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Direitos Humanos ??????????? Direitos Humanos Organizado por Universidade Luterana do Brasil Universidade Luterana do Brasil – ULBRA Canoas, RS 2016 Sérgio Roberto de Abreu Honor de Almeida Neto Luiz Felipe Zago Deivison Moacir Cezar Campos Douglas Marques Felipe Leão Mianes Jorge Trindade Conselho Editorial EAD Andréa de Azevedo Eick Ângela da Rocha Rolla Astomiro Romais Claudiane Ramos Furtado Dóris Gedrat Honor de Almeida Neto Maria Cleidia Klein Oliveira Maria Lizete Schneider Luiz Carlos Specht Filho Vinicius Martins Flores Obra organizada pela Universidade Luterana do Brasil. Informamos que é de inteira responsabilidade dos autores a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem prévia autorização da ULBRA. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei nº 9.610/98 e punido pelo Artigo 184 do Código Penal. ISBN: 978-85-5639-135-3 Dados técnicos do livro Diagramação: Marcelo Ferreira Revisão: Igor Campos Dutra, Marcela Machado 302 Prezado estudante, seja muito bem-vindo à disciplina de Direitos Huma-nos. A partir de sua leitura e de sua interação com os textos e atividades aqui propostas, você terá uma oportunidade ímpar de construir seu próprio conhecimento sobre essa temática. Conhecimento e não opinião, pois o conhecimento é construído a partir de outras bases, que vão lhe permitir estabelecer rupturas com o senso comum, tão nefasto à discussão e ao posicionamento que grande parte das pessoas no Brasil e no mundo tem hoje sobre o tema. Daqui em diante, você terá contato com um conteúdo e uma forma de abordagem sobre os Direitos Humanos construídos a partir de estratégias e de características que distinguem o campo científico, lugar por excelência da Universidade e locus privilegiado para a instauração do habitus científi- co. Você estará diante de textos e de análises que problematizam a temáti- ca a partir de pesquisas científicas, embasadas em teorias e em conceitos. Para fins didáticos e operacionais, a disciplina está subdividida em 10 capítulos que, embora autônomos, guardam necessária articulação entre eles, pois a temática dos Direitos Humanos é complexa e exige uma abor- dagem multidisciplinar que dê conta de sua complexidade. De comum a todos os capítulos, chamo a atenção para o fato de que seus autores são em última análise, professores, pesquisadores e garantidores de Direitos Humanos que compreendem a importância histórica e contemporânea da defesa de direitos como algo que nos distingue como seres humanos e, sobretudo, como seres sociais. O primeiro capítulo trata de forma abrangente o sistema internacional de proteção dos direitos humanos, a partir de uma visão ampla do pro- cesso de desenvolvimento deste tema e um breve retrospecto histórico de Apresentação Apresentação v sua evolução desde a antiguidade à Revolução Francesa, com a positiva- ção dos direitos individuais e políticos. No segundo capítulo, a abordagem passa para o seu enfoque interno, ou seja, os Direitos Humanos no regime constitucional brasileiro. A forma como o Brasil tem, nos últimos tempos, se aliado à evolução internacional ao ratificar tratados internacionais e trazer essas normativas para os direitos já estabelecidos na Constituição de 1988. O Capítulo 3 chama a atenção para a relação indissociável entre Di- reitos Humanos e Direitos da Infância, ao propor uma discussão conceitual sobre infância, situando-a historicamente e problematizando a forma de formar crianças e adolescentes a partir do surgimento de novas tecnolo- gias, novas formas de mediação social. Também traz uma discussão sobre a temática do trabalho infantil e apresenta a Declaração Universal dos Direitos Humanos e sua aplicabilidade hoje. No Capítulo 4, a disciplina apresenta um breve histórico da constituição dos movimentos feministas, suas reivindicações políticas e sociais e suas contribuições teóricas para a produção de conhecimento no Ocidente. Também o Capítulo 5 objetiva fazer uma breve retomada histórica da constituição dos movimentos sociais que reivindicaram (e ainda reivindicam) a inserção das identidades sexuais nas discussões sobre Direitos Humanos. Para isso, propõe diferenciar as políticas de gênero, tratadas no capítulo anterior, das políticas de identida- des sexuais. O Capítulo 6 versa sobre a busca pela cidadania plena que tem pautado as reivindicações dos movimentos sociais negros nas últimas décadas no Brasil, principalmente no que se refere ao acesso aos direitos e serviços básicos. Do ponto de vista estratégico, como forma de subverter o senso comum que permeia essa discussão, o autor enfatiza que, apesar das garantias constitucionais, o processo de conquista da cidadania passa pela derrubada de estereótipos, herdados do imaginário escravista que perpetua os racismos e, ainda, pela superação de uma organização social em torno do conceito de branquitude. O Capítulo 7 objetiva propor o debate sobre a relação dos princípios dos Direitos Humanos e os objetivos do Sistema Único de Assistência So- cial (SUAS). Apresenta alguns marcos regulatórios e diretrizes fundantes do vi Apresentação SUAS e relaciona o debate dos Direitos Humanos com objetivos que funda- mentam sua implantação. Já no Capítulo 8, o autor discute a temática da acessibilidade e sua importância recente na sociedade ocidental. Aponta os motivos e bases para a emergência desse tema associados à constitui- ção de direitos individuais e coletivos, e os avanços e limites na inclusão social de pessoas com algum tipo de limitação física e/ou sensorial. O Capítulo 9 discute um dos principais pontos nevrálgicos dos Direitos Humanos que é o Sistema Prisional. Aponta para a completa inadequação do sistema prisional brasileiro e sua incapacidade de atender às finali- dades de reeducação e ressocialização do apenado, evidenciando-se um processo histórico de desprezo pela pessoa do preso e de banalização das desigualdades sociais. Por fim, o Capítulo 10 traz um inventário das posições teóricas e políticas que orientam as ações, intervenções e quadros conceituais das correntes hegemônicas dos Direitos Humanos e apresenta correntes “contra-hegemônicas” desse processo. Aponta para a complexifi- cação das relações entre humanidade, poder, discriminação e morte. Além das implicações éticas dessas correntes e a incongruência entre a banaliza- ção do sentido da vida de alguns grupos de indivíduos em relação à ideia de humanidade de outros, altamente valorizada. A todos vocês, desejo um ótimo estudo e o melhor uso possível desse conhecimento. Prof. Dr. Honor de Almeida Neto Coordenador do CST em Gestão Pública EAD 1 História e Legislação Internacional dos Direitos Humanos .....1 2 História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos ..........49 3 Infância e Direitos Humanos ...............................................84 4 Políticas de Gênero e Direitos Humanos ............................120 5 Políticas de Identidade Sexual e Direitos Humanos ............142 6 Cidadania dos Negros como Devir: Avanços e Conquistas de Direitos Humanos ......................................170 7 Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e Direitos Humanos..........................................................................195 8 Acessibilidade e Direitos Humanos: Entre Barreiras Físicas e Atitudinais...........................................................217 9 Sistema Prisional, População Privada de Liberdade e Direitos Humanos .............................................................236 10 Correntes Contra-hegemônicas em Direitos Humanos ......259 Sumário Capítulo 1 Prof. Me. Sérgio Roberto de Abreu1 História e Legislação Internacional dos Direitos Humanos1 Professor do Curso de Direito da ULBRA, Campi de Canoas, Guaíba e Torres, nas disciplinas de Direito Constitucional, Internacional e Administrativo. Mestre em Direito Público pela PUCRS e Doutorando em Direito e Estudos Internacionais na Universidade de Barcelona. 2 Direitos Humanos Como originário de um país em desenvolvimento cuja população, tanto a autóctone como a procedente de dis- tintas partes do mundo, enfrenta dificuldades no desen- volvimento e na construção da nação, estou plenamente consciente de que, no trabalho de prevenção de viola- ções flagrantes dos direitos humanos, deve-se urgente- mente prestar atenção aos problemas de indigência, da desigualdade, da falta de dignidade e da falta de segu- rança. A Declaração das Nações Unidas sobre o direito ao desenvolvimento foi proclamada com o propósito de assinalar à comunidade internacional, como afirma o Art. 28 da Declaração Universal de Direitos Humanos, a necessidade de se estabelecer uma ordem social e inter- nacional em que os direitos proclamados na Declaração se tornem efetivos. Sérgio Vieira de Mello (2004, p. 161). (Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Hu- manos, morto no Iraque em 19 de agosto 2003). Introdução O presente capítulo trata de forma abrangente do sistema in- ternacional de proteção dos direitos humanos. O tema dos direito humanos tem acompanhado a agenda da humanidade na busca de sua proteção contra as violações ocasionadas pelo próprio processo de desenvolvimento social e econômico. Não são poucas as experiências vivenciadas Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 3 nessa trajetória, tendo desde as violações praticadas durante a segunda guerra mundial, como as questões mais recentes que envolvem as migrações, a tortura, discriminações étnico- -raciais e de gênero, violência urbana e rural, desrespeito às chamadas minorias, entre outras. Para termos uma visão ampla do processo de desenvolvi- mento desse tema, abordaremos através de um breve retros- pecto histórico sua evolução com apontamentos na antiguida- de, especificamente, no ambiente grego e romano, passando pelas Declarações liberais do século XVIII, referindo-se à Ingla- terra, Estados Unidos e à Revolução Francesa, construtores da positivação dos direitos individuais e políticos. Posteriormente, estudaremos a internacionalização da pro- teção dos direitos humanos através da criação da Organiza- ção das Nações Unidas e do sistema internacional dos direitos humanos, com a carta de direitos humanos. E, por fim, o sis- tema interamericano de direitos humanos, através da Conven- ção Interamericana de Direitos Humanos e da estrutura por ela desenvolvida com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Dessa forma, faremos um acompanhamento identificando a ampliação do leque de direitos protetores da dignidade da pessoa humana, nos direitos individuais e políticos, nos direi- tos sociais, econômicos e culturais, nos direitos coletivos e di- fusos, e nos direitos das futuras gerações. Finalizando, destacaremos a definição dos direitos huma- nos. Bons estudos! 4 Direitos Humanos 1 Um breve retrospecto da evolução dos direitos humanos Os direitos humanos é um dos temas mais importantes para o estudo, reflexão e desenvolvimento na atualidade. Tem sido pauta desde a antiguidade, passando por todas as fases histó- ricas, e se projeta para o futuro. Ou seja, não se esgota nem se limita. Sua extensão se define a cada momento, através da luta permanente do homem em defesa da sua dignidade dian- te da sua própria evolução. Como destaca TRUYOL Y SERRA (1994, p. 11) falar de direitos humanos significa afirmar que existem direitos funda- mentais que o homem possui pelo fato de ser homem, que decorre de sua natureza e dignidade. Esses direitos são ineren- tes a ele e longe de ser uma concessão da sociedade política, devem ser por ela consagrados e garantidos. Ao estudarmos os direitos humanos, temos que ter presente o fato de que, na sua trajetória histórica, a consciência clara e universal de tais direitos é própria dos tempos modernos. No mundo antigo, os direitos humanos devem ser entendidos diferentemente do que o compreendemos na atualidade, onde a autodeterminação dos povos no âmbito internacional e a democracia como sistema político interno são fundamentais. Não há direitos humanos sem democracia. Assim, na antigui- dade, apresentam-se de forma restringida e em um esforça- do desenvolvimento da consolidação da dignidade humana. Nesse sentido, veremos, inicialmente, os aspectos básicos da Grécia Antiga e do período romano. Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 5 Na Grécia antiga, destaca-se a concepção do humanismo e da inteligência racional. Desenvolveram a concepção de li- berdade política, como o hábito de viver de acordo com as leis da polis. Na polis, participavam dos assuntos de forma direta através da democracia, não delegando o poder. Essa parti- cipação era limitada aos cidadãos gregos, ou seja, àqueles que descendiam de pai que detinha cidadania grega. As mu- lheres, os estrangeiros residentes e os escravos não participa- vam da democracia grega. Tinham uma atividade colonialista e empregavam habitualmente a tortura como método político e judicial. O vencido geralmente era torturado, e nas dispu- tas políticas e judiciais também se torturava, considerando-se esse método legítimo. Aristóteles, na Retórica, relaciona como meios de provas as leis, as testemunhas, as convenções e a tortura. Os cidadãos gregos tinham imunidade total e sagra- da, só podendo ser condenados com o juízo de um Tribunal. Assim, praticavam, em síntese, um critério estrito de proteção dos direitos humanos, limitado à participação na polis e isen- tos de generalidade e universalidade. No entanto, o descobri- mento da razão, o império da lei e a liberdade política foram passos importantes para o desenvolvimento futuro dos direitos humanos (TRAVIESO, 2005). Já em Roma, um conceito importante foi aportado: o di- reito como ferramenta institucional aliado ao novo sentido de civilidade. Havia escravidão, e a tortura era admitida e insti- tucionalizada, tornando-se, mais tarde, um legado transpor- tado para a Idade Média. Havia desigualdade e discrimina- ção em relação aos plebeus, diante de grupos privilegiados (os patrícios). O direito romano sempre manteve esse tom de desigualdade, vindo a ser atenuado com o ius civile, dirigi- 6 Direitos Humanos do às relações jurídicas entre pessoas de mesmo status so- cial e político. Os plebeus foram conquistando seus direitos de igualdade com os patrícios. Primeiro reclamaram uma lei garantindo a repartição equiparada das terras confiscadas nas guerras. Segundo, a ação foi a da positivação de direitos, re- alizada através da Lei das Doze Tábuas (449, a.C.). Depois, a liberdade de matrimônio sem discriminações e a igualdade civil, política e religiosa, através do acesso ao Consulado e ao Pontificado. O aporte para o desenvolvimento dos direitos humanos foi a técnica jurídica para sua proteção através de um direito modelado com as regras estoicas dos gregos com os enfoques pragmáticos de Cícero, Sêneca e Marco Aurélio, que serviram de transformação de conceitos por meio do cris- tianismo (TRAVIESO, 2005). Saltando no tempo, já na Inglaterra do século XIII, o Rei João Sem-Terra edita a Carta Magna em 1215, inaugurando o início da monarquia constitucional inglesa e servindo de ins- piração para as futuras declarações de direitos, como A Carta de Direitos Americana (Bill of Rights) e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Entre seus dispositivos, destaca-se a cláusula nº 39: “Nenhum homem livre será preso, encarce- rado ou privado de uma propriedade, outornado fora da lei, ou exilado, ou de maneira alguma destruído, nem agiremos contra ele ou mandaremos alguém contra ele, a não ser por julgamento legal dos seus pares, ou pela lei da terra”. Seguem a Petição de Direitos, em 1628, a Lei do Habeas Corpus de 1679 e a Declaração de Direitos da Inglaterra (Bill of Rights, 1689), reportando um avanço prolongado e significativo na li- mitação do poder do Rei e na promoção de direitos individuais (CASTILHO, 2010). Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 7 A crença de que os homens são dotados de direitos inalie- náveis, entre eles a vida e a liberdade, levaram ao processo de independência e formação dos Estados Unidos, tendo impulso a partir da Declaração dos Direitos de Virgínia, de 12 de junho de 1776, momentos antes da Independência Americana, que afirmava os princípios básicos da igualdade de todos perante a lei, de direito políticos, direitos perante a justiça, controle da autoridade, dentre outros. A Constituição Americana (1789) acrescidas das dez emendas inaugurais (Bill of Rights dos EUA, 1791), onde são assegurados os direitos básicos dos cidadãos perante poder do Estado, permeada pela concepção do liberalismo, trás a afirmação dos direitos individuais e políticos, que será reafir- mado mais à frente na Revolução Francesa. Fruto da tomada da Bastilha, a Assembleia Nacional Cons- tituinte francesa aprovou em 26 de agosto de 1789 a De- claração dos Direitos do Homem e do Cidadão. A liberda- de, igualdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão são direitos imprescritíveis e devem ser conservados pelo Estado. Afirma, ainda, os seguintes direitos básicos: que a liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique a outrem; que a lei é a expressão da vontade geral; todo o cidadão tem direitos políticos; é assegurado um conjunto de direitos perante a justiça, como o princípio da presunção da inocência; liberdade de pensamento e opiniões; liberdade re- ligiosa, entre outros. Assim, as chamadas Revoluções Liberais produziram a afirmação do conjunto de direitos individuais e políticos, garantindo aqueles que protegem ao indivíduo e sua relação frente ao poder do Estado (CASTILHO, 2010). 8 Direitos Humanos Já na virada do século XIX para o século XX, experimenta-se uma inovação na concepção dos direitos humanos. Parte-se da concepção liberal estruturada nos direitos individuais para a visão do homem inserido em uma sociedade e necessitado de recursos básicos para sua afirmação e desenvolvimento. Diante do quadro de contradições do Estado Liberal (Estado Mínimo), do capitalismo e a Revolução Industrial acompa- nhada de uma corrida tecnológica cada vez mais dinâmica, decorrem o surgimento do socialismo que se converte em fe- nômeno mundial e levou ao desenvolvimento dos movimentos de trabalhadores, do sindicalismo e dos partidos de esquerda. A República de Weimar (Alemanha), a Constituição Mexica- na de 1917, a Constituição Russa de 1917, a espanhola de 1931 e o Welfare State americano trazem a proteção amplia- da dos direitos humanos, agora abrangendo os direitos so- ciais, econômicos e culturais. Em 1919, surge a Organização Internacional do Trabalho, buscando a regulação dos direitos trabalhistas e a repressão à exploração do trabalho a nível transnacional (LIESA, 2013). Após esse rápido retrospecto, vamos destacar os principais pontos referentes aos direitos humanos contemporâneos, a partir da análise do sistema internacional, que com o surgi- mento da Organização das Nações Unidas, impulsiona um novo campo do Direito Internacional: o Direito Internacional dos Direitos Humanos. Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 9 2 A Organização das Nações Unidas e a Internacionalização da Proteção aos Direitos Humanos A evolução dos direitos humanos toma impulso com a guina- da histórica presenciada pela humanidade no século XX, de- vido aos graves efeitos e de difícil cicatrização, resultantes das guerras mundiais, como as práticas genocidas, em especial, do holocausto. O alto poder de destruição, além dos próprios atos de guerra, com a ascensão ao poder de Hitler e, aliado à ameaça do potencial de destruição em massa, executado concretamente e mortalmente com o uso de bombas atômicas no Japão (Hiroshima e Nagasaki, 1945), faz surgir uma nova reflexão sobre os destinos da humanidade. Conjugar os interesses da soberania e interesses egoísti- cos dos Estados, frente aos rumos da dominação mundial, de- pois demonstrados pela imprevisível denominada Guerra Fria, onde se descortinou uma corrida pela dominação política e de mercado das nações, foi o ponto inolvidável para a construção de um sistema internacional, que objetivasse reunir os Estados na busca de soluções pacíficas para os inevitáveis conflitos fu- turos, fruto da própria independência do homem e, por assim dizer, dos Estados. Franklin Delano Roosevelt, presidente dos Estados Unidos, foi o primoroso arquiteto da condução da política estaduni- dense durante a segunda guerra mundial, transformando-se em um dos principais articuladores da construção de uma 10 Direitos Humanos nova ordem pós-guerra, com Churchill (Inglaterra) e Stalin (ex- -União Soviética). Após o período de preparação, que se estendeu a partir da constituição da aliança de países que lutavam contra o Eixo (Alemanha e Itália), consolidou-se a ideia da criação de uma organização internacional durante a Conferência de Moscou, em 1943, tomando novo impulso na Conferência de Teerã, em dezembro de 1943. O encontro de Dumbarton Oaks (mansão situada em um bairro de Washington), em 1944, foi dedicado à constituição da nova organização, tendo como ênfase a ideia de segu- rança, expressa pela ação dominante das grandes potências. De fato, esse encontro foi realizado em duas fases, sendo a primeira, de 21 de agosto a 28 de setembro de 1944 e reu- nindo os Estados Unidos, a Inglaterra e a ex-União Soviética; a segunda, de 29 de setembro a 07 de outubro de 1944, teve a participação da China, dos Estados Unidos e da Inglaterra. A Carta das Nações Unidas, para Roosevelt, deveria ser assinada em abril de 1945, em São Francisco, Califórnia, no entanto, ele veio a falecer no dia 12 desse mesmo mês. Seu projeto, contudo, tem continuidade com seu sucessor Harry Truman. A Conferência de São Francisco realiza-se, então, no período de 25 de abril a 26 de junho de 1945. Da Conferên- cia das Nações Unidas para a Organização Internacional, de- nominação oficial do evento, frutificou a Carta da ONU, que, aprovada em 26 de junho, veio a entrar em vigor no dia 24 de outubro do mesmo ano. A carta, então resultante, não foi uma Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 11 mera reprodução dos debates e ideias decididas em Dubarton Oaks. Com a participação e esforço de inúmeros outros Esta- dos, de menor ou mediana expressão no contexto político in- ternacional, introduziram-se modificações que ultrapassaram o forte eixo da segurança e manutenção da paz, até então presentes. Não se alterou a decisão dos Grandes Países sobre o Conselho de Segurança, mas foi possível, noutra vertente, tonalizar a Carta com maior ênfase na cooperação interna- cional em matérias econômicas e sociais e, especialmente, na proclamação do respeito universal aos direitos humanos e às liberdades fundamentais, sem qualquer distinção por motivos de raça, sexo, idioma ou religião (Preâmbulo e Arts. 1.3, 13.1, 55, c), 56, 62.2, 68 e 76). Também, firmou a Carta, o princí- pio da igualdade e livre determinação dos povos (Preâmbulo e Arts. 1, 2 e 55), e a internacionalização do regime político de todos os territórios coloniais (Arts. 73 e 74). O Brasil foi signatário fundador e a ratificou nessa mesma data. Inicialmente,51 países foram os signatários originais, tendo hoje a participação de 193 países. Integra a Carta das Nações Unidas o Estatuto da Corte Internacional de Justiça. Com a efetivação da ONU, como corolário desse proces- so, tendo os direitos humanos como objetivo de promoção da convivência humana, decorre a elaboração e adoção de uma série de tratados internacionais destinados à proteção dos di- reitos humanos que vem a estruturar o campo do Direito In- ternacional dos Direitos Humanos, iniciando-se com a própria Carta da ONU e na sequência a Declaração Universal dos Direitos Humanos. 12 Direitos Humanos 2.1 Sistemas Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos Visualiza-se, assim, na esteira de seu desenvolvimento, a cons- trução de dois sistemas de proteção. Um, no plano universal, através da criação da Organização das Nações Unidas, com aplicação a todo o planeta; e outro, dirigido às questões re- gionais, com jurisdição a determinados continentes, como o Sistema Europeu de Direitos Humanos, o Sistema Interame- ricano e o Sistema Africano. Na sequência, segue o estudo focado no sistema universal e regional interamericano. 2.2 O Sistema Universal de Proteção dos Direitos Humanos A ONU foi criada tendo como objetivos a promoção da co- operação internacional para a solução de problemas interna- cionais de caráter econômico, social, cultural ou humanitário e o desenvolvimento e estímulo do respeito aos direitos huma- nos e às liberdades fundamentais de todos, conforme Art. 1.3 da Carta das Nações Unidas. Nesse ponto, discorre-se sobre a estrutura e funções atinentes a cada órgão, dando ênfase aos integrantes do sistema de proteção de direitos humanos. Estruturalmente, a ONU possui seis órgãos, assim defini- dos na Carta constitutiva: Assembleia Geral, o Conselho de Segurança, o Conselho Econômico e Social (ECOSOC), o Conselho de Tutela (Consejo de administración Fiduciária), a Corte Internacional de Justiça (CIT) e o Secretariado. Por ser mais adstrita a este estudo, aborda-se, a seguir, alguns as- pectos principais e caracterizadores da Assembleia Geral, do Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 13 Conselho de Segurança, do Conselho Econômico e Social e da Corte Internacional de Justiça. Não são mencionados a Secretaria e o Conselho de Tutela, por deverem ser submetidos à literatura específica. A Assembleia Geral é o principal órgão de deliberação, composta por todos os membros das Nações Unidas. Sua fun- ção é a de discussão sobre quaisquer questões ou assuntos que estejam previstos na Carta inaugural e em relação aos ór- gãos nela previstos como, dentre outros: fazer recomendações sobre os princípios gerais de cooperação na manutenção da paz e da segurança internacionais, ajudar a efetivar os direi- tos humanos e as liberdades fundamentais de todos, fomentar a cooperação internacional nos terrenos econômico, social, cultural, educacional e sanitário; recomendar a adoção de so- luções pacíficas, diante de qualquer situação, independente de sua origem, que possa ser prejudicial às relações amistosas entre as Nações. A Assembleia Geral possui órgãos subsidiários, no qual se destaca o Conselho de Direitos Humanos. Tem como princi- pal responsabilidade a manutenção da paz e da segurança internacional. É composto por quinze membros, sendo cinco permanentes (China, Federação Russa, França, Reino Unido – Grã-Bretanha e Irlanda do Norte – e Estados Unidos da Amé- rica), e dez membros não permanentes, que são eleitos pela Assembleia Geral para um período de dois anos. No campo da cooperação internacional econômica e so- cial, está adstrita a incumbência de promover o respeito uni- versal dos direitos humanos e das liberdades fundamentais de 14 Direitos Humanos todos, sem qualquer forma de discriminação por motivos de raça, sexo, idioma ou religião e, por fim, a efetividade de tais direitos e liberdades. A Carta estabelece, aqui, o princípio da universalização dos direitos humanos comprometendo to- dos os Estados membros a adotarem medidas conjuntas ou separadamente para a realização dos propósitos ali definidos. Esse é o papel primordial da ONU. Seguindo na esteira da análise dos órgãos integrantes da ONU, focalizam-se agora os diretamente incumbidos de pro- mover e proteger os direitos humanos. É bem verdade que a partir dos princípios esculpidos na Carta das Nações Unidas e na Declaração Universal dos Direitos Humanos, dois instru- mentos inaugurais da internacionalização moderna dos direi- tos humanos, todos os órgão e integrantes do sistema das Na- ções Unidas, como ensina LEWANDOWSKI, sob um ponto de vista abrangente, estão comprometidos com a sua promoção e defesa, embora voltados para outras atividades. Inúmeros órgãos atuam nessa área como, por exemplo, a Organização Mundial da saúde (OMS), Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), Organiza- ção Internacional do Trabalho (OIT), Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), apenas para citar. O Conselho de Direitos Humanos foi estabelecido como órgão subsidiário da Assembléia Geral, fixando sua sede em Genebra. É integrado por quarenta e sete Estados membros, eleitos de forma direta e individual por maioria dos membros da Assembléia Geral, para um mandato de três anos, não sendo possível a reeleição. Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 15 A principal função, atribuída ao Conselho pela Assem- bleia Geral é a de ser responsável pela promoção ao respei- to universal, pela proteção de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais de todas as pessoas, sem distinção de nenhum tipo e de uma maneira justa e equitativa. Dedica, também, a tarefa de agir diante das situações de violações dos direitos humanos, sejam elas graves ou sistemáticas, fazendo recomendações sobre tais fatos. Deverá, ainda, promover a coordenação eficaz e a incorporação dos direitos humanos em toda atividade geral do sistema das Nações Unidas. O Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos surge, nesse contexto, através da Res. nº 48/141, aprovada pela Assembleia Geral, em sessão realizada no dia 07 de janeiro de 1994. É como esclarece BUERGENTHAL, “um funcionário das Nações Unidas com a principal responsa- bilidade nas atividades da ONU em matéria dos direitos huma- nos, sob a direção e responsabilidade do Secretário-Geral”. O Alto Comissariado é um escritório integrante do Secretariado. O posto de Alto-Comissariado para os Direitos Humanos é ocupado por um período de quatro anos, podendo ser reno- vado por igual período, nomeado pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, sob aprovação da Assembleia Geral. Como marco conceitual, deve guiar-se pelo reconhecimento de que todos os direitos humanos – civis, culturais, econômicos, polí- ticos e sociais – são universais, indivisíveis, interdependentes e estão relacionados entre si. BUERGENTHAL destaca que, entre as funções atribuídas ao Alto-Comissariado, a principal delas está prevista no parágrafo 4(f): eliminar os atuais obstáculos e fazer frente aos desafios para a plena realização dos direitos humanos. 16 Direitos Humanos Destaca-se, na busca desse desiderato, a atuação relevada do brasileiro Sérgio Vieira de Mello, que foi alçado ao posto de Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Huma- nos, em 12 de setembro de 2002, e que, em 19 de agosto de 2003, veio a falecer, vítima de atentado terrorista em Bagdá, quando uma bomba explodiu no prédio do antigo Hotel Ca- nal, sede do escritório das Nações Unidas. Nesse local, encontrava-se como representante oficial do Secretário-Geral da ONU, justamente para buscar caminhos de pacificação, diante da ocupação militar dos Estado Unidos no Iraque e, assim, restabelecero respeito aos direitos funda- mentais dos cidadãos iraquianos. Como registra a entrevista concedida ao jornalista Jamil Chade, da Agência Estado, pu- blicada no Brasil no jornal O Estado de São Paulo, edição de 17 de agosto de 2003, ou seja, dois dias antes de sua morte, Sérgio Vieira de Mello enfatizava o seguinte comentário: “Este deve ser um dos períodos mais humilhantes da história desse povo [iraquiano]. Quem gostaria de ver seu país ocupado? Eu não gostaria de ver tanques estrangeiros em Copacabana”. Por fim, recentemente, foi incorporado ao sistema interna- cional o Tribunal Penal Internacional (TPI), criado pelo Estatuto de Roma, aprovado em 17 de julho de 1998, entrando em vigor em 01 de julho de 2002. O Brasil assinou o Estatuto so- mente em 07 de fevereiro de 2000, vindo a ser ratificado pelo Dec. Leg. nº 112, de 06 de junho de 2002 e promulgado pelo Dec. Fed. nº 4.388, de 25 de setembro de 2002. O TPI, de acordo com o seu Estatuto, é uma instituição permanente e está revestido de jurisdição sobre as pessoas Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 17 responsáveis pelos crimes de maior gravidade com alcance internacional e tem atuação complementar às jurisdições pe- nais nacionais. Está sediado na cidade de Haia, Holanda, po- dendo, quando for conveniente, funcionar em outro local. Sua competência restringe-se aos crimes de natureza mais grave, que afetam a comunidade internacional no seu conjunto, como os elencados no Art. 5º: crime de genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crimes de agressão. As Nações Unidas, no seu aspecto estrutural e procedimen- tal, é um tema amplo, o que demandaria um aprofundamento inapropriado, neste momento posto o objetivo deste estudo. Dessa forma, passamos para a outra face das Nações Unidas, desta vez, sob seu viés material-normativo. 2.3 O nascimento do sistema contemporâneo: A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 Como assinala BOBBIO “A Declaração Universal dos Direitos do Homem pode ser acolhida como a maior prova histórica até hoje dada do consensus omnium gentium sobre um determina- do sistema de valores”. De fato, decorrido o período inicial de instalação da ONU, um dos primeiros desafios enfrentados foi a consolidação de uma nova carta, agora sim, dedicada a es- tabelecer os valores fundamentais relativos à pessoa humana. Essa é uma das características marcante da Declaração de 1948: a de reunir um conjunto de valores, fruto do consenso pós-guerra, onde a experiência brutal das atrocidades come- tidas serviu como sensibilização à comunidade internacional 18 Direitos Humanos à adoção de padrões mínimos de civilização. Era o momento ideal para sua concretização. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (doravante DUDH) foi aprovada pela Assembléia Geral das Nações Uni- das em 10 de dezembro de 1948. Dos 58 Estados-membros da ONU, 48 votaram a favor, 08 se abstiveram, nenhum foi contra e 02 Estados encontravam-se ausentes. O Brasil encon- tra-se entre os Estados que a aprovaram de plano. Contém um conjunto de valores que reúne todo um processo histórico de construção, sendo, no ensinamento de BOBBIO, “uma síntese do passado e uma inspiração para o futuro: mas suas tábuas não foram gravadas de uma vez para sempre”. Constitui-se em um momento de afirmação de direitos, transpondo a simples expressão do pensamento para chegar à sua positivação e universalização. Universalização, no sentido de que seus des- tinatários não são somente os cidadãos de um Estado, mas, sim, todos os homens, indistintamente de origem. Positivado, na medida em que marca um processo que vai além da pro- clamação de direitos, na busca da real e efetiva consolidação da sua proteção. Passa, então, a concretizar uma ampla lista de direitos, de alcance individual, o rol de direitos civis e políticos (presentes nos Arts. 3º ao 21), que geram ao Estado uma obrigação de prestação negativa, de não fazer, ou seja, onde o vetor é o princípio da liberdade. Dos que inserem o homem no contexto social e primam pelo seu desenvolvimento, como os direitos sociais, econômicos e culturais (Arts. 22 a 28), que impõem ao Estado uma obrigação de prestação positiva, agora no sentido Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 19 de fazer, de agir, para sua efetiva garantia e proteção, matiza- do pelo princípio da igualdade. O leque de direitos alcançados pela DUDH demonstra que foi possível reunir, em um só plano, categorias de direitos (ci- vis e políticos com econômicos, sociais e culturais), mesmo diante da divisão do bloco mundial proveniente da derroca- da da Segunda Grande Guerra (1945). Diante disso, constata CANÇADO TRINDADE que ”é altamente significativo que a Declaração Universal de 1948 tenha propugnado por uma concepção necessariamente integral ou holística de todos os direitos humanos”. O texto tomou essa forma graças à capaci- dade dos Estados em constituir um consenso, como afirmado por BOBBIO, em torno de um objetivo comum, a relevância dos direitos humanos, determinado, evidentemente, em um momento de sensibilidade pós-guerra. A Declaração funda, consequentemente, a partir dessa estruturação, um novo marco de positivação dos direitos hu- manos, que além da universalização, inclui o princípio da indivisibilidade e interdependência entre os mais variados direitos, seja de cunho individual ou de cunho econômico- -social. Como anota FLÁVIA PIOVESAN, os direitos humanos estão em constante dinâmica de interação, sendo acolhidos pela ideia de “expansão, cumulação e fortalecimento”, o que os tornam essencialmente complementares. A Declaração, torna-se o ponto de partida para o desen- cadeamento da normatização internacional dos direitos huma- nos em níveis universal e regionalizado. Esse desdobramento ocorre com o nascimento de inúmeros tratados em vigência e 20 Direitos Humanos outros que, certamente, ainda estarão por vir, pois é um longo processo que se firma no transcorrer dos anos e, acompa- nhando a rápida evolução da sociedade, vem a caminhar em busca da satisfação das necessidades do homem. 2.4 A Carta Internacional de Direitos Humanos: os instrumentos internacionais se multiplicam A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi o marco de encerramento de um processo e de impulso para outro mo- vimento. Encerra o processo de fundamentação e inaugura o movimento de internacionalização das normas de direitos humanos, sob o eixo da universalização e da indivisibilidade. Contudo, a necessidade de implementação de mecanis- mos mais eficazes aflorou imediatamente, dando início ao per- curso (alíás, longo percurso, foram 18 anos de trabalho) que levou à elaboração e adoção de dois grandes Pactos, que ao lado da DUDH formam a Carta Internacional de Direitos Hu- manos: o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e o Protocolo Facultativo relativo ao Pacto dos Direito Civis e Políticos. O Brasil veio a ratificar esses Tratados somente em 24 de janeiro de 1992 (Dec. Leg. nº 22612, de dezembro de 1991), tendo, consequentemente, os Pactos e o Protocolo entrado em vigor em 24 de abril de 1992. Exceto o Segundo Protocolo, onde até o presente momento não houve ratificação pelo Go- verno brasileiro. Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 21 Passa-se, em breves palavras, a tratar sobre os principais pontos atinentes aos dois Pactos. 2.5 O Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais O Pacto Internacional de direitos Econômicos, Sociais e Cultu- rais, já no preâmbulo, anuncia seu fundamento de que esses direitos são inerentes à dignidade da pessoa humana, sendo condições básicas para proporcionar a realizaçãodo ideal de um ser humano livre, liberto do temor e da miséria. Aos Esta- dos, impõe-se a obrigação de promover o seu respeito univer- sal e efetivo, bem como, ao indivíduo, concitado ao exercício da cidadania, com deveres ao seu semelhante e à comunida- de a que pertence à obrigação de lutar pela promoção dos direitos protegidos pelo Pacto. Cada Estado-parte, conforme prevê o Art. 2º do Pacto, está comprometido a adotar medidas nos planos econômico e téc- nico que visem a assegurar, progressivamente, o pleno exercí- cio desses direitos, até o máximo de seus recursos disponíveis através de seu esforço próprio, ou pela assistência e coopera- ção internacionais. Na mesma direção, os direitos enunciados no Pacto deverão ser exercidos, sem nenhuma forma de discri- minação, quanto ao sexo, cor, raça, língua, religião, opinião política ou de qualquer outra natureza, origem nacional ou social, situação econômica, nascimento ou qualquer situação. Como se vê, houve um cuidado muito especial em demarcar todo e qualquer formato de manifestação discriminatória, que porventura possa existir. 22 Direitos Humanos O Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais está estruturado em cinco partes, onde se distribuem seus trinta e cinco artigos. Na primeira parte, evidencia o di- reito à autodeterminação dos povos e à livre disposição das riquezas e dos recursos naturais que lhe pertencem, não po- dendo ser privado de seus meios de subsistência. Na segun- da parte, o Pacto especifica o compromisso dos Estados em esforçar-se para garantir os direitos, consubstanciados nos princípios da igualdade, da não discriminação e da proibição de supressão ou limitação de direitos. Já, na terceira parte, encontra-se o rol dos direitos econômicos, sociais e culturais, como: o direito ao trabalho, em condições básicas, justas e favoráveis para o seu exercício; direito de fundar e filiar-se em sindicatos; direito ao exercício da greve, de acordo com as leis do país; direito à previdência social; direito à constituição e manutenção da família, proteção às mães, durante o perí- odo antecedente e posterior ao parto; proteção às crianças e adolescentes, em especial contra a exploração econômica e social; proteção contra a fome; direito à saúde física e mental; direito à educação, que possibilite o pleno desenvolvimento da personalidade humana, do sentido da dignidade, o for- talecimento do respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais, educação primária obrigatória e acessível; di- reito de participação na vida cultural, de desfrute do progresso científico e liberdade indispensável à pesquisa científica e à atividade criadora. A quarta e quinta partes dizem respeito aos mecanismos de supervisão e regras quanto à ratificação e en- trada em vigor, respectivamente. Como se verifica, é destinado aos Estados, atribuindo-lhes um conjunto de deveres a serem alcançados para o desenvol- Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 23 vimento do ser humano, sob a perspectiva de que “descreve, aprofunda e amplia os direitos da pessoa como ser social”. 2.6 O Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos O Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos está estru- turado em seis partes e contém 53 artigos, tal como o Pac- to anterior, na primeira parte trata da autodeterminação dos povos para assegurarem livremente seu estatuto político. Na segunda parte, há o compromisso do Estado em respeitar e garantir os direitos dos indivíduos, sem discriminação de qual- quer natureza, regulando a manutenção de direitos frente às situações excepcionais. Os direitos civis e políticos são tratados na terceira parte. O direito à vida é protegido por lei e enseja, também, as restrições à pena de morte, o que no Brasil assumiu total vedação pelo disposto no Art. 5º, XLVII, da Constituição Federal; direito a não ser submetido à tortura, ou a penas ou tratamentos cruéis, desumanos e degradantes; direito de não ser escravizado nem ser submetido à servidão; direito à liberda- de e à segurança pessoal, garantindo-se a proibição da prisão arbitrária e a proteção contra toda forma de violência ou danos físicos praticados por servidores públicos, indivíduos, grupos ou instituições; direito à julgamento justo e igualdade perante os Tribunais; direito à proteção contra interferência arbitrária na vida privada; direito ao reconhecimento a sua personalidade; liberdade de pensamento, consciência e religião; liberdade de expressão; direito à constituição de uma família; direitos rela- tivos às crianças; direito à participação política, de votar e ser eleito; e, proibição de prisão por descumprimento contratual. 24 Direitos Humanos No Protocolo Facultativo Relativo ao Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, foi reconhecida a competência do Comitê de Direitos Humanos para receber e examinar comu- nicação individual, novidade aqui inserida, quando forem víti- mas de violação por um Estado-parte. Devendo-se observar a situação de estar incluído como Estado-parte e o princípio do esgotamento de recursos internos. O Segundo Protocolo Facultativo do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, destinado a Abolir a Pena de Morte, adotado pela Assembleia Geral em 15 de dezembro de 1989, através da Res. nº 44/128, está direcionado a esse tema tão polêmico e importante para a cessação da aplicação desse tipo de sanção e a adoção de medidas a sua abolição nos Estados que ainda o tenha em sua jurisdição. Resumidamente, os Pactos apresentam, além dos direitos albergados, três medidas principais: o sistema de relatórios, comum a ambos os Pactos; o sistema de comunicações inte- restatais, constante no Pacto de Direitos Civis e Políticos, cuja supervisão é feita pelo Comitê de Direitos Humanos; e o siste- ma de comunicações individuais, dirigido ao Comitê, previsto no Protocolo Facultativo ao Pacto de Direitos Civis e Políticos. 3 Sistema Regionalizado: A Proteção Interamericana dos Direitos Humanos O sistema interamericano começa a estruturar-se com a Carta da Organização dos Estados Americanos (OEA). Vamos tratar Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 25 do sistema embasado na Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969, sendo obrigatório somente aos Estados que fazem parte dela, ou seja, que a ratificaram, do qual o Brasil faz parte. 