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I Simpósio de Educação e Inovação TRABALHOS COMPLETOS IFPR - Campus Jacarezinho 22 a 24 de novembro II Seminário em Currículo e Inovação 2017 DIRETORIA DO INSTITUTO FEDERAL DO PARANÁ – CAMPUS JACAREZINHO Diretor Geral: Rodolfo Fiorucci Diretor de Ensino, Pesquisa e Extensão: Rafael Ribas Galvão Coordenadora de Ensino: Andreza Tangerino Mineto Coordenadora de Pesquisa e Extensão: David José de Andrade Silva COORDENADOR GERAL DO I SIMPÓSIO DE EDUCAÇÃO E INOVAÇÃO E II SEMINÁRIO EM CURRÍCULO E INOVAÇÃO Prof. Dr. Sérgio Vale da Paixão COMITÊ CIENTÍFICO Prof. Me. Carlos Henrique Silva Prof. Me. David José de Andrade Silva Prof. Me. Elismar Vicente dos Reis Profa. Dra. Fabíola Dorneles Inácio Profa. Dra. Flavia Torres Presti Profa. Esp. Isabel Cristina de Campos Prof. Me. Rafael Ribas Galvão Prof. Dr. Rodolfo Fiorucci COMISSÃO ORGANIZADORA Prof. Me. David José de Andrade Silva Prof. Dr. Sérgio Vale da Paixão Prof. Me. Hugo Emmanuel da Rosa Correa APRESENTAÇÃO O I Simpósio de Educação e Inovação e o II Seminário em Currículo não é somente a continuidade do projeto de 2016, mas a ampliação do escopo de discussão, sem perder de vista o eixo norteador estabelecido nos temas de currículo e inovação. Além disso, a promoção do simpósio também possibilitou a constituição de redes de pesquisa e grupos de trabalho para a inovação educacional, principalmente após ter obtido a certificação internacional das ONG’s Ashoka e Alana de Escola Transformadora (Changemaker School), fato que impulsiona o intercâmbio para além-mar. O resultado do evento culminou em uma aproximação intra e interinstitucional entre estabelecimentos de ensino que almejam contribuir significativamente para o desenvolvimento de uma educação que supere as limitações apresentadas pelo modelo tradicional. Em adendo, o seminário fortaleceu a necessidade de se pautar as questões apresentadas e em consonância com o debate nacional sobre, por exemplo, o novo ensino médio. O I SEI e o II SCI integram interesses comuns ao campo da educação e inovação por meio de diálogos com pesquisadores de diversas regiões do Brasil. Assim, os eventos procuraram colaborar para fomentar o repensar a concepção de inovação no ensino, colaborando para que a produção científica se valha de diálogos e constantes reconstruções sob uma ótica crítica e politicamente engajada. O desenvolvimento de tecnologias de ensinar e aprender, bem como a prática investigativa, caras às ciências da educação, também tiveram seu espaço, principalmente no que concerne à questão da inclusão. Das inúmeras atividades que ocorreram ao longo dos eventos, surgem então os trabalhos dos participantes que aqui apresentamos em forma de anais para que possamos socializar com todos os participantes e interessados nas temáticas abordadas. Além disso, torna-se importante certificar cientificamente os proponentes que fazem parte dessa coletânea de textos que trazem diferentes modos de pensar a educação nos dias de hoje. Embora poucos textos tenham sido enviados no prazo proposto, acreditamos que as próximas edições terão uma adesão maior. Esperamos que a leitura dos textos apresentados nesses anais possa trazer reflexões e inquietações sobre a necessidade de se pensar o currículo escolar bem como a educação que atendam as necessidades da atualidade e, assim, novas posturas institucionais e docentes emerjam no cenário nacional. David José de Andrade Sergio Vale da Paixão Organizadores SUMÁRIO A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DO ALUNO SURDO NO NÍVEL SUPERIOR: O ENFRENTAMENTO PELO PROFESSOR......................................................................... 01 A CONSTRUÇÃO DO MITO DO PIONEIRO NA CIDADE DE JACAREZINHO-PR: ANÁLISE DE UMA FONTE MEMORIALISTA....................................................................... 08 A EDUCAÇÃO NO ESTADO DO PARANÁ NO CONTEXTO DA PRIMEIRA REPÚBLICA (1889-1930).......................................................................................................................... 18 A LIBRAS E O ENSINO DE QUÍMICA................................................................................. 28 AS MÚLTIPLAS FACES DO DISCURSO HOMOFÓBICO QUE PERMEIAM AS INSTITUIÇÕES EDUCACIONAIS...................................................................................... 35 AS TECNOLOGIAS ASSISTIVAS NA ELABORAÇÃO DE SEQUÊNCIA DIDÁTICA DE LÍNGUA ESPANHOLA PARA ALUNOS DEFICIENTES VISUAIS.................................... 43 COMPREENDENDO OS ASPECTOS DO ENSINO DE GEOGRAFIA NO REGIME MILITAR BRASILEIRO: RETROCESSO E APAGÃO CRÍTICO?....................................... 55 DOCUMENTÁRIO ILHA DAS FLORES: UMA ABORDAGEM CRÍTICA EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL....................................................................................................................... 66 ENSINO DE CONCEITOS AMBIENTAIS POR MEIO DE PRÁTICAS INOVADORAS PELA CONSCIENTIZAÇÃO, SENSIBILIZAÇÃO E PERCEPÇÃO NO ENSINO DE GEOGRAFIA...................................................................................................................... 74 FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE GEOGRAFIA NO INSTITUTO DE EDUCAÇÃO DA USP PARA A ESCOLA SECUNDÁRIA BRASILEIRA (1930-1960).............................. 86 HOMEM DO CAMPO, EDUCAÇÃO E RELAÇÕES ECONÔMICAS.................................. 94 LIBRAS NA CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE ALIMENTOS – CRIAÇÃO DE UM GLOSSÁRIO...................................................................................................................... 101 O CURRÍCULO PARA O ENSINO SECUNDÁRIO DA GEOGRAFIA PROPOSTO POR MARIA CONCEIÇÃO VICENTE DE CARVALHO (1906-2002).......................................... 112 O ENSINO DO CONCEITO DE TERRITÓRIO: ALGUMAS PRÁTICAS INOVADORAS NO ENSINO DE GEOGRAFIA........................................................................................... 121 OLIMPÍADA BRASILEIRA DE ASTRONOMIA COMO EXPERIÊNCIA DE ESTÁGIO SUPERVISIONADO........................................................................................................... 129 OS DIREITOS DOS SURDOS NA SOCIEDADE................................................................ 137 O USO DE JOGOS COMO ESTRATÉGIA DE APRENDIZAGEM NO ENSINO DAS CIÊNCIAS DA NATUREZA................................................................................................ 149 PERSPECTIVA DO PROCESSO DE FORMAÇÃO DE DOCENTES DE GEOGRAFIA NO ÍNICIO DO SÉCULO XX, SEGUNDO A ÓTICA DOS ALUNOS DA FFLC-USP............ 158 PRÁTICAS INTERDICIPLINARES E INOVADORAS NO ENSINO DE GEOGRAFIA: APLICADAS NA HORTA DA EE JOSEPHA CUBAS DA SILVA, OURINHOS/SP.............. 169 PRODUÇÃO ACADÊMICA SOBRE A FORMAÇÃO DOS PROFESSORES DE GEOGRAFIA PARA O ENSINO SECUNDÁRIO (1930-1960)............................................ 179 PROJETO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA - SEMANA DE GEOGRAFIA NAS ESCOLAS – UMA CONTRIBUIÇÃO Á FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE GEOGRAFIA 188 PROPOSTAS DE INTERVENÇÕES PEDAGÓGICAS PARA O DESENVOLVIMENTO MORAL NO ENSINO MÉDIO: ÊNFASE – DIREITOS HUMANOS..................................... 200 REBELDIA PREMIADA: RELATO DE EXPERIÊNCIA....................................................... 214 REFORMAS DA ESCOLA NORMAL NO PARANÁ NA REPÚBLICA VELHA (1891- 1930): MENSAGENS DE GOVERNO E RELATÓRIOS DA INSTRUÇÃO PÚBLICA......... 222 RESPOSTAS PARA O AMANHÃ: FUNÇÃO FORMADORA, INOVAÇÃO E TRANFORMAÇÃO DA REALIDADE LOCAL..................................................................... 235 SOCIOLINGUÍSTICA EDUCACIONAL: ESCOLA E SOCIEDADE NO RECONHECIMENTO DAS VARIEDADES LINGUÍSTICAS............................................... 243 USO DE TECNOLOGIAS PELA GERAÇÃO “Z” E FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES PARA O DESAFIO DAS NOVAS GERAÇÕES...................................... 253 I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 1 A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DO ALUNO SURDO NO NÍVEL SUPERIOR: O ENFRENTAMENTO PELO PROFESSOR Evelin Seluchiniak Nunes Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem/UEPG Resumo: A inclusão do aluno surdo em nível de graduação e pós-graduação é um desafio lançado às instituições de ensino superior, levando a necessidade de contratação de TILS (tradutor e intérprete de Libras) para oportunizar ao aluno acesso pleno aos conteúdos e facilitar a comunicação e interação em sala de aula. Para tanto, o professor tem um papel fundamental na formação do aluno, no entanto muitos professores não têm informação ou conhecimento sobre a cultura surda, a Libras, transformando em barreira para a formação de um discurso dando espaço a construção de narrativas (Ferreira, 2015), abrindo horizonte há novos letramentos contemplando o viso-espacial. Objetiva-se neste artigo discutir a importância do acesso ao conhecimento através da Libras, com a finalidade de incluir o aluno surdo com qualidade no ensino superior apoiando em pesquisas sobre a identidade, cultura e narrativas (STREET, 2007; FERREIRA, 2015). A partir de vivências em espaços acadêmicos e sendo surda, pude traçar novos olhares e perspectivas de acesso e inclusão do aluno surdo no ensino superior e ressaltar a importância do olhar do professor na perspectiva de acolhimento e enfrentamento da exclusão, para que o aluno não se isole e construa sua identidade acadêmica, desenvolvendo autonomia e um discurso onde se orgulhe de ser o que é: sou surdo. Palavras- chave: Libras; Acesso ao Ensino Superior; Enfrentamento da Exclusão. Objetivos Discutir com o auxílio de referenciais teóricos a importância do acesso ao conhecimento através da Libras com o objetivo de incluir o aluno surdo no ensino superior comtemplando sua singularidade linguística e cultural. Introdução O tema tratado neste artigo é uma preocupação minha e de muitos que lutam pela inclusão do surdo nas diferentes esferas de ensino, principalmente quando para que ocorra o acesso pleno seja preciso a contratação de TILS. Passado mais de dez anos após o sancionamento da lei federal 10.436/02 (chamada de lei da Libras) e do Decreto nº 5626/05, ainda existe muito o que se fazer para garantir o direito linguístico tanto por uma escola bilíngue como pela comunicação na sociedade. Segundo Albres e Oliveira (2013, p. 51) apesar do reconhecimento legal, tanto as escolas comuns como as universidades não legitimaram a Libras, visto que não a I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 2 reconhecem como língua materna do surdo, muito menos se torna objeto de pesquisa e discussão no meio universitário. Se observarmos a realidade presente dentro dos espaços acadêmicos, dos diferentes cursos de graduação e pós-graduação, veremos que ainda é tímida a presença de alunos surdos. O que presenciamos é que nos cursos feitos para a formação de professores nas modalidades Letras –Libras- Português e Pedagogia Surda, se oferece um suporte envolvendo tecnologia com a presença de intérpretes e/ou professores surdos com nível de especialização e superior, bem como a oferta de provas em formato de vídeo em que as questões são lançadas em Libras por um tradutor e o aluno deve marcar as respostas que considera como corretas na folha impressa. A partir dessas situações, o objetivo deste artigo é discutir com o auxílio de referenciais teóricos a questão da identidade do aluno surdo no nível superior, a partir do enfrentamento do professor e sua contribuição para uma política linguística que contemple a língua de sinais no ambiente acadêmico. Levo em consideração Celani (2005), Ferreira (2015), Street (2007), Hall (2011) e Oliveira (2006), que destacam a identidade, cultura, narrativa e formação de professores, com a finalidade de refletir sobre o processo de inclusão do aluno surdo. Algumas questões surgem com relação ao sujeito surdo, sua língua, sua cultura e seu jeito de ser. Por exemplo, que concepção este profissional tem sobre cultura e identidade surda? O que se espera é proporcionar reflexões sobre a importância da identidade surda e o papel do professor na sua formação. Referencial teórico Celani (2005, p.103) cita o Código de Nuremberg, que trata da autonomia do ser humano e também a Declaração de Helsinque de 1964, que determina que os sujeitos devem receber o melhor tratamento que o país pode lhe dar. Esse é o enfoque que pode ser descrito para os sujeitos dos quais este artigo trata: o professor ouvinte e o aluno surdo. Mas em uma pesquisa de cunho narrativo sobre a contribuição na formação da identidade do aluno surdo a partir do olhar do professor, devem-se destacar alguns pontos importantes, pertinentes a todo pesquisador. Alguns pontos em destaque são a ética, valores (o que norteia as nossas ações de forma a agir em prol do próximo), olhar crítico-reflexivo, o conhecimento teórico, entre outros aspectos. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 3 Destacamos Celani (2005) e Telles (2002), que descrevem o que é importante a todo professor-pesquisador na construção do conhecimento. Para ambos, é muito importante a questão ética e de valores, pois refletem a opinião do pesquisador em relação ao objeto pesquisado. Em destaque, cito a importância de leituras de artigos relacionados à identidade surda, tanto escritos por autores surdos como ouvintes, pois dentro deles temos uma dimensão mais ampla e descrição de situações em que ocorre o contato e/ ou influência do surdo/ouvinte. Gesser (2009) e Karnopp (2015) dão ênfase em seus textos sobre a comunidade surda e Karnopp descreve as diferenças presentes na narrativa surda, dando destaque ao sujeito surdo. E por fim, em Oliveira (2006), reveremos as práticas de formação do professor e do aluno surdo. O Sujeito Surdo Ao receber um aluno surdo em sala de aula, a primeira preocupação que vem ao professor é como ensinar a essa pessoa. Não parece nada simples, ainda mais quando não há um intérprete que facilite a comunicação entre ambas às partes. Como afirma Gesser (2009), o intérprete tem tido uma importância valiosa nas interações entre surdos e ouvintes. Essa é uma das mais recorrentes situações comum nas escolas que se dizem inclusivas, mas que têm apenas um aluno surdo. Então, o olhar não é só do professor, mas no plural, de uma instituição como um todo, ou seja: a escola e a sociedade. Aqui, a linguagem, por ser um meio de transmissão cultural, também influencia as representações de poder em nossa sociedade, a finalidade de, pois, ao utilizar uma comunicação diferente, com isso, fato de o surdo desenvolver estratégias de comunicação destaca seu discurso da diferença, que segundo Souza (2011), quando percebida como política, proporciona troca de saberes culturais. Hoje, o que vemos é um debate da inclusão educacional de Surdos, isso porque devemos considerar dois aspectos centrais: a condição bilíngue e bicultural. Está questão de bilinguismo se refere ao fato de viver em um país em que a língua oficial é o Português e o fato de a língua de sinais ser a língua materna ou L1, faz com que o surdo tenha este adjetivo em relação ao uso de mais de uma língua (isso se relaciona tanto pelo fato de escrever o idioma como falar o mesmo, quando se é oralizado). Bicultural porque convive diariamente ou diretamente em contato com as duas culturas: surda e ouvinte. A introdução para dentro de uma cultura se dá pela subjetivação: I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR CampusJacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 4 ... é através do processo de subjetivação, sobretudo no campo da educação- e não apenas na escola-, que os sujeitos são conduzidos para o interior de uma cultura (neste caso a cultura surda). (Karnopp, 2015, p. 1058). Neste ambiente, pode haver conciliações e conflitos, um deles se faz presente cotidianamente: a comunicação. Mesmo que a Libras contribua significativamente no desenvolvimento escolar do aluno surdo, para que isso ocorra plenamente é preciso repensar as políticas e práticas de letramento que acontecem no ambiente escolar e inclusive universitário com a finalidade de atravessar fronteiras como forma de imersão em outras culturas (Karnopp, 2015, p. 1057); Souza (2011) e Abreu (2016) destacam a importância da apropriação e identificação cultural da Libras, priorizando esta língua. Quando no ensino a língua portuguesa (a escrita e oral) é utilizada em detrimento da abordagem bilíngue (Libras- Português) acaba levando o aluno surdo a viver uma situação de conflito, contradições e exclusões no ambiente educacional. O olhar do professor Quando se inverte a questão da situação de inclusão do surdo na educação para o debate de como o professor vê ou percebe a condição da surdez dentro de sua sala de aula, o que primeiro está exposto é a cultura e conhecimentos sobre a Libras, o prisma da diferença, já que nossa sociedade imprime um parâmetro com relação ao que considera “anormal”. Para exemplificar, a história já se encarrega deste feito, ou seja, a conquista da humanidade é marcada pela opressão dos dominados, minorias e de quem é considerado “inferior”. É perspectivas de letramento social, aquele que molda as opiniões dos sujeitos, a aculturação através de ideologias e crenças, além da experiência profissional. Isso tudo, ou não, vai estar presente na ação do professor. Ele sabe que o fato de saber ler e escrever é porta de acesso ao conhecimento histórico e científico, e questiona a dificuldade do aluno surdo. Ele encontra dificuldade de “aculturar”, impor ideias e ideologias, pois não conhece a língua de sinais. O professor desconhece a situação real, os discursos produzidos pelo MEC e pela comunidade surda. Enquanto o MEC procura dar visibilidade à educação na escola comum como um direito fundamental de todos, de “forma genérica” (Stürmer, 2015, I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 5 p. 40), os discursos que circulam no movimento surdo representam o direito linguístico como um direito humano fundamental, o que a escola comum não oferece. A presença do surdo no meio acadêmico abre espaço para outras questões mais amplas como a formação de professores bilíngues, intérpretes de Libras e instrutores surdos, metodologias de ensino, visto que além de fazerem parte da vida do aluno surdo, são aspectos que vêm sendo discutidos amplamente na comunidade surda, principalmente em referência à Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, regulamentada pelo Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005, que coloca a Libras como Língua e abre espaço ao surdo para formação em nível superior para o ensino de sua língua materna (caso for a Libras). Essas leis também destacam a possibilidade de uma política linguística ao incluir a língua de sinais no meio acadêmico ao qual o professor deve ter conhecimento. Considerações finais Portanto, a inclusão do surdo e a formação de sua identidade dentro do espaço acadêmico é reflexo da acomodação de alguns sistemas (por exemplo, envolvendo questões políticas e/ ou administrativas, bem como falta de formação na área), e exige ações concretas para que o aluno possa participar dos estudos e desenvolver sua autonomia. Para tanto, uma pesquisa que investigue o olhar do professor deve, antes de tudo, procurar ouvir a experiência e dificuldades passadas pelos professores de universidades, que ao receberem um aluno surdo, sem ter preparo algum, chegam a buscar meios para que possam auxiliar na inclusão deste no ambiente acadêmico de forma plena. Os entraves gerados pela demora em solucionar questões como a falta de intérprete e materiais didáticos adequados, bem como a formação dos demais alunos da classe em língua de sinais também é relevante. O que importa em uma pesquisa desta alçada são textos que levem à reflexão sobre situações positivas e negativas frente à inclusão do surdo nas diferentes esferas do ensino superior. É uma minoria que tem acesso a ela, daí a importância de rever conceitos e quebrar tabus impostos por padrões criados em nossa sociedade. As práticas de letramento em nível acadêmico estão relacionadas a contextos culturais específicos e, segundo Street (2007), podem estar associadas com relações de poder e ideologias. Essas práticas são oriundas de diferentes modos de ver a I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 6 realidade, mas também de se reproduzir uma realidade (aculturação). os professores têm papel de destaque, pois são o elo entre teoria e prática dentro das universidades (e faculdades). Devemos considerar a importância da formação do professor em um olhar sistêmico, preocupado com a formação de todos, e que dentro das possibilidades busca conhecer as realidades de grupos minoritários que lutam por espaço no meio acadêmico (surdos, negros, índios). Pesquisas futuras que deem ênfase ao professor e a sua importância na formação do aluno surdo nos diferentes níveis de ensino, inclusive superior, são importantes, pois se constituem de narrativas de experiência profissional. Referência bibliográfica ABREU, Marcia Cristina Barreto de Fernandes de. A constituição de surdos em alunos no contexto escolar: Conflitos, contradições e exclusões. Tese (Doutorado)- Universidade Federal de Uberlândia.Programa de Pós- Graduação em Educação. 2016. Acessado em 08/04/2017. ALBRES, Neiva de Aquino; OLIVEIRA, Sonia Regina Nascimento de. Concepções de língua(gem) e seus efeitos nas conquistas políticas e educacionais das comunidades surdas no Brasil. In: Neiva de Aquino Albres e Sylvia Lia Grespan Neves (orgs). Libras em estudo: política linguística. São Paulo: FENEIS, 2013. 169 p. CELANI, Maria Antonieta Alba. Representações de professores de inglês como língua estrangeira sobre suas identidades profissionais:uma proposta de reconstrução. Scielo.br. Trababalhos em Línguística Aplicada. Vol. 46 nº 2. Campinas Julho/ dezembro 2007. Acessado em 09/05/2017. FERREIRA, Aparecida de Jesus. Narrativas Autobiográficas de Identidades Sociais de Raça, Gênero e Sexualidade e Classe de Estudos da Linguagem. Campinas, SP: Pontes Editores, 2015. 288 p. GESSER, A. Libras: Que língua é essa? : Crenças e preconceitos em torno da língua de sinais e da realidade surda. São Paulo: Parábola Editorial, 2009. GOMES, Celina de Oliveira; GESSER, Audrei. Entre a cultura surda e a cultura ouvinte: desafios e papéis do intérprete de Libras/ Português na subjetivação do surdo. Fólio – Revista de Letras Vitória da Conquista v. 7, n. 2 p. 427-448 jul./dez. 2015. Acessado em 06/04/2017. HALL, Stuart. A Identidade cultural da pós-modernidade. 10ª edição. DP &A Editora. KALANTZIS, Mary; COPE, Bill. Language Education and multiliteracies. Encyclopedia of Language and Education, 2nd Edition, Volume 1: Language Policy and Political Issues in Education, 195–211. #2008 Springer cience+Business Media LLC. KARNOPP, Lodenir Becker; MULLER, Janete Inês. Tradução cultural em educação: experiências da diferença em escritas de surdos. Educ. Pesqui., São Paulo, v. 41, n. 4, p. 1055-1068, out./dez. 2015. Acessado em 20/ 04/2017. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 7 OLIVEIRA, Maria Bernadete Fernandes de. Revisitando a formação de professores de língua materna: Teoria, prática e construção de identidades. Linguagem em (Dis)curso- LemD, Tubarão, v. 6, n. 1, p. 101- 117, jan./abr. 2006. PERLIN, Gladis e Karin Strobel. Fundamentos da Educação de Surdos. Florianópolis, 2006. ROMERO, Tania Regina de Souza. Linguagem e memória no construir de futuros professores de inglês. Rev. Brasileira de Linguística Aplicada, v. 8, n. 2, 2008. SOUZA, Silvani de. Educação de surdos: a construção da identidade e a apropriação cultural. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós- Graduação em educação da Universidade Federal de Santa Catarina. 2011. Acessado em 06/04/2017. STREET, Brian. Perspectivas Interculturais sobre Letramento. Filologia e Línguística Portuguesa, n. 8 (2006). USP. STÜRMER, Ingrid Ertel. Educação Bilíngue: discursos que produzem a educação de surdos no Brasil. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Educação, Programa de Pós- Graduação em Educação, Porto Alegre, 2015. TELLES, João A. “É pesquisa é? Ah, não quero, não, bem!” Sobre pesquisa acadêmica e sua relação com a prática do professor de línguas. Linguagem & Ensino, vol. 5, n. 2, 2002 (91-116). I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 8 A CONSTRUÇÃO DO MITO DO PIONEIRO NA CIDADE DE JACAREZINHO-PR: ANÁLISE DE UMA FONTE MEMORIALISTA Raissa Leite Rodrigues Flávio Massami Martins Ruckstadter Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) / Programa Iniciação Científica Voluntária (PIC-V) - PR Resumo: O presente trabalho propõe-se desenvolver uma análise da construção historiográfica do século XX sobre o mito do pioneiro na cidade de Jacarezinho-PR, por meio da investigação de uma obra memorialista sobre a história deste município, escrita pelo professor Thomaz Aimone. Trata-se do livro “Jacarezinho, seus Pioneiros desbravadores e os que labutaram para o progresso desta terra” (1975). Esta produção contém 140 páginas que abordam diversos temas relacionados à história da cidade, dentre os quais: a origem da fundação de Jacarezinho; os pioneiros e seus descendentes e os “Desbravadores de Jacarezinho”. Ao analisarmos esta obra, percebemos a valorização da imagem do pioneiro, embora em alguns momentos da narrativa, o autor evidencie a presença de outras populações presentes nessa localidade. Para compreendermos essa construção historiográfica, consideramos necessária a reflexão sobre alguns conceitos importantes, tais como mito e tradições inventadas. Isto é realizado no texto a partir dos estudos de Marcelo Silvério da Cruz (2007) e Eric J. Hobsbawm (2008) e contribui na compreensão da construção do mito do pioneiro norte-paranaense ao longo do século XX, como uma alternativa para esclarecer a origem dos habitantes dessa região, sendo a sua imagem associada a heróis que desbravaram terras “demograficamente vazias”. Partindo da concepção que a história deve ser entendida como um processo e sendo esse estudo de caráter documental e bibliográfico, analisamos o contexto político, cultural e econômico da produção dessa obra. Os resultados expostos fazem parte de uma pesquisa de iniciação científica em andamento, que possui a duração de um ano e apresenta como tema a construção do mito do pioneiro do Norte Velho do Paraná, que concebe como objetivo principal analisar o processo de composição deste discurso historiográfico ao longo do século XX através de análises de obras memorialistas dos municípios do Norte Velho. Este projeto se insere nas atividades do Grupo de Pesquisa HISTEDNOPR — “História, Sociedade e Educação no Brasil — GT Norte Pioneiro/ PR”. Palavras-chave: Mito, Pioneiro, Jacarezinho-PR. INTRODUÇÃO O presente trabalho é parte dos resultados da pesquisa intitulada “A construção do mito do pioneiro no Norte Velho do Paraná”. Com duração de um ano, tal pesquisa apresenta entre seus objetivos, analisar como se construiu a imagem do Pioneiro no Norte Velho do Paraná e investigar na historiografia oficial da região como se propagou o mito do pioneiro através de obras memorialistas de cada município desta localidade. Norte Velho ou Norte Pioneiro é a mesorregião do Estado do Paraná I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 9 que abrange atualmente 46 municípios, e se constituiu no símbolo inicial da (re)ocupação de todo norte deste Estado1. Este processo se inicia principalmente por migrantes paulistas e mineiros, que buscavam melhores condições de vida e novas terras para produzir, em meados da segunda metade do século XIX e se intensifica ao longo do século XX sobretudo com a produção de café. Apesar de esta região ser denominada de Norte Velho ou Norte Pioneiro, percebemos que a designação “pioneiro” é marcante em diversas obras que abordam a sua história. A imagem daqueles que são considerados pioneiros é associada a de heróis que levaram o “progresso” desbravando as terras consideradas “demograficamente vazias”. Nesse sentido, percebemos que o discurso histórico sobre essa região generaliza, silencia e estereotipa algumas populações, concebendo a região como não povoada antes da chegada destes “desbravadores” e assim desconsiderando, por exemplo, a presença de posseiros, sitiantes, grileiros, trabalhadores sem-terra e índios que já ocupavam este território e os embates violentos desse processo histórico de (re)ocupação. Desse modo, o uso do termo “(re)ocupação” neste trabalho é intencional e marca nossa posição diante de um discurso tradicionalmente construído na região. Este trabalho fornece uma análise crítica sobre esse decurso, que se torna relevante devido à carência de estudos e interpretações acadêmicas desta natureza, promovendo contribuições para o conhecimento histórico desta sociedade. Com isso, buscamos investigar sobre alguns dos elementos utilizados na construção do mito do pioneiro na cidade de Jacarezinho-PR através da análise da obra memorialista “Jacarezinho, seus Pioneiros desbravadores e os que labutaram para o progresso desta terra” (1975), escrita pelo professor Thomaz Aimone. UMA BREVE HISTÓRIA DE JACAREZINHO E SEU CONTEXTO NO NORTE PIONEIRO A (re)ocupação do Norte do Paraná se iniciou a partir da segunda metade do século XIX e se intensificou ao longo do século XX, no sentido do Nordeste para o Noroeste do Estado, acompanhando a produção cafeeira nas terras roxas do Paraná. Isto desembocou nas três separações do norte do Paraná conhecidas como Norte Velho (ou Pioneiro), Norte Novo e Norte Novíssimo. 1 Esta região é composta por 46 municípios agregados nas microrregiões de Assaí, Cornélio Procópio, Ibaiti, Jacarezinho e Wenceslau Braz. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 10 Uma vez que as separações do Norte do Paraná foram se consolidando, o adjetivo “velho” passou não agradar a elite econômica desta região, pelo fato deste termo depreciar esta localidade em detrimento do Norte Novo e Norte Novíssimo, fornecendo a estes últimos um caráter de moderno, prospero e melhor (RUCKSTADTER, 2017). É a partir destas separações que a designação “pioneiro”, começa a ser preferível, como uma forma de fornecer ao Norte Velho uma valorização através da sua relação com os sentidos de vanguarda, precursão e progresso, relacionando a imagem do “pioneiro” como um desbravador valente que levou o progresso a essas terras que passam a ser consideradas como não povoadas antes desua chegada. Tal associação passou a ser difundida ao longo do processo de colonização, através de diversos meios, como em discursos políticos, rádios e obras memorialistas, que juntos constituíram e difundiram o mito do pioneiro do Norte Velho do Panará. A história da (re)ocupação do Norte Pioneiro se insere em um contexto de dificuldades da província de São Paulo relacionadas ao cultivo de café. Desde o início da produção cafeeira no período imperial, São Paulo foi se constituindo como seu maior exportador. Para se ter uma ideia, em 1830, o café ocupava o terceiro lugar entre os produtos mais exportados do país e, devido a isto, houve em seu território um amplo processo de difusão da cafeicultura. Com o intuito de conter essa expansão, a província de São Paulo estabeleceu novos impostos sobre as novas plantações, tal fato aliado à exaustão do solo provocada pelo cultivo de café, contribuiu para que fazendeiros se interessassem pelas “terras roxas” do Norte do Estado do Paraná, constituindo a primeira onda migratória para o Norte Pioneiro, que contou com a presença de paulistas e mineiros. Outro fator que contribuiu para o processo de difusão do plantio do café para o Paraná foi a estrada de Ferro Sorocabana, que passava por Ourinhos no Estado de São Paulo, tal estrada chamou a atenção de fazendeiros situados no norte do Paraná, pois viram uma alternativa de escoar o café. Nesse sentido, o grupo de Barbosa Ferraz2 consegue em 1920 uma concessão junto ao governo do Paraná para a construção da Estrada de Ferro São Paulo-Paraná que sairia de São Paulo em direção a oeste do norte do Paraná até chegar ao Rio Paraná e por fim ligar-se ao Paraguai. Sem capital para o 2 O paulista Antônio Barbosa Ferraz, fundou juntamente com seus filhos e outros produtores a Sociedade Agrícola Barbosa, que mais tarde passou a se chamar Companhia Agrícola Barbosa. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 11 prosseguimento de tal construção, foram atraídos capitais ingleses que através do registro em São Paulo da Brazil Plantations Syndicate Ltd, que passou a ser denominada de Companhia de Terras do Norte do Paraná, as obras tiveram seu prosseguimento. É nesta região que o atual município de Jacarezinho situa-se. Obtendo divisa com o município de Ourinhos-SP, o desenvolvimento desta localidade foi bastante impulsionado pela produção de café vinda de São Paulo. Com base nos dados do IBGE3 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) o município de Jacarezinho constituiu sua delimitação territorial atual somente em 1964, de acordo com sua história administrativa oficial, no dia 2 de abril de 1900 parte da região agregada ao município de Tomazina foi desmembrada pela lei n ° 522 recebendo o nome de Nova Alcântara, em referência a uma das primeiras famílias a chegar à região em meados de 1888 e fundar a fazenda do Prata. Em 3 de abril de 1902 o nome deste município foi modificado para Jacarezinho pela lei n° 471, em referência a um rio desta região com o mesmo nome. Em 28 de março de 1923, este município perde parte de sua configuração territorial com o desmembramento do município de Cambará pela lei estadual n° 2208 e em 1964 sofre novamente outra modificação com o desmembramento do Barra do Jacaré através de sua elevação a município pela lei Estadual n.º 4810. ANALISE DA FONTE MEMORIALISTA DE THOMAZ AIMONE Uma das dificuldades encontradas por aqueles que se dedicam ao estudo histórico sobre o município de Jacarezinho e sobre a região do Norte Velho é o pouco número de estudos acadêmicos sobre estes espaços geográficos. Assim, a maior parte dos registros sobre a história dos municípios que a pesquisa tem encontrado, constituem-se em obras escritas por intelectuais diversos, memorialistas e não necessariamente historiadores de ofício, com habilidades de pesquisa histórica. A obra de Aimone é importante para o município de Jacarezinho, pois se constituiu em um símbolo de sua memória histórica (EVANGELISTA, 2012); entretanto, deve-se evidenciar que há nesta região disputa de diferentes memórias, e a seleção de algumas delas pelo autor, se constituiu em força de propagar e 3 Informações acessadas no sitio eletrônico do IBGE: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/dtbs/parana/jacarezinho.pdf acesso em 12 de novembro de 2017. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 12 perpetuar uma determinada interpretação dos fatos históricos. A intencionalidade de perpetuar uma interpretação do passado e/ou ressaltar determinados sujeitos envolve emoções, memórias e experiências vividas como foi o caso de Aimone, e é partindo dessas concepções que buscamos pesquisar essa constituição do mito do pioneiro no caso de Jacarezinho através da análise desta obra. Para compreendermos essa construção historiográfica, consideramos necessária a reflexão sobre o que são mitos, como surgem e como atuam em uma determinada comunidade. Em geral, os mitos surgem como uma alternativa para esclarecer determinadas circunstâncias, orientar um entendimento ou como explicação de algum acontecimento, que nos fazem refletir sobre nossas origens: Os mitos são definidos como uma explicação dos fatos atuais através de acontecimentos primordiais, que se encontram sempre presentes, sendo que, pelo rito, se faz a ligação do atual primordial. Deste modo, os mitos, ao se referirem aos acontecimentos primordiais, estão nos trazendo uma explicação atual [...]. (CRUZ, 2007, p.2). É nesse sentido, que o mito do pioneiro do Norte Velho do Paraná construído ao longo do século XX, evidencia uma alternativa para esclarecer a origem dos habitantes desta região. É partindo de tais concepções que podemos melhor analisar a construção da imagem destes pioneiros, associada a heróis desbravadores das terras consideradas “demograficamente vazias”. Assim, a compreensão do mito do pioneiro do Norte Velho do Paraná, nos auxilia no entendimento da própria formação da identidade desta região, possibilitando uma significação da existência de sua população. A obra memorialista “Jacarezinho, seus Pioneiros desbravadores e os que labutaram para o progresso desta terra” pode ter sido importante na construção de determinada imagem do pioneiro jacarezinhense. Escrita em 1975, contém 140 páginas divididas em subtítulos, dentre os quais destacamos aqueles que exaltam os personagens considerados pioneiros e seus descendentes, a história da cidade como também os que abordam figuras que não são consideradas pioneiras, mas, são evidenciados com destaque por terem auxiliado o município em seu desenvolvimento. O autor do livro, Tomaz Aimone, foi professor, criador do único museu particular da cidade que se encontra desativado atualmente e recebeu destaque como diretor do Colégio Rui Barbosa deste município. Mesmo não possuindo I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 13 formação de historiador, o que é habitual em memorialistas, escreveu vários livros4 que narram fatos históricos sobre a cidade. Entretanto, o autor apresenta uma visão ingênua de História como verdade, em oposição a uma história ficção (AIMONE, 1975, p. 2). O título do livro deixa transparecer a quem se destina a sua valorização e exaltação, pois a denominação de pioneiro é concedida somente para determinados sujeitos. Percebemos tal aspecto logo no início da obra, na passagem que o autor discorre sobre os dados obtidos no cemitério, sobre o nascimentoe falecimento dos “considerados pioneiros”: A tarefa foi cansativa e dispendiosa, mas, a verdade surge para o conhecimento dos filhos dessa terra e para a grandeza do Paraná e do Brasil. Os verdadeiros PIONEIROS repousam o sono eterno mas, suas almas perambulam pelo espaço infinito e vigilantes, não permitindo a deturpação da verdade na fundação deste rincão querido e respeitado. (AIMONE, 1975 p1). [grifo nosso]. Percebemos por meio dessa declaração, percebemos a intencionalidade de Aimone em enfatizar determinadas figuras que ele concebe como “verdadeiros” pioneiros, porém, tal enfoque nos proporciona estabelecer uma indagação, partindo da análise desta declaração. Como existem os pioneiros verdadeiros, podemos deduzir que o autor reconhece indiretamente que existiram outros pioneiros que, no entanto, não são considerados verdadeiros? E por que não são “pioneiros verdadeiros”? Encontramos resposta para estas questões em algumas partes do livro, na medida em que o autor apresenta a presença de posseiros na região antes da chegada da família Alcântara (AIMONE, 1975, p. 4). Com isso, percebemos que Aimone estabelece a exaltação da imagem do pioneiro e, ao mesmo tempo silencia a presença de outras populações presentes nesse processo histórico. Essa dualidade, de exaltar e omitir é bem evidenciada quando contrapomos com outra declaração do autor ao expressar que “A cidade crescia dia a dia, com a chegada de caravanas e também de parentes daqueles primeiros desbravadores, que com justiça chamamos de PIONEIROS”. (AIMONE, 1975, p.9). [grifo nosso]. Essa contradição nos remete às concepções de Eric J. Hobsbawm (2008) a respeito das tradições inventadas em que afirma que estas, se originam como 4 Entre eles estão “Meu Ginásio Rui Barbosa” de 1988 e “Histórico de Marques dos Reis” de 1986. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 14 respostas a novas circunstâncias e buscam estabelecer continuidade ao passado e cristalizar uma identidade, fornecendo um sentimento de união nessa sociedade. As tradições inventadas podem ser denominadas como uma junção de diversas práticas, que são organizadas por normas que podem ser simbólicas ou rituais, possuindo o objetivo de estabelecer determinados valores e princípios pela repetição. O passado, em que se busca desenvolver essa continuidade não necessita ser distante, algumas tradições diferentemente do que se pensa são bem recentes, com isso há tradições que podem ser remotas, parcialmente ou totalmente inventadas. (HOBOSBAWM, 2008). Nesse sentido, a figura do pioneiro construída pela historiografia ao longo do século XX, proporcionou uma continuidade com o passado que remonta a origem da população desta região, e esse discurso se tornou uma tradição inventada. Estudos recentes evidenciam a presença de diversas populações na região no período abordado por Aimone, embora ele não os mencione. O trabalho de Aparecida Vaz da Silva Bahls (2007), por exemplo, sobre a relação da memória e identidade através da análise de diferentes momentos do Estado do Paraná, evidencia em seu tópico sobre a (Re)ocupação do Norte do Paraná aspectos de violência que marcaram a história da expulsão de índios, posseiros e grileiros nas terras do Norte do Paraná. Desse modo, há presença de um discurso identitário sobre o Norte do Paraná na obra de Aimone, em que se busca construir um sentimento de comunidade e pertencimento, ao evidenciar as características do discurso desta região. Outro elemento constante na obra é a referência ao “Eldorado” que evidencia a intencionalidade de relacionar as terras consideradas “demograficamente vazias” com riqueza, prosperidade e progresso, como neste trecho: “A população aumentava dia a dia e era preciso construir casa para acomodar os que aqui se achavam e também os novos colonos e caravanistas que vinham para o NOVO ELDORADO PARANAENSE”. (AIMONE, 1975, p.55). [grifo nosso]. Em outra passagem o autor afirma que “Com o crescimento da população, que dia a dia aumentava com a chegada de caravanas em busca do Eldorado Paranaense, foi preciso criar um correio, a fim de receber e remeter a correspondência para as cidades vizinhas”. (AIMONE, 1975, p.85). [grifo nosso]. Além das referências ao Eldorado, o autor também nos mostra a intenção de relacionar o município com riquezas, prosperidade e progresso ao discorrer sobre a fazenda de Costa Júnior, “[...] pertence ao município de Jacarezinho e às margens do I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 15 rio PARANAPANEMA, foi a maior propagandista das riquezas do Sertão Paranaense e de suas ricas terras”. (AIMONE, 1975, p.93). [grifo nosso]. Apesar de percebermos a presença de elementos do discurso do Norte Paranaense nesta obra, há um distanciamento em relação a este em detrimento da valorização da região do Norte Pioneiro em específico: Não quero descrever o que meus olhos não viram e que o sentido não recorde. Tudo isso está gravado no meu cérebro. Muitos acontecimentos se perderam no transcorrer dos anos, porém os descendentes dos ALCÂNTARAS, BATISTAS, FIQUEIREDO, só eles e seus desconhecidos mais velhos poderão dizer o que PASSARAM neste NORTE DO PARANÁ, intitulado com justiça o NORTE PIONEIRO. (AIMONE, 1975 p. 6). [grifo nosso]. Há no discurso sobre o Norte do Paraná a concepção que essa região foi a pioneira na ocupação de todo Estado. “Jacarezinho, cidade pioneira do Norte Velho, hoje com orgulho denominada CIDADE UNIVERSITÁRIA, possue um clima ameno e uma população ordeira e hospitaleira”. (AIMONE, 1975, p.10). [grifo nosso]. Em outro momento o autor expressa que “Jacarezinho sempre primou pela liderança em suas realizações. Pioneiro do Norte sempre foi lembrada pelos dirigentes do Estado (...)”