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REVISÃO TÉCNICA Maria Cecília Oliveira Gomes Pesquisadora e líder de Projeto de Proteção do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV Direito SP. Pós-graduada em Propriedade Intelectual e Novos Negócios pela Fundação Getúlio Vargas/FGV. Bacharel em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco/Unicap. APRESENTAÇÃO DO CURSO ......................................................................................................................................... 1 OBJETIVOS ................................................................................................................................................................................................. 1 Objetivo geral ............................................................................................................................................................................. 1 Objetivos específicos ............................................................................................................................................................ 2 AUTORES DA APOSTILA .................................................................................................................................................................. 2 ESTRUTURA DO CURSO .................................................................................................................................................................. 3 BIBLIOGRAFIA COMENTADA ........................................................................................................................................................4 INICIANDO O ESTUDO ..................................................................................................................................................... 7 UNIDADE I – TERMOS DE USO ..................................................................................................................................... 9 UNIDADE II – POLÍTICAS DE PRIVACIDADE .......................................................................................................... 11 UNIDADE III – A DIFERENÇA ENTRE TERMOS, POLÍTICAS E PADRÕES .................................................... 15 ATENÇÃO ÀS LETRAS MIÚDAS ............................................................................................................................................... 19 UNIDADE IV – ADOLESCENTES E CONSENTIMENTO ...................................................................................... 21 CAPACIDADE CIVIL – O CONSENTIMENTO PODE SER ANULADO? ............................................................ 22 RECAPITULANDO ............................................................................................................................................................ 24 BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................................................................. 25 GLOSSÁRIO........................................................................................................................................................................ 26 1 Durante a sua vida pessoal e profissional, você já deve ter assinado contratos. Seja para comprar ou alugar um imóvel, seja para começar um trabalho em uma nova escola, você teve de ler e assinar um contrato para definir os termos da relação que se inicia. Nas tecnologias digitais existem várias regras sobre como cada uma funciona e qual o papel do usuário ao acessá-las. Essas regras estão organizadas em contratos nos quais você se torna uma parte envolvida ao concordar com os Termos de Uso e as Políticas de Privacidade das plataformas (sejam elas físicas ou digitais), ambos são documentos importantes para estipular práticas, direitos e deveres de cada envolvido, inclusive obedecendo legislações específicas. Neste curso, buscamos compreender como os Termos de Uso e as Políticas de Privacidade são construídos, o que definem e a importância deles na garantia e na reivindicação em casos de violação dos direitos do usuário. É uma oportunidade para saber também como estimular, nos adolescentes, a atitude consciente e responsável no uso da internet. OBJETIVOS OBJETIVO GERAL Compreender como se estabelecem as relações entre usuários e tecnologias digitais para que você desenvolva o hábito de avaliar se concorda (ou não) com os Termos de Uso e as Políticas de Privacidade estipulados. APRESENTAÇÃO DO CURSO 