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AULA 1
AUDITORIA EM ODONTOLOGIA
Prof. Jacques Ferreira Neto
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CONVERSA INICIAL
Nesta aula, conheceremos um pouco sobre a auditoria odontológica, uma
área de atuação especializada da odontologia regulamentada pela Resolução do
Conselho Federal de Odontologia (CFO) n. 20, de 16 de agosto de 2001, que a
cada dia se torna mais importante com a ampliação do espaço ocupado pelos
convênios odontológicos nas agendas dos cirurgiões dentistas e do atendimento
pelo setor público (SUS).
CONTEXTUALIZANDO
O que de fato é a auditoria odontológica? Quais são os seus objetivos?
De onde ela veio e para onde ela caminha? Existe diferença entre auditoria e
perícia odontológica? É preciso criar um conceito válido e completo sobre essa
atividade tão importante, e essa será a sua função após esta nossa primeira
aula.
TEMA 1 – AUDITORIA: DEFINIÇÃO
A palavra auditoria deriva do latim audire, que significa “ouvir”. O
Dicionário Aurélio a define como "[...] Exame analítico e pericial que segue o
desenvolvimento das operações contábeis, desde o início até o balanço;
auditagem". O Dicionário Léxico a define como "[...] Inspeção ou vistoria da
contabilidade e da administração de uma firma, instituição ou organização; [...]
Investigação ou diagnóstico que tem como objetivo analisar ou avaliar o
gerenciamento e a condição financeira de uma firma, instituição ou organização
[...]".
Como podemos entender, a auditoria tem sua origem na contabilidade
empresarial, em que se realiza uma análise criteriosa das contas com o intuito
de garantir a boa aplicação dos recursos financeiros. E é exatamente essa
preocupação com a aplicação dos recursos que fez com que o setor de saúde
adotasse a auditoria como parte de suas atividades rotineiras.
A auditoria, atualmente, é essencial para assegurar a otimização dos
recursos aplicados em saúde, tanto no setor público quanto em empresas do
setor privado, garantindo a saúde financeira dessas instituições. Assim, o auditor
passa a ter uma função de apoio à gestão, como consultor e assessor, sendo o
seu trabalho a origem de mudanças.
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TEMA 2 – CONCEITOS DE AUDITORIA EM SAÚDE
O primeiro conceito de auditoria em saúde foi criado por Lambeck em
1956, que a entendia como uma “análise crítica e sistemática da assistência
prestada, comparando-a com padrões de excelência”.
Isso significa que a função do auditor não se resume a avaliar contas e
valores cobrados por um determinado prestador. Ele também avalia processos
de trabalho envolvidos na execução de procedimentos para buscar o mínimo de
desperdício durante a sua realização. Essa avaliação envolve tempo, materiais
utilizados, técnica empregada, custos diretos e indiretos que recaem sobre o
executor do trabalho e muitas outras variáveis. Por isso, o conhecimento dos
fundamentos de administração é importante ao profissional que pretende se
tornar um auditor em saúde.
Lawrence Sawyer, considerado o pai da auditoria interna moderna, fala
que “a função do moderno Auditor Interno é fazer aquilo que a direção gostaria
de fazer, se tivesse tempo para fazer e soubesse como fazê-lo”. Essa frase nos
remete a uma característica importante do auditor, que prega que não basta
conhecer a teoria, mas também a prática. O saber fazer é fundamental para
determinar o que é imprescindível à execução do procedimento e à otimização
do processo de trabalho.
A auditoria médica é a análise retrospectiva dos resultados da atividade
dos profissionais médicos, realizada por pessoal de similar qualificação
ou com maior experiência, tendo como objetivo principal avaliar a
qualidade e a quantidade de atenções prestadas, em relação a bases
deontológicas e profissionais aceitáveis. (Rubio, 1995)
Observe que, até agora, falamos de auditorias contábil, empresarial e
médica. Pois é... A auditoria odontológica é uma atividade muito recente e pouco
existe de material científico específico sobre o assunto, que segue os passos da
auditoria médica para firmar seu espaço e é de fundamental importância no
mundo corporativo da saúde suplementar e pública.
Um dos conceitos que se aplicam à auditoria odontológica e que transmite
a ideia daquilo que um cirurgião-dentista auditor faz em seu dia a dia é proposto
por Regina Juhás (2006):
Auditoria Odontológica é o exame detalhado, realizado por um
Cirurgião Dentista legalmente habilitado, com a finalidade de verificar a
proposta, o andamento e/ou a situação final do tratamento odontológico
indicado pelo dentista operacional, considerando conformidade técnica,
indicação, viabilidade e oportunidade do tratamento proposto.
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A auditoria aplicável à área odontológica é uma função de serviço, pois
deve estimular as boas relações entre todos os segmentos envolvidos no
processo, tendo como foco principal a melhoria da qualidade (Noronha; Sales,
2004). Não deve ter caráter de fiscalização e, sim, de regulação, auxiliando na
tomada de decisão para a melhoria da qualidade do serviço.
Matos, Martos e Anzaldi (1996) definem a auditoria odontológica como a
“confrontação dos serviços prestados com a norma estabelecida para chegar a
um relatório de auditoria”.
Entendemos que todas essas são visões muito limitadas do que a
auditoria odontológica, da forma como a conhecemos hoje, pode oferecer às
organizações de saúde, pois não fazem menção a algumas de suas funções
importantes, como a de apoio à gestão, cumprimento da legislação vigente e
educacional quanto ao ato de auditoria. Mas, como dissemos, por ser muito
jovem, ela ainda está em fase de construção e solidificação de seus conceitos.
TEMA 3 – OBJETIVOS
Então, por que se faz auditoria odontológica?
Devido ao aumento de custos de assistência;
Para coibir cobranças irregulares;
Porque há cobrança de muitos procedimentos desnecessários;
Porque existe exagero na gravidade do diagnóstico, que afeta o
procedimento a ser executado (por exemplo: sisos erupcionados
normalmente são cobrados como inclusos, raspagens simples de cálculo
dental são cobradas como procedimentos complexos etc.);
Para fazer troca de códigos dos procedimentos;
Para garantir qualidade. Para isso, há necessidade de avaliação de:
Restauração de forma, função, estética;
Longevidade do elemento dental ou implante;
Profundidade de bolsas;
Adaptação de próteses;
Condições que possam interferir no sucesso do tratamento proposto,
levando em conta as regras básicas de prevenção e as boas práticas
odontológicas;
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Para buscar não conformidades entre as normas (regulação) e induzir
boas práticas (saber o que está sendo executado e cobrado pelo
profissional).
A realização da auditoria odontológica:
Garante ao paciente serviços acessíveis e de qualidade;
Cria um ambiente educativo propício à melhoria dos processos de
trabalho;
Busca a otimização dos recursos disponíveis;
Melhora a eficiência dos processos administrativos;
Ajuda a avaliar e auxiliar os profissionais de saúde com relação a
aspectos técnicos e éticos, e ao cumprimento de leis, normas e
regulamentos;
Auxilia a administração dos planos na seleção, no credenciamento e na
contratação de serviços de saúde;
Faz cumprir as leis que regem as relações com os consumidores e o
contrato firmado entre usuários, prestadores e operadoras de saúde.
Figura 1 – O auditor deve ter o foco de seu trabalho voltado para o paciente,
atuando de forma proativa e educativa, buscando e relatando sempre a verdade,
sem protecionismo ou corporativismo.
Crédito: Lemusique/Shutterstock.
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TEMA 4 – HISTÓRIA
Para que você entenda aonde queremos chegar, é necessário que
conheça nossa origem. Para isso, devemos voltar ao princípio do século XX,
mais precisamente 1910, quando Flexner, que contestava o ensino médico da
forma como era feito à época, fazia menção à necessidade de auditoria emprocedimentos realizados por médicos. Em sua visão, um profissional
generalista não teria a capacitação adequada para realizar cirurgias complexas
sem que fosse realizada uma perícia em seus procedimentos. Flexner também
foi o primeiro a questionar a falta de estrutura do setor hospitalar.
Saiba mais
Descubra um pouco mais sobre Flexner e seu relatório (Pagliosa; Da Ros,
2008). Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbem/v32n4/v32n4a12.pdf>.
Somente 41 anos depois, em 1951, foi instituída na América do Norte a
primeira comissão de acreditação hospitalar. A partir de então, começaram a
aparecer ações isoladas em prol da qualidade do atendimento médico:
● 1960, México: o seguro social mexicano inicia um programa de
desenvolvimento de qualidade em saúde;
● 1965, Espanha: início da acreditação hospitalar;
● 1976, Brasil: o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) inicia a
atividade de auditoria;
● 1983, Canadá: criação de programas de garantia de qualidade;
● 1987, Argentina: criação da Associação Civil Argentina de Auditoria
Odontológica, a primeira entidade de auditoria exclusivamente
odontológica de que se tem conhecimento;
● 1999, Colômbia: é fundada a Sociedade Colombiana de Auditores
Odontológicos.
No Brasil, até 1960, a saúde dependia das Caixas de Aposentadorias e
Pensões (CAPs) e dos Institutos de Aposentadoria e Pensões (IAPs), estes
últimos segregados por categoria profissional do trabalhador e mais bem
organizados devido ao fato de representarem profissionais mais bem
remunerados.
Como exemplos de CAPs transformadas em IAPs, temos os casos dos
trabalhadores de trapiches e armazéns, que se transformaram no CAP dos
http://www.scielo.br/pdf/rbem/v32n4/v32n4a12.pdf
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trabalhadores da estiva, transporte e cargas (IAPTEC), dos marítimos (IAPM),
dos comerciários (IAPC), dos bancários (IAPB) e o dos industriários (IAPI). Há
casos de CAPs que perduram até hoje, como a do Banco do Brasil (CASSI),
criada em 1944 (Unidas, 2005).
Esses institutos foram dando origem a uma organização médico-
hospitalar bastante complexa, com grandes hospitais e ambulatórios,
especialmente nas grandes cidades brasileiras, paralelamente à atuação do
Ministério da Saúde. Mais tarde, toda a estrutura dos hospitais e ambulatórios,
juntamente com os postos e centros de saúde, foi unificada pelo Ministério da
Previdência e Assistência Social, que passou a ser responsável por todos os
empregados com carteira assinada no país. Nessa época, o poder público, por
meio do Ministério da Saúde, mantinha apenas alguns hospitais que tratavam de
doenças transmissíveis, epidemias e atendimento psiquiátrico (Unidas, 2005).
A promulgação da Lei Orgânica da Previdência Social (Lei n. 3.807, de 26
de agosto de 1960), que unifica o regime geral da previdência social, e a
intervenção nas IAPs, ocorrida a partir de 1964, levou à total unificação do
sistema previdenciário em 1967, com a criação do Instituto Nacional de
Previdência Social (INPS). Essa unificação visava garantir a todos os
trabalhadores urbanos os benefícios da previdência social, antes restrita a
alguns setores da sociedade civil, mais organizados política e economicamente,
como instrumento de sustentabilidade social e apoio popular ao regime militar
(Ciefas, 2000). Foi criado então um sistema em que todos os trabalhadores
urbanos contribuíam, e com somente um pequeno número de aposentadorias e
pensões sendo pagas, acumulava-se um grande volume de recursos financeiros.
Com o regime previdenciário unificado, o governo teve que assumir os
serviços de saúde que eram parte das caixas de assistência, e isso provocou um
caos ao sistema já precário de saúde no país, criando um “gargalo”. Mas, com a
grande quantidade de dinheiro disponível, passou-se a comprar esses serviços
do setor privado. Imagine um sistema desses em uma época em que não era
possível – nem permitido – auditar contas hospitalares em hospitais e clínicas
contratados. Médicos e donos de hospitais ficavam ricos e o caixa da
previdência começava a escoar pelo ralo.
Somente em 1976 começaram as auditorias nesse sistema, ainda que de
forma precária até 1983, quando foi reconhecido o cargo de médico-auditor e as
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auditorias passaram a ser realizadas dentro dos hospitais. Até então as
auditorias só podiam ser realizadas em prontuários médicos e faturas.
Em 1981 foi criado o Conselho Consultivo de Administração da Saúde
Previdenciária (CONASP), ligado ao Instituto Nacional de Assistência Médica da
Previdência Social (INAMPS), que propunha uma rigorosa fiscalização na
prestação de contas de hospitais e clínicas credenciadas. Contando com
técnicos ligados ao movimento sanitário em sua direção, o CONASP implantou
um plano de socialização hierarquizado de saúde pública, propondo o aumento
de produtividade e a melhoria da qualidade dos serviços prestados, a montagem
de um sistema de auditoria médico-assistencial e a revisão dos mecanismos de
financiamento do Fundo de Desenvolvimento e de Apoio Social (FAS)
(Polignano, 2007).
Com a promulgação da Constituição Federal de 1988 (CF) (Brasil, 1988),
que definiu a saúde como um direito de todos e um dever do Estado, consolidou-
se o movimento da reforma sanitária no país. A saúde passou a ser prioridade
do governo nos níveis federal, estadual e municipal.
De acordo com o art. 196 da CF (Brasil, 1988): "A saúde é direito de todos
e dever do estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas, que visem
à redução do risco de doença e de outros agravos, o acesso universal e
igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação".
Já o art. 198 explicita:
Art. 198. As ações e serviços públicos de saúde integram uma rede
regionalizada e hierarquizada e constituem um sistema único,
organizado de acordo com as seguintes diretrizes:
I - descentralização, com direção única em cada esfera de governo;
II - atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas,
sem prejuízo dos serviços assistenciais;
III - participação da comunidade (Brasil, 1988).
Em 1990, com a promulgação da Lei Orgânica (Brasil, 1960), previu-se a
criação do Sistema Nacional de Auditoria (SNA), que foi instituído de fato em
1993 e regulamentado apenas em 1995.
História de Auditoria em Saúde
As atividades de auditoria, antes de 1976, com base no então Instituto
Nacional de Previdência Social - INPS, eram realizadas pelos
supervisores por meio de apurações em prontuários de pacientes e em
contas hospitalares. À época, não havia auditorias diretas em hospitais.
A partir de 1976, as chamadas contas hospitalares transformaram-se
em Guia de Internação Hospitalar - GIH. As atividades de auditoria
ficam estabelecidas como Controle Formal e Técnico.
Em 1978, é criada a Secretaria de Assistência Médica subordinada ao
Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social -
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INAMPS. Vê-se a necessidade de aperfeiçoar a GIH. É criada, então, a
Coordenadoria de Controle e Avaliação - nas capitais, e o Serviço de
Medicina Social - nos municípios.
Em 1983, a Autorização de Internação Hospitalar - AIH, vem substituir
a GIH, no Sistema de Assistência Médica da Previdência Social -
SAMPS. É nesse ano que se reconhece o cargo de médico-auditor e a
auditoria passa a ser feita nos próprios hospitais.
A Constituição Federal de 1988 dispõe no seu artigo 197:
"São de relevância pública as ações e serviços de saúde, cabendo ao
poder público dispor, nos Termos da Lei, sobre sua regulamentação,
fiscalização e controle, devendo sua execução ser feita diretamente ou
através de terceiros e, também, por pessoa física ou jurídica de direito
privado".
A Lei n.º 8.080, de 19 de setembro de 1990, ao prever a criação do
SNA, estabeleceu as instâncias de gestão do SUS de acompanhar,
controlar e avaliar as ações e serviços de saúde, ficando reservada à
União a competênciaprivativa para "estabelecer o Sistema Nacional de
Auditoria, e coordenar a avaliação técnica e financeira do SUS em todo
o território nacional em cooperação técnica com estados, municípios e
Distrito Federal".
Por tratar especificamente da área da saúde, o SNA, instituído pelo
artigo 6º da Lei 8.689, de 27 de julho de 1993 e regulamentado pelo
Decreto n.º 1.651/95, se constitui num sistema atípico, singular,
diferenciado, complementar aos sistemas de controle interno e externo
e principalmente legítimo.
Decreto n.º 1.651 de 29 de setembro de 1995:
"Art. 4º O SNA compreende os órgãos que forem instituídos em cada
nível de governo, sob a supervisão da respectiva direção do SUS.
(...)
§ 3º A estrutura e o funcionamento do SNA, no plano federal, são
indicativos da organização a ser observada por Estados, Distrito
Federal e Municípios para a consecução dos mesmos objetivos no
âmbito de suas respectivas atuações."
A Lei n.º 10.683, de 28 de maio de 2003, dispõe sobre a Organização
da Presidência da República e dos Ministérios - estabelece na alínea
"b", inciso XX do artigo 27, como área de competência do Ministério da
Saúde: "a coordenação e fiscalização do SUS".
Com a publicação do Decreto nº. 5.841, de 13 de julho de 2006, o
DENASUS passou a integrar a estrutura da Secretaria de Gestão
Estratégica e Participativa, órgão singular do Ministério da Saúde que
ganhou novo formato diante do crescente grau de complexidade da
institucionalização do SUS, concomitantemente à progressiva
descentralização das responsabilidades pela execução das ações de
saúde e pelo uso dos recursos financeiros, tornando necessário
consolidar a competência na execução dos processos de gestão
estratégica e participativa do sistema.
O Decreto nº 5.974, de 29 de novembro de 2006, define a nova
estrutura do Ministério da Saúde, sem contudo promover alterações
nas competências da Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa e
do DENASUS. Dessa forma, reuniram-se diversas estruturas
responsáveis pelas funções de apoio à gestão estratégica e
participativa no SUS na Secretaria de Gestão Estratégica e
Participativa, que têm áreas de atuação complementares, com vistas a
ganhar racionalidade e maior efetividade ao atuarem em conjunto.
O Departamento Nacional de Auditoria do SUS - DENASUS, órgão
integrante da estrutura da Secretaria de Gestão Estratégica e
Participativa do Ministério da Saúde e componente federal do Sistema
Nacional de Auditoria - SNA, exerce atividades de auditoria e
fiscalização especializada no âmbito do SUS. Conforme definido na
Política Nacional de Gestão Estratégica e Participativa no SUS -
ParticipaSUS "A auditoria é um instrumento de gestão para fortalecer o
Sistema Único de Saúde (SUS), contribuindo para a alocação e
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utilização adequada dos recursos, a garantia do acesso e a qualidade
da atenção a saúde oferecida aos cidadãos" (SNA, s/d).
Reparem na brecha de tempo existente entre a primeira iniciativa
indicando a importância da auditoria na saúde e a concretização das ações
propriamente ditas. Na odontologia, sempre mais atrasada em relação à
medicina, as coisas são ainda mais morosas.
Essa contextualização histórica nos mostra claramente o que já houve de
evolução em termos de auditoria em saúde. A seguir, classificamos as fases
evolutivas em ondas:
1ª onda: baseada na auditoria contábil focada em glosas, sem se
preocupar em corrigir os problemas;
2ª onda: preocupada com a qualificação dos atores (Flexner) e dos
processos (serviços de acreditação);
3ª onda: começou-se a focar em qualidade e em resultados alcançados;
4ª onda: (fase atual) busca-se a qualidade total, o ambiente educativo, o
apoio à gestão e da gestão, tudo baseado em evidência científica. A
construção de protocolos de atendimento com a participação da empresa,
da rede credenciada e o respaldo da comunidade científica parece ser o
caminho a ser trilhado;
É preciso que a odontologia aprenda com os erros de percurso de sua
predecessora, a medicina, para encurtar os caminhos para uma auditoria
especializada valorizada e reconhecida, até mesmo dentro da própria
comunidade odontológica.
Saiba mais
Leia o livro Autogestão em saúde no Brasil 1980-2005: história da
organização e consolidação do setor (Unidas, 2005) para entender um pouco
melhor o assunto que acabamos de abordar. Disponível em:
<http://www.unidas.org.br/universidade/livro_autogestao_saude_brasil.pdf>.
TEMA 5 – PERÍCIA OU AUDITORIA?
A demora por parte do Conselho Federal de Odontologia (CFO) em
regulamentar as funções do perito e do auditor odontológico, ocorrido somente
em 2001 a partir da Resolução n. 20 (CFO, 2001), fez com que até hoje haja
uma confusão sobre essa terminologia no mercado de saúde suplementar, que
http://www.unidas.org.br/universidade/livro_autogestao_saude_brasil.pdf
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ainda utiliza o termo perícia para a atividade de avaliação técnica sobre os
serviços odontológicos de profissionais credenciados a operadoras de saúde.
Isso é um erro que ainda hoje custa caro aos auditores odontológicos,
pois sua atividade é confundida como policialesca e julgadora, o que não
corresponde à verdade. Na medicina, devido à regulamentação mais antiga, ela
é vista como uma atividade normal, que faz parte do processo de faturamento
das empresas, tanto de prestadores quanto de compradores de serviços
médicos.
Existem diferenças fundamentais entre perícia e auditoria. Vamos a elas
(essas são as definições dadas pela Resolução n. 20 do CFO, 2001):
• Perito é o profissional que auxilia a decisão judicial e administrativa, por
solicitação da autoridade judiciária ou por designação do conselho,
fornecendo laudo técnico detalhado, com absoluta imparcialidade;
• Auditor é o profissional concursado ou contratado por empresa pública
ou privada que presta serviços odontológicos e necessita de auditoria
odontológica permanente para verificação da execução e da qualidade
técnica-científica dos trabalhos realizados por seus credenciados.
Essas definições denotam claramente a diferença de motivação entre os
dois termos, sendo a perícia um ato ligado diretamente ao apoio à Justiça ou aos
conselhos de odontologia e a auditoria uma ação administrativa, com o objetivo
comparar a qualidade do serviço proposto ou prestado com a qualidade ideal
desejada e o cumprimento às normas preestabelecidas pelas empresas, sejam
elas particulares ou governamentais.
Outra diferença fundamental existe quanto à finalidade de cada uma
delas. Enquanto a perícia visa esclarecer tecnicamente as dúvidas formuladas
pela Justiça, a auditoria é mais ampla, pois busca nas não conformidades
observadas esclarecer onde houve falha de procedimento não conforme, e
educar os atores envolvidos sobre como evitar que o mesmo processo se repita
posteriormente. Nesse caso, considera-se como atores a cadeia formada pela
empresa compradora de serviços, o profissional executor (dentista assistente), o
beneficiário e o auditor servindo como elo de ligação entre todos eles.
