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TEXTO COMPLEMENTAR DE CIÊNCIA POLÍTICA (DIREITO) E COMUNICAÇÃO E POLÍTICA (JORNALISMO E PUBLICIDADE E PROPAGANDA) ACERCA DO ESTADO MODERNO SOB A ÓTICA RENASCENTISTA E ILUMINISTA PROFº ANDRÉ SANTOS EXTRAÍDO DE FRAGMENTOS DA PARTE 2 DA OBRA: SANTOS, André Luiz. MÜLLER, Elvis Daniel. PITZ, Gelazio. Ab Origine: Introdução a História do Pensamento Jurídico e a Teoria Geral do Estado. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2012. CAPÍTULO 1 – ORIGENS HISTÓRICAS, ECONÔMICO- JURÍDICAS E FUNDAMENTOS MORAIS, POLÍTICOS E FILOSÓFICOS DA FORMAÇÃO DO ESTADO MODERNO 1.1 ELEMENTOS CONSTITUINTES DO ESTADO Na modernidade, diferentemente de épocas antigas, viver sob um Estado é uma condição indispensável à vida de qualquer cidadão. Qualquer indivíduo que existe na modernidade, encontra-se sob a tutela de algum Estado. Só não estão submissos a esta realidade aqueles indivíduos que ainda vivem em condições de isolamento, sem que tenham tido qualquer contato com qualquer civilização ou aqueles que muito pouco contato tenham tido, embora sem que muitas vezes saibam compõem um Estado. No Brasil, por exemplo, Mesmo as tribos amazônicas e outras, eventualmente, de menor contato, de alguma forma, já sentiram a presença do Estado brasileiro e nele estão inseridos. Para o homem moderno a existência e o pertencimento ao Estado é praticamente uma fatalidade. Muito difícil é imaginar alguém na dinâmica de vida moderna, especialmente na atualidade conseguir ter um cotidiano normal e ser bem sucedido, particularmente em sua vida profissional de negócios e social, sem que constantemente sinta necessidade de recorrer aos seus vínculos com o Estado ou ser cobrado em suas obrigações com ele. Isso é fato, é uma realidade; estamos envoltos pelo Estado. Em linguagem de senso comum poderíamos dizer que estamos cercados de Estado por todos os lados. A pertença ao Estado é de tamanha fatalidade que ninguém de nós e de muitas de nossas gerações passadas escolheu pertencer ou deixar de pertencer a um Estado. Simplesmente, cada um pertence. Nenhum de nós e de nossos antepassados mais próximos escolheu constituir um Estado e também não participou do processo que nele culminou. É, para nós, na atualidade, praticamente uma imposição. Não que dele não possamos participar e de alguma forma nele interferir. Ao participarmos dele, contudo, sempre o fizemos para aprimorá-lo e ratificar ainda mais a sua existência. A respeito dele nos comportamos com sentimento e em atitude praticamente religiosa. Segundo Strayer “(...) Um Estado existe, sobretudo no coração e no espírito do seu povo; se este não acreditar na existência do Estado, nenhum exercício de lógica poderá lhe dar vida (...)”1 Arriscaríamos dizer que possivelmente o Estado em si, seja menos contestado ou descartado que a própria religião, o que não significa dizer que não sejam contestados aqueles que o comandam ou o seu modelo ou forma de atuação. Podemos até escolher trocar de Estado, no entanto, para isso precisamos atestar, obviamente, que pertencemos a algum. E conforme for a identidade do Estado de origem do indivíduo, terá ele maior ou menor facilidade de efetuar e efetivar sua escolha por outro. Contudo, sempre será possível trocar de Estado, no entanto, desfazer-se de qualquer vínculo com qualquer um dos que aí estão, isto nos parece, atualmente, impossível. Difícil seria identificar “por aí” um sujeito apátrida. Ao afirmarmos isso sobre o Estado não queremos, necessariamente, exaltá-lo, tampouco contestá-lo. Estamos apenas fazendo uma constatação de um fato, afirmando que para o bem ou para o mal, mas, a realidade é essa, ele aí está, portanto, ele existe e que dificilmente deixaremos de ser afetados por ele. Trata-se de uma constatação histórica de um processo histórico de evolução da organização dos grupos sociais que foram se constituindo em sociedades cada vez mais complexas e organizadas, e que culminou por 1. STRAYER, Joseph R. As origens medievais do Estado Moderno. Gradiva Publicações: Lisboa, Portugal, 1986, p. 11. nos envolver nisso que hoje denominamos de Estado. É um fato, uma realidade com existência concreta e materialmente equipado para ser notado e para atuar. Diante dessa realidade fatal cabe nos perguntarmos se de fato sabemos o que é um Estado, como ele se caracteriza, como ele se formou, quais são suas características e se sempre foram as mesmas. Pretendemos a partir de agora estudar de que forma e em que condições se realizou o processo de formação do Estado Moderno, a partir desse modelo e com as características que podemos de um modo geral identificar em todos, na modernidade. Evidentemente, cada povo tem suas maneiras de determinar suas peculiaridades que o seu Estado deve contemplar. No entanto, na modernidade, certamente temos muito mais características em comum entre os Estado que profundas divergências. Comecemos por entender, por exemplo, que toda organização estatal moderna é composta de no mínimo três elementos fundamentais: um povo, um território e um governo, isto é uma nítida autoridade ou autoridades. Para dar vida e funcionalidade a esta autoridade responsável por dar existência e ação concreta ao Estado, sabemos também ser é imprescindível a cada Estado Moderno (civilizado), para não entrarmos em discussão sobre outros, uma burocracia estatal com agentes públicos incumbidos dos negócios de governo ou públicos e pelo menos de autoridade que possa fazer uso de força por meios materiais, se a necessidade o exigir, sendo normalmente os exércitos responsáveis por guardar a segurança externa e a organização oficial de polícia responsável pela segurança interna. E, para prover a tudo isso, um organizado sistema de tributação. Fora do campo do funcionamento e da organização política do Estado em si, podemos falar em organização econômica como a instituição de moeda própria, em sentimento ou uma crença no sentido de uma filiação nacional comum identificada entre determinados indivíduos que se veem como semelhantes, além dos símbolos nacionais como hino, bandeira e armas que todo Estado Moderno tem.2 Dos três elementos fundantes e essenciais que consideramos a verdadeira espinha dorsal do Estado, os dois primeiros, povo e território são praticamente inerentes um ao outro quando se pretende que eles componham um Estado. Para que se constitua 2 . Todos os elementos mencionados neste parágrafo serão abordados a partir do primeiro subtítulo desta obra, exceto os símbolos nacionais. um povo com verdadeiras características de povo, capaz de criar uma organização superior e mais complexa como o é um Estado, faz-se necessário um longo percurso de convivência no tempo e num determinado espaço geográfico. É possível que determinados grupos consigam encontrar identidades mesmo vivendo afastados, mas, certamente não desenvolverão laços de afinidade suficientes a ponto de se entrelaçarem e se firmarem em vínculos definitivamente fortalecidos para a formação de um povo capaz de instituir uma organização social e política solidamente estruturada e capaz de pela força de sua identidade constituir uma instituição como entendemos ser o Estado na modernidade. A história nos ensina, como veremos adiante, que o processo que culminou na formação dos Estados soberanos modernos, foi bastante duradouro e ocorreu por exaustiva convivência, com o constante compartilhamento dos espaços, do território e, sobretudo, de sentimentos que foram sendo formatados dentro do grupo. Nada se compartilha efetivamente quando se está segregado. Segundo Joseph Strayer “(...) Um grupo de pessoas só pode desenvolver os modelos de organização essenciais para a construção de um Estado se viver e trabalhar em conjunto em uma dada região, ao longo de muitasgerações (...)”3 Certamente, um povo não se forma por justaposição de indivíduos em grande número como também não se forma um povo pela simples reunião de diferentes pessoas, por um cálculo lógico de supostas afinidades, mas, sim, pelo estabelecimento de laços, pelo fortalecimento de identidades e, sobretudo, quando há partilha de problemas e angústias e busca compartilhada de soluções. Segundo Cícero, povo “(...) é a reunião da multidão associada pelo consenso do direito e pela comunhão da utilidade(...)”4 O terceiro elemento necessário à formação do Estado relaciona-se à formação das instituições políticas. Este processo vai ocorrendo à medida em que as relações sociais que se desenvolvem entre os indivíduos do grupo social vão se complexificando e na medida em que dentro do próprio grupo há uma percepção da necessidade de que determinados recursos ou instrumentos de atuação, sejam estabelecidas para dar conta de questões não apenas quando os fatos acontecem, mas que sejam permanentes e que atuem 3. STRAYER, Joseph R. As origens medievais do Estado Moderno. Gradiva Publicações: Lisboa, Portugal, 1986, p. 11. 4. CÍCERO, apud BONAVIDES, Paulo. Ciência Política. 10ª. Edição. São Paulo: Editora Malheiros. 2004. p.74. de forma imparcial, a partir de critérios estabelecidos para o todo. Estamos nos referindo às instituições políticas que fundam o Estado e dão a ele a dinâmica e funcionalidade. Estas instituições podem ser hoje identificadas como o poder legislativo que estabelece o conjunto de normas jurídicas que orientarão a conduta humana em uma determinada sociedade, o poder judiciário que determina a aplicação de penas e a medida do uso dos mecanismos de coação e coerção e, por fim o poder executivo, instituição política diretamente relacionada com governo, ou seja, a condução dos destinos de um povo em seu território. É nas mãos dele que todo o povo confia o seu destino. O modo como se forma um governo é variável, nos Estados modernos e na atualidade. Ele é normalmente o resultado da evolução cultural e organizacional que o povo processou ao longo de sua história até que se constituísse em um grupo capaz de se organizar em instrumentos e criar recursos capazes de viabilizar as necessidades que se tem em comum. É importante ressaltar que a forma de um Estado de poder tripartido como foi acima exemplificado não é o modelo de Estado moderno em suas origens. Como veremos mais adiante, o Estado Moderno surgiu em um modelo absolutista, sustentado muito mais pela força de uma crença que produziu a coesão do povo e sua sujeição ao poder do que pelo consentimento esclarecido em busca do consenso que produzisse um determinado Estado e sua forma de governo. Tudo o que expusemos acima a respeito de todos os aspectos referentes aos laços que unem um povo e que lhe dão solidez, identidade e coesão social a ponto de cada um do povo se ver um no outro, recebe na modernidade o nome de soberania. 1.2 BREVE RELATO DA FORMAÇÃO DO ESTADO MODERNO Como sabemos pela história, na antiguidade, o Estado não se formava necessariamente por meio de um sentimento comum que se cultivava entre os integrantes que formavam o seu povo e que hoje identificamos sob o valor de soberania. Não havia o sagrado respeito à soberania dos povos como o temos hoje, pelo menos teoricamente. As guerras e os regimes de escravidão eram constantes. Era pois normal que um povo subjugasse outro por meio do emprego da força do Estado. Segundo Bonavides, duas situações normalmente ocorriam: de um lado, a formação e manutenção de Estados por meio de recursos militares, ou seja, pela uso da força. Diferentes indivíduos eram a ele incorporados, sem que com ele estabelecessem relação de afinidade. Esse modelo de Estado efetivou-se mais particularmente no Oriente; de outro lado tivemos estados fundados em certas bases do Direito, formado com base nos princípios da república (res publica) como foi o caso de Roma e, ainda, o exemplo também da supremacia da vontade comum originária da sociedade participante da política, caso da Pólis Grega. Percebia-se ali, especialmente no primeiro caso, a frequente confusão entre a autoridade secular e a divina. De acordo com Bonavides, Eis aí a que se reduzia, pois, o Estado Antigo: numa extremidade, a força bruta das tiranias imperiais típicas do Oriente; noutra, a onipotência consuetudinária do Direito ao fazer suprema, em certa maneira, a vontade do corpo social, qualitativamente cifrado na ética teológica da polis grega ou no zelo sagrado da coisa pública, a res publica da civitas romana.5 Já na Idade Média, após a franca desintegração do Império Romano, desaparece o Estado tanto em sua estrutura organizacional dos modelos antigos, seja do Oriente com os grandes impérios, ou de Ocidente entendidos a partir dos modelos gregos ou dos romanos ou sob o conceito que temos na modernidade. Contudo, houve situações em que esse conceito e essa figura foi resgatada, particularmente por ocasião da constituição do Sacro Império Império Romano- germânico ou pela atuação da autoridade espiritual dos papas. Sobre isso, sustenta Bonavides que, 5 BONAVIDES, Paulo. Teoria do Estado. São Paulo: Editora Malheiros. 5ª. edição, 2004. p.28. De uma parte, a autoridade temporal ressuscitada na imagem do Santo Império Romano-Germânico; doutra, a autoridade espiritual dos papas, em toda a sua majestade, rodeada da aura divina com porfiar uma supremacia jamais lograda nem consumada ao longo de tantos séculos de rivalidades do Sumo Pontífice com os Imperadores da Coroa Romano-Germânica.6 A partir da desintegração do Império romano, passa a ganhar importância uma nova organização social de características essencialmente agrárias, cuja principal atividade econômica desenvolvia-se, mais propriamente dentro dos limites dos feudos. O poder político em sua forma de grande estrutura praticamente desaparece, retornando as pequenas formas de organização social e de organização do poder. Isso dura por aproximadamente mil anos até que uma nova forma de organização política, tipicamente moderna se define por completo. O principal combustível alimentador dessa nova forma de organização política passa e ser conhecido sob o nome de soberania. Veremos a partir de agora qual é a dimensão da soberania e como ela foi se formando por um processo longo que foi consistentemente identificando os povos soberanos ao longo da história que por terem tal característica foram se identificando em seus primeiros Estados e se submetendo às suas autoridades por eles reconhecidas como soberanas, tendo sido pelo povo escolhidas ou não. 1.3 A INDISPENSABILIDADE DA IDEIA DE SOBERANIA E DA FORMAÇÃO DO SENTIMENTO DE NACIONALIDADE PARA A COMPREENSÃO DA ORIGEM DO ESTADO MODERNO O contexto que nos permite a compreensão do surgimento do Estado Moderno é longo e não está restrito ao período histórico que precede imediatamente a era moderna. Para esta compreensão há a necessidade de retornarmos a um significativo período 6 BONAVIDES, Paulo. Teoria do Estado. São Paulo: Editora Malheiros. 5ª. edição, 2004. p.29. histórico da Europa da Idade Média e termos presente o processo de estabilização política e social e as mudanças econômicas ocorridas no continente, particularmente a partir dos séculos X e XI. Não é nosso objetivo aqui aprofundarmos, sob o ponto de vista histórico, todos os fatos e contextos que de um modo ou de outro convergiram para a formação do Estado Moderno. Contudo, pretendemos, sim, fazer uma contextualização, embora breve e eventualmente superficial, considerando aqueles fatos e eventos significativos e determinantes para essa compreensão, para, após isto, melhor acompanharmos as reflexões e informações que aqui apresentaremos a respeito do Estado7 e de algumas vertentes da teoria política queo explicam. Determinante para a compreensão das bases do surgimento do Estado Moderno foi a formulação do conceito de soberania a partir das necessidades econômicas e da evolução de um sentimento nacionalista. Este conceito, que se manifesta e se materializa com a instituição do Estado Moderno, está relacionado a um pano de fundo bastante significativo, qual seja, o processo de estabilidade política e social ocorrido na Europa e que permitiu diferentes grupos humanos reconhecerem-se como pertencentes uns aos outros e que compartilhavam espaços geográficos, tinham interesses comuns, conviviam com problemas semelhantes e para os quais compartilhavam soluções, além de certas crenças, ganhando espaço, sobretudo, com o passar dos anos, a aceitação da necessidade de uma autoridade soberana. Não pretendemos determinar aqui que essa gradual aceitação da ideia de soberania e, consequentemente, de uma autoridade soberana tenha fluído natural e livremente pelas mentes e nos comportamentos dos indivíduos de então. Evidentemente haviam diferentes interesses que sustentaram esse gradual processo e, consequentemente, os interessados em fazer estabelecer uma soberania ao gosto e à maneira de cada grupo de interesse. A Igreja Católica e os senhores feudais, obviamente, ao perceberem o movimento de constituição de um novo poder, marcadamente temporal, inicialmente através das ideias nacionalistas, certamente opuseram toda resistência possível, afinal 7 . Embora estejamos focados em apontar e elucidar brevemente as razões que levaram ao surgimento do Estado Moderno, este nosso texto aborda também uma reflexão filosófica elaborada por Rouseau, com base em uma dedução hipotética sobre o processo de formação do Estado em si, a partir da sua origem. sentiam nessa ideia a ameaça de um novo poder em formação. Um poder concorrente, justamente por ter dimensão mais abrangente, a dimensão nacional. Lemos em Huberman: Bernard Shaw, em sua Santa Joana, excelente peça sobre a donzela, tem um trecho importante sobre os efeitos desse nascente espírito do nacionalismo. Um clérigo e um senhor feudal ingleses estão discutindo as habilidades militares de um senhor francês: ‘O capelão: ele é apenas um francês, meu senhor. ‘O nobre: um francês! Onde arranjou você essa expressão? Então esses borgonheses, bretões, picardos e gascões começam a se intitular franceses, tal como nossos companheiros estão começando a se chamar ingleses? Falam da França e da Inglaterra como de seus países. Imagine, país deles! Que vai ser de nós, se essas ideias se generalizarem? ‘O capelão: Por que, senhor? Poderá isso nos prejudicar? ‘O nobre: O homem não pode servir a dois senhores. Se essa ideia de servir ao país tomar conta do povo, adeus autoridade dos senhores feudais, e adeus autoridade da Igreja.8 Sobre o novo poder nascente, a Igreja, estrategicamente soube aliar-se, quando o percebia imbatível, valendo-se da máxima que tanto conhecemos: “se não podes com o teu inimigo, alia-te a ele”. Assim, por resistência ou por adesão, a Igreja jamais se ausentaria e se isentaria de participar do processo e de exercer suas influências em questões que envolvessem poder. 8 . HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do homem. Rio de Janeiro: Editora Guanabara. 21ª. edição, revista 1986. p. 78. A esse respeito, Bonavides ao referir-se ao fato do Estado Moderno inaugurar- se sob bases absolutista, ressalta duas fases da teorização da sua soberania, apontando como justamente em sua primeira fase estão presentes as influências do poder teológico. A citar: “O Estado moderno do absolutismo passa por duas fases consecutivas de teorização da soberania. Na primeira avulta o regime da monarquia absoluta de direito divino, cuja legitimidade, em termos abstratos, é ministrada grandemente, em seus fundamentos teóricos, pela doutrina dos teólogos, que põem o altar ao lado do trono para dar-lhe arrimo e sustentação...”9. 1.3.1 A SOBERANIA Partindo do fato de que o Estado Moderno funda-se sobre o princípio da soberania, cuja ideia (na atualidade) está relacionada à autonomia das nações e é praticamente entendida como uma crença, como algo sagrado, a qual nenhum povo deveria abrir mão, cabe, pois, inicialmente, formularmos um entendimento a esse respeito. Para isto, nos apoiaremos vez primeira em Paulo Bonavides, em busca de uma legitimação ou iluminação maior sobre o conceito que pensamos ser possível formular a esse respeito . Assim, considerando a contribuição de Bonavides, entendemos ser fundamental para a compreensão do significado de soberania em duas dimensões: a das relações externas, e a dos assuntos ou relações internas. Do ponto de vista externo, entendemos haver no seu significado uma proximidade do conceito de soberania com o conceito de autonomia e independência de um povo, com seu território, capaz de estruturar seus aparelhos, organizar sua vida, entender-se como nação e de governar-se sem a interferência de outro poder estatal. Em linguagem simples e cotidiana, trata-se do respeito que cada povo e Estado merece independente do modo como escolhe auto-conduzir-se e o respeito que cada povo e 9 . BONAVIDES, Paulo. Teoria do Estado. 5ª edição. São Paulo: Editora Malheiros. 2004. P. 32. Estado deve a outro. Para Bonavides, “Do ponto de vista externo, a soberania é apenas a qualidade do poder, que a organização estatal poderá ostentar ou deixar de ostentar”10. Sob o ponto de vista interno, a se considerar o Estado liberal burguês, a soberania relaciona-se à supremacia do poder do Estado como organização (superior) ao qual todos os demais poderes se subordinam. Sobre isso, assim afirma Bonavides: Do ponto de vista interno, porém, a soberania, como conceito jurídico e social, se apresenta menos controvertida, visto que é da essência do ordenamento estatal uma superioridade e supremacia, a qual, resumindo já a noção de soberania, faz que o poder do Estado se sobreponha incontrastavelmente aos demais poderes sociais, que lhes ficam subordinados. A soberania assim entendida como soberania interna fixa a noção de predomínio que o ordenamento estatal exerce num território e numa determinada população sobre os demais ordenamentos sociais11. Percebe-se que essa formulação sobre tal conceito liga umbilicalmente a soberania ao (poder do) Estado sendo, pois, indispensável uma estrutura ou aparelho de Estado, devendo quem está no comando ser o responsável soberano pela condução dos interesses comuns, tendo a soberana prerrogativa do uso dos instrumentos que dispõe o Estado para tal condução. Da outra parte há um povo ou uma nação que acata tal soberania porque lhe foi imposto, imposição admissível ou vista como mal menor, ou um povo ou nação que confere por delegação ao soberano tais prerrogativas e responsabilidades. É o entendimento que considera estas duas dimensões (a externa e a interna) que aqui elegemos e com o qual nos ocuparemos ao longo deste texto, nesta unidade da obra. Antes ainda queremos registrar que tal conceito sobre o termo está longe de ser unanimidade. 10 . BONAVIDES, Paulo. Ciência Política. 10ª. Edição. São Paulo: Editora Malheiros. 2004. p.122. 11. BONAVIDES, Paulo. Ciência Política. 10ª. Edição. São Paulo: São Paulo. Editora Malheiros. 1986. p.122. Para os marxistas certamente não faltariam ponderações necessárias a esse respeito, uma vez que a essência marxista revela-se na negação do Estado como objetivo maior ou final. No entanto, no próprio marxismo podemos admitir de algum modo este conceito de soberania do Estado, uma vez haver a necessidade de instrumentalizá-lo em fase inicial da revolução, no período da instituição da ditadura do proletariado. Diga-se, inclusive, instrumentalizá-lo radicalmente em vista do andamento do processo que conduzirá à soberania do proletariado, soberania identificadacom a igualdade social, para então, sim, definitivamente eliminar o conceito que aqui adotamos de soberania, identificado com o nome “Estado”, inclusive na sua primeira dimensão, a do ponto de vista das relações externas, visto que o marxismo almeja o comunismo, entendido universalmente e não nos limites da cada nação. Aos anarquistas e socialistas utópicos mais ainda este conceito de soberania torna-se dispensável. Para eles soberana é a nação, o povo livre da opressão das leis e de qualquer instituição, muitas como viciadas, controladas a partir de determinados grupos ou sistemas que nada mais produzem que o sufocamento da liberdade dos indivíduos. Para estes, soberania significa supremacia da liberdade, uma liberdade natural e não construída artificialmente por determinados indivíduos no exercício de poderes institucionalizados. Por fim, fazemos referência a Rousseau, autor a ser predominantemente explorado nesta obra. Seu conceito de soberania diverge, sob certos aspectos, ainda mais radicalmente daquele que aqui tomamos como referência, uma vez que para ele não é o Estado o soberano, mas o próprio povo, enquanto tudo se conduz segundo a essência comum que ele denominou de vontade geral. Voltaremos ao tema Rousseau mais adiante. Comecemos, pois, a analisar o processo que permitiu à formação do nacionalismo, do surgimento de ideia de soberania que se colocará como um valor inerente ao Estado Moderno em seu momento inicial para, consequentemente, compreendermos em que bases ocorreu a formação do Estado Moderno (nacional e soberano), se não tal como o temos em seu conceito totalizante em nossos dias, mas em uma compreensão suficiente, base para um posterior aprofundamento sobre as particularidades de um ou de outro (estado nacional específico) e, sobretudo, da sua evolução e complexidades de conceituação e organização. 1.4 RAZÕES ECONÔMICAS DO SURGIMENTO DO ESTADO MODERNO Para entendermos como as atividades econômicas influenciaram no processo que lenta e gradativamente culminou na formação do sentimento nacionalista e na aceitação da soberania e na formação do Estado (nacional), é indispensável que compreendamos a importância e o papel das cidades, umas já estabelecidas por volta do século X e outras em processo de estabilização, em busca de seu “lugar ao sol”, durante um período que ainda se sucederia até o século XV, mais propriamente (e XVI) o seu auge, e das classes de comerciantes que praticamente permanentemente existiram durante o período medieval, mas, “discretamente vão perdendo a discrição” em meio a um poderio feudal e eclesiástico e vão dando o “ar de sua graça”,sendo da mesma forma o século XV e XIV. Sabemos da importância do clero, portanto da Igreja e dos senhores feudais durante todo o período da Idade Média. A Igreja com seu poder supremo, abrangente e universal12 e os senhores feudais com seus poderes localizados e bem definidos. Sabemos também da importância dos reis durante esse período. Portanto, três poderes nitidamente estabelecidos, porém, de forma alguma estáticos, indiferentes ou conformados em seus domínios e limites. Destacamos para a nossa análise, sobretudo, as articulações promovidas pelos reis em busca do fortalecimento de suas influências e na ampliação dos seus domínios. Voltemos à importância das cidades. Com o fortalecimento das cidades, fortalecem-se também aqueles que nelas exercem suas atividades, basicamente 12 É importante ressaltar que durante praticamente toda a Idade Média (europeia e ocidental), nosso foco aqui, não é possível falar de nacionalidade, nação ou nacionalismo. Estes conceitos irão se incorporando ao contexto da Idade Média e se tornam explícitos ao seu final, mais nitidamente no séc. XV, o que pretendemos demonstrar no decorrer desta unidade. Poderíamos afirmar , considerando uma linguagem atual que o poder da Igreja era supranacional ou transnacional, ressaltando, no entanto, que tais expressões não se identificam com a cultura medieval, pelo fato de tais conceitos, como já afirmamos, não estarem incorporados a ela, durante maior parte desse período . relacionadas a determinados ofícios, algumas atividades “industriais”13 e às atividades comerciais. Que mais de significativo poderia se ter num ambiente urbano por essas épocas? Pois bem, são exatamente os movimentos desempenhados pelos comerciantes, no sentido de aperfeiçoarem suas atividades comerciais e de encorparem seu poder de influência e a na necessidade que tinham os reis de serem subsidiados e ou financiados que podemos encontrar um dos caminhos, via economia, que nos levará à compreensão do processo de formação do Estado Moderno. A convergência de interesses desses dois setores é determinante. As atividades industriais aperfeiçoaram-se nas cidades e contribuem para o desenvolvimento delas. Como consequência, o comércio citadino vai ganhando sutilmente vigor, embora permaneça ainda durante muito tempo limitado aos próprios domínios urbanos. Em muitos casos por autoproteção, como na Alemanha e Itália, especialmente. Vejamos o que diz Leo Huberman sobre isso: Para os comerciantes de Chester, na Inglaterra, as mercadorias londrinas que pudessem interferir no seu monopólio eram tão ‘estrangeiras’ como as precedentes de Paris. O mercado, em grande escala, sentia o mundo como sua província e tentava com o mesmo interesse fincar pé onde pudesse”. E em outro trecho retoma o autor: “Não foi tarefa pequena reduzir os privilégios monopolistas de cidades poderosas. Nos países em que elas eram realmente fortes como na Alemanha e Itália, somente séculos depois se estabelecia uma autoridade central com poder bastante para controlar tais monopólios14. 13 . Nada ou muito pouco remete a ideia que temos atualmente a esse respeito. Sequer poderá ser aproximada a ideia relacionada a esse tipo de atividade do século XVIII. Mencionamos, grosso modo, apenas para diferenciar das atividades identificadamente agrárias. 14. HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do homem. Rio de Janeiro: Editora Guanabara. 21ª. Edição, revista 1986. p. 70 e 75. Com o passar de anos, ou melhor, de séculos, emerge uma nova classe econômica e social, cuja base é formada pela classe dos comerciantes, no entanto, não limitada a eles, visto que os industriais, (e os banqueiros mais tarde), entre outros, paulatinamente também vão se firmando. Eis, pois, o que mais adiante denominar-se-à, com toda nitidez, de burguesia15, uma nova classe econômica e social que joga importantíssimo papel no processo de compreensão da nova ordem e organização política que surgirá, o chamado Estado Moderno. A nova classe, como dito, econômica e social, que vai se formando em um longo processo entre os séculos X e XV e já apresentando uma “cara” neste último, embora o processo continue em evolução nos séculos subsequentes, passa a desempenhar destacado papel tornando-se cada vez mais o mais importante ator em todo o processo de formação de uma nova mentalidade, sob todos os aspectos, políticos, econômicos, sociais e na fundamentação dos novos valores, interessando-nos particularmente em nossa abordagem aqui, e mais adiante os aspectos políticos. Pois bem, para compreendermos a importância dessa nova classe e, sobretudo na formação da nova ordem política (o Estado Moderno), é necessário que retomemos a questão da importância das cidades e o papel dos comerciantes e as novas necessidades que foram surgindo, justamente a partir da nova ordem econômica e social, a partir do século XV. As atividades comerciais que antes estavam restritas a pequenas regiões geográficas (cidades e outros pontos mais localizados), aos poucos extrapolam esses limites e começam a expandir-se, ampliando as regiões geográficas, até, em alguns casos mais notáveis, ganhar o mundo, clássico exemplo das cidades de Gênova e Veneza. Antes disso,no entanto, as atividades comerciais ambulantes, os intercâmbios comerciais entre um lugar a outro eram consideradas perigosas e, além disso, custosas, uma vez que não faltavam cobranças de pedágios ou taxas. Os comerciantes reclamavam segurança. Para Huberman: 15 . Aliada de primeira hora (1ª. Fase) da monarquia absoluta, volta-se contra os reis absolutistas posteriormente ( 2ª. Fase), tendo como consequência desta ruptura, a Revolução Francesa. O mais rico é quem mais se preocupa com o número de guardas que há em seu quarteirão. Os que se utilizam das estradas para enviar suas mercadorias ou dinheiro a outros lugares são os que mais reclamam proteção contra assaltos e isenção de taxas de pedágio. A confusão e a insegurança não são boas para os negócios. A classe média queria ordem e segurança.16 Onde então refugiar-se em busca de segurança? Quem tinha estrutura capaz de oferecer os recursos de segurança necessários eram os nobres e os senhores feudais. No entanto, o descontentamento de quem morava nas cidades, particularmente dos comerciantes, e outros, em relação aos senhores feudais e a nobreza já vinha de muito tempo, devido aos pedágios e taxas que os comerciantes, por exemplo, para poderem transitar com suas mercadorias eram obrigados a pagar. Assim, à medida em que as cidades iam ganhando em número, em importância econômica, mas, sobretudo, em poder, por outro lado, os senhores iam perdendo, de alguma forma o seu poder. Para piorar ainda mais a situação dos barões feudais, o rei não tinha nenhum interesse em vê-los fortes e ele muitas vezes enfrentavam problemas com seus vassalos que se indispunham com seus soberanos, principalmente em virtude de problemas de falta de pagamentos. Portanto, não faltavam razões para que o rei visse com frequência uma boa saída firmar alianças com as cidades. Segundo Huberman: Os senhores começaram a enfraquecer por terem perdido grande parte de seus bens em terras e servos. Sua força havia sido desafiada e parcialmente controlada pelas cidades. E em certas regiões, em constantes guerras interiores, processava-se o extermínio mútuo. O rei fora um aliado forte das cidades na luta contra os senhores. Tudo o que reduzia a força dos barões fortalecia o poder real. Em recompensa pela sua ajuda, os cidadãos estavam prontos a auxiliá-lo com empréstimos em dinheiro. Isso era importante, porque com dinheiro o rei podia 16. HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do homem. 21ª Edição, revista. Rio de Janeiro: Editora Guanabara. 1986. P. 71. dispensar a ajuda militar de seus vassalos. Podia contratar e pagar um exército pronto, sempre a seu serviço, sem depender da lealdade de um senhor. Seria também um exército melhor, porque tinha uma única ocupação: lutar. Os soldados feudais não tinham preparo, nem organização regular que lhes permitisse atuar em conjunto, com harmonia. Por isso, um exército pago para combater, bem treinado e disciplinado, e sempre pronto quando dele se necessitava, constituía um grande avanço.17 Formava-se, em um processo gradual, o exército de abrangência nacional, primeiro sinal evidente da constituição de poder central, com jurisprudência nacional. Ao mesmo tempo e cada vez mais ganhava corpo a ideia da necessidade se instituir um poder nacional e central. Esse processo se alastrou durante séculos, conforme aqui já foi registrado. Percebemos, naturalmente, que após ser constituído o poder das armas, isto é, o poder militar, um largo passo foi dado no sentido de reforçar a autoridade do rei, agora não mais estabelecido nos limites das cercanias dos feudos, mas visivelmente, com lastros de poder que se estendem cada vez mais sobre um território nacional. 1.5 RAZÕES JURÍDICAS DO SURGIMENTO DO ESTADO MODERNO Diante da decadência dos senhores feudais, o rei, aliado da nova classe em ascensão, vê-se fortalecido, uma vez que recupera sua credibilidade em termos de autoridade que havia perdido frente a anterior imponência dos barões feudais. O rei passa a ter outras incumbências e delas faz uso para exercer seu poder. Demonstrando fidelidade à parceria com os comerciantes e industriais, sobretudo, e atendendo as queixas destes que reclamavam dos comportamentos de determinados bandos que praticavam pilhagens 17 . HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do homem. Rio de Janeiro: Editora Guanabara. 