Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

Reflexões Para o 
Autoconhecimento
Autor das reflexões: Desconhecido 
Apoio: facebook.com/conheceroser/
Índice 
 
 
A Espera de um Milagre 4 
A Grande Caridade 6 
Cada um Tem o Instrutor que Merece 8 
Das Percepções da Projeção 11 
Não Há Nada a Fazer 13 
O Anel de Giges 15 
O Grande Teatro da Vida 16 
O Mito da Caverna 17 
O que significa o Amor? 21 
Os Sete Pecados Capitais 22 
Por Que Não Mudamos? 24 
Raiva de Tudo 27 
Sobre a Ansiedade 29 
Sobre a Busca por Aceitação e Auto-Afirmação 31 
Sobre a Caridade 33 
Sobre a Compaixão 36 
Sobre a Culpa 39 
Sobre a Devoção 41 
Sobre a Equanimidade 44 
Prática - Meditando no Relacionamento Humano 46 
Sobre a Espiritualidade dos Dias de Hoje 47 
Sobre a Espiritualidade Materialista 49 
Sobre a Felicidade 52 
Sobre a Fuga da Vergonha 56 
Sobre a Fuga do Medo 58 
Sobre a Gratidão 60 
Sobre a Identificação com o Sofrimento Alheio 63 
Sobre a Identificação com Pensamentos 64 
Sobre a Identificação 67 
Sobre a Ilusão da Aceitação e da Auto-Afirmação 70 
Sobre a Ilusão da Superioridade e da Inferioridade 71 
Sobre a Ilusão do Autoconhecimento 72 
Sobre a Ilusão do Controle 75 
Sobre a Ilusão do Futuro (A Fuga do Presente) 77 
Sobre a Ilusão do Otimismo e do Pessimismo 78 
Sobre a Ilusão do Status e da Posição Social 79 
Sobre a Inveja 81 
Sobre a Lei da Atração 83 
Sobre a Má Vontade 85 
Sobre a Mágoa 88 
Sobre a Maldade 91 
Sobre a Mente 94 
Sobre a Mística 96 
Sobre a Paz 98 
A Paz Perfeita – Conto de Autor Desconhecido 103 
Sobre a Projeção como Fuga da Realidade 106 
Sobre a Raiva 108 
Sobre a Renúncia 114 
Sobre a Sensação de Mandar e Ser Mandado 117 
Sobre a Solidão 119 
Sobre a Vaidade 121 
Sobre a Vergonha do Externo a Nós 124 
Sobre a Vergonha e a Moralidade 125 
Sobre a Vergonha e os Padrões 127 
Sobre a Vergonha 129 
Sobre a Vingança (O Eu Justiceiro) 132 
Sobre Abster-se de Causar Sofrimento 134 
Sobre Aceitação 137 
Sobre a Aceitação de Si Mesmo 145 
Sobre as Práticas 147 
Sobre as Virtudes 152 
Sobre Associações Mentais 155 
Sobre Conselhos 157 
Sobre as Desculpas e Justificativas 160 
Sobre Fantasias 162 
Sobre a Impaciência nos Engarrafamentos 165 
Sobre Imposição de Mãos 166 
Sobre a Irritação no Trânsito 169 
Sobre o Amor 170 
Sobre o Derrotismo 173 
Sobre o Julgar 177 
Sobre o Medo e a Moralidade 181 
Sobre o Medo 183 
Sobre o Nosso Lado Sombra 187 
Sobre o Perdão 188 
Sobre o Servir 190 
Sobre as Raízes do Sofrimento 193 
Sobre as Nossas Razões 195 
Sobre o Apego ao Sofrimento 198 
Sobre o Verbo 203 
Sobre Ofensas e Elogios 206 
Sobre Projeção 211 
Sobre Repressão 214 
Segurança, Insegurança e o Medo da Morte 216 
Sobre Vícios 218 
Sobre Virtudes e Defeitos 220 
Trombando com Cegos 224 
Tudo se Resume ao Pisão no Pé 225 
À Espera de um Milagre 
 
 
Muitas virtudes, comportamentos, são colocados por nós como inatingíveis, como algo muito 
distante, previsto talvez para uma outra vida ou para quando nos tornarmos um Buda, um Cristo, um 
Mestre, um Iluminado, um Santo. Mas, temos que começar agora. A melhor maneira de se tornar um Buda 
é ser Buda, é viver como um Buda e seguir seus ensinamentos. A melhor maneira se tornar um Cristo é ser 
Cristo, é viver como um Cristo e seguir seus ensinamentos. O fato é que veneramos estes seres superiores, 
mas nada fazemos para sermos iguais a eles. 
 
Como diz Cristo, em Lucas 6: 
 
46 - E por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo? 
 
47 - Qualquer que vem a mim, e ouve as minhas palavras, e as observa, eu vos mostrarei a quem 
é semelhante. 
 
48 - É semelhante ao homem que edificou uma casa, e cavou, e abriu bem fundo, e pôs os 
alicerces sobre rocha; e, vindo a enchente, bateu com ímpeto a corrente naquela casa e não a pôde abalar, 
porque estava fundada sobre rocha. 
 
49 - Mas o que ouve e não pratica é semelhante ao homem que edificou uma casa sobre terra, 
sem alicerces, na qual bateu com ímpeto a corrente, e logo caiu; e foi grande a ruína daquela casa. 
 
 
Fica muito fácil para nós culparmos religiões, seitas, credos, por não sermos ou não agirmos como 
esses Seres Divinos. Mas, mesmo quando percebemos que nossa religião não nos mostrou a verdade, 
nada fazemos, continuamos os mesmos. Tudo isso é muito cômodo para nós. 
 
Esperamos que as situações se tornem ideais para que expressemos o nosso ideal. Mas, em 
verdade, não existe vida perfeita e sim a nossa capacidade de vivê-la com perfeição, arte e equilíbrio. 
 
Não podemos esperar que a vida atinja um determinado grau de perfeição para então começarmos 
a viver plenamente, para expressarmos as nossas virtudes, pois isso nunca vai acontecer, e, ainda que 
acontecesse neste exato momento, logo estipularíamos uma outra condição para podermos viver 
plenamente, para podermos expressar nossas virtudes, ou seja, criaríamos uma nova justificativa para a 
nossa incapacidade. 
 
Devemos aceitar viver a vida com a perfeição que nos é possível, com a nossa condição atual. 
Devemos viver o agora em plenitude. É agora que devemos expressar todas as nossas virtudes. 
 
É de fundamental importância e sabedoria que paremos de culpar os outros pelas coisas que 
acontecem, temos que tomar as rédeas das situações. Somente assim elas poderão ser mudadas, nunca 
antes disto, nunca enquanto essas situações são explicadas pela culpa dos outros, das condições externas, 
etc. 
 
Não podemos mudar ninguém, temos que mudar a nós mesmos. Quando mudamos interiormente e 
de forma radical, o mundo à nossa volta também muda, as pessoas mudam, tudo muda. 
 
A maior parte das condições que colocamos para sermos corretos com os outros depende de nós 
mesmos, nós é que devemos nos resolver internamente. Devemos trabalhar nossos problemas de baixa 
estima, mania de grandeza, soberba, respeito, etc. 
 
Diz Samael Aun Weor, em “A Revolução da Dialética”: 
 
Não precisamos submeter as mentes alheias porque isso é magia negra. O que precisamos é 
submeter a nossa própria mente, dominá-la. 
 
Precisamos parar de cobrar, de criticar, de causar sofrimento aos outros. Precisamos nos tornar 
doces para com o próximo e duros, sinceros, honestos para conosco. Isso não significa auto-cobrança, não 
significa violência com nós mesmos. Significa ver o certo como certo e o errado como errado, de forma 
sincera, sem desculpas, sem pretextos, sem explicações. 
 
Diz H. P. Blavatsky, em “A Voz do Silêncio”: 
 
“Antes que possas entrar em Jnana-Marga e chamar teu, a tua Alma tem de se tornar como o fruto 
maduro da mangueira: mole e doce como a sua polpa dourada para as angústias dos outros e duro como 
o caroço para as tuas próprias dores e angústias, ó triunfador da alegria e da tristeza.” 
 
Mas, enquanto continuarmos a fazer as mesmas coisas ou imobilizados, os resultados serão 
sempre os mesmos. Precisamos mudar, precisamos agir, precisamos morrer de instante em instante. E isso 
é urgente. 
 
Precisamos viver a espiritualidade na prática, precisamos viver uma espiritualidade baseada em 
fatos concretos do dia-a-dia, em pequenos gestos. 
 
Nada mudará enquanto continuarmos entretidos apenas com literaturas espiritualistas ou sagradas. 
Nada mudará enquanto continuarmos a freqüentar palestras, seminários, cultos, missas, cursos, sem que 
vivamos os ensinamentos adquiridos de forma prática e concreta, longe das fantasias da mente. 
 
Nada mudará enquanto continuarmos a praticar a espiritualidade em busca de vantagens, a 
espiritualidade barata e vazia. Nada mudará enquanto continuarmos a praticar uma espiritualidade sem 
transcendência, uma espiritualidade materialista, mentalista, baseada em ensinamentos que não nos levam 
a uma transformação. 
 
Buda, Cristo, Samael e muitos outros ensinaram a renúncia, o caminho da renúncia. Mas não 
queremos renunciar a nada, queremos uma espiritualidade que nos seja cômoda, que atenda aos nossos 
anseios imediatos, queremos continuar com nossas fantasias. Sem perceber,enganamos a nós mesmos e, 
pior, gostamos. Afinal, perceber que nos auto-enganamos nos faz sofrer. Assim, preferimos não aceitar 
certos fatos, preferimos continuar a nos enganar, achando que estamos evoluindo, que somos 
espiritualistas, que somos espiritualizados. 
 
 Entre os universalistas, os espiritualistas independentes, observamos algumas características 
comuns: não conseguem escolher um caminho; duvidam muito, duvidam de tudo, estão sempre em cima do 
muro; não demonstram ter força ou capacidade para trilhar, para se entregar a um caminho definitivo; são 
orgulhosos demais para aderirem a algo que não foi criado por eles mesmos; rotulam-se para se sentir mais 
seguros, para poder se justificar; costumam se auto-enganar e continuam com suas vidas comuns, sem 
transformação alguma. 
 
Nada mudará enquanto ficarmos buscando e buscando, sem começarmos a trilhar um caminho, um 
único caminho, pois claro está que não será possível trilhar vários caminhos ao mesmo tempo. 
 
Nada mudará enquanto não fizermos nossa escolha, enquanto não optarmos por um caminho e, a 
partir desta escolha, passarmos a viver o caminho. 
 
Nada mudará enquanto não morrermos em nós mesmos de instante em instante. 
 
 
 
A Grande Caridade 
 
 
A grande caridade está em curar os doentes da alma, assim como fez Jesus. Está em levar a 
verdade e fazer os cegos, aqueles que não vêem a verdade, enxergarem, do modo como fez Jesus. Fazer 
com que aqueles que não conhecem o caminho o conheçam e comecem a caminhar, aqueles que estão 
parados ou perdidos no caminho voltem a caminhar, de mesma maneira que fez Jesus curando mancos, 
coxos e paralíticos. 
 
Está em levar a verdade sem bandeiras, sem orgulho e sim com humildade. Querer ver os demais 
evoluindo é caridade, é amor. Querer convencê-los de nossas crenças é orgulho, arrogância, e não há 
verdade nisso. 
 
O ego se reveste de ovelha, nos engana e, nos enganando tenta enganar os demais. Devemos 
estar atentos para os verdadeiros motivos que nos levam à caridade. 
 
Será que estamos querendo ajudar de forma altruísta, de forma verdadeiramente desinteressada? 
 
Será que estamos querendo nos mostrar bonzinhos para convencer os outros de nossas crenças ou 
simplesmente para aparecer? 
 
Curar os doentes da alma não é tentar converter os demais, não é convencer os outros de nossas 
crenças. Curar os doentes da alma é querer vê-los livres. 
 
A verdade não está em nenhuma religião, ninguém pode possuí-la. A salvação e a libertação não 
estão em nenhuma religião, não estão em lugar nenhum senão dentro de nós mesmos. 
 
Querer mostrar que temos qualidades e virtudes é coisa do ego, não é caridade, é orgulho e 
arrogância. Não podemos fazer dos outros objetos para satisfação e auto-afirmação de nossos egos, de 
nossa auto-imagem de bonzinhos, santos, iluminados, evangelizadores e caridosos. 
 
Precisamos criar alguma luz dentro de nós para podermos levar aos outros, mas não precisamos 
esperar que nos tornemos Mestres Perfeitos para levarmos ensinamentos aos outros; em contrapartida 
também não podemos levar aos outros aquilo que não compreendemos, que não praticamos, e que não 
vivemos. 
 
Diz H. P. Blavatsky, em “A Voz do Silêncio”: 
 
“Sê, ó Lanu, como Eles. Dá luz e conforto ao exausto peregrino, e procura aquele que sabe ainda 
menos do que tu; que na sua desolação miserável está faminto do pão da sabedoria e do pão que alimenta 
a sombra, sem Mestre, esperança ou consolação, e fá-lo ouvir a Lei.” 
 
Diz Sri Krishna no “Bhagavad-Gita”: 
 
“Aquele que propagar esta filosofia secreta entre Meus devotos, realizará o mais elevado serviço 
devocional para Mim, e certamente virá ter Comigo, e não haverá ninguém sobre a Terra que seja mais 
querido por Mim.” 
 
Entretanto, sem altruísmo, de nada adiantarão tais esforços de nossa parte. 
 
Sobre isso diz Sri Krishna no “Bhagavad-Gita”: 
 
“Faça as suas ações no melhor de suas habilidades, Ó Arjuna, com sua mente ligada ao Senhor, 
abandonando a preocupação e o apego egoísta para os resultados, permanecendo calmo tanto no sucesso 
como no fracasso. O serviço sem egoísmo traz paz e tranqüilidade da mente, que conduz à união com 
Deus.” 
 
“O trabalho feito com motivo egoísta é inferior e está longe do serviço desapegado. Portanto, seja 
um trabalhador desapegado, Ó Arjuna. Aqueles que trabalham apenas para o gozo dos frutos dos seus 
trabalhos são infelizes.” 
 
“Um Karmayogi, ou uma pessoa desapegada, torna-se livre tanto da virtude como do vício em sua 
vida. Portanto, esforce-se por serviço desapegado. Trabalhar o melhor das suas habilidades, sem apegar-
se egoisticamente pelos frutos do trabalho, chama-se Karmayoga ou Seva.” 
 
Diz Alcione (J. Krishnamurti) em “Aos Pés do Mestre”: 
 
“Sê verdadeiro na ação; nunca pretendas parecer senão aquilo que és, pois todo fingimento 
constitui um obstáculo à pura luz da verdade, que deve brilhar através de ti como a luz do Sol através de um 
vidro transparente.” 
 
“Precisas discernir entre o egoísmo e o altruísmo, pois o egoísmo reveste muitas formas e, quando 
pensas tê-lo morto, finalmente numa delas, surge noutra tão forte como sempre. Porém, gradualmente, o 
pensamento de auxiliar aos outros te encherá de tal modo, que não haverá lugar nem tempo para pensares 
em ti mesmo.” 
 
“De outra maneira, ainda deves utilizar o discernimento: aprende a distinguir a Deus que está em 
todos e em tudo, por pior que seja a sua aparência exterior. Podes ajudar teu irmão pelo que tens de 
comum com ele – a Vida Divina. Aprende a despertar nele essa Vida, aprende a invocá-la nele; assim o 
salvarás do mal.” 
 
“Procura verificar o que vale a pena ser feito e lembra-te que as coisas não devem ser julgadas pela 
sua grandeza aparente. Uma pequena coisa de utilidade imediata à obra do Mestre merece muito mais ser 
feita, do que uma grande coisa que o mundo considera boa. Precisas distinguir não somente o útil do inútil, 
mas ainda o mais útil do menos útil. Alimentar os pobres é uma boa obra, nobre e útil; porém, alimentar-lhes 
as almas é ainda mais nobre e mais útil.” 
 
Uma frase atribuída ao Mestre Kuthumi diz: 
 
“Se vossos esforços ensinarem ao mundo uma letra que seja do alfabeto da Verdade - essa 
Verdade que outrora penetrou no mundo inteiro - não vos faltará a recompensa.” 
 
 Uma carta dirigida a Srta. Mary Gebhard e atribuída ao Mestre Morya diz: 
 
 “Somos conduzidos, Senhora, ao vórtice do destino preparado previamente por nós para nós 
próprios, como um navio no Maelstrom. Agora você começa a compreender isso. O que irá fazer? Não pode 
resistir ao destino. Você está pronta para fazer a sua parte no grande trabalho de filantropia? Você 
ofereceu-se para Cruz Vermelha; mas, Filha, existem doenças e feridas da alma que não podem ser 
curadas pela arte de nenhum cirurgião. Irá auxiliar-nos a ensinar a humanidade que os doentes da alma 
devem curar-se a si próprios? Sua ação será a resposta.” 
 
Então, concluímos que a mesma mensagem é passada de diferentes formas. 
 
Então vejamos que, se a grande caridade é levar a verdade, curar os doentes da alma, talvez o 
curar a si próprio, que é a condição necessária para curar os outros, seja uma caridade ainda maior. A 
busca interior é um ato de caridade, é um ato de puro amor. 
Cada um Tem o Instrutor que Merece 
 
 
 Existe um conto de um homem que era muito simples e puro e um dia ouviu falar de um mestre e foi 
atrás para encontrar e receber suas instruções. Apesar de ser um farsante, tal mestre tinha alguns 
discípulos, e ao encontrar com o mestre o homem pediu instruções. Uma das instruções que o homem 
recebeu era utilizar o nome do mestre sempre que estivesse em perigo ou sempre que precisasse; com a 
pronúncia de seu nome poderia fazer coisas como andar sobre as águas e flutuar, pois segundo o mestre 
seu nome era um mantra poderoso. O homem ficou encantado e saiu pronunciando o nome do mestre. 
Pouco depois os discípulos viram o homem perto de um lago, e o homemcomeçou a andar sobre as águas 
enquanto pronunciava o nome do dito mestre. Os discípulos correram para chamar o mestre e insistiram 
que o mestre fizesse o mesmo. Depois de relutar, o tal mestre tentou, quase se afogou, e acabou tendo que 
ser socorrido pelos discípulos. Para não perder a fama e não ser desmoralizado pelo homem, o mestre 
disse que o homem deveria saltar de um penhasco. O homem saltou, e pronunciando o mantra desceu 
suavemente. O mestre tentou o mesmo e se arrebentou no chão. 
 
 Para quem duvida, desconfia, suspeita nenhum instrutor ou mestre será suficiente. 
 
 O mesmo instrutor é mestre para uns e ignorante para outros, pois cada um o percebe de uma 
forma segundo seus próprios conteúdos internos e suas próprias projeções. É aí que está a questão do 
merecimento: merecemos segundo o que cultivamos dentro de nós mesmos. 
 
 O único deus em que acreditamos é aquele que criamos em nossa mente. E só acreditamos nele 
por ser nossa criação. Nós nos cremos os próprios mestres, pois se assim não fosse não os criticaríamos, 
se assim o fazemos é porque de alguma forma nos cremos melhores do que eles. Precisamos analisar 
porque queremos alguém para nos guiar ou alguém para seguirmos se somos melhores dos que eles. Isso 
não faz sentido, parece loucura. 
 
 Alguns se acham vítimas, injustiçados do destino. Acreditam que se tivessem vivido perto do Mestre 
Samael seria muito mais fácil, que se tivessem recebido orientações diretas dos Mestres Morya ou Koot 
Hoomi estariam muito avançados no caminho, que se tivessem vivido com o Cristo Jesus teriam subido aos 
céus junto com Ele. Tudo isso é fantasia. Tudo isso é desculpa para continuarmos a ser como somos. 
Justificativas para nossas fraquezas e incapacidades. 
 
Escolas esotéricas sempre existiram. A história está repleta de grandes nomes de Mestres, Budas, 
Santos e Iluminados. Se não seguimos o ensinamento de nenhum deles mesmo após terem deixado a 
terra, e temos “certeza” de quem eram esses mestres, jamais seguiríamos se estivessem vivos e surgissem 
bem na nossa frente. A dúvida sempre aparece, questionamos se é mesmo um mestre ou não, 
questionamos o que foi deixado, os escritos e os ensinamentos. Aos nossos olhos seriam apenas homens 
como quaisquer outros. Nunca acreditamos no filho do carpinteiro, no sapateiro e sempre dizemos que 
nada de bom pode vir de Nazaré. 
 
A verdade é que não estamos prontos, não somos dignos e não temos o merecimento necessário 
para isso. E estes fatos são fáceis de observar uma vez que não conseguimos seguir as orientações dos 
mestres e dos instrutores que temos. O que queremos é uma mãe que nos mime, que passe a mão em 
nossas cabeças quando erramos, alguém para suprir nossas carências. 
 
 Existe outro conto em que um homem chega para um Mestre e pede que este lhe ensine e lhe 
permita ser um discípulo. O Mestre não o aceita e o manda embora. Então, depois que o homem se foi, um 
discípulo questionou o Mestre por não tê-lo aceitado, achou que o Mestre agiu mal, que deveria ter sido 
mais compassivo e brando. Nisso um passarinho entrou pela janela, e o Mestre disse para o discípulo 
observar. O passarinho se bateu pela sala procurando uma saída até que pousou em uma janela, e então o 
Mestre bateu palmas para assustar o passarinho, que voou janela afora. 
 
 Se o Mestre tivesse ficado com o homem que já estava pronto ou quase pronto teria atrapalhado 
seu processo. Um Mestre quer ver os outros crescerem, evoluírem espiritualmente, não interessa se com 
ele ou sem ele. Um Mestre não quer reunir muitos discípulos para o adorarem ou coisa do gênero. 
 
Dominados por nossos próprios conceitos, nossas idéias fixas, acusamos os outros de nos darem 
pedras quando pedimos pães. Não reconhecemos pães como pães e não somos gratos pelos 
ensinamentos recebidos. 
 
 
No início da Sociedade Teosófica, os Mestres Morya e Koot Hoomi se correspondiam com algumas 
pessoas através de bilhetes, cartas e telegramas. Dois dos principais correspondentes dos Mestres eram A. 
P. Sinnett e A. O. Hume. Estes dois também mantinham contato direto com H. P. Blavatsky, com o coronel 
Olcott e com alguns chelas dos Mestres. O que mais se percebe nas cartas é que os dois duvidavam do 
que lhes era ensinado, diziam que os ensinamentos eram picados, que não eram completos. Duvidavam 
dos fenômenos que os Mestres realizavam. Criticavam as coisas que os Mestres escreviam, diziam que 
eram vulgares, grosseiros, orgulhos e soberbos. Criticavam os método, as provas, diziam ser cruéis e 
imorais. Chegaram até mesmo a duvidar da existência dos Mestres. Sinnett chegou a ter uma experiência 
em astral com o Mestre, o que de nada adiantou. 
 
Abaixo segue um trecho do texto “Levante, Desperte, e Não Pare Até Alcançar A Meta!”: 
 
 “Depois disso Naren [nome de Vivekananda] passou a visitar Ramakrishna com freqüência. Viu-se 
gradualmente envolvido no círculo de jovens discípulos — quase todos de sua idade — que Ramakrishna 
treinava para a vida monástica. Naren não se rendeu facilmente à influência dele. Continuava a perguntar-
se se o hipnotismo podia explicar o poder de Ramakrishna. A princípio, recusou-se a participar do culto a 
Kali, considerando-o mera superstição. Ramakrishna parecia apreciar esses escrúpulos. Costumava 
provocar: — Teste-me como os cambistas testam suas moedas. Você não deve acreditar em mim antes de 
testar-me por completo. — Por sua vez, ele testava Naren, não tomando conhecimento de sua presença 
durante semanas, para verificar se isso faria com que o jovem deixasse de vir a Dakshineswar. Naren 
voltava assim mesmo. Ramakrishna louvou-lhe a força interior: — Qualquer outro — disse — teria me 
deixado há muito tempo.” 
 
Temos medo de estar entrando em um caminho ou escola errados. Este medo coloca em dúvida 
todos os ensinamentos recebidos, e por mais que recebamos comprovações elas sempre serão 
questionadas e talvez até reforcem as dúvidas. 
 
Seja qual for a origem ou o motivo do medo, as pessoas acabam por tentar ficar sempre perto da 
porta de saída, ou seja, elas “entram no caminho”, as portas se abrem e elas não avançam, pois estão 
sempre petrificadas, sempre olhando para trás, querem sempre estar perto da porta de saída, ter uma 
chance de fuga, de escape. Isso lhes dá segurança, mas esta mesma segurança os impede de avançar e 
pode acabar por aumentar a dúvida, enfraquecer e desmotivar. É preciso perceber que isso nos torna 
mornos e os mornos serão vomitados, como já é sabido. É preciso perceber ainda que isso nos torna 
materialistas, ou seja, indica que estamos presos, apegados ao mundo material e seus conceitos, formas, 
sensações, aos nossos antigos padrões, as idéias de sociedade, aos ensinamentos que recebemos na 
escola. 
 
É preciso lançar-se ao abismo e entregar-se sem condições, sem falsas esperanças, sem desejo de 
retorno, escapatórias ou rotas de fuga. 
 
Se dissermos que decidimos e no futuro acontecer algo diferente, nós voltamos atrás ou mudamos 
nossa decisão. Então, estamos decididos em fazer algo diferente de nossa suposta decisão inicial, ou seja, 
em verdade não decidimos; estamos nos enganando, criando desculpas para desistir, para abandonar uma 
decisão e não para continuarmos firmes com ela, estamos criando e fortalecendo pontos de dúvida, que são 
formas de defesa. 
 
Os motivos que arrumamos para acreditar, ter fé e se entregar à alguma coisa, são na verdade 
motivos para nos mantermos sem acreditar, sem ter fé e sem nos entregarmos. 
 
Toda condição que criamos para prosseguir com uma decisão é na verdade uma desculpa para 
desistirmos. 
 
 Existe uma carta do Mestre Koot Hoomi para uma aspirante a chela que queria presenciar 
fenômenos e coisas mais para poder publicar algum artigo a fim de atrair pessoas para Sociedade 
Teosófica. Tal aspirante já havia estado com o Mestre em corpo físico. Nesta carta o Mestre deixa claro que 
ele queria os fenômenos para ele mesmo e não para os demais e também diz: “Se um oriental, 
especialmente um hindu, tivessetido até mesmo a metade de um vislumbre, uma só vez, do que você já 
teve, iria considerar-se abençoado pelo resto da vida.”. 
 
 Assim vemos como somos estúpidos e ingratos. Muitos já tiveram sonhos, experiências no astral, 
compreensões, já receberam ensinamentos, já viram e ouviram coisas. Porém, ainda duvidam, ainda 
vacilam, continuam querendo uma certeza. Existe uma dúvida positiva que é o questionamento a fim de 
aprender. Existe uma dúvida negativa que é a desconfiança. 
 
 Sobre isso o bendito Mestre Koot Hoomi diz num carta: 
 
 “Tome cuidado, Mohini Mohun Chatterjee: a dúvida é um câncer perigoso. Começa-se duvidando de 
um pavão e termina-se duvidando de Koot Hoomi.” 
 
 E o bendito Mestre Morya diz em uma de suas cartas: 
 
 “Por favor, compreenda o fato de que, enquanto os homens duvidarem, haverá curiosidade e 
pesquisa, e que a pesquisa estimula a reflexão, que gera o esforço; mas, uma vez que nosso segredo tenha 
sido completamente vulgarizado, não só a sociedade cética não terá grandes benefícios, como também, a 
nossa privacidade estaria constantemente em perigo e teria que ser resguardada a um custo irracional de 
energia. Tenha paciência amigo meu. O Sr. Hume levou anos para matar um número suficiente de pássaros 
para completar o seu livro; e ele não mandava que eles abandonassem os seus retiros cheios de folhas, 
mas tinha que esperar que chegassem até ele para que os empalhasse e rotulasse; assim também vocês 
devem ter paciência conosco. Ah, Sahibs, Sahibs! Se vocês pudessem pelo menos catalogar-nos, rotular-
nos e colocar-nos no Museu Britânico, então de fato o seu mundo poderia ter a verdade absoluta, a verdade 
dissecada.“. 
 
Todos nós vivemos em busca de algo mais, que venha a nos preencher; sempre achamos que 
existe algo faltando, algo a ser adquirido. Então caminhamos pela vida atrás de casas, carros, títulos, 
salários, divertimentos e conhecimento. Em algum momento iniciamos uma busca religiosa, mas iniciamos 
esta busca com a mesma mentalidade, ou seja, acreditando que ao somarmos uma religião a nossa vida 
vamos conseguir o que falta. 
 
Deste modo, muitos dos que somam uma religião em suas vidas criam uma fantasia de que está 
tudo resolvido, acreditam que são felizes e plenos. 
 
Outros alteram seus conceitos materialistas por conceitos religiosos a fim de continuar a viver a vida 
da mesma forma, mascarando sua realidade, de maneira que passam a orar por emprego, cargo, casa, 
carro e dizer que Deus enviou estas coisas. Não que isso não seja possível, não é esta a questão, e é 
importante observar que isso acontece em todas as religiões. 
 
Na vida verdadeiramente religiosa não existe nada para ser obtido, tudo para ser abandonado e 
renunciado, principalmente falsos conceitos e falsos valores. 
 
Disse em uma carta o Mestre Koot Hoomi: 
 
“Aqueles que realmente desejam aprender devem abandonar tudo e vir até nós, em vez de pedir ou 
esperar que nós avancemos até eles.” 
 
E em resposta a algumas perguntas de C. W. Leadbeater o Mestre Koot’ Hoomi escreveu: 
 
“Não é necessário que alguém esteja na Índia durante os sete anos de provação. Um chela pode 
passá-lo em qualquer lugar.” 
 
“A aceitação de qualquer homem como chela não depende de minha vontade pessoal. Isso pode 
ser apenas o resultado do próprio mérito e esforço de alguém nesta direção. Force qualquer um dos 
‘Mestres’ que você possa ter escolhido; faça bons trabalhos em seu nome e pelo amor a humanidade; seja 
puro e resoluto no caminho da retidão (como descrito em nossas regras); seja honesto e altruísta; esqueça 
você mesmo e lembre-se apenas do bem de outras pessoas – e você terá forçado aquele ‘Mestre’ a aceitá-
lo.” 
 
Em resumo, o que o Mestre Koot’ Hoomi diz é para seguir na ação reta, na prática de virtudes, para 
morrer para si mesmo, para fazer sacrifícios pela humanidade. Mais uma vez a mensagem de todos os 
Mestres. Mais uma vez a mensagem de Samael Aun Weor. 
 
 
 
Das Percepções da Projeção 
 
 
A percepção da projeção se dá através de aspectos e oitavas, ou seja, se dá aos poucos – a menos 
que se consiga atingir uma percepção muito profunda, de forma instantânea, o que é raro, por envolver 
muitos fatores que não vêm ao caso agora. 
 
Normalmente, o que vem primeiro é a informação, a explicação e o entendimento do que é 
projeção. Neste momento, podemos analisar certos casos a nível intelectual e rotular: isto é projeção, isto 
não é projeção; tenho isto ou aquilo dentro de mim. Porém, esta análise não significa perceber que temos 
dentro de nós este ou aquele aspecto, este ou aquele defeito. 
 
Aqui, neste estágio, podemos começar a diminuir as críticas, pelo menos aquelas expressas em 
palavras, pois já temos a informação do que é projeção, e sabemos que, ao expressarmos nossas críticas 
em palavras, estaremos nos confessando, nos expondo aos olhos do mundo. 
 
 Acontece com muita freqüência de, por exemplo, nos irritarmos com uma situação ou pessoa e 
descontarmos em outra. Isto é o que chamamos de transferência. Também neste estágio podemos começar 
a diminuir a transferência de emoções e sentimentos. 
 
Nossos pensamentos a respeito dos outros não podem ser falsos ou mentirosos. Não podemos 
imputar aos demais fatos que desconhecemos. 
 
Não podemos achar que somos sempre o centro do pensamento alheio. Os pensamentos dos 
outros, em sua grande maioria, giram em torno deles mesmos, assim como os nossos em torno de nós. 
Cada um tem as suas próprias preocupações e, na maior parte das vezes, não somos a razão das 
preocupações alheias. 
 
Ao julgarmos que um certo alguém nos quer ofender ou ferir, que esse alguém nos odeia, criamos 
uma fenda pela qual os maus pensamentos penetram e vão se alojar em nossas mentes. E, a partir daí, 
ficamos propensos a comportamentos equivocados. Portanto, vigiar a mente é fundamental. 
 
Geralmente, o que costuma ocorrer é que as pessoas acabam transferindo para os outros suas 
frustrações, raivas, mágoas, ressentimentos, seus conflitos pessoais. Não podemos nos esquecer de que 
todos vivem atormentados pelos próprios demônios internos, por seus egos, e a eles reagem. Se nos 
damos conta disto, passamos a agir de maneira consciente, agimos com compaixão. Do contrário, 
continuaremos a agir mal, inconscientemente, inclusive contra nós mesmos. 
 
Não há motivo para nos irritarmos com alguém que nos atormenta. É o mesmo que sentir raiva de 
um louco pelo fato de ele ser louco. É o mesmo que ficar com raiva do cego que nos deu um esbarrão 
porque não pôde nos ver em seu caminho. Há, sim, todos os motivos para termos compaixão, tolerância, 
paciência. 
 
É muito importante perceber que os argumentos racionais nos levam a muitos auto-enganos. 
Assim, o que precisamos é chegar a percepções reais e cada vez mais profundas. 
 
Algum tempo depois de compreendermos essa dinâmica, começamos a perceber a projeção de 
emoções e sentimentos, dos diversos comportamentos que costumamos criticar nos demais. Contudo, 
como ainda não conhecemos a fundo os mecanismos que permeiam as emoções e os sentimentos, as 
fantasias e as fascinações, os conceitos, os preconceitos e os padrões, estas percepções ainda se dão a 
nível superficial. 
 
A etapa seguinte é percebermos a projeção dos conflitos internos. Evidentemente, isso acontece 
depois de compreendermos o que significam os conflitos internos, bem como seus mecanismos e 
manifestações. Tais conflitos podem ser percebidos como desejos antagônicos, incompatíveis – dilemas 
muito comuns em nossa mente dualista. Um exemplo prático desta situação é o desejo de comer uma 
feijoada em contraposição ao desejo de perder peso. Seja qual for a nossa opção, acabaremos por nos 
sentir culpados. Tudo isso tem a ver com a falta de compreensão dos desejos, com a falta de aceitação, 
com a falta de contentamento. Percebemos aqui a necessidade de desenvolvermos a vontade, a decisão, a 
firmeza, a serenidade, a renúncia. 
 
A seguir, começamos a perceber a projeção dospensamentos. Nesta fase, começamos a nos 
perceber como algo à parte do pensamento. Começamos a perceber que reagimos às nossas próprias 
idéias, conceitos e preconceitos, padrões; que tememos nossas próprias reações . 
 
Com isso, percebemos também que precisamos nos abster de julgar o próximo, pois nossas 
impressões sobre as pessoas não passam de tentações e tormentos criados por nossos próprios demônios 
internos, que, uma vez instalados em nossa mente, nos faz invejar, cobiçar, despertando-nos a raiva. 
Precisamos abandonar esses julgamentos, esses pensamentos. Eles envenenam nossas mentes, levando-
nos a reações indesejáveis, equivocadas. 
 
Agora já podemos começar a perceber que projetamos para pessoas, objetos e situações externas 
a responsabilidade por nossos estados internos, por nossos humores, por nossas emoções, sentimentos e 
reações equivocadas. Enquanto responsabilizarmos terceiros pelo que nos acontece, nenhuma mudança 
será possível em nossas vidas. 
 
Se não conseguimos perceber as projeções instantaneamente, é porque ainda nos vemos como 
vítimas. Esta é uma visão que precisa ser extirpada de dentro de nós, e à qual devemos renunciar. 
 
O pensamento voltado para “o meu”, “a minha”, “eu”, “mim” aprisiona, como também acontece com 
o pensamento voltado para “o dele”, “o seu”, “aquele”. São formas que encontramos para nos isolarmos, 
para nos colocarmos no papel de vítimas. Isso acontece de maneira sutil e está muito enraizado dentro nós. 
 
É a postura interna de vítima que nos mantém como vítimas. Enquanto percebermos a nós mesmos 
como vítimas, seremos vítimas. 
 
Sentimo-nos como vítimas, pensamos como vítimas, colocamo-nos e posicionamo-nos como 
vítimas, seja dos outros, das situações, dos pensamentos, das emoções - tanto nossas quanto do outro -, 
do destino, da divindade. Esta postura demonstra também uma percepção equivocada do sofrimento. 
 
Ao nos vermos como vítimas, a reação primeira é sentirmos raiva dos outros, pois, de acordo com 
as nossas ilusões, são eles os únicos culpados pelo que há de errado conosco. 
 
Por sermos ingratos, por nos vermos como rejeitados, esquecidos, excluídos e vítimas, refletimos 
isso no externo agindo com raiva, ódio, agressividade, grosseria e de forma vingativa. Isso ocorre porque 
não percebermos o quanto a Divindade é misericordiosa, terna, compassiva, pacienciosa, tolerante, 
generosa e bondosa conosco. Se percebermos estas coisas seremos profundamente gratos, e se esta for 
nossa realidade interior, iremos refleti-la no exterior. 
 
O grande problema é esquecer, deixar de sentir. Infelizmente não termos força para sustentar 
gratidão, felicidade, paz, devoção, serenidade e tranqüilidade. Ainda não percebemos a importância destas 
coisas ou o quanto elas nos fazem bem. Assim, estas coisas ainda não se tornaram nossos objetivos e 
prioridades. Estamos tão preocupados em evitar os nossos defeitos, e evitar as manifestações de nossos 
egos que não vemos as nossas virtudes, não as vivemos. 
 
Precisamos parar de olhar para o mundo externo e agir a partir do que vemos no mundo externo. É 
preciso olhar para o mundo interno e agir a partir do mundo interno, do centro. Para lograrmos êxito nesta 
proposta, devemos manter o foco no mundo interno. Mestre Samael nos diz que “para o sábio, o mundo 
interno é mais concreto que o mundo externo.” 
 
Cabe ressaltar, mais uma vez, que tais percepções acontecem aos poucos. Acontecem através de 
aspectos e oitavas cada vez mais profundas ou elevadas, cada vez mais sutis. Tudo vai acontecendo na 
medida em que vamos criando e desenvolvendo um centro permanente de consciência, a partir do qual 
passamos a agir. 
 
 
 
Não Há Nada a Fazer 
 
 
 
Elas buscam muitos refúgios, 
nas montanhas e florestas, nos parques e santuários: 
pessoas ameaçadas pelo perigo. 
Esse não é o refúgio seguro, 
não é o refúgio supremo, esse não é o refúgio, 
ao qual se você for, ganhará a libertação de todo sofrimento. 
 
 ( Dhammapada 188) 
 
 
As esperanças, as expectativas, nos impedem de viver o momento presente. Com nossas 
perspectivas voltadas para algo melhor que possa acontecer no futuro, acabamos por nos esquecer do 
presente. E, assim, seguimos sempre a acreditar que existe um futuro mais promissor, que há algo melhor a 
ser obtido, conquistado. Isso acaba por nos remeter à famosa mensagem afixada nos bares: “fiado só 
amanhã”. E nunca existe satisfação, contentamento, gratidão. Se mudássemos nosso modo de pensar e 
nos tornássemos atentos para o que acontece no momento presente, talvez pudéssemos encontrar algo 
que nos satisfizesse. Mas, como estamos buscando algo no futuro, algo que ainda não existe, algo mais 
perfeito, mais maravilhoso, mais prazeroso, não encontramos nada. E não encontramos nada por uma 
única razão: por estarmos buscando o que não está presente. 
 
