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Fichamento – A Memória Coletiva, de Maurice Halbwachs. Prefácio A sociologia se aproxima da realidade concreta da existência. 1950 – Este livro demonstra o caráter ilusório de uma análise que toma seus termos e seus conceitos emprestados a ciências estranhas a seu objeto. O autor mostra que é impossível conceber o problema da recordação e da localização das lembranças quando não se toma como ponto de referência os contextos sociais reais que servem de baliza à essa reconstrução que chamamos memória. (p. 7) Da proposta de Durkheim, os contemporâneos retinham a idéia suscinta de uma relação mecânica entre as classificações mentais e as classificações sociais que, no entanto, era uma correlação dialética entre o dinamismo criador dos conjuntos humanos – sua “efervescência” – e a organização de representações simples relacionadas ao cosmo ou ao ambiente da sociedade examinada. A análise da cosciência coletiva (cuja trama ele pressentira ser imanente às consciências parciais que a compõem, umas permeáveis em relação às outras) não poderia chegar ao fim por causa da imagem antiquada da “consciência de si” fechada em si que o intelectualismo legara a essa geração de pensadores. Husserl permitiu a Durkheim explicar claramente a recíproca abertura das consciências dos sujeitos e a participação dos elementos componentes dessa totalidade viva, sem a qual a idéia de consciência coletiva está desprovida de eficácia funcional. (p. 8) O fato de Durkheim ter sido, em toda a sua vida, contrário a uma formulação que ia de encontro à sua filosofia e que, na ausência de nova conceitualização tenha sido levado a hipostasiar a consciência coletiva e a sociedade, é problema que exigiria uma análise demorada. Com Halbwachs ocorre uma mudança. Porque a própria experiência impõe à reflexão temas de análise que forçariam uma revisão geral do vocabulário filosófico. É muito interessante saber por que motivo a experiência (a experiência dos intelectuais) em certos momentos é levada a buscar sua verdade em uma identificação da existência com a linguagem – esse acanhamento do espírito é o mesmo da experiência que se limita e se reduz “ao mínimo”. O surrealismo impõe o acaso, a exploração onírica e memorialista, no primeiro plano de sua ascese, e joga com associações cuja aparente desordem parece resultar de uma lógica oculta, cuja psicanálise permite a racionalização (p. 9) A tentativa de Bergson de construir um vocabulário novo representa o esforço mais coerente para livrar a reflexão de um equipamento mental fora de moda e superado por realidades que emergem de uma experiência que já não dominamos. Luckacs postula que existe uma subjetividade de classe, que traz consigo sua própria visão do mundo e sua própria memória, subjetividade essa que se torna objetividade absoluta quando se trata de uma classe “privilegiada” por causa do lugar eminente que o filósofo lhe confere na hierarquia dos grupos e em uma visão carismática da história (p. 10) Pouco a pouco, chegamos a um relativismo impressionista – como o de Karl Mannheim, que perde de vista o enraizamento social das ideologias, cujo intenso desabrochar ele apresenta. A história, livre do “historicismo”, aqui se une à sociologia despojada do “sociologismo” de suas origens... Em Matéria e Memória, unem-se interpretação abrangente e análise causal, o apanhado dos conjuntos e dos significados (p. 11) Contra uma visão platônica que faz do tempo “a imagem móvel da eternidade”, contra a interpretação de um espiritualismo antiquado que afirma que “a materialidade lança sobre nós o esquecimento”, contra a concepção hegeliana de um futuro único portador de uma lógica racional, com Halbwachs a sociologia francesa começa a estrair as consequências da revolução einsteiniana. O tempo já não é o meio privilegiado e estável em que se desdobram todos os fenômenos humanos. O “eu” e sua duração se localizam no ponto de encontro de duas séries diferentes e às vezes divergentes: a que se liga aos aspectos vivos e materiais da lembrança, a que reconstrói o que é apenas passado. É claro, a memória individual existe, mas está enraizada em diferentes contextos que a simultaneidade ou a contingência aproxima por um instante. (p. 12) Assim, a consciência jamais está encerrada em si mesma, não é vazia nem solitária. Isso talvez explique por que razão, no períodos de calma ou de momentânea imutabilidade das “estruturas” sociais, a lembrança coletiva tem menos importância do que em períodos de tensão ou de crise – e aí, às vezes, se torna “mito”. Mas seu “ser” hitórico contradiz o ser íntimo que ele necessariamente trai ao se socializar... É nesse ponto que, em Halbwachs, situa-se uma notável distinção entre a “memória histórica”, de um lado, pressupondo a reconstrução dos dados fornecidos pelo presente da vida social e projetada sobre o passado reinventado, e por outro lado a “memória coletiva”, que magicamente recompõe o passado. (p. 13) Aqui se vê como surge uma reflexão que leva à análise da “multiplicidade dos tempos sociais”, tão importante no pensamento de Gurvitch. Também se concebe como a memória coletiva não se confunde com a história, como esa expressão “memória histórica” é quase absurda, pois associa dois conceitos que se excluem – uma vez que a história não resulta de uma construção cristalizada por um grupo estabelecido para se defender da erosão permanente da mudança e a memória não postula a mudança das perspectivas e seu relativismo recíproco? Por mais que Maurice Halbwachs tenha dificuldade em admitir a pluralidade real dos tempo sociais, sua reflexão recai nessa importante descoberta, como ele escreveu: “É preciso distinguir certo número de tempos coletivos, tantos quantos os grupos separados que existem.” A memória não poderia ser o alicerce da consciência, pois é apenas uma de suas direções, uma perspectiva possível que o espírito racionaliza. (p. 14) Às encruzilhadas dos tempos sociais em que a lembrança está situada, correspondem as escruzilhadas do espaço, quer espaço endurecido e “cristalizado”, quer extensões vivenciadas em que os grupos fixam, provisória ou definitivamente, os aconteccimentos que correspondem a suas relações mútuas com outros grupos. Certamente podemos duvidar que a dicotomia da “memória em relação ao espaço” e da “memória em relação ao tempo” seja realmente eficaz, porque a distinção entre “duração” e “espaço” continua escolástica, como o demonstrou a física contemporânea. Neste livro encontramos uma sociologia da vida cotidiana. Ao retirar o tempo (e da memória) seu privilégio de “dado imediato” da consciência, despojando-o de sua “essência” platônica, a sociologia pode se empenhar na análise de fatos humanos até então deixados para a literatura. (p. 15) Introdução Maurice Halbwachs se certifica de que o fato social, embora por outro lado mensurável, não é exterior ao cientista e não é exterior às pessoas que o vivem. Tratado sobre morfologia social: “Compreenda-se que as formas materiais da sociedade atuam sobre ela, de maneira alguma em virtude de um constrangimento físico, como um corpo atuaria sobre outro corpo, mas pela consciência que dela tomamos, enquanto participantes de um grupo que percebem seu volume, sua estrutura física, seus movimentos no espaço. Nesse ponto há uma espécie de pensamento ou percepção coletiva que poderíamos chamar de dado imediato da consciência social, que sobressai sobre muitos outros e não foi percebido de modo suficiente pelos próprios sociólogos.” A tarefa do sociólogo, por uma exposição que se pode muito bem chamar de fenomenologia, é fazer com que eles passem ao estado de idéias claras e distintas. Não se pode pensar nada, não podemos pensar em nós mesmos, senão pelos outros e para os outros, sob a condição desse acordo substancial que, através do coletivo, busca o universal e, como Halbwachs tanto insistiu, distingue sonho de realidade, loucura individual da razão comum. (p. 20) Assim, embora dependa rigorosamente de condições naturais, a sociedade é essencialmente consciência. Halbwachsse esforçou em combinar sempre mais o método objetivo do cientista e o método reflexivo do filósofo. O homem se caracteriza essencialmente por seu grau de integração no tecido das relações sociais. (p. 21) Longe de uniformizar os indivíduos, a sociedade os distingue – à medida que os homens “multiplicam suas relações... cada um deles vai assumindocada vez maior consciência de sua individualidade”. (p. 22) Ninguém compreendeu melhor e melhor fez compreender a continuidade social. Não é o indivíduo em si ou alguma entidade social que recorda, mas ninguém pode se lembrar realmente a não ser em sociedade, pela presença ou pela evocação, portanto recorrendo aos outros ou a suas obras. “Um homem que se lembra sozinho do que os outros não se lembram é como alguém que enxerga o que os outros não vêem”. (p. 23) Capítulo I – Memória individual e memória coletiva Memória Individual e Memória Coletiva “Se o que vemos hoje toma lugar no quadro de referências de nossas memórias antigas, inversamente, essas lembranças se adaptam ao conjunto de nossas percepções do presente.” P. 29 Ao rememorar algum acontecimento em grupo, “podemos reconstruir um conjunto de lembranças de maneira a reconhecê-lo porque eles concordam no essencial, apesar de certas divergências” p.29 “Se a nossa impressão pode se basear não apenas na nossa lembrança, mas também na de outros, nossa confiança na exatidão de nossa recordação será maior, como se uma mesma experiência fosse recomeçada não apenas pela mesma pessoa, mas por muitas.” P. 29 “Nossas lembranças permanecem coletivas e nos são lembradas por outros, ainda que se trate de eventos em que somente nós estivemos envolvidos e objetos que somente nós vimos.” P. 30 “Para confirmar ou recordar uma lembrança, não são