21ª. Edição, revista 1986. pp. 71 e 72. e saques, incluindo-se entre eles muitas vezes exércitos feudais, o rei passa também a estabelecer leis de abrangência nacional, determinadas por uma autoridade central. Os comerciantes (e industriais = burgueses), por sua vez, exigiam da autoridade central, cujo poder passavam a perceber, a reconhecer, a aceitar e no final das contas a estimular, pois, nele já reconheciam nele um aliado fiel sempre que as relações de interesses recíprocos não fossem abaladas, que se utilizasse da autoridade restabelecida, agora em âmbito ainda mais abrangente, para criar as regulamentações que pudessem padronizar determinadas práticas e, sobretudo controlar as desordens, fossem de natureza econômica, política ou social. Assim, por exemplo, em troca de empréstimos feitos ao rei, os comerciantes exigiam a criação de determinadas leis, como, por exemplo a lei de pesos e medidas. Vejamos a seguinte, mencionada por Huberman e aprovada em 1389: “Determinamos que uma medida e um peso sejam aceitos em todo o reino da Inglaterra... e todo aquele que usar qualquer outro peso e medida será aprisionado por metade de um ano.”18 E, mais diante, Huberman menciona outra lei aprovada na França, também pela autoridade do rei, em 1439, formulada em termos a dar ao rei, o monopólio do poder de decisão sobre o uso das armas e aos comerciantes livre trânsito para suas atividades de mercado entre diferentes locais . Vejamos a citação de Huberman: Para eliminar e remediar e pôr fim aos grandes excessos e pilhagens feitas e cometidas por bandos armados, que há muito vivem e continuam vivendo do povo... O rei proíbe, sob pena de acusação de lesa-majestade e perda para sempre, para si e sua posteridade, de todas as honras e perdas de cargos públicos, e o confisco de sua pessoa e de suas posses, a qualquer pessoa, de qualquer condição, que organize, conduza, chefie ou receba uma companhia de homens em armas, sem permissão, licença e consentimento do rei... 18 . The Status of the realm from original Records and authentic manuscripts, vol. II, Londres, 1816, p. 63. apud HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do homem. Rio de Janeiro: Editora Guanabara. 21ª. Edição, revista 1986. pp. 73. Sob as mesmas penalidades, o rei proíbe a todos os capitães e homens de guerra que ataquem mercadores, trabalhadores, gado ou cavalos ou bestas de carga, seja nos pastos ou em carroças, e não perturbem nem as carruagens, mercadorias e artigos que estiverem transportando, não exigindo deles resgate de qualquer forma; mas, sim, tolerando que trabalhem, andem de uma parte a outra e levem suas mercadorias e artigos em paz e segurança, sem nada lhes pedir, sem criar-lhes obstáculos ou perturbá-los de qualquer forma.19 A legislação aos poucos ia sendo organizada em forma de sistema, sendo constituída com validade suprarregional (nacional), nas diversas áreas. Por exemplo, em relação à cobrança de impostos, era comum em épocas anteriores pagamentos em terras ou até produtos. Muitos reinos, no entanto, mais organizados, cuja autoridade do rei já era reconhecida de forma suprarregional, aos poucos passaram a regular a possibilidade de cobrança de impostos por meio de moeda com validade transcendente a domínios locais, ou seja, com dinheiro. A instituição de moeda com valor e aceitação, mesmo que por imposição do rei, que ultrapassasse os limites de cada feudo, deve ser considerado outro elemento determinante que leva a formaçãode uma nova organização estatal. Temos a essa altura do processo uma autoridade central estabelecida e reconhecida, claro que majoritariamente pela confluência dos interesses dos grupos dominantes20 num processo que não nos permite perceber nitidamente a participação decisiva das classes mais baixas. Já temos os elementos que conferem à autoridade central poder de coação e de coerção, uma vez que vai ganhando corpo um sistema legal, ou seja, vai se instituindo o Direito, caracterizado como um conjunto de leis concatenadas que tem seu sentido próprio e aplicado a um todo, em abrangência nacional, evoluindo na direção, ainda que lenta, da imparcialidade e impessoalidade. 19 . Ordennances des Roys de France de La Troisième Race, op. Cit., v. XI, 1782, apud HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do homem. Rio de Janeiro: Editora Guanabara. 21ª. Edição, revista 1986. p. 73. 20 . Grupo praticamente formado pelo rei, os comerciantes e industriais, formando os dois últimos a chamada burguesia, some-se a isso, embora com mais nitidez mais tarde as influências banqueiros. Além do Direito como instrumento de coerção e coação legal com a estrutura que dele decorre, para a execução, os tribunais, ou seja, os recursos para fazer valer a lei, percebe-se também uma definição de um aparelho capaz de executar poder de polícia, ou seja, as forças de coerção física como, por exemplo, os exércitos que foram ganhando identidade como tal e inicialmente pagos pelo rei, com as contribuições ou empréstimos da burguesia (comerciantes e industriais) mas posteriormente, mantidos por meio de contribuições, tributos, enfim, os impostos21, a partir de legislação, e recolhidos com a anuência inicial dos comerciantes e industriais que viram, num primeiro momento, seu problema resolvido ou no mínimo amenizado pelas forças de segurança pegas pelos reis, uma vez que a burguesia naquele momento entendia ser vantajoso e até econômico e ligar- se e de alguma forma contribuir para a manutenção desse chefe (o rei) forte, ou autoridade central, visto que eram capazes de restabelecer a ordem em meio ao caos na segurança existente durante o período de domínio dos senhores feudais, quando, a autoridade do rei estava enfraquecida, figurando, em muitos casos, praticamente como uma decoração. Com a instituição de um sistema de cobranças de impostos em dinheiro, foi sendo constituída também de forma gradativa uma estrutura de funcionários assalariados que atuavam em todo o território em nome do “governo”, diga-se, do rei. Havia uma aceitação generalizada de que tal estrutura seria do interesse de todos. Haviam aqueles especificamente encarregados da cobrança de impostos, como havia também aqueles que desempenhavam outros serviços, que em termos atuais denominamos de atividades de governo. Assim, ia-se estabelecendo uma estrutura de funcionários públicos nacionais. Desta forma Huberman descreve a situação: Anteriormente, a renda do soberano consistia de proventos oriundos de seus domínios pessoais. Não havia sistema nacional de impostos. Em 1439, na França, o rei introduziu a taille, 21 . Evidentemente, todos pagavam tributos: comerciantes, industriais, camponeses e outros cidadãos. No entanto, os maiores beneficiados e privilegiados foram os burgueses, que de fato recebiam a real contrapartida (certamente com muitos acréscimos) do que tinham pago e que, inicialmente, o faziam de alguma forma até por adesão, uma vez que visualizam os claros benefícios de tal ato. Para os burgueses, visto a lógica do sistema, tal ordenamento era de fato um bom negócio. O que não era verdade, na mesma proporção para as classes mais baixas, praticamente excluídas ou relegadas quanto aos benefícios que retornariam. imposto regular em dinheiro. No passado, como o leitor se lembrará, os serviços dos vassalos haviam sido pagos com a doação de terras. Com o crescimento da economia monetária, isso deixou de ser necessário. Os impostos podiam ser recolhidos em dinheiro, em todo o reino, por funcionários reais pagos não em terras, mas em dinheiro. Funcionários assalariados distribuídos por todo o país, podiam realizar a tarefa de governar em nome do rei – coisa que no período feudal tinha de ser feita pela nobreza, paga em terras. A diferença era importante.22 Toda a estrutura do funcionalismo público era mantida basicamente a partir da arrecadação de impostos, agora em dinheiro, advindo do progresso das atividades industriais e comerciais. Consequentemente, também o poder do soberano dependia do sucesso e do progresso da indústria e do comércio. Desta forma, o rei empenhava-se para torná-lo mais abrangente e vigoroso. Normas eram criadas para quebrar os monopólios locais de algumas cidades. Outra contrapartida do rei à burguesia foi preencher os quadros do funcionalismo, particularmente, juízes, ministros e outros, de mais alto escalão, com recursos humanos buscados entre as pessoas qualificadas (ou indicadas) da burguesia, até porque, muitas vezes, eram eles os mais preparados e conhecedores dos trâmites necessários para que o sistema se mantivesse e progredisse. A esse respeito Huberman nos informa que, Os reis sustentavam-se com dinheiro recolhido da burguesia, e dependiam, cada vez mais, de seu conselho e ajuda no governo de seus crescentes reinos. Os juízes, ministros e funcionários vinham, em geral, dessa classe. Na França do século XV, Jacques Coeur, banqueiro de Lion e um dos mais ricos da época, tornou- 22 . HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do homem. Rio de Janeiro: Editora Guanabara. 21ª. Edição, revista 1986. pp. 73 e 74. se conselheiro real. Na Inglaterra dos Tudor, Thomas Cromwell, advogado, e Thomas Gresham, merceeiro, chegaram a ministros da Coroa.23 No mesmo trecho, ao fazer referência a um trecho da obra de Boissonnade, Le Socialisme d’État, Huberman acrescenta: Um pacto tácito foi concluído entre ela [a realeza] e a burguesia industrial de empreendedores e empregadores. Colocavam a serviço do Estado monárquico sua influência política e social os recursos de sua inteligência e de sua riqueza. Em troca o Estado multiplicava seus privilégios econômicos e sociais. Subordinava a ela os trabalhadores comuns, mantidos nessa posição e obrigados a uma obediência rigorosa.24 Talvez não seja nenhum exagero afirmar a partir da citação acima que o Estado Moderno, em sua origem, apresenta, características patrimoniais, estudado nos meios acadêmicos como modelo patrimonial de Estado. Certamente, difere do patrimonialismo que tivemos no Brasil, no final do século XIX e nas três primeiras décadas do século XIX. Nesse modelo certas elites nacionais se acercam do Estado (e seu poder) para fazerem valer os seus interesses, utilizando-se da estrutura (administrativa e legal, principalmente) do Estado no sentido de influenciarem as decisões políticas e, inclusive, objetivamente, ocuparem os espaços decisórios da administração e do poder, quando não, simplesmente, em vista de apenas garantirem sua renda ocupando um espaço público, caso notório, no Brasil, no final do século XIX e início do século XX. Ocorre, pois, a privatização do 23. HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do homem. Rio de Janeiro: Editora Guanabara. 21ª. Edição, revista 1986. p 75. 18. BOISSONNADE, apud HUBERMAN, op. cit. p. 76. Estado. Segundo Bresser Pereira, “patrimonialismo significa a incapacidade ou a relutância de o príncipe distinguir entre o patrimônio público e seus bens privados”25. Acrescentamos: não somente o príncipe, inclua-se nesse sentido a burguesia, a nova elite. Segundo Joseph Strayer alguns critérios são elementares para a constituição de um Estado, quais sejam, nas palavras do próprio Strayer: “O aparecimento de unidades políticas persistentes no tempo e geograficamente estáveis, o desenvolvimento de instituições permanentes eestáveis, o consenso em relação à necessidade de uma autoridade suprema e a aceitação da ideia de que esta unidade deve ser objeto da lealdade básica dos seus súdito”26. Grosso modo, considerando tais critérios, podemos afirmar que a figura (estrutura) do Estado Moderno (e burguês), a partir do que temos explanado até agora, está colocada em suas exigências fundamentais. Poder-se-ía, evidentemente, questionar se os fundamentos da constituição do Estado da forma como ocorreu, de fato garantiu seu funcionamento imparcial, além de questionar como se deu o consenso estabelecido. Certamente, muitas reflexões despertariam. Porém, aprofundar isso não é nossa preocupação agora. Uma vez constituída a autoridade soberana nacional, com a estrutura necessária para o seu funcionamento como: a existência de um sistema de tributação, um quadro de funcionários (públicos), um sistema legal, o Direito e um exército definido como tal. Ou seja, temos o poder estatal formado pelo soberano, o judiciário e as forças policiais ou exército. Some-se a isso ainda a definição de uma moeda única, uma estrutura funcional (o funcionalismo público), um povo que se percebe semelhante em um determinado limite territorial e, portanto, com o sentimento nacional e uma autoridade que se estabelece para atuar dentro de determinadas fronteiras e, portanto, temos também um território, limite dentro do qual um determinado Estado pode atuar. 25 . BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. Administração pública gerencial: estratégia e estrutura para um novo Estado. Brasília: ENAP, texto 9. 1996. p. 7. 26 . STRAYER, Joseph R. As origens medievais do Estado Moderno. Gradiva Publicações: Lisboa, Portugal, 1986, p. 16. CAPÍTULO 2. O ESTADO MODERNO: DO ABSOLUTISMO À DEMOCRACIA REPRESENTATIVA 2.1 DO ABSOLUTISMO DO DIREITO DIVINO À DEMOCRACIA PARLAMENTAR REPRESENTATIVA Visto no capítulo anterior o resgate histórico das condições e razões que nos permitiram formar um entendimento a respeito da formação do Estado Moderno, passaremos agora a fazer algumas considerações a respeito de diferentes e divergentes abordagens teórico-filosóficas que o explicam e, mais que isso, colocam-se como propostas a serem adotadas. Certamente, cada autor que aqui contemplamos desejou ver um Estado a seu modo. Uns mais, outros menos, porém, cada um deles deixou suas influências que interferiram diretamente em modelos (de políticas) de Estado posteriores ou que até hoje conhecemos. Vejamos o que escreve Bonavides sobre o modelo de Estado de Hobbes: “O Estado absoluto secularizado por Hobbes em esferas teóricas parece ter haver logrado em Portugal do século XVIII sua expressão mais acabada.”27 Já as influências de John Locke nos são ainda muito mais perceptíveis, na verdade, flagrantes, uma vez ser visível o modelo de democracia representativa (e parlamentar) adotada pela maioria dos países ocidentais. Convidamos o leitor a nos acompanhar em apenas uma etapa de uma longa viagem que percorre a teoria política moderna. Delimitamos este percurso entre o período que abrange o Renascimento e o início do iluminismo, analisando brevemente as teorias de Maquiavel, Hobbes, e Locke. No capítulo sobsequente nos ocuparemos particularmente da proposta política de Jean- Jacques Rousseau. Nosso “pano de fundo” ou “fio condutor” nessa análise é buscar nesses diferentes teóricos o significado para dois elementos fundamentais: a concepção de Estado (ou de soberano e o seu papel) e o lugar do povo (do indivíduo, do cidadão) nele. 27 . BONAVIDES, Paulo. Teoria do Estado. São Paulo: Editora Malheiros. 5ª. edição, 2004. P.33. Pretendemos avaliar como cada um dos autores importa-se com um e/ou com outro. Se há em cada teoria lugar exclusivo para o Estado (soberano, governante) ou se a centralidade do pensamento é o povo seja sob esta denominação ou sob denominação particular de indivíduo ou cidadão, ou, um possível equilíbrio de poder e importância entre os dois (Estado ou soberano e o povo termo que sintetiza outros dois: indivíduo e/ou cidadão) . Pretendemos avaliar se o Estado é concebido e funciona de cima para baixo, de baixo para cima ou se há proposta que objetiva uma equidade entre os dois elementos fundamentais. Portanto, faremos nossa análise sempre procurando entender (explicar) em cada autor os fundamentos da sua concepção de Estado e conceitos a ele relacionados e como entende o lugar do povo (indivíduo ou cidadão) em sua proposta de Estado (e governo). Antecipamos desde já que nossa interpretação caminhará numa linha “evolutiva”28 de propostas políticas (de governo e Estado) que inicia no absolutismo, com Maquiavel e vai caminhando na direção da democracia que pretenderá demonstrar como as propostas se formulam saindo de um ponto inicial, com o florentino29, cuja proposta, ora relega o povo (indivíduo e cidadão) a um papel insignificante, ora o valoriza quando reconhece nele, sabedoria e poder determinante para a obtenção, manutenção e destituição do soberano do “seu” poder. Chegaremos na sequência em Hobbes que, inicialmente, abre ao povo (indivíduo/cidadão) a possibilidade de uma participação na realização inicial de uma proposta de Estado, ao defender que o Estado se legitima por um contrato no qual o povo deve compreender a importância e a necessidade de, pelo instrumento do contrato social, delegar todo seu poder e liberdade ao soberano. Por fim, chegaremos a Locke, cuja proposta coloca o cidadão (indivíduo) como razão do Estado e não o Estado razão máxima do indivíduo. Locke, leva o indivíduo para junto do Estado e este a zelar, sobretudo, pelo indivíduo e cidadão. 28 Neste caso isento de qualquer juízo de valor que queira ver neste conceito, obrigatoriamente, um processo de aprimoramento, desenvolvimento ou progresso. Deixamos isso por conta das conclusões do leitor. 29 . Refere-se a Maquiavel, nascido em Florença. Vemos em Locke, uma proposta de Estado que aproxima o cidadão do Estado (e governo). O Estado zela pelas liberdades individuais e o indivíduo cidadão reconhece no Estado um aliado para garantir seus interesses individuais. Com Locke, encerramos esta pequena viagem, chegando ao modelo inicial de soberania, povo e democracia que temos atualmente, na maioria dos Estados ocidentais. Naturalmente, depois de Locke muita coisa ainda “evoluiu”. Em síntese, o que se tentará demonstrar, é o encurtamento da distância entre o povo (indivíduo, cidadão), e o Estado (soberano). Distante em muito Maquiavel, menos um pouco em Hobbes e já significativamente próximo em Locke. Ou seja, inicialmente, em Maquiavel, a razão do Estado é o poder político, isto é, o poder do soberano, existindo, sobretudo para esse fim. Assim, em Maquiavel, o Estado é algo separado do indivíduo, o qual o mantém apenas mantém sob seu jugo. O indivíduo crê na importância do Estado, uma vez que o vê como seu tutor. Em Hobbes a razão do Estado é a segurança do indivíduo, compreendido como mau por natureza e desprovido de qualquer sociabilidade e, por esta razão deve preferir aniquilar-se diante do poder estatal, submetendo-se à tutela do soberano, cuja responsabilidade máxima é a sua proteção posto ser indefeso devido sua própria natureza má. Neste caso, contudo, o indivíduo já dispõe de uma liberdade inicial, e paradoxal ao significado inerente a seu próprio conceito, uma vez que só lhe resta escolher que se aliene. Em Locke a liberdade do indivíduo é delegativa ao Estado, seu representante, no entanto, como valor que reside essencialmente no indivíduo cidadão e não no Estado. 2.2 O ABSOLUTISMO NA ORIGEM DO ESTADO MODERNO Os principais teóricos do absolutismo de Estado do início da era moderna são Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes. Dizemos, principais, em virtude de terem exercido forte influência em regimes políticos que foram se constituindo numa Europavarrida por instabilidades sociais e políticas, especialmente. Certamente, tal situação social e política do continente, ajude-nos a compreender as razões que levaram estes dois clássicos da teoria política a fundamentarem suas propostas e modelos políticos de Estado (governo e soberania) em bases absolutistas. Precipitado seria afirmar que ambos deram aos seus textos esse teor, apenas por convicções pessoais, embora não as excluamos, evidentemente. Podemos seguramente afirmar que suas ideias exerceram seu papel, uma vez que muitos Estados e governos delas certamente receberam influências. Ousamos ainda afirmar que de alguma forma produziram seus resultados, questionáveis, evidentemente, dependendo do ponto de vista da análise que se faz. Vimos no capítulo anterior o processo de formação dos Estados Nacionais. Identificamos ali como a instabilidade política era percebida e sentida como um problema, particularmente para os negócios. Para evoluir nos negócios, tanto o rei, interessado no aumento de seus poderes frente aos senhores feudais (além do aumento na arrecadação de impostos em dinheiro) quanto a burguesia (comerciantes, industriais) perceberam desde mais cedo o quanto seria importante a estabilidade social e política30. Passaram então, a estimular uma cultura de orientação nacionalista, estimularam novos valores, particularmente, os valores referentes à necessidade de uma autoridade central soberana que protegesse a todos. A partir da manipulação ideológica produzida pelas classes dominantes, tais ideias e valores prosperaram e assim, todo o ambiente para o surgimento e florescimento das ideias absolutistas, que constituiriam os primeiros Estados e governos absolutistas (inclusive locais), estava posto. Enfim, as ideias absolutistas se anteciparam às democráticas, provavelmente porque o ambiente a elas foi mais propício do que à democracia, sobretudo no final do 30 . Certamente o equilíbrio econômico também o era, no entanto, não se esperaria isso nem do rei e muito menos da burguesia em ascensão nos negócios. período medieval e no início da era moderna, conforme procuramos demonstrar no capítulo anterior. Veremos a partir de agora como Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes elaboram suas teorias absolutistas e como em cada um deles se delimita a atuação do indivíduo e do cidadão (povo) e qual a importância que tem frente o Estado (e o soberano). Comecemos, pois, por analisar a fundamentação teórica da proposta política e, consequentemente, de governo e de Estado e o conceito de soberania (soberano), segundo Maquiavel, para em seguida analisarmos Hobbes, estabelecendo condições para que o leitor possa, comparando tirar suas conclusões. 2.3 MAQUIAVEL – RAZÕES PARA UM ESTADO ABSOLUTO E FUNDADO NO DIREITO DIVINO Sempre que realizamos algum estudo sobre a teoria política de Maquiavel, alguns cuidados devem ser tomados. Primeiro, é necessário isenção quanto a qualquer juízo moral. Não se trata de avaliar a teoria do autor florentino como do bem ou do mal. Seria incorrer em grave erro ter tal juízo como sustentação nessa compreensão. Bem ao estilo e entendimento de Maquiavel, podermos afirmar com “frieza” que, afinal de contas, trata-se de uma obra de conteúdo político e “maquiaveliano”. Segundo, sua teoria, não tinha a pretensão, necessariamente, de justificar ou criticar qualquer procedimento político em particular, nem qualquer sistema que fosse, mas tão somente, a partir de fatos que, certamente, durante longo tempo observou, analisou e sobre os quais concluiu, explicar a política como ela é, evidentemente nos limites do contexto em que escreveu suas conclusões. Terceiro, embora muito relacionado ao primeiro ponto que acabamos de mencionar, Maquiavel de forma alguma vê a política como um campo de espaço para o desenvolvimento ético do indivíduo e muito menos para a prática obrigatória da ética. Portanto, não é o bem comum o valor máximo e a preocupação do seu príncipe, como também não é a da preservação do interesse individual de cada um a responsabilidade e o fim que orienta as ações do soberano. Em última instância, há, em Maquiavel, duas únicas motivações para suas ações ou movimentos políticos: a conquista do poder e sua manutenção, sempre tendo presente a necessidade da busca da ordem ou a sua manutenção, supondo que isso seja bom para o povo e, sobretudo, porque é bom para o príncipe (soberano). Qual o método? Qualquer um que conduza a tal ou tais objetivos. Podendo passar pela fortuna, ou pela virtú.31 Quarto, ressaltamos que não se deve ler o Príncipe de Maquiavel como um manual político destinado a orientar o governante apenas. Não faltam interpretações que vão na linha exatamente contrária, afirmando que nesta obra Maquiavel, ao escrever ao príncipe orientava também o povo. Portanto tenhamos presentes estas duas possibilidades de olhar. Por fim, é necessário dizer ainda que nenhuma obra deve ser lida, desprezando- se o contexto (histórico, político, social e econômico) em que surgiu, para o qual foi pensado ou do qual recebeu ou se buscou influências. No caso de Maquiavel, certamente o contexto de uma Itália mergulhada em divisões e conflitos internos e “externos”32 deve ser avaliado, particularmente em vista de uma melhor compreensão dos seus escritos políticos que tanto associamos à ideia de uma proposta absolutista, o que não deixa de ser verdade. Contudo, compreendendo seu ambiente de vida, o contexto histórico da Itália da sua época, encontraremos razões claras para compreendermos sua proposta, sem o julgarmos com tanta avidez moral. . Arriscamos afirmar aqui que seria deveras ousado um líder político da época e do contexto de Maquiavel obter sucesso em suas estratégias, se elas se sustentassem em princípios democráticos. Contextos históricos, realidades econômicas e sociais, assim como os entendimentos políticos, isto é, a cultura política e as disputas por espaços e poder, como sabemos, também jogam importante, se não fundamental papel na maneira de conceber e, sobretudo, na necessidade de aplicação deste ou daquele método político. Segundo Carlos Estevam Martins, 31 . Conforme Maquiavel, a fortuna é a ocasião, o momento histórico propício para uma grande ação e a virtú representa a capacidade, a habilidade e, sobretudo, a astúcia do soberano ao praticar a melhor das ações, em ocasião de sorte ou de natural oportunidade. 32 . As aspas referem-se ao fato de não haver ainda uma Itália com uma unidade nacional definida que a identificasse como uma nação unificada, como um Estado Nacional. Na Itália do Renascimento reina grande confusão. A tirania impera em pequenos principados, governados despoticamente por casas reinantes sem tradição dinástica ou direitos contestáveis. A ilegitimidade do poder gera situações de crise e instabilidade permanente. Somente o cálculo político, a astúcia, a ação rápida e fulminante contra os adversários são capazes de manter o príncipe. Esmagar ou reduzir à impotência a oposição interna, atemorizar os súditos para evitar a subversão e realizar alianças com outros principados constituem o eixo da administração. Como o poder se funda exclusivamente em atos da força, é previsível e natural que pela força seja deslocado, deste para aquele senhor. Nem a religião, nem a tradição, nem a vontade popular legitimam o soberano e ele tem que contar exclusivamente com sua energia criadora. A ausência de um Estado central e a extrema multipolarização do poder criam um vazio, que as mais fortes individualidades capacitam-se a ocupar33. Certamente, é improvável nos convencermos de optarmos por uma democracia quando vivemos em ambientes conturbados socialmente. Em uma verdadeira democracia, subentende-se, diálogo, igualdade, inclusive econômica ou material, ambiente de paz ou de mínima estabilidade social econsenso ou aceitação de uma das partes como legitimamente vencedora ao final do processo ou de cada etapa específica de um processo democrático. São importantes elementos que funcionam como combustível alimentador de uma democracia. Doutra parte, em ambientes de caos social, agitação, violência ou conflitos, necessidades extremas e ou de falta de liberdade, como o foi na Itália de Maquiavel, por experiência histórica sabemos que sempre tem sido pouco provável florescerem ideias 33 . MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 7. políticas democráticas como a melhor saída para os problemas. Até a época do florentino a única experiência democrática havia sido Atenas, contudo, sob outras bases e em outro contexto. Em situações sociais e políticas como as do período de Maquiavel, a história tem nos demonstrado que o desfecho, majoritariamente, tem sido, o do endurecimento do método e da intensificação da resistência em forma de revolução e da aplicação da força, isto é, a radicalização de alguma forma. Não pretendemos, a partir dessa exposição concluir, ou fazer concluir que fatalmente, diante de tais situações sociais em análise o processo sempre deva desenhar- se para um desfecho desta forma, qual seja, a da concentração do poder e da imposição da força ou de algum tipo de radicalização. Fizemos muito mais uma constatação sobre o passado que uma certeza para o presente ou para o futuro. Entendendo o contexto histórico, social e político em que Maquiavel viveu e escreveu as páginas do Príncipe, não incorreremos, provavelmente, no erro de ignorar as imediações da vida do autor, em nossa análise sobre as suas ideias políticas. Não se trata de afirmar que em outro contexto histórico, democrático e pacificado, a formulação teórica de Maquiavel seria outra. Não, não se trata disso, como também não se trata de fazer suposições hipotéticas, ainda que possam ser prováveis. Igualmente não queremos afirmar que Maquiavel foi um escritor vulnerável e influenciável por um único meio ou ambiente, incapaz de formular convicções que extrapolassem a sua época ou o seu meio. Tudo isso seriam meras especulações. Por isso preferimos nos ater à realidade concreta e refletir como outros tantos e, mais que isso, entender que Maquiavel, sendo amante das questões políticas, não há dúvidas, preocupou-se em compreender, explicar a realidade política da sua época da forma mais realista, abordando-a como ela é e não como deveria ser. Por isso reforçamos aqui o que de certa forma já mencionamos antes: é pouco provável que Maquiavel tenha escrito sob alguma intenção moral, para o bem ou para o mal. Daí considerarmos injusta a reputação que o entendimento popular lhe atribui, qual seja, de crueldade, popularizada pela expressão “maquiavélico”. Como é inerente à sua teoria a análise “fria”, “calculista”, como muitos o queiram entender, entendendo-o como um realista, é provavelmente correto que se afirme que antes de ser influenciável, Maquiavel vasculhou o contexto em sua volta, nele mergulhou a ponto de incorporarem-se ambos (Maquiavel e a história do seu tempo), um no outro, obrigando-o, por um compromisso racional a tal análise. O que de concreto temos para compreender o florentino, é isso: a sua obra, a sua biografia e os conhecimentos sobre a história do seu tempo e lugar, produzida no contexto que conhecemos. Portanto, vamos de forma realista compreender sua teoria absolutista de Direito Divino. Maquiavel fundamentou suas ideias políticas em bases teológicos, na teoria do Direito Divino, a partir dos quais o príncipe é uma espécie de eleito de Deus. Assim, em nome de Deus o príncipe age para o bem do seu povo. Justifica ao príncipe que o seu poder não é originário do povo, mas de sua vocação messiânica, de sua capacidade suprema de conduzir um povo rumo à salvação. Sobre isso, afirma Bonavides: O florentino seculariza o messianismo teológico para levantar frente ao edifício do poder a estátua do príncipe todo-poderoso, desembaraçado de escrúpulos, vinculado unicamente aos fins que lhe justificavam os meios no exercício de uma autoridade sem limites e que, por isso mesmo, atravessava as fronteiras da moral, dos bons costumes, da obediência cristã, estabelecendo entre a pessoa do governante e a res pública uma promiscuidade que desembocava no arbítrio e nas demasias do tirano ungido pela filosofia do oportunismo. A ideia de grandeza, majestade e sacralidade da soberania coroava a cabeça do príncipe e levantava as colunas de sustentação de sustentação do Estado Moderno, que era Estado da soberania ou do soberano, antes de ser Estado da nação ou do povo. E o era porque o Estado como instituição ainda não se despersonalizara de todo. Mas lograra já exprimir o grau de força e intensidade de seu poder na vontade – a um tempo, coercitiva e agregativa - do príncipe do direito divino. 34 34 . BONAVIDES, Paulo. Teoria do Estado. São Paulo: Editora Malheiros. 5ª. edição, 2004. P.30. Reconhecendo no povo a sabedoria, preocupou-se em buscar fundamentos para o poder do soberano. Assim, em um ambiente ainda marcadamente religioso, não haveria melhor justificativa para fundar um poder absoluto que não o de que alguns são eleitos por Deus, e não pelos homens, para colocarem sua sabedoria (divina) a serviço do bem de uma nação. Aos demais, cabe aceitar os desígnios do supremo criador que com sua sabedoria escolhe alguns homens entre os homens. 2.3.1 MAQUIAVEL: UMA PROPOSTA POLÍTICA AMORAL Maquiavel inaugura uma nova abordagem na teoria política, muito diferente daquilo que se tinha até aquele tempo histórico. Ultrapassa os limites que até então sustentavam-se pela especulação filosófica ou se justificavam moralmente, pondo, particularmente, os ensinamentos da Igreja na base. Vê a primazia da política sobre a moral35 e a religião, separando esses campos. Faz uma espécie de depuração. Discrimina a política como um campo próprio do saber e do agir. Perpasse em sua obra o alicerce da política real desvinculando-a de propósitos ideais, mais que isso, utópicos, que vinham sendo apresentados até então. Assim escreve Carlos Estevam Martins: O universo mental de Maquiavel é completamente diverso. Em San Casciano, tem plena consciência de sua originalidade e trilha 35 . Leia a nota de número 27 e confira o que afirmou Bonavides a esse respeito. um novo caminho. Deliberadamente distancia-se dos tratados sistemáticos da escolástica medieval e, à semelhança dos renascentistas preocupados com fundar uma nova ciência física, rompe com o pensamento anterior, através da defesa do método de investigação empírica (...). (...) Maquiavel propõe estudar a sociedade pela análise da realidade efetiva dos fatos humanos, sem perder-se em vãs especulações. O objeto de suas reflexões é a realidade política, pensada como prática humana concreta, e o centro maior de seu interesse é o fenômeno do poder, formalizado na instituição do Estado. Não se trata de estudar o tipo ideal de Estado, mas compreender como as organizações políticas se fundam, se desenvolvem, persistem e decaem.36 O florentino desliga-se da necessidade de ser a política uma atividade de bases humanistas. A Filosofia (abstrata), a religião e moral (ética), muito pouco contribuem para embasar o pensamento político de Maquiavel. Ainda em outra passagem, escreve Carlos Estevam Martins: “Maquiavel, simplesmente fez da prática uma teoria”37 2.3.2 MAQUIAVEL: O LUGAR DO POVO (INDIVÍDUO OU CIDADÃO) Châtelet, Duhamel e Pisier-kouchner, professores da Universidade de Paris, na obra História das ideias políticas, definem, segundo Maquiavel o Estado como o que é 36. MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 16 . 37 MARTINS, Carlos Estevam. In Os Pensadores (Maquiavel ou o Príncipe)MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 27. e como poder central soberano. Vejamos, na íntegra, o trecho do texto em que os autores mencionam tal definição: Quaisquer que sejam as continuidades (ou filiações) ideais entre a Antiguidade e a Idade Média, por um lado, e os Tempos Modernos, por outro, o ‘secretário florentino’ introduziu uma ruptura decisiva; contra as teorias da sociabilidade natural, contra os ensinamentos da revelação e os da teologia, ele afirma – porque constata – que, no que se refere as atividades coletivas, o que é é o Estado. Foi ele quem deu a esse último termo sua significação de poder central soberano legiferante e capaz de decidir, sem compartilhar esse poder com ninguém, sobre as questões, tanto exteriores quanto internas de uma coletividade; ou seja, de poder que realiza a laicização da plenitudo potestas.38 Disso tiramos que em Maquiavel o Estado é o que é, como está escrito acima, e é “poder central soberano”, e, absoluto, o que significa, conforme igualmente acima mencionado, um “poder central do soberano” que não se compartilha com ninguém. É um poder estruturado e aparelhado cujo método de uso fica a encargo do soberano, o que significa que não há lugar para o povo39 (os indivíduos, os cidadãos) na sua elaboração, sua formatação e muito menos na aplicação dos métodos e instrumentos de ações por ele promovidas. A esse respeito escreveu Bonavides: 38 . CHÂTELET, Francois; DUHAMEL, Olivier; PISIER-KOUCHNER, Evelyne. História das ideias políticas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. p. 38. 