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Figura 2 – Função do auditor
Crédito: Sergey G. Sundikov/Shutterstock.
Os documentos finais da perícia e da auditoria também são bastante
diferentes entre si, tanto na forma quanto no conteúdo. Segundo o Dicionário
Aurélio, relatório é a “[...] narração ou descrição verbal ou escrita, ordenada e
mais ou menos minuciosa, daquilo que se viu, ouviu ou observou”, e laudo é
uma “[...] peça escrita, fundamentada, na qual os peritos expõem as
observações e estudos que fizeram e registram as conclusões da perícia". Isso
serve para esclarecer a confusão comumente feita por auditores, que chamam o
relatório de auditoria de laudo e erroneamente incluem nele observações
pessoais e juízo de valores.
Tanto o laudo pericial quanto o relatório de auditoria devem ser
fundamentados em bases técnico-científicas consolidadas pela comunidade
científica(odontologia baseada em evidências) e pela experiência clínica do
profissional que os emite; mas, enquanto a perícia é feita com base em fatos, a
auditoria pode ser feita com base em hipóteses ou planos de tratamento. Nesses
casos, visa-se prever não conformidades e orientar o caminho correto a ser
seguido, sem interferir no fundamento da proposta terapêutica do profissional
executante, mas mostrando a ele o que poderá se transformar em uma não
conformidade. Ou seja, a auditoria não é somente reativa como a perícia, mas,
sim, proativa e educativa.
O relatório de auditoria deve ser um documento formal e técnico, que
relate os fatos observados e dados obtidos de análises efetuadas, ensejando
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como produto final sugestões e/ou recomendações para prevenção ou correção
de rumos. Ao encontrar não conformidades, o auditor deve fazer as
recomendações para corrigi-las. As críticas devem ser dirigidas aos fatos e não
às pessoas.
O relatório deve ter os seguintes atributos:
• Coerência: os resultados da auditoria devem corresponder a seus
objetivos;
• Eficácia: deve ser emitido a tempo de prevenir e corrigir as não
conformidades;
• Convicção: ao ler o relatório, qualquer pessoa deve ter o mesmo
entendimento que o auditor teve;
• Integridade: incluir todos os fatos relevantes que levaram à conclusão e
às recomendações;
• Apresentação: sem rasuras e com boa ortografia;
• Objetividade: deve se ater aos fatos relevantes, sem se ater a juízos de
valor e excesso de adjetivos que determinem a opinião pessoal do
auditor;
• Clareza: quando lido por um leigo deve ser facilmente compreendido;
• Conclusão: deve permitir a tomada inequívoca de decisão.
O laudo pericial abre espaço para que seja externada a opinião do perito
sobre determinado fato. Já o relatório de auditoria não deve conter juízo de
valor, somente o relato dos fatos observados e as recomendações para o ajuste
às normas. Nele, não há espaço para empirismo: os argumentos devem ser
fundamentados e imparciais, sob o risco de criarem atritos e perderem a
credibilidade.
Porém, enquanto o laudo é um documento de caráter definitivo e que
exprime as convicções de quem o emite, o relatório abre espaço à discussão,
por não ser definitivo. Pode e deve haver interação entre auditor e prestador, e
somente entre eles, sem nunca envolver o paciente, para que sejam dirimidas
dúvidas ou esclarecidos pontos não observados por qualquer das partes. Para
tanto deve existir um meio de comunicação entre auditor eprestador que garanta
o livre diálogo e o sigilo entre a partes.
Em resumo:
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Quadro 1 – Comparação entre laudo pericial e relatório de auditoria
LAUDO PERICIAL RELATÓRIO DE AUDITORIA
MOTIVAÇÃO Legal Administrativa
FUNDAMENTAÇÃO
Base técnico-científica +
experiência clínica
Base técnico-científica +
experiência clínica
OBJETO Fato Fato ou hipótese
FINALIDADE Buscar o nexo causal
Procurar por não conformidades e
por meios de corrigi-las
CONCLUSÃO
Permite a opinião do
perito
É definitivo
Relata os fatos e não
conformidades sem juízo de valor
Abre espaço ao debate
FINALIZANDO
Nesta aula, ficamos sabendo que a auditoria odontológica é uma
atividade muito jovem em comparação às auditorias contábil e até mesmo a
médica, e que seus conceitos ainda estão em construção. Apesar disso, ela tem
objetivos claros e definidos.
Aprendemos também que a auditoria e a perícia odontológicas são
bastante diferentes, e que a confusão existente entre as duas atividades se deve
ao fato de haver demora, por parte do Conselho Federal de Odontologia (CFO),
em regulamentar e legitimar as ações de peritos e auditores odontológicos.
O seu desafio é construir o seu próprio conceito sobre essa nobre
atividade que é a de auditor.
Em resumo, a auditoria odontológica é uma atividade administrativa
exercida por um cirurgião-dentista, legalmente habilitado, com conhecimento
técnico pleno, concursado ou contratado por empresa pública ou privada. Ele
visa otimizar os recursos financeiros e técnicos empregados no atendimento
odontológico de seus beneficiários, de forma a prestar a melhor assistência
possível com o mínimo de desperdício, observando a legislação vigente e
estimulando os atores envolvidos a participar dos esforços para a utilização dos
recursos disponíveis de forma consciente e racional, antes, durante e depois da
execução do serviço odontológico propriamente dito.
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LEITURA OBRIGATÓRIA
PAGLIOSA, F. L.; DA ROS, M. A. O relatório Flexner: para o bem e para o mal.
Revista Brasileira de Educação Médica, v. 32, n. 4, p. 492-499, 2008.
Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbem/v32n4/v32n4a12.pdf>. Acesso
em: 14 maio 2018.
UNIÃO NACIONAL DAS INSTITUIÇÕES DE AUTOGESTÃO EM SAÚDE
(UNIDAS). Autogestão em saúde no Brasil 1980-2005: história da organização
e consolidação do setor. São Paulo, 2005. Disponível em:
<http://www.unidas.org.br/universidade/livro_autogestao_saude_brasil.pdf>.
Acesso em: 14 maio 2018.
CONSELHO FEDERAL DE ODONTOLOGIA (CFO). Resolução n. 20, de 16 de
agosto de 2001. Diário Oficial da União, 27 set. 2001. Disponível em:
<http://www.crosp.org.br/_fckeditor/file/Guia/RESOLU%C3%87%C3%83O%20C
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http://www.scielo.br/pdf/rbem/v32n4/v32n4a12.pdf
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REFERÊNCIAS
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ANDRADE J. V., MEDEIROS U. V. Guia de estudo: auditoria. Campinas:
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BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil.
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Acesso em: 9 maio 2018.
_____. Lei n. 3.807, de 26 de agosto de 1960. Diário Oficial da União, Poder
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Acesso em: 14 maio 2018.
AULA 2
AUDITORIA EM ODONTOLOGIA
Prof. Jacques Ferreira Neto
2
CONVERSA INICIAL
Após criarmos nosso próprio conceito de auditoria odontológica e
conhecermos um pouco de sua história, esta aula será útil ao gestor que precisa
contratar um auditor odontológico para sua empresa. Traçaremos o seu perfil,
trataremos de conhecer um pouco de seu trabalho diário e saber como ele
pensa – ou, pelo menos, como deveria pensar. Costumamos dizer que “ser
auditor é um defeito”, pois passamos a auditar todas as nossas ações (e as dos
outros!).
CONTEXTUALIZANDO
Em situações cotidianas é que entendemos como deve ser o pensamento
de um auditor.
Criamos uma situação hipotética, mas muito comum para ajudá-lo a
entender como deve pensar um auditor. No decorrer desta aula, tente
compreender e identificar as ações a serem tomadas por um auditor que queira
ir ao cinema hoje, na sessão das 19h. O cinema fica a 15 minutos de sua
residência, então dá tranquilamente para programar a saída de casa para uns 30
minutos antes do início da sessão. Ele ainda terá tempo para comprar o ingresso
e uma pipoca. Isso está certo?
TEMA 1 – COMO CLASSIFICAR A AUDITORIA
Existem várias maneiras de classificar o serviço de auditoria odontológica;
essa classificação só depende do ponto de vista de quem a contrata.
As modalidades de auditoria acabam se complementando entre si, pois
expressam o motivo, o caráter e as circunstâncias em que elas foram ou serão
realizadas.
1.1 Quanto à sua natureza
1.1.1 Auditoria interna
A auditoria interna é realizada pelo corpo de auditores pertencentes à
própria instituição. Ex.: empregados ou servidores públicos concursados.
3
1.1.2 Auditoria externa
A auditoria externa é realizada por profissionais não pertencentes à
empresa, contratados especificamente para esse fim. A forma de contratação
pode ser feita por um “pacote de serviços” ou por auditoria realizada. Ex.:
serviços de auditoria para investigar um determinado problema em uma
empresa, ou dentistas auditores autônomos credenciados pela operadora de
saúde para realizar as auditorias em seus próprios consultórios.
1.2 Quanto ao tempo em que é realizada
1.2.1 Auditoria inicial
A auditoria inicial é realizada antes do início do tratamento, e tem por
objetivo avaliar a indicação do tratamento e o respeito às normas da empresa
(cobertura do plano, carências, identificação do paciente e validação dos
documentos). Está ligada diretamente ao controle de custos na operadora.
1.2.2 Auditoria final
É realizada após a execução do tratamento. Tem a função de validar todo
o processo antes do pagamento da fatura. Avalia a relação entre a expectativa
do tratamento e o resultado obtido. Compara o que foi proposto (e aprovado,
quando há auditoria inicial) com o que está sendo apresentado. Verifica a
conformidade do material utilizado. Está ligado diretamente ao controle de
qualidade.
1.2.3 Auditoria intermediária ou de acompanhamento
Essa é realizada durante o transcurso do tratamento para avaliar a fase
evolutiva. Usada normalmente em tratamentos longos (prótese, ortodontia,
Disfunção da Articulação Temporomandibular – ATM).
1.3 Quanto aos meios utilizados
1.3.1 Auditoria técnica
4
Trata-se de um exame documental do caso, sem o exame clínico do
paciente. São utilizadas como objeto de avaliação guias de tratamento, exames
de imagem e o prontuário clínico do paciente. Normalmente é realizada uma
análise do planejamento do tratamento, utilizando a comparação entre as
situações inicial e a final, por meio de imagens (radiografias e/ou fotografias).
1.3.2 Auditoria clínica
Aqui, as informações são obtidas principalmente por meio do exame
clínico do paciente. Pode ser inicial, finalou intermediária.
1.3.3 Auditoria eletrônica
A auditoria eletrônica utiliza como instrumento principal o sistema
operacional da operadora. É uma importante ferramenta de gestão, pois permite
analisar não somente um tratamento isolado, mas o conjunto dos tratamentos
realizados em um mesmo paciente (repetições de procedimentos, perfil
epidemiológico), dos tratamentos realizados por um mesmo profissional (controle
de glosas e não conformidades, perfil do credenciado) e análises estatísticas de
comportamento da rede credenciada.
1.4 Quanto ao resultado
1.4.1 Auditoria conforme
Na auditoria conforme, todos os aspectos avaliados (proposta, execução
e qualidade alcançada) estão em concordância com as normas da empresa e
com as normas de boas práticas odontológicas. “Conformidade – estado de
concordância entre a qualidade real produzida e a qualidade alvo (desejada ou
planejada)” (Macedo; Póvoa Filho, 1995)
1.4.2 Auditoria não conforme
É realizada quando algum aspecto observado não corresponde às
diretrizes clínicas ou quando há descumprimento das normas da empresa.
5
Além dessas classificações, existe ainda as classificações tradicionais da
auditoria – que acabam se mesclando com as descritas anteriormente – para
descrever com maior exatidão o serviço que está sendo realizado pelo auditor:
Auditoria preventiva: é a análise dos procedimentos antes que eles
aconteçam. Também é chamada de auditoria prospectiva, ou pré-
auditoria. Requer do auditor amplo conhecimento sobre tabelas,
regulamentos e contratos. Qualquer erro nessa fase implicará falhas em
todos os demais estágios do processo. Nela, executam-se as seguintes
ações:
Validação de documentos;
Avaliação da cobertura do plano;
Avaliação das carências contratuais;
Avaliação da pertinência da solicitação de procedimentos antes de sua
realização (oportunidade);
Solicitação de parecer de especialistas.
Auditoria operativa: baseia-se na observação direta dos fatos,
documentos e situações, durante ou após a sua execução, visando a
identificação de não conformidades. Pode requerer o contato com o
profissional assistente para esclarecimentos e ajuste de conduta.
Portanto, exige do auditor o respeito absoluto ao Código de Ética
Odontológico, e grande conhecimento clínico prático, pois avalia não só a
qualidade do procedimento realizado, como todo o processo até a sua
realização. Nela, executam-se as seguintes ações:
Observação direta dos fatos (exame clínico);
Investigação por meio de perguntas sobre o andamento do tratamento
(perguntas abertas, sem indução);
Avaliação da veracidade das informações contidas nos documentos;
Atendimento às diretrizes e normas da empresa e à legislação vigente;
Determinação da adequação técnico-científica e da conformidade dos
procedimentos;
Avaliação da qualidade da assistência prestada;
Determinação da adequação financeira;
Solicitação de documentação comprobatória quando há evidências que
determinam sua necessidade;
Avaliação de contas, faturas e notas fiscais;
6
Adequação ao regulamento;
Interligação com os resultados das primeiras fases da auditoria.
Auditoria analítica: é a análise dos dados oriundos da auditoria operativa
em todas as suas fases (inicial, intermediária e final). Esses dados devem
ser comparados com indicadores de saúde coletiva e indicadores de
gestão, e também aos procedimentos de outras operadoras (benchmark).
O auditor precisa de bons conhecimentos de informática, pois o trabalho é
feito com base em planilhas, gráficos e relatórios de bancos de dados.
Além disso, ele estar bastante familiarizado com técnicas e ferramentas
de administração e gestão. Geralmente, esse tipo de auditoria é o
responsável por mudanças de rotinas, processos, normas, regulamentos
e criação de protocolos dentro das organizações de saúde.
TEMA 2 – COMO ESCOLHER UM AUDITOR ODONTOLÓGICO? PERFIL E
CARACTERÍSTICAS
Vimos que cada tipo de auditoria requer uma característica específica do
auditor odontológico. Portanto, já podemos traçar um perfil desejável para esse
profissional.
Entendemos que a escolha de um auditor deve se basear nas quatro
premissas que descreveremos a seguir.
A primeira delas é a postura ética (atitude). Honestidade e idoneidade
são características indispensáveis e não devem ser entendidas como
qualidades, mas como uma obrigação de todo e qualquer ser humano.
Desconfie daquele que apregoa essas características como qualidades. Não é
exatamente isso que invade nossas casas durante o período eleitoral?
Imaginemos a escolha de um auditor em uma pequena cidade do interior,
onde todos se conhecem. Escolhemos um profissional com um passado não
ético conhecido pelos moradores dessa cidade; isso abre espaço para a
desqualificação de nosso escolhido, ou até coisa pior, pois o que ele faz, ou já
fez de errado, poderá vir à tona e virar “moeda de troca” em algum momento de
suas atividades.
O famoso provérbio “à mulher de César não basta ser honesta, tem de
parecer honesta” cabe perfeitamente ao cirurgião-dentista que pretenda ser um
7
auditor. Ele deve apresentar atitudes éticas dentro e fora de seu ambiente de
trabalho.
Nosso candidato deve possuir uma formação humana, mas não
paternalista, para poder analisar de maneira madura e equilibrada as questões
que se apresentarão em seu dia a dia. Deve ainda primar pela cautela e pelo
bom senso em suas considerações, buscando sempre a verdade, sem,
entretanto, expor a si mesmo ou a quem estiver sendo avaliado, colocando
sempre suas considerações de forma positiva e construtiva.
O conhecimento científico amplo é a segunda de nossas premissas.
Nesse aspecto, o profissional generalista leva vantagem sobre o especialista.
Somente em casos específicos, ou como uma segunda opinião sobre
determinado assunto, é que o especialista se torna importante.
A experiência clínica deve contar bastante em nossa escolha, pois, como
já vimos anteriormente, conhecer somente a teoria é suficiente para avaliar a
qualidade de um procedimento executado em condições ideais, mas é
imperativo saber como fazer, para poder determinar se as condições
apresentadas em cada caso foram ou não determinantes de resultados não
satisfatórios. Mais uma vez, o uso do bom senso torna-se fator importante no
perfil do auditor.
O conhecimento técnico nos proporciona juízo profissional e critérios que
determinam o que deve constar do relatório de auditoria. Lembre-se de que,
diferentemente do que ocorre na perícia, na auditoria existe sempre a
possibilidade de erro e, principalmente, de mudança de opinião durante o
transcurso do processo.
Em plena era do conhecimento, não há mais espaço para “achismos”. Ou
o profissional se mantém atualizado e totalmente familiarizado com métodos de
pesquisa científica ou, mais cedo ou mais tarde, será questionado por seu
colega ou paciente e não saberá responder a ele de maneira fundamentada. A
odontologia baseada em evidências é a disciplina que nos proporciona o
conhecimento sempre atualizado, que anos atrás só era possível comprando
livros – hoje sabemos que há uma defasagem de tempo muito grande entre a
escrita e a publicação de um livro. Além disso, a televisão costuma divulgar
novos avanços tecnológicos, que ainda não têm fundamentação científica,
disseminando o conhecimento empírico e aumentando a gama de
questionamentos de nossos pacientes.
8
Mas não basta o conhecimento na área da odontologia; dependendo do
tipo de auditoria que será realizada pelo profissional, será exigido do auditor o
conhecimento, em maior ou menor profundidade, nas áreas de sistemas
contábeis, sistemas de informação, direito administrativo (se for para auxiliar o
setor de cadastramento) e de administração de empresas, entre outras.
A terceira premissa é a confiança dos colegas. A auditoriaé uma função
ingrata, pois ninguém gosta de ter seus trabalhos auditados por outro
profissional. Por isso, a postura do auditor é de fundamental importância.
Essa relação de confiança deve ser construída ao longo do tempo e,
mesmo assim, ainda será bastante frágil. Basta uma glosa ou uma observação
feita de maneira impensada, ou indevida, para que ela se deteriore, podendo, às
vezes, chegar ao Conselho de Odontologia ou a um tribunal.
Nesses casos, a confiança é conquistada com abertura ao diálogo, bom
senso nas avaliações, busca pelo consenso e espírito apaziguador. O auditor
deve ser minucioso e expor com firmeza suas convicções, mas deve sempre ter
a capacidade de reconhecer seus próprios erros, pois ninguém é infalível. Calma
e cautela ajudam muito na hora de enfrentar conflitos, que certamente hão de
surgir.
Sua postura deve ser a de liderança, porém, sem a necessidade de impor
uma opinião. Lembre-se de que um relatório de auditoria não aceita a opinião do
auditor (juízo de valor), mas somente o relato de fatos observados. Sinais de
insegurança são reconhecidos e podem ser utilizados para os mais diversos fins.
Outra característica importante do auditor é a imparcialidade, que deve
prevalecer, apesar das relações pessoais com os auditados (dentistas ou
pacientes). Esse profissional deve ser autônomo e independente nos critérios
utilizados em suas decisões, não podendo ser influenciado por nenhum dos
atores envolvidos.
E os mais importantes atributos, que serão fundamentais nos casos de
conflitos, são o sigilo e a discrição. Abordaremos esse assunto novamente
quando discutirmos ética odontológica.
Finalmente, nossa quarta e última premissa é a confiança da empresa. É
muito importante sempre corresponder à confiança que seu contratante deposita
em você, pois é ele quem lhe paga para ser seus olhos e ouvidos junto à rede
credenciada e à população atendida. Porém, você não deve ser subserviente ou
9
deixar que determinações administrativas da empresa influenciem o seu poder
de decisão.
O auditor, apesar de muitas vezes ser um profissional autônomo e realizar
as auditorias em seu próprio consultório, deve saber que a empresa contratante
espera algumas contrapartidas que não podem ser ignoradas. Uma delas é a
expectativa de que o auditor disponha de tempo suficiente para atender a
demanda por serviços que será encaminhada, além da lealdade para com a
instituição que estará representando.
Fica evidente a necessidade do compromisso com a verdade, doa a quem
doer. Não há espaço para corporativismo, quer para com a empresa a que
presta serviço, quer para com seus colegas de profissão.
O auditor odontológico precisa ter visão gerencial, ou seja, enxergar o que
está sendo auditado por todos os ângulos. Primeiramente, sob o ponto de vista
do paciente, que é aquele que deve ser preservado; depois, com a visão de
quem executou o trabalho, analisando cada situação individual e profundamente;
e, finalmente, com a visão de quem paga pelo trabalho, que quer receber um
serviço justo, e com a visão do dono da empresa, que busca constantemente
melhorar os processos de trabalho de toda a cadeia sob sua responsabilidade.
Um bom auditor está sempre se fazendo a seguinte pergunta: “O que
posso propor à empresa para melhorar os resultados daquilo que estou
analisando?” Então, outra característica se torna atrativa no processo de escolha
do auditor: a capacidade de negociação, pois tendo consciência do que precisa
ser mudado, ele poderá usar essa capacidade para convencer e negociar com
as partes interessadas no sucesso de seu intento. O profissional que se
acostuma com suas dificuldades cotidianas e não busca melhorias nas ações de
seu dia a dia certamente não é um bom candidato à vaga de auditor.
Com o perfil do profissional que buscamos já traçado, fica mais fácil para
o setor de recursos humanos (RH) da empresa encontrar a pessoa ideal.
Saiba mais
Veja mais sobre o perfil ideal de um auditor em Germino (2009).
Disponível em: <http://www.administradores.com.br/artigos/economia-e-
financas/o-perfil-de-um-auditor/36664/>.
http://www.administradores.com.br/artigos/economia-e-financas/o-perfil-de-um-auditor/36664/
http://www.administradores.com.br/artigos/economia-e-financas/o-perfil-de-um-auditor/36664/
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A Resolução do Conselho Federal de Odontologia (CFO) n. 20, de 16 de
agosto de 2001, em seu art. 15, também descreve características que devem ser
inerentes à função de auditor odontológico:
Art. 15. Fica estabelecido que é primordial à função de perito/auditor
conhecimento técnico e humanístico, formação moral, discrição,
idoneidade, imparcialidade, moderação e dignidade profissional em
todas as circunstâncias, evitando fazer qualquer comentário perante
colegas e terceiros a respeito do trabalho auditado/periciado, ficando
sujeito o infrator às penas do Código de Ética Odontológica.