Quando entramos em uma escola e começamos a fazer práticas de maneira séria, um dia 
percebemos que não somos vítimas das coisas externas, sejam elas boas ou más, percebemos que os 
nossos estados internos, sejam estes estados de ira ou de serenidade, de tristeza ou de alegria, são criados 
por nós mesmos e podem ser mantidos por nós mesmos. 
 
De modo geral, as pessoas possuem uma grande capacidade de manter seus estados internos 
equivocados, ou seja, conseguem permanecer tristes, ressentidas, ofendidas, por longo tempo. Teimam em 
contaminar seus pensamentos com preocupações, medos, mágoas e irritações, seja através da televisão, 
de conversas inapropriadas ou da tagarelice de suas próprias mentes. 
 
Assim como mantemos estados internos incorretos, também é possível manter os estados corretos 
de paz, felicidade, satisfação, contentamento. Manter esse tipo de estado, no entanto, não significa se 
enganar, não significa repetir frases positivas. Papagaiar frases é mera tolice. A criação e manutenção 
desses estados corretos resultam de uma visão correta sobre as situações. 
 
Por conhecimento informativo, costumamos dizer que tudo isso não passa de projeções da mente, 
fantasias, ilusões; que as respostas estão dentro de nós mesmos; que, quando fugimos de um lugar para 
outro por algum motivo, estamos apenas escondendo, jogando para debaixo do tapete, aquilo que nos 
aflige; e que continuaremos a carregar dentro de nós todas as nossas aflições. Mas a percepção, a 
compreensão do que se passa conosco, o insight revelador, é algo muito diferente, é algo verdadeiramente 
transformador. 
 
Após percebermos, por uma experiência direta, que nós mesmos criamos e podemos manter 
nossos estados internos, verificamos a perfeição dos ensinamentos. Esta experiência motiva-nos, fortalece-
nos, enche-nos de fé e confiança. Não há dúvida em relação àquilo que é experimentado diretamente, ou, 
pelo menos, não deveria haver. 
 
Só então percebemos que não há nada a temer ou com que se preocupar, não há nenhum outro 
lugar para ir e nada a fazer, tudo acontece em nosso íntimo, tudo. 
 
Quando compreendemos as dificuldades da vida como lições a serem aprendidas, passamos a ver 
que o sofrimento, na verdade, é como um amigo que nos estimula a mudar, a ir além. 
 
Percebemos que não há nada que possa preencher os nossos desejos de forma completa e 
absoluta. Dinheiro, posses, pessoas, status ou fama, podem até trazer alguma satisfação, mas não são 
capazes de preencher os nossos desejos de forma completa e absoluta. 
 
Se o desejo ou a repulsa se manifesta em nós, se a insatisfação, a mágoa, a raiva e a inveja se 
instalam em nosso ser, não há lugar nenhum para ir senão para o íntimo. 
 
 E logo perceberemos que não há nada a temer, porque tudo se desfaz continuamente. É apenas o 
reflexo da idéia de permanência que nos leva temer as situações, como se elas fossem durar para sempre. 
 
Quando compreendemos que não há mais nada a fazer e nenhum outro lugar a ir, constatamos 
também que não adianta procurar outras escolas, outras religiões, outras pessoas e outros lugares a seremconhecidos, visitados. Constatamos que não há nada a ser comprado, possuído, sejam casas, carros, 
empregos, cargos, títulos, conhecimentos. Não há nenhum outro lugar para ir e nada o que fazer, tudo 
acontece no nosso íntimo. 
 
Se somos assolados pelo tédio, pelas pressões internas, se surgem aqueles impulsos ocasionais 
de sair para dar uma volta, de falar com alguém, de comprar, de comer; se somos tomados por impulsos 
que nos levam buscar uma fuga, uma forma de alívio, seja com diversões, jogos, televisão, sexo, devemos 
ser sensatos e não ceder. É preciso deixar que a água ferva. Esta será uma oportunidade de auto-
conhecimento, pois não há nenhum lugar a ir e nada a fazer, tudo ocorre dentro de nós mesmos. 
 
Estas percepções nos libertam e nos conduzem à renúncia que leva pra longe a inveja, a vaidade, o 
orgulho, o medo, e traz a paz, a felicidade, a serenidade, a satisfação, o contentamento. 
 
Também é preciso compreender que não há nenhum passado a ser evitado e nem revivido, não há 
nenhum evento futuro a ser buscado ou evitado, não existem condições a serem preenchidas. Esta 
compreensão nos levará a centrar toda a atenção no momento presente, que é o único momento em que as 
percepções do real podem acontecer de fato e os insights podem surgir. Se nos mantivermos plenamente 
atentos para o que nos acontece, poderemos perceber que nada falta, que não há nada a ser buscado. 
Então todo os nossos esforços serão direcionados para nos mantermos no momento presente, pois é nele, 
e somente nele, que residem as reais percepções, as possibilidades de libertação, a satisfação, o 
contentamento. Não existe nada no futuro a não ser nossas fantasias, nossas projeções mentais. A 
satisfação, o contentamento, a felicidade, estão no agora, na simplicidade do momento presente, este 
momento do qual vivemos fugindo. 
 
Se não há nada a ser consumido, ninguém a ser conhecido, empregos ou cargos a serem 
conquistados, lugar algum para ir, então a satisfação se dá com o que se apresenta a cada instante, no 
agora. E assim a gratidão vai brotando em nossos corações. 
 
É preciso olhar as situações da vida com simplicidade, objetividade, sem fugas, sem esperanças, 
sem desejos reincidentes de algo melhor que poderá acontecer num futuro imaginário. Só assim poderemos 
estar no momento presente, este momento único onde a vida acontece e o insight é possível. Nenhum 
insight é possível no passado ou no futuro. O insight só acontece no presente. As percepções e as 
compreensões só são possíveis no presente, só se dão no presente. 
 
Somente com nossas atenções voltadas para o momento presente, com a mente tranqüila, sem 
esperanças, sem desejos, sem agitação, é que podemos perceber que nada nos falta, que nada está 
acontecendo, que não há lugar algum para irmos. E daí surge o contentamento e a satisfação, a felicidade. 
 
Ao percebermos a magia do momento presente, todo os nossos esforços são dirigidos para este 
espaço temporal real, e, com isso, evitamos fantasias, projeções, fugas, e esperanças vãs. 
 
Não há planos a serem feitos, seja para daqui a um ou dez minutos, seja para amanhã ou para 
daqui a um ou dez anos. O único lugar em que precisamos estar é o lugar onde realmente estamos, o lugar 
que nos permite circular por dentro de nós mesmos, o lugar onde nos redescobrimos a cada dia, onde nos 
deliciamos com a doutrina. 
 
 
Porém quando buscar refúgio no Buda, Dhamma, e Sangha, 
você verá com sabedoria as quatro nobres verdades - 
sofrimento, a causa do sofrimento, a cessação do sofrimento, 
e o nobre caminho óctuplo, o caminho para silenciar o sofrimento: 
esse é o refúgio seguro, esse é o refúgio supremo, esse é o refúgio, 
que se você buscar, ganhará a libertação de todo sofrimento. 
 
(Dhammapada 192) 
 
O Anel de Giges 
 
 
Esta é uma alegoria narrada por Platão no Livro II de “A República”. 
 
“Giges era um pastor que servia em casa do que era então soberano da Lídia. Devido a uma grande 
tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o 
rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí 
fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá dentro um 
cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na 
mão. Arrancou-lho e saiu. Ora, como os pastores se tivessem reunido, da maneira habitual, a fim de 
comunicarem ao rei, todos os meses, o que dizia respeito aos rebanhos, Giges foi lá também, com o seu 
anel. Estando ele, pois, sentado meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, 
em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os 
quais falavam dele como se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para 
fora o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observado estes fatos, experimentou, a ver se o 
anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o 
voltasse para fora, ficava visível. Assim senhor de si, logo fez com que fosse um dos delegados que iam 
junto ao rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, 
e assim se tomou o poder.” 
 
 
Esta aí um bom teste para nossas virtudes. O que faríamos nós se achássemos esse anel? A 
resposta a esta pergunta normalmente discorre do porquê de ainda não termos poderes, do porquê de 
ainda não estarmos preparados. 
 
No caso do texto, o primeiro fato é que Giges saqueia o túmulo. Depois; o poder corrompe, ou traz à 
tona nosso lado corrompido e podre. 
 
Na questão de saquear e roubar, quem pode dizer que nunca fez? Cometemos este delito quando 
pegamos um papel, um lápis ou uma caneta do trabalho sem pedir a ninguém, quando podemos fazer algo 
bem feito e fazemos de qualquer forma. 
 
Criticamos governo, patrões, etc, mas são eles apenas reflexos de nós mesmos, de tal maneira que 
é só uma questão de oportunidade e de proporção. Como contribuintes nós sonegamos, como governantes 
eles desviam a verba arrecadada. Como funcionários fazemos corpo mole, não valorizamos o emprego, e 
como patrões eles não valorizam o empregado. 
 
Platão diz no final do livro que devemos ser justos, com anel ou sem anel, o que parece claro. 
 
 
O Grande Teatro da Vida 
 
 
Em verdade, não somos nós mesmos em pelo menos 99% do tempo. Passamos quase todo o 
tempo interpretando personagens. 
 
No ambiente de trabalho, por exemplo, assim que o sujeito atravessa a porta, começa a representar 
seu papel de funcionário, de acordo com o cargo que ocupa. E, assim, gerentes representam papéis de 
gerentes ou de chefes; secretárias representam papéis de secretárias; assistentes representam papéis de 
assistentes, tal como ocorre com cada um dos diversos integrantes do quadro funcional de uma empresa: 
para cada cargo, um papel. E todos esses papéis possuem várias matizes. Um gerente pode ser bravo ou 
compreensivo, simpático ou arrogante, tolerante ou repressor. Uma secretária pode ser sóbria ou 
comunicativa, descontraída ou recatada, intelectualmente pedante ou humilde. 
 
Em casa, as pessoas também representam seus papéis. Marido, esposa, pai, mãe, filho, filha são 
os papéis mais comumente representados no cenário doméstico. Também neste caso existem várias 
matizes para os papéis desempenhados. 
 
Nas instituições de ensino, nos templos religiosos, no meio político, na polícia, na justiça, em 
qualquer segmento social, veremos indivíduos representando seus papéis: mestres, guias espirituais, 
defensores da nação, homens da justiça, defensores públicos, etc. 
 
Enfim, no cenário da vida, todos estamos representando os nossos papéis. Raramente 
conseguimos interpretar a nossa própria verdade. Não conseguimos ser o que realmente somos no 
desempenho de nossas atividades. Insistimos em assumir papéis,representar papéis, e acabamos por nos 
identificar com os personagens criados, que várias vezes são múltiplos. 
 
Quando nos identificamos com um papel, queremos defender o personagem, ou seja, o conceito 
que construímos de “pai ideal”, “chefe ideal”, “mãe ideal”, “filho ideal”, etc. Tornamo-nos apegados a esse 
papel, que consideramos perfeito e que deve ser adorado por todos. Afinal, nós o adoramos, nós nos auto- 
adoramos, adoramos a nossa criação. 
 
Fazemos o mesmo em relação aos papéis dos outros. Definimos o papel perfeito para um filho, uma 
esposa, um chefe, e, quando esses personagens fogem do script imaginado como ideal, ficamos irados, 
magoados. Reagimos, achando-nos no direito de nos vingar e sair do script também. 
 
A criação do ideal é uma maneira de fugir do presente, é o medo da realidade. Criamos estes 
papéis idealizados para podermos viver escondidos da realidade. Se pudéssemos ver como realmente 
somos, provavelmente, a vida não seria possível para a maioria de nós. 
 
Nesse teatro, a espontaneidade praticamente desaparece. Cercados e assombrados por nossos 
medos, nossas experiências, nosso passado, não sobra espaço para ela. Não agimos em função das 
situações apresentadas, mas de acordo com o passado. 
 
Baseados em nossas experiências, em nossas memórias de situações que foram distorcidas pela 
mente, pelos egos, definimos conceito e preconceitos. Definimos em nossa mente, por exemplo, o conceito 
de como deve ser o gerente ideal ou o gerente que gostaríamos de ser, ou da figura dos pais ideais ou dos 
pais que gostaríamos de ser. E então, passamos a representá-los, de acordo com o conceito criado. 
 
Os pais, os professores, a sociedade, a televisão, certamente ajudam, e muito, na formação de 
nossos personagens. Assim, criamos, ou criam para nós, roteiros a ser encenados: uma mãe tem que ser 
assim, um pai tem que ser assado; é preciso casar e ter filhos, é preciso cuidar dos filhos de tal maneira; 
patrão deve ser assim, empregado deve ser assado; é preciso trabalhar, estudar... São milhares de “tem 
que”, “deve ser” e “é preciso”. 
 
Devemos eliminar todos os "tem que" de nossa mente, acabar com o condicionamento imposto 
pelos pais, pelos professores, pela televisão, pela religião, pela sociedade. 
 
 Infelizmente, somos assim. Reprimimos o outro porque somos reprimidos, porque acreditamos em 
padrões pré-estabelecidos, em idéias erradas. E, ao vivermos essa vida de repressão, de representação, ao 
vivermos fazendo tipos, vamos deixando de lado nossa felicidade e nós mesmos. 
 
Em tudo isso, o pior papel é o papel de si mesmo. Essa representação é como a daquele ator que 
exagera em sua dramatização. 
 
Toda essa representação acontece naturalmente e de forma muito inconsciente. Aqueles que 
conseguem perceber este processo de forma consciente, geralmente são pessoas que não têm amor nem 
compaixão. Acabam por fazer esse teatro de forma intencional, conduzindo, controlando e manipulando 
terceiros. Só que essas pessoas podem se esquecer de que, assim como elas, outras pessoas também 
podem ter consciência de sua representação. 
 
No palco da vida, quando somos nós mesmos, causamos estranheza aos olhares alheios, pois 
todos esperam que representemos o nosso papel. E, no caso de insistirmos em expor a nossa verdade, 
corremos o risco de ser retirados da cena, do palco, da peça ou até mesmo do teatro, dependendo dos 
personagens com os quais estamos contracenando. 
 
No teatro da vida, agimos como crianças brincando de casinha. Choramos, esbravejamos, quando 
os outros não agem como achamos que deveriam agir em seus papéis. As crianças que brincam de 
casinha, pelo menos, combinam antes o que cada uma delas vai fazer. Já em nosso caso, montamos tudo 
em silêncio no imaginário e queremos que todos adivinhem. 
 
Os motores que dão a partida e movimentam esses papéis são, como sempre, o desejo, a auto-
imagem, a auto-importância, o amor próprio e o apego. 
 
 Precisamos entrar em contato com o nosso verdadeiro Ser e perceber que somos algo mais. Só 
assim poderemos parar de interpretar aquilo que não somos e ser nós mesmos o tempo todo. 
 
Uma escritora seguidora de Jung escreveu: 
 
Então você fica sabendo que nunca poderá ser outra coisa senão você mesmo, que nunca poderá 
perder-se e que nunca se alienará de si. Isto é assim porque você sabe que o eu é indestrutível, que é 
sempre um e o mesmo, que não pode ser dissolvido nem trocado por outra coisa. O eu lhe permite 
permanecer o mesmo em todas as condições de sua vida. 
 
 
O Mito da Caverna 
 
 O “Mito da Caverna” é uma alegoria contada por Platão no Livro VII de “A República”. Reproduzi-
lo aqui é a forma mais enriquecedora e bela de iniciarmos esta reflexão. 
 
Sócrates – Figura-te agora o estado da natureza humana, em relação à ciência e à ignorância, sob 
a forma alegórica que passo a fazer. Imagina os homens encerrados em morada subterrânea e cavernosa 
que dá entrada livre à luz em toda extensão. Aí, desde a infância, têm os homens o pescoço e as pernas 
presos de modo que permanecem imóveis e só vêem os objetos que lhes estão diante. Presos pelas 
cadeias, não podem voltar o rosto. Atrás deles, a certa distância e altura, um fogo cuja luz os alumia; entre o 
fogo e os cativos imagina um caminho escarpado, ao longo do qual um pequeno muro parecido com os 
tabiques que os pelotiqueiros põem entre si e os espectadores para ocultar-lhes as molas dos bonecos 
maravilhosos que lhes exibem. 
 
Glauco – Imagino tudo isso. 
 
Sócrates – Supõe ainda homens que passam ao longo deste muro, com figuras e objetos que se 
elevam acima dele, figuras de homens e animais de toda a espécie, talhados em pedra ou madeira. Entre 
os que carregam tais objetos, uns se entretêm em conversa, outros guardam em silêncio. 
 
Glauco – Similar quadro e não menos singulares cativos! 
 
Sócrates – Pois são nossa imagem perfeita. Mas, dize-me: assim colocados, poderão ver de si 
mesmos e de seus companheiros algo mais que as sombras projetadas, à claridade do fogo, na parede que 
lhes fica fronteira? 
 
Glauco – Não, uma vez que são forçados a ter imóveis a cabeça durante toda a vida. 
 
Sócrates – E dos objetos que lhes ficam por detrás, poderão ver outra coisa que não as sombras? 
 
Glauco – Não. 
 
Sócrates – Ora, supondo-se que pudessem conversar, não te parece que, ao falar das sombras que 
vêem, lhes dariam os nomes que elas representam? 
 
Glauco – Sem dúvida. 
 
Sócrates – E, se, no fundo da caverna, um eco lhes repetisse as palavras dos que passam, não 
julgariam certo que os sons fossem articulados pelas sombras dos objetos? 
 
Glauco – Claro que sim. 
 
Sócrates – Em suma, não creriam que houvesse nada de real e verdadeiro fora das figuras que 
desfilaram. 
 
Glauco – Necessariamente. 
 
Sócrates – Vejamos agora o que aconteceria, se se livrassem a um tempo das cadeias e do erro 
em que laboravam. Imaginemos um destes cativos desatado, obrigado a levantar-se de repente, a volver a 
cabeça, a andar, a olhar firmemente para a luz. Não poderia fazer tudo isso sem grande pena; a luz, sobre 
ser-lhe dolorosa, o deslumbraria, impedindo-lhe de discernir os objetos cuja sombra antes via. 
 
Que te parece agora que ele responderia a quem lhe dissesse que até então só havia visto 
fantasmas, porém que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, via com mais 
perfeição? Supõe agora que, apontando-lhe alguém as figuras que lhe desfilavam ante os olhos, o 
obrigasse a dizer o que eram. Não te parece que, na sua grande confusão, se persuadiria de que o que 
antes via era mais real e verdadeiro que os objetos ora contemplados? 
 
Glauco – Sem dúvida nenhuma. 
 
Sócrates – Obrigado a fitar o fogo, não desviaria os olhos doloridos para as sombras que poderia 
ver sem dor? Não as consideraria realmente mais visíveis que os objetos ora mostrados? 
 
Glauco – Certamente. 
 
Sócrates – Se o tirassem depois dali, fazendo-o subir pelocaminho áspero e escarpado, para só o 
liberar quando estivesse lá fora, à plena luz do sol, não é de crer que daria gritos lamentosos e brados de 
cólera? Chegando à luz do dia, olhos deslumbrados pelo esplendor ambiente, ser-lhe ia possível discernir 
os objetos que o comum dos homens tem por serem reais? 
 
Glauco – A princípio nada veria. 
 
Sócrates – Precisaria de algum tempo para se afazer à claridade da região superior. Primeiramente, 
só discerniria bem as sombras, depois, as imagens dos homens e outros seres refletidos nas águas; 
finalmente erguendo os olhos para a lua e as estrelas, contemplaria mais facilmente os astros da noite que 
o pleno resplendor do dia. 
 
Glauco – Não há dúvida. 
 
Sócrates – Mas, ao cabo de tudo, estaria, decerto, em estado de ver o próprio sol, primeiro refletido 
na água e nos outros objetos, depois visto em si mesmo e no seu próprio lugar, tal qual é. 
 
Glauco – Fora de dúvida. 
 
Sócrates – Refletindo depois sobre a natureza deste astro, compreenderia que é o que produz as 
estações e o ano, o que tudo governa no mundo visível e, de certo modo, a causa de tudo o que ele e seus 
companheiros viam na caverna. 
 
Glauco – É claro que gradualmente chegaria a todas essas conclusões. 
 
Sócrates – Recordando-se então de sua primeira morada, de seus companheiros de escravidão e 
da idéia que lá se tinha da sabedoria, não se daria os parabéns pela mudança sofrida, lamentando ao 
mesmo tempo a sorte dos que lá ficaram? 
 
Glauco – Evidentemente. 
 
Sócrates – Se na caverna houvesse elogios, honras e recompensas para quem melhor e mais 
prontamente distinguisse a sombra dos objetos, que se recordasse com mais precisão dos que precediam, 
seguiam ou marchavam juntos, sendo, por isso mesmo, o mais hábil em lhes predizer a aparição, cuidas 
que o homem de que falamos tivesse inveja dos que no cativeiro eram os mais poderosos e honrados? Não 
preferiria mil vezes, como o herói de Homero, levar a vida de um pobre lavrador e sofrer tudo no mundo a 
voltar às primeiras ilusões e viver a vida que antes vivia? 
 
Glauco – Não há dúvida de que suportaria toda a espécie de sofrimentos de preferência a viver da 
maneira antiga. 
 
Sócrates – Atenção ainda para este ponto. Supõe que nosso homem volte ainda para a caverna e 
vá assentar-se em seu primitivo lugar. Nesta passagem súbita da pura luz à obscuridade, não lhe ficariam 
os olhos como submersos em trevas? 
 
Glauco – Certamente. 
 
Sócrates – Se, enquanto tivesse a vista confusa – porque bastante tempo se passaria antes que os 
olhos se afizessem de novo à obscuridade – tivesse ele de dar opinião sobre as sombras e a este respeito 
entrasse em discussão com os companheiros ainda presos em cadeias, não é certo que os faria rir? Não 
lhe diriam que, por ter subido à região superior, cegara, que não valera a pena o esforço, e que assim, se 
alguém quisesse fazer com eles o mesmo e dar-lhes a liberdade, mereceria ser agarrado e morto? 
 
Glauco – Por certo que o fariam. 
 
Sócrates – Pois agora, meu caro Glauco, é só aplicar com toda a exatidão esta imagem da caverna 
a tudo o que antes havíamos dito. O antro subterrâneo é o mundo visível. O fogo que o ilumina é a luz do 
sol. O cativo que sobe à região superior e a contempla é a alma que se eleva ao mundo inteligível. Ou, 
antes, já que o queres saber, é este, pelo menos, o meu modo de pensar, que só Deus sabe se é 
verdadeiro. Quanto à mim, a coisa é como passo a dizer-te. Nos extremos limites do mundo inteligível está 
a idéia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que, conhecida, se impõe à razão 
como causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da luz e do sol no mundo visível, autora da 
inteligência e da verdade no mundo invisível, e sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para 
agir com sabedoria nos negócios particulares e públicos. 
 
Glauco – Concordo também, até onde sou capaz de seguir tua imagem. 
 
Sócrates – Continuemos pois – disse eu – Concorda ainda comigo, sem te admirares pelo fato de 
os que ascenderam àquele ponto não quererem tratar dos assuntos dos homens, antes se esforçarem 
sempre por manter a sua alma nas alturas.É natural que seja assim, de acordo com a imagem que 
delineamos. 
 
Glauco – É natural – confirmou ele. 
 
Sócrates – Ora, pois! Entendes que será caso para admirar, se quem descer destas coisas divinas 
às humanas fizer gestos disparatados e parecer muito ridículo, porque está ofuscado e ainda não se 
habituou suficientemente as trevas ambientes, e foi forçado a contender, em tribunais ou noutros lugares, 
acerca das sombras, e a disputar sobre o assunto, e sobre o que dispõe ser a própria justiça quem jamais a 
viu? 
 
Glauco – Não é nada de admirar. 
 
Sócrates – Mas quem fosse inteligente – redargüi – lembrar-se-ia de que as perturbações visuais 
são duplas, e por dupla causa, da passagem da luz à sombra, e da sombra à luz. Se compreendesse que o 
mesmo se passa com a alma, quando viesse alguma perturbada e incapaz de ver, não riria sem razão, mas 
reparava se ela não estaria antes ofuscada por falta de hábito, por vir de uma vida mais luminosa, ou se, 
por vir de uma maior ignorância a uma luz mais brilhante, não estaria deslumbrada por reflexos 
demasiadamente refulgentes; à primeira deveria facilitar pelas suas condições e pelo seu gênero de vida; 
da segunda, ter compaixão e, se quisesse troçar dela, seria menos risível essa zombaria do que se 
aplicasse àquela que descia do mundo luminoso. 
 
*** 
 
A caverna é o mundo sensível que habitamos, na medida em que não conhecemos a verdade, na 
medida em que vemos apenas sombras e reflexos que tomamos por verdade. 
 
Os grilhões são nossos conceitos e preconceitos, nossa confiança em nossos sentidos e opiniões, 
nossa ilusão, nossos medos e repressões. Não poder voltar o rosto, não poder olhar de lado, corresponde a 
não conseguir olhar para os outros, a ser egoísta e olhar somente para si mesmo. 
 
Dar nomes as sombras é fazer julgamentos, rotular coisas e pessoas. Julgar que os ecos dos que 
passam são as próprias sombras reverberando significa acreditar que nossas projeções são realmente os 
outros, e que nada além disso é real. 
 
 E quando ao que assim julga a luz é revelada, descortinando-lhe a verdade de que o que via antes 
eram apenas reflexos de si mesmo, ele nega ser igual às suas projeções e acredita que as pessoas 
realmente são como imaginava. 
 
 A dor de ver a luz e a pena de se levantar representam o sofrimento de ver aquilo que 
verdadeiramente se é. Desviar os olhos do fogo é negar a verdade. 
 
 Para poder ver as sombras sem dor é preciso saber discerni-las, bem como as imagens dos 
homens e de outros seres refletidos sobre as águas, e, em seguida, erguer os olhos para a lua e para as 
estrelas, contemplar os astros noturnos mais facilmente do que o que é visível ao resplendor do dia. E, 
depois de desvendar os enigmas da noite, sentir-se apto a ver o próprio sol, primeiro refletido e então 
diretamente. Assim, vamos compreendendo a vida, seus reflexos, vamos conhecendo a verdade aos 
poucos. Primeiro, a verdade que pertence aos outros; depois, voltando o olhar direta e profundamente para 
a nossa essência mais íntima, a verdade de nosso próprio ser. 
 
O Mito da Caverna apresenta a dialética como movimento ascendente de libertação, de iluminação. Com 
esta metáfora, Platão nos diz que não é possível ensinar sobre as coisas, pode-se apenas ensinar a procurá-las. 
 
Os olhos foram feitos para ver, a alma, para conhecer. Os primeiros estão destinados à luz solar; a 
segunda, à fulguração da idéia. A dialética é a técnica liberadora dos olhos do espírito. 
O que significa o Amor? 
 
 
Por vezes, o “amor” parece uma doença incurável, que causa muitas dores e muitas marcas... 
 
Talvez não estejamos, neste caso, falando de amor verdadeiramente. O amor não dói, não aprisiona. A 
paixão, sim, pode fazer isto. Mas paixão é um outro tipo de sentimento.Não podemos confundi-la ou misturá-la 
com o sentimento puro de amor. 
 
Se sentimos dor, é porque estamos apegados às pessoas, aos prazeres que elas nos proporcionam, às 
contraditórias sensações que nos trazem. Não queremos perder essas sensações. É a possibilidade de tal 
perda que dói, até muito mais do que a perda em si. 
 
Na realidade, quem sente dor é o ego, a personalidade. O problema é que, como estamos identificados 
com a personalidade, confundimos tudo. 
 
As sensações são criadas a partir de projeções mentais que fazemos em relação a pessoas e coisas. 
Assim, aquilo que muitas vezes chamamos de “amor” não passa de apego a sensações, apego a projeções 
mentais, fascinação, fantasia. 
 
Em nossas projeções, achamos que as pessoas são desta ou daquela maneira. Não as vemos como 
verdadeiramente são. E o resultado desta visão distorcida é a desilusão, a frustração, a mágoa, a dor. 
 
Nossos desejos, nossa sede de felicidade, de prazer, são tão grandes que não conseguimos enxergar 
a verdade. 
 
As sensações de prazer não estão apenas relacionadas ao sexo, embora seja este um componente 
muito forte. Entram em cena também a sensação de aceitação, de segurança, de ser “normal” – ou seja, 
compatível com conceitos e padrões impostos pela sociedade –, a sensação de estar feliz ou a simples 
promessa, esperança, de sê-lo um dia. Essas sensações, por sua vez, trazem outras consigo, como a 
sensação de superioridade, orgulho, vaidade. 
 
É preciso perceber e compreender todas as trapaças desse mecanismo interno para que possamos 
amar verdadeiramente. Do contrário, não iremos além das ilusões, das fantasias; continuaremos a sofrer e 
sofrer. É preciso um profundo mergulho dentro de nós mesmos para conhecermos, por inteiro, nossa real 
essência – a essência capaz de alcançar o amor verdadeiro. 
 
 
Os Sete Pecados Capitais 
 
 
Todas as grandes religiões falam de regras morais e ética, todas falam sobre o que devemos 
cultivar, desenvolver e o que devemos evitar, eliminar. 
 
No Cristianismo temos os Dez Mandamentos, trazidos por Moisés e reforçado pelo Cristo Jesus 
com o ensinamento “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Também no Cristianismo temos os Sete 
Pecados Capitais, os quais devemos evitar e eliminar. 
 
São Tomás de Aquino (1225-1274) compilou sete das nossas maiores faltas em um grupo, que 
denominou Os Sete Pecados Capitais. Estes pecados, dos quais muitos outros derivam, são: a gula, a 
vaidade, a luxúria, a avareza, a preguiça, a ira e a inveja. 
 
Os Sete Pecados Capitais têm sido alvo de muitas interpretações, servindo de referência e base 
para quem busca trilhar o caminho do auto-conhecimento. E, para que sejam transformados em virtudes, 
faz-se necessário, antes de tudo, conhecê-los, e depois buscá-los dentro de nós mesmos. 
 
No Budismo encontramos As Quatro Nobres Verdades, O Caminho Óctuplo, As Paramitas. O 
Budismo considera todos os sete pecados do Cristianismo, à exceção da luxúria, talvez porque este pecado 
esteja estreitamente relacionado com os demais. 
 
O “Bhagavad-Gita” nos contempla com as sábias palavras de Sri Krishna – fontes de inspiração e 
estudo para várias religiões, como Hinduísmo e o Hare-krishna, por exemplo –, que afirmam ser a luxúria, a 
avareza e a ira as três portas para o inferno. 
 
A percepção das faltas que cometemos, a auto-observação, é o caminho mais indicado para que 
esses pecados não nos dominem. Podemos ignorar ou considerar as pequenas faltas, mas é sempre 
prudente levar em conta que é nas pequenas faltas que criamos e alimentamos defeitos que, em situações 
que o favoreçam, se tornarão grandes faltas. Quem costuma cometer faltas leves, sem aprender com elas, 
negando-se à oportunidade de adquirir sabedoria, ruma para incorrer futuramente em faltas graves, com 
todos os retornos que estas podem trazer. 
 
Enquanto não vencemos estes sete demônios internos, refugiamo-nos na ilusão de que somos 
superiores – seja através do poder, da aquisição de bens, do sexo –, permanecemos na busca incessante 
de compensações para a nossa incompreensão da existência, para o nosso vazio interior. E assim, ficamos 
sempre a perseguir o sentido da vida fora de nós, buscando acumular riquezas, poder, matérias, prazeres, 
sem nos darmos conta de que a maior riqueza, o maior tesouro, se encontra dentro de nós mesmos. 
 
Recordemos as palavras de um sábio filósofo: 
 
Sete são os obstáculos clássicos ou impurezas que, de acordo com tradição cristã, podem bloquear 
nossa percepção do verdadeiro Sol de amor e alegria espirituais. Essas sete 'nuvens', por assim dizer, são 
o orgulho, a inveja e a avareza (predominantemente no nível mental); a ira, a luxúria e a gula 
(predominantemente no nível emocional); e a preguiça (predominantemente no nível físico). 
 
... 
 
Na sua presença nós perdemos, durante aquele período de tempo, a percepção daquele Sol 
espiritual de amor e deleite, e assim separamos a nós mesmos dos outros. A necessidade de compartilhar a 
bem-aventurança, que é amor, não parece estar ali, e nos sentimos solitários. Esta é apenas uma 
percepção distorcida daquela unidade que permeia todas as coisas e todos os seres. Para evitar esta 
distorção, nós não precisamos criar o amor, o que é tão impossível quanto criar o Sol, mas apenas evitar as 
sete 'nuvens' mencionadas, não as nutrindo. Então, a glória do Sol será visível novamente. De fato, o Sol 
esteve sempre brilhando, somente a nossa percepção estava bloqueada e não podia vê-lo. Portanto, para 
evitar a formação de nuvens se requer uma vigilância, momento a momento, a fim de restabelecer a 
percepção da unidade, como um novo nascimento, como o Cristo disse: 'Naquele dia sabereis que estou 
em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós. 
 
... 
 
Os defeitos são como nuvens que se antepõe ao sol. A sabedoria é a arte de não deixar que estes 
obstáculos, estas nuvens, se formem em nossa vida. Tais obstáculos matam a liberdade da alma, 
aprisionam ela em estado depressivo. 
 
 
Examinemos então a essência dos Sete Pecados: 
 
Inveja: consiste, fundamentalmente, em negar o valor do outro, em projetar a negação do próprio 
valor. Na inveja, desvalorizamos os méritos alheios por nos sentirmos inferiorizados. Sentimos raiva, 
tristeza, por alguém ter algo que não temos, mas que gostaríamos de ter. 
 
Ira: é marcada por raiva, ódio, irritação. É uma emoção totalmente destrutiva, tanto para quem a 
sente como para quem se torna objeto dela. A ira faz com que agridamos terceiros, projetando este 
sentimento contra nós mesmos. 
 
Gula: é o exagero, a voracidade, no comer e no beber, mas também pode ser entendida como gula 
existencial, no sentido de abocanharmos, sem comedimentos, tudo o que os olhos vêem e desejam. 
 
Avareza: é o sórdido e excessivo apego ao dinheiro, é o medo de que bens materiais venham a 
faltar, uma sensação contínua de escassez. 
 
Orgulho: é uma mera ilusão de si mesmo, uma idéia exagerada e soberba daquilo que se é. 
 
Luxúria: é a busca insaciável por prazeres, pela satisfação dos sentidos, não se restringindo 
somente a prazeres sexuais. 
 
Preguiça: é caracterizada pela lentidão ou falta de vontade para agir, trabalhar, realizar. É um 
estado exagerado de inércia, marcado pela indiferença e apatia. 
 
 
Os defeitos são manifestações da nossa ignorância, da nossa inconsciência, e estão todos dentro 
de nós, são gerados sempre dentro de nós. Nenhuma resposta para os defeitos é encontrada fora de nós, 
por mais que suas expressões sejam ou pareçam estar associadas a situações externas. 
 
Diz Samael Aun Weor em “A Revolução da Dialética”: 
 
Não há porque se resistir ao negativo e sim praticar o positivo incondicionalmente, ensinando suas 
vantagens pela prática. Atacando o erro, provocaremos o ódio dos que erram. 
 
... 
 
Façamos luz, se é que queremos vencer as trevas. 
 
A estas palavras, acrescentamos a sábia frase de Gandhi, para ilustrar as reflexões aqui 
abordadas: 
 
Os únicos demôniosque existem no mundo são os que habitam o coração do homem, e é aí que a 
Guerra Santa deve ser travada. 
 
 
Analisando Os Sete Pecados Capitais sob a ótica budista, de maneira bem simplificada - mas não 
superficial -, podemos concluir que: a inveja é o desejo de possuir o bem alheio; a ira nasce da frustração 
dos desejos; a gula é um desejo voraz associado à necessidade de consumo; a avareza é o desejo de reter 
tudo para si, de possuir todas as coisas; o orgulho é o desejo de ser reconhecido, aceito, adorado; a 
luxúria é o desejo insaciável de prazeres, da satisfação dos sentidos, através das sensações; e a preguiça 
é o desejo de nada fazer. 
Por Que Não Mudamos? 
 
 
De um modo geral, todo mundo acredita estar evoluindo, mudando, melhorando. Mas a triste 
realidade é que, entra dia e sai dia, somos sempre os mesmos. São sempre os mesmos comportamentos, 
os mesmos dizeres, as mesmas brincadeiras, as mesmas reclamações, os mesmos hábitos. 
 
Nossos pensamentos e crenças são a causa de tudo o que nos acontece, são os agentes 
desencadeadores de toda a realidade que nos cerca. Devemos mudar o paradigma de sermos vítimas para 
o de sermos responsáveis por tudo o que nos acontece. 
 
O processo do auto-conhecimento é lento. As barreiras que nos separam da verdade vão sendo 
derrubadas gradualmente, e só então podemos perceber diretamente a responsabilidade que temos sobre 
nós mesmos. Não é um caminho fácil. 
 
Compreender as dificuldades da vida como lições a serem aprendidas é um enfoque diferente, é 
uma mudança de paradigma. 
 
Não mudamos porque buscamos em livros, palestras, doutrinas, seminários ou cultos apenas 
a confirmação de nossas crenças. Não nos abrimos ao novo, ao que, na realidade, a vida tenta nos 
passar, mostrar, ensinar. Nossas crenças nos levaram até onde estamos. Para seguirmos adiante, 
precisamos quebrar os paradigmas atuais. 
 
Precisamos questionar a realidade, questionar se os fatos devem ser realmente assim como se 
apresentam aos nossos olhos, assim como os pensamos. Obviamente, enquanto continuarmos a repetir as 
mesmas ações, nossos resultados serão sempre os mesmos, não há como ser diferente. 
 
Não mudamos porque gostamos de ser como somos, porque estamos identificados com nossa 
personalidade, porque estamos apaixonados por nós mesmos. Somos fascinados com o personagem que 
construímos ao longo de toda uma vida. Temos um medo profundo de enxergarmos a realidade do que 
somos. 
 
Nossa forma de ser, nosso comportamento, nossos pensamentos, estão tomados por mecanismos 
de defesa, adquiridos por meio de experiências, sofrimentos e dores vivenciados ao longo de nossa 
existência. Fomos nos construindo, nos moldando, para evitar as sensações de dor e estimular as 
sensações de prazer. 
 
Não mudamos porque nos falta vontade, força, honestidade, sinceridade, capacidade de renúncia. 
Uma mudança, uma transformação, significaria deixarmos de ser quem somos. E, como somos apegados a 
nós mesmos, a o que somos ou ao que achamos ser, reagimos negativamente. Tememos nos transformar 
em algo que não vamos gostar, em algo que os outros não vão gostar. Tememos perder o pouco que temos 
ou achamos ter. Tememos ser rejeitados, perder a popularidade, a fama, o status, a consideração, os 
prazeres. Tememos deixar de existir, nossos egos temem deixar de existir. 
 
Satisfazemo-nos com nossa realidade. Os dias se sucedem e permanecemos os mesmos, sempre 
os mesmos, não mudamos em nada. Cometemos os mesmos erros, erros que nem sabemos quais são, 
rimos das mesmas piadas sem graça, reclamamos das mesmas coisas, humilhamo-nos sempre em 
situações que se repetem. Sentimos medo e vergonha das mesmas coisas, nas mesmas circunstâncias ou 
em circunstâncias parecidas. Irritamo-nos, ficamos nervosos, irados, indignados, brigamos e somos 
agressivos com as mesmas pessoas, nas mesmas ocasiões. Demonstramos vaidade, arrogância e orgulho 
nas mesmas situações. Reagimos sempre da mesma forma a insultos, críticas, ofensas ou elogios. 
Passamos desapercebidos pelas mesmas coisas, pelos mesmos locais, como se estivéssemos 
adormecidos, sonhando. Projetamos sempre as mesmas idéias, fantasiamos sempre as mesmas 
histórias, sofremos com as mesmas expectativas, ficamos ansiosos pelas mesmas bobagens. Agimos 
sempre da mesma forma egoísta e mesquinha, desrespeitamos sempre as mesmas regras, as mesmas 
pessoas, não cuidamos do que dizemos e nem de como dizemos, repetimo-nos por inúmeras vezes. É 
um quadro lamentável, e muitos que assim vivem ainda se consideram realizados, o que é um enorme auto-
engano. Este quadro, por si só, já reproduz a terrível imagem do sofrimento. 
 