necessários testemunhos no sentido literal da palavra, ou seja, indivíduos presentes sob uma forma material e sensível. Aliás, eles não seriam suficientes.” P.31 “Não basta que eu tenha assistido ou participado de uma cena em que havia outros espectadores ou atores para que , mais tarde, quando estes evocarem à minha frente, quando reconstituírem cada pedaço de sua imagem em meu espírito, esta composição artificial subitamente se anime e assuma figura de coisa viva, e a imagem se transforme em lembrança.” P.32 “Inversamente, pode acontecer que os testemunhos de outros sejam os únicos exatos, que eles corrijam e rearranjem a nossa lembrança e ao mesmo tempo se incorporem a ela.” P. 32 “... temos de trazer uma espécie de semente de rememoração a este conjunto de testemunhos exteriores a nós para que ele vire uma consistente massa de lembranças.” P.33 Quando dizemos que certo depoimento de alguém que esteve participou do mesmo evento que nós não nos recorda nada, não quer dizer que a lembrança ou parte dela devesse subsistir em nós da mesma forma, apenas que para recordá-lo é preciso que “não tenhamos perdido o hábito nem o poder de pensar e de nos lembrar na qualidade de membro do grupo, do qual esse testemunho e nós fazemos parte”. P. 33 Por exemplo, as lembranças de um aluno em relação ao seu professor e o tempo de convivência entre eles serão diferentes das lembranças do professor em relação ao aluno. Enquanto os alunos permanecem em contato não só em sala de aula e também por muito mais tempo que a duração do ano escolar, “Não exista nenhum grupo duradouro do qual o professor continue a fazer parte, ao qual tenha oportunidade de voltar a pensar de um ponto de vista no qual possa situar-se novamente, com o qual recordar o passado.” P. 34 “Em sociedades de qualquer natureza que os homens formem entre si, quantas vezes não acontece que um deles deixe de ter uma idéia exata do lugar que ocupa no pensamento dos outros?” P. 35 Exemplo: “Um homem muito piedoso, cuja vida foi simplesmente edificante e que foi santificado depois da morte, muito se surpreenderia se voltasse à vida e pudesse ler a sua própria lenda – composta coma ajuda de lembranças preservadas” p. 35, 36 “Em certo momento podemos estar tão, ou até mais interessados do que os outros em determinado acontecimento e apesar disso não guardar nenhuma lembrança dele” p. 636 “Será que por isso a memória individual, diante da memória coletiva, é uma condição necessária e suficiente da recordação e do reconhecimento das lembranças? De modo algum, pois se esta primeira lembrança foi suprimida, se não nos é mais possível reencontrá-la, é porque há muito tempo não fazemos parte do grupo na memória do qual ela se mantinha.” P. 39 “Para que a nossa memória se aproveite da memória dos outros, não basta que estes nos apresentem seus testemunhos: também é preciso que ela não tenha deixado de concordar com as memórias deles e que existam muitos pontos de contato entre uma e outras para que a lembrança que nos fazem recordar venha a ser reconstituída sobre uma base comum.” P. 39 “É preciso que essa reconstrução funcione a partir de dados ou de noções comuns que estejam em nosso espírito e também no dos outros” p. 39 Acontece por vezes de não se conseguir construir e reconhecer uma lembrança de um evento vivido em grupo. Isso acontece porque “ desapareceu uma memória coletiva mais ampla que, ao mesmo tempo compreendia a minha (lembrança) e a deles.” P.40 Considerando que cada pessoa participa ao mesmo tempo de vários grupos sociais, “casa um destes é limitado demais para reter tudo o que ocupou o pensamento do partido, do cenáculo literário, da assembléia religiosa. (...) conservam apenas uma parte dessa rede de pensamento. Por isso, muitos desses quadros do passado comum não coincidem e nenhum deles pode reter todo o teor do pensamento antigo.” P. 40 “Se dois desses grupos voltam a entrar em contato, o que lhes falta precisamente para se compreender, se confirmar mutuamente as lembranças desse passado de vida comum, é a faculdade de esquecer as barreias que os separam no presente.” P. 40 “O fato de guardarmos a lembrança de impressões que nenhum de nossos companheiros na época pôde conhecer, também não constitui uma prova de que a nossa memória pode bastar e nem sempre tem necessidade de se basear nas dos demais.” p. 40 “Talvez seja possível admitir que um número enorme de lembranças reapareça porque os outros nos fazem recordá-las; também se há de convir que mesmo não estando estes outros materialmente presentes, se pode falar de memória coletiva quando evocamos um fato que tivesse um lugar na vida de nosso grupo e que víamos, que vemos ainda agora no momento em que o recordamos.” P.41 “...esse tipo de atitude mental só existe em alguém que faça ou tenha feito parte de um grupo e porque, pelo menos à distância, essa pessoa ainda recebe sua influência”. P. 41, 42 Ainda quando não está acompanhado de ninguém, o homem “esteve sozinho apenas em aparência, pois, mesmo nesse intervalo, seus pensamentos e seus atos se explicam por sua natureza de ser social e porque ele não deixou sequer um instante de estar encerrado em alguma sociedade.” P. 42 “Nada prova que todas as idéias e imagens tiradas dos meios sociais de que fazemos parte e que intervêm na memória não recubram uma lembrança individual como um painel, mesmo no caso em que não o percebemos.” P. 42 “O fato de se ter produzido, de haver surgido essa lembrança, ainda que uma única vez, bastaria para demonstrar que nada se opõe a que ela intervenha todas as vezes. P. 42 A intuição sensível seria um estado de consciência puramente individual. “’Para que não confundíssemos a reconstituição do nosso próprio passado com a que possamos fazer do passado de nosso vizinho, para que empírica, lógica e socialmente esse passado pareça identificar-se com nosso passado real, é preciso que pelo menos em algumas de suas partes exista algo além de uma reconstituição feita com matérias tomadas de empréstimo.’” P. 43 (Charles Blondel –Revue Philosophique, 1925, p.296) “’ Se vocês se limitam a dizer: quando acreditamos evocar o passado há 99 por cento de reconstrução e um por cento de evocação verdadeira, esse resíduo de um por cento que resisitiria a sua explicação,bastaria para voltar a questionar todo o problema da conservação da lembrança. Seria possível evitar esse resíduo? ’” p. 43 ( Désiré de Roustan) “É difícil encontrar lembranças que nos levem a um momento em que nossas sensações eram apenas reflexos dos objetos exteriores, em que não misturássemos nenhuma das imagens, nenhum dos pensamentos que nos ligavam a outras pessoas e aos grupos que nos rodeavam.” P. 43 A exemplo das lembranças que temos da nossa infância passam a existir a partir do momento em que começamos a ligar nossas impressões a alguma base, quando nos tornamos seres sociais. “A família é o grupo do qual a criança participa mais intimamente nessa época de sua vida e esta sempre à sua volta.” P. 45 Mesmo ao ser deixada sozinha em algum ambiente, a criança continua fazendo parte do grupo, pois “ele pensava nos seus e estava sozinho apenas em aparência.” P. 46 Nas lembranças que temos da infância, “o conteúdo que as destaca de todas as outras se explicaria pelo fato de estarem no ponto em que se cruzam duas ou mais séries de pensamentos (...).” P. 48 No caso dos adultos, “se certo membro do grupo vier a fazer parte ao mesmo tempo de um outro grupo, se os pensamentos que ele tem de um e do outro se encontram de repente em seu espírito... teoricamente só ele perceberá esse contraste.” P. 49 "Da mesma forma que pelo fato de dois pensamentos, uma vez comparados, parecerem reforçar um ao outro por contrastarem entre si e acreditarmos formarem um todo que existe por si, independentemente dos conjuntos de onde são tirados, não percebemos que na realidade estamos levando em conta os dois grupos ao mesmo tempo, mas cada um do ponto de vista do outro." P. 49 "Quando recordamos essa viagem, nos situamos, é claro no mesmo ponto de vista de nossos companheiros, porque a nossos olhos ela se resume em uma seqüência de impressões que somente nós conhecemos. Também não podemos dizer que nos situamos unicamente no ponto de vista de nossos amigos, de nossos pais, de nossos autores preferidos cuja lembrança nos acompanhava." P. 50"No primeiro plano da memória de um grupo se destacam as lembranças dos eventos e das experiências que dizem respeito à maioria de seus membros e que resultam de sua própria vida ou de suas relações com os grupos mais próximos, os que estiveram mais freqüentemente em contato com eles. As relacionadas a um número muito pequeno e às vezes a um único de seus membros, embora estejam compreendidas em sua memória passam para o segundo plano." P. 51"Normalmente um grupo mantém relações com outros grupos. Muitos acontecimentos e também muitas idéias resultam de semelhantes contatos. Às vezes essas relações ou esses contatos são permanentes, ou em todo caso, se repetem com muita freqüência, prosseguem durante muito tempo." p.52"Surgem então lembranças compreendidas em dois contextos de pensamentos, comuns aos membros dos dois grupos. Para reconhecer uma lembrança desse tipo, é preciso fazer parte ao mesmo tempo de um e de outro, uma condição que durante algum tempo é preenchida por uma parte dos habitantes da cidade, por uma parte dos membros da família." p. 52"É preciso que estejamos ou que encontremos condições que permitam combinar melhor a ação dessas duas influências para que a lembrança reapareça e seja reconhecida." P. 52"Nem sempre encontramos as lembranças que procuramos, porque temos de esperar que as circunstâncias, sobre as quais nossa vontade não tem muita influência, as despertem para nós." P. 53"Contudo, quando essa lembrança reaparecem não é conseqüência de um conjunto de reflexões, mas