Juhás (2006) cita algumas qualidades negativas de candidatos aos quais
devemos estar atentos ao escolher um auditor, mesmo que seu currículo seja
bom:
Possuir postura incompatível com a atividade de auditor: pesquisar
junto ao Conselho Regional de Odontologia (CRO) a presença de alguma
condenação ética, pois há pessoas que gostam de levar ou contar
vantagem, que não respeitam o convívio em sociedade, que são muito
políticas ou inseguras;
Negligenciar os sigilos pessoal e profissional (falam demais):
pessoas que têm o hábito de expor aspectos particulares
desnecessariamente, e que costumam falar mal de empresas ou
consultórios em que trabalharam anteriormente;
Ser dominador, inflexível, individualista: pessoas que apreciam o
trabalho solitário, incapazes de compartilhar ou que procuram o melhor
para si mesmas, sem pensar ou agir como parte de uma equipe;
Ser "dono da verdade" e preconceituoso: profissionais que não
aceitam críticas ou demonstram ter atitudes preconceituosas;
Bancar o “bom moço”: pessoas que são influenciáveis na tentativa de
agradar. O auditor deve ter consciência de que faz parte de suas funções
contrariar interesses; por isso mesmo é preciso zelar pelo seu nome e
pela sua carreira, sendo imparcial e desapaixonado em seus pareceres.
Cerqueira e Martins (1994) descrevem atributos pessoais desejáveis e
indesejáveis em um auditor, independentemente de sua profissão:
11
Quadro 1 – Atributos pessoais desejáveis e indesejáveis em um auditor de
qualidade
Atributos desejáveis Atributos indesejáveis
Bom julgador Influenciável
Mente aberta Não sabe ouvir
Flexível Inflexível
Diplomático Não sabe se comunicar
Autodisciplinado Indisciplinado
Não tendencioso Mente fechada
Bom ouvinte Preconceituoso
Paciente Argumentador
Articulador Dono da verdade
Bom comunicador Desonesto
Interessado Sem ética profissional
Bom observador Opinar no que não lhe cabe
Analítico Dominador
Humano Impaciente
Bom planejador Mal educado; grosseiro
Criterioso Bom moço
Persistente Monopolizador
Íntegro Tendencioso
Profissional Burocrático
Ético Antiético
Polido; educado Aceita presentes e facilidades
Sóbrio (contido e discreto) Falador
Não tem medo de ser impopular Crítico
Pontual Sem objetividade
Habilidoso no trato com pessoas Quer ser amado o tempo todo
Maduro Precipitado
Fonte: elaborado com base em Cerqueira e Martins, 1994.
A essa lista, só acrescentaríamos a habilidade na escrita, porque ela é
fundamental para que os comentários e observações feitos em seus relatórios
não sejam mal interpretados ao longo de toda a sua carreira. Essa habilidade
será aperfeiçoada durante os anos de profissão, com a criação de padrões de
escrita para situações semelhantes.
TEMA 3 – O AUDITOR E A DECISÃO
Quando dizemos que o auditor assume papéis diferentes durante suas
auditorias, lembramos que uma delas, se não a mais importante, é a de dono da
empresa. Essa atribuição exigedele o poder e a necessidade de decidir sobre
diversos assuntos.
Para iniciar este tema, leia uma história interessante narrada por Stephen
Kanitz (disponível em <http://blog.kanitz.com.br/dia-aula-harvard/>), um dos mais
12
respeitados consultores e conferencistas brasileiros, mestre em administração
de empresas pela Harvard Business School e bacharel em contabilidade pela
Universidade de São Paulo.
A tomada de decisão é um processo constante em todas as atividades
humanas. A toda hora o mundo nos põe à prova sobre nosso poder de decisão.
Dentro das empresas essas decisões se tornam mais evidentes, pois
delas depende o planejamento, a atuação, a avaliação e o controle a serem
adotados pela organização. “E devido aos resultados pelas decisões
executadas, muitos colaboradores, diretores e presidentes as consideram como
uma tarefa difícil” (Trewartha; Newport, 1982).
Para pensar
Você está saindo de casa para o trabalho. Está atrasado, como sempre, e
se depara com um engarrafamento. O que você faz? Resignado, aguarda o
engarrafamento lentamente dissolver-se, chegando ainda mais atrasado ao
trabalho, ou pensa rapidamente, buscando por um caminho alternativo e
tentando fazer algo para mudar aquela situação?
Toda dúvida nos leva a tomar uma decisão. E o que é mais importante? A
velocidade? A assertividade? O uso de diversas variáveis? A ponderação?
Para o auditor, o que mais importa é o processo utilizado para tomá-la...
Contanto que ela seja tomada.
De acordo com o IOB (2002), considera-se o processo de tomada de
decisão:
[...] como um método com uma consequência lógica de eventos que
pode ser tratado cientificamente como segue: reconhecimento de um
problema ou necessidade de uma decisão; definição de todas as
alternativas de solução do problema; reunião de todas as informações
relevantes às soluções alternativas; avaliação e classificação dos
méritos das soluções alternativas; seleção da melhor solução
alternativa; validação da decisão pela realimentação da informação.
Lembramos que a importância da tomada de decisão em saúde não é
muito diferente da decisão tomada em uma empresa, pois dela pode resultar a
morte de nosso paciente, como, no outro caso, a morte da empresa. Sempre
ouvimos a máxima que diz que “em saúde, cada caso é um caso”, e isso é
verdade. É por isso que médicos e dentistas são preparados desde o primeiro
ano da faculdade para tomar decisões e mudar rumos, conforme as ocorrências
13
se apresentam, sem muito tempo para pensar, diferentemente da decisão em
uma empresa.
De acordo com o “pai” da tomada de decisões, Herbert Simon,
economista americano e um dos precursores da teoria das decisões, a decisão
é um processo de análise e escolha de alternativas que uma pessoa pode
definir, sendo parte do processo administrativo a tomada de decisões. Assim,
nesse processo existem os seguintes elementos:
● Tomador de decisões: aquele que decide ou escolhe um conjunto de
alternativas para a ação;
● Objetivos: aquilo que o tomador de decisões quer alcançar;
● Preferências: critérios usados na hora da escolha;
● Estratégia: planos de ação utilizados para atingir determinados objetivos,
dependendo dos recursos que possui;
● Situação: compreensão do contexto e do ambiente que será atingido pela
decisão tomada;
● Resultado: consequência da estratégia utilizada pelo tomador de
decisões.
A importância de utilizar um método para a tomada de decisões influencia
nossa maneira de agir e torna esse processo cada vez mais rápido e assertivo.
Isso nos remete a Kanitz (s/d) novamente: Então, como deve ser esse processo
decisório? Cada um deve achar a sua resposta, sempre levando em conta que,
como todo processo, ele é mutável e evolui com o passar do tempo. Portanto,
não existe receita pronta para processos decisórios. Pense enquanto decide e,
depois de decidir, reflita sobre como chegou à decisão para estabelecer um
método.
O auditor deve sempre tomar a decisão correta, ou, pelo menos, aquela
que lhe der a convicção de ser a correta, independentemente de pressões
externas. Deverá ser uma atitude muito natural o auditor mudar seu relatório
quando novas evidências surgirem. Certamente isso gerará conflito, mas não há
demérito em mudarmos nossa opinião sobre algum assunto. Entretanto, o
auditor deve ter a certeza de que todos os recursos a serem observados e
avaliados estão a sua disposição, e, se não estão, devem ser solicitados.
Esgotar as chances de erro deve fazer parte do processo decisório.
Todo auditor deve ter absoluta consciência do seguinte:
14
É permitido errar;
Quem decide, pode errar;
Quem não decide, já errou.
O professor Luiz Almeida Marins cita, em muitas de suas palestras, a
aceitabilidade do erro, e que alguns líderes confundem o objetivo de “fazer certo
da primeira vez” com uma verdadeira castração da criatividade e da iniciativa.
Os líderes vencedores não se envergonham de expor seus erros e aprender
com eles, os chamados “erros honestos”. No trabalho de auditoria odontológica,
nem toda não conformidade é dolosa, por isso é importante tratar algumas falhas
encontradas como “erros honestos” e aproveitar a oportunidade para esclarecer
e educar o colega. É por isso que se deve preservar um bom relacionamento
com os colegas (Junqueira, 2001).
FINALIZANDO
Nesta aula, aprendemos sobre os tipos de auditoria possíveis para as
mais diversas necessidades da empresa e suas características, que são
determinantes na escolha de nosso auditor. A partir daí, podemos começar a
elaborar um processo decisório, que possui características individuais, supondo
que já conhecemos como se desenvolve o pensamento de um auditor.
Então, voltemos ao nosso desafio (tente encontrar novas condições que
possam pôr em risco o nosso entretenimento):
O nosso auditor quer ir ao cinema hoje, na sessão das 19h. O cinema fica
a 15 minutos de sua casa, então ele pode, tranquilamente, deixar a sua
residência uns 30 minutos antes, que ainda terá tempo para comprar o ingresso
e uma pipoca. E então? Você concorda que ele tem tempo suficiente?
Resposta correta: depende. Ele deve pensar em muitas coisas antes de
sair de casa com apenas 15 minutos de “folga”:
"E se acabar a luz e eu tiver que descer de escada os 18 andares do meu
prédio?
"Meu carro está com gasolina suficiente? Quem o utilizou por último foi
minha esposa. Eu perguntei a ela?"
"E se houver um engarrafamento, ou uma rua bloqueada? Existem
caminhos alternativos até o cinema? Eu conheço algum?
15
"E se tiver uma fila enorme na bilheteria? Existem alternativas para
comprá-lo antecipadamente? O aumento de custo é economicamente
aceitável?"
"Qual é a próxima sessão em outro cinema, se tudo der errado?"
...
Se depois de tudo isso ele decidir sair de casa com 15 minutos de
tolerância, ele terá certeza de que tomou a decisão correta (mesmo que perca o
filme).
LEITURA OBRIGATÓRIA
TOMADA de decisão nas organizações. Ok Concursos. Disponível em:
<http://www.okconcursos.com.br/apostilas/apostila-gratis/111-administracao-
geral/162-tomada-de-decisao-nas-organizacoes#.WdLDuGhSwdV>. Acesso em:
14 maio 2018.
GERMINO, F. L. O perfil de um auditor. Administradores.com, 8 dez. 2009.
Disponível em: <http://www.administradores.com.br/artigos/economia-e-
financas/o-perfil-de-um-auditor/36664/>. Acesso em: 14 maio 2018.
SANTOS, M. A. F. Como decidir em auditoria odontológica. 10 jan. 2017.
Disponível em: <https://www.linkedin.com/pulse/como-decidir-em-auditoria-
odontol%C3%B3gica-fernandes-dos-santos/>. Acesso em: 14 maio 2018.
16
REFERÊNCIAS
ANS – Agência Nacional de Saúde Suplementar. Resolução de Diretoria
Colegiada (RDC) n. 39, de 27 de outubro de 2000. Diário oficial da União, 30
out. 2000. Disponível em:
<http://www.ans.gov.br/component/legislacao/?view=legislacao&task=TextoLei&format=raw&id=Mzgw#%C3%ADndice>. Acesso em: 14 maio 2018.
ANDRADE, J. V.; MEDEIROS, U. V. Guia de estudo: auditoria. Campinas:
Mundi Brasil, 2007.
BRASIL. Lei n. 5.081, de 24 de agosto de 1966. Diário Oficial da União, Poder
Legislativo, Brasília, DF, 26 ago. 1966. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5081.htm>. Acesso em: 14 maio 2018.
_____. Lei n. 6.839, de 30 de outubro de 1980. Diário Oficial da União, Poder
Legislativo, Brasília, DF, 3 nov. 1980. Disponível em:
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_____. Lei n. 9.656, de 3 de junho de 1998. Diário Oficial da União, Poder
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_____. Lei n. 9.961, de 28 de janeiro de 2000. Diário Oficial da União, Poder
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BRASIL. ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Ministério da
Saúde. Portaria n. 453, de 1o de junho de 1998. Diário Oficial da União, 2 jun.
1998. Disponível em:
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BRASIL. Ministério da Saúde. Curso básico de regulação, controle, avaliação
e auditoria no SUS. 2016. Disponível em:
<http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/curso_regulacao_SUS_1ed_eletroni
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_____. Ministério da Saúde. Departamento Nacional de Auditoria do SUS.
Orientações técnicas sobre auditoria em odontologia no SUS. Caderno 2,
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2005. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/orientacoes_te
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BURMESTER, H.; MORAIS, M. V. Auditoria em saúde. São Paulo: Saraiva,
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CONSELHO FEDERAL DE ODONTOLOGIA (CFO). Resolução n. 20, de 16 de
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<http://www.crosp.org.br/_fckeditor/file/Guia/RESOLU%C3%87%C3%83O%20C
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_____. Resolução n. 29, de 21 de agosto de 2002. Disponível em:
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Acesso em: 18 maio 2018.
_____. Resolução n. 102, de 12 de maio de 2010. Disponível em:
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_____. Resolução n. 118, de 11 de maio de 2012. Código de Ética Odontológica.
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18
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TOMAZ, P. A. R. Auditoria odontológica: controle técnico-administrativo.
CopyMarket.com, 2001.
TREWARTHA, R. L.; NEWPORT, M. G. Administração: funções e
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UNIDAS – União Nacional das Instituições de Autogestão em Saúde.
Autogestão em saúde no Brasil 1980-2005: história da organização e
consolidação do setor. São Paulo, 2005. Disponível em:
<http://www.unidas.org.br/universidade/livro_autogestao_saude_brasil.pdf>.
Acesso em: 14 maio 2018.
AULA 3
AUDITORIA EM ODONTOLOGIA
Prof. Jacques Ferreira Neto
2
CONVERSA INICIAL
Já conhecemos o que é auditoria em saúde, sabemos de onde ela veio e
temos uma leve noção sobre para onde ela deve caminhar. Conhecemos
também os tipos de auditoria que existem e aprendemos a escolher o auditor
certo para a tarefa que queremos ver executada. Agora é hora de nos
aprofundarmos na auditoria odontológica propriamente dita.
CONTEXTUALIZANDO
É fundamental que o auditor odontológico conheça a fundo toda a
legislação existente sobre o seu ofício, pois é esse conhecimento que garante a
legitimidade de seus atos. Além disso, o domínio das leis ajuda a evitar muitas
preocupações em casos de processos judiciais ou éticos abertos por dentistas
ou pacientes.
O auditor deve ter em mente que qualquer desvio com relação a sua
conduta será motivo de questionamento, e que às vezes esse questionamento
pode tomar proporções indesejadas, invalidando o trabalho de anos em
decorrência de um simples ato que feriu a legislação ou o Código de Ética
Odontológica. Trabalhando dentro da legalidade, conseguimos realizar nosso
objetivo, que é a identificação, o relato e a correção de situações em desacordo
com a conformidade.
Por isso, nesta aula, tentaremos mostrar a você como cada um dos
principais pontos da legislação aplicada a auditoria odontológica se encaixa na
realidade cotidiana. Usaremos alguns exemplos e mostraremos quais são os
erros mais comuns cometidos por auditores e dentistas assistentes, assim como
suas consequências práticas.
TEMA 1 – LEGISLAÇÃO APLICADA A AUDITORIA EM ODONTOLOGIA
1.1 Resolução CFO 20/2001 (em detalhes)
Já comentamos sobre a demora do Conselho Federal de Odontologia
(CFO) em regulamentar a atividade de auditoria e perícia, e como isso, até hoje,
causa confusão quanto ao funcionamento de uma e de outra, tanto para
empresas contratantes quanto para pacientes e dentistas. O auditor
3
odontológico ainda é chamado de perito odontológico, e sua função ainda é vista
como policialesca, o que sabemos não corresponder à verdade.
Há uma dúvida sobre de onde vem a “resistência” que existe até hoje
quanto ao trabalho do auditor odontológico, se foi por causa da atitude de alguns
auditores nos primeiros tempos da auditoria odontológica (ainda sem
normatização), ou se pelo simples fato de o cirurgião-dentista, acostumado a
trabalhar entre quatro paredes e ter seu serviço avaliado empiricamente
somente por seu paciente, de uma hora para outra,ter passado a ver seus
serviços auditados por um colega.
O fato é que a baixa qualidade dos serviços odontológicos é determinante
da redução de sua vida útil, o que provoca retrabalho. Quando se começa um
serviço de auditoria de qualidade em um determinado plano de saúde
odontológico, a incidência de retratamentos cai abruptamente, denotando que
havia, sim, desperdício de recursos financeiros da empresa e,
consequentemente, necessidade de auditoria. Não é exatamente essa a razão
de ser da auditoria?
O auditor não desempenha suas funções para julgar o trabalho do
colega, mas, sim, avaliar se tal trabalho é necessário mesmo, se foi executado e
se a execução atendeu os padrões de qualidade estabelecidos pela comunidade
científica. Mas, para que isso ocorra sem conflitos, é necessário que haja um
protocolo de atitudes que crie limites à atuação do auditor, não permitindo o
empirismo ou parâmetros individuais na avaliação.
Então, estudaremos os principais pontos da Resolução do Conselho
Federal de Odontologia (CFO) n. 20, de 16 de agosto de 2001, que normatiza
perícias e auditorias odontológicas em sede administrativa, e que deve ser
conhecida em todos os seus detalhes pelo auditor odontológico. Comecemos
por seu preâmbulo, pois ele aborda temas importantes para o bom
desenvolvimento dos trabalhos de auditoria.
Diz o texto:
Considerando que o crescimento do mercado de operadoras de planos
de saúde, intermediadoras e congêneres e a mudança da relação
profissional/paciente vêm aumentando o número de demandas éticas
nos Conselhos Regionais envolvendo a atividade dos auditores;
Considerando a necessidade de disciplinar a fiscalização praticada nos
atos odontológicos pelos serviços contratantes de saúde [...]
Por esses dois parágrafos, observamos a clara intenção do conselho de
atuar diretamente sobre atos praticados por auditores no exercício de suas
4
funções, antes não normatizadas. Há uma evidente preocupação com o ato
odontológico que, passando a ser avaliado por outro profissional, torna mais
evidente os problemas técnicos e, consequentemente, mais exposto a críticas,
podendo prejudicar a imagem da profissão diante da sociedade. O simples fato
de um auditor mudar seu semblante ou fazer comentários durante sua avaliação
pode causar receio ao paciente quanto ao tratamento recebido.
É comum que pacientes que se submetem a tratamentos frequentes em
planos de saúde e que constantemente são submetidos a auditoria acabem
criando um vínculo com o auditor, depositando nele uma confiança que deveriam
depositar em seu dentista assistente. Por isso, é importante que o perfil do
auditor seja constantemente reavaliado e que suas atitudes sejam corrigidas ao
menor deslize, antes que causem problemas a todos os atores envolvidos.
Lembre-se: a auditoria deve sempre ser técnica e impessoal.
Considerando que a auditoria do ato odontológico constitui-se em
importante mecanismo de controle e avaliação dos recursos e
procedimentos adotados, visando sua resolubilidade e melhoria na
qualidade da prestação dos serviços;
Considerando que a auditoria e/ou perícia odontológica caracteriza(m)-
se como ato(s) odontológico(s), por exigir(em) conhecimento técnico,
pleno e integrado da profissão [...]
Perceba que a auditoria é um ato odontológico que também deve ser
preservado pelos conselhos de odontologia, garantindo direitos e deveres iguais
ao dos dentistas assistentes. Não há e nem pode haver o sentimento de
superioridade envolvido, pois não existe um serviço que seja mais importante do
que o outro; isso não é um assunto que pareça estar muito claro no exercício
diário da auditoria para nenhuma das partes envolvidas.
O texto também faz menção à importância do controle e da avaliação de
recursos e procedimentos adotados, valorizando as funções de apoio à gestão e
de melhoria de processos para aprimoramento da qualidade dos serviços
prestados.
Considerando que muitas demandas cíveis são originadas por
inobservâncias as normas éticas, que norteiam a profissão do
cirurgião-dentista, visto que já foi consolidado junto ao Superior
Tribunal de Justiça decisão responsabilizando solidariamente o
cirurgião-dentista, a empresa prestadora de serviço e,
consequentemente, o auditor que presta serviço para empresa
responsável [...]
Nesse caso, a responsabilidade Solidária é uma medida jurídica de
proteção ao paciente, advinda do Código de Defesa do Consumidor,
5
estabelecido pela Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990 (Brasil, 1990), no art.
7º, parágrafo único, e no art. 25º, parágrafo 1º:
Art. 7° [...]
Parágrafo único. Tendo mais de um autor a ofensa, todos responderão
solidariamente pela reparação dos danos previstos nas normas de
consumo.
[...]
Art. 25 [...]
§ 1° Havendo mais de um responsável pela causação do dano, todos
responderão solidariamente pela reparação prevista nesta e nas
seções anteriores (Brasil, 1990).
Esse parágrafo nos faz lembrar da importância e da responsabilidade do
ato da auditoria, que precisa ser respaldado por evidências científicas e por
preceitos éticos da profissão. Como dissemos anteriormente, não há espaço
para o empirismo e para o juízo de valor. O auditor que segue à risca essas
duas premissas evita problemas com a justiça no exercício de suas atividades.
Mais do que isso, ele não pode deixar de observar, ou simplesmente omitir em
seus relatórios, qualquer fato que possa comprometer a qualidade do serviço
executado pelo dentista assistente. Por isso é fundamental que ele investigue e,
se necessário, solicite informações complementares, para não correr o risco de
deixar passar detalhes relevantes, por mais insignificantes que possam parecer.
Isso certamente terá um efeito positivo em sua defesa em caso de discordância.
Art. 5º. São atribuições específicas do auditor seguir as normas
técnicas administrativas da empresa em que presta serviço, observar
se tais normas estão de acordo com os preceitos éticos e legais que
norteiam a profissão do cirurgião-dentista, recusando-se a cumpri-las
caso estejam em desacordo com o Código de Ética Odontológica.