2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS • identificar critérios relevantes para ler e entender os Termos de Uso e as Políticas de Privacidade; • verificar as diferenças entre os mecanismos que estabelecem direitos, deveres e responsabilidades de usuários e as plataformas ou serviços; e • compreender como é pensada a presença de adolescentes em mídias digitais a partir dos Termos de Uso e das Políticas de Privacidade. AUTORES DA APOSTILA Guilherme Forma Klafke Líder de projetos e pesquisador do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV Direito SP. Doutorando (2019) e mestre (2015) em Direito Constitucional pela Universidade de São Paulo. Bacharel (2011) em Direito pela Universidade de São Paulo. É colaborador da Sociedade Brasileira de Direito Público desde 2011, na qual coordenou a Escola de Formação Pública (2017). Foi professor de Filosofia do Direito da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo (2017-2018). Coordena e desenvolve pesquisas nas áreas de Direito Constitucional, Jurisdição Constitucional, Ensino Jurídico, Ensino Participativo, Direitos Humanos Digitais e Filosofia do Direito. Jéssica Tainah da Silva Botelho Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade Federal do Amazonas. Graduada em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas. Colaboradora no Centro Popular do Audiovisual/Núcleo de Estudos e Práticas em Cibercultura. 3 Stephane Hilda Barbosa Lima Pesquisadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV Direito SP. Doutoranda em Teoria do Estado pela Universidade de São Paulo. Mestre (2018) em Direito Constitucional e graduada (2014) em Direito, ambos pela Universidade Federal do Ceará, além de especialista (2016) em Direito Tributário e Processo Tributário pela Escola Jurídica Juris. Desenvolve pesquisas e atividades de ensino nas áreas de Ensino Jurídico, Metodologias Participativas, Direitos Humanos Digitais, Direito Educacional, Educação Digital e Regulação. Tatiane Guimarães Pesquisadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV Direito SP. Graduada (2019) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). ESTRUTURA DO CURSO Neste curso, vamos abordar o conteúdo sobre os Termos de Uso e as Políticas de Privacidade por meio da seguinte estrutura: • Iniciando o estudo Na parte inicial, veremos algumas descrições de situações cotidianas que serão utilizadas ao longo do texto e exemplificam como encontramos o tema trabalhado no nosso dia a dia. • Unidade 1: Termos de uso A primeira unidade será dedicada à compreensão do que são os termos de uso. Quais são as suas principais características? A que se deve estar atento na hora de aceitar os termos de uso na internet? 4 • Unidade 2: Políticas de privacidade A segunda unidade cuidará de explorar os aspectos relativos especificamente às políticas de privacidade. O que as políticas de privacidade podem definir? De que forma nossos dados podem ser utilizados? Como escolher sites e aplicativos que respeitem a privacidade. • Unidade 3: A diferença entre termos, políticas e padrões A terceira unidade se dedica às diferenças entre os variados tipos de contrato que podem ser firmados on-line, sejam eles os termos de uso, as políticas de privacidade ou os padrõesde comunidades. • Unidade 4: Adolescentes e consentimento Na última unidade, a pauta é sobre como os adolescentes interagem nesse ambiente de contratos e consentimentos on-line e como orientá-los para realizar a navegação com mais segurança. A partir de que idade pode um jovem fornecer seu consentimento on-line sem a supervisão do pai/mãe ou responsável legal? Essa e outras questões serão enfrentadas ao final do curso. BIBLIOGRAFIA COMENTADA COMISSÃO EUROPEIA. Facebook dá seguimento às exigências da Comissão Europeia e das autoridades de defesa do consumidor e altera as suas condições de utilização e clarifica a utilização dos dados fornecidos pelos consumidores. 2019. Disponível em: http://europa.eu/rapid/press-release_IP- 19-2048_pt.htm. Acesso em: 28 abr. 2019. As redes sociais também têm o dever de explicar claramente, em uma linguagem simples e acessível, de que forma utilizam os dados dos usuários para desenvolver suas atividades, bem como quais dados fornecem a terceiros e o que é feito com os dados quando as contas são encerradas. Veja o exemplo da empresa Facebook, que atendeu às exigências. IRIS. Instituto de Referência em Internet e Sociedade. Representação ao Ministério Público de Minas Gerais – MPMG. 2018. Disponível em: http://irisbh.com.br/wp- content/uploads/2018/08/Representacao-FINAL-MP.pdf. Acesso em: 26 abr. 2019. No Brasil também se visualizam várias formas de utilização de dados sem a devida transparência. Uma delas é o pedido de cadastro de CPF nas farmácias de modo a gerar descontos. Veja como isso pode afetar sua via e o que os órgãos públicos e privados têm feito para cessar essa prática realizada sem a devida transparência. 