e uma aproximação de percepções determinada pela ordem em que se apresentam determinados objetos sensíveis, ordem essa resultante de sua posição no espaço." P. 53"Pressupomos que quando não tenha sido reconstruída, mas evocada, a lembrança teria sido guardada assim mesmo em nosso espírito." P. 54"Quando temos a sensação de que seria possível retomar esta lembrança por outras vias, é porque essas vias existem,mesmo que não tenhamos sido capazes de segui-las até o fim - ou seja, até a lembrança". P. 55Para Bergson existem dois tipos de reconhecimento (p. 55):Reconhecimento por imagem: é ligar a imagem vista ou evocada de algum objeto a outras imagens que formam com elas um conjunto e uma espécie de quadro, é reencontrar as ligações desse objeto com outros que podem ser também pensamentos ou sentimentos.Reconhecimento por movimento: reconduz à sensação de familiaridade que temos quando um objeto visto ou evocado determina em nosso corpo os mesmos movimentos de reação que tivemos no momento em que anteriormente o percebemos. “Quanto mais os grupos que se tocam se distanciam, ou quanto mais numerosos são eles, mais a influência de cada um é enfraquecida. Portanto, é natural que não a observemos e que não reparemos nos ambientes sociais de onde provêm ações desse tipo, ainda que uma vez aparecida, a lembrança nos pareça livre de qualquer ligação com memórias que não sejam a nossa.” P. 56, 57 “Embora as causas que determinam a recordação dessas lembranças não dependem ou dependem apenas imperfeitamente de nós, isso não acontece porque sejam inconscientes, mas porque em parte são exteriores a nós e sobre cada uma delas exercemos apenas uma influência muito pequena.” P. 57 “É bem verdade que em cada consciência individual as imagens e os pensamentos que resultam dos diversos ambientes que atravessamos se sucedem segundo uma ordem nova e que, nesse sentido, cada um de nós tem sua história.” P.57 O conjunto de lembranças a que podemos nos referir como nossa história “se apresenta para nós como uma série única em seu gênero. Desde então esses estados nos parecem ligados um ao outro em nossa consciência.” P. 57 “Quando a intuição sensível – e todos os elementos de pensamento e sensação que a ela se associam – ocorre pela primeira vez, diríamos que se explicava muito bem pelo ambiente e ao mesmo tempo por nosso organismo que estava em contato com ele.” P. 58 “Quando muitas correntes sociais se cruzam e se chocam em nossa consciência, surgem esses estados que chamamos de intuições sensíveis e que tornam a forma de estados individuais porque não estão ligados inteiramente a um ou outro ambiente, e estão relacionados a nós mesmos.” P. 58 “Toda a nossa atenção se concentra nos estados em si, no contraste entre sua vivacidade e a banalidade de impressões ou pensamentos anteriores, na riqueza que eles subitamente desvendam em nosso eu, porque representam uma combinação original de elementos de origens variadas.” P. 58, 59 “Ela só guarda alguma realidade virtual na medida em que permanecemos sob a influência combinada desses ambientes, na medida em que estamos sujeitos a nos encontrar nas mesmas condições sociais complexas que outrora a originaram.” P.59 “A intuição sensível está sempre no presente. Portanto, não podemos pressupor que ela seja capaz de se recriar espontaneamente.” P. 60 “Contudo, pelo menos às vezes, explicamos o seu reaparecimento porque, não encontrando fora as causas que a originaram, só podemos procurá-la em nós.(...) Isso não passa de ilusão. Nossas percepções do mundo exterior se sucedem seguindo a mesma ordem de sucessão dos fatos e fenômenos materiais. É a ordem da natureza que então penetra em nosso espírito e regula o rumo de seus estados.” P.60 “Em outras palavras, na série de estados que minha memória apresenta, distingo partes não segundo meu tempo interno e segundo os momentos que a eles corresponderam, mas segundo as mesmas divisões que a realidade apresentava: divisões objetivas, as mesmas que a percepção vigente ou coletiva introduz ou reconhece na natureza e que realmente são baseadas nas relações naturais entre as coisas.”P. 60 “Divisões e ligações correspondem a uma espécie de lógica espacial ou material, e é nesta lógica que se apóia a memória das percepções. A coesão dessa memória explica-se pelo fato de que as lembranças que ela evoca são coerentes, como devem ser os fenômenos (objetivos) fora de nós.” P. 61 “O que chamamos aqui de causalidade natural simplesmentedesigna a representação que fazemos de nós na sociedade que nos circunda. As leis naturais não estão nas coisas, mas no pensamento coletivo, enquanto este os examina e à sua maneira explica suas relações.” P. 61 “Existe uma lógica da percepção que se impõe ao grupo e que o ajuda a compreender e a combinar todas as noções que lhe chegam do mundo exterior: lógica geográfica, topográfica, física, que não é outra senão a ordem introduzida por nosso grupo em sua representação das coisas do espaço.” P. 61 “É também esta lógica, são essas leis que explicam que as nossas lembranças desenrolam em nosso pensamento a mesma seqüência de associações, pois no mesmo momento em que estamos mais em contato material encontramos no referencial do pensamento coletivo os meios de evocar a seqüência e seu encadeamento.” P. 61 “As leis naturais realmente se impões a todas as sociedades pelo menos de direito e, de fato, a todas aquelas de que fazemos ou estamos dispostos a fazer parte. É por isso que facilmente nos persuadimos de que essas leis se impõem a nós, não porque são admitidas em nosso grupo, mas porque estamos em contato com as coisas materiais.” P. 62 “Qualquer recordação de uma série de lembranças que se refere ao mundo exterior é explicada pelas leis da percepção coletiva. O mesmo acontece com todas as lembranças.” P. 62 “Os mesmos ambientes exercem sobre nós mais ou menos o mesmo gênero de ação.” P. 63 “É muito comum atribuirmos a nós mesmo, como se apenas em nós se originassem, as idéias, reflexões, sentimentos e emoções que nos foram inspiradas pelo nosso grupo. Estamos em tal harmonia com os que nos circundam, que vibramos em uníssono e já não sabemos onde está o ponto de partida das vibrações, se em nós ou nos outros.” P. 64 “Quantas pessoas têm espírito crítico suficiente para discernir no que pensam a participação dos outros, e para confessar para si mesmas que o mais das vezes nada acrescentam de seu?” P. 65 “De qualquer maneira, à medida que cedemos sem resistência a uma sugestão externa, acreditamos pensar e sentir livremente. É assim que em geral a maioria das influências sociais a que obedecemos permanece desapercebida por nós.” P. 65 “Às vezes nos limitamos a observar que nosso passado compreende dois tipos de elementos: os que podemos evocar quando desejamos e os que, ao contrário, não atendem ao nosso apelo(...). Na verdade, dos primeiros podemos dizer que estão no terreno comum, no sentido de que o que nos é assim famílias ou facilmente acessível, é igualmente familiar ou acessível para os outros.” P. 66 “Assim, os fatos e idéias que mais facilmente recordamos são do terreno comum, pelo menos para um ou alguns ambientes. Essas lembranças existem ‘para todo o mundo’ nesta medida e é porque podemos nos apoiar na memória dos outros que somos capazes de recordá-la a qualquer momento e quando desejamos.” P. 67 “...das que não conseguimos recordar à vontade, de bom grado diremos que não pertencem aos outros, mas a nós, porque somente nós podemos reconhecê-las. Por mais estranho que isso possa parecer, as lembranças que nos são mais difíceis de evocar são as que dizem respeito somente a nós, constituem nosso bem mais exclusivo, como se só pudessem escapar aos outros na condição de escaparem também a nós.” P. 67 “Na verdade, entre as lembranças que evocamos facilmente e as que parecemos ter pedido, encontraríamos todos os graus. As condições necessárias para que umas e outras reapareçam não diferem senão pelo grau de complexidade.” P. 67 “Se a memória coletiva tira sua força e sua duração por ter como base um conjunto de pessoas, são os indivíduos que se lembram, enquanto integrantes do grupo. Desta massa de lembranças comuns, umas apoiadas nas outras, não são as mesmas que aparecerão com maior intensidade a cada um deles. (...) cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este ponto de vista muda segundo o lugar que ali ocupo e que esse mesmo lugar muda segundo as relações que mantenho como outros ambientes.” P. 69 “A sucessão de lembranças, mesmo as mais pessoais, sempre se explica pelas mudanças que se produzem em nossas relações com os diversos ambientes coletivos, ou seja, em definitivo, pelas transformações desses ambientes, cada um tomado em separado, e em seu conjunto”. P. 69 Capítulo II – Memória coletiva e memória histórica “Ainda não estamos habituados a falar da memória de um grupo nem por metáfora. Aparentemente, uma faculdade desse tipo só pode existir e permanecer na medida em que estiver ligada a um corpo ou a um cérebro individual.” P. 71 “Admitamos, contudo, que as lembranças pudessem se organizar de duas maneiras: tanto se agrupando em torno de uma determinada pessoa, que as vê de seu ponto de vista , como se distribuindo dentro de uma sociedade grande ou pequena, da qual são imagens parciais.” P. 71 “Em outras palavras, o indivíduo participaria de dois tipos de memória. Não obstante, conforme participaria de uma ou de outra, ele adotaria duas atitudes muito diferentes e até opostas.” P. 71 “Se essas duas memórias se interpenetram com freqüência, especialmente a memória individual, para confirmar algumas de suas lembranças, para torná-las mais exatas, e até mesmo para preencher algumas de suas lacunas, pode se apoiar na memória coletiva, nela se deslocar e se confundir com ela em alguns momentos, nem por isso deixará de seguir seu