§ 1º Aplicar medidas técnicas e administrativas que visem corrigir a
cobrança de procedimentos odontológicos indevidos ou equivocados
com avaliação da exatidão e procedência dos valores e serviços
apresentados para o pagamento (auditoria corretiva).
§ 2º Efetuar auditoria prévia, quando a empresa assim o determinar e
analisar o plano de tratamento proposto inicialmente, guardando cópia
em arquivo próprio.
§ 3º Efetuar auditoria final, verificando se o resultado, proposto
inicialmente no plano de tratamento, foi alcançado.
§ 4º Assessorar a operadora em todas as questões legais e
administrativas, que se relacionam com o programa de assistência
odontológica, e analisar críticas, reclamações, sugestões,
reivindicações dos usuários, das operadoras e da rede prestadora (elo
técnico administrativo) (CFO, 2001b).
O art. 5º nos apresenta as atividades mais corriqueiras exercidas pelo
auditor odontológico. Os parágrafos 1º, 2º e 3º referem-se às auditorias
realizadas normalmente por profissionais autônomos, em seus próprios
6
consultórios, para avaliar planos de tratamento e tratamentos executados por
dentistas da rede credenciada ao plano de saúde odontológico.
Esse artigo prevê somente as auditorias inicial e final, sem fazer menção
a auditorias intermediárias. Certamente essa era a visão que existia à época
sobre a atividade da auditoria, e que deveria ter sido revisada juntamente com a
evolução das técnicas de auditoria, mas o texto não sofreu nenhuma revisão
desde a publicação da norma. Portanto, o auditor deve tomar bastante cuidado
para que uma auditoria intermediária não se torne um problema, já que,
oficialmente, ela não faz parte de suas atribuições.
O art. 5o também faz menção à observância do que prevê o Código de
Ética Odontológica,enfatizando o não cumprimento de regras que o contrariem.
Nesse caso, é obrigação do responsável técnico pelo plano advertir
imediatamente a direção da operadora de saúde para corrigir a norma, e, se não
houver nenhuma ação por parte deles, notificar o conselho regional em que o
plano se encontra registrado, sob pena de ser considerado conivente com a
infração ética.
O parágrafo 4º cita a função de consultoria e apoio à gestão do plano, que
certamente já apresenta uma evolução da atividade de auditoria odontológica
quando comparada com as primeiras iniciativas de regulamentação da auditoria
médica, mas que, na maioria das vezes, não depende somente da ação do
auditor, e, sim, de decisões da administração do plano. Sobre isso, ressaltamos
a importância de o auditor manter em arquivo todas as suas recomendações e
sugestões para a melhoria do plano, que deverão ser utilizadas em sua defesa,
caso necessário.
Art. 6º O cirurgião-dentista, na função de auditor e/ou perito, se obriga
a manter o sigilo profissional, devendo, sempre que necessário,
comunicar, através de relatório, a quem de direito e por escrito suas
observações, conclusões e recomendações, sendo-lhe vedado realizar
anotações no prontuário do paciente.
§ 1º É vedado ao cirurgião-dentista, na função de auditor e/ou perito,
divulgar suas observações, conclusões ou recomendações, exceto por
justa causa, conforme previsto no Código de Ética Odontológica, ou
dever legal.
§ 2º O cirurgião-dentista, na função de auditor e/ou perito, não pode,
em seu relatório, exagerar ou omitir fatos decorrentes do exercício de
suas funções.
§ 3º Poderá o cirurgião-dentista na função de auditor solicitar por
escrito, ao cirurgião-dentista assistente, os esclarecimentos
necessários ao exercício de suas atividades.
Podemos dizer que o descumprimento desse artigo é o responsável por
aproximadamente 80% das demandas éticas descritas no preâmbulo dessa
7
resolução. Sigilo, discrição, bom senso e prudência são os instrumentos usados
pelo auditor odontológico para livrar-se de infringir os preceitos tratados nesse
artigo. O parágrafo 3º nos orienta sobre a possibilidade de o auditor solicitar
todas as informações que achar necessárias para dirimir possíveis dúvidas antes
de decidir quais fatos e recomendações deverão estar presentes em seu
relatório. Mais adiante, voltaremos a falar nesse artigo, quando falarmos sobre a
solicitação de radiografias para a comprovação de certos procedimentos
odontológicos.
Art. 7º. O cirurgião-dentista, na função de auditor e/ou perito, tem o
direito de acessar, in loco, toda a documentação necessária, sendo-lhe
vedada a retirada dos prontuários ou cópias da instituição, podendo, se
necessário, examinar o paciente, desde que devidamente autorizado
pelo mesmo, quando possível, ou por seu representante legal.
§ 1º. Havendo identificação de indícios de irregularidades no
atendimento do paciente, cuja comprovação necessite de análise do
prontuário odontológico, é permitida a retirada de cópias
exclusivamente para fins de instrução da perícia ou auditoria.
[...]
Art. 8º. O cirurgião-dentista, no exercício de auditoria ou perícia, deverá
estar regularmente inscrito no Conselho Regional de Odontologia,
comunicando ao CRO, da jurisdição onde ocorrer a prestação do
serviço, seu exercício quando eventual.
Art. 9º. As empresas que prestam serviços de auditoria e/ou perícia e
seus responsáveis técnicos deverão estar devidamente registrados nos
Conselhos Regionais de Odontologia das jurisdições onde seus
contratantes estiverem atuando.
Art. 10. Na função de auditor ou perito, o cirurgião-dentista deverá
identificar-se, de forma clara, em todos os seus atos, fazendo constar,
sempre, o número de seu registro no Conselho Regional de
Odontologia.
Art. 11. O cirurgião-dentista, na função de auditor ou perito, deverá
apresentar-se ao diretor técnico ou substituto da unidade, antes de
iniciar suas atividades.
Art. 12. O diretor técnico ou diretor clínico deve garantir ao cirurgião-
dentista/equipe auditora todas as condições para o bom desempenho
de suas atividades, bem como o acesso aos documentos que se
fizerem necessários, sob pena de responder ética ou
administrativamente pela omissão.
[...]
Art. 20. Fica vedado ao cirurgião-dentista prestar serviços de auditoria
à empresa não inscrita no CRO da jurisdição em que estiver exercendo
suas atividades. [...]
Do art. 7º ao 12, mais o art. 20, o CFO se preocupa com a legalização do
processo de auditoria ou perícia. São questões técnicas do Direito que, se não
observadas, podem invalidar todo o processo, seja ele administrativo, seja
jurídico. Esses artigos tratam do recolhimento de informações e registros
competentes tanto do perito/auditor (em caso de registro eventual; ver
Resolução CFO 183/93) quanto do avaliado, e trata da operadora nos conselhos
em que se está atuando, da obrigatoriedade de colaboração do responsável
8
técnico pela clínica e/ou operadora de saúde no fornecimento de informações e
do cuidado fundamental com os prontuários odontológicos, que sempre serão
peças-chave dos processos, quando instaurados.
Art. 13. O cirurgião-dentista, na função de auditor, encontrando
impropriedades ou irregularidades na execução do serviço no paciente,
deve comunicar o fato por escrito ao cirurgião-dentista assistente,
solicitando os esclarecimentos necessários para fundamentar suas
recomendações.
Parágrafo único. É vedado ao cirurgião-dentista, na função de auditor
e/ou perito, transferir sua responsabilidade a outros profissionais,
mesmo quando integrantes de sua equipe. (CFO, 2001b; grifo nosso)
Mais do que uma determinação do CFO, o caput desse artigo é um dos
melhores conselhos que um auditor pode receber no desempenho de suas
funções. A palavra deve não está destacada por acaso, pois se essa etapa for
negligenciada, certamente haverá problemas para o auditor. O artigo demonstra
claramente a diferença entre perícia e auditoria, e que não se exige essa medida
de dentistas que atuam como peritos, que devem se reportar ao juiz ou ao
conselho em casos de perícias administrativas. Abre-se aí o canal de
comunicação de que falamos anteriormente, que passa a funcionar com o ato da
auditoria, e que não se fecha com a emissão do relatório, mas permanece aberto
até que haja consenso ou uma determinação superior.
Como podemos ver, a auditoria abre espaço ao debate de ideias e
opiniões em que deve prevalecer o bom senso e o conhecimento técnico. É claro
que as divergências, às vezes, exaltam os ânimos entre auditor e auditado, mas
é exatamente nesses casos que se tornam importantes as características
diplomáticas do auditor, que também deve se mostrar flexível, articulador, bom
comunicador e paciente. Porém, uma coisa deve prevalecer sobre as demais: o
profissional de auditoria deve demonstrar segurança, pois somente assim ele
poderá tomar a decisão correta, sem pressões externas sobre suas convicções.
Art. 14. Não compete ao cirurgião-dentista, na função de auditor, a
aplicação de quaisquer medidas punitivas ao cirurgião-dentista
assistente ou instituição de saúde, cabendo-lhe somente recomendar
as medidas corretivas em seu relatório, para o fiel cumprimento da
prestação da assistência odontológica. (CFO, 2001b; grifo nosso)
Um cuidado importante que o auditor deve ter diz respeito às
recomendações de medidas corretivas que o artigo suscita. Deve-se tomar
muito cuidado para não interferir na autonomia do dentista assistente ao propor
um plano de tratamento. O auditor nunca deve sugerir um tratamento
alternativo quando não concordar com o plano de tratamento proposto.
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Cabe a ele somente relatar que não concorda com o planejamento e explicitar
seus motivos para tal observação, e então recomendar que o dentista assistente
proponha um novo plano de tratamento, sem sugerir alternativas. A proposta
deve partirsempre do dentista assistente.
Art. 15. Fica estabelecido que é primordial à função de perito/auditor
conhecimento técnico e humanístico, formação moral, discrição,
idoneidade, imparcialidade, moderação e dignidade profissional em
todas as circunstâncias, evitando fazer qualquer comentário perante
colegas e terceiros a respeito do trabalho auditado/periciado, ficando
sujeito o infrator às penas do Código de Ética Odontológica.
Art. 16. É vedado ao perito/auditor fazer, perante o usuário,
comentários ou observações sobre os serviços executados, ou indicar
a este, outro profissional para realizar o tratamento.
Art. 17. As observações em casos de restrições a determinados
procedimentos serão feitas através do contato do perito/auditor com o
cirurgião-dentista assistente, pessoalmente ou por correspondência
assinada e em envelope lacrado, de forma codificada, para que seja
preservado o sigilo. (CFO, 2001b)
Esses artigos dizem respeito a recomendações éticas para preservar o
paciente, o dentista assistente e, principalmente, o auditor, em caso de
processos éticos.
O art. 15 estabelece como “[...] primordial à função de perito/auditor
conhecimento técnico e humanístico, formação moral, discrição, idoneidade,
imparcialidade, moderação e dignidade profissional”. Pois bem, como cita Juhás
(2006) em seu livro Auditoria em odontologia, essas características são
desejáveis para todos os profissionais, e não somente auditores e peritos. Se
todos possuíssem tal perfil, o trabalho de auditoria se resumiria ao controle de
qualidade, o que resultaria em otimização de recursos e poderia ser revertido
para melhorar a remuneração dos profissionais; certamente, isso melhoraria
muito o nível da prestação de serviços odontológicos à sociedade.
Quanto ao art. 16, é interessante ressaltar que o CFO faz menção
somente à vedação do auditor em fazer comentários ou observações sobre os
serviços executados, mas não cita outra infração ética que ocorre com muita
frequência. É muito comum que o dentista assistente receba o relatório de
auditoria, até então lacrado e sigiloso, e o abra na presença do paciente,
fazendo críticas, abertamente, ao auditor que tem ressalvas quanto ao
tratamento. Isso ajuda a criar um clima de animosidade entre paciente, auditor e
dentista assistente, na medida em que a relação entre o paciente e seu dentista
é muito mais próxima do que entre paciente e auditor.
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Sei que às vezes parece estranho, mas é muito comum o paciente
retornar ao consultório do auditor para a conferência das medidas corretivas
adotadas, com o semblante totalmente diferente do que na primeira avaliação.
Ocorre também, às vezes, de ele demonstrar estar muito bravo com o auditor.
Mas uma das coisas que o auditor deve ter em mente sobre sua atividade é que
ele não está lá para agradar ninguém, e que se ele fez alguma observação sobre
o tratamento, essa observação foi feita visando ao bem do paciente, que é a
parte mais fraca nesse processo. Nesses casos, recomendamos respirar fundo e
buscar a paz novamente, com a certeza de ter agido corretamente. "Art. 18.
Cabe ao perito/auditor glosar serviços propostos ou executados, quando não
atenderem às restrições observadas ou estabelecidas como norma pela
empresa, devidamente justificados" (CFO, 2001b).
Sobre esse assunto, cabe-nos fazer uma observação importante e
polêmica sobre a glosa. Esse é um termo muito utilizado em auditoria, mas
poucos conhecem o seu real significado. De acordo com o Dicionário Informal,
glosa é "toda cobrança efetuada que não coincide com os acordos e regras
firmadas entre o serviço contratado e a empresa contratante". O Dicionário
Aulete define o mesmo termo como "[...] Divergência com alguma conta,
orçamento ou quantia apresentados, por serem incorretos, indevidos [...]".
Essas são definições de dicionário, mas o entendimento mais comum em
auditoria em saúde é que a glosa corresponde ao não pagamento de um
procedimento executado por divergência quanto a sua conformidade. Não é
esse o entendimento geral?
O que poucos sabem é que não é o auditor que glosa procedimentos!
Quem executa a glosa é a operadora de saúde, pois se trata de um ato
administrativo, e não técnico. O auditor pode até recomendar a glosa, mas ela só
é efetivamente realizada pelo setor financeiro do plano de saúde, depois de
ordenada pela administração do plano.
Você se lembra do que dissemos sobre o relatório de auditoria não ser
um documento definitivo? Pois é, há espaço para debate quando o relatório é
emitido. Existem várias instâncias para que o dentista assistente argumente
contra os motivos da recomendação de glosa feita pelo auditor antes que ela
seja efetivamente realizada.
Por isso, diferentemente do contido no art. 18º, e sendo a glosa de uma
fatura determinada por outra pessoa que não o auditor, ele não estará infringindo
11
o que está contido no art. 14 ("[...] Não compete ao cirurgião-dentista, na função
de auditor, a aplicação de quaisquer medidas punitivas ao cirurgião-dentista
assistente [...]") por simplesmente recomendar a glosa, e esse entendimento
poderá servir de argumentação de defesa caso ele seja denunciado como
responsável pela glosa.
O que é imperativo é que as bases para a recomendação da glosa sejam
sólidas e estejam apoiadas em fundamentos científicos, pois estas, sim, por
tratarem-se de um documento técnico, deverão obedecer aos padrões pré-
definidos para a emissão de um relatório de auditoria.
A recomendação de glosa deve ser a última medida, a mais extrema
proposta pelo auditor, após ter dado ao dentista assistente todas as
oportunidades de corrigir as não conformidades apontadas em seu relatório.
"Art. 19. Não é compatível o exercício da função de perito/auditor quando o
cirurgião-dentista for, por si ou através de empresa prestadora de atenção
odontológica da qual faça parte, conveniado ou credenciado da empresa
contratante" (CFO, 2001b).
Apesar de o texto desse artigo ser de difícil compreensão, o que ele quer
dizer é que o profissional não pode acumular a função de dentista assistente e
auditor na mesma operadora de saúde. "Art. 22. O cirurgião-dentista, na função
de auditor, não pode ser remunerado ou gratificado por valores vinculados à
glosa" (CFO, 2001b).
Esse artigo é muito importante para profissionais que atuarão em
seguradoras ou empresas de seguro-saúde. Não é incomum que se faça
propostas nesse sentido. Tome cuidado!
Art. 23. A critério do CRO, por ato de seu presidente, poderá ser
constituída comissão especial para analisar e dirimir, se possível, as
dúvidas éticas suscitadas entre o perito/auditor e o cirurgião-dentista
assistente.
Art. 24. A codificação a ser usada pelo perito/auditor em sua
comunicação com o cirurgião-dentista assistente utilizará o código de
procedimentos da CNCC, o sistema digito dois de identificação
dentária, a especificação da face do elemento dentário pelas letras que
as designam e pelas três primeiras letras do verbo que determinar a
intervenção.
Para auditorias de operadoras que não possuem sistemas eletrônicos de
comunicação entre auditores e dentistas assistentes, é muito importante utilizar
a codificação mencionada no art. 24. Normalmente essa comunicação é feita por
meio de um envelope lacrado, identificado como confidencial, contendo o
12
relatório do auditor e suas recomendações, e que é encaminhado ao dentista
assistente pelo próprio paciente. Sempre existe o risco de violação de
correspondência (o que não é incomum), mas se o paciente abrir o envelope,
terá dificuldade em saber exatamente de que se trata se for utilizada a
codificação descrita. Também, algumas operadoras criam uma codificação
própria para identificar as circunstâncias mais comuns de não conformidades,
tornando bem mais segura a confidencialidade dessa comunicação.
Aliás, a obrigação de confidencialidadena comunicação auditor-dentista
assistente também está prevista e respaldada pelo Novo Código Civil Brasileiro
(Brasil, 2002), no Código de Processo Civil (Brasil, 2015), no Código Penal
(Brasil, 1940) e no Código de Ética Odontológica (CFO, 2012), portanto, todo
cuidado é pouco!
"Art. 25. Esta Resolução aplica-se a todas as auditorias assistenciais,
inclusive àquelas no âmbito do SUS" (CFO, 2001b). Em 2005, o Departamento
Nacional de Auditoria do SUS (DENASUS), órgão do Ministério da Saúde,
lançou o manual Orientações técnicas sobre auditoria em odontologia no SUS.
Caderno 2 (Brasil, 2005), contendo as normas e diretrizes para a sua realização.
Trabalhando há mais de 10 anos como auditor do SUS, ainda não são colocadas
em prática as recomendações deste manual, mas já existe um caminho a ser
seguido e critérios a serem adotados quando esse sistema de auditoria for
implantado.
1.2 Resolução CFO 19/2001
Essa é outra resolução do Conselho Federal de Odontologia (CFO) que
pretende regulamentar o relacionamento entre operadora, auditor e dentista
assistente. A Resolução n. 19, de 25 de junho de 2001 (CFO, 2001a), assim
como a n. 20 (CFO, 2001b), tem como base resoluções do Conselho Federal de
Medicina, e por falta de conhecimento na área de gestão de empresas de
odontologia de grupo, não refletem a realidade do dia a dia dessas empresas.
A Resolução n. 19 (CFO, 2001a) visa proteger o cirurgião-dentista
credenciado à operadora, estando ele na posição de dentista assistente ou de
auditor, de desligamentos não justificados, garantindo assim a ampla defesa do
profissional, desligado às vezes por simples desavenças ou discordâncias com
profissionais da operadora.
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Art. 1º - É vedado o desligamento de cirurgião-dentista vinculado por
referenciamento, credenciamento ou associação à Operadora de Plano
de Saúde, exceto por decisão motivada e justa, garantindo-se ao
cirurgião-dentista o direito de defesa e do contraditório no âmbito da
operadora.
Art. 2º - O desligamento voluntário do cirurgião-dentista referenciado,
credenciado ou associado obriga-o a comunicar sua decisão, com
antecedência mínima de 60 dias, à Operadora de Plano de Saúde a
qual está vinculado; e a disponibilizar aos seus pacientes os dados
clínicos em seu poder, a fim de garantir-lhes a continuidade do
tratamento odontológico.
Art. 3º - A decisão de desligamento deverá ser homologada pelo
Conselho Regional de Odontologia, num prazo de 30 dias.
Art. 4º - As Operadoras de Planos de Saúde devem obrigatoriamente
comunicar os desligamentos de cirurgiões-dentistas aos seus usuários.
Art. 5º - O diretor técnico da operadora é o responsável pelo
cumprimento desta norma.
Art. 6º - Esta resolução entra em vigor na data de sua publicação,
revogando-se as disposições em contrário.
FINALIZANDO
Essa é a primeira parte de nosso estudo sobre legislação aplicada a
auditoria odontológica. Os pontos abordados nessa aula buscam garantir
tranquilidade para desenvolvermos nosso trabalho focados naquilo que é
importante.
A Resolução n. 20, de 16 de agosto de 2001 (CFO, 2001b), juntamente
com o Código de Ética Odontológica (CFO, 2012), são as normas que dão
sustentação ao trabalho da auditoria em todos os aspectos, e devem ser lidas e
relidas diversas vezes, até que se tornem parte de nossa rotina, até que não
tenhamos que pensar muito a seu respeito.
O estudo dessa legislação é comparável ao treinamento de um atleta para
um campeonato: é preciso fazer repetições exaustivas de suas práticas e buscar
constantemente melhorar as funções que precisam ser melhoradas, até
chegarmos ao campeonato sabendo antecipadamente tudo o que deve ser feito
durante a prova. O treinamento constante nos dá a certeza de termos feito o
melhor que pudemos. Desse ponto em diante, é só treinarmos mais e melhorar
nosso desempenho, diariamente.
LEITURA OBRIGATÓRIA
CFO – Conselho Federal de Odontologia. Resolução n. 19, de 25 de junho de
2001. Diário Oficial da União, 9 ago. 2001a. Disponível em:
<http://www.crosp.org.br/_fckeditor/file/Guia/RESOLU%C3%87%C3%83O%20C
FO%20019-01.pdf >. Acesso em: 16 maio 2018.
14
_____. Resolução n. 20, de 16 de agosto de 2001. Diário Oficial da União, 27
set. 2001b. Disponível em: <http://www.crosp.org.br/_fckeditor/file/Guia/RESOLU
%C3%87%C3%83O%20CFO%2020-01.pdf>. Acesso em: 14 maio 2018.
15
REFERÊNCIAS
ANS – Agência Nacional de Saúde Suplementar. Resolução de Diretoria
Colegiada (RDC) n. 39, de 27 de outubro de 2000. Diário oficial da União, 30
out. 2000. Disponível em: <http://www.ans.gov.br/component/legislacao/?view=le
gislacao&task=TextoLei&format=raw&id=Mzgw#%C3%ADndice>. Acesso em:
14 maio 2018.
