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1 GOIÂNIA – 2010/2 UNIVERSIDADE SALGADO DE OLIVEIRA CINESIOLOGIA E BIOMECÂNICA PROF. ADEMIR SCHMIDT EDUCAÇÃO FÍSICA 2 1. CONCEITOS MECÂNICOS APLICADOS AO MOVIMENTO HUMANO 1.1 CINEMÁTICA Cinemática é um ramo da mecânica que se preocupa com a análise dos movimentos, a partir de sua posição no tempo e no espaço. A cinemática se divide em dois ramos: a cinemática linear que analisa o movimento de um corpo ao longo de uma linha que pode ser reta ou curva, com todas as partes do corpo se movimentando na mesma direção e com a mesma velocidade (ex. um corredor completando uma prova de 100m); e cinemática angular, que envolve o movimento de um corpo em rotação, ao redor de um ponto central (eixo de rotação) (ex. os movimentos da maior parte dos segmentos corporais). Conceitos básicos • Distância – é todo espaço percorrido por um corpo durante sua trajetória; • Deslocamento – é a mudança de posição do corpo durante sua trajetória. Pode ser expresso pela diferença entre a posição final e a inicial. • Velocidade – é a mudança na posição, ou deslocamento, que ocorre durante um determinado período de tempo. • Aceleração – é o ritmo de mudança na velocidade, ou como a mudança na velocidade que ocorre durante um determinado período de tempo. • Ritmo – é o tempo gasto para percorrer determinada distância. Cinemática linear Na cinemática linear, as unidades de distância e de deslocamento são unidades de comprimento, onde as mais utilizadas são o metro (m) e o quilômetro (km). As unidades de tempo mais comuns são o segundo (s), o minuto (min) e a hora (h). 3 Para velocidade média (Vm) as unidades mais comuns são o metro por segundo (m/s) e o quilômetro por hora (km/h). Para o cálculo da velocidade levamos em consideração a posição inicial e final que o corpo ocupa no espaço e o tempo gasto durante este percurso. Pode ser expressa da seguinte forma: Vm = mudança na posição mudança no tempo Ou Vm = posição final – posição inicial tempo final – tempo inicial Ou Vm = ∆S ∆T Ex. – Um nadador completa uma prova de 100 m em uma piscina olímpica em 42 s, com a primeira parcial (50 m) em 19 s. Qual a velocidade média deste nadador durante o primeiro trecho, durante o segundo trecho e na prova toda? Vm = 2,63 m/s 1º trecho - Vm = 2,17m/s 2º trecho - Total - Vm = 2,38 m/s Vm = 50 m 19 s Vm = (100 – 50) m (42 – 19) s Vm = 50 m 23 s Vm = 100 m 42s 4 Cinemática angular Deslocamento angular (θ) = mudança na posição ou orientação angulares de um segmento. No sistema internacional, as unidades utilizadas são o grau (º), radianos (rad) ou rotações (1rad = 57,3º; 1 rotação = 360º); Velocidade angular (ω) = ritmo de mudança de posição ou orientação angular de um segmento em linha; 1.2 CINÉTICA Cinética é um ramo da mecânica que se preocupa com a análise dos movimentos a partir da ação das forças responsáveis por produzir, parar ou mudar o estado de movimento de um corpo. Conceitos básicos • Massa (m) – quantidade de matéria que um corpo possui, e a unidade básica no sistema métrico é o Kg. • Força (F) – pode ser considerada como um impulso ou uma tração que age sobre um corpo. As forças se caracterizam por possuir magnitude e direção. A unidade para designar a magnitude de uma força é o Newton (N). Quando mais de uma força agir sobre um sistema, um único vetor (quantidade física que possui magnitude ou direção) representará a ação resultante do conjunto de forças aplicadas, conhecida como força resultante. • Peso (P) – é a força de atração da Terra (gravidade) sobre um corpo, e é proporcional a massa do corpo (P = m * g). A unidade para designação de peso é o N. ω = θ ∆t 5 • Pressão (p) – é definida como a força distribuída por uma determinada área (p = F/A), e a unidade utilizada é o N/cm2. • Volume (V) – espaço ocupado por um corpo, e sua medida é dada em m3 ou litros. • Densidade (ρ) – é definida como a quantidade de massa por unidade de volume. Os alicerces da mecânica foram primeiramente reportados por Sir Isaac Newton (1642-1727), que descobriu as relações fundamentais e as inter- relações entre as grandezas cinéticas básicas. Estes conceitos passaram a ser conhecidos como as três leis de movimento de Newton. 