próprio caminho.” P.71 “Por outro lado, a memória coletiva contém as individuais, mas não se confunde com elas” P. 72 A memória individual não está completamente fechada e isolada, precisando recorrer às lembranças de outras. Porém, “não é menos verdade que não conseguimos lembrar senão do que vimos, sentimos, pensamos num momento do tempo, ou seja, nossa memória não se confunde com as dos outros.” P. 72 “Haveria portanto motivos para distinguir duas memórias, que chamaríamos, por exemplo, uma interior ou interna e outra exterior – ou então uma memória pessoal e a outra, memória social. Mais exatamente ainda, diríamos memória autobiográfica e memória histórica.” P. 73 A primeira seria auxiliada pela segunda, uma vez que nossa história é parte da história em geral. A segunda, além de ser bem mais extensa que a primeira, só representaria para nós o passado sob uma forma resumida e esquemática. A memória de nossa vida nos apresentaria um panorama bem mais contínuo e mais denso. P. 73 “Se o ambiente social passado subsistisse para nós somente em tais representações históricas, e, se , de modo mais geral contivesse apenas datas associadas a acontecimentos definidos em termos gerais ou recordações abstratas de acontecimentos, a memória coletiva permaneceria muito exterior a nós.”P. 74 “Mais de um psicólogo gostará talvez de imaginar que, como auxiliares de nossa memória, os fatos históricos não desempenham um papel muito diferente das divisões de tempo marcadas num relógio ou determinadas pelo calendário. Nossa vida ecoa num movimento contínuo. Contudo, quando nos voltamos para o que assim já transcorreu, podemos sempre distribuir suas diversas partes entre os pontos de divisão d tempo coletivo que encontramos fora de nós e que se impõem de fora a todas as memórias individuais, precisamente porque não têm sua origem em nenhuma delas. O tempo social assim definido seria totalmente exterior às durações vividas pelas consciências.” P. 75 “Um acontecimento só toma lugar na série dos fatos históricos algum tempo depois de ocorrido. Portanto, somente bem mais tarde é que podemos associar diversas fases de nossa vida aos acontecimentos nacionais” p. 75 “Também nada mostraria mais claramente que na realidade estudamos dois objetos distintos quando fixamos nossa atenção quer na memória individual, quer na memória coletiva. Os acontecimentos e as datas que constituem a própria substância da vida do grupo não podem ser para o indivíduo mais do que sinais exteriores.” P. 75 “ É isso que faz a história contemporânea me interessar de maneira completamente diferente da história dos séculos precedentes. Sim, é claro,não posso dizer que me lembro em detalhes dos acontecimentos, pois só os conheço pelos livros. Contudo, diferente de outras épocas, esta vive em minha memória, pois nela estive mergulhado em toda um aparte de minhas lembranças de então é apenas seu reflexo.” P. 78 “Assim, mesmo quando se trata de lembranças de nossa infância, é melhor não fazer distinção entre uma memória pessoal, que reproduziria mais ou menos, as nossas impressões de outrora, (...) e uma outra memória, que se poderia chamar de histórica, contendo apenas acontecimentos nacionais que não poderíamos conhecer então.” P. 78 “Nossa memória não se apóia na história aprendida, mas na história vivida. Por história, devemos entender não uma sucessão cronológica de eventos e datas, mas tudo o que faz com que um período se distinga dos outros, do qual os livros e as narrativa em geral nos apresentam apenas um quadro muito esquemático e incompleto.” P. 79 No caso de guerras, tumultos, cerimônias nacionais, festas populares “Um ser como a criancinha, reduzido a suas percepções, guardará de tais espetáculos apenas uma lembrança frágil de pouca duração. Para que atinja a realidade histórica atrás da imagem, ela terá de sair de si mesma, terá de ser posta no ponto de vista do grupo, pata que possa ver como tal fato marca uma data – porque entrou no círculo das preocupações, dos interesses e das paixões nacionais.” P. 80 É através da memória histórica que “esse fato exterior à minha vida vem assim mesmo deixar sua impressão tal dia, tal hora, e a vista dessa impressão me fará recordar a hora ou o dia.” P.80 “Admitiremos então que esse indivíduo crie para si uma espécie de ambiente artificial, exterior a todos esses pensamentos pessoais, mas que os envolve, um tempo e um espaço coletivo, e uma história coletiva. É nesse tipo de contexto que se juntariam os pensamentos (impressões) dos indivíduos, o que pressupõe que cada um de nós deixasse por um momento de ser quem é. Logo voltaria a si, introduzindo em sua memória pontos de referência e divisões que traz prontas de fora.” P. 80 “Podemos verdadeiramente distinguir, por um lado uma memória sem contexto, ou que só disporia de linguagem e algumas idéias tiradas da vida prática para classificar suas lembranças e por outro lado, um problema histórico ou coletivo, sem memória, ou seja, que absolutamente não seria construído, reconstruído e conservado nas memórias individuais? Não acreditamos nisso.” P. 81 “Depois que ultrapassa a etapa da vida puramente sensitiva, a partir do momento em que se interessa pelo significado das imagens e dos quadros que vê, pode-se dizer que a criança pensa em comum com as outras pessoas, e que seu pensamento se divide entre o fluxo de impressões inteiramente pessoais e as diversas correntes do pensamento coletivo.” P. 81 “Essas ocasiões em que, depois de alguma comoção do meio social, a criança vê bruscamente se entreabrir o círculo estreito que a encerrava, essas revelações, por súbitas escapadas, de uma vida política, nacional, ao nível da qual ela não se eleva normalmente, são bastante raras.” P.83 “A criança também está em contato com seus avós, e através deles remonta a um passado ainda mais remoto. Os avós se aproximam das crianças, talvez porque, por diferentes razões, uns e outros se desinteressam pelos acontecimentos contemporâneos em que se prende a atenção dos pais.” P. 84 “Às vezes lamentamos não haver aproveitado essa ocasião singular que tivemos de entrar em contato com períodos que hoje conheceremos somente de fora, pela história, por meio de quadros e de literatura. Em todo caso, muitas vezes é na medida em que a presença de um parente idoso está de alguma forma impressa em tudo o que este nos revelou sobre um período e uma sociedade antiga, que ela se destaca em nossa memória” P. 85 “Os quadros coletivos da memória não conduzem a datas, a nomes e a fórmulas – eles representam correntes de pensamento e de experiência em que reencontramos nosso passado apenas porque ele foi atravessado por tudo isso.” P. 86 “No final, tirando-se gravuras e livros, o passado deixou na sociedade de hoje muitos vestígios, às vezes visíveis, e que também percebemos na expressão das imagens, no aspecto dos lugares e até nos modos de pensar e de sentir, inconscientemente conservados e reproduzidos por tais pessoas e em tais ambientes.” P. 87 “É na cidade e na população de hoje que um observador nota muitos traços de outrora, principalmente nas zonas menos nobres em que se refugiam as pequenas oficinas e ainda certos dias ou certas noites de festas populares na Paris comercial e operária, que mudou menos do que a outra.” P. 88 “A vida da criança mergulha mais do que se imagina nos meios sociais pelos quais ela entra em contato com um passado mais ou menos distanciado, que é como o contexto em que são guardadas suas lembranças mais pessoais.” P. 90 “Neste sentido é que a história vivida se distingue da história escrita: ela tem tudo o que é necessário para constituir um panorama vivo e natural sobre o qual se possa basear um pensamento para conservar e reencontrar a imagem de seu passado.” P. 90 “Ao crescer, especialmente quando se torna adula, a criança participa de modo mais distinto e mais refletido com relação à vida e ao pensamento desses grupos que faziam parte, no início quase sem perceber. Como isso não modificaria a idéia que ela tem de seu passado? Como as novas noções que ela adquire, noções sobre fatos, reflexões e idéias, não reagiriam sobre suas lembranças?” P. 91 “A lembrança é uma reconstrução do passado de dados tomados de empréstimo ao presente e preparados por outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora já saiu bastante alterada. Claro, se pela memória somos remetidos ao contato direto com alguma de nossas antigas impressões por definição a lembrança se distinguiria dessas idéias mais ou menos precisas que a nossa reflexão, auxiliada por narrativa,testemunhos e confidências dos outros, nos permite fazer de como teria sido o nosso passado.” P. 91 “Podemos chamar de lembranças muitas representações que, pelo menos parcialmente, se baseiam em testemunhos e deduções. (...) Será que basta reconstruir (reconstituir) a noção de um fato que certamente aconteceu, mas do qual não guardamos nenhuma impressão, para se constituir uma lembrança em todas as suas peças?” P. 91 “À medida que se distanciam os acontecimentos, temos o hábito de recordá-los sob a forma de conjuntos, sobre os quais às vezes se destacam alguns dentre eles, que abrangem muitos outros elementos – sem que possamos distinguir um do outro nem jamais enumerá-los por completo.” P. 92 Tratando-se de infância “é melhor não se falar em nenhuma memória histórica, pois a história corresponde a um ponto de vista adulto e as lembranças da infância só são conservadas pela memória coletiva porque no espírito da criança, estavam presentes a família e a escola.” P. 93 “Muitas de nossas lembranças remontam a períodos que, por falta de maturidade, de experiência ou de atenção, o sentido de mais de um fato, a natureza de mais de um objeto ou de uma pessoa meio que nos escapavam. Estávamos, por assim dizer, ainda muito envolvidos no grupo das crianças e em