ANDRADE, J. V.; MEDEIROS, U. V. Guia de estudo: auditoria. Campinas:
Mundi Brasil, 2007.
BRASIL. ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Ministério da
Saúde. Portaria n. 453, de 1o de junho de 1998. Diário Oficial da União, 2 jun.
1998. Disponível em:
<http://www.anvisa.gov.br/anvisalegis/portarias/453_98.htm>. Acesso em: 14
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BRASIL. Decreto-lei n. 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Diário
Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 31 dez. 2018. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.htm>.
Acesso em: 16 maio 2018.
_____. Lei n. 5.081, de 24 de agosto de 1966. Diário Oficial da União, Poder
Legislativo, Brasília, DF, 26 ago. 1966. Disponível em:
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16
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<http://www.unidas.org.br/universidade/livro_autogestao_saude_brasil.pdf>.
Acesso em: 14 maio 2018.
AULA 4
AUDITORIA EM ODONTOLOGIA
Prof. Jacques Ferreira Neto
2
CONVERSA INICIAL
Continuando o estudo da legislação aplicada a auditoria odontológica,
chegamos ao Código de Ética Odontológica, aprovado pela Resolução CFO n.
118 e atualizado pela última vez em 11 de maio de 2012. O código visa balizar a
conduta de todos os cirurgiões-dentistas no exercício de sua profissão.
Esse deve ser o “livro de cabeceira” de todo auditor odontológico. Como
vimos anteriormente, existe nos conselhos regionais de odontologia (CROs),
veladamente, uma preocupação muito maior com infrações éticas praticadas por
auditores do que por dentistas assistentes. Qualquer deslize pode inviabilizar
todo um trabalho de investigação e relato de não conformidades encontradas em
tratamentos clínicos, realizados ou por realizar.
CONTEXTUALIZANDO
O que é Ética? De acordo com Antônio Raimundo dos Santos, ética é "a
reflexão sobre a ação humana, para extrair dela o conjunto excelente de ações.
É uma ciência que tem por objeto a moral e a lei e pretende aprimorar as
atividades realizadoras de si, desenvolvidas pelos indivíduos, pela busca do
excelente”.
Por conseguinte, ética profissional é “a reflexão sobre a atividade
produtiva, para dela extrair o conjunto excelente de ações, relativas ao modo de
produção” (Santos, S.d.).
Então, se buscar a excelência de conduta é um princípio ético, nada
melhor do que pautarmos nossa conduta profissional (e pessoal) naquilo que
preconiza o nosso Código de Ética Odontológico. Certamente, nossa profissão
seria bem melhor se todos assim o fizessem. Cabe então ao auditor
odontológico dar o primeiro passo nessa direção, principalmente por causa da
exposição a que nos submetemos – característica da auditoria – por sermos os
profissionais que investigam a fundo ações de terceiros em busca de pequenas
falhas.
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TEMA 1 – LEGISLAÇÃO APLICADA A AUDITORIA EM ODONTOLOGIA
(CONTINUAÇÃO)
1.1 O Código de Ética Odontológica (aspectos relevantes)
É imprescindível que todo cirurgião-dentista leia todo o Código de Ética
Odontológico para depois deter-se nos pontos mais importantes para a sua área
de atuação.
Agora, salientaremos o que mais importa em uma auditoria odontológica.
O Código de Ética Odontológica vigente, aprovado pela Resolução do
Conselho Federal de Odontologia (CFO) n. 118, de 11 de junho de 2012,
apresenta um capítulo específico que trata de perícias e auditorias
odontológicas. A maioria dos pontos abordados no Capítulo IV já fazem parte da
Resolução CFO n. 20, de 16 de agosto de 2001, mas é importante conhecermos
esse capítulo item por item:
CAPÍTULO IV
DAS AUDITORIAS E PERÍCIAS ODONTOLÓGICAS
Art. 10. Constitui infração ética:
I - deixar de atuar com absoluta isenção quando designado para servir
como perito ou auditor, assim como ultrapassar os limites de suas
atribuições e de sua competência [...] (CFO, 2012).
O Inciso I do art. 10 trata da questão da isenção, inerente à função de
auditor em qualquer profissão. Nenhuma influência externa ou de foro interno
pode alterar o teor do relato técnico sobre os fatos observados. Também não
pode o auditor desrespeitar o que determina a Resolução CFO n. 20 (CFO,
2001b); tal atribuição é exclusiva do auditor odontológico.
Fatos como relações pessoais com o auditado que possam influenciar
seu modo de pensar sobre o caso, proposição de mudanças no plano de
tratamento, proposição ou imposição de sansões ao profissional e indicação de
outro profissional ao paciente são algumas falhas que podem ser enquadradas
nesse inciso. Às vezes, o auditor se sente tentado a tomar alguma atitude nesse
sentido, mas deve sempre prevalecer o bom senso e a atenção aos preceitos
éticos da profissão.
“II - intervir, quando na qualidade de perito ou auditor, nos atos de outro
profissional, ou fazer qualquer apreciação na presença do examinado,
reservando suas observações, sempre fundamentadas, para o relatório sigiloso
e lacrado, que deve ser encaminhado a quem de direito [...]” (CFO, 2012). Nesse
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inciso II do art. 10 existem duas situações envolvidas. A primeira é aquela em
que o auditor, além de espelho e sonda clínicas, não pode utilizar nenhum outro
instrumental odontológico para sua avaliação clínica. Corrigir excessos de
restaurações, realizar pequemos desgastes ou qualquer outra intervenção
clínica além da pura observação e sondagem pode levar o auditor a cometer
uma infração ética, mesmo que sua intenção seja a de ajudar o paciente. O
correto é encaminhar o paciente novamente ao seu dentista para que realize a
correção descrita em seu relatório lacrado e sigiloso, solicitando que o paciente
seja novamente encaminhado para reavaliação. Lembre-se de que a execução
de um plano de tratamento também é um ato odontológico.
A segunda situação trata do sigilo profissional, assunto já abordado na
Resolução CFO n. 20 (CFO, 2001b), que encontra respaldo no Código de
Processo Civil (Brasil, 2015): “Art. 404. A parte e o terceiro se escusam de exibir,
em juízo, o documento ou a coisa se: [...] IV - sua exibição acarretar a
divulgação de fatos a cujo respeito, por estado ou profissão, devam guardar
segredo [...]” (Brasil, 2015). Ou, quando o sigilo é quebrado, de acordo com o
Código Penal (Brasil, 1940): “Art. 154 - Revelar alguém, sem justa causa,
segredo, de que tem ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão,
e cuja revelação possa produzir dano a outrem: Pena - detenção, de três meses
a um ano, ou multa. Parágrafo único - Somente se procede mediante
representação” (Brasil, 1940).
Essa questão do sigilo na comunicação auditor-dentista assistente é um
dos motivos mais comuns de queixas éticas nos CROs, e também um dos
maiores causadores de penalidades aos auditores. Independentemente de ter
sido observada uma falha técnica ou não, o auditor perde a razão ao fazer
qualquer comentário ou transparecer que houve um problema. Há, então, que seregulamentar uma maneira mais segura para esse tipo de comunicação, pois,
após muitos anos trabalhando dentro de operadoras de saúde, sabemos que se
não houver uma regulamentação ou uma determinação por parte da Agência
Nacional de Saúde (ANS) ou de CROs, as operadoras nada farão, pois não
costumam “desperdiçar” recursos em tecnologias não obrigatórias.
“Art. 10. Constitui infração ética: [...] III - acumular as funções de
perito/auditor e procedimentos terapêuticos odontológicos na mesma entidade
prestadora de serviços odontológicos [...]” (CFO, 2012). O acúmulo de funções
como auditor e assistente é um problema que até hoje vemos acontecer em
5
algumas cidades do interior, onde o número de cirurgiões-dentistas é pequeno, o
que faz com que um profissional audite seu próprio trabalho ou o trabalho
realizado por um colega de consultório. Cabe ao responsável técnico pelo plano
de saúde impedir que isso ocorra dentro da rede credenciada sob sua
responsabilidade.
IV - prestar serviços de auditoria a pessoas físicas ou jurídicas que
tenham obrigação de inscrição nos Conselhos e que não estejam
regularmente inscritas no Conselho de sua jurisdição;
[...]
VI - receber remuneração, gratificação ou qualquer outro benefício por
valores vinculados à glosa ou ao sucesso da causa, quando na função
de perito ou auditor [...]. (CFO, 2012)
Os incisos IV e VI do art. 10 também já foram tratados na aula 3, na qual
abordamos a Resolução CFO n. 20 (CFO, 2001b).
V - negar, na qualidade de profissional assistente, informações
odontológicas consideradas necessárias ao pleito da concessão de
benefícios previdenciários ou outras concessões facultadas na forma
da Lei, sobre seu paciente, seja por meio de atestados, declarações,
relatórios, exames, pareceres ou quaisquer outros documentos
probatórios, desde que autorizado pelo paciente ou responsável legal
interessado (CFO, 2012).
O inciso V do art. 10 diz respeito à importância que existe em manter toda
a documentação odontológica legal em condições de ser entregue ou
consultada, sempre que for oficialmente solicitado por órgão governamental para
a concessão de algum benefício. Não devemos nos esquecer de que essa
disponibilização de dados deve ser autorizada pelo paciente ou por seu
responsável legal, se tratar-se de menor ou incapaz. De outra forma, a entrega
só será realizada por determinação judicial, e, mesmo assim, fica assegurado o
direito ao sigilo profissional.
“VII - realizar ou exigir procedimentos prejudiciais aos pacientes e ao
profissional, contrários às normas de Vigilância Sanitária, exclusivamente para
fins de auditoria ou perícia [...]” (CFO, 2012). Essa é uma discussão muito
comum no exercício da auditoria odontológica, mas prefiro aprofundar essa
discussão quando falarmos da Resolução CFO n. 102, de 12 de maio de 2010
(CFO, 2010).
VIII - exercer a função de perito, quando:
a) for parte interessada;
b) tenha tido participação como mandatário da parte, ou sido designado
como assistente técnico de órgão do Ministério Público, ou tenha
prestado depoimento como testemunha;
c) for cônjuge ou a parte for parente, consanguíneo ou afim, em linha
reta ou colateral até o segundo grau; e,
6
d) a parte for paciente, ex-paciente ou qualquer pessoa que tenha ou
teve relações sociais, afetivas, comerciais ou administrativas, capazes
de comprometer o caráter de imparcialidade do ato pericial ou da
auditagem.
O inciso VIII do art. 10 suscita o conflito de interesses que pode invalidar
o ato odontológico da perícia ou da auditoria quando questões pessoais influem
no relatório ou no laudo pericial. Lembramos que, entre as características de
uma auditoria, a independência e a isenção são fundamentais para a validação
do ato, e se houver simples suspeição de que há conflito de interesses
envolvido, mesmo que o auditor esteja com a verdade a seu lado todo o
processo será invalidado. Portanto, o auditor deve possuir bom relacionamento
com seus colegas de profissão, mas deve sempre preservar sua imagem,
abstendo-se de auditar o trabalho de amigos muito íntimos ou parentes. Essa
atitude dará maior credibilidade a seu trabalho perante seus colegas de
profissão e pacientes.
Essa é a parte do código de ética exclusiva a auditores e peritos, porém,
existem outros artigos muito importantes que devem ser de pleno conhecimento
do auditor. Por exemplo, o art. 11: “Constitui infração ética: [...] III - exagerar em
diagnóstico, prognóstico ou terapêutica [...]” (CFO, 2012). Esse inciso trata da
mais comum das causas de glosas em planos de tratamentos, que é a existência
de auditoria prévia ou inicial. Infelizmente, é mais do que comum aos
profissionais exagerar em seus planos de tratamento para obter vantagem
financeira, propondo os procedimentos mais caros das tabelas dos planos de
saúde.
Citamos a seguir alguns exemplos clássicos para ilustrar aquilo de que
estamos falando, e que pode ser confirmado como comum por qualquer auditor
odontológico.
● Exagerar o diagnóstico: o profissional propõe tratamentos periodontais
com frequência, como se o paciente tivesse grandes quantidades de
cálculos periodontais, bolsas periodontais e doença periodontal avançada,
mesmo quando isso não corresponde à verdade. Ou seja, ele considera
que todas as patologias apresentam a mesma severidade, necessitando
tratamentos complexos;
● Exagerar a terapêutica: o profissional propõe a remoção cirúrgica de
terceiros molares (dentes do ciso) como se fossem inclusos, sendo que,
na realidade, estão eruptados totalmente, sem sinais de impactação ou
7
coroa intraóssea. Ou seja, eles tratam da mesma maneira a extração dos
dois sisos mostrados na figura a seguir, em que a dificuldade de
execução entre os dois procedimentos é evidente. Suas extrações devem
ser enquadradas de maneira diferente na tabela odontológica.
Figura 1 – Dois casos diferentes de extração de dentes do siso, que também
devem ser enquadrados de formas distintas
● Exagerar o prognóstico: o exagero é muito comum em ortodontia, em
que se realiza um plano de tratamento com prazo de duração muito maior
do que é realmente necessário para a conclusão do caso. Isso acontece
quando o pagamento do tratamento é realizado sem um limite de sessões
de atendimento.
O inciso IV do art. 11 (CFO, 2012), “IV - deixar de esclarecer
adequadamente os propósitos, riscos, custos e alternativas do tratamento[...]”,
nos remete à outra maneira de agir bastante comum na odontologia, que é a
proposição de tratamento sem o pleno esclarecimento sobre a severidade do
caso. Ao paciente não são explicadas todas as maneiras possíveis de resolver o
problema, custos de cada uma das hipóteses de tratamento e nem o custo-
benefício a médio e longo prazos que cada uma das alternativas lhe trará, para
que ele possa fazer uma escolha de forma livre e esclarecida. O auditor deve
sempre perguntar ao paciente auditado se ele está plenamente ciente de seu
problema e possíveis soluções, sem induzir suas respostas ou mencionar outras
alternativas. De acordo com a resposta, o paciente deverá ser encaminhado
novamente ao dentista assistente com o relatório de auditoria inicial – lacrado e
sigiloso, contendo observações e recomendações –, e deverá ter suas possíveis
dúvidas devidamente esclarecidas.
O inciso V (“[...] executar ou propor tratamento desnecessário ou para o
qual não esteja capacitado [...]”) trata de outro assunto muito mais comum do
que se pensa, que é propor um tratamento desnecessário. Extrações de dente
para a colocação de implantes no local sem que haja justificativa técnica para a
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remoção daquele dente, restaurações em dentes que não apresentam cárie e
substituição de próteses simplesmente porque não existe mais restrição de
prazo intervalar para substituição pelo plano são alguns exemplos dessa prática.
Esse tipode atitude vindo de um profissional não deveria ser apenas
considerado como uma simples infração ética, mas, sim, como crime.
Propor tratamentos sem ter a capacitação necessária e utilizar técnicas e
materiais não aprovados pela comunidade científica, como trata o art. 11, inciso
X ("[...] adotar novas técnicas ou materiais que não tenham efetiva comprovação
científica [...]"), são ações mais difíceis de acontecer na prática rotineira da
auditoria de planos de saúde, salvo em casos de auditorias aleatórias ou
direcionadas por denúncias, em locais nos quais não há auditoria regular. Essa
prática é mais comum em perícias forenses.
Outro inciso que nos chama a atenção no Código de Ética Odontológica
(CFO, 2012) é o IV, art. 13: "Art. 13. Constitui infração ética: IV - ser conivente
em erros técnicos ou infrações éticas, ou com o exercício irregular ou ilegal da
Odontologia [...]".
Nesse caso, existe uma possibilidade que deve ser considerada.
Observar um erro técnico e não o citar em seu relatório é claramente uma
infração ética, pois temos que nos lembrar da razão principal de nosso serviço,
que é a proteção do paciente. Mas e se, por algum motivo, deixarmos de
observar esse erro? Poderemos ser acusados de conivência? Sim! E é
exatamente aí que aumenta a responsabilidade do auditor. É dele a obrigação
de avaliar um caso profundamente, analisar todos os detalhes que possam
contribuir para o insucesso do tratamento realizado ou por realizar. Deixar de
observar ou deixar de relatar acabarão tendo o mesmo peso se o caso for parar
em um tribunal, pois é de responsabilidade do auditor investigar a fundo o caso,
não deixando margem a dúvidas sobre possíveis não conformidades.
O auditor, nesse caso, será responsabilizado, solidariamente à operadora
e ao dentista assistente, pelos prejuízos causados ao paciente, podendo até ser
alvo de uma ação regressiva por parte da operadora, por não ter cumprido o
trabalho para o qual foi contratado. Ao observar uma infração ética, o auditor
deve imediatamente informar a ocorrência ao responsável técnico pelo plano.
"VI – criticar erro técnico-científico de colega ausente, salvo por meio de
representação ao Conselho Regional [...]" (CFO, 2012). Cabe aqui ressaltar que
o auditor não está fazendo críticas sobre o trabalho do colega, e sim relatando e
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fundamentando suas observações em um relatório. Portanto, não há
obrigatoriedade de fazer a representação a todo e qualquer erro técnico
observado. Essa representação será feita somente se não houver consenso
entre auditor e assistente, e se não houver correção do erro técnico apontado
como não conforme.
VII - explorar colega nas relações de emprego ou quando compartilhar
honorários, descumprir ou desrespeitar a legislação pertinente no
tocante às relações de trabalho entre os componentes da equipe de
saúde;
VIII - ceder consultório ou laboratório, sem a observância da legislação
pertinente [...]. (CFO, 2012)
Os incisos VII e VIII são de grande importância para os responsáveis
técnicos por operadoras de saúde e para os auditores responsáveis pelo
credenciamento da rede de prestadores.
Quando se credencia ou contrata uma clínica (pessoa jurídica) para o
atendimento de seus beneficiários, a operadora não pode permitir que esse
atendimento seja realizado por um profissional que não seja sócio, funcionário
ou profissional legalmente contratado por essa empresa. Sabemos que é
prática habitual de donos de grandes clínicas utilizarem-se do trabalho informal
de profissionais autônomos para obter lucro, pagando-lhes porcentagem sobre
os serviços realizados, sem o amparo da legislação trabalhista. Sem uma
vinculação formal, não há comprometimento do profissional assistente com seu
paciente. Constantemente, os pacientes são obrigados a mudar de dentista
porque o anterior desligou-se da clínica, fato que compromete a qualidade dos
serviços, prejudicando a operadora e afetando diretamente o serviço do auditor.
Essa prática é aviltante em qualquer profissão, além de ser crime. E é
exatamente isso que o CFO tenta coibir com esses dois incisos. Mas, então,
porque ainda existe esse tipo de subemprego? Aí entra a valorização que cada
profissional deve dar ao seu trabalho, e a sua categoria. Cabe aos CROs, que
são autarquias federais, a fiscalização dessa prática comum e deletéria à
odontologia.
O art. 20, inciso V, da CFO (2012) ("[...] abusar da confiança do paciente
submetendo-o a tratamento de custo inesperado [...]") leva a um tema que já
comentamos anteriormente: a obrigação do esclarecimento pleno ao paciente
sobre seu tratamento e alternativas. Entretanto, alguns profissionais costumam
realizar planos de tratamentos incompletos, esclarecendo somente os custos da
fase do tratamento a que o paciente será submetido naquela ocasião.
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Considerando que em alguns planos o beneficiário possui uma
coparticipação nos custos do tratamento, que às vezes é bastante significativa,
não é raro o paciente dizer que não pode continuar o tratamento por não ter
disponibilidade financeira para tal, já que os custos totais do trabalho não lhe
foram esclarecidos.
É imprescindível que o profissional, ao propor um tratamento de longo
prazo ao paciente, lhe informe o valor total das despesas que terá,
proporcionando ao paciente a livre decisão de submeter-se ou não ao que está
sendo proposto. Somente após o detalhamento de todo o tratamento, inclusive o
preço final, mesmo que aproximado, o profissional poderá propor sua execução
em fases, a fim de diluir o pagamento em etapas ou parcelas. O que é
eticamente ilegal é apresentar o custo do tratamento completo somente depois
de tê-lo iniciado, pois, às vezes, não é possível voltar atrás.
Outra prática comum é o preenchimento das guias de tratamento
odontológico da operadora sem discriminar os valores dos procedimentos.
Nesse caso, a guia deve ser devolvida ao dentista assistente para o
preenchimento completo.
O art. 20, inciso VII (CFO, 2012), institui que se trata de infração ética
"receber ou cobrar remuneração adicional de paciente atendido em instituição
pública, ou sob convênio ou contrato [...]". Essa é a infração ética com que o
auditor odontológico se depara com mais frequência. É prática comum de
prestadores de serviços de operadoras de saúde a cobrança de valores
adicionais diretamente ao paciente por procedimentos cobertos pelo plano
odontológico.
De tão comum e disseminada, a prática é normalmente conhecida como
“cobrança por fora”, e não é praticada só por dentistas, mas por profissionais de
saúde de todas as categorias, quando credenciados a operadoras de saúde. Os
mesmos pacientes que relatam essas cobranças ao auditor dificilmente fazem
queixa à operadora de saúde, que acaba ficando de mãos atadas, sem ter o que
fazer sobre o caso. E por que essas cobranças são feitas?
Para entendermos um pouco essa situação nefasta, é necessário
estudarmos a reação dos pacientes quando isso ocorre. Seria esperado que
todos ficassem indignados e denunciassem o caso, mas somente uma parcela
muito pequena de pessoas toma esse tipo de atitude.
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A reação mais comum do paciente é adotar uma atitude de “refém”. Ficam
receosos em denunciar o caso e "perderem" o dentista que, muitas vezes, já os
acompanha há anos e com quem têm até laços de amizade. Também há que
não denuncie por, simplesmente, gostar do serviço do profissional. Alguns
profissionais reclamam sistematicamente para o paciente sobre o plano pagar
muito pouco, dizendo que pedirão descredenciamento. O fato é que os pacientes
acabam aceitando pagar o que o profissional pede irregularmente por “medo”.
As desculpas mais utilizadas pelos dentistas são as de que o plano paga
pouco pelo procedimento, ou que o material coberto pelo plano é de “segunda
categoria”, ou que existe material de qualidade superior disponívele que se
utilizar o material coberto pelo plano vai ficar “feio”; ou seja, muitos profissionais
falam que, pelos valores que o plano paga, não dá para fazer um bom serviço.