. (AIMONE, 1975, p.139) [grifo nosso]. A obra também estabelece destaque para o município ao transmitir a imagem deste como mais avançado do que o resto desta localidade ao declarar que “Jacarezinho, cidade PIONEIRA em tudo, está fartamente provida de ESTAÇÕES DE RADIO RECEPTORES E também TRANSMISSORAS”. (AIMONE, 1975, p.95). [grifo nosso]. Em outra passagem afirma que “A cidade de Jacarezinho sempre foi considerada a Cidade Pioneira e as novidades atraiam sempre seus habitantes”. (AIMONE, 1975, p.110). [grifo nosso]. Essa construção de uma ideia de cidade de vanguarda fica explícita em outros tantos trechos do livro. Ao apresentar personagens considerados pioneiros, encontrados nos diversos subtítulos espalhados pela obra, o autor relaciona a imagem do pioneiro com progresso, como são os casos de Capitão João Gasparino, Plácido Bertozzi e Abu- Jamra. “Foi João Gasparino um dos PIONEIROS e que também contribuiu para o progresso de Jacarezinho”. (AIMONE, 1975, p.18). [grifo nosso]. Aimone lhe associa a ideia de progresso por este ter desenvolvido diversos ofícios durante sua vida como mensageiro, comerciante, vereador e posteriormente se tornado fazendeiro. No segundo caso, teria sido “PLACÍDO BERTOZZI, um dos grandes pioneiros de I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 16 Jacarezinho e que muito trabalhou para o progresso desta cidade, tendo vindo para cá em 1902”. (AIMONE, 1985, p.22) [grifo nosso]. Bertozzi teria contribuído para o progresso, pois, fundou a primeira padaria em 1910 e posteriormente um cinema mudo que em 1929 passa a ser falado. A análise de tais exemplificações, nos leva a compreender a intencionalidade do autor de valorizar os pioneiros como aqueles que contribuíram de alguma forma parao município se desenvolver; nestes casos, a questão do progresso é o ponto central, o que nos leva a perceber que a idealização do desenvolvimento se relaciona com a concepção de pioneirismo da região, sendo o Norte Velho considerado pioneiro na (re)ocupação de todo o Norte do Estado do Paraná. Assim, o autor estabelece a construção da imagem de progresso como uma forma de ligar com o passado histórico da região e fornecer a ideia de continuidade. Tal concepção constitui a sensação de reconhecimento de um mesmo grupo social. Devemos lembrar que na medida em que a colonização do norte do Paraná foi expandindo para além da região conhecida como Norte Velho, as novas regiões colonizadas no sentido noroeste, ganharam destaque e o Norte Pioneiro começa a perder espaço. “Naquele contexto, o centro econômico de todo o norte do Paraná estava migrando para o Norte Novo, especialmente para as regiões de Londrina e Maringá, sobretudo a partir da ação planejada da CTNP 5 ” (RUCKSTADTER, 2017, p.18). Percebemos que o processo de colonização para o noroeste e a construção das separações do norte do Paraná em Norte Velho, Novo e Novíssimo, foi se consolidando ao longo do tempo, e devido a esta circunstância é provável que Aimone buscasse reafirmar a importância dos “pioneiros” como uma alternativa de resgatar o destaque que o Norte Pioneiro possuíra em momentos anteriores. CONCLUSÃO A importância de refletirmos sobre a construção do discurso do mito do pioneiro em Jacarezinho-PR, se dá na medida em que através dele podemos compreender a construção de sentimentos de identificação, pertencimento e reconhecimento desta localidade. Percebemos que para isso, Aimone selecionou determinados sujeitos e silenciou outros em sua obra, esta seleção também ocorreu em outras possíveis memórias presentes em Jacarezinho. 5 Companhia de Terras Norte do Paraná I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 17 As análises amparadas em Hobsbawm (2008) nos mostraram que essa construção pode ser denominada como uma tradição inventada; a investida de Aimone em relacionar o progresso com a figura do pioneiro desta região demonstra a sua intencionalidade de estabelecer uma continuidade com o passado, e explicar as circunstâncias do presente como vimos com Cruz (2007). Com base em tais constatações, é necessário ressaltar a história dessas populações omitidas, para possibilitar uma nova concepção de memória e identidade deste município. O presente trabalho buscou analisar uma das obras que possivelmente contribuíram para a construção de uma imagem de pioneiro na cidade de Jacarezinho-PR. As discussões apresentadas não apresentam por finalidades esgotar o assunto, mas, possibilitar futuras interpretações a respeito do tema. REFERÊNCIAS AIMONE, T. Jacarezinho, seus Pioneiros desbravadores e os que labutaram para o progresso desta terra. Jacarezinho, PR: s/e, 1975. BAHLS, A.V.S. A BUSCA DE VALORES IDENTITÁRIOS: A MEMÓRIA HISTÓRICA PARANAENSE. Curitiba, UFPR, 2007. (Tese de Doutorado) CRUZ, M. S. Mitos – suas origens e sua importância para o homem contemporâneo. Centro de pesquisas estratégicas “Paulino Soares de Souza”. Universidade Federal de Juiz de Fora. 2007. EVANGELISTA, L. F. Silêncios, exclusões e saudosismo: reflexões teóricas fundamentadas na memória histórica Jacarezinhense. Londrina, UEL, 2012. (Dissertação de Mestrado em História). HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (Org.). A invenção das tradições. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. IBGE. lNSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Município de Jacarezinho. Disponível em: <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/dtbs/parana/jacarezinho.pdf> acesso em outubro de 2017. RUCKSTADTER, F. M. M. Os Grupos Escolares e a institucionalização da educação primária no Norte Pioneiro do Paraná (1910-1971). In: XVI Jornada do HISTEDBR, 2017, Foz do Iguaçu. Anais da XIV Jornada do HISTEDBR: pedagogia histórico-crítica, educação e revolução: 100 anos da Revolução Russa, 03 a 05 de 2017, 2017. v. 1. . I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 18 A EDUCAÇÃO NO ESTADO DO PARANÁ NO CONTEXTO DA PRIMEIRA REPÚBLICA (1889-1930) Lara Gonçalves Lopes Flávio Massami Martins Ruckstadter Universidade Estadual do Norte do Paraná- UENP Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) Fundação Araucária, Paraná. Resumo: Este trabalho é resultado parcial de uma pesquisa de iniciação científica de caráter bibliográfico e documental, que tem como tema a educação nas mensagens de governo paranaense no período da chamada República Velha. O objetivo deste texto é realizar uma apresentação contextualizada das principais fontes que serão analisadas posteriormente na investigação; trata-se de 42 mensagens de governadores escritas entre 1892 e 1930, disponíveis no site do Arquivo Público do Paraná. Para isto, discutiremos como se apresentava naquele período a situação politica, econômica e social do Brasil e do estado do Paraná, a partir do debate historiográfico e educacional, o que se caracteriza como a primeira etapa da pesquisa. O texto discute que após a instalação do regime republicano em 1889, instaurou-se em todo o país uma ânsia pelo moderno que fez aflorar o sentimento de que era necessário modificar pensamentos, criar novos órgãos e romper com as velhas estruturas. Foi nesse período que surgiu em âmbito nacional o que o pesquisador Jorge Nagle chamou de “entusiasmo pela educação” e “otimismo pedagógico”. O estado do Paraná, assim como todo o país, foi afetado por esses pensamentos, e a educação então passou a ser vista como solução para diversas mazelas e novos problemas sociais. O analfabetismo, por exemplo, deveria ser combatido; era necessária a criação de uma estrutura para receber o grande contingente de imigrantes que vieram em busca de trabalho e formaram grupos de povoamento no estado; deveria se pensar em um modelo formativo no qual fossem formados cidadãos em vez de súditos, prontos para o trabalho e para amar a pátria brasileira. A educação, nesse contexto, ganhou papel de destaque e recebeu ampla legislação como o decreto n° 31 de 29 de janeiro de 1890 que é considerado o primeiro regulamento de organização da instrução pública do estado do Paraná. Esta pesquisa se insere nas ações desenvolvidas pelo grupo de pesquisa cadastrado no CNPq “História, Sociedade e Educação no Brasil – GT Norte Pioneiro do Paraná (HISTEDNOPR)”, sediado na Universidade Estadual do Norte do Paraná, campus de Jacarezinho. Palavras-chave: Educação; República Velha; Estado do Paraná. Introdução Este texto foi desenvolvido como resultado parcial de uma pesquisa de iniciação científica que tem como objetivo compreender como era tratada a questão I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 19 da educação nos primórdios da República no estado do Paraná, por meio da identificação dos discursos oficiais encontrados nas mensagens de governadores paranaenses. Este é o desafio proposto para a pesquisa como um todo, mas para que isso se torne possível foi necessária uma contextualização das fontes, a partir do debate sobre a época de que estamos tratando, por meio de uma pesquisa bibliográfica que nos ajudasse a compreender a temática e o período e, para tanto, utilizamos de estudos já elaborados e publicados por historiadoras e historiadores, como Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling (2015), Jorge Nagle (2009), entre outros. Nesse sentido, o objetivo deste texto em particular é trazer a contextualizaçãodas fontes que serão analisadas futuramente na pesquisa, isto é, as mensagens de governadores paranaenses no início da República. Como se encontravam o Brasil e o estado do Paraná após a mudança de regime? Como as mudanças advindas pelo regime republicano afetaram diretamente a forma como a educação passou a ser vista e tratada? Este é o norte que guiará nossas discussões. Perceber como se encontrava o quadro nacional politico, econômico e social brasileiro pós-1889 é de grande importância para compreensão de certos discursos oficiais e de como se deu o processo de escolarização. A proposta deste trabalho é apresentar as peças de um quebra-cabeças que montado daria origem aos primeiros passos da escolarização no estado do Paraná. Pressupõe-se que nenhum fato ocorre isoladamente e que as discussões e ações nacionais afetavam diretamente e indiretamente as ações e discussões estaduais. Sem esquecer que a história é um processo que envolve vários agentes em diferentes níveis. Para cumprir os objetivos propostos, este texto está dividido em duas partes: na primeira, apresenta-se uma discussão contextualizada dos primeiros anos da República no Brasil e no Paraná e posteriormente, na segunda parte, são apresentadas as fontes que serão analisadas na próxima etapa da pesquisa – as mensagens de governadores paranaenses naquele período. Estas mensagens estão disponíveis para consulta no Arquivo Público do Estado do Paraná6 e no total serão 6 O Arquivo Público do Estado do Paraná foi criado em 1855 e hoje tem como finalidade administrar o patrimônio documental do estado do Paraná. Reúne documentação referente ao poder público, além de guardá-la e conservá-la. Possui sede física na cidade de Curitiba e se pode ter acesso ao seu acervo via internet pelo site http://www.arquivopublico.pr.gov.br/. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 20 analisados 42 documentos produzidos pelo poder executivo no período de 1889 a 1930. O Brasil pós-1889: a Educação como bandeira republicana Após o 15 de novembro de 1889 as mudanças necessárias à construção da sociedade e das instituições republicanas foram operadas de forma lenta e gradual. O golpe militar que instaurou a República foi feito sem participação efetiva da população brasileira: “A República se faria como a Independência se fizera – sem a colaboração das massas. O novo regime resultaria de um golpe militar. Nos meios republicanos, a estratégia conspiratória prevaleceu sobre a estratégia revolucionária.” (COSTA, 1999,p. 15) Assim, pouca coisa mudou nas primeiras décadas da República, o Brasil era e continuava a ser um país com população majoritariamente de analfabetos, com suas bases econômicas firmadas no sistema agrícola, a abolição da escravidão tinha sido conquistada há pouco tempo e as raízes do sistema oligárquico eram muito fortes. Ao analisarmos a educação no estado do Paraná nas origens da construção de nosso sistema nacional de educação, isto é, na República Velha, deve-se discutir como se encontrava o cenário nacional em vários aspectos, tais como sociais, políticos e econômicos. O período em questão foi marcado pela necessidade de modernização e rompimento com as estruturas do antigo regime: a monarquia era vista por muitos como causadora dos principais problemas enfrentados pelo Brasil e por conta disto, os representantes políticos se esforçavam para romper ou ao menos mascarar tudo o que remetesse à ela: “Para provar que a República vinha para ficar, alternavam-se rapidamente nomes e símbolos na tentativa de dar mais concretude à mudança efetiva de regime” (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p.318). As demandas sociais trazidas com a República transformavam o Brasil em palco de disputas e discussões acerca de como a sociedade se organizaria. As relações de trabalho não eram mais pautadas na mão de obra escrava, várias correntes de pensamento adentravam o país vindas da Europa, começava-se a pensar na questão da industrialização. A imigração era crescente, por fim, alterações eram necessárias para que o Brasil conseguisse se organizar frente a todas essas pautas. Com o anseio por mudanças, a educação ganha papel de destaque e então começa a ser vista como solução para a maioria dos problemas enfrentados em todo I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 21 o país. Aos poucos, surgem grupos que pretendiam se beneficiar por meio da educação e por conta disto ela passa a ser entendida como solução, mas também como lugar de disputas ideológicas, politicas e econômicas. Dentre esses grupos, merecem destaque: (1) a Igreja Católica, que procurava inserir nas escolas seus pensamentos para reforçar os dogmas da igreja; (2) a liga nacionalista que tinha como objetivo que todos pudessem votar; (3) as elites que precisavam de mão de obra minimamente qualificada para o trabalho nas fábricas; (4) ainda havia os professores que buscavam, de fato, uma melhora na educação. Este papel de protagonista que a educação ganha em meio às discussões nacionais, é caracterizado pelo historiador Jorge Nagle (2009) como “entusiasmo pela educação” e “otimismo pedagógico”: De um lado, existe a crença de que, pela multiplicação das instituições escolares, da disseminação da educação escolar, será possível incorporar grandes camadas da população na senda do progresso nacional, e colocar o Brasil no caminho das grandes nações do mundo; de outro lado, existe a crença de que determinadas formulações do novo homem brasileiro. (NAGLE, 2009, p. 100) Neste sentido, o “entusiasmo pela educação” buscava a abertura de escolas, principalmente do ensino primário que seria responsável por alfabetizar a população e prepará-la para o voto e por outro lado o “otimismo pedagógico” possuía uma preocupação com os conteúdos e a metodologia que seria aplicada nas salas de aula. Para atender à demanda foi elaborada, em vários estados da federação, uma ampla legislação sobre a questão educacional, como é o caso do decreto n° 31 de 29 de janeiro de 1890 que é considerado o primeiro regulamento de organização da instrução pública do estado do Paraná. No Paraná, no período de 1889 a 1900 foram estabelecidas diversas leis, decretos e regulamentos decisivos para a organização e desenvolvimento do ensino público. Na medida em que se expandiam a urbanização e o crescimento populacional, almejavam-se maiores condições de oferta da instrução pública para o atendimento da população paranaense em idade escolar (MACHADO; MELO, 2010, p.1). Como em todo o país, o Paraná passou por um período de constante elaboração de leis, decretos, regulamentos, projetos e reformas visando à organização das instituições escolares. Este debate era amplo e incluía discussões I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 22 sobre, como por exemplo, qual órgão seria responsável por ofertar as vagas, quem pagaria os professores, onde estes professores seriam preparados, quem construiria as escolas e as manteria e qual a melhor metodologia para atender o maior número de alunos no menor tempo possível para que o analfabetismo fosse combatido. A respeito da última questão, o voto era proibido para aqueles que não soubessem ler e escrever7, transformando o analfabetismo em grande o vilão contra a prosperidade do país. . Diante disso, a solução vista seria a disseminação da escolarização: O Brasil, especialmente no decênio dos anos vinte, vive uma hora decisiva, que está a exigir outros padrões de relações e de convivência humanas, imediatamentedecorre a crença na possibilidade de reformar a sociedade pela reforma do homem, para o que a escolarização tem um papel insubstituível, pois é interpretada como o mais decisivo instrumento de aceleração histórica (NAGLE, 2009, p. 100). Para além de ensinar os analfabetos, o Paraná assim como o Brasil recebia um grande contingente de imigrantes que vieram em busca de trabalho e constituíram grupos de povoamento: Mesmo ao fim do século XIX, as cidades paranaenses de algum destaque, com melhores condições de conforto e população superior a 10.000 habitantes, mal ultrapassavam uma dezena... Nesse panorama precário, foi um fator determinante de transformação da politica imigratória, que sob, o inventivo do governo central encontrou eco nas iniciativas da administração local. Colônias foram instaladas, muitas delas próximas a sítios urbanos. Alemães, poloneses, italianos, ucranianos, entre, outros, chegaram em grandes levas, destinados preferencialmente ao trabalho na lavoura (TRINDADE; ANDREAZZA, 2001, p. 51). Esses imigrantes vinham carregados de seus próprios costumes, idiomas e modos de se comportar: “Como observou o Inspetor de Educação Martinez, já na década de 1920, cada colônia se instituía sem perder a menor característica da nacionalidade dos imigrantes...” (TRINDADE; ANDREAZZA, 2001, p.51). Muitas eram as colônias que possuíam suas próprias “escolas” que ensinavam no seu idioma e com base em seus costumes, o que se tornava um problema para os governantes, 7 Segundo o art. 70 da primeira Constituição Republicana, de 1891, o voto era permitido apenas para homens considerados brasileiros com idade superior a 21 anos, salvo os mendigos, analfabetos, militares e religiosos de ordens sujeitos a voto de obediência, regra ou estatuto que implicasse na renúncia da liberdade individual. (BRASIL, 1891). I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 23 que projetavam a nação centrada no ideal de unidade. Era necessário pensar um modelo que formasse os analfabetos, os imigrantes e que os transformassem em cidadãos brasileiros, prontos para o trabalho e para amar a pátria brasileira e, nesse momento, a escola passa a ser espaço para disseminação de modelos de comportamento moral e cívico, segundo Schueler e Magaldi: Um outro elemento-chave a ser observado no projeto da escola primária republicana diz respeito ao papel assumido por essa instituição na formação do caráter e no desenvolvimento de virtudes morais, de sentimentos patrióticos e de disciplina na criança. Mensagens de caráter moralizante e cívico foram amplamente propagadas pela escola pública primária, por meio de formas diversas, como a presença de símbolos patrióticos no dia-a-dia da escola e nas situações festivas, o enlaçamento do tempo escolar ao calendário cívico, as leituras prescritas aos alunos, entre outras. Esse viés civilizador se dirigia a um público interno à escola, constituído basicamente por alunos e famílias, estendendo-se ainda para fora dos muros escolares, de modo a atingir a sociedade como um todo. (2008, p.45) Durante toda a Primeira República, vários foram os movimentos e propostas desenvolvidos no ramo da educação, o que deu origem ao que hoje conhecemos como sistema nacional de educação; dentre eles, o movimento da Escola Nova foi um dos mais importantes. Esse movimento contou com vários nomes de destaque como Sampaio Doria (1883-1964), Lourenço Filho (1897-1970), Anísio Teixeira (1900-1971), Fernando de Azevedo (1894-1974) e no Paraná, Lisímaco Costa (1883- 1941). A grande bandeira do movimento consistia em uma escola pública, universal e gratuita, que atingisse a toda a população brasileira, além disso, o ensino deveria ser leigo, portanto sem a influência religiosa, tão presente nos meios educacionais desde a colonização. Buscou-se constantemente durante a Primeira República um modelo de escola que atendesse aos novos modos que se configuravam na sociedade brasileira. Em outros termos, para os republicanos, tratava-se de construir uma escola que superasse o atraso que fora imposto pela colonização e monarquia, uma escola que acompanhasse as transformações sociais que nasceram com a República e que conduzisse a nação ao progresso. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 24 As mensagens de governadores paranaenses e a Educação no início da República Neste trabalho, realizamos uma apresentação contextualizada das fontes que serão analisadas na próxima etapa da pesquisa de iniciação científica: as mensagens de governadores do Estado do Paraná, no período de 1889 a 1930. Estas mensagens são relatórios escritos uma vez ao ano pelo então governador do estado do Paraná e apresentadas ao Congresso Legislativo do Estado, com intuito de informar como foi feita a administração do estado pelo poder Executivo. No interior dessas mensagens é possível perceber a vontade de demostrar como o estado estava se desenvolvendo e indo rumo ao progresso, tão ansiado no período em questão. A apresentação dessas mensagens está prevista em lei no artigo 47 da Constituição Política do Estado na época e, portanto deveriam ser escritas todos os anos, sem interrupções. A respeito do conteúdo, percebe-se uma variedade de informações sobre muitos assuntos de diferentes esferas, passando por economia, educação, sociedade, legislação, segurança, saúde, entre outros. Em algumas mensagens, por exemplo, encontramos um demonstrativo da receita do estado e as explicações acerca dos gastos e recolhimentos feitos durante o ano. Também é possível observar as nomeações para cargos públicos, as medidas de segurança implantadas, como se encontrava a saúde da população paranaense, se foram atingidos por alguma epidemia, as discussões sobre a construção de novos prédios para repartições públicas ou a mudança de determinados órgãos para outros lugares, as leis e decretos criados, as distribuições da receita entre as secretarias e como estas gastaram o dinheiro destinado a elas, a questão dos imigrantes no estado, a preocupação com a construção de estradas e pontes, quais eram as dificuldades e vitórias no ramo da educação. Na maioria das mensagens encontramos uma boa parte dedicada à educação no estado, como por exemplo, as discussões sobre a falta de professorado especializado: É obvio que, em um professorado relativamente numeroso como o nosso, nem todos os mestres terão as necessárias habilitações para desempenharem em sua plenitude o extenso programma do ensino em vigor. Digamos a verdade: na sua máxima parte dos professores de cidades e villas, e todos os de povoado, apenas poderão ensinar á ler escrever, as quatro principaes operações arithmeticas, e alguma cousa I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 25 mais. É pouco, por certo, mas antes esse pouco do que nada, pois, se fôramos á exigir que o magistério composesse tão somente de professores preparados em todas as matérias do programma do ensino, as escolas se conservariam fechadas. (PARANÁ, MENSAGEM DO GOVERNADOR FRANCISCO XAVIER DA SILVA, 1895, p. 7) Estas e outras preocupações, como a construção de mais prédios destinados a escolas, a falta de materiais e mobiliário necessário, o desinteresse dos pais em matricular seus filhos, o envio de verbas para institutos como a Escola de Bellas Artes e Industrias, além do interesse em regulamentar uma fiscalização para que o ensino fosse melhor efetivado, são alguns exemplos de temas que podem ser explorados a partir desta documentação oficial.Durante a República Velha o estado do Paraná contou com nove governadores e uma junta governativa composta por três representantes. Abaixo, apresentamos um quadro informativo com o nome e cargo do autor das mensagens analisadas, bem como o ano em que foram apresentadas na Assembleia Legislativa do Estado: Mensagens de Governadores Paranaenses à Assembleia Legislativa (1889-1930) Autores Ano Cargo Roberto Ferreira, Joaquim Monteiro de Carvalho e Silva e Bento José Lamenha Lins 1892 Junta do Governo Provisório Francisco Xavier Silva 1892 Governador de Estado Vicente Machado da Silva Lima 1893/1894 1° Vice-Governador de Estado Francisco Xavier Silva 1894/1895 Governador de Estado José Pereira Santos Andrade 1896/1897/1898/1899/1900 Governador de Estado Francisco Xavier Silva 1901-1902-1903-1904 Governador de Estado Vicente Machado e Silva 1905-1906-1907 Presidente de Estado Joaquim Machado de Carvalho e Silva 1908 2° Vice-Presidente de Estado Francisco Xavier Silva 1909-1910-1911-1912 Presidente de Estado Carlos Cavalcanti de Albuquerque 1913-1914-1915-1916 Presidente de Estado Affonso Alves de Camargo 1917-1918-1919-1920 Presidente de Estado Caetano Munhoz da Rocha 1921/1922/1923/1924/1925 1926/1927/1928 Presidente de Estado Affonso Alves de Camargo 1929/1930 Presidente de Estado As mensagens que serão analisadas formam um total de 42 arquivos e como já dito anteriormente, estão disponíveis para consulta online no site do Arquivo Público do Estado do Paraná. Pretendemos analisar os discursos oficiais acerca da questão educacional, que nos permita mostrar como esta foi tratada pelos governantes. Buscamos encontrar as semelhanças e diferenças entre as mensagens I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 26 de acordo com o ano em que foram escritas e assim entender qual foi o molde usado para tratar de educação na Primeira República no estado do Paraná. Conclusão A partir do levantamento historiográfico que realizamos, percebemos que a educação começou a ganhar importância no debate público ao longo da Primeira República. Foi naquele período que efetivamente iniciou-se a construção do sistema educacional brasileiro, diferenciando-o dos projetos dos tempos imperiais. O combate ao analfabetismo tornou-se uma das principais bandeiras republicanas, e passou a ser entendido como condição essencial ao progresso da nação. No entanto, as condições materiais eram precárias em todo país. A maioria dos estados não possuía nem ao menos locais adequados para que as aulas ocorressem e desse modo, os esforços e lutas foram muitos para que se instalasse uma política real de educação, que ultrapassasse as linhas dos documentos e fosse incorporada ao dia a dia da população. Diante destas circunstâncias, as reformas não foram implementadas de forma homogênea em todo o país. Além disso, a educação sempre foi palco de disputas ideológicas, econômicas e políticas, e ao longo da história foram várias as instituições, como, por exemplo, a Igreja Católica, que se utilizaram dela para disseminar seus princípios e conseguir vantagens. Assim como em âmbito nacional, no início da República, o estado do Paraná passou por muitas mudanças. Assim sendo, é necessário analisar tais mudanças para discutir como a educação foi pensada para a população do estado naquele período histórico. Além dos problemas comuns – como o analfabetismo, por exemplo – o Paraná, diferentemente do que acontecia em outras partes do Brasil, contava com um grande contingente de imigrantes. A educação dessa população oriunda de vários países se apresentava como um problema para os governantes paranaenses, como fazer a incorporação destas pessoas à nação republicana. Os resultados apresentados neste texto favorecem a análise das mensagens de governadores que será realizada na próxima etapa da pesquisa. Como vimos, trata-se de fontes preciosas para a análise da história da educação paranaense no início do período republicano, que permite identificar temas diversos sobre a organização da instrução pública naquele contexto. A partir desse estudo será I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 27 possível perceber as intencionalidades e os projetos políticos contidos nos discursos oficiais. 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I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 28 A LIBRAS E O ENSINO DE QUÍMICA Bruna Gomes Delanhese Instituto Federal do Paraná- Câmpus Jacarezinho- PR Joicy Valeska Oliveira Gonçalves Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo- Câmpus Sertãozinho -SP RESUMO: Atualmente se fala muito em educação inclusiva, que tem por objetivo desenvolver competência de pessoas com algum tipo de deficiência que abrange níveis e graus diferentes no sistema educacional, mas isso só foi possível depois da declaração de Salamanca de 1994, considerado como documento pioneiro para a inclusão social e principalmente para a educação inclusiva, pois relata-se que “a educação é para todos”. Apesar de englobar vários assuntos fora escolhido a Língua Brasileira de Sinais, LIBRAS. Mais especificamente a área de química, pois percebe- se que possui um déficit alto de sinais, o que nos leva a pensar em como o docente transmite os conteúdos desta disciplina para o aluno surdo, sabe-se que a área de ciências é bem ampla, contendo uma linguagem bem específica dentro de um campo teórico, com tabelas, equações, gráficos, cálculos, etc. O aluno surdo não pode aprender um conteúdo transmitido em uma língua que ele não domina de fato, que restringe a sua aprendizagem a uma quantidade muito reduzida de conhecimento com qualidade (Quadros, 2006, pág. 50). Pensado nisso fora elaborado um questionário e aplicado para professores desta determinada área do InstitutoFederal do Paraná, IFPR, Câmpus Jacarezinho- PR e Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, IFSP, Câmpus Sertãozinho -SP com o intuito de mostrar como esses professores reagiriam ao se depararem como os alunos surdos. INTRODUÇÃO O propósito deste artigo é discutir, através da literatura a educação inclusiva, a pesquisa tem a intenção de mostrar um pouco sobre a história da LIBRAS e da importância de um intérprete em sala de aula, além de destacar os principais problemas e dificuldade enfrentados pelos professores e alunos surdos, e também a carência de sinais para a área das ciências exatas. A ideia de pesquisar sobre este tema surgiu depois de ter cursado a disciplina obrigatória do componente curricular “Introdução a LIBRAS”, com carga horária de 28.5, sendo insuficiente para aprender as noções básicas da LIBRAS, com isso quase não fora passado sinais para que pudéssemos explicar algum conteúdo de química se futuramente tivesse um aluno com tal necessidade dentro das nossas salas de aula. Em pesquisas nos Dicionários Enciclopédicos Ilustrados Trilíngue Novo Deit- Libras Língua Brasileira de Sinais, foi perceptível a falta de sinais para a área de química. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 29 O aluno surdo não pode aprender um conteúdo transmitido em uma língua que ele não domina de fato, que restringe a sua aprendizagem a uma quantidade muito reduzida de conhecimento com qualidade (Quadros, 2006, pág. 50). O que nos leva a refletir que: Atualmente, a educação inclusiva (EI) é um dos temas mais abordados nas pesquisas em educação no Brasil e desenvolver sistemas educacionais inclusivos se tornou prioridade do governo brasileiro (Benite & Ribeiro, 2012). A inclusão é um processo educacional através do qual todos os discentes, incluindo os com deficiência são educados juntos, com o apoio necessário, na idade adequada em instituições de ensino regular. Pois, incluir uma criança com necessidades especiais não é deixa-la isolada em uma sala sem suporte e só levá-la para uma sala regular para assuntos não acadêmicos. O sucesso da inclusão depende da avaliação constante do processo, da flexibilidade da equipe multidisciplinar para alterar programas e do apoio da família, da escola e da comunidade. Partindo do pressuposto, que a inclusão é um processo lento, pois precisa de um trabalho interdisciplinar com as várias áreas possibilitando o desenvolvimento cognitivo do Portador de Necessidade Especial. (FAGUNDES, 2001, p.34). OBJETIVOS Mostrar a importância da educação inclusiva e a necessidade dos docentes em terem um pouco de conhecimento da Língua Brasileira de Sinais, LIBRAS. METODOLOGIA Muito se fala sobre educação inclusiva, para saber se nossas escolas estão preparadas para isso fora aplicado um questionário com 5 perguntas para os docentes da área de química do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, IFSP, Câmpus Sertãozinho e Instituto Federal do Paraná, IFPR, Câmpus Jacarezinho, as perguntas eram direcionadas se eles já tiveram alunos surdos, como eles ensinariam química para um aluno surdo, entre outras. Com as respostas foi nítido que os professores desses Institutos não estão preparados para receber um aluno surdo em suas salas de aulas. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 30 UM POUCO SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA No Brasil, os estudos sobre a língua de sinais tiveram início com Brito (1990, 1995) que propôs a primeira descrição dos fundamentais parâmetros fonológicos na libras, isto é, as propriedades de configurações de mão, movimentos, locações, orientação de mão, bem como dos aspectos não-manuais A educação inclusiva começou efetivamente na década de 1930. Conforme Ferreira (2005), em 1942, já havia no país 40 escolas públicas regulares que prestavam algum tipo de atendimento a deficientes mentais e 14 que atendiam alunos com outras deficiências, o Instituto Benjamin Constant editou em braile a Revista Brasileira para Cegos, primeiro do gênero no Brasil. O final da década de 1990 foi marcado por fatos importantes que possibilitaram a aquisição de conhecimentos, de experiências vivenciadas na educação de surdos e métodos inovadores que vinham de várias partes do Brasil e também do exterior (SLOMSKI, 2012). A preocupação da inclusão nas escolas públicas só começou em 1958, em Curitiba, mas só em 1963 que a Secretaria de Estado da Educação e Cultura instituiu o serviço de Educação de Excepcionais. Em 1994 foi elaborada a Declaração de Salamanca que propunha que as escolas aceitassem todas as crianças. Para Fagundes (2001), a linha de ação da Declaração Salamanca inspirasse na experiência nacional dos países participantes e nas resoluções, recomendações e publicações do sistema das Nações Unidas e de outras organizações intergovernamentais, especialmente as Normas Uniformes sobre a 12 Igualdade de Oportunidades para Pessoas com Deficiências. A Declaração proclama que: Toda criança tem direito fundamental à educação, e deve ser dada a oportunidade de atingir e manter o nível adequado de aprendizagem. Toda criança possui características, interesses, habilidades e necessidades de aprendizagem que são únicas. Os sistemas educacionais deveriam ser designados e programas educacionais deveriam ser implementados no sentido de se levar em conta a vasta diversidade de tais características e necessidades. Aqueles com necessidades educacionais especiais devem ter acesso à escola regular, que deveria acomodá-los dentro de uma Pedagogia centrada na criança, capaz de satisfazer as necessidades. As escolas regulares que possuam tal orientação inclusiva constituem os meios mais eficazes de combater atitudes discriminatórias criando-se comunidades acolhedoras, construindo uma sociedade inclusiva e alcançando educação para todos, além disso, tais escolas provêem uma educação efetiva a maioria das crianças e aprimoram a eficiência e, em última instância, o custo da eficácia de todo o sistema educacional. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 31 A Declaração de Salamanca diz que as instituições devem acolher todas às crianças independentes de suas condições, intelectuais, emocionais, físicas, sociais, linguísticas ou outras. A Declaração assegura que toda pessoa com deficiência tem o direito de manifestar seus desejos quanto a sua Educação. Os pais têm o direito inerente de serem consultados sobre a forma de Educação que melhor se ajuste às necessidades, circunstâncias e aspirações de seus filhos. Mais tarde vem o bilinguismo8, na concepção de Guarinello (2007, p. 45-46) A proposta bilíngue surgiu baseada nas reivindicações dos próprios surdos pelo direito à sua língua e pelas pesquisas linguísticas sobre a língua de sinais. Ela é considerada uma abordagem educacional que se propõe a tornar acessível à criança surda duas línguas no contexto escolar. De fato, estudos tem apontado que essa proposta é a mais adequada para o ensino de crianças surdas, tendo em vista que considera a língua de sinais como natural e se baseia no conhecimento dela para o ensino da língua majoritária, preferencialmente na modalidade escrita. (...) Na adoção do bilinguismo deve-se optar pela apresentação simultaneamente das duas línguas (língua de sinais e língua da comunidade majoritária). O problema do bilinguismo está em não ter sinais na Libras para termos das ciências extas. CAMPO DAS CIÊNCIAS EXATAS A necessidade de se ensinar química no ensino médio é segundo Martins e colaboradores (2003), trata-se de formaro cidadão-aluno para sobreviver e atuar de forma responsável e comprometida nesta sociedade científico-tecnológica, na qual a Química aparece como relevante instrumento para investigação, produção de bens e desenvolvimento socioeconômico e interfere diretamente no cotidiano das pessoas (MARTINS et al, 2003, p.18). A Química como componente curricular, representa uma parte importante de todas as ciências naturais e deve trazer aos estudantes conhecimentos que correspondam às reais necessidades da sociedade. De acordo com Cavalcanti e 8 Na área de educação de surdos, falar sobre educação bilíngue é reconhecer e estimular a coexistência de duas línguas presentes no cotidiano da criança surda. É defender o direito da criança surda de apossar-se de uma língua natural e aprender a língua oficial do país, no caso do Brasil, a língua portuguesa (SÁNCHEZ, 1990). I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 32 colaboradores (2010, p. 31) “um dos maiores desafios do ensino de Química, nas escolas de nível fundamental e médio, é construir uma ponte entre o conhecimento escolar e o mundo cotidiano dos estudantes”. Segundo Rosa e Tosta (2005, p.254), entende-se a disciplina Química como um conjunto de premissas, atividades, materiais, documentos, ações pedagógicas, entre outras, que levam para o ambiente escolar discursos recontextualizados e hibridizados, que são reconhecidos por professores, estudantes e outros sujeitos que participam do processo formativo como um campo de conhecimentos relacionados com a Química. Nesse sentindo, cabe ressaltar que essa disciplina, trabalhada no contexto escolar, diferencia-se da química como ciência porque tem objetivos específicos e intenções pedagógicas próprias. Uma dificuldade enfrentada todos os dias pelos TILS em sua atuação é a falta de sinais para ciências exatas, pois a mesma é formada de termos específicos e que na maioria das vezes não tem um sinal especifico, fazendo assim com que o intérprete use o alfabeto manual, a datilologia9, alguns autores, como Quadros e Karnopp (2004), Freitas (2001) e Brito (1993) afirmam que existe uma carência de terminologias científicas em LIBRAS, o que pode interferir na negociação de sentidos dos conceitos científicos por docentes, alunos e TILS, dificultando o processo de ensino-aprendizagem. Mas, claro que essa dificuldade não é só no campo das ciências exatas, pois as outras áreas também possuem termos específicos que não possuem sinais correspondentes em LIBRAS. A falta de formação continuada para os TILS é desfavorável ao ensino do discente surdo, Lacerda (2010) afirma que: Torna-se cada vez mais importante uma profunda discussão sobre a capacitação de intérpretes para atuação em sala de aula, já que este ambiente de trabalho se constitui num espaço diferenciado que requer formação e suporte técnico, nem sempre percebidos e desenvolvidos apenas com a prática. Tal capacitação envolve conhecimento sobre o processo de ensino/aprendizagem, sobre a formação de conceito e a construção de conhecimento que demandam formação detalhada e específica. (2010, p.127). 9 “A datilologia é utilizada, normalmente para soletrar nomes de pessoas, de lugares, de rótulos, ou para vocábulos não existentes na língua de sinais. É um meio de verificação, questionamento ou veiculação da ortografia de uma palavra em português.” (HONORA, FRIZANCO, 2010, p.16) I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 33 No contexto educacional de alunos surdos, constata-se que os mesmos sentem sérias dificuldades devido à linguagem utilizada nos enunciados, na elaboração de problemas contextualizados, pois os mesmos não são bem interpretados pelo discente surdo (GIL, 2008). Para Benite (2008) no contexto da aula de química, é possível dizer que as dificuldades dos surdos se estabelecem porque são as línguas orais as únicas utilizadas pelos educadores. Pensando nisso aplicou- se um questionário para os professores dos Institutos Federais Câmpus Jacarezinho, PR, e Sertãozinho, SP, onde ficou perceptível que os docentes teriam muitas dificuldades em se comunicar com esse aluno, mas também é notável o interesse dos mesmos em buscar conhecimento para ensinar da melhor forma esse discente. Alguns ainda alegam que o Câmpus não está preparado para receber alunos com necessidades especiais. Fica claro que os professores não conhecem as singularidades referentes ao uso de uma língua de modalidade diferente como é o caso da Libras e também dificilmente se atentam para a importância do uso de recursos visuais que são imprescindíveis para os surdos que constroem seus conhecimentos a partir de sua experiência visual. CONCLUSÃO No novo cenário em que a educação está vivendo e nos tempos de inclusão é necessário que as escolas discutam o seu papel, para que esses alunos portadores de deficiência tenham acesso a uma educação pública de qualidade que seja capaz de atender as suas necessidades e enxergar os seus potenciais. É preciso pesquisar mais na área das ciências exatas para que assim os alunos surdos possam ter um interesse maior e assim não se sentirem excluídos, uma escola que está preparada para a inclusão não exclui seus alunos por não poderem ouvir, enxergar, falar e escrever com as mãos, ao contrário ela saberá lidar essa situação fazendo com que todos se interajam incluindo todos em uma só educação, onde todos são humanos. REFERENCIAS BENITE, A.M.C.; NAVES, A.; PEREIRA, L.L.S. e LOBO, P. Parceria colaborativa na formação de professores de ciências: a educação inclusiva em questão. In: GUIMARÃES, O.M. (Org.). Conhecimento químico: desafios e possibilidades na ação docente. 