39 . Utilizaremos com mais frequência este termo, justamente, para nos conformarmos mais com o entendimento de Maquiavel que “fala” de povo, destacando sua importância. O indivíduo e/ou cidadão não tem importância isoladamente no seu entendimento. Pelo menos não destaca preocupação quanto as interferências que cada um individualmente possa exercer sobre o Estado e o soberano. Muito diferente do que pensa sobre o povo. Sobre opovo e seu poder frente ao soberano, segundo Maquiavel, releia também a nota 27 acima. Estava assentada na intuição genial do fundador da moderna Ciência Política, na frieza dos raciocínios que desenvolveu ao serviço de um realismo liberticida e cínico, a teorização completa da soberania como instrumento político de um poder absoluto que se incorporava no príncipe como se o príncipe fora o próprio Estado.40 Significa isso afirmar que fica então o povo por ele ignorado, cuja importância é vista com desprezo? Seguramente não e, certamente o contrário. Para ele é o povo o maior e em última instância o verdadeiro sustentáculo do poder político. Do povo pode o príncipe ser investido no poder. Em O Príncipe afirma: “Também o povo percebendo que não pode resistir aos grandes, cria a reputação de um cidadão e o elege príncipe, para manter-se seguro com a vontade deste”41. Por outro lado, além da possibilidade investir o soberano no poder, o povo é a condição fundamental de garantia de sustentação e manutenção do poder. Assim disse: “concluirei apenas que, a um príncipe, é necessário que o povo devote amizade; senão, irá fracassar nas adversidades”42. Entende, pois, que da mesma forma que o príncipe pelo povo é instituído no poder, pode por ele também ser dele destituído. Como ele próprio afirmou “O príncipe nunca estará seguro contra a hostilidade do povo, porque ele é composto de muitos.”43 É frequente, em sua obra, sua demonstração de preocupação quanto ao cuidado que deve ter o príncipe para não cair na desgraça do povo. Vejamos o que ele afirmou em outra passagem do O príncipe: Assim, deve o príncipe tornar-se temido, de sorte que, se não for amado, ao menos evite o ódio, pois é fácil ser, a um só tempo, 40. BONAVIDES, Paulo. Teoria do Estado. São Paulo: Editora Malheiros. 5ª. edição, 2004. P.30. 41 . MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 74. 42 . MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 75. 43 . MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 74. temido e não odiado, o que ocorrerá uma vez que se prive da posse dos bens e das mulheres dos cidadãos e dos súditos, e, mesmo quando forçado a derramar o sangue de alguém, poderá fazê-lo apenas se houver justificativa apropriada e causa manifesta. Deve, em especial, impedir-se de aproveitar os bens alheios, uma vez que os homens se esquecem mais rapidamente da morte do pai do que da perda do patrimônio.44 O pensador florentino, quando escreve aos governantes da época, certamente não parte do princípio de que o poder deve emanar do povo, porém, entende que há momentos em que tal feito acontece, não havendo, então, outra possibilidade senão, tendo recebido do povo o poder, tomá-lo, pois, todo do povo pela sua conivência, sem que ele o perceba. Assim, no povo está sempre sua atenção central, não pelo bem dele, mas pelo bem do poder (do) soberano e do (poder do próprio) Estado, pois desse bem decorreria também o bem do povo em última instância. O bem de natureza protetora, de natureza ordenadora e não um bem que considere uma das essências da natureza humana: a liberdade. Escrevendo ao príncipe, não concebe, portanto, lugar ao indivíduo ou cidadão enquanto povo, e nem individualizadamente, muito menos considera que sua participação seja importante e necessária. No entanto, teme o poder do povo, por isso, constantemente contra ele se previne. O povo garante o soberano em “seu” poder, mas o soberano e “seu” poder não lhe devem possibilitar a soberania. Assim como o príncipe deve ser temido pelo povo e não necessariamente amado, também o príncipe deve temer o povo, embora não necessariamente o ame. Ao dirigir-se aos detentores do poder da época e, desejando aconselhá-los a respeito do papel do indivíduo (cidadão ou povo), trata-o como súdito (do soberano). Há em Maquiavel um povo soberano enquanto pertencente a um Estado, a um território a um governo próprio, e enquanto se reconhece como povo, nos laços que unem a todos e propicia a identificação de todos em uma nação, identificado com aquela 44. MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 107.. dimensão anteriormente mencionada, segundo Bonavides, como soberania externa, no aspecto em que um Estado, soberano e povo estão relacionados a outras nações. No entanto, não há soberania interna para o povo, não é soberano em relação aos seus próprios assuntos, pois deve ser, nos moldes do autor de O príncipe, essencialmente, conduzido pelo soberano detentor absoluto do poder. Este tipo de cidadania, a da dimensão externa, é uma instituição quase inerente e concomitante à instituição do Estado, Nela o povo de fato pouco tem a reivindicar e normalmente importa-se em dela participar, uma vez que sendo soberano o seu Estado e sendo temido o seu chefe soberano, já se supõe que seja reconhecido também um povo como soberano. Aqui aqui o entendimento que, se há um Estado e um governante forte e soberano, há também um povo forte e soberano. De alguma forma, mesmo nas modernas democracias, não há tanta reivindicação popular almejando maior participação nesse tipo de formulação de Estado e soberania. Os espaços para manifestações já satisfazem, os anseios populares, normalmente. Pode-se imaginar que Maquiavel também concederia aos seus súditos esse tipo de soberania, uma vez que esta reforçaria a sua, excluídas os espaços de manifestações nos moldes que temos nos Estados soberanos modernos. Para Maquiavel o príncipe deve manter no povo sempre a sensação e mais que isso, a certeza de que sua figura (soberena) o representa muito bem, ou seja, mantê-lo de certa forma nessa ilusão. Eis algumas formas de dizer que Maquiavel ao escrever aos governantes,alertava o povo. Seu estilo simples e fácil de ser lido, nos permite tranquilamente concluir nessa direção. Se alertava o governante sobre o povo, por que não dizer também que o fazia alertando o próprio povo em relação aos seus governantes? Ou seja, enfatizava ao soberano a necessidade de um poder absoluto, da mesma forma e ao mesmo tempo, alertava o próprio povo desde que assim quisesse compreender sobre o inabalável poder de que dispunha. Contudo, o grau de astúcia de cada uma das partes determinaria o lado ao qual sua teoria surtiria mais efeito. E, ao que parece, tem prevalecido a do soberano, uma vez que a história tem demonstrado que é, majoritariamente, soberano quem mais se apropria de tais saberes e de acordo com eles age e (se) articula não o fazendo com o mesmo empenho e intensidade o povo. Portanto é valido aformar que o “recado” poderia ter a dupla finalidade: servir ao povo e ao soberano. 2.4 THOMAS HOBBES - UM ABSOLUTISMO CONTRATUAL As teorias políticas de Hobbes e a de Maquiavel estão muito próximas aparentemente, uma vez que ambos são adeptos do absolutismo de Estado. No entanto, Hobbes inaugura o que podemos entender como uma segunda fase do absolutismo moderno. O que há de novo em Hobbes e que difere sua proposta da do florentino são os fundamentos que sustentam o seu absolutismo. Em Maquiavel a origem do poder é divina, em Hobbes, é o consenso produzido pelos indivíduos, ou assembleia de indivíduos que decide por todos (o povo). E é exatamente ali que reside a significativa diferença, se compararmos os dois. Ou seja, se para Maquiavel a justificação do poder é de origem divina, em Hobbes sua origem é o ser humano. Assim escreveu no Leviatã: E quando alguns homens, desobedecendo a seu soberano, pretendem ter celebrado um novo pacto, não com os homens, mas com Deus, também isto é injusto, pois não há pacto com Deus a não ser através da mediação de alguém que representa a pessoa de Deus, e ninguém o faz senão o lugar-tenente de Deus, o detentor da soberania abaixo de Deus.45 Com isto, rebate Maquiavel, e alfineta o poder da Igreja, ou seja, segundo Hobbes, ninguém pode auto-instituir-se no poder simplesmente por entender-se um iluminado de Deus ou o seu representante. Nenhum poder poderá, sob hipótese alguma, 45. HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p. 146. ser estabelecido em decorrência do fato de alguma pessoa ser ou intitular-se ser representante de Deus. Que o seja, mas que seu poder seja fruto de um pacto social e jamais com algum grupo de indivíduos em particular, ou com cada um separadamente, mas sempre com o todo coletivo, ainda que por consenso. O absolutista inglês rompe com Maquiavel em relação à fundamentação divina do poder e com a ideia de um poder personalizado na figura do soberano. Assim, só há poder legítimo se emanado do próprio homem, no uso da sua racionalidade. É a secularização do poder temporal que outrora, com Maquiavel, mantinha suas origens ou bases teológicas (divinas). Para Bonavides, Aliás, a segunda fase testemunha, com toda evidência, a secularização do Absolutismo em bases filosóficas e consensuais. Haja vista a esse respeito o contratualismo social que introduz com Hobbes uma nova fundamentação do poder, que já não promana da divindade, mas do homem e de sua razão prática, dos imperativos racionais que afiançam a sobrevivência ameaçada da espécie humana, segundo aquele grande pensador.46 Para mais adequadamente compreendermos seu entendimento a respeito das relações entre o povo e seu soberano é necessário que tenhamos sempre presente e com clareza o seu conceito sobre Estado. Por isso, sobre este conceito, transcrevemos aqui suas palavras: Diz-se que um Estado foi instituído quando uma multidão de homens concordam e pactuam, cada um com cada um dos outros, que a qualquer homem ou assembleia de homens a quem seja atribuído pela maioria o direito de representar a pessoa de todos 46. BONAVIDES, Paulo. Teoria do Estado. São Paulo: Editora Malheiros. 5ª. edição, 2004. P.32. eles (ou seja, de ser seu representante), todos sem exceção, tanto os que votaram a favor dele como os que votaram contra ele, deverão autorizar todos os atos e decisões desse homem ou assembleia de homens, tal como se fossem seus próprios atos e decisões, a fim de viverem em paz uns com os outros e serem protegidos dos restantes homens. É desta instituição do Estado que derivam todos os direitos e faculdades daquele ou daqueles a quem o poder soberano é conferido mediante o consentimento do povo reunido.47 Hobbes busca estabelecer um Estado e seu poder soberano sobre bases consensuais em que se formula que o poder de ação do soberano deve ser absoluto, delegado pelo povo através de um contrato entre todo o povo (ou assembleia de cidadãos) e o soberano, escolhido e designado consensualmente para tal função. É o contratualismo social. Neste contrato o soberano tudo pode, porém, não tudo segundo sua vontade, sua astúcia, virtú ou fortuna, conforme o justificava Maquiavel, mas segundo a vontade de um povo, não uma vontade geral, como o pretendia Rousseau, mas segundo uma vontade consensual de um povo, ou assembleia de cidadãos que pactua, uma vontade estabelecida pelo instrumento de um contrato que passa a ser a condição do Estabelecimento do Estado, poder soberano e da vida em sociedade, responsabilizando totalmente o soberano a partir de tal evento, a garantir a segurança, a vida e a paz. Portanto, a vida e a paz de cada um enquanto compõem todo o corpo do povo e não apenas de um indivíduo ou de um grupo, enquanto indivíduo ou grupo particular. Para o contratualista absolutista inglês o ser humano é mau por natureza, isto é, ao nascer já traz em si, aliás, desde sua concepção (início da sua formação biológica), a semente do mal. O mal não é removível. Ele compõe a natureza humana, tanto no estado 47 . HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p. 145. de natureza quanto no estado de sociedade. Portanto, estará sempre presente, independentemente das circunstâncias de vida de cada ser humano. Bonavides nos contribui quando afirma sobre Hobbes que, Sua filosofia política radica, como a de Rousseau e Locke, na dualidade contrastante de um estado de natureza que antecede o estado de sociedade. No primeiro o ser humano desfruta de liberdade extrema, absoluta, total, mas essa liberdade ser-lhe-á letal se dela não se desfizer, porquanto, o estado de natureza não sendo de paz, amor, concórdia e fraternidade, mas de guerra, violência e terror, acabará por conduzi-lo à extinção. Palco de uma guerra civil do gênero humano, o estado de natureza aparelhava, por conseguinte, o extermínio e mútuo aniquilamento de todos. Era um estado de sangue, desconfiança e ferócia costumaz, em que o medo, institucionalizado no instinto da sobrevivência, não deixava ainda antever o advento da consciência agregativa, suscetível de instituir um sistema de relações fundado no estabelecimento da ordem e da segurança. Estado de natureza fadado a perpertuar-se se não houvesse logo, por necessidade já inelutável, a passagem ao estado de sociedade.48 Por ser o homem um ser racional, e, nesse sentido dotado de uma capacidade superior a dos demais animais, vê Hobbes, no estado de sociedade (sociedade civil) toda a vantagem da espécie para sobreviver ao estado de natureza. Está no estado de sociedade (civil), a certeza de que exerce sua racionalidade, quando institui um poder soberano (o Estado) que lhe possibilita reduzir (ou eliminar) os riscos que o ameaçam constantemente. É nele que está a organização institucionalde poder soberano forte, central e absoluto que lhe garantirá a segurança, e, por consequência, sua conservação (sua vida). 48 . BONAVIDES, Paulo. Teoria do Estado. São Paulo: Editora Malheiros. 5ª. edição, 2004. P.33. Há no homem, em fase de estado de natureza, a liberdade, da qual deve procurar desfazer-se de forma rápida e consciente. A saída que aponta, uma vez que não há ou que restam poucas alternativas para a conservação da sua vida e visto não ser racional desejar permanecer em estado em que a ameaça e o risco de aniquilamento é uma constante, isto é, em situação permanente de “guerra de todos contra todos”, é alienar sua liberdade, em comum acordo com todos os demais homens para instituir um só e absoluto poder, o Estado. Para Bonavides, a instituição do Estado a partir de um contrato, é para o homem, certeza de proteção e garantia da sua conservação, Mas havia um preço a pagar pelas garantias que seriam auferidas. Consistia ele na alienação de todas as liberdades, trasladadas no Estado, senhor absoluto da vida e dos comportamentos humanos, pelo menos segundo a tese implícita nessa singular doutrina com que a razão buscou edificar o Estado Moderno. o homem perdia a liberdade, mas ganhava, em troca, a certeza da conservação.49 De acordo com Hobbes, é racional para sua própria sobrevivência que o homem saiba fazê-lo imediatamente. Somente assim, poderá dispor de mecanismos de segurança que o protejam da guerra que é inerente à sua natureza e a de todos de sua espécie, visto sua essência natural, jamais depurar-se da possibilidade de “guerra de todos contra todos”. Entende Hobbes que o indivíduo (ou povo) deve acordar com seus semelhantes que alienar a sua liberdade lhe será absolutamente benéfico. Sua liberdade deve limitar-se a dizer que concorda em alienar sua condição de ser livre de forma irrestrita e definitiva ao Estado, por todo o tempo que este responsabilizar-se pela sua conservação e a de todos os seus semelhantes no pacto, o que, 49 . BONAVIDES, Paulo. Teoria do Estado. São Paulo: Editora Malheiros. 5ª. edição, 2004. P.33. aliás, passa a ser a maior de todas as obrigações do Estado para com seus cidadãos. Assim como se aliena um indivíduo (ou um povo) ao Estado, na mesma proporção o Estado se obriga (responsabiliza-se) diante de seu povo. Portanto, após o ato de alienação, o indivíduo não está mais na condição de reconhecer-se como um ser humano livre, mas, sim, como um ser absolutamente apartado de tal condição para sempre, a menos que do soberano deva ser subtraído o poder a ele delegado e recuperada a liberdade do indivíduo, por motivo de sua usurpação ou, de inadequado desempenho de suas atribuições, ou seja, por rompimento dos princípios fundamentais, absolutamente firmados em contrato social. Neste sentido, segundo Hobbes, há uma possibilidade de retono à condição inicial de cidadão livre em estado de natureza e, portanto, de retorno a ele da sua liberdade, e, consequentemente ao seu estado de existência ameaçada. Tal condição de liberdade deve, apressadamente, inverter seu curso e retornar ao domínio absoluto de um novo Estado, igualmente construído a partir do consenso de cada indivíduo que volta a alienar sua liberdade, ou seja, a devolução dela à soberania do Estado absoluto, vistos os iminentes riscos que o ameaçam permanentemente, ante seu infeliz e indesejado retorno ao estado (de natureza). Urge, em situações tais um novo pacto e a restituição de uma soberania de Estado sobre os indivíduos, sustentado pelos mesmos fundamentos, em vista do mesmo fim. Qual benefício terá o indivíduo que aliena sua liberdade? Sua segurança e, portanto, a conservação da sua vida. E por que há entre os humanos a necessidade de se constituir um pacto comum, em vista de conservar a vida de cada um de seus semelhantes, enquanto entre outros grupos animais as espécies se perpetuam e não há tal necessidade, nem ameaça, vivendo eles absolutamente em sua condição natural, o que corresponde ao estado de natureza do ser humano? A essa questão Hobbes responde a partir do exemplo das formigas e das abelhas, partindo do entendimento aristotélico de que elas possam ser contadas como criaturas políticas. Responde Hobbes que entre os animais não há juízos que extrapolem seus apetites particulares e nem linguagem que lhes permita indicar qual seria o bem comum. Elenca seis50 pontos para diferenciar os humanos de tais criaturas, os quais descrevemos, em seguida, resumidamente: Primeiro: a honra – sentimento inexistente entre as referidas criaturas e capaz de despertar sentimentos de amor e ódio no ser humano; Segundo: a diferença entre o bem individual e o comum - tais criaturas agindo individualmente concorrem para o bem comum. O ser humano age individualmente em vista da sua felicidade que consiste na comparação com outros homens. Portanto, age sempre em vista de si próprio e de sua ação não decorre, necessariamente, o bem comum; Terceiro: a razão – inexistente nos demais animais, pois não conseguem fazer comparações entre suas ações e as de seus semelhante, ao passo que entre os humanos há sempre aqueles que se julgam mais sábios. Quarto: a linguagem – as criaturas em questão não dispõe de um sistema de linguagem semelhante aos dos humanos que são capazes manipular ao modo de cada um o uso dos conceitos sobre bem e mal. Quinto: injúria e dano – as criaturas irracionais não são capazes de fazer tal distinção e causá-las umas as outras. O homem por sentir-se mais sábio inclina-se a exibir seu saber e controlar os que governam o Estado. Sexto: nos animais há um acordo natural, portanto, garantido pela própria natureza e entre os humanos há um pacto, portanto, artificial. Assim, o que os homens constroem artificialmente não se sustenta por si só, é necessário que haja alguma coisa mais, além de um pacto. Eis a necessidade de um poder comum. Leia na íntegra e nas palavras de Hobbes o seu sexto item: 50 . Lei na íntegra os seis itens detalhados por Hobbes em: HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p. 143. Por último, o acordo vigente entre essas criaturas é natural, ao passo que o dos homens surge apenas através de um pacto, isto é, artificialmente. Portanto, não é de admirar que seja necessária alguma coisa mais, além de um pacto, para tornar constante e duradouro seu acordo: ou seja, um poder comum que os mantenha em respeito, e que dirija suas ações no sentido do benefício comum.51 Numa leitura mais apurada e atenta nos permitimos destacar entre os pontos anteriormente elencados, a linguagem e a razão. Assim, Hobbes ao destacar esses dois aspectos, associa sua ideia de absolutismo a uma questão de racionalidade, justificando racional e calculadamente (artificialmente) a necessidade da transferência da liberdade humana a um poder comum, posta como meio para a manutenção da sua vida. Afinal, se a razão e a linguagem são capazes de produzir, pelas razões elencadas, desavenças sociais, também através do seu uso é possível estabelecer o entendimento comum, isto é, o pacto originário do Estado. Por este instrumento é possível fazer a razão conservar a vida, sendo, pois, o evento de fundação do Estado, um ato de inteligência. É, pois, racional, neste caso, submeter-se. Evidentemente, não faz apologia gratuita a qualquer submissão, mas, exclusivamente à submissão estatal. Entende que não é racional ser livre e desejar permanecer livre, quando a liberdade só é possível naquela condição, qual seja, a do estado de natureza. Neste estado a razão se perderá nos vícios que predominam em tal ambiente. Se a liberdade é uma condição permanente no estado de natureza, é também permanente nele a condição da ameaça de extinção, em qualquer circunstância. Por isso,deve o ser humano desejar o estado de sociedade no qual elimina sua liberdade, transferindo-a ao Estado e não ao soberano, ganhando, em contrapartida, segurança e perspectiva de vida mais prolongada. Interessa, e deve interessar mais ao indivíduo (humano) sua segurança e sua vida que sua 51 . HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p. 143. própria liberdade. Ora, segundo Hobbes, entre viver livremente e viver seguramente, não há outra escolha racional que não a da segurança. Vemos que o contratualismo de Hobbes sustenta-se no princípio do medo. Para ele não existe no estado de natureza, ser humano que poupe seu semelhante e que não represente ameaça a outro. O medo está posto por todos os lados, a insegurança é uma constante no estado de natureza. Desta forma, ao existir no mundo natural, não somente o meio o ameaça, como ele próprio é ameaça ao seu meio social e natural. Então, se é o medo o que mais atormenta o homem, é a institucionalização do medo que será capaz, estabelecer a ordem entre os que permanentemente se ameaçam. Deste modo, o Estado deve ser como um Leviatã, capaz de não somente impor respeito, mas, se necessário, sobretudo, impor o medo. Deve ele próprio representar a cada um dos seus subordinados a figura de um ser ameaçador, do qual ninguém escapará. Assim como o Leviatã, também o Estado não pode parecer afável, mas, sim, assustador e capaz de impor a crueldade necessária. Não há Estado capaz de cumprir com qualquer pacto se a ele não se delegar fazer uso dos meios que possibilitem garantir tal cumprimento. Segundo Hobbes, “os pactos sem a espada não passam de palavras, sem força para dar a menor segurança a ninguém.”52 Retomemos a questão sobre o fato de ser o homem mau por natureza. Ao afirmar isso, não o faz sob o prisma de um ponto de vista de uma moral (cristã, por exemplo) condenatória ou de um indivíduo sensibilizado pela indignação ante a tal constatação. Pelo contrário, sua análise é absolutamente racional, assim como é racional segundo ele, propor que o ser humano aliene sua liberdade a fim de salvar sua própria vida. De acordo com o contratualista absolutista inglês, no estado de natureza, ambiente totalmente desprovido de qualquer lei que não as da própria natureza, qualquer ser humano está legitimamente autorizado a praticar qualquer ato que objetive a sua conservação e até mesmo sua honra. Assim, neste estado a base sustentadora da regra do agir é o instinto, não somente da sobrevivência, mas todo instinto que tenha por fim 52 HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p. 141. garantir sua existência, seja no momento presente, seja no futuro. Apresentamos esse entendimento nas próprias palavras de Hobbes: Portanto, apesar das leis da natureza (que cada um respeita quando tem vontade de respeitá-las e quando pode fazê-lo com segurança), se não for instituído um poder suficientemente grande para nossa segurança, cada um confiará, e poderá legitimamente confiar, apenas em sua própria força e capacidade, como proteção contra todos os outros. Em todos os lugares onde os homens viviam em pequenas famílias, roubar-se e espoliar-se uns aos outros sempre foi uma ocupação legítima, e tão longe de ser considerada contrária à lei de natureza que quanto maior era a espoliação conseguida maior era a honra adquirida. Nesse tempo os homens tinham como únicas leis as leis da honra, ou seja, evitar a crueldade, isto é, deixar aos outros suas vidas e seus instrumentos de trabalho. 53 Decorre disso, que Hobbes entende que não há possibilidade alguma a qualquer ser humano de emitir qualquer juízo sobre qualquer ato praticado por outro ser humano, se no universo de suas convivências existir tão somente as determinações da natureza. Qualquer juízo censura ou julgamento que viesse a ser efetuado a respeito de um de seus semelhantes, ou a respeito de um grupo de semelhantes, na ausência de uma força maior absoluta e consensual, seria, certamente, ato de tirania e, portanto, de estupidez. O que legitimaria um indivíduo em particular ou um grupo em separado a proceder a qualquer julgamento de outro indivíduo ou grupo, estando eles todos na mesma condição natural. Como submeter-se a lei de um ser ou grupo apenas quando a concebe, não segundo a lei da natureza, mas segundo a lei de sua vontade ou de algumas vontades apenas. 53 . HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p. 141. Está evidente que no estado de natureza, não se concebe existir qualquer tribunal em particular e superior, nem se concebe existir qualquer censor em particular e da mesma forma não é concebível o executor de qualquer lei. Isso não se coaduna nem ao estado de natureza e tão pouco isso caracteriza qualquer estado de sociedade, se a pretensão é justificar tal raciocínio na teoria de Hobbes. Ou seja, não há justiça nem moral possível fora do Estado. E, mais ainda, estúpido seria exigi-la. É para resolver esta questão que Hobbes propõe um contrato social em bases consensuais e não por fundamentos radicalmente éticos conforme o pretendia Rousseau que veremos adiante, em nosso próximo capítulo. Isso nos remete novamente a sua justificação da necessidade de um Estado absoluto e consensual edificado sobre bases contratuais. É o Estado a única possibilidade legítima de se pretender estabelecer, a partir do próprio ser humanos o que é admissível e o que não o é, no estado de sociedade. Sua instituição é consequência de um esforço desempenhado por cada indivíduo em particular na intenção de abandonar ele a condição de ameaçador da existência do outro e de ameaçado na sua como da mesma forma dar sua contribuição e propiciar ao outro a oportunidade de abandonar a condição de ameaçador de seus semelhantes. O Estado é a certeza de proteção de todos contra todos. Somente o Estado pode sintetizar a vontade de todos naquilo que está intrínseco na natureza humana, seu instinto de preservação da vida, da existência. Na proposta política de Estado de Hobbes, o povo (indivíduo, cidadão) não elabora as leis, não edifica a seu modo o Estado, somente transfere ao soberano sua legitimidade sua vontade sob o compromisso de que este procederá segundo os princípios inalienáveis, que colocam a vida e a paz como bens supremos. Nesta proposta não há um retorno e repetições de atos formulativos de regras que venham a estabelecer junto com cada indivíduo ou mesmo com o povo, em períodos cíclicos, sobre os procedimentos do soberano e do funcionamento do Estado e nem sobre os procedimentos dos cidadãos. Há uma só transferência de vontade e de liberdade, a qual somente poderá ser reivindicada seu retorno quando e se o soberano falhar em seu princípio fundamental, sendo negligente em relação à segurança interna dos indivíduos e externa em relação à nação, ou seja se errar uma ou duas vezes com seu povo (ou com seus súditos). Portanto, se internamente é somente o Estado que tem a prerrogativa de preservar qualquer indivíduo da ameaça de seu semelhante, também é o Estado que deverá assegurar, diante de ameaças externas a conservação do seu povo. Assim, o Estado é soberanos internamente porque deve se agigantar diante de cada indivíduo, representando-lhe ameaça, caso este queira ser ameaça à ordem, à segurança, ou seja à vida de outro ou de todos, igualmente o deve ser na defesa de um povo inteiro diante da ameaça estrangeira. 2.5 A SEPARAÇÃO DOS PODERES E O CONTRATUALISMO DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA Nossa trajetória em vista de conduzir o cidadão para mais perto do Estado e de trazer o Estado para mais perto do cidadão, deu seuprimeiro passo com o contratualismo de Hobbes. Contudo, nesse contratualismo, não há como não admitir que o cidadão encontra-se ainda em posição muito subalterna e distante de sua real necessidade de interferir nos desígnios do Estado, entendendo isso como participação na construção dos alicerces que permitem o desenvolvimento da sua cidadania. Se em Hobbes, por um lado, podemos afirmar que o poder não era mais totalmente da pessoa do soberano, por outro, não podemos ainda dizer que o era das leis. Pelo contrato o povo transferia seu poder e o concentrava na pessoa do soberano. Assim possibilitava ao cidadão alguma participação, contudo em absoluta restrição uma vez que só lhe restava dar ao soberano toda a legitimidade para sua prática absolutista. Há, pois, entre Hobbes e a democracia, algumas cansativas léguas a se percorrer. O que, aliás, não é possível realizar a partir de alguma inspiração que possa engendrar o seu pensamento, muito menos de espaços de atuação cidadã que sua proposta possa de alguma forma prever e oferecer. A proposta do contratualista absolutista inglês é formatada. Trata-se praticamente de uma fórmula pronta, sem muitos espaços para oscilações, de pouca flexibilidade política. Por isso, de certa forma bastante simplificada, o que neste caso supõe limitados espaços para a evolução em direção a uma maior cidadania e de dialética praticamente impossível. Não há dinâmica possível. Os pontos de partida o de chegada já estão postos, como sendo as únicas possibilidades. Tanto seu modelo quanto o de Maquiavel pareciam ideais e provavelmente contribuíram de alguma forma, sob o ponto de vista daqueles que vislumbravam, cobiçavam e pretendiam manter controle sobre o poder e, possivelmente, dadas as circunstâncias de uma Europa em caos, particularmente em determinadas regiões, também tenha sido útil de algum modo aos menos abastados que igualmente padeciam naquele ambiente de insegurança, o que não significa dizer que tenha atendido as demandas reais das classes excluídas. Muito pelo contrário, continuaram à margem do processo político. Se, de acordo com Hobbes, a obtenção do poder não ocorre por atributos de natureza divina do soberano, ou por qualquer outra virtude exclusivamente sua, o que já podemos admitir como um avanço, embora absolutamente tímido, contudo, seu fundamento a partir do princípio de que ao cidadão (povo) não há outra alternativa a não ser alienar sua liberdade, carece cada vez mais de sustentação racional ante ao avanço rumo a uma nova realidade dos fatos, em uma Europa que despontara com os grandes progressos decorrentes dos resultados comerciais, obtidos pelas metrópoles, particularmente a partir dos séculos XV e XVI, que, por sua vez, serviram de ponto de partida para aquilo que poderíamos chamar de complexo de mudanças culturais ocorridas do início e no decorrer do Renascimento e subsequentemente no iluminismo. Todas as mudanças culturais desse longo período evidentemente deixaram seus reflexos e se expandiram para muitas direções, dentre as quais a política, indiscutivelmente. A Nova mentalidade generalizada, especialmente nos países centrais da Europa Ocidental, a partir dos quais as ideias se pulverizavam por todo o globo, não mais suportava uma proposta de um sistema político tão engessada e conservadora quanto as sustentadas pelo absolutismo. Frente esse contexto histórico, mais uma vez, a filosofia entra em cena para perturbar o que parecia definido. Quem são os atores? Os iluministas, Montesquieu, John Locke e Jean-Jacques Rousseau, especialmente, sobre os quais iremos particularmente aqui tratar sob o ponto de vista de suas análises, visões e propostas para a política. E o que fazem? O primeiro veio para balançar o que parecia uma sólida estrutura nuclear de poder unitário, indivisível e centralizado, construída sobre modelos que pretendiam ser inabaláveis, edificados desde os fins da Idade Média. Propôs quebrar tal estrutura como quem afirma, “funciona melhor e será mais justo se dividirmos em partes para impedirmos superpoderes”. Assim, uma parte a quem é capaz de fazer (executar), outra parte a quem é capaz de estabelecer como fazer (legislar) e outra parte aquele capaz de avaliar (julgar) se o que foi realizado o foi de acordo com as regras estabelecidas. Nascia a teoria da separação dos poderes com Montesquieu. Em raia quase paralela, um pouco a frente corria John Locke, não como concorrente ao lugar do Barão de La Brède e de Montesquieu, mas com o propósito de apontar ao cidadão meios como este poderia de alguma forma participar, intervir e interferir e se fazer presente nas três fatias cortadas por Montesquieu. Concluiu que nem sempre é possível a todos inserirem-se nesses espaços, visto a limitação física e de tempo, o que Montesquieu também já havia exposto. Era necessário que se encontrasse um modo através do qual, se não fosse possível a cada cidadão estar no poder e dele diretamente participar em forma de presença física, pudesse lá estar e participar do poder como cidadão representado. Encontrou, então, o contratualista inglês da democracia representativa uma fórmula que comprimia diversos cidadãos, fazendo de muitos um só, e subsequentemente, a multiplicação de um só por muitos, possivelmente em dezenas, centenas, milhares e até milhões. Era a pedra angula sobre a qual se construiria o edifício da democracia representativa de John Locke. Nesse período, afloravam cada vez mais os ideais que viriam a sacudir o mundo, ainda neste mesmo século em que esses notáveis iluministas mexiam nas bases de um pensamento que até então parecia inquebrantável. Ideais de natureza política (liberdade), Econômica (igualdade) e moral ou ética (fraternidade), se propagavam não mais somente por meio da tinta que escoria das penas utilizadas pelos intelectuais, mas, também pela voz daqueles que sentiam o jugo da opressão fosse ela no chão da fábrica, nas cercanias agrárias, dos que padeciam sob um sistema de tributação sem contrapartida nos centros urbanos, particularmente, e até mesmo das vozes silenciadas nos cárceres, presas às correntes que imobilizavam mentes e pensamentos, daqueles cujos passos pretendiam rumar em direção à liberdade e cujas mãos desejavam ser estendidas a fim de levantar os caídos pela brutal força de poderes que somente se mantinham porque um sistema que privilegiava a força ainda, mesmo em estado terminal, conseguia permitir que seus suspiros ainda persistissem por algum tempo. Rousseau (que