Nenhuma dessas desculpas encontra fundamentos técnicos; elas
apenas implicam o cometimento de duas infrações éticas. Sim, duas, pois o art.
11 do CFO (2012), que trata do relacionamento com o paciente, em seu inciso II,
diz que consiste em infração ética "[...] aproveitar-se de situações decorrentes
da relação profissional/paciente para obter vantagem física, emocional,
financeira ou política [...]".
E o único motivo para essa cobrança adicional não é o de levar vantagem
financeira sobre o paciente? Ninguém obriga o profissional a ser credenciado a
uma operadora de saúde quando esta não corresponde às suas expectativas.
Se ele não está satisfeito com os valores pagos pelo plano, que peça seu
descredenciamento, mas não submeta o paciente a essa covardia.
Cabe ao auditor fazer a sua parte! No relatório, devemos escrever algo
como: “o paciente relata cobrança adicional por serviços cobertos pelo plano”. O
profissional, então, que se explique com seu paciente e com a operadora.
Se todos os casos fossem denunciados da maneira correta, haveria uma
enxurrada de processos éticos nos CROs e um número muito grande de
descredenciamentos, por justa causa, de profissionais junto às operadoras de
saúde suplementar. A baixa incidência de denúncias e punições leva a um
círculo vicioso e à sensação de impunidade, que acaba promovendo, cada vez
mais, essa prática.
A operadora, por sua vez, não faz o que deveria fazer, ou por
desconhecimento, ou pelo nível de burocracia envolvida na denúncia. A
operadora deve receber formalmente a denúncia e, inicialmente, notificar o
12
profissional, solicitando esclarecimentos. Depois, se comprovado o fato, abrir um
processo ético contra o profissional junto ao CRO. Lá, haverá uma audiência de
conciliação, e, depois de esgotada essa etapa é que será dado início ao
julgamento do processo. Em todas essas etapas há necessidade da presença de
um representante da operadora e do paciente “acusador”, reafirmando sua
denúncia. Com a sentença ética decretada pelo CRO, há ainda uma
possibilidade de recurso ao CFO, onde todo o processo se repetirá até que seja
formalizada a sentença ética definitiva.
Só então a operadora de saúde poderá solicitar, junto ao CRO, a
homologação do descredenciamento do profissional. Você se lembra do art. 3 da
Resolução CFO n. 19, de 25 de junho de 2001, estudada em nossa terceira
aula? "Art. 3º - A decisão de desligamento deverá ser homologada pelo
Conselho Regional de Odontologia, num prazo de 30 dias".
Esse excesso de burocracia só favorece ao infrator. Qualquer
semelhança com o momento que vivemos no Brasil não é mera coincidência.
Não vivemos um momento político no Brasil em que nos revoltamos com a
corrupção em todos os níveis de governo? E qual é a diferença entre a prática
de corrupção na política e essa, praticada por profissionais de saúde?
O art. 21 (CFO, 2012) toca em um assunto bastante controverso, sobre o
qual cabe fazer uma reflexão: "Art. 21. O cirurgião-dentista deve evitar o
aviltamento ou submeter-se a tal situação, inclusive por parte de convênios e
credenciamentos, de valores dos serviços profissionais fixados de forma irrisória
ou inferior aos valores referenciais para procedimentos odontológicos".
São os dentistas que aceitam se credenciar a planos de saúde que
pagam pouco, ou os planos pagam pouco porque os dentistas aceitam?
O certo é que, se nenhum profissional aceitar a tabela proposta pelo
plano de saúde, a operadora terá que a rever e negociar valores, pois ela
depende do profissional para a execução de tratamentos de seus usuários. Sem
o cirurgião-dentista não há plano de saúde odontológico!
Aí começa uma cadeia de circunstâncias que acabam levando dentistas a
aceitar as tabelas impostas. Dentre elas, destacamos o inchaço do mercado de
trabalho provocado pelo excesso de faculdades de odontologia; o alto valor
inicial para a instalação de um consultório odontológico particular; a crise
financeira que o país atravessa e que vem afastando os pacientes dos
13
consultórios; a má distribuição de renda que proporciona tratamento
odontológico particular a somente 10% da população; entre outras.
Outro fator agravante diz respeito à falta de fiscalização por parte dos
CROs quanto à precária relação trabalhista imposta por donos de clínicas aos
dentistas chamados comissionados. Já tratamos desse assunto quando
abordamos os incisos VII e VIII do art. 13 do código (CFO, 2012). É fato que as
operadoras se aproveitam dessa mão de obra farta e barata (decorrente da falta
de aplicação da legislação trabalhista) para propor valores aviltantes por
procedimentos. Mais uma vez, reforçamos que cabe ao cirurgião-dentista a
valorização de seu próprio trabalho e da categoria como um todo.
FINALIZANDO
A ética deveria fazer parte dos currículos escolares desde os primeiros
anos de escola a fim de disseminar o pensamento ético. Os códigos de ética são
instrumentos que determinam o que é ou não permitido, mas não estimulam o
mais importante, que é pensar de maneira ética.
Certa vez, ouvi o relato de um médico, diretor de um grande hospital, que
hospedava em sua casa para as festas de final de ano o seu cunhado, um
cidadão dinamarquês. Durante o jantar de natal, o cunhado pediu licença a todos
e recolheu-se em seu quarto. Preocupado com sua atitude, o médico pediu para
que sua irmã fosse perguntar o motivo desse isolamento. Ela foi até o quarto, e
quando retornou, disse que seu marido não estava passando bem e sentia uma
forte dor no peito. Imediatamente, o médico o chamou e levou-o ao hospital para
um exame mais apurado, onde constatou-se que ele estava sofrendo um
enfarte. Foram tomadas todas as providências necessárias, e ele pode
finalmente retornar ao convívio dos familiares.
Quando o médico perguntou ao cunhado porque não havia mencionado o
mal-estar, simplesmente recolhendo-se ao seu quarto, visto que poderia contar
com a ajuda dele como profissional, ouviu a seguinte resposta: “eu já estava
com essa dor, mais fraca, desde a manhã, e poderia ter falado sobre ela durante
o dia. Não achei justo estragar o jantar da família naquele momento de
confraternização e alegria”. Isso é pensamento ético.
Estamos quase no fim da parte sobre legislação de nossas aulas. Apesar
de não ser muito agradável, é a parte mais importante de nossa atividade.
14
Conhecendo a fundo essa legislação, o auditor pode desempenhar suas funções
com tranquilidade, livre de influências externas.
LEITURA OBRIGATÓRIA
CONSELHO FEDERAL DE ODONTOLOGIA (CFO). Resolução n. 118, de 11 de
maio de 2012. Código de Ética Odontológica. Diário Oficial da União, 14 jun.
2012. Disponível em: <http://www.cropr.org.br/uploads/arquivo/724571448d7a83
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15
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AULA 5
AUDITORIA EM ODONTOLOGIA
Prof. Jacques Ferreira Neto
2
CONVERSA INICIAL
A experiência nos mostra que só nos sentimos seguros quanto a um
assunto se tivermos pleno conhecimento de todos os seus aspectos.
Com a auditoria odontológica não é diferente. O auditor, para desenvolver
seus trabalhos de forma segura e precisa, deve ter conhecimentos técnico, teórico
e prático da odontologia, e conhecer a fundo todo o arcabouço legal que ampara
a atividade, aliado ao conhecimento de técnicas de administração de empresas.
Resumindo: ele deve ser uma mistura de dentista com um pouco de advogado e
outro tanto de administrador.
Podemos dizer que somente essas áreas do conhecimento não fazem de
ninguém um bom auditor, pois o profissional deve ainda ser um pouco psicólogo,
filósofo, matemático, conhecer informática, ter a tranquilidade e a temperança de
um religioso e tudo mais que a vida nos oferecer de conhecimento e sabedoria
com o passar dos anos.
CONTEXTUALIZANDO
Concluiremos nesta aula o conteúdo referente à legislação aplicada a
auditoria odontológica que, apesar de cansativa, é a parte mais importante da
matéria, pois é ela que permite a atuação segura do auditor, fazendo com que ele
não tenha receio de se expor a processos éticos ou legais.
Apresentaremos a Resolução CFO 102/2010, que tem por objetivo corrigir
uma prática comum a algumas operadoras de saúde, que é a exigência
desnecessária de radiografias para comprovar a execução de procedimentos com
o único propósito de economizar na contratação de auditores clínicos.
Analisaremos também a Súmula Normativa ANS 11/2007, criada para
corrigir outra falha comum dentro do sistema de saúde suplementar, que restringia
a liberação de exames complementares e solicitações de internação quando eram
feitas por cirurgiões-dentistas, independentemente de haver indicação técnica
para tal.
Para complementar o conhecimento dos aspectos legais da auditoria,
sugerimos a leitura das demais leis e resoluções citadas mais adiante, pois a
qualquer momento podemos nos deparar com situações que exijam o
conhecimento de alguma delas.
3
Em seguida, começaremos a apresentar os aspectos da prática da
auditoria, mostrando como aplicar todo o conhecimento adquirido até agora.
Para começar, apresentaremos as diversas possibilidades de
empregabilidade na área de auditoria odontológica, tanto no setor público quanto
no setor privado.
TEMA 1 – RESOLUÇÃO CFO 102/2010
A Resolução do Conselho Federal de Odontologia (CFO) n. 102, de 12 de
maio de 2010, trata da proibição do uso indiscriminado de raio X, e foi proposta
exclusivamente para coibir a obrigatoriedade, imposta por alguns planos de saúde
a seus credenciados, de apresentar raios X inicial e final como modo de comprovar
de execução de tratamentos restauradores. Essa prática teria como objetivo evitar
a contratação de profissionais para realizar auditorias clínicas em seus
beneficiários, visando unicamente à economia.
Como sabemos, o raio X ajuda o profissional a avaliar cáries e
restaurações, e a partir de comparação entre as imagens radiográficas iniciais e
finais é possível observar se houve intervenção do dentista naquele elemento.
Mas exigir o raio X somente para verificar se o procedimento foi realmente
realizado é um verdadeiro absurdo se levarmos em consideração o disposto nas
Diretrizes de proteção radiológica em radiodiagnóstico médico e odontológico,
aprovadas e sancionadas pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria de Vigilância
Sanitária por meio da Portaria n. 453, de 1o de junho de 1998 (Brasil, 1998).
Comprovadamente, o raio X é um método diagnóstico eficiente, mas não é
totalmente seguro e inócuo ao paciente. Portanto, seu uso deve ser muito bem
empregado para não infringir o princípio básico da proteção radiológica, que é o
da justificação, que estabelece que “nenhuma prática ou fonte adscrita a uma
prática deve ser autorizada a menos que produza suficiente benefício para o
indivíduo exposto ou para a sociedade, de modo a compensar o detrimento que
possa ser causado” (Brasil, 1998).
Essa resolução causa efeitos diretosao trabalho do auditor odontológico à
medida que os dentistas assistentes, por um erro de entendimento, recusam-se a
apresentar radiografias finais de procedimentos que as exigem como forma de
observar a efetividade e a qualidade do serviço por ele executado. Na prática,
sabemos que não há como avaliar a execução e a qualidade de um tratamento de
canal se não tivermos as imagens inicial e final para comparação. O mesmo ocorre
4
em casos de núcleos intracanal, adaptação de coroas e restaurações proximais,
extrações de dentes inclusos ou não, implantes intraósseos e outros.
Lembramos que o auditor se torna corresponsável pelos serviços por ele
avaliados. Mas como ele poderá avaliar a qualidade e a longevidade de um
procedimento realizado por outro profissional sem a confirmação radiográfica da
qualidade do tratamento executado? Essa discussão já foi até alvo de debate em
congresso, onde ficou claro para todos o seguinte:
cabe ao auditor odontológico avaliar a justificação da solicitação das
radiografias iniciais e finais caso as considere imprescindíveis para
constatar a qualidade do serviço proposto, fato que traz benefício ao
paciente;
somente o paciente pode se negar a realizar o raio X, desde que seja
devidamente avisado das implicações de sua recusa. Cabe ao auditor
informar sobre essa negativa em seu relatório a fim de se eximir de
responsabilidade sobre a avaliação desse procedimento;
se o dentista assistente se recusar a executar o raio X solicitado pelo
auditor, baseando sua negativa no disposto na Resolução CFO 102 (CFO,
2010), este também pode se recusar a atestar a execução do
procedimento, cabendo glosa por parte da operadora de saúde;
é possível ao auditor, desde que devidamente registrado em seu relatório
de auditoria, comprovar a execução do procedimento, mas não se
responsabilizar por sua qualidade diante da ausência da radiografia
comprobatória;
Segue a íntegra da Resolução CFO 102 (CFO, 2010):
Proíbe o uso indiscriminado de Raio X.
O Presidente do Conselho Federal de Odontologia, no exercício de suas
atribuições regimentais, cumprindo deliberação do Plenário, em reunião
realizada no dia 04 de fevereiro de 2010, e
CONSIDERANDO as prerrogativas do cirurgião-dentista previstas na Lei
Federal nº 5081/66 que regula o exercício da Odontologia;
CONSIDERANDO o disposto na Resolução CFO nº 020/2001 que
normaliza perícias e auditorias odontológicas em sede administrativa;
CONSIDERANDO os termos da Lei Federal nº 9656/98 que dispõe sobre
os planos e seguros privados de assistência à saúde; CONSIDERANDO
o previsto no Código de Ética Odontológica, Capítulo II, artigo 5º, incisos
V e IX;
CONSIDERANDO o disposto no artigo 7º, Capítulo V, do Código de
Ética Odontológica;
CONSIDERANDO os termos da Portaria ANVISA 453/98, Capítulo II,
itens 2.2, 2.3 e 2.5;
5
CONSIDERANDO o inciso I, do artigo 4º, Capítulo II – Da Política
Nacional de Relações de Consumo, do Código de Defesa do
Consumidor (Lei Federal nº 8.078/1990);
CONSIDERANDO o inciso I, artigo 6º, Capítulo III – Dos Direitos Básicos
do Consumidor, do Código de Defesa do Consumidor (Lei Federal nº
8.078/1990);
CONSIDERANDO o artigo 8º, da Seção I – Da Proteção à Saúde e
Segurança, do Capítulo IV – Da qualidade de Produtos e Serviços, da
Prevenção e da Reparação de Danos, do Código de Defesa do
Consumidor (Lei Federal nº 8.078/1990); e,
CONSIDERANDO a Resolução CONSU 08, de 04.11.1998,
RESOLVE:
Art. 1º. Fica vedado o uso indiscriminado de Raio X com finalidade,
exclusivamente, administrativa em substituição à perícia/auditoria
e aos serviços odontológicos.
Art. 2º. Esta Resolução entrará em vigor na data de sua publicação na
Imprensa Oficial, revogadas as disposições em contrário (CFO, 2010;
grifo nosso).
TEMA 2 – SÚMULA NORMATIVA ANS 11/2007
A aprovação da Súmula Normativa ANS n. 11, de 20 de agosto de 2007
(Brasil, 2007), foi necessária diante da negativa, por parte de algumas operadoras
de saúde, de liberar exames laboratoriais complementares solicitados por
cirurgiões-dentistas e internamentos solicitados por cirurgiões bucomaxilofaciais,
uma especialidade da odontologia. Ela, nada mais é, do que a compilação da
Resolução CFO n. 29, de 21 de agosto de 2002 (Brasil, 2002), e do documento
conjunto CFO/Colégio Brasileiro de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial
que regulamenta o direito dos usuários de planos de saúde a esses atos
odontológicos perfeitamente legais.
Destacaremos a seguir as partes mais importantes da súmula. Pedimos
que você preste muita atenção nas considerações, que foram determinantes para
a criação dessa regulamentação:
[...]
Considerando a necessidade de fixar entendimento devido a
questionamentos e demandas, provenientes dos diversos atores do
setor (operadoras, prestadores e beneficiários), motivados pela negativa
de cobertura aos exames laboratoriais/complementares e internações
hospitalares requisitadas por cirurgiões-dentistas;
Considerando a necessidade de regular, junto às operadoras de planos
privados de assistência à saúde, a solicitação de internações e exames
complementares nas situações clínicas e cirúrgicas de interesse comum
à Medicina e à Odontologia;
Considerando que os exames laboratoriais/complementares têm a
finalidade de complementar o diagnóstico do paciente, auxiliando o
profissional de saúde no planejamento das ações necessárias ao
tratamento, sendo de uso comum às categorias profissionais habilitadas
para solicitá-los, cuja habilitação é de competência legal dos conselhos
profissionais;
Considerando que de acordo com o disposto no artigo 1° da Resolução
do Conselho Federal de Odontologia - CFO n° 29 de 2002, alterada pela
6
Resolução CFO n° 43 de 2003, a solicitação de exames complementares
por parte do Cirurgião-Dentista não pode sofrer nenhuma objeção por
parte das operadoras de planos de saúde;
Considerando que de acordo com a Portaria do Ministério do Trabalho e
Emprego n° 397 de 2002, que estabelece a Classificação Brasileira de
Ocupações, compete ao Cirurgião-Dentista solicitar exames
complementares, entre eles: radiografias, ressonância magnética,
solicitação de risco cirúrgico e exames de laboratório em geral;
Considerando que de acordo com o disposto na Declaração Conjunta
CFM/CFO de 03 de março de 1999, a cirurgia Buco-Maxilo-Facial é uma
especialidade odontológica reconhecida pelos Conselhos Federais de
Medicina e de Odontologia, que declararam existir áreas de interesse
comum entre as duas atividades profissionais;
Considerando que de acordo com o disposto na Resolução CFM n° 1536
de 1998, as relações do médico com os demais profissionais em
exercício na área de saúde devem basear-se no respeito mútuo, na
liberdade e independência profissional de cada um, buscando sempre o
interesse e o bem estar do paciente;
Considerando que de acordo com o inciso I do artigo 5° da Resolução
CONSU nº 10 de 1998, no Plano Hospitalar é obrigatória a cobertura de
cirurgias odontológicas buco-maxilo-faciais que necessitem de ambiente
hospitalar;
Considerando que de acordo com o parágrafo único do artigo 7° da
Resolução CONSU nº 10 de 1998, os procedimentos buco-maxilares e
aqueles passíveis de realização em consultório, que por imperativo
clínico necessitem de internação hospitalar, estão cobertos nos planos
hospitalares e referência;
[...]
Considerando que de acordo com o disposto no inciso VI do artigo 2° da
Resolução CONSU nº 8, de 1998, para a adoção de práticas referentes
à regulação de demanda da utilização dos serviços de saúde, está
vedado negar autorização para realização de procedimento,
exclusivamente, em razão do profissional solicitante não pertencer à
rede própria, credenciada ou referenciada da operadora;
Considerando que a Resolução Normativa – RN nº 82, de 29 de
setembro de 2004, estabelece o Rol de Procedimentos como a cobertura
mínima obrigatória a ser garantidapelos planos de saúde
comercializados a partir de 02/01/1999, inclui os procedimentos
considerados indispensáveis ao diagnóstico e tratamento de todas as
doenças que compõem a Classificação Internacional de Doenças – CID
– da Organização Mundial de Saúde;
RESOLVE adotar o seguinte entendimento:
1. A solicitação dos exames laboratoriais/complementares previstos no
art. 12, inciso I, alínea b, da Lei n° 9.656, de 1998, e dos procedimentos
abrangidos pelas internações hospitalares, de natureza buco-maxilo-
facial ou por imperativo clínico, dispostos no art. 12, inciso II, da mesma
lei, e no art. 7º, parágrafo único da Resolução CONSU nº 10, de 1998,
devem ser cobertos pelas operadoras de planos privados de assistência
à saúde, mesmo quando promovidos pelo cirurgião-dentista assistente,
habilitado pelos respectivos conselhos de classe, desde que restritos à
finalidade de natureza odontológica;
2. A solicitação das internações hospitalares e dos exames
laboratoriais/complementares, requisitados pelo cirurgião-dentista,
devidamente registrado nos respectivos conselhos de classe, devem ser
cobertos pelas operadoras, sendo vedado negar autorização para
realização de procedimento, exclusivamente, em razão do profissional
solicitante não pertencer à rede própria, credenciada ou referenciada da
operadora;
3. A solicitação de internação, com base no art. 12, inciso II da Lei n°
9.656, de 1998, decorrente de situações clínicas e cirúrgicas de
interesse comum à medicina e à odontologia deve ser autorizada mesmo
quando solicitada pelo cirurgião-dentista, desde que a equipe cirúrgica
seja chefiada por médico.
7
4. A cobertura dos procedimentos de natureza odontológica se dará
respeitando o rol de procedimentos da ANS, contemplando todas as
doenças que compõem a Classificação Internacional de Doenças – CID
– da Organização Mundial de Saúde e, também, a segmentação
contratada entre as partes.
Saiba mais
Leia o texto integral da Resolução CFO 100/2010 sobre as normas para a
prática da cirurgia e traumatologia bucomaxilofaciais por cirurgiões-dentistas.
Disponível em: <http://cfo.org.br/servicos-e-consultas/ato-normativo/?id=1420>.
TEMA 3 – RESOLUÇÃO CONSU 08/1998
O Conselho de Saúde Suplementar (CONSU) é um órgão colegiado que foi
criado para definir, regulamentar e controlar as ações relacionadas com a
prestação de serviços de saúde suplementar em seus aspectos médico, sanitário
e epidemiológico. A Resolução CONSU n. 8, de 3 de novembro de 1998,
estabelece parâmetros aos mecanismos de regulação da demanda de utilização
de serviços de saúde por parte dos planos privados de saúde suplementar.
Essa normativa estabelece, em suma, o que as operadoras podem ou não
fazer para controlar a utilização dos serviços.
Ressaltamos aqui os pontos mais importantes da resolução, e que devem
ser do conhecimento de auditores médicos e odontológicos, responsáveis
técnicos por planos de saúde e gestores em saúde suplementar de um modo
geral.