parte de nosso espírito já pertencíamos, mas não muito estreitamente, ao grupo dos adultos.” P. 95 “Não há na memória vazio absoluto, ou seja, regiões de nosso passado a esta altura saídas de nossa memória que qualquer imagem que ali projetamos não pode se agarrar a nenhum elemento de lembrança e descobre uma imaginação pura e simples, ou uma representação histórica que permaneceria exterior a nós.” P. 97 “Para Bergson: o passado permanece inteiro em nossa memória, exatamente como foi para nós; mas certos obstáculos, em especial o comportamento de nosso cérebro, impedem que evoquemos todas as suas partes. Em todo caso, as imagens dos acontecimentos passados estão completíssimas em nosso espírito.” P. 97 “Para que a memória dos outros venha assim a reforçar e completar a nossa, como dizíamos, é preciso que as lembrançasdesse grupo não deixem de ter alguma relação com os acontecimentos que constituem o meu passado.” P. 98 “Se fixamos a nossa atenção nos grupos maiores, como a nação, por exemplo, nossa vida e a de nossos pais ou nossos amigos estejam contidas na vida da nação, não se pode dizer que esta se interesse pelos destinos individuais de cada um de seus membros.” P. 99 “Em geral a nação está distanciada demais do indivíduo para que este considere a história de seu país algo diferentes de um contexto muito amplo, com o qual sua história pessoal tem pouquíssimos pontos de contato.” P. 99 “Se, por memória histórica, entendemos a seqüência de eventos cuja lembrança a história conserva, não será ela, não serão seus contextos que representam o essencial disso que chamamos de memória coletiva.” P. 99 “Concluímos que a memória coletiva não se confunde coma história e que a expressão memória histórica não é muito feliz, pois associa dois termos que se opõem em mais de um ponto. A história é a compilação dos fatos que ocuparam maior lugar na memória dos homens.(...)A história só começa no ponto em que termina a tradição, momento em que se apaga ou se decompõe a memória social.” P. 101 “ Se a condição necessária para que exista a memória é que o sujeito que lembra, indivíduo ou grupo, tenha a sensação de que ela remonta a lembranças de um movimento contínuo, como poderia a história ser uma memória, se há uma interrupção entre a sociedade que lê essa história e os grupos de testemunhas ou atores, outrora, de acontecimentos que nela são relatados?” P. 101 “Um dos objetivos da história talvez seja justamente lançar uma ponte entre o passado e o presente, e restabelecer essa continuidade interrompida. Mas como recriar correntes de pensamento coletivo que tomam seu impulso no passado, enquanto só temos influência sobre o presente?” P. 101 Memória x história *A memória é uma corrente de pensamento contínuo, de uma continuidade não-artificial ; a história divide as seqüências dos séculos em períodos artificialmente. *Existem muitas memórias coletivas, enquanto a história é uma e se pode dizer que só existe uma história. “ A história pode se apresentar como a memória universal da espécie humana. Contudo, não existe nenhuma memória universal.Toda memória coletiva tem como suporte um grupo limitado no tempo e no espaço.” P. 106 A história é um painel de mudanças é narural que esteja convencida de que as sociedades estão sempre mudando, porque fiza seu olhar no conjunto. A memória coletiva, ao contrário, é o grupo visto de dentro e não ultrapassa a duração média da vida humana. A memória coletiva é um painel de semelhanças, é natural que se convença de que o o grupo permenece. Capítulo III – A memória coletiva e o tempo Ora desejaríamos que o tempo corresse mais depressa, ora que se arrastasse ou se imobilizasse. Durkheim não deixou de observar que, a rigor, um individuo isolado poderia ignorar que o tempo passa e seria incapaz de medir sua duração, mas a vida em sociedade implica em que todos os homens entram em acordo sobre tempos e durações, e conhecem muito bem as convenções de que são objeto. Por isso, existe uma representação coletiva do tempo. (p. 113) Não podemos nos lastimar por sermos desorganizados em nossos hábitos. Nossa dificuldade é de outra natureza. Em primeiro lugar, a uniformidade pesa sobre nós. A divisão do trabalho social arrasta o conjunto dos homens num mesmo encadeamento mecânico das atividades: quanto mais avança, mais ela nos obriga a ser exatos. (p. 114) Somos sensíveis ao que são intervalos vazios, e o problema então é saber como passar o tempo. Alguém já disse que havia bons motivos para distinguir o tempo ou a duração em si e suas divisões. Mais precisamente, todo ser dotado de consciência teria a sensação da duração, pois nele se sucedem estados diferentes. Neste sentido, cada pessoa teria sua própria duração; este seria realmente um dos dados primitivos da consciência, que conehcemos diretamente e cuja noção não precisa penetrar em nós de fora. (p. 115) Um individuo isolado seria capaz de chegar à idéia de um tempo mensurável, por suas próprias forças e a partir dos dados de sua própria experiência. Os homens concordam em medir o tempo através de certos movimentos que ocorrem na natureza, como o dos astros, ou criados e regulados por nós, como em nossos relógios, porque na sequência de nossos estados de consciência não conseguiríamos encontrar pontos de referência definidos suficientes, que pudessem valer para todas as consciências. (p. 116) O velho, que guardou a lembrança de sua vida de criança, acha que os dias no presente são ao mesmo tempo mais lentos e mais curtos. Na realidade, o que escolhemos como pontos de referência, nesse retorno periódico de certos fenômenos materiais, é a oportunidade oferecida a nós e aos outros – já que os percebemos ao mesmo tempo – de constatar com muita precisão que há, entre algumas de nossas percepções, ou seja, entre alguns de nossos pensamentos, para eles e para nós, uma relação de simultaneidade e, principalmente, que essa relação se reproduz a intervalos regulares, que admitimos considerar iguais. (p. 117) Na realidade, no intervalo que se estende entre os dois cortes que correspondem aos pontos de referência, só existem pensamentos individuais separados em outras tantas correntes de pensamentos distintas, cada uma com sua própria duração. Pode-se, por assim dizer, imaginar um tempo vazio no qual transcorreriam todas as durações individuais, que estaria dividido pelos mesmos cortes; certamente uma noção assim se impõe a todos os pensamentos: mas esta é apenas uma representação abstrata, à qual não corresponderia mais nenhuma realidade se as durações individuais deixassem de existir. Posicionemo-nos nesse ponto de vista bergsoniano. A noção de um tempo universal, que envolve todas as existências, todas as sucessivas séries de fenômenos, se resumiria em uma sequência descontínua de momentos. Cada um deles corresponderia a uma relação estabelecida entre muitos pensamentos individais, que dela tomariam consciência simultaneamente. (p. 118) Nada povaria mais claramente que o tempo, concebido como algo que se estende ao conjunto dos seres, não passa de uma criação artificial, obtida por soma, combinação e multiplicação de dados tomados de empréstimo às durações individuais e somente a estas. A condição da memória, ou melhor, da forma d memória é tal, que só é verdadeiramente atuante e psíquica e não se confunde com o mecanismo do habito. A memória (entendida neste sentido) não tem poder sobre os estados passados e não os devolve a nós em sua realidade de outrora, porque não os confunde entre si nem com outros mais antigos ou mais recentes, ou seja: ela se baseia nas diferenças. (p. 119) (memória hábito – você não pensa que está lembrando) Entretanto, objetos no espaço, por diferentes que sejam, comportam muitas semelhanças. Os lugares que ocupam são distintos, mas encerrados em um meio homogêneo. As diferenças que sobressaem entre eles são determinadas em relação a tantos gêneros comuns dos quais uns e outros participam. Ao contrário, a corrente na qual os pensamentos são arrastados para dentro de cada consciência não é um meio homogêneo, pois aqui a forma não se distingue da matéria e o continente se mistura ao conteúdo. É justamente essa continuidade que explica que uns lembram os outros, os que os precederam ou seguiram, assim como não se pode apanhar um elo sem arrastar toda a corrente. Por serem todos diferentes, os estados individuais formam uma série contínua, em que qualquer semelhança, qualquer repetição introduziria um elemento de descontinuidade. É também porque são diferentes que as lembranças evocam umas às outras – não sendo assim, a série deixaria de se completar e se romperia a cada instante. Quando percebo objetos exteriores, eu talvez imagine que toda sua realidade se esgota na prcepção que deles tenho. Na duração não estão os objetos, mas meu pensamento que os representa para mim, e assim não saio de mim. (p.120) Pode-se dizer que o que rompe a continuidade de minha vida consciente e individual, e a ação que sobre mim exerce, de fora, uma outra consciência, que me impõe uma representação em que está contida. O curso do pensamento individual não será por isso em nada modificado – não terei a idéia de nenhuma outra duração que não a minha. (p. 121) Deve-se admitir que em qualquer percepção sensível há uma tendência a se exteriorizar, ou seja, a fazer o pensamento sair do círculo estreito da consciência individual por onde passa e a ver o objeto estando ao mesmo tempo representado ou podendo ser representado a qualquer momento em uma ou muitas consciências. Isto pressupõe que já estivéssemos representando uma “sociedade de consciências”. Mas como a representação pode vir da impressão se já não estivesse nela contida e, já que essa representação é assim apenas porque pode ser comum a muitas consciências, se é coletiva na exata medida que é objetiva, não deveríamos pensar