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A Roupa, a Moda e a Mulher na Europa Ocidental

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açambarca os poderes familiais. No entanto, nessa mudança, o mundium* 
torna-se uma obrigação onerosa para o tutor. Ele tem o dever de proteger sua pupila e essa 
proteção redunda para a mulher na mesma escravidão de outrora. Entretanto, quando o Estado 
se torna poderoso, esboça-se a evolução que houve em Roma: a tutela dos incapazes, como 
crianças e mulheres deixam de ser um direito de família para tornar-se um encargo público. 
A ideologia cristã de repúdio ao universo feminino contribuiu muito para o quadro de 
opressão da mulher que se estabeleceu na Idade Média. Encontram-se no Evangelho um 
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73 de BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo: fatos e mitos. Vol. 1. São Paulo: Editora Nova Fronteira, 1989. p. 
128. 
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discurso de caridade que se estende tanto às mulheres quanto aos leprosos, aos pequenos e aos 
escravos, e são elas que se apegam à nova lei. Logo ao início do cristianismo, quando se 
submetiam ao jugo da Igreja, eram as mulheres relativamente honradas as que testemunhavam 
como mártires ao lado dos homens. Elas não podiam, entretanto, tomar parte do culto senão a 
título secundário; as “diaconisas*” só eram autorizadas a realizar tarefas difíceis, cuidar dos 
doentes ou socorrer os indigentes. No casamento, encarado como instituição que exige 
fidelidade recíproca, parece evidente que a esposa deve ser subordinada ao esposo; através 
dele, afirma-se a tradição judaica ferozmente misógina. Baseado no Antigo e no Novo 
Testamento, o princípio da subordinação da mulher ao homem exige das mulheres discrição e 
modéstia. Segundo São Paulo “o homem não foi tirado da mulher e sim a mulher do homem, 
e o homem não foi criado para a mulher e sim esta para o homem”. E alhures: “assim como a 
Igreja é submetida a Cristo, em todas as coisas submetam-se as mulheres a seus maridos”.74 
Numa religião em que a carne é maldita, a mulher se apresenta como a mais temível 
tentação do demônio. Tertuliano escreve: “Mulher, és a porta do diabo. Persuadiste aquele 
que o diabo não ousava atacar de frente. É por tua causa que o filho de Deus teve de morrer; 
deverias andar sempre vestida de luto e de andrajos.”75 
Santo Ambrósio diz que Adão foi induzido ao pecado por Eva e não Eva por Adão. 
Assim sendo, é justo que a mulher aceite como soberano aquele que ela conduziu ao pecado. 
São João Crisóstomo diz: “Em meio a todos os animais selvagens não se encontra nenhum 
mais nocivo do que a mulher”.76 Quando surge o direito canônico no século IX, o casamento 
advém como uma concessão às fraquezas humanas, é incompatível com a perfeição cristã. 
São Jerônimo ainda enfatiza que o casamento é como uma árvore estéril que deve ser 
estirpada pelas raízes. 
A partir de Gregório VI, quando o celibato é imposto aos padres, o caráter perigoso da 
mulher é severamente sublinhado; todos os Padres da Igreja lhe proclamam a abjeção. São 
Tomás será fiel a essa tradição ao declarar que a mulher é um ser “ocasional” e incompleto, 
uma espécie de homem falhado. “O homem é a cabeça da mulher, assim como Cristo é a 
cabeça do homem.[...] É indubitável que a mulher se destina a viver sob o domínio do homem 
 