5 IDEC. Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor. Adequação dos aplicativos de desconto do Grupo Pão de Açúcar com o Marco Civil da Internet. 2017. Disponível em: https:// idec.org.br/sites/default/files/arquivos/carta_idec_249_2017_coex.pdf. Acesso em: 26 abr. 2019. No Brasil, por meio do Código de Defesa do Consumidor, as empresas, ainda que digitais, precisam obedecer regras ali impostas. Uma delas é sobre a transparência no âmbito da propaganda personalizada. SAFERNET. Clareza e consentimento nos termos de uso: prevista por Lei, mas como defini-la?. [s. d.]. Disponível em: https://new.safernet.org.br/content/clareza-e-consentimento-nos-termos-de- uso-prevista-por-lei-mas-como-defini-la. Acesso em: 26 abr. 2019. O texto traz, de modo claro e sucinto, como o Marco Civil trabalha a questão da clareza e do consentimento em termos de uso. Relembre a última vez que você utilizou alguma tecnologia digital (pode ser uma loja virtual, pode ser uma rede social, pode ser um sistema de descontos, site, aplicativo etc.). Quando chegou aos Termos de Uso e Políticas de Privacidade, o que você fez? Pulou até o final e já clicou logo em "Li e Aceito" ou "Estou de acordo"; Deu uma lida superficial, porém não fixou muitas informações sobre o que dizia; Leu calmamente, apesar de não ter entendido alguns pontos específicos, e, no ao final, concordou; ou Leu atentamente, pesquisou sobre os termos que você desconhece desconhecia e, ao final, avaliou a possibilidade de não utilizar a plataforma. Não se preocupe. Se você respondeu as alternativas 1 ou 2, nós sabemos que, em geral, as pessoas não leem os Termos de Uso ou as Políticas de Privacidade, a exemplo do que ocorreu com mais de 20 mil pessoas que concordaram em prestar serviços comunitários porque não leram os Termos de Uso de uma rede Wi-Fi gratuita. Pessoas que têm uma postura mais próxima das alternativas 3 e 4 são minoria entre os usuários de mídias digitais. Nosso objetivo é compreender exatamente para que servem os tais Termos de Uso e as Políticas de Privacidade, para saber quais garantias temos quando concordamos com as regras estabelecidas nesses documentos. Para isso, tenhamos em mente as seguintes situações hipotéticas: CPF na farmácia – Você vai à farmácia, escolhe alguns produtos entre medicamentos e itens de higiene. Quando está no caixa, fazendo o pagamento, a funcionária pergunta se você tem cadastro. Você diz que não, ela informa que o processo é rápido e, com apenas o número do seu CPF, você pode ter desconto nos produtos que você está comprando. Proposta tentadora. Quem não gosta de um desconto? Você informa seu CPF, ganha seu desconto e vai embora para casa. INICIANDO O ESTUDO 8 Sair das redes sociais – Todos ao seu redor comentam sobre a rede social da moda: como é divertida e as pessoas conversam sobre variados temas. Isso desperta sua curiosidade, então você cria uma conta para explorar a rede social e ver se é mesmo tudo que falam. Depois de uns meses, você percebe que não gostou da plataforma e decide excluir seu perfil. Ocorre que, após alguns meses depois de excluí-lo, você decide utilizar novamente o aplicativo. Então, todas as informações que você imaginou ter excluído reaparecem como se você jamais tivesse saído da rede social. Você se pergunta: como isso é possível? Baixar novos apps – Você baixou um aplicativo no seu celular e, para utilizá-lo, foi solicitada sua permissão para acessar vários recursos do seu aparelho (câmera, microfone, agenda telefônica, GPS etc.). Você aceita porque quer muito usar o aplicativo, mas, depois de um tempo, o aplicativo vai ficando de lado, você já não o usa mais, e também não desinstala. 