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I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 35 AS MÚLTIPLAS FACES DO DISCURSO HOMOFÓBICO QUE PERMEIAM AS INSTITUIÇÕES EDUCACIONAIS Paloma de Souza Pires Discente do Curso de Graduação em Licenciatura em Química pelo Instituto Federal do Paraná – IFPR (Campus Jacarezinho) paloma.spires@hotmail.com Juliana Deganello Mestre em Ciências pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura – CENA/USP Professora do ensino básico, técnico e tecnológico do Instituto Federal do Paraná – IFPR (Campus Jacarezinho) juliana.deganello@ifpr.edu.br NUNES, Marcos Antonio Hoffmann Mestrando no programa de pós-graduação em Psicologia e Sociedade pela Universidade Estadual Paulista – UNESP Professor e psicólogo escolar/educacional no Instituto Federal do Paraná – IFPR (Campus Jacarezinho) marcos.nunes@ifpr.edu.br RESUMO: A escola enquanto órgão tradicional, mantenedora das normas socialmente impostas aos indivíduos executa de maneira eficiente a sua função. Esse era seu papel há décadas, em um contexto social diferente do atual. A escola de hoje, no entanto, apesar de perceber que os estudantes exigem transformações, principalmente nos currículos, resiste às mudanças. Alterações nesse cenário são necessárias. Trabalhar conteúdos voltados meramente para a construção acadêmica dos estudantes é ineficiente, considerando que as preocupações pedagógicas estão direcionadas à formação do indivíduo enquanto cidadão e não mais como mão-de- obra barata. A inserção de temas transversais, como a sexualidade, nos currículos, é de extrema importância para garantir, inclusive, a superação do preconceito nesse ambiente, que, contraditoriamente, é apontado como o primeiro local onde os grupos homossexuais sofrem com a discriminação. Além disso, os educadores revelam que acreditam não ter base para lidar com o tema sexualidade, silenciando as situações de preconceito e tornando esses sujeitos ainda mais vulneráveis à invisibilidade e exclusão. Nesse sentido, o presente trabalho teve como objetivo analisar o discurso de estudantes do ensino médio em relação ao tema homofobia e redobrar a afirmativa de que são necessárias transformações urgentes nas práticas pedagógicas. A metodologia utilizada para a pesquisa foi uma dinâmica interativa que consistia, basicamente, no desenvolvimento do diálogo dos estudantes ao se depararem com perguntas, frases e palavras referentes ao assunto abordado. Cada aluno pôde se expressar livremente, esboçando sua opinião e contando relatos que consideravam pertinentes. Os resultados dessa pesquisa demonstraram que, apesar de muitos se julgarem livres de preconceito, o discurso homofóbico está muito presente no espaço escolar, seja de maneira explícita ou velada. Além disso, a homofobia nas instituições I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 36 de ensino não é exclusividade do corpo discente e se faz presente desde a estruturação dos currículos, que tratam a sexualidade apenas pelo ponto de vista biológico. Destaca-se, portanto, a importância em relação à formação continuada de professores e o desenvolvimento de projetos que tenham como objetivo perpetuar a visibilidade dos grupos LGBT. Palavras-chave: Homofobia. Currículo. Escola. INTRODUÇÃO O desenvolvimento de novas tecnologias pode ser observado em pequenos espaços de tempo. Com a educação, no entanto, esse cenário é diferente. Apesar das mudanças sofridas pela sociedade em virtude dos diferentes avanços, as instituições de ensino parecem insistir em manterem-se intactas desde a sua formação (MORENO, 1999). A escola atual deve se preparar para ensinar além de conteúdos pré- estabelecidos em currículos que não abraçam as singularidades de cada indivíduo. Temas que atravessam o currículo precisam ser inseridos no âmbito escolar para que se tenha uma aprendizagem significativa, pautada na formação do estudante enquanto cidadão (MOREIRA, 2000). Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) são documentos de referência para os conteúdos e questões que devem ser abordadas na escola em qualquer região do país. De acordo com esse registro, a sexualidade enquadra-se como tema transversal e: Ao tratar do tema Orientação Sexual, busca-se considerar a sexualidade como algo inerente à vida e à saúde, que se expressa desde cedo no ser humano. Engloba o papel social do homem e da mulher, o respeito por si e pelo outro, as discriminações e os estereótipos atribuídos e vivenciados em seus relacionamentos, o avanço da AIDS e da gravidez indesejada na adolescência, entre outros, que são problemas atuais e preocupantes (PCNs – Orientação Sexual, pág.73). Apesar de ser legitimada por esse registro, percebesse-se que, infelizmente, é deficiente a abordagem dessa temática durante a ministração dos conteúdos em sala de aula em virtude da má formação de professores, que corrobora para que não sejam discutidos assuntos como a diversidade sexual. É dever da família, escola e sociedade prevenirem qualquer tipo de violência e compreender que, para cada faixa etária, diferenciam-se os modos de abordar a diversidade sexual. Muito se questiona sobre “Até que ponto essas instituições devem I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 37 chegar à tentativa de educar para prevenir?”. A resposta para essa pergunta é simples: precisamos ter consciência dos direitos humanos. Para que a democracia seja efetivada, é necessário assegurar a proteção do Estado ao direito à vida e à dignidade, sem distinção étnico-racial, religiosa, cultural, territorial, físico-individual, geracional, de gênero, de orientação sexual, de opção política, de nacionalidade, dentre outras, garantindo tratamento igual para todos(as). É o que se espera, portanto, da atuação de um sistema integrado de justiça e segurança em uma democracia (Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, pág. 47-48) A prevenção que se espera nos dias de hoje é a de constituir uma “nova ética”, em que a preocupação com o bem estar social é prioritária em relação ao bem estar singular. Considerando que a escola é um dos principais aparelhos ideológicos que (re)produz discursos e condutas pertencentes às classes dominantes e que, com isso, colabora com a legitimação de diversos tipos de preconceito (de classes, religioso, racial, sexual, entre outros), o objetivo do presente trabalho foi analisar o discurso de estudantes do ensino médio em relação ao tema homofobia e redobrar a afirmativa de que são necessárias transformações urgentes nas práticas pedagógicas. METODOLOGIA A pesquisa realizada teve caráter exploratório e observacional. Realizou-se uma dinâmica, denominada de “Chuva de ideias”, com estudantes do ensino médio, do Instituto Federal do Paraná – Campus Jacarezinho, na unidade curricular “Reprodução e Embriologia Humana”, ministrada pela docente Juliana Deganello, contando com a participação de 35 estudantes. A prática interativa consistiu na abordagem de assuntos relacionados ao tema homofobia a partir de perguntas, frases ou palavras que eram direcionadas aos estudantes para que estes expusessem suas ideias e opiniões acerca da temática em questão. A dinâmica utilizada foi pautada em uma atividade simples, necessitando apenas de um rolo de barbante, passado de um a outro aluno enquanto expressava sua opinião,resultando, ao final, em uma enorme teia, que tinha como objetivo demonstrar, simbolicamente, que, apesar das divergências de pensamentos, todos estavam unidos de alguma maneira e, principalmente, respeitando o debate e a pluralidade. A proposta foi que cada aluno que recebesse o rolo de barbante desenvolvesse algum diálogo em relação à pergunta, frase ou palavra apresentada. Quanto ao modo I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 38 que deveriam se expressar, os estudantes eram livres para responder, questionar, concordar, discordar e, inclusive, contar algum relato que remetesse ao assunto em questão, promovendo a eles, portanto, a oportunidade de se autoconhecerem e conhecerem melhor os demais colegas. RESULTADOS E DISCUSSÃO O conceito de LGBTfobia Ao serem questionados sobre do que se tratava a LGBTfobia, os estudantes demonstraram desconhecimento em relação ao conceito dessa palavra, apresentando respostas simplistas, como: “É o preconceito contra o grupo LGBT” “É julgar a pessoa por sua opção sexual” Observou-se que o discurso dos estudantes, além de reducionista, resgatou termos inadequados como “opção sexual”, evidenciando o quanto é falho o trabalho dos educadores diante da abordagem de temas transversais, como a sexualidade, no currículo. A LGBTfobia corresponde às diversas formas de opressão – seja psicológica, verbal, física ou até mesmo a silenciosa e simbólica – que os indivíduos sofrem em virtude da pressuposta ideia de desvio da cultura heteronormatividade regente na sociedade atual (SOUZA, SILVA e SANTOS, 2015). Sendo assim, apesar de afetar com maior intensidade os grupos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros, a LGBTfobia também gera consequências negativas para àqueles que se enquadram à norma, ou seja, aos heterossexuais (BORRILLO, 2009). Vejamos um exemplo: se um menino apresenta características convencionadas como pertencentes ao universo feminino, como ser sensível, gostar de rosa ou de brincar de boneca, sua masculinidade é colocada em xeque. O mesmo acontece com as meninas que gostam de jogar futebol ou não são tão vaidosas. Diante da ausência da democracia na elaboração dos currículos e de sua inflexibilidade, as instituições de ensino legitimam, dentre outras coisas, essa desigualdade entre as identidades de gênero e sexual, pois adotam como conteúdos válidos apenas aqueles que transmitem valores pertencentes à cultura dita como dominante. No entanto, atualmente, a educação que visa a exploração de temas transversais e condiga com a realidade dos estudantes é cada vez mais defendida I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 39 por autores como Paulo Freire e David Ausubel (MOREIRA, 2000), na tentativa de modificar cenários como os de discriminação no ambiente escolar. A homofobia no espaço escolar De acordo com os estudantes, a homofobia é percebida no espaço escolar por meio da verbalização, mas, principalmente, de maneira velada como percebido na fala: “As pessoas respeitam não respeitando, porque sempre tem um ‘mas’...” Segundo eles, o preconceito não parte apenas dos educandos, mas também dos educadores, os quais, muitas vezes, silenciam-se diante de uma situação de discriminação homofóbica. Além da percepção dos estudantes em relação ao assunto, na pesquisa Diversidade sexual e Homofobia no Brasil – Intolerância e Respeito às diferenças sexuais realizada em 2009, pela Fundação Perseu Abramo/Universidade de São Paulo, demonstra que 13% dos homossexuais afirmam que a escola foi o primeiro lugar onde sofreram discriminação e 60% dos professores admitem não ter base para lidar com a diversidade sexual, reforçando a necessidade de trabalhar com a formação de professores que abordem o tema em sala de aula. O estereótipo do/a homossexual O discurso dos educandos evidenciou que, mesmo negando a adoção de um estereótipo aos grupos homossexuais, para eles, basta um indivíduo de certo gênero apresentar características condizentes ao universo do gênero oposto que sua feminilidade ou masculinidade estarão sujeitos à dúvida: “Nunca tinha passado pela minha cabeça que um homem que não é afeminado seria gay.” Esse pensamento é resultado da cultura sexista que é fomentada pela sociedade desde antes ao nascimento de uma criança. Quantas são as vezes que os pais ouvem a pergunta “É menino ou menina?” antes mesmo do bebê nascer? Cria- se um universo azul ou rosa, cheio de expectativas e dicotomias para a criança. Isso não seria um problema se a quebra de tais expectativas não gerassem tantas frustações e a sociedade concebesse a ideia de que existem outras possibilidades para essa vida. Uma fala importante que demonstrou a tentativa de quebrar com tais ideias foi: “Roupa não tem gênero.” I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 40 Assim como as roupas não têm gênero, as cores e brinquedos também não têm. Gênero é uma construção social e está além de determinismos e da simples análise comportamental de um indivíduo (DINIS, 2008). Casamento e adoção por casais homoafetivos Em relação a essa temática os estudantes se apresentaram abertos à ideia de que são direitos básicos a todos os cidadãos, questionando, inclusive, a influência religiosa nas decisões que estão acerca do casamento homoafetivo. Reforçaram também que, apesar de serem adeptos à luta pela igualdade, diariamente estão expostos a discursos homofóbicos no âmbito familiar, principalmente: “Tudo tem limite.” “Os gays têm preconceito com eles mesmos, por isso não se beijam em público.” “O que eu vou falar para o meu filho se ele ver dois homens se beijando na rua?!” A união estável e a licença para a adoção são direitos civis que, teoricamente, são garantidos por lei para todos os cidadãos. Sendo assim, não há justificativas legais para o impedimento do casamento e da adoção por casais homoafetivos, mas, infelizmente, esses são direitos conquistados apenas recentemente pelos homossexuais no Brasil. A escola contra a homofobia De acordo com os estudantes é extremamente importante que a escola aborde a sexualidade como um tema transversal, pois nem sempre as famílias oferecem esse suporte, considerando o diálogo sobre o tema ainda como um tabu. Além de importante para a formação dos estudantes, o combate à homofobia também implica na melhora da educação. Em alguns estudos, relacionou-se a homofobia com a percepção da qualidade da educação recebida pelos estudantes. Os resultados da pesquisa apontaram que aqueles que “sofreram discriminação homofóbica avaliaram a educação recebida no ensino médio aproximadamente meio ponto a menos que seus pares que não relatam essa experiência” (ASINELLI-LUZ & CUNHA, 2011, p. 98). O silenciamento das instituições de ensino em relação aos homossexuais também é uma forma de agressão a essas pessoas que são constantemente tratadas como invisíveis nesse espaço que, ironicamente, deveria acolher e reconhecer as I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 41 diferenças. Esse mecanismo de ocultamento é utilizado como ferramenta para excluir esses indivíduos e garantir a manutenção da norma (LOURO, 2001). CONCLUSÃO Apesar dos avanços e conquistas em relação aos direitos da comunidade LGBT, a escola, um dos principais aparelhos de formação cidadã, não opera de maneira eficiente na abordagem de temas transversais, como a sexualidade. Isso implica na continuidade de propagação de discursoshomofóbicos que afetam diretamente a sociedade como um todo. A formação de professores que operem no sentido de transformarem mentes retrógradas em transigentes é uma necessidade da escola atual, que deve garantir, no mínimo, que os direitos humanos de docentes e discentes sejam preservados para assegurá-los a liberdade de expressão, o direito ao trabalho e à educação. Instituições de ensino, como o IFPR – Campus Jacarezinho, que têm a oportunidade de inserir projetos voltados à educação preventiva e diversidade sexual também protagonizam importantes ações para a superação de preconceitos e promoção da cidadania LGBT. REFERÊNCIAS ASINELLI-LUZ, A.; CUNHA, J. M. Percepções sobre a discriminação homofóbica entre concluintes do Ensino Médio no Brasil entre 2004 e 2008. Educar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 39, p. 87-102, jan./abr. Editora UFPR. 2011. BORRILLO, D. Homofobia. Espanha: Bellaterra. n. 03, p. 213-219. 2009. BRASIL, Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. Brasília: SEDH, Ministério da Educação, Ministério da Justiça, UNESCO, 2008. BRASIL, Parâmetros Curriculares Nacionais. Pluraridade cultural: orientação sexual. Secretaria de Educação Fundamental. 2.ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. DINIS, N. F. Educação, Relações de Gênero e Diversidade Sexual. Educ. 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I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 43 AS TECNOLOGIAS ASSISTIVAS NA ELABORAÇÃO DE SEQUÊNCIA DIDÁTICA DE LÍNGUA ESPANHOLA PARA ALUNOS DEFICIENTES VISUAIS Thays Regina Ribeiro de Oliveira PG-MEPLEM/UEL/PR Resumo: O presente trabalho refere-se à elaboração de uma sequência didática de língua espanhola, direcionada ao 5º ano do Ensino Fundamental com a inclusão de uma criança deficiente visual. Ancorada nos preceitos sociointeracionistas de Bronckart, nos ensinamentos sobre sequência didática de Dolz, Noverraz e Schneuwly e nos conceitos da Defectologia de Vygotsky, a presente SD utiliza o gênero textual histórias em quadrinhos, por apresentar linguagens verbal e não verbal permeada de valores sociais, por meio do qual os alunos aprenderão não somente os objetos ensináveis cabíveis ao gênero escolhido ou série escolar, como também desenvolverão suas capacidades de linguagem voltadas para a oralidade e escrita. Como a sala apresenta um aluno deficiente visual, serão utilizadas algumas tecnologias assistivas, como o sistema de escrita Braille, a audiodescrição e adaptação multissensorial, tecnologias estas que possibilita a inclusão e inserção do aluno deficiente, de modo que todos os alunos do 5º ano sejam mais que meros receptores da língua espanhola, mas que dela se apropriem e se constituam como verdadeiros sujeitos globais que lutam pela sua validez social. Palavras-chave: Sequência Didática; Tecnologias assistivas; Histórias em quadrinhos. Introdução Nas últimas duas décadas, desde a Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994), a inclusão escolar de portadores de necessidades educacionais especiais (doravante NEE) no ensino regular vem sendo tema de debate entre pesquisadores na área de educação (Ferreira, 2003; Skliar, 2006; Carvalho, 2007; Magalhães, 2009; Dantas, 2010; Cerchiari, 2011). De igual modo, meios para se implementar as diretrizes do mencionado documento pelo viés das políticas públicas têm sido investigados. Os fundamentos teóricos e metodológicos da inclusão escolar estão apoiados na ideia de uma educação de qualidade para todos aqueles que nela estão inseridos, com respeito à diversidade e à singularidade dos alunos. Isto foi observado com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9394, de 1996), que preconiza a educação inclusiva em seu artigo 59, quando afirma que os sistemas de ensino devem assegurar aos educandos com NEE currículos, métodos, técnicas, I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 44 recursos educativos e organização específicos para atender às suas especificidades (BRASIL, 2014). Todos os alunos portadores de alguma NEE, como os deficientes visuais, têm o direito de aprender, incluindo uma língua estrangeira, fundamental para atender não somente as exigências profissionais futuras, como também oportunizar a esta criança tornar-se um cidadão globalizado, consciente de seus deveres e direitos no mundo. Desta forma, o presente trabalho é um recorte de um produto educacional ainda em desenvolvimento para o Programa de Mestrado em Línguas Estrangeiras da Universidade Estadual de Londrina, e objetiva a inserção e inclusão de crianças cegas nas aulas de língua espanhola, de modo que eles não sejam meros receptores de conhecimento, mas também construtores. REVISÃO DE LITERATURA Este trabalho tem seu ponto de partida nos preceitos sociointeracionistas de Bronckart, na teoria de Vygotsky sobre os Fundamentos da Deficiência (1997), e nos ensinamentos sobre sequência didática de Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004), utilizando o gênero textual história em quadrinhos, que utilizará em suas atividades o Sistema de Escrita e Leitura em Braille, a audiodescrição e as adaptações sensoriais, hoje denominadas tecnologias assistivas, que são instrumentos e/ou estratégias para o processo de ensino-aprendizagem da língua espanhola que buscam garantir o objetivo deste trabalho. Dentre as muitas razões que me levou à proposição deste trabalho, destaco os motivos pessoais, profissionais e acadêmicos. Pessoais porque tenho um filho deficiente visual, que despertou em mim a preocupação inserí-lo e incluí-lo em todos os ambientes que uma criança não deficiente possa frequentar, inclusive nas aulas de línguas estrangeiras. Os motivos profissionais vêm à tona porque sou professora de língua espanhola, inclusive dos meus filhos, em escola regular básica da rede pública e particular. E a ida do meu filho cego à escola regular me pôs a pensar muito sobre a adequação didática do conteúdo ensinado no colégio e na ausência de materiais adaptados ou concebidos em sua essência para o público deficiente visual, visto que quase todos os materiais disponíveis no mercado editorial são extremamente visuais. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 45 Isto não quer dizer que aqui se pretende desenvolver um produto específico para deficientes visuais, pois isto seria exclusão. O que se pretende é um produto que possibilite o aluno cego a ter voz junto aos colegas de classe, de maneira que todos os alunos daquele grupo realizem e participem conjuntamente da aula. E os motivos acadêmicos surgiram quando, na minha busca por materiais que me esclarecessem sobre como agir, como educar, como estimular uma criança cega, percebi a escassez de estudos na área, de materiaisadaptados e discussões da temática no ensino superior e na pós-graduação. Sinto que cabe a mim, mãe, professora e pesquisadora, a missão de contribuir com tantos outros professores (e pais/familiares) do país que sofrem uma “impotência” quando recebem um aluno cego em sua sala de aula de língua estrangeira. Vygotski traz a constituição do ser humano para o campo da psicologia, relacionando os problemas encontrados nos fundamentos da defectologia às premissas sociais que integram a prática da educação dentro de toda a sua teoria. Em sua obra “Fundamentos de Defectología” (1997), ele nos esclarece que a insuficiência orgânica da criança cega desenvolve duplo papel no processo de desenvolvimento desta: de um lado, a limitação física, que gera as dificuldades; de outro, o estímulo que leva o infante cego a superar essas dificuldades, pelo autor denominada compensação. A deficiência, juntamente com as forças para superá-la ou nivelá-la, torna possível a criação de diversas formas para que a criança cega desenvolva-se da mesma maneira que uma criança normal, porém de maneiras diferentes, com a ajuda de outros meios. Para tanto, Vygotski afirma que o professor deve conhecer as peculiaridades do caminho trilhado pela criança cega, para que ele possa através de um planejamento intencional selecionar os mediadores mais adequados para o ensino-aprendizagem da criança cega, visto que não há diferença essencial entre a educação destas crianças para com as normais. Apoia-se, ainda, este trabalho nos postulados do interacionismo sociodiscursivo de Bronckart, para quem a apropriação das especificidades das diversas atividades sociais realizadas pelo ser humano só é possível pelo mediador linguagem (apud Fogaça e Cristovão, 2008). Por ser o produto educacional em desenvolvimento uma Sequência Didática, buscamos em Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004), e Dolz e Schneuwly I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 46 (1999) suporte para o ensino dos gêneros textuais por meio do instrumento sequência didática para as aulas de línguas estrangeiras, por entender que os diversos tipos textos, autênticos, que circulam nas diversas esferas sociais, possam se transformar em objetos ensináveis, como um ponto de articulação entre as práticas sociais e os objetos escolares (1999, pag. 5). Para que essa sequência de atividades façam sentido ao aluno, que possibilite a ele confrontar o conhecimento novo com o seu conhecimento prévio, mediados pela língua materna (ela auxilia a construção do conhecimento na língua estrangeira), de forma sistematizada, para que se abstraia desta e elabore seu discurso na língua estrangeira, os autores propõem o seguinte esquema (2004): Alegam os autores que a apropriação de um conhecimento se constrói internamente pelo sujeito aprendiz por meio das significações destas práticas, aliadas às aptidões e capacidades desse sujeito (1999), que são por eles classificadas em capacidades de ação, discursivas e linguístico-discursivas. Neste ponto do trabalho, seguimos dass capacidades de linguagem propostas por Dolz e Schneuwly para os estudos de Cristovão e Stutz (2011), que apoiadas naqueles autores, propõe uma nova capacidade de linguagem, a de significação. Estas autoras asseveram que essas capacidades constituem pontos principais a serem considerados na elaboração de uma SD para ensino de língua estrangeira por “promover o movimento de articulação entre a atividade linguageira e as dimensões de sua textualização”. Ressaltam que estas capacidades estão sempre interligadas umas às outras, propiciando a articulação da apropriação dos gêneros textuais pelo sujeito aprendiz (p. 20). Sucintamente, para as autoras as capacidades de ação e de significação são as capacidades requeridas para uma compreensão pré- textual, enquanto que as discursivas e linguístico-discursivas são típicas de análises textuais. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 47 Tendo como foco esta proposta de SD o público infantil (turma inclusiva de 5º ano do ensino fundamental), no que tange ao ensino de língua estrangeira para crianças partimos das contribuições de Rocha, Tonelli e Silva (2010), Chaguri e Tonelli (2013; 2014) e Cordeiro e Tonelli (2014), cujos estudos vão além da reflexão sobre a importância da língua estrangeira para crianças, propondo atividades por meio de um gênero textual pertinente ao universo infantil, e que leve os alunos a reconhecer e comparar a língua estrangeira e a materna “para introduzi-los aos modos de funcionamento dessas línguas” (2014, b, p.46). Quanto ao gênero escolhido para ser o objeto de ensino, optamos pelas histórias em quadrinhos, doravante HQs, por apresentarem tramas narrativas diversas, parecidas à rotina das crianças, que aliadas à quadrinização e ao formato de sua publicação – os gibis (impressos ou virtuais), chamam a atenção das crianças. Segundo Mendonça (2010), é um gênero que traz em seu bojo uma multiplicidade de enfoques (narrativas, argumentativa, etc), sendo caracterizado pela autora como “gênero icônico-verbal narrativo, cuja progressão temporal se organiza quadro a quadro”, ou seja, os desenhos, quadros, junto aos balões e legendas, locais onde os textos verbais são inseridos (pag. 215). Quanto ao potencial pedagógico das HQs, Vergueiro (apud Paiva, 2013, pags.16-17), destaca que estas fazem parte do universo cotidiano das crianças, com uma ampla gama de informações e temas que podem contribuir para a dinâmica da aula. Enumera, entre outras razões, a facilidade do acesso a esse tipo de publicação, pelo formato e custo; que os exemplares usados nas atividades escolares podem ser usados ou emprestados, e que podem ser lidos antes mesmo da alfabetização, leitura esta conduzidas pelas imagens presentes na HQs, “estimulando a criatividade, a imaginação e a comunicação”. Ainda neste sentido pedagógico, Paiva, por “valorizar a convivência social e as influências culturais nos processos de desenvolvimento e aprendizagem”, ancora-se em Vigotski quando considera as HQs mediadores dos conhecimentos vários nelas apresentados, pois no processo de leitura o aluno apreende significados e conceitos que “podem ser internalizados em um processo de transformação das ações externas sociais em ações internas psicológicas” (pag. 20). Requer, para tanto, atenção quanto á escolha da obra, bem como as atividades propostas, de acordo com as expectativas e necessidades do grupo, para não utilizar o gênero como um mero pretexto para ensino de gramática ou vocabulário. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 48 Cabe lembrar que nosso contexto de pesquisa é uma turma inclusiva do 5º ano do ensino fundamental. Partindo da concepção de que à educação cabe incentivar, estimular, buscar novos caminhos para minimizar as carências e aumentar a construção de uma sociedade melhor por meio do conhecimento, gerado por meio de pesquisa, comparações e reflexões, esse conhecimento deve ser buscado e mediado pelas escolas, por meio da figura do professor, aquele que instiga seus alunos a serem autônomos nessa busca incessante. As pessoas com deficiência, no caso os deficientes visuais, são prejudicadas nesse processo de busca independente da aprendizagem, queira pela falta de estímulo familiar, queira pela ausência/negligência da escola que colabora para que fiquem à margem da sociedade letrada, queira pelo subjulgamento de suas capacidades pela sociedade. Diante desta perspectiva, em leituras realizadas de diversos artigos,dissertações e teses sobre o ensino/aprendizagem de línguas estrangeiras a portadores de necessidades educacionais especiais (deficientes visuais), constatamos que estes versam sobre questões relacionadas à políticas públicas para uma educação inclusiva, à formação docente, às estratégias de ensino/aprendizagem do aluno deficiente visual e às melhorias que podem surgir para contribuir a esse público por meio das novas tecnologias assistidas, como Sistema de Escrita e Leitura Braille, audiodescrição, e adaptações sensoriais, estudos estes encabeçados por Medrado, Dantas, Cerchiari, Malta e Aragón (2014), assim como Giroto, Poker e Omote (2012), entre outros. O uso do Braille (sistema de escrita e leitura por meio do tato) é uma tecnologia ainda pouco utilizada na educação básica, em virtude do alto custo da máquina Braille e baixa disponibilidade de profissionais especializados que conhecem e dominem esse sistema. Atualmente há equipamentos e sistemas que possibilitam a inclusão do deficiente visual e, consequentemente, a sua autonomia em busca do conhecimento, juntamente com o Braille, como é o caso da audiodescrição. O sitio web audiodescricao.com.br nos esclarece que o objetivo da audiodescrição é descrever clara e objetivamente as informações visuais contidas nas narrativas; embora seja direcionada a filmes ou espetáculos, entendemos, assim como Nunes e Busarello (2011), que esta prática torna possível também a leitura das HQs. Estes autores nos apresenta um breve estudo de caso de leitura de HQ, idealizado por um DV, que pediu a sua irmã para ler as imagens quadro a quadro, de I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 49 modo que ele veio a criar uma metodologia para facilitar o acesso a esse meio de entretenimento outros dvs em um ambiente da web. Sobre o direito a essa tecnologia assistiva e a maneira que essa adaptação deve operacionalizar, Lima (Revista Brasileira de Transcrição Visual nº 3) nos esclarece que “a áudio-descrição traduz as imagens e outros eventos visuais intangíveis, inaudíveis, inodoros à percepção da pessoa com deficiência visual, em palavras a serem ouvidas diretamente pela fala de um locutor; (...) pela comunicação oral de um professor que lê, ao seu aluno, a áudio-descrição contida num livro; (...) pelo aluno com deficiência visual da áudio-descrição, escrita em Braille(...)” (sic) Quanto às adaptações sensoriais pensadas para a construção deste produto educacional, pode-se subdividí-las em: a) Táteis: com o uso de materiais de deixem um rastro a ser tateado com as mãos dos alunos DVs, como giz de cera, E.V.A., cola quente, tinta relevo, massa de modelar, papéis de gramaturas diferentes, contas, sementes, pequenos objetos, lãs, linhas e barbantes; b) Sonoros: com a utilização de músicas temáticas ou sons/instrumentos que representem o que se estuda. Metodologia O produto educacional é uma proposta sequência didática, ainda em produção, sob a perspectiva do interacionismo sócio-discursivo onde o ensino- aprendizagem se faz por meio de textos autênticos que circulam nas diversas esferas sociais, de acordo com as prerrogativas estabelecidas nos textos de Dolz e Schneuwly (1999). Sendo assim, o gênero escolhido foi histórias em quadrinhos, para estimular o aprendizado e fazer a alegria da garotada, pelo seu visual colorido, ilustrado, interessantes recursos gráficos, linguagem acessível (cotidiana) e recheado de valores sociais, que permite nas aulas de Língua Espanhola para crianças desenvolver uma série de atividades, que vão desde a leitura e a interpretação das histórias até a elaboração de diálogos, proporcionando diversas experiências narrativas/discursivas, contribuindo, desta forma, para o processo ensino- aprendizagem do aluno. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 50 Esta SD apresenta os seguintes objetivos: a) que os alunos reconheçam as características de uma HQ; b) que compreendam os temas propostos nas HQs; c) que identifiquem vocábulos de língua espanhola; d) que criem uma HQ com seus próprios personagens, local, espaço e enredo. Antes da apresentação inicial, será dada uma aula de para conscientização para a turma inclusiva do 5º ano do ensino fundamental sobre o plurilinguismo dos países hispanos, com atividades de reconhecimento de quais são os países onde se fala a língua espanhola oficialmente, na América e no mundo, buscando informá-los e situá-los. Nesta aula, serão utilizados mapas impressos e interativos, que quando clica sobre um determinado país, abre uma interface com um áudio ou vídeo sobre ele, com curiosidades, comidas típicas, danças, ritmos, músicas e personalidades famosas. Desta forma, todos os alunos do 5º ano estarão aprendendo juntos, sem algo criado exclusivamente para o aluno DV, ou seja, a aula será realmente inclusiva. Na apresentação inicial, as atividades propostas mobilizarão os conhecimentos prévios dos alunos sobre o gênero HQ, buscando o que eles sabem (origem, títulos mais conhecidos e disponíveis no mercado brasileiro, personagens notórios, entre outros), e apresentando-lhes, logo em seguida, alguns slides sobre a origem das histórias em quadrinhos, alguns títulos que circulam nas bancas brasileiras, como Turma da Mônica, Disney e Marvel, bem como alguns personagens que, embora não tenham uma revistinha só para eles, têm sucesso no mundo todo, como a Mafalda (Argentina), o Calvin (EUA), o Garfield, o Condorito, etc., e, por último, exemplares produzidos no Brasil pelos Estúdios Maurício de Souza, “Mónica y su Pandilla”, em espanhol, para manusearem e (re) conhecerem o gênero. Este momento também oportuniza a visão geral do trabalho final, aqui denominado projeto de classe, que será a produção de uma HQ sobre algo de nossa cultura local/regional, que após a correção e reescrita, serão juntadas em um livro, um “Gran Cómic”, com direito a lançamento da obra e noite de autógrafos. Na fase da produção inicial, os alunos farão uma atividade de leitura de uma HQ em língua espanhola, previamente selecionada, que tenha a ver com o contexto infantil que eles vivenciam. Todos farão uma primeira leitura a sua maneira. Ao aluno DV será disponibilizada a mesma HQ adaptada com materiais táteis (como lixas, papéis com texturas diferentes, E.V.A., colas de relevo ou cola quente, etc.) para diferenciar quadrinhos e balões. E o texto será transcrito em braile para que ele I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 51 também realize a atividade de leitura como todos os alunos videntes, de modo a reconhecer algumas características peculiares do gênero em apreço. Além disso, será disponibilizada a descrição da HQ, que poderá ser feita por todos como leitura inicial, ou num segundo momento. Após essa primeira atividade, será feita esclarecimentos sobre palavras diferentes, que estejam relacionadas às imagens dos quadrinhos, momento este em que os alunos, por meio da descrição de ações/objetos contidos no enredo, o farão com maiores detalhes para que o aluno deficiente visual, caso não o tenha feito mesmo por meio da adaptação tátil, o faça pela audiodescrição. Em seguida, como uma terceira atividade dentro da produção inicial, será proposto aos alunos do 5º ano a dramatização da HQ por eles lidas em forma de diálogo. Com esta atividade, o professor perceberá quais as capacidades de linguagem, principalmente se a capacidade de significação está sendo desenvolvidas. Além disso, será o momento em que o professor analisará se as atividades dos módulos seguintesprecisam ser readequadas. Nos módulos seguintes, pretende-se trabalhar com atividades práticas voltadas para a infraestrutura de uma HQ, observando tanto elementos textuais como não textuais, como as características dos personagens principais e secundários (físicas e psicológicas), os diversos tipos de globos, letras e quadros, as onomatopeias e interjeições e os sentidos de suas aplicações na HQ, lembrando que tudo isso na língua espanhola. Essas atividades deverão ser desenvolvidas em observância à heterogeneidade do grupo, com uso não somente do mais importante dos mediadores, que é a linguagem, mas também com o auxílio da reprodução de imagens táteis, em relevo, e com o recurso da audiodescrição, que partirá dos próprios colegas de sala do aluno deficiente visual, para que em nenhum momento ele venha a sentir-se excluído ou prejudicado. Como esta sequência ainda está em processo de elaboração, pretendemos que a produção final seja que os alunos, em pequenos grupos de até 3 alunos, produzam uma HQ, com tema a definir para toda a sala do 5º ano, com enredo e personagens próprios, bem como cenários e demais desenhos. Optamos por ser em grupo para que o aluno deficiente visual se torne protagonista da atividade, que manuseie HQs, que leia, e que crie uma junto a seu grupo. Estes alunos serão estimulados a determinarem conjuntamente o espaço onde ocorrerá a história, descrever as características dos personagens, escolher os balões para as falas, I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 52 enfim, o processo de criação será como o de um estúdio, vários alunos contribuindo para criação do seu produto final, bem como sua reescritura e finalização. Todas as HQs produzidas serão juntadas em um “Gran Cómic”, que será reproduzido para cada aluno, numa incrível noite de autógrafos, que contará com a presença dos professores, funcionários e familiares, num grande evento apresentado pela professora mostrando ao público o resultado de sua aplicação da Sequência Didática. Breves considerações Diante de todo o exposto, sempre colocado à luz dos Conceitos de Deficiência na obra de Vygotzky (1997), constatou-se que para ensinar língua estrangeira à crianças cegas deve-se observar que: a) incumbe ao professor averiguar as potencialidades da criança cega; b) o professor deverá selecionar os mediadores mais apropriados à construção da compensação social da criança cega, que no caso são as tecnologias assistivas disponíveis à sua realidade, como as trazidas neste trabalho (Sistema Braille, audiodescrição e adaptações sensoriais); c) a partir da seleção desses mediadores elaborar um planejamento intencional de sua relação com o aluno para que a compensação social seja possível; d) o professor deve garantir que as interações sociais da criança cega na escola sejam ampliadas, pois é na interação com o outro que o sócio-histórico-cultural se constrói; e) cabe ao professor, mesmo utilizando as diversas tecnologias assistivas disponíveis, fazer uso da linguagem, de modo a dar sentido às apropriações realizadas pela criança cega, e para que ela venha apresentar atitudes ativas, críticas e multiculturais que a validem socialmente. 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I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 54 MENDONÇA, M. R. de S. Um gênero quadro a quadro: a história em quadrinhos. In.: DIONÍSIO, Ângela Paiva; MACHADO, Anna Rachel; BEZERRA, Maria Auxiliadora (org.). Gêneros Textuais e Ensino. São Paulo, SP: Parábola Editorial, 2010. p. 209-224. NUNES, E.V.; BUSARELLO, R. I. A audiodescrição aplicada aos quadrinhos: em busca da educação inclusiva. In.: World Congress on Communication and Arts. April 17-20, 2011. São Paulo, Brazil. Disponível em http://guaiaca.ufpel.edu.br/bitstream/123456789/722/3/A%20audiodescricao%20aplicada%2 0aos%20quadrinhos%20%20em%20busca%20da%20educacao%20inclusiva.pdf.Acesso em 04 de março de 2017. PAIVA, F.da S. As Histórias em Quadrinhos e a Educação. IN: MODENESI, T.V.; PAIVA, F.da S.(orgs.). Quadrinhos e Educação em cinco pontos de vista. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2013. p. 9-23. ROCHA, C. 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Teve como objetivos identificar os estudos acadêmicos que abordam a temática regime militar e o ensino de Geografia no Brasil; elaborar um instrumento de pesquisa contendo dados sobre o ensino de Geografia no período militar para subsidiar pesquisas futuras; e iniciar uma aproximação ao entendimento de como o ensino de Geografia foi encaminhado no período militar brasileiro. Trata-se de pesquisa documental e bibliográfica desenvolvida por meio de procedimentos de localização, reunião, seleção e análise de fontes documentais. Concluiu- se que apesar do avanço teórico metodológico alcançado pela Geografia acadêmica no período analisado, o ensino da disciplina nas escolas foi marcado, conforme indicam os estudos, pela imposição do currículo e pela falta de liberdade dos professores na seleção dos conteúdos de ensino, sendo estes mais relacionados aos aspectos descritivos e menos críticos das conjunturas sociais e política do país. Palavras-chave: ensino de Geografia; formação de professores de Geografia; ensino no período militar do brasileiro. APRESENTAÇÃO Historicamente, de acordo com Pontuschka (2013), desde a introdução da Geografia na escola brasileira, até os dias atuais, o ensino da disciplina passou por um processo de avanços e retrocessos. Destacamos como representativo de um possível retrocesso às características deste ensino no período militar brasileiro (de 1964 a 1985). De acordo com Couto e Antunes (1999) naquele momento a política implantada passou a defender aos interesses político-ideológicos do grupo dominante e ignorar os interesses populares como de praxe, para então estabelecer o desenvolvimento econômico do país, como afirmam eles, para as classes dominantes da sociedade capitalista, isto é, as classes sociais que detêm os meios de produção e distribuição de mercadorias, a educação, ou mais especificamente a educação escolar, objetivava atender as suas necessidades econômicas, políticas e ideológicas. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 56 Há 53 anos atrás no dia 1º de abril ocorreu o golpe militar que resultou em um período marcado por repressões políticas, censuras, reformas políticas, greves e manifestações, acentuação da concentração de renda, entre outras inúmeras variáveis que compreendem esse período brasileiro. Para Lira (2010) o Estado que surgiu após o golpe de 1964 no Brasil correspondeu a uma redefinição política no país, sendo resultado da aliança entre os militares, empresários e os tecnoburocratas apoiados pela tradicional classe de fundiários. Nesse período os empresários que apoiaram os militares contavam com assistência de amigos estadunidenses, onde as relações entre esses dois países se estreitaram, os quais vão intervir na política e na educação do Brasil. Considerando a necessidade de adequar o ensino ao regime político e social da época, segundo Demerval Saviani (2010) foram alteradas as bases organizacionais do ensino, tendo em vista ajustar a educação aos reclamados postos pelo modelo econômico do capitalismo, articulado com a doutrina de interdependência. Através da reforma da educação a Geografia assim como a História, a Sociologia e a Filosofia perdem espaço no currículo escolar quando foram introduzidos os conteúdo relacionados à disciplina de Estudos Sociais. Desta forma, torna-se importante compreender o que esse período representou para a história do ensino de Geografia, não só para que possamos entender o seu passado, mas as consequências no ensino atual. OBJETIVOS A pesquisa teve como objetivo geral compreender alguns aspectos do ensino de Geografia no período compreendido como regime militar brasileiro (1964-1985). Como objetivos específicos foram delimitados: - Identificar os estudos acadêmicos que abordam a temática regime militar e o ensino de Geografia no Brasil. - Elaborar um instrumento de pesquisa contendo dados sobre o ensino de Geografia no período militar para subsidiar pesquisas futuras. - Iniciar uma aproximação ao entendimento de como o ensino de Geografia foi encaminhado no período militar brasileiro. METODOLOGIA A investigação consistiu em pesquisa bibliográfica e documental. O estudo bibliográfico se deu por meio de identificação, localização e recuperação de materiais I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 57 já elaborados nos formatos de livros, teses, dissertações e artigos científicos sobre o ensino de Geografia no período militar brasileiro. Também foram consultadas as bases de dados eletrônicas, entre elas: http://www.periodicos.capes.gov.br/;http://bancodeteses.capes.gov.br/;http://dedalus.u sp.br/, http://cutter.unicamp.br/, e http://www.athena.biblioteca.unesp.br/. A seleção dos trabalhos consultados para esta pesquisa se deu através dos títulos que estão relacionados ao tema ensino de Geografia no regime militar brasileiro. Após localização dos títulos selecionados foram elaborados resumos dos textos e análises de acordo com os objetivos da pesquisa. RESULTADOS E DISCUSSÕES Aspectos do ensino de Geografia no regime militar brasileiro No contexto do modo capitalista de produção, o ensino se torna uma das principais esferas que manterá esse sistema, pois, é através dele que se poderá formar a mão de obra qualificada para o mercado de trabalho. Em decorrência desse fator, o Estado pode criar políticas para orientar as pesquisas no campo da ciência e tecnologia. Kuenzer; Machado (1982, apud MIRA, 2009, p. 10209) aponta que a opção pela tecnologia educacional configurou-se, então, como a possibilidade de transpor, para o sistema de ensino, o modelo organizacional característico do sistema empresarial, visando àreordenação do sistema educacional com base nos princípios da racionalidade, eficiência e produtividade, o qual de acordo com os autores, seus princípios partem da Teoria Geral de Administração (TGA), sistematizada por Frederick Taylor, que preconiza a racionalização do processo produtivo, por meio da fragmentação do trabalho, onde se tem mais controle e a maximização dos resultados sobre ele. Assim o tecnicismo estabelece a organização racional do ensino, que como resultado busca a maximização da formação de educandos, a partir de um ensino em que de acordo com Mira (2009) os professores e os alunos eram relegados a posições secundárias; não se valorizava a relação professor-aluno, pois o aluno devia relacionar- se com a tecnologia. Martins (2014), que investigou o ensino das humanidades durante o período do regime militar brasileiro (1964-1985), os principais objetivos dos militares era buscar o reordenamento dos rumos da sociedade e do Estado, ou seja, a ―ordemǁ, que de I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 58 acordo com os militares, no Brasil estava disseminando a ideologia do comunismo. Pois as disciplinas de humanidades poderiam representar uma ameaça à ordem social e política, com isso em 1971 fizeram uma reforma no ensino através da Lei 5.692/71, o qual estabelecia um novo currículo para o ensino. De acordo com o currículo, disciplinas como História, Geografia, Sociologia e Filosofia se tornaram conteúdos de Estudos Sociais no ensino de 1º grau. Foram introduzidas também as disciplinas de Organização Social e Política do Brasil (OSPB) e Educação Moral e Cívica (EMC), disciplinas estas que conforme os nomes já expressam, contribuíam para formar o cidadão patriótico e inofensivo ao regime instaurado. A utilização prolongada desses Guias pelos professores, conforme expõe Sposito (1999), foi devido a sua obrigatoriedade. Consequentemente o material de apoio que o professor poderia utilizar eram os livros didáticos, estes estavam com seu conteúdo de acordo com os Guias. O livro publicado pelo Ministério da Educação e Cultura em 1980 aponta que os objetivos do ensino de 1º grau são: sondagem de aptidões e iniciação para o trabalho; E no ensino de 2° grau—habilitação profissional. As disciplinas para o ensino de 1ºgrau estavam estabelecidas no currículo como disciplinas obrigatórias, e no ensino de 2º grau as nas séries iniciais estavam as disciplinas obrigatórias e também as disciplinas que eram escolhidas pelos alunos de acordo com a habilidade profissional que o aluno pretendia. Desta forma como estabelece o currículo, Estudos Sociais é introduzido nas séries finais do ensino de 1º grau como área de estudos. A Geografia no Ensino de 2º grau tinha sua carga horária bem menor que no ensino de 1º grau, com isso a ―bagagemǁ de Geografia que os alunos tinham era decorrente de Estudos Sociais e das poucas aulas do 2º grau. Martins (2014) ressalta que as disciplinas OSPB e EMC tinham os princípios especialmente de promover o entendimento da ordem social e do organograma estatal. Ou seja, retiram-se as disciplinas de humanas que tinham caráter de estudar e fazer- nos pensar sobre as relações do ser humano com a natureza e as relações sociais, e estabelece disciplinas de cunho mnemônico. Não somente a Geografia sofreu grandes perdas, como também outras disciplinas da área de humanas. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 59 Aspectos da formação docente A formação de professores no Brasil tem sua trajetória muito recente, a criação de universidades no país data da primeira metade do século XX, este era um ensino extremamente elitista, poucas pessoas tinham a possibilidade de ir para as escolas, e as universidades no Brasil basicamente eram para formar uma elite intelectual. Na década de 1960 as universidades ainda não eram suficientes para suprir a carência de docentes no país. Nascimento (2014) ressalta que havia uma concentração destas nos grandes centros urbanos, gerando um agrupamento de profissionais formados em certas regiões, e uma carência constante em outras, a respeito das faculdades de Filosofia. O autor nos mostra também que a situação de professores preparados para lecionarem estava tão ruim que aplicava-se um exame de suficiência, e que para lecionarem não era tão importante ter o conhecimento da disciplina, mas se soubessem ler e escrever era o suficiente para irem para a escola. A partir das políticas de expansão econômica, o Estado se depara com esse entrave da falta de mão de obra especializada, e tem na educação a solução de dois impasses, a educação vem como um aparelho ideológico de Estado e também a formação de mão de obra necessária. Cria-se então, o aligeiramento da formação de docentes para atender essa nova face da sociedade trabalhadora. Em 1964 foi aprovada a criação de três modalidades de licenciatura nas áreas de Letras, Ciências e Estudos Sociais, para a formação de professores polivalentes, estes tinham a duração de três anos. Em 1966 foi estabelecido o currículo mínimo em Estudos Sociais que teria duração de 2.025 horas. Para Gonçalves (1989 apud Poloni 1998) a introdução de Estudos Sociais servia à educação apenas para o fazer e agir no lugar do refletir sobre a sociedade. Na perspectiva dos militares, mais valeria uma formação aligeirada do que formação alguma, para poder suprir a necessidade de professores. Os Estudos Sociais era uma das licenciaturas mais procuradas pelos professores que se formavam na época, pois se formavam em licenciatura curta polivalente, que poderiam lecionar legalmente além dessa disciplina, as disciplinas de Geografia, História, Organização Social e Política do Brasil e Educação Moral e Cívica. Em decorrência da busca por cursos de carga mais rápida como é o caso de Estudos Sociais, aumentava a defasagem do ensino de Geografia, pois professores que legalmente estavam habilitados para o cargo, na prática não conseguiam lecionar essa disciplina qualitativamente, o que era a lógica da educação do período, a função I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 60 era formar cidadãos nacionalistas acríticos que servissem de mão de obra para o desenvolvimento do país de acordo com o pensamento dos militares. Conforme observamos nos estudos citados, apesar de que o período da ditadura ter sido para o ensino de Geografia um período sombrio, notamos ter surgiu naquele momento a Geografia crítica, modificando e/ou ampliando os conceitos geográficos mantidos até então. O conceito de território, por exemplo, conforme Boligian (2003) começou a se ampliar na Geografia em meados da década de 1970 com advento da Geografia crítica que tem uma grande preocupação em compreender as contradições sociais, as transformações econômicas e políticas. A Geografia Crítica no Brasil tem como principal expoente o professor Milton Santos, que trouxe as discussões sobre o território e sociedade e o papel do Estado. Uma discussão bastante intrigante, se levarmos em conta o período ao qual esta nova face da Geografia surgiu, um período de perseguição intelectual, porém, é pertinente ressaltar que essa Geografia surge no âmbito acadêmico, e não chega a todas as escolas, infelizmente. Por esta razão pode ser que ainda haja um desencontro entre a Geografia acadêmica e a escolar, até os dias de hoje. Problema este que ainda precisamos superar. Aspectos do livro didático de Geografia Com a preocupação do que seria ensinado nas escolas, houve a necessidade de repressão e restrição dos conteúdos doslivros didáticos. E a partir da década de 1960, de acordo com Guimarães (2012, p.93) o Estado impulsionou a indústria editorial, vinculando-a diretamente ao processo de ampliação de produtos educacionais. Guimarães (2012) aponta que o livro didático assumiu a forma do currículo e do saber histórico nas escolas através da Lei 5692/71. Nesse período os militares estabelecem a isenção de impostos em todas as fases da produção e comercialização de livros, jornais e periódicos, além da renovação tecnológica para incentivar essas indústrias. Gomes (2009) ressalta que através de pesquisas em bancos de dados, constatou-se que surgiu significativa quantidade de novos autores de livros didáticos de Geografia durante a década de 1970 no Brasil, devido ao grande incentivo as indústrias editoriais. O mesmo autor salienta que, esses novos autores que surgiram estavam mais predispostos a lidarem com as novas exigências metodológicas, I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 61 pedagógico/educacionais e editoriais que se impuseram nesse momento. Dessa forma os autores mais tradicionais como Aroldo de Azevedo, um dos maiores autores de livros didáticos de Geografia entre a década de 1940 á 1960, acabou por ficar ao esquecimento. Resende Filho (2014, p.60) relata que o uso do livro didático não era apenas para ajudar a planejar uma aula, mas sim para comandar a aula do professor, ou seja, era o guia, sendo assim não haveria a necessidade de buscar outro recurso educativo. Conforme Sposito (1999), os guias curriculares divulgados a partir da LDB 5692/71, passaram a ser uma bíblia para os professores. Segundo Gomes (2009) esse momento representou para a Geografia um embaralhado de acontecimentos. Pois devido a censura pelos militares, muitos autores importantes foram exilados, como por exemplo, Milton Santos, Josué de Castro, Paulo Freire e Darcy Ribeiro entre outros autores que também foram importantes para a Geografia brasileira, não só foram exilados, como também tiveram seus livros censurados. Conforme mencionado anteriormente, o livro didático de Geografia nesse período passou por diversas circunstâncias as quais interferiram diretamente em seu conteúdo, as reformas educacionais e o incentivo às indústrias editoriais que despertou o interesse de vários autores para a elaboração de livros didáticos, resultou em uma grande quantidade de livros didáticos de Geografia e/ou Estudos Sociais com linhas de pensamentos diferenciadas. Aspectos da política educacional no regime militar brasileiro A política educacional do período da ditadura militar brasileira foi muito severa e no que corresponde ao ensino de Geografia, atingiu desde os anos iniciais do então Ensino de primeiro grau, atual Ensino Fundamental, até as universidades. A educação além de ser utilizada como instrumento de manipulação em massa, apresentaria graves riscos para o ―regimeǁ instaurado, pois sabiam que se não contivessem de forma severa os atos contra o regime, não conseguiriam permanecer no poder por muito tempo. Lira (2010) relata que um dos instrumentos legais de repressão mais importante para os militares foi o Decreto nº 477, conhecido como AI-5 de fevereiro de 1969, que atribuiu às autoridades universitárias e educacionais do MEC o poder de desligar e suspender estudantes por até três anos, expulsão e impedimento de matrícula em qualquer escola de nível superior no país durante cinco anos, se for pego envolvido em atividades subversivas. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 62 A política educacional implantada era, portanto, conforme apontam os estudos, de cunho liberal e visavam a produção de capital, por isso um ensino técnico profissionalizante, pois o seu principal interesse era a formação de operários padronizados e sem nenhuma discordância com o sistema implantado. Como aponta Ferreira (2003) a ditadura privilegiou abertamente a desigualdade social, onde o acúmulo de capital e a política educacional (que é parte integrante da política social, em que esta foi uma estratégia utilizada pelo Estado voltada para o desenvolvimento econômico) favoreceram a elite. A política educacional do período foi sem dúvida como aponta o autor uma ferramenta para sustentar a hegemonia da classe dominante e oprimir ainda mais as classes, esse jamais foi uma forma de governo preocupado com a economia do país, mas sim de uma determinada parcela da população brasileira. Legado da ditadura militar brasileira no ensino A Ditadura militar brasileira foi um golpe de Estado tramado entre os empresários e os militares já no final da década de 1950, que de acordo com Saviani (2008), ―Em 1959 surgiu o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), a primeira organização empresarial especificamente voltada para a ação política. Sua finalidade explícita era combater o comunismo e aquilo que seus membros chamavam de ―estilo populista de Juscelinoǁ (p. 294). Assim esses grupos foram se articulando, deram o golpe na nação brasileira e juntos permaneceram 21 anos ditando as regras de como a sociedade brasileira deveria agir. No âmbito da educação houve um estreitamento na relação Brasil e Estados Unidos através dos empresários que tinham parcerias e amizade com os estadunidenses. Ferreira e Bittar (2008) exprimem que: No tocante à questão educacional, os tecnocratas defendiam como pressuposto básico a aplicação da ―teoria do capital humanoǁ, como fundamentação teórico- metodológica instrumental para o aumento da produtividade econômica da sociedade. (p. 343) Os autores expõem que essa teoria foi elaborada por Theodore W. Schultz (1902- 1998). Para ele, a ―instrução e a educaçãoǁ eram, antes de tudo, valores sociais de caráter econômico, uma relação direta entre educação e economia. Essas ideias estadunidense adentraram ao Brasil, e foram a base das reformas educacionais executadas no período militar para o ―crescimento econômicoǁ. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR ISSN 2595‐0606 63 A ditadura militar de acordo com Ferreira (2003) abalou a nação e fragmentou o caráter brasileiro, alienou as novas gerações, tornando-os incapazes de entenderem a sociedade em que vivem. Esse período obscuro ao qual o Brasil passou teve fim em 15 de março de 1985, quando José Sarney assume a presidência da república. No movimento pró-democracia estavam muitos estudantes de todos os níveis, como professores de escolas e universidades fazendo pressão contra os militares, esse foi um movimento muito importante para a queda dos militares. A ruptura na liberdade que ocorreu também na Geografia, e no sistema como um todo, representa a necessidade de um determinado grupo de pessoas em modificar o sistema em decorrência principalmente da economia. Para a Geografia, os resultados dessas ações se estendem até os dias atuais, não de forma tão imponente e ressaltada, mas de forma mascarada e sutilmente prejudicial à qualidade da educação. CONSIDERAÇÕES FINAIS Podemos concluir que na educação e principalmente no ensino de Geografia, o qual foi o foco dessa pesquisa, ainda podemos sentir as sequelas deste período. Como por exemplo, nos currículos e nos livros didáticos, em que não há um modelo de acordo com a sociedade em que o aluno está inserido, os livros didáticos não trazem os problemas sociais do bairro ou da cidade do aluno, e nem todos os professores conseguem tratar desses problemas de forma peculiar, devido à formação precária, falta de materiais e/ou por não conseguir se desvincular do uso dos livros ou dos cadernosdo aluno do estado de São Paulo, por exemplo. A Geografia Crítica que surgiu no meio acadêmico não chegou às escolas nesse período, no máximo como apontam alguns autores, ela pode ter chegado apenas em alguns livros didáticos, mas não como uma forma de abordagem efetiva, devido esta ser uma linha de pensamento nova que surgia no Brasil, e os professores não tinham muito contato com a mesma, principalmente pelo controle político, é o que podemos supor, pelo que encontramos nos resultados das pesquisas aqui apresentadas. O ensino de Geografia recebeu repressão dos militares, seja no viés de formação docente, na composição de seu currículo, na sala de aula, nos livros didáticos etc. Os militares viram nas disciplinas da área de humanidades um possível risco a seu poder autoritário, com isso as disciplinas de História, Geografia, Filosofia e Sociologia foram introduzidas através de conteúdo didático em Estudos Sociais o qual I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 64 abrangia de forma superficial os conteúdos pertencente a estas disciplinas, e pode ter contribuído para a formação de alunos alheios a realidade. Refletir sobre esse período em que o Estado e a classe dominante demonstraram de forma agressiva o seu poder sobre a sociedade, se faz necessário para que não esqueçamos os longos 21 anos sem democracia a que fomos submissos. Assim, não devemos permitir que reformas educacionais nos levem a retrocessos já vividos anteriormente. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOLIGIAN, Levon. A transposição didática do conceito de território no ensino de Geografia. 2003. Dissertação (mestrado em Geografia) -- Universidade Estadual Paulista. Rio Claro- SP. 2003. BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Secretaria de Ensino de 1º e 2º Graus. A escola de 1º grau e o currículo. (1ª parte). 2 ed. Brasília, 1980. COUTO, M. A. C.; ANTUNES, C. F. A formação do professor e a relação Escola Básica e universidade: um projeto de educação. Terra livre. São Paulo, n. 14, p.30- 40, jan./jul., 1999. FERREIRA JR., Amarilio; BITTAR, Marisa. Educação e ideologia tecnocrática na ditadura militar. Cadernos CEDES, Campinas, v. 28, n. 76, p. 333-355, set./dez. 2008. FERREIRA, Cynthia Runia. As políticas educacionais durante o regime militar (1964- 1985). 2003. 80 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia). 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I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 66 DOCUMENTÁRIO ILHA DAS FLORES: UMA ABORDAGEM CRÍTICA EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL Fernando Augusto Perin de Almeida Adrielle Camile Figueiredo Gomes Resumo: O presente trabalho apresenta certa preocupação com questões sociais junto às/aos estudantes das escolas públicas, em especial, sobre a questão ambiental, com o intuito de proporcionar o debate em sala de aula sobre possíveis ações cotidianas em relação à preservação do ambiente, para construir conceitos teórico-práticos com os alunos na perspectiva de criar cidadãos críticos em relação ao ambiente. O trabalho foi realizado no Colégio Estadual Anésio de Almeida Leite, situado na área urbana e região periférica da cidade de Jacarezinho, na turma do terceiro ano do ensino médio com alunos na faixa etária entre 16 e 17 anos, com um total de 17 alunos presentes. O recurso audiovisual usado foi o documentário “Ilha das Flores”, que aborda questões ambientais bem como filosóficas. Posteriormente à apresentação do documentário, foi solicitado que os alunos respondessem e argumentassem sobre algumas questões como: O lixo que não é lixo; O lixo na escola; Cuidado com a água. A Educação Ambiental é uma área do conhecimento que analisa a interação do homem com o meio, bem como o uso consciente dos recursos naturais, é uma relevante preocupação social que permeia a escola e, portanto, o interesse dessa pesquisa é elevar a criticidade de seus estudantes para compreender as relações determinantes na sociedade capitalista. Trata-se de uma pesquisa qualitativa e descritiva assim, buscou-se compreender essa realidade a partir das falas dos alunos e evidenciou-se, a partir das/os envolvidas/os na pesquisa, que a temática ocorre de forma superficial, buscando normatizar as relações humanas, resolver problemas imediatos e, ainda, não havendo nenhum desvelamento com as questões socioeconômicas. Palavras-chave: Educação Ambiental-Crítica, conscientização, escola. 1 INTRODUÇÃO Dentro da sala de aula o professor muitas vezes é limitado de recursos auxiliadores de aprendizado, falta de infraestrutura ou até mesmo preparo. O uso de recursos áudio visuais pode ser uma opção para a abordagem mais ilustrativa e facilitadora na mediação do conhecimento, tendo em vista a aproximação professor/aluno. Esses recursos podem ser usados nas diversas áreas do conhecimento, principalmente para a abordagem de questões ambientais. A Educação I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 67 Ambiental é uma área do conhecimento que analisa a interação do homem com o meio, bem como o uso consciente dos recursos naturais. Objeto de grande discussãoda Educação Ambiental (EA) sua introdução como disciplina de estudo por volta de 1975. Desde então, houve diversos eventos com debates sobre o tema, porém, no Brasil iniciaram se as discussões tardiamente por volta da década de 70 (LOUREIRO et al, 2003). A Revolução Industrial agrava a relação homem campo e sua exploração, o desequilíbrio decorrente de alguns fatores, com consequência também ocorre um desequilíbrio ambiental com toda poluição, lixo, doenças, danos à fauna e flora causadas pela migração do homem do campo para as cidades (REIGADA e TOZONI REIS, 2004). No entanto, tais mudanças foram propícias para que as cidades em franca expansão começassem a abranger novas formas de poluição, violência e desorganização, gerando problemáticas ambientais, a partir desse novo agrupamento que acontece em espaços comuns (CASCINO, 2003). Com isso o movimento ambientalista na metade do século XX, neste processo de mudança, tornou-se uma vertente inegável cujo papel fundamental é educação, pois a EA mostrou-se uma grande aliada (REIGADA e TOZONI REIS, 2004). Nos últimos anos, pode se observar um risco para os humanos, e com essa suposta crise que atinge a educação, como sua elitização, e a necessidade de uma reforma curricular democrática juntamente com a implementação de novas tecnologias como auxiliadores do processo de aprendizagem, faz com que as preocupações em relação à mesma tomam maiores proporções e novas abordagens são discutidas. Contudo a crise exige uma nova abordagem frente à educação (TOZONI REIS, 2008). A EA é de suma importância para a “mudança de consciência” para que o aluno possa cuidar do meio ambiente. Porém para que consiga se abordar essa questão dentro do âmbito escolar, é necessário levar em conta a realidade do aluno, trabalhando os conteúdos sistematizados, com questões sociais, culturais e econômicas. Falar em meio ambiente e Educação Ambiental não é propriedade, nem exclusividade das disciplinas de Ciências e Biologia (FERREIRA e ROSSO, 2009). A integração desse tema de forma transversal e I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 68 interdisciplinar neste âmbito é importante, de forma que a abordagem crítica desses assuntos seja fragmentada, e também abordada e discutidas em todas as disciplinas. 2 CORRENTES EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL. O pensamento teórico sobre Educação Ambiental (EA) quase sempre segue algum propósito comum a vários pensadores da área. Questões naturais e a ação antrópica são pautas frequentes nessas discussões. No entanto, alguns autores trabalham com linhas de pensamento distintas, ou seja, correntes de atuação que se diferem por possuírem características distintas. Porém, é importante ressaltar que mesmo sendo paralelas não podemos dizer que são completamente diferentes, pois apesar de possuírem características diferentes também compactuam de algumas formas de pensar. Sauvé (2005) explicita que a noção de corrente referida aqui é uma maneira geral de conceber e de praticar a educação ambiental. Neste contexto, podemos pensar em vertentes de trabalho onde fracionarão pedagogicamente as ideias distintas com um intuito de facilitar o trabalho e a compreensão dos conteúdos. 2.1 A corrente crítica social. Podemos afirmar que a corrente é embasada na teoria crítico social, pois a análise social da dinâmica das populações se encontra na base problemática desses temas. A associação desta posição crítica como um componente necessariamente político traz a perspectiva de mudança da realidade desse ambiente social, para que em seu curso surgiram projetos sociais com intuito de emancipação e, assim, libertação das alienações. Sauvé (2005) destaca o processo emancipatório, com suas etapas e fases sócias críticas como: [...] vinculando-se à corrente de ecologia social (mais especificamente ao Instituto para a Ecologia Social, organismo preocupado com a transformação social e ecológica por meio de ativismos e da educação) propõe um processo crítico em três tempos: uma fase crítica, uma fase de resistência e uma fase de reconstrução. Sua proposição se inspira, em seu conjunto, no anarquismo social que “rejeita os preceitos liberais clássicos do individualismo e da concorrência para propor em seu lugar os valores de coletividade e de cooperação”. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 69 Na perspectiva de Tozoni Reis (2006), sugere-se que esta corrente de educação ambiental critica e emancipatória seja construída através da internalização do conhecimento, de forma que seja trabalhado dinamicamente e interdisciplinarmente, numa perspectiva da construção da sociedade sustentável. Esses temas ambientais são postos como pressupostos a confrontar a realidade vivida pelo indivíduo a ponto de trazer esses temas para as discussões do ambiente escolar, essa problematização denomina-se como temas geradores. Segundo Tozoni Reis (2006), “Os temas geradores são, portanto, estratégias metodológicas de um processo de conscientização da realidade opressora vivida nas sociedades desiguais”. Portanto, o intuito é colocar o indivíduo em processo crítico, a ponto que ele confronte e questione sua própria realidade, ou de sua comunidade. O caráter político da pedagogia freireana faz-se presente, de forma radical, nos temas geradores, isto é, temas geradores só são geradores de ação-reflexão-ação se forem carregados de conteúdos sociais e políticos com significado concreto para a vida dos educandos. Assim, as propostas educativas ambientais conscientizadoras podem tomar os temas ambientais locais como temas geradores desta ação conscientizadora (TOZONI REIS, 2006). 3 OBJETIVOS GERAIS. Este trabalho tem como objetivo abordar conceitos relacionados à Educação Ambiental e ao cotidiano dos alunos bem como o meio escolar. 3.1 Objetivos específicos. Proporcionar debate em sala de aula sobre possíveis ações cotidianas em relação à preservação do ambiente, para construir conceitos teórico-práticos com os alunos na perspectiva de criar cidadãos críticos em relação ao ambiente. 4 METODOLOGIA. Escolhemos a metodologia de pesquisa qualitativa, pois o enfoque neste caso é o aprofundamento da compreensão deste determinado grupo em relação ao tema estudado, enxergando assim a relevância do contato direto e interativo do pesquisador com os sujeitos envolvidos da pesquisa, conseguindo assim obter dados descritivos, para se interpretar os fenômenos que serão estudados (NEVES, 1996). I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 70 Este presente trabalho foi realizado no Colégio Estadual Anésio de Almeida Leite, situado na área urbana e região periférica da cidade de Jacarezinho. Colégio da rede pública de ensino do Estado do Paraná, com o número de 620 alunos, 23 turmas, 64 professores, 05 pedagogos, 17 funcionários, 1 diretor e 1 diretor auxiliar. Foi realizado na turma do terceiro ano do ensino médio com alunos na faixa etária entre 16 e 17 anos, com um total de 17 alunos presentes. O trabalho ocorreu durante a disciplina de Filosofia ministrada pelo professor Gerson Vasconcelos Luz, formado em Filosofia que concordou plenamente com a prática da atividade. O recurso audiovisual usado foi o documentário “Ilha das Flores”, que aborda questões ambientais bem como filosóficas. Posteriormente à apresentação do documentário, foi solicitado que os alunos respondessem e argumentassem sobre algumas questões como: 1 – O lixo que não é lixo. 2 – O lixo na escola. 3 – Cuidados com a água. Posteriormente, uma discussão e a construção dos conceitos relacionados as questões listadas acima. 5DISCUSSÃO. 5.1 O lixo que não é lixo. A discussão que gira em torno da enormidade de lixo produzido diariamente no planeta, passa por um ponto importante sobre questões de consumo, por isso atentamos pelo lixo que não é lixo, nem todo lixo produzido necessariamente precisa ser descartado, muitas empresas atualmente tem políticas de fabricação de embalagens com materiais reciclados e ou biodegradáveis. Hoje a um grande mercado em torno da reciclagem, grandes cooperativas empregam milhares de pessoas no Brasil, e esse foi um dos temas discutidos com os alunos, sobre a conscientização da importância da reciclagem, I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 71 numa tentativa de diminuição dos materiais que acabam na natureza poluindo o meio, e consequentemente podendo causar até transtornos de ordem pública. Chama a atenção no discurso dos alunos o conhecimento que os mesmo possuíam sobre as questões relacionadas à importância da reciclagem, o procedimento de coleta seletiva, separação de material compartimentada para auxiliar os catadores na coleta. A discussão também girou em torno do movimento socioeconômico das cooperativas de reciclagem, a geração de renda oriunda do lixo que não é lixo, ainda como algumas pessoas praticamente sobreviviam da renda vinda da coleta destes recicláveis. 5.2 O lixo na escola. A discussão continuou em torno das questões que envolvem o lixo, desta vez abordaremos o âmbito escolar, o lixo que é produzido na escola, manuseio e destino do mesmo. Como a maioria das instituições de integração coletiva, notamos que uma quantidade grande de lixo era produzida na escola, quando questionados os alunos ressaltaram a necessidade dos consumos que ali aconteciam, ainda que fosse possível uma maior conscientização em relação a sua destinação. Ainda em relação ao lixo na escola, os alunos mostraram conscientização em relação à destinação do lixo em relação aos próprios alunos como descartes nos recipientes apropriados, assim ajudando a manter o ambiente escolar mais limpo. Na questão macro notamos que na escola havia sistema de coleta seletiva, e nas salas de aula havia recipientes próprios para descarte de cada tipo de material separado, porem eles desconheciam o destino desses resíduos depois que saiam da escola, o processo de separação e reciclagem. Sugerimos então que os alunos participassem ativamente da gestão dos resíduos da escola, e que levassem essa prática para seu cotidiano, praticassem em casa com o lixo doméstico. 5.3 Cuidados com a água. Um dos componentes mais importantes que possibilita a vida na terra é a água, sabemos ainda que para a manutenção do corpo humano precisamos da água doce, que por sua vez a encontramos numa quantidade muito menor em I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 72 relação à água salgada (oceânica). Um dos principais problemas ambientais enfrentado atualmente é a poluição de rios por esgoto doméstico principalmente nas grandes cidades. Sendo assim é muito importante preservamos os lençóis freáticos, mata ciliar, e evitar desperdícios no uso doméstico da água que chega a nossa casa. Esse tema também foi abordado com os alunos durante a discussão, chamamos a atenção deles para a relação entre as atividades industriais com o consumo de água, e a poluição causada pelo ritmo produtivo acelerado. Chamamos a atenção também para a falta de saneamento básico que algumas cidades ainda possuem, deste modo todo o lixo doméstico e esgoto acabam indo para rios e riachos poluídos e degradando o meio. Os alunos possuíam consciência que é preciso preservar rios e riachos e economizar a água potável que chega até nossas casas, além disso fizeram a relação da produção de lixo com poluição do meio e a degradação dos lençóis freáticos, relataram também casos em seu cotidiano de desperdício de água e que interviram. Foram assim incentivados a serem mais ativos nas “fiscalização” do uso da água em sua residência e no ambiente escolar, a se comprometerem com o racionalidade no uso desse recurso, e serem capazes de preservar os recursos naturais para as próximas gerações. 6 Conclusão. O documentário foi bem aceito pelos alunos, com uma participação total da sala. Ficou notório que os conceitos já trazidos pelos alunos se mostravam bem básicos e não críticos, já que a maioria deles já havia ouvido falar de Educação Ambiental, porém de forma bem simplória. Também que muitos não praticavam ações para a preservação do meio, ou seja, os alunos achavam que não havia meio concretos de participação na preservação do ambiente. A discussão propôs práticas que os alunos poderiam estar utilizando em seu cotidiano bem como esclarecendo mitos e enfatizando temas importantes e como reciclagem e o desperdício de água. Foi constatado que a prática que nos leva a preservação do ambiente pode ser aguçada principalmente na faixa etária em que os alunos se I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 73 encontravam também que há um conhecimento mesmo que básico em relação a Educação Ambiental, e que o grande paradigma é colocar em prática ações que viabilizem isso. Também que os recursos áudio visuais são uma excelente ferramenta de aprendizado, pois aproxima o aluno do mundo real, e também aprimora a relação aluno/professor, tendo em vista que ilustrando as discussões feitas em sala, auxilia e facilita o aprendizado. 7 Referências CASCINO, Fábio. Educação Ambiental: Princípios, história, formação de professores. 4ª ed. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2007. FERREIRA, Adriana Ribeiro.; ROSSO, Ademir José. Educação ambiental na escola: a visão dos professores e professoras de ciências e biologia acerca da formação necessária. In: Seminário Internacional “Experiência de agendas 21: os desafios do nosso tempo”. Ponta Grossa –PR, 2009. LOUREIRO, Carlos Frederico B; et al. Educação ambiental e gestão participativa em unidades de conservação. Rio de Janeiro: Ibase: Ibama, 2003 NEVES, J. L. Pesquisa qualitativa – características, uso e possibilidades. Cadernos de pesquisa em administração, São Paulo. V. 1, nº 3, 2ºsem. 1996. 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I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 74 ENSINO DE CONCEITOS AMBIENTAIS POR MEIO DE PRÁTICAS INOVADORAS PELA CONSCIENTIZAÇÃO, SENSIBILIZAÇÃO E PERCEPÇÃO NO ENSINO DE GEOGRAFIA Fábio César Martins Thiago José de Oliveira Graduandos em Geografia da UNESP/Câmpus de Ourinhos Márcia Cristina de Oliveira Mello Profa. Dra. Didática e Psicologia da Educação – UNESP/Câmpus de Ourinhos Resumo: Diante das inúmeras ações ofertadas pelo curso de Geografia do Câmpus da UNESP de Ourinhos, a formação pedagógica do geógrafo busca manter uma relação de forma articulada com a comunidade escolar local. Para isso, firmou-se uma parceria entre o Núcleo de Ensino da UNESP Ourinhos e a Escola Estadual Josepha Cubas da Silva, localizadatambém no mesmo município e que atende cerca de 480 alunos entre Ensino Fundamental II e Médio. Desde então, somam-se sete anos de contínuos projetos. As diversas atividades preconizadas fortalecem a articulação entre a pesquisa e o ensino, tentando reduzir assim a distância entre a formação técnica do bacharel e a formação do docente em Geografia. Dentre as mais variadas temáticas abordadas pelos projetos realizados, a questão ambiental se apresentou como potencialidade de articular e dinamizar o ensino de Geografia, de maneira a sensibilizar os alunos e a comunidade adjacente quanto a uma vida cidadã mais responsável e menos impactante ambientalmente. Os momentos vivenciados pelas práticas pedagógicas, segundo Mello (2013), desde o processo de diagnóstico da realidade, do planejamento e da elaboração das aulas, das pesquisas sobre determinados conceitos até o momento da avaliação do processo ensino-aprendizagem corroboram efetivamente para que a atividade docente seja encarada e compreendida como práxis. De maneira a integrar a realidade social a conteúdos escolares, a Educação Ambiental efetiva-se como um conceito interdisciplinar, pois reúne as mais variadas áreas do conhecimento, e essas quando integradas, proporcionam um olhar mais holística, o qual considera todas as propriedades de um todo e suas inter-relações. Com isso, sua eficácia dá-se através de bases teóricas que viabilizem e proporcionem uma melhor compreensão da práxis, utilizando para isso informações já existentes associadas à análises “in loco”. Partindo dessa premissa, o presente trabalho relata as atividades do projeto “Aulas de Geografia e atividades interdisciplinares na horta escolar da E.E. Josepha Cubas da Silva”, despertar nos alunos do ensino médio da EE, uma visão mais sensibilizada em relação à importância dos recursos naturais e seus usos conservacionistas- mais precisamente dos recursos hídricos – proporcionando assim um olhar mais analítico e crítico por parte dos alunos em relação ao seu espaço. Dado em duas etapas - teórica e prática - o trabalho resultou em observações e indagações por conta dos alunos quanto ao cumprimento das vigentes leis, e questionamentos sobre a reais relevância e eficácia das obras efetuadas no córrego Furnas e de seus afluentes, uma vez que os mesmos encontram-se retificados e canalizados. Palavras-chave: Conscientização ambiental; Práticas inovadoras em educação ambiental; interdisciplinaridade. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 75 Introdução Os momentos vivenciados pelas práticas pedagógicas, passando desde o processo de diagnóstico da realidade escolar, da pesquisa sobre novos conceitos, do planejamento e da elaboração de aulas até o momento da avaliação do processo ensino-aprendizagem contribuem para que as atividades docentes sejam efetivamente compreendida e vista como práxis (MELLO, 2013). Dentre as inúmeras ações oferecidas pelo curso de Geografia do Câmpus da UNESP de Ourinhos/SP, a formação pedagógica do licenciado em Geografia tenta se manter de forma articulada com a escola pública. Uma delas é a Escola Estadual Josepha Cubas da Silva, localizada também no município de Ourinhos/SP, onde durante sete anos de parceria tem contribuído para o desenvolvimento de projetos de integração e intervenções didáticas nas aulas de Geografia, fortalecendo também a formação inicial e continuada de professores. Desta forma, o texto tem como objetivo apresentar resultados do projeto “Aulas de Geografia e atividades interdisciplinares na horta escolar da E.E. Josepha Cubas da Silva”, aplicado nos anos de 2016 e 2017. Trata-se de relato contendo a forma de aplicação dos principais conceitos referentes à conservação ambiental e impactos ambientais, tomando como base a bacia hidrográfica do córrego Furnas (Figura 1). Buscamos praticar a transversalidade dos conceitos apresentados, apontando suas correlações, fomentando a interdisciplinaridade ,de forma a sensibilizar e despertar nos alunos da escola um olhar mais analítico e crítico. Educação ambiental e a interdisciplinaridade Buscando a construção de novos conceitos e mentalidades que possam corroborar para uma mudança paradigmática do saber, as questões ambientais possuem uma preocupação fundamental no que diz respeito ao papel da ciência e de suas técnicas, caracterizadas por novas e distintas abordagens. Bortolozzi e Perez Filho (2000). Tais mudanças nas formas de concepção de mundo apresentam-se necessárias visto que o exacerbado consumismo mundial – tendo sua gênese durante o século XVII na revolução industrial - se atenua ferozmente, não apenas aumentando veemente a geração de resíduos, mas também intensificando os I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 76 processos de expansão e crescimento urbano, que na maioria das vezes, em países emergentes, se sucedem de forma desenfreada e sem o devido planejamento e infra-estrutura básica. Elementos como transporte, habitação e saneamento ora são fornecidos precariamente, ora não são nem se quer oferecidos, portanto, nem sempre acompanhando seu crescimento demográfico. Tida como um tema transversal, ou seja, uma área que envolve conteúdos de diferentes frentes disciplinares, a Educação ambiental almeja enfatizar o estudo do meio ambiente em que o aluno encontra-se inserido, abordando situações e problemas já existentes para que ele possa refletir como os mesmos podem (ou poderiam) ser resolvidos ou mitigados; isso, visando a despertar e fomentar um envolvimento não só do aluno para com a temática mas, também da comunidade envolvida, buscando melhorias e soluções possíveis para um determinado problema e/ou questão. Esse despertar no indivíduo, conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN’s (1997), deve compor os conteúdos escolares, preconizando eleger a cidadania um eixo segmentado na educação escolar colocando-se: […] explicitamente contra valores e práticas sociais que desrespeitem aqueles princípios, comprometendo-se com as perspectivas e as decisões que os favoreçam. Isto refere-se a valores, mas também a conhecimentos que permitam desenvolver as capacidades necessárias para a participação social efetiva. (BRASIL, 1997, p. 25). . O principal papel da Educação ambiental é, segundo Cuba (2010), corroborar para a adoção de uma nova postura do indivíduo em relação ao meio em que se encontra inserido, e pautado nisto, a prática pedagógica deve se concentrar nas situações da vida social imediatamente mais próxima do aluno, lhe proporcionando um conhecimento da realidade a partir das experiências já vividas. Assumindo uma função cada vez mais transformadora nos envolvidos, segundo Jacobi (2013), a Educação ambiental (ou educação para a cidadania, como também denomina o autor) busca aguçar a responsabilização quanto às ações dos indivíduos no meio, de forma a procurar novas formas de desenvolvimento, de maneira a impactá-lo o mínimo possível. Este panorama deve almejar uma perspectiva holística de ações que “[…] relaciona o homem, a natureza e o universo, tendo em conta que os recursos naturais se esgotam e I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 77 que o principal responsável pela sua degradacão é o homem.” (JACOBI, 2013, p. 196). Em face do exposto, o presente trabalho elencou os seguintes conceitos norteadores: preservação e conservação ambiental, bacia hidrográfica, matas ciliares e áreas de preservação permanente (APP’s) e processos erosivos. A seguir abordaremos cada um de forma resumida. Preservação e conservação ambiental De grande utilização e aplicação atualmente,o termo “Preservação ambiental” refere-se em pormenores à uma conscientização em relação à importância dos recursos naturais para a vida terrestre. O conceito busca despertar no indivíduo a potencialidade dos impactos gerados pelo mesmo na natureza quando não utilizados seus recursos de maneira meticulosa e planejada, o que acarreta problemas ambientais como a geração e deposição de resíduos em locais inapropriados, poluição e contaminação hídrica, edáfica e atmosfera, desmatamento, dentre outros. Todavia, tais ações vão em sentido oposto aos princípios estabelecidos pela Lei federal de número 12.651, de 2012, que dispõe as Normas gerais sobre a proteção da vegetação em áreas de preservação permanente, áreas de nascentes e de reserva legal, o suprimento de matéria-prima florestal, a exploração florestal, o controle da origem tais produtos e o controle e prevenção dos incêndios florestais, além de prever instrumentos econômicos e financeiros para o alcance de seus anseios. De modo a efetivar o desenvolvimento sustentável, a lei endossa: I - Afirmação do compromisso soberano do Brasil com a preservação das suas florestas e demais formas de vegetação nativa, bem como da biodiversidade, do solo, dos recursos hídricos e da integridade do sistema climático, para o bem estar das gerações presentes e futuras. (BRASIL, 2012). Visto que o conceito de preservação pode ser confundido com o de conservação, mostra-se necessária também uma clara diferenciação entre os mesmos. O conceito de preservação define-se , segundo o Novo Dicionário da Língua Portuguesa (1983), como sendo o ato de resguardar algo ou pôr ao I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 78 abrigo. Ou seja, preservar significa manter intocado determinado bem ou recurso. Já a conservação implica no uso racional de um recurso qualquer, adotando formas de manejo de modo a obter rendimentos, garantindo a auto- sustentação do meio ambiente explorado. Bacias hidrográficas Tendo em vista que toda a água existente em nosso planeta pertence e percorre um ciclo (hidrológico), composto pela precipitação, infiltração, percolação, drenagem e evapotranspiração, sabe-se também que a intensidade e proporção de cada um desses fenômenos se dá de formas distintas e diferentes locais do planeta, isto é, a distribuição do recurso hídrico não possui uma homogeneidade. Sendo essa água utilizada para os mais diversos usos e finalidades, alguns impactos surgem decorrentes das ações antrópicas. Como seu consumo para tais atividades possui grande variância – dependendo do grau de concentração populacional e dos tipos de atividades – determinadas regiões, segundo Tundisi (2006) são consequentemente mais impactadas do que outras. O uso da água para fins de irrigação é hoje no mundo o mais ocorrente – 68% do total utilizado somente para esse fim no ano de 1995 - seguido do uso para fins industriais (23%) e uso doméstico (9%) (Raven et al, 1998 apud Tundisi, 2006). Para atender a essa demanda, apenas o uso das águas superficiais não supre-a, necessitando assim a exploração de águas subterrâneas, através da perfuração de poços para extração em aquíferos. Infere-se também a busca pela alternativa das águas subterrâneas ao alto índice de corpos hídricos superficiais poluídos e/ou contaminados, o que encarece ou impossibilita seu aproveitamento. Um corpo hídrico, ou corpo d’água, como descreve Melo (2008) refere-se a qualquer manancial de água, seja o trecho de um rio, uma lagoa, um lago, um reservatório, um aquífero ou um curso d’água. O autor ainda difere que um curso d’água trata-se de uma denominação geral para os mais variados fluxos de água ocorrentes em canais naturais de uma bacia hidrográfica, tais como riachos, ribeirões, córregos e rios. Para tanto, I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 79 ter conhecimento sobre suas formas de distribuição e disponibilidade, favorece uma melhor gestão de seus usos de forma a impactar menos o meio e evitar sua escassez. Diante do exposto, a Política Nacional de Recursos Hídricos (1997) dispõe como princípios: I - assegurar à atual e às futuras gerações a necessária disponibilidade de água, em padrões de qualidade adequados aos respectivos usos; II - a utilização racional e integrada dos recursos hídricos, incluindo o transporte aquaviário, com vistas ao desenvolvimento sustentável; III - a prevenção e a defesa contra eventos hidrológicos críticos de origem natural ou decorrentes do uso inadequado dos recursos naturais. (BRASIL, 1997). Dessa forma, a legislação estipula a bacia hidrográfica como sendo a unidade territorial para sua implementação. Ao adotar uma bacia hidrográfica como unidade de estudo, corrobora-se para um melhor gerenciamento dos recursos, funcionando como uma importante ferramenta para a tomada de decisões por parte de administrações públicas em relação ao meio ambiente e à ética ambiental (TUNDISI, 2003). Matas ciliares e áreas de preservação permanente Entende-se como matas ciliares as faixas de vegetação paralelas, de ambos os lados, ao longo de um corpo hídrico e/ou no entorno de uma nascente, tendo como escopo a proteção do curso e do solo no entorno, evitando sua poluição, a erosão e o assoreamento, uma vez que dificulta a chegada de dejetos e sedimentos ao curso. Além do mais, as raízes das plantas propiciam a retenção de água na área, contribuíndo relevantemente para evitar a escassez da mesma. Devido sua relevância na manutenção e conservação dos corpos hídricos, o artigo 4° da lei 12.651/2012, enquadra as matas ciliares como sendo áreas de preservação permanente (APP’s) e estipula valores mínimos para sua conservação, variando conforme o tipo do corpo hídrico e sua largura. A lei considera também como APP’s encostas ou partes destas com declividade superior a 45°, restingas, manguezais, bordas de tabuleiros e/ou chapadas, topos de morros, montanhas e serras com altura mínima de 100 (cem) metros e inclinação média maior que 25°, dentre outras. Tais áreas devem ser I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 80 “[…] mantidas pelo proprietário da área, possuidor ou ocupante a qualquer título, pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado.” (BRASIL, 2012). Ademais, o artigo 6° da referida lei alega também ser função das áreas de preservação permanente a contenção da erosão dos solos e a mitigação de enchentes e deslizamentos de terra. Processos erosivos Entende-se por erosão os processos de remoção de sedimentos formadores do solo e seu transporte para áreas distintas. Tais processos são ocasionados pela ação dos ventos (erosão eólica), dos rios (fluvial), do mar (marinha) e das chuvas (pluvial), sendo esta última a de maior destaque no presente trabalho. Todavia, isso ocorre segundo alguns condicionantes, isto é, fatores que desencadeiam tais processos, tais como a atuação direta da água das chuvas, o grau salutar e tipo da cobertura vegetal existente na área, além da gravidade – quando em encostas íngremes – e das atividades antrópicas exercidas na área, podendo assim acelerar a ocorrência de tais processos, dependendo ainda do tipo de uso e o manejo da terra. (GUERRA; MENDONÇA, 2004). A erosão pluvial ocorre em quatro estágios, sendo um sucessivo ao outro, quando na ausência de um controle sobre o mesmo. Inicia-se pelo efeito splash (ou salpicamento), em que o impacto da água das chuvas no solo exposto – despido de cobertura vegetal – desagrega as partículas do solo, ficando suscetíveis ao transporte. Posteriormente após a desagregação das partículas,o processo avança para a chamada erosão laminar, em que ocorre um escoamento difuso das águas pela superfície, removendo as camadas superficiais e mais férteis do solo. Não havendo uma contenção desse processo, progride-se a um ravinamento (ou erosão em ravinas), que caracteriza-se pelo escoamento concentrado das águas pluviais, aprofundando seu canal e ficando assim bem demarcado seu trajeto no solo. Posteriormente ao ravinamento, inicia-se o último estágio da erosão pluvial, a voçoroca. Trata-se de um ravinamento com maiores proporções e profundidade, em que a força das águas escavam até o limite máximo, ou seja, retiram o solo desde as camadas I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 81 superficiais até o nível freático, expondo-o no ponto mais baixo da voçoroca, o que por muitas vezes confunde-se com um manancial ou nascente. As principais causas dos processos erosivos se dão basicamente, pelo desmatamento das vegetações ripárias (vegetação próxima a corpos d’água) e pelo tipo de uso, seja ele para para fins pecuaristas e/ou para a agricultura. Todavia, Guerra e Mendonça (2004) apontam que o crescimento populacional e consequentemente a expansão territorial urbana, juntamente com a mineração e o aterramento de resíduos sólidos são fatores significativos para atenuar os processos erosivos. Metodologia Primariamente, iniciou-se um trabalho de sensibilização nos alunos quanto aos temas ambientais apresentados, à preservação e ao uso consciente dos recursos hídricos, sendo para tanto dividido em duas etapas, uma teórica realizada em sala, e uma prática com saída a campo. A primeira etapa foi desenvolvida através de aulas expositivas pelos graduandos em Geografia da UNESP Ourinhos e bolsistas do Núcleo de Ensino, Thiago Oliveira e Fábio Martins, quando apresentaram os devidos temas aos alunos, preconizando uma introdução aos conceitos, e uma complementação dos conteúdos curriculares (já apresentados anteriormente pela professora da disciplina de Geografia). Assim, dentre os dias 27, 28 e 29 de março de 2017, durante as aulas da disciplina de Geografia, utilizamos a sala audiovisual da escola, um televisor e datashow para elucidação dos temas. Ainda nesta etapa, com o auxílio da cartilha elaborada pelo Prof. Dr. Edson Luís Piroli, docente da UNESP Ourinhos - “Conhecendo e cuidando da Bacia Hidrográfica do Rio Pardo”, elaborada no ano de 2011, com o apoio da Pró-Reitoria de Extensão Universitária (PROEX) e da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (FAPESP) - explorou-se os referidos conceitos norteadores. Ocorrida no dia 02 de junho de 2017, a segunda etapa concretizou-se por meio do estudo in loco, momento em que foram visitados pontos estratégicos que possibilitaram uma análise do entorno da escola, envolvendo análise dos corpos hídricos do bairro (Figura 1). Foram utilizadas também faixas e cartazes I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 82 confeccionados pelos próprios alunos com mensagens de sensibilização ambiental. Durante o trajeto, partindo em direção ao primeiro ponto – deságue de um dos afluentes do Furnas – foram recapitulados e analisados in loco os conceitos trabalhados na primeira etapa, além da observação de outros fatores como, tais como a vegetação no entorno da área, a periculosidade da calha canalizada à população que transita pela área, o índice de assoreamento do canal, a quantia de lixo depositado no canal e seu entorno e, a qualidade da água e as diferentes tonalidades antes e depois de seu deságue com o principal curso do córrego Furnas. Seguindo a montante analisamos, no segundo ponto de visita, indicadores da qualidade ambiental do entorno como as matas ciliares, o uso e ocupação das margens do córrego, a presença de vegetação exótica e invasora, além do descarte de resíduos nas margens. Foram observados bancos de sedimento no canal do córrego, oriundos dos processos erosivos ocorridos a montante do córrego, resultando em tais pontos de assoreamento. No terceiro ponto, também a montante do córrego Furnas – local que se iniciou a obra de canalização – notou-se a presença de vegetação nativa na porção de solo que antecede o concreto do canal, bem como uma menor velocidade na vazão do curso nessa porção. Entretanto na porção seguinte, essa velocidade se atenua, o que fomentou a discussão sobre a força que o curso pode adquirir numa determinada chuva mais intensa. A nível de exemplificação, foram apresentados os dois casos de óbitos ocorridos no município de Ourinhos em dias de chuva forte, com extravasamentos ocorridos em 2014 e 2015 nos córregos Christone e Monjolinho respectivamente. Foram elencados também diferentes usos no entorno da área, tais como residências em áreas de proteção permanente, armazenamento de equinos e cultivo de hortaliças. Na chegada ao quarto ponto observamos como, de fato, seria o curso natural do córrego sem a canalização e, por tratar-se de uma área privada (mesmo indo na contramão da legislação ambiental) fora requerido - e cedido - o acesso pelo proprietário à área de afloramento onde evidencialmente encontramos uma das nascentes do córrego (Carta Topográfica de Ourinhos folha SF-22-Z-A-VI-3; IBGE, 1973). O proprietário, que entrevistamos no local, I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 83 relatou ainda sobre o que os processos de canalização ocasionaram à sua área, dentre eles a diminuição do nível de água e rebaixamento da nascente, o que lhe impediu de cultivar hortaliças. Figura 1 – Representação da bacia hidrográfica do córrego Furnas, sua localização no município de Ourinhos/SP, seus afluentes, o trajeto realizado e os pontos de parada para análise e discussão. Fonte: MARTINS, 2017. No entorno da área, ocupada por construções domiciliares, observamos os destroços de um muro que possivelmente tenha cedido devido ao solo bastante encharcado, principalmente em épocas chuvosas. O ponto trata-se de uma área de fundo de vale, de uma bacia hidrográfica com vertentes de contornos côncavos, o que favorece o escoamento das águas pluviais (BLOOM, 1970 apud CASSETI, 2005). I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 84 Considerações finais Diante do exposto, o presente trabalho propiciou uma troca singular de informações, não somente entre graduandos e alunos, mas também envolvendo pais de alunos e demais integrantes da equipe da E.E. Josepha Cubas. Na primeira etapa, notou-se um conhecimento prévio dos alunos quanto aos assuntos apresentados - uma vez já introduzidos na disciplina de Geografia – e um sutil desconhecimento sobre a presença de tais condições em seus bairros de origem, ficando exposta a ínfima percepção dos alunos para com as paisagens vivenciadas cotidianamente, as intervenções estruturais no meio natural, e os impactos gerados pelas mesmas. Já na segunda etapa, resgatando os conceitos da anterior, fora possível elucidá-los conforme o percurso através de visões e análises amplas (gerais) em cada ponto visitado, observando cada componente de seu entorno, sua origem, interferências e impactos causados à área de influência e/ou ao curso. Visto que o artigo 8° da Lei Florestal Brasileira de número 12.651/2012, estipula que a intervenção ou a suspensão da vegetação nativa em APP’s somente deve ocorrer em hipóteses de interesse social, de utilidade pública ou de baixo impacto ambiental, tais observações e conhecimentosdespertaram a curiosidade nos alunos em relação ao não cumprimento da lei; indagou-se o porquê de tais áreas – apesar de serem de extrema importância para a vida de um curso d’água e protegidas legalmente – serem ocupadas livremente, e os principais motivos da canalização do córrego, se existiriam e quais seriam seus reais e efetivos benefícios ao curso e à população. REFERÊNCIAS CASSETI, V. Geomorfologia. Disponível em: <http://www.funape.org.br/geomorfologia/>. Acesso em:. 23 jul. 2017. 2005. BORTOLOZZI, A; PEREZ FILHO, A. Diagnóstico da Educação ambiental no ensino de Geografia. Cadernos de pesquisa, v. 109, p. 145-171, 2000. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/cp/n109/n109a07>. 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I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 86 FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE GEOGRAFIA NO INSTITUTO DE EDUCAÇÃO DA USP PARA A ESCOLA SECUNDÁRIA BRASILEIRA (1930- 1960) Márcia Cristina De Oliveira Mello UNESP-Curso de Geografia-Câmpus de Ourinhos FAPESP (Processo n. 2014/01139-5) Resumo: A formação de professores secundários para atuar na escola paulista ganhou caráter propriamente universitário com a criação da Universidade de São Paulo (USP), em 1934. O Instituto de Educação integrado à USP desde sua origem, exclusivamente pela sua “Escola de professores”, assumiu compromisso com a formação dos primeiros docentes da área de humanidades, incluindo os professores de Geografia [e História]. Apresentam-se resultados parciais da pesquisa intitulada ‘‘Orientações metodológicas destinadas aos professores de Geografia para o ensino secundário da escola paulista (1934-1960)“. A pesquisa tem como objetivos identificar e compreender quais orientações metodológicas receberam os primeiros professores de Geografia para atuar na escola paulista, entre os anos de 1934 e 1960. Trata-se de pesquisa de fundo histórico, documental e bibliográfica desenvolvida por meio de procedimentos de identificação, reunião, organização e análise de fontes documentais. Enfatizam- se as orientações utilizadas enquanto “matrizes” teóricas de formação, advindas especialmente das disciplinas pedagógicas - Metodologia do ensino secundário; Psicologia educacional e Didática. Assim, buscamos compreender em que medida o curso de formação da USP contribuiu para promover a reflexão sobre a relação teoria e prática pedagógica no ensino de Geografia, dicotomia ainda presentes nos dias de hoje no processo de formação docente. Palavras-chave: formação de professores; Didática da Geografia; escola secundária Introdução A formação de professores secundários para atuar na escola paulista ganhou caráter propriamente universitário com a criação da Universidade de São Paulo (USP), em 1934. O Instituto de Educação integrado à USP desde sua origem, exclusivamente pela sua “Escola de professores”, assumiu compromisso com a formação dos primeiros docentes da área de humanidades, incluindo os professores de Geografia [e História]. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 87 Apresentam-se neste evento resultados parciais da pesquisa intitulada ‘‘Orientações metodológicas destinadas aos professores de Geografia para o ensino secundário da escola paulista (1934-1960)“10. Objetivos e metodologia A pesquisa tem como objetivos identificar e compreender quais orientações metodológicas receberam os primeiros professores de Geografia para atuar na escola paulista, entre os anos de 1934 e 1960. Trata-se de pesquisa de fundo histórico, documental e bibliográfica desenvolvida por meio de procedimentos de identificação, reunião, organização e análise de fontes documentais. Enfatizam-se as orientações utilizadas enquanto “matrizes” teóricas de formação, advindas especialmente das disciplinas pedagógicas - Metodologia do ensino secundário; Psicologia educacional e Didática. Assim, buscamos compreender em que medida o curso de formação da USP contribuiu para promover a reflexão sobre a relação teoria e prática pedagógica no ensino de Geografia, dicotomia ainda presentes nos dias de hoje no processo de formação docente. Resultados preliminares contendo as características do primeiro curso de formação docente em Geografia e História ministrado pela USP O decreto n. 6.283, de 25 de janeiro de 1934, que criou a USP regulamentou seus oito institutos oficiais, dentre eles a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras que abrigou o curso de Geografia e História. Matricularam-se, no ano de 1934, 24 seletos alunos, dos quais sete foram diplomados em 1936 (USP, 1937; 1958). De 1936 a 1960 formaram-se 384 professores, dentre eles nomes ilustres que se projetaram no cenário nacional como Aroldo Edgard de Azevedo, Carlos 10 Pesquisa desenvolvida junto ao curso de Geografia da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP ) - Câmpus de Ourinhos, articuladamente a linha de pesquisa ‘‘Formação de professores“, do GPHELLB. Conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), registrada sob processo n. 2014/01139-5, com vigência de 01/03/2017 a 28/02/2019. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 88 Drumondde Andrade, Aziz Nacib Ab-Saber, José Orlandi, João Dias de Silveira e Amélia Americano Franco de Castro. O curso tinha a duração de três anos e sua grade curricular era organizada da seguinte forma: Quadro 1 - Grade curricular inicial do curso de Geografia e História da FFCL da USP 1º ano Geographia11 geral Geographia econômica História da Civilização (antiga e medieval) 2º ano Antropogeographia Geographia econômica do Brasil História da civilização (moderna e contemporânea) História da América (inclusive pré- histórica) 3º ano Antropogeographia (especialmente do Brasil) História da América História da civilização brasileira Fonte: Decreto n. 6.283, de janeiro de 1934. Para a formação do geógrafo a grade curricular contemplava disciplinas das áreas de física e humanidades com referencial teórico “[...] provenientes de uma tradição majoritariamente positivista que exaltava o surgimento de zonas pioneiras e a luta contra a natureza, vinculadas a diferentes áreas do conhecimento (História, Direito, Literatura, Jornalismo, Engenharia, Militar, entre outras), ajudaram a promover fundamentos teóricos-metodológicos da “Geografia moderna brasileira”. (PIRES, 2012, s.p.). O corpo docente reunia em sua primeira composição professores franceses, entre eles Pierre Deffontaines (1894-1978) e Pierre Monbeig (1908- 1987), que subsidiaram os estudos geográficos brasileiros. Estes professores pretendiam formar uma geração de geógrafos capazes de reunir e analisar questões geográficas relacionadas ao território nacional, a paisagem, ao relevo, ao clima, a hidrografia etc. articuladas aos fatos dos fenômenos humanos. 11 Mantemos a ortografia de época nas transcrições diretas das fontes documentais. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 89 Concomitantemente ao 3º ano do curso, os inscritos na seção de Geografia e História podiam matricular-se no Curso formação pedagógica do professor secundário. Por sua vez, o Instituto de Educação buscava a formação docente articulada com as bases da “Pedagogia moderna”, representada pelo movimento escolanovista. O entrecruzamento entre as características das teorias pedagógicas e da formação específica do geógrafo favoreceu a circulação de orientações metodológicas destinadas aos professores que subsidiaram a elaboração de programas de ensino para a escola secundária e a produção de manuais de ensino. Nadai (1994) observa que o Instituto de Educação foi uma das respostas institucionais frente as propostas do Manifesto dos pioneiros da Educação Nova, já que nele Fernando de Azevedo, relator do Manifesto, propunha colocar em prática um projeto pioneiro de formação docente em nível superior em nosso país, considerando a “variante paulista” dos estudos universitários, que se organizava com potencialidade para assumir papel como centro de investigação e de pesquisa. O decreto estadual número 7.067, de 6 de abril de 1935, estabeleceu que no Instituto de Educação o ensino se daria por meio de cursos normais e extraordinários. Dentre os primeiros estavam o Curso de administradores escolares; o Curso de formação pedagógica de professores secundários; e o Curso de formação de professores primários. O curso destinado à formação pedagógica de professores secundários tinha a duração de um ano, compondo o modelo de formação docente conhecido como “três mais um”. Em “História da formação de professores” Tanuri (2000) nos lembra que este modelo correspondia aos três anos dedicados aos estudos apresentados pelas disciplinas de conteúdos específicos da área de formação, mais um ano dedicado para a formação do licenciado. Conforme relata Nadai (1994) o próprio Fernando de Azevedo conceituou o Instituto de Educação como o laboratório do sistema educacional paulista da época, também algo próximo a um centro de pesquisas. Conforme consta no quadro abaixo o curso de formação docente era composto pelas seguintes disciplinas: I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 90 Quadro 2 – Disciplinas do primeiro curso de formação pedagógica de professores secundários do Instituto de Educação, da Universidade de São Paulo Primeiro semestre Segundo semestre Biologia educacional applicada ao adolescente Historia e Philosophia da educação Psychologia educacional Educação secundaria comparada Sociologia educacional Methodologia do ensino secundário Methodologia do ensino secundário Fonte: Artigo 6º da secção IV do decreto n. 7.067, de 1935. A disciplina de Metodologia do ensino secundário era comum para os dois semestres do curso. Seu programa de ensino (USP, 1935a) constava de cinco temas descritos abaixo. I- Natureza e significado do ensino secundário. II- O princípio do ensino secundário: a cultura geral e o despertar do espírito crítico, preparação para a vida. III- O professor e o ensino secundário: preparação, função, a disciplina intelectual e moral a que ele deve se impor. IV- O contato moral e mental com os alunos. V- O professor secundário no meio social. Dada a especificidade dos saberes técnicos e profissionais da profissão docente, para a contratação do professor catedrático da disciplina de Metodologia do Ensino Secundário, não houveram inscritos, ficando a vaga em aberto até 1936. Conforme indica o decreto n. 7.067, de 1935, o corpo docente deveria ser composto por professores catedráticos; docentes livres; auxiliares de ensino; e professores contratados. Assim, para a disciplina de Metodologia do ensino secundário “[...] foram contratados Paul Arbousse Bastide e Dora de Barros Pastorino, o primeiro como regente e a segunda como auxiliar de ensino.” (NADAI, 1994, p. 160). O professor de Metodologia do Ensino Secundário deveria contar com o apoio de outros docentes – tantos fossem as Secções apresentadas – para tratar das Metodologias Especiais. Nas primeiras décadas, elas foram tratadas sob I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 91 forma de conferências, com a colaboração da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e se destinavam a “complementar, por especialistas de cada uma das matérias das escolas secundárias, o curso de formação techinica e profissional do professor de ensino secundário.” Em geral os professores discorriam sobre “a importância da história da disciplina, isto é, a trajetória de sua constituição, o programa escolar e a metodologia do ensino das matérias de sua especialidade. (p. 165). Para a abordagem sobre a “Metodologia do ensino de Geografia” foi escolhido o geógrafo francês Pierre Monbeig que se tornou o primeiro docente da USP a sistematizar orientações metodológicas aos futuros professores de Geografia. As orientações foram ministradas em forma de conferência proferida no salão nobre do Jardim da Infância, do Instituto de Educação. Posteriormente o renomado professor se envolveu no debate sobre o ensino de Geografia, integrando uma comissão da Associação dos Geógrafos do Brasil (AGB) para sugerir um programa para o ensino da Geografia no ensino secundário. O programa e as orientações metodológicas foram publicados nos artigos “ O ensino secundário da Geografia”, em 1935 e “A Geografia na escola secundária” , em 1945. A familiaridade de Monbeig com a temática se deve possivelmente por sua sólida formação na Universidade de Paris em Letras (1927), Geografia Geral (1928) e História e Geografia (1929), aliada ao fato de que em seu país atuou como professor do ensino secundário no Liceu de Caen (USP, 1935). As orientações metodológicas de Monbeig envolviam:- não fazer uso excessivo da memória; - buscar uma Geografia “racional e inteligente”; - entender a Geografia enquanto uma disciplina de cultura geral; enquanto estudo da realidade imediata; e estudo da relação entre o homem e a natureza; - utilizar recursos e processos didáticos como mapas, fotografias, leituras, observações, e excursões geográficas. - partir do local na compreensão dos fenômenos geográficos para compará-los com regiões mais distantes. As orientações de Monbeig contribuíram para a formação de um “novo profissional” atrelada ao panorama da era do capitalismo, da urbanização e industrialização que exigia novos rumos à educação, Assim, se por um lado o I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 92 curso da USP “[...] originou-se marcado pela dualidade em sua formação: conteúdo científico, formação cultural de um lado e pedagógico, metodológico e técnico, de outro.” (NADAI, 1994, p. 157), algumas ações fortaleciam a formação pedagógica, cujo foco se dava no último ano do curso. Certamente as tentativas de integração entre a formação específica do geógrafo e a pedagógica dialogavam intimamente com as bases teóricas da disciplina de Psicologia educacional, que em sua gênese contou com os esforços de Lourenço Filho (1897-1970) e Noemy da Silveira Rudolfer (1902-1980). Considerações finais As características do curso primeiro curso de formação docente em nível superior da USP, com destaque ao de Geografia [e História] permitem compreender determinadas “matrizes” de ordenação de um campo que em sua origem se preocupou com o preparo científico do professor e sua prática educativa. Do seleto grupo de formandos surgiu uma geração de brilhantes geógrafos e professores para atuar na escola secundária paulista. O curso da USP contribuiu para regular a ordem das práticas pedagógicas em Geografia em nosso país e ao mesmo tempo fomentou debates que favoreceram a organização do próprio currículo da escola secundária. Certamente as “matrizes” de regulação do campo quanto as propostas de formação se tornaram “variantes” quanto aos usos e possibilitaram avanços, como por exemplo, a superação do projeto de formação proposto por Fernando de Azevedo. Referências Decreto n. 6.283, de janeiro de 1934. Cria a Universidade de São Paulo e dá outras providências. Decreto n. 7.067, de 06 de abril, de 1935. Aprova o regulamento do Instituto de Educação, da Universidade de São Paulo. NADAI, Elza. Fernando de Azevedo e a formação pedagógica do professor secundário: o Instituto de Educação. Revista da Faculdade de Educação, São Paulo, p. 151-172, jan./dez. 1994. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 93 PIRES, Hindenburgo Francisco. Prefácio. In: CUSTÓDIO, Vanderli (Org.). Fundamentos teóricos-metodológicos do ensino e da pesquisa em Geografia: textos selecionados das primeiras publicações da Associação dos Geógrafos brasileiros (AGB) – Geografia (1935-1936) e Boletim da AGB (1941-1944). São Paulo: AGB, 2012. TANURI, Leonor Maria. História da formação de professores. Revista brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 14, mai/jun./jul./ago. 2000, p. 61-88. UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP). Anuário Universidade 1934-1935. São Paulo, 1935. _______. Archivos do Instituto de Educação, São Paulo, ano I, n. 1, set.1935a. _______. Archivos do Instituto de Educação, São Paulo, ano III, n. 3, p 137, mar. 1937. ______. Anuário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras até 1951. São Paulo, 1958. Bibliografia consultada MONBEING, Pierre; AZEVEDO, Aroldo de; CARVALHO, Maria da Conceição V. de. O ensino secundário da Geografia. Geografia, São Paulo, ano I, n. 4, p. 77-82, 1935. MONBEING, Pierre. A Geografia no Ensino secundário. Boletim geográfico, São Paulo, ano III, n. 26, p. 163-171, maio 1945. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 94 HOMEM DO CAMPO, EDUCAÇÃO E RELAÇÕES ECONÔMICAS Donizeti Aparecido Mello FATEC-Ourinhos Faculdades Integradas de Ourinhos (FIO) Resumo: Ao focar a temática “recuperação do solo” para alunos provenientes do campo optamos pela utilização da metodologia dialética como alternativa didática à formação de adultos conscientes, que não só venham buscar soluções tecnológicas competitivas para o desenvolvimento de negócios no meio rural, mas que também tenham conscientização socioambiental frente as relações econômicas. Para tanto desenvolvemos investigação de natureza analítica sobre conteúdos de ensino e atividades que permitam aos alunos desenvolver a capacidade de realizar análises de viabilidade econômica, identificação de alternativas de captação de recursos, beneficiamento, logística e comercialização de produtos agrícolas, a partir do domínio dos processos de gestão e das cadeias produtivas. O objetivo deste texto é apresentar os resultados do encaminhamento didático que visou a relacionar o tema “benefícios líquidos da recuperação do solo” e o desenvolvimento econômico sustentável. A investigação envolveu alunos, de instituição de ensino de Ourinhos, município brasileiro, localizado no estado de São Paulo, cuja atividade agrícola se destaca na economia local. Os resultados da pesquisa apontam que se o manejo sustentável do solo é um desafio para a ciência e a tecnologia, assim como para a definição de políticas agrícolas, torna-se necessário problematizar com os adultos provenientes do campo, por meio da metodologia dialética de ensino, alguns manejos sustentáveis de solo que possam apontar uma direção lógica para definir a probabilidade de sustentabilidade pela conexão da forma e uso do solo, com uma série de fatores econômicos, ambientais e sociais. Dentre os conteúdos de ensino alguns temas se destacam, entre eles os custos operacionais envolvendo insumos, mão de obra, máquinas e implementos agrícolas. Em busca de encaminhamentos didáticos para o desenvolvimento dos conteúdos de ensino, utilizamos a problematização enquanto uma das etapas da metodologia dialética. Nesta etapa foram elaboradas as seguintes questões: O que são custos? Quais os elementos que os constituem e como se classificam? O que significa rotação de cultura? Quais são as vantagens e desvantagens desse processo? Sabendo que os benefícios econômicos da rotação de cultura, podem ser observados apenas a longo prazo pois, a produtividade dos produtos agrícolas não é estática e a forma de contabilizar os custos podem simplesmente não contemplar as perdas do solo, como por exemplo, a erosão, a salinização, a deterioração e a contaminação dos recursos naturais, qual sua análise sobre a questão? Você conhece alguma situação em que o produtor agrícola sofreu algum tipo de problema em consequência do uso inadequado do solo? Para teorizar sobre essas questões problematizadoras, buscamos referenciais de diferentes áreas do conhecimento, assim, tanto o professor quanto os alunos puderam investigar, detalhar e refletir sobre as questões elencadas em suas diferentes dimensões. Desta forma, a educação cumpre seu papel social na busca de um planeta mais sustentável. Torna-se importante assim, que o homem do campo tenha acesso as informações para compreender as formas de uso dos recursos naturais, suas I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 95 propriedades e distribuição espacial relacionando com desenvolvimento econômico local sustentável. Palavras-chave: homem do campo; educação; relações econômicas Introdução O curso superior de Tecnologia em Agronegócio é oferecido pelo Centro Paula Souza, vinculado à Secretaria de Desenvolvimentodo Estado de São Paulo. Na unidade de Ourinhos/SP o curso teve início em 2008 e tem por objetivo “Formar profissionais com competências tanto em tecnologias de gestão, quanto de produtos e processos, visando o entendimento das principais questões relacionadas ao Agronegócio brasileiro [...]” (CENTRO PAULA SOUZA, 2011, p. 1). Para tanto, as disciplinas da grade curricular do curso encaminham conteúdos e atividades que permitem análises de viabilidade econômica, identificação de alternativas de captação de recursos, beneficiamento, logística e comercialização de produtos agrícolas, a partir do domínio dos processos de gestão e das cadeias produtivas. O curso totaliza 2.880 horas envolvendo atividades didáticas em disciplinas, estágio curricular e Trabalho de Conclusão de Curso. Dentre as disciplinas existentes oferecemos a de “Custos e orçamentos no Agronegócio”. Na busca de encaminhamentos metodológicos possíveis encontramos na metodologia dialética, especialmente nas premissas da Pedagogia Histórico-crítica, um caminho interessante para o processo de ensino-aprendizagem. Tal metodologia prevê a problematização das práticas sociais como ponto de partida - e de chegada - para a construção de conceitos pertinentes a temática de ensino. Objetivos e metodologia Buscamos apresentar os resultados do encaminhamento didático aplicado na disciplina de “Custos e orçamentos no Agronegócio” que visou a relacionar o tema “benefícios líquidos da recuperação do solo” e o desenvolvimento econômico sustentável. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 96 A investigação envolveu adultos provenientes do campo, dentre outros perfis, que frequentam instituição de ensino superior de Ourinhos, município brasileiro, localizado no estado de São Paulo, cuja atividade agrícola se destaca na economia local. Sendo assim, é importante que o curso superior escolhido pelos discentes ofereça não só conhecimentos sobre as tecnologias do mundo rural mas também dê oportunidade de uma formação preocupada com o cuidado com a relação homem-natureza, para além dos benefícios econômicos e financeiros provenientes do uso do solo. Assim, no ano de 2013 envolvemos 56 alunos que frequentavam a disciplina em estudo de caso longitudinal, cujas observações se iniciaram no começo do ano letivo, se estenderam durante as aulas e foram concluídas ao final do ano letivo. As temáticas das aulas eram apresentadas por meio de problematizações envolvendo as diferentes dimensões do conhecimento. Feitas as questões os alunos puderam investigar, detalhar, refletir e apresentar considerações sobre as questões elencadas. Alguns resultados: problematizando o tema “benefícios líquidos da recuperação do solo” nas aulas do curso de Agronegócio da FATEC de Ourinhos/SP Quando abordamos nas aulas o tema “benefícios líquidos da recuperação do solo”, tivemos a preocupação de destacar as vantagens ambientais da diminuição do uso de insumos químicos quando se realiza a rotatividade de culturas, pois, consideramos importante que o futuro profissional tenha elementos que possibilitem elaborar estratégias e análises econômicas que considerem o fator ambiental, no uso racional dos recursos naturais. Assim, na problematização da aula (ou da sequência didática) encaminhamos as seguintes questões: 1) O que são custos no Agronegócio, quais os elementos que os constituem e como se classificam? 2) O que significa rotação de cultura? Quais são as vantagens e desvantagens desse processo? 3) Sabendo que os benefícios econômicos da rotação de cultura, podem ser observados apenas a longo prazo, pois, a produtividade dos produtos agrícolas não é estática e a forma de contabilizar os custos podem simplesmente I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 97 não contemplar as perdas do solo como, por exemplo, a erosão, a salinização, a deteriorização e a contaminação dos recursos naturais, qual sua análise sobre a questão? 4) Você conhece alguma situação em que o produtor agrícola sofreu algum tipo de problema em consequência do uso inadequado do solo? Para teorizar sobre essas questões problematizadoras, buscamos referenciais de diferentes áreas do conhecimento, dentre elas escolhemos o conceito de planejamento da aula na perspectiva da Pedagogia Histórico-crítica, conforme Saviani (2008a; 2008b). Tal postura teórica possibilita que as questões relativas ao seu ensino sejam pensadas de acordo com uma metodologia que sugere uma didática a partir de cinco momentos articulados, a saber: prática social inicial, problematização, instrumentalização, catarse e prática social final dos conteúdos. Tal metodologia tem como ponto de partida e chegada a problematização. A partir deste referencial didático aperfeiçoado por Gasparin (2011), iniciamos uma sequência didática investigando o que os alunos já sabiam sobre o tema “rotação e sucessão de culturas”. Num segundo momento desta sequência, focamos na problematização apresentada anteriormente. Foi um momento de “desestabilização” no grupo porque para responder as questões iniciais os alunos precisariam pesquisar mais sobre o assunto, a partir de um referencial teórico adequado. Assim, no terceiro momento da sequência didática – a instrumentalização – passamos a investigação científica, dentro e fora da sala de aula. Os resultados da investigação por parte dos alunos, somados a própria pesquisa do docente possibilitaram compreender que a produção de alimentos sempre foi uma preocupação mundial, fato relacionado ao recorrente crescimento populacional (SEDIYAMA, 2009). A necessidade de produzir cada vez mais alimentos faz com que muitos métodos sejam aperfeiçoados no sentido de aumentar a produção vegetal, mas muitas vezes esses métodos prejudicam o meio ambiente, devido a grande quantidade de insumos químicos utilizados no manejo do solo. A grande utilização de insumos químicos pode aumentar os custos de produção, o que compromete os benefícios líquidos esperados na produção agrícola, principalmente entre os pequenos produtores rurais, que é o caso da realidade do município de Ourinhos, localizado no interior do Estado de São Paulo. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 98 Constatou-se também, nas investigações, que a produção da soja e do milho constitui uma importante base econômica e social para a maioria dos pequenos e médios produtores rurais do município, sendo que a produção desses grãos destinam-se principalmente para a alimentação humana e animal, bem como para a geração de energia. Os produtores rurais realizam o plantio dessas duas culturas temporárias principalmente na forma de sucessão de culturas, fazendo o plantio de maneira sequencial, utilizando para a recuperação do solo a aplicações de insumos químicos. A aplicação dos insumos químicos faz aumentar a produtividade agrícola em um curto período de tempo, porém, a longo prazo, causam danos ao solo e ao meio ambiente, tendo como consequências o comprometimento da sua produção gerando queda na produtividade o que afetam economicamente os produtores, devido ao aumento dos custos de produção. Os alunos concluíram que com o passar dos anos ocorre a queda na produção desses grãos e o aumento dos custos de produção devido ao emprego de mais insumos químicos para a manutenção e recuperação do solo, com isso muitos produtores, principalmente os pequenos, acabam por migrar para a produção de outras culturas, como por exemplo, a mandioca, sorgo, feno e outras culturas, tendo em vista reverter os prejuízos econômicos causados pela queda na produção. A partirdo conhecimento adquirido, passamos ao quarto momento da sequência didática – a catarse – que foi desenvolvida por meio de um debate entre dois grupos da sala; um deles defendeu a prática da rotação de culturas e o outro a de sucessão de culturas. Expostos os argumentos os alunos foram avaliados de forma individual e coletiva, por meio da expressão verbal. Como sabemos ao final desta metodologia temos a prática social final dos conteúdos, ou seja, como imaginamos que os alunos irão se portar frente aos desafios do mundo, do mercado de trabalho e da própria existência humana. Esperamos que em decorrência da metodologia dialética os alunos possam aplicar no futuro campo profissional a utilização do solo de maneira racional e consciente, auxiliando os produtores na solução de possível problema na queda na produção, o que diminui o risco econômico e financeiro. A rotação de culturas apresenta-se como uma boa alternativa para a preservação e I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 99 recuperação do solo, pois, diminui o uso de insumos químicos, que são substituídos pelo aproveitamento dos fatores naturais propiciados pela rotatividade de culturas como o milho, a soja, o feijão e a braquiária. Conclusões Os encaminhamentos que apresentamos referentes a parte das atividades desenvolvidas na disciplina “Custos e orçamentos no Agronegócio”, possibilitaram a reflexão sobre os desafios de o professor buscar alternativas metodológicas adequadas na relação com o cotidiano de suas práticas e a sociedade. Encontramos nos pressupostos da “Didática para a Pedagogia Histórico- crítica” uma possibilidade de desenvolver o processo de ensinar e aprender articulado com os problemas da sociedade que vivemos. Com uma intencionalidade definida a partir do “mundo rural”, o que um curso que forma tecnólogos em Agronegócios pode contribuir para que tenhamos melhores relações entre o homem e a natureza? Entre a natureza e as relações de trabalho? Os resultados apontam que se o manejo sustentável do solo é um desafio para a ciência e a tecnologia, assim como para a definição de políticas agrícolas, torna-se necessário problematizar com os adultos provenientes do campo, por meio da metodologia dialética de ensino, alguns manejos sustentáveis de solo que possam apontar uma direção lógica para definir a probabilidade de sustentabilidade pela conexão da forma e uso do solo, com uma série de fatores econômicos, ambientais e sociais. Dentre os conteúdos de ensino alguns temas se destacam, entre eles os custos operacionais envolvendo insumos, mão de obra, máquinas e implementos agrícolas. Acreditamos que além de uma análise econômica que identifique os benefícios líquidos da sucessão e rotação de culturas na região de Ourinhos/SP, existe a necessidade de planejamento racional do uso do meio ambiente que é extremamente importante para o futuro tecnólogo. A metodologia dialética, especialmente em sua faceta “problematização”, se aproxima de nossas inquietações e de nossa intencionalidade didática. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 100 REFERÊNCIAS CENTRO PAULA SOUZA. Governo do Estado de São Paulo. Administração Central. Projeto do Curso Superior de Tecnologia em Agronegócio. São Paulo, 2011. GASPARIN, J. L. Uma didática para a Pedagogia Histórico-crítica. Campinas: Autores Associados, 2011. SAVIANI, D. Escola e democracia: teorias da educação, curvatura da vara, onze teses sobre a educação política. 40. ed. Campinas: Autores Associados, 2008a. ______. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. Autores associados: Campinas, 2008b. SEDIYAMA, T. Tecnologias de produção e usos da soja. Londrina: Macenas, 2009. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 101 LIBRAS NA CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE ALIMENTOS – CRIAÇÃO DE UM GLOSSÁRIO Gabriely Rodrigues Alves Discente do curso: Técnico em Alimentos IFPR Instituto Federal do Paraná (Campus Jacarezinho) gabrielyrodriguesalves1302@gmail.com Ana Clara Garrido dos Santos Discente do curso: Técnico em Alimentos IFPR – Instituto Federal do Paraná (Campus Jacarezinho) anngarrid@gmail.com Bruna Gomes Dalanhese. Professora do ensino básico, técnico e tecnológico do Instituto Federal do Paraná IFPR (Campus: Jacarezinho) bruna.delanhese@ifpr.edu.br Resumo: No atual sistema educacional brasileiro as leis garantem a inclusão de alunos com deficiência no ensino comum. Contudo, constata-se um alto índice de evasão destes estudantes e até mesmo um número ínfimo de ingressos em cursos técnicos e superiores, destacando-se neste ínterim os surdos, pois não estão recebendo uma educação adaptada as suas necessidades. Pensando-se nessa problemática foi elaborado o projeto de um glossário em Libras na área técnica em alimentos que tem como objetivo a criação de sinais para promoção da inclusão e acessibilidade dos sujeitos surdos. Quanto à metodologia utilizada optou-se pesquisa qualitativa, onde após cuidadosa seleção dos termos técnicos da área de ciência e tecnologia de alimentos, os membros reuniram-se com um surdo voluntário e iniciou-se o processo de criação dos sinais específicos. Obtendo-se como resultado até o presente momento a criação de oito sinais. Destaca-se ainda, que, foram baixas as dificuldades de compreensão em relação aos termos específicos da área, apesar de não ser o campo de formação do surdo, podemos observar que é uma questão de oportunidade e inclusão para que haja um aprendizado amplo e abrangente. Palavras- Chave: Libras; termos técnicos: educação inclusiva. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 102 Introdução A educação para surdos cada vez mais vem ganhando destaque educacional, entretanto pessoas com surdez ainda estão com sofrendo com a falta de acessibilidade no quesito comunicação nos diversos âmbitos, em especial no acadêmico. Onde é importante citar a educação bilíngue, é necessário primeiramente uma educação em que a primeira língua seja a Libras e a segunda a língua Portuguesa. Conforme apontam Souza e Silveira (2011) P. 38: O principal aspecto que necessita ser aprimorado para que a educação bilíngue efetivamente tenha sucesso, é a criação de sinais específicos para diversas áreas do conhecimento, pois, essas áreas ainda não possuem sinais específicos em libras (língua brasileira de sinais) que os identifique, fazendo com que muitos intérpretes¹ experientes usem a datilologia e/ou sinal soletrado para expressá‐lo ou convencionar junto com os surdos alguns sinais que, por vezes não refletem o real significado do termo na língua portuguesa e em outras línguas utilizadas para descrever fenômenos científicos. Quando se trata de inclusão, é difícil abranger todos contextos, uma vez que a inserção de pessoas com deficiência não gira em torno apenas de uma única lacuna. É importante ressaltar que para que haja uma inclusão real é imprescindível que tenha um interação de todos os envolvidos, é um conjunto de ações e meios para uma finalidade prática geral. Sendo assim, tendo em vista, que os estudantes surdos não aprendem por vias auditivas e sim através da língua de sinais o aprendizado da libras como primeira língua para o surdo é fundamental para o entendimento dentro do âmbito escolar e o desenvolvimento de modo pleno em todos as esferas, seja educacional ou social. Nesse contexto, os alunos surdos deveriam ter acesso pleno aos conteúdos científicos das disciplinas técnicas (SOUZA;SILVEIRA,2011). No entanto, a carência de sinais específicos para estas áreas do conhecimento acarretam problemas no ensino do conteúdo de tais disciplinas, ocasionam barreiras linguísticas, ausência de agilidade e incoerência nas situações interpretativas. Diante disso, essa pesquisa tem como propósito o desenvolvimento de termos específicos da área técnica em alimentos, de modo que possa haver um I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 103 contato maior dos surdos com a área técnica, que muitas vezes possuem termos muito específicos que não são de fácil entendimento. Sendo assim, foram utilizados como base de pesquisa autores como: Lacerda, Souza e Silveira, Slomski, entre outros que discorrem sobre o tema. Até o presente momento não existe um glossário de libras para cursos técnicos em alimentos, o que torna o trabalho como primeiro na criação e elaboração de sinais para a área. De modo que foi estruturado um grupo de pesquisa cuja função consistiu em organizar e selecionar os termos técnicos para os quais a criação de sinais é fundamental. Consequentemente tem-se como objeto do trabalho a criação de um glossário de libras para a área de alimentos, visando a integração desses indivíduos a essa área a partir dos sinais que servirão para expressá-los. Os resultados parciais obtidos com a colaboração do surdo, se deram após o mesmo entender o conceito dos elementos-chave e assim criou os sinais. Referencial teórico 1.1 – Implicações da educação de surdos no ensino atual: Ao longo da História, a educação de surdos apresentou diferentes abordagens e desafios, não pela libras em si, mas sim pela falta de ponderação em torno do conjunto. Tal conjunto envolve o surdo em si, sua língua e a educação. O contexto histórico está relacionado diretamente ao desenvolvimento das minorias, pois comumente era descrita como primeira língua o português e segunda língua a libras o que dificultou significativamente o avanço de uma educação inclusiva. Fazendo um breve passeio pelas raízes da educação de surdos, podemos constatar que, desde os primórdios, é um tema que gera muita polêmica. A priori, tinha-se a visão de que as pessoas surdas não eram educáveis. Na Antiguidade, o filósofo Aristóteles julgou-as incapazes de usarem a razão, pois, se não falavam não tinham linguagem, tampouco pensamento. Esse veredicto de Aristóteles permaneceu por séculos sem que ninguém questionasse, assim, tinham uma vida de negação e exclusão social. (DAMAZIO & ALVES, 2010, GUARINELLO, 2007, MAIA FILHO &VELOSO, 2010, PEREIRA et al., 2011). De acordo com Soares (1999, p:20) a verdadeira educação de surdos iniciou-se com Pedro Ponce De Leon em 1520, na Europa, ainda dirigida à I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 104 educação de filhos de nobres. Leon era da ordem Beneditina e, em um mosteiro, tinha muitos alunos surdos, onde se dedicava ao ensino da fala, leitura e escrita. Sendo assim, observa-se que o ensino dos surdos possuía diferentes abordagens que eram definidas por aqueles que se propunham a educa-los. Dentre estes, destacam-se Heinicke e L`Epée. O conhecido “pai do oralismo puro” ou “método alemão”, Samuel Heinicke (1729-1790) foi o responsável pela base da filosofia oralista, onde a fala e a língua falada era considerada a única fonte do conhecimento. Heinicke fundou uma escola para surdos-mudos em 1778, que inicialmente tinha nove alunos, onde o método utilizava de um processo lento com distintas entonações na voz para facilitar a compreensão dos alunos. (STROBEL, 2009, p. 21) Entretanto, o cenário educacional dos sujeitos surdos, também recebeu suas contribuições do Abade Charles-Michel de L’Epée (1712-1789), considerado o “pai dos surdos”, que começou o estudo de surdos a partir de duas irmãs surdas que se comunicavam por gestos. Após estudar sobre os surdos de Paris e sua comunicação, L’Epée começou a ensinar os surdos em sua própria casa, mesclando a língua de sinais com a gramática francesa, os chamados sinais metódicos. Mesmo recebendo muitas críticas ao seu método de ensino, L’Epée fundou a primeira escola pública para surdos, instruindo também professores para os surdos. Método esse que mostrou ser benéfico para os surdos e foi coroado pelo êxito, pois até sua morte, Charles-Michel de L’Epée fundou 21 escolas para surdos em toda a Europa.(SKLIAR, 2013) Diante das diferenças existentes nessas abordagens, os educadores dos sujeitos surdos buscaram uma unidade no ensino e diante da marcantes contradições definem a realização de um congresso com o objetivo de decidirem qual seria a melhor abordagem metodológica para o ensino dos surdos. Dessa forma, tem-se a realização do Congresso de Milão de 1880, o qual representa um marco na história da educação dos surdos, pois define que o ensino deve ser pautado no oralismo, tal como o afastamento dos profissionais surdos do meio escolar e colocou a língua de sinais como um tipo de mímica e inferior às línguas faladas, proibindo-a de ensinada e utilizada pelos surdos no mundo. (SKLIAR, 2013, p. 36) Essa decisão do Congresso de Milão, ou seja, o uso do oralismo puro imperou por quase um século. Os aspectos relacionados à escolarização dos I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 105 surdos foram relegados a segundo plano, dando ênfase à reabilitação, a cura da surdez, ou seja, os alunos tinham que aprender a falar e “ouvir” por meio da leitura labial, as escolas passaram a ser clínicas e os alunos pacientes. Assim, a maioria dos surdos se perpetuou na escola, no entanto, as respostas para a ocorrência desse fracasso não foram justificadas em propostas educacionais inadequadas ou em não oferecer condições necessárias para os alunos surdos construírem o conhecimento, “mas foram justificadas como inerentes à condição da deficiência auditiva, e não como possibilidade diferenciada de construção gerada por uma forma de organização linguístico- cognitiva diversa”. (FERNANDES, 1998. P.163 apud GUARINELLO, 2007, p.56). Notoriamente sem sucesso, iniciou-se o uso de outra abordagem denominada Comunicação Total, que segundo Capovilla, (2008), essa abordagem advogava o uso da fala, dos sinais, mímica, enfim, o uso de todos os meios que pudessem facilitar a comunicação, com o aluno surdo, contudo, a língua de sinais permanecia sendo relegada. Mais uma vez, os surdos permaneceram sem adquirir o conhecimento científico e sendo negligenciados no que diz respeito ao desenvolvimento pleno. De modo que, foi necessário ceder espaço para uma nova filosofia, o Bilinguismo, que defende que a criança surda deve ter acesso à língua de sinais e à língua oral, mas não simultaneamente. Assim, a língua de sinais será a sua língua materna e a língua oral a segunda língua. (FREITAS, 2016). Salientando que o português deve ser ensinado para o surdo na modalidade escrita e isso permitirá com o mesmo se desenvolvera nas esfera social e educacional. 1.2 Estudo para surdos no Brasil O INES foi a primeira escola para surdos no Brasil, fundada pelo surdo francês Ernest Huet com o apoio de dom Pedro II, em setembro de 1857. O Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) é referência para a formação dos indivíduos surdos até os dias atuais (GESSER, 2006. P. 37). Desde a fundação do INES, os sinais eram bastante utilizados na formação dos alunos, porém em 1880 no Congresso de Milão foi declarada a proibição do uso da linguagem de sinais para a escolarização dos surdos, defendendo o oralismo e I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR CampusJacarezinho Jacarezinho/ PR 106 a língua falada o que refletiu na educação dos surdos brasileiros, pois essa abordagem educacional também fora aplicada nas escolas de todo o Brasil obtendo, também, o fracasso como resultado Já na década de 1960, o Brasil adotou a prática do bimodalismo que se tornou comum em muitos estados brasileiros, onde surdos frequentavam escolas públicas e compartilhavam a sala de aula com alunos ouvintes. Como os professores não conseguiam êxito em se comunicar e ensinar os alunos surdos essa prática se mostrou inviável, afinal usar duas línguas de gramática e concordância diferentes não é possível. (MARINHO, 2007 p. 20) Sendo assim, mais mudanças ocorreram, e a educação dos surdos no Brasil foi marcada significativamente nas décadas de 1980 e 1990, pois foi nesse período que a estrutura da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS, passou a ser estudada, através de muitos trabalhos científicos. Isso gerou muitos conhecimentos acerca da lingua de sinais, e consequentemente, avanços na educação dos indivíduos surdos (CARMONA, 2015, p. 26). Com o crescente desenvolvimento de pesquisas educacionais e interesse nos debates sobre educação, diferença e identidades, questionamos os efeitos de tais descrições dos sujeitos surdos. Concordamos que se faz necessário descrever, para fins de implementação de uma política de educação de surdos, quem são esses sujeitos e como eles se comunicam, mas corremos o risco de, ao reduzirmos as descrições do fator língua, manter binarismos e reforçar processos de in/exclusão, tanto entre surdos e ouvintes quanto entre os próprios surdos (SILVA; KLEIN, 2010, p. 127) Diante de tantas tentativas, o povo surdo se organizou e passou a lutar pela educação que desejam receber, vendo suas ações de luta como uma resistência a educação até então imposta pelos ouvintes. Neste sentido, Souza, 1998. P.91 explicita sobre os movimentos surdos: Simboliza uma vitória contra os ouvintes que consideravam a eles, surdos, incapazes de opinar e decidir sobre seus próprios assuntos e entre eles, sublinha o papel da linguagem de sinais na educação regular. Desnuda, ainda, uma mudança de perspectiva, ou de representação discursiva, a respeito de si próprios: ao alterarem a denominação “deficientes auditivos”, impressa na sigla FENEIDA, para “Surdos”, em FENEIS, deixam claro que recusavam o atributo estereotipado que normalmente os ouvintes ainda lhes conferem, isto é, o de serem “deficientes”. A partir dessas lutas, conquistadas se repercutindo no cenário brasileiro e provocando mudanças na educação dos sujeitos surdos. O primeiro direito I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 107 proclamado pelo Congresso Nacional foi a sanção da Lei 10.436 de 24 de abril de 2002 onde a língua brasileira de sinais foi reconhecida como a língua dos sujeitos surdos e a definiu. Entende-se como Língua Brasileira de Sinais - Libras a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constituem um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil. (BRASIL, 2002). Dando apoio e regulamentando a lei libras (10436/02) há o decreto 5626/05 que abrange de modo específico à educação dos surdos, os profissionais necessários bem como os direitos. Desse decreto, ressaltam-se: Art.14° As instituições federais de ensino devem garantir, obrigatoriamente, às pessoas surdas acesso à comunicação, à informação e à educação nos processos seletivos, nas atividades e nos conteúdos curriculares desenvolvidos em todos os níveis, etapas e modalidade de educação, desde a educação infantil até à superior.(BRASIL, 2005) Observa-se assim, que a educação a esse grupo específico deve ser assegurada em todos os níveis e modalidades em sua língua materna - libras, língua brasileira de sinais, explicita ainda a importância do tradutor/intérprete de libras, do instrutor surdo e do professor bilíngue, da necessidade dos docentes em sala de aula estarem ciente das singularidades linguísticas dos alunos surdos para o respeito à diversidade e realização das adequações necessárias. Observa-se que decreto 5626/05 pode ser considerado como um “guia” na educação dos surdos, de modo que os pontos nele explicitados não podem ser desconsiderados. Outras conquistaram continuaram acontecendo na educação dos surdos, como a regulamentação da profissão do tradutor/intérprete de libras 12.319/10) e recentemente os seus direitos foram reafirmados na lei da inclusão (14.136/15). Essa legislação evidencia que os surdos persistem lutando para que se respeite seu direito de ter acesso aos conhecimentos e informações em sua língua, a Libras. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 108 2. Porque a acessibilidade na escola é importante para o indivíduo surdo? Diante das dificuldades apresentadas no cenário inclusivo, observa-se que a inclusão dos surdos gera grandes polêmicas, pois implica no uso de uma língua com gramática própria e de modalidade diferente, a visual espacial. Assim, Skliar aponta: O que fracassou na educação dos surdos foram as representações ouvintistas acerca do que é o sujeito surdo, quais são seus direitos linguísticos e de cidadania, quais são suas teorias de aprendizagem que refletem condições cognitivas dos surdos, quais as epistemologias do professor ouvinte na sua aproximação com os alunos surdos, quais são os mecanismos de participação das comunidades surdas no processo educativo, etc. (Skliar, 2013, p.18). Embora a presença do intérprete seja um ponto positivo na inclusão do aluno surdo, é preciso estar atento, pois isso não garante o aprendizado, é preciso observar nem sempre os conceitos são compreendidos. A linguagem científica sofre transformações para adequar-se ao contexto da sala de aula, nesse processo, algumas características da cultura científica são mantidas, outras não. Esse é um aspecto essencial a ser considerado quando nos referimos à visão de ciência veiculada no sistema escolar. Afinal, ao lado de outros meios de interação envolvidos nas diferentes atividades realizadas em aulas de ciências a linguagem empregada nas mesmas contribui para a formação da ideia do que é ciência por parte dos alunos. (CARMONA apud CARVALHO, 2004, p. 60) Destaca-se ainda que poucas pesquisas na área da surdez preocupam- se com disciplinas técnicas e áreas do conhecimento que não seja a língua portuguesa, o que torna o processo inclusivo ainda mais desafiador e as barreiras mais difíceis de serem transpostas. ... discute-se menos ou não se discute a educação dos surdos como um todo. Isto é, com exceção do português, faltam pesquisas nas buscas por estratégias para o ensino de matemática, inglês, geografia, redação, química, física, etc. Em geral, tais estudos são realizados de forma independente por educadores que recebem estudantes surdos em suas classes e compreendem a necessidade de buscar meios para lhes assegurar o acesso à informação e ao conhecimento de sua disciplina. (LACERDA apud OLIVEIRA, 2005, p. 14) I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 109 Outro ponto que reflete diretamente no aprendizado é a falta de sinais específicos para diversas áreas do conhecimento. Conforme Lacerda (2011, p.155), afirma, “não existem termos correlatos para todos os conceitos e vocabulários específicos”, até mesmo para palavras elementares observa-se a falta de sinais. Pensando-se nas reflexões disseminadas por autores renomados da área da surdez e objetivando contribuir noprocesso inclusivo de estudantes em áreas técnicas foi elaborado no Instituto Federal do Paraná – IFPR, campus Jacarezinho, um projeto que visa a criação de específicos para a área Ciência e Tecnologia de Alimentos. Metodologia A presente pesquisa tem ênfase qualitativa, ou seja, o foco neste tipo de pesquisa encontra-se no significado e não em dados estatísticos. (Gil, 1999). Sendo assim, o trabalho se desenvolveu a partir da constatação da inexistência de sinais na área técnica de alimentos. De modo que foi elaborada uma lista com palavras específicas da área sendo depois criados os sinais, esses termos são incomuns no cotidiano por se referirem à área técnica de alimentos. Logo após a escolha, foi feita a definição e passada para a coordenadora que transmitiu para o surdo voluntário os conceitos em língua de sinais, tornado possível a compreensão através da libras e a criação dos sinais. Dessa forma procurou-se não apenas inserir os sinais, mas também exemplifica-los e explicá-los de forma clara. Buscando assim fazer com que a inclusão não seja apenas uma ideologia teórica mas um ato concreto que nos cerca e rodeia. Conclusão Pensando-se na importância de promover acessibilidade e contribuir para um processo inclusivo eficaz, até o momento foram criados 8 sinais, para os seguintes termos: colorímetro, pHmetro, mesa agitadora, banho-maria, bloco digestor, destilador de nitrogênio, reagentes químicos e estufa de secagem. Neste processo destaca-se que houve uma interação grande do surdo, bem como houve uma compreensão do assunto recorrente, o que tornou possível observar que mesmo não sendo uma área de domínio do mesmo, houve I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 110 interesse para que assim pudesse ser explanado o conhecimento e a realização dos termos. O projeto colaborou também para a compreender que a inserção de pessoas surdas é de suma importância nas áreas técnicas, e que a inclusão está ligada diretamente ao âmbito escolar fazendo assim com que o interesse do estudante surdo seja maior de acordo com as oportunidades e para que suas necessidades como individuo sejam atendidas com um olhar atento. Ressalta- se que a inserção não está ligada apenas em inserir o surdo, mas sim em ver suas dificuldades, ajudá-las a serem superadas e integrá-lo a sociedade ao redor a essa questão, possibilitando que não só o surdo aprenda mas que todos compreendam a importância de se respeitar as singularidades de cada indivíduo de modo a promover uma relação de equidade e consequentemente a tão almejada inclusão. Referencias BISOL, Cláudia Alquati; SIMIONI, Janaína; SPERB, Tania Mara. Contribuições da psicologia brasileira para o estudo da surdez. Psicologia: reflexão e crítica. Porto Alegre. Vol. 21, n. 3 (set./dez. 2008), p. 392-400., 2008. 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I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 112 O CURRÍCULO PARA O ENSINO SECUNDÁRIO DA GEOGRAFIA PROPOSTO POR MARIA CONCEIÇÃO VICENTE DE CARVALHO (1906- 2002) Geyce Iris Goering Maia geycegoering@hotmail.com Márcia Cristina de Oliveira Mello marciamello@ourinhos.unesp.br João Luiz Cuani Junior jcuanijr@hotmail.com Resumo: A pesquisa tem como objetivo apontar características do currículo para o ensino de Geografia para a escola secundária paulista entre os anos de 1939 e 1960. Tal currículo proposto pelos primeiros professores de Geografia, formados na primeira Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da Universidade de São Paulo (USP). Sob o olhar histórico, a investigação nos proporciona identificar metodologias, inovações educacionais, aplicações e principalmente os sujeitos que pensaram o currículo de Geografia à época, como é o caso da Maria Conceição Vicente de Carvalho, que foi uma importante geógrafa formada nesse período trazendo diversas perspectivas para a educação, entretanto, pouco estudada e lamentavelmente pouco reconhecida. A partir dos anos de 1930 o Brasil é submetido à uma lógica econômica específica, dando prioridade para uma implantação da lógica urbano-industrial. Após a revolução de 1930 ocorreram grandes modificações em relação as necessidades educacionais. O governo de Getúlio Vargas criou o ministério da Educação e Saúde Pública, cujo primeiro ministrofoi o Francisco Campos, que dentre suas medidas criou a FFCL, onde foram formados os professores do ensino secundário. A formação pedagógica se dava no Curso de formação de professores secundários, com disciplinas como Didática Geral, Didática Especial, Psicologia Educacional, Administração Escolar, Fundamentos Biológicos da Educação e Fundamentos Sociológicos da Educação. Portanto, o aluno tinha uma formação científica na área de atuação, para depois obter uma formação pedagógica. A formação do professor secundário a cargo do Instituto de Educação deveria realizar-se no esquema conhecido como três mais um. A ex-aluna do curso Maria Conceição Vicente de Carvalho, uma dos membros da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) contribuiu para a reforma do Ensino Secundário da Geografia à época. Ela nasceu em Santos, em 1906. Foi uma importante geógrafa, que estudou o porto de Santos, sob a orientação do professor Pierre Monbeig. Matriculada na seção de Geografia e História da FFCL da USP, em 1934 como ouvinte, e formada no ano de 1939, obteve o primeiro título de doutora em Geografia em 1943, embora tivesse sofrido dificuldades como mulher por enfrentar postos mais altos na carreira. Foi membro do Conselho Nacional de Geografia (CNG). No final de sua carreira lecionou como titular no curso de História da Universidade Estadual Paulista (UNESP), Câmpus de Marília, de 1959 à 1972. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 113 Palavra-chave: Ensino de Geografia, currículo escolar da Geografia; Maria Conceição Vicente de Carvalho Introdução Para compreendermos como era abordada a Geografia na escola no início do século XX é significativo entender o contexto histórico do Brasil, uma vez que esta ciência poderia ser aplicada para satisfazer interesses políticos organizacionais e ideológicos. A Revolução de 1930, que terminou com a República das Oligarquias e tirou do poder o presidente Washington Luiz para a entrada de Getúlio Vargas, com a ajuda dos militares, foi marcada por conflitos militares. Naquele período houve um desenvolvimento industrial considerável, que impulsionou o processo de produção, fato que refletiu no pensamento pedagógico nacional, pelo fato de que era necessário uma escola para atender a nova sociedade que se constituía. Dentre os intelectuais da época que contribuíram para a constituição de uma identidade nacional destacamos a geógrafa Maria Conceição Vicente de Carvalho (1906-2002). Atuou a partir dos anos de 1930, período com relações de mudanças nas políticas educacionais na produção do conhecimento no campo da história do ensino de Geografia e que contribui na compreensão de alguns problemas relacionados ao processo de uma política de implementação de uma “cultura pedagógica” considerada “moderna”, com transformações nas práticas pedagógicas que aspiravam a ‘’ Projetos de educação”. 1. Formação e atuação de Maria Conceição Vicente de Carvalho Maria Conceição Vicente de Carvalho nasceu em Santos, no Estado de São Paulo, em 1906. Tinha 12 irmãos. Em 1927 foi diplomada pela Escola de Engenharia do Instituto Mackenzie em Química Industrial. No ano de 1934 matriculou-se na primeira turma da seção de Geografia e História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da Universidade de São Paulo (USP) como aluna ouvinte. Em sua turma foram matriculados 16 alunos e 8 ouvintes. Em 1935 publicou junto com Pierre Monbeig e Aroldo de Azevedo o texto “O I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 114 ensino secundário da Geografia”, transcrito na seção “Crítica e notas”, da revista editada pela Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB). No texto os autores trazem a proposta de dar orientações para o currículo do ensino secundário da Geografia, em momentos em que se iniciaram as discussões sobre a incipiente Geografia brasileira. Esta geógrafa foi licenciada ano de 1939. Naquele ano 14 alunos foram diplomados pela FFCL da USP em Geografia e História. Entre 1939 e 1945 foi assistente da Cadeira de Geografia e História na FFCL. Com a diplomação das primeiras turmas de Geografia e História houve a entrada de pessoal qualificado, em nível universitário, para atuar nas escolas. Em 1946, no Rio de Janeiro, foi nomeada Geógrafa do Conselho Nacional de Geografia. Durante 1948 e 1958 foi professora de Geografia Humana na Universidade Católica no Rio de Janeiro. Foi privilegiada com a bolsa do Governo francês, na Universidade de Paris, no período de 1951 a 1952. Maria Conceição Vicente de Carvalho foi uma importante professora titular de Geografia no curso de História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Júlio de Mesquita Filho, câmpus de Marília, entre 1959 e 1972, finalizando assim sua carreira. 1.2 Os estudos da tese de doutorado Maria conceição Vicente de Carvalho Maria Conceição Vicente de Carvalho defendeu sua tese de doutorado intitulada “Santos e a Geografia humana do litoral Paulista”, contendo 228 páginas, no dia 23 de novembro de 1944, sob orientação do professor Pierre Monbeig. Esta obra se encontra disponível em dois exemplares físicos na Biblioteca da FFCLH da USP, sendo que um não está em condições de uso. Trata-se de um estudo de caso na cidade de Santos, enfocando dentre os aspectos humanos a distribuição e organização habitacional dos povoados nas faixas costeiras da praia. E a partir da ciência geográfica, a autora buscou compreender a formação da paisagem, porém tendo que recorrer a outras ciências tanto sociais como físicas para analisar melhor a relação do homem com natureza, aspecto importante para a nascente Geografia brasileira. Dentre os diversos conceitos apresentados na tese, trouxe o diálogo entre a Geografia humana e a Geografia física, como por exemplo, topografias I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 115 litorâneas, clima solo e vegetação, águas e o relevo submarino, generalidades, densidades e as etnias. Dando importância a situação em que a cidade se encontra, analisou a fragmentação das cidade em seus bairros e as suas funcionalidades sob influência das pessoas no contexto social e histórico. Relatou também as dificuldades que as pessoas encontravam quando das tentativas de sucesso econômico. O parâmetro da construção da linha férrea e a dinâmica de relação que a cidade de Santos estava inserida devido a localização de um porto ativo e de extrema importância que era utilizada por grande parte dos Brasileiros tanto na exportação como na importação. 1.3 A memória de Maria Conceição Vicente de Carvalho Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, geógrafo literário, foi um dos predecessores da Climatologia brasileira que analisa o espaço e as organizações sociais por trabalhos de Guimarães Rosa e Shakespeare. Em uma entrevista no mês de maio de 2010 para a Fundação de amparo a pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) declarou que a Geografia daquela época tinha uma visão positiva por estar vivendo processos de mudanças. Antes de 1935 já haviam geógrafos sem conhecimento universitário, eram autodidatas e exercitavam nos institutos geográficos e históricos, normalmente eram formados em engenharia, medicina, direito como Raja Gabaglia, que era professor do Colégio Pedro II, e Delgado de Carvalho. Com muito orgulho cita que ele foi da geração de geógrafos revolucionários que fizeram da Geografia moderna, uma ciência que descrevia e explicava os aspectos diversos da superfície da Terra. No Congresso Internacional de Geografia, em 1956, apresentou esta nova geração de geógrafos, do IBGE, da universidade e da AGB.Os professores iniciantes de Geografia, História, Sociologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras vieram da França, em uma época que Geografia e História não eram separadas. Estes geógrafos organizaram cinco excursões, um para cada região do Brasil. Os geógrafos renomados foram recebidos nas casas das famílias de elite do Rio de Janeiro, como da Anna Amélia Carneiro de Mendonça e do Marcos Carneiro de Mendonça. Em outra entrevista concedida por Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, em 21 de fevereiro de 2014, I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 116 encontramos relatos de sua forte amizade com Maria Conceição Vicente de Carvalho, que dedicou o último livro ‘O Cristal e a Chama” a ela e a Olga Leite Pinho Buarque de Lima. Maria Conceição, filha do poeta Vicente de Carvalho, é lembrada também por ter trabalhado para com Delgado de Carvalho, na seção cultural, no período que ele estudou Geografia. Ressalta-se também o fato de ter sido a primeira mulher a concluir o doutorado na Geografia do Brasil, em 1944, fato que dizia com orgulho - “esse título ninguém pode me tirar”. 2. A contribuição de Maria Conceição Vicente de Carvalho ao ensino de Geografia De acordo com Monbeig, Azevedo e Carvalho (1935), enquanto membros da Associação de Geógrafos Brasileiros (AGB) buscaram contribuir com a reforma do ensino secundário. Na proposta indicaram quais conteúdos e quais formas de se aplicar os conteúdos geográficos em cada uma das séries da escola secundária. Assim, indicaram que para a primeira série os professores deveriam considerar que os alunos ainda eram muito jovens, teriam dificuldades em compreender abstrações quando da apresentação dos conceitos, portanto, era viável o professor expor a aula baseada nas dinâmicas locais do espaço em que o aluno estava inserido. Para a segunda série foi indicado ao professor não restringir o aluno a memorização de nomenclaturas, rios, estados etc. As nomenclaturas deveriam ser conduzidas para que o aluno se localize durante a explicação de algum fenômeno. Já na terceira série considerando o aluno com certa maturidade para absorver determinados conteúdos, o professor deveria buscar fugir de assuntos inúteis e instigar discussões abordando assuntos do seu país do ponto de vista econômico e político. Na quarta série, deveria existir mais enfoque nos assuntos já discutidos, além de ampliar as possibilidades para preparar os estudantes para os exames de ingresso para o curso superior. E por fim, o aluno egresso da quinta série, já a poucos meses de entrar prestar os exames para ingresso na faculdade, poderia se tornar um cidadão formado em busca de aperfeiçoamentos. Desta forma, segundo a proposta dos autores o objetivo do ensino da Geografia para a escola secundária seria transmitir, com I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 117 serenidade, quais são as questões econômicas, com suas relações políticas, que se apresentam ao seu país e ao mundo inteiro. Ainda se trata, no presente caso, de ministrar uma cultura geral e de formação para a cidadania. Abaixo listamos os temas de ensino propostos por Maria Conceição Vicente de Carvalho e colaboradores para a escola secundária. Primeira série ELEMENTOS DE COSMOGRAFIA E DE GEOGRAFIA FÍSICA, BIOLOGICA E HUMANA: Universo. Sistema solar. Terra. Lua. Linhas e círculos da esfera terrestre. Longitude e latitude. Dias e noites. Estações. Orientação Estrutura da Terra. Relevo. Costas.Oceanos e mares.Rios e lagos. Atmosfera: o clima e as grandes zonas climáticas. Distribuição dos vegetais e dos animais sobre a Terra. IV. População da Terra. Raças. Religiões. Graus de civilização. Segunda série GEOGRAFIA GERAL DOS CONTINENTES: Estudo dos continentes (America, Europa, Ásia, África, Oceania). Situação geográfica. Relevo. Costas. Hidrografia. Climas. Riquezas naturais. Populações. Divisões políticas. Principais centros urbanos. Recursos econômicos. Dentro de cada continente serão estudados com maior minúcia os principais países, a saber: Estados-Unidos, Canadá,Argentina, Ilhas França, Alemanha, países da Europa Central, Itália,países Ibéricos, U. R. S. S., Japão, China, índia, Egito, União Sul-Africana, Austrália e Nova Zelândia. Terceira série GEOGRAFIA GERAL DO BRASIL: Situação geográfica. Fronteiras terrestres. Relevo. Costas. Hidrografia.Climas. Riquezas naturais. População. Formação territorial e questões de fronteiras. Governo. Produtos agrícolas. Criação de gado. Indústrias extrativas. Vias e meios de comunicação e de transporte. Comercio. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 118 Geografia regional, focalizando as feições físicas, a evolução histórica e os problemas econômicos e socais de cada uma das seguintes regiões: Brasil Septentrional,Brasil Norte-Oriental, Brasil Oriental, Brasil Meridional e Brasil Central. Quarta série COSMOGRAFIA E GEOGRAFIA FÍSICA, BIOLOGICA E HUMANA: A Geografia: histórico, conceito e divisão. Sistema solar. Terra. Coordenadas geográficas. Movimentos da Terra. Mecanismo das estações. Crosta terrestre: origem e composição. Eras geológicas. As fôrmas do relevo; tectônica e erosão. Oceanos e mares. A água do mar. Movimentos do mar. Relevo submarino. Rios. Lagos. Atmosfera: temperatura e pressão. Meteoros. Climas. Geografia Humana: conceito e objeto. Raças. Línguas e religiões. O homem e o meio: gêneros de vida e graus de civilização. Habitações. Centros urbanos. Centros de povoamento: fronteiras e movimentos da humanidade. O Estado e suas fôrmas. Fins político-econômicos dos Estados. Moveis políticos das potências. Política internacional contemporânea. Culturas alimentícias. Plantas industriais. Criação de animais. Caça e pesca. Explorações minerais. Utilização das forças naturais. Vias e meios de comunicação e de transporte. PARTE PRATICA: Leitura de cartas topográficas. Leitura de cartas meteorológicas. Explicação de estatísticas e de gráficos. Excursões. Quinta série GEOGRAFIA DOS PRINCIPAIS PAÍSES: Estudo especial de cada uma das seguintes potências, nas suas feições físicas e políticas particulares, salientando em cada uma delas os problemas de natureza social ou econômica que mais lhe caracterizam a vida internacional. Império Britânico (ilhas Britânicas, Canadá, União Sul-Africana, índia, Australia e Nova Zelandia), Franca e colônias (África do norte e Indo-China), Bélgica e Holanda, Suissa, Alemanha, países da Europa Central,Italia, Portugal, U. R. S. S., Japão, China, Estados Unidos, Argentina, e o Brasil perante as principais potências. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 119 Considerações finais Realizar este estudo nos possibilitou compreender as relações de mudanças ocorridas no currículo de Geografia para a escola brasileira. Focamos as orientações metodológicas destinadas aos professores de Geografia para o Ensino Secundário da Escola Paulista de 1934 a 1960. Assim, foi possível identificar que a proposta curricular era aplicar uma Geografia física, biológica e humana, com elementos da astronomia descritiva. O estudo da paisagem natural dos continentes ganhava ênfase. Focava-se no estudo das condições da natureza, especialmente o caso do Brasil, também ensinava-se sobre o desenvolvimento de polos produtivos, agrícolas ou industriais e as cidades. Do ponto de vista metodológico eram incentivadas as leituras de cartas topográficas, de cartas meteorológicas, o uso de gráficos e as excursões. Nasséries finais era orientado que o professor ensinasse para os alunos os aspectos econômicos, políticos e sociais dos países considerados potências, que influenciavam na dinâmica internacional. Estas são algumas das contribuições que Maria Conceição Vicente de Carvalho elaborou para o ensino de Geografia, dessa maneira ela amplia a possibilidade de conhecimentos para os alunos na época e que ainda hoje podemos utilizar forma para aperfeiçoar a aplicação a Geografia nas escolas. Referências CARVALHO, Maria Conceição Vicente de. Santos e a Geografia humana do litoral paulista. 1944. Tese (Doutorado em Geografia). Faculdade de Filosofia Ciências e Letras (FFCL), São Paulo. 1944. FIORAVANTI, Carlos. Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro: O geógrafo literário. Pesquisa Fapesp, São Paulo, n. 171, p 10-15. 2010. (Entrevista). LIBLIK, Carmem Silvia da Fonseca Kummer. Gênero e trajetórias acadêmicas das primeiras mulheres universitárias brasileiras. Revista Latino Americana de Geografia e Gênero, Ponta Grossa, v. 8, n. 1, p. 104-125, 2017. MARTINS, Ana Luiz. Vicente de Carvalho: Poeta do mar e cidadão da república. Revista USP, São Paulo, n.41, p. 134-151, mar. Maio, 1999. MONBEIG, Pierre; AZEVEDO, Aroldo de; CARVALHO, Maria Conceição V. de. O ensino secundário da Geografia. Geografia, São Paulo, ano 1, n. 4 p 77-42. 1935. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 120 SOMBINI, Eduardo; TERATSUMU, Gustavo; DUARTE, Luciano. Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro. Boletim Campineiro de Geografia, Campinas, v. 3, n.2, 2015. (Entrevista). I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 121 O ENSINO DO CONCEITO DE TERRITÓRIO: ALGUMAS PRÁTICAS INOVADORAS NO ENSINO DE GEOGRAFIA Lucas Labigalini Fuini lucasfuini@yahoo.com.br Márcia Cristina de Oliveira Mello marciamello@ourinhos.unesp.br João Luiz Cuani Junior jcuanijr@hotmail.com FAPESP (Processo n. 2015/17945-3) Resumo: Busca-se nesta pesquisa investigar as inovações metodológicas propostas para práticas pedagógicas sobre o conceito de território geográfico. Dentre os conceitos geográficos presentes nos currículos escolares destacamos o de território. Com o objetivo de reunir a produção existe sobre o ensino do conceito de território, localizamos até o momento, um conjunto de 23 estudos acadêmicos que focam a temática. Tais pesquisas analisam as interfaces conceituais e didático-pedagógicas referentes a apropriação do conceito no currículo oficial, nos livros didáticos e em seu uso em sala de aula. Analisando o conjunto destes estudos observamos que alguns “chegam à sala de aula”, refletindo sobre as concepções dos alunos e professores a respeito do conceito de território, conforme Ferreto (2009) e Tavares e Bispo (2016). Os autores trazem a ideia de que a formação de um conceito não parte do zero, porque considera o nível de desenvolvimento efetivo dos estudantes, para a partir dele, se avança para o nível de desenvolvimento potencial. Também Cruz; Ghiggi (2011) acrescentam a importância de se considerar neste processo o elemento da identidade cultural dos alunos.Sousa (2012) e Ferreira da Silva; Gomes da Silva (2012) oferecem sugestões de abordagem do tema em sala de aula envolvendo problematizações de questões como a ordem estatal e não estatal; campo de forças; fronteiras; processos históricos; influência de atores sociais, entre outros. Fuini (2014) aponta a possibilidade da utilização de letras de músicas do repertório brasileiro que podem oferecer indícios de aspectos do território brasileiro de cunho material e imaterial, além de associar diferentes contextos históricos, sociais, políticos, culturais e econômicos. Palavras-chave: Ensino de Geografia; ensino do conceito de território; Práticas pedagógicas Introdução Dentre os conceitos geográficos presentes nos currículos escolares destacamos o de território. Com o objetivo de reunir a produção existe sobre o ensino do conceito de território, localizamos até o momento, um conjunto de 23 estudos acadêmicos que focam a temática. Tais pesquisas analisam as I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 122 interfaces conceituais e didático-pedagógicas referentes a apropriação do conceito no currículo oficial, nos livros didáticos e em seu uso em sala de aula. Analisando o conjunto destes estudos observamos que alguns “chegam à sala de aula”, refletindo sobre as concepções dos alunos e professores a respeito do conceito de território, conforme Ferreto (2009) e Tavares e Bispo (2016). Os autores trazem a ideia de que a formação de um conceito não parte do zero, porque considera o nível de desenvolvimento efetivo dos estudantes, para a partir dele, se avança para o nível de desenvolvimento potencial. Também Cruz; Ghiggi (2011) acrescentam a importância de se considerar neste processo o elemento da identidade cultural dos alunos. Sousa (2012) e Ferreira da Silva; Gomes da Silva (2012) oferecem sugestões de abordagem do tema em sala de aula envolvendo problematizações de questões como a ordem estatal e não estatal; campo de forças; fronteiras; processos históricos; influência de atores sociais, entre outros. Fuini (2014) aponta a possibilidade da utilização de letras de músicas do repertório brasileiro que podem oferecer indícios de aspectos do território brasileiro de cunho material e imaterial, além de associar diferentes contextos históricos, sociais, políticos, culturais e econômicos auxiliando o aluno na compreensão de que é possível [...] aproximar o território do universo das relações socioespaciais mais amplas ou mais recônditas através do olhar das múltiplas territorialidades humanas, enfatizando também a natureza e a dinâmica dos fluxos materiais e imateriais que alimentam as desterritorializações, reterritorializações, e até mesmo as microterritorializações, envolvendo relações formais ou informais, entre instituições estatais, atividades econômicas ou entre diversos grupos sociais, mais ou menos coesos. (p. 245). As pesquisas apontam, por um lado, que as transformações ocorridas no currículo oficial para o ensino de Geografia da escola brasileira, nem sempre acompanham tentativas de concretização na prática pedagógica, denunciando o permanente desencontro entre a Geografia acadêmica e a escolar; por outro, alguns estudos registram a existência de experiências de aplicação do conceito de território que, de fato, contemplam o seu caráter “científico moderno em transição”, assim como suas variantes territoriais, estabelecendo diálogos com o contexto histórico, econômico, social, cultural e político, possibilitando assim I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 123 uma instrumentalização do conceito que avança nas formas de se ensinar e aprender a Geografia. A partir do recorte proposto selecionamos para este evento a apresentação de alguns estudos que tratam de propostas didáticas e recursos de ensino utilizados nas aulas de Geografia. Os desafios da relação ensino-aprendizagem do conceito de território Sobre a relação de ensino-aprendizagem do conceito de território Tavares e Bispo (2016) consideram que existem obstáculos tanto para os educadores quanto para educandos, visto que a sua complexidade é vasta. Assim, os autores propõem algumas reflexões sobre a abordagem e compreensão do ensino deste tema. Para tanto, realizaram uma pesquisa de campo aplicada no Centro de Ensino Médio Santa Rita de Cássia, em Palmas -TO. Devido a amplitude que a discussão sobre o território pode gerar, os autoresoptaram por considerar as três vertentes que Haesbart define como básicas, nas quais o conceito de território se constitui a partir das perspectivas “jurídico-política, majoritária”, onde o território é visto como uma forma de dominação e poder; “cultural”, na qual o simbólico e o subjetivo dominam e, por fim, “econômica”, que está ligada as relações capital-trabalho. Para introduzir este conceito aos alunos do Ensino Médio os autores consideram importante reconhecer o contexto espacial que os mesmos estão inseridos. Pois, a partir do espaço que é vivido se carrega implicitamente a noção de identidade, memória, e patrimônio, que são conceitos relacionados as questões territoriais presentes no cotidiano dos educandos. Observando as orientações metodológicas de Lana de Souza Cavalcanti, Tavares e Bispo, destacam as relações do indivíduo com um lugar, sendo este um formador de território a partir de sua materialização no espaço. O território, na maioria das vezes é entendido pelos alunos pela maior aproximação da realidade local, já que eles se reportam como “o lugar onde eu moro”. Assim, o território é tratado no nível da vivência e experiências os alunos. Desta forma eles tendem a retomar à noção de identidade com o lugar e de afetividade. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 124 Como resultados da pesquisa Tavares Bispo (2016) concluem que quando se trata do que os alunos entendem sobre território, 42% deles deram respostas articuladas a noção de poder sobre a área delimitada, aproximando da perspectiva “jurídico-política”. Isto pode ocorrer pois a Geografia tratada nas escolas enfatiza bem as divisões regionais como por exemplo a do Brasil desenvolvida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que é baseado principalmente nos aspectos políticos, os quais estão nos mapas que o aluno têm mais contato. O restante respondeu de forma heterogênea o que deixa claro que não é uma boa alternativa focar o conceito apenas em uma perspectiva, mas sim interligá-las. Quanto aos professores, 61 % mencionaram que na maior parte das vezes introduzem o tema a partir de outros assuntos, tais como conflitos e fronteiras. Vale ressaltar que os professores envolvidos na investigação definem território ancorados na noção de poder sobre uma área. Um problema detectado é que os docentes não abordam diretamente o conceito, mas sim as dinâmicas próprias dos territórios. Salientam ainda que os alunos compreendem o conceito, mas têm uma certa dificuldade em distinguir conceitos de espaço, território e região. As características das práticas dos professores apresentadas por Tavares e Bispo (2016) nos incentivaram a investigar outras práticas pedagógicas sobre o conceito de território envolvendo diferentes recursos e metodologias de ensino. Recursos e metodologias de ensino interessantes para o ensino do conceito de território Fuini (2014) propõe no artigo Território, territorialização e territorialidade contribuir com o ensino do território e as suas variantes usando a música enquanto recurso didático. Considerando que a música é um recurso que pode e deve ser usado pelos docentes para motivar a aula e a compreensão de um determinado assunto, Fuini cita Lily Kong, geógrafa singapurense que realizou estudo em nível de doutorado desenvolvendo uma análise geográfica a partir da música popular de seu país, em 1995, expondo quatro pontos de vistas do motivo de se trabalhar com a música, são eles: a música tem a capacidade de trazer imagens I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 125 de um determinado local; pode servir como fonte primária para se compreender o caráter e identidade dos lugares; é um meio para as pessoas comunicarem suas experiências ambientais de “espaço” e de “lugar”; e, por fim a música pode ser o resultado de experiências ambientais. Dada as características da música enquanto um recurso didático importante, ela pode ser aproveitada para a execução de aulas sobre temas de conceitos que possam ser um impasse do ponto de vista discente e docente. Assim, Fuini (2014), também ancorado nas ideias de Lana de Souza Cavalcanti, indicou as vantagens da música no processo de construção do conhecimento, destacadas abaixo: - Propiciar atividade mental e física dos alunos. - Considerar a vivência dos alunos com a dimensão do conhecimento. - Estabelecer situações de interações e cooperação entre os alunos. - Contar com a intervenção do professor no processo de aprendizagem dos alunos. - Apresentar informações, conceitos e análise de dados. - Propiciar situações de diálogo entre alunos e destes com o professor. - Promover a auto e sociorreflexão dos alunos. Assim, se temos obstáculos de ordem teórica quanto ao ensino do conceito de território, encontramos também algumas formas de superação, onde criam-se situações em que o aluno se sinta atraído pelas propostas do professor. Neste sentido, foram selecionadas algumas letras de músicas, de autores brasileiros, cujas características permitem correlacionar com os conhecimentos geográficos. Assim foram escolhidas Saudosa maloca; Sobradinho; Aluga-se; e Disneylândia. Saudosa Maloca foi lançada por Adoriran Barbosa em 1951 relatando o processo de urbanização e metropolização do espaço e avanço da especulação imobiliária, com a segregação das classes mais pobres no espaço urbano, que perdem suas moradias junto às áreas centrais e migram para a periferia. Sobradinho é uma música composto pela dupla Luís Carlos Sá e Guttember Guarabyra, nos fins dos anos de 1970. A canção se refere ao contexto de construção da usina hidrelétrica de Sobradinho, no rio São Francisco, em 1976, e o impacto social e ambiental que o lago criado exerceu sobre as vilas e cidades que foram inundadas. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 126 Aluga-se, de Raul Seixas e Cláudio Roberto Azevedo, lançada em 1980 traz uma crítica ao modelo econômico brasileiro. Sua letra contém fortes elementos da perspectiva de território econômico e político (“Negócio bom assim ninguém nunca viu”/alugar o Brasil”), colocando em discussão a soberania nacional e a identidade territorial brasileira, face à internacionalização do capitalismo com as multinacionais. Por fim, a música Disnelylândia, da banda paulistana Titãs, lançada em 1992, faz menção ao processo de globalização e à mobilidade crescente do capital, das pessoas, produtos, dos idiomas e elementos culturais, nesse mundo “aparentemente” integrado e sem fronteiras. Fuini (2014) considera que o conceito de território abordado a partir destas letras pode possibilitar interfaces entre as ideias das relações de poder, apropriação, uso e controle que definem o território. Trata-se, portanto, de um recurso didático bastante interessante e que favorece processos de internalização dos conceitos geográficos, conforme propõe Vygotsky. Uma outra proposta didática vantajosa encontramos nos relatos de Kayobi de Azevedo Vargas (2014) que abordou o conceito de território com alunos do Ensino Fundamental II, utilizando uma simulação da assembleia geral da Organização das Nações Unidas (ONU), envolvendo um debate sobre os problemas tais como fome e produção de alimentos; pobreza e distribuição de renda; destruição do meio ambiente e usos dos recursos naturais; doenças e patentes de medicamentos; fluxos de refugiados e acolhimento dos países; água e utilização de recursos; e guerras e acordos territoriais. A simulação da convenção da ONU foi organizada com cerca de 120 alunos, divididos em 24 delegações que representavamos países do G20 e mais quatro países convidados - Angola, pelo fator da língua partilhado com o Brasil; Chile, pela proximidade regional; Israel e Irã pela questão do conflito regional no Oriente Médio. Cada grupo de três países tinha que debater e propor soluções para as questões levantadas. A perspectiva era promover o diálogo entre os diferentes interesses e questões geopolíticas latentes entre os países envolvidos. A partir de uma abordagem interdisciplinar os alunos levantaram e sistematizaram dados que contextualizam o cenário ditado pela lógica capitalista e marcado pelo processo de globalização, que cada vez mais intensifica a I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 127 desigualdade entre países, populações e economias. Os alunos foram motivados a refletir sobre as formas que inconsequentemente os homens se apropriam de recursos importantes considerados fontes de sobrevivência como a água, a terra e os alimentos, concentrando-os para um grupo específico e minoritário enquanto a maioria da população fica a mercê da classe dominante. Assim, foram ampliadas reflexões sobre temas como a necessidade do planejamento, do controle e da gerência de recursos naturais e humanos, não só por parte dos diferentes países, mas por toda sociedade civil. O conjunto das reflexões permitiu uma nova forma de construir e se entender o espaço e suas relações de poder, envolvendo as diferentes escalas espaciais e temporais. A abordagem didática adotada nas aulas foi a dialética, articulando fatores processos sociais, políticos e econômicos nas diferentes esferas de análise e que estão diretas ou indiretamente ligadas aos temas propostos para debate. A abordagem didática envolvendo o diálogo, o debate e o trabalho em grupo utilizada por Vargas (2014) em torno de situações-problema mostra-se bastante interessante para superar tanto os obstáculos teóricos, quanto os metodológicos envolvidos no trato do ensino do conceito de território. Considerações finais Ao nos preocuparmos com os estudos que abordam o ensino do conceito de território nas escolas brasileiras encontramos, de um lado, o reincidente argumento de que os professores têm uma visão, por vezes, um tanto quanto limitada sobre os aspectos conceituais de território. Por outro lado, observamos na pesquisa que as reflexões sobre experiências de aplicação do conceito estão se ampliando no sentido de apresentar a importância de o professor articular diferentes perspectivas didáticas e recursos possíveis neste processo de ensino- aprendizagem. Referências CRUZ, Claudete Robalos da; GHIGGI, Gomercindo. O território, a cultura e as identidades: implicações no ensino de Geografia. In: Anais do VII SEUR e I Colóquio Internacional sobre educação do Campo e Ensino de Geografia eixo 5 – Ensino de Geografia e Práticas Pedagógicas, 2011. Pelotas. Anais... Pelotas: Universidade Federal de Pelotas, 2011. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 128 FERREIRA DA SILVA, Maria do Socorro; GOMES DA SILVA, Edimilson. O ensino da Geografia e a construção dos conceitos científicos geográficos. In: Colóquio Internacional, 6., 2012, São Cristóvão/SE. Anais...São Cristóvão: UFU, 2012.p.1-15. FERRETO, Letícia. Trabalhando o conceito de território no Ensino Fundamental. In: Encontro nacional de prática de ensino de Geografia, 10., 2009. Porto Alegre. Anais... Porto Alegre: 2009, p.1-10. FUINI, Lucas Labigalini. Território, territorialização e territorialidade: o uso da música para a compreensão de conceitos geográficos. Revista Terr@plural, Ponta Grossa, v.8, n.1, p.225-249, jan/jun. 2014. SOUSA, Roberto Ribeiro de. O conceito território no ensino da Geografia: breves notas sobre abordagens negligenciadas. Geografia em questão, Marechal Cândido Rondon, v.2, n. 2, p.149-165, 2012. TAVARES, Silvaldo Quirino; BISPO, Marcileia Oliveira. Uma análise da abordagem territorial no ensino de Geografia, na educação básica no centro de Ensino Médio Santa Rita de Cássia, Palmas – TO. Revista sociedade e território, Natal, v. 28, n. 1, p. 156- 173, jan./jun. 2016. VARGAS, Kayobi de Azevedo. Reflexões sobre o ensino de Geografia no Ensino Fundamental II: a aprendizagem do conceito de território através da simulação da ONU. In: Congresso brasileiro de geógrafos, 7, 2014. Vitória. Anais...Vitória: AGB, 2014. p.1- 16. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 129 OLIMPÍADA BRASILEIRA DE ASTRONOMIA COMO EXPERIÊNCIA DE ESTÁGIO SUPERVISIONADO André Pimenta Mota UNESP - Campus de Ourinhos Felipe Romão Grassi de Francesco UNESP - Campus de Ourinhos Guilherme Américo Peres Martins UNESP - Campus de Ourinhos Resumo: O artigo discute o Estágio Curricular Supervisionado como instrumento importante para a construção da carreira docente, assim como a da Olimpíada Brasileira de Astronomia e toda sua elaboração e preparo, e os desafios encontrados em uma sala de aula. Palavras-chave: Estágio. Introdução O Estágio Curricular Supervisionado é atividade indispensável na formação de docentes nos cursos de licenciatura, sendo um processo de aprendizagem necessário a um profissional que deseja estar de fato preparado para enfrentar os desafios da profissão, proporcionando ao licenciando o domínio de instrumentos teóricos e práticos imprescindíveis à execução de suas funções visando beneficiar a experiência e promover o desenvolvimento, no campo profissional, dos conhecimentos teóricos e práticos adquiridos durante o curso nas instituições de ao longo do curso de graduação. Trata-se assim, de um amplo desafio, pois na execução do estágio o estudante estagiário necessita acostumar-se com diferenças entre os estudantes e seus contextos de origem, compreender que a sala de aula não pode ser espaço de estresse, que se faz necessário a tranquilidade no trato com os alunos e que por meio de um processo interativo, professor e aluno visam transformar a sala de aula em um ambiente de prazer, de crescimento de ambas as partes e de realizações. “O estágio supervisionado torna-se imprescindível no processo de formação docente, pois oferece condições aos futuros educadores, em específico aos estudantes da graduação, uma relação próxima com o ambiente que envolve I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 130 o cotidiano de um professor e, a partir desta experiência os acadêmicos começarão a se compreenderem como futuros professores, pela primeira vez encarando o desafio de conviver, falar e ouvir, com linguagens e saberes distintos do seu meio, mais acessível à criança.” (PIMENTA, 1997). Segundo Tardif (2002) a profissão do professor se estabelece tendo quatro saberes como base, sendo esses: os saberes da formação profissional, os disciplinares, os curriculares e os experienciais que são construídos no decorrer do seu cotidiano. De maneira geral, pode-se garantir que o estágio supervisionado vem completar a formação docente do estudante, promovendo novos debates referentes ao processo de ensino e o aperfeiçoamento do campo de análise do aluno em formação, o futuro educador. Neste relatório, as aulas de observação e intervenção do estágio III na E.E. Domingos Camerlingo Caló com os alunos do 7º, 8º ano do Ensino Fundamental II. No período as intervenções realizadas para o OBA - Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica, as aulas foram elaboradas de acordo com as temáticas envolvidas na prova, tendo alguns casos, a problemática em que o conteúdo não seria trabalhado na disciplina de geografiae nem no material do estudante do Ensino Fundamental II havendo a necessidade de pesquisa em outras ciência. Segundo Libâneo (1994) “O planejamento é um meio para se programar as ações docentes, é também um momento de pesquisa e reflexão intimamente ligado à avaliação.”: “A OBA e a MOBFOG são eventos abertos à participação de escolas públicas ou privadas, urbanas ou rurais, sem exigência de número mínimo ou máximo de alunos, os quais devem preferencialmente participar voluntariamente. Podem participar da OBA e da MOBFOG alunos do primeiro ano do ensino fundamental até alunos do último ano do ensino médio, sendo que da MOBFOG também podem participar alunos do ensino superior. A OBA e a MOBFOG ocorre totalmente dentro da própria escola, tem uma única fase e é realizada toda ela dentro de um só ano letivo, deste modo os certificados e medalhas são recebidos pela escola no mesmo ano letivo. Ao final da OBA e da MOBFOG todos os alunos recebem um certificado de participação impresso com o seu nome e se ganhou alguma medalha o tipo dela também consta do certificado.” (OBA, 2015) Durante as intervenções buscou-se trazer conteúdos relacionados com o cotidiano dos alunos, procurando relacionar com seus conhecimentos I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 131 empíricos e do cotidiano, atrelando com o conhecimento científico em sala de aula, tornando assim a aprendizagem, íntegra entre educador/estudante e por fim, proporcionando aulas mais dinâmicas. A escola é um amplo espaço de encontro de cultura, saberes científicos e cotidianos. A geografia pode ser construída pelos estudantes e educadores em situações comuns do dia a dia, no caminho da casa para a escola ou até mesmo nas brincadeiras, sendo importante a inclusão dessa geografia cotidiana em sala de aula, utilizando-as para trabalhar conteúdos e conceitos geográfico. (CAVALCANTI 2012) Deste modo podemos considerar que a prática docente revela um conjunto de ações que visam, portanto, uma emancipação dos estudantes, e não apenas que os tornemos meros reprodutores de um conhecimento transmitido de forma linear que demanda memorização e/ou reprodução. A tarefa de ensinar comporta diferentes caminhos e possibilidades, enquanto processo de formação/constituição de sujeitos ativos, ou seja, através da forma pela qual se ensina é possível despertar atitude de passividade e reprodução frente ao conhecimento, ou, por outro lado, despertar a reflexão crítica e autônoma na (re)construção do conhecimento, e este sentido, o papel do educador tende a ser determinante, visto que, potencializa formas de interação com o conhecimento. (MOLIN, 2016) As principais turmas observadas na E.E. Domingos Camerlingo Caló para a disciplina Estágio III foram as de 7º, 8º ano do Ensino Fundamental II. A primeira vista o que pode ser observado na escola foi à redução no número de classes, não existindo assim 8ºA, 8ºB e assim por diante, e o aumento no número de alunos em uma mesma sala de aula, onde no ano de 2016 as turmas do Ensino Fundamental II possuíam uma média de 22 alunos por sala, no ano de 2017 essa média passou para 35, o que nas observações deixou claro um certo desconforto por parte dos professores e uma dificuldade extra em lidar com um número maior de alunos no mesmo ambiente, e também a insatisfação dos próprios alunos quando indagados sobre a aumento de alunos na sala de aula. Como todos os participantes do grupo pertencem ao PIBID (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência) e possuem o mesmo professor supervisor na escola, o que acarretou na congruência do programa com a I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 132 disciplina de Estágio III, sendo a proposta do Programa Institucional de Bolsa a Iniciação à docência que visa o crescimento do licenciando como futuro educador. Objetivos Conseguir transmitir o conhecimento sobre os seguintes temas abordados em aula: Fases da lua; Paralelos e meridianos; Trajetória e composição de um satélite; Planetas gasosos e terrosos; Constelações; Translação e rotação; Pontos de intersecção; Cálculos de tempo e distância; Pontos cardeais. Metodologia O planejamento para o Olimpiada Brasileira de Astronomia começou antes do início das intervenções, tendo início com o pedido do professor para observar as turmas (de 7º, 8º e 9º ano) e quais delas poderiam ser escolhidas para serem inscritas no projeto, depois de algumas aulas as turmas de 7º e 8º ano foram escolhidas, não por critérios de idade, coeficiente escolar ou recomendação do professor, mas porque no ano anterior somente a turma do 8º ano (atual 9º ano) teria participado do projeto. Com as turmas escolhidas e a prova disponibilizada pela Comissão do OBA a qual aparentou estar mais difícil que a do ano anterior, entramos na etapa de planejamento dos conteúdos a serem abordados, assim como os dias onde as aula seriam ministradas, os principais temas abordados foram: ● Fases da lua; ● Paralelos e meridianos; ● Trajetória e composição de um satélite; ● Planetas gasosos e terrosos; ● Constelações; ● Translação e rotação; ● Pontos de intersecção; ● Cálculos de tempo e distância; ● Pontos cardeais. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 133 As aulas foram elaboradas fora dos padrões sempre “quadrados” e seculares, com aulas na sala de vídeo, fazendo uso de um dos vídeos da animação O Incrível Mundo de Gumball, utilização da lousa com os alunos e aulas em rodas, e intervenções em duplas (sempre que possível). Resultados As execuções das aulas ocorreram de certa forma diferente do que planejadas anteriormente reforçando que a prática nunca é tão ao pé da letra quanto a teoria. A primeira aula ocorreu de forma turbulenta, em parte por ser uma aula após o intervalo e a aula seguinte ser de Ed. Física e da má conexão do cabo da sala de vídeo com o projetor com mau contato e toda a tela ficar num tom rosa- avermelhado. Os imprevistos foram de certa forma moldando o formato das aulas, levando- nos a se adaptar com os diferentes climas presentes em cada uma das turmas, um sistema incorporado durante as aulas foi de certa forma arcaico porém funcionou até que razoavelmente bem, que foi de o aluno levantar a mão quando quisesse fazer algum comentário, também nos tornamos mais rápidos a fazer piadas com o fato do projetor deixar tudo avermelhado. Conseguimos perceber que alguns tipos de aula chamavam mais atenção deles, como as aulas expositivas na lousa em que pedimos a colaboração deles para a resolução de alguns problemas na lousa durante a aula de pontos de intersecção e pontos cardeais, e na aula em abordamos sobre translação e rotação e com o auxílio de três alunos, em que ambos representavam a Lua, Terra e Sol. E que eles se mostravam bem distraídos quando passávamos mais de um vídeo e que em dias chuvosos mais da metade da turma não comparecia à escola. No dia 19 demaio - dia da prova - coincidentemente caindo em uma sexta-feira chuvosa acarretou na ausência de mais da metade da turma, dividimos a sala em três fileiras, e nos dividimos em duplas, Guilherme e André aplicando a prova para o 7º e o Felipe e o professor Hélio aplicando a prova para o 8º ano, e a correção foi feita duas semanas depois no dia 07 de junho, com um melhor aproveitamento (no quesito notas) para os alunos do 7º ano, porém menores se comparado com as notas obtidas em 2016. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 134 Conclusões Referente aoestágio na escola, achamos muito importante para nós que vamos se tornar educadores, porque através dele, mesmo sendo de observação somente ou regência, aprendemos a viver não mais como meros alunos quando estudávamos na escola dentro da sala de aula e sim como futuros professores, onde vemos com outro olhar, de observação, empenho e com o objetivo de transmitir todo o conhecimento que aprendemos na universidade, saber que estamos lá não somente para passar os conteúdos aos alunos e não torná-los apenas receptores de conhecimento e sim fazer com que eles aprendam os conteúdos, mas relacionando com seus conhecimentos empíricos e do dia a dia, fazendo uma relação e ressignificando os mesmos , para que se tornem seres ativos, pensantes e critérios perante a sociedade e também mostrar a eles que o ensino é um aspecto onde educador e estudante trabalham juntos. Na faculdade, o estágio nos propicia discutir melhor o andamento do estágio nas escolas, relatar os problemas, dificuldades e êxitos que obtivemos com as intervenções, procurar novas alternativas e métodos para as aulas com as discussões em grupo, saber como está prosseguindo o estágio nas demais escolas e as intervenções dos outros estagiários. Sobre as intervenções que foram realizadas durante o estágio III principalmente referente ao OBA, podemos concluir que foi muito complicado, porque houve muita indisciplina na sala durante as aulas e isso acarretou que em alguns casos, conseguimos passar aos alunos poucas coisas das aulas que tínhamos planejado e também devido a duração da aula. Além disso, outro fator que nos prejudicou um pouco foi referente ao projetor da sala de aula do PIBIB, onde ministramos as aulas e por ser a única sala com projetor da escola, as aulas com slides foram todas complicadas pelo fato do projetor estar com problema no cabo de projeção e desta forma todos os slides na tela ficaram com a cor vermelha, o que nos prejudicou em algumas aulas com vídeos e imagens dos conteúdos que foram ministrados as aulas. Ficou nítido nas aulas que poucos alunos se interessavam pelos conteúdos, e mesmo falando que seria conteúdo de prova e que os melhores colocados na prova receberiam um prêmio (medalha), a maioria não estava se I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 135 empenhando em aprender e muito menos interessados ao realizar a prova, tanto que no dia da prova, poucos alunos estavam presentes. Porém no decorrer das aulas, poucos alunos mostravam interesse, empenho e perguntavam bastante coisa sobre os conteúdos e isso sem dúvida nos empolgava para realizar as intervenções. Apesar dos problemas de indisciplina, falta de interesse da maior parte dos alunos, consideramos boas as intervenções pois foi possível planejar, preparar e ministrar várias aulas sobre assuntos referente ao OBA, nos preparar melhor diante das salas de aulas praticamente lotadas com 35 alunos, e nos deparar com inúmeros problemas de indisciplina, mas sem dúvida foi satisfatório para todos nós, porque além de ministramos as aulas, aplicamos a prova e posteriormente fizemos a correção delas, o qual identificamos que a prova estava muito além de conteúdos previamente ensinados (em anos anteriores) aos alunos do 7º e 8º ano. Referências bibliográficas CUNHA, E.R. OS SABERES DOCENTES OU SABERES DOS PROFESSORES. Disponível em: <http://www.vdl.ufc.br/solar/aula_link/llpt/A_a_H/didatica_I/aula_01/imagens/03/saber es_docentes.pdf> Acesso em: 15 de junho de 2017. MELLO, M. C. O. Uma Aproximação à Didática do Ensino de Geografia. 2014. Disponível em: <https://acervodigital.unesp.br/bitstream/123456789/47174/1/u1_d22_v9_t01.pdf> Acesso em: 16 de junho de 2017. MOLIN, A. D. ENSINAR PELA PESQUISA: A EDUCAÇÃO GEOGRÁFICA E O PAPEL DO PROFESSOR-PESQUISADOR. Revista de Ensino de Geografia, Uberlândia, v. 6, n. 11, p. 65-78, jul./dez. 2015.Disponível em: <http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/N11/Art4-Revista-Ensino-Geografia-v6- n11-Klug-Molin-Dias.pdf> Acesso em: 17 de junho de 2017. MOLINARI, A. M. C. A IMPORTÂNCIA DA PRÁTICA DO ESTÁGIO SUPERVISIONADO NAS LICENCIATURAS. Disponível em: <http://revistaunar.com.br/cientifica/documentos/vol7_n1_2013/3_a_importancia_da_ pratica_estagio.pdf> Acesso em: 17 de junho 2017. POSSEBON, R.C. O Estágio Supervisionado na Formação Docente no Curso de Licenciatura em Química e a Experiência da Semi-Regência. Disponível em: <http://www.eneq2016.ufsc.br/anais/resumos/R1446-2.pdf> Acesso em: 15 de junho de 2017. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 136 TEIXEIRA, N. F. F. O ensino de geografia na escola. Campinas. (SP): Papirus, 2012. p.39-59; p.175-198. 2016. Disponível em: <http://www.observatorium.ig.ufu.br/pdfs/7edicao/n20/Resenha.pdf> Acesso em: 16 de junho de 2017. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 137 OS DIREITOS DOS SURDOS NA SOCIEDADE Vanessa Aparecida Palermo Faculdade Estácio de Sá (FAESO), Ourinhos SP va_palermo@hotmail.com Resumo: Este tema foi elaborado pensando em apresentar uma pequena parte da história e dos direitos que as pessoas com surdez possuem. As metodologias deste trabalho irão expor a criança surda diante da sociedade para um melhor desempenho em suas atividades. Também serão mostradas as causas e tipos de deficiências sendo que algumas delas podem ser evitadas durante a gestação, informando assim a importância dos pré-natais que são fundamentais para a saúde da mãe e o desenvolvimento do bebê. As leis e os direitos das pessoas com deficiências serão expostos para que os leitores fiquem atentos em seu modo de agir e tratar um surdo. Vivenciamos nas últimas décadas importantes avanços legislativos no que diz respeito aos direitos das pessoas com deficiências, sobretudo o direito à educação. Para finalizar a pesquisa, considera-se fundamental que o sujeito surdo deve ser apresentado à língua natural dele, ou seja, LIBRAS, desde as suas primeiras fases e deve ser exposta a sociedade, interagindo com outras crianças, desta forma, participará de atividades e terá o convívio ampliado em sua comunidade. Palavras-chave: Surdez, Sociedade, Direitos 1 INTRODUÇÃO O Brasil, hoje, possui uma abrangente legislação em favor das pessoas com deficiência. No entanto, falta que o Estado e a sociedade façam cumprir as leis. São mais de milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência que encontram inúmeras barreiras para serem admitidos na sociedade como cidadãos produtivos, aptos para o trabalho. No Brasil, segundo Gorgatti e Costa (2008) a educação dos surdos está entrando em uma terceira fase que está caracterizando um período de transição, onde os estudos estão apontando proposta educacional bilíngue. Mas, infelizmente a realidade nas escolas públicas é caótica, devido à nova regulamentação das secretarias da educação, onde se faz a inclusão dos alunos com deficiência seja física ou neurológica na rede pública, no qual não está preparada para receber essas crianças, que necessitam que o espaço geográfico seja adaptado às suas necessidades básicas. Cada professor tem que ter conhecimento da realidade dessa pessoa com deficiência, para que I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 138 possa trabalhar de forma satisfatória, buscando o desenvolvimento psico-motor- fisiológico, dentro das limitações que esse tiver. Com a atual Constituição Federal (1988) e com a LDB (1996), as pessoas com algum tipo de deficiência de forma geral estão sendo melhores assistidos, mas ainda tem muito a ser feito, principalmentecom as famílias de baixa renda, existem inúmeras formas de pesquisas para diagnosticar o indivíduo com problemas de surdez, devido aos novos aparelhos e estudos realizados, por especialistas sobre o assunto. Diante desse contexto histórico, percebe-se que temos muito que aprender sobre essas pessoas, não somente pela sua necessidade, mas pela luta cotidiana que elas enfrentam para serem respeitadas e aceitas no meio social. 2. HISTÓRIA DOS SURDOS NO BRASIL E NO MUNDO De acordo com Oliveira (2007), durante a Antiguidade e por quase toda a idade Média, os pensadores achavam que os surdos não conseguiriam ser educáveis, ou que eram imbecis. Pode-se dizer que a história da educação do surdo teve início em meados do século XVI até esta época, as pessoas que apresentavam alguma deficiência eram consideradas intelectualmente inferiores, por esse motivo que eram trancados em asilos. Esse pensamento começou a ser desfeito quando foi percebido que o surdo poderia aprender se comunicar com a sociedade, não só por língua de sinais, e sim pela língua falada também. Utilizava-se então língua auditiva-oral nativa, língua de sinais, datilologia (representação manual do alfabeto), entre outros, utilizando diversas modalidades de comunicação, com isso o ensino de língua de sinais passou a ser fortemente difundida, possibilitando que ela atingisse um excelente êxito do ponto de vista qualitativo e quantitativo. Aristóteles, citado por Behares (1997, p. 3), aponta em um de seus escritos, “Sobre os sentidos e os objetos sensíveis”, que a audição, entre as percepções, teve uma grande contribuição ao conhecimento, já que o discurso é a causa da aprendizagem, é compreensível porque o discurso é composto por palavras, onde cada uma tem um símbolo racional, de modo que entre “aqueles que estão privados de um sentido de (visão) ou de outros (audição) desde o nascimento, o cego é mais inteligente que o surdo-mudo”. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 139 Nessas tentativas iniciais de educar o surdo, além da atenção à fala, a língua escrita também tinha importância fundamental, pois o alfabeto digital era amplamente utilizado, que os próprios professores inventaram, porque argumentava-se que se os surdos não poderiam ouvir a língua falada, então ele podia lê-la com os olhos. Nessa época, muitos professores de surdos iniciaram o ensinamento de seus alunos através da leitura-escrita e, partindo disso que se instrumentalizavam diferentes técnicas para desenvolver outras habilidades, como leitura labial e articulação das palavras, mas esses conhecimentos só podiam beneficiar os surdos que pertenciam às famílias afastadas, porque era frequente, na época, manter em segredo o modo como se conduzia a educação dos surdos. Segundo Sánchez (1990, p. 4), o primeiro desses professores foi Ponce de León (1520 - 1584). Mas, infelizmente são poucos dados sobre os seus métodos de educação, pois tinham que guardar segredo sobre os métodos educativos utilizados. E segundo este autor, em 1620, Bonnet publica o primeiro livro sobre educação de surdos, que consistia no aprendizado do alfabeto manual e na importância da intervenção precoce. Ele insistia que as pessoas envolvidas com crianças surdas fossem capazes de utilizar o alfabeto manual. Heinicke (1723 - 1790), na Alemanha, começa as pesquisas da filosofia oralista, onde os grandes valores são atribuídos à fala e o importante pedagogo alemão, professor de surdos, escreveu que seu método de educação nunca ninguém tinha conhecido, exceto o seu filho e alegava que teria passado por muitas dificuldades e por esse motivo não pretendia dividir suas conquistas com ninguém. Foi a partir desses estudos que surge em 1878, em Paris, o I Congresso Internacional sobre a frente de surdos, no qual se fizeram debates a respeito das experiências e impressões sobre o trabalho realizado. Os principais temas discutidos nesse Congresso foram: a importância da família na educação e na aquisição de linguagem das crianças surdas, bem como sua inclusão na escola e a possibilidade de utilizar também a “Mímica natural, para o aluno ascender à linguagem falada”. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 140 Em 1880, foi realizado o II Congresso Internacional, em Milão, que trouxe uma mudança nos rumos da educação de surdos e, justamente por isso, que foi considerado um marco histórico. A Igreja, de acordo com Silva et al. (2006) também teve um papel importante na educação dos surdos nesse período que via como interesse central a questão da catequização dos surdos, além de haver as questões de ordem filosófica. Nessa época, nos EUA os grandes representantes da educação de surdos foram Edward Miller Gallaudet (1837 - 1917), como o principal representante manualista e Alexander Grahan Bell (1847 - 1922), o inventor do telefone e do audiômetro, representante do método oralista. Diante a história da alfabetização e desenvolvimento de técnicas foram feitas propostas na educação dos surdos, quem mais se preocupou em estudá- las foram os franceses. Segundo registros históricos, o Abade Charles M, de L‘ Epée foi o primeiro a estudar uma língua de sinais usada por surdos, com atenção para suas características linguísticas. Em 1756, Abade de L'Epée cria em Paris a primeira escola para surdos com uma filosofia manualista e oralista. Observa-se, na prática, que apenas alguns aspectos da oralidade são representados em sinais pelos professores, a verdade é que não existe uma correspondência linear entre sinais e fala. Às vezes, um sinal pode significar várias palavras; outras vezes, uma só palavra necessita de vários sinais para ser expressa. Essa não correspondência pode trazer problemas para a criança que, no momento da aprendizagem de um tópico novo, encontram-se diante de dois canais simultâneos de informação nem sempre congruentes. Hoje no Brasil e no mundo já é falado sobre a educação bilíngue. No entanto, experiências com educação bilíngue é um tema restrito, devido aos pontos elencados acima e também pela resistência de muitos profissionais em considerar a língua de sinais como uma língua verdadeira e não aceitar sua adequação ao trabalho com as pessoas surdas. 2.1 TIPOS E CAUSAS DE DEFICIÊNCIA AUDITIVA APRESENTADA PELA SOCIEDADE I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 141 Uma pessoa deficiente auditiva é classificada como surdo, quando sua audição não é funcional e a pessoa hipoacústica é aquela cuja audição, ainda que deficiente, é funcional com ou sem uso prótese auditiva. Para Lacerda (1998), a deficiência auditiva pode ser congênita, causada por viroses materna, por doenças tóxicas desenvolvidas durante a gravidez ou adquirida, por ingerir remédios que lesam o nervo auditivo, exposição a sons impactantes, viroses, predisposição genética, meningite, etc. A classificação das hipoacústicas pode ser em função do grau da perda auditiva, sua ordem e localização. Quando as lesões se localizam no ouvido externo ou no médio é caracterizada como deficiência de transmissão ou deficiência mista dependendo da intensidade dessa lesão. Mas quando se localizam no ouvido e no nervo auditivo é caracterizada como deficiência interna ou sensório neural (estágio mais agudo da deficiência). Os conceitos de perda auditiva nem sempre é claro para a pessoa que se depara com um problema de surdez. O grau da deficiência auditiva é calculado pela intensidade necessária para amplificar um som de modo que seja percebido pela pessoa surda. Este método de amplificação é averiguado habitualmente em decibéis. Em virtudeda complexa estrutura do ouvido, podem ser várias as razões da perda auditiva. Basicamente, são classificadas como condutivas ou sensório- neurais. A surdez condutiva é aquela que se reduz a intensidade do som alcançado pelo ouvido interno. O distúrbio causador da surdez condutiva localiza-se no ouvido externo ou médio e interfere na capacidade de condução do som. Uma perda sensório-neural ou da percepção é causada por problemas do ouvido interno ou do nervo auditivo, que transmite o impulso ao cérebro; neste caso as implicações são mais complexas e podem afetar outras funções [...]. (GORGATTI; COSTA, 2008, p. 39) Uma pessoa com deficiência auditiva possui dificuldade para se situar em uma ambiente diferente do que está acostumado, visto que as pessoas ao seu redor podem deixa-la irritada, intimidada. Segundo Davis e Silverman (1966, p. 27), os níveis de limiares utilizados para caracterizar o grau da severidade da deficiência auditiva pode conter algumas variações, veja abaixo: I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 142 Normal: onde os Limiares variam entre 0 à 24 dB nível de audição; Auditiva Leve: Limiares entre 25 à 40 dB nível de audição; Auditiva Moderna: Limiares entre 41 e 70 dB nível de audição; Auditiva Severa: Limiares entre 71 e 90 dB nível de audição; Auditiva Profunda: Limiares acima de 90 dB. Diante desses autores os indivíduos com os níveis de perda auditiva leve, moderada e a severa são chamados de deficientes auditivos, já os níveis de perda auditiva profunda são os diagnosticados surdos. 