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74 de BEAUVOIR, Simone, op. cit. p.127. 
75 ibid., op. cit., p. 127. 
76 id., op. cit., p. 127. 
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e não tem por si nenhuma autoridade”.77 Deste modo, o direito canônico só admite como 
regime matrimonial o regime dotal que torna a mulher incapaz e impotente. Não somente os 
ofícios viris lhe são proibidos, como ainda se lhe veda depor nos tribunais e não se dá nenhum 
valor a seu testemunho. 
Os imperadores sofrem a influência dos Padres da Igreja de modo amenizado; a 
legislação de Justiniano honra a mulher como esposa e mãe, mas a escraviza a essas funções; 
sua incapacidade decorre de sua situação no meio da família. O divórcio é proibido e exige-se 
que o casamento seja um acontecimento público; a mãe tem sobre o filho uma autoridade 
igual à do pai, e o mesmo direito à herança. Morrendo o marido, torna-se ela a tutora legal. O 
“senatus-consulto veleiano*” é modificado. Doravante ela poderá obrigar-se em benefício de 
terceiros, mas não pode contratar por seu marido. O dote torna-se inalienável por ser o 
patrimônio dos filhos e ela não pode dispor dele. 
A essas leis justapõem-se, nos territórios ocupados pelos bárbaros, as tradições 
germânicas. Os costumes dos germânicos eram singulares. Só admitiam chefes durante as 
guerras. Em tempo de paz a família era uma sociedade autônoma. Parece ter sido 
intermediária entre os clãs fundados na filiação uterina e a gens patriarcal. Numa sociedade 
em que toda capacidade se encontrava na força bruta, a mulher era inteiramente impotente, 
mas reconheciam-lhe direitos que a dualidade dos poderes domésticos, dos quais ela 
dependia, lhe assegurava. O marido comprava-a, mas o preço da compra constituía uma renda 
da qual ela era proprietária, além disso recebia um dote de seu pai. Parte da herança paterna 
era recebida por ela e, em caso de assassínio dos pais, uma parte lhe era paga pelo assassino. 
“Na paz como na guerra, ela partilha a sorte dele, com ele vive, com ele morre”78 escreve 
Tácito. 
Por ter raízes em sua fraqueza física, a incapacidade da mulher não era encarada como 
expressão de uma inferioridade moral. Havia mulheres sacerdotisas e profetisas, o que leva a 
supor que, em certos casos, tinham uma instrução superior à dos homens. 
 
 
 
 
 
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77 de BEAUVOIR, Simone, op. cit., p. 127. 
78 ibid, op. cit., p. 128. 
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3.2 Os estatutos legais 
 
Para que se possa fazer uma análise da situação da mulher na Idade Média é necessário 
conhecer o universo comum a uma nobre dama em seu castelo feudal, a uma esposa burguesa 
(habitante da cidade) e a uma pobre serva camponesa. Um dos caminhos para se chegar a uma 
conclusão é o de investigar os estatutos legais e religiosos que eram impostos e afetaram as 
esposas medievais, outro é o de examinar as idéias vigentes então sobre o casamento a partir 
da literatura desse período. Quanto às atividades diárias das esposas, existem manuscritos 
impressos em madeira e também pinturas que mostram as diversas ocupações dessas 
mulheres. Segundo Yalom, nada é mais valioso do que os poucos e preciosos documentos que 
foram preservados e registraram uma visão particular da esposa e de sua situação. A partir 
dessas diferentes fontes é possível tecer teia da vida das mulheres, principalmente a das 
casadas. A subordinação feminina, imposta pelo clérigo, permanece útil à sociedade e o 
casamento é o seu retrato. Por isso, o poder marital sobrevive ao desaparecimento do regime 
feudal. 
Tradicionalmente, as uniões nas sociedades rurais tinham mais um caráter de reunião 
de interesses conjugados com vistas à sobrevivência dos esposos e de sua prole que um 
caráter de união sentimental. Os noivos, muitas vezes mal se conheciam e eram obrigados em 
alianças de interesse. A formalização da união era operada entre os responsáveis masculinos 
dos noivos. A partir da metade do século XII, as leis da Igreja ou leis canônicas trouxeram 
alterações que tiveram efeitos duradouros. Primeiramente, as tradições pagãs foram 
progressivamente incorporadas conforme rituais religiosos e sacralizadas. Os pretendentes 
foram induzidos a casarem-se na presença do chefe espiritual da igreja local que substituía a 
autoridade do pai. A cerimônia, em seus primórdios, era realizada no parvis* da igreja, antes 
de adentrá-la em uma segunda fase e reproduzir o ambiente acolhedor do interior da casa 
paterna. Em seguida,

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