9 É inegável que as tecnologias facilitam nosso cotidiano. Nós as usamos o tempo todo para diversas atividades e nos acostumamos a viver e a conviver com as mídias digitais. No entanto, ainda temos um longo caminho a percorrer quando se trata de compreender os direitos e os deveres de quem cria e de quem utiliza essas ferramentas. É justamente para explicar a função, a responsabilidade e o uso de cada tecnologia que existem os Termos de Uso. IMPORTANTE O nome mais comum utilizado é Termos de Uso. No entanto, podem aparecer outros nomes como Condições de Uso, Regras Gerais ou Termos de Serviço para o mesmo tipo de documento. Os Termos de Uso são um contrato. Nele devem constar informações claras e objetivas sobre o funcionamento do serviço que você está utilizando, inclusive com avisos sobre possíveis riscos e danos que você corre ao aderir e, ainda, o que a plataforma pode fazer para garantir a segurança das suas informações. Nos Termos de Uso devem constar informações sobre: • como a aplicação funciona; • quais recursos do seu dispositivo (celular, tablet, computador, TV etc.) a plataforma acessa para lhe oferecer um serviço; • direitos e deveres do usuário e da plataforma; • possibilidade de riscos; • ações da plataforma para minimizar danos; e • notificações de segurança. UNIDADE I – TERMOS DE USO 10 Lembremos a situação hipotética Baixar novos apps, em que você baixou um aplicativo e, após um período, parou de utilizá-lo. Nos Termos de Uso, você poderá saber exatamente o que acontece quando você instala, acessa ou usa os recursos do aplicativo, ou mesmo se você chegar a acessá-lo por meio do site no navegador (aplicativos mensageiros como o WhatsApp têm essa opção, por exemplo). Nos Termos de Uso, você também é informado sobre os custos de utilização da plataforma/serviço – se esses custos são cobrados pelo aplicativo ou se são custos relativos ao acesso à internet que você precisa para utilizá-lo. “E se eu não concordar com os termos, o que acontece?” As aplicações utilizam uma forma de adesão compulsória. Isso significa que, ou você aceita as regras estabelecidas nos Termos de Uso, ou você fica de fora. Há um jogo de forças entre a necessidade, a vontade do usuário e a falta de flexibilidade nos termos. Por isso, é preciso cobrar das empresas que criam e gerenciam as plataformas que os direitosdos usuários sejam respeitados, sem que isso determine a sua exclusão de um serviço. No entanto, é uma situação que só pode mudar à medida que a sociedade, em geral, compreenda quais são os seus direitos e os seus deveres na era digital e, assim, construa uma cultura de uso das tecnologias pautada pelo uso seguro e responsável pelas partes. Uma possível solução é buscar ferramentas e serviços que tenham Termos de Uso mais transparentes, os quais representem um uso menos abusivo de dados pessoais. Por exemplo, na situação hipotética Sair das redes sociais, em vez de frequentar uma farmácia que pede seu CPF em troca de desconto, você pode pesquisar por outra com preços menores ou que não faça a exigência de informações pessoais para lhe beneficiar de algum modo, ou que explique como está procedendo com o uso das informações pessoais dos clientes. 11 A Política de Privacidade é um documento que relaciona as práticas realizadas pelas plataformas em relação às informações do usuário (dados sobre a navegação, localização, de onde você se conecta e como, entre outros tipos de informações), incluindo a finalidade e o processo de coleta das informações e, ainda, se a plataforma repassa informações do seu usuário para terceiros (empresas parceiras, por exemplo). Figura 1 – Política de privacidade do Google Fonte: Disponível em: https://policies.google.com/privacy?hl=pt-BR. Acesso em: 26 abr. 2019. UNIDADE II – POLÍTICAS DE PRIVACIDADE 12 Tanto as plataformas digitais quanto as físicas que coletam e utilizam, de alguma forma, dados pessoais dos usuários são obrigadas por diferentes leis1 a dispor de um documento, a Política de Privacidade, que estabelece como são conduzidas tais práticas e com qual finalidade. Nela, devem constar: • o que pode acontecer com os dados: como são coletados e tratados, quem tem acesso etc.; • quais informações do usuário (você) serão coletadas e com qual finalidade, explicando como anonimizar dados sensíveis; • tecnologias acessórias que podem ser instaladas para utilizar a aplicação (por exemplo, cookies, plugins etc.); e • o que ocorre com os dados do usuário (você) após o encerramento da conta/perfil. Por exemplo, na situação hipotética Sair das redes sociais, você percebeu que criar um perfil em uma rede social foi fácil, mas sair não é tão simples assim. Esse tipo de situação deve estar prevista na Política de Privacidade, bem como o que acontece com as informações que a plataforma coletou enquanto você esteve usando, e o que será feito após a conta ser excluída. Pense