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“AGORA, QUE SOMOS PATRIMÔNIO...” BITAR, Nina Pinheiro. “Agora, que somos patrimônio...”: um estudo antropológico sobre as baianas de acarajé. Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado, UFRJ/IFCS/PPGSA, 2010. pp 194. Professora Adjunta do Curso de Gastronomia da UFRJ. Pós-doutorado CNPq realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (2014-2016). Doutorado concluído no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro com bolsa sanduíche na New York University (2014). Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2010). Bacharelado e Licenciatura em Ciências Sociais na UFRJ (2007 e 2008). Organizadora do livro A Alma das coisas: patrimônio, materialidade e ressonância; (Bitar; Gonçalves; Guimarães, 2012). Primeira colocada na categoria dissertação do Prêmio IPP-Rio Maurício de Lima Abreu em 2011. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia Urbana, atuando principalmente nos temas: alimentação, patrimônio, religiões afro-brasileiras, políticas públicas e mercados de abastecimento de alimentos.[footnoteRef:1] [1: Disponível em http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4744583Z3 (acessado dia 29/11/2017)] “Agora, que somos patrimônio...” é o nome da dissertação apresentada por Nina Pinheiro Bitar, para obtenção do título de mestre em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que se tornou livro um ano depois (Bitar, 2011) Fruto da pesquisa Patrimônio Cultura, Memória e Etnicidade em contextos transnacionais, onde pode investigar os ditos “sistemas culinários”, interessou-se especificamente no percurso que tornou, por exemplo, o ofício de baiana de acarajé um “patrimônio imaterial”, este registrado em setembro de 2004 pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Essa pesquisa teve como objetivo problematizar a categoria baiana de acarajé através da descrição e análise da forma como esses agentes constituem a si próprios pela mediação do acarajé. (BITAR, 2010) Com isso, ocupou-se em seu trabalho de campo e na confecção de sua dissertação, em não observar apenas aspectos jurídicos da noção de patrimônio, mas como os seus próprios interlocutores constituíam essa noção a partir da experiência do preparo e da comercialização dos acarajés. Para construir esse argumento em seu trabalho de campo, a autora se dispôs a pesquisar seis histórias de vida, embora as duas últimas tenham sido apenas para fins comparativos, e não tenham entrado de fato no corpo de seu texto. Logo, no primeiro capítulo, temos descritas as histórias de três baianas de acarajé e de um baiano de acarajé e a sua relação com o ofício na cidade do Rio de Janeiro. De forma muito interessante, Bitar constituiu a análise dessas que ela chama de “histórias” de vida por quatro eixos que lhe foram possíveis de observar em campo: o da Etnicidade, o da Religiosidade (que de certa forma, atravessa as quatro histórias de vida), o da Naturalidade e da Tradição (em seus termos de pertencimento e nascimento) e o do parentesco e hereditariedade (explorado e ampliado durante sua pesquisa). Deixando claro que seu objeto de estudo não é a baiana de acarajé, e sim o sistema culinário, que nessas circunstâncias envolve tanto o acarajé, como a baiana como sujeitos constituidores desse sistema. Apresentando no primeiro capítulo a história de Sônia, uma das baianas de acarajé presentes na pesquisa, Bitar nota que o veio pelo qual Sônia estabelecia uma relação com o ofício e com o público mediada através de elementos “africanos” ou relacionados a escravidão. Inserida dentro de um contexto étnico. O acarajé para Sônia faria essa conexão ancestral e estaria relacionado com a cultura-afro. Para tal, há a constituição de uma ideologia quilombola (BITAR, 2011), sendo pela própria autora definida como “um sistema por meio dos quais diversos agentes se reconhecem como quilombolas, demonstrando um determinado modo de se identificarem como afrodescendentes” (BITAR, 2011. P. 30). Sonia afirma que ser baiana de acarajé também é uma forma de inclusão social. O apelo ao resgaste cultural e as noções de autenticidade étnica, sempre ligadas as questões de africanidades, cultura africana, negros e quilombolas reforçam e complementam o que aqui noto e acrescento: sob a relação das baianas de acarajé com seu ofício se sustentaria num trinômio constituído das relações entre as baianas e o acarajé, entre as baianas e o público e entre o acarajé e o público, servindo esse de mediador entre todas essas relações. Visto isso, Sonia descreve sua relação com o acarajé através do discurso étnico, e também assim se relaciona e estabelece-se em meio público ao exercer o seu ofício. Se Sonia realiza essa compreensão por vias de etnicidade, Ciça estabelece uma relação com o acarajé e com seu ofício dada via religiosidade. Desde a escolha do ponto onde Ciça venderia acarajé, até sua licença para trabalhar naquele ponto, tanto quanto o bom fluxo de suas vendas está relacionado a sua fé em orixás. Ciça, baiana de acarajé