1ª lei (Lei da inércia) – um corpo manterá seu estado de repouso ou de movimento constante, a não ser que a ação de uma força externa intervenha sobre o corpo. Resumindo, sempre que um corpo estiver parado tende a continuar parado, como uma bola, que só passa a se mover após uma força ser aplicada sobre ela (chute). Após entrar em movimento, tende a permanecer em movimento, a não ser que uma outra força venha pará-la. Ou, o movimento do membro inferior que chutou a bola, estava parado, e a partir da ação de determinados grupos musculares passou a se movimentar, e após estar em movimento, somente pode ser freada pela ação de outras forças, como por exemplo, a ação de outros músculos, antagonistas aqueles que iniciaram o movimento. 2ª lei (Lei da aceleração) - uma força aplicada a um corpo acarreta aceleração deste corpo, com magnitude proporcional à força aplicada e inversamente proporcional à massa deste corpo. Pode ser expresso pela seguinte equação: F = m * a. Quando aplicamos uma força sobre um corpo, como por exemplo, um saque no vôlei, a aceleração desta bola será proporcional a força aplicada, lembrando que quanto maior a aceleração, maior será a velocidade. Por outro lado, quanto mais pesada for a bola, como uma medicine ball, menor será sua aceleração (considerando que em ambos os casos a força aplicada foi a mesma, 6 ou da mesma forma, para que as duas bolas alcancem a mesma aceleração, uma força maior terá que ser aplicada à medicine ball. 3ª lei (Lei da ação e reação) – quando um corpo exerce força sobre outro, este segundo exerce uma força igual em magnitude e oposta a direção da força exercida pelo primeiro. Por exemplo, quando queremos realizar um salto, aplicamos uma força contra o solo, que devolverá esta força, com a mesma magnitude, porém no sentido para cima. Torque Nos movimentos angulares, uma força não produzirá um movimento do corpo no mesmo sentido da aplicação desta força. Ele produzirá uma ação rotatória, que recebe o nome de torque. O torque pode ser considerado a ação rotatória resultante da aplicação de uma força, e leva em consideração não somente a magnitude da força aplicada, como também a distância perpendicular em que essa força é aplicada em relação ao eixo de rotação. Matematicamente, pode ser expresso pela seguinte equação: T = F * d┴. Por essa definição, qualquer alteração na força aplicada ou na distância em que essa força é aplicada produzirá uma alteração no torque produzido. Para uma mesma força aplicada, o torque será maior quanto mais distante essa força estiver do eixo. Em relação ao corpo humano o torque necessário para movimentar os segmentos é produzido pelos músculos esqueléticos. Quanto mais distante a inserção dos músculos estiver posicionado em relação à articulação, mais fácil será a realização de movimentos, porém, no corpo humano, as inserções musculares comumente se encontram na porção proximal dos ossos. Geralmente, não nos deparamos com situações onde existe apenas um torque agindo, mas torques em sentidos opostos agindo sobre um mesmo corpo. Esta situação é semelhante a duas crianças brincando em uma gangorra. Cada uma delas exercerá um torque parabaixo em seu lado da gangorra, e o movimento resultante será no sentido do maior torque produzido. 7 No corpo humano, este sistema se repete. Na realização de um movimento, os músculos produzem torque em uma direção, que para se realizar tem que superar o torque produzido pela resistência à este movimento. A resistência pode ser a força da gravidade, o peso dos segmentos corporais ou um resistência física, como halteres ou bolas. Dessa forma, as interações entre o ambiente e o trabalho muscular, podem caracterizar o que chamamos de sistemas de alavancas. O sistema de alavancas pode ser definido como uma máquina simples que transmite a energia mecânica de um lugar para outro. Normalmente ela incorpora um objeto rígido (no corpo humano, os ossos) que a partir da ação de uma força (no corpo humano, produzido pela contração muscular) gira ao redor de um ponto de apoio (no corpo humano, as articulação), produzindo assim, o movimento angular. Em