Muitos dizem que a vida é uma escola, que devemos aprender com ela, com as situações e com 
os sofrimentos que ela nos impõe. Mas as situações se sucedem e nenhuma transformação ocorre. Todas 
as propostas de mudança ficam apenas no imaginário, não existe ação efetiva, não existe transformação 
verdadeira. Alguns, equivocadamente, se deixam convencer e se confortam com a idéia de que estão 
mudando, de que estão evoluindo, de que a vida muito lhes tem ensinado, quando, na realidade, só estão 
se tornando cada vez mais travados, cada vez mais embotados, mais infelizes. Não percebem que estão 
criando mais e mais dispositivos de defesa, de travas mentais. 
 
 Geralmente, acreditamos que, por freqüentarmos uma religião, por conhecermos e seguirmos 
certas teorias, doutrinas, conceitos morais e éticos, estamos mudando, evoluindo. Mas, na verdade, o que 
estamos fazendo é apenas nos aprisionarmos em gaiolas mais bonitas. 
 
 Não mudamos porque nos auto-definimos, não mudamos por atribuirmos rótulos atraentes a nós 
mesmos, por nos fascinarmos com esses rótulos, que nos levam a auto-adoração, o que impede-nos de 
enxergar a realidade e de nos transformarmos verdadeiramente. 
 
 Por exemplo, se nos definimos, antecipadamente, como pessoas calmas, pacientes, tolerantes, 
serenas, tranqüilos, estamos dificultando a nossa observação, o exercício do auto-conhecimento, que nos 
permitiria detectar a nossa intranqüilidade, a nossa falta de serenidade, nossas irritações, medos, 
ansiedade, expectativas e esperanças. Sem esta percepção, passamos a arrumar uma série de 
justificativas, desculpas, explicações para as nossas faltas. E com um agravante: além das faltas anteriores, 
agora nos falta também aceitação, honestidade, sinceridade, força. 
 
Somos enganados pela auto-imagem, pelo amor próprio. Ficamos facilmente fascinados com 
nossos personagens. Caímos no auto-engano. Quando uma situação se apresenta, ao invés de estarmos 
presentes e nos auto-observarmos, partimos logo para a ação, tentando expressar serenidade. Agimos 
falsamente, e sentimos prazer por termos conseguido transmitir a imagem de alguém sereno; chegamos 
mesmo a nos surpreender com o fato de termos mudado tanto, evoluído tanto; admiramo-nos do quanto 
somos calmos e serenos e de termos conseguido nos manter assim durante toda a situação. Acreditamos 
piamente que nos saímos bem. Com isso, projetamos nossas ilusões, nossas fantasias, para os outros. 
Achamos que todos estão admirados de sermos assim tão serenos, que nos tomam como exemplos, que 
nos apreciam. E então somos tomados por confortáveis sensações às quais nos apegamos, e acreditamos 
ser esta a nossa realidade. Mas tudo não passa de projeções mentais, nós é que nos admiramos, nós é 
que nos auto-adoramos, que nos envaidecemos e nos enchemos de orgulho. Para piorar, se, depois de 
tudo, alguém ainda nos elogia, o embotamento aumenta. É como assinassem embaixo de nossas ilusões, 
de nossas projeções mentais. Precisamos renunciar a tais sensações, projeções, ilusões. 
 
 Na verdade, o que temos é excesso de amor próprio. Tal qual artistas no palco, queremos 
aplausos. Não percebemos que estes aplausos são caras, bocas, tapinhas nas costas, elogios, bajulações. 
 
 Precisamosexpandir esses exemplos, precisamos explorá-los e compreendê-los, precisamos 
meditar muito, rogar a essa Divindade Interior maravilhosa, à nossa Mãe Divina, ao nosso Pai Interno, que 
nos livre do auto-engano, da ilusão, e nos mostre a verdade. 
 
Não mudamos apenas quando só uma parte de nós quer mudar e as outras continuam a fazer as 
mesmas coisas, a se comportar do mesmo jeito. Se assim acontece, é porque não estamos plenamente 
decididos a mudar, não estamos aptos a renunciar a nós mesmos, a nossos desejos, a nossas ilusões e 
prazeres fugazes. Se assim acontece, não nos entregamos, não nos empenhamos em busca de uma 
mudança, de uma transformação, pois certamente não estaremos dispostos a abrir mão de assistir nossos 
filmes, novelas, futebol, jogos; não estaremos dispostos a abrir mão das diversões, dos passatempos 
habituais, em nome dessas novas práticas. 
 
 Se quisermos operar em nós mesmos alguma mudança real, precisamos de práticas diárias. Ao 
final de cada dia, devemos analisar e refletir sobre o que se passou, sobre gestos, palavras, situações, 
cenas e cenários. E precisamos ser extremamente auto-críticos. Precisamos meditar sobre as cenas de ira, 
luxúria, orgulho, inveja, gula ou de outras situações faltosas, sem alegorias ou escapes. 
 
Não mudamos porque inventamos desculpas para não mudarmos, para justificar nossa 
incapacidade de mudar, nossa fraqueza, nossa falta de coragem de olhar para dentro de nós mesmos. 
O demônio da má vontade atua em nós de forma muito astuta. Algumas linhas religiosas ou filosóficas 
retratam o homem como um ser essencialmente bom, outras como um ser essencialmente mau. Se o 
homem é essencialmente bom ou mau, não vem ao caso agora. Seja ele bom ou mau, o fato não nos 
impede de olharmos para dentro de nós e enxergarmos a vergonha, o medo, a violência, a ignorância, a 
falsidade, a fraqueza, a maldade, a ira, a inveja, a avareza, a gula atuando em nosso ser. Conceituar a 
essência do homem como boa ou má é só uma idéia, uma idéia que nos limita muito, como qualquer 
outra idéia, conceito, preconceito, definição ou auto-definição. O medo, o sofrimento, a vergonha, o orgulho, 
a ira, a ansiedade, a gula, a inveja são os mesmos, seja para que acreditam que o homem é 
essencialmente ruim ou para os que acreditam que o homem é essencialmente bom, seja para os cristãos, 
budistas, maometanos, hinduístas, seja para os brancos, pretos, morenos, amarelos, vermelhos. O 
objeto desses sentimentos indesejáveis pode mudar, mas isso não muda nada. 
 
Apontamos erros e defeitos naqueles nos cercam e não nos damos conta da lei da atração, não 
nos damos conta das projeções. Aquilo que poderia ser uma ótima oportunidade de auto-conhecimento 
passa a servir apenas para alimentar ainda mais a nossa vaidade, nossa auto-adoração, nosso amor-
próprio. 
 
Não mudamos porque lemos e ouvimos falar sobre erros, sobre maus comportamentos, sobre 
comportamentos equivocados, mas, como nos auto-adoramos, nada vemos de errado em nós mesmos. 
Voltamos os olhar crítico somente para os outros, e com esse olhar julgamos e censuramos os que vivem 
ao nosso redor. 
 
Raiva de Tudo 
 
 
Domine a raiva com a serenidade; 
o mal com o bem; 
a mesquinharia com a generosidade; 
a mentira, com a verdade. 
(Dhammapada 223) 
 
 
O desejo não realizado leva à frustração. A frustração leva à raiva. A raiva leva ao endurecimento 
do coração e ao desejo de vingança. A vingança leva à maldade. Raiva e desejos de vingança ocorrem em 
função do apego ao próprio objeto gerador da raiva, do qual queremos nos vingar. E com este objeto 
competimos, na incansável tentativa de superá-lo. 
 
Ao refletirmos sobre cada objeto, é possível identificar determinados aspectos da ira que ele 
despertou. Dependendo do objeto, um aspecto pode se mostrar mais perceptível do que outros. E esses 
aspectos que nos são compreensíveis não devem ser deixados de lado, devemos utilizá-los em outras 
reflexões. 
 
A mente transfere a ira para outros objetos, o que dificulta ou impossibilita uma análise pertinente. 
Logo, não podemos perder de vista o pressuposto de que a ira é fruto de um desejo frustrado. Uma análise 
dos opostos também pode ajudar. 
 
Também é importante observar que não precisamos aguardar por uma explosão de raiva, por um 
ataque de ira, para então começarmos a analisar e buscar a compreensão dos fatos. Podemos tentar 
relembrar os momentos de irritação, frustração, descontentamento, insatisfação, tristeza, indignação, 
mágoas, ressentimentos, desejos de vingança e inconformismo do passado, e trabalharmos sobre eles. A 
raiva se esconde atrás de múltiplas e diferentes roupagens. 
 
Em um dado ponto das reflexões pode ser necessário recorrer à abstração, de modo a direcionar a 
reflexão para a raiva em si, já que os objetos dela podem limitar a percepção, a compreensão. 
 
O mundo, com suas luzes, cores, com seus brilhos e encantos, desperta em nós os desejos, 
levando-nos à busca de uma satisfação que nunca acontece. E, desta forma, acabamos por nos frustrar 
com o mundo. E esta frustração nos leva a ter raiva do mundo e a planejar vinganças. Passamos a competir 
com o mundo, com a vida. Em nossas fantasias, queremos superar o mundo, e o resultado disto é que 
ficamos irritados e nem sabemos por quê. Todos que nos cercam sofrem conosco, pois transferimos para 
eles essa nossa raiva do mundo. Queremos nos vingar do mundo através de tudo e de todos que o 
habitam. 
 
Isso tudo ocorre porque continuamos a acreditar nas ilusões mundanas. Ou seja, num primeiro 
momento, alimentamos as ilusões e as desejamos; em seguida, passamos a odiá-las. E assim invertemos 
todo o processo. Se pudéssemos compreender as ilusões apenas como ilusões, nada disso aconteceria. 
 
Precisamos perceber que tudo ocorre dentro de nós mesmos, e que estamos apenas transferindo 
nossos anseios para objetos externos, para objetos do mundo externo. 
 
Não é possível competir com o mundo ou com a vida. Isso é uma grande tolice. Assim como é tolo 
discutir com quem nos insulta, trocar ofensas. Todos esses impasses são armadilhas o mundo usa para nos 
enganar e nos manter aprisionados. Portanto, a melhor forma de vencer o mundo é renunciar a ele, assim 
como a melhor forma de vencer os nossos agressores é renunciar à discussão, renunciar à disputa pelo 
monopólio da razão, à vitória, à superioridade; é manter a serenidade e uma certa indiferença – que não 
significa nem desprezo, nem superioridade; que não significa uma forma de vingança, nem tampouco uma 
tentativa de vencer. 
 
Toda expressão de raiva é uma forma de vingança. 
 
Precisamos compreender as dificuldades da vida como lições a serem aprendidas. Em verdade, 
como nos ensina o Budismo, esta é uma reta visão sobre o sofrimento, e a retidão de tal visão enche-nos 
de gratidão. Se passamos a encarar as dificuldades da vida como lições a serem aprendidas, se passamos 
a priorizar na vida o aprendizado e a evolução, então a ofensa, a agressão e as pressões deixam de existir, 
existirão apenas os aprendizados. Mas se, ao contrário, ficamos nervosos, irritados, se insistimos em 
maldizer algo ou alguém, é porque o aprendizado não é o fator mais importante. Neste caso, o fato de ser 
bem tratado, elogiado, reconhecido, aceito, adorado, passou a ter mais importância do que o aprendizado. 
E isso é a manifestação expressa da própria auto-importância. 
 
A gratidão, a satisfação, o contentamento, a bondade, nascem da percepção do real, da renúncia 
ao irreal, da entrega, da devoção. Tudo é como deveria ser, tudo está como deveria estar. Somos o único 
inimigo a quem devemos derrotar. Somos nossos inimigos quando não nos conhecemos e atrapalhamos o 
fluxo da vida. A vida não tem nada de errado, nós é que destruímos e atrapalhamos o seu curso; nós é que 
tendemos a tudo controlar, a tudo julgar. A vida segue suas leis naturais, e tudo o que fazemos é perturbar 
essas leis.Na vida não existem ganhos ou perdas, tudo não passa de uma grande ilusão. Existem apenas 
aprendizados. 
 
As verdadeiras virtudes não provenientes de sentimentalismos baratos ou de apelos emocionais. 
Estes devem ser eliminados. Mas devemos cuidar para não confundir a eliminação desses sentimentos com 
o endurecimento do coração. No lugar dessas manifestações apelativas devem nascer sentimentos e 
emoções puras, vindas do fundo do coração. Não podemos descontar em terceiros nossa raiva, nossas 
frustrações, nossas mágoas e ressentimentos; não podemos dar vazão às nossas vinganças, alegando que 
assim agimos porque fomos tomados por impulsos sentimentalistas ou emocionais. Isso é um terrível auto-
engano. Ao agirmos assim, estamos apenas liberando de dentro de nós a maldade que estava reprimida 
pela falsa moral, por normas de boa conduta e pelos ditos bons costumes. Nunca devemos nos esquecer 
de que devemos nos abster de fazer o mal; devemos cultivar a bondade, a compaixão. 
 
Na verdade, as pessoas são infelizes e sofrem porque viraram as costas para Deus. Revoltam-se 
contra a Divindade e consideram-se injustiçadas. Esta raiva que as pessoas sentem por Deus é um 
sentimento muito destrutivo, e se manifesta de forma tão sutil nos indivíduos, que eles oram, freqüentam 
lugares considerados sagrados e acreditam-se devotos fiéis. Em cada sentimento de não aceitação, de 
culpa, em cada preocupação, reclamação, crítica, expressão de raiva, em cada instinto de vingança, 
sentimento de ódio, mágoa, em cada um desses ímpetos negativos está alojado o vírus da raiva pela 
Divindade. A percepção deste processo já nos permite aliviar um pouco as nossas cargas, deixar o nosso 
coração um pouco mais leve. Mas é somente o arrependimento sincero pode nos livrar realmente deste 
terrível fardo. 
 
As expressões de ira ocorrem porque temos uma visão equivocada sobre os eventos da vida, 
porque nos identificamos com pensamentos equivocados, impregnados de maldade, vingança, 
indelicadeza, estupidez, brutalidade. Muitos dos motivos – quando não todos – que nos levam à expressão 
da ira poderiam se transformar em motivos para expressarmos virtudes, paciência, tolerância, compaixão e 
bondade, se tivéssemos uma visão correta dos eventos da vida. Por exemplo: se sabemos que algo é 
correto e explicamos ao outro o que deve ser feito, e este age contrariamente às nossas explicações, isso 
não deve ser motivo de ira, mas de compaixão. Se o outro não ouve ou não entende nossas explicações, 
por uma, duas, três ou N vezes, isso não deve ser realmente motivo para irritação, mas para o exercício da 
paciência e da tolerância. 
 
Sobre a Ansiedade 
 
 
A ansiedade esconde diversos medos. É o estar preocupado com o segundo passo quando ainda 
nem o primeiro foi dado. Precisamos perceber que somos nós mesmos que criamos a sensação de 
ansiedade e depois a sensação de alívio. 
 
Nossos estados internos são tão facilmente controlados pelas coisas externas que até mesmo um 
relógio - que deveria servir apenas para referências -, pode facilmente alterar estes estados, gerando 
ansiedade, pressionando-nos, criando um inferno dentro de nós mesmos a cada movimento do ponteiro. 
 
Podemos perceber a ansiedade em nós nos mais simples movimentos do dia-a-dia, como por 
exemplo na hora de comer. Mastigamos pensando na próxima garfada, comemos apressadamente, como 
se alguém fosse retirar o prato dali. Na realidade, é uma pressa por algo que não existe. Podemos fazer 
nossas tarefas rapidamente, mas sem ansiedade. O problema é que ficamos o tempo todo pensando no 
próximo passo. 
 
Podemos, ainda, detectar nossa ansiedade ao falar. Ela está presente quando falamos muito, 
quando falamos demais, atropelando as palavras ou gaguejando. Quando alguém diz algo que desperta em 
nossa mente alguma recordação, nos identificamos e ficamos ansiosos para falar, para mostrar que somos 
iguais, que também tivemos esta ou aquela experiência. 
 
A ansiedade também se faz notar quando não há o que fazer e ficamos inquietos. Começamos a 
mexer os pés, balançar as pernas, tamborilar os dedos sobre as superfícies, mexer em canetas, moedas, 
no cabelo, orelha, rosto, coçamos o que não esta coçando, e por aí vai. 
 
Tudo isso é um processo de fuga do presente. Não conseguimos ficar parados, quietos, porque 
estamos evitando olhar para nós mesmos, conviver conosco. Neste caso, parar, para nós, simboliza uma 
morte. E tememos a morte. Temos necessidade de estar sempre fazendo coisas. E, quando não há o que 
fazer, inventamos. Quando não há problemas que possamos resolver, criamo-los. Enfim, precisamos ter 
sempre mil coisas para fazer: compromissos, problemas, diversões. 
 
Outro exemplo de ansiedade latente é quando não conseguimos deixar o carro parado, silencioso, 
diante de um semáforo sinalizando que está fechado para o motorista. 
 
Ainda, podemos notar a ansiedade em certos hábitos, como fumar demais, roer as unhas, arrancar 
a pele do dedo, olhar o relógio repetidamente, não ficar parado nos pontos de ônibus, plataformas de trem 
ou hall de elevadores. Também a identificamos na ânsia de conhecer pessoas, nas entrevistas de emprego, 
na preocupação de ir para um lugar bom após a morte, e mesmo na expectativa das condições 
meteorológicas, ou seja, querer saber se vai chover, se vai ter sol, etc. 
 
Quando vemos ou ouvimos alguma coisa, a mente traz à tona várias de nossas antigas 
experiências, quando não todas, e relaciona-as com o assunto em questão. Durante uma conversa, por 
exemplo, à medida que nos mencionam certos fatos, o pensamento nos direciona para situações do 
passado. Por esta razão, vamos ficando ansiosos verbalizar nossas experiências. É a ansiedade de sermos 
aceitos, é a identificação atuando em nós. 
 
Estamos condicionados a agir desta forma, ou seja, de forma ansiosa. Possivelmente, algum medo 
gerou este comportamento ansioso, em algum aspecto. E este comportamento vai nos contagiando, vamos 
transferindo a experiência passada para outras coisas, para outras situações da vida. E então é hora de 
refletir, de analisar quais são os medos que se escondem por trás de cada manifestação de ansiedade. 
 
Geralmente, os sintomas da ansiedade são: palpitações, dores nas costas, euforia, agitação, 
tensão, respirações curtas ou ofegantes, sudorese, insônia, frio na barriga, aperto no peito, incapacidade de 
relaxar antes de dormir, entre outros. 
 
A ansiedade pode ser desencadeada só de pensar no futuro, de fantasiar o futuro, de temer que 
acontecimentos frustrantes do passado voltem a ocorrer, de desejar situações utopicamente felizes, 
fantásticas, maravilhosas, distantes da realidade. 
 
Existe em nós uma convicção natural de que, se analisarmos o futuro em todas as suas 
possibilidades de erro, de dor e sofrimento, poderemos evitar o indesejável, poderemos controlar o futuro. 
Acreditamos que podemos, com isso, controlar a vida. Assim, ficamos martelando situações imaginárias, na 
ânsia de evitar o que não existe, o que não está acontecendo, o que não aconteceu, e que talvez nunca 
venha a acontecer. E, por mais imaginárias que sejam essas situações, muitas vezes damos como certas 
algumas dessas fantasias trágicas. 
 
Ao criarmos condições artificiais para ficarmos felizes, para ficarmos em paz, geramos uma série de 
expectativas, uma ansiedade para que nosso desejo logo se concretize e nos traga rapidamente essa 
felicidade e essa paz que idealizamos. Devemos ser felizes agora tanto quanto possível. Devemos estar em 
paz agora tanto quanto possível. 
 
Toda expectativa gera ansiedade, toda expectativa é fuga da realidade, do presente, é falta de fé e 
de confiança. É falta de se entregar à vida como ela se apresenta. Ao tentarmos repetir prazeres, evitar 
dores e experiências passadas, ao invés de aproveitar as novas experiências que nos podem acontecer, 
acabamos por nos imobilizar. 
 
As mais simples tarefas se tornam complicadas, se transformam pontosde ansiedade. Ansiedade 
de provar algo aos outros, de parecer aquilo que não somos, por uma questão primária de orgulho e 
vaidade. 
 
Até mesmo situações de alegria, como festas e comemorações são transformadas em sofrimento, 
em ansiedade, em crise de nervos, devido às nossas expectativas. Fazemos comida em excesso para 
evitar a possibilidade catastrófica, para nós, da falta de comida, para depois termos que jogar todo o 
restante fora, desperdiçando-a. Ficamos aflitos com a expectativa da chegada dos convidados. Enfim, uma 
festa, que, a princípio, deveria ser uma oportunidade de lazer, acaba se tornando uma doença. 
 
Devemos parar e relaxar ao sentirmos que a ansiedade está prestes a nos dominar. Devemos 
impedi-la de se instaurar em nós. Se ela em nada nos ajudou até agora, não há razão para querermos 
alimentá-la. 
 
Acreditamos que o fato de nos preocuparmos com algo significa ser responsável. Que pai é aquele 
que não se preocupa com o desemprego, com a falta de dinheiro ou de comida? Que mãe é aquela que não 
se preocupa com os filhos, com a família? É natural que todos se preocupem, que fiquem 
momentaneamente ansiosos. Este é o padrão, este é o condicionamento. 
 
Depois de um sem número de preocupações descabidas, de loucos momentos de ansiedade, o 
“herói” se acha merecedor de reconhecimento por tudo o que fez, por sua dedicação, seu amor. Com isso, 
soma à sua coleção uma nova expectativa, a expectativa do reconhecimento. Só que o “herói” se esquece 
que ninguém lhe pediu para ficar preocupado, ansioso, muito pelo contrário. Então, por não obter o 
reconhecimento esperado, ele se frustra e geralmente assume o papel de vítima. 
 
Ficamos na expectativa, na esperança de que os outros venham a preencher as idéias que criamos. 
Fazemos planos, nos esquecemos do real, pois nos é conveniente. Mas ninguém tem a obrigação de 
atender às nossas expectativas, de realizar as nossas ilusões e fantasias. Ninguém tem a obrigação de ser 
como idealizamos. E, como isso não acontece, a frustração é inevitável. Contrariados, colocamo-nos na 
posição de vítima, declaramo-nos decepcionados com aqueles que não nos fizeram a vontade. Em nossa 
loucura, não esperávamos essa atitude deles. 
 
Precisamos perceber, ainda, como reagimos ao querermos nos livrar de uma situação ou de uma 
conversa com alguém que nos desagrada ou quando estamos atrasados para dar-lhe atenção. Nossos 
movimentos se tornam inquietos, agitamos as mãos e os pés, mexemos nas orelhas, no cabelo, no botão 
da camisa, na gravata, na fitinha da blusa, coçamos a cabeça. Precisamos perceber cada um de nossos 
movimentos, não porque lemos sobre isso ou porque nos disseram, mas porque esta é uma tarefa que deve 
partir de nós mesmos. Precisamos observar e perceber como a ansiedade atua no nosso centro motor, por 
que fazemos coisas desnecessárias, sem sentido, por que estamos fugindo. Precisamos perceber o que 
nos deixa sem jeito, incomodados, envergonhados ou constrangidos, para então conseguirmos cortar a 
conversa ou modificar a situação, sem problemas. Essas reações são sinais de um conflito interno, são 
reflexos da ansiedade. Talvez tenhamos medo de desagradar, de ser indelicado, de magoar; talvez 
estejamos vivendo um grande dilema, preocupados com nós mesmos, com a nossa auto-imagem, mesmo 
sem perceber. 
 
 
 
 
Sobre a Busca por Aceitação e Auto-afirmação 
 
 
Mendigamos aceitação, humilhamo-nos na busca da sensação de sermos aceitos pelos outros. 
Com isso, passamos a atribuir uma importância muito grande a tudo aquilo que os outros dizem, ao que 
acham de nós. Este comportamento é o reflexo da nossa auto-importância, nosso orgulho. 
 
Nessa infantil busca por aceitação e auto-afirmação, tentamos mostrar a todos o que sabemos 
fazer, o que conseguimos fazer. Tentamos provar que somos superiores. Agimos como crianças, mas 
estamos longe de ter a pureza delas. Temos, sim, muita malícia e esperteza, que nos levam a fazer jogos, 
tramas, chantagens, a fazer papel de vítima. 
 
A baixa estima é que gera essa busca incessante de aceitação. E, neste processo, tornamo-nos 
escravos, fantoches fáceis de se controlar. Basta um elogio para nos sentirmos aceitos. Daí saímos fazendo 
tudo que os outros querem. 
 
Num dado momento, podemos até perceber este mecanismo. Mas, como não superamos 
facilmente o sentimento de baixa estima, começamos a achar que os elogios a nós dirigidos não passam de 
mentiras convenientes, que são somente uma tentativa de se aproveitarem de nossas fraquezas. Então 
passamos a nos posicionar como vítimas, demonstrando uma baixa estima ainda mais grave. 
 
Se não nos aceitamos, ficamos inseguros. Em conseqüência, saímos em busca de quem nos aceite 
para compensar a nossa insegurança. Procuramos fora de nós a compensação para a nossa não aceitação. 
 
E, para sermos aceitos, vale apelar para tudo o que chame atenção: roupas da moda, carros 
bonitos, corpos perfeitos. Usamos esse tipo de compensação física e material por nos acharmos inferiores, 
feios, inexpressivos, inadequados. 
 
Agradamos, bajulamos, rastejamos; estamos dispostos a tudo pela aceitação alheia. Esforçamo-
nos para tentar ser ou parecer aquilo que esperam de nós. Pelos outros, ou melhor, por sua aceitação e 
reconhecimento, nós nos sacrificamos, nós nos tornamos heróis a qualquer preço, violentamos nossa 
natureza, nós nos humilhamos, imploramos perdão por falhas que nem sempre são nossas, abrimos mão 
da própria vida, negamos o nosso Ser. Ao final, notamos que criamos uma personalidade idealizada, muito 
distante da nossa verdadeira essência, tudo pela aceitação do outro. 
 
Tudo o que fazemos para os outros é movido por segundas intenções, é com o objetivo de 
agradarmos para sermos aceitos, bajulados, reconhecidos. Assim, cobramos elogios, agradecimentos, 
reconhecimento. E, quando não nos dão o retorno esperado, ficamos com raiva. 
 
Para sermos aceitos, achamos que devemos mudar, melhorar, evoluir, a qualquer custo. Agindo 
desta forma, só nos violentamos e nos reprimimos. Passamos a nos fechar, temendo as críticas e a 
rejeição. E assim se instaura um conflito interno, uma guerra contra nós mesmos, pois, se nos reprimimos, 
nos rejeitamos. 
 
A baixa estima nos leva a crer que aqueles que nos criticam são melhores, são superiores a nós. 
Na verdade, são apenas pessoas reprimidas, que se cobram, que não se aceitam, e estão apenas 
projetando suas fraquezas. Mas, cegos pela baixa estima, não conseguimos enxergar isso. 
 
Quando não aceitamos alguma parte de nós, nos separamos desta parte. Identificamo-nos com 
algumas partes e projetamos outras, criando assim a separatividade. Como conseqüência, desenvolvemos 
uma necessidade de auto-afirmação de nossas idéias, uma forma de negar aquilo que existe em nós. 
 
Sempre acreditamos que uma parte de nós é melhor do que outra, sempre gostamos mais de uma 
parte do que de outra. Por esta razão, rejeitamos e nos antipatizamos com qualquer um se que mostre, que 
se comporte de forma similar à parte que rejeitamos em nós. Desprezamos nos outros aquilo que não 
gostamos em nós. Para vivermos em paz, precisamos aceitar cada um de nossos aspectos, os bons e o 
maus, os que gostamos e os que não gostamos, evitando o apego aos aspectos considerados bons, ou 
seja, os que gostamos de ter. 
 
Na busca de aceitação, criamos situações complicadas, confusões, brigas, magoamos as pessoas, 
sentimos raiva, acumulamos ressentimentos, transformamos os outros em veículos para a satisfação de 
nossas necessidades de aceitação e auto-afirmação. 
 
Na busca de aceitação, de auto-afirmação, desempenhamos papéis que não são nossos, tentando 
nos adaptar a padrões pré-estabelecidos. Procuramos pessoas, grupos de pessoas, que tenham idéias, 
dificuldades, limites e defeitos parecidos com os nossos. E, uma vez identificados com estas pessoas ou 
grupos, conseguimos uma maior sensação de segurança e nos auto-afirmamos. 
 
Rejeitamos, ridicularizamos, diminuímos,maldizemos as pessoas, os grupos, que apresentam 
idéias, dificuldades, limites ou defeitos diferentes dos nossos. Esse tipo de reação faz com que nos 
achemos melhores, superiores, e reforça a nossa auto-afirmação. 
 
Na separatividade, nossas dificuldades, limites, defeitos, são melhores do que os dos outros; nossa 
família é melhor do que a família dos outros; nossos amigos são melhores, nossas virtudes são maiores e 
mais admiráveis, nossa religião é superior, nosso trabalho é mais nobre, nossos conhecimentos são mais 
credenciados. 
 
E, quando somos rejeitados, ou observamos alguém na mesma situação, nossos mecanismos de 
defesa são acionados para ignorarmos a dor da rejeição, de forma a conseguirmos ser aceitos. Nessa 
mendicância emocional, criamos falsos personagens, tentamos parecer o que não somos. 
 
Por vivermos mendigando a aceitação alheia, vamos nos transformando em ninguém. Tentar ser o 
que as pessoas esperam de nós só para obter sua aceitação, ou seja, tentar ser o que não somos, é ser 
ninguém. E, nessa ciranda, o que somos dependerá sempre de uma situação, do lugar onde estamos e das 
pessoas com quem interagimos. 
 
Ao invés de nos esforçarmos para nos aproximar do Divino que existe dentro de nós, preferimos 
buscar a aceitação dos outros, e isso, por sua vez, nos afasta cada vez mais do Divino que há em nós. 
Negamos quem somos, negamos o nosso Ser, em nome da aceitação alheia, em nome de uma auto-
imagem fantasiosa, em nome de nossos egos. A verdade é que temos medo de ser quem somos, temos 
vergonha de ser quem somos, em virtude do risco de sermos rejeitados. 
 
Sobre isso, diz Cristo em Lucas 9: 
 
24 – Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim, 
esse a salvará. 
 
25 – Pois, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder-se, ou prejudicar-se a si 
mesmo? 
 
26 – Porque, quem se envergonhar de mim e das minhas palavras, dele se envergonhará o Filho do 
homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos. 
 
 
Sobre a Caridade 
 
 
Muito se fala sobre caridade. Preocupamo-nos em fazer doações, em fazer grandes obras. 
Louvamos os que praticam grandes ações humanitárias. No entanto, não fazemos o mais simples, aquilo 
que está ao nosso alcance a todo instante, ou seja: sermos educados, polidos, gentis, generosos, gratos ou 
solidários. Não cedemos o lugar para os idosos, não deixamos as gestantes tomarem a frente nas filas, 
corremos atropelando os outros ao subirmos escadas ou passarmos pelas portas, não damos passagem 
para o carro que quer mudar de faixa, não doamos nem os nossos restos. 
 
Nossa caridade, nossa bondade, nosso amor, estão sempre condicionados ao retorno, ao 
reconhecimento. Agindo desta forma, o que fazemos é colocar o ego acima de tudo, atribuindo a ele uma 
importância maior do que tais manifestações. O reconhecimento, o elogio, a aceitação dos outros, tornaram-
se mais importantes do que o ato caridoso ou gentil. O foco mudou. 
 
Não somos humildes para aceitar ajuda dos outros, não somos humildade para ajudar. Não 
reconhecemos a bondade dos outros, não somos gratos aos outros. 
 
Quando alguém nos abre uma porta, nos cede passagem, ou nos faz um favor qualquer, ao invés 
de aceitarmos seu gesto com humildade e agradecermos, somos capazes ainda de massacrá-lo com as 
mais terríveis calúnias, chamando-o de puxa-saco, ridículo, interesseiro. Imaginamos que querem outros 
favores em troca, ou que querem aparecer. Isto quando não resolvemos explorar a boa vontade alheia. 
Enfim, tudo menos o simples, o mais acessível, o real. 
 
Não há humildade. Não há caridade. Há, sim, uma falsa caridade, a caridade do fariseu que vive em 
nossa psique. É essa a caridade que praticamos. 
 
A caridade está nos gestos simples do cotidiano, como escutar alguém que precisa desabafar, que 
não tem com quem conversar. A caridade está em se fazer presente e disponível. A caridade está em dar 
um simples sorriso, um abraço sincero. E ela começa dentro de nossos próprios lares. 
 
Sim, todos podemos ser verdadeiramente caridosos quando queremos, bastando para isso apenas 
um pouco de boa vontade, bondade, educação, respeito, compaixão, etc. Mas não é o que se costuma ver. 
 
Há quem decida fazer caridade para tentar ficar em paz com a sua “consciência”. É o caso 
daqueles que fazem doações a instituições filantrópicas, sem se preocupar sequer com o destino de sua 
doação - para quê ou para quem. Fazem um depósito ou pagam um boleto, e seguem achando que está 
tudo bem, que já fizeram a sua parte. E ainda gabam-se de serem pessoas generosas por ajudarem o 
próximo com a sua contribuição financeira. 
 
A caridade deve ser vista como uma forma de participação no processo da vida, de colaboração 
com o Todo. Isso ajuda a eliminar um pouco o fator de personalidade. 
 
Mestre Samael coloca a caridade, o sacrifício pela humanidade, como um dos pilares de sua 
doutrina ao estabelecê-la como terceiro fator de revolução da consciência. E quando Lhe perguntam sobre 
a caridade, Ele diz: 
 
Saiba que obras de caridade são as obras de misericórdia: dar de comer ao faminto, dar de beber 
ao sedento, vestir o desnudo, ensinar o que não sabe, curar os enfermos, etc. 
 
Ninguém é juiz para julgar, ademais a caridade não precisa de juiz. Isto faz parte do bom senso. 
Dar de comer ao faminto é algo bastante humano porque até aos presos se lhes dá de comer, senão 
morreriam de fome. Dar de beber ao sedento é algo lógico, já que seria demasiado cruel se negar um copo 
com água a alguém com sede. Presentear com uma camisa o mal vestido é natural, consolar um aflito é 
humano; para isso não se precisa de juízes. Contudo, seria absurdo dar-se álcool a um bêbado ou 
emprestar armas a um assassino. Amor é lei, porém amor consciente. 
 
A prática de boas ações, de caridade, de sacrifício pela humanidade, gera Dharma. E isso está 
descrito em muitas das grandes religiões, como no budismo, no cristianismo, no hinduísmo. Mas estas 
práticas não podem ser fruitivas, não podem visar os frutos, pois assim pode não haver frutos. Sobre isto, 
diz Sri Krishna no “Bhagavad-Gita”: 
 
A esmola oferecida a uma pessoa merecedora de tal benefício e que não possa retribuí-lo, com a 
idéia de cumprir um dever e em tempo e lugar adequados, é sattvica. 
 
Mas a esmola dada com expectativa de retorno ou recompensa, ou dada de má vontade, é rajasica. 
 
A esmola distribuída a pessoas indignas, com ar desdenhoso, sem guardar as devidas atenções e 
em tempo e lugar inoportunos, é tamasica. 
 
Não se deve abandonar os atos de sacrifício, esmola e ascetismo. Tais obras devem ser praticadas, 
pois o sacrifício, a esmola e o ascetismo são meios de purificação para o sábio. 
 
Mas mesmo essas obras devem ser executadas de forma desinteressada, sem o menor apego a 
ela ou a seus frutos. Esta é, filho de Prithâ, minha suprema e firme convicção. 
 
Todo sacrifício, toda escola, toda mortificação, ou qualquer outro ato praticado sem fé é chamado 
asat, filho de Prithâ, e é completamente nulo, tanto nesta vida como na futura. 
 
Ainda sobre esta questão, diz o Cristo Jesus, em Mateus 6: 
 
1. - Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não 
tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus. 
 
2. - Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas 
nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o 
seu galardão. 
 
3. - Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; 
 
4. - Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te 
recompensará publicamente. 
 
Assim, oferecer cada boa ação à Divindade é um ato de devoção, de gratidão, muito diferente dos 
atos movidos por vaidade e orgulho. Demonstrar gratidão beneficia muito mais a própria pessoa do que os 
outros. 
 
Diz o Swami Vivekanandaem "Karma Yoga": 
 
A compaixão é a essência do céu. Para sermos bons, devemos ser clementes. Até a justiça e o 
direito devem ser apoiados na clemência. Pensar em tirar proveito da obra que realizamos prejudica nosso 
progresso espiritual; ainda mais: provoca a miséria. Há outra maneira de levar à prática a misericórdia e a 
caridade altruísta: é considerar as obras como 'adoração' (quando cremos num Deus pessoal). Deste modo, 
abandonamos o fruto de nossas ações ao Senhor; e, adorando assim, não temos o direito de esperar 
nenhuma gratidão pelas obras que fazemos. 
 
Olhando por um certo aspecto, deveríamos ser gratos aos pedintes, aos necessitados, aos 
ignorantes, que nos possibilitam a prática da caridade, que abrem nossos corações e podem nos trazer 
algum Dharma. 
 
Existem muitas pessoas tremendamente necessitadas que criticam a caridade que recebem. Não 
possuem nada, e ainda assim se mostram ingratas pelo pouco – ou muito – que recebem. Talvez por isso 
nada tenham nunca. Falta-lhes humildade para receber uma doação, um favor, uma ajuda. 
 
Neste ponto, parece interessante não perdermos de vista que uma doação visa suprir uma 
necessidade, e não satisfazer a vaidade, o orgulho, os desejos, nossos ou dos outros. 
 
 Talvez a experiência da caridade, da genuína doação, seja capaz de transformar a percepção 
daqueles que não sabem receber ajuda. 
 
Um outro caso interessante é o daqueles que, por ajudarem, acreditam que os outros também 
devem ajudá-los. 
 
E aqueles que julgam mal, que criticam a caridade praticada pelos demais, são também ingratos, na 
medida em que projetam uma série de defeitos próprios. Talvez falte-lhes a humildade necessária para 
receber uma doação, um favor, uma ajuda. Talvez falte-lhes o respeito, pois cada um tem sua capacidade 
de fazer doações, de praticar caridade. Mais do que isso, assim como existem capacidades de doação 
diferentes, existem também os diferentes graus de necessitados. Nenhuma doação, por mais humilde que 
seja, é desnecessária ou desprezível. 
 
Só a própria pessoa sabe o que se esconde por trás de seu ato de caridade, embora haja algumas 
que nem se dão conta. 
 
Cada um de nós sabe quais são os demônios internos que interagem na prática de um ato de 
caridade. Geralmente, entram em jogo o apego, a avareza, a mesquinhez, bem como o orgulho, a vaidade, 
a arrogância, a superioridade, o medo ou a vergonha. Um ato de caridade pode esconder a quebra ou a luta 
contra padrões, valores, conceitos e preconceitos que só o próprio agente sabe que tem em seu íntimo. 
Assim, sob o aspecto interno, um simples ato de caridade, um humilde ato de caridade, pode esconder a 
intenção de uma grande vitória, uma conquista, uma superação. 
 