nisso como uma “quebra de contrato”, quando está prevista nas Políticas de Privacidade a exclusão de seus dados a seu requerimento, à exceção daqueles necessários para cumprir requisitos legais. É comum que alguns plataformas ofereçam serviços gratuitos aos usuários, porém, ainda que os serviços sejam gratuitos, é preciso definir e explicar ao usuário, por meio das Políticas de Privacidade, como essa gratuidade é possível, se utiliza dados pessoais para monetizar outros serviços (marketing indireto, por exemplo) – quando a plataforma cria um perfil seu, a partir das suas interações, para mostrar determinadas propagandas. Grosso modo, isso significa que, em troca do serviço, você fornece informações sobre você. E é exatamente como essa relação se dá que deve estar estabelecido e informado na Política de Privacidade. Lembre-se da situação CPF na farmácia em troca do desconto. Você passou a fornecer informações sobre seu consumo de produtos farmacêuticos. Se isso não for bem explicado para que você dê seu consentimento, você pode ser lesado como consumidor e usuário de aplicações digitais. Dispor de um documento que regulamenta a relação estabelecida entre você e qualquer aplicação da internet é um direito seu e um dever das plataformas. O Marco Civil da Internet, por exemplo, determina que a coleta, o uso, o armazenamento e o tratamento de seus dados pessoais devem ser justificados e especificados nos contratos de prestação de serviços (Política de Privacidade) disponibilizados, de modo acessível, aos usuários. Qualquer restrição deve estar escrita em destaque, bem como a linguagem precisa ser simples para que os usuários a compreendam. E, ainda, fala sobre o que deve ser feito no caso de o contrato ser finalizado. 1 Algumas dessas leis são o Código de Defesa do Consumidor, o Marco Civil da Internet e a Lei de Proteção de Dados Pessoais. Explicaremos a regulamentação de cada uma delas ao longo do curso. 13 A Lei Geral de Proteção de Dados2 (LGPD) também regulamenta os princípios para o tratamento de dados pessoais e a divulgação de informações específicas e explícitas de cada processo, podendo o titular (o usuário “dono” dos dados) acessar e consultar gratuitamente o que está sendo coletado. A LGPD ainda recomenda que haja limitação do tratamento de dados de acordo com as finalidades pretendidas. Ou seja, coletar dados apenas para o funcionamento do serviço ou da plataforma – esse é um modo de coibir a coleta abusiva de dados pessoais dos usuários. Além disso, a Lei ainda prevê a possibilidade de o usuário acionar judicialmente as empresas responsáveis pela aplicação, em caso de violação de direitos, perante órgãos de defesa do consumidor (por exemplo, o Procon). A LGPD é transversal, podendo ser aplicada a todos os setores para além das relações de consumo. Na situação CPF na farmácia, em que você cede seu CPF em troca de descontos nos produtos da farmácia, geralmente, você informa seu CPF e a compra é finalizada já com os descontos. No entanto, o CPF é um dado pessoal seu que, cedido dessa forma, será tratado inadequadamente, pois você não foi informado sobre as finalidades de tratamento dele. O que a farmácia pode fazer com essa informação? Ela pode monitorar o que você está comprando? E se ela conseguir traçar um perfil da sua saúde a partir do seu consumo e passar esse perfil para planos de saúde, por exemplo? Ao dar seu CPF em troca de desconto você está assinando um contrato em branco, já que não sabe o que pode ser realizado com as informações fornecidas, abrindo margem para o uso indiscriminado. IMPORTANTE O consentimento é uma das bases da confiança nas relações que se estabelecem em sociedade, independentemente de quem sejam as partes envolvidas. Na internet, não poderia ser diferente. Estar ciente e de acordo com o funcionamento e as regras das plataformas digitais que você acessa é o mínimo que você pode fazer para garantir seus direitos e saber quando há a necessidade de recorrer a mecanismos jurídicos em caso de violação. 