Art. 2° Para adoção de práticas referentes à regulação de demanda da
utilização dos serviços de saúde, estão vedados:
I - qualquer atividade ou prática que infrinja o Código de Ética Médica ou
o de Odontologia;
II - qualquer atividade ou prática que caracterize conflito com as
disposições legais em vigor;
III – limitar a assistência decorrente da adoção de valores máximos ou
teto de remuneração, no caso de cobertura a patologias ou eventos
assistenciais, excetuando-se as previstas nos contratos com cláusula na
modalidade de reembolso;
IV - estabelecer mecanismos de regulação diferenciados, por usuários,
faixas etárias, graus de parentesco ou outras estratificações dentro de
um mesmo plano;
V - utilizar mecanismos de regulação, tais como autorizações prévias,
que impeçam ou dificultem o atendimento em situações caracterizadas
como de urgência ou emergência;
VI - negar autorização para realização do procedimento exclusivamente
em razão do profissional solicitante não pertencer à rede própria ou
credenciada da operadora;
VII - estabelecer coparticipação ou franquia que caracterize
financiamento integral do procedimento por parte do usuário, ou fator
restritor severo ao acesso aos serviços;
http://www.datasus.gov.br/cid10/v2008/cid10.htm
http://www.datasus.gov.br/cid10/v2008/cid10.htm
http://cfo.org.br/servicos-e-consultas/ato-normativo/?id=1420
8
VIII - estabelecer em casos de internação, fator moderador em forma de
percentual por evento, com exceção das definições específicas em
saúde mental.
IX – Reembolsar ao consumidor as despesas médicas provenientes do
sistema de livre escolha, com valor inferior ao praticado diretamente na
rede credenciada ou referenciada.
O art. 2 nos mostra o que não é permitido. Gostaríamos de destacar o inciso
IV, que proíbe a adoção de parâmetros de regulação diferentes dentro de um
mesmo plano, ou seja: não pode haver diferença na cobertura de eventos entre o
dono do plano e seus dependentes ou em função da idade, quando eles
participarem do mesmo plano.
Nos casos de urgências e emergências, não pode haver exigência de
autorização prévia, de acordo com o inciso V.
Conforme o inciso VI, a solicitação de exames e procedimentos feita por
profissional que não pertença à rede credenciada da operadora também deve ser
atendida. Também, as franquias e as coparticipações não podem ser estipuladas
de forma a ser caracterizadas como financiamento integral por parte do paciente.
O conhecimento do teor dessa resolução é importante, pois obriga o auditor
a conhecer os termos de seu contrato de prestação de serviços com a operadora,
assim como aqueles do contrato entre a operadora e o usuário, para que não haja
o descumprimento dos incisos I e II, já que essa resolução tem força de lei.
TEMA 4 – LEGISLAÇÃO COMPLEMENTAR APLICADA A AUDITORIA
ODONTOLÓGICA
Além da legislação específica que vimos até agora, existem outras leis
importantes que dão suporte à auditoria odontológica. Nesta aula, iremos apenas
citá-las, mas aconselhamos a leitura de seus textos integrais àqueles que desejam
ser auditores odontológicos, pois é a correlação entre todas essas leis e normas
que possibilita a compreensão plena da complexidade de nossa área de atuação.
Citamos:
Lei n. 5.081, de 24 de agosto de 1966 (Brasil, 1966). Regulamenta o
exercício da odontologia;
Lei n. 6.839, de 30 de outubro de 1980. Estabelece o registro de empresas
em entidades de fiscalização de seus respectivos conselhos;
Lei n. 9.656, de 3 de junho de 1998. Regulamenta os planos e seguros
privados de saúde;
9
Lei n. 8.080, de 19 de setembro de 1990. Lei Orgânica da Saúde;
Lei n. 9. 661, de 28 de janeiro de 2000. Cria a Agência Nacional de Saúde
Suplementar (ANS);
Resolução Normativa (RN) ANS n. 387, de 28 de outubro de 2015. Atualiza
o rol de procedimentos e eventos em saúde, que constitui a referência
básica para a cobertura assistencial mínima nos planos privados de
assistência à saúde e seus anexos.
Assim, chegamos ao fim da parte mais importante ao exercício da auditoria
odontológica, que é o conhecimento da legislação a ela aplicada. O não
cumprimento de qualquer uma dessas leis e normas certamente causará
problemas ao auditor.
Vamos agora a uma parte mais agradável da matéria: a prática da auditoria!
Mas, antes, lembre-se: quando estudamos legislação, é importante levarmos em
consideração que as leis e normas e os regulamentos citados até agora referem-
se ao que estava em vigor no momento de sua publicação. Leis, normas e
regulamentos mudam, são revogados ou substituídos por outros mais atuais ao
longo do tempo e, portanto, devem ser observadas todas as atualizações
realizadas posteriormente.
TEMA 5 – CAMPO DE TRABALHO DO AUDITOR ODONTOLÓGICO
5.1 Setor público
Existe campo de trabalho para dentistas auditores nos serviços públicos
federal, estadual e municipal.
Em nível federal,existe o Departamento Nacional de Auditoria do Sistema
Único de Saúde (SUS) (DENASUS), órgão do Sistema Nacional de Auditoria
(SNA), que é responsável por toda a auditoria do SUS.
O DENASUS executa auditorias tanto das faturas hospitalares quanto
ambulatoriais, e dentre as faturas ambulatoriais está a produção de ações em
odontologia nas milhares de Unidades de Saúde espalhadas por todo o país.
Existe uma publicação específica que oferece orientações técnicas sobre
auditoria em odontologia (Brasil, 2005) e que está disponível no site do SNA.
Além das faturas ambulatoriais, as faturas de cirurgia bucomaxilofacial
também necessitam ser avaliadas por um cirurgião-dentista quanto a órteses,
próteses e materiais especiais (OPME) e procedimentos cobrados.
10
Em nível estadual e municipal, também existem serviços de auditoria,
dependendo do tipo de gestão do SUS em cada município. Os municípios que
possuem gestão plena do SUS, ou seja, que são responsáveis por programação
físico-orçamentária, processamento e envio de faturas de procedimentos de
saúde, executados no município, normalmente possuem serviços próprios de
auditoria (ou pelo menos deveriam possuir).
O DENASUS apresenta o seguinte organograma:
Figura 1 – Organograma do DENASUS
Fonte: adaptado de SNA (s/d). Disponível em: <http://sna.saude.gov.br/organograma.cfm>.
Acesso em: 18 maio 2018.
5.2. Setor privado
Também há campo de trabalho para o auditor no setor privado, sendo essa
a área com o maior número oportunidades em auditoria odontológica. Há até
mesmo espaço para empreendedorismo, com a criação de empresas de
consultoria. Com o aumento da participação da odontologia de convênios em
consultórios odontológicos, criou-se a necessidade de realizar auditoria nos
http://sna.saude.gov.br/organograma.cfm
11
tratamentos realizados utilizando os mais diversos tipos de planos de saúde
odontológicos existentes no mercado.
Dentre os tipos de operadoras de saúde em que há espaço para o auditor
odontológico desenvolver seus trabalhos, destacamos as empresas de
odontologia de grupo, as seguradoras, as cooperativas e as autogestões.
A situação mais comum é aquela em que a operadora contrata os serviços
do auditor odontológico como profissional autônomo (pessoa física ou jurídica)
para que realize as auditorias iniciais, intermediárias e finais em seu próprio
consultório, sendo normalmente o sistema de remuneração baseado em um valor
fixo por auditoria realizada.
Há também auditorias para seguros odontológicos, em que são proibidos
os pagamentos dos honorários do auditor com base nas glosas por ele indicadas.
Empresas de seguro também realizam auditorias em seus beneficiários que
porventura tenham sofrido danos odontológicos, em sinistros a serem ressarcidos
pela seguradora. Nesses casos, pode haver até necessidade de deslocamento do
auditor até o lugar em que houve o sinistro, ou um hospital. Se o beneficiário tiver
condições de locomoção, a auditoria poderá ser realizada no consultório do
auditor.
Falamos em empresas de consultoria porque acaba sendo um caminho
natural para o auditor que foca os serviços nessa área aprofundar seus
conhecimentos em administração de planos de saúde, passando a dar apoio à
gestão de operadoras para as quais presta serviço. Você se lembra do elo de
ligação entre o plano e a operadora? Nem todas as operadoras possuem
cirurgiões-dentistas em seus quadros societários ou de funcionários, o que abre
campo para um maior envolvimento do auditor para a solução de questões
técnicas odontológicas que se apresentem no dia a dia.
Dentro das possibilidades na iniciativa privada, as ações mais comuns que
um auditor odontológico pode desenvolver, dependendo de seu perfil, são:
● auditorias clínicas: podem ser realizadas em consultórios próprios ou da
empresa contratante. O auditor avaliará os tratamentos clínicos dos
usuários do plano de saúde e suas conformidades técnica e administrativa
(regras do plano e legislação vigente);
● auditorias técnicas e eletrônicas: realizadas por meio de imagens
enviadas pelos dentistas assistentes ou por meio de informações inseridas
nos sistemas de informação da operadora. São feitas na sede da operadora
12
ou fora dela, desde que haja meios de comunicação e transmissão de
dados ágeis, ou a possibilidade de acesso remoto ao sistema da empresa;
● credenciamento de profissionais e clínicas: somente um cirurgião-
dentista tem condições de avaliar se os currículos odontológicos são
adequados às necessidades da operadora. Também é esse profissional
com capacidade para avaliar a documentação apresentada para o
credenciamento (pessoas físicas ou jurídicas) o responsável por realizar
visitas técnicas para avaliação de instalações físicas dos consultórios;
● descredenciamento de profissionais e clínicas: o auditor, com o
conhecimento que possui de toda a legislação, poderá orientar de forma
segura a empresa e seu responsável técnico sobre o passo a passo dos
trâmites obrigatórios, prévios ao descredenciamento (ver Resolução CFO
n. 19, de 25 de junho de 2001 (CFO, 2001a).
FINALIZANDO
Nesta aula, pudemos passar da teoria à prática da auditoria, mas sem
deixar de reforçar a importância que o conhecimento da teoria e de toda a
legislação abordada representam no dia a dia do auditor odontológico. Quem se
dedica ao trabalho de auditoria odontológica enfrenta alguns desafios diariamente.
O primeiro é manter a serenidade e a lucidez ao se deparar com não
conformidades, a fim de identificar sua causa e suas consequências, além de
tentar descobrir como o problema pode ser resolvido sem fixar a ideia em procurar
culpados, que é a tendência natural e característica do ser humano.
O segundo é como relatar o problema de forma técnica e objetiva sem
infringir nenhuma regra legal ou ética. Aí é que entra o conhecimento aprofundado
de tudo o que vimos até agora em nossa disciplina.
O terceiro, e não menos importante, é planejar uma estratégia para que o
paciente tenha seu problema resolvido (quando o problema for técnico), sem que
fique sabendo por nós que ele tem um problema. Entram aí novamente as
características humanas, só que aliadas à técnica e à metodologia do trabalho de
auditoria.
O quarto desafio é ir para casa após um dia cansativo de trabalho buscando
imperfeições em coisas mínimas e não levar junto com você nem os problemas
encontrados durante o trabalho nem a tendência em continuar procurando
13
imperfeições quando for tratar de assuntos relacionados à família, pois isso seria
um desastre total.
Desafios vencidos, estamos prontos a um novo dia de trabalho.
LEITURA OBRIGATÓRIA
BRASIL. Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Resolução de Diretoria
Colegiada (RDC) n. 39, de 27 de outubro de 2000. Diário Oficial da União,
Brasília, DF, 27 out. 2000. Disponível em:
<http://www.ans.gov.br/component/legislacao/?view=legislacao&task=TextoLei&f
ormat=raw&id=Mzgw>. Acesso em: 18 maio 2018.
_____. Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Resolução Normativa
(RN) n. 387, de 28 de outubro de 2015. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 4
dez. 2015. Disponível em:
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ormat=raw&id=MzExMA==>. Acesso em: 18 maio 2018.
_____. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).
Portaria n. 453, de 1o de junho de 1998. Diário Oficial da União, 2 jun. 1998.
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Acesso em: 14 maio 2018.
CONSELHO DE SAÚDE SUPLEMENTAR (CONSU). Resolução n. 8, de 3 de
novembro de 1998. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 4 nov. 1998. Disponível
em:
<http://www.ans.gov.br/component/legislacao/?view=legislacao&task=TextoLei&f
ormat=raw&id=MzA3>. Acesso em: 18 maio 2018.
14
REFERÊNCIAS
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(RN) n. 387, de 28 de outubro de 2015. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 4
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Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 31 dez. 2018. Disponível em:
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Legislativo, Brasília, DF, 26 ago. 1966. Disponível em:
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_____. Lei n. 8.080, de 19 de setembro de 1990. Lei Orgânica da Saúde. Diário
Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 20 set. 1990. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8080.htm>. Acesso em: 18 maio 2018.
_____. Lei n. 9.656, de 3 de junho de 1998. Diário Oficial da União, Poder
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_____. Resolução n. 20, de 16 de agosto de 2001b. Diário Oficial da União, 27
set. 2001b. Disponível em:
<http://www.crosp.org.br/_fckeditor/file/Guia/RESOLU%C3%87%C3%83O%20C
FO%2020-01.pdf>. Acesso em: 14 maio 2018.
_____. Resolução n. 29, de 21 de agosto de 2002. Diário Oficial da União,
Brasília, DF, 26 ago. 2002. Disponível em:
<http://www.normasbrasil.com.br/norma/resolucao-29-2002_98078.html>.
Acesso em: 18 maio 2018.
_____. Resolução n. 100, de 18 de março de 2010. Diário Oficial da União,
Brasília, DF, 30 mar. 2010. Disponível em:
<http://www.crosp.org.br/uploads/paginas/332908a12e5f1cca55dc48230fd75e55
.pdf>. Acesso em: 18 maio 2018.
16
_____. Resolução n. 102, de 12 de maio de 2010. Disponível em:
<http://www.crosp.org.br/_fckeditor/file/Guia/RESOLU%C3%87%C3%83O%20C
FO%20102-10.pdf>. Acesso em: 14 maio de 2018.
_____. Resolução n. 118, de 11 de maio de 2012. Código de Ética Odontológica.
Diário Oficial da União, 14 jun. 2012. Disponível em:
<http://www.cropr.org.br/uploads/arquivo/724571448d7a83c915ebc18e218042a3
.pdf>. Acesso em: 14 maio 2018.
CONSELHO DE SAÚDE SUPLEMENTAR (CONSU). Resolução n. 8, de 3 de
novembro de 1998. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 4 nov. 1998. Disponível
em:
<http://www.ans.gov.br/component/legislacao/?view=legislacao&task=TextoLei&f
ormat=raw&id=MzA3>. Acesso em: 18 maio 2018.
AULA 6
AUDITORIA EM ODONTOLOGIA
Prof. Jacques Ferreira Neto
2
CONVERSA INICIAL
Para finalizar nossa matéria, nesta aula apresentaremos a você as
situações com que nos deparamos diariamente, algumas, pitorescas e
engraçadas; outras, graves a ponto de nos imprimirem profunda desilusão em
saber aquilo que o ser humano é capaz de fazer para atingir seus objetivos.
Em tempos de Operação Lava Jato, devemos refletir sobre o que é todo
esse processo: uma profunda auditoria em todas as ações realizadas por pessoas
inescrupulosas. Isso só nos dá mais força para desenvolvermos nosso trabalho
de maneira digna e ética.
CONTEXTUALIZANDO
A prática da auditoria odontológica nos impõe rotinas e obrigações
diferentes de tudo o que aprendemos na faculdade de odontologia.
No dia a dia, nos deparamos com questões burocráticas e rotineiras para
as quais os profissionais de saúde não foram preparados, mas que são
imprescindíveis para a validação de todos os processos dentro de uma empresa.
Saber lidar com elas é o que faz a diferença entre um dentista assistente e um
auditor odontológico.
O auditor odontológico deve ter a capacidade de entender todo o processo:
a formatação do sistema ou plano de saúde, a contratação de recursos humanos
– tanto para administração quanto para prestação de serviços –, o lado do
consumidor dos serviços, o sistema de pagamento, todas as formas de regulação
do sistema com suas alternativas e possibilidades, o funcionamento da máquina
administrativa e dos sistemas de informação, faturamento e pagamento. Além
disso, ele deve ter todo o conhecimento técnico que a odontologia moderna nos
oferece.
Parece difícil, mas com o passar dos anos, tudo acaba ficando mecânico!
TEMA 1 – ROTINAS ADMINISTRATIVAS
Não é uma situação comum aos cirurgiões-dentistas seguir rotinas
administrativas em seus consultórios ou clínicas. As faculdades de odontologia,
de uma forma geral, não preparam os profissionais para lidar com a administração
de seus consultórios ou clínicas, quanto mais com empresas de terceiros. O fato
é que um consultório odontológico, por mais simples que seja, tem a necessidade
3
de ser administrado como uma empresa que tem no lucro o sustento de sua
atividade, de seu proprietário e de seus colaboradores. E para que possa
funcionar, deve respeitar exigências administrativas e legais que não podem ser
deixadas de lado, sob o risco de não obter sucesso.
Para o auditor odontológico, as rotinas administrativas exigidas de forma
mais complexa e permanente são:
● preenchimento de guias e formulários;
● elaboração de relatórios técnicos e gerenciais;
● elaboração e avaliação de planilhas;
● armazenamento e gestão de documentos;
● avaliação de documentação para cadastramento de empresas e
profissionais;
● acompanhamento da situação cadastral de empresas e profissionais;
● acompanhamento administrativo-financeiro do plano de saúde/operadora;
● operação de sistemas de informação.
Portanto, o auditor deve estar preparado para entrar em um campo para o
qual não foi preparado durante sua formação profissional. Por isso é necessário
que ele se atualize constantemente, fazendo cursos da área de administração e
gestão de unidades desaúde. Some-se a isso, a leitura e o acompanhamento
constante da legislação aplicada ao setor, que por reger uma área de
conhecimento tão "jovem" está sempre mudando e sendo aperfeiçoada.
TEMA 2 – DOCUMENTOS, IMPRESSOS EXPLICATIVOS E TABELAS DO PLANO
DE SAÚDE
Cada plano de saúde é diferente do outro. Inclusive dentro da mesma
operadora existem planos diferentes, com coberturas e regras diferentes. Por isso
é importantíssimo que o auditor conheça muito bem o funcionamento de cada
plano que auditará. Conhecer os direitos e os deveres de cada uma das partes
envolvidas o ajudará a tomar as decisões corretas na hora de escrever um
relatório.
Os documentos que devem ser de pleno conhecimento do auditor são:
● manual de orientações;
● regulamento do plano;
● cadastro de serviços complementares;
4
● relação de prestadores;
● contratos de prestação de serviço (o seu próprio, além daqueles do
assistente e do usuário);
● tabela de honorários e procedimentos cobertos por cada plano.
O auditor odontológico, muitas vezes, é o responsável pela autorização do
início do tratamento (que é dada com base na auditoria inicial) proposto pelo
dentista assistente, e deve estar ciente de que uma negativa de cobertura
incorreta pode custar muito caro à operadora. As multas aplicadas pela Agência
Nacional de Saúde Suplementar (ANS) são altíssimas e, portanto, todo cuidado é
pouco nesses casos. Foi por isso que demos bastante ênfase à legislação
aplicada à auditoria odontológica em nossas aulas anteriores, para que não se
alegue desconhecimento caso ocorra uma falha de nossa parte (sim, também
estamos sujeitos a falhas!).
Saiba mais
Você não pode deixar de ler o Guia prático da contratualização elaborado
pela ANS. Disponível em:
<http://www.ans.gov.br/images/stories/Materiais_para_pesquisa/Materiais_por_a
ssunto/21052013guia_pratico_contratualizacao.pdf>.
A ANS também estabelece um rol mínimo de procedimentos com cobertura
obrigatória que todos os planos de saúde – médicos e/ou odontológicos – são
obrigados a oferecer a seus beneficiários, dependendo de sua segmentação no
mercado de saúde suplementar. Isso não quer dizer que os planos devam oferecer
somente esses procedimentos, mas que eles são o mínimo que se deve oferecer.
É comum que os planos ofereçam procedimentos extrarrol.
Saiba mais
Você sabia que o rol mínimo é atualizado periodicamente, por meio de
consultas públicas? Ele pode ser encontrado no site da ANS. Disponível em:
<http://www.ans.gov.br/planos-de-saude-e-operadoras/espaco-do-consumidor/o-
que-o-seu-plano-de-saude-deve-cobrir>.
Existe um padrão de nomenclatura para códigos e procedimentos
estabelecido pela Terminologia Unificada em Saúde Suplementar (TUSS), mas as
operadoras podem submeter à apreciação de um comitê específico da ANS, o
Comitê de Padronização das Informações em Saúde Suplementar (COPISS), a
http://www.ans.gov.br/images/stories/Materiais_para_pesquisa/Materiais_por_assunto/21052013guia_pratico_contratualizacao.pdf
http://www.ans.gov.br/images/stories/Materiais_para_pesquisa/Materiais_por_assunto/21052013guia_pratico_contratualizacao.pdf
http://www.ans.gov.br/planos-de-saude-e-operadoras/espaco-do-consumidor/o-que-o-seu-plano-de-saude-deve-cobrir
http://www.ans.gov.br/planos-de-saude-e-operadoras/espaco-do-consumidor/o-que-o-seu-plano-de-saude-deve-cobrir
5
inclusão de procedimentos não constantes da tabela da TUSS. No site da ANS
você pode encontrar os padrões para essas inclusões.
Quanto às tabelas de procedimentos odontológicos, é importante dizermos
que, quanto mais a tabela for regulamentada, isto é, quanto mais instruções
específicas ela possuir para a utilização de cada procedimento em que possa
haver dúvida, além de instruções gerais para cada especialidade odontológica,
mais tranquila será a atuação do auditor. Por isso, recomendamos que o auditor
participe dessa regulamentação de forma proativa. A cada dificuldade de
entendimento, por parte da rede credenciada, da utilização de algum
procedimento da tabela de cobertura, seja você, o auditor, o instrumento de auxílio
à gestão do plano, sugerindo a correta regulamentação do procedimento; isso
certamente facilitará muito o seu trabalho.
2.1 Prontuários e guias de tratamento odontológico
Muitas vezes, o dentista faz confusão entre esses dois documentos. Cada
um deles tem uma função específica, e um não exclui a necessidade do outro.