apresentaremos no próximo capítulo) foi ainda mais ousado, por que não dizer, atrevido. Em um tempo em que, em diversos lugares, nem a liberdade nos limites da proposta de Locke se usufruía, aparece um genebrino, radicado em Paris, para ensinar que a liberdade, sob o ponto de vista moral (ético), não pode ser parcial. Deve ser radical e total (direta e para todos) e em permanente exercício, é, portanto, o elã vital na construção de uma nova sociedade, na qual, ela, a liberdade, a igualdade e a solidariedade (fraternidade), não devem mais constar como sonhos, não como uma realidade apenas desejável, mas, sobretudo, convertida em realidade. Um sonho do qual de alguma forma ele próprio veio a acordar posteriormente, quando defronta-se com a realidade, em seu próprio tempo, ainda contagiada e, possivelmente mais ainda que antes, dos vícios do pecado original da ganância que feriu o homem no início da civilização. Começamos por entender a partir de agora, a proposta da divisão do poder feita por Montesquieu, sempre tendo em mente essa trajetória que nos propusemos apresentar e que nos permitirá compreender o percurso teórico político que permitiu chegarmos aos termos da democracia de John Locke e particularmente de Rousseau, objeto de maior e mais aprofundada análise nesta seção da obra. 2.6 JOHN LOCKE E A DEMOCRACIA REPRESENTATIVACom John Locke chegamos ao que podemos denominar de segundo estágio do contratualismo de Estado na modernidade. Sua teoria política avança significativamente no que se refere a uma nova compreensão do Estado Moderno. Sua proposta sugere que a legitimidade do governo e toda sua autoridade deva ser determinada pelo povo através do contrato social firmado entre ele e o Estado. Funda com seu modelo de contrato o chamado liberalismo constitucional, e sua proposta contratual, como ainda veremos mais adiante, difere substancialmente da de Thomas Hobbes. Com ideias em defesa da liberdade e da igualdade, embora esta última, na visão de muitos de seus críticos não esteja garantida, visto seu conceito a respeito do direito e da natureza da propriedade, coadunou-se ao espírito do seu tempo, uma vez que ideias dessa natureza se colocaram como pilares de todas as ideias políticas que fervorosamente foram abraçadas e propagadas durante o iluminismo e que foram os sustentáculos na formação do tripé sagrado, qual seja: a liberdade, a igualdade e a fraternidade, que conduziu à Revolução francesa, apenas para mencionar um exemplo histórico determinante, para o qual suas ideias, como evidentemente de muitos outros, exerceram decisivas influências. Foi um pensador empirista, defensor, portanto, da ideia de que a experiência determina a realidade. Assim, sua teoria do conhecimento, por exemplo, sustentava que ao nascer, o ser humano é semelhante a uma folha de papel em branco, ou seja, sua mente é um vazio a ser preenchido, o que ocorrerá ao longo de sua existência por meio das experiências que realizará. Sua teoria política seguiu a coerência de sua filosofia empirista, segundo a qual nada existe inato, ou seja, nada que existe está no mundo de forma dada, pronta, definitiva e absolutamente estabelecida pela natureza como intocável. Em outras palavras nada que existe ou que foi dado pela natureza permanece definitivamente como é. Entendendo que o mesmo raciocínio valia em relação ao poder político, ou seja, que nada deve ser considerado como algo pronto dado e estabelecido de antemão e, portanto, não deve haver poder político previamente determinado e ao qual obriga-se, simplesmente, uma das partes (povo) à submissão, enquanto à outra é dado o direito de determinar absolutamente ou quase totalmente o curso da vida de todos nesta mesma sociedade. É com este raciocínio, portanto, que se pode compreender porque Locke contesta o absolutismo, particularmente, neste caso, o do direito divino, e propõe que seja o povo o autor do poder do Estado, não um poder pronto, estabelecido ad eternum, mas um poder em construção e se houver necessidade, em transformação e revolucionável. Segundo Locke, a sociedade civil é uma criação dos homens, não é estabelecida pela natureza, nem por qualquer força sobrenatural. São os homens que a estabelecem, em vista de suas necessidades e, assim sendo, é de responsabilidade dos próprios homens organizarem seus desígnios e, sendo o poder político de natureza humana, porque deriva da necessidade do homem de organizar sua vida social, não há qualquer razão que justifique ou sustente que este poder (político/Estado) deva fundar-se em alguma autoridade constituída fora das deliberações dos próprios homens, como doutrinava, por exemplo, o absolutismo do direito divino de Maquiavel. Seu pensamento político, portanto, contesta qualquer forma de Estado e governo que não respeite a soberania do povo, não importando a forma como o povo acorde que ela seja exercida. Para Locke, o único detentor legítimo do poder é o povo, que deve sempre escolher a forma como institui seu governo. Contudo, ele próprio propôs sua fórmula contratual, dispondo sobre o modo de constituição e funcionamento do governo, determinando o poder legislativo o poder supremo e responsável pelo governo (Estado). John Locke apresenta uma proposta política contratual adversa a do contratualismo absolutista de Thomas Hobbes. Não põe como questão fundamental a definição sobre ser o homem bom ou mau naturalmente, mas considera central a discussão a respeito da necessidade desse contrato estabelecer os instrumentos para garantir, sobretudo, os direitos naturais do ser humano, particularmente aqueles relacionados à vida, à liberdade e, sobretudo, à propriedade e por ela a igualdade e a justiça. O direito à justiça e à igualdade somente ficará garantida ao indivíduo quando a ele estiver garantido o direito de propriedade. E para isso há a necessidade por parte do ser humano de ingressar na sociedade civil, ou seja, a sociedade política, e nela estabelecer um poder de todos, responsável pelo bem comum, identificado por ele no poder do Estado. No entendimento de Locke, somente o Estado terá os instrumentos, sobretudo o das leis, capazes de garantir a todos que tais direitos possam estar constantemente preservados. Vejamos o que escreveu a este respeito: (...) Para evitar essas inconveniências que perturbam as propriedades dos homens no Estado de natureza, eles se reúnem em sociedades, de modo que possam dispor da força reunida da sociedade como um todo para garantir e defender suas propriedades, e para disporem de regras fixas para delimitá-las e por cujo meio cada qual possa saber o que lhe pertence. É para esse fim que os homens renunciam a todo o seu poder natural em favor da sociedade me que ingressam, e a comunidade deposita o poder legislativo54 nas mãos que considera convenientes, confiando-lhes o encargo de que a sociedade seja governada por leis expressas. Do contrário, sua paz, tranquilidade e propriedade estarão entregues à mesma incerteza em que se encontravam no Estado de natureza.55 Por esta razão entende Locke que a formação da sociedade civil e o estabelecimento de poder político não devem ser entendidos como um retrocesso56, mas, sim, como um passo adiante na vida coletiva humana, uma vez que no estágio político o indivíduo terá outros recursos artificialmente construídos que contribuirão para a preservação da propriedade e, consequentemente, da sua liberdade, uma vez existir, então, um poder materializado no Estado. A grande inovação de Locke em relação a Hobbes é sua proposta de partição dos poderes do Estado em Legislativo e executivo. Mencionou ainda o poder federativo, contudo, o considera uma extensão do executivo, uma vez que está vinculado a funções executivas externas, destinado às relações com outros Estados. Não faz substancial menção ao poder Judiciário. Ao propor a partição do poder, Locke inova no sentido de sua proposta idealizar um Estado menor ao soberano e a ele (Estado) em si, e de alguma forma maior ao 54 . Locke entende ser o poder legislativo o poder supremo, responsável pelas leis e pelo governo. 55 . LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 507 e 508. 56. Contrário a esta ideia está Rousseau que, inicialmente, entende que na origem da sociedade política, ao fundar o Estado, a sociedade de então (a primeira a constituir tal poder) o fundou não para preservar a liberdade natural, mas para garantir e proteger a propriedade, vista como a originária de todas as desigualdades entre os homens e, portanto também a origem de todo o mal. Portanto, para Rousseau, ao proteger a propriedade o Estado legitima o mal e não a liberdade e a igualdade. Locke, ao contrário, sustenta ser a propriedade a mais clara garantia da liberdade do indivíduo. No entanto, posteriormente, o próprio Rousseau vê na política e no poder político (do Estado) a melhor forma do homem aproximar-se de sua natureza original. indivíduo (cidadão). Inverte a lógica, apresentando um poder de Estado que parte do cidadão que reconhece a importância do Estado e seu soberano como aglutinador, elaborador e executor das vontades dos cidadãos, mas que jamais aliena tal poder ao seu representante, comopropôs Hobbes, por exemplo, pelo contrário, o mantém sempre, na possibilidade de intervenção toda vez que o governante for desleal com seu povo ou negligenciar a justiça. A proposta da partição do poder de Locke será posteriormente ampliada pelo pensador francês, Montesquieu que, por sua vez, proporá uma tríplice partição do poder acrescentando aos dois primeiros, propostos por Locke, um terceiro, o poder Judiciário, embora este também ainda dê maior ênfase aos dois primeiros. Enquanto Montesquieu estabelece uma estreita relação entre a liberdade e a lei, e Hobbes confunde a liberdade com a segurança, entendendo este que somente existirá uma liberdade no Estado absoluto, uma vez entender ser a liberdade um fato coletivo e jamais individual e seu constante exercício individual um risco a cada um individualmente e ao todo coletivo e por essa razão a sacrifica em vista da segurança, Locke defende o princípio da liberdade individual e elege o direito à propriedade privada57 como uma de suas evidentes garantias. Para Locke, uma vez garantida a liberdade individual, garante-se, essencialmente, a liberdade em sociedade. E, certamente, grande garantia à liberdade individual é a garantia ao indivíduo do seu direito à propriedade privada. Vejamos o que disse: Locke justifica sua defesa da propriedade privada e a relação que ele estabelece entre ela e a liberdade, pelo fato da natureza ou Deus ter dado ao homem sua primeira propriedade da qual não pretende nem pode separar-se, qual seja, a propriedade sobre seu corpo, sobre sua vida. Contudo, Deus deu-lhe também a razão e capacidade para desempenhar diferentes funções, ou seja, o trabalho, e este é, portanto, uma propriedade sua, inerente à propriedade do seu corpo, podendo desempenhar esta segunda, mais ou menos, ou até mesmo não desempenhá-la, isso depende de cada indivíduo. Todavia, entende Locke, é natural que os indivíduos queiram aplicar-se ao trabalho e é também 57 . As ideias de Locke influenciaram o pensador iluminista francês Jean-Jacques Rousseau, no entanto, a concepção de propriedade foi certamente um dos principais pontos de divergência entre ambos, uma vez que Rousseau, como já afirmado na nota anterior, condenava a ideia de propriedade privada, associando-a à corrupção do ser humano e responsabilizou-a pelas desigualdades sociais defendendo o princípio da propriedade coletiva como forma de construção da igualdade material entre os humanos. natural que tudo o que o homem adquire pela força do seu trabalho e pelo uso da sua razão lhe pertença como sua propriedade (privada). A esse respeito, assim se pronuncia Locke: Embora a terra e todas as criaturas inferiores sejam comuns a todos os homens, cada homem tem uma propriedade em sua própria pessoa. A esta ninguém tem direito algum além dele mesmo. O trabalho de seu corpo e a obra de suas mãos, pode-se dizer, são propriamente dele. Qualquer coisa que ele então retire do estado com que a natureza a proveu e deixou, mistura-a ele com o seu trabalho e junta-lhe algo que é seu, transformando-a em sua propriedade. Sendo por ele retirada do Estado comum em que a natureza a deixou, a ela agregou, com esse trabalho, algo que a exclui do direito comum dos demais homens. Por ser esse trabalho propriedade inquestionável do trabalhador, homem nenhum além dele pode ter direito àquilo que a esse trabalho foi agregado, pelo menos enquanto houver bastante e de igual qualidade deixada em comum para os demais.58 Significa isso, então, que Locke justifica qualquer acúmulo de bens e qualquer tipo de posse ou posses? Naturalmente, não, uma vez que coloca como condição indispensável que toda propriedade deva ser justificada por dois fundamentos: o do usufruto ou da necessidade e o do trabalho. Assim, ninguém deve possuir nada que não tenha adquirido por seu próprio esforço, isto é, pelo seu trabalho, ou que lhe seja necessário usufruir. Assim justifica Locke: 58 LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 407 e 409. (...) A mesma lei da natureza que por este meio nos concede a propriedade, também limita essa propriedade. Deus deu-nos de tudo em abundância (1Tm 6, 7) é a voz da razão confirmada pela revelação. Mas até que ponto ele no-lo deu? Para usufruirmos. Tanto quanto qualquer pessoa possa fazer uso de qualquer vantagem da vida antes que se estrague, disso pode, por seu trabalho, fixar a propriedade. O que quer que esteja além disso excede sua parte e pertence aos outros (...)59 E sobre a questão da posse da terra que já está posta na natureza, como justificar a quantia de cada um? Locke assim responde: Mas, sendo agora a principal questão da propriedade não os frutos da terra e os animais que destes subsistem, e sim a própria terra, como aquilo que tem em si e carrega todo o resto, creio que está claro que, também neste caso, a propriedade é adquirida como no caso anterior. A extensão de terra que um homem pode arar, plantar, melhorar e cultivar e os produtos dela que é capaz de usar constituem sua propriedade. Mediante seu trabalho, ele, por assim dizer, delimita para si parte do bem comum.60 Sendo a liberdade, a vida e a propriedade (privada) direitos naturais, esta última derivada da capacidade natural humana de progredir, e sendo elas determinantes e 59. LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 412. 60. LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 413. condição essencial de vida de cada indivíduo e, no entanto, não havendo a ninguém, num estado pré-político, a garantia de que serão preservados, entende Locke, como já afirmado anteriormente, ser um benefício ao indivíduo instituir a sociedade civil e constituir um poder político com legitimidade para garanti-los. A instituição do Estado é absolutamente justificável, uma vez que poderá ele, como nenhum outro, garantir ao indivíduo o direito à propriedade e, consequentemente, garantir-lhe a liberdade e a vida em seu espaço de maior segurança e ser ele o estabilizador social a fim de promover a justiça e a igualdade. Entende Locke que a maior incumbência do Estado é dar proteção ao indivíduo, em sua vida, sua liberdade e sua propriedade. Somente assim é possível justificar a constituição do poder político. Segundo ele, “(...) Os homens não se disporiam a abdicar da liberdade do estado de natureza e a se submeter (à sociedade e ao governo), não fosse para preservarem suas vidas, liberdades e bens – e através de regras estabelecidas de direito e propriedade, assegurar sua paz e tranquilidade(..).”61 Como também já afirmamos aqui, o poder do Estado deve desempenhar duas funções: a executiva e a legislativa, formando-se portanto, no próprio Estado dois poderes, o executivo e o Legislativo, respectivamente. Dentre estes dois que esboçou proferiu absoluta primazia ao Legislativo, repetidas vezes por ele identificado como o poder supremo, uma vez ser este o responsável pela elaboração das leis e, sobretudo, por estar nele a verdadeira representação do povo. Assim afirmou Locke: Sendo o principal objetivo a entrada dos homens em sociedade eles desfrutarem de suas propriedades em paz e segurança, e estando o principal instrumento para tal nas leis estabelecidas naquela sociedade, a lei positiva primeira e fundamental de todas as sociedades políticas é o estabelecimento do poder legislativo – já que a lei natural primeira e fundamental, destinada a governar até mesmo o próprio legislativo, consiste na conservação da sociedade e (até onde seja compatível com o bem público) de qualquer um de seus integrantes. Esse legislativo não é apenas o poder supremo da sociedade política, como também é sagrado e 61 LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 508. inalterávelnas mãos em que a comunidade o tenha antes depositado; tampouco pode edito algum de quem quer que seja, seja de que forma concebido ou por que poder apoiado, ter força ou poder de lei se não for sancionado pelo legislativo escolhido e nomeado pelo público. Pois, não fosse assim, não teria a lei o que é absolutamente necessário à lei, o consentimento da sociedade, sobre a qual ninguém pode ter o poder de elaborar leis, salvo por seu próprio consentimento, e pela autoridade dela recebida (...)62 É o poder legislativo responsável por abrigar os representantes do povo, sendo ele próprio o povo. Sua natureza confunde-se com o cidadão. É ele que determina os rumos da sociedade, uma vez que estabelece as leis a serem observadas pelos cidadãos. Leis que partem dos cidadãos para os cidadãos. É ele também que determina as incumbências do poder executivo, ou seja, sua forma de proceder e quem deve ser o seu líder máximo. É do poder supremo do legislativo que se constitui o poder executivo. A teoria contratualista de Locke, certamente representou um salto democrático em sua época e certamente é ele o grande pilar das democracias modernas ocidentais. É certamente, uma das propostas mais viáveis em termos de prática política para as sociedades políticas da modernidade e contemporaneidade, uma vez que preserva o valor institucional e o vê na necessidade de estar intrinsecamente ligado aos objetivos da vida social. No entanto, seu ponto crítico é certamente sua veemente defesa da propriedade que parece não ter convencido absolutamente e possivelmente muito pouco muitos dos teóricos da política e do Estado de o sucederam, destaque-se Rousseau e mais ainda Karl Marx. Sua defesa da propriedade levou a outro absurdo do início da democracia representativa, atualmente absolutamente rechaçado, o da concessão de direito ao voto vinculado ao poder de propriedade do indivíduo. 62 LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 503. Certamente em muito a teoria lockiana contribuiu para o amadurecimento das ideias e das práticas democráticas, no entanto há nela muito a ser contestado, sobretudo, na atualidade. 2.7 MONTESQUIEU E A SEPARAÇÃO DOS PODERES Crítico implacável dos regimes absolutistas, Montesquieu empenhou-se decisivamente no desenvolvimento de ideias que permitissem interferir naqueles princípios fundamentais que estabeleciam um modelo de Estado não mais cabível, a seu ver, no novo momento histórico em que vivia e, principalmente, em suas convicções. Olhando a sua volta, percebia um mundo mudado, porém, observando o poder político, percebia-o engessado em formas que pareciam ter parado no tempo. Era necessário prevenir a população da concentração do poder num só ramo da autoridade pública63. A proposta da separação dos poderes, foi assumida praticamente como um princípio indispensável na sustentação do Estado constitucional, na atualidade repetidamente mencionado, particularmente nas democracias, com a denominação de Estado de Direito. Certamente a preocupação central dos escritos políticos de Montesquieu foi a liberdade, entendida por ele como a ação do indivíduo, segundo a lei. E liberdade que significa poder fazer aquilo que se deve querer. E este princípio ou valor deve ser assegurado em lei. Deste modo, cumprir a lei significa ser livre. Vejamos o que disse sobre isso Montesquieu: É verdade que nas democracias o povo parece fazer o que quer; mas a liberdade política não consiste nisso. Num Estado, isto é, numa sociedade em que há leis, a liberdade não pode consistir senão em poder fazer o que se deve querer e em não ser constrangido e fazer o que não se deve desejar. 63 . BONAVIDES, Paulo. Teoria do Estado. São Paulo: Editora Malheiros. 5ª. edição, 2004. p.38. Deve-se ter sempre em mente o que é independência e o que é liberdade. A liberdade é o direito de fazer tudo o que as leis permitem; se um cidadão pudesse fazer tudo o que elas proíbem, não teria mais liberdade, porque os outros também teriam tal poder.64 Entende Montesquieu que a melhor lei não é aquela que estabelece o que o indivíduo quer, mas aquela que estabelece aquilo que ele deve querer, uma vez que esta é a lei que atende essencialmente à liberdade, não necessariamente entendida como exclusivamente a sua liberdade (individual). Por isso afirma ser a liberdade poder fazer o que se deve querer e não simplesmente o que se quer. Para Montesquieu, nem sempre a lei é o que se pode ter em ideal, no entanto, sempre que há lei e esta é observada por todos, de todas as esferas hierárquicas a ela submetidos, o que na verdade é a sua essência, terá cada indivíduo a clareza sobre como ocorrerá a vida em sociedade e, por consequência, é possível saber qual rumo deve tomar sua vida e de cada um em particular enquanto convive socialmente. Portanto, mesmo que de alguma forma a lei não satisfaça, saberá o que se pode e o que não se pode fazer. Além disso, sempre haverá, em qualquer sociedade, segundo seu entendimento, leis boas. Entende que o indivíduo ao cumprir a lei, se for ela democrática estará ele obedecendo a si mesmo uma vez que foi parte do processo de sua elaboração. Por ser crítico do absolutismo e defensor da democracia, não via fundamento em leis imposta de forma absolutamente arbitrária a alguém ou a um povo. No entanto, admitiu que leis boas podem existir em qualquer regime ou sociedade. Assim, ao defender que a lei é a liberdade e que, portanto, ela não pode ser constituída senão por meio da participação direta ou por representação daqueles que a ela se submetem, confronta-se evidentemente com qualquer proposta absolutista, seja a do absolutismo hobbesiano, na qual o povo não participa diretamente e nem por representação, mas apenas seu poder de decisão, sua vontade e liberdade ao soberano e, 64 . MONTESQUIEU, Charles-Louis de Secondat. O espírito das leis. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 200. mais ainda, com a do absolutismo maquiaveliano, na qual o poder repousa sobre o soberano por força de uma autoridade que a ele é atribuída não por semelhança com seus pares humanos e por delegação, mas por um atributo que nele se sustenta por uma crença em sua virtude lhe dada e advinda de uma sustentação divina. Em Montesquieu a soberania pertence à lei e o soberano a ela se submete, uma compreensão exatamente adversa a das propostas absolutistas. Uma vez sendo a lei a essência da liberdade política e não podendo de forma alguma ser ditada por alguma autoridade absoluta (“divina”), torna-se, pois necessário compreender como no entendimento de Montesquieu, deve-se proceder em relação a essa essência do poder político e da vida social, que é a lei, qual é o processo de sua elaboração, quem são os atores desse processo, e, por fim, qual estrutura se coloca nesse processo. Para ele não há como compreender que uma lei estabeleça a liberdade no sentido de garantir ao indivíduo fazer o que ele deve querer, se ele próprio não tem a opção de, de alguma forma, poder participar dessa formulação e assim, melhor conseguir discernir o que deve querer fazer e o que não deve querer fazer. Assim formulou Montesquieu: “A liberdade política, num cidadão, é esta tranquilidade de espírito que provém da opinião que cada um possui de sua segurança; e, para que se tenha esta liberdade, cumpre que o governo seja de tal modo que um cidadão não possa temer outro cidadão.”65 Para o Barão de La Brède e de Montesquieu é iminente a necessidade de haver uma tripartição do próprio poder estatal. Este procedimento é a forma de impedir a concentração de poder e de fazer com que a elaboração das leis sigam a lógica de um legislador, a execução seja de responsabilidade própria de alguém destinado a tal fim e sejam devidamente executadas e que os julgamentos a respeito de seu cumprimentoou infração não atendam somente a lógica de um decisor absoluto. Deste modo, preserva-se a liberdade e evita-se que se cometam atos de tirania, arbitrariedade e opressão. Entende Montesquieu que: 65. MONTESQUIEU, Charles-Louis de Secondat. O espírito das leis. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 201 e 202. Quando na mesma pessoa ou no mesmo corpo de magistratura o poder legislativo está reunido ao poder executivo, não existe liberdade, pois pode-se temer que o mesmo monarca ou o mesmo senado apenas estabeleçam leis tirânicas para executá-las tiranicamente. Não haverá liberdade também se o poder de julgar não estiver separado do poder legislativo e do executivo. Se estivesse ligado ao poder legislativo, o poder sobre a vida e a liberdade dos cidadãos seria arbitrário, pois o juiz seria legislador. Se estivesse ligado ao poder executivo, o juiz poderia ter a força de um opressor. Tudo estaria perdido se o mesmo homem ou o mesmo corpo dos principais, ou dos nobres, ou do povo, exercesse esses três poderes: o de fazer leis, o de executar as resoluções públicas e o de julgar os crimes e as divergências dos indivíduos.66 Afirma o Barão que uma das primeiras ações de um governante quando pretende tornar-se despótico é reunir em torno de si todos os grandes cargos do Estado, ou seja, reúne apodera-se de todos os meios, órgãos e instrumentos de poder e indiscutivelmente o Legislativo, o Executivo e o Judiciário são os alvos imediatos. Esse processo não terá outro fim a não ser a tirania, a arbitrariedade ou a opressão e, mais provavelmente, os três juntos. Dos três poderes estabelecidos por Montesquieu, é no legislativo em que vê com mais nitidez a possibilidade de participação indireta do povo. Não vê conveniência na democracia direta com a participação do povo (participação coletiva), particularmente nos grandes Estado, com inconvenientes nos pequenos, por entender que um 66. MONTESQUIEU, Charles-Louis de Secondat. O espírito das leis. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 202. representante em cada comunidade tem muito mais capacidade de discutir sobre os negócios públicos que o povo em si. Além disso, uma democracia direta prolongaria o processo e o especificaria demasiadamente, o que em ocasiões de urgência poderia conduzir a uma certa paralisia, muito embora certas atuações diretas pudessem melhor expressar a vontade do povo. Assim expressou, Montesquieu: Já que, num Estado livre, todo homem que supões ter uma alma livre deve governar a si próprio, é necessário que o povo, no seu conjunto, possua o poder legislativo. Mas como isso é impossível nos grandes Estados, e sendo sujeito a muitos inconvenientes em muitos pequenos, é preciso que o povo, através de seus representantes, faça tudo o que não pode fazer por si mesmo. Conhecemos muito melhor as necessidades das nossas cidades do que as das outras e julgamos melhor da capacidade dos nossos vizinhos do que da capacidade dos nossos outros compatriotas. Não é necessário, portanto, que os membros do corpo legislativo sejam escolhidos geralmente do corpo da nação; mas convém que, em cada localidade principal, os habitantes elejam entre si um representante. A grande vantagem dos representantes é que são capazes de discutir os negócios públicos. O povo não é, de modo algum, capaz disso, fato que constitui um dos graves inconvenientes da democracia. Não é necessário que os representantes, que receberam dos que os elegeram uma instrução geral, recebam outra particular para cada questão, tal como se procede nas dietas da Alemanha. É verdade que deste modo a palavra dos deputados expressaria melhor a voz do povo; mas isso ocasionaria infinitas delongas, tornaria cada deputado senhor dos demais e, nas ocasiões mais urgentes, um capricho paralisaria toda a força da nação.67 Ainda em relação ao legislativo, não seria formado do conjunto do povo, incluindo ali, no mesmo conjunto representantes dos homens comuns, isto é, os representantes do povo e aqueles que viessem de outras categorias ou classes hierárquicas, como a nobreza, por exemplo. Propôs atuação segregada no que se refere à nobreza e ao povo. Entendia que os procedimentos deveriam ser realizados cada qual em seus limites e condições em assembleias e deliberações com objetivos e interesses à parte. Vejamos o que afirmou: “Deste modo o poder legislativo será confiado tanto à nobreza quanto ao corpo escolhido para representar o povo, cada qual com suas assembleias e deliberações à parte e objetivos e interesses separados.”68 No tocante ao chefe do executivo sua proposta política é ainda muito conservadora, uma vez que não entendia ser o povo quem deveria escolher o governante e, sim que ele deveria ser escolhido entre os nobres pelos nobres. portanto, defendia um regime de governo monárquico. Sobre isso, assim afirmou: O corpo representante também não deve ser escolhido para tomar uma resolução ativa, coisa que não executaria bem, mas, sim, para fazer leis ou para ver se as que fez são bem executadas, coisa que pode realizar muito bem, e ninguém pode fazer melhor do que ele. Num Estado há sempre pessoas dignificadas pelo nascimento, pelas riquezas ou pelas honrarias; mas, se se confundissem com o povo e só tivessem, como os outros, um voto, a liberdade comum seria sua escravidão e não teriam interesse em defendê-la, porque a maioria das resoluções seria contra elas. A participação que tomam na legislação deve ser, portanto, proporcional às outras vantagens que tem no Estado, que acontecerá se formarem um 67. MONTESQUIEU, Charles-Louis de Secondat. O espírito das leis. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 204. 68 . MONTESQUIEU, Charles-Louis de Secondat. O espírito das leis. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p.205. corpo que tenha o direito de sustar as iniciativas do povo, tal como o povo tem o direito de sustar a deles.69 Sobre os Tribunais de Justiça, entendia que cada acusado fosse julgado por alguém da sua condição. Assim afirmou: “É mister inclusive que os juízes sejam da condição do acusado ou seus pares, para que ele não possa persuadir-se de que caiu em mãos de pessoas inclinadas a lhe praticarem violência.”70 Ao propor que cada acusado fosse julgado por pessoas segundo a condição dos acusados, estabeleceu que, na sua compreensão, nenhum nobre pudesse ser julgado por algum homem comum, como evidentemente também, os cidadãos comuns julgariam os seus. Proposta esta que evidencia uma segregação em um processo político que pudesse supor alguma soberania popular. Montesquieu, na verdade, não atribuía grande importância ao poder de julgar. Entendia inclusive haver a necessidade de um poder regulador entre o Legislativo e o Executivo e atribuía particularmente essa incumbência também à nobreza. Afirmava que, Dos três poderes dos quais falamos, o de julgar é, de algum modo, nulo. Restam apenas dois e, como esses poderes tem necessidade de um poder regulador para moderá-los, a parte do corpo legislativo que é composta de nobres é bastante capaz de produzir este efeito. O corpo dos nobres deve ser hereditário. Ele o é primeiramente por sua natureza e, além disso, cumpre que tenha interesse muito forte para conservar, suas prerrogativas, odiosas por si mesmas, e que, num Estado livre devem estar sempre ameaçadas.71 69. MONTESQUIEU, Charles-Louis de Secondat. O espírito das leis. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 205. 70 MONTESQUIEU, Charles-Louis de Secondat. O espírito das leis. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 203. 71 . MONTESQUIEU, Charles-Louis de Secondat. O espírito das leis. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p.205. A proposta de da tripartição dos poderes de Montesquieu certamente representou, se tivermos comoreferência a evolução da cidadania72, um avanço, em um tempo em que os “Chefes de Estados” viam-se intocáveis e num período em que as vozes democráticas ainda estavam com seus ecos iniciais. No entanto, Montesquieu não pode jamais ser considerado um revolucionário e nem sequer um progressista, no sentido de ver a necessidade da soberania do povo, sob qualquer aspecto. Percebe-se que com Montesquieu, evidentemente, o caminho da imparcialidade e da impessoalidade do poder do Estado e alguns avanços da cidadania, são com toda evidência defendidos, no entanto, suas convicções mais libertaram os nobres das tiranias absolutistas do que o cidadão em si, ou o povo, embora este não possa reclamar da ausência de algum tipo de avanço. A segregação entre os nobres e os homens do povo eram ainda nítidas e, mais que isso, permeavam a tese da tripartição do poder de Montesquieu. 