que, senão a dor em si, pelo menos a idéia que de dor eu tinha antes (que é tudo o que a lembrança reterá) não passava de uma representação coletiva incompleta e truncada? As dores físicas e as sensações em geral são apenas idéias confusas ou inacabadas. (p. 122) Uma análise mais vigorosa da idéia de simultaneidade nos leva a descartar a hipótese de durações puramente individuais, uma impenetrável à outra. A sequência de nossos estados não é uma linha sem espessura, cujas partes nada têm a ver com as que as precedem e as que vêm depois. A aparente continuidade do que chamamos vida interior em parte é porque ela segue por algum tempo o curso de uma de suas correntes, o curso de um pensamento que de tempos a tempos surge em nós e nos outros, a tendência de um pensamento coletivo. Aliás, entre estes e aqueles existem apenas diferença de grau, pois as impressões afetivas tendem a desabrochar em imagens e representações coletivas. Em todo caso, se com as durações individuais podemos reconstituir uma duração mais ampla e impessoal em que estão contidas, é porque elas mesmas se destacam sobre o fundo de um tempo coletivo a que tomam emprestada sua substância. (p. 123) Estamos falando de um tempo coletivo, em oposição à duração individual. Agora se impõe a questão de saber se é um tempo único; de modo algum o julgamos antecipadamente. Segundo a teoria que discutimos, por um lado haveria tantas durações quantos indivíduos e, por outro lado, um tempo abstrato que a todos compreenderia. Esse tempo é vazio, talvez não seja senão uma idéia. Se ainda subsiste alguma incerteza no período em que o fato ocorreu, pelo menos não se trata de momentos outros em que se situam outras lembranças – é mais um modo de localizá-lo. (p. 124) O tempo matemático, este se opõe perfeitamente ao “tempo vivido” de Bergson e, segundo este filósofo, é totalmente “vazio de consciência”. É preciso que o tempo se esvazie pouco a pouco da matéria que permitiria distinguir suas partes umas das outras, para que possa convir a um número crescente de seres totalmente diferentes. O que orientaria os pensamentos neste esforço visando ampliar e universalizar o tempo, seria a representação latente de um ambiente inteiramente uniforme, muito vizinha à representação do espaço, até se confundindo com ela. (p. 125) O tempo social não é diferente às divisões que nele introduzimos. Assim, o tempo social não se confunde mais do que a duração individual com o tempo matemático. Há uma oposição fundamental entre o tempo real, individual ou social, e o tempo abstrato – e nem se pode dizer que à medida que se torna mais social, o tempo real se aproxima deste... Mais concreto e mais definido nos parecerá agora o que poderíamos chamar de tempo universal, que se estende a todos os acontecimentos que ocorreram em qualquer lugar do mundo, em todos os continentes, em todos os países, em todos os grupos e, através deles, em todos os indivíduos. (p. 127) É comum falar-se em “tempos históricos” – como se houvesse muitos, e talvez com isso designássemos períodos sucessivos, mais ou menos distantes do presente. Contudo, também podemos dar um outro sentido a essa expressão, como se houvesse muitas histórias, distintas, umas começando mais cedo, outras começando mais tarde. (p. 129) Tudo está realmente entrelaçado e na hora não podemos prever quais serão as repercussões de um acontecimento e até por quais regiões do espaço elas se propagarão. Contudo, são as repercussões, não o acontecimento, que entram na memória de um povo que passa pelo evento, e somente a partir do momento em que elas o atingem. Cada grupo localmente definido tem sua própria memória e uma representação só dele de seu tempo. É por meio de uma construção artificial que fazemos esses dois tempos (história da Europa e história da América) se interpenetrarem, ou quando os alinhamos um ao lado do outro num tempo vazio, que nada tem de histórico, é apenas o tempo abstrato dos matemáticos. (p. 130) Mas a história universal assim entendida (soma de fatos históricos) não é mais do que uma justaposição de histórias parciais que só abrangem a vida de certos grupos. A massa da população que só entra em círculos limitados e ocupa as mesmas regiões também tem a sua história. (p. 131) Memória histórica e memória coletiva: a primeira guarda principalmente as diferenças – mas as diferenças ou as mudanças marcam somente a passagem brusca e quase imediata de um estado que dura a um outro estado que dura. Para nos fazer saber sobre o que não muda, o que dura no verdadeiro sentido da palavra, para nos dar uma boa representação adequada, teríamos de nos recolocar no meio social que tomava consciência dessa estabilidade relativa, fazer reviver para nós uma memória coletiva que desapareceu. (p. 132) A memória coletiva retrocede no passado até certo limite, mais ou menos longínquo conforme pertença a esse ou aquele grupo. Parece que a memória coletiva tem que esperar que os grupos antigos desapareçam, que seus pensamentos e sua memória tenham desvanecido, para que se preocupe em fixar a imagem e a ordem de sucessão de fatos que agora só ela é capaz de conservar. Situemo-nos agora no ponto de vista das consciências coletivas, já que este é o único meio para permanecermos em um tempo real, contínuo o suficiente para que um pensamento possa percorrer todas as suas partes continuando a ser quem é e guardando a sensação de sua unidade. (p. 133) Diremos, então, que existe um tempo único e universal a que todas as sociedades se referem, cujas divisões se impõem a todos os grupos e que esta oscilação comum, transmitida a todas as regiões do mundo social, restabelece entre elas as comunicações e relações que suas mútuas barreiras tenderiam a impedir? (p. 134) Nos guiamos por um vago sentimento, como nos dirigimos em uma cidade sem olhar os nomes das ruas por uma espécie de faro. Visto que nos diversos ambientes não temos a necessidade de medir o tempo com a mesma exatidão, a correspondência entre o tempo do escritório, o tempo de casa, o tempo da rua, o tempo das visitas é fixado entre limites às vezes bastante amplos. É verdade que todos se inspiram no mesmo tipo e se referem a um mesmo contexto, que poderia ser considerado o tempo social por excelência. (p. 135) Não há grupo que não sinta a necessidade de distinguir e identificar as diversas partes de sua duração. Entretanto, embora subsistam essas divisões, não quer dizer que haja um tempo social único, porque apesar e sua origem comum, elas tomaram um significado muito diferente entre os diversos grupos. (p. 136) O ano escolar não começa no mesmo dia do ano religioso. O ano leigo, o ano camponês, o ano industrial, o ano militar. Assim tanto existem grupos quanto origens de tempos diferentes. Não há nenhum que se imponha a todos os grupos. (p. 137) (por mais que hajam “padrões” gerais estabelecidos) De fato, como já vimos, há uma correspondência bastant exata entre todos esses tempos, embora não possamos dizer que eles se adaptaram uns aos outros por uma convenção estabelecida entre os grupos.(p. 138) De um grupo a outro, as divisões do tempo em harmonia não são as mesmas e, em todo caso, não têm o mesmo sentido. Pouco importa que aqui e ali falemos de dias, meses, anos. Um grupo não poderia usar o calendário de outro. A questão agora é saber se esses grupos estão realmente separados. (p. 139) Dizem que um mesmo acontecimento poe afetar ao mesmo tempo muitas consciências coletivas distintas: conclui-se daí que nesss momento essas consciências se aproximam e se unem em uma representação comum. Para que lhes emprestemos o mesmo significado, é preciso antes que as uas consciências estejam misturadas. Ora, hipoteticamente, elas são distintas. Não se pode conceber que dois pensamentos penetrem assim um no outro. É claro, dois grupos podem se fundir, mas surge então uma nova consciência, cuja extensão e conteúdo já não serão os mesmos de antes. Ou essa fusão é apenas aparente, se os dois grupos se separam e logo se reencontram para o essencial, como antigamente. (p. 140) Se não se assimilam, cada um dos dois povos mantém sua consciência nacional própria e reage de maneira diferente frente aos mesmos acontecimentos. (p. 141) Se as diversas correntes do pensamento coletivo jamais se interpenetram realmente e não podem ser postas e mantidas em contato, é muito difícil dizer se o tempo passa mais depressa para um do que para o outro. Definiríamos a velocidade do tempo conforme o número de eventos que encerra? Mas havíamos dito que o tempo é uma coisa muito diferente de uma série de fatos sucessivos ou uma soma de diferenças. Os acontecimentos dividem o tempo, mas não o preenchem. (p. 143) O tempo é exatamente o que deve ser em tal grupo e entre tais pessoas, cujo pensamento assumiu um comportamento de acordo com suas necessidades e suas tradições. (p. 144) Os pensamentos que o preenchem são mais numerosos, mas também mais curtos, não lançam raízes profundas nos espíritos. Um pensamento só adquire consistência quando se estende por uma duração suficiente. Às vezes nos surpreendemos quando buscamos uma lembrança muito distante, com a rapidez com que o espírito salta por vastos períodos e, como se houvesse calçado as botas de sete léguas, apenas entrevê a passagem das representações do passado que aparentemente deveriam preencher aquele intervalo. (p. 145) É no tempo, no tempo que é o de um determinado grupo que ele procura encontrar ou reconstituir a lembrança, e é no tempo que se apóia. O tempo e só o tempo tem o poder de desempenhar este papel à medida que nele pensamos como um meio contínuo que não mudou e que permanece hoje como era ontem, de modo que podemos encontrar o ontem no hoje. É claro, esse tempo não se confunde com os acontecimentos que nele sucederam. Mas ele também não se reduz, como já mostramos, a um contexto homogêneo