3.1 Surgimento da Organização dos Estados Americanos A OEA surge então com a adoção de sua Carta constituti- va, aprovada, mais especificamente, em 30 de abril de 1948, entrando em vigor em 13 de dezembro de 1951. É um orga- nismo regional das Nações Unidas que tem por fim conseguir uma ordem de paz e de justiça, a promoção da solidariedade, a defesa da soberania, da integridade territorial e da indepen- dência. Integram a OEA, as nações independentes que ratificaram a sua Carta. Atualmente, são 35 países: Antígua e Barbuda, Argentina, Bahamas, Barbados, Belize, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Dominicana, República Dominicana, Equador, El Salvador, Estados Unidos, Granada, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Saint Kitts and Nevis, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai, Venezuela. No entanto, apenas 34 países têm participação efetiva, pois o Governo de Cuba teve sua participação suspensa em 1962. Em Bogotá, no período de 30 de março a 02 de maio de 1948, com a realização da IX Conferência de Ministros das Relações Exteriores, é que foram adequados e adotados 26 Direitos Humanos os instrumentos principais para a nova ordenação do Siste- ma Interamericano. Com a participação de 21 Estados, entre eles o Brasil, foram aprovados os seguintes instrumentosfun- damentais: A Carta da Organização dos Estados Americanos, o Tratado Americano de Soluções Pacíficas (Pacto de Bogotá), a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem, o Convênio Econômico de Bogotá e a Carta Internacional Ame- ricana de Garantias Sociais. Encontra-se, nos seus objetivos e princípios, a afirmação do preceito, onde a paz, democracia e erradicação da pobre- za aliam-se ao princípio esculpido no Art. 3º da Carta da OEA que proclamam os direitos fundamentais da pessoa humana, sem fazer distinção de raça, nacionalidade, credo ou sexo. 3.2 O Sistema da Convenção Americana sobre Direitos Humanos – CADH A Convenção Americana sobre Direitos Humanos (doravante Convenção Americana ou CADH), aprovada em 22 de no- vembro de 1969, durante a Conferência Diplomática Interna- cional, ocorrida em São José, na Costa Rica, entrou em vigor em 18 de julho de 1978, sendo, hoje, o instrumento de maior grau de importância no sistema interamericano. Conhecida como “Pacto de San José”, está estruturada com um preâm- bulo e 82 artigos. O Brasil aderiu à Convenção somente em 09 de julho de 1992, efetuando o depósito da adesão em 25 de setembro do mesmo ano. Quanto aos Estados que não assinaram nem retificaram ou aderiram a ela, cabe destacar o asseverado por Accioly e Silva: “é importante salientar que os Estados membros da Organização dos Estados Americanos Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 27 (OEA), que não tenham ainda ratificado a Convenção Ameri- cana de Direitos Humanos, são obrigados a respeitar os direi- tos humanos a partir das disposições da Carta da OEA”. Como atenta HANASHIRO, “é o primeiro instrumento in- ternacional de direitos humanos a proibir expressamente a suspensão das ‘garantias indispensáveis’ para a proteção de direitos e a corporificar em um único instrumento normas subs- tantivas relativas a esses direitos, bem como normas dotadas de sanção”. É o que prevê o Art. 27 da CADH, ao tratar sobre a suspensão de garantias nos casos de guerra, perigo público, ou ameaça à independência ou segurança do Estado parte, quando preserva um núcleo duro de direitos humanos que de- vem ser garantidos, mesmo em situações inóspitas. No seu preâmbulo, reafirma o princípio da universalida- de dos direitos humanos, centrado nos atributos da pessoa humana, o que, por si só, já é fundamento para a proteção internacional através da normatização convencional, que se posiciona como coadjuvante ou complementar do que é ofe- recido pelos Estados americanos. Reafirma os postulados da Declaração Universal dos Direitos Humanos, da Carta da OEA e, também, da Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem. Em seguida, impõe aos Estados o compromisso de respei- tarem os direitos e liberdades, consagrados em seu texto, sem qualquer manifestação de discriminação por motivo de raça, sexo, cor, idioma, religião, opiniões políticas ou de qualquer outra natureza, origem nacional ou social, posição econômi- ca, nascimento ou qualquer outra condição social, como as- 28 Direitos Humanos senta o Art. 1 (1), inaugural da Convenção Americana. E mais, ainda no Art. 1 (2), há o dever explícito aos Estados em adotar medidas legislativas ou de outra natureza no direito interno para tornar efetivos os direitos e liberdades estabelecidos na Convenção Americana. No seu texto, do Art. 3º ao Art. 25º, encontra-se o desen- volvimento dos direitos civis e políticos. Já os direitos sociais, econômicos e culturais são remetidos pelo Art. 26, para os Es- tados adotarem providências a sua plena efetividade. A Con- venção Americana não enumera nem desenvolve esse conjun- to de direitos. No entanto, para atender essa área, de forma mais efetiva, foi adotado o Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, chamado “Protocolo de San Salvador”, em 17 de novembro de 1988, que entrou em vigor no dia 16 de novembro de 1999. Nesse Protocolo, que vem complementar a Convenção, está detalhado um rol de direitos que, na esteira dos ensi- namentos de Bobbio, inserem-se nos efeitos da multiplicação dos direitos humanos. Assim, encontram-se aqui os direitos, frutos do incremento na quantidade de bens, considerados merecedores de tutela, como as relações de trabalho, direitos sindicais, à saúde, previdência social, educação e cultura. Dos direitos que tem estendida à titularidade para sujeitos que não o indivíduo, como a proteção da família e ao meio ambiente sadio. E, por fim, aqueles dirigidos ao homem, não mais como um ente genérico, em abstrato, mas na sua especificidade, como a proteção à criança, proteção das pessoas idosas, dos deficientes, à alimentação e outros. O Protocolo traz um ca- Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 29 tálogo de direitos amplos e atualizados que complementam a Convenção e, por conseguinte, vem a constituir em um instru- mento de proteção que abrange, no dizer de Bobbio, “mais bens, mais sujeitos, mais status do indivíduo”. O Brasil ratificou esse Protocolo em 21 de agosto de 1996. A CADH, na Segunda Parte, regula os meios de prote- ção, reconhecendo como de competência dos assuntos sobre o cumprimento dos compromissos assumidos pelos Estados através de dois importantes órgãos, que passam a compor o Sistema Interamericano dos Direitos Humanos: a Comissão In- teramericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana de Direitos Humanos. 3.3 A Comissão Interamericana de Direitos Humanos A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão Interamericana), criada como órgão da OEA, assume com o advento da Convenção Americana, uma nova dimensão den- tro do sistema interamericano, com funções de promoção e proteção dos direitos humanos. Com sede em Washington, D.C., é integrada por sete membros independentes, que desempenham de forma pesso- al, não representando nenhum país em particular, eleitos pela Assembleia Geral para um mandato de quatro anos, podendo ser reeleito para o mesmo período. A competência da Comissão Interamericana é demarca- da pelo círculo abrangente do atual sistema interamericano, que contempla a existência de Estados membros da OEA, que 30 Direitos Humanos ratificaram a Convenção Americana, com as seguintes atribui- ções, dentre outras: estimular a consciência dos direitos hu- manos nos povos da América e formular recomendações aos Governos dos Estados para que adotem medidas progressivas em prol dos direitos humanos, em sua legislação, nos seus preceitos constitucionais e de seus compromissos internacio- nais. No tocante aos Estados partes da Convenção Americana, além das já referidas competências, a Comissão Interamerica- na exercerá sua função para: atuar com respeito às petições e outras comunicações de conformidade com os Arts. 44 e 51 da Convenção; atuará junto à Corte Interamericana de Direitos Humanos; solicitará à Corte Interamericana que tome medidas provisórias diante de assuntos graves e urgentes; re- alizar consultas à Corte Interamericana sobre interpretação da Convenção Americana e outros Tratados sobre direitos huma- nos; e submeter à Assembleia Geral projetos de emendas e de protocolos adicionais à Convenção Americana. Para acessar a Comissão, além dos próprios Estados mem- bros, qualquer pessoa ou entidade não governamental reco- nhecida em um ou mais Estados membros da Organização poderão apresentar petições, em seu próprio nome ou de ter- ceiras pessoas, que tratem sobre supostas violações de direitos humanos, protegidos pela Convenção Americana e demais Tratados que se integram a esse sistema normativo. Para tanto, devem ser observadas as condições de admis- sibilidade da petição descritas na Convenção Americana, da qual se destaca: o esgotamento dosrecursos internos, a regra Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 31 dos seis meses para a representação, ausência de litispendên- cia internacional, ausência de coisa julgada internacional e a fórmula da quarta instância. O esgotamento dos recursos internos é uma condição que vem sofrendo flexibilização, porquanto o entendimento da Co- missão Americana e da Corte Americana tem privilegiado o acesso do indivíduo às instâncias internacionais. Na medida em que é oportunizada uma maior participação das pessoas, com a ampliação das medidas de promoção e educação para o respeito dos direitos humanos, abre-se caminho para a bus- ca da efetiva garantia desses direitos, não somente no âmbito interno dos Estados, mas junto ao sistema internacional, aqui, tratando-se do regional interamericano. Outro requisito de admissibilidade diz respeito à regra dos seis meses, onde as petições devem dar entrada na comissão, em um prazo de até os seis meses seguintes à data da notifi- cação da decisão definitiva sobre o fato, vindo a ocasionar o esgotamento dos recursos internos. O Brasil está submetido à competência da Comissão In- teramericana, tanto como Estado membro da OEA, desde a Carta de 1948, como a partir de 1992, às disposições da competência ampliada pela Convenção Americana. Dentre os casos submetidos à Comissão está o referente a Srª Maria da Penha Maia Fernandes, tema de violência doméstica, chegan- do à seguinte conclusão: “4. Que o Estado violou os direitos e o cumprimento de seus deveres segundo o Art. 7 da Con- venção de Belém do Pará em prejuízo da Senhora Fernandes, bem como em conexão com os Arts. 8 e 25 da Convenção 32 Direitos Humanos Americana e sua relação com o Art. 1(1) da Convenção, por seus próprios atos omissivos e tolerantes da violação infligida”. A mesma decisão foi exaustiva em apontar recomenda- ções ao Estado brasileiro para não somente apurar com mais celeridade os fatos, mas também adotar medidas educativas e estruturais para conter a violência doméstica. Dentre elas, destaca-se a seguinte recomendação: “b) Simplificar os pro- cedimentos judiciais penais a fim de que possa ser reduzido o tempo processual, sem afetar os direitos e garantias de devido processo. Certamente, as recomendações foram importantes para a nova normatização, seguida pela promulgação da Lei nº 11.340, de 07 de agosto de 2006. Essa lei recebeu a de- nominação popular de “Lei Maria da Penha”. 3.4 A Corte Interamericana de Direitos Humanos A criação da Corte Interamericana de Direitos Humanos, com a aprovação da Convenção Americana, é o órgão central para atender aos reclames de garantia dos direitos humanos. É uma instituição judiciária autônoma, sendo o órgão su- premo de jurisdição do sistema interamericano, cujo objetivo é a aplicação e interpretação da Convenção Americana de Di- reitos Humanos e de outros Tratados referentes a essa matéria, o que lhe confere, através de seus dispositivos, associado ao Estatuto da Corte, um caráter especial às suas decisões, o que as tornam definitivas e irrecorríveis, portanto de cumprimento obrigatório. Vale dizer, nas palavras de FERNANDO G. JAYME “A Corte representa a essência do sistema interamericano de Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 33 proteção dos direitos humanos, que encontra sua máxima ex- pressão na obrigatoriedade das decisões emanadas desse ór- gão jurisdicional”. O Brasil reconhece a jurisdição da Corte desde o dia 10 de dezembro de 1998, data destinada à comemoração do Dia Internacional dos Direitos Humanos, após o início da redemo- cratização, instaurada pós-Constituição de 1988. A Corte Interamericana está instalada em São José, Costa Rica, sendo composta por sete juízes eleitos pela Assembleia Geral da OEA para um mandato de seis anos, podendo ser reconduzidos por igual período. Suas sessões são públicas, ex- ceto na fase de deliberação da Corte, que permanecerá secre- ta, salvo, em ambas situações, decisão de outra forma tomada pela própria Corte. O Estatuto da Corte prevê que podem ser realizadas duas espécies de sessões: ordinárias e extraordinárias. Os períodos ordinários são determinados regularmente pela Corte. Já as sessões extraordinárias serão convocadas pelo Presidente ou por solicitação da maioria dos Juízes. A competência da Corte, reconhecida pelos Estados, des- dobra-se em competências específicas e facultativa. As compe- tências específicas são as de natureza contenciosa e consultiva. A competência facultativa diz respeito às medidas provisórias, que são adotadas em casos de extrema gravidade e urgência. O desdobramento de cada uma dessas competências será tra- tado nos tópicos adiante. 34 Direitos Humanos A competência contenciosa resulta das atribuições da Cor- te em conhecer e resolver os problemas oriundos de violações dos dispositivos da Convenção Americana e outros Tratados específicos de proteção dos direitos humanos que expressarem sua intermediação. Pode originar-se de petições individuais ou interestatais, sendo que somente a Comissão Americana de Direitos Huma- nos e os Estados partes podem submeter à Corte casos para a devida solução. A jurisdição contenciosa está vinculada ao exigido consentimento do Estado, sem o qual não pode ser exercida. É necessário, também, que seja observado o requi- sito de admissibilidade referente ao esgotamento dos procedi- mentos perante a Comissão Americana. Esse princípio é apli- cado no sentido de que é necessário que o caso tenha sido apreciado pela Comissão Americana, com o recebimento da petição, desenrolar da tramitação legal e tomada de decisão sobre o assunto, para posteriormente ser apresentado à Corte. Na lição de FERNANDO G. JAYME, “A função jurisdicional da Corte é irrenunciável, competindo-lhe, por dever normati- vo, exercer sua competência para resolver qualquer controvér- sia referente à aplicação da Convenção nos casos concretos que lhe foram submetidos pelo Estado parte ou pela Comissão Interamericana de Direitos humanos”. Uma vez reconhecida a competência contenciosa, os Estados devem cumprir suas decisões, que possuem o efeito de coisa julgada inter partes. Quanto à participação autônoma das pessoas, o Regula- mento atual foi modificado, ensejando, agora, a participação das vítimas, seus familiares ou seus representantes, depois de Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 35 aceita a demanda pela Corte. Essa autorização possibilita que possam apresentar, de forma autônoma, durante todo o pro- cesso, suas petições, argumentos e provas que acharem ne- cessárias para o deslinde do caso. Nas situações em que hou- ver uma pluralidade de vítimas, familiares ou representantes, devidamente credenciados, será designado um interveniente comum para apresentar a petição, argumentos e provas du- rante o transcorrer do processo. Quando houver discordância, cabe à Corte decidir sobre o que é mais pertinente ao caso. A Corte pode conhecer qualquer caso sobre violação dos dispositivos da Convenção Americana. O questionamento ex- traído dessa afirmativa é se a Corte pode conhecer violações de outros instrumentos normativos do sistema interamericano. A regra definida e pacífica é a da interpretação restritiva quan- to ao alcance dos “braços” da Corte. Quer dizer, está adstrita tão somente à Convenção Americana. No entanto, há duas situações, apontadas por Cláudia Martin, que ampliam esse campo de competência. A primeira decorre da possibilidade de utilizarem-se normas de direito internacional ou de direito internacional de direitos humanos para corroborar na interpre- tação das normas da Convenção; a segunda, a aplicação de outros tratados de direitos humanos que contemplem a outor- ga de competência para a Corte supervisionaro adimplemen- to das obrigações assumidas pelos Estados. Por fim, em qual momento a Corte passa a ter competência para conhecer os casos individuais referentes a um Estado? Vi- ceja, nessa questão, o princípio da anterioridade, tanto quan- to a entrada em vigor da Convenção e o reconhecimento da competência contenciosa por um Estado. A regra é a do não 36 Direitos Humanos conhecimento de fatos pretéritos ocorridos. Há uma situação, que pode ser excepcionada, quando ocorre violações continu- adas, que iniciam antes da entrada em vigor de um tratado em questão e perpassam o tempo, ultrapassando o marco inicial da competência. Como exemplo, menciona-se os casos do desaparecimento forçado de pessoas. As sentenças da Corte são dotadas de força definitiva e inapelável, decidindo sobre a responsabilidade do Estado, po- dendo atribuir-lhe o dever de reparação e indenizações, além de garantir à vítima o gozo do direito ou liberdade por ventura violados. A sentença impõe medidas concretas para a repa- ração das violações sofridas pela vítima e, portanto, não tem caráter meramente declaratório. A Corte, ainda, desenvolve a competência consultiva onde emana Opiniões Consultivas com o objetivo de promover a interpretação sobre o alcance de quaisquer dos dispositivos contidos na Convenção Americana, de modo a propiciar uma melhor implementação e aplicação da normatividade, desti- nada à proteção dos direitos humanos pelos Estados e pelos próprios órgãos da OEA. Também, em casos de extrema gravidade e urgência, a Corte possui a competência para a adoção de Medidas Pro- visórias, diante de possíveis danos irreparáveis às pessoas, ampliando a proteção à pessoa humana e dando maior dina- mismo à prestação jurisdicional. Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 37 4 Para uma definição de direitos humanos Como visto inicialmente, a realidade serve de parâmetro para que o direito se desenvolva. Os efeitos graves do aconteci- do na segunda grande guerra, por sua dimensão cruel e de mortes em massa, levaram aos Estados construir uma nova ordem internacional em que os direitos humanos tenham lugar destacado para a prevenção e o restabelecimento da paz e a proteção da dignidade humana. Os valores de humanidade são transpostos para os princí- pios e normas voltadas para a dignidade humana, sendo esse conjunto de normas batizadas como direitos humanos. Isso implica não somente a consagração legal dos direitos subjeti- vos necessários para o normal desenvolvimento da vida do ser humano em sociedade, que o Estado deve respeitar e garantir, senão o reconhecimento de que a responsabilidade interna- cional do Estado fique comprometida em caso de violação não reparada, em decorrência da evolução do conjunto de tratados internacionais e dos sistemas internacionais de prote- ção. (PINTO, 2004). A noção de direitos humanos afeta à relação Estado-in- divíduo. Este, o titular dos direitos protegidos, o Estado é o seu garante. Os limites ao poder do Estado, que buscaram se efetivar através das Declarações do final do século XVIII, mantém-se vigente nesta era dos direitos humanos, no dizer de BOBBIO (2004). Assim, destacamos a definição esposada por Pérez Luño: 38 Direitos Humanos Um conjunto de faculdades e instituições que, em cada momen- to histórico, concretizam as exigências da dignidade, da liberda- de e da igualdade humana, das quais devem ser reconhecidas positivamente pelos ordenamentos jurídicos a nível nacional e internacional. Dentro da visão contemporânea, são os atributos de todas as pessoas e inerentes à sua dignidade, da qual se exige por parte do Estado, o respeito, a garantia ou a sua satisfação. Pelo visto, os direitos humanos não se sucedem ou subs- tituem uns aos outros, eles se expandem, se acumulam e se fortalecem, interagindo os direitos individuais, políticos, os so- ciais, econômicos e culturais, e os direitos coletivos, difusos e das futuras gerações. São concebidos como uma unidade indivisível, interdepen- dente e inter-relacionada, na qual os valores da igualdade e liberdade se conjugam e se completam (PIOVESAN, 1996). Como ensina CANÇADO TRINDADE (1997), “o que teste- munhamos é o fenômeno não de uma sucessão, mas antes da expansão, cumulação e fortalecimento dos direitos humanos consagrados, a revelar a natureza complementar de todos os direitos humanos”. São oriundos da própria condição de humanidade, sendo percebidos conforme o contexto social, não se diferenciando em termos de regime político, sociais ou culturais, pois o poder público deve ser exercido a serviço do ser humano. Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 39 Recapitulando Podemos considerar o surgimento dos direitos humanos aos moldes do compreendido na atualidade, os direitos enalteci- dos nas Declarações do Estado de Virgínia (1776) e na De- claração dos Direitos do Homem e do Cidadão francesa de 1789. Embora no sistema grego e romano da antiguidade surjam concepções fundamentais para o desenvolvimento da proteção da pessoa humana, como a democracia grega e a afirmação do império da lei e da liberdade política, e o uso pelos romanos do direito como ferramenta institucional e civi- lizatória, é a partir das Declarações liberais que se afirmam e aprofundam um conjunto de diretos destinados à proteção da pessoa humana. Após a segunda guerra mundial, como decorrência das atrocidades vivenciadas pelo holocausto e o uso de armas nucleares, a comunidade internacional aprova a criação da ONU – Organização das Nações Unidas, que com sua Carta de inauguração aponta para a necessidade de se proteger os direitos humanos. Surge a edificação de um complexo sistema normativo e institucional que irá desenvolver o Direito Inter- nacional dos Direitos Humanos e o sistema internacional de proteção dos direitos humanos. O sistema internacional tem como corolário a ONU e seus órgãos especializados como a Assembleia Geral, O Conse- lho Econômico e Social, o Conselho de Direitos Humanos e o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Huma- nos, além da adoção de medidas extremas de manutenção da paz através do Conselho de Segurança. 40 Direitos Humanos A carta internacional dos direitos humanos é constituída pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, pelo Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, e pelo Pacto Inter- nacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Adere- -se, ainda, inúmeros tratados especializados, sobre o genocí- dio, escravidão, tortura, discriminação étnica-racial, sobre os direitos das crianças e das mulheres, e dos deficientes físicos, dentre outros. O sistema regional interamericano está estruturado na Convenção Interamericana sobre Direitos Humanos de San José da Costa Rica, de 1969, ratificada pelo Brasil em 1992. Além da afirmação dos direitos humanos em toda sua comple- tude atual, dos direitos individuais e políticos, sociais, econô- micos e culturais, direitos coletivos e difusos, estrutura o siste- ma protetivo através da Comissão Interamericana de Direitos Humanos e o órgão jurisdicional a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Assim, a comunidade internacional tem andando muito fir- me na afirmação e proteção dos direitos humanos, especial- mente após a segunda metade do século XX. Muitos desafios ainda estão por vir, pois a proteção dos direitos humanos é uma pauta constante na evolução de humanidade, e como afirma Bobbio (2004, p. 45) “o problema que temos diante de nós [...] é o qual é o modo mais seguro para garanti-los, para impedir que, apesar das solenes declarações, eles sejam continuadamente violados”. Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 41 Referências ALVES, José Augusto Lindgren, Cidadania, DireitosHumanos e Globalização. PIOVESAN, Flávia (Coord.) Direitos Huma- nos, Globalização Econômica e Integração Regional. São Paulo: Max Limonad, 2002. ARCOVITCH, Jacques (Org.). Sérgio Vieira de Mello Pensa- mento e Memória. São Paulo: Saraiva/EDUSP, 2004. ARRIGUI, Jean Michel. OEA Organização dos Estados Americanos. Tradução de Sérgio Bath. São Paulo: Mano- le, 2004. BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Tradução de Car- los Nelson Coutinho. 9. ed. 5ª tir. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. BRAUM, Helenice da Aparecida Dambrós. O Brasil e os Di- reitos Humanos – A Incorporação dos Tratados em Ques- tão. Ijuí: UNIJUÍ, 2002. BUERGENTHAL, Thomas. Derechos Humanos Internacionales. 2. ed. México, DF: Gernika, 2002. BROWNLIE, Ian. Princípios de Direito Internacional Públi- co. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997. CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. Derecho Internacional de los Derechos Humanos – Esencia y Transcendencia. México: Editorial Porrúa (Universidad Ibe- roamericana), 2007. 42 Direitos Humanos ______. 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Atividades 1) Assinale a alternativa INCORRETA: a) A Carta Magna de 1215, inaugura o início da monar- quia constitucional inglesa. b) A Lei do Habeas Corpus de 1679 surgiu com a Decla- ração de Independência Americana. c) A liberdade, a igualdade, a propriedade e a resistência à opressão são direitos que devem ser conservados pelo Estado, prevê a Declaração dos Direitos do Ho- mem e do Cidadão. 46 Direitos Humanos d) A Constituição Americana de 1789 teve a seguir de sua promulgação a adoção de 10 novas emendas di- rigidas à proteção dos direitos básicos dos cidadãos. e) Na Grécia antiga, o regime assegurava uma proteção restrita dos direitos humanos dirigida aos cidadãos gregos e em convivência com a escravidão. 2) Quanto ao surgimento das Organizações das Nações Uni- das, é CORRETO afirmar: a) Tem como marco inaugural o término da primeira guerra mundial. b) Sua proposição foi decorrente de reuniões entre Esta- dos Unidos e União Soviética. c) O Presidente Roosevelt (EUA) assim como o Presidente Churchill (Inglaterra) e Hitler (Alemanha) foram deter- minantes para a criação da nova Organização Inter- nacional para o estabelecimento da paz mundial. d) O Brasil não teve participação na elaboração e apro- vação da Carta da ONU. e) O texto de criação da ONU dá ênfase na cooperação internacional nos campos econômicos e sociais, espe- cialmente na proclamação do respeito universal aos direitos humanos. 3) Sérgio Vieira de Mello, ___________________, faleceu em 19 de agosto de 2013, quando estava em missão da ONU em Bagdá, logo após o início da ocupação militar Capítulo 1 História e Legislação Internacional dos Direitos... 47 americana. Assinale a alternativa que identifica o cargo ocupado por ele nas Nações Unidas: a) Presidente do Conselho de Segurança. b) Presidente do Tribunal Penal Internacional. c) Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. d) Presidente do Conselho de Direitos Humanos. e) Presidente da Assembleia-Geral da ONU. 4) Quanto ao sistema regional interamericano de direitos hu- manos, é INCORRETO afirmar que: a) A Convenção Americana sobre Direitos Humanos criou dois órgãos importantes para a proteção dos di- reitos humanos: a Comissão Interamericana e a Corte Interamericana de Direitos Humanos. b) A Comissão Interamericana de Direitos Humanos é o órgão com competência para julgar os casos conten- ciosos dos Estados que envolvem violações de direitos humanos. c) A Corte Interamericana de Direitos Humanostem no rol de sua competência as Opiniões Consultivas e a adoção de Medidas Provisórias. d) Diante da violação dos direitos, a vítima terá seu caso levado pela Comissão Interamericana de Direitos Hu- manos diretamente à Corte Interamericana de Direitos Humanos. 48 Direitos Humanos e) O Brasil está submetido à competência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 5) Assinale a alternativa CORRETA: a) Na visão contemporânea, são atributos de todas as pessoas e inerentes à sua dignidade, da qual se exige por parte do Estado, o respeito, a garantia ou a sua satisfação. b) São direitos concebidos de forma divisíveis, não acu- mulativos, sem a interdependência entre os direitos in- dividuais com os direitos sociais. c) São diferenciados em termos de regime político, social ou cultural. d) São setorizados, não alcançando ainda a dimensão universal, ou seja, de direito internacional. e) A proteção dos direitos humanos independe do Estado. Prof. Me. Sérgio Roberto de Abreu1 Capítulo 2 História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos 1 Professor do Curso de Direito da Ulbra, Campi de Canoas, Guaíba e Torres, nas disciplinas de Direito Constitucional, Internacional e Administrativo. Mestre em Direito Público pela PUCRS e Doutorando em Direito e Estudos Internacionais na Universidade de Barcelona. 50 Direitos Humanos Introdução Neste capítulo, o tema de direitos humanos será abordado a partir do seu enfoque interno, no regime constitucional brasi- leiro. O Brasil tem, nos últimos tempos, se aliado à evolução internacional ao ratificar os tratados internacionais de direitos humanos, trazendo essas normativas para ampliar o leque de direitos já estabelecidos na Constituição de 1988. Aliás, é a partir da promulgação dessa Constituição, embasada no con- ceito de Estado Democrático de Direito, que abre as porta do Brasil para o reconhecimento e adoção de políticas públicas voltadas para a efetivação dos direitos humanos. No entanto, não basta somente a adoção dos tratados. É necessário reorganizar e atualizar as leis diante de novos princípios. No entanto, esse caminho é longo e tem sofrido alternâncias no seu desenvolvimento. Como veremos, a his- tória constitucional brasileira tem demonstrado que as cons- tituições são adotadas, ora de forma outorgada (autoritária) ou promulgadas em períodos de aspiração democrática. Por isso, apresentamos um retrospecto das Constituições desde a primeira, nascida no Império, até a mais recente, promulgada em 1988, onde iremos verificar os principais pontos de desta- que em cada época, percebendo os principais direitos protegi- dos ou, em alguns casos, restringidos. A seguir, a relação entre o Brasil e os tratados internacio- nais de direitos humanos será analisada de forma descritiva, elencando-se os principais instrumentos internacionais já ado- Capítulo 2 História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos 51 tados. Selecionaremos alguns que estruturam o sistema inter- nacional e regional interamericano, destacando alguns aspec- tos que envolvem a sua atuação e organização, e os principais direitos protegidos. Nesse ínterim, alguns pontos serão comen- tados, como a inserção dos tratados no regime jurídico brasi- leiro e a exemplificação da atuação da Comissão e da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Por fim, esperamos apresentar uma visão da inter-relação do Brasil com o Direito Internacional dos Direitos Humanos, o que possibilitará a compreensão dos temas que afligem a importância e problematização da implantação dos direitos humanos no Brasil. 1 O Brasil e os Direitos Humanos Como estudamos no primeiro capítulo, os direitos humanos tomam proporção maior na importância da humanidade a partir da metade do século XX, após o ocaso da segunda guer- ra mundial. Os horrores advindos das guerras e a dimensão da crueldade e capacidade de dizimação levaram a comu- nidade internacional a estruturar mecanismos de afirmação, conscientização e proteção dos direitos humanos. Surge o Di- reito Internacional dos Direitos Humanos, campo que abrange o conjunto de princípios e normativas internacionais voltadas à proteção da dignidade da pessoa humana. A Organização das Nações Unidas (ONU) nasce e proporciona o incremento das estruturas e acordos internacionais para esse fim. O con- junto de tratados internacionais que se multiplicam, desde en- 52 Direitos Humanos tão, organizam um sistema internacional e sistemas regionais, como o europeu e o interamericano de direitos humanos. O Brasil tem sido um parceiro atuante no âmbito interna- cional. Participou das negociações para a criação da ONU, sendo sua fundadora. Teve atuação intensa e importante na elaboração da Declaração Universal dos Direito Humanos. No entanto, vivenciou, no passado recente, um período de ditadura civil-militar (1964-1985), onde foram registrados inú- meros casos de violações graves de direitos humanos, como o desaparecimento forçado de pessoas, práticas de tortura, cassações e prisões por motivação política, restrições de direi- tos individuais, entre outros. Passado o período de “chumbo”, arvora-se um novo tempo, com ares de democracia. A Cons- tituição da República Federativa do Brasil de 1988 inaugura um novo Estado, agora refundado como Estado Democrático de Direito. Inicia-se, assim, um processo de democratização política e da cidadania. Os direitos humanos passam a ser inseridos na pauta da sociedade, pois é um dos pilares de sustentação da democracia. A democracia é a forma de or- ganização política mais favorável para a maior proteção e efetivação dos direitos humanos, enquanto que o regime de proteção dos direitos humanos é alicerce fundamental para a existência desse regime. No dizer de Dalmo Dallari, a expressão direitos humanos é uma forma abreviada de mencionar os direitos fundamentais da pessoa humana. Esses direitos são considerados fundamen- Capítulo 2 História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos 53 tais, porque sem eles a pessoa humana não consegue existir ou não é capaz de se desenvolver e de participar plenamente da vida. Desde o nascimento, o ser humano necessita de con- dições especiais para se desenvolver, protegendo-o a vida, e oportunizando-lhe o acesso aos benefícios que a sociedade pode e deve proporcionar. Dallari atribui então aos direitos humanos “o conjunto de condições e de possibilidades asso- ciadas às características naturais dos seres humanos, a capa- cidade natural de cada pessoa poder valer-se como resultado da organização social”. O debate em torno dos direitos humanos, assim, tem ace- lerado seu desenvolvimento com a intensidade das ações e políticas relacionadas a ele, tem oportunizado a elevação da consciência da sociedade brasileira sobre assuntos de extre- ma importância para a promoção da cidadania e efetivação do respeito aos direitos humanos, como: a defesa dos direitos das crianças e adolescentes, das pessoas idosas, das que são deficientes, da erradicação do trabalho infantil e escravo, das relações de gênero, dos direitos da livre orientação sexual, da não discriminação e da diversidade religiosa, entre outros. A partir da promulgação da Constituição de 1988, que trás um conjunto de princípios direcionados às relações internacio- nais, entre eles, a prevalência dos direitos humanos, é que o Brasil passa a ratificar e se comprometer a cumprir uma série de tratados internacionais de direitos humanos. 54 Direitos Humanos 2 As Constituições brasileiras e a proteção de direitos Passamos para uma retrospectiva das Constituições brasileiras identificando os principais direitos por elas protegidos ou vio- lados, desde o período imperial até nossos dias. 2.1 Constituição Imperial de 1824 A primeira Constituição brasileirafoi a do Império, outorgada em 25 de março de 1824, pelo imperador Dom Pedro I. Por ser outorgada, não passou por uma constituinte democrática, sendo imposta diretamente pelo governante. D. Pedro I chegou a convocar uma Assembleia constituinte, instalando-a em 03 de maio de 1823. Mas vendo que os constituintes se inclina- vam a restringir seus poderes, acabou fechando a Assembleia e nomeando 10 cidadãos de sua confiança para redigir a car- ta constitucional. Entre os principais aspectos, destaca-se:  Institui uma monarquia hereditária, do tipo constitucio- nal.  Criou poder moderador que se encontrava acima dos poderes executivo, legislativo e judiciário, fortalecendo seu poder pessoal. O Poder Moderador podia dissolver a Câmara dos Deputados.  Já consagrava, em seu texto, um conjunto de direitos e garantias fundamentais. Trazia dispositivos sobre a edu- Capítulo 2 História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos 55 cação, garantindo a gratuidade da educação primária e mandava criar colégios e universidades.  Previa eleições, porém, indiretas e censitárias (restrito aos homens e “votos do ricos”, renda superior a 100 mil réis).  Estado unitário, com as antigas capitanias transforma- das em províncias, que passaram a ser governadas por presidentes nomeados pelo Imperador.  Adotava oficialmente a religião católica. “Em nome da santíssima trindade...”  Duração mais longa da história brasileira, até o presente momento. 2.2 Constituição Republicana de 1891 Com o advento da proclamação da república em 1889, o Chefe do governo provisório, Marechal Deodoro da Fonseca, convocou o Congresso Nacional Constituinte em 1890. Surge a primeira Constituição Republicana em 24 de fevereiro de 1891. Sua elaboração teve influência da Constituição Ameri- cana e da Constituição Argentina. Entre os principais dispositivos, destacam-se os seguintes:  Primeira republicana e a primeira a declarar o caráter indissolúvel da Federação (institui os Estados-membros autônomos).  Extingue a monarquia e adota o presidencialismo. 56 Direitos Humanos  Adotou a tradicional divisão de poderes, abandonando o Poder Moderador.  Aperfeiçoamento do rol de direitos e garantias funda- mentais e previu o habeas corpus. Contudo, embora a inspiração procedente das Constituições Americana e da Argentina, o rol dos direito individuais foi reduzido devido às fortes pressões do setor dos grandes latifun- diários daquela época.  Substitui o voto censitário pelo voto universal e não se- creto para homens acima de 21 anos, vetando voto para mulheres, analfabetos, soldados e religiosos.  Garantiu a liberdade partidária. Institui eleições diretas para a Câmara e o Senado e Presidência da República.  Extinguiu as penas de morte, de banimento e de galés.  Institui o chamado Estado Laico ou leigo. Proíbe o ensi- no religioso nas escolas públicas. 2.3 Constituição de 1934 – o fim da República Velha Encerrando o período chamado República Velha, foi promul- gada uma nova Constituição em 16 de julho de 1934. Redi- gida pela Assembleia Constituinte convocada pelo Presidente Getúlio Vargas, que exercia um governo transitório. Teve por base a Constituição alemã. Inaugura a abordagem dos direi- tos sociais, econômicos e culturais, fruto do desenvolvimento Capítulo 2 História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos 57 do pensamento socialista do início do século XX. Amplia, as- sim, o leque de direitos constitucionalmente garantidos. Dos já afirmados rol dos direitos individuais, passando pelo aperfei- çoamento dos direitos políticos, para os de inserção do cida- dão no seu próprio desenvolvimento na sociedade. Entre outras, apresentava as seguintes medidas:  Conferiu maior poder para o Governo Federal.  Adotou o sistema presidencialista de governo e a tripar- tição de poderes.  Representou um marco no direito constitucional brasilei- ro ao incluir, ao lado dos direitos individuais e dos direi- tos políticos, um conjunto de direitos sociais e econômi- cos, buscando a redução das desigualdades sociais e o desenvolvimento nacional.  Estabeleceu o voto obrigatório e secreto a partir dos 18 anos e assegurou o direito de voto às mulheres (já pre- visto no código eleitoral de 1932).  Criou a Justiça Eleitoral e a Justiça do Trabalho.  Surge o Ministério Público, a sindicalização, a previdên- cia social, a Justiça Militar e o Ministério do Trabalho.  Regulamentação dos partidos políticos. A ordem econô- mica, a família, a educação e a cultura assume status constitucional.  Instituiu o mandado de segurança e a ação popular. 58 Direitos Humanos 2.4 Constituição de 1937 – A Constituição “Polaca” A ditadura do Estado Novo surgiu com a Constituição outor- gada em 10 de novembro de 1937. Adotada de forma autori- tária, foi apelidada de “Constituição Polaca”, devido à inspira- ção da Constituição da Polônia, de natureza fascista europeia. Batizou o Brasil com o nome Estados Unidos do Brasil. Como pontos a sublinhar, aponta-se:  Permitiu a suspensão de imunidade parlamentar, a pri- são e exílio de opositores.  Reduziu a autonomia dos Estados-membros, destituindo Governadores e colocando interventores.  Anulou a independência dos poderes. Na prática, os poderes legislativos e judiciários sofreram considerável enfraquecimento. O Poder Executivo anulava decisões do Judiciário e submetia ao Legislativo para nova vota- ção e anulação. Em estado de emergência, o Judiciário não poderia apreciar atos administrativos do Executivo.  Restrição, mediante censura, do direito de manifestação do pensamento.  Estabeleceu a pena de morte, dentre outros, para os cri- mes políticos e homicídios cometidos de forma perversa ou por motivo fútil.  Deixou de prever os institutos do mandado de segurança e da ação popular. Capítulo 2 História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos 59  Estabeleceu a eleição indireta para Presidente da Repú- blica com mandato de 6 anos. 2.5 Constituição de 1946 – A redemocratização do país Em 1945, encerra-se a segunda guerra mundial, e, conse- quentemente, os países governados por ditadores sucumbi- ram, frente ao novo panorama da política internacional. Com a deposição de Getúlio Vargas, é eleito Eurico Gaspar Dutra e uma nova Assembleia Constituinte redigiu a nova Constitui- ção e a promulgou em 18 de setembro de 1946. Dessa vez, adotou um novo nome para o país, passando a denominar-se República dos Estados Unidos do Brasil. Apresenta as seguintes características:  Retomou o modelo de democracia social adotado na Constituição de 1934.  Reafirmação de direitos individuais: igualdade de todos perante a lei; liberdade de manifestação do pensamen- to, a não ser em espetáculos e diversões públicas; invio- labilidade do sigilo de correspondência; liberdade de consciência, de crença e de exercício de cultos religio- sos; liberdade de associação para fins lícitos; inviola- bilidade da casa como asilo do indivíduo; garantia da prisão somente em flagrante delito ou por ordem estrita de autoridade competente e garantia de ampla defesa do acusado. 60 Direitos Humanos  Restabeleceu a autêntica tripartição do poder estatal, com a existência de poderes independentes e harmôni- cos entre si. Poder legislativo voltou a ser genuinamente bicameral.  Retomou o pacto federativo, com maior autonomia aos Estados-membros.  Restabeleceu o mandado de segurança e a ação popu- lar.  Surge o controle de constitucionalidade pela via con- centrada das leis e atos normativos. Fortalecimento do Judiciário, em especial, do Supremo Tribunal Federal.  Princípio da inafastabilidade da jurisdição (direito de acesso ao judiciário).  Exclui-se a censurae a pena de morte prevista na Cons- tituição de 1937.  Regras sobre Direito Econômico, com penas para o abu- so econômico.  O direito de greve passou a constar no texto da Cons- tituição. 2.6 O Golpe de 1964 e a Constituição de 1967 e os atos institucionais O golpe civil-militar em 1964 derrubou o presidente João Goulart. Coordenado pelos três comandantes militares (Exérci- to, Aeronáutica e Marinha), editaram o Ato Institucional nº 01, Capítulo 2 História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos 61 em 09 de abril de 1964, destituindo o governo e instituindo a ditadura do regime militar. Humberto de Alencar Castelo Branco foi nomeado presidente. Posteriormente, em 1965, editou o Ato Institucional nº 02, extinguindo o pluripartida- rismo, permitindo o funcionamento de apenas dois partidos (ARENA – Aliança Renovadora Nacional e MDB – Movimen- to Democrático Brasileiro). A nova Constituição foi imposta, ou seja, outorgada em 24 de janeiro de 1967, sendo a mais autoritária da história constitucional brasileira. Formalmente, foi promulgada pelo Congresso Nacional, mas prevalece na doutrina a posição de que ela foi outorgada, pois o Congres- so Nacional foi fechado como forma de coação para que os congressistas a aprovassem. Mudou o nome do Brasil para República Federativa do Brasil. Entre outras medidas, destacam-se estas:  Período autoritário, sob pretexto de segurança nacional, os direitos fundamentais foram severamente restringidos.  Fim da eleição direta para presidente e outros cargos políticos. Eleição indireta.  Reduziram-se as competências estaduais e municipais.  Poder Executivo legislava por Decreto-Lei e Atos Institu- cionais. Na sequência do período ditatorial em 13 de dezembro de 1968, o Presidente do regime do militar Artur da Costa e Silva editou o Ato Institucional nº 5 (AI 5), recrudescendo ain- da mais as medidas autoritárias, como: suspensão de direitos políticos, cassação de mandatos dos parlamentares, possibili- 62 Direitos Humanos dade de fechamento do Congresso Nacional, suspensão das garantias dos magistrados e servidores públicos, proibição de habeas corpus em matéria de crimes políticos e outros. E, em 17 de outubro de 1969, foi editada e imposta por uma junta militar a Emenda Constitucional nº 1, que entrou em vigor em 30 de outubro de 1969. Manteve o golpe militar, determinando o recesso do Congresso Nacional e atribuindo plenos poderes à junta militar para agir como poder executivo, legislativo e judiciário. Implantou a perda do mandato parla- mentar em casos de atentado à ordem vigente, exigência de prévio esgotamento das vias administrativas para ingresso em juízo, entre outros dispositivos. Esse período registra na história brasileira o mais restritivo dos direitos humanos, prevalecendo o poder estatal sobre os direitos dos cidadãos com uso da violência e da censura para a contenção dos opositores. Os direitos individuais, como a vida, a liberdade, e os políticos, foram extremamente violados. 2.7 A Constituição Cidadã de 1988 e a instituição do Estado Democrático de Direito Após o longo período de ditadura imposta pelo regime militar, vem à luz os ares democratizantes do Brasil, com a promulga- ção da Constituição em 05 de outubro de 1988. Conhecida pela denominação de Constituição Cidadã, visto a ampla e necessária abordagem e valorização dos princípios democrá- ticos e da cidadania. Resultou do trabalho de uma Assembleia Constituinte legalmente convocada e eleita. Seus principais avanços são: Capítulo 2 História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos 63  Mantém a tradição republicana do regime representa- tivo, presidencialista e federativo, voltando os Estados- membros a gozarem de considerável autonomia. Con- cedeu autonomia ao Distrito Federal a aos Municípios, recebendo estes o status de entes da federação.  