um sistema de alavancas podemos identificar seis componentes básicos: 1) um corpo rígido, que será a alavanca (ossos); 2) eixo (articulações); 3) a presença de uma resistência (força resistente constituída por forças externas que agem no sistema, como a ação da gravidade sobre um segmento corporal ou um corpo externo como barras e halteres); 4) um braço de resistência, que é igual a distância entre o eixo e o ponto onde a resistência é aplicada ao sistema; 5) força (força potente, produzida pela contração muscular); e 6) braço de força, que é igual à distância entre o eixo e o ponto em que a força é aplicada à alavanca (normalmente representado pela distância entre a articulação e a inserção do músculo). 8 As alavancas podem ser divididas em três categorias, de acordo com a relação entre o eixo de rotação e os braços de força e resistência: • ALAVANCA DE PRIMEIRA CLASSE (INTERFIXA)= o ponto de apoio está localizado entre a força e a resistência. Se o braço de força for maior que o braço de resistência favorecerá a produção de força. Se o braço de resistência for maior favorecerá a rapidez e o alcance do movimento. F Braço de força Força Braço de resistência EIXO R ng EIXO FP FR BF BR 9 • ALAVANCA DE SEGUNDA CLASSE (INTERRESISTENTE)= tanto a força como a resistência estão aplicadas do mesmo lado do ponto de apoio, com o braço de força sempre maior que o braço de resistência. As alavancas de segunda classe favorecem a produção de força à custa de rapidez e alcance de movimento. • ALAVANCA DE TERCEIRA CLASSE (INTERPOTENTE)= o ponto de apoio está em uma ponta da alavanca e a resistência está na outra. A força aplicada age entre o ponto de apoio e a resistência. As alavancas de 10 terceira classe favorecem a rapidez e o alcance de movimento, por outro lado, a aplicação de força que é aplicada é sempre maior que a resistência. Como apresentado, as alavancas de 1ª e de 3ª classe, favorecem o desenvolvimento da velocidade, enquanto as alavancas de 2ª classe favorecem o desenvolvimento de força. Em relação à produção de velocidade, temos que levar em consideração que, quanto mais longe da extremidade livre (isto é a extremidade distal) a força for aplicada, maior será sua velocidade linear. Por isso, as alavancas de 1ª e 3ª classe no corpo humano favorecem a produção de velocidade. Eixo Força Resistência 11 2 – BIOMECÂNICA DO TECIDO ÓSSEO O esqueleto é constituído por 206 ossos, subdivididos topograficamente em esqueleto axial, formado pelos ossos do crânio, as vértebras, o sacro, o esterno e as costelas, e esqueleto apendicular, formado pelo cíngulo do membro superior e inferior e os ossos livres do membro superior e inferior. A palavra osso geralmente trás a imagem de um tecido morto, quebradiço, formado por minerais. Todavia, os ossos são tecidos vivos e dinâmicos, que respondem constantemente a ação das forças que agem sobre eles. No corpo humano, além de relevantes papéis fisiológicos (armazenamento de cálcio e formação de células sanguíneas), os ossos desempenham duas funções mecânicas de destaque: 1) proporcionam uma estrutura rígida que constitui o sistema de alavancas, fundamental para a realização de movimentos; 2) fornece apoio e proteção a vários outros tecidos, como os músculos no primeiro caso e proteção ao coração, pulmões e encéfalo, no segundo caso. Tipos de ossos Os ossos podem ser classificados de acordo com seu formato e função. • Ossos curtos – apresentam formato cúbico, e proporcionam movimentos limitados, somente por deslizamento. Também auxiliam na absorção de choques. Incluem os ossos do carpo e do tarso; 12 • Ossos planos – protegem os órgãos e proporcionam grandes áreas para a inserção de músculos e ligamentos. A escápula, alguns ossos do crânio e os ossos do quadril são exemplos de ossos planos; • Ossos irregulares – possuem formato diferente, de acordo com a função que desempenham. São exemplos as vértebras, maxila, o sacro e o cóccix. • Ossos longos – consistem de um longo tubo aproximadamente cilíndrico (corpo ou diáfise), com extremidades bulbosas (côndilos ou epífises). Os ossos longos possuem também um canal central, conhecido como canal medular. Fazem parte deste grupo o fêmur, o úmero, o rádio, a ulna, a tíbia, a fíbula, os metacarpos, metatarsos e as falanges. Além destes tipos de ossos, ainda existe uma classificação específica para as patelas, que são chamadas de ossos sesamóides por se desenvolverem envoltas no tendão patelar. 