2 Para ler a íntegra da Lei Geral de Proteção de Dados, acesse: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/L13709.htm. 14 15 Um empecilho para que as pessoas desenvolvam o hábito de ler os Termos de Uso dos serviços e plataformas digitais é a variedade de mecanismos que estipulam as regras e a diferença entre cada um. Os mais comuns são: • Termos de Uso ou Termos de Serviço (pode ser visto também como Condições de Uso); • Política de Privacidade ou Política de Dados; • Padrões (ou Regras) de Comunidade; e • Configurações de Anúncios. Termos e Condições de Uso estão relacionados ao serviço prestado. Neles, devem constar detalhes de como o serviço funciona, qual a finalidade, quais recursos do seu dispositivo são acessados, bem como as responsabilidades do usuário. Vejamos alguns exemplos, a seguir: Figura 2 – Termos de serviço do WhatsApp Fonte: Disponível em: https://www.whatsapp.com/legal/#terms-of-service. Acesso em: 26 abr. 2019. UNIDADE III – A DIFERENÇA ENTRE TERMOS, POLÍTICAS E PADRÕES 16 Figura 3 – Termosde serviço do Google Fonte: Disponível em: https://policies.google.com/terms?hl=pt-BR. Acesso em: 26 abr. 2019. Política de Privacidade ou Política de Dados explica como cada plataforma vai coletar, tratar e usar dados pessoais. Figura 4 – Trecho da Política de Privacidade do Telegram Fonte: Disponível em: https://telegram.blog.br/privacidade/. Acesso em: 26 abr. 2019. Padrões de Comunidade ou Regras de Comunidade são, basicamente, regras de convivência pautadas por boa conduta nas plataformas, sobretudo nas redes sociais que conectam milhões de pessoas. São os Padrões de Comunidade que estipulam em que momento um usuário pode ser excluído e quais são os critérios levados em consideração para tal decisão. O WhatsApp iniciou uma cruzada contra usuários que disseminam desinformação na Índia, por exemplo. É esse mecanismo que garante que você possa denunciar comportamentos abusivos de acordo com critérios estabelecidos. No entanto, nem todos os sites e plataformas possuem documentos específicos sobre as regras de convivência, elas podem aparecer descritas nos Termos de Uso. 17 Figura 5 – Lista de tópicos referentes aos Padrões de Comunidade do Facebook Fonte: Disponível em: https://pt-br.facebook.com/communitystandards/. Acesso em: 26 abr. 2019. Atualizações – Termos de Uso, Políticas de Privacidade e Padrões de Comunidade não são definitivos, eles passam por mudanças à medida que novas legislações são aprovadas (como a LGPD) ou a partir da demanda da sociedade quanto a violações de direitos do usuário. O usuário deve ser notificado quando alguma mudança ocorre, é importante estar atento a essas atualizações. As Configurações de Anúncios se referem ao modo como você vai visualizar anúncios nas plataformas de acordo com o perfil gerado a partir dos seus dados. A plataforma deve explicar e oferecer a você mecanismos para concordar com determinados produtos ou serviços (lembre-se de que as práticas e os serviços da plataforma devem estar descritas nos Termos de Uso ou nas Políticas de Privacidade). 18 Figura 6 – Configurações de anúncio do Facebook Fonte: Disponível em: https://facebook.com/ads/about/?entry_product=ad_preferences. Acesso em: 26 abr. 2019. Não existe um padrão definido sobre como cada um desses documentos deve ser apresentado a você. Eles podem aparecer em conjunto ou separados de acordo com aquilo que você deseja saber. É comum que grandes empresas concentrem mais de um serviço. Por exemplo, o Facebook, além da plataforma principal, tem o aplicativo de mensagem Messenger. O Google tem o Gmail, o 19 Google Acadêmico, o Google Maps, o Google Fotos. Pode ser que existam termos de uso específicos para cada um ou que estejam todos subordinados aos termos de uso geral. Atenção às letras miúdas Sabemos que, geralmente, os textos dos Termos de Uso são longos e complexos e, por isso, são enfadonhos. Mas, lembre-se: eles são importantes e estipulam direitos e deveres entre as partes (você e a instituição responsável pela aplicação). Popularmente nos referimos a detalhes importantes, aos quais não prestamos atenção nos contratos, mas que fazem toda a diferença, no caso de haver alguma discordância, como “as letras pequenas”. Nos Termos de Uso não é diferente, alguns pontos não estão destacados, mas são fundamentais para a funcionalidade da tecnologia. Por exemplo, algumas plataformas usam tecnologias adicionais como os cookies e limitam o uso se você utiliza bloqueadores de propaganda, os ad blockers. Cookies são arquivos de texto gerados e registrados a partir da sua navegação na internet, que são usados para oferecer uma experiência on-line alinhada aos seus gostos, entre outras finalidades. Os cookies podem armazenar dados pessoais, senhas, localização, preferências de pesquisa, entre outros. Ad blocker é uma extensão disponível para navegadores (Chrome, Internet Explorer, Firefox etc.) como solução para filtrar e diminuir a quantidade de anúncios que