Tripartição dos poderes com independência e harmonia entre eles.  Tipo rígida, com matérias inseridas no rol das denomi- nadas cláusulas pétreas que não poderão ser modifi- cadas por emendas constitucionais, tais como: a forma federativa de Estado, o voto direto, secreto, universal e periódico, a separação dos Poderes, os direitos e garan- tias individuais.  Ampliação e fortalecimento considerável dos direitos fundamentais, garantindo, entre outros, o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.  Estabelece a educação fundamental como obrigatória, universal e gratuita.  Destaca o direito ao meio ambiente, atribuindo a sua defesa como competências concorrentes entre a União, Estados e Municípios.  Voto direto, secreto, universal e periódico como cláu- sula pétrea. Estendeu o direito de voto facultativo para os analfabetos e os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos. 64 Direitos Humanos  Previu três novos remédios constitucionais: Habeas data, mandado de segurança coletivo e mandado de injun- ção. A Constituição de 1988 adota como fundamentos do esta- do democrático de direito: a soberania, a cidadania, a digni- dade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, e o pluralismo político. E é a primeira a estabe- lecer os objetivos fundamentais da República que estabelece em alguns uma proposição positiva para a concretização da democracia econômica, social e cultural, para a efetivação na prática da dignidade da pessoa humana. Consagra os direitos fundamentais, abrangendo os direitos individuais, políticos e os transindividuais, como os coletivos e difusos. Além de ter uma carta amplificada e abrangente desses direitos, ela se insere no contexto internacional ao in- serir nesse rol uma série de direitos consagrados nos tratados internacionais. Como se percebe na análise dessa breve visualização das constituições brasileiras, os direitos humanos na República Nova (entre a ditadura civil do Estado Novo e a democracia, 1930-1964), teve uma importante expansão dos direitos so- ciais, advinda da evolução das Constituições, como a Mexica- na (1917), Russa (1917) e Alemã (1919), e as transformações da economia que se transfere do campo para a forte industria- lização do país. Os direitos humanos na ditadura militar carac- terizam-se pela intensa luta pelos direitos individuais e políticos (1964-1985). Após esse período, enfim, os direitos humanos, além de resgatarem a amplitude dos direitos individuais, políti- Capítulo 2 História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos 65 cos, e sociais priorizam na nova agenda a universalização dos direitos e a solidificação da democracia (1985-2015). 3 O Brasil e os Tratados Internacionais de Direitos Humanos Com a promulgação da Constituição de 1988, que está sus- tentada pelos fundamentos da cidadania e da dignidade da pessoa humana e o princípio orientador das relações interna- cionais de prevalência dos direitos humanos, o Brasil passou a ratificar uma série de tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. Entre eles, apontam-se:  Declaração Universal dos Direitos Humanos.  Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tor- tura (1989).  Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes (1989).  Convenção sobre os Direitos das Crianças (1990).  Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (1992).  Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1992).  Convenção Americana sobre Direitos Humanos (1992). 66 Direitos Humanos  Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradi- car a Violência contra a Mulher (1995).  Protocolo à Convenção Americana referente à Abolição da Pena de Morte (1996).  Protocolo à Convenção Americana referente aos Direi- tos Econômicos, Sociais e Culturais (1996). Estatuto de Roma que cria o Tribunal Penal Internacional (2002).  Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher (2002).  Dois Protocolos Facultativos à Convenção sobre os Di- reitos da Criança, referentes ao envolvimento de crian- ças em conflitos armados e à venda de criança e prosti- tuição e pornografia infantil (2004).  Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo (2009). A Declaração Universal dos Direitos Humanos decorre da criação da ONU e expressa um conjunto de princípios funda- mentais que traduzem a confluência democrática entre direitos e liberdades individuais e os deveres para com a comunidade em que se vive. Foi elaborada em forma coletiva, podendo ser compreendida como a base para a consolidação de valores universalmente desejáveis para a humanidade. Ela expressa a evolução até então conquistada da afirmação dos direitos humanos, como se pode ver, de forma resumida, dividindo-a Capítulo 2 História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos 67 em quatro partes. A primeira dedica-se aos direitos fundamen- tais que embasam todos os demais, como o direito à vida, à liberdade e à igualdade. A segunda dirige-se aos direitos civis e políticos, como o direito à não escravidão ou servidão, à não ingerência na liberdade, à defesa, à presunção de ino- cência, à privacidade e à honra, à liberdade de locomoção e residência, ao asilo e à nacionalidade. A terceira diz respeito aos direitos econômicos, sociais e culturais, tais como, o di- reito à livre união, à propriedade, à liberdade, de reunião e associação, de participação no governo, à segurança social, ao trabalho, ao descanso e lazer, à educação e à participação cultural. Por fim, a quarta divisão engloba os mecanismos de manutenção dos direitos adotados pela Declaração, como: o direito à realização dos direitos, à limitação dos direitos e à proteção dos direitos. Como visto, ela abrange um amplo le- que de direitos que colocam a humanidade em um patamar mais elevado de conscientização e afirmação dos direitos hu- manos, sendo um ponto de alavanca de novos tratados mais efetivos desses direitos. Em nível universal, a Declaração Universal dos Direitos Hu- manos inaugura a Carta de Direitos Humanos, que passa a ser integrada por dois Pactos Internacionais que visam a aplicar os princípios e valores consagrados em seu texto. Assim, em 1967, são adotados dois Pactos: o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Sociais, Econômicos e Culturais. Eles têm a função de des- crever e ampliar os direitos e operacionalizar sua aplicação, tornando-os mais efetivos. Através de sua ratificação (ato de reconhecimento do tratado como norma internacional e de se comprometer ao seu cumprimento perante a comunidade 68 Direitos Humanos internacional), o Brasil está comprometido com a sua norma- tização. No plano regional interamericano, a Convenção America- na sobre Direitos Humanos (CADH – denominada Pacto de São José da Costa Rica) foi celebrada em São José da Costa Rica, em 22 de novembro de 1969, vindo a ser ratificada no Brasil em 1992 e promulgada pelo Decreto nº 678, de 6 de novembro de 1992. A CADH teve por base a Declaração Uni- versal dos Direitos Humanos e está direcionada para o âmbito regional. Fundada no ideal do ser humano, isento do temor e da miséria e sob condições que lhe possibilite gozar dos seus direitos econômicos, sociais e culturais, bem como dos seus direitos civis e políticos. O documento é composto por 81 artigos, incluindo as disposições transitórias, que estabelecem os direitos fundamentais da pessoa humana, como o direito à vida, à liberdade, à dignidade, à integridade pessoal e moral, à educação, entre outros. A convenção proíbe a escravidão e a servidão humana, trata das garantias judiciais, da liberdade de consciência e religião, de pensamento e expressão, bem como da liberdade de associação e da proteção à família. Além de estabelecer um rol importante de direitos, ela criou dois organismos que constituem o sistema interamericano de proteção aos direitos humanos: a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana de Direitos Hu- manos. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos é en- carregada da promoção e proteção dos direitos humanos no continente americano, sendo um órgão autônomo da Orga- Capítulo 2 História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos 69 nização dos Estados Americanos (OEA). Composta por sete membros independentes, tem sede em Washington, D.C. Serve como órgão consultivo da OEA no campo do respeito e defesa dos direitos humanos, realizando suas atividades através de três pilares: o Sistema de Petição Individual, o monitoramento da situação dos direitos humanos nos Estados Membros e a atenção a linhas temáticas prioritárias. Entre casos enfrentados em relação ao Brasil perante a Co- missão, está o referente a Srª Maria da Penha Maia Fernandes, tema de violência doméstica. A Comissão, através dos seus procedimentos investigatórios, chegou à seguinte conclusão: “4. Que o Estado violou os direitos e o cumprimento de seus deveres segundo o Art. 7 da Convenção de Belém do Pará em prejuízo da Senhora Fernandes, bem como em conexão com os Arts. 8 e 25 da Convenção Americana e sua relação com o Art. 1(1) da Convenção, por seus próprios atos omissivos e tolerantes da violação infligida.” A mesma decisão foi exaustiva em apontar recomendações ao Estado brasileiro para, não somente apurar com mais ce- leridade os fatos, mas também adotar medidas educativas e estruturais para conter a violência doméstica. Entre elas des- taca-se a seguinte recomendação: “b) Simplificar os proce- dimentos judiciais penais a fim de que possa ser reduzido o tempo processual, sem afetar os direitos e garantias de devido processo. Certamente, as recomendações foram importantes para a nova normatização promulgada pela Lei nº 11.340, de 07 de agosto de 2006. Essa lei recebeu a denominação popular de “Lei Maria da Penha”. 70 Direitos Humanos A Corte Interamericana de Direitos Humanos teve sua juris- dição reconhecida pelo Brasil somente em 1998, após inúme- ras pressões internas, embora a Convenção tenha sido apro- vada em 1969 e ratificada em 1992. Em demandas judiciais perante a Corte, o Brasil já foi submetido a cinco condena- ções, que passamos a relatar abaixo: Caso XIMENES LOPES – primeira sentença a que o Brasil se submeteu, em 30 de novembro de 2005, por supostas condi- ções desumanas e degradantes da hospitalização de Damião Ximenes Lopes, uma pessoa com incapacidade mental, em um centro de saúde que operava dentro do marco do Sistema único de Saúde do Brasil, chamado Casa de Repouso Guara- rapes. Foi vítima de golpes e ataques contra sua integridade física por parte dos funcionários da Casa de Repouso, vindo a falecer enquanto era submetido a tratamento psiquiátrico. A falta de investigação adequada e de garantias judiciais, no caso, ocasionou no sistema brasileiro, a impunidade dos res- ponsáveis pelas agressões. Caso NOGUEIRA – prolatada em 28 de setembro de 2006, foi motivada pela falta da devida diligência no proces- so de investigação dos fatos para a punição dos responsáveis pela morte de Francisco Gilson Nogueira de Carvalho. Era um advogado defensor dos direitos humanos que denunciara os crimes praticados pelos “homens de ouro”, um suposto grupo de extermínio constituído por agentes públicos. Ele foi morto em 20 de outubro de 1996, na cidade de Macaíba, Rio Gran- de do Norte. Caso ESCHER – sentença de 06 de julho de 2009, devido à interceptação e monitoramento ilegal de linhas telefônicas Capítulo 2 História e Legislação Nacional dos DireitosHumanos 71 de membros das organizações ADECON e COANA, ocorridas entre abril e junho de 1999, realizada pela Polícia Militar do Estado do Paraná; pela divulgação das conversas telefônicas, bem como a denegação da justiça e reparação adequada. Caso GARIBALDI – sentença de 23 de setembro de 2009. A demanda decorreu da responsabilidade do Estado pelo des- cumprimento da obrigação de investigar e penalizar o homicí- dio do Sr. Sétimo Garibaldi, ocorrido em 27 de novembro de 1998, durante um operação extrajudicial de reintegração de terra de famílias de trabalhadores rurais sem terra, que ocupa- vam uma fazenda localizada no Município de Querência do Norte, Estado do Paraná. Caso LUNG – sentença de 24 de novembro de 2010, re- lativa à responsabilidade do Estado pela detenção arbitrária, tortura e desaparecimento forçado de 70 pessoas, entre mem- bros do Partido Comunista do Brasil e agricultores da região, resultado de operações do Exército brasileiro empreendidas entre 1972 e 1975, com o fim de erradicar a Guerrilha do Araguaia, no contexto da ditadura militar no Brasil (1964- 1985). O alcance da jurisdição da Corte amplia os recursos de proteção dos direitos humanos que diante da ineficiência do sistema nacional, possibilita uma alternativa para a sua ga- rantia. A Convenção (Cv) Internacional sobre os Direitos das Pes- soas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, foi aprovada no Congresso Nacional já em consonância com o rito estabe- lecido pela Emenda Constitucional nº 45/2004, que incluiu o 72 Direitos Humanos § 3º, no Art. 5º da Constituição Federal. Assim, suas normas tem a hierarquia de direito fundamental, ou seja, passam a ser uma norma constitucional. Esse rito foi introduzido na Cons- tituição brasileira pela EC. Nº 45, de 2004, dispondo que o tratado que for votado duas vezes em cada casa do Congresso Nacional, com quórum de 2/3 de aprovação, terá equivalência às normas constitucionais. A Cv sobre os direitos das pessoas com deficiência atendeu esse dispositivo, portanto, suas nor- mas tem esse status constitucional. Já os tratados referentes à proteção dos direitos humanos que não foram ou não venham as ser submetidos a esse procedimento terão hierarquia e na- tureza de norma supralegal, conforme entendimento jurispru- dencial do Supremo Tribunal Federal (ver, p.ex.: RE 466.343- 1), ou seja, estão acima das leis ordinárias e subordinadas à Constituição. O corolário da adoção desse tratado é a recente edição do Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência – Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015). A importância do reconhecimento desses tratados pelo Bra- sil é destacada por Flávia Piovesan, pois apresentam um du- plo impacto, pois podem ser acionados perante as instâncias nacionais e internacionais. No âmbito nacional, conjugam-se com o Direito interno, ampliando, fortalecendo e aprimorando o sistema de proteção dos direitos humanos, sob o princípio da primazia da pessoa humana. No âmbito internacional, por sua vez, possibilitam invocar a tutela perante os sistemas inter- nacionais, como, por exemplo, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a judicialização perante a Corte Interame- ricana de Direitos Humanos. O Estado tem a responsabilidade primária de prevenir, proteger e adotar medidas perante as Capítulo 2 História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos 73 possíveis violações. Já no campo internacional, a responsabi- lidade é subsidiária, atuando quando as instituições nacionais se mostrarem falhas ou até mesmo omissa na proteção ou diante das violações perpetradas. O resultado dessa interação entre os instrumentos internacionais adotados pelo Brasil é o avanço interno e o aperfeiçoamento das instituições, da le- gislação e das políticas públicas, que voltam-se à promoção, proteção e efetivação dos direitos humanos. Entre a legislação já em vigor, destacam-se, exemplarmen- te, as seguintes: a Lei nº 9.455, de 07 de abril de 1997, que define o crime de tortura; a Lei nº 2.889, de 01 de outubro de 1956, sobre o crime genocídio; a Lei nº 8.842, de 04 de janeiro de 1994, que estabelece a Política Nacional do Idoso; a Lei nº 4.898, de 09 de dezembro de 1965, que trata do abu- so de autoridade; a Lei nº 7.716, de 05 de janeiro de 1989, que define os crimes resultantes de preconceitos de raça ou de cor; e, a Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, que institui a Política Nacional do Meio Ambiente. Como se pode observar, o Brasil reconhece inúmeros tra- tados internacionais de direitos humanos, estando perfilado ao desenvolvimento dessa área. Temas como a proibição da tortura, dos direitos da criança, da mulher e relações de gê- nero, discriminação racial e de orientação sexual, direitos do idoso, direitos das pessoas com deficiência física, entre outros, ampliam e aperfeiçoam a carta de proteção da Constituição Federal, atendendo ao princípio fundamental da dignidade da pessoa humana. Agora, é preciso maior conscientização sobre esses direitos conquistados e o esforço conjunto de uma socie- dade que esteja em sintonia para reconhecê-los, respeitá-los 74 Direitos Humanos e lutar para sua efetivação, como ponto decisivo para o seu desenvolvimento social e civilizacional. Recapitulando Com a evolução das tratativas da comunidade internacional tendo como agenda prioritária a pessoa humana, decorrente das atrocidades vivenciadas na primeira parte do século XX, inaugura-se um novo campo de direito internacional: o direito internacional de direitos humanos. O Brasil, nesse contexto, desempenhou importante papel, estando presente, desde a edificação da ONU até a edição da Declaração Universal dos Direito Humanos. Assim, insere-se no ambiente democrático de afirmação dos direitos humanos. Os direitos humanos consistem um conjunto de normas funda- mentais da pessoa humana da qual, sem sua proteção, não é possível existir e ter condições de se desenvolver na sociedade. As constituições brasileiras têm apresentado momentos de ampliação e de restrição de direitos, de acordo com períodos ditatoriais e democráticos, Na primeira Constituição de 1924, outorgada por D. Pedro I, já apresenta um rol de direitos e garantias fundamentais, como a educação primária gratuita. Mas limitava o exercício dos direitos políticos e dos poderes institucionais do Estado. Já em 1991, era promulgada a pri- meira constituição republicana, adotando o federalismo e a tripartição de poderes. Amplia o rol de direitos e, entre eles a garantia do habeas corpus e os direitos políticos. Em 1934, a constituição promulgada consagra o voto obrigatório e secre- Capítulo 2 História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos 75 to, e o voto da mulher, além de estabelecer um rol de direitos sociais, econômicos e culturais. Em 1937, há um revés nos direitos com a outorga da Constituição denominada de “po- laca”. Houve restrição de direitos e das funções dos poderes legislativo e judiciário. A constituição de 1946 redemocratizou o país, retomando a organização dos poderes e afirmação dos direitos individuais e sociais, econômicos e culturais. Posterior- mente, um novo revés democrático, com a outorga da Cons- tituição de 1967, em plena ditadura civil-militar, com ampla restrição de direitos individuais, de liberdades e políticos. Chega-se à Constituição democrática de 1988. Torna-se um marco pela amplitude de direitos fundamentais que abran- ge, dispondo sobre inúmeros instrumentos de sua garantia. Essa constituição que vigora atualmente tem sua importância firmada em trazer para a sociedade a conscientização sobre os direitos fundamentais. Possibilita ao estado brasileiro uma maior inserção no cenário internacional dos direitos humanos, interagindo através da adoção e integração com os sistemasinternacionais de proteção. Inúmeros tratados internacionais de direitos humanos são adotados pelo Brasil após a sua promulgação, entre eles os Pactos Internacionais de Direitos Civis e Políticos e o Pacto In- ternacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, em nível universal, e no âmbito regional a Convenção Interameri- cana de Direitos Humanos, entre outros. Essa ampla interação entre os tratados internacionais e a legislação interna tem construído um ambiente de maior prote- ção aos direitos humanos, não só na dimensão de seu alcan- 76 Direitos Humanos ce, mas na possibilidade de buscar nas instâncias internacio- nais a sua tutela. Por fim, a abordagem de temas como a proibição da tor- tura, dos direitos da criança, da mulher e relações de gênero, discriminação racial e de orientação sexual, direitos do idoso, direitos das pessoas com deficiência física, entre outros, am- pliam a carta de proteção da Constituição Federal, atendendo ao princípio fundamental da dignidade da pessoa humana. Mas necessitam, ainda, de aprofundado debate público quan- to a sua conscientização, pois o reconhecimento já está con- solidado, mas sua aplicação no dia a dia das pessoas precisa ser aperfeiçoado e efetivado. Referências ABREU, Sérgio Roberto de. 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Capítulo 2 História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos 81 d) Retomou o pacto federativo com maior autonomia dos Estados e excluiu a censura. e) Implantou a ditadura do Estado Novo. 3) Encerrando o período da ditadura civil-militar e dando iní- cio à democratização do país, a Constituição brasileira de 1988, foi denominada de Constituição Cidadã pelos se- guintes atributos, EXCETO: a) A ampliação e fortalecimento considerável dos direi- tos fundamentais, garantindo, entre outros, o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à pro- priedade. b) A adoção do Voto direto, secreto, universal e periódico como cláusula pétrea. Estendeu o direito de voto facul- tativo para os analfabetos e os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos. c) Pela previsão de três novos remédios constitucionais: Habeas data, mandado de segurança coletivo e man- dado de injunção. d) Pelo reconhecimento da tripartição dos poderes com independência e harmonia entre eles. e) Pelo estabelecimento da pena de morte, dentre outros, para os crimes políticos e homicídios cometidos de for- ma perversa ou por motivo fútil. 4) A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, promulgada 82 Direitos Humanos e ratificada pelo Brasil em 2009, tem sua hierarquia e na- tureza jurídica de: a) Norma constitucional. b) Norma supralegal. c) Norma supraconstitucional. d) Norma legal. e) Norma administrativa internacional. 5) Sobre a participação do Brasil no Sistema Interamericano de Direitos Humanos, é CORRETO afirmar que: a) O Brasilpassou a reconhecer a competência jurisdi- cional da Corte Interamericana de Direitos Humanos somente em 1998, sendo alvo de condenações como no caso LUNG, que trata dos desaparecimentos força- dos no combate à guerrilha do Araguaia. b) A Comissão Interamericana de Direitos Humanos ain- da não abordou casos de violação dos direitos huma- nos no Brasil. c) O Caso Maria da Penha foi submetido à Corte Intera- mericana de Direitos Humanos obtendo-se sentença favorável a suas demandas. d) A Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes (1989) não en- contra respaldo no direito brasileiro, pois, mesmo rati- ficada, não há lei que traduza seus dispositivos para a execução. Capítulo 2 História e Legislação Nacional dos Direitos Humanos 83 e) O Brasil reconhece inúmeros tratados internacionais de direitos humanos, estando perfilado ao desenvol- vimento dessa área. No entanto, NÃO tem legislação nos seguintes temas: a proibição da tortura, dos direi- tos da criança, da mulher e relações de gênero, dis- criminação racial e de orientação sexual, direitos do idoso, e direitos das pessoas com deficiência física. Prof. Dr. Honor de Almeida Neto1 Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos1 1 Doutor em Serviço Social pela PUCRS de Porto Alegre (2004) e Graduado em Ciências Sociais pela mesma Universidade (1995). Coordenador do curso CST em Gestão Pública na modalidade EAD e do curso de Ciência Política da ULBRA Canoas. Integra o grupo de pesquisa Sociedade Informacional, Individualidades, Políticas Sociais da ULBRA. Pesquisador com experiência na área das Ciências Hu- manas com ênfase na análise de processos de formação da Criança e do Adoles- cente e do impacto das NTIC na qualidade das relações humanas e sociais. Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos 85 Introdução Para um melhor entendimento da relação indissociável entre Direitos Humanos e Direitos da Infância e, sobretudo, para que você aluno compreenda melhor as reflexões e problema- tizações que este capítulo propõe, é necessário em primeiro lugar uma aproximação de conceitos. Ou seja, é importante que você perceba a partir de que lugar falamos quando no- meamos as palavras e os seus significados. Essa elucidação de conceitos é fundamental para que nossa comunicação fique clara. Começamos pelo conceito de infância, que como todos os conceitos buscam uma aproximação com a realidade como forma de desvendá-la, de descrevê-la. Os conceitos são sem- pre provisórios e históricos, pois necessitam da contrapartida da realidade para manterem-se atuais e, sobretudo, úteis. Úteis para que na relação com outros conceitos formem teorias. É essa uma das características que distingue o saber científico de outras formas de conhecimento (religioso, artístico, popular). É sobretudo o fato de que na ciência é preciso demonstrar atra- vés de dados as afirmações (teses, hipóteses, teorias, concei- tos), que permitem que esse saber seja aprimorado. Conceitos e teorias buscam desvendar padrões de funcionamento das coisas (realidade), para que com base nesses padrões cons- truam-se ações, intervenções. Visam aproximar o subjetivo do objetivo, já que a ciência busca uma maior objetividade na descrição/análise da realidade. Daí que o conceito de infân- cia ajuda-nos a entender os estágios de desenvolvimento e de formação do homem (adulto). São indicadores da infância, o 86 Direitos Humanos tempo do brinquedo, do ócio em detrimento do tempo do tra- balho (emprego), a imaturidade emocional, física e assim por diante. Trata-se de um período que requer proteção. Lembre- -se que indicadores são necessários para essa aproximação entre o conceito e a realidade que ele busca desvendar. Sem indicadores os conceitos não poderiam ser aprimorados. Mas o que é a infância? O que afinal diferencia o adulto da criança? E mais, é possível ser criança sem ter infância? O ser humano é o único ser vivo que não nasce “pronto”. Precisa ser formado. E sua formação2, ou a forma como é for- mado, vai depender, é claro, da qualidade das relações que ele estabelece. O ser humano é uma parte inserida em um todo, a sociedade. O homem produz a sociedade através da cultura e é produzido por ela. De resto ainda somos diferentes uns dos outros, pois estabelecemos relações sociais diferentes, experiências particulares diferentes que nos formam de uma ou de outras tantas formas possíveis. Somos necessariamente seres sociais, só existimos na nossa relação com o outro, a partir da qual nos construímos. Por isso que ser criança (cro- nologicamente falando) não significa necessariamente ter in- fância. Quando falamos em criança logo nos vem à cabeça a ideia de um “futuro” adulto, um ser ainda em processo de formação. Ainda em fase de maturação física e biológica, em 2 Formação é a ação pela qual algo se forma, é produzido; é a ação de formar, de organizar, de instruir, de educar e seu resultado. E formado é aquele que recebeu uma certa forma; que foi habituado conforme tal for- ma ou tal feitio” (MIALARET apud DESAULNIERS, 1997, p. 191). Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos 87 pleno processo de desenvolvimento ósseo e muscular, de ta- manho, de força física. Nesse sentido crianças são diferen- tes de adultos. No entanto, também distinguimos crianças de adultos quando pensamos no fato de estar esse pequeno ser ainda em processo primário de constituição. Falamos aqui da diferença entre a capacidade de um adulto e de uma criança em suportar todo e qualquer tipo de pressão (física, emocio- nal, psíquica, intelectual). Por isso que a infância é análoga ao aprendizado da linguagem. Tem uma base biológica, mas não pode se concretizar a menos que um ambiente social a ative e a alimente... se as necessidades da cultura não a exigem, então a infância continua muda (POSTMAN, 1999). A criança enquanto um sistema vivo humano requer cuida- do, para relacionar-se, experimentar, expor-se em ambiente de respeito do seu ser. Para essa construção, o tempo é central. Tempo em que é criança, tempo para brincar, tempo para o ócio, tempo sem estresse, tempo livre. Tempo que respeite o seu tempo, tempo de maturação para o ingresso nos segredos do mundo adulto como a sexualidade, as mazelas da socie- dade, a violência, dentre outros. E é brincando que a criança experimenta o mundo e experimenta a si própria nesse mundo. Por isso dizemos que o brinquedo é o trabalho da criança, já que é através do brinquedo que a criança vai gradativamente inserindo-se no mundo do adulto e construindo-se como adul- to, numa relação protegida com esse mundo. Os cuidados demandados pela infância são bem descritos pelos versos a seguir do poeta gaúcho e brasileiro Jaime Caetano Braun: “...Canto a esperança dos velhos 88 Direitos Humanos E a ânsia da Juventude Canto a infância Essa planta que merece ser cuidada A planta mais delicada que nos ares se levanta Ela é a cultura mais santa Precisa de água e calor Porque Deus nosso senhor Fez a luz Fez a umidade Para que houvesse liberdade E dela brotasse a flor...“. (BRAUN, 2000) A infância é, então, como uma planta, precisa ser irrigada, requer cuidados para que floresça e para que seu fruto adul- to seja um ser hominizado3, produtivo e solidário. A criança, portanto não é um adulto em miniatura. A imagem de uma criança não se aproxima com a imagem de um anão. 3 HOMINIZAÇÃO: "Em suma, a hominização, o processo de surgimen- to do gênero humano, não terminou, mas acelera-se de maneira brutal. Porém, ao contrário do que ocorreu no momento do nascimento de nossa espécie, ou por ocasião da primeira grande mutação antropológica (a do neolítico, que viu surgir a pecuária, a agricultura, a cidade, o Estado e a escrita), temos agora a possibilidade de pensar coletivamenteessa aventu- ra e influenciá-la [...] pensar em novas bases, os problemas do laço social” (LEVY, 1999, p. 14). Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos 89 Não é essa a visão que você tem de uma criança, não é mesmo? Mas nem sempre essa foi a noção que a humani- dade construiu para relacionar-se e lidar com suas crianças. A construção da infância enquanto um período privilegiado a ser cuidado e protegido nem sempre existiu na história da humanidade, pois: [...] a ideia de infância é uma das grandes invenções da renascença. Talvez a mais humanitária junto com a ciência e com o estado-nação e a liberdade da religião [...] surgiu por volta do século XVI [...] a infância é um artefato social, não uma categoria biológica, existem a menos de 400 anos nos EUA latu senso a 150 anos [...] mas se tomarmos a palavra criança para significar uma classe especial de pessoas situadas entre 7 e 17 anos com formas especiais de criação e proteção, então as crianças existem há menos de 400 anos [...] a indicação exata da idade de uma criança é um hábito recente com não mais de 200 anos [...]. (POSTMAN, 1999, p. 12) Uma rápida passagem pelo curso da nossa história distin- gue as formas como a humanidade tratou e concebeu suas crianças e o papel que estas tiveram dentro das famílias. Tendo como recorte a Idade Média (Idade das Trevas), neste período a noção de infância como hoje concebemos não existia: Essa sociedade via mal a criança, e pior ainda o adoles- cente [...] a duração da infância era reduzida a seu perí- odo mais frágil, enquanto o filhote do homem ainda não conseguia bastar-se; a criança então, mal adquiria al- gum desembaraço físico, era logo misturada aos adultos, 90 Direitos Humanos e partilhava de seus trabalhos e jogos. De criancinha pequena, ela se transformava imediatamente em homem jovem, sem passar pelas etapas da juventude, que talvez fossem praticadas antes da Idade Média e que se torna- ram aspectos essenciais das sociedades evoluídas de hoje. (ARIÉS, 1979, PREFÁCIO, IX) [grifo meu] Na Idade Média, as famílias tinham como função e como missão a conservação de seus bens materiais, a prática de algum ofício, e a proteção em um mundo em que um homem, e, ainda mais, uma mulher isolados não podiam sobreviver. As famílias, portanto, não tinham função afetiva. Não que o amor entre seus membros não pudesse existir ou não existisse na prática. Esse era por muitas vezes construído através do conví- vio e da proteção mútuas. Com a industrialização e a chegada da modernidade esse quadro mudou. A criança assume um novo lugar assim como a família. A partir do fim do século XVII a escola passa a substituir a aprendizagem que antes se dava na família, na relação direta entre os afazeres dos adultos, junto com as crianças. Nas palavras de Rubem Alves: Até que chegou o dia em que lhe foi dito: – É preciso ir para escola. Todos os meninos vão. Para se transfor- marem em gente. Deixar as coisas de criança. Em cada criança brincante dorme um adulto produtivo. É preciso que o adulto produtivo devore a criança inútil. E assim aconteceu. Há certos golpes do destino contra os quais é inútil lutar [...] (ALVES, 1984) Esse sentimento de infância, enquanto um período privile- giado de formação do ser e que requer proteção e cuidados tanto da família quanto da sociedade, surge com a moder- Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos 91 nidade4, sendo a sua utopia mais duradoura, pois, “...como tantos outros ideais imaginados nos últimos 200 anos, o do mundo maravilhoso das crianças também entra em crise na era pós-industrial e pós-moderna. [...]“ (CALLIGARIS, 1994, p. 6-4). Hoje na contemporaneidade, a condição social da infância objetivamente mudou drasticamente e colocou em cheque o conceito moderno. A violência, o abandono, o trabalho infan- til, o consumismo infantil dentre outros tantos exemplos, apon- tam para outro lado do mundo infantil oposto ao dos sonhos da humanidade, transformando-o “numa caricatura perversa do próprio mundo adulto” (CALLIGARIS, 1994). Na prática, constroem-se novas formas de constituição da infância, pois: A infância “burguesa” dos novos tempos, infância esta reinante nos estratos sociais médios, aquela mesma à qual se permitiu estender os anos de vida como criança num mundo protegido das preocupações, tem também, hoje, sua extensão cada vez mais encurtada. Com uma vida organizada basicamente em função das expectativas e pretensões dos adultos, a criança volta novamente a ser vista como “adulto em miniatura”. (CALLIGARIS, 1994) 4 A modernidade costuma ser entendida como um ideário ou visão de mundo relacionada ao projeto empreendido a partir da transição teóri- ca operada por Descartes, com a ruptura com o pensamento medieval e o estabelecimento da autonomia da razão, o que teve enormes reper- cussões sobre a filosofia, a cultura e as sociedades ocidentais. O proje- to moderno consolida-se com a Revolução Industrial e está normalmen- te relacionado com o desenvolvimento do capitalismo. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Modernidade>. 92 Direitos Humanos São inúmeros os indicadores da incapacidade atual da so- ciedade em distinguir claramente traços da idade adulta com traços da infância. Tais como as formas de vestir, a linguagem, os jogos (hoje não mais interativos, lúdicos e sim competitivos como são os dos adultos) e, principalmente, os crimes contra crianças: [...] garotas de doze anos estão entre as modelos mais bem pagas do país [...] diminuiu a diferença entre crimes de crianças e de adultos em todo o mundo [...] nas úl- timas décadas a indústria de roupas infantis sofreu mu- danças tão aceleradas que as roupas infantis desapare- ceram [...] os jogos, os comportamentos, as linguagens, as atitudes e os desejos estão iguais aos dos adultos [...] (idem, p. 18) Não por acaso observa-se uma erotização cada vez mais precoce das crianças e dados atuais apontam que: [...] a violência sexual contra crianças e adolescentes, principalmente entre crianças até 9 anos de idade, é o segundo principal tipo de violência, ficando pouco atrás apenas para as notificações de negligência e abando- no [...] em 2011, foram registrados 14.625 notificações de violência doméstica, sexual, física e outras agressões contra crianças menores de dez anos. (http://www.bra- sil.gov.br/cidadania-e-justica/2013/01/pais-incentiva- -combate-ao-abuso-e-exploracao-sexual-contra-crian- cas-e-adolescentes). Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos 93 Se a sociedade lida com crianças de forma semelhante como lida com adultos, como distinguir essas duas catego- rias? No Brasil, por exemplo: [...] o número de homicídios contra jovens entre 1980 e 2010 cresceu 346%. O Estado mais violento para os jo- vens, segundo o relatório, é Alagoas, com 34,8 homicí- dios para cada 100 mil crianças e adolescentes. O mais seguro é o Piauí, com 3,6 casos registrados para cada 100 mil. (http://www.terra.com.br/noticias/infograficos/ mapa-da-violencia-contra-jovens) As tecnologias (mediações sociais) têm um papel central para essa distinção. A escola criou a alfabetização, pois é pre- ciso lembrar que na Idade Média quase todos eram analfabe- tos. A ausência da alfabetização, da educação e da ideia de vergonha são as razões para que o conceito de infância não existisse no mundo medieval. A escrita enquanto uma tecno- logia de comunicação foi fundamental para a construção do imaginário de infância já que a partir da invenção da prensa, a idade adulta tinha de ser conquistada. Com a escrita e a necessidade da criança em se alfabetizar para ingressar nos segredos do mundo adulto, havia uma possiblidade maior de controle e de distinção entre crianças e adultos, “...ao escrever livros e organizar classes escolares de acordo com a idade cronológica,os professores inventaram, por assim dizer, os es- tágios da infância (POSTMAN, 1999, p. 59). [grifo meu] Essa é a razão pela qual, em todas as fontes, descobre- -se que na Idade Média a infância terminava aos sete anos... porque é nessa idade que as crianças dominavam a palavra... 94 Direitos Humanos Não é por acaso que a Igreja Católica escolheu os sete anos como a idade em que era de supor que se passava a conhe- cer a diferença entre o certo e o errado, a idade da razão (POSTMAN, 1999). O avanço das tecnologias rompe com esse controle impos- to pelos limites da alfabetização, pois a comunicação passa a ser imagética: [...] a televisão destrói a linha divisória entre infância e idade adulta: primeiro, porque não requer treinamen- to para apreender sua forma; segundo porque não faz exigências complexas nem à mente nem ao comporta- mento; e terceiro porque não segrega seu público [...] recria as condições que existiam no século XIV e XV. Bio- logicamente estamos todos equipados para ver e inter- pretar imagens, para ouvir a linguagem e contextualizar as imagens [...] a mídia eletrônica acha impossível reter quaisquer segredos. Sem segredos, evidentemente, não pode haver uma coisa como infância (idem, p. 94). [grifo meu] Nas palavras de Postman, ninguém contestou que há um sentido em que os adultos dão o melhor de si e se mostram mais civilizados quando tendem a cuidar das crianças. Ao di- zermos o que queremos que uma criança venha a ser dizemos o que somos... E na medida em que houve qualquer aumento de empatia e sensibilidade - de simples humanitarismo - na civilização ocidental, isso seguiu o caminho do fortalecimento da ideia de infância (POSTMAN, 1999). [grifo meu] Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos 95 1 A Infância na Terceira Revolução Industrial A história das relações humanas e da construção social dos fenômenos não pode ser desvinculada da história das media- ções sociais, das tecnologias disponíveis em cada período his- tórico, bem como das transformações que a penetrabilidade dessas mediações instaura nas sociedades, em todas as suas dimensões. Daí a importância em fazermos uma análise só- cio técnica dos Direitos das Crianças e Adolescentes, ou seja, uma análise que tenha como centro as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTIC), essas novas mediações, que rompem com relações sociais tradicionais e incidem dire- tamente na forma de constituição da infância. Na relação entre ser criança (idade biológica) e ter in- fância (tempo do brinquedo), a criança tem infância quando brinca, quando se dedica ao ócio, e se adultiza quando tem muita responsabilidade, controle, rigidez, compromisso. Hoje, as crianças são questionadas desde cedo, sobre o que serão quando crescerem, e na própria escola, desde as séries ini- ciais, por incrível que pareça, alunos ainda são preparados para o ingresso no vestibular, sob o incentivo e a concordância dos pais. Mesmo que, no caso do Brasil, o próprio vestibular esteja hoje em processo de extinção. Estamos, portanto diante de uma nova infância. 96 Direitos Humanos É justamente diante deste “vendaval tecnológico”5 - que as- sola a sociedade mundial e que rompe com as noções clássicas de tempo e de espaço - que as crianças, independentemente de camada social, deparam-se com um universo de obriga- ções e responsabilidades que as adultizam precocemente. A ideia de tempo livre é rompida pelo acúmulo de atividades que os pais e suas circunstâncias impõem às crianças. Frente à incerteza que caracteriza nossa era e a velocidade das mudan- ças que a interatividade crescente instaura, os pais sentem-se, por vezes, inseguros sobre a melhor e mais adequada forma- ção que devem buscar instaurar em seus filhos, para atender as demandas e apelos da sociedade informacional6. Diante disso, recorrem a um universo de obrigações, impondo um acúmulo de trabalho para a criança, esquecendo-se, assim, da infância e dos seus postulados. Dar ocupação às crianças, esse é um paradigma que nor- teia a forma como tratamos nossas crianças na contempora- neidade. Nesse aspecto as crianças são, assim, dissociadas das suas condições de seres em processo primário de sociali- zação. Na sociedade da Terceira Revolução Industrial, a metá- fora da criança como uma planta a ser cuidada é colocada em tensão, em xeque pela metáfora do Supergaroto. Perceber os 5 Para maiores referências desse conceito acesse esse jogo interativo que constitui-se uma metáfora para o entendimento dos códigos que distin- guem a era digital. Disponível em: <http://www.pucrs.br/edipucrs/online/ vendaval/capavendaval.html>. 6 Velocidade, imprevisibilidade, visibilidade, fluidez, complexidade e inúmeras possibilidades (virtualidades) são as principais dimensões do conceito de Rede Di- nâmica que caracteriza e distingue a sociedade informacional. Disponível em: <http://www.pucrs.br/edipucrs/online/trabalhoinfantil.pdf>. Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos 97 nossos filhos como supergarotos é aderir a uma noção equi- vocada sobre a capacidade e as condições das crianças em se adaptarem às mudanças destes novos tempos, e, sobretudo, ao ritmo de vida, cada vez mais alucinante dos seus pais: Como o super-herói, o Supergaroto tem poderes espe- taculares e uma competência precoce, mesmo quando bebê. Isso permite aos adultos pressionar impunemente a infância [...] A concepção das crianças como competen- tes para lidar com qualquer coisa que a vida tenha a ofe- recer, e ainda se beneficiar disso, foi uma racionalização eficaz para os pais que continuam a amar seus filhos, mas não têm o tempo nem a energia para cuidar da infância. (ELKIND, 2004, p. 19) [grifo meu] O problema é que, como todos os mitos, o mito do su- pergaroto não se sustenta. O ser humano não nasce pronto e nenhuma criança tem superpoderes, nenhuma criança é um adulto7. O ritmo acelerado de vida dos pais, que efetivamente impede ou dificulta um acompanhamento e um diálogo com seus filhos, além do tempo cada vez mais reduzido em que es- tão com a família e a condição cultural, são questões centrais. As famílias hoje dividem com terceiros, sobretudo com as mí- dias, a responsabilidade da formação de suas crianças. Isso faz com que a criança seja influenciada, na maior parte das vezes, por valores estritamente relacionados ao incentivo ao consu- mo, voltados ao consumo. Vivemos em uma sociedade que é modelada cada vez mais pelo consumismo e pelos interesses 7 Para uma análise da adultização precoce de crianças envolvidas no mundo do fute- bol profissional leia o artigo “Futebol e Infância: Formação de Crianças e Adolescentes das Categorias de Base do Sport Club Internacional. Prâksis (FEEVALE), 2015”. 98 Direitos Humanos do mercado, daí que “estamos atravessando um daqueles pe- ríodos da história, como as primeiras décadas da Revolução Industrial, em que as crianças são as vítimas involuntárias da revolta e da mudança da sociedade” (ELKIND, 2004). Na verdade parece mesmo que não temos mais tempo para cuidar de nossos filhos, pois utilizamos o cada vez mais escasso tempo que temos para trabalhar, para ganhar dinhei- ro, para então poder consumir e/ou saciar o desejo de consu- mo também das crianças. 2 Direitos Humanos e Trabalho Infantil Vivemos em um período em que causas e bandeiras históricas que apontavam para um avanço da sociedade e da humani- dade como um todo estão sendo colocadas novamente em xe- que. Ao longo da história da humanidade, o desenvolvimento das sociedades nunca foi construído de forma linear, sempre tivemos períodos de avanços e retrocessos. Hoje, no mundo inteiro, mas sobretudo no Brasil, não é diferente. E embora tenhamos no país talvez a legislação mais avançada do mun- do, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Doutri- na deProteção Integral de crianças e adolescentes adjacente a esta lei, ainda não a entendemos bem e, pior, ainda não a aceitamos. O ECA fará 25 anos, já atingiu há tempos sua maioridade, mas encontra cada vez mais resistências, sobretu- do culturais. Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos 99 Se as leis antecedem os costumes, parece que no Brasil ocorre o contrário, as leis antecipam-se aos costumes, aos há- bitos. Esse é um papel que por vezes o Estado precisa assumir em sociedades ainda não desenvolvidas e humanizadas como a nossa. Frente a campanhas voltadas à redução da maiori- dade penal, frente ao envolvimento de crianças e adolescentes no mundo do crime, sobretudo o tráfico de drogas, para ficar- mos com dois exemplos apenas, pode até soar provocativo ou utópico que se considere o trabalho e todo o imaginário que cerca o ato de trabalhar como algo prejudicial. Daí a dificuldade de se falar em erradicação do trabalho infantil e proteção do trabalho adolescente no Brasil. O trabalho infantil é uma das chagas mais perversas do capitalismo, o suprassumo da espoliação e da exploração do trabalhador que, além de ter que vender sua mão de obra a preços aviltantes, e a um custo de reprodução8 que lhe é muito caro, desgastando-o, necessita ainda colocar à venda a mão de obra de seus filhos no mercado para “completar” o orça- mento familiar. O trabalho infantil compromete a formação da criança, afastando-a da escola, por exemplo, e criando um ci- clo. Um ciclo de pobreza entre a precária formação e os baixos salários recebidos no mercado de trabalho quando essa crian- ça se transformar em adulto (sem qualificação). Assim, cria-se um ciclo dentro da família, que tende a perpassar as gerações: 8 Quando nos referimos ao custo de reprodução da mão de obra, falamos do ganho mínimo necessário para que o trabalhador possa se alimentar, sair de casa e cumprir sua carga horária de trabalho. A cesta básica e o salário-mínimo são, ou deveriam ser, calculados para garantir esse custo mínimo de reprodução. 100 Direitos Humanos Existe por trás das iniciativas de colocar a criança no tra- balho um preconceito social, ou seja, para o filho do rico se destina a escola, e um futuro brilhante e um trabalho qualificado após tantos anos de qualificação, para o fi- lho do pobre o trabalho é a sua escola, é destinado a ser um trabalhador, já desde a sua origem de classe. Além disso talvez por uma herança marcada pelo meio rural que temos aí, há uma sobrevalorização do papel do tra- balho como fator de integração social e como fator de educação mesmo. (VARGAS, 2001) Trata-se de um tema cercado de mitos, e os mitos são pe- rigosos, pois inibem a capacidade do pensamento. A ciên- cia embora tenha também seus mitos, tem na exigência de demonstração de seu discurso uma estratégia para desmis- tificação e combate aos preconceitos. Vejam que os saberes instaurados nas crianças através do emprego são insuficientes para o ingresso no mercado de trabalho na sociedade infor- macional. A entrada no mercado de trabalho deixou de ser um critério de vantagens em relação àquele que não trabalha precocemente, e que tem, assim, uma qualificação mínima. Ou seja, o pretexto de que o trabalho infantil inclui, forma o cidadão e integra, nessa perspectiva não se sustenta, é mito. Na prática há a utilização de uma mão de obra muito mais dócil e muito mais barata em uma condição de emprego, que pela sua natureza ilegal é precária. Além disso, a criança no trabalho ocupa o lugar de um adulto e “nós não podemos tro- car um pai desempregado com um custo social tremendo em troca de um menor subempregado” (VARGAS, 2001). Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos 101 Também a ideia de que o trabalho infantil afasta da mar- ginalidade é um mito, pois mais de 90% dos jovens que cum- prem medidas sócio-educativas trabalharam quando crianças. O que percebemos aqui é uma noção de que o jovem de seg- mentos populares deve ser contido pelo trabalho, um precon- ceito que relaciona diretamente pobreza com marginalidade. São vigentes concepções de que a melhor e, possivelmen- te, a única escola para a criança pobre é o trabalho pois: o trabalho da criança e do adolescente das classes po- pulares é visto em nossa sociedade como um mecanismo disciplinador, capaz de afastá-los das companhias ma- léficas e dos perigos da rua. A ‘escola do trabalho’ é percebida como a verdadeira ‘escola da vida’ – a criança é socializada desde cedo para ocupar o seu lugar em uma sociedade extremamente estratificada, onde lhe são reservadas as funções mais subalternas. (PRIORE, 2002, p. 389) Vivemos na sociedade da informação, do conhecimento. O conhecimento é a principal riqueza em torno do qual é gerado o valor, o lucro neste estágio atual do capitalismo. Na constru- ção social da infância, o ambiente rígido limita a exploração da realidade, a apreensão saudável da realidade, estimulando muito mais a repetição automática do que desafiando o pensa- mento. Garantir o tempo livre é fundamental para a formação da estrutura cognitiva da criança. Amplia-se, portanto, a im- portância do brinquedo na formação da criança, pois quanto mais as crianças brincam, mais sinapses são formadas por elas. 102 Direitos Humanos De acordo com relatório divulgado pelo Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI), o núme- ro de casos de crianças e adolescentes ocupados no trabalho infantil doméstico diminuiu de 325 mil (2008) para 258 mil (2011) – uma redução de 67 mil casos. Em termos proporcio- nais, a redução foi de apenas 0,2 ponto percentual: de 7,2% em 2008 para 7% em 2011. (http://www.unicef.org/brazil/pt/ media_25610.htm) [grifo meu] Figura 1 Trabalho infantil doméstico. (Crianças desenham mundo solitário, 2003)9 http://www.pucrs.br/edipucrs/online/trabalhoinfantil.pdf Quanto ao conceito de trabalho infantil: É toda e qualquer atividade útil, executada por crianças com menos de 16 anos, com certa regularidade (média de 15 horas por semana), com salário ou remunera- ção e ainda que envolva situações de risco tanto no co- tidiano do trabalho como também para uma formação escolar regular. (NETO, 2003, p. 16) [grifo meu] A indignação que o trabalho infantil ainda causa em de- terminados setores da sociedade e que, não por acaso, está na origem do meu interesse como pesquisador por este tema, está ligada ao processo degradante de adultização precoce que se impõe às crianças. É um processo cujas práticas provo- cam muitas perdas em um período crucial da formação do ser 9 Desenho de Ricardo Tokudo, 9, 3ª série, São Paulo (SP). Faz parte de um concurso de desenhos promovido pela Folhinha, que recebeu 10.431 desenhos (CRIANÇAS desenham mundo solitário, 2003). Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos 103 social. Exige uma quantidade de trabalho e de responsabilida- de acima das condições biológicas de uma criança, impondo uma pressão que, tanto crianças quanto adolescentes10, ainda não estão preparados para suportar. No período situado historicamente como Primeira Revolu- ção Industrial, o avanço das tecnologias dispensou a força física para a produção das fábricas inglesas e impulsionou a utilização de mão de obra feminina e infantil. Desde lá, as concepções e costumes referentes ao trabalho infantil vêm-se modificando, e a proteção legal à criança e ao adolescente intensificando-se: Nas manufaturas metalúrgicas em Birmingham, Inglater- ra, era empregado o trabalho de cerca de 30 mil crian- ças. Eram atividades extremamente insalubres, nas fun- dições de cobre, na fabricação de botões, nas oficinas de esmaltar, de galvanizar e de laquear. Em Londres as impressoras de livros e de jornais exigiam um trabalho tão excessivo que eram denominadas de matadouros. (MARX, 1985) É importante levarmosem conta que uma forma de trabalho não prejudicial a um adulto pode ser extremamente prejudicial a uma criança, pois inúmeros aspectos do desenvolvimento físico, cognitivo, emocional, social e moral da criança podem 10 A CLT tem um capítulo inteiro destinado à proteção do trabalho de me- nores de idade, no qual se refere ao menor, aquele de 14 a 18 anos, que não tem capacidade plena. O menor não é incapaz para o trabalho, mas a legislação lhe protege de uma forma especial. Fonte: http://www.direi- tonet.com.br/artigos/exibir/2629/Trabalho-da-crianca-e-do-adolescente- -menor-aprendiz 104 Direitos Humanos ser ameaçados pelo trabalho: saúde, coordenação, visão, au- dição, alfabetização, aprendizado, níveis de autoestima, de ligação familiar, sentimentos de amor e de aceitação, sentido de identidade de grupo, espírito de cooperação e capacidade de distinguir entre o certo e o errado. Quanto aos efeitos do trabalho precoce para a formação das crianças no período da industrialização “houve danosas implicações no comporta- mento da criança pelo despertar programado e instantâneo do sono, em razão do trabalho com horário rigoroso, regu- lado, (ALVES, 2002, p. 22) [Grifo meu]. Segundo Priore: Entrevistas com 122 empresários revelaram que os mo- tivos que os levaram a contratar menores estão relacio- nados diretamente a sua condição de explorado: o fato de se submeterem a baixos salários e regime disciplinar interno rigoroso, de não usufruírem proteção e/ou be- nefícios, de não possuírem capacidade organizacional e reivindicatória, o que os tornam empregados com mui- tas obrigações e poucos direitos, e por não contar com a defesa das instituições de classe, como os sindicatos. (PRIORE, 2002, p. 389) A cultura familiar, sobretudo no campo, mas também na cidade, é outro dos grandes problemas a serem enfrentados com vistas à erradicação do trabalho infantil: O trabalho de toda a família é uma tradição mantida há várias gerações. ‘Aqui sempre foi assim’, diz o pai. ‘-Meu pai trabalhava na roça quando eu era criança, eu traba- Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos 105 lhei e agora minhas filhas também trabalham. A ajuda delas é fundamental’. (PRIORE, 2002, p. 387) O trabalho prematuro, quer associado à necessidade ime- diata de sobrevivência, quer ligado ao ritmo dos pais, não instaura as competências básicas necessárias ao desenvolvi- mento do ser social em processo primário de formação. 3 Direitos Humanos e Infância: aspectos legais A Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela ONU em 1949, traz uma menção específica relativa às crian- ças. O Art. 25°, § 2°, aponta que tanto “a maternidade quanto a infância têm direito a cuidados e assistência especiais”. Para além dos direitos fundamentais a que têm direito toda e qual- quer pessoa humana, soma-se ainda os direitos específicos a crianças e adolescentes. Assim: a expressão “direitos humanos de crianças e adolescen- tes” significa, também, o reconhecimento de um status especial atribuído aos direitos fundamentais que possu- am por titulares crianças e adolescentes, elegidos como sendo merecedores de distinta proteção, eis que mais vulneráveis que os adultos. (VELASQUEZ, 2015) http://www.mprs.mp.br/infancia/doutrina/id455.htm, capturado 106 Direitos Humanos Dentre todos os direitos fundamentais, os direitos de crian- ças e adolescentes devem vir em primeiro lugar e devem ser buscados prioritariamente pelo Estado. Destacam-se a De- claração Universal dos Direitos das Crianças, de 1959, e a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, de 1989. Já no Brasil todos os direitos fundamentais reco- nhecidos e acordados internacionalmente foram assegurados pela Constituição Brasileira de 1988 que determina em seu Art. 227 que: É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao res- peito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opres- são. No Brasil criamos o ECA em 1990, com a Lei n° 8.069. Te- mos, portanto, uma legislação extremamente atual e avançada em consonância com a Declaração dos Direitos da Criança, que foi a Adotada pela Assembleia das Nações Unidas de 20 de novembro de 1959 e ratificada pelo Brasil. Cujos principais pontos são destacados a seguir: 1º PRINCÍPIO: DIREITO A IGUALDADE SEM DISTINÇÃO DE RAÇA, RELIGIÃO E NACIONALIDADE A criança desfrutará de todos os direitos enunciados nesta Declaração. Estes direitos serão outorgados a todas as crian- Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos 107 ças, sem qualquer exceção, distinção ou discriminação por motivos de raça, cor, sexo, idioma, religião, opiniões políticas ou de outra natureza, nacionalidade ou origem social, posição econômica, nascimento ou outra condição, seja inerente à pró- pria criança ou à sua família. 2º PRINCÍPIO: DIREITO A ESPECIAL PROTEÇÃO PARA O SEU DESENVOLVIMENTO FÍSICO, MENTAL E SOCIAL A criança gozará de proteção especial e disporá de opor- tunidade e serviços, a serem estabelecidos em lei por outros meios, de modo que possa desenvolver-se física, mental, mo- ral, espiritual e socialmente de forma saudável e normal, assim como em condições de liberdade e dignidade. Ao promulgar leis com este fim, a consideração fundamental a que se aten- derá será o interesse superior da criança. 3º PRINCÍPIO: DIREITO A UM NOME A UMA NACIONALI- DADE A criança tem direito, desde o seu nascimento, a um nome e a uma nacionalidade. 4º PRINCÍPIO: DIREITO A ALIMENTAÇÃO, MORADIA E AS- SISTÊNCIA MÉDICA A criança deve gozar dos benefícios da previdência social. Terá direito a crescer e desenvolver-se em boa saúde; para essa finalidade deverão ser proporcionados, tanto a ela, quan- to à sua mãe, cuidados especiais, incluindo-se a alimentação pré e pós-natal. A criança terá direito a desfrutar de alimenta- ção, moradia, lazer e serviços médicos adequados. 108 Direitos Humanos 5º PRINCÍPIO: DIREITO A EDUCAÇÃO E A CUIDADOS ES- PECIAS PAARA A CRIANÇA FÍSICA OU MENTALMENTE DEFI- CIENTE A criança física ou mentalmente deficiente ou aquela que sofre de algum impedimento social deve receber o tratamento, a educação e os cuidados especiais que requeira o seu caso particular. 6º PRINCÍPIO: DIREITO AO AMOR E A COMPREENSÃO DE PAIS E DA SOCIEDADE A criança necessita de amor e compreensão, para o desen- volvimento pleno e harmonioso de sua personalidade; sempre que possível, deverá crescer com o amparo e sob a responsa- bilidade de seus pais, mas, em qualquer caso, em um ambien- te de afeto e segurança moral e material; salvo circunstâncias excepcionais, não se deverá separar a criança de tenra idade de sua mãe. A sociedade e as autoridades públicas terão a obrigação de cuidar especialmente do menor abandonado ou daqueles que careçam de meios adequados de subsistência. Convém que se concedam subsídios governamentais, ou de outra espécie, para a manutenção dos filhos de famílias nume- rosas. 7º PRINCÍPIO: DIREITO A EDUCAÇÃO GRATUÍTA E AO LA- ZER INFANTIL A criança tem direito a receber educação escolar, a qual será gratuita e obrigatória, ao menos nas etapas elementares. Dar-se-á à criança uma educação que favoreça sua cultura Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos 109 geral e lhe permita – em condições de igualdade de oportuni- dades – desenvolver suas aptidões e sua individualidade, seu senso de responsabilidade social e moral. Chegando a ser um membro útil à sociedade. O interesse superior da criança deve- rá ser o interesse diretor daqueles que têm a responsabilidade por sua educaçãoe orientação; tal responsabilidade incumbe, em primeira instância, a seus pais. A criança deve desfrutar plenamente de jogos e brincadeiras, os quais deverão estar di- rigidos para educação; a sociedade e as autoridades públicas se esforçarão para promover o exercício deste direito. 8º PRINCÍPIO: DIREITO A SER SOCORRIDO EM PRIMEIRO LUGAR EM CASO DE CATÁSTROFES A criança deve – em todas as circunstâncias – figurar entre os primeiros a receber proteção e auxílio. 9º PRINCÍPIO: DIREITO A SER PROTEGIDO CONTRA ABAN- DONO E EXPLORAÇÃO NO TRABALHO A criança deve ser protegida contra toda forma de abando- no, crueldade e exploração. Não será objeto de nenhum tipo de tráfico. Não se deverá permitir que a criança trabalhe antes de uma idade mínima adequada; em caso algum será permi- tido que a criança dedique-se, ou a ela se imponha, qualquer ocupação ou emprego que possa prejudicar sua saúde ou sua educação, ou impedir seu desenvolvimento físico, mental ou moral. 10º PRINCÍPIO: DIREITO A CRESCER DENTRO DE UM ESPÍRI- TO DE SOLIDARIEDADE, COMPREENSÃO, AMIZADE E JUSTI- ÇA ENTRE OS POVOS 110 Direitos Humanos A criança deve ser protegida contra as práticas que possam fomentar a discriminação racial, religiosa ou de qualquer ou- tra índole. Deve ser educada dentro de um espírito de compre- ensão, tolerância, amizade entre os povos, paz e fraternidade universais e com plena consciência de que deve consagrar suas energias e aptidões ao serviço de seus semelhantes. As NTIC, ao trazerem maior visibilidade às leis, geram também novas possibilidades de ampliação e assimilação dos seus fundamentos e objetivos. Assim, inúmeras possiblidades de ampliação e garantia de direitos são potencializadas com as novas tecnologias. Concomitante a isso o espectro de atua- ção de aviltadores, abusadores e inimigos da infância de todas as espécies também se amplie: O acordo estabelecido com a Polícia Federal, ao qual aderiram em 2001 também o Ministério Público Federal e a Internetsul, criou um mecanismo para o combate da prática da pedofilia (pornografia infanto-juvenil) na rede mundial de computadores (internet) [...] foi disponibiliza- do de forma permanente um acesso (link) através do qual a população pode encaminhar denúncias e informações sobre a prática de pedofilia na rede. (VELASQUEZ, 2015) É preciso levar em conta que: ... a primeira causa que leva a criança à morte no Brasil, até 10 anos de idade, é a violência; a residência do in- fante é o lugar mais perigoso para as crianças de 0 a 4 anos; dos abusos sexuais envolvendo crianças menores de 10 anos de idade, 75% ocorrem na própria residên- cia. (VELASQUEZ, 2015) Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos 111 Na sociedade informacional, novos espaços e formas de articulação são potencializados, a própria informação, fonte de poder na sociedade informacional, é mais socializada. A maior visibilidade dos fenômenos sociais faz com que estes sejam construídos através de relações secundárias e não mais primárias, pois, “[...] vivemos numa época de mundialização, todos os nossos grandes problemas deixaram de ser particula- res para se tornarem mundiais [...]” (MORIN, 1999, p. 19). Os direitos de crianças e adolescentes enquadram-se nesta pers- pectiva em face da Terceira Revolução Industrial e, sobretudo no âmbito legal, percebe-se hoje a existência de espaços de possibilidades para a instauração de um novo habitus social relativo ao cuidado com a infância e com a adolescência que permita a criação de alternativas humanizadoras para essa re- lação entre infância e sociedade. Recapitulando São indicadores do conceito de infância: o tempo do brinque- do, do ócio em detrimento do tempo do trabalho (emprego), a imaturidade emocional, física. Trata-se de um período que requer cuidados e proteção. O ser humano é o único ser vivo que não nasce “pronto” precisa ser formado. Ser criança não significa necessariamente ter infância. Para a construção da infância o tempo é central. 112 Direitos Humanos Há diferenças entre a capacidade de um adulto e de uma criança em suportar a pressão (física, emocional, psíquica, in- telectual). O brinquedo é o trabalho da criança, brincando a criança experimenta o mundo do adulto e se adultiza de forma sadia. Na Idade Média a noção de infância como hoje concebe- mos não existia. A escola substituiu a aprendizagem que antes se dava na família, na relação direta entre os afazeres dos adultos, junto com as crianças. Hoje é muito difícil distinguir claramente traços da idade adulta com traços da infância. As tecnologias mudam as caracterizações da infância, rom- pem com as noções clássicas de tempo e de espaço. Crianças hoje são adultizadas precocemente. Dar ocupação as crianças, esse é um paradigma que nor- teia a forma como tratamos nossas crianças na contempora- neidade. O trabalho infantil compromete a formação da criança, afastando-a da escola e criando um ciclo de pobreza. Trata-se de um tema cercado de mitos, e os mitos são perigosos, pois inibem a capacidade do pensamento. É mito a noção de que o trabalho infantil afasta da margi- nalidade. Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos 113 Na sociedade do conhecimento garantir o tempo livre é fundamental para a formação da estrutura cognitiva da crian- ça. A cultura familiar e o senso comum são grandes entraves com vistas a erradicação do trabalho infantil. Para além dos direitos fundamentais a que têm direito toda e qualquer pessoa humana, somam-se ainda os direitos espe- cíficos a crianças e adolescentes. Referências ALMEIDA NETO, Honor de. Trabalho Infantil na Terceira Revolução Industrial. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2007. E-book: http://www.pucrs.br/edipucrs. 244 p. ________. Trabalho Infantil: formação da criança jornaleira de Porto Alegre. Canoas: Editora da ULBRA, 2004, 296 p. ________. Honor de. Pesquisa Científica na Prática. Cano- as: Editora da ULBRA, 2008. ALMEIDA NETO, Honor de.; SANTOS, E. R. Futebol e Infân- cia: Formação de Crianças e Adolescentes das Categorias de Base do Sport Club Internacional. Prâksis (FEEVALE), 2015. (ALVES, 2002, p. 22). 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Assinale a alternativa incorreta: a) Imaturidade física e emocional. b) Maior quantidade de tempo livre, ócio em detrimento do tempo da responsabilidade. c) Capacidade de suportar todo e qualquer tipo de pres- são, pois o mundo hoje assim exige. d) É uma construção social, pois se refere a uma base biológica, mas que necessita do entorno para efetivar- -se. e) O brinquedo como principal trabalho, pois é brincan- do que as crianças experimentam o mundo adulto. 2) Uma rápida passagem pelo curso da nossa história dis- tingue as formas como a humanidade tratou e concebeu suas crianças e o papel que estas tiveram dentro das fa- mílias. Sendo a infância uma construção social, assinale, entre as alternativas abaixo, a que expressa incorretamente a noção de infância típica da Idade Média: a) neste período a noção de infância como hoje con- cebemos não existia, pois essa sociedade via mal a criança e, pior ainda, o adolescente. Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos 117 b) a imagem da criança era a de um adulto em miniatura, aproximava-se a imagem que temos hoje de um anão. c) De criancinha pequena, ela se transformava imediata- mente em homem jovem, sem passar pelas etapas da juventude. d) Era vista como um período privilegiado de formação do ser e que exige proteção e cuidados tanto da famí- lia quanto da sociedade, sendo utopia mais duradoura daquele período histórico. e) Quando uma mãe sofria a perda de um filho, era algo excepcional e pouco compreensível, porque a criança era considerada inacabada, incompleta, um vir a ser. 3) Na visão de Postman são indicadores de que nossa socie- dade não distingue mais com clareza a infância da idade adulta (assinale a alternativa incorreta): a) tempo cronológico (físico e emocional) cada vez mais veloz. b) as formas de vestir, semelhantes as dos adultos. c) a violência contra crianças que indica o não reconhe- cimento do que seja a infância. d) os jogos cada vez mais competitivos e menos lúdicos. e) a erotização precoce e o acesso aos segredos do mun- do adulto. 4) Assinale verdadeiro ou falso: 118 Direitos Humanos ( ) A violência sexual contra crianças e adolescentes, prin- cipalmente entre crianças até 9 anos de idade, é o segundo principal tipo de violência no Brasil, ficando pouco atrás apenas para as notificações de negligên- cia e abandono. ( ) O número de homicídios contra jovens no Brasil entre 1980 e 2010 cresceu 346%. O Estado mais violento para os jovens, segundo o relatório, é Alagoas, com 34,8 homicídios para cada 100 mil crianças e adoles- centes. ( ) Na civilização ocidental, historicamente não há rela- ção observável entre o aumento da empatia e sensibi- lidade (humanitarismo) e o fortalecimento da ideia de infância. ( ) O avanço das tecnologias rompe com o controle im- posto à infância pelos limites da alfabetização, pois a comunicação passa a ser imagética e sua compreen- são pela criança não necessita mais da alfabetização (escrita). ( ) A Declaração Universal dos Direitos Humanos, apro- vada pela ONU em 1949, traz uma menção específica relativa às crianças, e aponta que “para além dos di- reitos fundamentais a que têm direito toda e qualquer pessoa humana soma-se ainda os direitos específicos a crianças e adolescentes”. Capítulo 3 Infância e Direitos Humanos 119 5) A discussão em torno da temática do trabalho infantil é perpassada por inúmeros mitos que contribuem para que esse problema social perpetue-se. Aponte qual a alternati- va a seguir traz um texto que corresponde com a realidade e que, portanto, não é mais um mito sobre o tema. a) “O trabalho infantil afasta a criança da marginalida- de, pois instaura valores positivos como o amor pelo trabalho e a disciplina”. b) “O trabalho da criança ao contribuir com a renda fa- miliar ajuda a modificar a condição econômica da fa- mília, rompendo com a pobreza”. c) “O trabalho infantil prepara a criança (futuro adulto) para o mercado de trabalho, pois a criança aprende desde cedo um metié”. d) “As crianças são adaptáveis e extremamente compe- tentes para lidar com qualquer coisa que a vida tenha a oferecer, e ainda se beneficiar disso. Até porque não há mais tanto tempo para os pais cuidarem de suas crianças”. e) A cultura familiar, sobretudo no campo, mas também na cidade, é outro dos grandes problemas a serem enfrentados com vistas à erradicação do trabalho in- fantil. Luiz Felipe Zago1 Capítulo 4 Políticas de Gênero e Direitos Humanos1 1 Doutor e Mestre em Educação, Bacharel em Comunicação Social. Professor do curso de Comunicação Social e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), Campus Canoas – RS. Integrante da Linha de Pesquisa de Pedagogias e Políticas da Diferença (PPG-Edu ULBRA Canoas). Capítulo 4 Políticas de Gênero e Direitos Humanos 121 Introdução Este capítulo tem por objetivo apresentar um breve histórico da constituição dos movimentos feministas, suas reivindicações políticas e sociais e suas contribuições teóricas para a produ- ção de conhecimento no Ocidente. Com isso não se preten- de aprofundar os complexos debates conceituais que várias pesquisadoras e autoras feministas propuseram, sobretudo nos últimos vinte anos, pois essa seria uma empreitada necessaria- mente extensa. Pretende-se, por outro lado, e de forma didá- tica, apresentar as principais contribuições que as pensadoras feministas ofereceram (e ainda oferecem) para a crítica social e cultural dos modos como se pensam, se vivem, se sentem e se comportam os seres humanos quando implicados nas rela- ções de gênero (masculinidades e feminilidades) nas diferentes sociedades. Sobretudo, sublinhar-se-ão as articulações entre as reivindicações contemporâneas dos vários movimentos fe- ministas e os Direitos Humanos no Brasil, cujo campo de in- terlocução com os feminismos se dá historicamente (mas não apenas) por meio dos chamados direitos reprodutivos. Grosso modo, há duas maneiras de se abordar os gêneros, aqui entendidos de forma inicial como as formas que cada so- ciedade categoriza e distingue homens em relação às mulhe- res. De um modo geral, pesquisadores/as das Ciências Bioló- gicas (como a Biologia, a Biomedicina e a Genética) defendem que as características das masculinidades e das feminilidades são naturais, hormonal ou geneticamente determinadas – é a perspectiva essencialista, biologicamente determinada. Por outro lado, pesquisadores/as das Ciências Humanas e Sociais 122 Direitos Humanos (como a Psicologia, a Antropologia, a Sociologia, a Educação etc.) tendem a argumentar que os modos com que vivemos como homens e mulheres são social e culturalmente constru- ídos em determinados períodos históricos – é a perspectiva construcionista, culturalmente orientada.Para este capítulo privilegiar-se-á a abordagem construcionista no que diz res- peito aos gêneros (LOURO,1997, 2004; SCOTT, 1995). Isso se justifica porque, conforme será mostrado, grande parte dos movimentos feministas se interrogou acerca do papel dos as- pectos biológicos nas diferenças entre os gêneros na socieda- de, debate cujas implicações não são menores para se pensar nas políticas de gênero articuladas aos Direitos Humanos. As complexas relações entre natureza, corpo, sociedade e cultura são o cerne das discussões teóricas e das demandas contem- porâneas dos movimentos feministas perante os Direitos Hu- manos. De início, é importante mencionar definições sobre sexo e gênero, algumas das quais circulam fartamente pelo senso comum cotidiano de todos/as nós – definições essas que se- rão problematizadas e questionadas pelos feminismos. Sexo refere-se ao conjunto de características biológicas que distin- guem, definem e classificam os seres vivos (humanos, animais e vegetais) em “machos” ou “fêmeas”. Especialmente entre humanos, a Genética categoriza como “macho” aqueles in- divíduos que apresentam (entre outras características) o par de cromossomos XY, e categoriza como “fêmea” aqueles in- divíduos que apresentam (entre outras características) o par de cromossomos XX. Nessa perspectiva, a definição de sexo está ancorada na biologia dos corpos (é geneticamente de- Capítulo 4 Políticas de Gênero e Direitos Humanos 123 terminada). Para este capítulo e para o próximo (“Políticas de identidade sexual e Direitos Humanos”), reservar-se-á o termo gênero para aludir às diferentes maneiras disponíveis de ser mulher e de ser homem em distintas sociedades e em distintos tempos históricos. Gênero refere-se às feminilidades (modos de ser mulher) e às masculinidades (modos de ser homem), reconhecidas nas diversas relações sociais nas quais estamos, todos/as nós, imersos/as. Nessa perspectiva, a definição de gênero está ancorada nas realidades sociais e culturais (é só- cio-culturalmente orientada). Essas definições de sexo e de gê- nero são superficiais e estão aqui colocadas por utilidade di- dática. Conforme será mostrado neste capítulo, os feminismos contemporâneos complexificam bastante esses termos. Con- tudo, é útil partir dessas definições, pois durante muito tempo os próprios feminismos se basearam nelas para construir sua agenda política e teórica. 1 Os feminismos da Primeira Onda – o sufrágio universal Há várias maneiras de se reconstituir uma história dos movi- mentos feministas (MEYER, 2005). A mais amplamente men- cionada, usada para circunscrever certas condições históricas e políticas que deram início aos feminismos, assinala a segun- da metade do século XIX como período em que houve na In- glaterra as primeiras mobilizações de mulheres que reivindica- vam o direito de participar de eleições democráticas por meio do voto e da candidatura a cargos da administração pública 124 Direitos Humanos (LOURO, 1997; PINTO, 2010). Essa é conhecida como a Pri- meira Onda dos movimentos feministas. Nessa Primeira Onda, as mulheres europeias (brancas, burguesas) demandavam ter os mesmos direitos que os homens tanto para poderem votar em eleições democráticas quanto para candidatarem-se a car- gos eletivos da administração pública. Até então, nas socieda- des ocidentais, as mulheres não dispunham do direito ao voto, nem do direito à candidatura. Por reivindicarem o direito ao sufrágio universal (isto é, o direito a votarem e serem votadas), essas mulheres são conhecidas como “as sufragistas”. É importante assinalar que já nesta Primeira Onda dos mo- vimentos feministas várias outras demandas por direitos e por exercício de cidadania foram suscitadas pelos grupos organi- zados de mulheres. Por exemplo, havia mulheres interessadas somente em garantir o direito ao voto nas eleições democrá- ticas; havia outras mulheres que viam o direito à educação superior, em faculdades e universidade, como algo fundamen- tal para a vida em sociedade (as mulheres, até então, eram impedidas de cursar a graduação e ter uma profissão como os homens); outras mulheres, como aquelas das classes tra- balhadoras que já estavam inseridas nas grandes fábricas, se uniam para formar sindicatos e pedir melhores condições de trabalho e de assistência para elas durante sua jornada; algu- mas mulheres reivindicavam o direito ao trabalho legalmente reconhecido em funções de docência (sobretudo nos anos ini- ciais do sistema de ensino) e de cuidado em saúde (como na enfermagem). Sublinham-se, assim, diferentes direções para Capítulo 4 Políticas de Gênero e Direitos Humanos 125 as reivindicações dessas primeiras mulheres feministas organi- zadas para lutar por seus direitos, dependendo de sua classe social e dos diferentes níveis de inserção na sociedade – algo que, conforme será mostrado ao fim do capítulo, se torna mui- to mais complexo no final do século XX. Na Primeira Onda dos movimentos feministas, é importante de frisar que havia a demanda, por parte das mulheres, da extensão a elas dos direitos já conferidos e exercidos pelos homens – sem que isso significasse o questionamento ou recusa do casamento e da maternidade, por exemplo, como funções inerentes à condi- ção feminina. No Brasil, as mulheres tiveram o direito ao voto e à candi- datura garantido no Código Eleitoral Brasileiro de 1932, ra- tificado na Constituição de 1934. A bióloga Bertha Lutz foi uma expoente do movimento sufragista brasileiro. No mes- mo período, a compositora e maestrina Francisca Gonzaga, a Chiquinha Gonzaga, escandalizava a sociedade brasileira ao deixar o então marido, que a impedia sistematicamente de tocar piano. Chiquinha foi processada pelo marido, que alegou adultério e abandono do lar. Em 1910, nasceu em São Paulo Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, musa dos artistas mo- dernistas brasileiros. Pagu foi a primeira mulher a ser presa por motivos políticos no Brasil, em 1931. Essas são figuras ilustres da história das mulheres no Brasil, que representam inúmeras mulheres anônimas e comuns que se beneficiaram (e até hoje se beneficiam) das suas posições de vanguarda. 126 Direitos Humanos 2 Os feminismos da Segunda Onda – intervenção social e produção de conhecimento A chamada Segunda Onda dos feminismos tem início nos anos de 1960 na Europa e nos Estados Unidos. Depois de passadas várias décadas desde as primeiras feministas, pre- ocupadas principalmente em estender o direito ao voto e à candidatura para cargos eletivos também para as mulheres, as da Segunda Onda vão levar mais adiante os questionamen- tos acerca da posição da mulher nas diferentes sociedades. É preciso lembrar que os anos de 1960 foram marcados, no Ocidente, por uma efervescência cultural: é o auge da Guerra Fria; surge o movimento hippie e a chamada contracultura; vários movimentos de contestação e de crítica à política con- duzem à revolta dos estudantes parisienses de maio de 1968. Especialmente em relação às mulheres, é importante de assi- nalar que a pílula contraceptiva foi criada, e passou a ser co- mercializada, também durante os anos de 1960 – e a pílula foi algo que possibilitou às mulheres tomar certas decisões sobre a gravidez e a maternidade nunca antes possíveis. Todas es- sas mobilizações, constituídas por acadêmicos/as, intelectuais e também pessoas comuns, contribuem para um sentido de profundo estranhamento e desconfiança acerca das estruturas sociais vigentes até então. Nesse contexto, a Segunda Onda dos feminismos conso- lidou um denso investimento na produção de conhecimento Capítulo 4 Políticas de Gênero e Direitos Humanos 127 com a fundação de grupos de estudos e linhas de pesquisa em vários centros acadêmicos, faculdades e universidades. A aposta na pesquisa e na produção intelectualtinha por ob- jetivo dar um passo além da denúncia das condições de su- bordinação das mulheres ou da necessidade da conquista de certos direitos atribuídos apenas aos homens. Foi-se além: ob- jetivou-se criar conceitos, teorias, metodologias de pesquisa que dessem conta da compreensão das causas e dos modos de funcionamento da subordinação feminina na sociedade, e também se quis propor maneiras de intervir socialmente na direção da redução da desigualdade existente entre homens e mulheres. Pode-se dizer, de modo amplo, que os estudos da Segun- da Onda dos feminismos procuraram desconstruir a milenar e quase onipresente opressão e dominação dos homens sobre as mulheres na história do ocidente, algo que se denominou de patriarcado. A crítica ao patriarcado, às formas de seu fun- cionamento e a proposição de maneiras de enfrentá-lo deu a tônica para muitos estudos e mobilizações feministas da Se- gunda Onda. Tais críticas se espalharam para várias áreas do saber: para a economia (na qual as feministas demonstravam que a divisão social do trabalho era, sobretudo, uma divisão sexual do trabalho entre homens e mulheres), para a psicanáli- se (na qual as feministas questionavam as formulações teóricas de Freud acerca do complexo de castração, alegando esta ser uma teorização demasiadamente centrada no corpo masculi- no), para a crítica literária (na qual as feministas demonstra- 128 Direitos Humanos vam o protagonismo opressor dos homens na produção artís- tica literária e nos modos de representação da mulher nas suas narrativas), na educação (na qual as feministas apontavam os modos como as professoras eram relegadas a ser extensões da mãe das crianças dos anos iniciais do sistema de ensino, impedidas de lecionar nas universidades, além de sublinhar o aspecto machista de muitos materiais didáticos). Antropologia, Sociologia, Ciência Política, Filosofia também foram áreas do conhecimento profundamente modificadas pelas críticas dos estudos feministas. Alastrando-se por diversos campos do sa- ber, muito embora operando com conceitos e teorias distintos, as feministas formularam críticas sistemáticas e contundentes às diferentes formas de dominação, opressão e invisibilidade a que as mulheres estavam historicamente submetidas em re- lação aos homens. A inspiração para tamanho fôlego intelectual veio de uma frase simples, porém poderosa, formulada pela filósofa france- sa Simone de Beauvoir: “Ninguém nasce mulher, torna-se mu- lher”, publicada no livro O segundo sexo, de 1949. Com essa proposição, sugeria-se, pela primeira vez, que os modos de ser mulher eram social, cultural e politicamente construídos, e que ser mulher em uma determinada sociedade implicava em conhecer as regras e normas que regulavam as feminilidades. De modo simples (mas provocativo), as feministas propuseram o conceito de gênero (surgido pela primeira vez no contexto anglo-saxão com a palavra “gender”) para analisar as condi- ções da mulher na sociedade: nesse contexto, gênero seria a construção social dos sexos. Capítulo 4 Políticas de Gênero e Direitos Humanos 129 3 Sexo, gênero e o slogan feminista “o pessoal é político” O conceito de gênero, tido como a construção social do sexo, pressupunha o seguinte: que os seres humanos nascem dota- dos de características fisiológicas e biológicas de macho ou de fêmea (os sexos), sobre as quais se vão construir marcações de gênero (de feminilidades e de masculinidades), como compor- tamentos, atitudes, traços de personalidade, modos de vestir, de falar, de andar, de se inserir na vida em sociedade como um todo. Ao sugerir que ninguém nasce mulher, mas torna-se mulher, Simone de Beauvoir abriu um fértil caminho para pes- quisas e teorizações que se ocuparam em explorar os múltiplos modos por meio dos quais as feminilidades eram inscritas nos corpos sexuados de fêmea. O principal objetivo das estudiosas feministas era o de complexificar as explicações essencialistas que determinavam que as mulheres eram dominadas pelos homens porque sua natureza (sua biologia, seus corpos) era frágil por essência. Os feminismos procuravam, assim, recusar explicações sobre as diferenças e as desigualdades entre homens e mulheres baseadas em atributos biológicos, que alegam uma suposta naturalidade das diferenças e das desigualdades. Ao mesmo tempo, chamavam a atenção para os aspectos sociais, cultu- rais e políticos da produção de desigualdades entre homens e mulheres. A reboque dessas teorizações, uma série de questio- namentos acerca das posições das mulheres nas sociedades aconteceu: criticou-se a maternidade como um destino bioló- gico da fêmea, a obrigatoriedade do casamento e da forma- 130 Direitos Humanos ção da família, a proibição do exercício de certas profissões, a circunscrição ao domínio do lar e das atividades domésticas. Questionou-se a divisão público/privado na qual as socieda- des ocidentais se baseiam, apontando que o domínio público é culturalmente construído como masculino (o exercício políti- co, o exercício profissional, a representação de “homem pro- vedor”), e que o domínio privado é culturalmente construído como feminino (o cuidado da prole, o compromisso com os afazeres domésticos, a representação da “dona de casa”). Esses aspectos exigiram a problematização de esferas pri- vadas das vidas das mulheres, algo que inspirou o slogan feminista que diz que “o pessoal é político” (LOURO, 1997; MEYER, 2005). Isso significa que não há vida pessoal ou es- fera privada separadas de contextos políticos e culturais mais amplos que lhes deem significação. Também significa que, para mudar condições de desigualdade e de opressão, é ne- cessário tomar as vidas pessoais e as esferas privadas como parte de ordens sociais. Assim, para mudar o mundo era ne- cessário mudar também o mais próximo, o mais pessoal, o mais privado. Nesse sentido, durante a década de 1970, por exemplo, o divórcio se tornou uma prática jurídica legitimada: as mulheres conquistaram o direito à separação legal dos seus maridos, com a justa divisão dos bens. As mulheres não esta- vam mais presas ao casamento (e, lembremos, não estavam mais submetidas à gravidez compulsória desde a populariza- ção da pílula contraceptiva). O lema “o pessoal é político” também expressa o conjunto de mudanças corriqueiras, coti- dianas, no dia a dia das mulheres ocidentais, que passaram a ter posturas e atitudes diferentes de outrora nas suas relações com os demais homens (familiares, chefes, amigos etc.). O Capítulo 4 Políticas de Gênero e Direitos Humanos 131 “pessoal”, isto é, a vida comum e diária das mulheres inseridas nas sociedades ocidentais, transformou-se profundamente por meio dos questionamentos e críticas empreendidas pelos femi- nismos, mostrando o aspecto político das relações de gênero. 4 Feminismos contemporâneos Teorizando o conceito de gênero como sendo as construções sociais que se fazem sobre o corpo sexuado, grande parte dos estudos feministas supunham o próprio corpo sexuado como uma natureza imutável. Entretanto, algumas autoras feministas mais radicais (BUTLER, 1999; SCOTT, 1995) desenvolveram pesquisas e propuseram paradigmas conceituais que se opõem a qualquer justificação biológica para as diferenças de gênero. Esse argumento é bastante complexo e não é viável de expô-lo aqui. É relevante pontuar que, no âmbito dessa conceituação, tais intelectuais feministas mostraram que toda a organização social, cultural e política que temos hoje disponível nas socie- dades ocidentais são estruturadas de acordo com posições de feminilidade e de masculinidade. Um exemplo bastante sim- plório disso é o seguinte: durante toda a história do Brasil tive- mos presidentes da República que eram homens casados com uma mulher, e a organização político-administrativa do Bra-sil prevê o cargo de primeira-dama (a esposa do presidente). Em 2010, Dilma Roussef foi eleita presidente do nosso país, a primeira mulher a ocupar tal cargo; sendo ela solteira, o cargo de primeira-dama tornou-se incoerente. A simplicidade desse exemplo nos mostra que os cargos de exercício de po- der e a forma como nossa organização político-administrativa 132 Direitos Humanos são profundamente generificados, isto é, são estruturados de acordo com posições de gênero (feminilidade e masculinida- de) – que, quase sempre, tinham os homens como referência e invisibilizavam as mulheres (ou seja, nunca se pensou que uma mulher pudesse ocupar o cargo de presidente). Os feminismos também passaram por profundas mudan- ças. Fala-se em feminismos, no plural, para aludir a existência de mais de uma vertente ou movimento no interior disso que se chama de estudos feministas. É importante de assinalar que, desde a Primeira Onda dos feminismos até, pelo menos, a década de 1980, o rótulo “estudos feministas” era sinônimo de “estudos das/sobre as mulheres”. Isto é, associava-se muito fortemente esse conjunto de estudos acadêmicos e de mobi- lizações sociais às mulheres e às conformações culturais das feminilidades no interior das mais diversas sociedades. Ainda hoje, quando se fala em “estudos feministas” ou “movimento feminista”, pensa-se que se está falando, discutindo ou abor- dando apenas as mulheres, apenas os sujeitos femininos. Há correntes dentro dos feminismos, como o feminismo da diferença, que afirmam que a prioridade absoluta dos es- tudos e movimentos feministas é exclusivamente da situação da mulher nos variados contextos políticos. Entretanto, há ou- tras correntes feministas que não apostam nesse isolamento. Apropriando-se da fértil ideia de que “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, aplicou-se o mesmo conceito para estudar as masculinidades: “não se nasce homem, torna-se homem”. Assim, surgiram recentemente abordagens no âmbito de al- gumas correntes dos feminismos que procuram entender as construções de gênero (feminilidades e masculinidades) num Capítulo 4 Políticas de Gênero e Direitos Humanos 133 quadro relacional, no qual os modos de ser mulher estão inse- paráveis dos modos de ser homem; as feminilidades são cons- truídas em relação às masculinidades, e vice-versa. Passou-se a problematizar as masculinidades, os modos de ser homem, enquanto construções históricas profundamente imbricadas e dependentes das suas relações com os modos de ser mulher e com as construções históricas das feminilidades. Portanto, para algumas correntes contemporâneas dos feminismos, os homens e as masculinidades são também objeto de estudo e de análise. É marca constitutiva dos feminismos contemporâneos a crença de que não se pode falar em “a mulher”, como se houvesse apenas um modo de existir socialmente enquanto mulher. Nessa direção, por exemplo, é uma experiência bas- tante diferente ser mulher e negra ou ser mulher e branca no Brasil atual, da mesma forma como é uma experiência bastan- te distinta ser mulher branca e ser mulher latina nos Estados Unidos. É diferente ser uma mulher de classe média alta e ser mulher da classe trabalhadora; é diferente ser uma mulher de oitenta anos e ser uma mulher de vinte; é diferente ser uma mulher heterossexual católica de ser uma mulher lésbica pra- ticante de religião de matriz africana. Com isso, se está suge- rindo que outras características também são importantes para se pensar as inserções das mulheres nas diversas sociedades e tais características precisam ser levadas em conta se o que se almeja é diminuir ou extinguir as desigualdades entre homens (e também entre as próprias mulheres). Contemporaneamen- te, aponta-se e sublinha-se as várias características (de classe, de raça-etnia, de geração, de identidade sexual, de perten- cimento religioso etc.) que fazem parte da experiência de ser 134 Direitos Humanos mulher, singularizando-a umas em relação às outras. Portanto, os feminismos contemporâneos mostram que nunca se pode falar em um único modo de ser mulher ou de construir a femi- nilidade, mas que há múltiplas maneiras de existir e de fazer-se mulher nas culturas atuais. 