O esforço do ignorante ao fazer uma caridade, por pequena que seja, pode ser muito maior e mais 
valioso do que o esforço do sábio ao dar tudo o que tem. Da mesma forma, a pequena doação de um pobre 
tem mais valor do que a grande doação do rico, pois, ao contrário deste, o pobre geralmente doa com 
sacrifício aquilo que fará diferença ou até mesmo falta em sua vida. Em síntese, há uma grande diferença 
entre doar com sacrifício e doar a partir de sobras e restos, que não fazem falta. 
 
Cabe aqui assinalar que aqueles que trabalham pela Causa da Fraternidade Universal, aqueles que 
se sacrificam pela humanidade, são auxiliados pelos Mestres em seus trabalhos desinteressados de 
caridade, fraternidade, sacrifício. Quem sabe sejam eles Seus agentes e não se dão conta disto? Alguns 
podem ser misteriosamente auxiliados, inclusive em suas vidas particulares, e nem de longe desconfiarem 
da grande retribuição Divina que recebem. 
 
 
Sobre a Compaixão 
 
 
Disse um grande sábio: 
 
Compaixão é a prática do amor, é um comportamento de amor. Compaixão é ampliação do raio de 
ação do que chamamos eu. 
 
Enquanto não compreendermos o que se passa ao nosso redor, não estaremos habilitados a sentir 
compaixão, estaremos apenas projetando nossos defeitos. Só quando percebemos a verdade dos fatos é 
que podemos ter compaixão por aqueles que não a percebem. Na verdadeira compaixão não existe 
projeção ou identificação. 
 
Enquanto estivermos identificados, o perdão será impossível. Estaremos sempre contando as 
mesmas histórias, as mesmas ladainhas. Estaremos sendo hipócritas ao negarmos, da boca para fora, um 
ressentimento, sabendo que ele ainda está dentro de nós. Precisamos nos esforçar para vermos as coisas 
sob outros ângulos, outros pontos de vista. 
 
O que costuma acontecer, na verdade, é que nos apegamos a dor, ao sofrimento. E isto 
impossibilita o perdão. A dor, neste caso, é reflexo de ressentimento, raiva, mágoa, que tende a nos colocar 
no papel de vítima, de um herói não reconhecido. 
 
Devemos, sim, ter compaixão pelo sofrimento alheio. Mas, algumas vezes, isto requer a não 
identificação, senão iremos sofrer junto com os outros. 
 
Diz H. P. Blavatsky, em “A Voz do Silêncio”: 
 
A compaixão não é um atributo. É a Lei das leis – a harmonia eterna, o próprio Ser de Alaya, uma 
essência universal sem praias, a luz da justiça eterna, o acordo de tudo, a lei do eterno amor. 
 
Quanto mais com ela te unificares, fundindo o teu Ser no seu Ser, tanto mais a tua Alma se unirá 
Áquilo que É, tanto mais te tornarás a Compaixão Absoluta. 
 
E, ainda, um Grande Mestre: 
 
Agora que os teus olhos foram abertos, algumas das tuas antigas crenças e cerimônias podem 
parecer-te absurdas; talvez, na realidade, o sejam. Apesar, porém, de não poderes mais tomar parte nelas, 
respeita-as por amor às boas almas para quem elas são ainda importantes. Têm o seu lugar e a sua 
utilidade; assemelham-se às duplas linhas que, quando criança, te guiavam para escrever em linha reta e 
na mesma altura, até que aprendeste a escrever muito melhor e mais livremente sem elas. Houve tempo 
em que delas necessitaste; esse tempo, porém, já passou. 
... 
Um grande Instrutor escreveu certa vez: “Quando eu era criança, falava como criança, entendia 
como criança; porém, quando me tornei homem, abandonei os modos infantis”. No entanto, aquele que 
esqueceu a sua infância e perdeu a simpatia pelas crianças não é o homem que as possa instruir e ajudar. 
Assim, olha a todos bondosamente, gentilmente, tolerantemente; porém, a todos da mesma forma, quer 
sejam budistas, jainos, judeus, cristãos ou maometanos. 
 
 
Em termos de compreensão da verdade, todos somos crianças. Aquele que percebe a verdade, 
aquele que se torna homem, deve ter compaixão para com as crianças, uma vez que um dia já foi criança 
também. Se um homem não consegue expressar compaixão, então sua mente ainda se encontra nublada 
por seus egos. 
 
No dia em que percebermos nossa vasta ignorância, nosso desconhecimento de tudo, nossa 
nulidade, no dia em que percebermos o quanto nos auto-enganamos, poderemos alcançar o verdadeiro 
sentimento de compaixão. Enquanto isto não acontece, estaremos presos, cegos, pelo orgulho, pela auto-
imagem, pela vaidade, pela auto-importância, impossibilitados de uma real compaixão, impossibilitados de 
amar. 
 
Mahatma Gandhi, um dia, afirmou: 
 
Os únicos demônios que existem no mundo são os que habitam nossos corações, e é lá que a 
Guerra Santa deve ser travada. 
 
Ao dizer isso, quase no fim de sua existência, ele foi questionado sobre como estava se saindo em 
sua batalha, ao que Gandhi sorriu e respondeu: 
 
Oh! Mal, e por isso tenho compaixão dos outros canalhas deste mundo. 
 
Nosso egocentrismo nos leva a crer que precisamos sempre sentir compaixão pelos outros, e nos 
faz esquecer que os outros também devem ter compaixão para conosco. Talvez, saindo um pouco de 
dentro de nós mesmos e sendo um pouco menos egoístas, possamos ter a percepção de que também 
precisamos da compaixão dos outros, pois não somos tão santos e invulneráveis quanto acreditamos ser. 
Esta percepção nos levará a relaxar e, por conseqüência, a ter muito mais compaixão para com os outros, 
pois entenderemosque eles também devem tê-la conosco. 
 
Um ponto importante, para o qual devemos sempre estar atentos, é o hábito de praticarmos a 
compaixão como um sentimento proveniente de orgulho, vaidade, desprezo, ou seja, como uma tentativa de 
nos colocarmos como melhores, como superiores. 
 
Talvez a busca pela compreensão e pela verdadeira compaixão para com o próximo seja uma 
chave para alcançarmos a verdade. Pode-se dizer que essa busca já é, em si, um ato de compaixão. Como 
a compaixão nos leva a tirar o foco de nós mesmos, vamos percebendo gradualmente o mundo externo. 
 
Conforme vamos nos conhecendo, conforme vamos compreendendo nossos medos e temores, 
nossos desejos, sofrimentos, apegos, esperanças, expectativas, condicionamentos, vamos nos libertando 
desses sentimentos, vamos conhecendo e aceitando melhor as pessoas à nossa volta, vamos 
compreendendo por que elas sofrem, por que passam por determinadas situações. E então sentimos 
verdadeiramente compaixão pelo próximo. 
 
Precisamos compreender que, se agimos mal um, dia foi por ignorância, por forças inconscientes 
que desconhecíamos. Se tivéssemos capacidade de reconhecer essas forças, de detectá-las, não teríamos 
agido mal. Essa compreensão é fundamental para nos levar à compaixão, pois é em decorrência dela que 
podemos perceber que a maioria das pessoas muitas vezes age mal por não compreender a vida, por 
ignorância. 
 
Também precisamos perceber dentro de nós mesmos a diferença entre pena ou piedade e 
compaixão. São sentimentos distintos. 
 
Compaixão está para "mais consolar do que ser consolado, compreender do que ser 
compreendido". É sair mais de dentro de nós mesmos e olhar um pouco para os outros, quebrando assim 
um pouco do nosso amor próprio, da nossa auto-importância. 
 
Aquele que critica e reclama com freqüência certamente não se aceita. Cobra-se demais e projeta 
sua auto-cobrança, sua não aceitação de si mesmo, sua auto-crítica. Provavelmente, está carregando um 
pesado fardo de orgulho, auto-imagem, auto-importância, de apego a si mesmo e às suas idéias. Tudo isso 
é motivo de tristeza, infelicidade, dor e sofrimento. Assim, temos que desenvolver em nós a compaixão e a 
aceitação daqueles que criticam, ofendem, reclamam. 
 
Um grande sábio disse: 
 
 Todas as pessoas querem as mesmas coisas que nós, como por exemplo a felicidade, todos 
queremos ser felizes. Alguns passam dos limites e acabam passando por cima dos outros, buscam a 
felicidade a qualquer preço, desrespeitando o próximo. Muitos fazem uma confusão entre felicidade e 
prazer, mas felicidade não é prazer. 
 
Não podemos impedir os outros de serem o que são, o máximo que podemos é perceber o estado 
de animo dos nossos semelhantes. Se tivermos suficiente compreensão, sensibilidade, compaixão, até 
podemos renunciar, ceder a vez a essas pessoas, por que para nós será mais importante nosso estado de 
espírito, serenidade, paz, tranqüilidade, do que a fascinação momentânea por algo. 
 
Enquanto não tivermos a consciência desperta, devemos aceitar os defeitos que vemos nos outros, 
pois, desta forma, estaremos aceitando os nossos próprios defeitos, uma vez que o que vemos nos outros 
são apenas projeções. Conforme praticamos a aceitação, a compaixão, a paciência, a tolerância, o respeito 
para com os outros, as barreiras vão se rompendo. E então vamos nos percebendo mais e melhor, vamos 
percebendo a projeção existente. 
 
Assim como a verdadeira compaixão, o verdadeiro amor só aparece na ausência da identificação, 
na ausência do ego. São sentimentos Divinos, enlevados, que não podem se manifestar na presença e 
muito menos através do ego. 
 
Quando estamos conscientes, fazemos sempre o correto, não existe divisão. Não existe julgamento 
dos outros, a compaixão brota de forma plena e espontânea, com toda a sua grandeza. Assim acontece 
porque, conscientes, sabemos que o outro foi levado à ação errada por inconsciência, ignorância. 
 
Enquanto existir o medo dentro de nós, enquanto existir a preocupação com o “eu mesmo”, não 
poderemos exercer a compaixão de forma verdadeira. 
 
É nosso egocentrismo, nossa preocupação com nós mesmos, nossa auto-importância, nosso amor 
próprio, que nos impede de olhar para os motivos que levam as pessoas a fazer o que fazem, de ver que os 
outros também sofrem, de entender que agem de forma ignorante, inconsciente. É nosso egocentrismo, 
nossa preocupação com nós mesmos, nossa auto-importância, nosso amor próprio, que nos impede de 
termos uma verdadeira compaixão. 
 
Todos dizem que o amor tudo pode e que a compaixão tem o poder de destruir a negatividade dos 
outros, ou seja, que tem o poder de nos proteger. Mas usar a compaixão como forma de buscar algum tipo 
de proteção é um auto-engano, é egoísmo. Se formos praticar a compaixão, pratiquemo-la por amor, por 
devoção a Divindade, sem esperar algo em troca. 
 
Sobre a Culpa 
 
 
Tememos decepcionar os outros, sentimos culpa por decepcionar os outros. Mas uma pessoa não 
pode decepcionar ou desiludir outra, se a ilusão criada não partiu dela. Seria uma grande tolice pensar 
desta forma. Só que, muitas vezes, assumimos essas responsabilidades absurdas, movidos pela 
necessidade de aceitação, de auto-afirmação, ou por acreditarmos que somos salvadores do mundo, que 
aqui viemos para ajudar as almas perdidas. E isto, na realidade, só demonstra o nosso orgulho, a nossa 
fantasia sobre nós mesmos, nossa fascinação, nossa auto-adoração. 
 
Por causa da culpa, por nos acharmos salvadores do mundo, responsáveis por tudo e por todos, 
estamos sempre tentando evitar que algo de errado venha a acontecer. Então, carregamos pesos enormes 
sobre nossos ombros desnecessariamente. 
 
Achamos que somos responsáveis pelos outros, que os outros não podem, não conseguem, agir 
prudentemente sem a nossa ajuda. Muitas vezes até nos metemos a agir por eles, achando que iremos 
salvá-los de um mal maior. Tal atitude revela uma tremenda arrogância de nossa parte. Agindo assim, 
colocamo-nos como superiores, maiores, melhores, e jogamos para baixo aqueles a quem acreditamos 
estar ajudando, menosprezamos suas capacidades. O pior é que achamos normal assumir tal postura, 
convencidos de que estamos agindo por bondade, por compaixão. 
 
Estamos sempre tentando evitar que os outros se magoem ou que briguem conosco, que sintam 
raiva de nós. Estamos sempre tentando evitar que as pessoas briguem entre si, que nossa auto-imagem se 
desfaça. Não queremos ser responsáveis por nada de ruim, não queremos ser culpados por nada de ruim. 
Queremos, sim, fazer os outros felizes. Mas como fazer alguém feliz e não damos conta nem de nossa 
própria felicidade? Se achamos que os outros têm a responsabilidade de nos fazer felizes? Se acreditamos 
que as coisas externas vão nos trazer felicidade? 
 
Quanto mais tentamos evitar problemas, situações desagradáveis, brigas ou conflitos, mais 
contribuímos para a criação e manutenção de confusões e situações conflitantes. 
 
A culpa gera ansiedade, repressão, pressão, tensão. A culpa é a raiva secreta de si mesmo. A culpa 
é a não aceitação de si mesmo, a não aceitação das coisas como são, dos nossos limites físicos, materiais, 
psíquicos. A culpa é também o medo da rejeição. 
 
Por sentirmos culpa ou para evitarmos de senti-la, fazemos coisas que não queremos, contrariamos 
nossa própria natureza, nossas necessidades, nos violentamos. 
 
Se nos sentimos tão culpados assim é porque, na verdade, somos muito orgulhosos, vaidosos; é 
porque estamos preocupados com o que vão achar de nós, com o que vão dizer de nós. 
 
O fato é que cada um de nós está interessado em seus próprios prazeres, necessidades. Cada um 
de nós está preocupado consigo mesmo. Por isso, culpamos os outros pelos nossos erros, pelas nossas 
incapacidades, fraquezas, preguiça, má vontade, ignorância. Aquele que não tem consciência disto, que 
tem problemas de aceitação de si mesmo e dos fatos, chama a culpa para si. Aquele quecorre atrás da 
aceitação dos outros, que mendiga aceitação alheia, tende a sentir uma intensa e descabida culpa. 
 
Um filho que tem preguiça de fazer comida para si mesmo, por exemplo, culpa a mãe por não ter 
preparado sua refeição. Ou seja, vê na figura da mãe um objeto para a satisfação de suas necessidades. 
 
Por outro lado, uma mãe que tem problemas de carência, que não se aceita, está sempre culpando 
o filho pelas escassas visitas, por não receber dele atenção, por não ser reconhecida, lembrada. A fim de 
suprir seus desejos, suas necessidades de aceitação, apela para a chantagem emocional. Assim, de forma 
inconsciente, ela utiliza o filho como objeto de satisfação de seus desejos, de suas necessidades. Cabe 
aqui assinalar que isto não significa que se deva desprezar as mães, mas se, por exemplo, resolvemos 
visitar nossas mães movidos apenas pelo sentimento de culpa, vamos mal. 
 
Não há mérito em fazermos algo por alguém, se depois exigimos algum tipo de reconhecimento. Há 
muitas explicações para tanta solicitude em relação ao outro: carência, necessidade de aceitação, baixa 
estima. Há ainda aqueles que, quando não recebem o reconhecimento esperado após ajudar alguém, 
apelam para a chantagem, tentando fazer com que aqueles a quem prestou ajuda se sintam culpados, e 
assim acabem por reconhecê-lo, movidos por sentimentos que acreditam ser de arrependimento ou 
consciência. É preciso perceber que gratidão é uma coisa e culpa é outra, bem diferente, muito diferente. 
 
A culpa tem origem nos padrões, nos conceitos e preconceitos, nos falsos valores. Eis um quadro 
clássico: uma mãe acredita que tem que fazer tudo por seu filho, que tem que se preocupar com seu filho, já 
que é o que todo mundo diz e faz; e, se algo a impede de fazê-lo, ela irá se sentir profundamente culpada, 
mais ainda se o filho resolve culpá-la diretamente. 
 
A sociedade utiliza a culpa como regulador da moralidade, utiliza-a para controlar as pessoas, para 
fazer com que estas se sintam obrigadas a agir do modo mais conveniente. Para quem obtém as 
vantagens, é muito cômodo culpar os outros. Enfim, todos nos utilizamos da culpa, da chantagem, para 
obtermos o que queremos. É muito cômodo, muito comum, apesar de não nos darmos conta disso. 
 
Não sentimos culpa por qualquer coisa, por qualquer motivo. Sentimos culpa apenas em relação 
àquilo que julgamos correto, importante, justo. Sentimos culpa em relação a pessoas que julgamos 
importantes, segundo os nossos padrões, valores, conceitos. 
 
É de se questionar onde está a moral de quem usa de chantagem para cobrar moralidade de 
outrem. 
 
Dominados por medos diversos, cegos pelos desejos, moldados por conceitos e preconceitos, 
iludidos por falsos valores, influenciados pelos inúmeros egos que possuímos, não conseguimos a isenção 
necessária para que possamos verdadeiramente observar o que realmente ocorre dentro de nós. 
 
Vivemos a nos culpar no presente por causa de culpas do passado. E buscamos a aceitação ou o 
perdão alheio como se estivéssemos fugindo, evitando, negando ou nos justificando por culpas passadas. 
Este é um caso que merece muita reflexão. Tentemos refletir sobre tal situação com um exemplo: uma 
criança que foi rejeitada pela mãe pode vir a buscar essa aceitação de maneira inconsciente. Isto vai fazer 
com que ela passe a refletir essa necessidade de aprovação, de aceitação, no comportamento com as 
pessoas à sua volta. Porém, ainda que ela consiga obter posteriormente a aceitação da mãe ou dos outros, 
a rejeição de um dado momento nunca será compensada. Não será compensada porque ela teria de ser 
compreendida em si mesma; deveria haver, antes de tudo, a percepção direta de que se está tentando 
compensar um momento com outro. Só com esta consciência seria possível permanecer no presente, no 
agora. 
 
Sentimos culpa por causa da nossa auto-cobrança, por acharmos que poderíamos sempre ter sido 
melhores, que deveríamos ter feito isso ou aquilo. Quando nos culpamos ou nos recriminamos, e repetimos 
a contínua ladainha de que fomos burros, de que não poderíamos ter agido daquela maneira, estamos, na 
realidade, dizendo: “como é possível que alguém tão genial, tão brilhante, tão conceituado pelos outros, tão 
admirado, como nós, tenha falhado a esse ponto?” Neste sentido, estamos colocando a aparência, a auto-
imagem é acima de qualquer outro valor. Usando de um outro exemplo para ilustrar a situação, quando 
uma criança se machuca e a mãe se sente culpada por isto, e diz para si mesma que não poderia ter se 
descuidado, na verdade ela está querendo dizer: “Como é que uma mãe como eu, tão atenta, tão 
preocupada, tão cuidadosa, pode falhar desta maneira?”. Assim, precisamos perceber que a auto-cobrança 
não passa de um esforço para preservarmos uma certa imagem diante dos outros, para preservarmos 
nossas fantasias sobre nós mesmos, para mantermos um conjunto de sensações agradáveis. 
 
A culpa é o ato interno de remoer uma situação mal resolvida. 
 
Precisamos observar, analisar, compreender e eliminar de dentro de nós esses agregados 
psíquicos que nos fazem sofrer, esses agregados psíquicos que fazem os outros sofrerem. 
 
 
 
 
Sobre a Devoção 
 
 
Dizem os Evangelhos do Cristo que muitos dos que eram por Ele curados - cegos, coxos, leprosos - 
seguiam glorificando o Senhor. 
 
Teus olhos foram abertos, o caminho foi a ti apresentado. E tu, o que fizeste? Seguiste glorificando 
a ti mesmo e à tua personalidade. Achas-te escolhido. Não tens devoção alguma. Não tens gratidão 
alguma. Olha, pois, a verdade e glorifica Aquele que te tira da cegueira e te faz enxergar. Torna-te devoto 
do Senhor teu Pai e trabalha em Sua obra. 
 
Se queres te tornar um devoto, então tua devoção precisa ser profunda e verdadeira. Não podes 
apenas adorar tuas próprias projeções mentais, tens de entregar-te à Divindade com todo o teu sentimento 
e emoção. A devoção pura, renunciada, é o que deves buscar, e não pode ser pode ser praticada em troca 
de ganhos materiais ou desfrute dos sentidos, pois que, desta forma, criarás grandes obstáculos em teu 
caminho. 
 
Sê sincero no arrependimento e firme na decisão. 
 
É a entrega total ao Senhor a prova das provas, a renúncia das renuncias, o amor dos amores, a 
vitória das vitórias sobre ti mesmo e tua auto-importância, teu amor próprio. 
 
Crê, ó buscador, que a devoção será para ti a arma primeira para exterminares em ti a auto-
importância, para acabares com este comportamento em que te colocas acima de tudo e de todos, mais 
importante que tudo e todos. 
 
Compreende, ó devoto, que a devoção é o amor à Divindade, o apego à Divindade. E este apego, ó 
servo do Senhor, é o único apego benéfico. Mais ainda, este é o apego que destrói apegos outros. A 
devoção é a paixão pela Divindade, e bem sabes tu que, quando alguém se entrega plenamente à uma 
paixão, desconhece-se o que pode suceder. 
 
Tua devoção, ó devoto, será a melhor forma de acabares com o amor-próprio, de acabares com 
tanta auto-adoração, esta vil adoração à tua própria personalidade, a quem atribuis todas as tuas 
conquistas, todas as tuas realizações, como se esta personalidade tivesse algum poder. Tua personalidade 
não tem poder algum, é filha do tempo, filha de tuas experiências mal digeridas, de fantasias, é filha de tua 
imaginação. E muito menos tu, ó prisioneiro de Maya, tens poder algum. Somente o Pai, que está em 
segredo, tem poder e tudo pode. 
 
Quando realizas teu trabalho, na busca de prazeres, da satisfação de teus desejos mundanos, 
praticas uma ação fruitiva e colherás o karma desta ação. A busca de satisfação só trará dor e sofrimento, 
atormentando-te e tornando-te cada vez mais infeliz. Mas, se ao Senhor entregares teus esforços e teu 
trabalho, então até o mais simples de teus trabalhos tornar-se-á grandioso, e tua alma se alegrará em servir 
ao Senhor. Portanto, entrega teu trabalho e teu esforço ao Senhor teu Pai, de todo teu coração, para que a 
paz se faça em teucoração e para que possas conhecer a verdadeira felicidade. 
 
O fato de, porventura, não vires a te identificar com o trabalho não significa que não irás trabalhar 
de forma correta. É preciso que mudes a visão que tens de teu trabalho. Deves reconhecê-lo como é, o 
sustento e o suporte para que as coisas do Espírito possam se manifestar nesse plano em que te encontras 
agora. 
 
E se identificares-te com o trabalho, os Eus, os egos que estão em ti, passarão a ser mais 
importantes que o trabalho. Daí nascerá a disputa, a necessidade de auto-afirmação, de provar 
superioridade, de ser melhor do que os demais, fazendo com isso nascer, paralelamente, a insegurança, o 
medo. Então, neste momento, teu foco já não será mais o trabalho, teu foco estará voltado para o ego e 
seus desejos, para o ego e suas necessidades de prazer. 
 
Se trabalhares apenas sobre ti mesmo, e tomares para ti todos os avanços e compreensões, então 
enganar-te-ás e cairás nas armadilhas da vaidade e do orgulho. Mas, se agradeceres ao Senhor teu Pai por 
todas as graças de compreensão que recebes, se compreenderes que morres em ti mesmo por amor a Ele 
e não para glória de tua pobre e efêmera personalidade, então estarás caminhando na verdade e para 
verdade. Portanto, não te enganes, é Dele, teu Pai e teu Senhor, todas as glórias, e é a Ele que deves 
dirigi-las. Sacrifica, pois, teus demônios aos pés do Senhor teu Deus. 
 
Sempre que tua mente for assaltada por pensamentos que te levem a crer que muito fizeste e que, 
portanto, mereces reconhecimento, lembra-te de que nada fizestes, de que a nada ou a mui pouco 
renunciaste; lembra-te do quanto és fraco; lembra-te dos santos, daqueles que muito trabalharam por esta 
humanidade doente, e que, mesmo sendo grandes aos olhos dos outros e aos olhos do Senhor, ainda 
assim se achavam pequenos. 
 
Abstém-te de julgar os demais. Tuas impressões sobre os demais não passam de tentações e 
tormentos de teus próprios demônios internos, que foram lançadas em tua mente para que invejasses, 
cobiçasses, enraivecesses. Abandone-as, pois que elas só servem para confundir teus relacionamentos. 
 
Tuas virtudes atuam em teu ser tal qual armas para derrotar os inimigos que habitam em ti. Porém, 
deves utilizar-te de tuas armas por amor ao teu Pai. Cada ação virtuosa deve ser devotada a Ele, com todo 
o teu coração. 
 
Entrega-te em devoção ao Senhor teu Pai, com toda tua mente e teu coração, e Ele livrar-te-á do 
laço do caçador, das correntes do ego, que te aprisionam em maus pensamentos, que aprisionam tua 
vontade. 
 
Se tua mente e teu coração estiverem entregues ao Senhor teu Deus, se inundares tua mente e teu 
coração com súplicas a Ele, então terás o escudo divino que te protegerá contra teus próprios demônios, 
que te atormentam com desejos vãos, sentimentos de cobiça, inveja, orgulho e vaidade; que te enganam, 
fazendo-te acreditar que um dia alcançarás a felicidade; que lançam a ira em tua mente, convencendo-te de 
que os demais te causam sofrimento e te impedem de alcançar a felicidade. São estes teus demônios que 
podem induzir-te ao desejo de destruir e matar os demais. 
 
Tuas tentativas de te assenhoreares das coisas do mundo só causam-te dor e sofrimento. Assim, 
pois, muda tua atitude. Entrega a Deus, teu Senhor, tudo o que tens e tudo o que fazes, e serás feliz. Não 
queiras nada para ti mesmo, pois é neste ímpeto que o demônio se esconde e te engana. 
 
Trabalha para Deus e não para ti mesmo. Trabalha para Deus e não para teu chefe. Se trabalhares 
assim, trabalharás feliz, trabalharás livre, e o trabalho não mais será para ti um pesado fardo; ao contrário, 
fortalecer-te-á. Sente, pois, que a tua alma se regozija com esta simples idéia, sente e entrega-te a Deus. 
Desapega-te de tudo e sentirás leveza em teu coração. Desapega-te, pois, como disse o bendito santo de 
Assis: "...de todas as graças dadas pelo Espírito Santo, nenhuma é mais preciosa do que a da renúncia..." 
 
Se devotares teu trabalho ao Senhor teu Pai, então não mais serás afligido por preocupações, pelo 
desejo de querer parecer alguma coisa, de manter uma falsa imagem para os outros. Trabalharás livre. Crê, 
entrega-te e serve ao Senhor teu Deus e encontrarás a paz e felicidade, ó servidor da Luz. 
 
Enquanto trabalhas para ti mesmo, tudo o que fazes é lutar contra o mundo. E esta é uma luta 
pesada e cansativa, na qual tua derrota é praticamente certa. Desiste, pois, dela. Se lutas contra o mundo é 
porque acreditas que o mundo te deve algo. Mas, na verdade, és tu que, cheio de karmas por tuas más 
ações, deves ao mundo. E por isso deves retornar a ele por consecutivas vezes. 
 
Alarga teu entendimento, expande e aprofunda esta idéia. Emprega-a em outros âmbitos de tua 
vida, em todas as tuas ações. Não te prendas e não te restrinjas ao que te é exposto. 
 
Lembra-te sempre que suplicar por paciência é afirmar a existência de razões para que sejas 
impaciente, é tomar como real as ilusões que te trazem dor e sofrimento. Suplica, assim, que os demônios 
da impaciência que habitam em ti não sejam capazes de atingir-te. Suplica a teu Pai para que Ele te possa 
guiar a mente e o verbo, e assim a paz far-se-á em teu coração. Pede sempre pela purificação de teus 
pensamentos e de tuas emoções. 
 
Ao acreditares que crias todas as coisas, julga-te senhor de tudo. Mas a verdade é que nada crias 
e, portanto, não és senhor de nada, nem de ti mesmo, por mais que disto tenhas a impressão. Enquanto 
continuares na busca de assenhorear-te das coisas materiais, não poderás tornar-te um verdadeiro devoto. 
 
O homem é infeliz e sofre porque virou as costas para Deus. 
 
Existem muitas formas de adoração que ocultam o desejo de se conseguir benefícios materiais. 
Claro deve ficar para ti, no entanto, ó sincero devoto, que este tipo de adoração é uma perversão e uma 
deturpação da devoção. Quem caminha desta forma prende-se cada vez mais às misérias da existência 
material, fortalece cada vez mais as correntes que o aprisionam. O objetivo da vida, ó renunciante, é livrar-
se das misérias da vida, e não cultivá-las, fortalecê-las ou prolongá-las. 
 
Mantém o foco de tuas orações nos assuntos transcendentais, não deixes que teu foco caia nos 
apelos materiais. O ego é astuto, envenena a mente com seus desejos e pode desviar-te de Deus. Manter 
teus pensamentos no Senhor é também manter o fogo aceso. 
 
Se condicionares a tua devoção aos benefícios conquistados, cedo ou tarde cairás no engano e 
odiarás ao Senhor teu Deus, assim afundando-te cada vez mais no pântano do sofrimento. 
 
Pergunta a ti mesmo por que tanto cobiças as coisas deste mundo. 
 
Sê reto na ação. Sê desapegado e renuncia a todo fruto. A prática de ações fruitivas, prender-te-á 
na matéria, pois tem tal prática tuas reações, boas ou más. É simples: a prática de boas ações traz 
prosperidade, a prática de más ações traz aflição, sofrimento. Em última análise, a prática de ações fruitivas 
é a busca do sofrimento. Abandona, assim, tais ações. Suplica, pois, dia e noite, para que, em nome do 
Senhor, sejas conduzido ao caminho reto e, portanto, salvo. 
 
A busca de conhecimento material, de desenvolvimento dos poderes da mente, são, em ultima 
análise, movimentos que visam a satisfação dos sentidos. E, assim sendo, essa busca prolonga a 
necessidade de existência, aumentando a miséria, o que é uma demonstração de ignorância e estupidez. Ó 
sábio devoto aprende que todo cultivo de conhecimento deve culminar no serviço devocional. 
 
 
Disse certa vez uma Grande Adepta: 
 
“A pureza do coração é uma condição necessária para o atingimento do ‘Conhecimento do Espírito’. 
Há dois meios principais pelos quais essa purificação pode ser atingida. Em primeiro lugar, afasta 
persistentemente todo mau pensamento; e em segundo, mantém a mente tranqüila sob quaisquer 
condições, nunca te agitando ou te irritando por qualquer coisa. Descobrir-se-á, assim, que estes dois meios 
de purificação são melhor estimulados pela devoçãoe pela caridade. Não devemos nos manter ociosos, 
sem tentar fazer alguma coisa para progredir, só porque não nos sentimos puros. Que todos tenham 
aspirações, e que trabalhem com o devido empenho; no entanto, devem trabalhar no reto caminho, cujo 
primeiro passo é purificar o coração.” 
... 
 
“Através da fé, o coração é purificado das paixões e da insensatez; daí surge o domínio do corpo, e, 
por último, a subjugação dos sentidos.” 
Sobre a Equanimidade 
 
 
A equanimidade é a percepção de que não há nada melhor a ser conquistado, alcançado ou 
buscado. É um aspecto da cessação do desejo. É aceitação do que é. É harmonia com o que é. 
 
A equanimidade plena somente pode acontecer na completa ausência do ego. 
 
Não podemos nos abrir aos nossos maus pensamentos e mais do que isto, aos maus pensamentos 
dos outros. Precisamos perceber o quanto isso é importante. Os maus conceitos que fazemos dos outros 
podem nos deixar predispostos a estados e humores equivocados. Evidentemente, conceitos equivocados 
nos levam a estados e humores equivocados. 
 
Agimos movidos por conceitos, rótulos e opiniões. Assim, acreditamos que devemos agir de desta 
ou daquela maneira conforme estes conceitos, rótulos e opiniões se sucedem em nossas mentes. 
 
Se agem com grosseria conosco, então também agimos com grosseria. Se agem com delicadeza 
conosco, então somos delicados. Quem somos nós vai depender de um monte de variáveis, não há em nós 
um centro. 
 
Temos um comportamento condicionado pela dualidade. Agimos de uma maneira com pessoas que 
achamos ser boas, amigas, belas, legais, magras ou novas. Agimos de outra forma com pessoas que 
achamos ser ruins, más, inimigas, feias, chatas, gordas ou velhas. Agimos de um jeito em situações que 
julgamos ser vergonhosas, ou que são para nós de exposição. Agimos de modo diferente em situações que 
julgamos que podemos relaxar, pois não estamos expostos. 
 
Quando nos identificamos com nossos pensamentos nosso comportamento passa a ser 
condicionado, mecânico. Se formamos um bom conceito a respeito de uma determinada pessoa, 
conseqüentemente vamos ter com ela um bom contato, um bom relacionamento bom, uma boa interação; 
vamos nos dirigir a essa pessoa com educação, atenção e alegria. Ao contrário, se formamos um mau 
conceito a respeito de alguém, o resultado inevitável será um mau contato, um mau relacionamento, uma 
má interação; vamos nos dirigir a essa pessoa de forma grosseira, com irritação e com má vontade. 
 
Equanimidade é a imparcialidade que nasce da não identificação com pensamentos, sentimentos, 
emoções, conhecimentos, experiências, crenças e sensações. 
 
Os conceitos que fazemos de terceiros não passam de idéias, valores e rótulos, são apenas 
pensamentos. É como se estivéssemos nos relacionando com a fotografia de uma pessoa ou de uma 
situação, com a imagem mental, e não com a pessoa ou a situação em si. Olhar para uma fotografia é 
sempre olhar para o passado. O ego está preso ao tempo. Se agimos desta maneira, estamos reagindo ao 
passado, não estamos agindo efetivamente no presente. Portanto, não será esta uma ação adequada, pois 
nada de real está acontecendo no agora. Precisamos perceber este processo. 
 
A crítica separa, divide, fragmenta. A fragmentação é o ego. 
 
O preconceito e a discriminação estão na contramão da equanimidade. Para nos livrarmos da 
discriminação, se faz necessária a percepção da discriminação, quer diga respeito à cultura, raça, posição 
social, ocupação, sexo, cor, tamanho, crenças, religião, origem, pátria, conhecimento, estilo ou aparência. 
 
Nossos egos vivem criando problemas onde não existe nada além de uma mera situação. 
Infelizmente somos dados a nos identificarmos com as múltiplas ilações que a cabeça fabrica e metemos os 
pés pelas mãos, ao invés de enxergarmos os fatos com clareza e isenção. 
 
Por mais que as pessoas sejam realmente como pensamos, como supomos que são, e nossa 
opinião sobre ela não é das melhores; ainda assim se estivermos firmes no reto agir, na expressão de 
nossas virtudes, podemos expressar o sentimento de compaixão, bondade, paciência e tolerância. Não 
ficaremos irritados, nervosos, irados, não agiremos de forma violenta, de forma bruta ou com grosseria. 
 
 A escravidão da dualidade e da identificação com pensamentos nos leva a muitos equívocos. 
 
 Muitos, quando falam de dualidade, falam como se a dualidade não existisse, mas parece que não 
é esta a questão. Parece que a questão é o gostar, desejar um lado e o não gostar, rejeitar, repudiar o 
outro. É o se comportar de uma maneira porque uma pessoa é amiga e de outra forma porque a outra 
pessoa não é. O desafio é sermos equânimes perante a dualidade, é sairmos da escravidão da dualidade 
de forma a sermos gentis com pessoas amigas ou não, com quem é educado conosco ou não, serenos 
perante a crítica ou ao elogio. 
 
Parece que a questão é a escravidão de comportamento para um pólo e outro, e a escravidão da 
dualidade e da identificação com pensamentos nos levam a estados e humores equivocados. 
 
Esta equanimidade que nos é necessária não é indiferença ou frieza, é uma ação consciente. 
 
Toda dualidade existe para que as coisas possam ser percebidas: dia e noite, gordo e magro, 
quente e frio, espírito e matéria, luz e trevas, movimento e inércia, expansão e contração. Perceber as 
coisas não quer dizer desejar umas e rejeitar outras, não quer dizer criticar, julgar ou desprezar, porém isso 
faz com que o homem associe esses conceitos ao bem e ao mal. 
 
Precisamos nos abster de julgar os demais. Nossas impressões sobre os demais não passam de 
tentações e tormentos de nossos próprios demônios internos, lançados em nossa mente para que 
invejemos, cobicemos e nos enraiveçamos. Precisamos abandonar estes julgamentos, estes pensamentos 
que só servem para confundir nossos relacionamentos e envenenar. 
 
Não é apenas nos relacionamentos com as pessoas que esta equanimidade deve ser expressa, é 
em toda a vida. Podemos ficar irritados no trânsito quando estamos indo para o trabalho, porém, se houver 
transito para ir à praia ficamos bem. Quando trabalhamos por obrigação, com má vontade, nós nos 
sentimos cansados, nervosos e tensos. Contudo, quando estamos servindo, quando estamos ajudando 
alguém, trabalhamos até mais e não nos cansamos da mesma maneira, não ficamos tensos ou nervosos. 
 
 Uma pessoa que tem medo de não ser aceita, medo de perder emprego, raiva do patrão, desprezo 
por alguém ou que tem algum tipo de preocupação, age sempre do mesmo modo sem que necessite fazer 
um esforço, pois apenas a lembrança de seus medos e de seus estados equivocados já basta para que 
desempenhe o mesmo papel novamente. Da mesma forma, a lembrança dos estados puros e libertos, dos 
estados de felicidade, paz, harmonia, tranqüilidade, satisfação, contentamento, e a tentativa de reavivar 
essas virtudes faz com elas penetrem em nós e pouco a pouco se tornem parte da nossa constituição, 
cristalizando-se. 
 
É preciso renunciar a estes padrões equivocados, a esta dualidade de agir e de pensar, a esta 
mecanicidade e buscar a reta ação. Ao termos uma experiência direta de renúncia, mesmo que seja apenas 
uma única vez, sentimos e conhecemos a liberdade e a leveza. Traz uma grande felicidade se livrar dos 
pensamentos dualistas que nos atormentam. 
 
Precisamos colocar em prática de instante a instante, a cada momento do dia a dia esta renúncia, 
esta aceitação, esta equanimidade. Conforme formos colocando em prática, mesmo que uma ou duas 
vezes ao longo do dia, poderemos mais facilmente fazer o mesmo outras vezes, e aos poucos vamos nos 
soltando das nossas reações mecânicas e dando um grande passo. Desta forma, poderemos perceber que 
um pensamento, uma emoção, um estado ou um humor que apareça poderá ser detido e transformado, não 
precisará ser carregado o dia todo. Isso pode nos trazer um relaxamento grande e nos mostrar o caminho 
para a paz interior. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prática -Meditando no Relacionamento Humano 
 
 
Imagine três pessoas no espaço à sua frente: alguém a quem você ama, alguém de quem você não 
gosta e alguém que lhe é indiferente. Retenha essa imagem durante toda a meditação. 
 
Em primeiro lugar centralize sua atenção em seu amigo. Permita que seus sentimentos por ele 
venham á tona. Sinta a felicidade de estar junto dele, como você deseja sua felicidade. 
 
Agora se volte para seu inimigo. Registre cuidadosamente o que sente. Finalmente volte-se para o 
estranho. Observe sua indiferença. 
 
Agora medite e reconheça que a base do gostar ou não gostar reside no que essas pessoas fizeram 
para você. Essas pessoas, num passado remoto, já puderam desempenhar papéis diferentes em sua vida. 
 