e inteiramente vazio. Nele encontramos inscritos ou indicados os vestígios de acontecimentos ou personalidades de outrora à medida que respondem e respondem ainda a um interese ou a uma preocupação do grupo. (p. 146) Mas o grupo não é somente nem principalmente um conjunto de indivíduos definidos, e sua realidade não se esgota em algumas imagens que podemos enumerar e a partir do qual o reconstruiríamos. Ao contrário, o que essencialmente o constitui é um interesse, uma ordem de idéias e de preocupações que se particularizam e em certa medida refletem as personalidades de seus membros, mas são bastante generalizadas e até impessoais para conservar seu sentido e sua importância para mim, e ao mesmo tempo essas personalidades se transformariam e seriam substituídas por outras, parecidas, é verdade, mas diferentes. (p. 147) A lembrança é o elemento estável que transformava a união de dois seres na base simplesmente afetiva m uma sociedade, e é o pensamento subsistente do grupo que evoca a aproximação passada, e resgata do esquecimento a imagem da pessoa. Dois amigos não se esquecem porque a amizade pressupõe um acordo dos pensamentos e algumas preocupações comuns. A permanência do tempo social é bastante relativa. Realmente, se vai muito longe pelas direções variadas onde se aventura o pensamento desses grupos, a nossa retomada do passado não é ilimitada e jamais ultrapassa uma linha que se desloca à medida que as sociedades das quais participamos entram em cada novo período de sua existência. (p. 148) Enquanto o grupo não muda sensivelmente, o tempo que sua memória abrange pode se alongar: é sempre um meio contínuo, que continua acessível para nós em toda sua extensão. Embora a memória atinja regiões do passado em distâncias desiguais, segundo as partes contempladas do corpo social, não é porque uns têm mais lembranças do que outros – mas porque as duas partes do grupo organizam seu pensamento em volta de centros de interesse que já não são exatamente os mesmos. (p. 149) Como o período em que se estabelecem as bases de um novo grupo não estaria repleto de pensamentos intensos, destinados a durar? Assim sobrevive o espírito dos fundadores em mais de uma sociedade, por mais curto que tenha sido o tempo dedicado aos alicerces. (p. 150) Às vezes, pelo menos no começo, a consequência disso é uma alternância de períodos em que o casal, buscando de alguma forma seu lugar na sociedade exterior, um tanto se deixa prender por ela e um tanto a mantém afastada – contrastes que se destacam bastante para que esta fase de sua vida se destaque das outras e permaneça gravada na memória. A família é feita de um conjunto de relações internas mais numerosas e mais complexas, mais impessoais também, porque à sua maneira realiza um tipo de organização doméstica que existe fora dela e tende a superá-la. (p. 151) Quando uma sociedade é submetida a um remanejamento profundo, parece que a memória atinge por duas vias diferentes as lembranças que correspondem a esses dois períodos sucessivos, e não passa de um a outro de modo contínuo. Assim, quando em uma sociedade que se transformou subsistem vestígios do que primitivamente foi, os que a conheceram em seu estado primeiro também podem fixar sua atenção nos vestígios antigos que lhe proporcionam o acesso a um outro tempo e um outro passado. (p. 152) Não há um tempo universal e único, mas a sociedade se decompõe em uma multiplicidade de grupos, cada um com sua própria duração. O que distingue os tempos coletivos não é que uns passem mais depressa do que os outros. Não se podem nem dizer que esses tempos passam, pois cada consciência coletiva pode se lembrar, e a subsistência do tempo parece muito bem ser uma condição da memória. Os acontecimentos se sucedem no tempo, mas o tempo em si é um contexto imóvel. Os tempos são mais ou menos vastos, permitem que a memória retroceda mais ou menos longe no que se convencionou chamar de passado. Do ponto de vista dos indivíduos, cada um é membro de diversos grupos, participa de diversos pensamentos sociais, seu olhar mergulha sucessivamente em vários pensamentos coletivos. Já é um elemento de diferenciação individual o fato de que, num mesmo período, em uma região do espaço, não é entre as mesmas correntes coletivas que se dividem as consciências dos diversos homens. Tudo o mais é a interpretação dos psicólogos, que acreditam existirem tantas durações diferentes irredutíveis umas às outras quantas consciências individuais, porque cada uma delas é como uma onda de pensamento que passa com seu próprio movimento. Mas, para começar, o tempo não passa: ele dura, subsiste e é necessário, senão como poderia a memória retroceder no tempo? (p. 153) A duração interior se decompõe em muitas correntes que têm sua fonte ns grupos em si. A consciência individual é apenas o lugar de passagem dessas correntes, o ponto de encontro dos tempos coletivos. É curioso que esta concepção não tenha sido examinada até o presente pelos filósofos que estudaram o tempo. Isso acontece porque sempre imaginamos s consciências como isoladas umas das outras, cada uma encerrada em si mesma. Sim, o pensamento ainda atua na memória: ela se desloca, está em movimento. Digno de nota é que então, e somente então,se pode dizer que ela se desloca e se move no tempo. Sem a memória e fora de momentos em que no lembramos, como teríamos a consciência de estar no tempo e nos transportarnos na duração? (p. 154) Podemos estar no tempo, no presente, que é uma parte do tempo, e no entanto não sermos capazes de pensar no tempo, de nos transportar pelo pensamento ao passado próximo ou distante. Em outras palavras, da corrente das impressões, é preciso distinguir as correntes do pensamento propriamente dito ou da memória: a primeira está estreitamente ligada ao nosso corpo, não nos faz sair de nós – mas não nos abre nenhuma perspectiva sobre o passado, as segundas têm sua origem e a maior parte de seu curso no pensamento dos grupos diversos aos quais nos ligamos. A condição necessária para que seja assim é que em cada uma dessas consciências o tempo passa, certa imagem do tempo subsiste e se imobiliza, que o tempo dure pelo menos em certos limites, variáveis conforme os grupos. Este é o grande paradoxo. (p. 155) Certamente, os limites até onde retrocedemos assim no passado são variáveis segundo os grupos, e é o que explica porque os pensamentos individuais conforme os momentos – ou seja, conforme o grau de sua participação nesse ou naquele pensamento coletivo, atingem lembranças mais ou menos remotas. Além dessa franja movediça do tempo ou, mais exatamente, dos tempos coletivos, não há mais nada, pois o tempo dos filósofos não passa de uma forma vazia. O tempo só é real na medida que tem um conteúdo, ou seja, na medida que oferece ao pensamento uma matéria de acontecimentos. Ele é limitado e relativo, mas tem uma realidade plena. É bastante amplo para oferecer às consciências individuais um contexto de respaldo suficiente para que estas possam nele dispor e reencontrar suas lembranças. (p. 156) Capítulo IV – A memória coletiva e o espaço Augusto Comte observou que o equilíbrio mental resulta em boa parte e antes de mais nada, do fato de que os objetos materiais com os quais estamos em contato diário não mudam ou mudam pouco e nos oferecem uma imagem de permanência e estabilidade. Descartemos quaisquer idéias de comodidade e estética. Nosso ambiente material traz ao mesmo tempo a nossa marca e a dos outros. (p. 157) Nossa cultura e nossos gostos aparentes na escolha e na disposição desses objetos em grande medida se explicam pelos laços que sempre nos ligam a um número enorme de sociedades sensíveis e invisíveis. Não se pode dizer que as coisas façam parte da sociedade. Contudo, móveis, enfeites, quadros, utensílios e bibelôs circulam dentro do grupo e nele são apreciados, comparados, a cada instante descortinam horizontes das novas orientações da moda e do gosto, e também nos recordam os costumes e as antigas distinções sociais. De fato, as formas dos objetos que nos rodeiam têm esse significado. Não estávamos errados ao dizer que eles estão em volta de nós, como uma sociedade muda e imóvel. (p. 158) Quando inserido numa parte do espaço, um grupo o molda à sua imagem, mas ao mesmo tempo se dobra e se adapta a coisas materiais que a ela resistem. O grupo se fecha no contexto que construiu. Não é o indivíduo isolado, é o indivíduo enquanto membro do grupo, é o grupo em si que, dessa maneira, permanece sujeito à influência da natureza material e participa de seu equilíbrio. Assim se explica como as imagens espaciais desempenham esse papel na memória coletiva. O lugar ocupado por um grupo não é como um quadro negro no qual se escreve e depois se apaga números e figuras. (...) Mas o local recebeu a marca do grupo, e vice-versa. Toda as ações do grupo podem ser traduzidas em termos espaciais, o lugar por ele ocupado é apenas a reunião de todos os termos. Cada aspecto, cada detalhe desse lugar tem um sentido que só é inteligível para os membros do grupo, porque todas as partes do espaço que ele ocupou correspondem a outros tantos aspectos diferentes da estrutura e da vida de sua sociedade, pelo menos o que nela havia de mais estável. (p. 159) No entanto um acontecimento realmente grave sempre traz consigo uma mudança nas relações do grupo com o lugar – seja porque este modifica todo o grupo, por exemplo, uma morte ou um casamento, seja porque o grupo modifica o lugar: a família enriquece ou empobrece, o pai da família é chamado para outro posto ou passa a uma outra ocupação. A partir desse momento, este não será mais exatamente o mesmo grupo, nem a mesma memória coletiva e, ao mesmo tempo, o ambiente material também não será mais o mesmo. Por isso o grupo urbano não tem a impressão de mudar enquanto a aparência das ruas e das construções