2.2 PRÍNCIPAIS CAUSAS DA SURDEZ Por causa de novas tecnologias aplicadas na medicina, hoje muitas doenças são mais fáceis de ser diagnosticada. Essa situação antes não era possível, devido à escassez de especialista na área. Atualmente, segundo Gorgatti e Costa (2008) são inúmeras as causas para a perda de audição, tais como: cerume ou copos estranhos alojados no conduto auditivo externo; otite externa: se trata de uma infecção bacteriana da pele centrada no conduto auditivo externo; otite média: trata-se de um processo infeccioso e ou processo inflamatório da orelha média, que se divide em otite média secretora, otite média aguda, otite médica crônica supurada e otite média crônica colesteatomatosa. Estenose ou atresia do conduto auditivo externo este processo é a redução de calibre ou ausência do conduto auditivo externo. Atresia, acontece geralmente através de uma malformação congênita e a estenose pode ser congênita ou ocorrer devido à algum trauma, agressão cirúrgica ou infeções graves. Gorgatti e Costa (2008) ainda mencionam a meningite bolhosa: esta intitulação de meningite refere-se a uma inflamação da membrana timpânica. Pode ser definida como acúmulo de fluído entre as camadas da membrana timpânica, ou associado; perfurações da membrana timpânica: este fato se dá por meio de traumas externos, variações repentinas da pressão atmosférica ou otite média crônica supurada. A perda auditiva ocorre devido a alterações I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 143 bruscas da vibração da membrana timpânica. São variáveis de acordo coma extensão e localização da perfuração; obstrução da tupa auditiva; fissuras Palatinas; otosclerose. A medicina, na visão de Gorgatti e Costa (2008) classificou também deficiência em vários aspectos tais como, causas pré-natais de origem hereditárias: (surdez herdada monogênica, que pode ser uma surdez isolada da orelha interna por mecanismo recessivo ou dominante ou uma síndrome com surdez); e uma surdez associada a aberrações cromossômicas. Estas são causas exógenas, que podem ser provindas de Infeções maternas por rubéola, citomegalovírus, sífilis, herpes, toxoplasmose; drogas ototóxicas (drogas medicamentosas que afetam o ouvido interno) e outras, alcoolismo materno (mãe que ingere grande quantidade de álcool durante a gravidez); Irradiações, por exemplo em raios X; toxemia (intoxicação resulta do excesso de toxinas), diabetes e outras doenças maternais graves. Há ainda, segundo os autores referenciados acima, as causas perinatais que se acometem de: prematuridade e/ou baixo peso ao nascimento; trauma de parto, este é um fator traumático e um fator anóxico; doença hemolítica do recém-nascido, como a icterícia grave do recém-nascido. E nas causas pós-natais, Brasil (1997) destaca: infeções como a meningite, encefalite, parotidite epidêmica como a caxumba, sarampo etc.; drogas ototóxicas; perda Auditiva induzida por ruído (Pair); traumas físicos que afetam o osso temporal. Assim, é preciso compreender as causas da deficiência auditiva para tentar inserir as pessoas com essa característica no espaço cultural que a sociedade atual apresenta. 3. CARACTERÍSTICA AUDITIVA E A PREVENÇÃO Desde o nascimento, de acordo com Gorgatti e Costa (2008) os pais e educadores devem estar sempre atentos e observando atitudes suspeitas de problemas auditivos como: defeitos articulatórios; criança com dificuldade de concentração e dispersas; crianças que não atendem quando chamada; inclina a cabeça em direção ao som; fala muito alto; assiste TV., ou ouve o rádio em alto falante; entre outros sintomas presentes. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 144 Se acontecer de a criança apresentar esses sintomas com regularidade, cabe aos professores orientar os pais para procurar ajuda de outros profissionais. 3.1 A LÍNGUA DE SINAIS Acredita-se que todas as tentativas de fazer os surdos falarem não deram resultados, mesmo com as intenções de pessoas influenciadas ligadas ao oralismo visando ensinar os surdos a capacidade de compreender a língua oral e conseguir assim se comunicar por ela, criando então a possibilidade de alfabetizá-los. Atualmente, o que se insere se conhece por bilinguismo, que na verdade é usada nas escolas visando tornar acessível à criança duas línguas no contexto escolar, na tentativa de fazer com que a criança se comunique considerando a língua de sinais como língua natural contribuindo na linguagem escrita de certa maneira. Os neurolinguísticos, na visão de Lacerda (1998) mencionam que o lado esquerdo do cérebro se torna responsável pela fala e o lado direito pela imagem dos pensamentos. As expressões faciais (movimento de cabeça, olhos, boca, sobrancelhas, bochechas) não servem apenas para complementar informações, são elementos gramaticais que compõem a estrutura da língua de sinais. A língua de sinais, de acordo com Gesser (2009) mais conhecida como Libras tem sua estrutura gramatical organizada a partir de cinco parâmetros que estruturam sua formação nos diferentes níveis linguísticos: a Configuração da(s) mão(s)-(CM), o Movimento - (M), o Ponto de Articulação - (PA) e a Orientação das mãos (O) e as componentes não manuais, que são as expressões faciais e corporais. Portanto, na língua de sinais ou libras é preciso que haja entendimento quanto a sua função e ainda, saber utilizá-la corretamente em prol da aprendizagem e desenvolvimento do educando. 2. OS DIREITOS DOS SURDOS NA SOCIEDADE DE HOJE É indispensável que a família esteja completamente envolvida nesse processo, que seus elementos se disponham a fazer parte da comunidade surda. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 145 Como o professor é, na maioria dos casos, o único profissional ao qual a família tem acesso, ele passa ser o responsável pela orientação sobre a atuação da família em toda a vida do filho surdo, daí a necessidadede o professor conhecer muito bem as implicações sociais da adoção do modelo bilíngue de educação dos surdos. É importante compreender: ‘LIBRAS É LÍNGUA’. Foi este o título escolhido para a palestra apresentada por uma linguista em um evento cujo público alvo era o estudante do curso de letras. Uma professora que trabalha na área da surdez, mencionando o título, fez o seguinte comentário: ‘De novo? Achei que essa questão já estivesse resolvida!’ (GESSER, 2009, p. 9). Ou seja, é essencial que as pessoas que convivem com o surdo entendam que a libras se apresenta como a forma de comunicação para essa clientela, devendo haver integração e respeito para que aconteça o desenvolvimento destes dentro da sociedade. Segundo Goldfeld (1997), é importante que na sociedade atual, crianças surdas se interajam com crianças ouvintes, uma vez que ambas possuem talentos. E ainda, essa interação se faz benéfica devido a não haver preconceito até chegar a idade adulta. O indivíduo que aprende por meio da linguagem de sinais – libras, precisa haver respeito, uma vez que na visão de Gesser (2009) deve-se acreditar na capacidade de uma pessoa surda, pois até mesmo os homens das cavernas comunicavam-se por meio de gestos e sinais e assim conseguiam fazer-se entendidos. Nunca se deve esquecer que um indivíduo surdo pode ir além do que se imagina, mostrando-se capaz até mesmo de efetuar cursos de Graduação, Pós graduação, Mestrado e Doutorado. 4.1 OS DIREITOS Os surdos têm o direito de, nas instituições educacionais, que as aulas sejam ministradas em língua de sinais, ou, ter a presença de um interprete. Partindo dessa lei e de outras existentes, os direitos das pessoas deficientes são exatamente os mesmos dos outros cidadãos. No entanto, para I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 146 os deficientes exercerem alguns desses direitos torna-se indispensável à adoção de medidas especiais. Não existe, uma escala de valores em relação à importância dos direitos das pessoas deficientes que sempre devem ser observados e cujo esses exercícios devem ser garantidos para que a sua inclusão seja assegurada. O exercício dos direitos deve ser garantido de forma integrada aos demais cidadãos, as soluções segregadas somente deverão ser pacientes quando for impossível conciliar a inclusão e os interesses efetivos da pessoa com deficiência. Nunca pode-se, conforme Fonseca (2003) dizer que uma criança com deficiência é limitada, pode até ser diante de seu problema, mas basta acreditar em seu potencial que a mesma consegue alcançar evoluções pertinentes; e acima de tudo valorizar sempre suas ações, suas qualidades e não ficar evidenciando seus defeitos. A realidade, portanto, necessita ser transformada em prol do aluno que possui uma deficiência, uma vez que conflitos estão cada vez existindo em grande demanda devido ao desconhecimento sobre o assunto, onde os discentes caracterizam-se como verdadeiros pingpongs, ou seja, pulam prá lá e prá cá, sem definição alguma. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS O indivíduo que carrega consigo o diagnóstico de surdez possui características particulares que vão desde a sua desenvoltura física e mental até ao seu comportamento social e isto ocorre pela forte influência diante da situação de ser sujeito surdo. Para a sociedade a linguagem é um fator importante no que diz respeito aos processos mentais de desenvolvimento da personalidade e integração social do surdo, trata-se de um elemento essencial para o convívio. Portanto observa-se que a surdez, como déficit biológico, não priva os surdos da linguagem e comunicação, mas total ou parcialmente, de língua oral, a surdez pode proporcionar ao individuo situações diferenciadas no processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem, portanto, a criança surda não é deficiente na esfera linguístico-comunicativa e nem na construção de sua identidade social, mas é assim nomeada pelas condições sociais em que se constitui como pessoa. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 147 O organismo humano possui uma capacidade incrível de adaptação, no caso do sujeito surdo, a falta do sentido de audição permite que outros sentidos se sobressaiam, pode-se dizer que para eles a visão é a forma de linguagem, pois para o surdo o visual ou gestual é a sua forma de ouvir. A língua de sinais apresenta outro sentido mediante a estruturação gramatical, altamente complexa, que possibilita ao surdo um tipo diferente de pensamento, respaldando-se nas possibilidades inteiramente visuais. Diante desse contexto, considera-se que, existem hoje, não somente no Brasil, mas e em outros países também, várias soluções pedagógicas diferenciadas para cada grupo de surdos, onde inúmeras pesquisas reconhecem que se deve permitir ao surdo, sendo que ele pode reivindicar o direito de acesso à sua língua natural, que é a língua de sinais, mostrando diferentes culturas e cidadania. REFERÊNCIAS Etimologia: Inteligência. Vocabolario Etimologico de Francesco BonomiMENEGHETTI, Antonio. Dicionário de Ontopsicologia. 2.ed. Recanto Maestro: Ontopsicologica Editrice, 2008. Madrid, CEPEEducação especial: aspetos positivos e negativos do Decreto-Lei n.º 3/2008. BEHARES, L.E. Rethinking the deaf child’s relation to language.Cadernos de Estudos Linguísticos, n. 33. Campinas: UNICAMP/IEL, p. 61-66, jul.-dez, 1997. BRASIL. Constituição da República Federativa. Promulgada em 5/10/1988. Brasília: Senado Federal, 1988. BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: nº 9394/96. 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I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 149 O USO DE JOGOS COMO ESTRATÉGIA DE APRENDIZAGEM NO ENSINO DAS CIÊNCIAS DA NATUREZA Gabriela Kemper de Souza Ana Flávia Gerken Pizzatto João Henrique Costa Teles Felipe Luz de Oliveira Colégio Adventista – Bom Retiro/Curitiba - PR RESUMO: O desinteresse por parte dos estudantes de Ensino Médio para com o estudo das ciências da natureza tem crescido significativamente, tornando-se necessários novos recursos que estimulem os jovens. Portanto, buscou-se, através da elaboração e confecção de um jogo de tabuleiro, encontrar uma maneira de conquistar a simpatia e compreensão dos alunos para com a disciplina de Física. O jogo foi aplicado em sala de aula para turmas do primeiro e segundo ano do Ensino Médio, sendo empregado após sua aplicação um questionário, para sua avaliação. Os resultados obtidos foram positivos, demonstrando aceitação por parte dos alunos. É possível concluir com esse trabalho que o jogo em questão apresenta potencial para despertar interesse nos alunos, atingindo com êxito os objetivos anteriormente determinados. Palavras-chave: Jogos na educação; Lúdico; Ciência. INTRODUÇÃO Tomando o estudo das ciências como diretriz para a conduta desse projeto, é notável, no âmbito acadêmico, a dificuldade de se efetuar um bom ensino de ciências nas escolas, pois os mecanismos de ensino têm perdido seu apelo diante dos jovens (CHAVES & SHELLARD, 2005; KRAWCZYK, 2011). I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 150 Os alunos carecem de novas metodologias e recursos que estimulem o interesse pelas ciências para obterem efetivamente um melhor resultado no desempenho dessas matérias (KLAJN, 2002). Enquanto o interesse pelo estudo se apresenta em total decadência, a popularidade dos jogos entre os jovens expressa notória ascensão (MACEDO et al., 2005; ROSSETTI & BROETTO, 2001; PEREIRA, 2014). A facilidade ao aprender por meio do lúdico pode ser explicada pela esfera científica. A aprendizagem e a educação estão diretamente ligadas ao desenvolvimento do cérebro, o qual é moldável aos estímulos do ambiente em que o indivíduo se encontra (FISCHER & ROSE, 1998). Nossa habilidade de pensar e armazenar lembranças depende de atividades que ocorrem nos circuitos cerebrais, nas quais são estimuladas ao proporcionar ocasiões para alunos manifestarem seus conhecimentos por meio de artes visuais, dramatizações e música. Isso faz com que o cérebro responda a gravuras, imagens e símbolos a qual previamente foram apresentados, facilitando a absorção do conhecimento (DUDAI, 1989; ROSE, 1992; SCHACTER, 1996; FIELDS, 2005); RUSHTON & LARKIN, 2001; RUSHTON et al., 2003; BARTOSZECK, 2006). A aprendizagem e o desenvolvimento cognitivo do aluno são experiências sociais, mediadas pela interação entre a linguagem e a ação, segundo Vygotsky, em sua teoria de aprendizagem. Sendo assim, o ensino bem sucedido depende tanto da capacidade do professor e do método de ensino por ele utilizado quanto do meio em que o aluno está inserido, seja ele: familiar, social ou escolar. Todos esses fatores interagem com as características do cérebro dos indivíduos, influenciando-os beneficamente ou prejudicialmente (LOWERY, 1998; WESTWATER & WOLFE, 2000; RAMOS, 2002). Segundo Rose et al. (2007), é necessário implementar atividades e estratégias de ensino que permitam explorar conhecimentos baseados nas situações cotidianas dos estudantes e que os estimulem a buscar e discutir a disciplina, utilizando também ações didático-metodológicas. Sendo assim, procura-se encontrar, por meio deste trabalho, um modo de estimular o interesse à aprendizagem das ciências, de maneira a utilizar o lúdico I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 151 na criação de um ambiente que estimule a participação, instigue a colaboração e ofereça constantes desafios. Além disso, objetiva a elaboração, confecção e aplicação, em sala de aula, de um jogo de tabuleiro, que envolva conceitos e pesquisadores dos diversos ramos da ciência, trabalhando, assim, com a junção do lúdico e a interdisciplinaridade, obtendo, pela aplicação de questionários, resultados parciais referentes à sua aplicação em sala de aula. METODOLOGIA Com esse trabalho, foi possível desenvolver, um jogo modelo “charada”, em que os participantes, por meio da análise de dicas, devem descobrir o termo em questão. A cada acerto, o mesmo recebe pontos equivalentes ao número de “casas” em que eles deveriam “andar”, tendo como objetivo chegar até o final de um percurso pré-definido no tabuleiro. Os termos a serem descobertos foram nomes ou conceitos físicos, químicos ou biológicos. Tais tópicos abordaram conceitos interdisciplinares, como problemas ambientais de escala global, tecnologias, eletrônicos, eletrodomésticos, leis da natureza, elementos químicos, pesquisadores e outros, levando, assim, o aluno a relacionar tais termos a conteúdos e conceitos vistos em classe reforçando dessa forma, a importância do estudo das ciências em sala de aula. A produção do jogo deu-se pela confecção de cartas (Figura 1) e para sua elaboração foi utilizado o software de edição de texto Microsoft Word®. As cartas foram padronizadas, utilizando a fonte Times News Roman, tamanho 16, no modelo A4. Para a obtenção de resultados prévios, foram criadas 50 cartas, cada uma contendo um termo a ser descoberto, 15 dicas referentes ao tópico em questão e uma pontuação específica, a qual variava proporcionalmente à complexidade do termo abordado. As cartas foram impressas em papel cartão, na cor branca, sendo dimensionadas 6 cartas para cada folha A4. Para criação e edição de imagem do tabuleiro, foi utilizado o Adobe Photoshop®. A arte gráfica representa um átomo de césio, que possui 55 elétrons e estes serão utilizados como casas a serem percorridas no tabuleiro. O participante tem como objetivo “caminhar” entre os elétrons das camadas I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 152 eletrônicas mais externas do átomo para os elétrons das camadas mais internas e, assim, chegar ao núcleo. O tabuleiro é representado pela Figura 1. Para “percorrer os elétrons” foram utilizados 4 pinos de plástico, comuns em jogos de tabuleiro, sendo estes de cores distintas (preto, branco, amarelo e vermelho). Esse jogo foi aplicado em 4 turmas do Ensino Médio, sendo elas duas do primeiro ano e duas de segundo ano. A aplicação foi conduzida em sala de aula, pelo professor Felipe Luz de Oliveira, em suas aulas de física do Colégio Curitibano Adventista Bom Retiro. O jogo foi realizado em grupos, utilizando cada pino como o representante deuma equipe. Venceu a equipe que atingiu 55 pontos (casas) primeiro. Para análise da eficácia dessa aplicação, foi elaborado um questionário com 5 perguntas, sendo 4 das objetivas e a quinta dissertativa. São elas: 1. Em sua opinião, qual a relevância desse jogo para o ensino- aprendizagem de física? 2. Você gostou da aplicação desse jogo em sala? 3. A aplicação desse jogo poderia trazer bons resultados para o sistema educacional? 4. Para você, qual importância do lúdico na educação?? 5. (Opcional) Quais sugestões você daria para que haja uma melhora no rendimento desse jogo? Figura 1. Tabuleiro e Cartas I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 153 A aplicação do questionário foi realizada logo após o término do jogo em sala de aula, tendo gerado um total de 124 (63 referentes aos primeiros anos e 61 referentes aos segundos anos). Para exposição dos resultados obtidos, foram criados no software Microsoft Excel® quatro gráficos, nos quais estão expostos os dados referentes às questões objetivas. RESULTADOS Os resultados obtidos foram tabulados levando em conta o resultado geral das quatro turmas participantes, e serão apresentados em duas etapas, sendo a Figura 2 o resultado obtido nas questões 1 e 2, e a Figura 3 o resultado referente às questões 3 e 4. Figura 2. Resultado das Questões 1 e 2 I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 154 Os resultados apresentados na Figura 2 mostram que houve aceitação do projeto por parte dos alunos, trazendo valores positivos em todos os sentidos. Em relação à primeira questão, 99% dos alunos acredita ser relevante ou muito relevante sua aplicação no ambiente escolar. Levando em conta o segundo gráfico, 97% dos entrevistados gostaram da aplicação do jogo em sala, e apenas 3% afirmaram o contrário. Figura 3. Resultado das Questões 3 e 4 Os gráficos referentes à terceira e à quarta questão (Figura 3) revelam que 99% dos alunos reconhecem que o projeto pode trazer bons resultados no ensino-aprendizagem das ciências, e afirmam em suas concepções ser importante a presença do lúdico na educação. Os resultados referentes à questão 5 foram bem positivos, de maneira que os alunos tiveram maior liberdade para se expressar (devido ao fato de ser I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 155 uma pergunta dissertativa). A maioria dos comentários mostrou contentamento e apoio ao projeto, como: “Gostei bastante, pois ajuda no conhecimento geral da Física de forma informal e divertida.” “Gostei muito, pois é uma alternativa boa para fugir do convencional.” “Ajuda em perguntas teóricas, porém não em contas e cálculos.” CONCLUSÕES Ao proporcionar aos alunos um cenário agradável e descontraído, como o vivenciado durante o jogo, foi possível observar uma maior facilidade para a compreensão do conteúdo, alcançando, assim, os objetivos previamente estabelecidos. Esse jogo proporciona uma nova metodologia de ensino, a qual oferece novas experiências sociais, como: colaboração, participação e a interação. Através dos resultados obtidos, conclui-se que a aplicação de jogos no ensino das ciências em sala de aula é uma excelente ferramenta para fortalecer e instigar o interesse dos alunos pela disciplina. REFERÊNCIAS RUSHTON, Stephen; LARKIN, Elizabeth. Shaping the learning environment: Connecting Developmentally Appropriate Practices to Brain Research. Early Childhood Education Journal, Sarasota, v. 29, n. 1, p.25-33, 2001. RUSHTON, Stephen P.; EITELGEORGE, Janice; ZICKAFOOSE, Ruby. Connecting Brian Cambourne’s Conditions of Learning Theory to Brain/Mind Principles:: Implications for Early Childhood Educators. Early Childhood Education Journal, Sarasota, v. 31, n. 1, p.11-21, 2003. LOWERY, Lawrence. How new science curricula reflect brain research. Educational Leadership, v. 56, n. 3, p.26-30, 1998. WESTWATER, Anne; WOLF, Pat. 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Aziz iniciou seus estudos aos 17 anos no curso de Geografia e História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências (FFLC) da Universidade de São Paulo (USP). Na época Geografia e História faziam parte de um mesmo curso. O renomado professor decidiu por Geografia conclui a licenciatura em 1944, foi professordo ensino médio e posteriormente lecionou na Pontifícia Universidade Católica- (PUC-SP) em 1968 se tornou professor titular de Geografia Física na (USP). No ensino secundário estudou na escola de Caçapava-SP onde foi aluno dos professores recém- formados da USP, observando a diferença da formação deles em relação aos demais despertou então o interesse em cursar Geografia e História, sua principal influência foi o professor Hilton Friedericci que tinha grande domínio em Geografia. O acesso a Universidade naquele período, se dava pelo vestibular que podia ser prestado de forma direta a partir do quinto ano do ensino secundário, porém existia o colégio universitário, onde muitos se preparavam para serem admitidos na faculdade tendo em vista que o vestibular era muito rigoroso. Para o curso de Geografia e História eram necessários conhecimentos em História medieval e antiga, História contemporânea, História do Brasil, Geografia do Brasil, Geografia humana, Geografia Física, elementos da Sociologia e Desenho. Aziz afirma que ingressou pelo seu grande domínio com desenho e nas demais disciplinas ter saído mais ou menos bem. O método de ensino na USP era fundamentado, naquele período no método de trabalho de campo, cujas atividades possibilitaram ter viajado por diversos lugares fazendo desenhos das paisagens, onde iniciou suas primeiras produções científicas. Sendo que naquele período o professor era incentivado a ser um pesquisador no caso da Geografia era utilizado como objeto de estudo a paisagem envolvendo a geometria das formas e a utilização do espaço pelo homem. Palavras-chave: formação de professores de Geografia; relatos de ex alunos do curso de Geografia; Aziz Ab'saber I I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 159 Introdução Este texto apresenta resultados parciais de pesquisa vinculada ao Projeto ‘‘Orientações metodológicas destinadas aos professores de Geografia para o ensino secundário da escola paulista (1934-1960)12. A pesquisa tem como objetivos identificar e compreender quais orientações metodológicas receberam os primeiros professores de Geografia para atuar na escola paulista, cuja formação se deu na Universidade de São Paulo (USP). Dentre os alunos ilustres se projetaram no cenário nacional e influenciaram o ensino de Geografia destacam-se Aroldo Edgard de Azevedo, Aziz Nacib Ab-Saber, José Orlandi, João Dias de Silveira e Amélia Americano Franco de Castro. Para este evento selecionamos a contribuição de um dos mais renomados geógrafos brasieliros - Aziz Nacib Ab'saber (1924-2012). Aziz Nacib Ab'saber iniciou seus estudos aos 17 anos no curso de Geografia e História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP13. Naquela época Geografia e História integravam um mesmo curso de formação universitária. O renomado professor conclui a licenciatura em 1944 e escolheu a Geografia como área de atuação. Foi professor do ensino médio e posteriormente lecionou na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC- SP). Em 1968 se tornou professor titular de Geografia Física da USP. No ensino secundário estudou no Grupo Escolar Rui Barbosa em Caçapava-SP, a partir deste período se deparou com a competição existente na escola por notas altas. Como era autodidata, afirmou que não conhecia esta prática antes iniciar seus estudos. Posteriormente transferiu-se para o Ginásio Estadual de Caçapava onde concluiu o ensino secundário. Foi aluno dos professores recém-formados da USP, observando a diferença da formação deles em relação aos demais, quanto ao rigor científico, despertou então o interesse 12 Aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), registrado sob processo n. 2014/01139-5, com vigência de 01/03/2017 a 28/02/2019. 13 Os dados biográficos do professor Aziz foram selecionados a partir da entrevista concedida a Carmen Weingrill e Vera Rita Costa, publicada originalmente na revista Ciência Hoje (SBPC), em 1992. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 160 em cursar Geografia e História na USP. Sua principal influência foi o professor Hilton Friedericci que tinha grande domínio em Geografia e uma boa didática. O acesso à universidade naquele período, se dava por meio do concurso vestibular, que podia ser prestado de forma direta a partir do quinto ano do ensino secundário, porém, existia o colégio universitário, nos quais seus alunos estudavam por dois anos para se prepararem para o vestibular, muitos destes alunos eram recém-formados em outros cursos tornando o vestibular mais concorrido, eles se preparavam para serem admitidos na faculdade tendo em vista que o vestibular era muito rigoroso. Para o curso de Geografia e História eram necessários conhecimentos referentes a História medieval e antiga, História contemporânea, História do Brasil, Geografia do Brasil, Geografia humana, Geografia Física, elementos da Sociologia e Desenho. Aziz deixou relatado que tinha bons domínios em Física, mas ingressou na universidade pelo seu grande empenho com desenho. O ensino na USP, naquele período, era complementado pelos trabalhos de campo, cujas atividades possibilitaram aos alunos ter viajado por diversos lugares. Aziz aproveitou sua habilidade com os desenhos das paisagens, cujas produções deram início em suas primeiras produções científicas. Naquele período o professor era incentivado a ser um pesquisador, no caso da Geografia, era utilizado como metodologia a observação direta da paisagem, envolvendo a geometria das formas e a utilização do espaço pelo homem. A partir dos esboços das paisagens registradas pelo professor Aziz inicia- se uma vasta produção, com mais de 400 títulos, influenciando toda comunidade científica brasileira e mundial, já que seus trabalhos tiveram grande repercussão tanto na Geografia quanto nas ciências naturais. Seus livros foram escritos a partir de relatos das viagens onde fazia a leitura e a representação da paisagem. Essas viagens foram feitas sem recurso e sem planejamento ocorriam, portanto, ocasionalmente onde seus trabalhos eram elaborados. Dentre suas ideias e conceitos podemos destacar a análise das características das regiões brasileiras, onde o autor classificou as regiões, dividindo-as em cinco domínios, I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 161 e uma área de transição denominada de domínios morfoclimáticos. Os domínios são, a saber: amazônico, cerrado, mata atlântica, araucárias e pradarias virgens. Metodologia e objetivo Trata-se de pesquisa documental e bibliográfica para identificar, localizar e recuperar um corpus documental sobre o processo de formação docente a partir de 1934. Priorizamos as de fontes documentais em formato entrevista concedida pelo ex-alunos Aziz Nacib Ab'saber. Como objetivo destacamos a influência de Aziz para o ensino de Geografia. Alguns resultados que remetem a influência de Aziz ao ensino de Geografia Inúmeras foram as contribuições de Aziz à educação, seus trabalhos influenciaram coleções de livros didáticos para todos os níveis escolares. Inclusive se dedicou na produção de um livro didático: O professor Aziz se dedicou também a publicar livros didáticos para o segundo grau, uma vez que não havia práticas de ensino dentro dos livrinhos existentes. Assim, em 1975, acabou preparando um didático mais aperfeiçoado, Formas de Relevo, dentro do projeto de uma antiga entidade chamada “Funbec”. Tratava-se de uma espécie de geomorfologia estrutural, sobretudo, com três direcionamentos: um livro para o aluno, um guiapara o professor e um caderno de exercícios. […]. Aziz achava que os livros apresentados aos alunos não tinham muito domínio do conhecimento geográfico, ou eram dirigidos mais a graduados e não a estudantes. (GAUTTIERI et al, 2010, p.22). Como citado acima percebemos que o renomado autor já demonstrava preocupação com a forma com que a Geografia vinha sendo ministrada nas escolas, elaborando um material didático voltado para a sala de aula. Aziz criticou os materiais didáticos da época, tendo em vista que os livros utilizados nas escolas, naquele período, segundo ele, tinham uma linguagem científica semelhante a utilizada na universidade. Assim, destacou a importância do uso de uma linguagem específica voltada aos alunos do ensino secundário. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 162 E, nossa investigação encontramos algumas coleções de livros didáticos que utilizaram os trabalhos do professor AZIZ como base teórica para o ensino de conceitos associados a Geografia, principalmente ligados a leitura da paisagem. A Geografia como ciência tem como principal objeto de estudo a relação do homem com o espaço, sendo assim a leitura deste é imprescindível para sua compreensão. Para a leitura das transformações ocorridas em nosso país o autor trabalha com as formas naturais e com as modificações humanas influenciadas por potencialidades naturais, sendo assim, podemos dizer que uma se dá partir da dinâmica natural da qual se originam as formas de relevo, vegetação, solo e etc., já a outra pelas ações antrópicas que modificaram os elementos naturais. Os trabalhos mencionados nos livros que encontramos têm como enfoque trabalhar com os alunos estas características, que na concepção do autor, ganharam uma descrição clara e didática. Todos os que iniciam no conhecimento das ciências da natureza, mais cedo ou mais tarde, por um caminho ou por outro, atingem a ideia de que paisagem é sempre uma herança. Na verdade, ela é uma herança em todo o sentido da palavra: herança de processos fisiográficos e biológicos, e patrimônio coletivo dos povos que historicamente as herdaram como território de atuação de suas comunidades (AB’SABER, 2003, p. 9). No livro Os domínios de natureza no Brasil Aziz apresenta a divisão do nosso país a partir de características naturais homogêneas, sendo o Brasil um país de dimensões continentais, o conhecimento de cada região é primordial para a formação de um indivíduo crítico capaz de compreender as relações sociais existentes nas diferentes paisagens brasileiras. Na divisão proposta pelo autor fica clara a interferência humana na dinâmica da produção do espaço, sendo assim a relação do mesmo com a natureza levou a transformação da paisagem natural em busca do desenvolvimento que se intensificou a partir do desenvolvimento capitalista, em busca de crescimento econômico onde o mesmo não aconteceu de forma homogênea, já que enquanto na Amazônia ainda são utilizadas técnicas milenares para a produção de objetos úteis, em outras regiões do nosso país I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 163 são copiadas tecnologias de países desenvolvidos, gerando uma grande disparidade. Este desenvolvimento se deu de forma predatória com a destruição do meio ambiente que nos dias de hoje ameaçam áreas que ainda não haviam sofrido com a interferência do homem. Como destacado acima, essa dinâmica de evolução das regiões de forma diferente tem sua gênese no desenvolvimento das relações capitalistas de produção, visando a rentabilidade que tem relação direta com o potencial econômico de cada região (AB’SABER, 2003). Num segundo plano de abordagem, é indispensável ressaltar que as nações herdaram fatias maiores ou menores daqueles mesmos conjuntos paisagísticos de longa e complicada elaboração fisiográfica e ecológica. Mais do que simples espaços territoriais, os povos herdaram paisagens e ecologias, pelas quais certamente são responsáveis, ou deveriam ser responsáveis. Desde o mais alto escalão do governo e da administração até o mais simples cidadão todos têm uma parcela de responsabilidade permanente, no sentido da utilização não predatória dessa herança única a paisagem terrestre. Para tanto, há que conhecer melhor as limitações de uso específicas de cada tipo de paisagem (p. 10). As características descritas em Os domínios de natureza no Brasil demonstram a grande diversidade paisagística em nosso país destacando a importância de conhecer seus aspectos físicos para manejo adequado, em busca de um equilíbrio entre a sociedade e a natureza, sendo de suma importância essa abordagem nos livros didáticos sendo que a formação do cidadão ativo necessita dessa base teórica para que desenvolva uma leitura da paisagem a partir de argumentos técnicos e também com a consciência de que existe um uso voltado para o bem estar social. O domínio da Amazônia destaca-se por sua biodiversidade tendo como, estando localizada em uma imensa depressão com um relevo caracterizado pelo autor como relevo de tabuleiros ondulados, com baixos Platôs que formam no Brasil a maior rede de rios de diferentes tipos, sendo essa região e ocupação ribeirinha de circulação fluvial, através de rios e igarapés por mais de três séculos. Sendo a maior floresta tropical e como anteriormente citado com a maior biodiversidade do mundo, sofrendo com o aumento da exploração para extrativismo das riquezas naturais da floresta, com a construção da Belém- Brasília intensificou o desmatamento para a instalação de pastagem para I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 164 empresas agropecuária, entretanto, ainda possui 80% de sua área preservada sendo de suma importância para preservação das características naturais desse domínio (AB’SABER, 2003). O domínio das depressões Interplanálticas semi-áridas do nordeste é caracterizado pela vegetação semiárida complexa composta por inúmeros ecossistemas sendo o semiárido mais habitado do mundo com uma extensão de 750 mil KM², apresentando as mais bizarras e rústicas paisagens morfológicas e fitogeográficas do país localizado entre duas chapadas a de São José e da Diamantina, com uma temperatura média de 29 C, com um baixo índice de precipitação os moradores mais carentes encontram dificuldade para encontrar água enquanto os mais ricos por dispor de recursos financeiros conseguem furar poços para retirar água para seu consumo a população pobre para conseguir água necessita caminhar por vários quilômetros para conseguir este recurso tão importante para o ser humano (idem). Domínio de mares de morro florestados cobre cerca de 650 mil quilômetros quadrados, com paisagem marcada pela presença de morros mamelonares, ou seja, morros com o topo convexo. Com planícies meandradas predominando depósitos de sedimentos finos nas calhas aluviais. Esta região é a mais suscetível a erosão e movimentos de massa do nosso país, cada local tem sua especificidade que passa a ser intensificada pela ação antrópica (idem). O domínio dos chapadões recobertos por cerrados e penetrados por floresta-galeria, possuem solos pobres, entretanto, pelas qualidades topográficas e climáticas bastante favorável ao crescimento de vegetação. São recobertos pela vegetação denominada de cerrados e cerradões campestres, em suas regiões de vale por serem mais deprimidas são cobertas por corredores florestais, que são regiões muito úmidas com característica de mata atlântica. A organização social desta região é complexa, sua elite está fortemente vinculada à produção capitalista, onde a utilização pouco racional dos denominados matosgrossos para pastagem levou a retirada da vegetação causando danos irreversíveis ao solo e a paisagem local. Sendo que a região onde a velha ocupação pastoril menos desenvolvida não causou grandes danos a vegetação servindo como reservas futuras. Entretanto o autor destaca a importância de I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 165 investimentos para coibir a especulação fundiária extremamente maléfica para a biodiversidade (idem). A região sul por sua vez possui dois domínios sendo um deles chamado de planalto das araucárias, que são altiplanos cobertos por campos e nas áreas sedimentares, e por bosques nas áreas com solo mais fértil, onde possui uma rica biodiversidade que vem sendo devastada pela especulação da terra para uso com fim produtivo e para a valorização a longo prazo, ainda que a predação dos solos não tenha sido muito intensa estima-se que restem apenas 15% a 20% da biomassa original (AB’SABER, 2003). O domínio das pradarias mistas do Rio Grande do Sul, encontra-se na região beneficiada pelas belas paisagens naturais uma das mais belas áreas de colinas do território brasileiro que são internamente cobertos por florestas e galerias com grande biodiversidade, sendo está fortemente devastada para a produção de arroz, sendo que essa cultura levou a destruição de 90% da biomassa das florestas de galeria biodiversas, de tipo subtropical, que compunham as planícies aluviais local utilizado para rizicultura devido a facilidade para irrigação (idem). Dadas as características dos domínios propostos por Aziz, a interpretação do autor tem fortes argumentos extraídos de uma leitura in loco, que pode servir para o enriquecimento do aluno a respeito das relações do homem com a natureza. Sendo importante para a construção de uma base teórica que futuramente pode garantir o conhecimento necessário para a leitura do contexto no qual o indivíduo está inserido. Sendo assim, o discente poderá ser capaz de compreender a que a natureza como fonte de riqueza faz com que a mesma passe a ser objeto de interesse da elite capitalista. Fica nítida assim a importância da produção intelectual de Aziz Ab’’Saber apropriada pelos livros didáticos brasileiros. Os conteúdos de ensino dos livros didáticos amparam o aluno na compreensão da dinâmica de cada região natural e as consequências da ação antrópica tanto das ocorridas no passado quanto as que estão ocorrendo simultaneamente. Somente com uma leitura crítica das relações de produção do espaço poderemos intervir com medidas para a prevenção e correção de problemas causados pelo homem a natureza. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 166 Outro livro de Aziz que destaca-se para a elaboração dos livros didáticos é o Ecossistemas do Brasil, texto em que o autor trabalha com os sistemas ecológicos do nosso país. Aziz para dar mais clareza ao conceito de ecossistema destaca que: Para tornar um sistema ecológico mais compreensível, passou se a falar de três componentes intimamente vinculados: o suporte ecológico; a composição biótica que se assenta e desenvolve no aludido suporte; e as condições climatodinâmicas que justificam a permanência dos diferentes tipos de vida desenvolvidos em certo espaço e sob determinado clima (solos, subsuperfícies, águas fluviais, lacustres, marinhas e oceânicas). (AB’SABER, 2006 p.18). Assim encontramos a relação dos conteúdos trabalhados nos dois livros destacados para este trabalho, sendo que no primeiro encontramos os domínios de natureza anteriormente mencionados e no segundo livro temos o suporte ecológico para que a vida se desenvolva. Assim temos uma leitura mais minuciosa da paisagem brasileira destacando os diversos ecossistemas que compõe o Brasil. Entretanto, o autor destaca a importância dos estudos serem desenvolvidos de forma integrada, já que a junção de todos os componentes que compõem o ecossistema são primordiais para sua compreensão e não com a utilização de modelos teóricos abstratos (AB’SABER, 2006). Aziz destaca a importância da compreensão deste conjunto de componentes que servem como base para o estudo do ecossistema: Tendo por base o que se conhece sobre os espaços ecológicos primários dos domínios morfoclimáticos e fitogeográficos brasileiros, é possível escolher os locais mais adequados para estudos mais detalhados de ecossistemas representativos. Independentemente de se concentrar em quadrângulos localizados em difícil acesso como na Amazônia, pode se ter como certo a validade relativa da pesquisa para determinado entorno, marcado pela similitude e continentalidade geoecológica, desde que se atende para homogeneidade aparente de espaços circundantes (p. 23). Nessa parte inicial do estudo do ecossistema o conhecimento do local a ser analisado é importante para a compreensão deste sistema pelo aluno, remontando o diálogo entre os dois livros e a importância dos mesmos para a criação de uma base teórica importante para a formação dos estudantes, sendo I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 167 que para o estudo do ecossistema o levantamento partir de uma análise prévia da área de estudo, por si só, constitui uma investigação preliminar. Os ecossistemas assim como os domínios de natureza são descritos minuciosamente por Aziz a partir da análise de seus atributos naturais. O livro originalmente é composto por belíssimas fotos do fotografo Luiz Claudio Marigo que auxiliam na compreensão das áreas naturais, faunas nativas e todos os componentes do ecossistema mencionados pelo autor buscando a valorização destas áreas remanescentes. A ação antrópica que ameaça as paisagens naturais dos domínios de natureza, por conseguinte também ameaça os ecossistemas existentes nestes domínios causando problemas irreversíveis ao meio ambiente. Para a leitura dessas dinâmicas que atuam no território brasileiro é necessária uma análise multidisciplinar, utilizando de outras ferramentas para a compreensão destes fenômenos. Conclusões A perspectiva do processo de formação docente na USP do início do século XX valorizou a constituição da Geografia científica brasileira, que por sua vez influenciou o currículo e o fazer o ensino da disciplina na escola. De acordo com a produção intelectual de Aziz Ab’Saber e seus relatos como ex-aluno do curso, encontramos alguns conteúdos de ensino que se tornaram orientações prescritas em livros didáticos destinados aos professores e alunos das escolas brasileiras. A produção teórica de Aziz dialoga com as ciências da natureza e sua influência no ensino é atual, já que influenciou e continua influenciando a produção de livros didáticos e também auxilia na necessidade de considerar a Educação ambiental interdisciplinar, fomentando nos alunos o interesse para a ciência, a partir dos atributos paisagísticos de nosso país. I Simpósio de Educação e Inovação / II Seminário em Currículo e Inovação 22 a 24 de novembro / IFPR Campus Jacarezinho Jacarezinho/ PR 168 Referências: AB’SÁBER, Aziz Nacib. Os domínios de natureza no Brasil. São Paulo: Ateliê editorial, 2003. ________. Ecossistemas do Brasil. São Paulo: Metalivros, 2006. ________Paisagens de exceção: o litoral e o pantanal mato-grossense. São Paulo: Ateliê editorial, 2007. COSTA, Vera Rita; WEINGRILL, Carmen. Entrevista com Aziz Nacib Ab’saber. Revista Ciência Hoje. 1992. Disponível em: <http://www.canalciencia.ibict.br/notaveis/livros/aziz_nacib_absaber_7.html>. Acesso em 19/12/2017. GAUTTIERI, May Christiane Modenesi et al (Org.). A obra de Aziz Nacib Ab’Saber. São Paulo: Beca-Ball edições,