aparecem nas telas. É uma forma de driblar o rastreamento da sua navegação on-line. 20 Para ajudar você a saber como ler Termos de Uso e Políticas de Privacidade, listamos algumas características que precisam de atenção. Termos de Uso e Políticas de Privacidade devem ser: Transparentes ✔ Não pode ser um segredo guardado a sete chaves, nem omitir informações importantes sobre o funcionamento da plataforma ou do serviço. Acessíveis ✔ Você tem que encontrar com facilidade qualquer documento relacionado ao uso e funcionamento da plataforma, assim como os direitos e os deveres das partes. Protetivos ✔ Garantir mecanismos de proteção no uso dos seus dados por terceiros e a Prioridade deve resguardar a segurança e a privacidade do usuário. Respeitosos ✔ Um dos princípios fundamentais de qualquer Termo de Uso é o seu consentimento expresso. Ou seja, é fundamental que sua decisão sobre o uso dos seus dados seja respeitada. Claros ✔ Linguagem objetiva, direta com informações completas sobre quaisquer fatores que sejam do interesse do usuário e que garantam seus direitos. Desconfie se o Termo de Uso ou a Política de Privacidade for: Superficial ❌ Informações insuficientes para que você entenda como funciona. Confuso ❌ As informações são imprecisas ou contraditórias. Ilusório ❌ Fala muito sobre benefícios, gratuidades ou facilidades, mas não explica como. 21 Geralmente, nos Termos de Uso das tecnologias digitais, consta uma idade mínima para que se possa criar uma conta. Essa definição ocorre para que a plataforma esteja adequada à faixa etária do usuário, porém o acompanhamento de adultos é fundamental para orientar o uso de menores de idade, diminuindo a possibilidade de problemas e para assegurar que a ferramenta seja aproveitada em benefício dos jovens. A proibição do acesso é um caminho que pode gerar revolta, pois o adolescente pode se sentir excluído da vida social compartilhada pelos colegas nas mídias digitais. O melhor caminho é dialogar sobre o funcionamento das redes sociais e a responsabilidade de estar presente nelas, uma estratégia para isso pode ser ler os Termos de Uso junto com o adolescente. A COPPA3, lei americana de proteção à privacidade infantil on-line, restringe a coleta de dados de crianças e adolescentes abaixo de 13 anos em websites, aplicativos e recursos na internet à autorização dos pais. Por isso, geralmente, a idade mínima para criar contas nas plataformas digitais é estipulada a partir dos 13 anos, podendo haver mudanças de acordo com a legislação de cada país. Em relação à presença de menores de idade no WhatsApp, por exemplo, os Termos de Uso da plataforma estipulam que: 3 Children’s Online Privacy Protection Act. Disponível em: https://www.ftc.gov/tips-advice/business-center/privacy-and-security/children's- privacy. Acesso em: 26 abr. 2019. UNIDADE IV – ADOLESCENTES E CONSENTIMENTO 22 Figura 7 – Termos de Uso do WhatsApp: Idade Fonte: WhatsApp. Situação equivalente no Facebook: Figura 8 – Termos de Uso do Facebook: Idade Fonte: Facebook. Capacidade civil4 – o consentimento pode ser anulado? No caso das aplicações de internet, observamos que a idade comum estipulada é 13 anos, com ressalvas sobre parâmetros legais de cada país. No Brasil, a LGPD estabelece que “[...] o tratamento de dados pessoais de crianças e de adolescentes deverá ser realizado em seu melhor interesse”, coletando apenas o estritamente necessário para funcionamento da plataforma ou serviço em questão. O consentimento expresso de pais ou responsáveis somente é exigido para tratamento de dados de crianças menores de 12 anos. No caso dos adolescentes (de 12 a 16 anos, de acordo com o ECA) não há umaregra específica nos termos da LGPD. No entanto, entende-se que menores de 16 anos e jovens entre 16 e 18 têm limitações de poder e capacidade de decisão em diferentes situações da vida, salvo exceções em que há autorização expressa dos pais ou responsáveis. Assim, resta o questionamento acerca da possibilidade de anulação de consentimento cedido por adolescentes em ambientes digitais. 4 No ordenamento jurídico brasileiro, a capacidade civil é compreendida como a capacidade do indivíduo em atuar e exercer plenamente a vida civil por conta própria. 