permanece idêntica; existem poucas formações sociais ao mesmo tempo mais estáveis e de duração mais segura. (p. 160) Assim, não somente casas e muralhas persistem através dos séculos, mas toda a parte do grupo que está em permanente contato com elas e confunde sua vida com a vida das coisas permanece impassível, porque não se interessa pelo que acontece na realidade fora de seu círculo mais próximo e além de seu horizonte mais imediato. (p. 161) Os costumes locais resistem às forças que tendem a transformá-los e essa resistência permite entender melhor a que ponto nesse tipo de grupo a memória coletiva se apóia nas imagens espaciais. (p. 162) Quando um grupo humano vive por muito tempo em um local adaptado a seus hábitos, não apenas a seus movimentos, mas também seus pensamentos se regulam pela sucessão das imagens materiais que os objetos exteriores representam para ele. O que um grupo fez, outro pode desfazer. Mas a intenção dos homens antigos tomou corpo num arranjo material, em uma coisa, e a força da tradição local vem dessa coisa, da qual ela era a imagem. Tanto isso é verdade que, em uma parte de si, os grupos imitam a passividade da matéria inerte. (p. 163) Esses pesares ou essas inquietações individuais não têm consequências porque não tocam a coletividade. Ao contrário, um grupo não se contenta em manifestar o que sofre, em se indignar e protestar na hora. Ele resiste com toda a força de suas tradições e essa resistência tem suas consequências. Ele procura e em parte consegue reencontrar seu antigo equilíbrio nas novas condições. (p. 164) Os grupos de que falamos até aqui são naturalmente ligados a um lugar, porque é o fato de estarem próximos no espaço que cria entre seus membros as relações sociais. (...) Os habitantes de uma cidade ou de um bairro formam uma pequena comunidade, porque estão reunidos em uma mesma região do espaço. Desnecessário dizer que esta é apenas uma condição da existência desses grupos, mas uma condição essencial e muito aparente. (p. 165) Os grupos econômicos resultam do lugar dos homens não no espaço, mas na produção, em uma diversidade de funções e também em modos diversificados de remuneração, da distribuição de bens; no plano econômico, os homens são diferenciados e se aproximam pelas qualidades ligadas à pessoa e não ao lugar. Todos esses grupos se superpõem nas sociedades locais. Longe de se confundirem com elas, são elas que os decompõem, conforme regras sem nenhuma relação com a configuração do espaço. Por isso não basta pensar que há pessoas reunidas em um mesmo lugar e guardar na memória a imagem desse lugar para descobrir e recordar a que sociedades eles estão ligados. (p. 166) Daí a maior uniformidade do presente: as diversas partes de um país já não representam outro tanto de regimes jurídicos distintos. O pensamento coletivo não leva em conta leis, abstração feita das condições locais em que elas se aplicam. Ele mais se prende a essas condições. Se as lembranças se conservam no pensamento do grupo, é porque ele permanece estabelecido no solo, é porque a imagem do solo perdura materialmente fora dele e ele pode retomá-la a qualquer instante. É verdade que no interior todas as negociações e todos os envolvimentos terminam na terra. (p. 167) O trabalho de um operário, as ocupações de um empregado, os cuidados de um médico, a assistência de um advogado etc. não são objetos que ocupam um local definido e estçavel no espaço.(p. 168) Esta é a razão pela qual, sem sair de tal círculo material, permanecem encerrados em um mundo definido de relações jurídicas formadas no passado, mas que lhes permanecem presentes. É realmente sobre um fundo espacial que se esboçam esses pequenos grupos econômicos. (p. 169) Assim, não há memória coletiva que não aconteça em um contexto espacial. É ao espaço, ao nosso espaço – o espaço que ocupamos, por onde passamos muitas vezes, a que sempre temos acesso e que, de qualquer maneira, nossa imaginação ou nosso pensamento a cada instante é capaz de reconstruir – que devemos voltar nossa atenção, é nele que nosso pensamento tem de se fixar para que essa ou aquela categoria de lembranças reapareça. (p. 170) Apenas nos perguntamos em que condições deveríamos nos situar se desejássemos perceber somente as qualidades físicas e sensíveis das coisas. (p. 171) Ora, um homem ou muitos homens só adquirem um direito de propriedade sobre uma terra ou sobre uma coisa a partir do momento em que a sociedade da qual são membros admite a existência de uma relação permanente entre eles e essa terra ou essa coisa, ou se esta relação for tão imutável quanto a coisa em si. (p. 172) Longe dos olhos do senhor, o escravo podia esquecer sua condição servil. Entrasse ele numa das salas em que vivia o senhor, tomva de novo consciêcia de ser escravo – como se, passando o limiar, fosse transportado a uma parte do espaço em que se conservava a lembrança da relação de dependência em que estava diante de seu senhor. Um centro de onde irradiam os direitos e poderes de quem tem a liberdade de dispor de sua pessoa dentro de certos limites – que, apenas à medida que penetram nesta zona ou se aproximam deste centro, as circunstâncias e o significado do contrato que assinaram parecem estar sendo reconstituídos ou evocados em sua memória. (p. 175) Para os antigos, a imagem da cidade não se separava da lembrança de suas leis. (p. 176) Preços estão ligados às coisas como etiquetas – mas entre a aparência física de um objeto e seu preço não há nenhuma relação. Sabemos muito bem que as pessoas avaliam os objetos, como avaliam também a satisfação que eles nos trazem do esforço e do trabalho que eles representam, segundo seus preços, e esses preços são dados fora de nós, em nosso grupo econômico. A vida econômica e baseia na memória dos preços anteriores, pelo menos do “último preço”, ao qual se referem compradores e vendedores, ou seja, todos os membros do grupo. (p. 177) Não é o espaço ocupado pelos objetos, são os lugares em que se formam essas opiniões no valor das coisas e onde se transmitem as lembranças dos preços, que podem servir de suporte à memória econômica. Em outras palavras, no pensamento coletivo, certas partes do espaço se diferenciam de todas as outras porque normalmente são o lugar de reunião de grupos que têm por função lembrar e lembrar aos outros grupos quais são os preços das diferentes mercadorias. (p. 178) É preciso que compradores e vendedores estejam sempre se readaptando às condições de um novo equilíbrio e que, a cada vez, esqueçam seus hábitos, pretensões e experiências antigas. À medida que nos afastamos desses círculos em que as atividades das trocas está mais intensa, a memória econômica se torna mais lenta, se baseia num passado mais antigo e retarda no presente. (p. 179) Os preços não se fixariam na memória de comprdores e vendedores, se uns e outros não pensassem ao mesmo tempo – não somente nos objetos – mas nos lugares em que estes estão expostos e são oferecidos. (p. 182) De qualquer maneira, nos encontramos na disposição de espírito comum aos fiéis quano estão em lugar de culto e, embora não se trate de eventos propriamente ditos, mas de certa inclinação e orientação uniforme de sensibilidade e do pensamento, esse é exatamente o fundamento e o conteúdo mais importante da memória coletiva religiosa. Não há dúvida de que ela se mantenha nas religiões consagradas, porque a partir do momento em que entramos na igreja, voltamos a encontrá-la. (p. 183) Qualquer religião tem também sua história, ou melhor, há uma memória religiosa feita da tradições que remontam a eventos muito distantes no passado, que aconteceram em determinados lugares. (p. 185) Se, no entanto, a igreja e os fiéis se acomodam a essas variações e contradições, não será porque a memória religiosa precisa imaginar os lugares para evocar os acontecimentos que a eles associa? Nem todos os fiéis podem ir em peregrinação a Jerusalém, para contemplar com seus próprios olhos os lugares santos. Basta que os imaginem e saibam que eles continuam ali, jamais duvidaram disso. (p. 186) A sociedade religiosa quer se convencer de que não mudou, embora tudo se transformasse a seu redor. Ela só segue isso encontrando os lugares, ou reconstituindo a sua volta uma imagem ao menos simbólica dos lugares em que se constituiu – porque os lugares participam da estabilidade das coisas materiais e é fixando-se neles, encerrando-se em seus limites e sujeitando nossa atitude à sua disposição que o pensamento coletivo do grupo dos crentes tem maior oportunidade de se imobilizar e durar. Esta é realmente a condição da memória. Resumindo tudo o que precede, diremos que a maioria dos grupos, não apenas aqueles que resultam da justaposição permanente de seus membros, nos limites de uma cidade, uma casa ou um apartamento, mas também muitos outros, esboçam de algum modo sua forma sobre o solo e encontram suas lembranças coletivas no contexto espacial assim definido. Em outras palavras, há tantas maneiras de representar o espaço quanto grupos. (p. 187) Assim, cada sociedade recorta o espaço à sua maneira, mas de uma vez por todas ou sempre segundo as mesmas linhas, de maneira a constituir um contexto fixo em que ela encerra e encontra suas lembranças... Jamais saimos do espaço. Sensações, reflexões e quaisquer fatos, devem ser postos num local onde já residi ou pelo qual passei nesse momento e continua existindo. (p. 188) Portanto, não é exato dizer que, para lembrar, é preciso que nos transportemos em pensamento fora do espaço, pois ao contrário é justamente a imagem do espaço que, em função de sua estabilidade, nos dá a ilusão de não mudar pelo tempo afora e encontrar o passado no presente – mas é exatamente assim que podemos definir a memória e somente no espaço é estável o bastante para durar sem envelhecer e sem perder nenhuma de suas partes.