13 Estrutura e composição do tecido ósseo Os componentes materiais e a organização estrutural dos ossos influenciam a maneira pelas quais os ossos respondem às cargas mecânicas. A composição e estrutura dão origem a um material que é resistente para seu peso e relativamente leve. Os ossos são constituídos por componentes orgânicos representado pelas células, componentes inorgânicos, representados pelos sais de cálcio e pela matriz extracelular e água. O componente orgânico é formado por células, que formam um tipo especializado de tecido conjuntivo, com células ativas, divididas em três tipos principais: os osteoblastos, responsáveis pela (re)construção dos ossos, através da síntese da matriz extracelular, os osteócitos, responsáveis pela manutenção e controle da matriz e pelos osteoclastos, responsáveis pela reabsorção de tecido ósseo, necessária para que um novo tecido seja depositado. Como dito anteriormente, o osso é um tecido dinâmico e, desta maneira durante a vida nosso esqueleto é capaz de se renovar completamente várias vezes. Por sua vez, o componente extracelular é formado por um componente orgânico e um componente inorgânico. O componente orgânico contém água e uma matriz extracelular formada principalmente por fibras de colágeno (tipo I) e uma substância em gel, na qual as fibras ficam imersas, conhecida como substância de base. Esta estrutura fornece ao osso flexibilidade e extensibilidade, contribuindo para resistir à cargas tensivas. A água representa cerca de 30% do peso do osso e contribui muito para a resistência do osso. Além disto, o fluxo de água é importante para carregar para longe das células os resíduos metabólicos e trazer nutrientes para as células dentro da matriz mineralizada. O componente inorgânico é formado por sais de cálcio, onde os principais são o fosfato de cálcio e o carbonato de cálcio, que representam cerca 14 de 50% do peso do osso vivo. Estes minerais fornecem rigidez ao osso e são os responsáveis pela resistência à cargas compressivas. O ósteon (Sistema deHavers) Em nível microscópico, a unidade estrutural fundamental do osso é o ósteon ou Sistema de Havers. No centro de cada ósteon, está um pequeno canal, chamado Canal de Havers, por onde se estendem os vasos sanguíneos e as fibras nervosas. O ósteon consiste de uma série de camadas (lamelas) de matriz mineralizada, em volta do canal central. Nas bordas de cada camada (ou lamela) estão as cavidades conhecidas como lacunas e cada qual contém um célula óssea (o osteócito). Inúmeros pequenos canais se irradiam de cada lacuna, conectando a lacuna com a lamela adjacente e finalmente encontrando o canal de Havers. Este arranjo permite que os nutrientes vindos dos vasos sangüíneos em direção ao canal de havers atinja todos os osteócitos, promovendo sua nutrição e retirando os detritos metabólicos. Na periferia de cada ósteon está a linha cimentada, uma estreita área de substância de base. Os canais não atravessam esta linha cimentada, assim como as fibras de colágeno presentes na matriz óssea, porém interconectam-se de uma lamela a outra dentro de um ósteon. Esta interconexão de fibras de colágeno dentro do ósteon aumenta a sua resistência mecânica. 15 Com base em sua porosidade, os ossos são classificados em duas categorias: 1) osso cortical, com baixa porosidade e contendo mais de 70% de tecido mineralizado, e 2) osso trabecular ou esponjoso, com porosidade relativamente alta e com 30% a 90% composto por tecidos não-mineralizados. O osso trabecular exibe um formato estilo favo de mel. Em todos os ossos do corpo encontramos a presença dos dois tipos de tecido, variando a quantidade de cada um de acordo com a função específica desempenhada pelos ossos. Por exemplo, nos ossos longos, as diáfises são constituídas por osso cortical nas extremidades, enquanto que a parte interna, mais próxima ao canal medular é composta principalmente