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BRUIT, Hector. A invenção da América Latina. Anais eletrônicos do V Encontro da Associação Nacional de Professores e Pesquisadores de História das Américas. BH, 2000.
 “Com a doutrina Monroe, esse nome de tanto sucesso passou a designar o país do norte, enquanto que a primeira América, a de Colombo, Cabral, Vespuccio e Moctezuma, passou a ser chamada de América Latina marginalizando as populações indígenas e negras.” (p. 1).
 “Em seu Ensaio político sobre a ilha de Cuba, publicado em Paris em 1826, Humboldt alertava para a injustiça histórica de chamar de americanos só os cidadões dos Estados Unidos da América do Norte.”” (p. 2)
 “A finalidade do jurista argentino, que também se apresentava como historiador, economista e geógrafo nos círculos acadêmicos de Paris, era dar a conhecer um continente muito mal conhecido na França e na Europa em geral. De fato, o que se sabia provinha da imagem desenvolvida no século XVIII por Buffon, Reynal e Robertson entre outros. Isto é, o mundo americano era hostil, degenerado, nocivo e sofocante.” (p. 2).
 “Nessa época, França se preparava para invadir México. O ideólogo desse expansionismo era o historiador Michel Chevalier, então senador do Império francês. Em seu livro, Le Mexique ancien et moderne , publicado em 1863, desenvolveu a idéia de que França era a herdeira das nações católicas e lhe correspondia levar à América a tocha das raças latinas, isto é, francesa, italiana, espanhola e portuguesa. Considerava que estas três últimas nações estavam em decadência. França era a única nação católica que podia deter o expansionismo protestante e anglo-saxão. Esta missão começaria em México.” (p. 3).
 “Na realidade, a idéia de latinidade era associada a idéia de monarquia, de conservadorismo, de anti-liberal, de anti-republicano. A latinidade é européia, nasceu na Roma antiga, está estreitamente ligada a Igreja Católica, ao autoritarismo monárquico.” (p. 5).
 “O mesmo pode-se falar de José Martí. Para o pensador cubano, América, Nossa América, só pode ser a América indígena, a negra, a mestiça, a “criolla”, a América do século XVI, isto é, Ibero-América. Os Estados Unidos são de Norte-América. Em nenhum momento, passa pelo pensamento de Martí a idéia de latinidade, pois América, Nossa América, deve procurar em suas raízes, no autóctone, sua cultura, seu governo, seu progresso.” (p. 6).
 “O interessante, é que o pensador peruano opõe a essas duas expressões, a idéia de uma América Indo-Ibérica. É mais que evidente que o escritor que mais reivindicou o direito dos indígenas, não podia aceitar essa noção de latinidade que nada tem a ver com os povos aborígenes. Usou a expressão América Latina, mas não se deu ao trabalho de discuti-la, porque talvez a encontrasse injusta e inoportuna.” (p. 7).
 “Este diplomata peruano que tem vivido por anos em Paris, que fala e escreve com perfeição o francês, segundo disse no prefácio do livro Raimond Poincaré, não só usou a expressão América Latina, mas talvez tenha sido o primeiro intelectual americano a discutir a importância e o significado da latinidade. Considerou que a latinidade do continente, era o resultado de três forças de pressão: o catolicismo, a legislação romana e a cultura francesa. A lei romana foi a base da legislação espanhola a partir de Alfonso X o Sábio, com as Partidas. O catolicismo está indissoluvelmente unido à autoridade romana na pessoa do Rei: na Espanha e na América, o Príncipe é ao mesmo tempo pastor da Igreja. Sob a dupla pressão do catolicismo e da legislação romana, América se latinizou. América aprende a respeitar as leis e se disciplina tanto na vida religiosa como na vida civil. Finalmente, as idéias francesas,juntam-se a essas duas forças, preparam primeiro a revolução, depois passam a governar os espíritus americanos desde a independência até nossos dias.” (p. 7).
 “Na realidade, foi na década de trinta que começaram a aparecer os primeiros trabalhos históricos com o nome de América Latina elaborados por escritores franceses.” (8).
 “Especialmente importante foi o livro de Siegfried, uma espécie de Bíblia dos sulaméricanos na época da Segunda Guerra Mundial, particularmente pela interpretação econômica das causas que levavam a inestabilidade política do continente nessa década. Para o historiador francês, o colapso fianceiro de 1929 tinha sido a causa fundamental.” (p. 9).
 “Na realidade, foi no período da Segunda Guerra, que o nome de América Latina se popularizou, especialmente pelos estudos dos historiadores e economistas norte americanos.” (p. 9).
 “Todavia, na década de quarenta alguns pensadores latino-americanos iniciaram o questionamento da latinidade do continente. Entre eles, o peruano Luis Alberto Sánchez com seu livro, Existe América Latina?, de 1945. Mesmo não sendo aparentemente seu objeto de discussão, é possível ler nas entrelinhas que a questão que o motivou a escrever o livro é a latinidade. América Latina existe, essa é a resposta de Sánchez, mas essa existência é ambígua porque ela está fundada em um elemento estranho à maioria da população, isto é, a latinidade. Por outro lado, a latinidade tem permitido à minoria branca pensar e até sentir que a América é européia, e que os indígenas, negros e mestiços sofreram um processo de branqueamento. Pode-se observar também, entre parênteses, que tem sido intelectuais peruanos os que mais se preocuparam com a latinidade do continente. A razão disto talvez seja o fato de que a sociedade peruana, e em geral, toda a sociedade andina, é de forte tradição indígena e mestiça, populações estas que têm conservado, de todas as formas imaginadas, as seculares tradições e práticas pré-hispânicas. Se é certo a afirmação de Haya de la Torre de que França introduziu o liberalismo no continente americano, essa filosofia fundada nas noções de Estado, Nação e individualismo, nunca foi compreendida pelas populações indígenas para as quais não existe a Nação peruana,boliviana, equatoriana, chilena; o que existe é uma comunidade quíchuaaimara sem fronteiras nacionais. O Estado liberal é menos compreendido ainda, pois o poder central só poderia estar encarnado na figura do cacique ou do Inca. O individuo é sobrepujado pelo coletivo.” (p. 10).
 “Pensamos, que o nome América Latina se estabelece definitivamente após a Grande
Guerra. De fato, esse nome se consagra em 1948 quando se funda a CEPAL, Comissão Econômica Para América Latina, como organismo das Nações Unidas. Entretanto, a expressão América Latina se difunde intimamente associada ao conceito de subdesenvolvimento que aparece na década de cinqüenta. Então, América Latina passa a ser sinônimo de inestabiliade política crônica; estrutura produtiva atrasada e em certos casos arcaica; dependência total ao capital norte-americano; estrutura fundiária reorganizada pelo capital monopólico; acentuado crescimento demo-gráfico.” (p. 11).

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