72 . Entendida como um Estado que se aproxima(ou até se confunde) do cidadão e um cidadão que se aproxima(ou se identifica com) do Estado. CAPÍTULO 3. A ANÁLISE DE ROUSSEAU: FUNDAMENTAÇÃO FILOSÓFICA, MORAL E POLÍTICA DO ESTADO 3.1 ROUSSEAU: OBRAS E PENSAMENTO Na leitura do Contrato Social, de Jean-Jacques Rousseau, a ideia de vontade geral merece especial atenção, se pretendermos buscar uma melhor compreensão sobre conceitos como liberdade, ética, política e Estado e saber qual é a intenção de Rousseau ao propor o contrato social, enquanto instrumento destinado a garantir que as relações políticas e sociais sejam livres. Sempre que se faz algum estudo centrado na obra Do Contrato Social do referido autor, o tema da liberdade vem, pois, à tona como inspirador de um debate especial, seja a partir da ótica pura e simples das relações humanas, seja, com a preocupação de se entender as relações dos cidadãos com as instituições políticas. Portanto, parece impossível elaborar uma reflexão com rigor filosófico sobre as obras de Rousseau relacionadas a temas como educação, sociedade, Estado e política, sem que seja dada especial relevância à questão da liberdade humana. Nesta unidade, nossa preocupação central não se volta para ideias como liberdade, Estado e política em si, mas, especificamente em investigar o princípio (ético) que conduz a compreensão de Rousseau sobre estes temas, que neste caso já está posto como sendo a vontade geral, e em mostrar porque este princípio é, segundo Rousseau, o único ponto possível para o estabelecimento e o constante exercício da liberdade política, e quais as controvérsias que existem em torno desta ideia deste pensador genebrino. Rousseau concebe o homem bom por natureza e culpa a sociedade pela sua corrupção. Esta concepção de Rousseau, que será mais detalhadamente apresentada na primeira parte desta unidade, parece ser o ponto de partida para a compreensão de toda a sua teoria política, que procura justificar a necessidade da construção de uma nova sociedade, com um novo Estado, cujas relações políticas sejam de fato novas e transformadas em sua essência e fundamentada no princípio da vontade geral. Para melhor compreendermos como Rousseau concebe a essência humana como naturalmente boa, nos apoiamos, pois, no primeiro momento desta unidade, numa obra que seguramente nos fornecerá as reflexões previamente elaboradas por Jean- Jacques73 e que nos encaminharão para a compreensão do porque da ideia de vontade geral como essência da sua proposta política, que é a questão central desta unidade, tratada aqui na segunda parte. (deste trabalho). Por isso, pensamos ser necessário fazer, num primeiro momento uma análise do seu segundo discurso, intitulado Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. Importante, no entanto, é entendermos porque aquele que defende o homem bom como sendo aquele que vivia antes da civilização, no estado natural, desfrutando da sua natureza e da natureza circundante e ali sendo bom por natureza, vem a defender com tanto vigor a primazia da sociedade sobre o indivíduo. Como compreender esse paradoxo? Se a sociedade corrompe e é causa do mal, por que não propor o retorno do homem à sua individualidade e à natureza, e não o contrário? Jean-Jacques está convencido de que retornar ao estado primitivo constitui-se uma impossibilidade, pelo menos nos moldes da vida primitiva, no entanto, igualmente está convencido de que uma nova sociedade é possível e que o caminho a ser percorrido visando a sua construção é o caminho da política. Somente por ela o homem é capaz de restabelecer-se com sua essência, que em germe ainda está lá, na essência da sua natureza, embora ofuscada, oculta e reprimida. Logo a frente, estaremos discutindo sobre esta ideia que é, conforme já dissemos, o cerne da proposta política de Rousseau, uma vez que a ideia de vontade geral, aparece como decisiva e como divisor de águas em sua época, na teoria política deste autor. É a partir da comparação que o autor do Do Contrato Social faz entre a ideia de vontade geral e a ideia de vontade de todos que nos será possível mergulhar na essência do entendimento da sua proposta e compreender como este pensador concebe uma nova e radical democracia, uma nova atitude política e, enfim, uma nova sociedade e quais são os novos valores por ele propostos, e assim encaminharmos nossas reflexões que certamente revigorarão em nós a tensão entre o ideal e o possível em se tratando de proposta política e de concepção de Estado. Duas atitudes bem distintas têm sido comuns em relação à ideia de vontade geral de Rousseau: de um lado a atitude de contestação, no sentido de uma quase negação 73 .No decorrer deste texto estaremos alternando o uso do nome de JEAN-JACQUES ROUSSEAU, ora nos referindo a ele apenas pelo nome de “Jean-Jacques”, ora como “o genebrino”, ora como “autor do Do Contrato Social “, ora como “o contratualista”ou, simplesmente de “Rousseau” entre outros, eventualmente. Faremos isto como recurso redacional, com o objetivo de tornar o texto mais fluente e com menor redundância de termos (ou nomes). da sua possibilidade e viabilidade. Esta atitude é manifesta por aqueles que consideram o autor do Do Contrato Social defensor de uma teoria abstrata e excessivamente romântica e utópica. Do outro lado estão os admiradores, ou seja, aqueles que veem na ideia de vontade geral, a mais pura concepção de um ideal político, que reconhecem nela o seu teor utópico, que, no entanto, nem por isso deixam de reconhecê-la como uma proposta para a construção de uma nova sociedade, sendo secundária a discussão de ser ela plenamente ou parcialmente possível. Ressalvamos, no entanto, que o principal objetivo desta unidade, não é o de tensionar e nem de resolver esta questão. Em relação a isso, há ainda incluído nesta parte da obra uma outra via de interpretação, apoiada sobretudo nas reflexões de Hannah Arendt, que apresenta um Rousseau totalitário, Para considerarmos a teoria de Rousseau em sua plenitude, há ainda um terceiro momento que não será aqui abordado. Trata-se de um Rousseau desafiado e dasafiante, uma espécie de laboratório da sua teoria. São obras destinadas a realidades vividas, concretas e não tão somente concebidas e teóricas, onde encontramos novos elementos para aperfeiçoarmos nosso entendimento a respeito dessa tensão que Rousseau é capaz de estabelecer entre o seu ideal e a realidade concreta possível. Nos referimos às obras: Projeto de Constituição para a Córsega e Considerações Sobre o Governo da Polônia e Sua Reforma Projetada. A partir da leitura da sua obra Projeto de Constituição para a Córsega, por alguns momentos nos vem a sensação de que em Rousseau há um idealismo realmente possível. O próprio Rousseau, estará nos falando, que em relação à Córsega, a cujo povo dirigiu alguns conselhos, muito do seu ideal concebido no Contrato Social ainda pode ali se concretizar.Essa sensação volta a entrar em crise quando em uma rápida análise da obra Considerações Sobre o Governo da Polônia e Sua Reforma Projetada, Rousseau reconhece como na Polônia a realização do seu ideal provavelmente encontraria ainda mais sérios obstáculos, na tentativa da sua efetivação. Ali pode-se perceber como Rousseau responde a uma oportunidade que lhe é oferecida, para redigir uma proposta com vistas a realidades concretas, contemporâneas à sua época e localizadas (Córsega e Polônia), oportunizando-lhe a aplicação da sua teoria ou de confrontar o que prega sua teoria e o que de fato é possível na prática. É o momento em que se reflete sobre a polêmica a respeito de ser sua teoria apenas um ideal, ou se, além de um ideal, é também uma possibilidade concreta ou, se há necessidade de buscarmos um meio termo entre o ideal e o real, ou, testar e saber até que ponto o ideal é viável totalmente ou apenas parcialmente e, se for o caso, como e em que momento e lugar isso será possível ou não, ou ainda sabermos, se definitivamente ficam comprovados os equívocos de Rousseau, fornecendo assim subsídios a seus críticos que o consideravam tão somente um ludibriado pela sua própria utopia da igualdade e justiça radical, construída sobre, segundo eles, a metafísica ideia de vontade geral, e um desorientado pensador perdido em suas incoerências e contradições. Ou ainda poderemos aproveitar a oportunidade para, a partir de tudo isso, divagarmos em qualquer outra direção. Excluído o terceiro momento a respeito das considerações sobre a Polônia e a Córsega, considerando, pois, somente os dois primeiros momentos de Rousseau, é a trajetória de análise que teremos em mente ao longo desta parte da obra, no sentido de fazermos, mesmo que de forma breve, porém, não carecendo de rigor analítico, alguns esclarecimentos a respeito do tema político central da sua teoria política que é a democracia concebida a partir da soberania da vontade geral, ou seja, a ideia de uma fundamentação moral da liberdade política. Ressaltamos ainda que adotamos um método de leitura que aqui denominamos de “cronológico-evolutiva”, orientando nossa reflexão e análise para seguir uma sequência no tempo em que foram concebidas as obras e as ideias do autor em questão, e de certa forma também a evolução das mesmas, mesmo que para isso tenhamos que, muito mais apresentar nossa interpretação e a de comentadores, no que diz respeito ao real, ao ideal e ao possível, uma vez que em nenhuma das três obras centrais as quais aqui fizemos referência, Rousseau tenha registrado uma revisão de sua concepção em relação ao que propõe o seu plano ideal e ao que percebe como possível. Quando muito, apenas é possível perceber suas dificuldades em fazer essa transposição quando é convidado para aconselhar os corsos e especialmente quando é convidado a propor uma legislação à Polônia. Percebe-se sim, ao longo de suas obras, o que poderíamos chamar de uma evolução em suas concepções, embora outros entendam isso como fortes contradições ou incoerências. Diante disso, é indispensável que se registre que o pensamento de Rousseau não segue um estilo “cálculo”, em que os textos são concebidos dentro de uma lógica padronizada ou formalizada, ou seja, uma lógica cartesiana. Na leitura das obras de Rousseau é necessário que tenhamos o cuidado de dar à reflexão a liberdade, no sentido de lermos Rousseau como um autor cujo texto está sempre em construção e para o qual a contradição é um valor e, por que não dizer, um mérito da razão em sua capacidade de produzir e de avaliar e reavaliar o que foi produzido. Por fim, ressaltemos que nossa análise foi construída essencialmente a partir de leituras de obras do próprio autor, traduzidas para a Língua Portuguesa, a citar, especialmente, o Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, Do Contrato Social, Considerações Sobre o Governo da Polônia e sua Reforma Projetada, Projeto de Constituição para a Córsega e O Emílio, ou, Da Educação. Para reforçarmos nossa reflexão recorremos a alguns importantes comentadores brasileiros e estrangeiros já traduzidos para o nosso idioma. 3.2 ROUSSEAU: SEU ESTILO E SUA ANÁLISE SOBRE O PROCESSO DE FORMAÇÃO DA SOCIEDADE Dentre os filósofos contratualistas, Rousseau é indiscutivelmente uma singularidade no que se refere às inúmeras possibilidades que o seu pensamento engendra, devido à não-linearidade no modo de expor suas ideias, possibilitando múltiplas interpretações, devido ao ponto do qual parte para construir seu sistema de ideias políticas, que revolucionaram a tradição moderna e liberal, então vigente, embora não necessariamente rompessem com a mesma. Allan Bloom, sobre isso afirma que, Tudo isso e muito mais fornece o terreno comum da modernidade sobre o qual Rousseau caminha de braço dado com seus predecessores e contemporâneos liberais. Não rejeita os novos princípios, mas os radicaliza ao refletir sobre eles com base na mais ampla das perspectivas74. 74 BLOOM, Allan. Gigantes e anões: ensaios. São Paulo: Nova Cultural, 1990. p. 168. No entanto, seu modo não-linear de argumentar e sua forma não-padronizada de pensar e as supostas contradições presentes, as idas e voltas do seu pensamento, não permitem tão facilmente criar bons argumentos para classificar sua teoria como incoerente e desconexa. Conforme afirma Marilena Chauí, no prefácio de obra de Salinas Fortes, Não há, pois, incoerência no escritor político Rousseau, ao contrário, há uma extrema atenção à utilidade, ao interesse e à eficácia da ação do seu ouvinte particular, levando-o a retomar de maneira sempre diferenciada os universais postos no plano da pureza abstrata exigida pela teoria, enquanto política transcendental 75. Se por um lado o seu pensamento esboça uma proposta idealista de sociedade que se deva pretender construir76 como alternativa ao “agregado social” da “simples justaposição de egoísmos,” até então constatada pelos sentidos e rejeitada pelo filtro da razão desse genebrino, em contrapartida, é muito realista e objetivo enquanto registra e analisa esta mesma sociedade77 e pragmático, enquanto propõe o que é possível78 se atingir ou construir a partir dela. 75 CHAUÍ, Marilena. Apud FORTES, Luís Roberto Salinas. Rousseau: da teoria à prática. São Paulo: Ática, 1976(Ensaios 21). p. 16. 76 Ideia predominante na obra Do Contrato Social de Jean-Jacques Rousseau. 190 Trata-se da sua análise realista sobre a sociedade feita na obra Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade Entre os Homens. 78 Refere-se ao desafio de Rousseau ao ser convidado para emitir orientações para a formulação da Constituição da Polônia e a Ilha da Córsega. Não é pelo simples estatuto jurídico que se regulam as relações entre os seus membros, que uma república se distingue de simples agregado. O que distingue estas duas formas de ordenação social é a natureza do laço pelo qual se prendem uns aos outros os seus membros. Numa pátria, os associados possuem todos uma só vontade e um só interesse, ao passo que na outra forma de associação a união que se verifica não vai além da simples justaposição dos egoísmos individuais79. Enquanto o pensamento vigente, em sua época, concorria para a glorificação das novas descobertas da ciência e da arte, consequências da ainda capacidade da razão humana, que, consequentemente, junto com o avanço nas relações comerciais, gerou o progresso da humanidade, Rousseau analisa cautelosa e criticamente essa empolgação, questionando o significado do progresso e da evolução. Assim escreve no segundo discurso (DD)80: Os homens são maus – uma experiência triste e contínua dispensa provas; no entanto, o homem é naturalmente bom – creio tê-lo demonstrado; o que,pois, poderá tê-lo depravado a esse ponto senão as mudanças sobrevindas em sua constituição, os progressos que fez e os conhecimentos que adquiriu? Por mais que se admire a sociedade humana, não será menos verdadeiro que ela necessariamente leva os homens a se odiarem entre si, à medida que seus interesses se cruzam, a aparentemente se prestarem serviços e a realmente se causarem todos os males 79 FORTES, Luís Roberto Salinas. Rousseau: da teoria à prática. São Paulo: Ática, 1976 (Ensaios 21). p. 90. 80 Sigla utilizada por este autor para abreviar o título do segundo discurso de Rousseau, qual seja, Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homes. imagináveis. Que se poderá pensar de um comércio no qual a razão de cada particular lhe dita máximas diferentemente contrárias às que a razão pura prega ao corpo da sociedade e onde cada um encontra seu lucro na felicidade de outrem?81. Aponta como necessário se estabelecer, para o entendimento da sociedade, da forma como foi constituída, como ponto de partida, o referencial que considerasse a possibilidade de se compreender a situação humana em estágio primitivo e pré-social e comparar esse momento com o momento posterior, qual seja, o do homem social, considerando ainda a necessidade de compreensão das questões relacionadas ao progresso da razão, das técnicas, da linguagem e das relações de trocas. Segundo Allan Bloom: “A tarefa de Rousseau, portanto, não é devolver ao homem a sua condição original, mas legitimar os resultados da força e da fraude, persuadir os homens de que há uma ordem social possível tão benéfica quanto justa”82. Rousseau inova quanto ao método, enquanto despreza a necessidade de se construir filosoficamente um entendimento da realidade a partir de uma base histórica ou de uma base jusnaturalista que confundia o processo civilizatório como sendo natural, ou ainda, que levasse em conta a base lógico-racional mecanicista de Hobbes. Segundo Starobinski “Os fatos históricos não justificam nada, a história não tem legitimidade moral, e Rousseau não hesita em condenar, em nome dos valores eternos, o mecanismo histórico do qual mostrou a necessidade, e que estendeu às próprias funções morais”83. Outra característica marcante do pensamento do genebrino, segundo Starobinski é que “à diferença do esforço filosófico do século XIX, e em contraste com as pretensões positivistas de alguns dos seus contemporâneos, Rousseau procura fundar um julgamento moral referente à história, de preferência a estabelecer um saber antropológico”84. 81 ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 127). 82 . BLOOM, Allan. Gigantes e anões: ensaios. São Paulo: Nova Cultural, 1990. p. 168 83. STAROBINSKI, Jean. A transparência e o obstáculo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 36. 84 . STAROBINSKI, Jean. A transparência e o obstáculo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 36. Jean-Jacques secundarizava também as informações bíblicas e as crônicas, bem como qualquer necessidade de verificação positiva dos fatos que afirmava, esboçando suas análises, tendo por base um método hipotético-dedutivo. Confirmemos, pois, isso através do que escreveu o próprio autor do segundo discurso: Comecemos, pois, por afastar todos os fatos, pois eles não se prendem à questão. Não se devem considerar as pesquisas, em que se pode entrar nesse assunto, como verdades históricas, mas somente como raciocínios hipotéticos e condicionais, mais apropriados a esclarecer a natureza das coisas que mostrar a verdadeira origem e semelhantes àquelas que, todos os dias, fazem nossos físicos sobre a formação do mundo. A religião nos ordena a crer que, tendo o próprio Deus tirado os homens do estado de natureza logo depois da criação, são eles desiguais porque assim o desejou; ela não nos proíbe, no entanto, de formar conjeturas extraídas unicamente da natureza do homem e dos seres que o circundam, acerca do que se teria transformado o gênero humano se fora abandonado a si mesmo85. Em relação ao seu pensamento, caracterizado por idéias românticas e idealistas e, por vezes radicais, em sua essência, Rousseau inova, sobretudo, enquanto apresenta um conteúdo qualificado quanto aos fundamentos, o ponto de onde faz partir sua análise, elaborando raciocínios hipotéticos, que consideram o problema desde o grau zero e caracterizadas as idéias por uma abordagem muito especial e radical em relação às reflexões que até então vinham sendo apresentadas, opondo-se à tendência do pensamento vigente, criticando, entre outras, a base da qual os filósofos de até então faziam brotar suas reflexões, apontando-a como erro primário. Nas palavras do próprio Rousseau, 85. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 53. “...todos, falando incessantemente de necessidade, avidez, opressão, desejo e orgulho, transportaram para o estado de natureza ideias que tinham adquirido em sociedade; falavam do homem selvagem e descreviam o homem civil”86. Outra marca sua foi a de contestar a sociedade enquanto tal, se considerada a maneira como ela foi e se encontrava estruturada, culpando-a pela corrupção do homem, ao mesmo tempo em que acredita numa sociedade justa que o homem será capaz de construir. Sustenta, além disso, que é pela sociedade que o homem se corrompe, e que somente na sociedade poderá aspirar à justiça. Ao contrário, pois, do que muitos possam argumentar, de que Rousseau seja um constante crítico da sociedade, das instituições e da política, vendo-as com pessimismo e nostalgia, marca suas reflexões políticas com paixão e fé numa nova sociedade, atribuindo à política a possibilidade de (r) estabelecer as boas relações civis e resgatar a justiça, dom divino ao qual o homem se fechou, conferindo-lhe valor de religião, conforme ele próprio enuncia no Do Contrato Social: “Toda justiça vem de Deus, que é a sua única fonte; se soubéssemos, porém, recebê-la de tão alto, não teríamos necessidade nem de governo, nem de leis “87 No capítulo VIII do livro quarto, defende, inclusive, a idéia da necessidade de se instituir uma religião civil, entendendo que a política deve ser assumida como uma fé que se professa. “Se alguém, depois de ter reconhecido esses dogmas, conduzir-se como se não cresce neles, deve ser punido com a morte, pois cometeu o maior de todos os crimes – mentiu às leis “88 Assim, supõe ser a política o melhor caminho para a salvação do homem, enquanto via nela a única forma de libertação do homem e a possibilidade de conquista da sociedade dos sonhos. Quando, a partir da análise do Discurso sobre a desigualdade, se poderia pensar que tudo estivesse consumado e seria hora de “depor as armas” e entregar-se ao conformismo de se aceitar o que se tem, buscando tão somente evitar seu agravamento e, quando muito, talvez crer na possibilidade de algumas “melhoras” ou “consertos”, aqui e 86 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 52). 87. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 241. 88. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 2000. p. 241. ali, Rousseau elabora uma obra de cunho político89, marcada pela proposta de esperança no ser humano enquanto tal, apresentando uma proposta com o intuito de redimir o homem a partir da própria sociedade, que inicialmente é tratada como fonte do mal humano. A lucidez, ao contrário do que muitos possam afirmar, não parece lhe faltar; pelo contrário, somenteela lhe poderia conferir a capacidade de, numa reflexão equilibrada, iluminar-lhe a mente para uma visão transparente e uma análise crítica a respeito da realidade, ao mesmo tempo em que o torna capaz de “alçar vôos” e ousar propor um ideal de projeto para as sociedades humanas (Do Contrato Social) e de novo retornar ao plano da realidade possível, demonstrando capacidade de recuo, quando a realidade o tornar necessário (Considerações sobre o Governo da Polônia e Projeto de Constituição para a Córsega). Segundo Rousseau, até então os filósofos construíram suas análises procurando essencialmente compreender e explicar o homem, tendo preferencialmente presente sua condição de ser já civilizado90 dentro de uma sociedade, de certa forma já evoluída. A partir dela a explicavam, entendendo que do jeito que as coisas aconteciam, poderiam ser justificadas, considerando a essência da natureza humana de qualidade corruptível (marcadamente má)91 por definição. Tal como tudo se encontra estruturado, justifica as desigualdades introduzidas pela propriedade92 como pertencente ao curso natural e meritório do agir humano ao longo dos tempos, entre tantas outras teorias até então expostas, sem a preocupação com essa análise radical, no sentido de construir o argumento a partir da raiz do problema. Rousseau, como já mencionado anteriormente, vai à raiz do problema, buscando o verdadeiro fundamento para esses conceitos, argumentando que a compreensão da realidade deve partir de uma análise que tem como ponto de partida o período pré- embrionário, embrionário e de gestação e geração da sociedade com a qual nos deparamos. 89. Trata-se do Contrato Social. 90. Ver, adiante, citação referente à nota de rodapé “20” e “22”, que apresenta um trecho do segundo Discurso de Rousseau. 91. É o caso de Hobbes, que conceitua o homem como sendo mau por natureza. 92. Trata-se de John Locke, que entende ser a propriedade justificável, dentre outras, por razões de mérito. Feito isso, somente é possível concluir o quanto e porque é injusta a sociedade que temos diante dos nossos olhos e o quanto às instituições não correspondem ao que devem ser: Os filósofos que examinaram os fundamentos da sociedade sentiram todos a necessidade de voltar até o estado de natureza, mas nenhum deles chegou até lá. Uns não hesitaram em supor, no homem, nesse estado, a noção do justo e do injusto, sem se preocuparem com mostrar que ele deveria ter essa noção, nem que ela lhe fosse útil. Outros falaram do direito natural que cada um tem de conservar o que lhe pertence, sem explicar o que entendiam por pertencer. Outros, dando inicialmente ao mais forte a autoridade sobre o mais fraco, logo fizeram nascer o governo, sem se lembrarem do tempo que deveria decorrer antes que pudesse existir entre os homens o sentido das palavras autoridade e governo93. Com esse trecho do início do Discurso sobre a Desigualdade, Rousseau também apresenta sua crítica e preocupação em relação aos métodos até então empregados para a análise da realidade, afirmando terem todos partido de um princípio não sustentável, alegando, portanto, que todas as teorias já pecavam por partirem de uma base estabelecida artificialmente. Um Rousseau melancólico e pessimista também é visível, ao se considerar que ele não vê qualquer perspectiva para a solução do homem a partir da sociedade com a qual se depara. De fato, a vê como uma impossibilidade de construção do novo homem para a nova sociedade. Sob essa perspectiva, não há erro algum em se afirmar que Rousseau é pessimista em relação à civilização e à possibilidade de evolução e progresso dos povos. 93. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 52. O otimismo somente aflora com sua proposta que supõe a possibilidade da eliminação do modelo de sociedade existente, para que então seja construída uma nova sociedade, sustentada pelas instituições construídas a partir do soberano valor estabelecido pela vontade geral. A contradição óbvia da negação e da defesa da sociedade faz parte do seu modo de pensar a política. Nisso não há qualquer incoerência, apenas um estilo que pode até funcionar didaticamente bem, enquanto esboça seu pensamento, fazendo uso do método da negação, ou seja, da crítica sobre o que se tem, para que assim fique de fato claro qual é, e o porquê da sua proposta. É uma proposta que primeiro nega e supõe a destruição94 para, em seguida, construir o novo. Deste modo, não restam dúvidas de que a radicalidade de Rousseau está tanto em negar quanto em propor. Segundo Hobbes, para o mal humano não há solução e é condição dada pela natureza. Este é, certamente, o ponto de maior discordância entre o autor do segundo Discurso e o contratualista inglês que o precedeu. Sobre o entendimento de Hobbes a respeito da natureza humana, vejamos o que disse o suíço de genebra: Não iremos, sobretudo, concluir com Hobbes que, por não ter nenhuma ideia da bondade, seja o homem naturalmente mau; que seja corrupto porque não conhece a virtude; que nem sempre recusa a seus semelhantes serviços que não crê dever-lhes; nem que, devido ao direito que se atribui com razão relativamente às coisas de que necessita, loucamente imagine ser o proprietário do universo inteiro95. 94. Talvez, se analisado em seu contexto geral, no conjunto da sua obra, principalmente as Considerações Sobre o Governo da Polônia, seja mais correto empregar no lugar do termo destruição, termos mais amenos como desconstrução ou até “reforma da sociedade”. 95 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 75-76. Rousseau, pelo contrário, concebe o homem naturalmente livre da condição de ser o pecado original um atributo natural inerente à sua natureza, e, de forma imediata, identifica o mal como fato inerente à civilização e o homem, enquanto pertencente a este estado, está sempre sujeito a esta, agora,96 a inevitável fatalidade. A civilização é, portanto, para Rousseau, uma espécie de sinônimo de corrupção e pecado. Ora, nada é mais meigo que o homem em seu estado primitivo quando, colocado pela natureza a igual distância da estupidez dos brutos e das luzes funestas do homem civil, e compelido tanto pelo instinto quanto pela razão a defender-se do mal que o ameaça, é impelido pela piedade natural de fazer mal a alguém sem ser a isso levado por alguma coisa ou mesmo depois de atingido por algum mal97. Concebe o homem livre por natureza e corrompido pelo processo civilizatório. Para Rousseau, o pecado humano não é um ato que se comete sozinho e, de forma alguma, é parte constitutiva da identidade do homem no que se refere à sua essência natural, mas sempre na medida em que ele estabelece relações com os seus semelhantes, por necessidades sociais, e não naturais. 3.3 A ORIGEM E A FORMAÇÃO DA SOCIEDADE SEGUNDO JEAN- JACQUES ROUSSEAU 96. Já que pertence ao mundo da civilização. 97 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 93. A obra Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens nos possibilita importantes reflexões acerca do pensamento político de Jean- Jacques Rousseau. Serve de base para a leitura do Do Contrato Social, que, por sua vez, apresenta o ideal de política, proposto por Rousseau, pois nessa obra, “preliminar” à leitura do Do Contrato Social, o autor genebrino nos apresenta a sociedade como a vê, ou seja, real e, consequentemente, corrompida, desigual e, portanto, injusta. A partirda leitura da primeira obra referida, percebemos a análise de Rousseau a respeito da impossibilidade de, a partir da sociedade que se tem, pretender construir uma nova, apenas reformando-a com o intuito de que se corrijam as desigualdades e outras distorções, de modo a se conseguir, enfim, estabelecer uma sociedade justa, sem que se deva fazer sucumbir as sólidas estruturas injustas estabelecidas pelos privilegiados das sociedades e com as quais e sobre as quais as relações políticas (e humanas) injustas evoluíram ao longo dos tempos. Desta forma, preocupa-se em rejeitar o modelo de sociedade posto, uma vez que é impossível a prática do bem se mantiverem-se presentes e vivos os velhos vícios que a conduziram a tal estado. Como seria possível se pretender uma sociedade justa, mantendo-se conservado o produtor de todas as injustiças, que é a propriedade, causa primeira de todas as desigualdades? Como aspirar à justiça, se ela depende intimamente da necessidade de se impedir o progresso da desigualdade? Como isso se torna possível, se as desigualdades existentes possibilitam aos desiguais, em vantagens, muito mais e melhores condições para não somente mantê-las como também ainda e cada vez mais ampliá-las? E como aspirar a uma sociedade justa, conservando os corrompidos costumes e se, sobretudo, mantivermos essa sociedade respaldada e protegida pelo casulo das velhas instituições98, que, em momento algum foram concebidas para a justiça, pela e para a soberania da vontade geral, mas tão somente para proteger os ricos e fortes proprietários, acometidos pelo constante sentimento de fraqueza e insegurança diante das iminentes incertezas e 98. Não se trata aqui, de uma abordagem das instituições em geral, mas, sim, especificamente das críticas de Rousseau às instituições políticas em geral e a forma como até então vinham sendo concebidas e justificadas, como por exemplo as leis ou o contrato. É o modo de pensar a sociedade a partir da sua origem e justificá-la ao longo dos tempos até a sua época e também o agir político, ou seja, as práticas política que serão alvos diretos das críticas do filósofo genebrino. ameaças sobre suas posses? Enfim, como justificar as desigualdades, quando se pretende a justiça? Rousseau é crítico da sociedade da razão, das ciências e das artes, do comércio, enfim, do progresso, por ela estampar no homem a sua condição adquirida para uma vida em constante convivência com o mal. Por ela e com ela o mal aflorou, e nela se desenvolve. Sendo o homem social, é, também, consequentemente, corrompido e na sociedade que ali está, sente-se também constantemente tentado à prática do mal. Poder-se-ia, em coerência a Rousseau, afirmar que a natureza do mal é a sociedade, contudo, isso não equivale necessariamente a que a sociedade deva naturalmente ser a perpetuação do mal, ou ainda, que o mal seja invencível. Na busca da formulação do conceito de sociedade, Rousseau hipoteticamente a analisa em diferentes estágios da sua evolução ou progresso. Analisando o homem no estado de natureza, considera-o um ser primitivo, isolado e, portanto, bom. Prefere caracterizá-lo assim por entender ser impossível concebê-lo de natureza má. Na verdade, nem o atributo “bom” lhe seria apropriado, uma vez que não se tratar de nesse estado se poder contar com a possibilidade de imaginar pertinente ao homem o bem em oposição ao mal. A qualidade de ser bom somente seria aplicável se, em contrapartida, pudéssemos também caracterizá-lo como sendo mau, o que não é possível, pois se encontra em estado pré-social e, portanto, pré-moral. Como a moralidade, também esses antagonismos, nesse estado, simplesmente inexistem. Mais acertado é atribuir-lhes as qualidades de ingenuidade, inocência e pureza. No estado de natureza, o homem não tem qualquer consciência, nem no sentido moral, nem no sentido de domínio racional, uma vez que sua razão não passa de pura virtualidade99. Não tem, pois, consciência do outro e somente o procura por uma determinação da lei natural que o impele à relação sexual, não sendo, pois, esta ainda uma relação social e, sim, puramente natural. Entende Rousseau que 99. Cf. FORTES, Luís Roberto Salinas. - Rousseau: da teoria à prática. São Paulo: Ática, 1976 ( Ensaios 21 ). 1976, p.117. O Homem selvagem, privado de toda espécie de luzes, só experimenta as paixões desta última espécie, não ultrapassando, pois, seus desejos e suas necessidades físicas. Os únicos bens que conhece no universo são a alimentação, uma fêmea e o repouso; os únicos males que teme, a dor e a fome. Digo a dor e não a morte, pois jamais o animal saberá o que é morrer, sendo o conhecimento da morte e seus terrores uma das primeiras aquisições feitas pelo homem ao distanciar-se da condição animal.100 Segundo Salinas Fortes, referindo-se ao homem no estado de natureza, “o indivíduo conhece o outro como puro objeto de satisfação sexual igual aos outros objetos que a natureza lhe oferece para o atendimento das suas necessidades”101. Para além das diferenças físicas, duas características importantes, segundo Rousseau, distinguem, já nesse estado, o homem dos demais animais: a liberdade e a perfectibilidade. A liberdade é a condição que faz a máquina humana diferenciar-se da máquina animal. O homem executa as suas ações como o único agente livre na natureza, enquanto os demais animais seguem tão somente as leis impostas pela natureza de fora sobre eles. Em cada animal vejo somente uma máquina engenhosa a quem a natureza conferiu sentidos para recompor-se por si mesma e para defender-se, até certo ponto, de tudo quanto tende a destruí-la ou 100 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 66. 101 . FORTES, Luís Roberto Salinas. - Rousseau: da teoria à prática. São Paulo: Ática, 1976 ( Ensaios 21 ). 1976, p.117. estragá-la. Percebo as mesmas coisas na máquina humana, com a diferença de tudo fazer sozinha a natureza nas operações do animal, enquanto o homem executa as suas como agente livre.102 A perfectibilidade manifesta-se na evolução natural e física e na evolução artificial identificada pela corrupção do espírito, provocada pela razão. Assim, pois, uma primeira característica da perfectibilidade se manifesta pelas habilidades naturais que têm os homens de sobressaírem em determinadas situações e que os outros animais não possuem. Uma segunda manifesta-se pela diferenciação dos talentos naturais que distinguem os próprios homens entre si e, finalmente, a capacidade espiritual (racional) que nele posteriormente se desenvolverá, distanciando-o, bruscamente dos demais animais, convertendo-se numa poderosa arma e a maior fonte para a sua corrupção e, portanto, do mal da humanidade. (...) haveria uma outra qualidade muito especial que os distinguiria e a respeito da qual não pode haver contestação, é a faculdade de aperfeiçoar-se , faculdade que, com o auxílio das circunstâncias, desenvolve sucessivamente todas as outras e se encontra entre nós, tanto na espécie quanto no indivíduo.103 Neste estado, o homem somente cultiva o amor de si, que consiste em viver bem segundo sua natureza. O sentimento de piedade o impede de praticar o mal ao outro, conformando seu agir à lei natural: 102. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 64. 103 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 64-65. (...) a piedade representa um sentimento natural que, moderando em cada indivíduo a ação do amorde si mesmo, concorre para a conservação mútua de toda espécie. Ela nos faz, sem reflexão socorrer aqueles que vemos sofrer.104 Com a fixação de residência, se dá o passo seguinte da evolução, quando o indivíduo começa a reconhecer o outro e vai descobrindo sua identidade com ele, identificando-se como pertencente à mesma espécie. O homem passa a prestar mais atenção no seu semelhante, aliado ou concorrente, ocorrendo com isso também a evolução nos sentimentos, despertando nele atitudes de preferência de um indivíduo em relação ao outro, que, inicialmente, ocorrem com vistas nas diferenças naturais, como habilidade, talentos, destreza e, posteriormente, na posição social, no poder e na riqueza. A partir desse momento, as relações humanas passam a adquirir suas primeiras características sociais, ocorrendo uma “maior estabilização das relações sociais”. Os indivíduos sentem-se pertencentes à mesma espécie. Passam a sentir o outro, vendo-o como aliado ou como concorrente. Passam os homens a relacionar-se com mais intimidade. Dois sentimentos evoluídos aparecem, o amor conjugal e o amor paterno, que, por sua vez, darão origem à primeira sociedade humana: a família, que, pois, é a mais antiga sociedade e a única natural. Origina-se no amor conjugal, que por sua vez, decorre de uma necessidade instintiva, sendo por isso natural, e perpetua-se enquanto houver dependência entre seus membros. Se essa união for mantida sólida e duradoura, isso se deve à convenção entre seus membros. Assim enuncia: 104. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p.79. A mais antiga de todas as sociedades e a única natural, é a da família; ainda assim só se prendem os filhos ao pai enquanto dele necessitam para a própria conservação. Desde que tal necessidade cessa, desfaz-se o liame natural. Os filhos, isentos da obediência que devem ao pai, e este, isento dos cuidados que deve aos filhos, voltam todos a ser igualmente independentes. Se continuam unidos, já não é natural, mas voluntariamente, e a própria família se mantém por convenção105. Esse processo, ao mesmo tempo que, por um lado, aproxima os homens fazendo-os descobrirem-se como semelhantes e pertencentes à mesma espécie, aos poucos, os leva a diferenciarem-se um do outro, a estranharem-se, fazendo com que o amor-de-si, sentimento natural humano, ceda espaço, lentamente, ao amor-próprio, sentimento egoísta. No entanto, mesmo aqui o homem ainda conserva uma significativa “pureza” e ainda está muito longe da corrupção real. Segundo Rousseau, nem mesmo a instituição da propriedade, em si, é a maior responsável pelo auge da corrupção humana. Essas diferenças são de várias espécies. Mas a riqueza, a nobreza ou a condição, o poder e o mérito pessoal, sendo, em geral, as distinções pessoais pelas quais as pessoas se medem na sociedade, provarei que o acordo ou o conflito dessas forças 105 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p.55. diversas são a indicação mais certa de um Estado bem ou mal constituído; mostrarei depois que entre esses quatro tipos de desigualdade, constituindo as qualidades pessoais, a origem de todas as outras, a riqueza é a última a que por fim elas se seduzem, porque, sendo a mais imediatamente útil ao bem-estar e a mais fácil de comunicar-se, servem-se dela com toda facilidade para comprar todo o resto.106 Para ele, as primeiras desigualdades entre os homens foram motivadas pelas diferenças naturais, quais sejam, de habilidade de produzir mais que o outro, a inteligência, a força, ou até mesmo a preferência pela beleza. Portanto, como a propriedade, produziram a desigualdade. O que aprofundou o processo de corrupção do homem foi sua evolução cultural, fazendo evoluir seus costumes, despertando nele o sentimento de estima e a necessidade de distinguir cada homem um do outro, necessitando parecer ser o que na verdade não era. Assim escreveu Rousseau: “Para proveito próprio, foi preciso mostrar-se diferente do que na realidade era, ser e parecer tornaram-se duas coisas totalmente diferentes. Dessa distinção resultaram o fausto majestoso, a astúcia enganadora e todos os vícios que lhes formam o cortejo”107. E é este o ponto central, segundo Rousseau, para entendermos a sociedade que temos e, obrigatoriamente a rejeitarmos se o nosso critério de convivência social for a justiça e o bem. O problema da corrupção do homem, para Rousseau, está no fato de aqueles que, pelas suas capacidades naturais destacadas, foram capazes de produzir mais, para aprofundar as desigualdades, passaram a instituir a idéia de admiração à riqueza, alterando para isso as crenças e os valores dominantes na sociedade. “Cada um começou a olhar os outros e a desejar ser ele próprio olhado, passando assim a estima pública e a ter um preço”108. 106 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 111. 107. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p.97. 108. Cf. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 92. A corrupção dos costumes foi, pois, decisiva para o passo seguinte, que levaria a uma corrupção mais aprofundada da sociedade. Agora, sim, a propriedade privada passa a ser a vilã da sociedade, no entendimento de Jean-Jacques, uma vez que é este processo de evolução (dos costumes) que roubou dos homens todos os outros sentimentos de estima, até então relacionados com as diferenças naturais e, portanto, sentimentos ainda muito próximos do homem natural, para, através da consciência corrompida, passar a despertar a necessidade da propriedade, do acúmulo de riquezas. O sentimento de estima, que até então era do homem para o homem, com suas qualidades advindas da natureza, passa agora a ser destinado, não ao que o homem é e pode e, sim, ao que o homem tem e pode. Quando Rousseau afirma que com a necessidade de estima o homem passa a ter um preço, está, na verdade, dizendo que o homem se rebaixou à qualidade de produto, desprezando o valor de sua essência natural. O homem se compara, pois, a uma coisa qualquer, e a propriedade (a riqueza) passa a simbolizar esse valor indispensável. Se, com a passagem do estado natural para a civilização, deu-se a corrupção em germe, já no estado social ela encontrou vícios que possibilitaram sua evolução. A sociedade, contudo, mantidos os costumes, não tão corrompidos, e considerando a propriedade como apenas mais uma das diferenças (ou desigualdades) entre os homens, sem que por ela fosse desenvolvido sentimento de estima maior, ainda se encontrava em estado não tão agravado, em se tratando de corrupção. O batismo na corrupção, pois, acontece quando o homem desenvolve como valor, incorporando-o às suas crenças, a necessidade artificial de acumular riquezas. A corrupção dos costumes é decisiva para fazer avançar a passos largos a corrupção do homem que, assim, resulta na corrupção da sociedade em grau, agora, ainda mais evoluído. A análise de Rousseau está destinada a explicar a sociedade na maneira como surgiu, evoluiu e se estruturou até sua época, ou seja, a sociedade das posses geradoras de desigualdades e das convenções e leis que as mantêm (as desigualdades) e as perpetuam. Entende ser a propriedade a responsável por esse processo que se instalou de forma sutil e que se perpetuou pela exploração por ela possibilitada: “O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meue encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo”109. É uma análise hipotético-dedutiva feita considerando hipoteticamente a história desde os mais longínquos tempos até a sua contemporaneidade, refletindo ainda a partir da realidade posta diante dos seus próprios olhos, num movimento, sem o compromisso de coerência com a sucessividade cronológica dos fatos históricos. Por importante que seja, para bem julgar o estado natural do homem, considerá-lo desde sua origem e examiná-lo, por assim dizer, no primeiro embrião da espécie, não seguirei sua organização através de seus desenvolvimentos sucessivos.110 O Discurso sobre a Origem da Desigualdade apresenta, assim, um Rousseau transparente e realista, crítico, empírico e simplesmente analista e, neste sentido, diferente do Rousseau sonhador, idealista e romântico, que encontramos no Do Contrato Social, e cuja idéia parece predominar em nossas mentes sempre que nos referimos a este ilustre cidadão de Genebra. Talvez essa clareza com que elaborou sua reflexão sobre a situação posta (sociedade que temos), desperte ou reforce nele a convicção de que toda essa realidade fosse artificial e que a “realidade real” do ser humano se encontrasse na possibilidade do que ele um dia já foi e ao que se poderia voltar a ser, embora não da mesma forma como antes. A temática de Rousseau em sua crítica à sociedade, é que a situação social do homem o afasta da sua natureza, ou seja, que viver em sociedade, da forma como ela está constituída, é incompatível com sua essência originária. Assim afirma Starobinski: “A 109 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p.87. 110 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p.57. sociedade civilizada, desenvolvendo sempre mais sua oposição à natureza, obscurece a relação imediata das consciências: a perda da transparência original vai de par com a alienação do homem nas coisas materiais”111. A sociedade de então sufocou as qualidades humanas da estima, da benevolência e da piedade ao próximo, que poderiam ser molas mestras, tendo-se em vista uma sociedade justa e, de fato, muito mais próxima da sociedade a que se deve aspirar. O amor-próprio112 torna-se sentimento predominante na alma humana, em detrimento do amor-de-si113. A sociedade posta cada vez mais estimula o gosto pelas coisas, fazendo do homem um eterno escravo ou, pelo menos, dependente de posses que, nas circunstâncias em que vive, lhe conferem, simultaneamente, a estranha sensação de segurança e insegurança. Essa sociedade menos se preocupa com o ser do homem do que com o seu ter. Assim, enquanto as relações humanas deveriam ser estabelecidas tendo por fundamento os sentimentos naturais de benevolência, estima, piedade no cultivo do amor de si, acabam se pautando na necessidade de se preterir, quando a esse ponto se chegar, os verdadeiros valores humanos, para se apegar aos valores supérfluos114, atribuindo-lhes caráter de essencialidade. Avaliando esta questão, Jean Starobinski assim escreve: A estima e a benevolência constituem um laço pelo qual os homens se reúnem imediatamente: nada se interpõe entre as consciências, elas se oferecem espontaneamente numa evidência total. Em compensação, os laços ordenados pelo interesse pessoal perderam esse caráter imediato. A relação já não mais se 111. STAROBINSKI, Jean. A transparência e o obstáculo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 36. 112. Sentimento negativo identificado com a ideia de egoísmo. 113. Ao contrário da ideia de amor próprio, é identificado por Rousseau como sentimento de desapego pessoal em benefício do bem da coletividade. 114. As posses, enfim, os bens materiais. estabelece diretamente de consciência para consciência: ela agora passa por coisas. A perversão que daí provém não apenas do fato de que as coisas se interpõem entre as consciências, mas também do fato de que os homens, deixando de identificar seu interesse com sua existência pessoal, identificam-no doravante com os objetos interpostos que acreditam indispensáveis à sua felicidade. O eu do homem social não se reconhece mais em si mesmo, mas se busca no exterior, entre as coisas; seus meios se tornam seu fim.115 Para Rousseau, o homem não mais compartilha com seus semelhantes sua existência, com possibilidade de satisfação e realização mútua e total e, sim, pela necessidade de proteção, preocupando-se essencialmente em dar garantias à sua existência por meio do acúmulo das posses. 3.4. SOBRE A RECONSTRUÇÃO DA SOCIEDADE PELA VIA POLÍTICA Envolto nesse mundo do progresso, essencialmente identificado com as posses que estimulam a constante concorrência, cujos valores essenciais estão nas coisas materiais e não no ser de cada um, o homem se vê constantemente inseguro, desprotegido e ameaçado. Sente-se constantemente ameaçado a perder tudo que com sacrifícios ou logro acumulou e, em consequência disso, sente ameaçada sua própria vida. 115 . STAROBINSKI, Jean. A transparência e o obstáculo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 35. O mesmo ocorre com aquele que nada tem. Sente-se escravo da cultura construída ao longo dos tempos, geradora de uma pressão social, de que para quem nada tem resta somente a dependência e/ou a escravidão. Isso, de fato, na prática, constitui visivelmente a realidade. Onde, pois, está o ser humano em sua essência? Diante das complicações surgidas com o aparecimento da propriedade, que lançou o ser humano numa constante sensação de insegurança e o corrompeu no espírito e no agir, as estruturas injustas da sociedade, com as quais coexiste, evidentemente, não lhe permitirão o exercício moral e político justo, devendo, pois procurar transpor essa situação, para desconstruir todo o sistema corrupto construído ao longo dos tempos. Salinas Fortes, em alusão a Rousseau sobre isso e, ao referir-se à necessidade que têm os homens do estabelecimento do contrato e das instituições políticas, afirma: “Os homens, neste estágio da sua evolução, são incapazes de saber, espontaneamente, em que consiste de maneira concreta o bem comum, cuja busca permanente é o fim da associação política”116. Já em outra passagem, agora no Contrato social, referindo-se à necessidade do legislador, Rousseau afirma que o próprio povo, que segundo ele, conforme já foi esclarecido nesta unidade, representa a melhor união, também encontra dificuldades e cegueiras para legislar, cogitando que “O povo por si, quer sempre o bem, mas por si nem sempre o encontra. A vontade geral é sempre certa, mas o julgamento que a orienta nem sempre é esclarecido”117. Conclui-se, pois, o quanto para Jean-Jacques, é difícil obter a justiça, considerando a sociedade que se tem, que visivelmente é injusta e, portanto, obviamente distante das aspirações da vontade geral. Se, pois, para Rousseau, até a própria vontade geral, para ele a única fonte de justiça, pode errar, então parece ser segura e verdadeira a conclusão de que o exercício moral e político justo será significativamente dificultado, se se considerar a sociedade que “aí está”. Convivendo com essa situação, o homem, lamentavelmente, aprofundou o processo de corrupção sempre em ascendência e buscou, por mecanismos de persuasão das mentes ingênuas, fazer crer que havia necessidade de se estabelecerem regras e 116. FORTES, Luís Roberto Salinas. Rousseau: da teoria à prática. São Paulo: Ática, 1976 ( Ensaios 21 ). p.96. 117 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 108. valores que conferissem a cada um dentro do emaranhadocomplexo social meios e garantias de boa convivência. Assim, em algum momento da história, após instituído o valor da propriedade como uma crença, algum homem concebe, a partir de um raciocínio e argumento falacioso, destinado a seu semelhante, a quem pretende persuadir, a necessidade das leis, das instituições políticas, enfim, do Estado. Dá-se pois os passos definitivos para a corrupção do homem em seu grau mais elevado. A criação das leis, foi pois o recurso que viria resolver esta situação desconfortável. Com elas todos estariam em iguais condições, pois como ao proprietário se dava garantias, quem nada possuía contentava-se com a idéia de que a propriedade era algo a se aspirar e, uma vez conquistada, lhe estaria garantido de antemão sua proteção. O mesmo valia para a propriedade do seu corpo. A partir de um pacto, inicialmente, institui-se posteriormente as leis e o governo, sempre em favor dos ricos. Pelo pacto social demos existência e vida ao corpo político.118 Para Rousseau, o suposto contrato, foi mais um artifício para manter a sociedade que temos tal como se apresenta119, ou seja, injusta e necessária para alguns poucos ricos, “pois os ricos, sobretudo, com certeza, logo perceberam quanto lhes era desvantajosa uma guerra perpétua, cujos gastos só eles pagavam e na qual tanto o risco da sua vida como o dos bens particulares eram comuns”120. Os pobres, segundo ele, também viram no contrato alguma proteção, provavelmente, persuadidos pelo eficiente discurso, que tinha por objetivo perpetuar a ilusão de se pretender a justiça com a criação de convenções, que por sua vez, converteram-se em instrumentos práticos destinados tão 118. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p.105. 119. Entende-se aqui a sociedade na época de Rousseau, sob o crivo da sua análise. 120 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 99. somente a manter o que existe, ou seja, uma sociedade desigual e, consequentemente, injusta. Afirma Salinas fortes que “É certo que o Estado de rico e de pobre foi autorizado pela primeira época, ou seja, com o estabelecimento do direito de propriedade. São os ricos que fundam a sociedade civil, na esperança de preservarem suas propriedades dos ataques dos pobres”121. Muito mais que estabelecer a justiça tem-se notado historicamente que essas convenções destinavam-se a encobrir as injustiças, dando legitimidade e instituindo as desigualdades como pertencendo ao curso natural da evolução humana. É uma falácia qualquer afirmação que induz ao erro de pensar que todo aquele que tem, o tem por mérito e aquisição justa. Isso obscurece o problema original apresentado hipoteticamente por Rousseau, qual seja, de ser a origem da sociedade uma usurpação, portanto, uma aquisição injusta, porém, justificada como justa e de direito, legitimando desta forma um emaranhado de injustiças tanto no campo do agir humano, voltado para a necessidade de acumular para se proteger como em nível de consciência que agora, corrompida ou ludibriada com a concepção da propriedade, com o tempo justificada como de mérito, se tenha tornado fato inerente à capacidade natural humana. Entende o autor do Do Contrato Social que “O singular dessa alienação é que a comunidade, aceitando os bens dos particulares, longe de despojá-los, não fez senão assegurar a posse legítima, cambiando a usurpação por um direito verdadeiro, e o gozo pela propriedade.”122. Para Rousseau, o discurso por um ideal social é pretexto para se instituir definitivamente práticas individualistas, tornando-se assim o agir humano ainda mais distante do seu original, inocente e puro estado de natureza. Individualmente, encontraram-se soluções para os problemas, porém, socialmente ainda mais distante da justiça (social) se ficou. Contudo, não é inteiramente irreal o fato de que se todos renunciarem sob alguns aspectos, no final, todos ganharão com as instituições legais, pois essas concessões, aliás, foram necessárias de ambas as partes, para que os pactos e contratos acontecessem e, em troca, fosse possível garantir no final as vantagens e o logro (constantes). Quanto a isso, 121 . FORTES, Luís Roberto Salinas. Rousseau: da teoria à prática. São Paulo: Ática, 1976 ( Ensaios 21 ). p.119. 122 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 81. entende Salinas Fortes que “Mesmo para os pobres o estabelecimento político oferece suas vantagens e é isto, aliás, que torna o logro possível”123. O que Rousseau sustenta é que essa espécie de pacto, destinado ao bem comum, que somente foi possível devido às concessões feitas pela vontade de todos e que teve sua origem numa necessidade social das vontades somadas, no entanto, não correspondeu, na prática, aos desejos e às necessidades da vontade de todos. Acabou por assegurar, por concessão dos que têm e dos que nada têm, portanto, de todos, tão somente os ameaçados privilégios dos proprietários, únicos sob constante ameaça de perdas. O mal está na sociedade, mas isso não deve necessariamente significar que a sociedade é, ou deva, obrigatoriamente ser má. Apenas este é o fato, isto é, o que se sucedeu historicamente e que “aí está”, estabelecido pelo ser humano. E por que é má? Porque os homens corromperam sua essência, destruindo a igualdade natural, permitindo e criando condições para a perpetuação da desigualdade, fruto da cultura, do mau uso da razão, das habilidades naturais e da capacidade de aperfeiçoar-se naturalmente, que foram tão somente capazes de afastar o ser humano da sua natureza. Há, sem dúvida, uma justiça universal emanada somente da razão; tal justiça, porém, deve ser recíproca para ser admitida entre nós. Considerando-se humanamente as coisas, as leis da justiça, dada a falta de sanção natural, tornam-se vãs para os homens; só fazem o bem do mau e o mal do justo, pois este as observa com todos sem que ninguém as observe com ele. São, pois, necessárias convenções e leis para unir os direitos aos deveres, e conduzir a justiça ao seu objetivo. No estado de natureza, no qual tudo é comum, nada devo àqueles a quem nada prometi; só reconheço 123 . FORTES, Luís Roberto Salinas. Rousseau: da teoria à prática. São Paulo: Ática, 1976 ( Ensaios 21 ). p. 85. como de outrem aquilo que me é inútil. Isso não acontece no estado civil, no qual todos os direitos são fixados pela lei124. Para Rousseau, se num primeiro momento o desejo e ambição humana conduziram o homem para fora de seu estado natural, corrompendo-o ao instituir a propriedade, nos momentos seguintes, as instituições políticas, garantidas pelas leis e abrigadas sob as asas do Estado, encarregaram-se de mantê-lo em tal situação ou ainda mais aprofundar a situação de desigualdade. No segundo discurso afirma que, Se seguirmos o processo da desigualdade nessas diferentes revoluções, verificaremos ter constituído seu primeiro termo o estabelecimento da lei e do direito de propriedade; a instituição da magistratura o segundo; sendo o terceiro e último a transformação do poder legítimo em poder arbitrário. Assim, o estado de rico e de pobre foi autorizado pela primeira época; o de poderoso e de fraco pela segunda; e, pela terceira, o de senhor e de escravo que é o último grau da desigualdade e o termo em que todos os outros se resolvem, até que novas revoluções dissolvam completamente o governo ou o aproximem da instituição legítima.125 Para Rousseau, tudo que ali está, desta forma construído, não serve. É necessário ir à essência da natureza do homem e assim construir um homem politicamente novo.Portanto, é necessário transformar as consciências pela reconstrução moral do cidadão. A 124 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 105-106. 125 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as origens e os fundamentos das desigualdades entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p.110. moral é a qualidade social que deve fundamentar a transformação do cidadão capaz de novas práticas que levarão à construção das verdadeiras instituições políticas, capazes de unir os direitos aos deveres, como o deseja o filósofo genebrino. Porém, é somente pela ação política e ética que se obterá a sociedade justa. Pela moral se transformam as consciências, porém somente esta transformação não é suficiente. Somente o novo agir político126 é capaz de fundar novas instituições políticas, compor um novo governo e substituir o “agregado social” pelo povo unido pela vontade geral, razão única de se constituir o governo, as leis e o Estado. Para Fortes, A ordem política é, na sua essência, uma ordem moral e convencional caracterizada pela liberdade e igualdade de cada um dos membros que a compõem. Entre os fatores que compõem esta totalidade – a parte e o todo – prevalece uma certa ordem, uma certa hierarquia necessária que é a melhor possível: para que a liberdade de cada parte e a sua igualdade sejam garantidas, é necessário que as partes se subordinem ao todo, que as pessoas físicas estejam subordinadas à pessoa moral. O corpo político é, assim, a totalidade na qual pessoas físicas estão submetidas à pessoa moral. A vontade da ordem , à qual todas as outras devem estar subordinadas, é a vontade desta pessoa moral ou vontade geral.127 Rousseau entende que se foram as relações políticas, tal como o homem as estabeleceu ao longo dos tempos, responsáveis pelo destino infeliz da natureza humana, 126. FORTES, Luís Roberto Salinas. Rousseau: da teoria à prática. São Paulo: Ática, 1976 ( Ensaios 21 ), p. 85 “Se os homens fossem diferentes do que são, ou seja, se não tivessem, neste momento da sua evolução, interesses contraditórios, o predomínio do interesse comum não encontraria obstáculo e a “política deixaria de ser uma arte”. Sendo o que são, a mediação da política é necessária” (FORTES,1976, p. 94). 127 FORTES, Luís Roberto Salinas. Rousseau: da teoria à prática. São Paulo: Ática, 1976 ( Ensaios 21 ), p. 90. também será por elas que o homem deve pretender almejar a justiça e desconstruir para em seguida, reconstruir a sociedade. Se for possível construir uma nova história, essa possibilidade se encontra na história que se construirá pelas novas relações políticas e não tão somente na possibilidade da conversão moral do ser humano, pretendida pelo discurso ético. É necessário, sobretudo, construir o novo homem político, que dará origem à nova política, capaz de solapar os fundamentos injustos sobre os quais a sociedade foi construída e sobre os quais, ao longo dos tempos, a sociedade evoluiu. Nem o melhor discurso e nem a melhor doutrina moral será capaz de construir uma sociedade justa, se forem mantidos os alicerces das injustiças, aqueles que perpetuam as desigualdades, como, por exemplo, a manutenção do direito ilimitado à propriedade e o vício das consciências que a buscam como forma de se obter admiração e estima e, quaisquer outros responsáveis pela manutenção ou alargamento do fosso que separa os ricos dos pobres, garantindo aos primeiros privilégios em relação aos segundos. Rousseau procurou resgatar a concepção política da Grécia Antiga, particularmente aquela sustentada pelos três clássicos: Sócrates, Platão e Aristóteles. Segundo ele o exercício da atividade política deve ser de excelência moral. O pacto firmado a partir da vontade de todos, isto é, das vontades particulares somadas para se obter o corpo político, deve ceder seu lugar ao pacto (contrato) estabelecido sob os desígnios da vontade geral128, a qual por sua vez não simplesmente soma as vontades particulares uma a uma, mas tão somente retém o supra sumo, isto é, a essência de todas as vontades unidas numa só, cujo maior valor é a vontade coletiva, a moral coletiva. Para haver uma sociedade justa, somente possível com a soberania da vontade geral, não pode haver superior e inferior, poderosos e oprimidos, livres e escravos. Todos os contratantes devem poder agir sobretudo com igualdade e liberdade, o que não se tem percebido na sociedade que Rousseau tomou como objeto real da sua análise. Essa sociedade é aquela que ainda está por ser proposta como um ideal a se alcançar. É o que irá propor em Do Contrato Social, cuja essência da proposta é a vontade geral, de que falaremos no próximo capítulo. 128 “A vontade geral não é geral apenas por ser de todos, mas por ser a mesma vontade”. FORTES, Luís Roberto Salinas. Rousseau: da teoria à prática. São Paulo: Ática, 1976 ( Ensaios 21 ). p. 88). 3.5 A VONTADE GERAl COMO O FUNDAMENTO ÉTICO DO CONTRATO SOCIAL A proposta de construir uma sociedade a partir da vontade geral, defendida pelo filósofo genebrino Jean-Jacques Rousseau, em sua célebre obra intitulada “Do Contrato Social”, apresenta uma ideia inovadora e fundamental para o entendimento das relações do homem em sociedade. Ela alicerça eticamente o contrato, entendendo a liberdade não motivada por coações internas, nem por impulsos instintivo-naturais ou por desejos momentâneos, mas um contrato que preserve e viabilize o exercício de uma liberdade consistente e consciente. Para Rousseau, a vontade geral é pura expressão da liberdade humana, pois ela apresenta uma concepção de justiça não somente como busca da “equidade”, ou seja, simplesmente o equilíbrio social, prevalecendo a vontade da maioria, mas, porque ele a identifica como o “liame social” , tal conceito significa que Rousseau revela uma preocupação com a natureza humana no que se refere ao bem viver social (e, consequentemente, também individual) e a construção e preservação de sua liberdade. A ideia de bem, identificada na vontade geral, é a sua base, em contraposição à ideia de justiça como equidade. Rousseau apresenta, assim, com a ideia de vontade geral, a concepção de direito que procura considerar a natureza social humana em sua forma mais abrangente, ao mesmo tempo mais profunda e mais coerente possível com a natureza social de cada ser humano, respeitando nele e nos outros aquilo que é primordial, a vontade geral, além de respeitar em cada sociedade em particular a mesma vontade geral, quando propõe qualquer acordo em forma de contrato social. O contrato social, nas palavras de Norberto Bobbio: Faz a sociedade não mais um fato natural, a existir independentemente da vontade dos indivíduos, mas um corpo artificial, criado pelos indivíduos a sua imagem e semelhança e para a satisfação de seus interesses e carências e o mais amplo exercício de seus direitos.129 Trata-se, pois, da ideia de contrato, visando atender as exigências da convivência social como um todo, e não apoiar-se na ideia de uma racionalidade de contrato voltada tão somente para a equidade, onde prevalece a ideia de justiça sobre a ideia do bem, com o fim de buscar soluções apenas de ordem prática para as questões e dilemas com os quais os indivíduos e/ou cidadãos se deparam no seu cotidiano. Quando Rousseau fala em vontade geral - que ele próprio sustenta não ser, simplesmente, a “soma de todas as vontades particulares” - ele pensa em um contrato concebido e elaborado a partir de um argumento que considera sempre o homem como um ser essencialmente de convivência social e que como tal precisa ser respeitado não apenas como pertencente a uma maioria cujo contrato social vem a proteger, mas como um ser que partilha uma vontade geral sobre a qual o contrato encontra sua basesólida. Não se entende por “vontade geral” aquilo que é comum a todos os homens quanto à sua natureza humana, nem aquilo que é da natureza social para qualquer homem em qualquer sociedade, mas aquilo que é o interesse comum, para aqueles indivíduos de cada sociedade em particular. Isto significa que o contrato social é a causa e a consequência de uma elaboração cuidadosa, preocupada não somente com a justiça e a equidade, como já mencionamos anteriormente, mas também como a realização do bem enquanto essência originada do íntimo de cada homem. Desta forma, o contrato é um processo permanente de construção com a preocupação de se ir até as entranhas, isto é, até o limite último para uma compreensão real 129 BOBBIO, Norberto. Liberalismo e democracia. São Paulo, Brasiliense, 1997. p. 15-16. e coerente da vontade geral de cada sociedade. Este é o esforço no sentido de buscar “aquilo”, e que talvez já seja o aquilo equivalente à vontade geral. A partir desta essência, qualquer contrato e qualquer forma de direito pode progredir e se complexificar, tornando-se um sistema abrangente, amplo, porém sólido, uma vez que foi construído sobre uma base sólida e a esta base se mantém fiel. Todo contrato elaborado conforme esta concepção não privilegia uma maioria, mas a unânime vontade de todos os cidadãos contratantes. Segundo Salinas Fortes, o entendimento de contrato social, em Rousseau, não corresponde a um “esqueleto de ideias” já pré-estabelecidas, que então serão adaptadas à sociedade e, sim, devem emanar da essência da sociedade. Conforme Salinas: “O corpo político não é assim apenas um sistema de relações jurídicas entre os indivíduos: este sistema é apenas a sua ossatura. Mais do que isto, trata-se de uma realidade essencialmente de ordem afetiva130”. Assim, quanto mais o contrato se aproximar daquilo que, segundo Rousseau, é a expressão íntima da vontade geral, tanto mais ele será coerente e tanto mais será a expressão da liberdade de cada sociedade e, sobretudo, tanto mais garantirá da forma mais justa e desejada a liberdade de cada um dos seus contratantes e tanto menos necessitará de forças coercitivas. Não existe contrato por natureza. A liberdade individual natural é garantida a cada ser humano por nascimento, no entanto, sua liberdade social só pode ser garantida por meio de um contrato social que seja uma vontade geral. Assim, o contrato social deve conter essencialmente a expressão da natureza social de cada grupo (sociedade) e somente desta forma estará ele a serviço da harmonia e, sobretudo, em defesa da verdadeira liberdade de cada indivíduo, em cada sociedade. Desta forma, as relações entre os homens obedecem sempre a uma voz interna da consciência enquanto apelo para o exercício do supremo bem. A vontade geral é a única possibilidade de estabelecer as relações a partir de uma base moral. Jean-Jacques está tão convencido dessa ideia que não admite que nela se possa conceber a possibilidade de vir a errar, quando em Do Contrato Social enuncia: 130 FORTES, Luís Roberto Salinas. Rousseau: da teoria à prática. São Paulo: Ática, 1976 ( Ensaios 21 ).p. 89. Conclui-se do precedente que a vontade geral é sempre certa e tende sempre à utilidade pública; donde não se segue, contudo, que as deliberações do povo tenham sempre a mesma exatidão. Deseja-se sempre o próprio bem, mas nem sempre se sabe onde ele próprio está. Jamais se corrompe o povo, mas frequentemente o enganam e só então ele parece desejar o que é mau.131 A vontade geral é, pois, a radicalização da vontade humana, enquanto uma vontade em exercício na ação política, pois a atividade política que tenha por base esse contrato acontece como realização de um dever moral e não como o simples cumprimento de obrigações legais. 3.6 A VONTADE GERAL NO CONTRATO SOCIAL E O EXERCÍCIO DA LIBERDADE MORAL Considerando o que até aqui foi dito, sabemos, pois, que em Rousseau a idéia de contrato, entendido como vontade geral, não é uma alienação da liberdade, se esta, por sua vez, for analisada não como ausência de princípios, ou apenas uma prova formal e materializada da desconfiança entre os seres racionais, mas, sim, como o meio para garantir o seu exercício e ainda como importante instrumento para a prática da justiça social, uma vez que a possibilidade de o homem retornar a viver como bom selvagem, no primitivo e inocente estado de natureza, passa a ser por ele descartada. 131. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 91. O que o homem perde pelo contrato social é a liberdade natural e um direito ilimitado a tudo quanto aventura e pode alcançar. O que com ele ganha é a liberdade civil e a propriedade de tudo que possui. A fim de não fazer um julgamento errado dessas compensações, impõe-se distinguir entre a liberdade natural, que só conhece limites nas forças do indivíduo, e a liberdade civil, que se limita pela vontade geral, e, mais, distinguir a posse, que não é senão o efeito da força ou o direito do primeiro ocupante, da propriedade que só pode fundar-se num título positivo. Poder-se- ia, a propósito do que ficou acima, acrescentar à aquisição do estado civil a liberdade moral, única a tornar o homem verdadeiramente senhor de si mesmo, porque o impulso do puro apetite é escravidão, e a obediência à lei que se estatuiu a si mesma é liberdade.132 Pelo fato de termos que conceber a realidade humana dentro da ideia de seres racionais de vivência coletiva, não pode o homem ser concebido isoladamente, como ser em particular, mas sempre dentro de uma realidade coletiva, o que o próprio Rousseau, apesar de desejar a volta do homem ao estado de natureza (à situação de bom selvagem), já admitia. Assim, o contrato social vem a ser o meio autodeterminado pela sociedade como um todo, e a garantia do exercício da liberdade civil e moral e a síntese de todas as vontades individuais e coletivas inalienáveis. Para o autor genebrino, um contrato não deve significar alienação de liberdade e, sim, a garantia de corretos meios para a sua prática, se concebido conforme o seu ideal de vontade geral. O contrato social deve, pois, ser a representação da vontade geral humana, entendida como a essência do desejo humano pela essência da vida em sociedade. Portanto, 132 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 77-78. o contrato não mais seria simbolizado como uma tesoura que poda e/ou restringe a liberdade, mas como um veículo desejado para a realização de um fim que é a liberdade. Se se conceber, segundo Jean-Jacques, o contrato como sendo a permanente elaboração da vontade racional, isto é, da vontade humana geral, em sua essência racional, não se deve conceber na ideia do mesmo (o contrato) nada que não possa ser demonstrado como um princípio da vontade universal (princípio da vontade racional), que é esta liberdade entendida como uma ação que se pratica em respeito a si próprio e a toda a humanidade. Assim, a liberdade exercida no meio seria aquela que primeiro teria sido subjetivamente aceita e querida a partir de um princípio geral e irrefutável. Portanto, em sua origem e essência, o contrato não será um peso ou uma imposição externa, interpretado como concorrente da liberdade humana, mas, sim, como garantia de que a liberdade ali está contida e garantida. A liberdade concebida a partir de uma elaboração exclusivamente pessoal, como meio para um outro fim, não seria, nesse sentido, liberdade. Estariam então explicitadas e redigidas todas as formas do agir humano que preservariam a moralidade e possibilitariam a convivência realmente harmoniosa (uma utopia, de certa forma) entre os seres racionais. Ficaria assim claro qual seria o fim e qual seria o meio. Fim e meio seriam uma só realidade, uma vezque contrato e vontade geral se confundem, por serem um processo permanente. O contrato social, que tem por base a vontade geral, deve, pois, ser a síntese e a essência de todas as vontades (e não simplesmente a soma) que cada ser em particular tenha. Rousseau parte de um princípio universal comum ao ser humano racional, fazendo com que este homem ou este povo tenha uma base comum e segura que o obrigue, no verdadeiro sentido da palavra, a não aceitar esta obrigação de obedecer. Para qualquer obediência que não seja um cumprimento de um dever moral, justifica-se, em cumprimento do dever moral, uma não obediência De acordo com suas próprias palavras: “Quando um povo é obrigado a obedecer e o faz, age acertadamente; assim que pode sacudir esse jugo e o faz, age melhor ainda, porque, recuperando a liberdade pelo mesmo direito por que lha arrebataram, ou tem ele o direito de retomá-la ou não o tinham de subtraí-la”.133. 133. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p.53. Essa afirmação pode ser reforçada por aquela expressão kantiana, que afirma: “Conservar a sua própria vida é um dever, e além disso todos nós temos uma imediata inclinação nesse sentido. Mas, por isto mesmo, o cuidado angustioso que a maior parte dos homens põe nisso não tem um valor intrínseco, e a máxima que rege esse cuidado carece de um conteúdo moral”134. Quando Rousseau propõe o contrato social, ele não o propõe como uma mera alternativa que venha amenizar ou aliviar o jugo. Ele, evidentemente, busca solucionar radicalmente o problema da liberdade, buscando um princípio universal para regulamentar as relações humanas. Por isso, o contrato não deve, de forma alguma, ser concebido no sentido de que cada indivíduo tenha por meio dele garantido seus interesses de essência particular. A vontade particular pode até estar assegurada no contrato, mas não porque ela é a priori uma vontade particular e, sim, porque em sua essência ela é, e concorda com o que Rousseau chama de “vontade geral”, ou uma vontade comum a todos os cidadãos, irmanados por uma força comum intrínseca que os move, a partir dos mesmos princípios, para um só fim compartilhado na essência por todos os envolvidos nessa relação de seres especiais. Enfim, cada um dando-se a todos não se dá a ninguém e, não existindo um associado sobre o qual não se adquira o mesmo direito que se lhe cede sobre si mesmo, ganha-se o equivalente de tudo que se perde, e maior força para conservar o que se tem. Se separar-se, pois, do pacto social aquilo que não pertence à sua essência, ver-se-á que ele se reduz aos seguintes termos: cada um de nós põe em comum sua pessoa e todo o seu poder sob a direção suprema da vontade geral, e recebemos, enquanto corpo, cada membro como parte indivisível do todo. Imediatamente, esse ato de associação produz, em lugar da pessoa particular de cada contratante, um corpo moral e coletivo.135 134. KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo: Abril Cultural, 1980 (Coleção Os Pensadores), p. 42. 135. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p.70-71. A essência do contrato não é, pois, a resolução de situações conflitantes, mas, tão somente a possibilidade da realização da natureza humana que é, na essência, um ser coletivo. 3.7 DUAS FORMAS DE CONSENSO: A VONTADE GERAL E A VONTADE DE TODOS Rousseau, no capítulo III do livro segundo, da obra Do Contrato Social, faz uma comparação entre a ideia de “vontade geral” e a de “vontade de todos”, onde, consequentemente, nos apresenta claras diferenças entre essas duas ideias. Analisando comparativamente essas duas ideias devemos aceitar que esse esclarecimento se torna ainda mais interessante se a elas acrescentarmos, seja a fim de esclarecer mais essa ideia, a partir de uma interpretação extraída de Rousseau, seja apenas com o intuito de criar um “trilho”, que faz ir e vir nossa reflexão sobre essas duas ideias, a do consenso, que é preciso dizer, Rousseau, em momento algum, neste capítulo, a ela faz referência explícita, o que, no entanto, não nos impede de trazê-la para o debate, e a partir desse acréscimo, enriquecer a compreensão sobre ambas as ideias ali apresentadas. Falar de Rousseau, da sua ideia de contrato, sem fazer referência à ideia de vontade geral, é o mesmo que ignorar que algum dia ele produziu alguma reflexão tangente à ideia de contrato. Seria mais interessante que Rousseau jamais fosse lido. Penso que da mesma forma é cabível o raciocínio de que é impossível falar e expor a ideia de vontade geral sem compará-la com a de vontade de todos, e sem, mesmo que, pelo menos, subentendidamente, refletir sobre a ideia de consenso. Em relação a essa idéia, é visivelmente claro que Rousseau, com a idéia de vontade geral radicaliza (ou supervaloriza) a idéia de consenso, embora não coloque essa idéia (o consenso) no centro de suas reflexões. Essa radicalização é claramente perceptível, quando, logo no início do terceiro capítulo do livro segundo, ele afirma: “a vontade geral é sempre certa e tende sempre à utilidade pública; donde não se segue, contudo, que as deliberações do povo tenham sempre a mesma exatidão”136 e mais adiante: (...) “se quando o povo suficientemente informado delibera, não tivessem nenhuma comunicação entre si, do grande número de pequenas diferenças resultaria sempre a vontade geral e a deliberação seria sempre boa”137. A partir disso podemos afirmar que Rousseau introduz uma ideia de consenso que não se apoia somente no aspecto quantitativo, mas, sobretudo, no aspecto qualitativo do que se deseja. A vontade geral é um “fio” que, na busca do consenso, liga todas, as vontades sem ser nenhuma delas em particular, mas cada uma delas em comunhão com todas simultaneamente. A vontade geral é um consenso absoluto e de base natural que traduz à essência de todas as vontades. Este consenso é qualitativo, pois não se limita apenas a soma dos votos dos indivíduos particulares na assembleia do povo, nem tampouco a soma das vontades particulares dos entes contratantes. Ele é qualitativo porque expressa a vontade pública que, ao mesmo tempo, é geral e particular, isto é, presente em cada um e em todos simultaneamente. Por outro lado, é também quantitativo porque não admite qualquer exclusão, tanto na elaboração quanto na execução. Essa nova ideia de consenso explicita uma ruptura com a ideia liberal de consenso que aliás é a que comumente se pratica entre nós, em nossas assembleias, eleições, enfim, deliberações conjuntas. O consenso por nós praticado tem sua base, se trouxermos Rousseau para esse debate, na ideia de vontade de todos, através do qual não se busca o ideal mas o possível. Porém, não o que é possível conforme um ideal geral, mas o possível conforme o ideal das vontades particulares. Citando Rousseau, ele assim enuncia: “Há comumente muita diferença entre a vontade de todos e a vontade geral. Esta se prende somente ao interesse comum; a outra, ao interesse privado, e não passa da soma das vontades particulares”138. O consenso da vontade de todos é, pois, um consenso fragmentado e fragmentável, o que significa dizer que ele soma as partes aceitantes, não necessariamente concordantes, despreza as vontades alheias, por não coincidirem com as vontades somadas e por serem 136 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p.91. 137 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p.92. 138 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 91. sempre a minoria. A partir disso estabelece uma regra que passa a vigorar como a expressão do desejo de todos e que, constatada uma nova soma (maioria, que não é necessariamente a mesma soma da maioria anterior,que agora mudou de ideia) de novas vontades aceitas, mesmo completamente diferentes das anteriores, já estabelecidas em contrato e mesmo na presença de novas vontades discordantes das novas vontades surgidas, é capaz de alterar ou mesmo invalidar, parcial ou totalmente, o consenso anterior, podendo produzir um novo contrato como a expressão da nova vontade de todos, sem que de fato seja, novamente na essência, a expressão da vontade de todos e nem nova. O consenso da vontade de todos é um consenso destinado à prática. É racional, enquanto é uma racionalidade de cálculo, ou seja, enquanto calcula o número e a conveniência do que está em jogo e objetiva um resultado que penda, mesmo que ligeiramente, a favor de sua exequibilidade prática. É um consenso onde cada contratante está potencialmente numa relação de perda e ganho, objetivando, em última análise, sempre ganhar alguma coisa, seja agora ou mais adiante. Porém, podem existir aqueles que, nessa relação, podem perder mais do que ganhar. No entanto, se mantém na perspectiva de, mais adiante, em uma outra relação poderem eventualmente ganhar, quando outro (ou outros) perderá. Nesse tipo de consenso, pode receber papel de destaque o poder de persuasão. Pessoas com maior habilidade de argumentar a seu favor e/ou com maior grau de instrução tendem a levar vantagem no debate, e atrair a seu favor um maior número de simpatizantes, podendo fazer assim entender que, até mesmo a vontade de uma minoria seja aceita como sendo a vontade de todos. Isso não produz o desejo absoluto da vontade, mas uma vontade absolutista. A vontade geral está primeiramente preocupada em produzir um consenso ideal que, uma vez alcançado, mais facilmente torna sua vontade exequível, embora não esteja ali, na possibilidade da exequibilidade, sua preocupação primeira. Também o consenso da vontade geral é racional. No entanto, sua racionalidade não é calculo, nem previsão fácil. Sua racionalidade está voltada para a consciência enquanto juízo moral, enquanto preocupação ética interessada em atingir a essência da vontade humana, entendendo que ali, sim, está a vontade geral que não é a vontade de todos. Para esse consenso não existe fórmula pré-estabelecida. Cada povo, cada comunidade tem sua consciência e é somente dela que se vai extrair a vontade essencial (vontade geral). Seu cálculo consiste apenas em subtrair os a-mais e os a-menos, mantendo- se o núcleo que, por sua vez, é a vontade geral e que, por conseguinte, é o consenso em sua forma mais sublime e radical. Nas palavras do autor genebrino, em Do Contrato Social, apenas dando direta continuidade à citação anterior, assim se lê: “Quando se retiram, porém, dessas mesmas vontades, os a-mais e os a-menos que nela se destroem mutuamente, resta, como soma das diferenças, a vontade geral”139. Desta forma, não é concebível que alguma das partes entre nesta negociação e se predisponha a perder, transferindo sua vontade para que o outro venha a obter vantagem, mesmo que, em outra ocasião, espere retorno da vantagem. Concebe-se apenas que cada qual conserve o que de fato e de essencial tem e não pode perder nem ganhar, pois não há mais necessidade de ganhos, não sendo possível haver a-mais e a-menos em qualquer dos lados, pois a vontade geral somente a é, quando já se extraíram as diferenças e se descobriu a essência da vontade de todos. Não se pode conceber ganho, nem no momento da ação contratante, nem em qualquer outra oportunidade futura, embora com isso não se queira dizer que o consenso da vontade geral seja imutável. Não há ainda, de forma alguma, a possibilidade de que o consenso venha a acontecer, utilizando-se do mecanismo da persuasão, pois a vontade geral, em ato, não pressupõe a inconsciência, nem a inconsistência, nem a incoerência e tampouco a contradição. Esse consenso representa, pois, uma consciência comum e suficientemente amadurecida. Ela é apenas descoberta ao longo do diálogo e/ou do debate. Sua construção não se dá por meio de influências externas, mas apenas por deliberações internas da própria vontade, respaldada pela consciência. Desta forma Rousseau esclarece o quanto para ele a vontade deve ser livre no sentido de acontecer conforme uma vontade natural livre. O elemento natural é sempre decisivo no pensamento de Rousseau e está sempre em relação íntima com a ação livre desempenhada pela consciência humana. Se fôssemos estabelecer paralelos entre vontade de todos, e a vontade geral, penso que não seria equívoco afirmar que há uma significativa diferença em termos conceituais e práticos entre a primeira e a segunda. A vontade geral não é obtida a partir da evolução do consenso da vontade de todos. Não é, pois, o estágio final desta última. 139 . ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p.91-92. Para o autor do Do Contrato Social, a vontade geral é de fato um novo conceito que deve inaugurar uma nova prática política, pois da vontade de todos para a vontade geral há uma ruptura que exige um salto qualitativo, portanto, uma nova concepção e uma nova ação. Esclarecendo isso, poderíamos dizer que todos os indivíduos num primeiro momento apresentam desejos particulares que pretendem sejam realizados conforme suas vontades particulares. Essas vontades são inicialmente apenas aspirações pessoais. Quando, porém, são externadas e entram na relação com as outras e se percebem as diferenças por entrarem em conflito, se evidencia o que é a vontade de todos, pois não se trata de buscar a essência mas apenas o interesse particular. É o que podemos extrair de Rousseau a partir da terceira citação do autor, anteriormente apresentada, quando ele afirma que a vontade de todos pretende somente o interesse privado. Como simplesmente permanecer na situação da vontade de todos atende menos ainda ao interesse particular, caminha-se para superar esse estágio, evoluindo-se para o consenso da vontade de todos. O consenso elaborado a partir da vontade de todos é uma evolução da vontade particular do indivíduo em direção a uma vontade comum, mesmo que isto aconteça por uma necessidade, sem deliberação necessariamente ética, volitiva e em consciência dos anseios comuns, em sua essência. Isso significa que, antes mesmo da vontade de todos, encontramos em cada indivíduo todas as suas vontades. E todas as vontades de todos os indivíduos simplesmente a nada levam. Passa-se então à idéia de vontade de todos, onde a intenção é, a partir disso produzir o consenso. O consenso da vontade de todos se dá com a elaboração final do contrato, que, por sua vez, se caracteriza essencialmente como o instrumento de defesa e manutenção das vontades particulares. A vontade de todos soma as vontades que todavia não são, na essência, os desejos de todos. Porém, diante do cálculo das perdas e ganhos, todos concordam que tais vontades assumam um valor de vontade de todos. Esse consenso, pois, apresenta maior restrição. Há um crivo mais estreito, uma análise mais calculada por onde passam as vontades de todos, até haver uma certa consolidação. Desta forma fica evidente que para o indivíduo produzir consenso, ele precisa abdicar muito da sua liberdade e de muitas das suas liberdades. Todas as vontades de todos são inúmeras e até complexas. Já o consenso da vontade de todos deve ser um enxugamento de todas essas vontades para assim em consequência direta chegar-se ao consenso final. O consenso aqui tem uma relação direta com ideia de consentir, ou conceder, isto é, eu concedo enquanto também o outro concede, seja agora ou mais adiante. O consenso da vontade geral é interno e inerente ao indivíduo. Ele não é algo que vai acontecendo e sendo construído na consciência do indivíduo, mas ele é a consciência racional comum em todos os indivíduos. É nesse sentido que o consenso da vontade geral nãoevolui. Ele lá está no íntimo da consciência de cada indivíduo e vai se manifestando seguidamente conforme cada situação vivida pelo indivíduo-cidadão. Esse consenso não passa a existir e nem advém do exterior. Ele existe e é interior ao indivíduo. Expressa, portanto as aspirações aceitas internamente pelos indivíduos na relação com os outros. Assim sendo, ele não se constrói na sociedade e nos indivíduos. Ele apenas é descoberto porque sua essência já está presente. Esse consenso é extraído da lei universal da consciência humana. Nesse sentido ele também não é dialético, pois não se concebe que nele ocorra um processo de destruição e construção. 3.8 A POLÍTICA E SUA FUNÇÃO PEDAGÓGICA NA FORMAÇÃO MORAL DO CIDADÃO Para Rousseau, a liberdade é uma categoria intrínseca à essência e à natureza do ser humano., cujo valor para a sua teoria política é incalculável. Ao mesmo tempo que, para ele, deve ser concebida como um forte apelo da consciência de cada um e, nesse sentido, como essência e propriedade julgadora de domínio sagrado de cada indivíduo em particular, igualmente deve não estar restrita no indivíduo somente na relação consigo mesmo, ou na relação de cada um com o outro ou ainda de si com todos, entendendo-se o um, o outro e o todos separados do conjunto do todo. Assim, apesar de o autor do Do contrato conceber que a origem da liberdade e da moralidade se dá a partir de uma vontade interior, que é a consciência (moral) de cada indivíduo, concebe também que a sua realização de fato necessita que se exceda, isto é, que elas necessariamente devem expressar-se de forma prática em ações cuja razão única seja a realização da vontade geral. Para Jean-Jacques, não basta que essa vontade esteja apenas lá onde ela brota em cada ser particular e onde é capaz de se encontrar com todas as outras, ou seja, na consciência. É necessário que ela seja, simultaneamente, consciência individual e coletiva e igualmente prática individual e coletiva. Compreender a liberdade no limite de cada homem não nos fornecerá de fato um bom entendimento a respeito da liberdade como categoria moral possível ao homem civilizado, no sentido de libertá-lo da corrupção imposta pela civilização. A liberdade dá-se numa relação menos estreita com a ideia de consciência e direito individual e se coloca numa relação mais íntima com a ideia de dever coletivo, e, nesse sentido, ela tem necessidade, para efetivar-se, de passar pela prática coletiva. O homem não deve em nome da liberdade concedê-la ou adquiri-la junto a outros. Por outro lado, ela também não é, segundo Rousseau, entendida apenas no campo da ação externa. Nesse sentido Rousseau apresenta uma crítica ao conceito de liberdade liberal, no sentido do cuidado que tem de alertar de que o corpo social não é algo fragmentado composto de partes que formam um todo, mas um todo essencial no qual cada uma das partes se vê essencialmente presente. A liberdade só pode ser entendida como tal se não for exercida essencialmente com base em um princípio particular e fragmentado, pois essa visão não fornece nenhuma garantia de que o homem não possa no seu exercício corromper ou ser corrompido. A liberdade humana não deve se pautar em princípios que defendam a livre iniciativa de cada indivíduo, pois é evidente que diferentes indivíduos podem desejar e praticar diferentes ações que podem ser parcial ou radicalmente consensuais, como podem ser igualmente conflituosas. Dando-se primazia a livre iniciativa, nem o consenso, qualquer que seja o seu grau, é resultante do exercício da vontade geral, uma vez que é apenas uma coincidência, e tampouco o conflito, que denuncia, neste caso, o individualismo, que por sua vez é antagônico ao exercício da vontade geral Foi desta forma que o homem se corrompeu e como mau menor ou seu atenuador, instituiu o Estado para preservar algumas liberdades, porém não mais a liberdade. É do entendimento e da prática da liberdade, em sua intrínseca relação com a moral, que decorre o entendimento e a prática política, enquanto possibilidade de exercício da moralidade e que se constroem as relações entre os homens e a partir delas devem ser fundadas e fundamentadas as instituições políticas. Como contraponto, apresentamos brevemente uma crítica a esta ideia de liberdade de Rousseau feita por Hannah Arendt que refuta veementemente a ideia rousseauniana de estabelecer o princípio da liberdade a partir da ideia de vontade, que parte de uma motivação interior, movida pela ética da consciência que motiva o indivíduo a partir de uma vontade interior que se estenderá à ação ética externa, identificada assim com a prática política. Para Arendt, a liberdade entendida com base no interior é uma derivação Agostiniana de uma vontade cristã, concepção jamais anteriormente experienciada. Na visão da filósofa alemã, entre os gregos e romanos, não se concebia liberdade que não estivesse diretamente relacionada com a ação política. Segundo Arendt, Rousseau incorreu no erro de construir sua teoria da liberdade partindo do princípio derivativo concebido filosoficamente e não de um princípio prático e empírico com o qual a liberdade mantém direta relação. Assim enuncia: A liberdade que admitimos como instaurada em toda a teoria política e que, mesmo os que louvam a tirania, precisam levar em conta é o próprio oposto da liberdade interior, o espaço íntimo no qual os homens podem fugir da coerção externa, e sentirem-se livres. Esse sentir interior permanece sem manifestações externas e é, portanto, por definição, sem significação política. qualquer que possa ser sua legitimidade, e a despeito de quão eloquentemente ele tenha sido descrito no fim da antiguidade, é ele historicamente um fenômeno tardio, e foi originalmente um resultado de um estranhamento do mundo no qual as experiências se transformavam em experiências com o próprio eu. As experiências de liberdade interior são derivativas no sentido de que pressupõem sempre uma retirada do mundo, onde a liberdade foi negada para uma interioridade na qual ninguém mais tem acesso.140 140 ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972. P. 188. 3.9 O ESTADO SEGUNDO ROUSSEAU Voltando a Rousseau, após analisarmos seu entendimento sobre a liberdade necessitamos esclarecer brevemente seu entendimento sobre o Estado, fundamental para um maior esclarecimento da sua concepção a respeito da política, e continuamos na direção de compreendermos a função pedagógica da mesma, segundo o contratualista de Genebra. O Estado proposto por Rousseau é fundado em uma sociedade em que a política e a lei se tornam instrumentos pedagógicos na educação do cidadão. A política é, pois, vista como um meio de construção do homem moral. Se foi, de acordo com Rousseau, quando o homem começou a estabelecer relações entre si que ele percebeu-se capaz de praticar o mal, será também no campo das relações políticas que deverá buscar sua redenção. Segundo Cassirer: Rousseau de modo algum vê no Estado uma mera associação, uma comunidade de interesses e nem um equilíbrio dos interesses de vontades isoladas. O Estado não é, segundo ele, um mero sumário empírico de determinados impulsos e inclinações, de determinadas veleidades, mas é a forma na qual a vontade, enquanto vontade moral, realmente existe. A lei em seu sentido puro e rigoroso não é um fio que se junta de maneira puramente exterior às vontades individuais impedindo que se separem; ela é, ao contrário, o princípio constitutivo; é o que as fundamenta e justifica espiritualmente. Ela pretende dominar os cidadãos a medida que, em cada ato individual, ao mesmo tempo os torna cidadãos e os educa para serem cidadãos.141 141 . CASSIRER, Ernst. A Questão Jean-Jacques Rousseau. São Paulo: UNESP, 1997. P. 63.A política pode, pois, por um lado, ser um instrumento perpetuador da corrupção do homem, como pode, também, por outro lado, ser o caminho para a sua educação moral, pois, segundo Rousseau, foi quando ocorreram as intensificações das relações políticas que o homem selou sua corrupção e, será, pois, somente por elas que ele poderá se salvar142. Ali, onde o mal é praticado, igualmente ali ele deve ser eliminado e substituído pelo bem. Em O Emílo (ou Da Educação), assim enuncia: “É preciso estudar a sociedade pelos homens e os homens pela sociedade; quem quiser tratar separadamente a política e a moral, nada entenderá de nenhuma das duas”143. Até a época de Rousseau, predominava a ideia de política ou como atividade de participação nas decisões que regulamentariam a condução das instituições em defesa do cidadão, objetivando construir a sempre almejada harmonia, ou o conceito de política como o espaço da correlação das forças e privilégios. Assim, política não é, pois, algo ideal, mas algo possível. O pensamento político vigente privilegiava a vontade da maioria e não a vontade geral e isso, segundo Rousseau, precisa ser modificado. A proposta política de Rousseau a partir da ideia de vontade geral não centraliza seu foco na ideia de política como necessidade que tem o indivíduo em decidir o que precisa ou o que precisam os indivíduos para bem estabelecer as inter-relações sociais. A proposta centra a ideia de política no princípio do dever moral. Surge, assim, a atividade política como um exercício moral visando vivenciar uma cidadania plena e não uma atividade política como uma prática de cidadania, em que cada um é chamado a fazer a sua parte para o bem de todos e a harmonia social. Nessa proposta política, a preocupação de fato não está na ideia de política como participação ou reivindicação de direitos para si e/ou para a coletividade. É na política que o indivíduo, na relação com os outros, vê-se e é estimulado a agir como ser moral. É o melhor espaço para praticar o bem, não o bem comum como 142 Ver primeiro capítulo desta parte (unidade sobre o Estado). 143. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou, da educação. Trad. Roberto Leal Ferreira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 309. atividade caritativa ou social apenas, mas o bem moral individual que necessariamente se confunde com o bem moral coletivo e inerente à vontade geral. Essa ideia (vontade geral), como já vimos, não apresenta uma concepção de política alicerçada na vontade da maioria, ou seja, não se confunde com a ideia de democracia liberal. É radical em relação a ela. Sustenta-se, não na funcionalidade e na justiça equitativa, mas na moralidade. É a política que se estabelece, não a partir dos critérios de quantidade e sim de qualidade. A consciência é a sua base de sustentação. Segundo Rousseau, é a educação que melhor pode contribuir para a formação do homem político, e a melhor forma de educar o homem moralmente é através do exercício da nova política, cuja base é a educação recebida pelo Emílio. A política deve, uma vez o novo cidadão inserido na sociedade, assumir um papel pedagógico, ou seja, pelo exercício da política, agora repensada, a partir do exemplo do novo cidadão, construir-se- á uma outra ação política e uma nova sociedade. Se se tratasse apenas de mostrar aos jovens o homem por sua máscara, não precisaríamos mostrá-lo, pois eles sempre o veriam. Mas já que a máscara não é o homem e é preciso que o seu verniz não os seduza, ao representar-lhes os homens representai-os tais como são, não para que os odeiem, mas para que os lamentem e não queiram parecer-se com eles. Este é, na minha opinião, o sentimento mais inteligente que o homem possa ter sobre sua espécie.144 A educação do homem não deve desenvolvê-lo para adequá-lo às regras e à ordem social, mas para, a partir dele, construir uma nova sociedade. Segundo Milton Meira Nascimento “Educar o indivíduo para viver numa sociedade já corrompida, é 144. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou, da educação. Trad. Roberto Leal Ferreira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. aceitar que os interesses particulares predominem sobre o interesse geral, é contribuir para que o processo de desagregação da organização política se acelere mais ainda”145. Rousseau entende que o indivíduo precisa primeiro descobrir-se em sua natureza (essencialmente boa) certificar-se e firmar-se nela para, então, desenvolver-se essencialmente nas suas relações sociais. Deve descobrir-se não como essencialmente corrupto, mas como essencialmente inocente, o que o comprometerá com o exercício do dever moral. Portanto, é na sociedade, e jamais fora dela, que está claramente posta a possibilidade do bem e do mal. Para Jean-Jacques, o homem, ao associar-se, não pensou em fazê-lo para humanizar-se ou moralizar-se e nem atendeu a qualquer apelo da sua consciência, mas tão somente viu no outro o mal e, no outro, viu-se como maldoso. Associou-se, portanto, para utilizar o seu semelhante como um escudo protetor de si e como um refém a ser utilizado em caso de adversidades. A sociedade representa a corrupção do homem. Ele somente vê no outro a ameaça. Está sempre na eminência do mal. Isso, pois, aniquila sua natureza que é essencialmente boa. Quando vivia no estado de natureza, combatia seu semelhante não para subjugá-lo e dele fazer uso, mas, sim, apenas quando sua sobrevivência estava em jogo. Suas ações eram desprovidas de caráter moral. Elas eram apenas naturais. Sua razão não calculava, agia apenas naturalmente. No momento em que passou a fazer uso da razão para organizar sua vida fora da consciência natural é que ele se corrompeu. Referindo-se ao seu ideal de educação para o Emílio, Rousseau afirma: Eu desejaria que se escolhessem de tal forma as amizades de um jovem que ele pensasse bem dos que vivem com ele; e que lhes ensinasse a conhecer tão bem o mundo que ele pensasse mal de tudo o que se faz nele. Saiba ele que o homem é naturalmente bom, sinta-o, julgue seu próximo por si mesmo; mas veja ele como a sociedade deprava e perverte os homens; descubra nos preconceitos a fonte de todos os vícios dos homens; seja levado a estimar cada indivíduo, mas despreze a multidão; veja que todos 145. NASCIMENTO, Milton Meira. O Contrato Social: entre a escala e o programa. Discurso 17, p. 15 -18, São Paulo: USP, 1988. os homens carregam mais ou menos a mesma máscara, mas saiba também que existem rostos mais belos do que a máscara que os cobre.146 Para o autor do Contrato Social, se a convivência social foi capaz de corromper o ser humano, também por ela será viabilizada a recuperação moral deste mesmo ser humano, (...mas saiba também que existem rostos mais belos do que a máscara que os cobre). Assim sendo, a salvação do homem está nele próprio enquanto ser social. Rousseau identifica a convivência social como fatal inserção do homem ao mundo do mal. No estado natural, conforme já afirmado anteriormente (no capítulo I deste trabalho), os homens se “degladiavam” por instinto de natureza e de sobrevivência, e isso não deve ser associado a nenhum mal moral, e quando o primeiro homem propôs associar- se, não o fez para proteger o outro. Sua intenção era tão somente proteger-se ou subjugar o outro. Por isso, enquanto viviam dissociados não cabia concebê-los como seres morais, pois não cabia o juízo do bem nem do mal. Não havia pecado e não havia necessidade de salvação. A ideia de moral é simplesmente inaplicável ao homem natural. No momento em que o homem se humaniza, ele perde sua humanidade. A civilização o afastou da sua essência e assim sentiu e sente necessidade do bem. Este raciocínio induz, num primeiro momento, à ideia de que a atividade política ou as relações políticas que o homem estabeleceu ao longo da história, devido ao então inevitávelconvívio social, é simplesmente sinônimo do mal e nada mais do que, isto e de que para evitar a corrupção do homem, faz-se necessário eliminar a política. Rousseau realmente concorda que as relações políticas são responsáveis pela corrupção da espécie humana. As relações sociais humanas são essencialmente relações políticas. Todos os acordos desde os mais simples e corriqueiros até os mais complexos, revelam o animal político que o homem se tornou ao longo da história. E, de fato, não há como negar que é na política que o homem se corrompeu. Contudo, essa visão que Rousseau apresenta sobre a política não é a visão definitiva. O raciocínio é lógico; se foi pela política que o homem se corrompeu, por mergulhar nas relações sociais, é óbvio que deverá ser pela política que ele irá buscar sua 146 ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou, da educação. Trad. Roberto Leal Ferreira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 311. salvação147. A política é, acima de tudo e essencialmente, a possibilidade do exercício moral. Ou seja, para o autor do Contrato Social, como há, na política flagrantemente espaço para a corrupção (a pratica do mal) do homem, há igualmente espaço para a prática moral. Assim enuncia no Emílio: Tendo o Emílio até o presente olhado apenas para si mesmo, o primeiro olhar que lança a seus semelhantes leva-o a comparar-se a eles, e o primeiro sentimento que excita nele esta comparação é desejar o primeiro lugar. Eis o ponto em que o amor de si transforma-se em amor-próprio e onde começam a nascer todas as paixões que dele dependem. Mas para saber se as paixões que prevalecerão em seu caráter são humanas e doces ou cruéis e maléficas, se serão paixões de benevolência e de comiseração ou de inveja e cobiça, é preciso saber que lugar ele julgará ser o seu em meio aos homens, e que tipos de obstáculos acreditará ter de vencer para chegar ao lugar que pretende ocupar.148 A proposta política de Rousseau, com base na vontade geral, não pretende corrigir os erros históricos. Pretende apenas possibilitar ao homem a sociedade que, por dever, ele pode constituir. Os homens, em suas relações e organizações, podem dar provas do seu caráter. O exercício da política será o maior aliado do homem para o exercício do bem. Se foi pela política que o mal surgiu, não seria aceitável evitá-la para evitar o mal, pois isso seria concordar com a perpetuação do mal. Assim Rousseau acredita que ainda há claramente um caminho não para reconduzir o homem ao caminho do bem (estado de natureza), mas para , mesmo dentro da civilização, encontrar o caminho da vivência moral. Se foi na sociedade que o homem 147 Com sua teoria da inocência natural, Rousseau se indispõe com a Igreja, pois negava o dogma do pecado original. A Igreja, através do arcebispo de Paris, Christophe de Beaumont, não tardou em amaldiçoar o Emílio. Segundo Cassirer, “Afirmação de que os primeiros movimentos da natureza humana são sempre inocentes e bons estaria em total desacordo com tudo o que a sagrada escritura e a Igreja ensinaram acerca da ess6encia do homem” (Cassirer, 1999, p. 73). 148. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou, da educação. Trad. Roberto Leal Ferreira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 309. se corrompeu, também nela deve buscar reencontrar sua essência moral. Por isso entende que, ao entrar em sociedade e estabelecer suas relações com os outros indivíduos, o homem não se desfez da sua essência boa, apenas a ofuscou e a corrompeu. Ela continua lá, embora maculada em sua essência. Não será eliminando a sociedade e a política, que se eliminará o mal. Se esse raciocínio fosse válido, dever-se-ia eliminar então a própria espécie humana. O homem vive na civilização, porém não vem ao mundo com a essência civil e, sim, com a essência inocente. 