por osso trabecular, ou nos ossos planos, onde o osso se organiza como um “sanduíche”, formado por tecido cortical nas partes mais externas (pão) e tecido cortical no centro (recheio). Crescimento e desenvolvimento dos ossos O crescimento dos ossos se dá de forma longitudinal e circunferencial, começando na vida pré-natal e continuando durante toda a vida, muitas destas mudanças acontecem como parte do processo de crescimento normal, tendo como fatores determinantes a programação genética, mas também é sensível a ação do ambiente. O crescimento longitudinal ocorre nas epífises, através de uma placa cartilaginosa, conhecida como cartilagem epifisária ou cartilagem de Osso trabecular Osso cortical Osso cortical 16 crescimento, que em sua extremidade diafisária produz novas células ósseas. Este processo se encerra por volta dos 18 anos, com a mineralização da cartilagem de crescimento e representa o fim do crescimento longitudinal determinando a estatura adulta dos indivíduos. Este processo é controlado por fatores genéticos, e o ambiente determina se todo potencial genético poderá ser alcançado. Fatores que afetam o crescimento longitudinal e consequentemente o crescimento estatural estão relacionados à uma nutrição inadequada e insuficiente, ou a mineralização precoce da cartilagem de crescimento, estimulado por uma sobrecarga mecânica sobre a região, que pode ser causada pelo excesso de exercícios físicos, seja na intensidade ou no volume aplicados. O crescimento circunferencial representa o aumento no perímetro do osso e ocorre durante toda vida. Este processo se dá pela atividade dos osteoblastos, que produzem novas camadas de células e matriz óssea sobre as camadas já existentes. Ao mesmo tempo, os osteoclastos se ocupam da 17 reabsorção do tecido na porção interna, mantendo um equilíbrio entre o diâmetro total do osso e do canal medular. Ao contrário do crescimento longitudinal, este processo é modelado por fatores ambientais. Pereira (2001), estudando tenistas de ambos os sexos, com idades entre 14 e 16 anos, verificou uma diferença significativa de 2,77% para o diâmetro ósseo no punho e 3,07% para o diâmetro do úmero nos homens e de 1,87% e 2,11% nas mulheres, respectivamente, quando foram comparados os membros dominantes com os não-dominantes. Em relação à quantidade de conteúdo mineral ósseo, o desenvolvimento dos ossos se dá de forma diferente entre os sexos. Até o início da puberdade o desenvolvimento é praticamente o mesmo, porém, a partir daí, o sexo masculino passa a apresentar uma quantidade total de conteúdo mineral ósseo maior que o sexo feminino, e, além disto, o período de retenção é maior para os meninos. Ao final da fase de crescimento, a quantidade máxima de conteúdo mineral ósseo alcança seu pico. Após a terceira década de vida esta quantidade passa a diminuir, com aumento da perda de substância óssea e aumento da porosidade, provocando diminuição progressiva nas propriedades mecânicas e na resistência geral do osso. A mineralização dos ossos, representada pelo acúmulo de conteúdo mineral ósseo se dá através de dois processos: A modelagem e a remodelagem óssea e também é fortemente influenciada pelos estímulos mecânicos. 0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 8 10 12 14 16 18 Idade C M O (g ) 0 50 100 150 200 250 300 8 10 12 14 16 18 Homens Mulheres C M O (g/ an o) Idade 18 Estes processos obedecem a uma regra que ficou conhecida como lei de Wolff, e diz que: “Com a forma de um osso já determinada, os componentes dos ossos se colocam ou se deslocam na direção das forças funcionais e aumentam ou diminuem sua massa de forma a refletir a quantidade das forças que são submetidos”. O processo de modelagem acontece principalmente durante o período de crescimento. Os mecanismos responsáveis pela ativação deste processo permanecem desconhecidos, mas apontam para a participação dos hormônios responsáveis pelo crescimento. A ação é constante e ocorre em superfícies diferentes, os osteoclastos reabsorvendo tecido em uma determinada região, enquanto os osteoblastos constroem novas camadas concêntricas por cima das já existentes. Por outro lado, remodelagem