5 As reinvindicações feministas para os Direitos Humanos No que diz respeito aos Direitos Humanos, os feminismos têm larga participação na construção de agendas políticas que promovam a igualdade de gênero e a eliminação das violên- cias contra as mulheres. Historicamente é importante mencio- nar a Conferência Internacional sobre População e Desenvol- vimento, que ocorreu na cidade do Cairo, no Egito, em 1994, como marco histórico-político da inserção da temática do empoderamento das mulheres (isto é, de torná-las mais autô- nomas, fortalecidas em sua cidadania). Nessa Conferência, o tema da participação das mulheres no desenvolvimento social das nações do mundo ganhou uma tônica especial, sobretudo no que diz respeito à promoção da igualdade, de acesso à educação e à saúde, de planejamento familiar, assistência do Estado. A primeira Conferência Mundial da Mulher aconteceu em 1975, no México. No entanto o marco histórico-político é a IV Conferência Mundial sobre a Mulher, realizada em Pequim no ano de 1995. A Conferência de Pequim aconteceu um ano depois da Conferência sobre População e Desenvolvimento e Capítulo 4 Políticas de Gênero e Direitos Humanos 135 incorporou a orientação de empoderamento das mulheres nas suas diretrizes. As temáticas centrais da IV Conferência giraram em torno dos direitos reprodutivos, reforçando que as mulhe- res tinham o direito de ter o controle sobre o exercício de sua sexualidade, sobre sua saúde sexual e sobre as condições nas quais desejavam engravidar e ter seus/suas filhos/as (VIANNA; LACERDA, 2004). Sublinhou-se, em todas as discussões, a ne- cessidade de combater todo o tipo de violência baseada em identidade de gênero, isto é, todo tipo de violência (física ou simbólica) infligida às mulheres pelo fato de serem mulheres. Na agenda dos debates estavam a luta contra o estupro, ou seja, o esforço para proibir e penalizar as práticas sexuais não consentidas e violentas com mulheres. Em relação ao plane- jamento familiar, a IV Conferência sugeriu que os Estados ga- rantissem acesso aos métodos contraceptivos disponíveis para que cada família e cada mulher tivessem condições de decidir engravidar e de criar seus/suas filhos/as com dignidade. Especialmente no Brasil, onde contamos com a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (criada em 2002 com status de Ministério), as diversas vertentes dos movimentos fe- ministas e das pesquisadoras (e pesquisadores) preocupam-se com o combate à violência de gênero na sociedade. Existem hoje no Brasil as Delegacias Especiais da Mulher, instituições policiais supostamente especializadas e capacitadas em aten- der casos de violência contra mulheres – como o estupro, a violência doméstica, assédio no exercício da profissão etc. No nosso país dispomos também da Lei nº 11.340, de 07 de agos- to de 2006, conhecida como Lei Maria da Penha, que instituiu formas de coibir as múltiplas violências domésticas e familiares sofridas pelas mulheres (por exemplo, de espancamentos dos 136 Direitos Humanos maridos sofridos pelas esposas). Além da preocupação com a violência, também existem iniciativas que buscam problema- tizar e diminuir as desigualdades de acesso ao mercado de trabalho e de exercício profissional para as mulheres, uma vez que é sabido que as mulheres ganham menos por exercerem as mesmas funções que homens. Atualmente, podemos citar como as grandes reivindicações dos movimentos feministas no âmbito dos Direitos Humanos: a) o combate à violência de gênero; b) o planejamento fami- liar; c) a garantia de serviços de saúde humanizadosdurante a gestação; d) equidade de gênero no mercado de trabalho; e e) o direito ao aborto em condições adequadas. Esta última reivindicação é bastante polêmica, ainda rodeada de discus- sões calorosas entre geneticistas, médicos/as, religiosos/as, militantes feministas, operadores/as do Direito etc. No Brasil, por exemplo, o aborto é crime previsto em lei – salvo em casos de anencefalia do feto. Mesmo assim, milhares de mulheres se submetem a intervenções cirúrgicas em clínicas clandestinas para realizarem abortos, e muitas delas acabam morrendo por falta de atendimento qualificado. Assim, há setores do movi- mento feminista que reivindicam o cuidado para com essas mulheres, alegando que a questão do aborto é um tema con- cernente à saúde pública. Recapitulando Vimos que sexo refere-se ao conjunto de características bio- lógicas que distinguem, definem e classificam os seres vivos Capítulo 4 Políticas de Gênero e Direitos Humanos 137 em “machos” ou “fêmeas”, e que gênero refere-se às femini- lidades (modos de ser mulher) e às masculinidades (modos de ser homem), reconhecidas nas diversas relações sociais nas quais estamos, todos/as nós, imersos/as. Nessa perspectiva, a definição de gênero está ancorada nas realidades sociais e culturais (é sócio-culturalmente orientada). A chamada Primeira Onda dos feminismos inicia-se na se- gunda metade do século XIX, período em que houve, na Ingla- terra, as primeiras mobilizações de mulheres que reivindica- vam o direito de participar de eleições democráticas por meio do voto e da candidatura a cargos da administração pública. Nessa Primeira Onda, as mulheres europeias demandavam ter os mesmos direitos que os homens tanto para poderem vo- tar em eleições democráticas quanto para candidatarem-se a cargos eletivos da administração pública. Por reivindicarem o direito ao sufrágio universal (isto é, o direito a votarem e serem votadas), essas mulheres são conhecidas como “as sufragis- tas”. A chamada Segunda Onda dos feminismos tem início nos anos de 1960 na Europa e nos Estados Unidos. A Segunda Onda dos feminismos consolidou um denso investimento na produção de conhecimento com a fundação de grupos de es- tudos e linhas de pesquisa em vários centros acadêmicos, fa- culdades e universidades. Com a aposta na pesquisa e na pro- dução intelectual tinha-se por objetivo criar conceitos, teorias, metodologias de pesquisa que dessem conta da compreensão das causas e dos modos de funcionamento da subordinação feminina na sociedade, e também se quis propor maneiras de intervir socialmente na direção da redução da desigualdade 138 Direitos Humanos existente entre homens e mulheres. Com a proposição “nin- guém nasce mulher, torna-se mulher”, sugeria-se pela primei- ra vez que os modos de ser mulher eram social, cultural e poli- ticamente construídos, e que ser mulher em uma determinada sociedade implicava em conhecer as regras e normas que regulavam as feminilidades. Assim, as feministas propuseram o conceito de gênero (surgido pela primeira vez no contexto anglo-saxão com a palavra “gender”) para analisar as condi- ções da mulher na sociedade: nesse contexto, gênero seria a construção social dos sexos. O principal objetivo das estudiosas feministas era o de complexificar as explicações essencialistas que determinavam que as mulheres eram dominadas pelos homens porque sua natureza (sua biologia, seus corpos) era frágil por essência. Os feminismos procuravam, assim, recusar explicações sobre as diferenças e as desigualdades entre homens e mulheres baseadas em atributos biológicos, que alegam uma suposta naturalidade das diferenças e das desigualdades. Os estudos feministas propuseram uma série de questionamentos acerca das posições das mulheres nas sociedades: criticou-se a ma- ternidade como um destino biológico da fêmea, a obrigato- riedade do casamento e da formação da família, a proibição do exercício de certas profissões, a circunscrição ao domínio do lar e das atividades domésticas. Questionou-se a divisão público/privado na qual as sociedades ocidentais se baseiam, apontando que o domínio público é culturalmente construído como masculino (o exercício político, o exercício profissional, a representação de “homem provedor”), e que o domínio pri- vado é culturalmente construído como feminino (o cuidado da Capítulo 4 Políticas de Gênero e Direitos Humanos 139 prole, o compromisso com os afazeres domésticos, a represen- tação da “dona de casa”). Contemporaneamente, estudiosas feministas mostraram que toda a organização social, cultural e política que temos hoje disponível nas sociedades ocidentais são estruturadas de acordo com posições de feminilidade e de masculinidade. Mostraram também que, da fértil ideia de que “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, se poderia aplicar o mesmo con- ceito para estudar as masculinidades: “não se nasce homem, torna-se homem”. Assim, surgiram no âmbito de algumas cor- rentes dos feminismos abordagens que procuram entender as construções de gênero (feminilidades e masculinidades) num quadro relacional, no qual os modos de ser mulher estão inse- paráveis dos modos de ser homem; as feminilidades são cons- truídas em relação às masculinidades. Além disso, problemati- zou-se a posição feminina na sociedade ao sublinhar as várias características (de classe, de raça-etnia, de geração, de iden- tidade sexual, de pertencimento religioso etc.) que fazem parte da experiência de ser mulher, sugerindo que tais características precisam ser levadas em conta se o que se almeja é diminuir ou extinguir as desigualdades entre homens (e também entre as próprias mulheres). A histórica participação dos movimentos feministas na construção das agendas políticas dos Direitos Humanos tem seus marcos na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, que ocorreu na cidade do Cairo, no Egito, em 1994, e na IV Conferência Mundial sobre a Mulher, reali- zada em Pequim no ano de 1995. No Brasil contemporâneo, podemos dizer que as grandes reivindicações dos movimentos 140 Direitos Humanos feministas no âmbito dos Direitos Humanos: a) o combate à violência de gênero; b) o planejamento familiar; c) a garan- tia de serviços de saúde humanizados durante a gestação; d) equidade de gênero no mercado de trabalho; e e) o direito ao aborto em condições adequadas. Referências LOURO, Guacira. Um corpo estranho – ensaios sobre teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. BUTLER, Judith. Gender trouble. Routledge: Nova Iorque, 1999. LOURO, Guacira. Gênero, sexualidade e educação – uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis: Vozes, 1997. MEYER, Dagmar. Gênero e Educação: teoria e política. In: Corpo, Gênero e Sexualidade – um debate contempo- râneo na Educação. LOURO, G. FELIPE, J. GOELNER, S. (Orgs.). Petrópolis: Vozes, 2005, pp. 9-27. PINTO, Céli Regina. Feminismo, história e poder. Revista de Sociologia Política, Curitiba, v. 18, n. 36, pp. 15-23, 2010. SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade, vol. 20, n. 2, Porto Alegre, 1995. Capítulo 4 Políticas de Gênero e Direitos Humanos 141 VIANNA, Adriana. LACERDA, Paula. Direitos e políticas sexuais no Brasil: o panorama atual. Rio de Janeiro: CEPESC, 2004. Atividades 1) A abordagem de gênero do capítulo “Políticas de Gênero e Direitos Humanos” é construcionista. O que significa di- zer que os gêneros são “socialmente construídos”? 2) As primeiras reivindicações do movimento feminista acon- teceram no final do século XIX na Inglaterra por meio das “sufragistas”. Para essas mulheres, qual era sua demanda principal? 3) Cite duas diferenças entre as feministas da Primeira Onda e as feministas da Segunda Onda. 4) Os feminismos contemporâneos propõem uma críticaso- cial séria, que diz respeito à organização cultural e política das sociedades ocidentais. Que crítica é essa? 5) Cite pelo menos 3 reivindicações contemporâneas dos movimentos feministas sobre Direitos Humanos. Luiz Felipe Zago1 Capítulo 5 Políticas de Identidade Sexual e Direitos Humanos 1 Doutor e Mestre em Educação, Bacharel em Comunicação Social. Professor do curso de Comunicação Social e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), Campus Canoas – RS. Integrante da Linha de Pesquisa de Pedagogias e Políticas da Diferença (PPG-Edu ULBRA Canoas). Capítulo 5 Políticas de Identidade Sexual e Direitos Humanos 143 Introdução Este capítulo tem por objetivo fazer uma breve retomada histó- rica da constituição dos movimentos sociais que reivindicaram (e ainda reivindicam) a inserção das identidades sexuais nas discussões sobre Direitos Humanos. Para isso, será necessário diferenciar as políticas de gênero, tratadas no capítulo ante- rior, das políticas de identidades sexuais. Políticas de gênero e de identidade sexual não são sinônimos, embora tenham em comum de muitas posições conceituais, culturais e sociais. Com este capítulo pretende-se sublinhar as diferenças entre gênero e sexualidade, bem como aludir às formas como as políticas de identidade sexual vêm pautando debates específi- cos no campo dos Direitos Humanos atualmente – cujo campo de interlocução se dá historicamente por meio dos chamados direitos sexuais. Portanto, além de uma breve retomada histó- rica, este capítulo também trará discussões teóricas (como a diferenciação entre gênero e sexualidade) e apresentará resu- midamente a atual configuração das políticas de identidade sexual no Brasil. Há um intenso e longo debate entre pesquisadores/as das Ciências Sociais e Humanas (como a Psicologia, a Antropo- logia, a Sociologia, a Educação etc.) e das Ciências Bioló- gicas (como a Biologia, a Biomedicina e a Genética) acerca do modo como se pode entender as sexualidades humanas. De um modo geral, pesquisadores/as das Ciências Biológi- cas defendem que as várias orientações sexuais humanas são naturais, hormonal ou geneticamente determinadas. Por ou- tro lado, pesquisadores/as das Ciências Humanas e Sociais 144 Direitos Humanos tendem a argumentar que o desejo e o prazer sexual (e, por conseguinte, as identidades sexuais) são social e culturalmente construídas em determinados períodos históricos. Assim como no capítulo sobre Políticas de gênero e Direitos Humanos, no qual enfocou-se o caráter social e culturalmente constru- ído dos gêneros, aqui também privilegiar-se-á a abordagem construcionista no que diz respeito às identidades sexuais (ver WEEKS, 2007). Isso se justifica porque pretende-se sublinhar as implicações políticas das identidades sexuais na sociedade contemporânea desde a perspectiva dos Direitos Humanos, adotada por grande parte dos movimentos sociais organiza- dos e acadêmicos/as atuantes nessa área. Já a esta altura é preciso mencionar alguma definição de identidade sexual. Grosso modo, no senso comum, chama- -se de gay um indivíduo do gênero masculino cujos desejos sexuais, prazeres corpóreos e afetos são voltados para outros indivíduos do gênero masculino. Da mesma forma, lésbica é o nome dado a uma pessoa do gênero feminino cujos dese- jos sexuais, prazeres corpóreos e afetos são voltados para ou- tras pessoas do gênero feminino. Dentro dessa mesma lógica, pessoas bissexuais são aquelas cujos desejos sexuais, prazeres corpóreos e afetos podem ser voltados tanto para pessoas do gênero masculino quanto para pessoas do gênero feminino. Adota-se a expressão orientação sexual para referir-se às iden- tidades sexuais dos indivíduos. Essa classificação é instável, incerta, e varia muito entre as várias culturas humanas. Aqui se está simplificando enormemente as definições das identidades sexuais para fins didáticos; entretanto, é importante assinalar que tais definições estão sendo cada vez mais questionadas e contestadas, apontando para uma multiplicidade de possibili- Capítulo 5 Políticas de Identidade Sexual e Direitos Humanos 145 dades de viver as sexualidades que não estejam atreladas às meras práticas sexuais com este ou aquele indivíduo, deste ou daquele gênero (PARKER, 2002). Não obstante, tais definições podem ser úteis para a discussão sobre políticas de identidade sexual e Direitos Humanos. 1 Gênero e sexualidades Com o intuito de introduzir didaticamente as complexas rela- ções entre gêneros (masculinidades, feminilidades) e sexuali- dades (homossexualidade, bissexualidade, heterossexualidade etc.), opta-se por demonstrar aquilo que têm em comum e aquilo que têm de diferente. Conforme debatido no capítu- lo anterior, é possível sugerir de modo simples que gênero é a construção social e histórica dos sexos biológicos (macho, fêmea). Gênero engloba os modos (os comportamentos, as atitudes) de ser homem e de ser mulher que cada sociedade e cada cultura estabelecem como referência em determinados períodos históricos. Nas sociedades ocidentais contemporâne- as espera-se que a pessoa que tenha um corpo com pênis e testículos viverá como um homem, e que a pessoa que tenha um corpo com uma vagina e ovários viverá como mulher. As construções de masculinidade e de feminilidade também implicam em suposições acerca do desejo e do prazer sexual que homens e mulheres sentirão e exercerão uns/umas com os/as outros/as. Assim, é possível sugerir que nas sociedades ocidentais contemporâneas espera-se que a pessoa que tenha um corpo com pênis e testículos viverá como um homem e 146 Direitos Humanos que, além disso, sentirá desejo e prazer sexual com pessoas do outro gênero – as mulheres. Da mesma forma, espera-se que a pessoa que tenha uma vagina e ovários viverá como mulher e que, além disso, sentirá desejo e prazer sexual com pessoas do outro gênero – os homens. A expectativa de que um homem (uma pessoa do gênero masculino) terá desejo e prazer ape- nas com mulheres, e que uma mulher (uma pessoa do gênero feminino) terá desejo e prazer somente com homens é algo que organiza todas as sociedades ocidentais contemporâne- as. É o que se convencionou chamar de heterossexualidade compulsória (LOURO, 2004): a sexualidade compulsória de pessoas cujos gêneros são masculino ou feminino, tida como normal e natural, é a heterossexualidade. A heterossexualida- de, isto é, os desejos e os prazeres que fazem com que homens se atraiam sexual e afetivamente por mulheres (e vice-versa), é a forma de exercício da sexualidade compreendida como natural, normal e compulsória para todas as pessoas. Portanto, é preciso explicitar que construções de gênero (masculinidades, feminilidades) supõem uma única orienta- ção sexual como normal e compulsória: a heterossexualidade. Nesse sentido, gêneros e sexualidades são coextensões, isto é, como se para toda construção de gênero masculino e para toda construção de gênero feminino houvesse apenas uma se- xualidade possível. A expectativa de que homens sintam desejo e prazer sexual apenas com mulheres, e que mulheres sintam desejo e prazer sexual apenas com homens é uma forma de or- ganização social e cultural que toma como padrão a heteros- sexualidade, forma de sexualidade tida como normal e com- pulsória. Dá-se o nome de heteronormatividade a essa forma de organização social e cultural que faz da heterossexualidade Capítulo 5 Políticas de Identidade Sexual e Direitos Humanos 147 uma norma de vida, de comportamento e de relacionamento para todas as pessoas (JUNQUEIRA, 2009; LOURO, 2004). Não se pode confundir heterossexualidade com heteronorma- tividade: heterossexualidade é uma determinada configuração de desejos e prazeres sexuais na qual pessoas de um gênerosentem-se atraídas sexual e afetivamente por pessoas de outro gênero; heteronormatividade, por outro lado, é a exigência, a demanda, a obrigatoriedade cultural de que todas as pessoas sejam heterossexuais. 2 Normalidade, violência e identidades sexuais Dessa breve introdução conceitual podemos mencionar alguns pontos importantes para entendermos a constituição das po- líticas de identidade sexual que existem hoje no Brasil e no mundo. Em primeiro lugar, podemos concluir que as construções de gênero masculino e de gênero feminino das nossas socieda- des (os modos aceitos de ser homem e de ser mulher) trazem consigo a expectativa de uma única sexualidade concebida como adequada, correta, normal e natural para os seres hu- manos. Muitos argumentos usados para justificar a ideia que a heterossexualidade é normal e natural para os seres humanos baseiam-se na justificativa de que a reprodução da nossa es- pécie somente acontece quando o espermatozoide fecunda o óvulo; isto é, a reprodução do ser humano somente acontece quando há prática sexual entre um corpo de homem e um 148 Direitos Humanos corpo de mulher. O fato de que nossa espécie se reproduz mediante fecundação do óvulo pelo espermatozoide é ine- gável. Entretanto, nem toda prática sexual tem por objetivo a reprodução, e é absolutamente aceitável que muitos seres humanos têm práticas sexuais visando obter experiências de prazer corpóreo e momentos de intimidade e de afeto. Portan- to, justificar a naturalidade e a normalidade da heterossexua- lidade, reforçando-a como a única sexualidade possível para os seres humanos baseando-se no seu potencial reprodutivo é altamente inconsistente. Nesse sentido, é importante sublinhar que as sexualidades humanas não têm como objetivo único, final e exclusivo a reprodução da espécie, mas são em geral maneiras de expressar desejo e ter experiências prazerosas, afetivas e íntimas. Em segundo lugar, podemos concluir que todos aqueles indivíduos que não exercem a prática sexual heterossexual se- rão considerados “não naturais”, “anormais”, “desajustados”, “problemáticos” – e, em alguns casos extremos, serão chama- dos de “criminosos” ou “doentes”. A ideia de que a heterosse- xualidade é uma norma compulsória válida para todos os se- res humanos faz com que qualquer pessoa que eventualmente não a pratique seja considerada uma “desviante”. Em parte, é devido às concepções de “anormalidade”, “desvio” (às vezes de “crime” ou “doença”) que existem inúmeros episódios de violência física e simbólica perpetrados contra pessoas não heterossexuais. Supostamente se justificam atos de preconcei- to e de discriminação contra pessoas não heterossexuais ale- gando que essas pessoas “desrespeitam” a natureza humana, “desviam” da normalidade, e põem em risco a estrutura da sociedade com comportamentos “anormais”. Convencionou- Capítulo 5 Políticas de Identidade Sexual e Direitos Humanos 149 -se nomear de homofobia o conjunto de atos de preconceito e de discriminação, físicos e simbólicos, contra pessoas não heterossexuais (BORILLO, 2010). Atos homofóbicos parecem encontrar justificativa na suposta naturalidade e normalidade da heterossexualidade, naturalidade e normalidade estas que precisariam ser defendidas por meio de violência física e sim- bólica voltada contra pessoas que não praticam essa sexuali- dade. Por atos de violência simbólica entendem-se práticas de bullying, assédio moral, obstrução do exercício de cidadania, piadas, deboches, ironias, escárnios e xingamentos envolven- do todas as pessoas não heterossexuais. Por atos de violên- cia física entendem-se todas as práticas de tortura, agressão, luta, briga que produzem dor e sofrimento corpóreo, muitas vezes buscando levar o indivíduo à morte. Ao longo da histó- ria recente das sociedades ocidentais, e durante o cotidiano presente de muitas pessoas, atos de violência física e simbóli- ca contra pessoas não heterossexuais foram e são praticados justificando-se, em grande parte, pelo reforço da heterossexu- alidade como única maneira possível de viver a sexualidade humana e pela tentativa de rechaçar aqueles indivíduos que não a praticam. Finalmente, em terceiro lugar, podemos mencionar que é, sobretudo, nos grandes centros urbanos da Europa e dos Es- tados Unidos, a partir da década de 1970, que se ensaiou a construção de políticas de identidade sexual. Aquelas pes- soas até aqui chamadas genericamente de “pessoas não he- terossexuais” criaram comunidades, grupos, associações, nos quais passaram a conviver. Da construção dessas comunida- des, grupos e associações surgiram organizações políticas e grupos acadêmicos compostos por pessoas que procuraram 150 Direitos Humanos questionar a heterossexualidade como única forma possível e correta de vivência dos desejos, prazeres, afetos e intimida- de. Daí surgiram lentamente as identidades sexuais: indivíduos que passaram a reconhecer a si próprios como gays, lésbicas, bissexuais, assumindo-se enquanto tais para a sociedade em geral. Passou-se, então, a nomear as identidades sexuais de acordo com nomenclaturas que dessem conta da efervescên- cia cultural de cada grupo: as comunidades de homens gays, as comunidades de mulheres lésbicas etc. Da expressão ge- nérica “pessoas não heterossexuais” (tidas como “anormais”, “desviantes”, “criminosas” e “doentes”), uma complexa estru- tura social, cultural e política passou a se organizar em tor- no das identidades sexuais, que tinham então nomes próprios para serem reconhecidas. 3 Um breve histórico das políticas de identidade sexual Da “sodomia” à “homossexualidade” Práticas sexuais, visando experiências de prazer, entre homens e entre mulheres não são fenômenos contemporâneos. Existem evidências históricas de que pelo menos desde as sociedades mesopotâmicas, egípcias, gregas e romanas de antes de Cris- to existiram indivíduos que adotavam determinadas práticas corpóreas com pessoas do mesmo sexo biológico para obter prazer. Contudo, são extremamente complexos os modos pelos quais as diferentes sociedades, em diferentes períodos históri- cos, entenderam e significaram tais práticas no interior de suas Capítulo 5 Políticas de Identidade Sexual e Direitos Humanos 151 culturas. Se, por um lado, em Atenas antes de Cristo, o amor entre os homens cidadãos da Grécia era considerado natural e normal (algo, inclusive, que não excluía a obrigatoriedade do casamento com mulheres com fins reprodutivos), por outro, as sociedades ocidentais cristãs europeias do final do século XVIII passaram a classificar como “desviantes” e “anormais” todas as práticas sexuais que não resultavam na reprodução da espécie humana. Aqui não se tem o objetivo de realizar uma análise histó- rico-cultural das condições que levaram a essa mudança tão radical na forma de entender as sexualidades humanas. Con- tudo, é importante assinalar o século XIX como o momento na história ocidental no qual surgiu o que hoje se convencionou chamar de “homossexualidade”2. A palavra “homossexualida- de” não existia até então – o que não significa, conforme já mostrado, que práticas sexuais entre homens e entre mulheres não existissem. Até o século XIX, chamavam-se de “sodomia” todas as práticas sexuais que não resultavam em reprodução da espécie humana (inclusive aquelas praticadas entre um homem e uma mulher), e mais especificamente chamava-se de “pederastia” a prática sexual entre homens. Já a palavra “homossexualidade” foi criada por médicos sexologistas euro- peus que estavam preocupados em categorizar a prática se- xual entre pessoas do mesmo sexo biológico enquanto doen- ça (mental e física), enquanto desvio da norma heterossexual. Por conseguinte, os praticantes da “homossexualidade” (uma 2 As palavras “homossexualidade” e “homossexuais” serão escritasentre aspas porque, conforme argumentado, foram criadas para referirem-se a uma “doença” e aos “doentes”. 152 Direitos Humanos categoria médica) foram nomeados de “homossexuais” (“do- entes”, “desviantes”, pessoas que deveriam ser tratadas). Nas épocas anteriores, não havia nenhuma sociedade ou cultura que concebesse a ideia de que dois homens que praticassem certos atos visando experiências de prazer fossem “doentes” ou “desviantes”. Esses indivíduos poderiam ser rotulados de “pecadores” ou “desavergonhados”, mas jamais de “doentes”. Foi a sexologia, ramo então incipiente da medicina ocidental, que categorizou a “doença” homossexualidade e os “doentes” homossexuais. Na transição do século XIX para o século XX, na Europa, começaram a se organizar tímidas mas importantes associa- ções e grupos de pessoas “homossexuais”. Em Berlim, na Alemanha, nas primeiras décadas do século XX, havia uma enérgica vida social e cultural formada por espaços de socia- bilidade (bares, cafés, livrarias, casas noturnas) frequentados por homens e mulheres “homossexuais”. Na mesma época, o médico alemão Magnus Hirschfeld tornou-se um porta-voz da defesa da prática sexual entre pessoas do mesmo sexo biológico, procurando combater a criminalização jurídica da “homossexualidade” através de várias pesquisas levadas a cabo pelo Comitê Científico Humanitário – instituição funda- da por ele, que tinha por objetivo realizar pesquisas científi- cas que provassem que a prática “homossexual” não poderia ser considerada um “crime”, tampouco uma “doença”. Na Alemanha e na Inglaterra, por exemplo, havia leis específi- cas que configuravam como um crime jurídico a prática da “homossexualidade” – e, portanto, faziam dos/as “homos- Capítulo 5 Políticas de Identidade Sexual e Direitos Humanos 153 sexuais” criminosos/as. O escritor irlandês Oscar Wilde, por exemplo, foi condenado a prisão por dois anos sob a alega- ção de “atos de flagrante indecência” depois de ser proces- sado pelo pai do homem por quem tinha se apaixonado, sir Alfred Douglas. As atividades do Comitê criado por Hirschfeld e o circuito social e cultural de homens e mulheres “homossexuais” ale- mães, no início do século XX, foram interrompidos com a as- censão de Adolf Hitler ao posto de Chanceler, em 1933. Hitler, ao defender o conjunto de valores morais racistas e eugênicos nos quais se baseava o nazismo, fez a perseguição e impôs o encarceramento de “homossexuais” em toda a Alemanha. O objetivo de Hitler era o de promover a raça ariana enquanto raça pura, sem “desvios” e “anormalidades” de quaisquer ti- pos. Para tanto, todos os indivíduos que, de acordo com os cri- térios nazistas, maculavam a raça ariana deveriam ser presos e executados. Eram eles, entre outros, os deficientes físicos e mentais, os delinquentes reincidentes, os ciganos, os comunis- tas, os espiões de outras nacionalidades, aqueles que tinham traído o partido nazista ou desertado do Exército alemão (na- quele momento já combatendo na Segunda Guerra Mundial), os judeus e os “homossexuais”. Todos esses indivíduos foram conduzidos aos campos de concentração, lá foram submetidos a trabalhos forçados e, milhões deles, à morte3. 3 No capítulo “Correntes contra-hegemônicas em Direitos Humanos” essa história será retomada e aprofundada do ponto de vista político e conceitual. 154 Direitos Humanos 4 Da “homossexualidade” à cidadania – passando pela epidemia de Aids Do final da Segunda Guerra Mundial até o final da década de 1960, o mundo ocidental passou por várias mudanças. Entre elas, talvez uma das mais importantes tenha sido o cres- cimento das grandes cidades catapultado pelo aumento da população urbana. O movimento de urbanização propiciou a criação de espaços de sociabilidade habitados por pessoas “homossexuais”: ruas, bairros, comunidades formadas por ho- mens e mulheres que não praticavam a heterossexualidade. É preciso sublinhar a partir de agora que foi (e ainda é) por meio da criação de comunidades, grupos e associações que pesso- as gays, lésbicas, bissexuais construíram laços sociais a fim de viverem suas vidas e praticarem suas sexualidades de manei- ras menos vulneráveis à violência por discriminação e precon- ceito. Foi também (e ainda é) por meio da coletividade, das comunidades e dos grupos criados em torno das identidades sexuais que se passou a reivindicar o exercício de cidadania de que pessoas gays, lésbicas e bissexuais têm direito. Recusando os rótulos discriminatórios de “anormalidade”, “doença” ou “crime” que estigmatizaram (e ainda estigmatizam) indivíduos que não praticam a heterossexualidade, eles e elas vieram a público afirmar suas identidades sexuais e buscar pelo reco- nhecimento jurídico, legal e cultural de suas existências. O marco histórico de luta contra o preconceito e a discri- minação baseados em orientação sexual é o Levante de Sto- newall. Leva esse nome porque, na noite de 28 de junho de 1969, vários homens gays estavam reunidos no bar Stonewall Capítulo 5 Políticas de Identidade Sexual e Direitos Humanos 155 Inn, em Nova Iorque, quando a polícia da cidade fez uma intervenção violenta no estabelecimento, agredindo física e verbalmente os frequentadores e ameaçando-os de prisão por estarem ali. Aquela não era a primeira vez que havia uma batida policial desse tipo: a polícia já vinha invadindo o bar e prendendo seus frequentadores havia alguns meses. No en- tanto, naquela noite, o grupo de homens gays reagiu aos atos truculentos dos policiais, resistindo à prisão e iniciando um le- vante contra a violência com a qual eram praticadas as visitas da polícia. A resistência às forças policiais durou três dias, ao longo dos quais houve intensos embates entre os frequentado- res do Stonewall Inn e os policiais de Nova Iorque. Ao fim do terceiro dia, o bar Stonewall Inn e toda a vizinhança pareciam um cenário de guerra; o estabelecimento foi fechado e muitos homens gays que participaram do levante foram para prisão. A notícia do levante, embora sem a vitória de seus frequen- tadores, espalhou-se rapidamente pelas grandes cidades dos Estados Unidos e da Europa. O gesto político do embate (de re- sistência contra a violência e a discriminação) funcionou como um estímulo para a criação de comunidades, associações, es- paços de sociabilidade e grupos de estudos sobre a condição “homossexual” na sociedade e todas as suas implicações para aqueles/as que se reconheciam enquanto “homossexuais”. Aproveitando as produtivas discussões dos grupos feministas sobre gênero que embalaram os anos de 1970, houve tam- bém o aumento considerável de grupos acadêmicos que se dedicavam a estudar questões relativas à sexualidade, pelo menos nos Estados Unidos e na Europa. Também começaram a surgir associações de pessoas comuns que se reuniam para propor atividades culturais ou projetos de lei que coibissem a 156 Direitos Humanos discriminação contra pessoas homossexuais. Em 28 de junho de 1970, um ano após o levante de Stonewall, foi realizada uma caminhada de protesto e de memória pelo episódio nas vizinhanças do bar: esta é considerada a primeira marcha gay da história, e o dia 28 de junho foi mais tarde escolhido para ser o dia internacional da livre orientação sexual no Ocidente. A década de 1970 transcorreu com a organização pau- latina de grupos e associações de pessoas homossexuais na América do Norte e na Europa, com o objetivo de debater tópicos relacionados à sexualidade (sobretudo quanto à dis- criminação e à violência), criar comunidades e espaços de sociabilidade. Já a partir de 1975 havia grupos organizados de pessoas militantes, que buscavam atuar junto ao poder pú- blico para formular ações contra o preconceito pelo qual pas- savam muitos/as “homossexuais”. Esses grupos organizados também estavamcientes de que havia infecções sexualmente transmissíveis sendo detectadas entre homens que praticavam sexo com outros homens, e começaram (mesmo que de modo muito incipiente) a realizar algumas iniciativas de ensino da prevenção pelo uso do preservativo, então conhecido como “camisa de Vênus”. Para saber mais desse período histórico da construção do movimento social das políticas de identidade sexual, um bom meio é assistir ao filme “Milk”, de 2008. Na virada da década de 1970 para 1980, o mundo viu surgir uma das mais avassaladoras epidemias da humanida- de: a epidemia de HIV (human immunodeficiency virus), vírus da imunodeficiência humana, causador da Aids (em inglês, si- gla para síndrome da imunodeficiência adquirida). A infecção pelo HIV foi imediatamente associada aos homens “homosse- Capítulo 5 Políticas de Identidade Sexual e Direitos Humanos 157 xuais”, pois o vírus é transmitido através de fluidos corpóreos (como o sêmen e o sangue); portanto, a relação sexual des- protegida (isto é, sem uso do preservativo) tornou-se o modo principal de transmissão4. Mundialmente, as primeiras pessoas públicas a morrerem de Aids foram homens “homossexuais”: nos Estados Unidos, o ator de cinema Rocky Hudson; na Ingla- terra, o cantor Freddy Mercury; no Brasil, o estilista de moda Markito – e, na década de 1990, os cantores Cazuza e Renato Russo. A carga de preconceito contra as práticas sexuais entre ho- mens ganhou novo fôlego com a emergência da Aids. Nos Estados Unidos, a Aids era considerada a doença dos 4 “H”, então chamados de “grupos de risco”: homosexuals (“homos- sexuais”), haitians (haitianos); hemophiliacs (hemofílicos) e hookers (profissionais do sexo), e esses quatro grupos simboli- zavam grande parte dos indivíduos indesejáveis, social e politi- camente, no seio da sociedade estadunidense da época. Com o surgimento da Aids a estigmatização dos homens “homos- sexuais”, supostamente justificada por causa de suas práticas sexuais (tidas preconceituosamente como perigosas e promís- cuas), reforçou a ideia de “doença” e de “desvio” associados à homossexualidade. A palavra “aidético”, por exemplo, foi comumente usada como xingamento e prática de discrimina- ção contra homens gays. Milhões de homens gays morreram em decorrência da Aids durante a década de 1980, quando 4 Para este capítulo, privilegiar-se-á o enfoque da infecção pelo HIV por meio de práticas sexuais desprotegidas. No entanto, é preciso assinalar que essa não é a única forma de transmissão: há a transmissão vertical (de mãe para filho, durante a gravidez) e também a transmissão pelo compartilhamento de seringas e cachimbos (no caso das pessoas usuárias de drogas). 158 Direitos Humanos ainda não se tinha disponível nenhum tipo de tratamento para a síndrome. Foi somente a partir do início da década de 1990 que se introduziu o AZT como medicamento usado para tratar a Aids e prolongar a vida das pessoas que viviam com o vírus. Em 1996 ofereceu-se um coquetel tríplice de medicamentos, o coquetel antirretroviral, que impede o HIV de replicar-se no organismo humano. Até os dias de hoje, não se dispõe de uma vacina contra o HIV, mas há vários avanços na combi- nação de medicamentos que compõem o coquetel, algo que prolonga a vida das pessoas vivendo com HIV e também in- crementa sua saúde, a ponto de viverem por décadas sem ma- nifestar nenhum sintoma da síndrome. Há dezenas de filmes e livros sobre esse período histórico. Talvez o mais popular seja “Philadelphia”, de 1993, primeiro filme de Hollywood a tratar abertamente sobre Aids, que retrata bem o contexto social da época. Contudo, a epidemia de Aids não significou apenas mor- te, estigmatização e discriminação para homens (e também mulheres) “homossexuais” (GALVÃO, 2000; PARKER, 2000). Destacam-se, a partir dos múltiplos esforços de prevenção aos HIV nos países ocidentais, três pontos fundamentais para a consolidação das políticas de identidade sexual e Direitos Hu- manos: a) A Aids não é uma síndrome restrita aos “grupos de risco”, grupos compostos de pessoas culturalmen- te discriminadas. Com o passar do tempo (aliás, já nos primeiros anos da epidemia de Aids), verificou-se que mulheres heterossexuais em relações afetivas es- táveis também apresentavam o HIV. Com o crescente Capítulo 5 Políticas de Identidade Sexual e Direitos Humanos 159 número de pessoas diagnosticadas com o vírus que não correspondiam aos então chamados “grupos de risco” – como o dos homens “homossexuais” –, a so- ciedade de um modo geral teve de lidar com o fato de que, se mulheres heterossexuais em relações estáveis se infectam com o HIV (supostamente uma parcela da população “protegida” pela heterossexualidade e pela monogamia conjugal), é porque as práticas sexuais humanas não obedecem às classificações como as de “grupo de risco”. O fato de haver no Brasil, desde os primeiros anos de 2000, um aumento de casos de Aids entre mulheres heterossexuais em relações estáveis (a chamada feminização da Aids) significa que a infecção pelo HIV não pode ser considerada um risco restrito aos homens que praticam sexo com outros homens, mas a toda e qualquer pessoa que, por múltiplos fa- tores, esteja vulnerável à infecção a ponto de expor-se ao risco de infectar-se com o vírus. Seja essa pessoa homem ou mulher, hétero, homo ou bissexual, idoso/a ou jovem, rico/a ou pobre, branco/a ou negro/a, to- dos/as estão em maior ou menor grau vulneráveis à infecção pelo HIV – muito embora as características de gênero, de orientação sexual, de geração, de classe, de raça/etnia participem ativamente para aumentar ou diminuir esse grau de infecção; b) Embora tenha possibilitado um incremento do precon- ceito e da discriminação contra pessoas não heteros- sexuais, a epidemia de Aids deu chances de criação de associações, grupos de apoio, ONGs (organizações não governamentais), mobilizações políticas e cultu- 160 Direitos Humanos rais, correntes e laços sociais, políticos e afetivos entre as mais variadas pessoas, dos mais distintos países e culturas. Todas essas pessoas se uniram em torno da prevenção ao HIV, da promoção dos Direitos Huma- nos das pessoas vivendo com o vírus, da mobilização política para oferecer serviços de saúde de qualidade, da desconstrução da discriminação e do estigma em torno da Aids. Mesmo aqueles indivíduos que não vi- viam com HIV se engajaram no combate ao precon- ceito criado sobre a Aids. O Brasil, por exemplo, é o único país do mundo a oferecer o tratamento antirre- troviral de graça, através do Sistema Único de Saúde (SUS), devido às reivindicações de militantes implica- dos na prevenção. Graças a epidemia de Aids, portan- to, houve a possibilidade de organização política de grupos e associações de pessoas que trabalharam (e ainda trabalham) na prevenção ao HIV, na promoção dos Direitos Humanos daqueles/as que vivem com o vírus (“homossexuais” ou não) e no engajamento em ações contra a discriminação. Dessa organização po- lítica necessária para o enfrentamento da epidemia de Aids, na forma de organizações não governamentais e grupos de pesquisa acadêmica, catalisou-se a constru- ção disso que está sendo chamado neste capítulo de “políticas de identidade sexual”: um conjunto de va- lores (da valorização da vida humana, por exemplo), práticas sociais (campanhas de educação e de pre- venção ao HIV, por exemplo), atividades de promoção de Direitos Humanos e de combate à discriminação e Capítulo 5 Políticas de Identidade Sexual e Direitos Humanos 161 à violência envolvendo determinadas orientações se- xuais; c) Foi depois da mobilização política pelo enfrentamen- to à epidemia de Aids que vimos a multiplicação das chamadas identidades sexuais. Por volta dos anos de 1990, aqueles/as que eram reconhecidos/as atéentão como “homossexuais” passaram a reivindicar identi- dades mais particulares (FACCHINI, 2005). Aos pou- cos começaram a ser adotadas denominações como “gay” para referir-se aos homens atraídos sexual e afe- tivamente para outros homens, e que se assumem en- quanto tais; “lésbica” para mulheres atraídas sexual e afetivamente para outras mulheres, e que se assumem enquanto tais; “bissexuais” para pessoas que sentem atraídas sexual e afetivamente para pessoas de ambos os gêneros, e que se assumem enquanto tais; “transe- xual” para aquela pessoa que experimenta redesigna- ção de seu sexo (macho para fêmea, fêmea para ma- cho), mediante práticas cirúrgicas e acompanhamento psicológico; “intersexuais” para aquelas pessoas cujo corpo tem em si características e órgãos de ambos os sexos; “travestis”, comumente utilizada para se referir àquelas pessoas que vivem socialmente como mulhe- res, mas que escolhem não ter a experiência da re- designação de sexo e, portanto, mantêm órgãos do sexo masculino. Novamente, é importante salientar que essas definições e classificações são altamente contestadas, incertas e deslizantes, havendo inúmeros/ as pesquisadores/as no mundo que refutam tais crité- rios para a menção às identidades sexuais. Contudo, 162 Direitos Humanos no contexto deste capítulo, essas definições são pe- dagógicas e ilustrativas da explosão de identificações e nomeações das identidades sexuais nas sociedades ocidentais contemporâneas dos últimos vinte anos. Tal explosão de identificações (hoje resumida na sigla LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexuais) constitui o cerne das políticas de identi- dade sexual: os indivíduos identificados com cada um desses grupos estão organizados politicamente para lutar contra o preconceito, contra a discriminação e contra a violência, além de buscar o reconhecimento e a promoção de seus Direitos Humanos. 