Agora volte para seu amigo e imagine uma situação que faria o relacionamento terminar. Imagine 
seu amigo se voltando contra você. Sinta o ressentimento e a dor por isso, e como não há mais afeição. 
Você já não deseja o bem dele. 
 
Onde está seu amigo agora? Lembre-se que essa pessoa não era sua amiga antes de você 
conhecê-la, e agora poderá não ser novamente. 
 
Agora se volte para o inimigo. Imagine uma situação que pudesse tê-los colocado juntos: um 
interesse comum, uma palavra de elogio, uma ajuda moral ou financeira. Você está cedendo? Você pode 
aprender a se sentir afetuoso com relação ao seu inimigo. 
 
E quanto ao estranho, imagine como um ato de afabilidade ou raiva da parte dessa pessoa poderia 
imediatamente transformá-la num amigo ou inimigo. Não existem estranhos que o sejam de modo definitivo; 
esse estranho pode se tomar um amigo ou inimigo. 
 
Mantenha as três pessoas nitidamente à sua frente. Pense a respeito da frágil impermanência 
desses relacionamentos. É somente a crença equivocada na estabilidade deles que mantém sua mente 
afastada da possibilidade de mudança. 
 
Seu amigo, seu inimigo e o estranho desejam a felicidade tanto quanto você. 
 
 
Fonte: Curso de Meditação da Fundasaw 
 
Sobre a Espiritualidade dos Dias de Hoje 
 
 
 
Atualmente, muitas religiões são como empresas. Não nos damos conta de que certos 
procedimentos que costumamos criticar no governo, na família, numa empresa, são, muitas vezes, 
igualmente reproduzidos em nossas religiões. 
 
O mundo esotérico ou pseudo-esotérico é hoje puro comércio. Seus divulgadores estão mais 
interessados em atrair clientes, em seduzir seu público, do que em passar informações que transformem 
verdadeiramente o ser humano, informações que possam levar os fiéis a uma genuína evolução. Na 
verdade, esses representantes de uma suposta fé não possuem o auto-conhecimento necessário para 
poderem transmitir ao público informações transcendentes. 
 
Nos espaços esotéricos ou pseudo-esotéricos, assim como na maioria das religiões, fala-se apenas 
aquilo que as pessoas querem ouvir, de modo a deixá-las felizes, satisfeitas, e a estimulá-las a continuar 
consumindo seus produtos. 
 
Muitos passam a viver exclusivamente do esoterismo, da espiritualidade. Com isso, desenvolvem 
cursos, palestras e outros produtos relacionados, visando auferir lucros. Tudo fazem para manter a 
freqüência e o consumo de seu público. E esses ingênuos seguidores, que pensam estar aprendendo e 
evoluindo espiritualmente, passam a gastar, nesses lugares, seu suado dinheiro, vítimas do apelo 
consumista. 
 
Transformar algo em uma fonte de renda nos leva a defender bandeiras pessoais e não mais a 
verdade. Cedo ou tarde, a ambição pelo dinheiro, pela fama, pelo status, acaba adquirindo mais importância 
do que a verdade. 
 
Não há diferença entre o mundo espiritualista de hoje e as igrejas evangélicas que seguem a 
chamada teologia da prosperidade. Não só a idéia de prosperidade é a mesma entre dois, mas também o 
público. Ambos praticam uma espiritualidade materialista. Ambos acreditam em “histórias da Carochinha” e 
entregam seu dinheiro ingenuamente. 
 
Conhecedores de certos mecanismos da mente, esses líderes religiosos manipulam sentimentos 
como: culpa, orgulho, vaidade, medo, ignorância, fraqueza, fragilidade. Jogam com a fé das pessoas. 
Utilizam-se de chantagem emocional e moral para influenciar seu público. Geralmente, apelam para frases 
marqueteiras do tipo: "Se você quer realmente melhorar, mudar sua vida, então matricule-se no nosso 
curso", "Você só não vai se interessar em freqüentar o curso se não estiver nem aí para a sua vida", "Se 
você desistir do nosso curso é porque está desistindo de si mesmo"... 
 
Desprovidos de verdadeiro auto-conhecimento, querem aplausos, elogios. Orgulham-se e 
envaidecem-se por atraírem um grande público, por este público gostar do que lhe é dito, palavras que vão 
absolutamente contra a genuína espiritualidade. 
 
Diante disto, os prazeres, aplausos e elogios tornam-se mais importantes do que a verdade. Sem 
se darem conta, esses líderes utilizam o público para satisfação de seus desejos, de suas necessidades, de 
seus egos. Obviamente, esse tipo de ação está muito longe de representar um sacrifício pela humanidade. 
Ao contrário, representa o sacrifício de certos membros da humanidade por seu tão querido ego. 
 
Os espiritualistas, os esoteristas, brincam de bruxinhas, de maguinhos, se auto-intitulam mestres. 
Parecem crianças no mundo do “faz de conta”. E o público se fascina com essas pessoas, idolatram-nas. 
 
Tais espiritualistas, esoteristas, não se conhecem. Não buscam morrer em si mesmos. Com isso, se 
deixam fascinar pelas falsas ilusões e se tornam presas fáceis da fama, do status, do orgulho, da vaidade. 
Afundam e, pior, arrastam com eles o pobre público também fascinado por suas palavras. Nenhum de nós 
está isento de erro, de engano, de auto-engano. Assim, precisamos nos observar, precisamos nos 
trabalhar, precisamos morrer em nós mesmos, de instante em instante. E, mais do que tudo, precisamos 
suplicar muito à Divindade para que Ela não nos deixe cair em erros. 
 
O público, em geral, tem boa fé, acredita nas idéias que lhe são passadas, acredita que está 
evoluindo, seguindo o caminho da salvação, que está desempenhando alguma grandiosa missão. 
 
Ingenuamente, esses crédulos correm atrás de diplomas, de certificados, correm atrás de 
conhecimento. Ninguém se preocupa em mergulhar dentro de si mesmo. Ninguém se dá conta que não 
existe diploma ou certificado de iluminação. 
 
Esse público se empenha fervorosamente em fazer cursos com esoteristas, com espiritualistas de 
nome, fama e status. Sem perceber, repete velhos padrões. 
 
Existe ganância, cobiça, inveja, orgulho e vaidade referentes a conhecimentos esotéricos. E 
também existe ganância, cobiça, inveja, orgulho, vaidade no que diz respeito a poderes, clariaudiência, 
clarividência e outras manifestações do gênero. Todos esses fenômenos facilmente se disfarçam de 
espiritualidade, fascinando esoteristas, espiritualsitas e enganando o público, desprovido de auto- 
conhecimento. 
 
O conhecimento obtido em livros, cursos, seminários, palestras ou pregações precisa ser 
vivenciado. Precisa ser profundamente compreendido. Conhecer verdades não é o mesmo que 
compreender verdades. 
 
Não se pode ensinar o auto-conhecimento. Pode-se, quando muito, ensinar práticas que nos levem 
ao auto-conhecimento. Mas ninguém quer se ocupar com práticas deste tipo. 
 
Precisamos parar de pensar através das idéias de terceiros, das idéias adquiridas nos livros, por 
meio de palestrantes, pregadores, orientadores ou de qualquer outra voz externa a nós. Precisamos 
aprender a pensar por nós mesmos, precisamos perceber, compreender as coisas diretamente, sempre por 
nós mesmos. Precisamos saber discernir sobre coisas e pessoas, sobre o bem e o mal. Precisamos ser 
sinceros e honestos com nós mesmos, ver o quanto nos enganamos no passado e o quanto ainda 
continuamos a nos enganar. Precisamos morrer em nós mesmos, de instante em instante, de momento a 
momento. Precisamos de práticas meditativas, reflexivas. Precisamos de práticas que silenciem a mente, 
práticasdevocionais. Precisamos mudar nosso comportamento, passar a ser retos, corretos. Assim, 
lentamente, a verdade vai se revelando, os Véus de Isis vão se rompendo. 
 
 
 
Sobre a Espiritualidade Materialista 
 
 
Vende-se hoje uma promessa de prosperidade, que assegura felicidade, bem-estar e prazeres. 
Porém, não pode haver prosperidade, e muito menos felicidade, enquanto as pessoas não se 
transformarem interna e radicalmente. 
 
Vende-se uma idéia de que, se concentrarmos a mente em um determinado objetivo, teremos 
sucesso em alcançá-lo. 
 
Jesus disse claramente: "Onde estiver seu tesouro, lá estará também seu coração". E ainda: "Se 
alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me". 
 
 Isto significa que estamos fazendo o contrário de tudo que as religiões, as grandes e genuínas 
religiões, pregam. Significa que estamos fazendo o contrário do que todos os Mestres, todos os Iluminados, 
todos os Avatares ensinaram. 
 
Estamos negando a Cristo e aumentando mais ainda o que temos por aqui: nossos lastros, nossos 
apegos, nossas paixões. 
 
Precisamos nos perguntar por que colocamos toda nossa vontade em um carro, um emprego, uma 
casa, um amor, desviando-a da evolução espiritual genuína. Não fazemos práticas que nos elevem, não 
renunciamos a nada, não nos desapegamos de nada. 
 
Se realmente acreditamos em vida após a morte, em reencarnação, precisamos analisar com 
sinceridade e honestidade o que estamos fazendo pela nossa evolução. Precisamos analisar, com 
sinceridade e honestidade, que próxima vida estamos plantando. 
 
O Budismo nos fala que os desejos, os apegos aos prazeres são as causas de todos os nossos 
sofrimentos. Parece que haver algo de errado à nossa volta, pois muitos espiritualistas defendem a busca 
do prazer, ensinam que o sentido da vida está no prazer. 
 
O demônio da má vontade, que existe dentro de cada um de nós, diz que precisamos curtir a vida, 
que precisamos aproveitá-la ao máximo, que o radicalismo limita, que todo ser humano precisa de um 
pouco de prazer e divertimento; diz que não há problemas em se ter bens materiais e a eles nos 
apegarmos. Assim, iniciamos uma corrida desesperada atrás de coisas externas a nós, achando que esses 
elementos promovem felicidade e prazer. Empenhamo-nos em tentativas fúteis para nos livrarmos das 
misérias da vida. E a cessação temporária dessas misérias é falsamente chamada de felicidade. 
 
Fascinados e com a mente embotada por falsas idéias de prosperidade, felicidade e prazer, 
buscamos o bem-estar nas coisas materiais. Certamente, já vimos muitas pessoas que, apesar de 
possuírem tudo o que a vida material pode lhes dar, não são felizes. Mas facilmente nos esquecemos desse 
tipo de exemplo. Estupidamente, acreditamos que, se conseguirmos tudo que os outros têm, seremos 
felizes. Não seria necessário cometermos todos os erros do mundo para aprendermos alguma coisa, 
bastaria observarmos um pouco mais a vida. Só que não conseguimos enxergar nossa ganância, nossa 
inveja, nossa arrogância em ação, em plena ação. Então sofremos, e só então vemos na dor a última forma 
de aprendizado possível. 
 
O camelo come cactos, pois gosta de sentir o sabor do sangue misturado ao da planta espinhosa. 
Ele não percebe que está se ferindo e que isso lhe faz mal. Assim somos nós com os nossos desejos, 
nossos prazeres. Não passamos de camelos. 
 
Pode ser que os livros de auto-ajuda sejam proveitosos para alguns. Mas o máximo que podem 
fazer é trazer um pouco mais de informação, algumas idéias novas, percebidas por pessoas que, de certa 
forma, possuem os nossos mesmos defeitos, em maior ou menor grau. 
 
De forma bastante diferente dos “manuais de auto-ajuda”, o Sutta Budista Anguttara Nikaya (X 69) 
fala sobre a importância de ter poucas necessidades, sobre a satisfação (aceitação, contentamento, 
gratidão), sobre o isolamento, sobre não estar enredado (não estar apegado, fascinado, não ter lastros), 
sobre estimular a energia (vontade), sobre a virtude, sobre a concentração, sobre a sabedoria, sobre a 
libertação, e sobre o conhecimento e a visão da libertação. Este é o ensinamento do Buda, muito mais 
enriquecedor. 
 
Um sábio disse uma vez: 
 
A revolução só é possível através de doutrinas revolucionárias. Tais doutrinas são trazidas por 
Budas, Cristos, Profetas e Avatares. É nestas fontes que temos que buscar as sementes para semearmos 
nossa mente, nossa Alma com novos valores, novas idéias, novas concepções. 
 
 
Questionamentos e Comentários 
 
 
- Se curtir ou aproveitar a vida, prazer e divertimento são coisas ditas pelo 'demônio da má 
vontade', logo, devo deduzir que são coisas ruins. 
 
Não é uma questão de bom ou ruim, é uma questão de prioridade. O fato é que existe em nós uma 
certa má vontade para com as coisas do espírito, pois estamos muito distantes dele, não podemos senti-lo. 
O que podemos sentir são os prazeres, as sensações. Então nos entregamos a isso. 
 
O início deste desprendimento pode ser um tanto difícil. Mas, com o tempo, muitas coisas deixam 
de fazer sentido. Claro está que precisamos renunciar a algumas delas para termos outras, o que acontece 
inclusive na própria vida material. Mas tudo isso tem que ser percebido diretamente. 
 
 
- Entendo que viver por conta de desejos escraviza e gera sofrimento. Mas o que é aproveitar a 
vida? Devemos renegar o prazer e o divertimento? Por que então existiriam? 
 
Enquanto, para uns, aproveitar a vida significa deleitar-se com os prazeres que ela proporciona, 
para outros, aproveitá-la significa evoluir espiritualmente. Haverá um momento em que será necessário 
negar o prazer e o divertimento, em prol da evolução. Mas devemos sempre buscar compreender por que 
nos deixamos atrair pela matéria e pelos prazeres fugazes, por que nos mantemos apegados a eles. Com o 
tempo, não mais será necessário renegá-los, já que não mais farão sentido. Toda dualidade existe para que 
os acontecimentos possam ser percebidos. 
 
Largo e florido é o caminho para o abismo, para a perdição, e estreita é a porta que leva à salvação 
da Alma. 
 
 
- Se no mundo material muitas coisas refletem o astral/espiritual, se as doenças refletem estados 
interiores e os males da alma, do espírito, então, o que reflete uma vida miserável e problemática? 
 
Miséria interna, ignorância, Karma. 
 
 
- Acho que, quando algo de bom acontece em nossa vida, a melhor forma de agradecimento é 
aproveitar essa dádiva, com gratidão. 
 
Estar no mundo sem ser do mundo, ou seja, aproveitar sem se apegar. Sem ilusões, sem fantasias, 
sem fascinações. 
 
 
- Acho que não cabe abdicação, privação. Nem deve ser isto o que esteja querendo dizer. Viver em 
busca do material não preenche os anseios de uma pessoa, mas isso não quer dizer que coisas materiais 
sejam ruins. Além do mais, como você vai dizer ao miserável que ter comida na mesa não é importante, que 
poder usar uma roupa limpa não é importante, que satisfazer suas necessidades não é importante? 
 
As coisas materiais não são boas nem ruins. A questão está no uso que se faz dos bens materiais, 
na intensidade do apego e da importância que atribuímos a eles. 
 
Por certo, dizer para o miserável que não é importante ter comida na mesa é algo de difícil 
compreensão para ele. É como tentar mostrar a um apaixonado a realidade, nem sempre agradável, sobre 
a pessoa por quem se apaixonou. 
Sobre a Felicidade 
 
 
“Feliz aquele que tem uma alma. Feliz aquele que não a tem. Infelicidade e sofrimento para aquele 
que só tem a semente dela.” 
Gurdjieff 
 
 
As causas reais da infelicidade não estão na ausência de pessoas, dinheiro, casa, carro ou 
emprego. As causas reais estão dentro, e não fora de nós, nunca do lado de fora. A felicidade não é e nem 
está em qualquer objeto a ser encontrado ou possuído, não está em nenhum lugar fora de nós mesmos. 
Desse modo, não há lugar nenhum para ir, não há nada a fazer e nem a ser conquistado para se alcançar afelicidade. Felicidade é um estado interno, é satisfação, contentamento e regozijo. Felicidade é. 
 
Quando desejamos a felicidade negamos que somos felizes, nós a afastamos, criamos um véu que 
nos impede de percebermos que somos e podemos ser felizes. Criado este véu, saímos em busca de uma 
felicidade inexistente, de uma fantasia. É como se estivéssemos procurando por dinheiro estando sentados 
num baú de ouro, procurando pelos óculos que estão em nosso rosto ou procurando nossos próprios olhos. 
Para ser feliz basta ser feliz. Ninguém pode possuir a felicidade. 
 
Diz Samael Aun Weor em seu “Tratado de Psicologia Revolucionária”: 
 
“Que se entende por bem-aventurado? Que se entende por felicidade? Estamos seguros de que 
somos felizes? Quem é feliz? Conheci pessoas que diziam: Eu sou feliz! Estou contente com a minha vida! 
Sou ditoso! Porém, desses mesmos vim a escutar: “me desagrada fulano de tal! Aquele tipo não me cai 
bem! Não sei por que não me fazem aquilo que tanto queria que me fizessem!”. Então, não são felizes... O 
que acontece realmente é que são hipócritas.” 
 
... 
 
“Existem momentos prazerosos, muito agradáveis, mas isso não é felicidade. As pessoas 
confundem o prazer com a felicidade.” 
 
 Não podemos confundir prazer com felicidade. Do contrário seguiremos pelo caminho errado e 
nunca chegaremos aonde queremos. O prazer é do tempo, é passageiro, momentâneo, impermanente e 
fugaz, mas estamos sempre querendo mais, como se tentássemos de alguma forma, eternizar o que é 
efêmero. 
 
Diz o verso 290 do Dhammapada: 
 
“Se, pela renúncia a uma felicidade inferior, é possível alcançar uma felicidade superior, que o 
homem sábio abandone a inferior pela superior.” 
 
 Renunciar ao prazer para obter a verdadeira felicidade é uma atitude inteligente. O prazer e a busca 
do prazer não trazem sabedoria; trazem apenas dor e sofrimento, ao que alguns tolos chamam de 
aprendizados da vida. O prazer não liberta; ao contrário escraviza e aprisiona. 
 
Na ânsia de se obter prazer ou temendo não obtê-lo, vamos nos tornando cada vez mais luxuriosos, 
gulosos, gananciosos e invejosos; vamos medindo e premeditando cada vez mais as nossas palavras, nos 
transformando em alvos cada vez mais fáceis da malícia e da maldade, em seres exploradores e 
manipuladores, que passam a usar os outros como objetos para a satisfação de seus próprios desejos. 
 
 Por mais incrível que possa parecer, todos querem ser felizes, mas ninguém é feliz. Na busca da 
felicidade alguns ultrapassam os limites, causando dor e sofrimento ao próximo. É impossível obter a 
verdadeira felicidade à custa da infelicidade alheia. Pode-se até obter algum prazer agindo desta maneira, 
mas sabemos que há maldade e crueldade nessa forma desumana de se buscar felicidade. O ensinamento 
de Buda nos alerta: “Evitar o mal, cultivar o bem, purificar a própria mente: esse é o ensinamento de todos 
os Budas”.(Dhammapada 183) 
 
 As pessoas perdem seu tempo e suas vidas atrás de prazer, riqueza, fama, sucesso, status, títulos, 
atrás de uma felicidade ilusória e de fantasias. Por exemplo: quase nunca uma pessoa está plenamente 
satisfeita com seu parceiro afetivo, e valendo-se de muitos pretextos, continuam a buscar ansiosamente a 
“pessoa certa”. Mesmo já tendo uma relação estável, esses insatisfeitos costumam se encantar facilmente 
com novas pessoas e possibilidades, depositando nelas suas esperanças de felicidade que, definitivamente, 
não está ali. E não tardam a descobrir que não está, mas, ainda assim, continuam a procurar. Procuram 
alguém mais alto, mais bonito, mais bem sucedido, mais culto, mais espiritualizado, mais isso e mais aquilo, 
como se tais predicados pudessem assegurar a satisfação plena. O que estão fazendo e não sabem, é 
correr atrás de mudanças externas para tentar resolver algo que acontece internamente. Acreditam que 
podem preencher o vazio interno com algo externo. Em momento algum, param para refletir e analisar o 
porquê dessa procura insaciável e de tudo o que se esconde por trás dela. Em momento algum param para 
refletir e analisar sua própria infelicidade, e assim seguem infelizes e insatisfeitos. Na realidade este 
exemplo cabe em todas as situações da vida, este quadro de insatisfação não se restringe apenas aos 
relacionamentos amorosos, ocorre também nas buscas relacionadas a emprego, casa, carro, dinheiro, 
religião e amigos. 
 
Vivemos em busca de mais, sempre mais. Vivemos na esperança, na expectativa de um dia 
conseguir alcançar esse mais, como se alguma coisa estivesse faltando, mas é somente renunciando a 
tudo isso que a verdadeira felicidade se torna possível. A satisfação e o contentamento surgem diante da 
percepção de que nada falta. Para se alcançar a verdadeira felicidade, não há nada a ser conquistado; há, 
sim, muito a se renunciar. Precisamos admitir que as motivações que assimilamos e prontamente aceitamos 
estão erradas, equivocadas. 
 
A busca por riqueza, fama, sucesso, status, títulos e a luta para ser “alguém” nunca nos levou e 
nem nos levará à felicidade. Tais ambições e motivações, só nos levam à competição, inveja, cobiça, 
frustração, mágoa e tristeza. Essas buscas frementes não farão de nós pessoas mais felizes e realizadas. 
Tudo o que conseguiremos é uma vida de aparências e infelicidade, distante da nossa própria essência. 
Seremos ricos, diplomados, famosos e... infelizes. 
 
O mundo sempre prometeu muito, mas nunca cumpriu. Sempre nos levou às tristezas, mágoas e 
frustrações. O que nos levou a acreditar nas promessas do mundo foram nossos próprios desejos. Para ser 
feliz é preciso renunciar a tudo isso. É preciso ter coragem de renunciar às promessas e apelos do mundo. 
 
Se criamos condições, esperanças e expectativas é porque estamos insatisfeitos, descontentes 
com o presente, com as situações que se apresentam diante de nós. Mas somos nós que criamos a nossa 
própria infelicidade, não há nada de errado com a vida ou com as situações e condições que ela nos impõe. 
 
 A felicidade é de certa forma uma habilidade, a habilidade de saber viver. É um estado interno. É 
preciso manter um estado de felicidade e paz interior, ainda que a realidade externa se apresente negativa 
aos nossos olhos. Para atingir esse estado temos de abandonar os sonhos e as fantasias, as esperanças e 
as expectativas. É possível sentir alegria e felicidade, mesmo quando as coisas não saem como 
esperamos. É possível sentir alegria pelo sucesso e felicidade do outro. Se assim não acontece, é porque 
há algo errado; é porque estamos com inveja, com raiva, frustrados, insatisfeitos e descontentes. 
 
Diz Gandhi: 
 
"Felicidade é a harmonia entre o pensar, o dizer e o fazer." 
 
Quando experimentamos sensações de liberdade, paz e felicidade, não devemos pensar que elas 
vieram do exterior. Da mesma forma, não podemos achar que alguma provocação externa desencadeou o 
que está errado em nossa mente. O externo é pouco confiável e está fora de nosso controle, e depender de 
algo pouco confiável não é uma atitude inteligente. 
 
Quando a mente está limpa e tranqüila, atenta, livre dos discursos dos egos, a felicidade e a paz 
surgem naturalmente. Nesses breves momentos, podemos compreender que a verdadeira paz e a 
felicidade são de fato possíveis. 
 
Para sermos felizes não precisamos fazer nada. Precisamos apenas parar de gerar infelicidade e 
de criar problemas. Gostamos de criar problemas porque no fundo eles distraem a mente e nos dão o que 
fazer. É uma forma de fugir do tédio, da vida. De certa forma, chegamos a sentir prazer em vivê-los. 
Chegamos até mesmo a nos vangloriar, nos orgulhar, e nos envaidecer de nossos problemas. 
 
Estabelecemos condições e metas que os outros devem cumprir, para que possamos então nos 
abrir e ser felizes. Como não é isso que normalmente ocorre, nos frustramos e culpamos os outros pela 
nossa infelicidade. 
 
Estabelecemos condições e metas que nós mesmos nos propomos a cumprir para nos tornarmos 
felizes: uma casa, umcarro, um emprego melhor. Mesmo que alcancemos tudo isso, não ficamos felizes, ou 
se ficamos, é só por alguns instantes. Isso ocorre porque estamos buscando do lado de fora uma felicidade 
que deve vir de dentro, porque estamos tentando preencher o vazio interno com algo externo. 
 
Estabelecer condições para sermos felizes é, na realidade, criar uma situação para não sermos 
felizes, é criar justificativas para a nossa incapacidade de gerar e manter um estado pleno de felicidade, 
contentamento, satisfação e gratidão. A maior parte das condições que impomos a nós mesmos e a 
terceiros, senão todas, deveria ser resolvida internamente. 
 
Tanto quanto possível precisamos a cada instante estar felizes com nós mesmos, a cada grau de 
consciência que temos. Precisamos estar felizes agora, com as condições que realmente temos, com as 
situações que se apresentam neste momento. 
 
Especuladores vendem-nos scripts de vida, oferecem-nos fórmulas para vivermos felizes, para 
encontrarmos alegria, criam roteiros que instruem como tudo deve ser. Instruem homens a agirem assim, 
porque é o que toda mulher quer e instruem mulheres a “agirem assado” porque é o que todo homem quer. 
Não cansam de dizer: “olhe para aquele, olhe para aquela! São pessoas felizes, que têm tudo: família, filhos 
saudáveis, dinheiro.” A verdade é que, quando olhamos atentamente não vemos felicidade alguma, mas 
mesmo assim seguimos suas orientações, pois é o que todos estão fazendo. 
 
E, depois de fazermos tudo segundo os parâmetros dos scripts que nos foram vendidos como 
caminho para a felicidade, sentimos um vazio profundo. Percebemos que de nada valeram todos os nossos 
esforços e ainda sofremos desnecessariamente por isso. Assim, é preciso estar atento para notar a 
diferença que existe entre viver os acontecimentos com consciência e vivê-los sob os desígnios da mente e 
seus padrões. 
 
Quando persistimos em viver uma situação que nos traz infelicidade e sofrimento, é porque de 
alguma forma estamos obtendo algum prazer com isso, ou porque estamos sendo movidos pela expectativa 
e pela esperança de prazeres futuros. Ninguém em sã consciência insiste em alimentar situações que não 
tragam ou não venham a trazer algum benefício, por mais ilusório que seja o benefício e o prazer. 
 
É a expectativa e a esperança, que não nos deixam parar de sofrer. Obstinadamente, acreditamos 
que um dia tudo há de dar certo, e que neste dia tudo terá valido a pena. Estes processos muitas vezes 
chegam a se transformar em obsessões. 
 
A dor de deixar uma situação de sofrimento e infelicidade é na verdade a dor da sensação de perda 
da possibilidade de experimentar uma sensação de prazer – seja um prazer que efetivamente ocorre ou 
uma simples promessa, uma expectativa de prazer futuro. 
 
A esperança é a crença de que algo pode acontecer. É a espera de que uma possibilidade possa vir 
a se tomar realidade. Isso causa sofrimento e deve ser renunciado, é preciso renunciar à esperança do 
amanhã para que o hoje seja possível. 
 
A felicidade amanhã nunca acontecerá, sempre haverá um amanhã. É preciso renunciar à 
possibilidade de felicidade amanhã para que possamos sentir a felicidade agora, no momento presente, em 
que tudo é possível e nada falta. 
 
Não devemos buscar a felicidade nos grandes eventos de um futuro imaginado. Devemos buscar a 
felicidade onde ela está: no aqui e agora. No momento presente nada falta, a falta só passa a existir quando 
olhamos para o futuro ou para o passado. A felicidade, o contentamento, a satisfação e a gratidão estão no 
momento presente, no aqui e agora. 
 
A infelicidade é fruto de nossa ganância, avareza, orgulho, vaidade e inveja. É fruto de nossa falta 
de contentamento, satisfação e gratidão. 
 
Disse um iluminado: 
 
“Para quem abre o coração a felicidade sempre está disponível.” 
 
Costumamos reprimir as crianças quando elas estão felizes. Isto geralmente ocorre porque somos 
reprimidos e nos é difícil aceitar qualquer manifestação parecida com aquilo que reprimimos em nós 
mesmos 
 
As pessoas vivem atormentadas e torturadas por suas mentes e seus desejos. Acomodadas em 
seus dilemas acreditam que a vida é assim, que elas são assim. Estão tão envolvidas em seus tormentos, 
que não conseguem vislumbrar a possibilidade de se tornarem entidades plenas e iluminadas, de se 
tornarem cristos ou budas. Na verdade, não acreditar na possibilidade de se tornar um iluminado, um santo, 
um buda, um cristo, é não acreditar na própria existência destes seres. 
 
Normalmente, todos correm atrás de divertimento e entretenimento, chamando a isto de alegria, 
mas na realidade as diversões e o lazer não passam de artifícios para distrair a mente, de uma tentativa de 
fuga de si mesmo, de uma tentativa desesperada de esquecer as preocupações, os medos, a infelicidade, a 
ansiedade e de fazer com que a mente pare de atormentar, de torturar. 
 
Divertimentos e entretenimentos são formas de entorpecer a mente. Sem perceber este processo, 
as pessoas buscam cada vez mais opções que possam lhes entreter e divertir, seja na televisão, no cinema, 
nos jogos, nos esportes radicais, no álcool, ou nas drogas. 
 
Esta fuga, esta tentativa de esquecer, esconder e sufocar nossos sofrimentos leva apenas a uma 
necessidade cada vez maior de novos e diferentes divertimentos e entretenimentos. Nenhuma sabedoria 
será alcançada desta forma. 
 
Somos nós mesmos que nos atormentamos, somos nós mesmos que criamos e sustentamos os 
próprios demônios. É preciso perceber que não há lugar nenhum a ir, que não há nada a ser feito, realizado 
ou conquistado. É preciso perceber que estamos apenas correndo atrás de projeções mentais, de fantasias 
e ilusões. Tal percepção pode nos trazer paz, felicidade, contentamento, satisfação e plenitude. 
 
Disse, ainda, o iluminado: 
 
“Quando a iluminação lhe der o sabor do real, você perceberá que todos os seus prazeres e todas 
as suas felicidades eram simplesmente constituídos da matéria da qual os sonhos são feitos; eles não eram 
reais. E o que veio agora, veio para sempre.” 
 
E disse um sábio monge renunciante: 
 
“A existência material do ser vivo é uma condição doente da vida real. Vida real é a existência 
espiritual, onde há vida eterna, bem aventurada e plena de conhecimento. A existência material é 
temporária, ilusória e cheia de misérias, não se encontra felicidade absolutamente, fazem-se apenas 
tentativas fúteis de se livrar das misérias e a cessação temporária da miséria é falsamente chamada de 
felicidade.” 
 
... 
 
“O objetivo da vida é se livrar das misérias da vida e não cultivá-las, fortalecê-las ou prolongá-las.” 
 
Os mestres sempre nos ensinaram como eliminar com sabedoria as causas da infelicidade, porém, 
nunca estamos dispostos a fazer o esforço necessário. Queremos eliminar diretamente própria infelicidade, 
sem nos preocuparmos com suas causas. É impossível eliminar a infelicidade sem explorar sua origem. Se 
realmente queremos ser felizes, precisamos mudar este quadro e passar a seguir os ensinamentos dos 
mestres, a viver sob a luz desses ensinamentos; precisamos trabalhar firmemente sobre nós mesmos, 
conhecer e reconhecer as causas de nossos tormentos e então abandoná-las, renunciar a elas. 
 
 
Sobre a Fuga da Vergonha 
 
 
Para evitarmos a vergonha, fazemos caras e bocas, tentamos transmitir aos outros os mais 
diversos tipos de sensações, a fim de que não zombem de nós. Tenham piedade de nossos erros, de nossa 
estupidez, ignorância. 
 
Por vergonha tapamos o rosto, tal qual faz um avestruz ao esconder a cabeça na terra para fugir 
dos predadores. Achamos absurdo o comportamento do avestruz, mas, assim como ele e sem nos darmos 
conta, tapamos o rosto quando sentimos vergonha. 
 
Muitas situações constrangedoras são pautadas por leis, mandamentos, padrões, conceitos da 
sociedade. Houve um tempo em que a área genital do corpo humano era chamada de "vergonhas". Quando 
alguém é surpreendido nu, imediatamentecobre sua genitália com as mãos, como se tal gesto fosse o 
último recurso para livrá-lo da vergonha total. 
 
Isso nos remete ao livro do Gênesis na Bíblia, onde Deus cria Adão e, depois, de sua costela, cria 
Eva. Diz o Gênesis: “E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam”. Em dado 
momento, surge a serpente e tenta Eva a comer do fruto da árvore proibida, dizendo que ela se tornaria 
poderosa como Deus, que seus olhos seriam abertos e teria o conhecimento do bem e do mal. Eva come 
do fruto e oferece-o a Adão, que também dele prova. E... “Então foram abertos os olhos de ambos, e 
conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.”. 
 
A questão que fica é: "Seria possível voltarmos a ficar nus - sem máscaras, sem falsidades, sem 
interpretações de papéis –, sem nos envergonharmos por isso?" 
 
Ao sentirmos vergonha, devemos aceitar que estamos com vergonha. Não devemos resistir, não 
devemos negar, não devemos fugir das situações, dos sentimentos, das emoções. É preciso aceitar e 
observar o que estamos sentindo, o que está acontecendo dentro de nós, que pensamentos fervilham em 
nossa mente. Não podemos continuar a negar nossos demônios, não podemos continuar a fugir de nossos 
demônios. A vergonha é uma realidade humana. Não é uma verdade, mas é uma realidade. Assim, temos 
que observá-la para um dia podermos compreendê-la. 
 
Questionamentos e Comentários 
 
 
 
- Sim, será possível voltarmos a ficar nus - sem máscaras, sem falsidades, sem interpretações de 
papéis, sem medo de exposição, sem insegurança, etc. - e não nos envergonharmos! Mas só após o 
Julgamento, quando os 'que vencerem' - como diz a Bíblia - forem morar na Eternidade com Cristo! Ainda, 
segundo a Sagrada Escritura, o mundo jaz, está completamente mergulhado no maligno. Por isso, e pela 
essência da maldade que Adão adquiriu, é impossível a nudez sem máscaras aqui na Terra! 
 
Realmente, é uma triste realidade. Parece que arrumamos desculpas para não mudarmos, 
desculpas para justificar nossa incapacidade de mudar, desculpas para justificar nossa fraqueza, nossa falta 
de coragem para olhar para dentro de nós mesmos. O demônio da má vontade atua em nós de forma muito 
astuta, está sempre lavando as mãos, como fosse bom e nada mais pudesse fazer. Se o homem é 
essencialmente bom ou mau, não vem ao caso agora e não nos impede de olharmos para dentro de nós 
mesmos, de encararmos a vergonha, o medo, a violência, a ignorância, a falsidade, a fraqueza que existe 
em nosso ser. A essência do homem pode ser boa ou má. É só uma idéia, uma idéia que nos limita muito, 
assim como qualquer conceito, preconceito, definição, auto-definição. O medo é o mesmo, quer para os que 
acreditam que o homem é essencialmente ruim, quer para os que acreditam que o homem é 
essencialmente bom. O medo é o mesmo, quer sejamos cristãos, budistas, maometanos, hinduístas, quer 
sejamos brancos, pretos, morenos, amarelos, vermelhos. O objeto do medo pode mudar, mas o medo é o 
mesmo, precisamos perceber isso. 
 
- Por que, afinal, nos importamos tanto em sentir vergonha por estarmos envergonhados? Penso 
que nós, humanos, temos muito medo de assumir que, essencialmente, somos sós! Numa segunda etapa, 
então, é que vamos perceber que fazemos parte do Todo (que é o Cósmico, o Eterno, o Divino). 
 
 
Parece que queremos evitar desesperadamente que os outros percebam que estamos 
envergonhados, com medo, nervosos, fragilizados. Queremos parecer perfeitos, temos medo de nos expor, 
de mostrarmos nossas falhas, fraquezas, dificuldades, de nos depreciarmos dentro do conceito dos outros. 
Estamos preocupados demais com nossa personalidade, nosso ego. É a tal da auto-importância e o tal do 
amor próprio, tão profundamente fortes em nós. 
 
Todo medo está baseado no medo da morte, na nossa idéia de vida, de existência. Existência é o 
que temos como referência: sou isso, sou aquilo, moro aqui, trabalho ali. 
 
Criamos nossas bases, nossas referências sobre nós mesmos, nos auto-definimos para nos 
sentirmos seguros. Queremos passar esta imagem para os outros, precisamos nos auto-afirmar. Existimos, 
nossos egos existem enquanto referências. E, se as referências, as bases, as auto-definições sucumbem, 
então morremos. 
 
Não deixamos espaço para as nossas idéias erradas, incorretas ou incompletas, pois nos 
consideramos perfeitos, nos apaixonamos por nossas próprias idéias, e a elas nos apegamos. Nossas 
idéias passam a servir de referência, de base. E então morremos quando o nosso mundo bem organizado 
despenca, quando percebemos que erramos. Vivemos sob o domínio de dogmas, que nos dão segurança, 
que nos protegem, e atrás dos quais nos escondemos. E, quando um desses dogmas cai por terra, nos 
despedaçamos. 
Sobre a Fuga do Medo 
 
 
Não conseguimos ficar com a mente quieta no vazio das situações, não conseguimos encarar a 
realidade das situações. Ficamos com medo, entramos em desespero. Isso pode ser sutil, muito sutil, pois a 
mente começa a fantasiar, criando falsas impressões, ilusões, sensações, para fugir do aparente vazio do 
momento presente, na busca de prazeres que venham a preenchê-lo e disfarçá-lo. Se parássemos para 
observar este vazio, para enxergar o real, poderíamos ver a magia do presente, a magia da realidade. Mas 
não... Ao invés de pararmos, damos asas a fantasias e projeções. Por medo do vazio, criamos falsas 
impressões e ilusões na busca do prazer imediato. Ocorre que esse desejo de prazer traz em si dor, 
sofrimento e medo. O medo gera mais medo, a fuga do medo gera um medo ainda maior. Somos nós que 
inventamos, criamos e definimos nossos medos. A fuga do presente, o medo do real, as falsas sensações, 
a identificação, a fantasia, as ilusões, levam ao embotamento da mente. 
 
Fantasiamos que pessoas nos observam, pensam coisas sobre nós, nos admiram ou invejam. 
Experimentamos sensações de prazer, de sermos melhores, diferentes; sentimo-nos orgulhosos, superiores 
por uma falsa ilusão de fama, sucesso, status, reconhecimento, aceitação, auto-afirmação. Criamos 
divisões, nos definimos, nos identificamos. Tudo isso por medo do comum, do ordinário, do vazio, do 
deserto do real. Mas este mesmo movimento de fantasiar que nos traz prazeres, também pode trazer 
impressões opostas; pode trazer dor e sofrimento, pode trazer a sensação estarmos sendo inferiores, 
ridículos aos olhos dos outros, pode trazer o medo da rejeição, da crítica. 
 
Um carro é somente um carro, uma roupa é somente uma roupa, é a mente que atribui valor à 
matéria, com pesos, imagens e fantasias a ela associados. Isto nos leva a obter sensações de prazer. O 
mesmo ocorre com os fatos: um erro é só um erro, mas, quando a mente começa a fantasiar, exagerar, 
projetar, surge o medo, a vergonha, a culpa, a ansiedade. 
 
Movidos por orgulho, ganância, ilusão, criamos padrões, modelos, idéias. A criação do ideal é uma 
maneira de fugir do presente, do real, ocasionada pelo medo. Queremos que as pessoas sigam nossos 
mesmos ideais, acreditamos que os outros têm de ser como os definimos. Quando estamos em uma 
situação de poder, usamos a imposição do medo para podermos controlar, fazer com que os outros sigam 
os nossos modelos. Apelamos para ameaças, castigos, torturas, punições, chantagens, transmissão de 
sensações e emoções através de caras, bocas e posturas para instilar o medo nos outros. Esse 
comportamento é facilmente verificado em pais, professores, chefes, ou seja, em nós. O controle através do 
medo é uma maldade, um preconceito dos poderosos, da sociedade. 
 
