativa de direito ou faculdade não pactuada. (MEZZOMO, 
2006, p. 1). 
 Neste sentido define Menezes Cordeiro (2007, p. 821 apud SANTOS, 2008, 
p. 210): 
No que tange à surrectio, para que a mesma reste configurada exige-se um 
certo lapso de tempo, por excelência variável, durante o qual se actua uma 
situação jurídica em tudo semelhante ao direito subjectivo que vai surgir; 
requer-se uma conjunção objectiva de factores que concitem, em nome do 
Direito, a constituição do novo direito; impõe-se a ausência de previsões 
negativas que impeçam a surrectio. 
 
Judith Martins Costa (2000, p. 460-461) ainda define a exceptio doli na 
relação com a boa-fé: 
A Boa-fé paralisa o direito a invocar a exceptio non adimpleti contractus nas 
hipóteses em que se configura a representação refletida no adágio 
turpitudinem suam allegans non auditur ou equity must come with clean 
hands, como expressa lapidarmente o direito inglês. Este

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