é um processo que acontece durante toda vida e pode desencadear a liberação do mineral armazenado no osso e depende de fatores como a disponibilidade de cálcio e a existência de estímulos mecânicos. Este processo ocorre de maneira que as superfícies de reabsorção e reconstrução são as mesmas. A remodelagem pode acontecer seja por uma modalidade de conservação, sem qualquer mudança na massa óssea, ou por uma modalidade de desuso, com perda efetiva da massa óssea. Assim sendo, a mineralização e a resistência dos ossos constituem uma função dos estresses que agem sobre o esqueleto. A partir da 3ª década de vida, os ossos passam a diminuir a quantidade de tecido mineralizado. Esta constante perda provoca uma diminuição na rigidez dos ossos, tornando-os mais frágeis e representando riscos graves à saúde e a qualidade de vida das pessoas. Estas alterações acometem ambos os sexos, porém de forma mais acentuada as mulheres. Cerca de 0,5% a 1,0% de massa óssea é perdida a cada ano até que as mulheres alcancem a menopausa, quando passa a haver uma maior taxa de perda óssea, chegando a 6,5% a cada ano, principalmente durante os primeiros anos pós-menopausa. Em contraste, no 19 sexo masculino esta taxa parece permanecer constante, em torno de 0,5%, durante toda a vida. Estímulos adicionais, como exercícios que proporcionam estresse ao osso podem amenizar estas perdas, porém, o processo é inevitável. Os ossos de pessoas fisicamente ativas costumam ser mais densos e, portanto, mais mineralizados que de indivíduos sedentários da mesma idade e sexo. Resultados de vários estudos apontam para ocupações e esportes onde existe estresse sobre os ossos são capazes de produzir uma hipertrofiaóssea na área estressada. Também alterações positivas provocadas pelas cargas tensivas dos músculos sobre os ossos durante o treinamento com pesos podem ser verificadas. Parece também que quanto maiores forem as forças, maior será a mineralização do osso. 20 (CADORE, et al., 2006) 21 No outro extremo do espectro, quando os estresses exercidos sobre os ossos pelas contrações musculares ou pela sustentação do peso corporal são reduzidos, o tecido ósseo se atrofia, com perda na quantidade de minerais e diminuição na resistência do osso. Cargas sobre o sistema ósseo Os ossos reagem de forma diferente a diferentes cargas, com maior resistência a cargas compressivas, e uma menor resistência a cargas de cisalhamento. Porém, as cargas inclinadas são as mais letais para o osso, pois produzem compressão em um dos lados, enquanto o outro lado é estendido. Como o osso consegue suportar mais carga de compressão, o lado que está sendo estendido será lesado. Compressão – força de pressão ou esmagamento dirigida axialmente através de um corpo; Tensão - força de tração ou estiramento, dirigida axialmente através de um corpo; Cisalhamento (tangencial) – força dirigida paralelamente a uma superfície; Torção – carga que produz rotação de um corpo ao redor de seu eixo longitudinal; Inclinação (envergamento) – carga assimétrica que produz tensão em um dos lados do eixo longitudinal de um corpo e compressão no outro lado; Carga combinada – ação simultânea de mais de uma forma pura de carga; 22 Quando um osso é submetido a estresse, a carga provocará uma deformação, e à medida que a carga aumenta, a deformação aumenta de maneira linear, e o osso se deforma. Até uma determinada intensidade, conhecida como ponto de cessão, a deformação do osso é elástica, e ao final da aplicação da carga retornará ao seu formato original. Pequenos aumentos de carga acima dos valores referentes são ponto de cessão, provocarão muita deformação, conhecida como deformação plástica do osso, isto é, ao final da aplicação das cargas, o osso não voltará ao seu formato original. Quando a capacidade máxima de deformação do osso é alcançada, ocorre o rompimento do osso. compressão tensão cisalhamento Estresse até acontecer fratura Região de deformação elástica Ponto de cessão Região de deformação plástica Ponto de falência 23 Lesões comuns dos ossos (fraturas) Fratura é a interrupção na continuidade de um osso. A natureza de uma fratura depende da direção, intensidade e