Por medo nos apegamos a coisas e situações, na tentativa de fugir de algo. Mas este apego gera 
outro medo: o medo de perder o objeto do apego. Todo vício é uma fuga. Julgamos os drogados, os 
alcoólatras, os fumantes, mas não percebemos nossos próprios vícios, nossas formas de fuga. 
 
A televisão, o cinema, o jogo, o entretenimento, a diversão, a dança, a gastronomia, o trabalho, os 
livros, osditos "passatempos", a busca, o desejo por prazeres sempre efêmeros, são formas de fuga, 
alienação. Não são tão prejudiciais à saúde do corpo, mas talvez sejam muito mais nocivos à psique, à 
alma, pois estamos aproveitando a vida apenas aparentemente. Iludidamente, dizemos que precisamos de 
um pouco de diversão, de distração, dizemos que esses prazeres fazem bem, que os merecemos. 
 
Valemo-nos destes artifícios não para fugir de uma realidade externa, mas para fugir de uma 
realidade interna, do chamado de nossa alma, que clama por liberdade. Nossa alma clama por liberdade e 
fugimos para a televisão, para a diversão, para o prazer imediato. 
 
Utilizamos até mesmo a religião, a meditação em nosso plano de fuga. Escondemo-nos atrás de 
belas roupagens por pura hipocrisia. 
 
Estamos sempre em busca de desafios, do novo; estamos sempre criando problemas, tudo para 
não olharmos dentro nós mesmos, para fugirmos da realidade, do tédio, do nosso vazio existencial. 
 
Quando surge o medo, quando surge a sensação de medo entramos em desespero, desejamos nos 
livrar dele, tentamos fugir, tentamos evitá-lo desesperadamente. E o desejo de se livrar do medo gera mais 
medo. Tentamos, por diversas formas, fugir de nossos medos, de nosso vazio, de nossas misérias, da vida. 
Apegamo-nos às nossas fugas, e assim passamos a desejá-las continuamente. 
 
Trecho do diário de um Mestre: 
 
Existe o medo. O medo nunca é uma realidade: vem sempre antes ou depois do presente ativo. 
Quando há medo no presente ativo, será isso medo? Esta ali e não há como fugir dele, não há como 
escapar. Ali, no momento presente, há a atenção total ao momento de perigo, físico ou psicológico. Quando 
há atenção total, não há medo. Mas o próprio fato da desatenção gera o medo; o medo surge quando há 
uma evitação do fato, uma fuga; então a fuga, é ela própria, o medo. 
 
Ao sentirmos medo, devemos aceitar que estamos com medo. Não devemos resistir, não devemos 
negar, não devemos fugir das situações, dos sentimentos, das emoções. É preciso aceitar e observar o que 
estamos sentindo, o que está acontecendo dentro de nós, que pensamentos fervilham em nossa mente. 
Não podemos continuar a negar nossos demônios, não podemos continuar a fugir de nossos demônios. 
Não há nada de errado, horrível ou vergonhoso no fato de sentir medo. O medo é uma realidade humana. 
Não é uma verdade, mas é uma realidade. Assim, temos que observá-lo para um dia podermos 
compreendê-lo. Mas, negando nosso medo, recusando-nos a aceitá-lo, não poderemos observá-lo. 
 
Um sábio disse: 
 
Sempre que algo for realmente bom, também é amedrontador, porque lhe traz insights. Ele o força 
em direção a certas mudanças, leva-o a um ponto crucial a partir do qual, se você voltar, jamais se 
perdoará. Você sempre se lembrará de si mesmo como um covarde. E, se você seguir em frente, será 
perigoso. Por isso é amedrontador. Quando houver algum medo, lembre-se sempre de não voltar, porque 
essa não é a maneira de resolvê-lo. Entre no medo. Se você tiver medo da noite escura, entre na noite 
escura – porque essa é a única maneira de superar, de transcender o medo. Entre na noite; não existe 
nada mais importante do que isso. Espere, fique ali sozinho e deixe que a noite aja. Se você tiver medo, 
trema. Deixe que o tremor esteja presente, mas diga à noite: ‘Faça o que você quiser fazer. Estou aqui.’ 
Após alguns minutos, você perceberá que tudo se ajustou. A escuridão não é mais escura, ela se tornou 
luminosa. Você a desfrutará , poderá tocá-la – o silêncio aveludado, a vastidão, a música. Você será capaz 
de desfrutá-la e dirá: ‘Que tolo eu fui de ficar com medo de uma experiência tão linda!’. 
 
 
 
Sobre a Gratidão 
 
 
A gratidão nasce do reconhecimento, da satisfação, da aceitação, do contentamento, da devoção, 
da fé, da entrega. 
 
Quem não é capaz de dizer um simples obrigado também não é capaz de sentir uma verdadeira 
gratidão. Muitas vezes, diz-se “obrigado” por educação, costume, emocionalismo, sentimentalismo, 
fantasias, projeções mentais. Mas também há quem o diga movido pela necessidade de expressar uma 
genuína gratidão, que brota do fundo do coração. 
 
Talvez seja mais fácil falar de ingratidão do que de gratidão. Talvez seja mais fácil chegarmos ao 
real significado da gratidão abordando um pouco do que seja ingratidão. 
 
É importante percebermos o que nos impede de expressar gratidão. Alguns podem interpretar essa 
incapacidade como ingratidão. Então precisamos analisar, refletir sobre os aspectos da ingratidão. 
 
Muitos dizem que levantam as mãos para os céus todos os dias para agradecer, e em seguida 
estão a reclamar disto ou daquilo, o que é totalmente contraditório, é uma gratidão da boca para fora. Mas 
as pessoas não se dão conta disto. 
 
Alguns agradecem pelo emprego que têm, mas, por outro lado, se queixam de que mereciam um 
salário maior, mais tempo para descansar, menos cobranças. Reclamam do chefe, do colega de trabalho, 
da faxineira, da mulher do café. Reclamam de um número tão grande de coisas que fica impossível 
entender o que eles estão agradecendo, uma vez que nada está bom. 
 
Outros agradecem pela vida que levam, mas, em contrapartida, esperam que os filhos sejam assim 
ou assado, que façam isso ou aquilo. Esperam que o companheiro mude, que o trabalho melhore, que 
possam trocar de carro, aumentar a casa, trocar os móveis. 
 
Quando se trata de dinheiro, sobretudo, as pessoas nunca estão satisfeitas, nunca são gratas. Seja 
seu dinheiro proveniente de uma herança, de uma bonificação ou aumento no trabalho, prêmio, presente. 
Enfim, elas nunca estão satisfeitas; quanto mais recebem, mais querem; mais acham que deveriam ter 
recebido. 
 
Quando as pessoas perdem algo ou alguém, elas ficam triste, ficam com raiva, sentem-se roubadas 
em seus sonhos, em suas expectativas, seus planos para o futuro. Com a visão nublada pelos seus apegos 
e desejos, não podem ver e ser gratas pelo que tiveram, pensam apenas no que deixaram de ter; 
condicionam-se a um conjunto de projeções mentais relacionado a algo que ainda não aconteceu e que 
pode ser que nunca venha a acontecer. 
 
Todos os nossos julgamentos, reclamações ou críticas demonstram ingratidão, intolerância, 
desrespeito. E estamos sempre a reclamar, seja do garçom, do lixeiro, do entregador, do tintureiro, do 
padeiro, do frentista, do caixa do mercado. Todos estão a nos prestar serviços, nos ajudam, de uma forma 
ou de outra, facilitando a nossa vida. E, apesar disso, somos incapazes de demonstrar-lhes gratidão. 
Achamo-nos independentes, superiores, mas, no fundo, somos profundamente dependentes uns dos 
outros, estamos profundamente ligados aos outros. 
 
Deveríamos ser gratos até aos pedintes, aos necessitados, aos ignorantes, que nos possibilitam a 
prática de caridade, que abrem nossos corações, podendo gerar algum Dharma. 
 
Ao invés de sermos gratos às inteligências que – a despeito de todas as nossas interferências 
destrutivas na natureza, comprometendo até o clima do planeta – trazem o sol e a chuva, reclamamos 
destes eventos que, entre outras coisas, garantem as colheitas de nossas lavouras. Pior ainda, maldizemos 
a Divindade quando a seqüência destes eventos – causados exatamente por essa nossa interferência no 
meio ambiente – acabam por "prejudicar" as colheitas. 
 
Não pode haver uma genuína gratidão se nos culpamos ou culpamos os outros. Onde há culpa, há 
também raiva, descontentamento, insatisfação. 
 
A gratidão se mostra em fatos concretos, em ações, em atitudes. 
 
Aquele que está sempre cobrar que os outros demonstrem gratidão está, na verdade, projetando 
sua ingratidão. Aquele que está sempre a se dizer agradecido por isto ou aquilo está tentando provar a si 
mesmo uma gratidão que na realidade não tem. É a gratidão do fariseu. 
 
A inveja esconde muita ingratidão. Se desejamos aquilo os outros possuem é porque não estamos 
contentes com o que temos, não somos gratos,não reconhecemos o que recebemos. Existem pelo menos 
dois tipos de inveja: a inveja destrutiva, que leva uma pessoa a destruir os outros e os bens que eles 
possuem, e a inveja auto-destrutiva, que é a inveja feita de mágoas silenciosas. O mesmo se aplica à 
ingratidão, que pode ser carregada de raiva, revolta, ou cheia de mágoas, manifestando-se em situações 
onde as pessoas se colocam como vítimas. Ao final, as duas escondem crianças mimadas. 
 
O “eu vítima” é profundamente ingrato. 
 
É o véu do orgulho, da vaidade, da auto-adoração, do amor próprio, que nos impede de perceber 
quando deveríamos expressar gratidão. Acreditamo-nos responsáveis por tudo aquilo que nos acontece de 
bom e culpamos os outros por tudo aquilo que nos acontece de ruim. Acreditamo-nos dignos, merecedores, 
de tudo de bom que nos acontece. E assim não somos gratos. 
 
Parece que a gratidão às pessoas reforça a gratidão à Divindade, e a gratidão à Divindade reforça a 
gratidão às pessoas. O auto-conhecimento nos leva à gratidão. O auto-conhecimento nos leva a perceber 
que fizemos o que podíamos com o tanto de conhecimento, ou de ignorância, que tínhamos sobre cada 
situação em seus momentos específicos. Assim, podemos perceber que os nossos pais, os nossos 
professores, também fizeram o que podiam, a partir do tanto de conhecimento, ou de ignorância, que 
tinham. É esta percepção que nos leva à gratidão. Isso não é e nem deve ser apenas uma teoria 
convincente, mas sim uma percepção profunda, de si e do outro, livre de mágoas e ressentimentos. 
 
Foi a nossa Divindade interior e mais uma série de Seres superiores que nos ajudaram e nos 
impulsionaram a chegar onde estamos, a encarnar, a passar por uma série de experiências, a chegarmos 
às instituições, aos grupos a que pertencemos. Desta forma, ao virarmos as costas a esses 
acontecimentos, aos ensinamentos, aos Mestres, estamos manifestando nossa ingratidão. Ao renegarmos 
as práticas que esperam de nós, ao não vivermos como nos é ensinado, mostramo-nos ingratos. Ou seja, 
podemos continuar pertencendo às instituições, aos grupos, e ainda assim sermos ingratos, e ainda assim 
virarmos as costas a tudo o que ali se passa . Mais uma vez, a gratidão se mostra em fatos concretos, em 
ações, em atitudes. 
 
Dominados por nossos próprios conceitos, nossas idéias fixas, acusamos os outros de nos darem 
pedras quando pedimos pães. Não reconhecemos pães como pães. Assim, não somos gratos pelos 
ensinamentos recebidos. 
 
Ensinamentos budistas professam: 
 
Os maus homens não reconhecem nas ações erradas um erro e, se esse erro for trazido à sua 
atenção, eles continuarão a praticá-lo e desprezarão todo aquele que o advertir sobre seus maus atos. Os 
bons e sábios homens são sensíveis ao que é certo e errado, param de fazer algo tão logo percebam que 
esta errado, são gratos a todo aquele que lhes chama a atenção sobre as ações erradas. 
 
Oferecer cada boa ação à Divindade é um ato de gratidão, diferente daquele ato de vaidade e 
arrogância que toma tudo para si mesmo. Demonstrar gratidão é mais benéfico para a própria pessoa do 
que para os outros. 
 
Existem pessoas extremamente necessitadas que costumam criticar as doações que recebem. Não 
possuem nada, e ainda assim são ingratas pelo pouco, ou mesmo muito, que recebem. Talvez seja por isso 
mesmo que nada têm. 
 
Aqueles que julgam mal, que criticam as doações feitas por outrem, também são ingratos, na 
medida em que projetam uma série de defeitos próprios. Talvez falte-lhes o respeito, pois cada um tem sua 
capacidade de doação. Mais do que isso, assim como existem capacidades de doação diferentes, existem 
os diferentes graus de necessitados. Nenhuma doação, por mais humilde que seja, é desnecessária ou 
desprezível. 
 
Compreender as dificuldades da vida como lições a serem aprendidas é um enfoque diferente, é 
uma grande mudança de paradigma, de visão da vida. Em verdade, como ensina o budismo, esta é uma 
reta visão sobre o sofrimento, a qual nos enche de gratidão. Evidentemente, esta visão não diz respeito 
àquilo que costumamos chamar de “aprendizagem” e que, na verdade, não passa de mágoas, 
ressentimentos, medos, repressões; não passa de criação de travas, de dispositivos de defesa. 
 
Se passamos a ver as dificuldades como lições a serem aprendidas, se o importante na vida passa 
a ser a evolução pelo aprendizado, então não existe mais ofensa, agressão, pressão. Existe apenas 
aprendizados. Mas, se ficamos nervosos, irritados, se começamos a maldizer alguém ou uma situação, é 
porque algo passou a ser mais importante que o aprendizado. É porque o fato de ser bem tratado, elogiado, 
reconhecido, aceito, adorado, passou a ser mais importante do que o aprendizado. E isso nada mais é do 
que a manifestação da própria auto-importância. 
 
Olhamos as situações da vida com a mente repleta de idéias e o coração vazio. Precisamos mudar 
esta realidade. Precisamos olhar os fatos da vida com a mente vazia, livre de conceitos e preconceitos, livre 
de padrões, e com o coração cheio de bondade e compaixão. 
 
As pessoas fazem seus pedidos à Divindade e recebem um auxílio. Só que muitas vezes não 
conseguem perceber que receberam um auxílio, ou não reconhecem o auxílio como auxílio, até porque 
muitos pedidos são mundanos, frutos de desejos do ego, que não reconhecem respostas que, por vezes, 
podem ser transcendentes e ater-se à existência, e não a um momento específico, à satisfação do ego. 
 
Existem casos em que devemos até ser gratos porque alguns de nossos pedidos não foram 
realizados, atendidos. 
 
Por não percebermos nossa evolução - evidentemente não estamos falando sobre a fantasia de 
evolução e sim da evolução de fato, uma vez que a fantasia de evolução é "percebida" -, não somos gratos. 
Os preceitos budistas ensinam que não devemos desdenhar de nossas próprias conquistas espirituais. Tal 
atitude revelaria ingratidão e desrespeito. 
 
Há aqueles que, por terem beneficiado uma pessoa, acreditam que esta lhe deve gratidão pelo 
resto da vida. Não hesitam em lembrá-la de suas dívidas para com eles, o que popularmente é chamado de 
"jogar na cara". Confundem gratidão com bajulação, apego, carência, dependência, escravidão, algo 
parecido com as trocas de "favores" dos mafiosos. E esta forma de "gratidão", muitas vezes, é esperada 
também por aqueles que, a princípio, deveriam estar muito além disso, ou seja: pelos instrutores, sejam 
eles monges, palestrantes, padres ou pastores. 
 
Disse o grande sábio: 
 
Se você recolhe um passarinho que está com a asa quebrada e cuida dele com muito jeito e muito 
cuidado, ele vai voar depois, vai para longe. E você vai se sentir só por causa disso? Abandonado, 
preterido, diminuído,desprezado, humilhado? Pois digo-lhe que deveria sentir-se feliz por ver aquele a quem 
ajudou voando com suas próprias asas, cumprindo sua missão, atividade ou papel na natureza. 
Infelizmente, nossas percepções são totalmente desfocadas e inversas; por isso, temos que fazer uma 
profunda auto-crítica, uma reeducação; buscar formar urgentemente essa reta visão, percepção de nós 
mesmos, para que não invertamos os valores, nem as leis que sustentam a vida ou as leis que se resumem 
na única lei, que é a consciência livre. 
 
Vendo a situação descrita acima pelo lado oposto, o vôo do passarinho pode ser encarado como 
um ato de gratidão, encantando aquele que o ajudou. O passarinho não pode permanecer comodamente 
num determinado local por medo, insegurança, traumas do passado, culpa ou carência. Não pode achar 
que, pelo resto da vida, terá de ficar para pagar sua dívida. Isso não passaria de uma capa para esconder 
esse medo, insegurança, culpa ou carência. 
 
Sobre a Identificação com o Sofrimento Alheio 
 
 
Parece que o principal motivo para querermos ajudar os que sofrem, ou para querermos sanar suas 
dores, muitas vezes até de uma forma desesperada, é o fato de estarmos identificados com o sofrimento 
desse alguém. 
 
Geralmentesofremos por não agüentarmos ver os outros sofrerem, o que denota fraqueza, 
identificação, projeções mentais em demasia, apego ao passado, medo do futuro. Esse tipo de identificação 
é, particularmente, muito comum nos pais que não suportam ver seus filhos sofrendo. Porém, os níveis de 
identificação são amplos. 
 
Inconscientemente, o que queremos, na verdade, é nos livrarmos de sofrimentos nossos, estejam 
eles no presente ou no passado, através dos outros. Assim, sentimos alívio diante de alguém que consegue 
se livrar de um sofrimento.Evidentemente,não sentiríamos este alívio se não estivéssemos sofrendo 
também, de alguma forma; se não estivéssemos identificados com o sofrimento alheio. E, como esta 
sensação de alívio não se dá pela eliminação do nosso próprio sofrimento, voltaremos a buscá-la, por 
incontáveis vezes, enquanto não eliminarmos nossas próprias angústias, o que só é possível por meio de 
uma reta compreensão do problema. 
 
É freqüente observarmos certos “vilões” que costumam aparecer nessas situações, entre eles os 
que encarnam papéis como: o “eu vítima”, o “eu coitadinho”, o “eu sofredor”, o “eu compreensivo”, o “eu 
salvador”, o “eu herói” ou “eu mártir”. É bom que se preste atenção, pois estes “eus” geralmente estão 
acompanhados dos “eus” do orgulho, do orgulho místico. 
 
Na ânsia de livrarmos os outros de algum sofrimento, criamos confusões, mal-entendidos, 
perturbamos, atormentamos, incomodamos, infernizamos, e com isso acabamos por dificultarmos ainda 
mais a paz alheia. O mais espantoso é que, ao final de tudo, ainda nos queixamos, dizendo que não somos 
reconhecidos ou compreendidos por estarmos querendo ajudar. 
 
Por exemplo,se vemos alguém desesperado por estar enfrentando dificuldades financeiras, e se já 
vivenciamos situação semelhante no passado, apressamo-nos em dizer ao outro que sabemos o que ele 
está passando, o quanto está sofrendo, que sua situação corta-nos o coração, nos deixa consternados. 
Nossas recordações vêm a tona. E, sem perceber, reagimos a essas lembranças. A mente faz muitas 
associações. Todas as palavras de consternação sobre a situação do outro não passam de lamentações 
relacionadas ao nosso próprio passado. O “eu vítima” se lamenta de seus sofrimentos, de suas dores e 
dificuldades. A memória traz também o emocionalismo. Na verdade, o que desperta em nós é um profundo 
sentimento de auto-comiseração. Mas não percebemos nada disso, acreditamos piamente que estamos a 
nos compadecer do próximo, acreditamos que um nobre sentimento de empatia nos move. 
 
Para podermos compreender o sofrimento do outro, precisamos antes compreender os nossos 
próprios sofrimentos, bem como as ilusões, os apegos e os desejos a eles associados. Enquanto não 
encararmos o sofrimento como uma ilusão, viveremos a nos identificar com o sofrimento alheio, e seremos 
incapazes de ter um real sentimento de compaixão. 
 
É comum nos convencermos de que muito aprendemos com nossos sofrimentos, quando, na 
realidade, o que acreditamos ser aprendizagem não passa de mágoas, ressentimentos, medos e 
repressões acumuladas, não passa travas criadas, de dispositivos de defesa. Enquanto carregarmos esses 
fardos, estaremos presos a um passado, um passado que, provavelmente, não aconteceu ou foi mal 
interpretado. 
 
Apegamo-nos aos nossos sofrimentos, apegamo-nos às nossas versões das situações e à nossa 
forma de vê-las. Somos incapazes de perceber que tais situações não se passaram como as imaginamos, 
como as fantasiamos em nossa mente.Não conseguimos ver as ilusões como meras ilusões. Criamos 
problemas, inventamos versões para as mais diversas situações, distorcemos os fatos, distorcemos a 
realidade e seguimos acreditando que assim o foi. É muito difícil olharmos para trás, olharmos para o nosso 
passado e aceitarmos que nada do que achamos que tinha acontecido realmente aconteceu. Na realidade, 
o passado, tal qual acreditamos que foi, não aconteceu. 
 
E um dos fatores que nos impulsiona a ajudar os outros, a eliminar suas dores, é a culpa que 
sentimos face ao sofrimento alheio. 
Sobre a Identificação com Pensamentos 
 
 
É importante manter a mente limpa. É importante que não deixemos os maus pensamentos 
penetrarem nossas mentes. 
 
Após termos observado a doutrina dos múltiplos Eus, após termos experimentado diretamente, ao 
menos uma vez, a pluralidade desses Eus dentro de nós, podemos, enfim, compreender a identificação com 
os pensamentos, podemos explorar a experiência direta do que vem a ser, na verdade, a identificação com 
os pensamentos. 
 
Compreendendo um Eu, observamos, de forma direta, pensamentos, conceitos, explicações, 
padrões, experiências e lembranças a ele associados. 
 
Da mesma forma, podemos também observar que muito dos pensamentos que passam diariamente 
por nossa mente não são nossos, mas destes Eus. No entanto, muitas vezes acreditamos no que estamos 
pensando, e ficamos apaixonados por nós mesmos, apaixonados pelos pensamentos que passam por 
nossa mente, ou seja, nos identificamos. 
 
Diz Samael Aun Weor em “Tratado de Psicologia Revolucionária”: 
 
 Do centro intelectual surgem diversos pensamentos provenientes não de um Eu permanente como 
supõem nescicamente os ignorantes ilustrados, mas dos diferentes “Eus” em cada um de nós. 
 
 Quando um homem está pensando, crê firmemente que ele em si mesmo e por si mesmo está 
pensando. 
 
Sabemos que um Eu magoado, por exemplo, tem suas histórias, suas canções. Cientes disto, o que 
temos de fazer é procurar compreender por que acreditamos que os pensamentos de mágoa que 
atormentam nossas idéias são pensamentos nossos, por que nos identificamos com tais pensamentos e 
nos sentimos magoados com isso. Quando um Eu magoado toma conta de nosso centro intelectual e nós 
nos identificamos, tendemos a acreditar que este Eu é realmente parte de nós. 
 
Enquanto não nos dissociarmos destes Eus, enquanto não tomarmos verdadeira consciência de 
que existem muitos Eus dentro de nós, continuaremos a nos identificar com esses Eus. E, assim, o 
sofrimento será inevitável. 
 
 Por acreditarmos que todos os pensamentos que passam por nossa mente são nossos, vivemos 
em conflito interno, sofremos a cada vez que somos assaltados por desejos antagônicos, frustramo-nos 
quando oscilamos de um estado a outro, da euforia à tristeza. Isto ocorre porque não conseguimos 
compreender, perceber, que não somos nós. Somos incapazes de reverter tal situação em benefício de 
nosso auto-conhecimento. 
 
Projetamos nossos defeitos nos outros, identificamo-nos com pensamentos que passam por nossa 
mente como relâmpagos ou com os mesmos velhos pensamentos carregados de conceitos e preconceitos, 
valores, rótulos. E nos comportamos de acordo com tais pensamentos. 
 
Enquanto nos deixarmos fascinar por nossos pensamentos, lindos e floridos pensamentos que 
nutrimos sobre nós mesmos; enquanto estivermos experimentando uma sensação de prazer cada vez 
maior com eles, inevitavelmente sofreremos diante dos maus pensamentos, nossos e dos outros. 
 
O tempo todo precisamos nos relacionar com os demais. Inevitavelmente, em tais relacionamentos 
nossos defeitos, mais cedo ou mais tarde, saltam à vista. Porém, nos mantemos atentos, somos capazes 
de percebê-los. 
 
Os maus conceitos que fazemos dos outros podem nos deixar predispostos à irritação, à violência, 
à má vontade. Ocorre que, uma vez identificados com tais pensamentos, antes de começarmos a 
estabelecer o contato com o outro, já nos mostramos irritados com ele. Em nosso pensamento 
condicionado, o outro já é culpado antes mesmo de começar a falar, antes mesmo de estar em nossa 
presença. Uma vez Identificados com tais pensamentos, muitas vezes não conseguimos ouvir ou 
interpretamos mal o que o outro está dizendo. Esses conceitos, esses preconceitos, não passam de 
projeções mentais. São pensamentos com os quais nos identificamos fortemente. Não questionamos, 
porém, que talvez alguns dos conceitos que formamos sobrealguém em nossa mente tenham sido 
passados por uma outra pessoa. Desta forma, se alguém nos diz que o outro é de desta ou daquela forma, 
mesmo sem conhecermos a pessoa em questão, já nos antecipamos agindo condicionados por projeções 
mentais que nem são nossas, mas de outrem. Formamos opiniões pré-concebidas como: "Ele é orgulhoso"; 
"Ele é enrolador"; "Lá vem aquele chato!"; "Vou ter que falar com aquele ignorante!"; "Vamos ver do que ele 
vai reclamar agora"; "Lá vem pergunta idiota novamente"; "Estou aqui ocupado e lá vem ele de novo me 
atrapalhar com suas bobagens"; "Cuidado com o Fulano, pois ele já fez isso, aquilo e aquele outro"... Não 
podemos nos abrir aos nossos maus pensamentos. Mais do que isto, não podemos nos abrir aos maus 
pensamentos dos outros. 
 
Nossos egos vivem criando problemas onde não existe nada além de uma mera situação. 
Infelizmente, somos dados a nos identificar com as múltiplas ilações que a cabeça fabrica e metemos os 
pés pelas mãos, ao invés de enxergarmos os fatos com clareza e isenção. 
 
Justamente por esta razão, os planos que fazemos para resolvermos nossas pendências, para 
abordarmos o outro, e que envolvem pensamentos como: “Vou contar isso para Fulano, mas se ele disser 
aquilo, vai ver só..."; "Acho que ele vai brigar comigo"; "Ele não vai me fazer perder tempo" etc., geram 
medo, insegurança, dúvida, incerteza, ansiedade. Deixam-nos predispostos à irritação, ao nervosismo, à 
violência, à grosseria, à brutalidade. São apenas pensamentos, é verdade. Mas, se nos identificamos com 
eles, já nos surpreendemos planejando maldades, vinganças, violência, brutalidade, antes mesmo de a 
situação existir. Tais planos são parte de alguns de nossos dispositivos de defesa. E alimentar esses 
planos é uma forma criar problemas. Se agimos desta forma, com planos premeditados, não será possível 
desfrutarmos de relações serenas e espontâneas. Se agimos desta forma é porque estamos presos ao 
passado e longe do momento presente, estamos reagindo a situações já vividas. 
 
Em síntese, se nos identificamos com os maus pensamentos, acabamos nos irritando sem mesmo 
sabermos ao certo o motivo de tal irritação, sem consciência dos fatores que geram tal reação, pois não 
paramos um momento para nos perguntarmos o porquê da situação e de nossa irritação. 
 
Por mais que as pessoas sejam realmente como pensamos, como supomos que são, e nossa 
opinião sobre ela não é das melhores, ainda assim, se nos conhecemos bem e se temos em nós o 
sentimento de compaixão, bondade, paciência, tolerância, não ficaremos irritados, nervosos, irados, não 
agiremos de forma violenta, de forma bruta, com grosseria. 
 
Como já mencionado anteriormente, quando nos identificamos com nossos pensamentos, nosso 
comportamento passa a ser condicionado, mecânico. Se formamos um bom conceito a respeito de uma 
determinada pessoa, consequentemente, vamos ter com ela um bom contato, um bom relacionamento bom, 
uma boa interação; vamos nos dirigir a essa pessoa com educação, atenção e alegria. Ao contrário, se 
formamos um mau conceito a respeito de alguém, o resultado inevitável será um mau contato, um mau 
relacionamento, uma má interação; vamos nos dirigir a essa pessoa de forma grosseira, com irritação, com 
má vontade. 
 
Os conceitos que fazemos de terceiros não passam de idéias, valores, rótulos, são apenas 
pensamentos. É como se estivéssemos nos relacionando com a fotografia de uma pessoa ou de uma 
situação, com a imagem mental de uma pessoa ou de uma situação, e não com a pessoa ou a situação em 
si. Olhar para uma fotografia é sempre olhar para o passado. O ego está preso ao tempo. Se agimos desta 
maneira, estamos reagindo ao passado. Não estamos agindo efetivamente no presente. Portanto, não será 
esta uma ação adequada, pois nada de real está acontecendo no agora. Precisamos perceber este 
processo. 
 
Ficamos com vergonha por nos identificarmos com o pensamento que de a situação é vergonhosa. 
Ficamos ofendidos por nos identificarmos com o pensamento de que uma ofensa foi dirigida para nós, por 
estarmos identificamos com pensamentos, o conceito de que certas palavras, certas formas de expressão, 
são ofensivas. Ficamos com medo por nos identificarmos com o pensamento de que a situação é temerosa. 
 
Deveríamos analisar como seriam as mesmas situações se tais pensamentos não nos habitassem 
a mente, ou mesmo se, apesar de já terem passado por nossa cabeça, não tivéssemos nos identificado 
com eles. 
 
Deveríamos analisar como seriam as mesmas situações se não tivéssemos em nós apenas o 
desejo de experimentar sensações boas, rejeitando, repudiando, evitando qualquer possibilidade de virmos 
a nos submeter a sensações ruins. 
 
A identificação com conceitos, padrões, valores, que permeiam nossos pensamentos e idéias, 
embota a mente. A identificação com pensamento é a própria crença num Eu permanente, o que se 
contrapõe inteiramente à doutrina Gnóstica e também à doutrina Budista. 
 
Para começarmos a reduzir gradativamente a identificação com os pensamentos, a prática 
meditativa de silenciar a mente é a melhor opção. Mas não podemos, de forma alguma, deixar de lado a 
prática da meditação reflexiva, analítica, e as súplicas à Divindade, ao Cristo Interno, a Mãe Divina, visando 
à morte dos Eus. 
 
 
 
Sobre a Identificação 
 
 
Identificação é como sonho. Acontece quando achamos que somos algo de nós, como por exemplo, 
o corpo, ou quando achamos que somos algo que ocorre conosco, como por exemplo, o que foi dito ou 
dirigido à nossa pessoa. 
 
É como se estivéssemos em estado de hipnose, totalmente fascinados por tudo que nos cerca, por 
nós mesmos, ou melhor, fascinados pelo que achamos que somos, pelo que achamos que são coisas são, 
pelo que achamos ser a realidade. 
 
Ao que parece, existem níveis de consciência ou de inconsciência de identificação. 
 
A identificação é um fenômeno que ocorre de forma tão absurdamente forte em nós que nos 
identificamos com o personagem que estamos representando nesta existência, com a personalidade. Então, 
como não conseguimos lidar bem com isso, projetamo-nos para uma camada superior e passamos a nos 
identificar com outras coisas, em camadas cada vez mais externas a nós. 
 
A princípio, nos identificamos com idéias e pensamentos, depois com o próprio corpo, com as 
pessoas e com as situações. Enquanto não conseguirmos nos desidentificar em relação à personalidade, 
continuaremos a nos identificar com situações e pessoas externas. 
 
Assim, identificamo-nos com os personagens da televisão, rimos, choramos, ficamos tristes, 
nervosos. Sentimos todas as emoções desses personagens. Mas a realidade é que, em nenhum momento 
saímos da frente da TV, ou seja, não havia motivo real para alterações do estado emocional. Tudo não 
passou de projeções e identificações, fascinações, sonhos e fantasias. Fomos e somos enganados pela 
mente. E o pior é que gostamos de ser enganados, sentimos prazer com isso. 
 
A diferença entre este tipo de projeção/identificação e a projeção/identificação com a vida e com as 
pessoas é que, quando desligamos a TV, sabemos que nada do que assistimos era real. É bem verdade 
que algumas pessoas continuam em processo de identificação e projeção mesmo após sair da frente da TV, 
mas estes são casos mais extremados de fuga. 
 
Sempre que passamos por algum sofrimento, nos identificamos com o sofrimento dos outros, seja 
na televisão ou na vida, no dia-a-dia. Identificamo-nos com mendigos, cachorros, indivíduos 
desempregados, maltratados, falidos, abandonados, de acordo com a natureza de nossas experiências, 
impressões, memórias, conceitos e preconceitos, padrões ou sensações. 
 
Se uma pessoa se identifica com algo é porque, em alguma instância, ela é esse algo ou possui 
esse algo. Porém, a “casca” intelectual, os padrões, os conceitos e preconceitos, o orgulho e a vaidade, 
impedem a compreensão desta realidade. 
 
Seja como for, o fato é quenos identificamos com uma visão muito limitada de nós mesmos, 
baseada no desejo, na ignorância, na ilusão, na necessidade de aceitação, de auto-afirmação, e essa visão 
limitada corresponde só a uma pequena parte de nós. Assim, divididos, separados, fragmentados, cheios de 
conflitos internos, vamos projetando tudo isso, vamos criando conflitos com os outros e alimentando a 
separatividade. Em síntese, identificamo-nos com aquilo que reconhecemos ou aceitamos em nós e 
rejeitamos, nos outros, aquilo que não reconhecemos ou não aceitamos em nós. 
 
Vivemos a fazer julgamentos, identificados com a parte da história que achamos ser a melhor. 
Rotulamo-nos e ficamos identificados com rótulos que nos atribuímos. Sempre que emitimos um 
julgamento, como por exemplo: “isso é raiva” e “isso é paciência”, rotulamo-nos como pacientes, nos 
identificamos com este quadro e ficamos cegos para as situações de raiva ainda não observadas. 
Justificamos aquelas já observadas e ficamos cegos para os aspectos da raiva ainda não reconhecidos. 
Esta postura dificulta muito, quando não impossibilita, qualquer tipo de mudança, qualquer tipo de evolução. 
Limitamo-nos. Não há mais o que conhecer sobre a raiva. Como previamente determinamos, somos 
“pacientes”. 
 
A identificação é uma escravidão que nasce da insegurança, da necessidade de aceitação e de 
auto-afirmação, de uma mente frágil e divida pelos egos. Se nos atribuem rótulos favoráveis, se nos 
elogiam, sentimos prazer, nos identificamos, de pronto, como a imagem positiva que fizeram a nosso 
respeito. Identificados, cegos e fascinados, tudo fazemos para correspondermos às expectativas que 
depositaram em nós e recebermos mais e mais elogios. E, nessa busca incessante por aceitação e prazer, 
vamos nos escravizando. 
 
Enquanto estivermos identificados, estaremos apenas trocando de rótulos. Embora sejam rótulos 
mais bonitos e agradáveis, continuarão a ser rótulos, e nós continuaremos cegos. Na realidade, não existe 
importância ou valor para qualquer rótulo que possamos receber em função de nossas falhas, de nossos 
atos fora de padrão. Se estamos atribuindo importância aos rótulos a nós destinados, que acreditamos ser 
negativos, maus, inferiores, é porque estamos identificados com rótulos que acreditamos ser positivos, 
bons, superiores. 
 
Para nos conhecermos melhor, precisamos, ao invés de nos identificarmos conosco, ser imparciais. 
A projeção pode ser uma arma poderosa para o auto-conhecimento. Mas, antes de analisar terceiros para 
melhor nos conhecermos, precisamos estar totalmente livres de qualquer identificação, precisamos ser 
totalmente imparciais. 
 
Conta a mitologia grega que Medusa, um ser monstruoso, com serpentes na cabeça, presas 
pontiagudas, mãos de bronze e asas de ouro, tinha o poder de petrificar aqueles que a olhassem 
diretamente. O herói Perseu, enviado para exterminá-la, utilizou então um escudo mágico de metal polido, 
que refletia a imagem de Medusa como se fosse um espelho. Desta forma, pôde decapitá-la com a espada 
de Hermes. Esta lenda ilustra bem a proposta desta reflexão. 
 
Ainda, a título de ilustração, reproduzimos as palavras de Samael Aun Weor em seu “Tratado de 
Psicologia Revolucionária”: 
 
Do mesmo modo que é indispensável aprendermos a caminhar no mundo exterior para não cairmos 
em algum precipício, para não nos perdermos nas ruas de uma cidade, para selecionarmos nossas 
amizades, para não nos associarmos com pessoas erradas, para não ingerirmos veneno, etc, assim 
também, mediante o trabalho psicológico sobre nós mesmos, precisamos aprender a caminhar no mundo 
interior, o qual é explorável pela auto-observação. 
 
Para aquele que tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, corpos falam, olhares falam, paredes falam, 
gestos falam, palavras dizem muito mais do que os sentidos normais podem perceber. O interior dos 
homens se revela através de seu exterior. É possível enxergar bem além das aparências. 
 
Empresas especializadas em sistemas de Call Center, utilizam uma técnica conhecida como 
desidentificação, a fim de evitar que os atendentes se irritem e maltratem os clientes. A técnica é aplicada 
atribuindo a cada um dos atendentes um nome fictício, que pode variar. Na verdade, trata-se de um artifício, 
de uma muleta, destituída de uma compreensão correta do que seja a não identificação. Porém, neste 
procedimento, os funcionários atendem às ligações como se fossem outras pessoas, uma vez que a 
identificação de si mesmos com o próprio nome é praticamente inevitável e traz conseqüências. Se o 
atendente utilizasse seu verdadeiro nome nesse sistema de comunicação, ao ser ofendido pelo cliente, iria 
se sentir diretamente atingido. Mas, atuando desta forma não identificada, acaba vendo tudo como uma 
brincadeira. 
 
Será que é necessário utilizarmos esse tipo de muleta? Será que é impossível, no dia-a-dia, 
percebermos que não somos um nome, uma personalidade, uma imagem mental? Será que é impossível 
percebermos que a vida é uma brincadeira, um jogo, um filme? 
 
A identificação pode acontecer sob as mais variadas formas, tão variadas quanto podem ser 
variadas as experiências de cada um de nós. 
 
Todos estamos identificados com nós mesmos, com nossos nomes – temos a sensação de sermos 
o nome. Assim, quando os atendentes da empresa assumem um outro nome, a sensação é de que são 
outras pessoas ou de não serem eles mesmos. Por conseguinte, vêem as ofensas recebidas como sendo 
dirigidas a outra pessoa. 
 
Estamos identificados com nós mesmos, com nossos nomes, personalidades. Temos a sensação 
de sermos o nome, de sermos a personalidade. Vivemos fascinados pelo personagem que criamos; nos 
apaixonamos profundamente por este personagem, por nossa personalidade. E, como todo apaixonado, 
não conseguimos perceber a realidade. 
 