5 Reivindicações contemporâneas Atualmente pode-se agrupar as reivindicações das políticas de identidade sexual em três grandes grupos. O primeiro diz respeito às questões relativas à saúde; o segundo diz respeito à conjugalidade e à formação de família; o terceiro, à crimi- nalização da violência contra pessoas LGBTI e da violência homofóbica (CARRARA, 2010; VIANNA; LACERDA, 2004). No conjunto das reivindicações que atrelam Direitos Hu- manos e saúde, as políticas de identidade sexual buscam dar continuidade aos anos de promoção da saúde sexual por meio de prevenção às infecções sexualmente transmissíveis entre pessoas não heterossexuais. Além disso, faz parte da agenda política preservar os direitos das pessoas que vivem com HIV e Aids no Brasil, garantindo serviços de saúde gratuitos por Capítulo 5 Políticas de Identidade Sexual e Direitos Humanos 163 meio do SUS, bem como assegurando a distribuição gratuita de medicações para essas pessoas. Além disso, desde 2008 o Ministério da Saúde do Brasil garante o processo transexuali- zador (de redesignação de sexo) através do SUS, oferecendo todas as etapas necessárias para o processo. No que tange à constituição de família e à conjugalidade, no Brasil dispomos de decisões do Superior Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ), desde 2011, que já garantem o reconhecimento legal das uniões estáveis e do casamento entre pessoas do mesmo sexo – garantindo, com isso, também todos os direitos e deveres atrelados ao matri- mônio (como direito à herança, dependência em planos de saúde, regime de comunhão de bens, declaração conjunta de imposto de renda etc.). Ainda não é unânime, contudo, de- cisões das instâncias judiciais acerca do direito à adoção de crianças por casais de pessoas do mesmo sexo, mas regional- mente em todo o Brasil existem desfechos favoráveis à adoção demandados por casais de homens ou casais de mulheres. Finalmente, a grande reivindicação dos/as militantes das políticas sexuais no Brasil é a criminalização da prática de violência homofóbica, caracterizada pela violência física ou simbólica baseada em discriminação por orientação sexual. O projeto de lei visa criar penas para atitudes de discriminação e estigmatização contra pessoas não heterossexuais. Muito em- bora existam legislações regionais que já penalizem atitudes discriminatórias por orientação sexual (como nos municípios de Porto Alegre, desde 1996, e no município do Rio de Janei- ro, desde 2015), quer-se propor a criminalização da homofo- bia em todo o Brasil. 164 Direitos Humanos Dado este breve histórico e um panorama geral dos con- ceitos que orientam as políticas de identidade sexual em ar- ticulação com os valores dos Direitos Humanos, podemos salientar o que segue: sobretudo ao longo do século XX, recu- sam-se os rótulos de “doentes”, “anormais” ou “criminosos” associados às pessoas não heterossexuais, e passa-se a traba- lhar politicamente para que sejam possíveis formas de vida em sociedade nas quais as múltiplas identidades sexuais – sejam elas heterossexuais ou não – possam coabitar em uma esfera comum de exercício de cidadania. Nessa direção, tomam-se atualmente as orientações sexuais (e todas as formas de vida em sociedade que delas advêm) como direito humano, como exercícios que não podem ser constrangidos ou proibidos por força legal ou moral, tampouco podem ser razão e justificativa para prática de discriminação e violência. Recapitulando Conforme debatido ao longo deste capítulo, vimos que a ex- pectativa de que um homem terá desejo e prazer apenas com mulheres, e que uma mulher terá desejo e prazer somente com homens, é algo que organiza todas as sociedades ocidentais contemporâneas. É o que se convencionou chamar de hete- rossexualidade compulsória: a sexualidade compulsória de pessoas cujos gêneros são masculino ou feminino, tida como normal e natural, é a heterossexualidade. Também vimos que se dá o nome de heteronormatividade a essa forma de orga- nização social e cultural que faz da heterossexualidade uma Capítulo 5 Políticas de Identidade Sexual e Direitos Humanos 165 norma de vida, de comportamento e de relacionamento para todas as pessoas. Também vimos que as construções de gênero masculino e de gênero feminino das nossas sociedades (os modos acei- tos de ser homem e de ser mulher) trazem consigo a expec- tativa de uma única sexualidade concebida como adequada, correta, normal e natural para os seres humanos. Por isso, sugeriu-se que todos aqueles indivíduos que não exercem a prática sexual heterossexual são considerados “não naturais”, “anormais”, “desajustados”, “problemáticos” – e, em alguns casos extremos, são chamados de “criminosos” ou “doentes”. A ideia de que a heterossexualidade é uma norma compulsó- ria válida para todos os seres humanos faz com que qualquer pessoa que eventualmente não a pratique seja considerada uma “desviante”. Historicamente, vimos que foi no século XIX o momento na história ocidental no qual surgiu o que hoje se convencionou chamar de “homossexualidade”. A palavra “homossexualida- de” foi criada por médicos sexologistas europeus que estavam preocupados em categorizar a prática sexual entre pessoas do mesmo sexo biológico enquanto doença (mental e física), en- quanto desvio da norma heterossexual. Por conseguinte, os praticantes da “homossexualidade” (uma categoria médica) foram nomeados de “homossexuais” (“doentes”, “desviantes”, pessoas que mereciam tratamento). A década de 1970 trans- correu com a organização paulatina de grupos e associações de pessoas homossexuais na América do Norte e na Europa, com o objetivo de debater tópicos relacionados à sexualidade 166 Direitos Humanos (sobretudo quanto à discriminação e à violência), criar comu- nidades e espaços de sociabilidade. Na virada da década de 1970 para 1980, surgiu a epide-mia de HIV, vírus causador da Aids. Com o surgimento da Aids a estigmatização dos homens “homossexuais”, supostamente justificada por causa de suas práticas sexuais (tidas preconcei- tuosamente como perigosas e promíscuas), reforçou a ideia de “doença” e de “desvio” associada à homossexualidade. Con- tudo, a epidemia de Aids não significou apenas morte, estig- matização e discriminação para homens (e também mulheres) “homossexuais”. Destacamos três importantes pontos que a mobilização pelo enfrentamento à epidemia de Aids auxiliou na organização das políticas de identidade sexual tal como as conhecemos hoje: a) a Aids não é uma síndrome restrita aos “grupos de risco”, grupos compostos de pessoas culturalmente discriminadas; b) a epidemia de Aids deu chances de criação de associações, grupos de apoio, ONGs, mobilizações polí- ticas e culturais, correntes e laços sociais políticos e afetivos entre as mais variadas pessoas, dos mais distintos países e cul- turas; c) foi depois da mobilização política pelo enfrentamento à epidemia de Aids que vimos a multiplicação das chamadas identidades sexuais. Finalmente, concluímos mencionando as principais reivin- dicações das políticas de identidade sexual no Brasil atual: i) na saúde, as políticas de identidade sexual buscam dar conti- nuidade aos anos de promoção da saúde sexual por meio de prevenção às infecções sexualmente transmissíveis entre pesso- as não heterossexuais e assegurar o oferecimento do processo transexualizador pelo SUS; ii) no que diz respeito à constituição Capítulo 5 Políticas de Identidade Sexual e Direitos Humanos 167 de família e à conjugalidade, no Brasil dispomos de decisões do STF e do STJ que já garantem o reconhecimento legal das uniões estáveis e do casamento entre pessoas do mesmo sexo; e iii) a criminalização da prática de violência homofóbica, ca- racterizada pela violência física ou simbólica baseada em dis- criminação por orientação sexual. Referências BORILLO, Daniel. Homofobia – história crítica de um precon- ceito. Belo Horizonte: Autêntica, 2010. CARRARA, Sérgio. 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VIANNA, Adriana. LACERDA, Paula. Direitos e políticas sexu- ais no Brasil: o panorama atual. Rio de Janeiro: CEPESC, 2004. WEEKS, Jeffrey. O corpo e a sexualidade. In: LOURO, G. (Org.). O corpo educado – pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2007, pp. 35-82. Glossário HIV – human immunodeficiency virus, vírus da imunodeficiên- cia humana. Aids – em inglês, sigla para síndrome da imunodeficiência ad- quirida. ONG – organizações não governamentais. LGBTI – lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e in- tersexuais. STF – Superior Tribunal Federal. STJ – Superior Tribunal de Justiça. Capítulo 5 Políticas de Identidade Sexual e Direitos Humanos 169 Atividades 1) Como se pode relacionar gênero e sexualidade? 2) Como se pode descrever a heternormatividade? 3) Por quais razões o Levante de Stonewall Inn é considerado um marco histórico na política de identidade sexual? 4) Cite pelo menos uma contribuição do surgimento da epi- demia de HIV/Aids para a construção das políticas de identidade sexual no Ocidente. 5) Podemos agrupar as reivindicações atuais das políticas de identidade sexual para os Direitos Humanos em 3 grandes grupos. Quais são eles? Deivison Moacir Cezar de Campos1 Capítulo 6 Cidadania dos Negros como Devir: Avanços e Conquistas de Direitos Humanos 1 Jornalista. Doutorando em Ciências da Comunicação pela Unisinos. Especialista em História Contemporânea e mestre em História Social. Coordenador do curso de Jornalismo da Ulbra. Capítulo 6 Cidadania dos Negros como Devir: Avanços e ... 171 Introdução A busca pela cidadania plena tem pautado as reivindicações dos movimentos sociais negros nas últimas décadas no Brasil, principalmente no que se refere ao acesso aos direitos e servi- ços básicos. Apesar das garantias constitucionais, o processo de conquista da cidadania passa pela derrubada de estereó- tipos, herdados do imaginário escravista, racismos e, ainda, pela superação de uma organização social em torno da bran- quitude2, o que significa subverter o senso comum. O fechamento dos grupos dominantes na tradição nacio- nal, a proposta de uma cultura e identidade brasileiras são formas de garantir seu status quo frente a um contexto em que culturas híbridas e a diversidade são dominantes. O es- tranhamento provocado pela diferença, e a necessidade de adequação a outros padrões são elementos repressores do pertencimento negro. O discurso do outro, seja através de mi- tos [democracia racial], de esteriótipos [ligados ao corpo e a violência], ou narrativas [“Lugar de negro é na cozinha do RU”3], busca forçar o processo de acomodação a uma cidada- nia relacionada ao consumo. 2 ”Ruth Frankenberg define a branquitude como um lugar estrutural de onde o su- jeito branco vê os outros e a si mesmo, uma posição de poder, um lugar confortável no qual se pode atribuir ao outro aquilo que não se atribui a si mesmo” (FRANKEN- BERG apud PIZA, 2002, p.71; FRANKENBERG, 1999b, p. 43-51) (CARDOSO, 2011) 3 Pichação na parede da UFRGS durante a discussão sobre a implementação de políticas afirmativas, ocorrida em 2007. 172 Direitos Humanos Neste sentido, em sua análise da globalização, Milton San- tos (2000) defende que os grandes temas da humanidade não foram resolvidos, mas suspensos e deixados de lado em nome de uma superficialidade permanente. O pertencimento é uma destas questões. Por outro lado, diz que a fluidez de nossos tempos faz com que as pessoas tenham necessidade de iden- tificação coletiva, transcendendo em direção à liberdade e ao direito de ser. Essa nova organização desencadeada pela globalização demanda dessa forma uma adequação de práticas sociais e conceitos para garantir que as questões relativas à conquista de direitos possam avançar. As demandas que se referiam ex- clusivamente ao local agregam questões do global, complexi- ficadas pela desterritorialização e pela aceleração dos fluxos de circulação. Dagnino (2004) fala de uma crise discursiva, desencadea- da pela oposição entre os projetos neoliberal e democratizante, deslocando o sentido do conceito principalmente na América Latina. Isso, segundo Hall (2003), se dá principalmente pelo fato de que o “universalismo pós-iluminista, liberal, racional e humanista da cultura ocidental parece não menos signifi- cante historicamente, mas se torna menos universal a cada momento” (p.77). Com isso, muitos dos avanços conquistados nas últimas décadas pelos movimentos sociais, pautados pela Declaração dos Direitos Humanos, sofreram um retrocesso. Em contrapartida, há um fortalecimento do espaço público, situado além do espaço doméstico e da economia de mercado (BELL apudCORTINA, 2005, p. 18), tornando a prática e o Capítulo 6 Cidadania dos Negros como Devir: Avanços e ... 173 conceito de cidadania uma necessidade das sociedades pós- -industriais para gerar uma identidade que pertença a elas. No entanto, essa definição deve ser complexa e plural, conside- rando que as sociedades são constituídas por grupos diversos que devem se sentir igualmente cidadãos de primeira classe. Essa relação contraditória entre retrocesso de direitos e a de- manda por cidadania norteia a presente análise. 1 A luta da população negra por cidadania O processo de escravização de africanos e a falta de políticas inclusivas ao fim do ciclo, que durou praticamente quatro sé- culos no Brasil, produziram um contexto de marginalização so- cial e de discriminação das populações negras no país. Com isso, os negros mantêm-se em sua maioria entre os mais po- bres, tendo os direitos permanentemente violados. Com isso, os indivíduos negros têm dificultado seu acesso aos direitos fundamentais e humanos e à cidadania plena. No Brasil, o escravismo mercantil estendeu-se até o final do século XIX. O modelo de transição adotado para o traba- lho assalariado reforçou as barreiras simbólicas e concretas estabelecidas pelo imaginário escravista a fim de garantir a manutenção do status quo. A proposta de Nação republicana, 174 Direitos Humanos formulada neste período e alicerçada no racismo científico4, produziu um modelo de sociedade que manteve diferenças. Além das marcas invisíveis deixadas pelo escravismo, a marca visível da condição étnica foi usada para ligar o presente e o passado, demarcando o lugar social relegado ao negro. A discussão sobre a questão negra perdurou praticamente até a década de 1940 sob a égide das teorias raciais. Con- forme Ianni (1988), os intelectuais brasileiros até a Segunda Guerra pensaram a questão racial a partir do contexto científi- co do Darwinismo Social, ressaltando o trauma da escravidão. Com isso, tem-se uma interpretação ideológica do escravismo e das relações étnico-raciais no país. O médico Nina Rodri- gues (2010 [1932], p. 7), um dos principais intelectuais do início do século passado, escreve que os negros: por maiores que tenham sido os seus incontestáveis ser- viços à nossa civilização (...) há de constituir sempre um dos fatores da nossa inferioridade como povo. Na trilogia do clima intertropical inóspito aos brancos, que flagela grande extensão do país; do negro que quase não se civiliza; do português rotineiro e improgressista, duas cir- cunstâncias conferem ao segundo saliente preeminência: a mão forte contra o branco, que lhe empresta o clima tropical, as vastas proporções do mestiçamento que, en- tregando o país aos mestiços, acabarão privando-o, por longo prazo pelo menos, da direção suprema da raça branca. 4 Modelos deterministas (superioridade da raça ariana) e evolutivos (Darwinismo Social) de análise imperavam entre os pesquisadores brasilei- ros no fim do século XIX. Capítulo 6 Cidadania dos Negros como Devir: Avanços e ... 175 A questão do branqueamento como política de estado pode ser verificada constitucionalmente até a década de 1940. O texto da Constituição de 1934, além de estimular a educação eugênica em seu Art. 138, previa cotas para a entrada de imi- grantes, segundo suas nacionalidades, assim como a Consti- tuição de 1937. Com isso, esperava-se restringir a entrada de imigrantes considerados racialmente desfavoráveis. De maneira mais explícita, o Decreto-Lei n° 7.967, de 1945, instituía que a imigração deveria ser orientada de acor- do com a “necessidade de preservar e desenvolver na compo- sição étnica da população as características mais convenientes de sua ascendência europeia”. Como o país não conheceu nenhuma onda imigratória significativa depois desse período, o decreto não chegou a ser politicamente significativo, mas é indicativo do espírito eugênico dominante (ABREU, 1999). A proclamação da Declaração Universal dos Direitos Hu- manos, de 1948, é deste período. Mesmo signatário do docu- mento, a promessa de igualdade de direitos e liberdades pode ser observada na legislação desde então, mas socialmente se mantém como devir para grande parte da população negra. Também é desse período diferentes projetos associativistas e culturais negros que buscavam construir e promover políticas de promoção de direitos para as comunidades marginaliza- das, como a Frente Negra [1931-1937] (BARBOSA, 2007), a União dos Homens de Cor [1943~1960] (SILVA, 2003) e o Teatro Experimental do Negro [1944-1961] (NASCIMENTO, 2004). 176 Direitos Humanos O chamado movimento negro moderno reorganiza-se nos anos 1970 em torno da consolidação de uma nova identi- dade cultural e racial para o negro, inserindo reivindicações anti-racistas no ideário político. Nas palavras de Kabengele Munanga (1996): Os movimentos negros que retomam a luta anti-racista nos anos 70 começaram enriquecidos pela experiência dos movimentos anteriores (Frente negra, Teatro Experi- mental, etc.), dos movimentos negros, como o pan-afri- canismo, e africanos, Negritude e as guerras da descolo- nização. Contrariamente aos movimentos anteriores cuja salvação estava na assimilação do branco, ou seja, na negação de sua identidade, eles investem no resgate e na construção de sua personalidade coletiva. Eles se dão conta de que a luta contra o racismo exige uma compre- ensão integral de sua problemática, incluída a construção de sua identidade e de sua história contada até então apenas do ponto de vista do branco dominante. Traduzindo acontecimentos ocorridos na África, guerras de descolonização e na diáspora, principalmente nos EUA, os grupos de reivindicação e de protesto, desarticulados desde o início do período militar, reagrupam-se em função da necessi- dade de auto-afirmar-se. Esses movimentos fornecem valores simbólicos de sustentação para se recompor e compor-se na interação do resto da sociedade branca no nível de identificar- -se com as culturas ancestrais, muitas vezes mitificadas, mas como elemento mantenedor de uma postura de contestação dos valores brancos dominantes (MOURA, 1994, p. 238). Capítulo 6 Cidadania dos Negros como Devir: Avanços e ... 177 Organizados em torno da questão cultural, surge o Movi- mento Soul, no RJ, depois batizado de Black Rio. O encontro de jovens negros de diversas classes sociais foi o berço do movimento negro naquele estado. Ainda no início da década de 1970, acontece a retomada do teatro negro pelo Centro de Cultura e Arte Negra de São Paulo e em Campinas, assiste-se à movimentação do grupo Evolução. Em Porto Alegre, jovens negros passam a reunir-se no Cen- tro da cidade, disicutindo ideias ainda desencontradas sobre os movimentos negros no mundo, principalmente o Black Power. A criação desse território negro no Centro foi decorrên- cia do processo de urbanização, desencadeado a partir da dé- cada de 1960, que levou a maioria da população negra para a periferia e cidades próximas (CAMPOS, 2006). Em 1971, um desses grupos, formado em sua maioria por universitários, estabeleceu como principal ponto de discussão a questão do negro na sociedade brasileira. Parte do grupo questionava a exaltação do 13 de maio, como data máxima dos negros no país. Diante da polêmica, propuseram descobrir um novo dia para manifestar-se. O 20 de Novembro, dia da morte de Zum- bi, num paralelo à construção mítica do mártir Tiradentes, foi proposto como o Dia do Negro. A aquisição de referenciais étnicos tornou-se então uma questão determinante para que fosse possível montar um dis- curso de cidadania e de identidade negra. Além dos elementos da moderna tradição negra no Brasil, foram ressignificados a resistência e o comunitarismo dos quilombos, estabelecendo parâmetros éticose estéticos de uma nova identidade negra (CAMPOS, 2006), baseada na ideia de origem comum [rea- 178 Direitos Humanos fricanização] e realçando características locais [quilombismo]. As ações, coordenadas em nível nacional, levaram a criação do Movimento Negro Unificado em 1978. Uma das primeiras ações da entidade foi reconhecer o 20 de Novembro como Dia da Consciência Negra. A compreensão desse momento, de ressignificação e cons- trução nacional do 20 de Novembro, é fundamental para o entendimento da afirmação identitária e das ações e políticas estabelecidas pelo movimento negro nas últimas décadas do século XX e no projeto para o século XXI (CAMPOS, 2006). O processo culminou, entre outras coisas, na criação da Secre- taria Especial de Promoção da Igualdade Racial, do Estatuto da Igualdade Racial e de um conjunto de políticas afirmativas, em nível nacional, e dos documentos apresentados na Confe- rência de Durban contra o Racismo, promovida pela ONU em 2001, em nível internacional. 2 A construção de uma agenda política A Declaração dos Direitos Humanos, de 1948, cujo texto o Brasil é um dos signatários, estabelece no Art. 2 que “Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração”, incluindo raça e cor. Apesar do conjunto de intenções propostas pelo documento, a população negra brasileira mantem-se alijada em sua maioria das intenções e direitos previstos (ONU, 2015). As questões raciais haviam sido controladas no estado novo através da construção discursiva do país das três raças e principalmente Capítulo 6 Cidadania dos Negros como Devir: Avanços e ... 179 da democracia racial, situação que será inicialmente reconhe- cida pela ONU pelo menos até os anos 1950. A organização inclusive investiu em estudos, chefiados por Florestan Fernan- des, para desenvolver uma tecnologia a ser aplicada em paí- ses marcados por conflitos raciais. A conclusão foi a denúncia da existência de um racismo à brasileira, velado e estrutural. Aprovada em 1951, a Lei Afonso Arinos buscou proteger principalmente a discriminação contra estrangeiros, após uma série de ocorrências no período. No entanto, foi a primeira lei aprovada sobre a questão racial. Cinco anos antes o sena- dor Hamilton Nogueira apresentou um projeto de lei para a Constituição de 1946 que previa criminalizar a discriminação racial, mas o texto foi recusado “por falta de provas da existên- cia de racismo” (JACCOUD et al., 2007). O texto tinha como base o manifesto aprovado no Congresso Nacional do Negro, ocorrido em São Paulo em 1945. O país igualmente aderiu em 1968 a Convenção Interna- cional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial, aprovada pela ONU em 1965 (ONU, 2015). Respal- dado pelo discurso de igualdade, ser uma democracia racial, o Estado brasileiro não adotou no período medidas concretas para retirar da situação de marginalização e extrema pobreza em que ainda se encontra a maioria da população negra, ou mesmo, garantir o acesso aos direitos previstos nos documen- tos, como a implantação de políticas de discriminação positi- va, prevista no Art. 1º, parágrafo 4º, da convenção. A ação permanente de denúncia de racismos e suas conse- quências socioeconômicas feita pelo movimento negro duran- 180 Direitos Humanos te os anos 1970 e 1980 possibilitou a criação de uma agenda política básica a ser negociada com o Estado. As manifesta- ções do centenário da Abolição inacabada, no entanto, coin- cidiram com o processo de transição política do país depois de mais de 20 anos de ditadura. A mobilização resultou no reconhecimento da existência de racismos na sociedade na obtenção de conquistas constitucionais. O Art. 5º, que trata dos direitos fundamentais, refere que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros resi- dentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Duas importan- tes conquistas encontram-se nos incisos 41 e 42 do artigo. O primeiro define que “a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais”. O segun- do refere-se diretamente a situação de racismo considerando que este “constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei”. Outra conquista do movimento social refere-se ao mercado de trabalho. O inciso 30 estabelece a “proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil”. Também no Art. 215, na seção Da Cultura, garante no parágrafo 1º que o “Estado protegerá as manifestações das culturas populares, in- dígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional”, além do reconhecimento das áreas quilombolas (Arts. 216 e 68 das disposições transi- tórias. Capítulo 6 Cidadania dos Negros como Devir: Avanços e ... 181 O texto constitucional, ao prever a punição para o racismo, aponta para sua existência nas relações sociais, mesmo que não o declare. Além disso, entende a necessidade de prote- ção das manifestações culturais das populações consideradas minorias, tornando-se um novo parâmetro para a discussão e atuação no espaço público. A criação da fundação Cultu- ral Palmares, ainda em 1988, constitui-se na primeira ação efetiva de reparação do processo de marginalização das pro- duções culturais negras. Ligada ao Ministério da Educação, a fundação surge com o objetivo de promover e preservar a contribuição negra à cultura do país, bem como identificar as comunidades remanescentes de quilombo para fins de regula- rização de terras. A Lei Caó, nº 7.716, de 1989, que substitui a Afonso Ari- nos, estabelece a punição para atos motivados pelo precon- ceito de cor e de raça, conforme prevê a Constituição. A le- gislação apresenta, segundo juristas, diferentes problemas de aplicabilidade e será substituída somente em 2007 pela Lei n° 9.459, conhecida como Lei Paim que, além de prever puni- ção para prática discriminatória, inclui a incitação ao precon- ceito e a discriminação, além de reconhecer o crime de injúria racial (JACCOUD et al., 2007). A década de 1990 inicia com a campanha “Não deixe sua cor passar em branco”, visando o senso populacional de 1991. A década, no entanto, será marcada pelas manifestações em torno dos 300 anos de Zumbi dos Palmares, com a realização em 1995 da Marcha Contra o Racismo pela Cidadania e a Vida. Superada a agenda de caráter punitivo, o movimento so- cial volta-se para as pautas reparatórias, considerando essas 182 Direitos Humanos fundamentais para o enfrentamento das barreiras simbólicas e concretas institucionalizadas na sociedade brasileira. O movi- mento social negro vai ao encontro das estratégias estabeleci- das no âmbito do direito internacional dos Direitos Humanos. Segundo Piovesan e Silva (2005, p.39-40): No âmbito do Direito Internacional dos Direitos Huma- nos, destacam-se duas estratégias: a) a estratégia re- pressivo-punitiva (que tem por objetivo punir, proibir e eliminar a discriminação); b) a estratégia promocional (que tem por objetivo promover, fomentar e avançar a igualdade). A marcha visou comprometer o governo publicamente con- tra a discriminação racial. O documento apresentado pelos integrantes do protesto denunciava situações cotidianas de discriminação e principalmente apresentou um conjunto de ações de promoção da igualdade racial. A mobilização levou o governo a reconhecer oficialmente em 1996 a existência de racismo e discriminação racial no país e, como forma de abertura de diálogo, instituiu o Grupo de Trabalho Interminis- terial de Valorização da População Negra, junto ao Ministério da Justiça.O Ministério do Trabalho também criou no mesmo ano o Grupo de Trabalho pela Eliminação da discriminação no emprego e na Ocupação. A Secretaria de Direitos da Cidadania realizou um seminá- rio internacional para discutir o tema Multiculturalismo e Ra- cismo: O papel da ação afirmativa nos estados Democráticos Contemporâneos. Respaldado pelo debate público e a partir do seminário, ainda neste ano de 1996, o Programa Nacional Capítulo 6 Cidadania dos Negros como Devir: Avanços e ... 183 de Direitos Humanos incluiu propostas de ações afirmativas voltadas à população negra (JACCOUD et al., 2007). As conquistas obtidas com a Marcha Zumbi dos Palmares foram aprofundadas com o compromisso assumido pelo go- verno brasileiro durante a III Conferência Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Cor- relata de Durban. Com a ausência dos Estados Unidos e Israel (ALVES, 2002), a representação do país assumiu o papel de articulador dos debates. A atuação na Conferência compro- meteu o governo a implantar ações de redução das desigual- dades raciais e políticas afirmativas principalmente na área da educação e trabalho. Ainda em 2001, foram iniciadas ações na área da Justiça, Cultura e Desenvolvimento Agrário. A Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, o Conselho Na- cional de Promoção da Igualdade Racial e principalmente a Lei n° 10.639, instituídos e sancionada em 2003, respectiva- mente, também são resultado desse processo histórico de luta e conquista de direitos dos movimentos negros. Nesse mes- mo ano, são lançadas as Políticas Nacionais de Promoção da Igualdade Racial que apresenta como objetivo: reduzir as desigualdades raciais no Brasil, com ênfase na população negra. Trata-se, por evidente, de um objetivo cuja realização impôs a definição de ações exequíveis a longo, médio e curto prazos, além do reconhecimen- to das demandas mais imediatas, bem como das áreas de atuação prioritária. Dispensável assinalar que o êxito dessa empreitada dependerá de uma ação coordenada 184 Direitos Humanos que conte com a energia e o comprometimento de todas as esferas do governo e da sociedade. O Plano Nacional de promoção de Igualdade Racial, es- truturado na forma de objetivos, organizados em 12 eixos, foi sancionado em 2009. A Lei n° 12.288, de 2010, sancionou o chamado Estatuto da Igualdade Racial depois de dez anos de tramitação (SEPPIR, 2015). O documento foi considerado um retrocesso pelo movimento social pelo fato de tratar de manei- ra genérica alguns pontos importantes, como as políticas de afirmativas e de reparação, e por outro sobrepor legislações existentes, como a demarcação de quilombos, considerando sua defasagem frente as negociações com os governos. No período, por exemplo, foram realizadas duas conferências na- cionais de Promoção da Igualdade Racial, e já contou com uma terceira edição. A partir do Estatuto, ocorreu a regulamentação do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial, que visa implan- tar “políticas e serviços para superar as desigualdades raciais no Brasil, com o propósito de garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa de direitos e o combate à discriminação e as demais formas de intolerân- cia”. O sistema prevê a adesão de estados e municípios a fim de descentralizar a implantação das políticas (SEPPIR, 2015). O conjunto de ações promovidas pelo Estado, tensionado pelo movimento social, provocou uma transformação no cená- rio nas últimas décadas. As políticas mais eficazes referem-se aos setores de Educação e Trabalho, apontados desde o pri- meiro momento como prioridades por atenderem demandas imediatas de socialização, promoção e sobrevivência. Como Capítulo 6 Cidadania dos Negros como Devir: Avanços e ... 185 políticas efetivas, destacam-se a Lei n° 12.711, de 2012, que tem aumentado o número de estudantes pobres e negros nas universidades públicas por, assim como o Prouni, ser uma ação afirmativa de inclusão social com recorte racial. Também a Lei n° 12.990 que atende ao ingresso de negros no serviço público. O setor do trabalho tem sido o mais visado pelas políticas Estatais, englobando iniciativas de formação, qualifi- cação, profissionalização, empreendedorismo, entre outros. O Plano nacional de Saúde Integral da População Negra, apro- vado pelo Conselho nacional de Saúde, é outra ação voltada a promoção de direitos dessa população. No entanto, muitas das políticas desenvolvidas têm ainda caráter restrito, demandando reformas mais profundas e in- clusivas. As mulheres negras e os jovens têm sido as principais vítimas do processo histórico de marginalização e exploração. As mulheres negras, duplamente discriminadas, seguem ocu- pando subempregos e recebendo salários em média metade do que a média de um homem branco. Em contrapartida, mui- tas são responsáveis pelo sustento da família. Além disso, são apontados frequentes casos de racismo, sexismo, discrimina- ção e privação de oportunidades. Também estudos demons- tram que as meninas e jovens negros são as principais vítimas de exploração sexual no país (SEPPIR, 2015). As estatísticas produzidas por entidades governamentais apontam as diferenças de acesso entre a população negra e branca no país. A população negra, que soma pretos e par- dos, corresponde a 52,9% dos brasileiros (PNAD, 2013). No entanto, entre as pessoas em situação de extrema pobreza 69% são negras, e abaixo da linha de pobreza chegam a 71,7%. 186 Direitos Humanos As residências localizadas em favelas e comunidades pobres são em 66% do total chefiadas por homens e mulheres negras, assim como 70% das famílias atendidas pelo projeto bolsa família. Isso demonstra que a maioria da população negra encontra-se entre os mais pobres sobrepondo a condição de racismo, também institucional, à situação de pobreza. Segundo dados do IBGE (2014), produzidos a partir do censo de 2010, as mulheres negras estão na camada mais baixa e explorada do mercado de trabalho. A menor taxa de desemprego corresponde à dos homens brancos (5%), ao pas- so que a maior remete às mulheres negras (12%). No intervalo entre os extremos, encontram-se as mulheres brancas (9%) e os homens negros (7%). O rendimento médio das mulheres negras corresponde a 35% do rendimento médio dos homens brancos e 52% do rendimento das mulheres brancas. Esse dado tem desdobramentos em diferentes áreas, considerando que aproximadamente 27% dos domicílios brasileiros são che- fiados por mulheres negras (IPEA, 2014). Além de ocupar os empregos de baixa remuneração, as relações trabalhistas para um grande número de mulheres ne- gras ainda são precárias, considerando que entre as empre- gadas domésticas sem carteira assinada, por exemplo, 62,3% são negras. No sentido contrário, entre as mulheres ativas no mercado de trabalho formal, 26% das mulheres brancas têm superior completo, enquanto que apenas 11,2% das negras o têm (IBGE, 2014). O dado reflete o acesso ao ensino superior. No total, 62% dos matriculados hoje em universidades são brancos. Na faixa etária entre 15 e 24 anos, 31,1% da po- pulação branca frequentava a universidade. Em relação aos Capítulo 6 Cidadania dos Negros como Devir: Avanços e ... 187 pardos e pretos, os índices são de 13,4% e 12,8%, respectiva- mente. No que se refere ao analfabetismo, enquanto para o total da população a taxa de analfabetismo é de 9,6%, entre os brancos esse índice cai para 5,9%. Já entre pardos e pre- tos a taxa sobe para 13% e 14,4%, respectivamente (CENSO, 2010). O acesso à saúde também apresenta indicadores desfavo- ráveis às mulheres negras. O percentual de mulheres brancas de 40 anos ou mais que, em 2008, havia realizado exame clínico de mamas, no período inferior a um ano, foi de 45,1%,e, para aquelas que realizaram mamografia, foi de 40,2%. Já para as mulheres negras na mesma faixa etária, este per- centual foi de 33,1% e 28,7%, respectivamente (IPEA, 2011). No que se refere à mortalidade materna, o índice entre as mulheres negras por causas variadas está aumentando inde- pendente de classe social, enquanto entre as mulheres brancas tem diminuído. Entre 2000 e 2012, as mortes por hemorragia, por exemplo, entre mulheres brancas caíram de 141 casos por 100 mil partos para 93 casos. Entre mulheres negras aumen- tou de 190 para 202 (SPM, 2014). Os jovens do sexo masculino, principalmente moradores de periferias e áreas metropolitanas, em idade entre 15 e 29 anos, têm aproximadamente três vezes mais chance de mor- rerem assassinados do que um jovem branco. Dados do Mi- nistério da Saúde apontam que mais da metade das vítimas de homicídio são jovens e desses 71,5% eram negros. Essa eliminação sistemática de jovens negros aponta para a conti- nuidade de uma política iniciada ainda no sistema escravista e que encontra similaridades nas internações na Marinha (revol- 188 Direitos Humanos ta da Chibata), nos Institutos Criminais de Menores – antigas Febem, e hoje no genocídio permanente denunciado, além de discussões atuais como sobre a maioridade penal. Assim como na área da saúde, mercado de trabalho e educação, o número de mortes de jovens resulta de mani- festações tangíveis do racismo institucional, intangível. Para Lopes (2012), o “racismo institucional atua de forma difusa no funcionamento cotidiano de instituições e organizações, provocando uma desigualdade na distribuição de serviços, benefícios e oportunidades aos diferentes segmentos da popu- lação do ponto de vista racial”. O racismo institucional e sua contradição discursiva, a negação da existência de racismo em nossa sociedade, têm mantido as populações negras em situação de marginalização. Isso se torna a principal barreira para o acesso da população negra às esferas de cidadania e consequentemente à plenitude de direitos, incluindo os direitos humanos. Recapitulando  A busca por cidadania plena tem sido a principal reivin- dicação dos movimentos negros e isso passa PELA GA- RANTIA DOS DIREITOS HUMANOS E FUNDAMENTAIS;  o processo de globalização tem relegado os grandes te- mas de nosso tempo, como identidade e pertencimento, a segundo plano (MILTON SANTOS, 2001); Capítulo 6 Cidadania dos Negros como Devir: Avanços e ... 189  a Abolição não foi acompanhada de políticas inclusivas da população negra;  o Brasil foi o país em que a escravidão durou mais tem- po e o imaginário foi construído em torno de um país descendente da Europa;  a discussão étnico-racial foi mantida até os anos 1940 sob a égide da superioridade da raça branca, adotando políticas de branqueamento da população;  após a Segunda Guerra Mundial a ONU aprovou dife- rentes acordos e documentos internacionais para erradi- cação do racismo;  a repercussão efetiva desses documentos na sociedade brasileira se deu somente com a Constituição de 1988;  a pressão do movimento negro a partir dos anos 1970 levou o governo a reconhecer a existência de racismo no país no final dos anos 1990, iniciando uma processo de discussão de uma agenda de políticas afirmativas;  a Lei n°10639 de 2003 estabeleceu a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afrobrasileira no sistema educacional brasileiro;  todas as estatísticas demonstram e comprovam a mar- ginalização e falta de oportunidades das populações negras;  o racismo institucional mantém-se como o principal en- trave para o avanço das políticas de promoção da po- pulação negra. 190 Direitos Humanos Referências ABREU, Sérgio. 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Atividades 1) A partir do texto, aponte e reflita sobre as características adotadas no debate étnico racial entre os intelectuais bra- sileiros até pelo menos a metade do século XX. 194 Direitos Humanos 2) Quais as características identitárias adotadas pelo movi- mento social negro a partir dos anos 1970 e como isso repercuti no debate sobre cidadania e direitos humanos? 3) Como os documentos aprovados pela Organização das Nações Unidas abordam a questão étnico-racial e como isso vai repercutir na prática na legislação e na sociedade brasileira? 4) Em função dos avanços em direitos fundamentais e direitos humanos propostos pelo texto constitucional aprovado em 1988, a Constituição ficou conhecida como Constituição Cidadã. Como a discussão étnico-racial está presente no texto? 5) Quais as repercussões posteriores a Marcha Zumbi dos Palmares junto ao estado brasileiro no que se refere ao reconhecimento de direitos? Douglas Marques1 Capítulo 7 Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e Direitos Humanos 1 Doutorando em Diversidade Cultural e Inclusão Social pela Universidade Feevale. Professor do curso de Serviço Social do Centro Universitário IPA. E-mail: douglas.sersocial@gmail.com. 196 Direitos Humanos Introdução Uma preliminar análise do desempenho dos países em desen- volvimento, como o Brasil, constata-se que o entusiasmo com a universalização dos direitos políticos preocupa pela incapa- cidade do Estado de transformá-los em direitos econômicos e sociais (SANTOS; PASE, 2011, p. 69). Nesse sentido, coloca- -se ao Estado brasileiro o desafio da inclusão de parcelas sig- nificativas da população brasileira, através da formulação e da implantação de políticas públicas que sejam capazes de dirimir esta lacuna. Dentro do quadro das políticas públicas no Brasil, a Política de Assistência Social, por meio do Sistema Único de Assis- tência Social-SUAS (BRASIL, 2012), vem se (re)construindo2, após a Constituição de 1988, paralelo aos esforços da mo- dernização da gestão pública do Estado. Diante desse cená- rio, a atual conjuntura do SUAS lhe confere, por um lado, um papel estratégico de fazer valer o discurso governamental de enfrentamento da pobreza e, por outro lado, um processo em construção, tendo em vista os desafios postos a sua descen- tralização político-administrativa e o aprofundamento da de- mocracia. O SUAS, constituído, em 2005, como um sistema descentralizado e participativo não escapa a esses desafios, se fazendo presente em 95% dos municípios brasileiros (BRASIL, 2012). 2 Estamos denominando de (re)construção da política de assistência social o seu processo de imbricação, iniciado no período pós-constituinte, por meio da democratização e racionalização do Estado e, a coexistência da herança do passado, com concepções clientelistas e patrimonialista. Capítulo 7 Sistema Único de Assistência Social (suas) e... 197 Tendo em vista os propósitos do SUAS de enfrentamento da pobreza e da exclusão, atentamos para a contribuição dos Di- reitos Humanos, enquanto instrumento de tensionamento para as dificuldades dos sujeitos em expressar as suas demandas, para a fragilidade no acesso aos direitos sociais e para o en- frentamento das violações no cotidiano da população. Nesse sentido, vislumbra-se um debate potencializador entre os Di- reitos Humanos e SUAS, tendo em vista os desafios postos aos processos de inclusão social, sobretudo para os sujeitos em situação de extrema pobreza e exclusão. O objetivo deste capítulo é propor o debate sobre a relação dos princípios dos Direitos Humanos e os objetivos do SUAS, postos em marcha durante seu processo de descentralização. Para tanto, na primeira parte, vamos apresentar alguns marcos regulatórios e diretrizes fundantes do SUAS. Na segunda parte, iremos relacionar o debate dos direitos humanos com alguns objetivos da implantação do SUAS. 1 O Sistema Único de Assistência Social (SUAS) Neste capítulo, de forma breve, vamos apresentar a trajetó- ria histórica do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) no Brasil, tendo como ponto de partida a promulgação da Política Nacional de Assistência Social (PNAS) como política pública, no marco da Constituição Federal de 1998. Em seguida, va- mos contextualizar o importante avanço promovido através da criação do SUAS, oferecendo novos parâmetros normativos, 198 Direitos Humanos ensejando a consolidação da PNAS como eficiente, descentra- lizada e participativa. 1.1 Sistema Único de Assistência Social: concepção e diretrizes A Constituição Federal de 1988 demarcou a PNAS como po- lítica pública, de primazia do Estado, não mais como políti- ca isolada ou complementar e como importante instrumento de enfrentamento da pobreza e da exclusão. Esse importan- te marco jurídico-político inaugura novas perspectivas, entre elas: o caráter de direito de cidadania e não mais ajuda ou favor ocasional e emergencial; a organização sob o princípio da hierarquização e participação e o rompimento com a cen- tralidade ou ausência de democratização na gestão. A seguir, o quadro 1 nos auxilia na análise dos importantes marcos re- gulatórios do SUAS: Quadro 1 Marcos regulatórios da PNAS pós constituinte. 