duração da carga aplicada, bem como, do estado geral de saúde óssea. As fraturas mais comuns são aquelas causadas por cargas inclinadas e de torção, porém lesões por cargas compressivas são comuns principalmente onde já existem indícios de osteoporose, como na coluna lombar. No caso de cargas tensivas aplicadas ao osso, a lesão mais comum é a avulsão, onde um tendão ou ligamento traciona um pequeno fragmento e o separa do resto do osso. As fraturas por estresse, ou fraturas por fadiga resultam de forças de baixa intensidade suportadas repetitivamente. Quando não há tempo para completar o processo de remodelagem, será criado um dano adicional, que pode progredir para fratura. Outra forma de lesão comum acontece na placa epifisária, que pode ser provocada por cargas intensas e agudas ou com baixa intensidade aplicada repetitivamente, e provocam a mineralização e o fechamento prematuro da junção epifisária, resultando no encerramento do crescimento longitudinal do osso. COMPRESSÃO CARGA INCLINADA 24 Osteoporose A osteoporose é encontrada na maioria dos indivíduos idosos, porém a perda de conteúdo mineral ósseo se inicia a partir da terceira década de vida. Nas mulheres este processo é mais crítico, principalmente após a menopausa. Esta condição se inicia como osteopenia, isto é, uma redução na massa óssea e progride para osteoporose, onde a mineralização do tecido ósseo e a resistência mecânica diminuem e aumenta o risco de fraturas, afetando a qualidade de vida e a capacidade de realizar atividades diárias. As mulheres sofrem cerca de três vezes mais fraturas que os homens, afetando principalmente o colo do fêmur e as vértebras lombares. Após os 60 anos, cerca de 90% de todas as fraturas estão relacionadas à osteoporose. A osteoporose não tem um inicio agudo, mas faz parte dos efeitos secundários relacionados ao envelhecimento e representa o resultado de uma vida inteira de hábitos destrutivos para o sistema esquelético. A identificação precoce da baixa densidade de minerais ósseos é conveniente, pois, após a ocorrência de fraturas osteoporóticas observa-se perda irreversível da estrutura trabecular. Os principais fatores de risco para osteoporose são: • sexo feminino • menopausa precoce • idade avançada • etnia (raça) branca e parda. • estrutura óssea pequena e baixo peso • familiar com osteoporose • familiar com osteoporose e história de fratura • tabagismo • sedentarismo e condições que levem a imobilização • alcoolismo • uso de bebidas contendo cafeína 25 • baixa exposição solar • dieta pobre em cálcio • uso de medicamentos, como por exemplo: corticoesteróides, heparina, anticoagulantes e anticonvulsivantes; • doenças como insuficiência renal, hipertireoidismo, mieloma múltiplo entre outros. As principais e mais temidas complicações da osteoporose são as fraturas. Quando elas ocorrem nos corpos vertebrais além de dor, o paciente pode apresentar alterações da postura como a hipercifose (corcunda) e desvios laterais da coluna (escoliose). Alguns casos de fratura de fêmur necessitam de tratamento cirúrgico. Isso implica em internação hospitalar, repouso e posteriormente fisioterapia, para recuperação dos movimentos. Prevenção O principal objetivo da prevenção e do tratamento da osteoporose é evitar que ocorram as fraturas. Os locais de maior incidência são: corpo vertebral, colo do fêmur, antebraço e úmero. Por ser a osteoporose uma doença que não provoca sintomas e de evolução lenta durante anos, é interessante que se adotem hábitos de vida saudáveis que aumentem a resistência óssea desde a infância. Pelo fato da população feminina apresentar maior risco no desenvolvimento da osteoporose, principalmente após a menopausa, deve reduzir ou suspender o fumo, limitar a ingestão de bebidas alcoólicas e café e praticar regularmente alguma atividade física. A alimentação deve ser balanceada e conter adequada quantidade de cálcio. A exposição aos raios solares nas primeiras horas da manhã e no final da tarde também está indicada. Mesmo as pessoas que já apresentam osteoporose, também devem adotar os hábitos de vida citados acima, para que seu tratamento seja mais eficaz e sua vida mais saudável.