3.10 SOBRE O ABSOLUTISMO DA IDEIA DE VONTADE GERAL A teoria política de Rousseau, vista a partir do conjunto de suas obras, possibilita-nos fazermos reflexões diversas, muitas delas inclusive antagônicas, porém, nem por isso inconsistentes e incoerentes ao seu pensamento. Analisando o conjunto de sua obra, encontramos, por exemplo, no Discurso sobre a desigualdade, no que concerne às suas ideias políticas, subsídios para uma teoria antissocial e, portanto, em certo sentido de cunho primitivista e também individualista. Já no Contrato Social, temos a possibilidade de elaborar reflexões que nos convencem, sem muita dificuldade, a respeito de um Rousseau avesso ao individualismo e, portanto, radical defensor da vida social, ou seja, radicalmente adepto ao coletivismo, podendo, desse modo, ser identificado como vanguardista na elaboração e apresentação de muitas ideias que, posteriormente, seriam classificadas explicitamente como ideias socialistas. Explorar cada uma dessas possibilidades da vertente de seu pensamento, tendo presente o conjunto de sua obra, seria deveras enriquecedor para este trabalho. No entanto, como temos feito até aqui uma reflexão, tendo por foco não uma análise detalhada a respeito do conjunto do seu pensamento político e, sim, uma análise mais atenta sobre sua ideia de vontade geral, penso ser ainda necessário dispensar alguns momentos de reflexão para analisar, também, algumas críticas dirigidas diretamente ao objeto de estudo deste trabalho, mais especificamente, àquelas identificadas como francamente divergentes às tradicionais interpretações dadas à ideia de vontade geral. Assim sendo, julgamos ser indispensável proporcionar aqui uma reflexão, guinando nosso pensamento no sentido de explorar, além de um Rousseau radicalmente democrático, como o temos apresentado até aqui, partindo da ideia de vontade geral, também um Rousseau concebido, em outra vertente de análise, a partir de alguns dos seus críticos ou críticas atribuídas às suas ideias, como inspirador, em ideal, de uma proposta política totalitária, se tomada, em vias de fato, a execução de sua ideia de vontade geral. Segundo esses críticos, que serão oportunamente nominados, constitui-se tarefa difícil esclarecer a possibilidade da concretização real e prática da ideia de vontade geral, por estar ela entranhada de um forte teor utópico e marcado, em sua essência, por um ideal de vontade radicalizada, no sentido de forçar uma conduta padrão, que, para Rousseau, era concebida como viável somente se respeitada sua essência de liberdade. Eis o espaço para as críticas a respeito de que, para concretizá-la, deveria necessariamente haver algum tipo de imposição. É latente que, com o ideal de vontade geral, Rousseau tenta recuperar, sob certo aspecto, o conceito de democracia direta grega, radicalizando-o, como um ideal, que, no entanto, ele não concebia apenas como ideal, mas como uma proposta a ser praticada. De fato, é correto afirmar que sua proposta, fundamentada na ideia de vontade geral, não tinha por fim apenas a sustentação de uma ética de discurso ou um discurso ético, o que fica claro em suas considerações sobre a Polônia e sobre a Córsega, quando, escrevendo a esses dois povos, buscou elaborar uma proposta real para uma sociedade tal como se apresentava, visando, de alguma forma, apontar caminhos que pudessem conduzir à concretização do seu ideal outrora proposto, embora se defrontasse com inúmeras limitações. Igualmente em Do Contrato Social essa preocupação é perceptível quando apresenta sua proposta de povo, nação, território, governo e identifica, na “República de Genebra”, grandes possibilidades de efetivação do ideal de vontade geral. Para seus críticos, porém, sua proposta, pode ser admitida como radicalmente democrática, desde que não se pretenda transpô-la da teoria à prática, ou seja, desde que não haja a ousada pretensão de querer ver realizado esse ideal, o que significa que jamais será possível implantá-la de forma a preservar radicalmente a liberdade.Para alguns analistas, não é possível, em termos práticos, a partir dela, sequer uma democracia parcial, por não fazer concessões e, muito menos, uma democracia radical. O ideal de Rousseau, como temos analisado até aqui, se propõe a construir cidadãos radicais, ou seja, em total dedicação ao bem público, constituindo-se essencialmente como um ser coletivo e totalmente abnegado dos seus interesses particulares, para dedicar-se totalmente ao interesse público. A questão a se resolver, pois, é saber se é possível fazer isso acontecer, de acordo com as pretensões do autor do Contrato, sem que haja necessidade, para isso, de qualquer tipo de imposição, ou saber se a proposta já não solapa, em seu próprio fundamento, ou seja, se se trata tão somente de uma dedução abstrata, ou se seu ponto de partida encontra respaldo empírico em algum momento na história ou em qualquer realidade vivida. Segundo Hannah Arendt, o erro cometido por Rousseau foi o de ter derivado sua ideia de liberdade a partir do princípio da vontade humana sustentada no valor da consciência. Consequentemente derivam também, na essência, suas ideias políticas não de um princípio identificado essencialmente com a ação humana externa e, sim, de um ideal que só pode ser considerado em sua significação substancial como sendo acionado e sustentado por uma causa motivadora interna. Para Rousseau, a consciência humana seria a primeira e principal determinante do processo político, ou seja, a base da construção política estaria relacionada a um princípio interno, determinado pela vontade humana livre, considerando menos o que é essencial em termos de política, que é o conjunto das ações práticas vivenciadas empiricamente pelos cidadãos. A liberdade humana não pode ser derivada de um conceito abstrato, isto é, metafísico. Segundo Hannah Arendt, a vontade geral, até mesmo enquanto ideal, deve ser questionada em seus fundamentos. É necessário questionar como é possível chegar até mesmo a concebê-la, ou seja, se há nela alguma sustentação empírica, como podemos perceber no seguinte fragmento: O ponto de vista das considerações que seguem é que o motivo para essa obscuridade está em que o fenômeno da liberdade não surge absolutamente na esfera do pensamento, que nem a liberdade nem o seu contrário são vivenciadas no diálogo comigo mesmo no decurso do qual emergem as grandes questões filosóficas e metafísicas, e que a tradição filosófica, cuja origem a esse respeito consideramos mais tarde, destorceu, em vez de esclarecer, a própria ideia de liberdade, tal como ela é dada na experiência humana, ao transpô-la de seu campo original, o âmbito da política e dos problemas humanos em geral, para o domínio interno, a vontade, onde ela seria aberta à autoinspeção.149 Ao derivar a liberdade de um princípio interno identificado com a vontade (e a consciência) individual, Rousseau, de acordo com Arendt, concebe o poder político, à imagem estrita da força individual. Segundo a filósofa alemã, uma vez que Rousseau sustenta que o poder deve ser soberano e, portanto, indivisível, pois uma vontade dividida seria inconcebível, ele desliza em uma nítida ideia capaz de dar sustentação a um individualismo extremo, ratificada com sua afirmação de que em um estado ideal, os cidadãos não têm comunicação entre si e, ainda, que cada cidadão deve pensar somente seus próprios pensamentos. Afirmei que os filósofos começaram a demonstrar interesse pelo problema da liberdade quando a liberdade não era mais vivenciada no agir e na associação com os outros, mas no querer e no relacionamento com o próprio eu; em resumo, quando a liberdade se tornou livre-arbítrio. Desde então, a liberdade tem sido um problema filosófico de primeira plana e, como tal, foi aplicada ao âmbito político, tornando-se assim também um 149. ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972. p. 191. problema político. devido ao desvio filosófico da ação para a força de vontade, da liberdade como um estado de ser manifesto na ação para o liberum arbitrum, o ideal de vontade deixou de ser um virtuosismo no sentido que mencionamos anteriormente, tornando-se a soberania, o ideal de um livre arbítrio, independente dos outros e eventualmente prevalecendo sobre eles. (...) Essas palavras ecoam, obviamente, no pensamento de Jean-Jacques Rousseau, o representante mais coerente da teoria da soberania, derivada por ele diretamente da vontade, de modo a poder conceber o poder político à imagem estrita da força de vontade individual.150. Segundo Arendt, essa teoria da liberdade não somente reforça a ideia do individualismo, como faz germinar tiranias, tanto as de cada indivíduo para cada indivíduo, como a tirania do corpo político: “Além disso, um estado em que não existe comunicação entre os cidadãos e onde cada homem pensa apenas seus próprios pensamentos é, por definição, uma tirania”151. De acordo com Arendt, a ideia de derivar a liberdade de uma causa motivadora interna da vontade (consciência) é uma criação metafísico-cristã, uma vez que, para os gregos e os romanos, a liberdade conservava permanentemente uma relação intrínseca com as relações externas, no mundo das ações, ou seja, no mundo das relações políticas. Para a história do problema da liberdade, a tradição cristã tornou- se de fato o fator decisivo. Quase que automaticamente equacionamos liberdade com livre-arbítrio, isto é, como uma faculdade virtualmente desconhecida para a antiguidade clássica, pois o arbítrio, como o descobriu o cristianismo, tem tão pouco em comum com as conhecidas capacidades para desejar intentar e visar a algo que somente reclamou atenção depois de Ter 150. ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972. p. 211-212. 151. ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972. p. 212. entrado em conflito com elas. Se a liberdade não fosse realmente mais que um fenômeno do arbítrio, seríamos forçados a concluir que os antigos não conheciam a liberdade. Evidentemente isso é um absurdo, mas se alguém quisesse defendê-lo, poderia argumentar algo que mencionei antes, a saber, que a ideia de liberdade não desempenhou nenhum papel na filosofia anterior a Agostinho. A razão para esse notável fato é que, tanto na antiguidade grega como na romana, a liberdade era um conceito exclusivamente político, a quintessência, na verdade, da cidade- estado e da cidadania.152 Considerando, pois, a ideia de vontade geral em termos de realização concreta, segundo a proposta de Rousseau, o problema da democracia direta e das liberdades individuais, de acordo os críticos da ideia de vontade geral, parece ser uma questão insolúvel, pois como é possível, de acordo com os termos de Jean-Jacques, mencionados por Arendt, por exemplo, conciliar o seu ideal de democracia direta com sua efetiva realização, sem recorrer a qualquer tipo de imposição que obrigue o indivíduo a preferir o público em detrimento de sua individualidade, isto é, sem, aniquilar ou reduzir drasticamente o espaço de atuação individual. Em complemento a isso e em relação ao ideal de democracia direta dos gregos, Giovanni Sartori, comparando o espaço de atuação do indivíduo entre a vida pública e a privada, assim enuncia: Um autogoverno real, como os gregos o praticavam, requeria que o cidadão se dedicasse completamente ao serviço público. Governar a si mesmo significava passar a vida governando. o cidadão entregava-se totalmente ao Estado; dava seu sangue na guerra; seu tempo na paz; e não tinha liberdade de por as questões 152. ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972. p.205. públicas de lado e cuidar de seus interesses pessoais... ao contrário, tinha de negligenciá-lospara trabalhar pelo bem da cidade. O grau de envolvimento requerido pela fórmula era tão absorvente que um desequilíbrio profundo foi criado entre as funções da vida social. A hipertrofia política trouxe consigo a atrofia econômica: quanto mais perfeita se tornava sua democracia, tanto mais pobres ficavam os cidadãos. Criou-se um círculo vicioso de busca de solução política para uma necessidade econômica: para compensar a produção insuficiente de riqueza, era preciso confiscar a riqueza. Parece, então, que a democracia da antiguidade estava fadada a ser destruída pela luta de classes entre ricos e pobres, por ter produzido um animal político em detrimento do homo aeconomicus. A experiência grega gerou uma “cidadania total” que foi longe demais153. Segundo João Paulo Monteiro, a recusa da própria possibilidade efetiva da democracia, nos é dada pelo próprio Rousseau, ao afirmar em Do Contrato Social que: Tomando-se o termo em todo o rigor de sua acepção, jamais existiu uma democracia verdadeira, nem jamais existirá. É contra a ordem natural o maior número governar, e o menor número ser governado. Não se pode imaginar que o povo permaneça constantemente em assembleia para tratar dos negócios públicos, e compreende-se facilmente que não se poderia para tal estabelecer comissões sem mudar a forma de administração154. 153 . SARTORI, Giovanni. A teoria da democracia revisitada. Vol. 2. São Paulo: Ática, 1994, p. 39. 154. ROUSSEAU apud MONTEIRO, João Paulo. Democracia Hobbesiana e autoritarismo Rousseauniano. Manuscrito, São Paulo, v. 3, n. 2, abr. 1980, p. 37. Para Monteiro, Rousseau “relega a questão da democracia para o território das utopias”155 ao afirmar ainda no Contrato que, “se existisse um povo de deuses, governar- se-ía democraticamente. Um povo tão perfeito não é próprio para homens”156. Deste modo, segundo Monteiro, o ideal de vontade geral enquanto ideal é aceitável e compreensível, porém, impossível enquanto possibilidade efetiva de democracia. Pensamos que o valor da proposta política de Rousseau, fundamentada no ideal da vontade geral, não está na possibilidade ou não da sua viabilidade empírica, mas, sim, no seu alcance filosófico. É cabível e coerente com Rousseau e com seu ideal, que se tome o cuidado de entender a ideia de vontade geral muito mais como um ideal do que como uma proposta concreta, o que o próprio Rousseau já de certa forma teve o cuidado de registrar157 quando afirmou que o ideal de comunidade, entendendo aqui como a possibilidade de realização da sua proposta, seriam as pequenas repúblicas, com uma pequena população e um pequeno território. Com isso ele próprio se deu conta das dificuldades práticas. A ideia de vontade geral representa uma ousada reflexão e proposta de Jean- Jacques, e nada deve impedir que se pense num ideal, desde que de forma racional, lógica e comprometida com um projeto, mesmo que seja apenas uma possibilidade ideal e remota ou uma impossibilidade real ou prática em sentido imediato. É no idealismo rousseauniano, em suas contradições, coerências e incoerências, possibilidades e impossibilidades que, de fato, podemos pensar o pensamento de Rousseau e não nas possibilidades de se reduzir sua proposta a uma ou outra interpretação, seja ele de fundo empírico ou utópico. O que não nos impede de considerarmos as diversas interpretações e inclusive atribuir também a elas seu valor filosófico, reconhecendo que é possível haver coerência na pluralidade de interpretações que seu pensamento é capaz de produzir, o que vêm, justamente, reforçar a riqueza de sua teoria política, fundamentada no ideal da vontade geral. 155. Ibid., MONTEIRO op. cit., p. 37. 156. Ibid., ROUSSEAU op. cit., p. 37. 157 Veja também na página acima as citações de afirmações de Rousseau, feitas por Monteiro, 1980. CONSIDERAÇÕES FINAIS (PARTE II) Excluída a experiência grega, em nenhum momento da história política da humanidade, anterior ao Iluminismo, enfatizou-se a reflexão que tivesse por objetivo procurar entender o significado do “ser indivíduo” e “ser cidadão” e o que representa cada ser humano em particular e em sociedade e o que tudo isso tem a ver com a instituição que durante tanto tempo denominamos, “Estado”. Estas questões ganham corpo, pois, com o Iluminismo, que regido, na política, essencialmente por ideias liberais, firma-se com a construção idolatrada do princípio que coloca o indivíduo como uma realidade particular que visa emancipar-se tanto mais quanto possível for. A razão humana, tão venerada a partir do Renascimento e no Iluminismo, apresentava o indivíduo capaz de construir sua felicidade essencialmente entendendo-se como indivíduo. No período, a felicidade e a liberdade caminham muito próximas, porém, sempre como categorias relacionadas aos indivíduos como entes particulares. Com o passar do tempo, particularmente no Iluminismo, cansado da ideia de submissão do indivíduo, vigente durante tão longo período histórico, especialmente no período medieval, e ainda na fase inicial do Estado Moderno, o indivíduo cada vez mais aspira por liberdade cujas vozes nesse sentido ecoam cada vez mais fortes e a ideia de que as instituições, quando não negadas absolutamente, devem ser dos indivíduos e para os indivíduos, vai se solificando gradativamente, passando-se, pois, a cultuar tudo que pudesse ser relacionado às liberdades individuais. Respeitar o ser humano, significava, então, dar a ele oportunidades de ser ele, quase independente das suas circunstâncias sociais. No entanto, como vimos, na política, certamente as ideias de liberdade e participação dos indivíduos, Não resgatou tão imediatamente os ideais da Pólis democrática da Atenas Antiga, como o fez o Renascimento em outras dimensões da vida cultural. As primeiras teorias políticas da modernidade, pelo contrário, propunham um Estado que pouca importância atribuíam ao indivíduo como agente participativo em decisões de Estado. Maquiavel esboçou uma proposta de Estado centrada no soberano, no Estado e no poder e não no indivíduo, no povo e tampouco na pessoa humana, como se desejava e se aspirava com os ideais que, posteriormente serviram de baluartes da Revolução Francesa, sintetizados nos princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade. A proposta de Estado absolutista de direito divino de Maquaivel foi na verdade pensada como uma solução prática para um momento histórico conturbado socialmente em muitas regiões da Europa, do tempo em que o autor do príncipe se pôs a produzir sua tese sobre o que é e não como deveria ser o Estado. De forma pragmática o penasador florentino exclui de sua ciência política qualquer possibilidade de fundamentação moral da política. Assim, promove a separação dos valores religosos e éticos dos valores e procedimentos políticos. Certamnete no seu entendimento a religião deve ocupar-se em instruir as pessoas a respeito do saber relacionado às coisas sonbrenaturais e a moral em viabilizar seres humanos bons. No entanto, não é a atividade política que desenvolverá no ser humano tais características. Fundamentando a origem do poder no direito divino, exclui da sua formulação, obetençao, manutenção e excução do poder qualquer particpação popular, a não ser que agradar ao povo pudesse de alguma forma ser benéfica ao governante. Cabe ao político (príncipe, governante) a tarefa de obter seu poder ou de acercar-se do que já possui e de agir em vista da conservação da coesão popular, não importando os métodos. Importa sim, a manutenção da ordem e da sensação que deve ter o povo que está seguro sob o comando de quem o está conduzindo. Hobbes, por sua vez, sustenta a ideia de “homem lobo do homem”, o que evidencia, no homem a necessidade de se precaver frente às relações que estabelece no meio social. Se o homem é lobo do homem, o homemnão concebe haver espaço para todos na sociedade, porque o desejo do homem lobo ameaça o outro no seu espaço, não havendo de fato garantia social alguma. Há, sim, uma “seleção natural” que classifica uns poucos para vencerem e serem felizes e outros para a derrota e a infelicidade. O conceito predominante é o de que o indivíduo nasce mau e isso faz com que ele tenha que usar de suas “habilidades individuais” para sobreviver na “selva social”. As instituições e as construções coletivas representam a redução, ou, conforme o caso, a extinção da liberdade humana. Elas representam uma necessidade coletiva que concorre para o bem dos indivíduos em particular, enquanto não lhes é possível dissociarem-se do todo. Diferntemente de Maquiavel, Hobbes propõe um absolutismo não centrado absolutamente no Estado, no poder e no soberano como ponto de partida e de chegada, mas que tem o povo como ator que delega ao soberano seu poder formulador do poder de Estado. Nesse sentido a origem do poder é o povo, ao qual resta praticamente uma condição, a de abrir mão da sua liberdade em vista de sua segurança. Assim, sua segurança dependenderá do grau de concetração de poder do soberano e que o povo é capaz de a ele transferir. Deste modo, o poder não é do soberano para si, mas é dado ao soberano para que este tenha toda possibilidade de, com todos os poderes garantir a em paz, a segurança, portanto a vida dos seus súditos. A inovação trazida por Hobbes reside em sua proposta contratualista de Estado. No trajeto que percorremos em vista de compreendermos o percurso pelo qual evoluiu a o poder de Estado com base da legitimação popular de valorização da cidadania, vimos John Locke. Com ideais mais próximos das aspirações libertadoras dos iluministas Locke, Locke apresentou fundamentos democráticos em sua teoria política. Isto fica nítido em sua defesa incondiconal dos direitos naturais à liberdade, à vida e à propriedade. Seu contratualismo afasta qualquer possibilidade de absolutismo e sua proposta de desconcetração do poder do Estado por meio da sua separação e da criação dos poderes executivo e legislativo, dando valor supremo ao segundo, parece não deixar dúvidas sobre seus propósitos nitidamente mais democráticos que os do contratualista do absolutismo, visto anteriormente. Procurando aperfeiçoar a proposta de John Locke, Montesquieu propôs a tripartição dos poderes. Ao poder executivo e legislativo de Locke, acrescentou ainda o judiciário. Se os aspectos mencionados sobre Locke podem ser considerados relevantes e aperfeiçoadores para uma política que se pretende ser da soberania popular, vemos em Montesquieu ainda muitos vínculos com uma ordem estabelecida e capitaneada pelas monarquias. Suas ideias indiscutivelmente foram exploradas pela burguesia, a nova classe a essa altura já emergente na sociedade, apesar de ainda não se ver satisfatoriamente contemplada pelo poder político vigente. Montesquieu em muito contribuiu para esse processo que foi desenvolvendo a democracia, no entanto, seus posicionamentos podem ainda ser considerados discretos e conservadores se o compararmos com a proposta do contratualismo da democracia radical, em toda a sua essência, construída posteriormente pelo pensador genebrino Jean- Jacques Rousseau. Se, em regra geral, os pensadores iluministas, convergiam suas ideias no sentido de enaltecer o indivíduo, em particular, pelo direito ao exercício da liberdade individual, Rousseau indiscutivelmente aparece como exceção à regra que tem por base tal perspectiva teórica. O autor do Contrato Social apresenta um conceito diferente de Hobbes a respeito da natureza humana, em outra lógica de pensamento, ao conceituar o homem não como um ser que já nasce sob o estigma da maldade, mas que, mesmo se não o desejasse, e isso não dependeria da sua opção, não poderia deixar de ser bom por natureza. O fundamento da compreensão da natureza humana em Rousseau sustenta que não há como conceber que o homem não seja bom por natureza. O homem não nasce mau e sim se torna mau ao inserir-se na civilização, que na essência, segundo Rousseau, da forma como a conhecemos, estimula os vícios e não as virtudes. Este foi o “pecado original” cometido pelo homem, não somente por ver nele próprio ( entendido na relação com o outro ) uma ameaça, mas, sobretudo por ter percorrido o pior dos caminhos para se livrar ou proteger-se da ameaça, por não ter se preocupado em estabelecer nesse encontro com o outro uma relação de possibilidade de entendimento, mas uma relação cujo pano de fundo constituiu-se na ideia da constante desconfiança e necessidade de defesa particular. Ao invés de ali, já naquele primeiro contato, procurar viver naturalmente, na sua relação com o outro e com a natureza, passou a ver seu maior valor fora de si mesmo, no momento em que decidiu defender-se, não com suas forças naturais, e sim, ao buscar sua proteção na demarcação da propriedade e na instituição de um corpo político destinado a conservar o mal concebido e instituído, sacramentando o princípio da prevalência do ter sobre o ser. Este é o ponto de fundamental divergência entre a proposta de Rousseau e a de John Locke. Segundo Roussea, o homem, ao instituir a propriedade e o Estado, revelou não sua essência, mas sim, sua prepotência. Como e com que razão poderia afirmar “isto é meu” mesmo que abrisse mão de todo o resto, deixando tudo que além disso existia para o outro (ou os outros)? Onde estava o fundamento para afirmar “isto é meu e todo o resto pertence a você e aos outros”? Estava, então, instituído o pecado original e criava-se assim o primeiro corrupto da história da humanidade. Considerando a complexidade das relações sociais em que o homem se encontra, Rousseau entende que de fato é impossível conceber a possibilidade de retorno do homem ao completo estado de natureza, da mesma forma como vivera outrora. Ao considerar este aspecto demonstra-se muito realista, apesar de apresentar uma proposta verdadeiramente idealista, mas, nem por isso irreal, para a solução desse problema. Para ele, a inocência, em germe, como característica inerente à natureza humana, ainda está lá, no ser humano, embora esteja ofuscada, oculta ou reprimida. Entende que há um norte a ser seguido e um caminho a ser construído e que por sua vez auxiliará na redescoberta da essência pura do homem. Este caminho só pode ser percorrido no exercício da política, exercida, por homens éticos que se confundem com instituições éticas, que têm por objetivo único a instituição da sociedade cujas ações seriam norteadas pelo princípio sagrado da vontade geral. Eis, pois seu ponto de total divergência em relação a Maquiavel, para o qual política e ética atuam em campos radicalmente opostos. Com a ideia de vontade geral, Rousseau sugere, na modernidade, uma nova concepção de política em termos conceituais e práticos. A política passa a ser identificada como a ação de um todo e esta ação coletiva faz com que a concepção de indivíduo e cidadão e o soberano se confundam constantemente. Tal “confusão” aparece assim como única razão da política e da existência do Estado. A partir de Rousseau, a razão do Estado é tão somente a razão do indivíduo- cidadão participante da política e como um ser humano de fato. A ação política não se restringe às ações desenvolvidas na esfera do Estado, e o Estado, por sua vez, não é uma entidade à parte da ação política vivenciada cotidianamente pelo cidadão. O Estado é o poder do cidadão em contínua ação. Percebemos neste trecho sua divergência com a proposta contratualista de Thomas Hobbes, para o qual ao cidadão é somente oportunizado constituir um Estado e soberano forte e ao qual aliena sua liberdade e seu poder como cidadão. A teroria de Rousseau evolui particularmente a partir das ideias políticas do John Locke, das quais tirouem grande parte inspiração para sua proposta de contrato, ao mesmo tempo que sobre elas lançou sua críticas e divergências. Como não concebia o cidadão essencialmente indivíduo proprietário, mas como cidadão e essencialmente ser político, entende o filósofo genebrino, que a mais elevada missão do Estado não é a de defender o indivíduo, enquanto proprietário, ou o indivíduo em si, e não pode ele ser apenas caracterizado como uma esfera de poder à parte, que não cumpre sua função soberana com o ser humano e com o todo que o constituí, mas tão somente com determinadas partes do todo. Enquanto for assim, o Estado será classista, discriminador, parcial, dominador, sem legitimidade e desprovido de sentido ético. Neste caso ele não se identifica com o ser humano em sua essência, quando muito apenas com indivíduos. Nesta perspectiva, Rousseau, ao questionar-se sobre o Estado, o faz tendo em mente uma reflexão a respeito do Estado em que prevalece a dominação dos ricos sobre os pobres. Para muitos esta perspectiva rousseauniana conduz à reflexão a respeito de que a proposta ético-política, fundamentada na ideia de vontade geral, do autor do Do Contrato Social, lança as primeiras ideias que posteriormente seriam rediscutidas pelos defensores das propostas socialistas. De fato, Rousseau é um pensador crítico das ideias liberais. Enquanto os liberais assumem de corpo e alma o espírito da modernidade que então aflora, contribuindo para reafirmá-las e “aperfeiçoá-las”, apresentando a idade da razão como o estágio mais evoluído da história da humanidade, Rousseau resolve classificar a civilização e a evolução das ciências e das artes, enfim, as conquistas da razão e da civilização como a principal causa do distanciamento do homem do seu estado de inocência e pela sua corrupção moral. Além da ideia de vontade geral, que privilegia o coletivo sobre o individual, outro importante aspecto a se destacar na relação de Rousseau com os liberais, é, então, o da sua crítica à possibilidade de o homem emancipar-se a partir da posse ( propriedade ) e viver como um indivíduo que finalmente encontrou um lugar onde possa viver consigo mesmo e desfrutar ali da paz e liberdade que ele um dia perdeu e ter a seu favor o Estado com a função de legislar e operar em defesa do indivíduo não essencialmente cidadão, mas proprietário. Rousseau quer propor um Estado preocupado com a construção moral do ser humano, que já não pode mais deixar de ser um ser social e civilizado e que por isso precisa preocupar-se em buscar um caminho que lhe possibilite exercer a vontade geral que, por sua vez, simboliza a ideia de construção de indivíduos novos, no intuito de se almejar também uma nova sociedade. Jean-Jacques, pois, elaborou fortes críticas e uma contraproposta no intuito de contestar as ideias e comportamentos propostos pelos pensadores políticos liberais, que admitiam as posses como consequências naturais do esforço ou do destino de quem chegou primeiro, ou ainda da sorte, reafirmando, assim, a ideia de que a propriedade é um bem justo e pode simbolizar a conquista da liberdade. Contudo, apesar de ver na instituição da propriedade a corrupção do homem, não via a necessidade, para redimi-lo, da eliminação da mesma. Jean-Jacques propunha a transformação radical do ser humano pela via política. Assim sendo, Jean-Jacques inova frente ao liberalismo ao apresentar a ideia de que a corrupção humana aconteceu por causa da propriedade. Porém, limita-se em afirmar que ela é essencialmente interna, em sua base moral, mesmo que tenha acontecido por motivações externas (as posses). Não se preocupou, pois, em aprofundar a análise histórica da construção ideológica da identidade humana por meio do trabalho, ou seja, analisar o processo de como se deu a produção e o apoderamento dos bens materiais. Rousseau, para explicar a origem da desigualdade entre os homens, parte de uma base explicativa hipotética (a suposição da existência do estado de natureza, inicialmente, e, posteriormente o surgimento da civilização – a sociedade) de como possivelmente se deu o primeiro fato (a transição do homem natural para o homem social) que levou ou implantou a corrupção no mundo dos homens, utilizando-se assim do recurso de uma dedução abstrata, sem no entanto abandonar a lógica e a razão, para explicar o problema da desigualdade e do mal da dominação. O interesse de Rousseau está em refletir sobre os princípios éticos que devem nortear a convivência humana, a partir da situação que se tem. O homem deve ser rigorosamente igual na lei, que aqui não se limita a uma concepção legalista, formal e externa, mas, enquanto concebida como uma vontade interna da razão e da consciência humana externalizada, de acordo com a ideia de vontade geral. Apesar das acertadas críticas que se lhe possa fazer, é evidente que Rousseau lança algumas ideias que mais tarde servirão de fundamentos sobre os quais o socialismo se construirá, sobretudo, quando ele ( Rousseau ) culpa e identifica na propriedade privada a gênese do mal entre os homens e defende a coletividade, dando a ela um valor quase dogmático e religioso. Por outro lado, também é acertado afirmar que suas ideias servem mais de embrião do que de sustentação das ideias socialistas, principalmente por não propor necessariamente a eliminação ou a socialização da propriedade privada como uma necessidade para a construção da nova sociedade. Esta questão, que trata da ideia de propriedade e a relação de Rousseau com o socialismo, não aprofundada neste trabalho, por si só, seria motivo de mais uma pesquisa acadêmica, o que seria mais uma prova a respeito do quanto é rico o pensamento rousseauniano. Jean-Jacques radicaliza em termos teóricos, apresentando um discurso que propõe a transformação radical dos conceitos sobre política e também da sua prática. Porém, não conclama todos os cidadãos do mundo para uma revolução imediata, entendendo que a transformação é possível, não sabendo, contudo em que momento da história o seu ideal de fato ver-se-ía realizado. Para Rousseau a revolução moral prevalecia sobre a revolução material. O pensamento político de Rousseau pode ser compreendido, por um lado, como uma coerente interpretação e avaliação de realidade, se considerarmos como referencial o Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, mesmo que, nesse caso, sua análise seja hipotético-dedutiva, portanto, abstratamente esboçada, e, por outro lado, considerando-se Do Contrato Social, como uma utopia, em que o autor deseja, com acentuado grau de idealismo, uma transformação radical do corpo político, cujos fundamentos, porém, têm sido alvo de constantes críticas, alimentadas pela origem abstrata e teórica das concepções nele ( o Contrato ) contidas, em princípio, absolutamente distantes da realidade social que se tem. Certamente, o Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens chama nossa atenção a respeito de reflexão de Rousseau sobre uma realidade política evoluída e corrompida que o autor via diante de seus olhos e presente em sua mente ao analisar a realidade hipotética e historicamente e com o qual, em grande parte, ainda hoje podemos concordar. Todavia, não seria correto relegar o conteúdo do Do Contrato Social, apesar do seu alto grau de abstração, idealismo e romantismo, para um nível extratosférico em relação à nossa realidade, entendendo-o como uma total impossibilidade de aplicabilidade prática, mesmo que, analisando a realidade histórica, hajam suficientes razões para admitir que a proposta do se contrato jamais, em momento algum e em sociedade alguma tenha abandonado o campo da utopia para ser efetivamente implantado. O próprio Rousseau para dar provas de que não quis apenas esboçar uma brilhante teoria sem qualquer vínculo com a prática, aceitou o desafio,de procurar instituir sua proposta na Ilha da Córsega e na Polônia. Percebeu, evidentemente, se já não havia percebido antes, o quanto uma teoria pode estar de certa forma vinculada à prática e o quanto pode dela estar distanciada. Evidentemente a proposta de Rousseau é romântica, porém, nem por isso suas as ideias devem ser desconsideradas. Sobretudo por tratar-se sua especulação ser de cunho filosófico em vista do real. Mesmo que em momento algum tenha havido ou venha a existir condições práticas de se ver realizada uma teoria dessa natureza, ainda assim ela terá seu valor indiscutível enquanto princípio de uma realidade a ser construída. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DA PARTE II: ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972. BLOOM, Allan. Gigantes e anões: ensaios. São Paulo: Nova Cultural, 1990. 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