1988 1993 1998/99 2004 2005 2006 CF 88 LOAS Primeira PNAS Segunda PNAS NOB SUAS NOB RH SUAS Fonte: próprio autor Como aspectos fundamentais da Política de Assistência So- cial, temos primeiro o seu lugar como dimensão estruturante do chamado tripé da Seguridade Social, formado ainda pelas políticas públicas de saúde e previdência social, conforme as- Capítulo 7 Sistema Único de Assistência Social (suas) e... 199 segura o texto constitucional de 1988, no seu Art. 194 (BRA- SIL, 2014). A sua legitimação perpassa a criação em 1993 da Lei Or- gânica de Assistência Social (LOAS), Lei n° 8.742/1993 (BRA- SIL, 2015), que qualifica o conteúdo dos programas e serviços socioassistenciais e define critérios para os benefícios de trans- ferência de renda. Já no seu artigo primeiro, temos a delimita- ção do campo da Assistência Social como: Direito do cidadão e dever do Estado, é política de se- guridade social não contributiva, que provê os mínimos sociais, realizada através de um conjunto integrado de ações de iniciativa pública e da sociedade, para garantir o atendimento às necessidades básicas. (BRASIL, 2015, Art. 1º) O caráter dinâmico e sociopolítico dos processos sociais culmina numa constante necessidade de ampliação e/ou revi- são paradigmática das políticas públicas. Os documentos pro- duzidos pelo Conselho Federal do Serviço Social (CFESS), pelo conjunto dos Conselhos Regionais do Serviço Social (CRESS) e pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) trouxeram avanços ao propósito de qualificar a oferta de serviços, pro- gramas e aparelhos públicos ofertados, bem como apresen- tar uma metodologia para as ações e práticas no âmbito da PNAS. Os cadernos de orientação Política Nacionalde Assis- tência Social (PNAS) (BRASIL, 2011) e a Norma Operacional 200 Direitos Humanos Básica (SUAS) (BRASIL, 2012) são alguns documentos norma- tivos que culminam na consolidação SUAS, em 20053. Em destaque, temos o documento NOB-SUAS (BRASIL, 2012) que disciplina a gestão pública da PNAS em todo o território nacional, constituindo o SUAS como um sistema não contributivo, descentralizado e participativo. Um sistema fun- dado sob o paradigma dos direitos à proteção social públi- ca de seguridade social e à defesa da cidadania do usuário (BRASIL, 2012). Culminando no processo de apresentação e contextualiza- ção do SUAS, verificamos a sua organização hierarquizada, por nível de atuação, sendo: proteção social básica e proteção social especial. A primeira é definida como: Prevenção de situações de risco por meio do desenvolvi- mento de potencialidades e aquisições e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. Destina-se à po- pulação que vive em situação de fragilidade decorrente da pobreza, ausência de renda, acesso precário ou nulo aos serviços públicos ou fragilização de vínculos afetivos, 3 Entre outros: Política Nacional de Assistência Social (PNAS) (BRASIL, 2004, 2007); Norma Operacional Básica (SUAS) (BRASIL, 2005); Norma Operacional Básica–Recursos Humanos (NOB–RH) (BRASIL, 2006, 2012); Parâmetros para atuação dos Assistentes Sociais (BRASIL, 2011) e Caderno de Acompanhamento Famílias (PAIF), vols. 1 e 2 (BRASIL, 2011-2012), são alguns documentos normativos e de orientação sobre o SUAS. Os demais documentos produzidos pelo Conjunto CFESS 2011-2014, tais como: Caderno Oficinas Famílias Bolsa Família, Caderno de Protocolo de Ges- tão dos Benefícios Assistenciais, entre outros, que são da ordem técnico- -operativa desta política, não estão mencionados visto os limites da nossa proposta de trabalho. Capítulo 7 Sistema Único de Assistência Social (suas) e... 201 discriminações etárias, étnicas, de gênero ou por defici- ências, dentre outras. (BRASIL, 2012: 92) Já a segunda, a proteção social especial, organizada em média e alta complexidade, é definida como: Modalidade de atendimento assistencial destinada a famílias e indivíduos que se encontram em situação de risco pessoal e social, por ocorrência de abandono, maus tratos físicos e, ou, psíquicos, abuso sexual, uso de substâncias psicoativas, cumprimento de medidas sócio- -educativas, situação de rua, situação de trabalho infan- til, entre outras. (BRASIL, 2012: 92) O SUAS, quando lançado em 2005, propunha-se a padro- nizar, hierarquizar e democratizar a PNAS em nível nacional, operando a lógica de racionalização, que vem ao encontro do desafio da modernização da gestão pública do Estado. Nessa direção, os propósitos do SUAS consistem na proteção social de famílias em situação de pobreza e extrema pobreza, o forta- lecimento de vínculos familiares e comunitários e a ampliação da participação dos usuários na própria gestão da política. A sua descentralização está orientada pelo princípio da territo- rialidade, onde os serviços e programas são desenvolvidos por meio de unidades públicas de atendimento, responsáveis pelo acolhimento e referênciamento das famílias – o Centro de Re- ferência de Assistência Social (CRAS) e o Centro de Referência 202 Direitos Humanos Especializado de Assistência Social (CREAS)4 – nas áreas onde se apresentam os mais elevados índices de vulnerabilidade so- cial, em nível municipal5. Para o SUAS, CRAS é aquele apare- lho público que: Atua com famílias e indivíduos em seu contexto comu- nitário, visando a orientação e o convívio sociofamiliar e comunitário. Neste sentido é responsável pela oferta do Programa de Atenção Integral às Famílias. [...] Deve considerar novas referências para a compreensão dos diferentes arranjos familiares, superando o reconheci- mento de um modelo único baseado na família nucle- ar, e partindo do suposto de que são funções básicas das famílias: prover a proteção e a socialização dos seus membros; constituir-se como referências morais, de vín- culos afetivos e sociais; de identidade grupal, além de ser mediadora das relações dos seus membros com outras instituições sociais e com o Estado. (BRASIL, 2011:35) Nesse sentido, o CRAS é uma unidade pública estatal de base territorial (BRASIL, 2011), visando descentralizar serviços e programas desenvolvidos pelo SUAS. Avançando na proposta deste trabalho, incorporamos para o debate quem são os usuários e a quem se destina essa po- 4 Por princípio de hierarquia do SUAS, o aparelho público que fará o acolhimento socioassistencial a família é o CRAS. Sendo identificada uma situação de suspeita e/ou violação de direito, o CRAS passa a encaminhar a família para outra comple- xidade de atendimento, esse ofertado pelo CREAS. Nota do autor. 5 O nível de vulnerabilidade social é mensurado por meio diagnóstico socioeco- nômico, analisando a renda per capita das famílias, a existência de equipamentos sociais e serviços públicos e os índices de violência e desemprego (BRASIL, 2011). Capítulo 7 Sistema Único de Assistência Social (suas) e... 203 lítica pública. O SUAS passa a centrar suas ações no fortale- cimento de vínculos de famílias e indivíduos, buscado romper a lógica de focalização do indivíduo no atendimento, postu- lando o aspecto da matricialidade sócio-familiar.6 Assim, os usuários do SUAS são: Cidadãos e grupos que se encontram em situações de vulnerabilidade e riscos, tais como: famílias e indivídu- os com perda ou fragilidade de vínculos de afetividade, pertencimento e sociabilidade; ciclos de vida; identida- des estigmatizadas em termos étnico, cultural e sexual; desvantagem pessoal resultante de deficiências; exclusão pela pobreza e, ou, no acesso às demais políticas pú- blicas; uso de substâncias psicoativas; diferentes formas de violência advinda do núcleo familiar, grupos e indiví- duos; inserção precária ou não inserção no mercado de trabalho formal e informal; estratégias e alternativas dife- renciadas de sobrevivência que podem representar risco pessoal e social. (BRASIL, 2012: 33) Por fim, dois novos paradigmas passam a caracterizar o perfil de todas as ações do SUAS: a descentralização político- -administrativa e o controle social. O primeiro visa incorporar o desenvolvimento territorial e local e o contexto sociocultural 6 A família, independentemente dos formatos ou modelos que assume, é mediadora das relações entre os sujeitos e a coletividade, delimitando, continuamente os deslocamentos entre o público e o privado, bem como geradora de modalidades comunitárias de vida. Todavia, não se pode desconsiderar que ela se caracteriza como um espaço contraditório, cuja dinâmica cotidiana de convivência é marcada por conflitos e geralmente, também, por desigualdades, além de que nas sociedades capitalistas a família é fundamental no âmbito da proteção social (BRASIL, 2012:41). 204 Direitos Humanos das comunidades referenciadas pelos aparelhos públicos. As- sim, constituindo-se em: Um sistema descentralizado e participativo, constituído pelas entidades e organizações de assistência social, arti- culando meios, esforços e recursos e por um conjunto de instâncias deliberativas, compostas pelos diversos setores envolvidos na área. (BRASIL, 2012: 43) O segundo, o controle social, vai ao encontro do aprofun- damento do exercício da democracia, evidenciando a partici- pação do usuário nos processos de formulação, gestão, exe- cução e avaliação do SUAS. Esse aspecto visa paulatinamente superar os traços históricos patrimonialistas e clientelistas que atravessam a formação do Estado Brasileiro e, consequente- mente, a sociedade como um todo, encaminhando desafios para a gestão do social e para a gestão pública. Nesse con- texto, controle socialpassa a ser um: Instrumento de efetivação da participação popular no processo de gestão político-administrativa-financeira e técnico-operativa, com caráter democrático e descentra- lizado. Dentro dessa lógica, o controle do Estado é exer- cido pela sociedade na garantia dos direitos fundamen- tais e dos princípios democráticos balizados nos preceitos constitucionais. Na conformação do Sistema Único de Assistência Social, os espaços privilegiados onde se efe- tivará essa participação são os conselhos e as conferên- cias, não sendo, no entanto, os únicos, já que outras ins- tâncias somam força a esse processo. (BRASIL, 2012: 51) Capítulo 7 Sistema Único de Assistência Social (suas) e... 205 Com esses princípios e diretrizes do SUAS apresentados preliminarmente nessa primeira parte do trabalho, contem- plamos alguns avanços, entre eles, um novo paradigma so- cietário, na implantação dessa política pública. Dessa forma, coloca-se em marcha instrumentos de enfrentamento da situ- ação de pobreza e extrema pobreza e de aprofundamento da democracia, tendo esses também desdobramentos nos esfor- ços de modernização da gestão pública do Estado. 2 As Interfaces dos Direitos Humanos na Implementação do SUAS As políticas públicas têm como função colocar em marcha marcos jurídicos-normativos, para o nosso caso, as prerroga- tivas dos Direitos Humanos, e transformá-los em acesso aos direitos e aquisições sociais. Nessa segunda parte do capítulo, iremos relacionar o debate dos direitos humanos aos objetivos da implantação do SUAS. 2.1 Direitos Humanos: nosso ponto de partida Os direitos humanos para os defensores das teorias classifica- tórias compreendem etapas em que a sociedade se interroga mediante o esgotamento ou acirramento de violações de direi- tos que necessitam de marcos regulatório-jurídicos demanda- 206 Direitos Humanos dos ao Estado. No decorrer do século XX, os direitos humanos perpassaram três gerações7. Nesse sentido, numa primeira etapa teríamos os direitos de primeira geração, compreendendo os direitos civis e políticos, onde o Estado deve saber os seus limites perante o cidadão e valorizar a participação da sociedade civil. Numa segunda etapa, os direitos de segunda geração, compreendendo os di- reitos sociais, econômicos e culturais, visando dar conta do di- reito a organização de classe, de segurança, de remuneração digna e assistência social. Por fim, temos os direitos da terceira geração, os chamados direitos dos grupos sociais e das liber- dades comunitárias, acenando para o direito ao meio ambien- te equilibrado, a saudável qualidade de vida, ao progresso, à paz e à autodeterminação (PIRES, 2011). Dessa forma, nosso entendimento sobre Direitos Humanos corrobora com Altvater (1999, p. 115) quando esse afirma: [...] Os direitos humanos tradicionais – da “primeira” e da chamada “segunda” gerações – têm que ser comple- mentados pelos da “terceira” geração, reivindicação que vem ganhando cada vez mais força. Portanto, direitos humanos compreendem também direitos de indivíduos (e dos povos) em relação à integridade da natureza, isto é, do meio ambiente em que os seres humanos vivem. 7 Algumas análises pós-modernas vão dar conta de inscrever uma quarta geração de direitos humanos que correspondem aos debates, entre outros, da bioética. Dado o limite desse trabalho, não será possível a análise sobre as tendências con- temporâneas sobre os direitos humanos. Nota do autor. Capítulo 7 Sistema Único de Assistência Social (suas) e... 207 Desse modo, os Direitos Humanos compreendem, de forma articulada, as garantias de proteção e reprodução dos sujeitos em todos os seus aspectos: civis, políticos, sociais, culturais, econômicos e ambientais. 2.2 Abordagens em direitos humanos na operacionalização do SUAS Desde sua concepção, o SUAS busca evidenciar um modelo de proteção social articulado com todas as demais políticas sociais públicas. Dessa iniciativa, decorrem dois desdobra- mentos: o primeiro, a ampliação do acesso aos diretos sociais e, assim, também, ao fortalecimento da cidadania; o segun- do, pelo paradigma da universalização, “a ruptura com ideias tutelares e de subalternidade que (sub)identificam os cidadãos como carentes, necessitados, pobres, mendigos, discriminan- do-os e apartando-os do reconhecimento como sujeitos de direito (BRASIL, 2012, p. 93). Nesse sentido, um dos aspectos que caracterizam esse novo ordenamento para a PNAS, temos a temática dos direi- tos humanos transversalizado nas ações, nos programas e na acolhida dos sujeitos no âmbito do SUAS. Essa articulação se refere a: Competências e ações com os demais sistemas de de- fesa de direitos humanos, em específico com aqueles de defesa de direitos de crianças, adolescentes, idosos, pessoas com deficiência, mulheres, negros e outras mi- norias; proteção às vítimas de exploração e violência; 208 Direitos Humanos adolescentes ameaçados de morte, promoção do direito de convivência familiar. (BRASIL, 2012, p. 88) Sendo assim, a temática dos direitos humanos no SUAS, perpassa três abordagens complementares que darão direcio- namento as suas ações durante o seu processo de descentra- lização. A primeira, o respeito à diversidade nas regiões e/ou territórios de abrangência, atentando para as “características culturais, socioeconômicas e de políticas em cada esfera de gestão, da realidade das cidades e da sua população urba- na e rural” (BRASIL, 2012, p. 86). A segunda reconhece os processos de formação social, histórica e cultural onde é en- gendrada a construção social da ‘diferença’ e da ‘desigual- dade social’, entendo que esses contextos “condicionam os padrões de cobertura do sistema e os seus diferentes níveis de gestão devem ser considerados no planejamento e execução das ações“ (BRASIL, 2012, p. 86). Por fim, a terceira contribui- ção, diz respeito à relevância do direito a expressão por meio dos espaços de participação, sob três perspectivas: 1) Para a acolhida da manifestação dos interesses dos usuários; 2) Para ações de preservação dos direitos sociais e de denúncia, no caso de violação desses e, 3) Para o exercício do controle so- cial, por meio de assembleias, audiências públicas, conferên- cias, entre outros, compreendendo, assim, os direitos humanos de primeira geração. Quando atentamos para o aspecto da proteção social no SUAS, a perspectiva dos direitos humanos constitui avanços ora como uma proposta político-civilizatória, oferecendo ele- mentos para a discussão de projeto societário às famílias re- ferenciadas; ora, também, oferecendo elementos teórico-me- Capítulo 7 Sistema Único de Assistência Social (suas) e... 209 todológicos para o trabalho social. Na primeira perspectiva, avança na concepção do trato não somente público-estatal da proteção social, ampliando para um novo marco societá- rio, evidenciando as potencialidades das famílias, a qualidade das relações sociais, a presença de vínculos de confiança e de apoio nas comunidades, são elementos fundamentais para a construção de projeto de vida e societário dos sujeitos. Esse direito humano, de forma classificatória como descrito a cima, refere-se a segunda geração, sugerindo a proteção social como segurança de convívio, entendido como a que: Exige a oferta pública de rede continuada de serviços e oportunidades de ação profissional para: construção, restauração e fortalecimento de laços de pertencimen- to (de natureza geracional, intergeracional, familiar, de vizinhança e interesses comuns e societários). (BRASIL, 2012, p. 91) Como aporte teórico-metodológico, a contribuição dos di- reitos humanos para o SUAS confere a possibilidade do aten- dimento preventivo as famílias, na medida em que reconhece sua diversidade e potencialidade. Dessa forma, a função do atendimentosocial às famílias procura: Fazer avançar o caráter preventivo de proteção social de modo a fortalecer laços e vínculos sociais de pertenci- mento entre seus membros e indivíduos, para que suas capacidades e qualidade de vida atentem para a con- cretização de direitos humanos e sociais. (BRASIL, 2012, p. 90) 210 Direitos Humanos Dessa forma, a diversidade e o reconhecimento das poten- cialidades dizem respeito ao entendimento de direitos humanos como aqueles que reconhecem o outro a partir do outro. Para a literatura do SUAS, essa compreensão é contemplada pelo conceito de vigilância socioassistencial, sendo aquela que: Deve buscar conhecer o cotidiano da vida das famílias a partir das condições concretas do lugar onde elas vivem e não somente as médias estatísticas ou números gerais, responsabilizando-se pela identificação dos “territórios de incidência” de riscos no âmbito da cidade, do Estado, do país para que a assistência social desenvolva política de prevenção e monitoramento de riscos. (BRASIL, 2012, p. 93) Nesse sentido, a relação entre a proposta de direitos hu- manos e os objetivos do SUAS é estreita e potencializadora. Sendo assim, conhecer as condições concretas de vida das famílias e, portanto, reconhecer a diversidade, se coloca como um desafio sob dois âmbitos de atuação, ambos cotejados pela contribuição dos direitos humanos: 1) No âmbito de ges- tão, evidencia-se a “oferta, de maneira integrada, de serviços e programas, de proteção social para cobertura de riscos, vul- nerabilidades, danos, vitimizações, agressões ao ciclo de vida e à dignidade humana e à fragilidade das famílias (BRASIL, 2012, p. 95); 2) No âmbito da execução, sugere-se, entre outros, uma “rede de serviços socioeducativos direcionados para grupos geracionais, intergeracionais e grupos de interes- se (BRASIL, 2012, p. 96). Esse último, seguindo a compreen- são classificatória de direitos humanos, refere-se aos direitos de terceira geração. Capítulo 7 Sistema Único de Assistência Social (suas) e... 211 Recapitulando Nesse capítulo, abordamos a relação entre a proposta de Di- reitos Humanos e alguns objetivos da implantação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Considerando as novas demandas postas a gestão pública do Estado por meio da des- centralização das políticas públicas, entre elas o SUAS, não escapam a esses processos, sobretudo considerando a última década, onde esse sistema público se faz presente em 95% dos municípios brasileiros. Nosso trabalho buscou relacionar a contribuição dos Direi- tos Humanos e o novo paradigma participativo, democrático e de cidadania assumido pela Política Nacional de Assistência Social, através do SUAS. Sugerimos que a abordagem dos di- reitos humanos contribui para a implantação da política públi- ca em questão, por meio do debate do respeito a diversidade, do reconhecimento das diferenças e desigualdades, da defesa e denúncia da violação dos direitos, do (re)conhecimento das condições de vida dos sujeitos e dos espaços de consulta e controle social. Sugerimos, também, que a aproximação entre a propos- ta dos direitos humanos e SUAS pode desencadear aportes teórico-metodológicos para o trabalho social com as famílias, principalmente para os sujeitos em situação de pobreza, vul- nerabilidade e exclusão. 212 Direitos Humanos Referências ALTVATER, T. Os desafios da globalização e da crise ecológica para o discurso da democracia e dos direitos humanos. In: HELLER, A et al. A crise dos paradigmas em ciências sociais e os desafios para o século XXI. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999. BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Política Nacional de Assistência Social – PNAS. Brasília, DF, 2011, 175 p. _______. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Norma Operacional Básica – NOB SUAS. Brasí- lia: DF, 2012, 175 p. ________. Lei nº 8.742, de 7 de Dezembro de 1993. Lei Or- gânica de Assistência Social – LOAS. Brasília, DF, 1993. Disponível em: <http://www.mds.gov.br/assistenciasocial/ secretaria-nacional-de-assistencia-social-snas/cadernos/ lei-organica-de-assistencia-social-loas-anotada-2009/ Lei%20Organica%20de%20Assistencia%20Social%20- -%20LOAS%20Anotada%202009.pdf/download>. Aces- so em: 11 maio de 2015. ________. Presidência da República. Constituição da Repú- blica Federativa do Brasil. Brasília: DF, 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ constituicaocompilado.htm. Acesso em: 11 de maio de 2014. Capítulo 7 Sistema Único de Assistência Social (suas) e... 213 PIRES, C. Direitos Humanos como proposta social: uma análi- se histórico-crítica. In: VIOLA, S. E. A; ALBUQUERQUE, M. Z. (org). Formação para educação em Direitos Huma- nos. São Leopoldo: Sinodal/EST. 46-57. 2011. SANTOS, E.; PASE, L. H. Capital social e políticas públicas na América Latina. In BAQUERO, M (org). Cultura(s) Política(s) e Democracia no século XXI na América La- tina. Porto Alegre: Editora UFRGS. 69-93. 2011. Atividades Complete a lacuna com a opção correta: 1) A ___________________________ inscreve a assistência social como tripé da Seguridade Social e como política pú- blica. Posterior, a _________________________ legitima e qualifica as ações e programas no campo da assistência social. a) primeira PNAS – Constituição Federal b) Constituição Federal – Lei Orgânica de Assistência So- cial (LOAS) c) Constituição Federal – segunda PNAS d) Lei orgânica de Assistência Social (LOAS) – segunda PNAS Marque a opção correta para cada questão: 214 Direitos Humanos 2) Considerando os esforços pela modernização e democra- tização do Estado, a constituição do SUAS demarca um novo paradigma de cidadania e participação para a polí- tica de Assistência Social. Assinale, a seguir, a opção que melhor indique o propósito do SUAS: a) ( ) Racionalizar, qualificar e ampliar a PNAS b) ( ) Democratizar, controlar e hierarquizar a PNAS c) ( ) Padronizar, hierarquizar e democratizar a PNAS d) ( ) Planejar, apoiar e padronizar a PNAS 3) Considerando a proposta de romper com a lógica de fo- calização no atendimento ao indivíduo, o SUAS avança numa perspectiva de atendimento sociofamiliar. Nesse sentido, assinale a alternativa que indique quem são os usuários do SUAS. a) ( ) Famílias e sujeitos em situação de pobreza b) ( ) Indivíduos e grupos específicos c) ( ) Comunidades carentes e famílias em situação de risco d) ( ) Cidadãos e grupos que se encontram em situações de vulnerabilidade e riscos Complete as lacunas com opção correta: 4) Os direitos humanos de _______________________com- preendem os _______________________, pois se referem ao direito à organização de classe, de segurança, de re- Capítulo 7 Sistema Único de Assistência Social (suas) e... 215 muneração digna e assistência social. Os direitos huma- nos de ____________________________ compreendem os _____________________________, pois se referem ao direito de expressão e participação da sociedade civil. Os direitos humanos de ______________________________ compreendem os _________________________________ ____, pois se referem ao direito a um meio ambiente equi- librado, a saudável qualidade de vida, ao progresso, à paz e à autodeterminação. a) primeira geração – direitos civis – segunda geração – direitos sociais; terceira geração – direitos dos grupos sociais e das liberdades comunitárias; b) segunda geração – direitos sociais – primeira geração – direitos civis – terceira geração – direitos dos grupos sociais e das liberdades comunitárias; c) terceira geração – direitos dos grupos sociais e das liberdades comunitárias – segunda geração – direitos sociais; terceira geração – direitos dos grupos sociais e das liberdades comunitárias – primeirageração – di- reitos civis; d) Primeira geração – direitos civis – terceira geração – direitos dos grupos sociais e das liberdades comunitá- rias – segunda geração – direitos sociais. 5) A contribuição dos direitos humanos ao processo de des- centralização do SUAS perpassa três abordagens comple- mentares que darão direcionamento as suas ações. Assi- nale a opção correta e completa a lacuna: 216 Direitos Humanos A primeira sugere o _____________________________ nas regiões e/ou territórios de abrangência, atentan- do para as características culturais, socioeconômicas e políticas. A segunda reconhece os processos de for- mação social, histórica e cultural onde é engendrada a _____________________________e da ‘desigualdade. Por fim, a terceira contribuição, diz respeito à relevância do ______________________, por meio dos espaços de par- ticipação. a) respeito à diversidade – construção social da ‘diferen- ça’ – direito a expressão b) direito a participação – construção social da diversida- de – direito de ir e vir c) respeito à dignidade humana – construção social da proteção social – direito dos grupos sociais d) respeito à democracia – construção social da cidada- nia – direito ao voto Felipe Leão Mianes1 Capítulo 8 Acessibilidade e Direitos Humanos: Entre Barreiras Físicas e Atitudinais 1 Mestre e Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), na Linha de Pesquisa Estudos Culturais em Educação. Estagiário de Pós-Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA). 218 Direitos Humanos Introdução A temática da acessibilidade tem surgido como questão relati- vamente importante na sociedade ocidental a pouco mais de cinquenta anos. Dentre os motivos que podemos elencar como as bases para essa emergência estão a constituição de direitos individuais e coletivos, bem como os processos de inclusão social de pessoas com algum tipo de limitação física e/ou sen- sorial. Ainda assim, embora a acessibilidade seja entendida como direito fundamental, está longe de ser empreendida sem conflitos ou com a efetividade necessária. As sequelas das “feridas” deixadas pela Segunda Guerra Mundial foram disparadoras não apenas para a constituição de direitos individuais, das novas configurações sociais e po- líticas, mas também, fizeram emergir novos debates sobre a questão das pessoas com alguma limitação corporal. Isso por- que, se é verdade que a guerra matou milhões de pessoas pelo mundo, deixou ainda mais pessoas mutiladas, com algum tipo de deficiência advinda direta ou indiretamente das consequên- cias das batalhas. Não existem estatísticas apontando o aumento da quan- tidade de pessoas com deficiência2 nesse período, mas é pú- blico e notório o crescimento desse grupo diante dos graves acontecimentos da época. Como promover a reabilitação e a reinserção social dessas pessoas? Eis uma das questões mais 2 Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igual- dades de condições com as demais pessoas (BRASIL; 2009, p. 2). Capítulo 8 Acessibilidade e Direitos Humanos... 219 eloquentes e debatidas nos primeiros anos que se seguiram ao fim da guerra. Havia uma “divida moral” para com aqueles que sofreram no corpo as mazelas do conflito, e que mereciam o provimento de condições minimamente adequadas para a continuidade de suas vidas. Além disso, ficou evidente que o ambiente e as atitudes diante das pessoas com deficiência precisavam ser modifica- dos e melhorados em todos os sentidos. Ao mesmo tempo, se fortaleciam os movimentos sociais em torno dos direitos das minorias, dentre as quais, as pessoas com deficiência, que até então, tinham minimamente a possibilidade de estudar em es- colas especiais e, em alguns casos, o provimento de auxílios financeiros para sua subsistência. Ou seja, ficavam isolados e apartados do convívio social sem as condições necessárias de inserção adequada à educação, cultura, ao sistema de saúde, ao mercado de trabalho e a outras esferas. Como a grande maioria dos acontecimentos, esse não foi um processo linear ou isolado, outros fatores contribuíram para que os direitos das pessoas com deficiência, dentre eles a acessibilidade, passassem a ter maior ressonância no pa- norama social. Um dos fatores preponderantes para tal foi a ascensão e fortalecimento dos direitos individuais, com a pro- mulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1947. 220 Direitos Humanos 1 Acessibilidade e Direitos A partir da promulgação da Declaração Universal dos Direi- tos Humanos, em 1947, passamos a vivenciar uma sociedade com sujeitos buscando seu direito a ser e estar no mundo para além daquilo que está nas legislações de cada Estado, e que age também sobre o discurso do direito de ser um indivíduo, não mais como parte de um coletivo, mas pelo direito de ser singular. Assim: Assumimos em toda a parte ao reforço da representa- ção do indivíduo como portador de direitos que não lhe podem ser proibidos ou negados nem pela força, nem pela lei. Essa transformação de uma consciência de si que se tor- na mais forte do que uma consciência das regras, das normas, assim como das exigências dos sistemas nos quais se vive e se age. (TOURAINE, 2010, p. 10) A ideia de sujeito único e singular se consolida, e com isso a reivindicação de cada um por seus direitos é cada vez mais abrangente. Isso se espalha por todas as esferas sociais e po- líticas dentro do que Touraine (2010, p. 110) chama de “uni- versalização de direitos”, e que envolve dentre tantas coisas os direitos culturais e de cada um a vivenciar sua diferença cultural. Direitos Humanos e acessibilidade estão umbilicalmente li- gados, dado que o direito ao acesso arquitetônico e atitudinal a todos os espaços sociais é garantido pela declaração de 1947, ainda que não se referisse especificamente às pessoas Capítulo 8 Acessibilidade e Direitos Humanos... 221 com deficiência. Desde então, outras convenções, declarações e tratados foram surgindo para garantir os direitos aos sujei- tos com alguma deficiência, sempre balizados pela ideia do direito. Quando tratamos de acessibilidade, é preciso mencionar que nesse caso a entendemos como: ”Possibilidade e condição de alcance, percepção e entendimento para a utilização com segurança e autonomia de edificações, espaço, mobiliário, equipamento urbano e elementos” (ABNT; 2004, p. 10). Podemos, inclusive, ir um pouco além ao dizer que a aces- sibilidade atitudinal tem a mesma importância no processo de direitos das pessoas com deficiência. Afinal, tão necessários quanto mobiliários, elementos, instrumentos e equipamentos de acessibilidade, é a capacidade de saber usá-los correta- mente e promover ações que permitam aos usuários desses recursos que tenham igualdade de condições de acesso a todo e qualquer ambiente e contexto social. Na maioria das vezes as pessoas associam acessibilidade como algo apenas para as pessoas com deficiência, mas seu público é bem mais amplo. Pessoas idosas, por exemplo, tem necessidades específicas por suas limitações de locomoção, sensorial, ou outras. E, no entanto, esse grupo não possui al- guma deficiência, ao menos não fazem parte das estatísticas relativas a essa parcela da população. Alguém que tenha uma lesão transitória como um pé fraturado, por exemplo, também precisa de recursos de acessibilidade, ainda que por um limi- tado espaço de tempo. 222 Direitos Humanos Portanto, quando reivindicamos o direito à acessibilidade, não o fazemos apenas para um grupo específico, mas parato- dos os seres humanos, que em algum momento de suas vidas poderão precisar de recursos de acessibilidade, logo, é um direito individual e ao mesmo tempo coletivo. Nesse sentido, é importante refletir que são questões em que cada um de nós está ou estará em algum momento envolvido, seja como usu- ário ou como provedor de tais recursos. Ainda que seja entendida como um direito de todos, a acessibilidade e sua implantação enquanto um direito não está livre de tensões e conflitos. Na maioria dos países de- senvolvidos, a acessibilidade é provida quase plenamente a todas as pessoas, já que os espaços são construídos baseados na ideia de desenho universal, e as atitudes também são no sentido da não discriminação e não inferiorização das pessoas com necessidades específicas. No entanto, mesmo em países como Estados Unidos e os pertencentes à União Europeia, isso que chamo de cultura da acessibilidade não foi algo implementado a partir da pro- mulgação de legislações sobre o tema. Foram fundamentais as históricas e contínuas lutas dos movimentos sociais para a conscientização e para a consolidação de direitos das pessoas com deficiência, aquelas que mais utilizam-se da acessibilida- de. Esses movimentos seguem exercendo fortes pressões sociais para que ocorra a ampliação das ações e para o cumprimento das já conquistadas. Assim, a luta pelo direito à acessibilida- Capítulo 8 Acessibilidade e Direitos Humanos... 223 de é constante e tensa, necessitando que a reivindicação seja constante. Nos países citados antes, as legislações sobre acessibilida- de emanaram das pressões feitas pelos movimentos sociais e surgiram para contemplar uma cultura de acessibilidade exis- tente. Enquanto que no Brasil o contexto é um tanto diferente. O país tem uma das legislações mais avançadas e consistentes com relação ao tema aqui tratado. Assim, as leis existem, mas a cultura de cumpri-las ainda está muito longe de ser efetiva- da. Sem ter como base o apoio da sociedade em geral, e sen- do os movimentos sociais que lutam pelos direitos das pessoas com deficiências ainda um tanto desunidos, a implementação das legislações em torno da acessibilidade se tornam frágeis. Pior ainda, na maioria das vezes a questão é tratada na ordem da benevolência, da caridade e da solidariedade, e não na ordem dos direitos. Um claro exemplo disso é que até bem pouco tempo as políticas públicas sobre acessibilidade e inclusão no Brasil es- tavam vinculadas ao Ministério da Educação. Após o ínicio do atual século é que começaram a ocorrer algumas reestrutura- ções até que em 2010, através do Decreto n° 7.256, foi criada a Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos das Pessoas com Deficiência (disponível em: http://www.pessoacomdefi- ciencia.gov.br/app/sobre-a-secretaria/historico). Essa secreta- ria é atualmente a responsável pela elaboração e articulação das ações em torno da acessibilidade. 224 Direitos Humanos Desse modo, como é possível notar, a intersecção entre acessibilidade e Direitos Humanos no Brasil ainda é recente e tem muito a se desenvolver. É preciso que as instituições e mo- vimentos sociais que lutam para tal se mobilizem no sentido de fazer cumprir a legislação existente e seguir avançando rumo a uma sociedade brasileira que construa mais do que rampas, e sim, uma cultura de acessibilidade. Por outro lado, ainda existem poucas pesquisas que façam referência aos direitos das pessoas com deficiência à acessi- bilidade física e atitudinal. Mesmo assim, acredito que é pro- veitoso passarmos a trilhar o caminho dos Direitos Humanos e dos Direitos Culturais, como uma forma de reivindicar o não apagamento e os processos de identificação por grupos tidos como diferentes. Isso porque, tratar o acesso e possibilitar a participação cultural de pessoas com deficiência deixa de ser um ato isolado e se torna uma luta de todos. 2 Os novos rumos da acessibilidade, do direito à efetivação Um importante elemento para a constituição de direitos cultu- rais às pessoas com deficiência é a promulgação, em 2007, pela ONU (Organização das Nações Unidas) da Convenção Internacional sobre o Direito das Pessoas com Deficiência, da Capítulo 8 Acessibilidade e Direitos Humanos... 225 qual o Brasil tornou-se signatário a partir de 20093. O últi- mo documento internacional sobre o tema fora publicado em 1970, e tratava apenas de questões relativas ao direito à saú- de e à reabilitação, enfatizando a escola especial como espa- ço de formação e normalização dos sujeitos. Na atual convenção, os temas foram ampliados para além dos já citados, e ainda mais, afirmam que a deficiência está no ambiente e não no sujeito, o que retira muito do peso dos este- reótipos e estigmas existentes sobre a deficiência. Além disso, a acessibilidade e o acesso à cultura são tratados como direi- tos fundamentais, e as diretrizes sobre esses temas são amplas e enfatizam que a pessoa com deficiência é um sujeito com diferenças e peculiaridades, as quais devem ser contempladas na esfera pública ou privada. A deficiência passa a não ser mais das pessoas, mas sim dos espaços que não acolhem as diferenças de algumas pes- soas, ou mesmo da sociedade que construiu as barreiras ar- quitetônicas e atitudinais. Além disso, possibilita que os gru- pos de pessoas com deficiência tenham, com mais facilidade, acesso à cidadania e aos ambientes culturais, algo ainda di- ficultado pelas condições que nos são fornecidas (MIANES; 2015, p. 60). Contudo, farei menção às leis que entendo importan- tes para o desenvolvimento da acessibilidade no Brasil. A lei 3 O documento também assinado pelo Brasil tem valor de lei constitucional, mas, como as disposições da convenção são diretrizes e não determinações expressas, o país se compromete a cumprir com o acordo dentro do prazo estabelecido, ainda que não haja dispositivos que regulamentem os termos do acordo por parte do poder executivo. 226 Direitos Humanos 9.045/19954, obriga que todas as editoras imprimam exem- plares em braile dos títulos que forem por elas lançados, obe- decendo à proporcionalidade de habitantes com deficiência visual no local de origem das edições. Tratava-se de algo um tanto difícil para aquela época, pois não havia números con- cretos sobre a quantidade de pessoas com deficiência visual em cada cidade do país, já que esta aferição era realizada por amostragem nos censos nacionais. Já a Lei n° 10.098 de dezembro de 2000, regulamentada pelo Decreto-Lei n° 5.296 de dezembro de 2004, estabelece as normas e critérios para a implementação dos recursos de acessibilidade arquitetônica e atitudinal, nos meios de comu- nicação e audiovisuais, além de todas as adaptações que se façam necessárias para a inserção das pessoas com defici- ência aos ambientes e bens públicos e privados. Vale a pena observar que conforme se pôde perceber acima, essa lei levou quatro anos para ser devidamente regulamentada e entrar em vigor. Mesmo assim, essa é a norma geral para as políticas de acessibilidade, como a implantação de rampas e sinalização adequadas, além da colocação de pisos específicos para pes- soas com deficiência visual, conhecidos como “piso podo tá- til”, por meio dos quais esses sujeitos conseguem transitar com segurança pelos diferentes espaços. Contudo, essas diversas regulamentações ainda carecem de cumprimento pela maioria das instituições públicas e privadas. 4 Todas as legislações aqui apresentadas podem ser acessadas em: http:// portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=167 61&Itemid=1123 Capítulo 8 Acessibilidade e Direitos Humanos... 227 Em 2005, foi promulgada a Lei n° 11.126, a chamada Lei do Cão-guia, na qual existe o pleno direito de que os cães- -guia sejam utilizados em quaisquer ambientes frequentadospor pessoas com deficiência visual que utilizam essa forma de recurso de acessibilidade. E, em 2009, o Decreto-Lei n° 6.949, oficializando o Brasil como signatário da Convenção Para os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU, 2008). No entanto, essa farta legislação não tem garantido a im- plantação dos direitos adquiridos relativos à acessibilidade, e as justificativas apontadas são as mais diversas. Desde o des- conhecimento da lei, passando por questões financeiras e às vezes até a “falta de viabilidade” se tornam argumentos para o não cumprimento das leis vigentes. Para verificar a situação basta circular pelas cidades brasileiras para perceber a pre- cariedade em termos de acessibilidade. Assim, fica claro que as barreiras atitudinais são obstáculos tão complexos de se transpor quanto os arquitetônicos. 3 Considerações finais Como foi possível notar até aqui, historicamente, as questões sobre acessibilidade emergiram após a segunda metade do século XX, juntamente com o surgimento das ideias de direitos humanos como condição fundamental para a vida de todas as pessoas. Ainda que voltadas aos direitos individuais, suas diretrizes também balizaram as reivindicações das minorias so- ciais, como negros, mulheres e pessoas com deficiência. 228 Direitos Humanos Ao mesmo tempo em que aumentam as leis em torno da acessibilidade e dos dispositivos utilizados para sua reivindica- ção como um direito, também é preciso refletir sobre as bar- reiras atitudinais, pois muitas vezes os direitos são reconheci- dos mas não são aplicados. Nos países em desenvolvimento a situação fica ainda mais complexa, já que as dificuldades de cumprir com os parâmetros de acessibilidade são maiores e as necessidades também. No Brasil, é possível notar que há leis em grande quantida- de e com qualidade, por ser signatário dos principais tratados internacionais. Contudo, o cumprimento dessas regras precisa ser efetivado em grande escala, o que ainda não acontece. Assim, vivemos em uma nação com acessibilidade artificial, ou seja, existem os instrumentos legais para sua implantação, mas falta fiscalização e conscientização para o seu cumprimento de fato. Historicamente, evoluiu-se muito em termos de acessibili- dade no Brasil, já que as esferas de luta foram espraiadas e os direitos foram ampliados, mas sua amplitude ainda é in- suficiente para contemplar minimamente as necessidades dos usuários dos recursos de acessibilidade. Sendo assim, fica evi- dente a necessidade de se fortalecer as instituições que atuam para pôr em prática seus direitos. E, concomitantemente, cons- truir uma cultura de acessibilidade na qual as pessoas perce- bam que todas as pessoas devem ter autonomia, liberdade e direito a inserção social, mesmo aquelas que possuam alguma limitação física, sensorial ou emocional. Capítulo 8 Acessibilidade e Direitos Humanos... 229 Quando cito aqui a questão da autonomia, entram em cena também muitas diretrizes da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Já não se cogita mais a possibilidade de eliminação sumária ou isolamento das pessoas com deficiên- cia, portanto, todas elas têm o direito de viver e as condições mínimas de subsistência. No entanto, sobreviver não é tudo e, atualmente, os direitos são cada vez mais amplos e as necessi- dades e desejos aumentaram na mesma medida. No que diz respeito às pessoas com deficiência, que são o público que mais se utiliza dos recursos de acessibilidade, o principal incremento da acessibilidade é a autonomia pro- porcionada por ambientes e atitudes acessíveis. Esses sujeitos raramente têm o direito de ir e vir, de circular pelas cidades e de utilizar-se do mobiliário urbano sem qualquer tipo de ajuda de outra pessoa. Tais situações limitam demasiadamente o co- tidiano e as possibilidades dessas pessoas. Sem acessibilidade o direito à liberdade também não pode ser exercido já que todos aqueles que têm alguma limitação ficam desassistidos e sem as condições ideais para desenvol- verem seus potenciais e de que cada um tenha sua própria liberdade de escolha. Em tempos onde a liberdade adquire um valor preponderante em nossa sociedade, como não prover esse direito às pessoas com alguma deficiência? Quantas exis- tências ainda serão limitadas pela falta de acessibilidade? São questões que ainda precisam ser mais debatidas. Mais do que o direito de estar no mundo, as pessoas querem cada vez mais o direito de usufruir de tudo que esse mundo que se espande a cada dia tem a lhes dar, e para isso, a acessibilidade é um direito fundamental. 230 Direitos Humanos Todavia, existe a ideia equivocada de que o tema da aces- sibilidade diz respeito apenas às pessoas com deficiência. Por um lado, dados os índices de violência no Brasil, é cada vez maior a quantidade de indivíduos que adquirem alguma de- ficiência em consequência dessas situações. Por outro lado, a expectativa de vida da população tem aumentado substancial- mente, e sendo os idosos usuários constantes dos recursos de acessibilidade, sua necessidade se torna mais e mais evidente. Logo, provavelmente a maioria das pessoas um dia será usuária de rampas, pisos podo táteis e outros recursos de acessibilidade, pois chegarão até a terceira idade. Resumin- do, lutar pela acessibilidade como um direito é mais do que reivindicá-lo para outrem, mas também para si mesmo. Portanto, não se trata apenas de adaptar espaços e condu- tas para um público específico, mas de criar as condições para que todas as pessoas participem da vida social independente- mente de suas situações econômicas, etárias, físicas ou outras. Por fim, é preciso deixar claro que não se trata aqui de ser definitivo ou de apontar soluções para todos os problemas existentes. A intenção foi de propor outras formas de pensar, de problematizar e analisar algumas situações referentes à acessibilidade como um dos direitos humanos. Havendo ainda muito a debater sobre esses processos que possuem diferentes pontos de vista. A caminhada ainda é longa e muitos passos precisam ser dados no sentido de fazer da acessibilidade um direito im- plementado de fato. Para tanto, é fundamental que todas as instituições e a sociedade em geral tenham como objetivo pro- Capítulo 8 Acessibilidade e Direitos Humanos... 231 mover a acessibilidade em todos os processos. Não somente como adaptação, mas construída desde o princípio. Assim, seja um prédio, uma rua ou um meio de transporte, sejam atitudes individuais e coletivas, elas devem ter em conta o direito de acesso para todos, e que as pessoas podem – e devem – ser diferentes, mas as condições de participação so- cial devem ser concedidas com igualdade de oportunidade e de acesso. Recapitulando O tema da acessibilidade tem surgido como questão relativa- mente importante na sociedade ocidental há pouco mais de cinquenta anos. Para o avanço nesta questão foi fundamental a constituição de direitos individuais e coletivos e os processos de inclusão social de pessoas com algum tipo de limitação física e/ou sen- sorial. Não só o ambiente mas também as atitudes diante das pes- soas com deficiência precisam ser modificadas e melhoradas. Destacamos como primordial para a garantia desses direi- tos a promulgação da Declaração Universal dos Direitos Hu- manos, em 1947. Foram fundamentais as históricas e contínuas lutas dos mo- vimentos sociais para a conscientização e para a consolidação de direitos das pessoas com deficiência. 232 Direitos Humanos Em 2010, através do Decreto n° 7.256, foi criada a Se- cretaria Nacional de Promoção dos Direitos das Pessoas com Deficiência. Em 2007, foi promulgada pela ONU (Organização das Nações Unidas) a Convenção Internacional sobre o Direito das Pessoas com Deficiência, da qual o Brasil tornou-se signa- tário a partirde 2009. A farta legislação não tem garantido a implantação dos direitos adquiridos relativos à acessibilidade. As barreiras atitudinais são obstáculos tão complexos de se transpor quanto os arquitetônicos. Referências BRASIL, Presidência da República. Decreto-Lei nº 6.949 de Agosto de 2009. Brasília: Diário Oficial: 2009. ABNT (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TECNICAS). Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos (NBR 9050). Rio de Janeiro: ABNT; 2004. MIANES, Felipe Leão. Marcas de identificação em narrati- vas autobiográficas de pessoas com deficiência visual. Tese de Doutorado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2015. Capítulo 8 Acessibilidade e Direitos Humanos... 233 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção Para os Direitos das Pessoas com Deficiência. Nova York: ONU, 2008. TOURAINE; Alain. Pensar de outros modos. Lisboa: Instituto Piagett, 2010. Sites: http://www.pessoacomdeficiencia.gov.br/app/sobre-a-secre- taria/historico (Acessado em 08/06/2014) Atividades 1) O que é acessibilidade? a) Direito de estar separado de todos. b) Dever da pessoa com deficiência em se adaptar ao meio. c) Um meio de fazer as pessoas com deficiência se torna- rem normais. d) Proporcionar ambientes e atitudes de modo a respeitar as especificidades de todos os sujeitos. 2) Em que época os direitos humanos e a acessibilidade pas- saram a fazer parte das reivindicações sociais? a) Idade Antiga b) Entre os séculos XVIII e XIV 234 Direitos Humanos c) Apôs a II Guerra Mundial d) Após o inicio do século XXI, em 2001 3) Em que ano foi criada a Secretaria Nacional para os Direi- tos das Pessoas com Deficiência? a) 2010 b) 1988 c) 2006 d) 2014 4) Qual dessas leis NÃO diz respeito aos processos de cons- tituição de direitos das pessoas com deficiência? a) Lei n° 10.098/2000 b) Lei n° 12.711/2012 c) Lei n° 6.949/2009 d) Lei n° 11.126/2005 5) De acordo com o texto, quais barreiras devem ser derruba- das para vivermos em uma sociedade mais acessível? I – Arquitetônicas II – Financeiras III – Atitudinais IV – Nacionais Capítulo 8 Acessibilidade e Direitos Humanos... 235 Assinale a alternativa correta: a) I b) II e IV c) I e II d) I e III Jorge Trindade1 Capítulo 9 Sistema Prisional, População Privada de Liberdade e Direitos Humanos 1 Pós-doutor em Psicologia Forense. Procurador de Justiça do ministério Público (RS, inativo). Professor Titular com doutorado da Ulbra. Capítulo 9 Sistema Prisional, População Privada ... 237 Introdução Foi no século XVIII que as raízes do Direito Penitenciário come- çaram a se formar, mas a história da segregação e do encar- ceramento é longa. Durante muito tempo a pessoa condenada foi objeto da Execução Penal, porém os direitos da pessoa humana do con- denado só recentemente começaram a ser reconhecidos. Não é novidade que as condições de detenção e prisão no sistema carcerário brasileiro violam os direitos humanos, fomentando situações de revolta e rebelião em que, na maioria das vezes, as autoridades agem com descaso, quando não com excesso de poder ou violência contra os presos. A integridade física, moral e psicológica dos presos raramente é respeitada pelo nosso sistema carcerário. A olhos vistos o Brasil tem revelado um sistema prisional inadequado, incapaz de atender às finalidades de reeducação e ressocializaçao do apenado, evidenciando-se desacreditado, senão perverso. Essas condições degradantes de um sistema prisional considerado juridicamente falido faz parte da história de desprezo pelo preso, promove uma espécie de banalização das desigualdades sociais, como se o próprio povo estivesse “acostumado” com aquilo que vê e observa, sem perceber que ele figura, tanto como sujeito ativo quanto como sujeito passi- vo dessa realidade, vítima da passividade e da negligência do Estado segregador. 238 Direitos Humanos Fonte: genius.com É redundante afirmar que o sistema carcerário do Brasil está falido. Mudanças radicais nesse sistema se fazem urgen- tes, pois as penitenciárias, como reconhece o próprio senso comum, se transformaram em verdadeiras “escolas de aperfei- çoamento do crime”. Desde a concepção da arquitetura panóptica da carcera- gem se percebe o processo de docilização dos corpos e das “almas” através de castigos que, se antes eram fisicamente cruéis e ordálicos, hoje passaram por um verdadeiro “refina- mento”: no controle, o poder é capilar e degrada a pessoa na sua intimidade indelével. Nesse contexto, ao invés de um enfrentamento profundo do problema da pena e do sistema prisional, que necessariamente implicaria mudança nos para- digmas estruturantes da sociedade, medidas paliativas e man- tenedoras do status quo vêm sendo propostas: a construção de Capítulo 9 Sistema Prisional, População Privada ... 239 novas cadeias pelos municípios, a melhoria das condições pri- sionais através de maior eficiência repressiva, ampliação dos projetos visando ao trabalho do preso e alguns benefícios tipo previdenciário, por exemplo, são medidas anunciadas como política de “aprimoramento do sistema penitenciário”. Sob a ótica da criminologia crítica esses “paliativos” quanto muito conseguirão postergar o problema, adiando que “o barril de pólvora” carcerário venha explodir nas mãos da própria socie- dade simultaneamente vítima e criminógena. 1 População Privada de Liberdade A lei penal e as formas de sua aplicação devem atender às exi- gências da vida pessoal e social de cada condenado. A pena deve ser individualizada e os programas e políticas públicas aperfeiçoados para garantir os direitos do preso assegurados pela Constituição Federal (Art. 5o). Não se pode esquecer que o homem, mesmo condenado, não perde a sua condição de pessoa humana, sendo a dignidade o valor central de sua exis- tência. Não é suficiente analisar a parte ao invés de conceber o sistema penitenciário como um todo globalizante – as denomi- nadas instituições totais. São necessários critérios para que se alcance o desenvolvimento social capaz de desconstruir a ideia de que “preso bom é preso morto”, um pensamento primiti- vo, de natureza taliônica, que opera a mais absoluta exclusão do apenado. Nesse contexto, deve-se considerar ainda que o homem condenado recebe um “estigma” do qual dificilmente 240 Direitos Humanos conseguirá se libertar. A sua pena poderá terminar um dia, porém a “marca” de apenado (ex-presidiário) o acompanhará. O efeito imediato do processo de estigmação é a redução da pessoa à coisa – o estigma – quer dizer, às marcas ou sinais que antigamente se imprimiam nos corpos dos criminosos, es- cravos e traidores. É importante salientar que a pena tem função preventiva, retributiva e ressocializadora, sendo que o sistema prisional, fracassando em todas elas, torna o castigo ilegítimo. Assim, o sistema prisional cumpre apenas o papel de segregação da sociedade, sustentando o conhecido modelo da pura e simples defesa social. Não será simplesmente isolando essas pessoas que se ga- rantirá a ordem social. A questão é mais ampla. Torna-se ur- gente reformar os nossos valores éticos e morais, despertando a consciência para o fato de que qualquer nação só se faz grande a partir do respeito à dignidade de cada cidadão in- dividualmente considerado, sejam eles livres ou estejam pri- vados de sua liberdade. No Estado Democrático de Direito a liberdade é a regra; a restrição uma exceção. A pena só pode decorrer da prática de um crime, um fato típico, antijurídico e culpável, e decretada após o devido processo legal que ga- rante a ampla defesa e o exercício do direito do contraditório ao acusado. Capítulo 9 Sistema Prisional, População Privada... 241 Fonte: Site carceraria.org.br É um grande engano considerar que uma sociedade com grandes taxas de pessoas condenadas seja uma sociedade avançada e próspera. Uma sociedade com elevado número de pessoas encarceradas apenas evidencia a falta de autorre- gulação, mostrando que o Estado necessita recorrer ao castigo para garantir um precário convívio social. No caso brasileiro muitas prisões e cadeias enfrentam o grave problema da superlotação e violência. A taxa de encar- ceramento do país subiu quase 30% nos últimos cinco anos, de acordo com o Sistema Integrado de Informações Penitenci- árias (InfoPen) do Ministério da Justiça. A população carcerária adulta atual é superior a meio milhão de pessoas: 43% além da capacidade do sistema prisional, que se encontra “abarro- tado”, sendo insuficiente o mero aumento de número de va- gas, pois a questão é complexa e envolve uma multiplicidade de causas e consequências que ingressam na esfera política, da própria organização social e da distribuição da riqueza, da redução das desigualdades, implicando os poderes do Estado em todas as suas esferas. 242 Direitos Humanos Nesse contexto, o Brasil entrou em uma “onda” em que a sociedade – que vem sofrendo graves distorções no plano das necessidades básicas, do desemprego, da desigualdade social e da corrupção – só encontra um pseudo alento e es- perança em uma proposta punitiva e de repressão radical, isto é, no encarceramento massivo e irracional de seus cidadãos. Em contrapartida, o atual refrão “mais escolas, menos prisões” certamente formula o ideal para o nosso País. De fato, educar é sempre a melhor forma de prevenir o crime. A segurança pública do Brasil em números: - A cada 10 minutos, uma pessoa é assassinada. - 50.320 pessoas foram vítimas de estupro em 2013. - Dos 20.532 jovens cumprindo medidas socioeducati- vas no Brasil em 2012, apenas 11,1% correspondem a crimes violentos contra a vida (homicídios e latrocínios). - O número de pessoas encarceradas no Brasil atingiu 574.207. - 215.639 é o número de presos provisórios, aguardan- do julgamento, o que corresponde a 40,1% do total de presos no sistema penitenciário, não incluindo os presos sob custódia das polícias. - O déficit de vagas nos presídios brasileiros cresceu 9,8% entre 2012 e 2013 e atingiu um total de 220.057 vagas. - A maior parcela da população prisional encontra-se presa em razões de: Capítulo 9 Sistema Prisional, População Privada ... 243  Crimes patrimoniais – 49%  Drogas – 26%  Homicídios – 12% Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 2014. Diante desse quadro, cujos indicadores parecem tender a se agravar ainda mais, “não vivemos mais apenas uma epi- demia de violência, mas nos acostumamos com um quadro perverso e que impede que o país se desenvolva e reduza suas desigualdades” (idem, 2014). Nesses últimos anos, as instituições de segurança pública e a justiça criminal vêm sendo fortemente demandadas pela mídia e pela opinião pública no sentido de recrudescer con- tra o crime e os “criminosos”, conclamando medidas puniti- vas extremas e até mesmo propondo o retrocesso de garantias constitucionais historicamente conquistadas através de árduas lutas. O número de presos aguardando julgamento são exem- plos desse quadro. A questão “processar para prender” parece haver ingressado na mão inversa: “prender para processar”. Assim, aumenta o número de pessoas privadas provisoria- mente de liberdade, sem uma sentença judicial condenatória que tenha transitado em julgado, isto é, definitiva no sentido de que dela não caiba mais recurso. Como mostra Marcelo 244 Direitos Humanos Semear (2014, p. 188)2, “O excesso de prisões provisórias, sem condenação definitiva, atinge a quase metade da popula- ção carcerária, o que faz muitas vezes que a custódia cautelar sirva como a própria condenação”. Como essa situação jurídi- ca se tornou frequente e massiva, não há dúvida que termina por violar os direitos fundamentais e as garantias processuais próprias do Estado Democrático de Direito. Nesse contexto, não será através de uma modificação le- gislativa isolada, uma lei aqui outra acolá, que o Brasil con- seguirá realizar mudanças políticas, jurídicas e sociais subs- tanciais e transformadoras. Sem dúvida há de se enfrentar a criminalidade, modernizar os instrumentos de proteção social contra o crime e reaparelhar os órgãos de segurança públi- ca, mas outras medidas muito mais complexas serão neces- sárias para permitir que a sociedade se desenvolva de modo a ingressar, de fato, a era da pós-modernidade. A satisfação das necessidades básicas da existência humana digna juridica- mente garantida pelo Estado para todos os cidadãos é o requi- sito desse paradigma. Entretanto, o preço dessa condição não pode ser pago com a moeda das garantias individuais, com os direitos sociais e com a insegurança jurídica. Referimo-nos aqui também aos diretos fundamentais: à vida, à liberdade, à honra, à dignidade e todos aqueles que dizem respeito ao núcleo do homem, que têm eficácia plena pelo simples fato de serem universais e irrenunciáveis, inalienáveis e inegociáveis, 2 SEMEAR, MARCELO. A serpente que só pica os pés descalços – desigualdade e direito penal. In: Correia Júnior, Rubens. (Coord.). Criminologia do cotidiano – Crí- ticas às Questões Humanas Através das Charges de Carlos Latuff – Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 2014, p. 188. Capítulo 9 Sistema Prisional, População Privada ... 245 uma vez o homem, como já diziam os antigos, é coisa sagrada para o homem. Isso significa garantir o direito constitucional de liberdade. Significa assegurar que a casa – seja rica seja pobre, um reino, um castelo ou uma simples choupana – seja de fato o domicílio inviolável do cidadão, e quando alguém bater à porta às cinco da manhã haveremos de ter certeza de que esse alguém, como na metáfora usada de Winston Chur- chil acerca da democracia, só pode ser o leiteiro (antigamente o leite era entregue nas casas, de porta em porta, ainda de madrugada). Fonte: ig-wp-colunistas.s3. amazonaws.com A insistente tentativa de redução da idade penal dos 18 para os 16 anos constitui uma dessas formas tópicas e politi- camente populistas propugnada para aumentar a população privada de liberdade, mostrando a força do poder punitivo do Estado. Entretanto, não será preciso uma reflexão profunda para mostrar que a redução da idade penal consistirá apenas 246 Direitos Humanos na promoção de uma carcerização precoce do adolescente. Privará de liberdade os adolescentes que deveriam estar na escola, porque mais do que qualquer outra medida o ado- lescente necessita de educação. Caso ele venha a cometer algum ato infracional, as medidas socioeducativas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n° 8.069, de 13 de julho, de 1990), ao contrário do que se procura difundir sem um fundado conhecimento, essas medidas são suficientes para desenvolver de modo ajustado a personalidade ainda em formação do adolescente infrator, para ensinar os valores e transmitir as noções fundamentais de lei, transgressão e culpa, que, uma vez internalizadas, permitirão o convívio social em condições de igualdade, respeito, liberdade e cidadania. Os nossos jovens continuam a ser a nossa melhor matéria-prima para uma futura sociedade mais justa e solidária. É importante frisar que, ao invés da punição pela punição, qualquer forma de restrição à liberdade somente terá senti- do se for educativa. Talvez seja o momento, não de procurar castigos mais severos, nem castigos alternativos, mas sim de alternativas ao castigo. Por fim, não se pode esquecer que a privação de liberda- de costuma recair sobre sujeitos com menor poder aquisitivo, com taxas mais baixas de educaçãoe emprego, em filhos de famílias numerosas, que vivem em periferias urbanas e com pouca supervisão parental e assistência social e comunitária. Em outras palavras, a privação de liberdade é mais comumen- te dirigida à classe pobre. Portanto, essa seleção não é neutra e atinge as classes menos favorecidas da população, aquelas Capítulo 9 Sistema Prisional, População Privada ... 247 que possuem menos recursos econômicos para ter acesso à defesa de seus direitos com eficiência, qualidade e rapidez. Por outro lado, como ensina Vanessa Maria Feletti (2014, p. 127)3, a atuação velocista do estado também explora o medo que cria as condições necessárias para que a popula- ção legitime o recrudescimento penal e aceite a redução de direitos e garantias se tornando consumidora dos produtos de violência e aumente o medo de ser vítima de crime. 2 Direito Humanos Intimamente relacionada com a Revolução Francesa (1789), logo após a Queda da Bastilha que, em 26 de agosto de 1789, foi anunciada ao público a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Esse documento, de suma importân- cia, foi a primeira declaração de direitos e serviu de inspiração para a Declaração dos Direitos Humanos de 1948. Desde o nascimento o respeito à vida, o direito a ser criado em uma família, o direito à educação, ao trabalho, à liber- dade, à honra, e à dignidade, dentre outros, acompanham a construção dos valores morais e a formação da personalidade com vistas a formar uma nação justa e democrática. 3 FELETTI, Vanessa Maria. Vende-se segurança – A relação entre o controle penal da força de trabalho e a transformação do direito social à segurança em mercado- ria. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2014, p. 127. 248 Direitos Humanos Definindo de uma forma simples, podemos dizer que valor moral é o respeito à vida; não somente a nossa vida individual, mas também à coletiva, pois vivemos em sociedade. O ho- mem é um animal social, e para viver fora da sociedade teria que estar acima dos deuses ou abaixo dos demônios. O Art. 1º da Declaração dos Direitos Humanos consagra: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e di- reitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade”. Um indivíduo que foi condenado é porque praticou um crime, uma conduta que prejudicou gravemente a sociedade. Em outras palavras, não soube respeitar o direito do outro ou cumprir as normas impostas pelo Estado para garantir a vida social orientada para esses valores. Uma vez lesada a norma penal, o Estado, através da polícia, do Ministério Público e do sistema de justiça entram em ação. O Ministério Público exerce a persecução penal, o Poder Judiciário tem a função de julgar, isto é, aplicar a lei ao caso concreto, e o Poder Executi- vo de promover a administração da sociedade. Alguns exemplos de Artigos da Declaração dos Direitos Hu- manos que são violados constantemente nos presídios brasi- leiros: Artigo 5º Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou casti- go cruel, desumano ou degradante. Capítulo 9 Sistema Prisional, População Privada ... 249 Artigo 6º Toda pessoa tem o direito de ser, em todos os lugares, reco- nhecida como pessoa perante a lei. Artigo 9º Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado. Artigo 10º Toda pessoa tem direito, em plena igualdade, a uma audi- ência justa e pública por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir sobre seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele. Sabe-se o quão degradantes são os presídios brasileiros. Além da superlotação, falta de higiene, desamparo médico e psicológico, os presos passam muitas vezes por situações de tortura física e emocional. Em outras palavras, perdem a sua condição de pessoa humana. Deixam de ser considerados como sujeitos de direitos. Dentro dos presídios, está havendo a “volta do homem ao seu estado de natureza”, como diria Rousseau em sua obra O Contrato Social, em que ele atua sem nenhuma lei e sem moralidade. Segundo o filósofo, o homem nasce bom e livre e é corrompido pela sociedade em que vive. Se o homem é cor- rompido pela sociedade, a culpa de os detentos estarem onde estão não é somente individual, mas também do coletivo. De alguma forma, fechamos os olhos para o outro, afundamo- -nos em nossas próprias vaidades e nos esquecemos de ver 250 Direitos Humanos as outras pessoas do ponto de vista coletivo: todos vivemos e habitamos em um mesmo tempo e espaço e deveríamos cuidar uns dos outros. No entanto o que acontece, no geral, é a lógica do eu. Fechamo-nos em casulos e individualiza- mos cada vez mais as nossas necessidades, esquecendo do todo. Agora toda a sociedade paga esse preço: mais de meio milhão de pessoas presas, esperando por um julgamento, ou simplesmente esquecidas pelas malhas da justiça. 2.1 Direitos Humanos, Direitos Fundamentais e Direitos Sociais Os Direitos Sociais foram conquistados com os movimentos de busca de melhores condições de vida ao longo dos sécu- los e, atualmente, são reconhecidos no âmbito internacional em documentos como a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948, e o Pacto Internacional dos Direitos Econô- micos, Sociais e Culturais, de 1966, bem como pela Consti- tuição da República de 1988, que os consagrou como direitos fundamentais em seu Art. 6º4. Cesarino Junior (1970, p. 8) explica que a utilização da expressão “Direito Social” consiste na arguição de que “todo o direito é naturalmente social, por isso que não pode haver direito senão em sociedade: Ubi societas, ibi jus”5. Contudo, o 4 Art. 6º: São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assis- tência aos desamparados, na forma desta Constituição. 5 CESARINO JUNIOR, A. F. Direito Social Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 1970, p. 8. Capítulo 9 Sistema Prisional, População Privada ... 251 autor justifica a utilização de tal denominação em contraposi- ção ao direito meramente individualista: “... visando este ramo do Direito [...] restabelecer o equilíbrio social, resolvendo a chamada questão social, muito lógico nos parece que se lhe dê exatamente este qualificativo de ‘Social’, uma vez que todo equívoco desaparece.”6 Para traçar uma análise da diferença entre direitos huma- nos e direitos fundamentais, é necessário saber quem são os destinatários de sua proteção. Clareando a ideia de separação entre direitos humanos e fundamentais, mesmo que permaneça certa dúvida original- mente existente, pois em ambos o destinatário da proteção é a pessoa humana, não sendo o critério pessoal suficiente para se determinar a diferença, qual seria então o aspecto capaz de separar os dois termos jurídicos? Para responder a essa questão, Ingo Wolfgang Sarlet con- fere, no âmbito espacial da norma, o primeiro fator relevante de distinção: Em que pese sejam ambos os termos (“direitos humanos” e “direitos fundamentais”) comumente utilizados como sinônimos, a explicação corriqueira e, diga-se de pas- sagem, procedente para a distinção é de que o termo “direitos fundamentais” se aplica para aqueles direitos do ser humano reconhecidos e positivados na esfera do direito constitucional positivo de determinado Estado, ao passo que a expressão “direitos humanos” guardaria re- 6 Ibid., p. 8. 252 Direitos Humanos lação com os documentos de direito internacional, por referir-se àquelas posições jurídicas que se reconhecem ao ser humano como tal, independentemente de sua vin- culação com determinada ordem constitucional, e que, portanto, aspiram à validade universal, para todos os povos e tempos, de tal sorte que revelam um inequívoco carátersupranacional (internacional).7 No entanto, se considerado o âmbito espacial como úni- ca distinção entre direitos humanos e fundamentais, ficariam dúvidas sobre a extensão do conteúdo das duas categorias ju- rídicas. Isso, por consequência, poderia gerar uma igual com- paração de significados entre os termos postos em análise. Mesmo existindo uma progressiva afirmação interna dos direitos humanos, não podem tais conceitos ser entendidos como sinônimos, pois a efetividade de cada um é diferente. Neste ponto Ingo Wolfgang Sarlet é incisivo ao afirmar que: Além disso, importa considerar a relevante distinção quanto ao grau de efetiva aplicação e proteção das nor- mas consagradoras dos direitos fundamentais (direito interno) e dos direitos humanos (direito internacional), sendo desnecessário aprofundar, aqui, a ideia de que os primeiros que – ao menos em regra – atingem (ou, pelo menos, estão em melhores condições para isto) o maior grau de efetivação, particularmente em face da existên- 7 SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. Porto Alegre: Livra- ria do Advogado, 2006, pp. 35-36. Capítulo 9 Sistema Prisional, População Privada ... 253 cia de instâncias (especialmente as judiciárias) dotadas do poder de fazer respeitar e realizar estes direitos.8 Em suma, os direitos humanos são aquelas garantias ine- rentes à existência da pessoa, arraigados como verdadeiros para todos os Estados e positivados nos diversos instrumentos de Direito Internacional Público, mas que, por fatores instru- mentais, não possuem aplicação simplificada e acessível a to- das as pessoas. Por outro lado, os direitos fundamentais são formados por regras e princípios, afirmados constitucionalmente, cuja lista não está limitada aos dos direitos humanos, que visam garan- tir a existência digna (ainda que minimamente) da pessoa hu- mana, tendo sua eficácia assegurada pelos tribunais internos. Recapitulando As raízes do Direito Penitenciário começaram a se formar no século XVIII, mas a história da segregação e do encarceramen- to é longa. O sistema prisional brasileiro é inadequado e incapaz de atender às finalidades de reeducação e ressocialização do apenado, evidenciando-se desacreditado e perverso. 8 SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. Porto Alegre: Livra- ria do Advogado, 2006, p. 40. 254 Direitos Humanos Mudanças radicais nesse sistema se fazem urgentes, pois as penitenciárias se transformaram em verdadeiras “escolas de aperfeiçoamento do crime”. A ideia de que “preso bom é preso morto” é um pensamen- to primitivo, de natureza taliônica, que opera a mais absoluta exclusão do apenado e deve ser desconstruída. Um homem condenado recebe um “estigma” do qual difi- cilmente conseguirá se libertar. Há de se enfrentar a criminalidade, modernizar os instru- mentos de proteção social contra o crime e reaparelhar os órgãos de segurança pública, mas outras medidas muito mais complexas serão necessárias. Ao invés da punição pela punição, qualquer forma de res- trição à liberdade somente terá sentido se for educativa. Talvez seja o momento, não de procurar castigos mais severos, nem castigos alternativos, mas sim de alternativas ao castigo. Dentro dos presídios, está havendo a “volta do homem ao seu estado de natureza” em que ele atua sem nenhuma lei e sem moralidade. Referências Anuário Brasileiro de Segurança, 2014. BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal: introdução à sociologia do direito penal. Capítulo 9 Sistema Prisional, População Privada ... 255 3. ed. Rio de Janeiro: Revan: Instituto Carioca de Crimino- logia, 2002. BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 18. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2006. CESARINO JUNIOR, A. F. Direito Social Brasileiro, 1º volu- me. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 1970. COMPARATO, Fábio Konder. A Afirmação Histórica dos Di- reitos Humanos. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2003. Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948. Dis- ponível na Biblioteca Virtual de Direitos Humanos: <www. direitoshumanos.usp.br>. LEITE, Celso Barroso. A proteção Social no Brasil. São Pau- lo: LTR, 1972. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do Contrato Social. São Paulo: Abril Cultural, 1978. SARLET, Ingo Wolfgang. A Eficácia dos Direitos Fundamen- tais. 6. ed., Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2006. _____________________. Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais na Constituição Federal de 1988. 4. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2006. Atividades 1) Qual é a finalidade pretendida pelo sistema carcerário? 256 Direitos Humanos a) Finalidade de reeducar e ressocializar o apenado. b) Finalidade vingativa. c) Finalidade de expor a figura do apenado, para que este sirva de exemplo à sociedade. d) Finalidade de demonstração do poder estatal. e) Finalidade curativa. 2) Qual é a consequência do fracasso do sistema carcerário atual? a) Recuperação do apenado b) Legitimidade do sistema c) Segregação social d) Respeito aos Direitos Humanos e) Prevenção eficaz do crime 3) Quando um adolescente infringe a legislação penal, ele comete um(a): a) Crime. b) Contravenção. c) Delito. d) Ato infracional. e) Infração administrativa. Capítulo 9 Sistema Prisional, População Privada ... 257 4) Os direitos fundamentais são: a) Aquelas garantias inerentes à existência da pessoa, ar- raigados como verdadeiros para todos os Estados e positivados nos diversos instrumentos de Direito Inter- nacional Público, mas que, por fatores instrumentais, não possuem aplicação simplificada e acessível a to- das as pessoas. b) Formados por regras e princípios, afirmados constitu- cionalmente, cuja lista não está limitada aos dos di- reitos humanos, que visam garantir a existência digna (ainda que minimamente) da pessoa humana, tendo sua eficácia assegurada pelos tribunais internos. c) Direitos relativos, não sendo distribuídos a todos os cidadãos de forma equânime, pois há seleção dos me- recedores de suas garantias, tendo que, para sua real efetivação, o sujeito buscar judicialmente. d) Guardam relação com os documentos de direito inter- nacional, por referir-se àquelas posições jurídicas que se reconhecem ao ser humano como tal, independen- temente de sua vinculação com determinada ordem constitucional. e) Criação teórica, ainda sem eficácia no mundo jurídi- co, pois falta sua positivação nas legislações vigentes. 5) Os direitos humanos: a) São obedecidos no sistema carcerário brasileiro. 258 Direitos Humanos b) Permitem a tortura apenas nos casos em que sua fina- lidade seja vantajosa. c) Sua aplicação é de fácil busca pelos cidadãos. d) Estão previstos, em sua totalidade, na Constituição Fe- deral brasileira. e) Integram os diplomas internacionais e ainda são de difícil concretização. Prof. Dr. Luiz Felipe Zago1 Capítulo 10 Correntes Contra- hegemônicas em Direitos Humanos 1 Doutor e Mestre em Educação, Bacharel em Comunicação Social. Professor do curso de Comunicação Social e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), Campus Canoas – RS. Integrante da Linha de Pesquisa de Pedagogias e Políticas da Diferença (PPG-Edu ULBRA Canoas). 260 Direitos Humanos Introdução Este capítulo tem um primeiro objetivo de inventariar as posi- ções teóricas e políticas que orientam as ações, intervenções e quadros conceituais das correntes ditas hegemônicas dos Di- reitos Humanos. Em segundo lugar, também é objetivo deste capítulo apresentar brevemente certas correntes “contra-hege- mônicas” dos Direitos Humanos, que complexificam profun- damente as relações estabelecidas entre humanidade, poder, discriminação e morte – tanto física quanto simbólica.Por fim, procurar-se-á mencionar as implicações éticas de cada uma das correntes para o nosso mundo contemporâneo, demons- trando que hoje acontece a banalização do sentido da vida de alguns grupos de indivíduos ao mesmo tempo que a humani- dade de outros é altamente valorizada. O conceito de “hegemonia” é complexo e não será apro- fundado aqui. No entanto, é importante mencionar sua defi- nição, pois é a partir dela que se dividem as duas correntes em Direitos Humanos trabalhadas neste capítulo. “Hegemo- nia” é um conceito criado e trabalhado pelo teórico Antonio Gramsci nos vários volumes de livros que escreveu agrupados sob o título de Cadernos do cárcere. Nesses livros Gramsci procura analisar as formas como a cultura serve a propósitos políticos no sentido de produzir aquilo que se chama de “senso comum” ou “lugar comum”. O “senso comum” ou o “lugar comum” de uma cultura é aquele conjunto de ideias, crenças, valores e opiniões que permanecem inquestionáveis, indubitá- veis, cristalizados como “a verdade” daquela sociedade que o compartilha. Esse conjunto de ideias e de valores parece Capítulo 10 Correntes Contra-hegemônicas em Direitos... 261 evidente (isto é, parece que simplesmente existem desde sem- pre) e funciona cotidianamente atribuindo significado e sentido (não questionados) sobre fatos, grupos de indivíduos, práticas sociais etc. Portanto, quando se diz “isso é o senso comum” se está referindo a um conjunto de significados compartilhados por um grupo de indivíduos que compõem determinada so- ciedade, sendo que esse conjunto de significados não é objeto de dúvida, desconfiança ou descrença: é “senso comum” jus- tamente porque funciona como sentidos compartilhados que ordenam a realidade social. A “hegemonia” se liga diretamente ao “senso comum”. Quando uma ideia, um valor, um significado é chamado de “senso comum” atribui-se a eles o status de “hegemônico”: é hegemônico um significado compartilhado por indivíduos que compõem uma sociedade e que permanece autoevidente, in- questionado e cristalizado como “a verdade”; é hegemônica uma ideia que é comum e corriqueira em dada cultura e que funciona ordenando a realidade social. Algo é hegemônico quando se acomoda ao cotidiano de uma sociedade, quan- do permanece inquestionado e quando ordena uma realidade social. É a partir dessa noção de “hegemonia” que se apresenta- rão duas correntes que orientam política e conceitualmente os Direitos Humanos hoje em dia. Uma corrente chamada aqui de “hegemônica”, que adere ao senso comum das sociedades ocidentais, que ordena certa realidade social e que funciona como verdadeira sem ser questionada. A outra corrente, aqui chamada de “contra-hegemônica”, põe em xeque os princí- pios nos quais se baseia a corrente hegemônica, colocando 262 Direitos Humanos em dúvida a extensão de seu funcionamento político e dos supostos benefícios por ela trazidos. 1 Correntes hegemônicas em Direitos Humanos De modo geral, as correntes hegemônicas em Direitos Huma- nos baseiam-se nas noções de “diversidade”, “multiculturalis- mo”, “tolerância”, “respeito” e, finalmente, “paz” (CANDAU, 2010; CANEN E XAVIER, 2011; FISCHMANN, 2001). A noção de “diversidade” é tomada como intrínseca aos agrupamentos humanos, sendo característica reconhecível de toda cultura (isto é, as correntes hegemônicas entendem a “diversidade” como atributo natural das sociedades). Junto de “diversidade”, ganhou força nas últimas décadas o conceito de “multicultu- ralismo”, que se refere à miscelânea de matrizes culturais (ex- pressões, práticas, crenças) que múltiplas culturas produzem ao se entrecruzarem nas fervilhantes sociedades contemporâneas (isto é, graças ao “multiculturalismo” as sociedades atuais são intrinsecamente “diversas”). Nesse caldeirão diverso e multicul- tural, a noção de “tolerância” ganha força, ao referir-se a uma atitude de autorreflexão dos indivíduos na direção de entender e respeitar os lugares sociais das diferenças no seio de cada sociedade. De modo análogo, “respeito” é indissociável de “tolerância”: junto com a atitude de tolerar, é preciso respeitar as diferenças, entender que as diferenças são características naturais de todo agrupamento humano, compreender que cada indivíduo tem o direito de existir em sociedade e, dentro Capítulo 10 Correntes Contra-hegemônicas em Direitos... 263 dessa sociedade, cada indivíduo tem direito a ter um espaço (político e cultural). A “paz”, geralmente expressa em “cultura da paz”, tenta dar conta da promoção da não violência (física e simbólica) no processo de convivência com a “diversidade” e na prática do “respeito”, procurando apaziguar tensões que eventualmente são produzidas pela convivência multicultural com as diferenças. Articuladas às proposições teóricas e práticas contidas nos documentos oficiais promulgados pela Organização das Nações Unidas (ONU) e por suas agências, as correntes he- gemônicas em Direitos Humanos têm fundamentalmente três características: a) Constroem argumentos para a consolidação dos Di- reitos Humanos por meio das noções de “diversidade”, “multiculturalismo”, “tolerância”, “respeito” e “paz”, pois apostam que essas ideias e conceitos sejam in- separáveis entre si e necessariamente articulados à promoção dos direitos civis, políticos e culturais a que todo/a cidadã/ão tem direito, em todas as culturas e sociedades, acreditando na democracia como um va- lor absoluto; b) Apostam na universalidade dos significados dos Di- reitos Humanos e dos valores atrelados às noções de “diversidade”, “multiculturalismo”, “tolerância”, “res- peito” e “paz”, sendo esses aplicáveis a todos os indi- víduos de todas as culturas e sociedades. Por meio da universalidade dos Direitos Humanos e dos sentidos atribuídos à “diversidade”, “multiculturalismo”, “tole- 264 Direitos Humanos rância”, “respeito” e à “paz”, as correntes hegemô- nicas operam a partir de um juízo ético e moral que entende a promoção dos Direitos Humanos, a defesa da justiça e da igualdade como intrinsecamente boas e necessárias para o funcionamento de todas as socie- dades contemporâneas, acreditando na democracia como um valor universal, absoluto e comum a toda organização social; c) Tomam como inquestionável o conceito de “humani- dade”, isto é, não questionam quem são os “huma- nos” dos Direitos Humanos. As correntes hegemôni- cas tomam a vida, além da democracia, como valor universal, absoluto e inseparável da definição de “hu- manidade” e, portanto, da definição de quem terá direito aos Direitos Humanos, o que significa apostar que todo ser vivo da espécie humana, por estar vivo, é portador de Direitos Humanos. No interior das correntes hegemônicas em Direitos Huma- nos, há espaço para a problematização das noções de “diver- sidade”, “multiculturalismo”, “tolerância”, “respeito” e “paz”. Vários/as autores/as questionam os significados possíveis des- sas noções, muitos/as deles/as assinalando que há mais de um sentido para cada uma delas – sendo alguns desses sen- tidos usados para fins de assimilação acrítica ou para fins de luta contra a opressão de grupos marginalizados socialmente (CANDAU, 2013). É o caso do conceito de “multiculturalis- mo”: diz-se que pode haver um sentido assimilacionista nesse conceito, na direção de que, ao conceber uma determinada sociedade como naturalmente multicultural, acaba-se por Capítulo 10 Correntes Contra-hegemônicas em Direitos... 265 entender que toda a desigualdade é também natural e que bastaria assimilar as diferenças, integrá-las à matriz de deter- minada cultura sem, no entanto, mudar essa matriz cultural; e pode haver um sentido mais aberto, inclusivo e democráti- co do “multiculturalismo”, um sentido que valoriza de modo equânime todas as expressões culturaise todos os sujeitos das múltiplas culturas (raciais, étnicas, sexuais, religiosas, de gê- nero, de classe, de conformação corpórea – como as pessoas com deficiência mental e física etc.) que constituem as socie- dades contemporâneas. O mesmo ocorre com a noção de “tolerância”: há autores/as que discernem os sentidos triviais dos sentidos politizados da ideia de “tolerar” (FISCHMANN, 2001). No seu sentido trivial, corriqueiro, “tolerância” signifi- caria certa complacência e desprezo pelo outro ao meramente “tolerá-lo”; no seu sentido politizado, “tolerância” seria a con- vivência harmoniosa com tudo aquilo e todos/as aqueles/as tidos como “diferentes”, e seu sentido seria mais completo se associado definitiva e permanentemente ao sentido de “respei- to” – portanto, além de tolerar, nessa perspectiva é imprescin- dível também respeitar aqueles/as que são “diferentes”. É importante ressaltar que, para as correntes hegemôni- cas, a democracia, a justiça, a igualdade e a paz (esta última entendida como não violência física ou simbólica) são valores universais e absolutos que são inseparáveis da promoção dos Direitos Humanos. Isso porque aposta-se na afirmação da via- bilidade política de se conviver com a diferença de modo a garantir que todos os seres humanos possam existir, expressar- -se, circular, emitir opiniões, ter fé, ter afeto em uma esfera de coexistência harmoniosa. As correntes hegemônicas estão comprometidas em lutar contra a opressão, discriminação e 266 Direitos Humanos marginalização a que historicamente alguns grupos de indiví- duos foram vítimas (por exemplo, pessoas negras, mulheres, índios, LGBT, pessoas crentes nas religiões de matriz africana, pessoas consideradas pobres, pessoas com deficiência mental e física etc.). Nessa luta contra a opressão, busca-se construir sociedades nas quais os contextos políticos e culturais per- mitam que todos os indivíduos sejam considerados cidadãs/ ãos capazes de exercer sua cidadania, de ter voz política, de expressarem-se de forma adequada às suas crenças e seus afetos, e que todos/as convivam em uma esfera de coexistên- cia “multicultural”, de “respeito”, de “tolerância” e de “paz” (CANEN; XAVIER, 2011). Para as correntes hegemônicas dos Direitos Humanos, é um consenso afirmar que todos os indiví- duos existentes na face da Terra são sujeitos capazes de exer- cer direitos porque estão vivos: os princípios éticos e morais dos Direitos Humanos, sendo considerados como universais e naturais, estão justificados enquanto tais. 2 Correntes contra-hegemônicas em Direitos Humanos As correntes contra-hegemônicas propõem a interrogação sis- temática e rigorosa dos valores supostamente absolutos, uni- versais e naturais atrelados aos Direitos Humanos. Também chamadas de vertentes procedimentais em Direitos Humanos, essas correntes desconfiam profundamente de qualquer valor universal que possa estar vinculado ao exercício dos direitos civis e políticos dos indivíduos, e procuram explorar os cami- Capítulo 10 Correntes Contra-hegemônicas em Direitos... 267 nhos tortuosos por meio dos quais certo consenso (ou certa “hegemonia”) se instala nas concepções de direito e de huma- nidade (CORREA, 2004). Lançam duras críticas às concepções hegemônicas ao entenderem que todas as relações sociais, políticas e culturais que dispomos nas sociedades humanas são fundamentalmente associadas a exercícios de poder; nes- se sentido, questionam os modos através dos quais se produ- zem a diferença e a marginalização no seio de uma cultura, ao invés de categorizar os grupos de indivíduos historicamente oprimidos e lutar para que eles/as sejam incluídos/as social- mente e respeitados/as enquanto tais. Além disso, de modo bastante radical, postulam que a própria concepção de “hu- manidade” é altamente normativa, pois apenas alguns seres vivos gozam do status de “humano” enquanto que outros são tratados como “animais”, sem direito à vida – ou, mais grave que isso, que as vidas de alguns não são consideradas como “vida humana” sujeita ao exercício de direitos. Essas concep- ções são bastante complexas e serão explicadas em duas se- ções para que se possa entender a densidade dos argumentos. Primeira aproximação Em uma primeira aproximação, é importante compreender a objeção das correntes contra-hegemônicas em Direitos Huma- nos às noções de “diversidade”, “multiculturalismo”, “tolerân- cia”, “respeito” e “paz”. Ambas as correntes (as hegemônicas e as contra-hegemônicas) concordam que a democracia e a justiça são valores que merecem ser defendidos e promovidos; entretanto, as correntes contra-hegemônicas ressaltam que os significados de democracia e de justiça, assim como as prá- 268 Direitos Humanos ticas democráticas, não são universais mas sim cultural e his- toricamente localizados. Além disso, no interior das correntes contra-hegemônicas argumenta-se que todas as sociedades se organizam por meio de relações de poder entre os grupos que as compõem. Assim, indica-se que a ideia de “diversida- de” (ao postular que a “diversidade” seria uma característica natural de todo grupo humano) oculta uma série de relações de poder através da qual certos indivíduos são posicionados como “diferentes” e “diversos”. As afirmações que sugerem a celebração da “diversidade” como característica constituinte da cultura geralmente desconsideram as formas por meio das quais certos grupos de indivíduos chegaram a ser oprimidos, marginalizados e discriminados no seio de uma dada cultura. Há relações de poder intrínsecas a toda organização social que forja certos lugares para os indivíduos: os considerados “diferentes” serão alijados de exercer cidadania, ao passo que outros poderão fazê-lo sem impedimentos. A pergunta central aqui é “quem tem o poder de nomear alguns indivíduos como ‘diferentes’?”. O foco da crítica à noção de “diversidade” (e, por extensão, à noção de “multiculturalismo”) é que a dife- rença social e política é produzida por meio de relações de poder que instituem o “lugar da diferença” e que a noção de “diversidade” oculta justamente os processos que transformam um indivíduo em “diferente”. Por exemplo, na África do Sul vigorou por muitos anos o apartheid, a segregação racial que separava pessoas bran- cas de pessoas negras. Não é possível simplesmente falar em “diversidade” para dar conta de entender como o apartheid funcionava politicamente; é preciso compreender as relações de poder entre pessoas brancas e pessoas negras que histo- Capítulo 10 Correntes Contra-hegemônicas em Direitos... 269 ricamente constituíram as sociedades ocidentais para formu- lar uma crítica (e propor a mudança da realidade social) à discriminação racial. Nessas relações de poder estão atrela- das significações de pobreza, atraso, feiura, incompetência, incapacidade, animalidade que foram atribuídas à negritude. Tais características foram arbitrariamente associadas às pes- soas negras, e suas significações foram coladas à negritude mediante relações de poder entre as pessoas brancas (polo mais forte da relação) e as pessoas negras. Mudar a realidade social que marginaliza pessoas negras implica em mudar os sentidos culturalmente atribuídos à negritude. Tais sentidos são atribuídos graças a relações de poder no interior de uma dada cultura. Por exemplo, a Constituição Federal brasileira, de 1988, fez do racismo um crime inafiançável. Essa foi uma conquista em termos da garantia dos Direitos Humanos, que deve ser preservada e defendida como um valor democrático da nossa sociedade. No entanto, quando alguém se dirige a uma pes- soa negra usando as palavras “nega” ou “negão”, ou quando alguém faz piada dizendo “isso é coisa de nego”, é verificável que o conjunto de significados atribuídos à negritude continua sendo depreciativo, negativo,