Por vezes ocorre de estarmos vivendo uma situação parecida com a que uma outra pessoa também 
já viveu de maneira prazerosa. Neste caso, a pessoa irá se lembrar dos momentos vividos, se identificar 
neles, e tenderá a nos ajudar, a nos apoiar ou elogiar. Em contrapartida, a reação de alguém que passou 
por situação simular e não sentiu prazer nessa experiência provavelmente será a de reclamar, introduzir-
nos medo e apreensão, desencorajando-nos, em virtude da identificação. Há também o caso daqueles que 
não passaram pela situação mas que desejam passar por ela um dia. Estes, ao se identificarem, podem 
reagir de duas maneiras: sentir inveja e criticar ou ficar feliz por nós e nos apoiar, nos elogiar. Uma outra 
hipótese, ainda, é a de alguém que não passou pela situação, desejaria ter passado por ela, mas acha que 
já não é mais possível. Este, ao se identificar, pode ficar enfurecido e não aceitar, e aí seus egos saltarão 
das sombras, ou pode, por outro lado, se alegrar, realizando-se através de nós. 
 
Todas as formas de nos auto-definirmos, nos auto-conceituarmos, nos rotularmos, devem ser 
deixadas para trás, devem ser postas de lado, para que possamos ter paz, para que nos tornemos pessoas 
livres. A identificação com funções, com riqueza ou pobreza, com religiões, com alegrias ou tristezas, com 
sofrimentos e aflições, ou até mesmo com a própria aparência física, surge de condicionamentos que 
absorvemos desde o nascimento. É sábio identificar e descartar tudo isso. 
 
A personalidade, os egos, querem tudo para si, acreditam que tudo existe em função deles. Assim, 
se alguém elogia um trabalho que executamos, por exemplo, nos identificamos e tomamos o elogio para 
nós; se alguém expressa gratidão por nossas ações, tomamos essa gratidão para nós. E, quando tomamos 
essas manifestações para nós, para a nossa personalidade, para o nosso ego, passamos a projetar, a 
fantasiar. Acreditamos que somos ótimos, que nos adoram, que nosso trabalho é maravilhoso, que somos 
extremamente competentes. Somos tomados por sensações de prazer, poder, fama, aceitação. 
 
O sofrimento está diretamente ligado ao fato de acharmos que somoso centro de tudo, à nossa 
ganância de elogios, prazeres, poder, fama, aceitação. Movidos por esses impulsos, não há como não 
sofrer diante da contraparte negativa das manifestações a nós dirigidas, ou seja, quando, ao invés de 
elogios, recebemos críticas, ofensas ou humilhação, o que despertará em nós um sentimento de 
inferioridade, impotência, rejeição. Por exemplo, quando alguém critica um trabalho que realizamos, 
tomamos a crítica para nós e nos identificamos, interpretamos o fato como uma questão pessoal e 
sofremos. E assim ocorre com cada uma de nossas idéias que venha a ser criticada, direcionamos essa 
desaprovação para nós. Sofremos, ficamos psicologicamente abalados, por acharmos que somos as 
nossas idéias. 
 
Precisamos perceber que não somos nossas idéias, não somos nossas tarefas, nosso trabalho, não 
somos o corpo, a personalidade, não somos uma imagem, um representação mental, não somos nossa 
casa, carro, roupa, não somos diplomas, títulos, cargos. 
 
Enquanto continuarmos a viver identificados desta maneira, viveremos como escravos das 
situações, sempre reagindo sem qualquer controle. Sempre reagindo, nunca agindo. A vida nos leva a fazer 
escolhas diárias entre o certo e errado, entre o bem e o mal, entre um extremo e outro. E muitas vezes 
achamos que nossas escolhas são as melhores, mas, como estamos identificados a um nível inconsciente, 
nem sempre conseguimos enxergar a verdade das situações. Assim, nossa reação será uma reação viciada 
pelo passado. E reagir já é um erro em si. 
 
Precisamos parar de culpar os outros pelo que nos acontece de ruim, precisamos tomar as rédeas 
das situações. Esta é a única maneira de modificá-las. Mas essa mudança nunca acontecerá enquanto 
acharmos que a culpa é dos outros, das condições externas, etc. Procurar culpas externas faz parte da 
fantasia, da fascinação, faz parte da identificação. 
 
Só conhecendo a verdade sobre cada aspecto da identificação é que conseguiremos nos libertar 
dela e compreenderemos o que é a identificação em sua essência. 
 
Por enquanto, podemos concluir apenas que nada sabemos sobre identificação, que somos 
ignorantes neste assunto. Qualquer tentativa, neste momento, de definir a identificação em nós pode limitar 
nossas experiências. Precisamos estar abertos, para que possamos nos permitir, cada vez mais, a 
descoberta, o conhecimento da identificação em nós. Precisamos estar abertos, para que possamos nos 
permitir, cada vez mais e mais profundamente, a descoberta, o conhecimento da identificação em si. 
 
 
Sobre a Ilusão da Aceitação e da Auto-afirmação 
 
 
A auto-imagem é uma ilusão, frágil, sobre si mesmo, que leva à insegurança, à necessidade de 
auto-afirmação, à necessidade de aceitação. A satisfação de tais necessidades provoca uma sensação 
momentânea de prazer. 
 
As pessoas se identificam, inevitavelmente, umas com as outras, seja por seus problemas, aflições, 
sofrimentos, posses, posições sociais, crenças religiosas, ou por suas necessidades aceitação, de auto-
afirmação. 
 
E, assim, vão criando suas tribos, seus grupos. Grupos de drogados, de alcoólatras, executivos, 
médicos, religiosos, compostos pelos mais variados tipos de participantes: pessoas elegantes, milionárias, 
roqueiros, donas-de-casa, mães, solteirões, separados, etc. Como os integrantes desses grupos costumam 
pensar da mesma forma, acreditar nas mesmas coisas e ter as mesmas ilusões, acabam acreditando 
também que suas ilusões são reais. 
 
Por exemplo, quando duas integrantes de um grupo de mulheres elegantes se encontram, é comum 
vê-las trocando elogios, ou seja, projetando o que acham sobre si mesmas. Cegas pelo orgulho e pela 
vaidade, influenciadas por conceitos e valores distorcidos, identificadas, acreditam que são realmente 
lindas, elegantes, maravilhosas. 
 
A necessidade de aceitação e de auto-afirmação pertence aos egos, são pura ilusão. Pessoas com 
idéias, ilusões, padrões e valores contrários se rejeitam; pessoas com idéias, ilusões, padrões e valores 
similares, se atraem. 
 
Um indivíduo luxurioso se identifica com outro indivíduo luxurioso, os dois projetam mutuamente 
entre si seus egos de luxúria. Com isso, se sentem aceitos, se auto-afirmam. Por outro lado, um sujeito 
reprimido tende a rejeitar o luxurioso, mas também está apenas projetando seus egos de santidade, retidão. 
São meras repressões de seus egos de luxúria, uma espécie de inversão de valores. Desta forma, o 
luxurioso pode sentir as dores da rejeição e o reprimido os prazeres da auto-afirmação. 
 
É tudo uma grande insensatez. Ficamos a projetar incessantemente nossas virtudes e defeitos. Se 
nos identificamos, nos adoramos nos outros; se não nos identificamos, nos repudiamos nos outros. E, no 
final das contas, não há ninguém a nos rejeitar ou aceitar, é a nossa própria mente que faz isso conosco. 
Mais uma vez, somos vítimas de nossa própria ignorância. 
 
Ao nos auto-afirmarmos, vamos fortalecendo nossos egos, aumentando nossos lado sombra, 
nossas trevas, vamos aumentando nossas ilusões sobre nós mesmos e sobre a realidade. E continuamos a 
nos projetar e nos identificar, a rejeitar ou aceitar, projetando nossos próprios reflexos nos outros. 
 
Enquanto não nos aceitamos, não paramos de correr atrás da aceitação dos outros. Mas o desejo 
de sermos aceitos traz junto consigo o medo da rejeição. Quando, enfim, nos aceitamos, alcançamos a 
libertação. Já não somos mais escravos de nossos demônios ou dos demônios alheios, tampouco do nosso 
orgulho ou do orgulho alheio. 
 
Quando nos aceitamos, já não nos importa se nos acham feios ou bonitos, gordos ou magros; 
passamos a compreender que éramos prisioneiros de conceitos e preconceitos sem fundamento. Neste 
momento, já somos capazes de aceitar os que pensam da forma que pensávamos antes, pois sabemos que 
essas criaturas encontram-se aprisionadas em suas idéias. Neste momento, já somos verdadeiramente 
capazes ter compaixão, pois compreendemos o sofrimento daqueles que agonizam nas próprias prisões 
que criaram. 
 
 
 
 
Sobre a Ilusão da Superioridade e da Inferioridade 
 
 
Alguns acreditam que, por terem mais dinheiro, ou um carro mais caro, uma casa maior, um cargo 
melhor, uma posição hierárquica mais alta, mais escolaridade, mais erudição, são mais ou melhores do que 
outros. 
 
Porém, há um fato insofismável, que não pode mudado: todas as pessoas são apenas pessoas. 
 
Diz Mestre Samael, em uma de suas conferências: 
 
O homem, mesmo que seja muito perfeito, na realidade, mesmo que chegue a ser um Boddisattwa, 
não é mais que isso: um homem. 
 
Deus é o Pai que está em secreto; só ele é Deus. 
 
Não há certificado, crachá, carro ou bens que possa mudar o que somos. Não adianta ter, ter e ter. 
A questão não é “ter”, mas “ser”. E, quando se “é” verdadeiramente, percebe-se que ninguém é mais ou 
menos do que o outro. 
 
A formação familiar, a influência dos professores, os conceitos e preconceitos existentes na 
sociedade, introduzem a idéia de que umas pessoas são melhores do que outras, induzem a competição, 
segundo seus valores. Disto decorre a necessidade de auto-afirmação, de aceitação, que certos indivíduos 
têm, bem como o seu orgulho e a sua vaidade. 
 
A conseqüência dessa postura é a repressão, a auto-cobrança, o desejo, o sofrimento. 
 
De tanto que somos criticados, de tanto que somos cobrados, acabamos achando que aquele que 
nos critica e nos cobra é maior e melhor do que nós. Mas isto é apenas uma impressão fabricada por nossa 
mente, não é a realidade. A possibilidade maior, nesses casos, é que são os nossos próprios críticos que 
não se aceitam, que se cobram, que se criticam ou se culpam demais. Nós estamos somente 
desempenhando o papel de objeto de suas projeções. 
 
Não há ninguém acima de nós. Se temos esta impressão, esta sensação, é porque estamos, nós 
mesmos, colocando-nos para baixo. E, sendo assim, precisamos reavaliar nossos pontos de vista, nossasimpressões e sensações. 
 
Libertarmo-nos da idéia de que não há ninguém acima de nós é bem mais fácil do que nos 
libertarmos da idéia de que somos superiores. 
 
 
 
Sobre a Ilusão do Auto-conhecimento 
 
 
Os indivíduos acreditam que se conhecem e que conhecem os outros. Na realidade, o que eles 
conhecem é apenas a máscara que lhes é apresentada. E mesmo assim, muito mal. 
 
Estamos acostumados a atribuir rótulos às pessoas que nos cercam. E, quando não conseguimos 
fazê-lo, passamos a ver como estranhos aqueles que escaparam dos nossos rótulos. Passamos a temê-los, 
uma vez que parecem estar fora de nosso controle. 
 
Disse um grande Mestre: 
 
Necessitas confiar em ti mesmo. Dizes que te conheces muito bem? Se assim pensas, não te 
conheces; conheces apenas o débil envoltório externo que freqüentemente tem caído na lama. 
 
Auto-conhecimento não é a acumulação de informações sobre nós mesmos. Auto-conhecimento é 
a percepção dos mecanismos de operação da memória, pensamento, mente, instintos, emoções e 
sentimentos. Sem o auto-conhecimento, os demais conhecimentos podem ser até perigosos. 
 
Quanto mais acumulamos conhecimento sobre nós mesmos, sobre o que é o medo, a raiva, o 
sofrimento, mais nos cegamos. Vamos achando que mudamos, que evoluímos, que não temos mais este ou 
aquele defeito. E nesta cegueira seguimos vivendo miseravelmente. Sofremos, sentimos mágoas e medos, 
sem sequer perceber a ação destes sentimentos em nós. Isto acontece porque não somos sinceros ao 
olharmos para dentro de nós mesmos. Não estamos verdadeiramente decididos a nos conhecer, a nos 
purificar, não compreendemos realmente o que se passa dentro de nós. 
 
Somos feitos de muitos aspectos. Alguns são conhecidos por todos, outros apenas pelos mais 
próximos, há aqueles que só nós conhecemos e os que só nós desconhecemos, e ainda há os aspectos 
que ninguém conhece, estes “só Deus sabe”. 
 
Compreender é a meta. Através do auto-conhecimento, do discernimento, podemos alterar nossos 
estados internos. O entendimento é o primeiro passo; a prática, o segundo. 
 
O auto-conhecimento não é a auto-aplicação de rótulos. Ao notarmos que precisamos mudar, 
melhorar, começamos a nos rotular. E assim vamos atribuindo rótulos melhores para as nossas partes 
“deficientes”. Mas, enquanto não percebermos que somos ignorantes em relação a nós mesmos, que não 
nos conhecemos; enquanto não observarmos que quanto mais nos explicamos, menos sabemos sobre nós, 
enquanto nada disso acontece, vamos acreditando que nos conhecemos cada vez mais e melhor. Na 
verdade, estamos apenas trocando rótulos. O auto-conhecimento foi trocado pelo prazer de rotular, pelo 
amor próprio, pela auto-importância, por sentimentos que, desde há muito, vêm nos cegando. 
 
O que as pessoas conhecem das outras é o comportamento padrão, condicionado pela sociedade, 
pela falsa moral - os ditos “bons costumes” -, pelo medo, pelos conceitos e preconceitos, pelos vícios de 
conduta fortemente arraigados, pelo mecanicismo. 
 
Existe uma infinidade de defeitos e virtudes ocultos dentro de cada um. A partir de tal premissa, é 
possível justificar por que algumas pessoas, aparentemente calmas e afáveis, são capazes de, num 
rompante inesperado, cometer crimes, assassinatos, estupros. Tais circunstâncias só nos surpreendem 
porque achávamos que conhecíamos a pessoa em questão. 
 
O ser humano é um mistério, e pouco sabemos deste mistério. Uma pessoa que aos nossos olhos 
pode parecer mesquinha, egoísta, avarenta, muitas vezes se dedica a grandes obras de caridade ou 
trabalha como voluntária em louváveis projetos de inclusão social, sem que ninguém saiba. 
 
Disse uma grande sábia: 
 
Uma pessoa tida com caridosa pode ser arrogante, convencida e até mesmo cruel em seus 
relacionamentos pessoais, pode ser gentil com os animais e duros com os seres humanos ou gentil com os 
seres humanos e indiferente para com animais e plantas. 
 
Quem vai saber o que se passa na mente daquela pessoa que sempre nos cumprimenta com um 
sorriso habitual? Talvez ela esteja pensando: “Lá vai aquele idiota, aquele chato”. Quem saberá? Um 
sorriso amigável, que nos causa simpatia, não define o caráter ninguém. Pode ser até que aquela pessoa 
aparentemente simpática seja generosa e boa. Mas, novamente, quem saberá? 
 
Se nos mantivermos abertos e observarmos cuidadosamente as pessoas, poderemos chegar a 
conclusões mais apuradas, e até contraditórias. Mas, para isso, temos que ser livres de preconceitos, temos 
que ser imparciais. 
 
Não temos como saber como alguém vai reagir em diferentes situações de pressão, não temos 
como prever os limites de cada um, não temos como conhecer o estado emocional do outro, em 
determinados momentos. 
 
Seqüências diferentes de acontecimentos podem levar pessoas a ações muitos diferentes em 
acontecimentos isolados. 
 
Muitos indivíduos fazem coisas que eles mesmos chegam a duvidar, posteriormente, que foram 
capazes de fazê-las. Não é raro vermos nos jornais autores de crimes bárbaros dizerem às autoridades que 
não sabem explicar o que aconteceu. 
 
As pessoas, muitas vezes, se modificam conforme o ambiente e as pessoas com quem convive. 
Assim, costumam assumir diferentes comportamentos e facetas em função de cada contexto, ou seja, junto 
à família, na companhia de amigos, no local trabalho, quando estão a sós com outro alguém e na intimidade 
de seus próprios sonhos. 
 
Não nos conhecemos. Como podemos afirmar que nos conhecemos? Como podemos afirmar que 
conhecemos o outro? Não, não podemos. Acreditar nisto é só mais uma fantasia que nos dá uma certa 
segurança, ou melhor, uma certa sensação de segurança, uma referência que nos ajuda a viver. 
 
O auto-conhecimento só começa a se tornar possível quando admitimos nossa ignorância, nossa 
miséria, nossa nulidade. A partir de então, vamos deixando de carregar o peso do orgulho e da vaidade. 
Paulatinamente, vamos diminuindo a auto-definição, a identificação, o que nos tornará abertos para nos 
conhecermos, para conhecermos os outros, para conhecermos o mundo. 
 
O fato de não conseguirmos perceber defeitos em nós não significa que somos evoluídos. Ao 
contrário, significa que estamos cegos, adormecidos, que não nos aceitamos como somos, que não nos 
conhecemos. 
 
A busca por auto-conhecimento não pode ser uma busca por perfeição, já que a perfeição é produto 
do orgulho, da vaidade, e um fardo muito difícil de ser carregado. A busca por perfeição, mais cedo ou mais 
tarde, nos levará a achar que somos melhores que os outros, que já somos isso ou aquilo. Então o auto- 
conhecimento não será possível. 
 
Uma famosa psicóloga junguiana disse certa vez: 
 
Individuação significa ser revelado como pessoa total – não perfeita, senão completa. 
 
Segundo Jung, todo indivíduo possui uma tendência para a individuação ou auto-desenvolvimento. 
Individuação é um processo de desenvolvimento da totalidade dentro de cada um, e, portanto, um 
movimento em direção a uma maior liberdade, é um processo de integração das várias partes da psique. E, 
decerto, essas partes não são perfeitas em sua totalidade. 
 
O auto-conhecimento amplia a consciência, diminuindo o egocentrismo, diminuindo desejos, 
temores, esperanças, expectativas, ambições de caráter pessoal, que sempre compensamos ou 
invertemos de forma inconsciente. 
 
O auto-conhecimento faz parte de um processo de desenvolvimento do Ser em seu objetivo de 
tornar-se uno. Não é um processo de desenvolvimento da personalidade, não é um processo direcionado 
para a obtenção de maior aceitação, reconhecimento, erudição, auto-afirmação, segurança, felicidade, 
prosperidade, riqueza; não é um processo que visa retorno, que visa a satisfação dos sentidos. O auto-
conhecimento é um processo que se caracteriza pela devoção, pela entrega e pela veneração, onde 
reconhecemos e compreendemos os animais, os demônios, que vivem em nosso interior e os sacrificamos 
aos pés da Divindadeque existe dentro de cada um de nós. 
 
No processo do auto-conhecimento, precisamos desnudar e compreender personalidade, que é 
formada por muitos egos. Ao dissolvermos esta máscara, descobrimos que, embora ela aparente ser 
individual, é um resultado da sociedade e do tempo, visto que é na interação com os outros que vai se 
formando. Descobrimos que ela nada tem de real, que não passa de um conglomerado de conceitos e 
preconceitos, de padrões sociais, culturais e de época, de experiências, memórias, preferências, crenças, 
medos e temores. 
 
Somos levados, por falsos conceitos, a crer na individualidade, no “eu mesmo”. Mas enquanto 
existir um ego dentro de nós, não teremos nossa individualidade, nossa unicidade. O ego não deve, em 
hipótese alguma, se confundir com o Ser. 
 
A mente não pode compreender a mente, um ego não pode compreender outros egos. Precisamos 
da consciência para compreender os egos, e precisamos do sopro Divino para eliminar esses egos, uma 
vez compreendidos. 
 
Em Mateus 12, as palavras falam por si: 
 
22 – Trouxeram–lhe, então, um endemoninhado cego e mudo; e, de tal maneira o sarou que o cego 
e mudo falava e via. 
 
23 – E toda a multidão se admirava e dizia: Não é este o filho de Davi? 
 
24 – Mas os fariseus, ouvindo [isto,] diziam: Este não expulsa os diabos senão por Belzebu, 
príncipe dos diabos. 
 
25 – Jesus, porém, conhecendo os seus pensamentos, disse–lhes: Todo reino dividido contra si 
mesmo é devastado; e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá. 
 
26 – E, se Satanás expulsa a Satanás, está dividido contra si mesmo; como subsistirá, pois, o seu 
reino? 
 
27 – E, se eu lanço fora os diabos por Belzebu, por quem os lançam fora, então, os vossos filhos? 
Portanto, eles mesmos serão os vossos juízes. 
 
28 – Mas, se eu lanço fora os diabos pelo espírito de Deus, é conseguintemente chegado a vós o 
Reino de Deus. 
 
29 – Ou, como pode alguém entrar em casa do [homem] valente, e furtar os seus bens, se primeiro 
não manietar o valente, saqueando, então, a sua casa? 
 
30 – Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha. 
 
 
 
Sobre a Ilusão do Controle 
 
 
Passamos a vida reclamando, desesperados, estressados, infelizes, por causa das condições 
do mundo exterior. Queremos controlar a tudo e a todos, vivemos na ilusão de que podemos controlar o 
que é externo a nós. Mas tudo não passa de uma sensação. 
 
Elaboramos planos para nossas ações, planos que também nos dão a confortável sensação de 
controle. No entanto, esquecemos que a vida tem seus próprios planos, nosso espírito tem seus próprios 
planos. 
 
Um planejamento simples, como por exemplo, acordar cedo, tomar um banho, vestir tal roupa e 
sair para trabalhar, pode não ser tão garantido quanto parece, uma vez que depende de condições 
exteriores, alheias à nossa vontade. Vários contratempos podem acontecer e nos fazer acordar mais tarde, 
impedir o banho planejado, o uso da roupa previamente escolhida e a saída para o trabalho naquele 
momento. 
 
A princípio, a situação parece depender apenas do sujeito que a planejou. Mas suponhamos que 
sua mãe ligou dizendo que estava passando mal e precisava de ajuda para ir ao hospital, ou que faltou 
energia para o seu banho quentinho, ou que a empregada queimou a roupa que ele pretendia vestir, ou 
que o cachorro do vizinho latiu a noite toda e ele só conseguiu dormir tarde da noite, e dormiu tão pesado 
que passou do horário. Como se pode notar, há muitas variáveis entre um plano e sua execução. 
 
Sabemos que a coisa funciona assim. Mas é mais cômodo acreditarmos que estamos no controle, 
iludidos por confortáveis sensações. No exemplo acima, o sujeito fantasiou uma situação, ainda que 
cotidiana e simplória, e acabou por se frustrar. Estava planejando um dia de paz, mas teve que se 
confrontar com situações externas e alheias à sua vontade. A condição de paz seria: que o telefone não 
tocasse, que o sujeito não precisasse desviar seu caminho, que houvesse energia elétrica disponível 
naquele momento, que a empregada não tivesse queimado a roupa, que o cachorro não latisse. Se num 
caso de planejamento isolado é possível ocorrer tantos contratempos, podemos imaginar como seria se os 
planos fossem feitos em conjunto. 
 
Nada além do universo interior pode estar sob nosso controle, e é exatamente esse universo que 
entregamos nas mão de nossos demônios e dos demônios dos outros também. 
 
As ilusões de que temos controle, as sensações de que estamos no controle, nos dão uma idéia 
segurança, uma falsa idéia, pois são meras ilusões, meras sensações. O desejo de controle gera o medo do 
descontrole, o desejo de segurança gera o medo da insegurança. 
 
Queremos controlar o trânsito, os sentimentos e as emoções alheias, as condições do tempo, o 
dinheiro, o trabalho, as tarefas diárias, etc. Temos medo de que algo dê errado, de que algo escape de 
nosso controle. O que preferimos ignorar é que, na realidade, nada esteve sob nosso controle. 
 
Como controlar o dinheiro? Impossível, pois inúmeros imprevistos podem acontecer. Podemos 
controlar, sim, a ganância, o consumismo, a tendência ao desperdício. O dinheiro não. A ganância, o 
desejo de ter sempre mais, está dentro de nós. O consumismo é uma ilusão, uma compulsão, que também 
está dentro de nós. E o que está dentro de nós é passível de controle. 
 
Há pessoas que passam a vida planejando e nada fazem. Sempre encontram possibilidades de 
falhas, erros, catástrofes, e hesitam diante delas. Planejar é algo um pouco diferente de tomar as medidas 
necessárias para fazer algo acontecer. 
 
É comum, quando algo dá errado após exaustivos planejamentos, nos exasperarmos e dispararmos 
uma série de queixas, dizendo que nos matamos de trabalhar, que pensamos em todos os detalhes, que 
nossos planos eram perfeitos, que não é justo o ocorrido. Porém, não nos perguntamos se chegamos a 
acreditar que realmente poderia dar certo. Provavelmente, estávamos mais preocupados com o que 
poderia dar errado. Estávamos mais preocupados em controlar. 
 
Acabamos por gerar fadiga, estafa, ansiedade, na tentativa desesperada de controlar o mundo 
externo. Mal conseguimos controlar o presente, e ainda assim pretendemos controlar futuro. Não 
conseguimos aceitar aquilo que não está sob nosso controle. Somos inseguros demais, não temos fé 
suficiente para saber aceitar o que não dominamos. Algumas vezes, podemos até ter um certo grau de 
influência sobre as coisas, mas isso não é controle, e logo saberemos. 
 
Uma grande sábia indiana disse: 
 
A vida consiste em enfrentar numerosas responsabilidades, as demandas de uma situação 
particular, as pessoas com quem estamos envolvidos, a família, os colegas de profissão. Assim o mundo 
nos induz a ações involuntárias. Podemos ter a impressão de que temos uma certa escolha, no casamento, 
por exemplo, nas amizades que fazemos ou nos interesses que cultivamos, mas a escolha é 
freqüentemente bastante ilusória. O casamento pode parecer resultado de uma livre opção, mas de fato as 
circunstâncias nos põem em contato com um número muito limitado de pessoas, e os nossos impulsos 
interiores entrando em ação naquele contexto e naquele circulo particular, criam uma escolha que não é 
realmente verdadeira. Nós praticamente caímos nos braços da situação. Se formos inteligente o suficiente, 
poderemos tirar o melhor proveito dela. De qualquer modo, desde a infância as condições exteriores nos 
impõem padrões e valores que assimilamos inconscientemente, essas são as fontes dos impulsos ocultos 
que resultam em ações. 
 
No Oriente, fala-se sobre uma escravidão pelo karma. O karma não é uma lei abstrusa agindo no 
universo, tão pouco é um processo abstrato, ele se manifesta em nossas vidas porque somos dominados 
por nosso ambiente e pelas condições à nossa volta, nós somos levados a ações em busca involuntária, 
porque desde cedo em nossasvidas, absorvemos como uma esponja as idéias e valores predominantes em 
torno de nós. Esses valores são de muitos tipos, geralmente estamos inconscientes de suas implicações. 
Podemos alterá-los um pouco, mas apesar de tudo aceitamos o condicionamento. As nossas buscas, que 
parecem ter sido feitas livremente, surgem do solo dessas noções que absorvemos. 
 
Quando percebemos nossa ignorância, nossa nulidade, quando abrimos espaço para errar, quando 
abrimos mão do controle, estamos nos abrindo também para a incerteza. Pode parecer contraditório, mas 
somente a incerteza pode nos trazer confiança. O controle não pode nos dar segurança, confiança, a 
própria idéia de controle traz consigo a insegurança, o medo do descontrole. Entregar-se às incertezas é 
uma demonstração de fé, de devoção. É como dar um passo para um abismo, onde somente a fé pode nos 
sustentar. E, quando damos este passo, sentimos a força da liberdade, da paz, do amor. 
 
 
 
Sobre a Ilusão do Futuro (A Fuga do Presente) 
 
 
A busca de prazeres externos através da TV, seja assistindo jogos, shows ou novelas, é uma 
fuga da realidade. Essas formas de entretenimento não passam de ilusões para tentarmos suprir o vazio 
interior. 
 
Existem lares em que cada pessoa tem sua própria televisão. Assim, vivem mais intensamente sua 
alienação particular, sua ilusão. Distanciando-se do convívio com o outro, não precisam se ver no espelho. 
 
A busca destes prazeres acaba se tornando um vício, que transforma essas pessoas em vídeo- 
dependentes. O mesmo também costuma acontecer no mundo virtual, proporcionado pelo computador: 
jogos eletrônicos, e–mails, salas de bate–papo, mensagens instantâneas, etc. 
 
Outro dia um certo palestrante contou uma historinha: 
 
Uma mãe entra no quarto e vê o filho assistindo TV. Pergunta se está tudo bem, preocupada com o 
fato de ele estar ali já há um bom tempo. O filho responde que está tudo bem e diz à mãe que, se algum 
dia ele adoecesse e ficasse dependente de uma máquina, preferia morrer. Então a mãe lhe responde que 
ele já pode morrer, já que está totalmente dependente da TV. 
 
Quando assistimos TV, costumamos nos projetar e nos identificar com os personagens e com as 
situações de um filme, uma novela, etc. Choramos, sentimos raiva, ficamos tristes, nos realizamos através 
desses personagens. Com essas identificações, fortalecemos nossos egos, nossas mágoas, nossos 
sofrimentos, nossas fantasias, nossos medos, condicionamentos, padrões. Casos de sofrimento, de 
heroísmo, fortalecem o herói lutador e sofredor que carregamos dentro de nós. Precisamos renunciar ao 
sofrimento. E isto significa renunciar ao nosso passado mal interpretado, mal compreendido. Isto significa 
renunciar ao que somos para que possamos nos tornar algo que não somos. 
 
A diferença entre ilusão relacionada à televisão e a ilusão relacionada ao futuro é que, quando 
desligamos a TV, sabemos que nada daquilo era real, ao passo que, na ilusão direcionada ao futuro, o filme 
nunca acaba, e passamos a tê-lo como uma verdade. 
 
Um bom exemplo disso é a fantasia depositada nos filhos. Acreditamos que o nascimento de um 
filho pode melhorar o casamento e a vida, começamos a fantasiar o que irá acontecer a partir de sua 
existência. Passeios, a primeira palavra, um cônjuge agradecido e feliz, uma família invejável, ensinamentos 
que podemos passar à criança, seu crescimento saudável, sua formatura na faculdade, seu sucesso, uma 
grande carreira grande profissional. A fantasia vai longe. 
 
Quando olhamos um filho, estamos olhando muito mais para a nossa fantasia do que para o 
próprio filho. E ficamos felizes por isso. Vivemos a fantasia. Antes mesmo que a criança faça alguma 
coisa, já ficamos gratos pelas alegrias que ela poderá nos dar. Realizamos nossas frustrações através 
dela, fantasiamos que desta vez tudo vai dar certo, que estamos mais maduros. Este novo ser realizará 
tudo o que não tivemos chance de realizar. E a fantasia voa cada vez mais longe, ao ponto de nos 
esquecermos da realidade, da vontade do filho. Nada é levado em conta, somente nossos sonhos, nossas 
utopias, nossos desejos. É como um filme que se projeta em nossa mente. Com isso, a frustração é 
praticamente inevitável. 
 
É certo que o mesmo não se dá exclusivamente no caso dos filhos e pode ser estendido para 
muitas esferas. Também pode acontecer quando o foco é um emprego, um casamento, um namoro, 
viagens, um carro, um imóvel, etc. 
 
Vivemos fantasiando um futuro que poderá nunca existir. Com isso, perdemos a magia do momento 
presente, da realidade. Vivemos de fantasiar o futuro e esquecemos de um importante detalhe: quando o 
futuro chegar, quem garante que estaremos lá? 
 
 
 
Sobre a Ilusão do Otimismo e do Pessimismo 
 
 
Ter otimismo não é o mesmo que ter espiritualidade, não é o mesmo que ter fé. É apenas um 
padrão de pensamentos, de bons pensamentos. Mas mesmos os bons pensamentos são utilizados pelos 
egos - pelo ego da ganância, da vaidade, do orgulho, da ironia, do sarcasmo, etc. 
 
Acreditamos que rezar, pensar positivo, ser otimista, repetir frases positivas, pode fazer com que 
algo dê certo. Mas, nem nos momentos de nossas orações temos fé. 
 
A vida é feita de bons e maus momentos. Ver nesses momentos uma oportunidade de aprendizado 
é algo saudável. Valer-se do otimismo para negar os maus momentos ou ver os bons momentos com olhos 
pessimistas é negar a realidade. 
 
O otimismo é uma forma de pensar muitas vezes polarizada e frágil, visto que situações contrárias 
ou indesejáveis podem transformar um otimista em pessimista, com raiva da vida, com raiva de Deus. 
 
Espiritualildade nada tem a ver com o excesso ou com a falta de bens. 
 
Otimismo e pessimismo são dois pólos de uma mesma ilusão, de uma mesma falta de 
compreensão da vida. Um crê no pior, o outro no melhor – logo, ambos são crentes. Um se apega à idéia 
do pior, o outro se apega à idéia do melhor – logo, ambos são apegados. Um está condicionado pelo pior, o 
outro está condicionado pelo melhor – logo, ambos são condicionados. 
 
Aquele que tem fé, que tem sabedoria, não se deprime nos maus momentos nem, tampouco, entra 
em euforia nos bons momentos. 
 
As crenças geram recorrências, as recorrências reforçam as crenças. Uma vez que nossas crenças 
criam a realidade em que vivemos, melhor ser otimista. Mas nada ou muito pouco disso pode contribuir 
verdadeiramente para a nossa evolução espiritual. 
 
Pensamentos, positivos ou negativos, são apenas o resultado de conceitos, preconceitos, valores 
ou padrões previamente formados e a identificação que se faz com eles. 
 
De um modo geral, alguns gurus do “pensamento positivo” incitam as pessoas a pensar em 
dinheiro, a imaginar que tem dinheiro, que está bem de vida, que já possui o carro ou a casa dos sonhos, 
que atingiram o sucesso. Instruem-nas a visualizarem-se trabalhando em determinada empresa e a dizerem 
constantemente que se amam, que se aceitam. O que muitos não percebem é que, ao agirem desta 
maneira, estão dando vazão à ganância, à luxúria, à avareza, ao orgulho, à vaidade, aos apegos, aos 
desejos, ao egoísmo, à auto-adoração. É mais do que evidente que ninguém vai evitar de se magoar, de se 
sentir inferior, pelo simples fato de repetir diariamente para si mesmo que se aceita. O máximo que esses 
indivíduos podem conseguir é esconder um pouco as suas vulnerabilidades, o que é auto-engano. 
 
As frases típicas desse tipo de “pensamento positivo” nada resolvem. Também são uma forma de 
negar a realidade, de se auto-enganar. Nossa mente já vive abarrotada de idéias e conceitos, e está 
profundamente embotada por tudo isso. Logo, só pioramos o quadro ao congestioná-la ainda mais com 
essas frases de apelos “positivos”. 
 
 De nada adianta dizermos todos os dias para nós mesmos que somos felizes, que temos sucesso, 
saúde ou outra tolice imaginária qualquer. Os imprevistos acontecerão,quer digamos ou não que temos 
saúde ou sucesso. De que adianta ficarmos repetindo belas frases de impacto, se não trabalhamos sobre 
nós mesmos? 
 
 
Sobre a Ilusão do Status e da Posição Social 
 
 
Somos escravos do desejo de fama, de poder, de status, de admiração, de adoração, de aceitação. 
 
É muito interessante observar como fantasiamos a nossa realidade profissional, social. Orgulhamo-
nos, envaidecemo-nos por nossas posições sociais, nossos cargos. 
 
Quando encontramos alguém, não perdemos a oportunidade de falar onde trabalhamos, sobre o 
nosso cargo, nossas atribuições. Temos uma necessidade crônica de mostrar aos outros que estamos bem, 
de projetar nossas fantasias para o mundo. 
 
Segundo nossos conceitos, e os conceitos da sociedade, de um modo geral, uma pessoa que 
ocupa um cargo de destaque, que trabalha em empresa de grande porte, que mora em bairro nobre, é uma 
pessoa de sucesso, alguém importante, admirado. 
 
Inseridos na ilusão do mundo, cegos pelo desejo, pela auto-adoração, não conseguimos enxergar a 
realidade. Em verdade, nem queremos ver a realidade. 
 
Como já mencionado anteriormente, somos todos escravos do desejo de fama, de status, de 
admiração, de adoração, de aceitação. 
 
Somos todos escravos dos conceitos da sociedade, da mídia. Corremos atrás destes falsos 
brilhantes sem sequer perguntarmo-nos por quê. Distantes da realidade, conquistamos ouro de tolo com a 
sensação de termos conquistado ouro maciço. 
 
A mídia, a sociedade, os pais, todos nos dizem o tempo todo: estude nas melhores escolas, seja 
importante, um profissional de sucesso, famoso; mostre seu valor, esforce-se, realize seus sonhos. É isso 
que todo mundo quer. Seja competente, seja necessário, faça a diferença! Estimulam a competição e a 
disputa. Somos atirados ao ringue. Como conseqüência, pagamos o preço de conviver com a inveja, com a 
auto-cobrança, o ódio, a discórdia, a frustração, a insatisfação, o descontentamento. E vamos passando 
isso adiante, sem questionar. 
 
As escolas são classificadas, os alunos são classificados. Aqueles que obedecem, que conseguem 
se adequar mais e melhor aos padrões, aos interesses dos poderosos, aqueles que estão fascinados pela 
ração e bom pasto, são os bons bois, os bois que seguem felizes e contentes para o abatedouro. As 
empresas buscam seus profissionais dentro desta classificação. Ingenuamente, as pessoas são tomadas de 
orgulho e vaidade, e buscam, com todas as suas forças, o preparo necessário para atender tais interesses. 
 
Assim, vivem uma fantasia em função de seu status, orgulhosas e vaidosas de sua posição social, 
cargos, títulos. Não percebem, e não querem perceber, que estão escravizadas. Não percebem que estão 
numa senzala de luxo, até porque não suportariam tal idéia. Não percebem que estão fazendo o que não 
querem, o que não gostam, apenas para obter a cenoura que alguém pendurou na ponta da vara. Não há 
vantagem alguma em o ser chefe da senzala ou o líder de um grupo de escravos. Não é motivo de orgulho 
ou vaidade ser o escravo que dirige o carro de boi, ao invés do que corta cana; ser o capitão do mato, ao 
invés do escravo comum. A escravidão é a mesma. 
 
Antigamente, os escravos eram obrigados a fazer determinadas tarefas. Para cada tipo de tarefa 
era necessária uma determinada aptidão. Assim, os poderosos escolhiam os escravos a serem comprados 
a partir da análise de determinadas características. 
 
Atualmente, podemos, de certa forma, escolher a tarefa que vamos fazer. Mas devemos nos 
preparar para essa tarefa, devemos desenvolver as aptidões necessárias. Uma vez que, nos dias de hoje, o 
número de vagas é limitado e existem muitos pretendentes, os poderosos escolhem os pretendentes a partir 
de uma análise um pouco mais complexa e criteriosa. 
 
Como foi muito bem alegorizado no filmes Matrix e A Ilha, em um dado momento, alguém percebe 
que as pessoas trabalham mais e melhor quando existe algum tipo de esperança, de expectativa, por mais 
ilusórias que estas possam ser. Da mesma forma, em nosso dia-a-dia, somos estimulados pela esperança, 
pela expectativa de comprar nossas próprias roupas, nossa própria casa, nosso próprio carro, de conquistar 
status, fama, poder, de ter diversões, sensações de prazer, férias, qualidade de vida, viagens. Enfim, somos 
movidos pela ilusão de sermos livres, de fazermos o que quisermos, ainda que por alguns momentos. E, 
estas esperanças, estas expectativas, são permanentemente incentivadas, para que a máquina humana 
produza e consuma cada vez mais. 
 