O prontuário odontológico é um documento de preenchimento obrigatório
pelo cirurgião-dentista, conforme determina o Código de Ética Odontológica (CFO,
2012) em seu art. 9º, inciso X: "Art. 9°. Constituem deveres fundamentais dos
inscritos e sua violação caracteriza infração ética: [...] X - elaborar e manter
atualizados os prontuários na forma das normas em vigor, incluindo os prontuários
digitais [...]".
E, no art. 17 do mesmo código de ética:
Art. 17. É obrigatória a elaboração e a manutenção de forma legível e
atualizada de prontuário e a sua conservação em arquivo próprio seja de
forma física ou digital.
Parágrafo Único. Os profissionais da Odontologia deverão manter no
prontuário os dados clínicos necessários para a boa condução do caso,
sendo preenchido, em cada avaliação, em ordem cronológica com data,
hora, nome, assinatura e número de registro do cirurgião-dentista no
Conselho Regional de Odontologia.
De acordo Jussara M. L. Meirelles (in Giostri, 2009, p. 181),
[...] além de constituir dever do odontólogo, o prontuário é de grande
valia na instrução de processos movidos contra o profissional. Mostra-se
indiscutível a importância de tais registros, por constituírem prova
documental diante de pacientes insatisfeitos, ora pelo procedimento em
si, ora pelo resultado.
Saiba mais
6
Apesar de um pouco desatualizado devido a alterações feitas na legislação
vigente após a data de sua publicação, sugerimos a você que leia o relatório
solicitado pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO) a uma comissão de
profissionais sobre o prontuário odontológico (Almeida et al., 2004), que continua
sendo o principal orientador ao correto preenchimento desse importante
documento. Disponível em: <http://www.faculdadepaulopicanco.edu.br/wp-
content/uploads/2017/03/modelo_prontuario_odontologico_cfo-1.pdf>.
A ANS estabeleceu um sistema conhecido como Troca de Informações
na Saúde Suplementar (TISS), conforme a Resolução Normativa (RN) ANS n.
305, de 9 de outubro de 2012 (Brasil, 2012), para garantir a interoperabilidade
entre os sistemas utilizados por ela e pelo Ministério da Saúde. A TISS tem a
finalidade de:
Art. 3o [...]
I - padronizar as ações administrativas de verificação, solicitação,
autorização, cobrança, demonstrativos de pagamento e recursos de
glosas;
II - subsidiar as ações da ANS de avaliação e acompanhamento
econômico, financeiro e assistencial das operadoras de planos privados
de assistência à saúde, e
III - compor o registro eletrônico dos dados de atenção à saúde dos
beneficiários de planos privados de assistência à saúde.
Fazem parte da TISS a tabela de Terminologia Unificada da Saúde
Suplementar (TUSS), com a codificação de procedimentos e eventos em saúde;
um conjunto de guias padronizado para a troca de informações físicas (em papel)
para segmentos diferentes de serviços; e um padrão de linguagem digital para
troca de dados Extensible Markup Language (XML), que garante o sigilo e a
confidencialidade das informações em saúde.
A guia de tratamento odontológico (GTO) é um dos documentos
administrativos da TISS, que serve como meio de comunicação oficial entre a
operadora de saúde e os dentistas (auditor e assistente), e tem por finalidade
apresentar, para cobrança junto à operadora, o demonstrativo dos tratamentos
administrados ao paciente.
O preenchimento da GTO não exime o cirurgião-dentista assistente da
obrigatoriedade de preenchimento do prontuário odontológico.Ao final do
tratamento, a GTO original deve ser enviada à operadora para cobrança. Esta, por
sua vez, não tem obrigatoriedade de guarda desse documento após o
processamento do respectivo pagamento, podendo então destruí-la. Assim, em
7
caso de ação judicial ou processo ético, o documento solicitado será sempre o
prontuário.
O modelo da GTO padrão TISS para todas as operadoras de saúde deve
ser o seguinte :
Figura 1 – Modelo da guia de tratamento odontológico (GTO) padrão Troca de
Informações da Saúde Suplementar (TISS)
2.2 Relatórios de auditorias e glosas
Como já vimos, o relatório é o documento final de uma auditoria, e há regras
específicas para sua emissão, seu encaminhamento, seu arquivamento e seu
descarte.
O relatório de auditoria deve conter campos para identificação clara do
auditado (paciente) e do auditor. Deve conter espaço para a réplica do profissional
que executou o serviço e para a tréplica do auditor com suas considerações e
recomendações finais. Lembre-se de que essas recomendações finais podem ser
alteradas a qualquer momento antes do envio da fatura ao convênio e, mesmo
após o envio, pode haver mudança em seu teor, desde que mudem as condições
do tratamento realizado ou haja informações adicionais não observadas
8
anteriormente. Ou seja: se o dentista corrigir os problemas apontados, o teor do
relatório e das recomendações deve mudar também. O relatório não é um
documento definitivo.
O relato dos fatos observados deve obedecer normas de preenchimento,
conforme orienta a Resolução CFO n. 20, de 16 de agosto de 2001, em seu art.
24, que determina que:
A codificação a ser usada pelo perito/auditor em sua comunicação com
o cirurgião-dentista assistente, utilizará o código de procedimentos da
CNCC [hoje código TUSS], o sistema dígito dois de identificação
dentária, a especificação da face do elemento dentário pelas letras que
as designam e pelas três primeiras letras do verbo que determinar a
intervenção.
Por exemplo: a restauração em resina composta fotopolimerizável,
realizada nas faces mesial, oclusal e distal do segundo molar superior direito, será
identificada da seguinte maneira: Código – 85100218 – RES FOTO – 17 – MOD.
Essa codificação tem a finalidade de dificultar a compreensão do teor do
relatório por um leigo, buscando preservar o sigilo profissional e a
confidencialidade no relacionamento dentista assistente/auditor.
As formas de encaminhamento do relatório também já foram abordadas por
nossos estudos do art. 24 da Resolução CFO n. 20 (CFO, 2001) e do art. 10º,
inciso II, do Código de Ética Odontológica (CFO, 2012). O ideal é que haja uma
forma eletrônica segura de comunicação, mas não é o que acontece
normalmente, cabendo ao paciente o transporte desse relatório para um lado e
para o outro. Sendo assim, é imperativo que sejam tomados todos os cuidados
para que não haja violação dessa correspondência. Para isso, sugerimos que o
auditor estabeleça um método e aja sempre da mesma maneira, pois isso poderá
estabelecer a sua defesa em caso de violação de correspondência por parte do
paciente e de uma reclamação ética a esse respeito junto ao Conselho Regional
de Odontologia (CRO), ou em juízo. Utilize sempre um envelope que não permita
a visualização do teor do laudo, fechado com cola e lacrado, contendo a
identificação do profissional a que se destina e a clara identificação de que se trata
de um documento confidencial.
Lembre-se de que o Relatório deve sempre:
• ater-se à técnica;
• não conter juízo de valores;
• proporcionar o direito constitucional à defesa;
9
• buscar o consenso;
• nunca envolver o cliente;
• ser redigido em duas vias (uma fica arquivada com o auditor).
Não há nenhuma legislação a respeito de prazo quanto ao arquivamento
de relatórios de auditoria, mas sugerimos que o auditor mantenha cópias de todos
os relatórios por ele emitidos por no mínimo dez anos, pois é mais ou menos a
soma do prazo intervalar mínimo para se refazer um procedimento em um plano
de saúde, e um prazo razoável para que uma ação judicial seja posta andamento.
A prescrição das infrações éticas é definida em 5 (cinco) anos pela Resolução
CFO n. 183, de 1o de outubro de 1992 (CFO, 1992). Todos os documentos devem
ser destruídos antes de descartados a fim de impossibilitar a identificação do
paciente e do profissional auditado.
As operadoras trabalham com uma tabela de codificação de motivos de
glosas, estabelecidas pela ANS no padrão TISS. Na maioria das vezes, o auditor
odontológico deve se preocupar em relatar as não conformidades técnicas
observadas, sem ter que indicar o tipo de glosa que deve ser realizado. Porém,
se o auditor for contratado para realizar uma auditoria interna no sistema de
faturamento da operadora, essa tabela também passa a ser um instrumento de
trabalho do auditor.
Segue sugestão de modelo de formulário de auditoria odontológica:
10
Figura 2 – Modelo de formulário de auditoria odontológica
No serviço público, o Sistema Nacional de Auditoria (SNA) lançou um
manual específico para glosas, com toda a fundamentação legal sobre o tema.
Saiba mais
Para conhecer o manual de glosas do SNA (Brasil, 2004) que citamos neste
tema, acesse:
<http://sna.saude.gov.br/download/MANUAL%20DE%20GLOSA%20DO%20SN
A.pdf>.
http://sna.saude.gov.br/download/MANUAL%20DE%20GLOSA%20DO%20SNA.pdf
http://sna.saude.gov.br/download/MANUAL%20DE%20GLOSA%20DO%20SNA.pdf
11
Aproveite e dê também uma olhada na tabela do motivo de glosas (TISS
Med Consultoria Hospitalar, s/d) usada pela ANS, disponível em:
<http://www.tissmed.com/TabelasMotivodeGlosaAns.pdf>.
TEMA 3 – PROTOCOLOS CLÍNICOS
O mundo não permite mais o empirismo em tempos de informação rápida
e farta nos diversos meios de comunicação disponíveis. Diariamente, o
profissional de saúde se depara com questionamentos de seus pacientes, de seus
colegas e de seus empregadores sobre novos materiais ou novas técnicas
revolucionárias de que ouviram falar na televisão e que são capazes de mudar
tudo no planejamento de seu trabalho.
Antigamente, o conhecimento científico era adquirido por meio de
publicações científicas pouco acessíveis aos profissionais dentro de seus
consultórios. Ou o profissional estava no meio acadêmico, ou tinha que esperar
muito tempo entre a conclusão do trabalho científico e sua publicação, o que o
mundo do conhecimento virtual não admite mais. O mundo acadêmico,
antecipando-se a isso, criou mecanismos para disseminar o conhecimento
científico de forma técnica, responsável e com agilidade. Chamaram a isso de
saúde baseada em evidências, tendo a medicina como precursora, seguida de
perto pela odontologia e outras profissões de saúde.
O cirurgião-dentista não é obrigado a saber tudo sobre todos os assuntos
relacionados a sua profissão, mas também não pode mais dar a desculpa de que
não sabe nada a respeito de determinado assunto. É sua obrigação pesquisar
sobre o tema mencionado e dar uma resposta a quem o questionou, de forma
técnica e segura, para não ser rotulado de desatualizado.
É preciso então saber onde e como procurar respostas técnicas para os
seus questionamentos. Para isso, você deve conhecer e ter acesso a sites de
pesquisas acadêmicas reconhecidamente comprovados como confiáveis, sob o
ponto de vista da garantia de publicação exclusiva de trabalhos realizados sob a
luz da metodologia científica.
Outra função importante da odontologia baseada em evidências na
auditoria é estabelecer a utilização de metodologia científica para pesquisa,
construção e validação de protocolos clínicos. Esses protocolos normalmente são
criados para identificar as melhores práticas disponíveis para tratar determinadas
enfermidades ou realizar procedimentos específicos, prevenindo a realização de
http://www.tissmed.com/TabelasMotivodeGlosaAns.pdf12
tratamentos ou procedimentos desnecessários para a resolução de um problema.
Isso também reduz o número de retratamentos ou insucessos clínicos evitáveis e
otimiza os recursos despendidos em saúde, ambos também considerados
funções importantes da auditoria moderna.
Além de todos os instrumentos já citados anteriormente, fazem parte da
rotina do auditor odontológico:
● Classificação Estatística Internacional de Doenças – CID-10
● O Código de Ética Odontológica
● Toda a legislação citada anteriormente
TEMA 4 – A PRÁTICA DA AUDITORIA PREVENTIVA/OPERATIVA (CLÍNICA)
Como vimos anteriormente, o campo de atuação do auditor odontológico é
bastante diversificado, existindo diversos tipos de auditoria possíveis.
Na enorme maioria dos casos, as auditorias transcorrem sem situações
duvidosas ou não conformidades, mas, quando encontramos as não
conformidades, a auditoria mostra a sua importância. São elas que tornam nosso
trabalho interessante e não rotineiro. O dito popular “cada caso é um caso”
demonstra perfeitamente o dia a dia do auditor odontológico. Tentaremos, então,
mostrar um pouco das atividades e das situações (curiosas) mais comumente
observadas em nossa prática.
A auditoria clínica é normalmente realizada nos consultórios dos
profissionais contratados ou em um consultório montado pela operadora de
saúde, sendo o exame clínico do paciente e a avaliação das guias e imagens a
maior fonte de informações para a elaboração do relatório.
4.1 Auditoria inicial ou pré-auditoria
O auditor deve:
identificar o paciente: sim, muitos auditores já tiveram o desprazer de
identificar fraudes, na qual o paciente examinado não é o beneficiário do
plano, mas um "amigo" deste;
preencher corretamente a guia de tratamento odontológico (GTO):
sendo a GTO um documento administrativo que serve para pagamento do
tratamento realizado, é necessário o seu correto preenchimento. Porém,
isso não é o que ocorre no dia a dia. Muitas guias não são preenchidas
13
completamente ou corretamente. Campos de preenchimento obrigatório,
muitas vezes, não são preenchidos ou são preenchidos no local errado da
guia. Assim, o profissional de auditoria recebe muitas GTOs com linhas em
branco, valores não preenchidos, soma total não realizada, falta de
identificação clara do dentista assistente, tratamento realizado por
profissional não pertencente ao corpo clínico credenciado (terceirização)
etc. Muitas vezes, a incorreção no preenchimento pode provocar situações
engraçadas e interessantes:
o aplicação tópica de flúor em próteses totais?
Fonte: Jacques Ferreira Neto.
o código errado e descrição, mais ainda (exodontia de decíduo)
Fonte: Jacques Ferreira Neto.
adequar o plano de tratamento à necessidade de tratamento do
paciente: nessa atividade, identificamos um grande número de não
14
conformidades e infrações éticas, conforme vimos em nossa Aula 4, no
Código de Ética Odontológica, art. 11, incisos III, IV, V (CFO, 2012);
adequar o plano de tratamento ao regulamento do plano: nem sempre
o tratamento mais indicado ao paciente está coberto por seu plano de
saúde, e a negativa do tratamento deixa de ser técnica e passa a ser
administrativa. Isso não quer dizer que interferimos na autonomia do
profissional em propor seu tratamento, mas somente que o procedimento
proposto não é coberto. Isso gera muita insatisfação por parte de
profissionais e pacientes.
4.2 Auditoria intermediária
O auditor deve verificar:
O andamento do tratamento: devemos verificar se o resultado esperado
até determinada fase do tratamento foi atingido (ação comum em auditoria
de tratamentos ortodônticos), ou, em caso de tratamento protético extenso,
se foram instaladas as próteses provisórias, e se as endodontias estão em
conformidade antes da instalação das próteses definitivas.
Alterar planos de tratamento: devemos aqui diferenciar alterações no
plano de tratamento aprovado das intercorrências durante a execução do
tratamento. São intercorrências as mudanças no plano de tratamento que
não afetam o tipo de tratamento final previamente aprovado em auditoria
inicial. Por exemplo: a necessidade de tratamento de canal em um dente
em que foi proposta uma restauração direta e que, após endodontia, ainda
receberá uma restauração direta. Consideramos como alteração toda
mudança brusca de rumo na proposta de tratamento. Por exemplo: usando
o exemplo anterior, se após a endodontia o dente necessitar de uma
prótese, o profissional deverá submeter o novo planejamento de tratamento
a uma auditoria intermediária a fim de verificar a procedência da alteração,
a cobertura e possíveis carências (períodos intervalares).
4.3 Auditoria final
A maior parte das não conformidades são observadas nessa fase da
auditoria, seja por falha administrativa, seja por falha técnica. Nela, o auditor deve
verificar:
15
Falhas administrativas: os exemplos mais comuns de falhas
administrativas são a falta das auditorias obrigatórias nas fases iniciais do
tratamento, a não observância da cobertura e do regulamento do plano,
preenchimento incorreto e incompleto ou rasura da GTO pré-aprovada,
valor total do tratamento que ultrapassa o valor mínimo para auditoria
obrigatória, o não envio de imagens solicitadas pela auditoria para a
comprovação da execução do procedimento, entre outras.
Falhas técnicas: essa é a parte mais difícil da auditoria odontológica. É
quando o auditor tem que avaliar a correção do trabalho de um colega com
o objetivo de proteger a parte mais fraca, que é o paciente. O bom auditor
é aquele que consegue separar o lado pessoal do profissional,
desenvolvendo seu trabalho com absoluta isenção de sentimentos e de
uma forma fria e técnica. O auditor nunca deve supor algo, ele deve ter
absoluta convicção daquilo que fará parte de seu relatório; se não for assim,
ele deverá solicitar todo tipo de esclarecimento necessário até estabelecer
seu próprio entendimento sobre o caso. Coisas que à primeira vista podem
parecer normais, só o são após a certificação do auditor, com todos os
detalhes a sua disposição. Mais ou menos como São Tomé, que, de acordo
com o Novo Testamento, só acreditou na ressurreição de Jesus quando o
viu pessoalmente, o auditor tem que eliminar qualquer possível dúvida que
possa enfraquecer sua convicção sobre o fato auditado. Por menor que
seja a dúvida, ela deve ser esclarecida. Nessa fase, por ser a última, ele
deve ter como meta o erro zero, pois é nela que surgem as maiores
discussões, aquelas que geram processos legais e éticos. Porém,
lembramos que é permitido errar e voltar atrás a qualquer momento,
cabendo ao auditor o reconhecimento do erro e a devida correção do teor
de seu relatório.
TEMA 5 – A PRÁTICA DA AUDITORIA ANALÍTICA (TÉCNICA)
Nesse tipo de auditoria, não há contato com o paciente, mas, como vimos
anteriormente, é a fase mais importante no apoio à gestão do plano de saúde,
sendo responsável por mudanças de rotinas, processos, normas, regulamentos e
a criação de protocolos.
16
Exige do auditor habilidades fora do campo de conhecimento da
odontologia, como informática, administração de empresas e matemática aplicada
à administração.
Nessa área, as possibilidades de atuação do auditor odontológico se
ampliam muito, de acordo com o nível de capacitação que ele têm, exigindo dele
constante aperfeiçoamento. O diferencial competitivo entre um auditor
odontológico e um profissional da administração, na execução dessas ações,
reside exatamente no conhecimento técnico da odontologia, tornando-o atrativo
ao mercado de trabalho.
Citaremos apenas algumas das inúmeras ações pertinentes à auditoria
analítica/técnica:
Liberar procedimentos e tratamentos: dá autorização eletrônica de
tratamentos após análise do histórico de registros clínicos constantes do
sistema operacionalda operadora, e de análise de prazo intervalar de
repetição de procedimentos.
Avaliar o perfil da rede credenciada: nessa atividade, incluímos análise
prospectiva do retrabalho clínico (desperdício), avaliação da efetividade
clínica do prestador (longevidade do tratamento), controle de não
conformidades por prestador (quantitativa e qualitativa), análise de
satisfação do cliente (reclamações e questionários de satisfação). Tudo
baseado em informações alimentadas ao sistema de informática da
operadora.
Avaliar o perfil da clientela: avalia o padrão da clientela durante a
contratação de planos coletivos, detecta grupos de risco de doenças
periodontais, doença cárie ou câncer bucal para o desenvolvimento de
medidas de prevenção e manutenção, coletivas ou individuais.
Regulamentar tabelas e sistemas operacionais da operadora:
regulamenta atividades de parametrização dos procedimentos cobertos
para possibilitar a sua inserção em sistemas de informação, e tabelas para
evitar a utilização de procedimentos fora do regimento do plano.
Fazer o controle administrativo-financeiro do plano: isso é feito por
meio de planilhas e gráficos obtidos com base nos indicadores financeiros
do plano, pelo cálculo de custo per capita, pelo controle de sinistralidade e
pela avaliação estatística de desvios da normalidade geral e individual.
17
Treinar equipes: a auditoria analítica deve treinar auditores externos e
internos, além de promover a capacitação de leigos para unificar o
conhecimento e a calibração de procedimentos na rede de auditoria.
Criar protocolos clínicos: visa a diminuição e o melhor aproveitamento
dos recursos disponíveis.
Criar pacotes de serviços específicos: dessa forma, é possível atender
algumas especialidades em que o padrão de pagamento preconizado pela
TISS (fee-for-service) não atende as expectativas do mercado.
Analisar recursos de glosa: é dessa forma que se garante o direito à
ampla defesa do prestador.
FINALIZANDO
Em suma, o auditor odontológico deve:
• ter boa oratória e boa escrita, expressando-se com clareza;
• ser bom ouvinte;
• ser pontual e organizado;
• saber como apresentar a auditoria a seus amigos e possíveis
empregadores como algo importante e indispensável;
• ter conhecimentos tanto técnicos quanto administrativos e legais;
• ter a consciência de que não é um fiscal e, sim, orientador, controlador,
pacificador e agente de mudança;
• manter documentos e registros referentes à auditoria em arquivos seguros
e confidenciais;
• preservar o bom relacionamento com os colegas;
• decidir, com respaldo técnico-científico, honestidade e responsabilidade.
E, assim, concluímos essa disciplina, certos de que esse é o primeiro passo
da caminhada sem fim que nos transformará em verdadeiros auditores
odontológicos.
LEITURA OBRIGATÓRIA
ALMEIDA, C. A. P. et al. Prontuário odontológico: uma orientação para o
cumprimento da exigência contida no inciso VIII do art. 5° do Código de Ética
Odontológica. Rio de Janeiro, 2004. Disponível em:
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<http://www.faculdadepaulopicanco.edu.br/wp-
content/uploads/2017/03/modelo_prontuario_odontologico_cfo-1.pdf>. Acesso
em: 20 maio 2018.
BRASIL. Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Guia prático da
contratualização. Disponível em:
<http://www.ans.gov.br/images/stories/Materiais_para_pesquisa/Materiais_por_a
ssunto/21052013guia_pratico_contratualizacao.pdf>. Acesso em: 19 maio 2018.
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