23 Adolescentes representam um público específico nas tecnologias digitais, principalmente nas redes sociais. Vale a reflexão sobre o uso que fazem, uma vez que nem o público adulto tem o hábito de ler os Termos de Uso, é compreensível que o público infantojuvenil também não tenha disposição para entender como cada plataforma funciona para além do uso que faz. Uma prova dessa situação está no artigo do The New York Times que analisou 150 políticas de privacidade e as classificou como um desastre incompreensível – com excesso de jargões jurídicos e textos complexos. Independentemente do que estabelecem os Termos de Uso de cada serviço ou plataforma, recomendamos que o acesso e o uso de menores de idade seja supervisionado por adultos, aliado a uma educação para o uso seguro e responsável da internet, uma vez que entendemos que esse é um público vulnerável aos riscos e possíveis danos de situações nocivas no ambiente digital, pois encontram-se em processo de formação. Isso pode acontecer, inclusive, em sala de aula. Ao utilizar um aplicativo ou ferramenta digital para uso pedagógico, o docente necessita verificar os seus termos de uso e de privacidade antes de indicá-lo aos estudantes, menores de idade. • Termos de Uso são contratos, por isso, é importante dedicar algum tempo para ler e compreender o que dizem sobre deveres, direitos e responsabilidades. • Termos de Uso devem seguir parâmetros para facilitar o acesso e o entendimento do usuário sobre aquilo que acontece quando ele utiliza serviços ou plataformas. • Os Termos de Uso são essenciais para estabelecer a confiança em relações e em interações que ocorrem na internet. • As Políticas de Privacidade estão relacionadas aos usos e finalidades de dados pessoais nas plataformas, inclusive finalidades de tratamento, como marketing direto ou indireto, entre outros. • Termos de Uso e Políticas de Privacidade são coisas diferentes. • Existem legislações brasileiras que protegem o usuário contra práticas abusivas em tecnologias digitais. • É preciso ter mais cuidado com o acesso de crianças e de adolescentes às mídias digitais. Não são todos os Termos de Uso que definem critérios de uso para esse público e, devido à idade, a responsabilização pode ser orientada para os pais ou os responsáveis. • Educadores têm um papel fundamental frente a essa temática, no sentido de orientar e de auxiliar os jovens a compreender o funcionamento das plataformas, além de utilizar os conhecimentos adquiridos sobre Termos de Uso e Políticas de Privacidade para escolher os melhores recursos para uso em sala de aula. BRASIL. Lei n. 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/L13709.htm. Acesso em: 28 abr. 2019. COMISSÃO EUROPEIA. Facebook dá seguimento às exigências da Comissão Europeia e das autoridades de defesa do consumidor e altera as suas condições de utilização e clarifica a utilização dos dados fornecidos pelos consumidores. 2019. Disponível em: http://europa.eu/rapid/press-release_IP- 19-2048_pt.htm. Acesso em: 28 abr. 2019. FEDERAL TRADE COMMISSION. Children’s Online Privacy Protection Act (COPPA). [s. d.]. Disponível em: https://www.ftc.gov/tips-advice/business-center/privacy-and-security/children's- privacy. Acesso em: 26 abr. 2019. IDEC. Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor. Adequação dos aplicativos de desconto do Grupo Pão de Açúcar com o Marco Civil da Internet. 2017. Disponível em: https:// idec.org.br/sites/default/files/arquivos/carta_idec_249_2017_coex.pdf. Acesso em: 26 abr. 2019. IRIS. Instituto de Referência em Internet e Sociedade. Representação ao Ministério Público de Minas Gerais – MPMG. 2018. Disponível em: http://irisbh.com.br/wp-content/uploads/ 2018/08/Representacao-FINAL-MP.pdf. Acesso em: 26 abr. 2019. LITMAN-NAVARRO, K. The Privacy Project. The New York Times. 2019. Disponível em: https://www.nytimes.com/interactive/2019/06/12/opinion/facebook-google-privacy- policies.html. Acesso em: 28 abr. 2019. SAFERNET. Clareza e consentimento nos termos de uso: prevista por Lei, mas como defini-la?. [s. d.]. Disponível em: https://new.safernet.org.br/content/clareza-e-consentimento-nos-termos-de-uso- prevista-por-lei-mas-como-defini-la. Acesso em: 26 abr. 2019. Anonimização – forma de tratamento de dados, por meios técnicos, para que sejam impossibilitados de associação, direta ou indireta, a um indivíduo. Ou seja, as pessoas às quais as informações se referem não possam ser facilmente identificadas. Criptografia – forma de proteção da comunicação entre dispositivos por meio de códigos e decifração. Modelo de negócio – forma de estruturação de negócios com o intuito de organizar tudo o que é relevante para a iniciativa. Em geral, é uma ferramenta bastante visual e voltada para o trabalho e discussões em equipe.