Ninguém sofre por sofrer, ninguém permanece em uma situação de sofrimento sem que exista nela 
algum tipo de prazer, sem que estejam em cena a sensação de prazer momentâneo ou, sobretudo, a 
expectativa de prazeres futuros. E estas expectativas de sensações de prazeres futuros acabam por nos 
cegar, por embotar nossas mentes, tornando-nos prisioneiros de uma ilusão. 
 
A verdadeira qualidade de vida, as verdadeiras férias, os verdadeiros refúgios, estão na mente e no 
coração tranqüilos do sábio, do liberto dos desejos. 
 
A ameaça de ir para o tronco ainda ecoa pelos ares, sendo que os castigos de hoje se dão muito 
mais na esfera psicológica do que na física, e a crueldade desse tipo de castigo talvez seja ainda maior. 
Paralelamente, também ecoa a vaga esperança de escapar para algum quilombo. 
 
As barras das prisões, as paredes, as correntes, foram trocadas pelo aprisionamento das mentes, 
cultivando e desenvolvendo o desejo, o apego, a esperança, a expectativa, o sonho, a fantasia. E o 
resultado disto é muito mais devastador do que as prisões, as paredes, as correntes. Por uma tola ilusão, 
muitos de nós ainda trocamos as barras e as correntes de ferro das prisões psicológicas por barras de ouro, 
que passamos a adorar. 
 
 
Sobre a Inveja 
 
 
A inveja está ligada com a insatisfação, a ingratidão, a não aceitação, o descontentamento o 
fingimento, a mentira, a hipocrisia, a traição, a dissimulação, a maldade, a discórdia, a falsidade, a 
vingança, a falta de caráter, a fraqueza, a incapacidade e a incompetência. 
 
Identificados, fascinados pelas nossas fantasias, nós as projetamos para o mundo, acreditamos que 
elas são a realidade de nós mesmos. Deste modo acreditamos que as fantasias dos outros também são a 
realidade sobre eles. O que nos leva ao conflito, à irritação, à inveja, à competição, ao medo, à vergonha e 
ao desejo. 
 
A pessoa vaidosa quer aparecer, odeia todos aqueles que ofuscam sua imagem, a que ela tenta 
projetar. Logo, a vaidade traz também a inveja, o ser vaidoso sente inveja de qualquer indivíduo que pareça 
ser ou ter mais do que ele, quer a atenção e a adoração de todos, quer elogios e aplausos só para si. 
 
A vaidade envolve a inveja, a insatisfação e a privação dos outros. A vaidade envolve competição, 
conflito e humilhação, portanto, o resultado não pode ser bom. Todos esses sentimentos causam dor, 
sofrimento, violência, brigas e até mesmo guerras. 
 
A sensação de ser invejado é reflexo da nossa própria inveja, dos conceitos, dos padrões, da idéia 
do que isso vem a ser. Logo, um sujeito vaidoso é também um sujeito invejoso, insatisfeito; ou seja, projeta 
para os outros a sua inveja, sua insatisfação e tem a sensação de estar sendo invejado, admirado e 
adorado. Direta ou indiretamente, a vaidade causa sofrimento em quem a sente. Ela gera medo, 
insegurança, auto-cobrança, incerteza, dúvida, insatisfação, vergonha, timidez, inveja, sentimento de 
inferioridade, raiva, irritação, ansiedade e preocupação. 
 
Manifestações exageradas de dor pela dor de alguém podem encobrir uma certa satisfação. 
 
Podemos perceber nas conversas o quanto incomoda algumas pessoas quando contamos algo de 
bom que nos aconteceu, mas é só começar a contar uma tragédia que muitos outros se interessam. Os 
altos índices de audiência dos programas de televisão sobre o sofrimento, o drama e a desgraça alheia 
confirmam esse interesse. 
 
A inveja é a tristeza,a raiva, a mágoa com o bem alheio, é a alegria pelo mal dos outros. Ela gera 
sentimentos de impotência, inferioridade, insatisfação, descontentamento e ingratidão. 
 
Quando criticamos alguém, quando diminuímos, ofendemos, quando temos necessidade de falar 
mal de alguém, provavelmente estamos sentindo inveja. 
 
Na escola, na família e na sociedade são incentivadas a comparação e a competição, mas ambas 
levam à inveja que é condenada pelos mesmos que as incentivaram. 
 
É preciso abandonar a idéia de competição, pois os que ganham sentem prazer e os que perdem 
sentem inveja, raiva e buscam vingança. A própria sede de prazer é inveja e gera a condição de vingança. 
 
Existe uma inveja destrutiva, cheia de revolta, uma inveja que leva as pessoas a quererem destruir 
as outras pessoas, a estragar o que as outras pessoas possuem. E existe uma outra inveja que é auto 
destrutiva, uma inveja cheia de mágoas, de situações onde as pessoas se colocam como vítimas. As duas 
escondem crianças mimadas. 
 
A inveja autodestrutiva esconde um eu derrotista. 
 
A inveja esta baseada no desejo de vir a ser, do tornar-se, do conquistar algo, do ter algo para ser 
alguma coisa. Este é o desejo de ser alguém. 
 
A crença de que existe algo ali melhor do que o que esta aqui, característica de pessoas, bens, 
amizades, posições e empregos, gera inveja. 
 
Alguns aspectos da esperança escondem inveja. Se desejamos aquilo que os outros possuem é 
porque não estamos contentes com o que temos, não somos gratos e não reconhecemos o que recebemos. 
Ao invés de darmos atenção ao presente, de sermos gratos pelo que temos ou pelo que somos, estamos 
esperançosos por algo melhor que possa vir num futuro qualquer. Se mudássemos essa forma de pensar e 
nos tornássemos atentos àquilo que está ocorrendo, poderíamos ser gratos, poderíamos encontrar algo que 
nos trouxesse satisfação, contentamento, paz e felicidade. 
 
A renúncia leva à extinção da inveja. Aquele que renunciou ao luxo, ao status, à competição, às 
fantasias, às ilusões, à fama, às paixões, aos falsos brilhantes, e deixa de desejar essas coisas, está livre 
da cobiça e da inveja; já não precisa se preocupar com o que os outros pensam ou vão pensar. 
 
As pessoas generosas e altruístas, que mantêm seu coração aberto e compassivo, sempre se 
alegram com as conquistas, vitórias e alegrias dos outros. Seu real desejo é ver a felicidade do próximo. 
 
Já os egoístas e invejosos têm o coração endurecido por uma visão distorcida da realidade, onde 
estão presentes a competição, a maldade, a raiva, a tristeza e a frustração. Não sabem servir e acreditam 
que todos estão sempre a se aproveitar deles. A raiva que sentem dos outros é, no fundo, a raiva que têm 
de si mesmos. Essas pessoas desconhecem o que é gratidão, satisfação e contentamento; por 
conseguinte, desconhecem o que é paz, o que é felicidade. Vivem atormentadas por seus próprios 
demônios. 
 
A idéia de que os outros estão a se aproveitar, a abusar de nós, não passa pela mente dos 
altruístas, dos generosos e daqueles que têm um coração compassivo. Esse tipo de pensamento existe 
apenas no coração e na mente dos maldosos. Nada disso está nos outros, é apenas mais uma projeção, 
mais um auto-engano, mais um aspecto da auto-adoração e da auto-importância. A teoria da conspiração 
está na mente dos conspiradores, a maldade está na mente dos maldosos e a bondade no coração dos 
bondosos. 
 
 
Sobre a Lei da Atração 
 
 
A verdadeira Lei da Atração está no nível de ser predominante em cada um de nós. Se o nosso 
nível predominante de ser é a condição de bêbado, estaremos junto aos bêbados. Se o nível predominante 
é de o da miséria interna, estaremos junto aos miseráveis. 
 
Nascemos no seio da família “N” por sermos iguais aos nossos familiares. Estudamos com os 
colegas “X” por sermos também semelhantes a eles. Moramos no local “Y” por termos pontos em comum 
com os moradores dali. Trabalhamos com as pessoas “Z” por sermos similares a elas. 
 
O externo é o reflexo do interno. Para mudarmos o externo, devemos operar em nós profundas 
mudanças internas. Isto não significa mudar algumas idéias superficiais ou subjetivas. Aborda-se aqui uma 
mudança mais radical, uma mudança do nível de ser. 
 
Atualmente, fala-se muito sobre a Lei da Atração. No mundo espiritualista, diz-se que se deve 
pensar em dinheiro para atrair dinheiro, que se deve pensar em riqueza para atrair pessoas afins e, com 
isso, mudar de vida. O que as pessoas não percebem é que estão dando vazão à ganância, à luxúria, à 
avareza, ao orgulho, à vaidade, aos apegos, aos desejos, ao egoísmo, e que, desta forma, atrairão outros 
gananciosos, luxuriosos, avarentos, orgulhosos, vaidosos, apegados, desejosos, egoístas. 
 
As pessoas distorcem a Lei da Atração segundo suas idéias, necessidades, defeitos, fantasias e 
ilusões, na ânsia de satisfazer seus desejos. 
 
Esta Lei, que os indivíduos deveriam utilizar para observar o meio em que vivem e se auto- 
conhecerem, está sendo banalizada, mal utilizada, ridicularizada. Isto mostra o nível de degeneração da 
nossa humanidade, e, uma vez degenerados, não atrairemos nada além de outros degenerados. 
 
Pode até ser que algumas pessoas consigam melhorar sua vida financeira a partir de pensamentos 
direcionados, mas enquanto continuarem a carregar o fardo dos egos dentro delas, continuarão a sofrer ou 
sofrerão ainda mais. 
 
Muitos que buscam atrair prosperidade acabam por se auto-enganar e começam a negar a 
realidade. Uma coisa é não cultivar pensamentos negativos e outra, muito diferente, é negar a realidade. 
 
A Primeira Nobre Verdade do Budismo nos diz que o sofrimento é uma realidade humana. Dentro 
do sofrimento residem a raiva, as doenças, a mentira, a mágoa, o medo, a vergonha, a inveja, a tristeza, a 
rejeição, o desprezo, a indiferença, a perda, o ressentimento, a repressão, a ansiedade, a avareza, o apego, 
a exposição, o erro, a inferiorização, a humilhação, a infelicidade, o abandono, a dor. 
 
Se negarmos esses sentimentos, não seremos capazes de atrair prosperidade, pois estaremos 
praticando a mentira, o auto-engano, a falsidade. Ao contrário, o que iremos atrair são os enganadores, os 
mentirosos, os falsos. 
 
Frases positivas nada resolvem. Também são uma forma de negação da realidade, de auto-
engano. 
 
Precisamos compreender a nós mesmos, compreender os nossos defeitos, as nossas misérias, os 
nossos sofrimentos. Precisamos morrer de instante em instante, de momento a momento. Estas práticas 
fazem parte da Terceira Nobre Verdade do Budismo, a Verdade da Extinção do Sofrimento. 
 
O objetivo do ser humano saudável é livrar-se das misérias da vida, ao invés de cultivá-las, 
fortalecê-las ou prolongá-las. 
 
 
Comentários e Questionamentos 
 
 
- Eu acredito na Lei da Atração, mas acredito que não seja necessário negarmos a realidade! Você 
tem razão! É preciso que procuremos nos conhecer mais profundamente e acharmos onde estamos no 
momento, o porque estamos e para onde queremos ir! Porém, é preciso que tenhamos objetivos e metas a 
seguir. Sem objetivos ou sem sonhos, não chegamos a parte alguma! 
 
Sonhos são fantasias, projeções da mente, as fantasias embotam a mente, precisamos parar de 
sonhar. Não podemos cultivar falsas expectativas, falsas esperanças. Infelizmente, todos nós vivemos de 
ilusões, de expectativas e esperanças fantasiosas, por exemplo, casar, conquistar a casa própria, ter filhos, 
um emprego melhor, um carro novo. Tudo isso é motivo de sofrimento. 
Sobre a Má Vontade 
 
 
Olhando para o mundo, podemos notar a má vontade dos governantes. Mas o externo é apenas um 
reflexo do interno. Assim, se olharmos para dentro de nós mesmos, veremos que o nosso mundo interno, nosso 
país interno, nossas cidades internas, são quase todas governadas pela má vontade. 
 
A má vontade permeia muitas das nossas ações, que podem se manifestar de forma grosseira ou sutil. 
Ela não é um dos 7 Pecados Capitais,mas parece colaborar com a atuação de todos eles. 
 
O Senhor Buda coloca a má vontade como um dos cinco obstáculos que distorcem a percepção e 
corrompem o nosso pensamento. 
 
Má vontade é o impulso negativo que nos impede de ver, ouvir, sentir, fazer, o que não queremos. Ela 
nos cega para o que é desagradável e para o que é contrário à nossa opinião ou desejo. 
 
Em um dado sentido, agir com má vontade não é muito diferente de roubar, enganar, trair, já que 
aceitamos fazer algo, assumimos fazer algo, e não o fazemos da devida maneira. 
 
Muitas vezes, a má vontade está ligada à raiva, brutalidade, vingança, grosseria, preguiça, desdém, 
desrespeito, desprezo, fraqueza, incapacidade, maldade. Também pode estar associada ao desejo de poder, à 
sensação de poder, de prazer. 
 
A expressão da má vontade mostra nosso orgulho, fraqueza, mágoa, dúvida, indecisão, mostra nossa 
falta de bondade, compaixão, compreensão, paciência, tolerância, contentamento, gratidão, satisfação. Ela 
aparece estreitamente ligada à auto-importância e o amor próprio, fruto da nossa auto-adoração. Afinal, 
amamos demais a nossa personalidade, somos por demais apegados a nós mesmos. 
 
Queremos ter prazer, ou sensações de prazer, em tudo o que fazemos. E, quando isto não ocorre, 
ficamos insatisfeitos, descontentes. E o que não nos traz prazer, fazemos com má vontade. Assim, a ausência 
de prazer em nossas ações representa um obstáculo, que resulta na má vontade. Mas isso só ocorre porque 
definimos, conceituamos, o que é bom e o que é ruim. Isso só ocorre porque nos apegamos às sensações 
prazerosas e repudiamos as não prazerosas. Falta-nos equanimidade. 
 
A má vontade acontece porque não sabemos servir, porque agimos em benefício dos outros, de outras 
personalidades. Não fazemos de nossas ações atos de devoção, de entrega, de servidão. Assim, do fato de se 
fazer algo para uma outra personalidade logo surge o herói, a vítima, o injustiçado, o sofredor. E, junto com 
eles, a mágoa, o ressentimento, a raiva. 
 
Agimos com má vontade quando não agem bem conosco. Nosso comportamento é condicionado, 
escravizado, dependente, profundamente inconsciente. 
 
Muitas vezes, quando tratamos mal as pessoas, quando somos impacientes, intolerantes com elas, 
quando nos irritamos e ficamos nervosos, é porque estamos dominados pela má vontade decorrente de 
conceitos que fizemos em relação a essas pessoas ou de nossas mágoas, por estarmos presos a situações do 
passado, apegados às situações de sofrimento do passado. 
 
 E, principalmente, é porque nos falta bondade e compaixão. Logo, desenvolver e cultivar uma mente e 
um coração plenos de bondade e compaixão é a saída para a libertação. 
 
A má vontade se expressa através de críticas, reclamações, demonstrações de insatisfação consigo 
próprio e com a vida, em geral. Uma outra forma de expressão da má vontade é quando arrumamos desculpas, 
explicações, justificativas, para as nossas más ações, para a nossa miséria interior, o que revela falsidade, 
hipocrisia. Desculpas e explicações refletem um interior de desculpas e explicações para não aceitar nossos 
erros, para negar as manifestações do ego. 
 
Por má vontade, fazemos as coisas de qualquer jeito, sem atenção, sem capricho. Por medo, 
insegurança, agimos de má vontade, sem nos importarmos com o que fazemos ou para quem fazemos. Tudo o 
que queremos é nos livrar da tarefa assumida rapidamente. 
 
Também existe em nós muita má vontade para as práticas espirituais. O demônio da má vontade atua 
em nós de forma muito astuta, sempre com uma boa desculpa e explicação para tudo. E nos influencia a nos 
distanciarmos das práticas espirituais, sob o pretexto de que não as compreendemos, de que parecem não 
fazer sentido. 
 
Arrumamos desculpas, justificativas, como fôssemos muito bem intencionados e nada mais 
pudéssemos fazer para melhorar qualquer situação; como se a vida fosse da maneira que é e nada 
pudéssemos fazer para transformá-la; como se fôssemos o que somos e nada pudesse ser feito para nos 
modificarmos. Mas qualquer um de nós já deve ter passado por experiências que nos levaram a uma 
compreensão mais abrangente da vida e a uma conseqüente mudança, transformação. Ora, parece evidente 
que, se compreendêssemos a fundo certas situações, poderíamos mudar muitos outros pontos, até mesmo 
aqueles dos quais nem fazemos idéia. Sempre que percebemos algo novo, tudo parece tão claro, tão evidente, 
que, ao analisarmos racionalmente o ocorrido, mal conseguimos acreditar como não havíamos percebido antes 
tal situação. 
 
Podemos mudar, podemos mudar muito, podemos mudar radicalmente. Mas, para tanto, precisamos de 
muita vontade, força, decisão, firmeza. 
 
Os mais acomodados preferem acreditar que existe uma evolução no plano espiritual e que aqui no 
plano físico nada pode ser feito. Assim, acreditam que não precisam mudar suas atitudes, seus 
comportamentos, seus conceitos e opiniões. Acreditam que podem continuar a viver como vivem, que podem 
continuar a usufruir das sensações de prazer proveniente de seus desejos e paixões. Acreditam simplesmente 
que o corpo tem seus anseios e vontades, e nada pode ser feito para mudá-los. Acreditam que os julgamentos 
que a mente faz a partir dos sentidos não podem ser alterados. 
 
Mas todas as grandes religiões, todos os Mestres, ensinam que o primeiro passo está na mudança da 
forma de pensar e de agir. A Doutrina de Buda e o Cristianismo Místico são muito claros nisso. O Budismo 
ensina que o pensamento precede a ação. Ou seja, a mudança da forma de pensar precede a mudança da 
forma de agir. O exemplo dos iluminados, dos santos, dos mestres, está em seus comportamentos, suas 
formas de pensar. A legitimidade de um santo é expressa por atos, palavras, sentimentos, é expressa por 
virtudes. A santidade se expressa por meio de fatos. As mudanças internas são refletidas no mundo externo, ou 
seja, quando mudamos internamente, nossos atos, nosso comportamento, nossos interesses, os lugares que 
freqüentamos, também mudam. 
 
A mudança em nossa forma de fazer, pensar, sentir, imaginar, é a transformação em si mesma, é a 
própria transformação. Se não deixamos de sentir mágoa, raiva, inveja, não mudamos nada. Se não deixamos 
de pensar em perversidades, vinganças, volúpia, não mudamos nada. Se não deixamos de lado as grosserias, 
as fofocas, as zombarias, a confusão, as brigas, as disputas, não mudamos nada. 
 
A consciência, a compreensão e a vontade podem submeter o corpo. Os desejos podem ser 
compreendidos e eliminados. Não podemos confundir desejo com vontade, ou desejo concentrado com 
vontade, ou ainda o anelo da alma com o desejo mundano, egoísta. O ego pode e deve ser eliminado. Aqui 
ensinamos como isso pode ser alcançado. Julgar e classificar são coisas da mecanicidade da mente que 
precisa ser domada, treinada, e dos egos que precisam ser eliminados. O ego é algo estranho à natureza 
humana, e por esta razão deve ser eliminado. 
 
 Infelizmente, a cada vez que retornamos a este plano, recomeçamos tudo praticamente do zero. Isso é 
algo que podemos constatar facilmente. Se as pessoas estivessem evoluindo, não haveria violência, guerras, 
capitalismo mais que selvagem, corrupção, promiscuidade, vícios. O ser humano é hoje muito pior do que o que 
foi no passado. E tudo aponta para que se torne pior a cada dia. O ser humano vem se degenerando a passos 
largos. As idéias de aprendizagem no plano espiritual, em provas propostas, em missões, são fantasiosas. 
 
É o desejo de continuar a fazer as mesmas coisas, a ter as mesmas sensações, é o apego ao mundo 
físico, é a auto-adoração, a nossa profunda ignorância e nossa tremenda má vontade que nos impede de ver 
tudo com clareza e agir com decisão, força, firmeza e vontade consciente na direção de uma mudança, de uma 
evolução efetiva, de uma evolução baseada em fatos concretos. 
 
Por má vontade, deixamos, às vezes, de fazer coisas que são necessárias, que fazem parte de nossa 
função, denossa obrigação. Por má vontade, podemos deixar de fazer coisas necessárias até mesmo à nossa 
sobrevivência, nossa subsistência. Por má vontade, podemos agir com lentidão, de forma demorada, ou mesmo 
negarmo-nos a fazer aquilo que nos é solicitado, a fazer favores, a prestar ajuda, a servir. 
 
É má vontade, quando, ao nos pedirem um favor, pedimos para esperar um pouco, dizemos que já 
vamos fazê-lo, que agora não dá. Assim, o que demonstramos é desprezo por aqueles solicitam nossa ajuda. 
Colocamos sempre o que estamos fazendo, as nossas coisas, como prioridade, são sempre mais importantes 
do que as necessidades do outro. Acreditamos que todos devem esperar pela nossa boa vontade, que 
geralmente acontece no momento em que não temos mais nada de importante a fazer. Ocorre que, muitas 
vezes, quando resolvemos enfim nos dispor a fazer aquilo que nos foi solicitado, já não é mais necessário, o 
tempo passou. E, ao invés de nos arrependermos, sentimos alívio por não termos mais de fazer aquilo que não 
queríamos. A questão não é se culpar, e sim se arrepender, reconhecer a falha e mudar, perceber a 
necessidade da mudança. 
 
Enfim, é por má vontade que nos sentimos incomodados quando nos solicitam ajuda, quando nos 
pedem algo. É por má vontade que reclamamos, dizendo que estamos ocupados, que estamos descansando, 
que não nos deixam em paz. 
 
Agimos também com má vontade quando nos omitimos por medo de errar, por falta de confiança, e 
vamos postergando, arrumando desculpas, justificativas, alegando falta de tempo, outras prioridades, 
esquecimento. O que costumamos fazer é tentar achar alguém que faça por nós aquilo que nos foi solicitado. 
Assim não corremos o risco de sermos mal vistos, de cairmos no conceito dos outros, de passarmos algum tipo 
de vergonha. Isso decorre da preocupação com a auto-imagem, com o que os outros vão pensar, com o que os 
outros vão dizer. 
 
Podemos, ainda, agir com má vontade por interesse, porque a demora, a lentidão ou a omissão pode 
nos trazer um benefício ilusório, uma sensação de estarmos levando vantagem. 
 
E, finalmente, quando nos identificamos com pensamentos comodistas, do tipo: “as coisas são difíceis”, 
“as coisas são complicadas”, somos tomados pela má vontade. 
 
É preciso renunciar à má vontade. 
Sobre a Mágoa 
 
 
Por mais que tentemos não magoar alguém, isso sempre acaba acontecendo, de uma maneira ou 
de outra. É inevitável. Na verdade, não somos nós que magoamos os outros, eles se magoam sozinhos. 
Assim como não são os outros que nos magoam, nós nos magoamos sozinhos. 
 
Quando nos preocupamos em não magoar uma pessoa, na realidade estamos preocupados com 
nós mesmos, temendo ser rejeitados ou que alguém nos veja de uma forma que não é aquela que 
desejamos mostrar. 
 
Geralmente, quando achamos que não devemos dizer certas coisas ao outro porque ele pode se 
sentir magoado, é porque o que queremos dizer nos magoaria, se nos fosse dito por alguém. É apenas 
mais uma projeção, mais um aspecto da projeção. 
 
Mas não é por termos consciência disto que vamos sair por aí dizendo absurdos e grosserias a 
terceiros. Ao percebermos que as pessoas são vítimas e escravas das situações externas, nossa 
responsabilidade aumenta, e, por esta razão, devemos respeitar as pessoas que estão nesse estado, ter 
compaixão para com elas, que ainda não podem enxergar a verdade que outrora também não 
enxergávamos. E, certamente, ainda teremos muitas outras verdades para descobrir. 
 
Assim, somente quando percebemos, por nós mesmos, que não são os outros que estão nos 
magoando, mas nós mesmos que ficamos magoados com nossos egos, é que podemos compreender os 
outros, compreender por que ficam magoados. Ninguém além de nós mesmos é responsável por nossos 
desejos, fantasias, ilusões, planos, expectativas, esperanças. Somos nós que criamos e alimentamos tudo 
isso. Da mesma forma, ninguém também pode ser responsabilizado por nossas frustrações, desilusões, 
decepções. 
 
A mágoa esconde a auto importância, o achar que os outros deveriam nos dar importância, 
reconhecer-nos pelo que fizemos ou achamos que fizemos por eles. A mágoa esconde a auto comiseração, 
a dó de nós mesmos, o achar que não deveriam dizer ou fazer coisas para nós por que não merecíamos ser 
mal tratados. 
 
Enquanto temos dó, piedade dos outros é porque também temos de nós mesmos. Enquanto 
achamos que o que vamos dizer ou fazer pode magoar alguém é porque ainda somos magoáveis e porque 
ainda nos preocupamos em não sermos magoados. É mais uma vez a auto importância projetada. Mas 
quando esta auto importância diminui a que se ter muito cuidado para que não esqueçamos dos outros, 
desrespeitando, magoando os outros, quando esta auto importância diminui a que se desenvolver a 
compaixão, a bondade. 
 
Sempre que contamos nossas histórias de mágoa, colocamo-nos no papel de heróis injustiçados, 
vítimas da maldade alheia, da crueldade do mundo perverso. Somos sempre os mártires que tudo fizeram 
pelo outro, sem receber qualquer demonstração de reconhecimento; somos sempre os traídos. Em nossas 
histórias, acreditamos ter agido sempre com generosidade, correção e justiça, criamos modelos 
convenientes em nossa mente, uma ilusão para compensar a situação real e, assim, nos sentirmos bem, 
nos sentirmos superiores. 
 
Muitos dizem que perdoam, mas não podem nem olhar para a pessoa em questão, não a querem 
ver nem pintada de ouro, e juram que nunca mais farão nada por ela. 
 
 Outro grande erro é ficarmos computando quantas vezes ajudamos alguém, na expectativa de, em 
algum momento, sermos recompensados por isso. E, quando surge a oportunidade e a recompensa não 
acontece, ficamos profundamente ressentidos. Primeiro, nos julgamos heróis, que se matam pelos outros. 
Depois, nos comportamos como vítimas, acreditando só ter recebido deles injustiça e ingratidão. 
 
O fato de não querermos magoar terceiros, de não querermos ser rejeitados, só nos leva a um 
mundo de mentiras, de falsas desculpas, justificativas e explicações, de fingimento e dissimulação. 
 
Sentimos mágoa de muitas coisas, a mágoa ocorre em muitas situações. Mas nem sempre 
conseguimos percebê-la a fundo. Existem véus que encobrem a realidade, protegendo a psique, de alguma 
forma. Podemos ter noção de algumas mágoas, mas é raro termos total consciência delas. Nem sempre 
temos consciência do motivo exato que gerou certas mágoas. Por vezes, não temos sequer consciência de 
que sentimos mágoa. 
 
Costumamos achar que temos algumas poucas mágoas de grandes proporções e não nos damos 
conta das inúmeras pequenas mágoas que nos afligem. E são estas as que mais nos destroem. Atuando de 
forma sutil, elas são responsáveis por muitos de nossos condicionamentos. Enquanto nos ocupamos das 
grandes mágoas, as pequenas mágoas, aquelas das quais não temos muita consciência, vão gerando 
problemas reais no nosso dia-a-dia. As grandes mágoas são como uma cortina de fumaça para as 
pequenas. 
 
Insistimos em darmos importância ao que os outros dizem de nós. Guardamos e ficamos remoendo 
qualquer reprovação, não aceitamos críticas. Dizemos que perdoamos, mas estamos sempre relembrando 
o ocorrido. E, se nos perguntam por quê, respondemos que falamos por falar, que não há ressentimento 
algum. Mas, se realmente não houvesse, os fatos não voltariam à nossa mente. 
 
Por causa de certas mágoas, podemos agir de forma condicionada por toda a vida, se não 
conseguimos verdadeiramente compreender. Tomemos como exemplo uma pessoa tenha passado por 
situações de violência e brutalidade em sua infância. Quando adulta, essa pessoa tem seus filhos e tenta 
compensar e inverter a situação através deles, enchendo-lhes de mimos, carinhos, cuidados, dando a eles 
tudo o que não teve. Com isso, muitas vezes, não consegue se impor de maneira firme quando necessário. 
Podemos dizer então que este relacionamento com os filhos está condicionado, escravizado pelo passado, 
pelas mágoas. 
 
Mas as mágoas nãoprecisam estar necessariamente na infância. Há o caso daquela pessoa que, 
por um motivo ou outro, vê seu relacionamento afetivo chegar ao fim. Então ela começa a se lastimar, 
acreditando que foi muito concessiva com o parceiro, que tudo fez por ele e não foi reconhecida. 
Obviamente, esta é uma análise pobre, egocêntrica, não é uma compreensão da situação. Por 
conseqüência, a pessoa se propõe a, no próximo relacionamento, adotar uma postura mais exigente, mais 
dura, mais firme, fazendo menos e cobrando mais. Ela acredita que, invertendo o comportamento, obterá 
melhores resultados e sofrerá menos. E as chances de este próximo relacionamento dar certo também não 
são promissoras, uma vez que não existiu uma compreensão dos reais motivos que prejudicaram a relação 
anterior, e ela agora está escravizada por mágoas, ressentimentos, está condicionada ao passado. 
 
Nos dois casos exemplificados acima, assim como em muitas outras situações, os personagens do 
afeto são usados como objeto de satisfação de desejos, de necessidades. A pessoa que teve uma infância 
de violência, por exemplo, vai se utilizar dos filhos, quando adulta, para se realizar através deles, ou seja, 
vai utilizá-los como veículos para alcançar sua satisfação pessoal, a satisfação de seus desejos pessoais e 
egoístas. Assim, não houve uma preocupação real com o bem do outro, com o desejo do outro, com os 
sentimentos do outro, nada. E é o que acontece com a maioria de nós, nas mais diversas situações. No 
fundo, estamos apenas interessados em nós mesmos. 
 
O auto-conhecimento, a compreensão, ampliam a consciência, reduzindo o egocentrismo, os 
desejos pessoais, neutralizando temores, esperanças, expectativas, mágoas, ressentimentos, ambições, 
que sempre compensamos ou invertemos, de forma inconsciente. Assim, sem que venhamos a 
compreender de fato as situações que nos afligem, tenderemos sempre a reagir de forma equivocada, 
podendo, inclusive, gerar situações ainda piores. 
 
Analisando um pouco mais a fundo o caso da pessoa cuja infância foi de brutalidade e violência, 
podemos inferir que seus pais agiram desta forma por ignorância, segundo seus limites de compreensão e 
seus condicionamentos. Neste caso, podemos afirmar, então, que o filho, ao se tornar um adulto, repete o 
erro dos pais, agindo de forma igualmente condicionada. O que muda são as impressões de cada um. 
 
Muitos podem ser os motivos que levaram esses pais à ação condicionada que se refletiu em 
brutalidade e violência. Talvez a raiva de uma gravidez e um casamento indesejados, posteriormente 
transferida à criança. Talvez uma revolta natural por parte dos pais. Talvez a dificuldade de se relacionar 
com a própria criança. Talvez a insatisfação com a vida que levavam. Talvez a necessidade de passar a 
imagem de uma figura inabalável, forte para a vida, ou por se acharem fracos, ou por verem parentes e 
vizinhos no caminho errado, ou, simplesmente, por desejarem que os filhos não sejam como eles, que não 
sofram o que sofreram. E, assim, agem da forma que lhes é possível para atingir seus objetivos em relação 
aos filhos. E nem sempre a forma possível é a forma ideal. 
 
É nosso egocentrismo, nossa preocupação com nós mesmos, nossa auto-importância e nosso 
amor-próprio que nos impedem de enxergar os motivos pelos quais as pessoas são levadas a fazer o que 
fazem. É nossa preocupação com o próprio sofrimento que nos impede de ver que os outros também 
sofrem. É nossa estupidez que nos impede de entender que muitos agem por ignorância, de forma 
inconsciente. É nosso egocentrismo, nossa preocupação com nós mesmos, nossa auto-importância, nosso 
amor-próprio, nossa preocupação com o próprio sofrimento, nossa estupidez, que mantém as mágoas, os 
ressentimentos e as infelicidades que nos afligem. 
 
Com nossas boas ações, esperamos obter reconhecimento e elogio em troca. Não agimos 
pensando no outro, não fazemos nada por fazer, não agimos por amor nem por devoção. Assim, quando o 
reconhecimento ou o elogio não vem, sofremos. Ficamos magoados e nos colocamos como vítimas, sem 
imaginar que, na verdade, os outros é que eram as nossas vítimas, já que estávamos nos utilizando deles 
como veículos para nossa satisfação, para fomentar nossas necessidades de reconhecimento, de auto- 
afirmação, de aceitação. Não, não somos vítimas. Não somos tão santos como imaginamos ser. Na 
verdade, estamos muito longe de ser santos. 
 
 
Sobre a Maldade 
 
 
Para algumas pessoas, a necessidade de receber atenção e carinho, a experiência de ser aceito, 
pode estar associada às agressões que sofreram por parte dos pais na infância, ao fato de ter sido motivo 
de riso dos colegas, de ter sido reprimido por professores. Para outros, significa a simples necessidade de 
bajulações, dengos, “melações”. 
 
Considerando que somos meros imitadores, acabamos reproduzindo os exemplos que tivemos, e, 
por ignorância, agiremos com maldade, se foi isto que recebemos. O que pensamos ser maldade, no 
entanto, pode ser apenas uma defesa. O que pensamos ser maldade pode ser apenas a ignorância. Agimos 
segundo nossas experiências. Se nossas experiências foram marcadas pela estupidez e violência, se foram 
estes os exemplos que tivemos na vida, então nosso comportamento tenderá a ser assim. E se assim o for, 
é devido à ignorância, ao desconhecimento de algo melhor e diferente, justamente por sermos meros 
imitadores. 
 
São os Eus maldosos que projetam pensamentos na mente, pensamentos com os quais nos 
identificamos. Estes Eus se satisfazem com emoções negativas, com vibrações fortes, densas. É a nossa 
própria maldade que nos leva a supor que estão querendo nos prejudicar, nos ofender. 
 
Se alguém se dirige a nós de forma colérica, somos incapazes de considerar que pode ter ocorrido 
alguma coisa grave a este alguém e que ele está apenas transferindo a sua cólera para nós. Se tivéssemos 
um coração aberto, compassivo, bondoso, perceberíamos que esta pessoa pode estar atormentada por 
seus próprios demônios. 
 
Não podemos atribuir maldade aos outros, precisamos olhar para dentro de nós mesmos, 
precisamos reconhecer nossa própria maldade. 
 
A maldade é o prazer em fazer o mal. A malícia é a própria maldade. O prazer da vingança é 
maldade. O prazer de humilhar, envergonhar, ridicularizar, coagir os outros é maldade. Os desejos e os 
planos de vingança, de revanche, de revide, de destruição, são todos impulsionados pela nossa maldade. 
 
O prazer em ver os outros sofrendo é maldade, crueldade. Chegamos ao cúmulo de chamar de 
justiça, e até de justiça divina, o sofrimento de alguns. Mas é apenas nossa maldade que distorce a 
realidade e se satisfaz com o sofrimento alheio, com aqueles que são despejados ou perdem sua moradia 
em catástrofes naturais, com os que perdem seu emprego, que se envolvem em acidentes, que são 
chamados à atenção, que são repreendidos. 
 
Há atos de maldade que são visivelmente óbvios e concretos. Atos com intenções de lesar, 
enganar, trair, ferir, desmoralizar, causar perdas, danos e dores, atos movidos pela vingança, pela 
crueldade, violência, atos como assassinato ou intenções homicidas, são expressões grosseiras de 
maldade. 
 
Mas também existem aqueles atos de maldade que são bem mais sutis. É quando criticamos, 
julgamos, reclamamos, zombamos, desprezamos, agimos com frieza, provocamos, irritamos, humilhamos, 
expomos, entristecemos, envergonhamos, reprimimos, constrangemos, pressionamos, menosprezamos, 
magoamos, rejeitamos, faltamos com o respeito ou ridicularizamos alguém. É quando agimos com 
sarcasmo ou ironia. É quando assustamos, apavoramos, introduzimos pânico e horror em alguém; quando 
criamos ou promovemos confusão, desavenças, desordens, discórdias, desarmonia, disputas, brigas, 
discussões ou conflitos. É quando atormentamos, perturbamos, espezinhamos, azucrinamos, cutucamos, 
espetamos, importunamos ou incomodamos a paz de outrem. Sempre que agimos desta forma estamos 
praticando o mal. 
 
Na verdade,nunca saímos de dentro de nosso próprio casulo, onde todos os pensamentos não 
giram senão em torno de nós mesmos, onde todas as preocupações convergem somente para nós. Com a 
mente embotada e a visão totalmente voltada para a própria existência, pensamos apenas nos sofrimentos 
que nos afligem, nas dores que sentimos, nos nossos próprios desejos. Cegos pela expectativa de prazeres 
fugazes, esquecemo-nos de nossa essência original e não medimos as conseqüências que nossos atos 
podem trazer, tanto para nós como para os outros. 
 
Apesar de dizermos frequentemente que não pretendemos prejudicar ninguém, somos incapazes 
de perceber o mal que fazemos aos outros, e muito menos por que o fazemos. Vemos apenas as maldades 
que nos fizeram ou que achamos que nos fizeram, somos incapazes de enxergar as maldades que já 
praticamos, sempre nos julgamos santos. Só quando percebemos a nossa própria maldade, a nossa 
ignorância, a ignorância de nossos atos, é que podemos passar a ter compaixão pelo próximo. 
 
Por maldade, por termos o coração endurecido, por nos faltar sensibilidade é que, muitas vezes, 
nos comprazemos ao ver uma pessoa sofrendo, sendo humilhada, coagida, ridicularizada, ofendida. 
Olhamos para seus semblantes de desespero, vergonha, sofrimento, humilhação, coação, e nos enchemos 
de prazer. Se tivéssemos um mínimo de sensibilidade, ao olharmos para a face de alguém nesse estado, 
tudo o que conseguiríamos sentir seria compaixão, solidariedade pela dor do próximo e sua tristeza. Mas, 
infelizmente, somos dados a pensar apenas em nós mesmos. O que importa é estarmos sorrindo, 
desfrutando dos prazeres possíveis. 
 
Há os que se lembram com alegria do dia em que brigaram com alguém, de seus ataques de fúria, 
do semblante de dor e sofrimento estampado na face do outro, os que se mostram exultantes por terem 
humilhado alguém. Numa demonstração de grande estupidez, relembram esses momentos deploráveis, 
relatam-nos com orgulho para os outros, afirmam e reafirmam que provaram a fulano que não são tolos, ou 
disparam alguma outra frase absurda do gênero. Ao invés de se arrependerem de seus erros, de sua 
ignorância, brutalidade, selvageria, grosseria, orgulham-se, envaidecem-se e vangloriam-se desses gestos 
menores. É uma tremenda inversão de valores, uma profunda cegueira, uma demonstração lamentável de 
embrutecimento. 
 
É muito comum ver certas pessoas que ficam felizes e exultantes por terem humilhado alguém, 
para provar que estavam certas em alguma questão. 
 
Insinuações e discursos indiretos mostram que, além de maldosos, somos fracos, hipócritas, falsos 
e covardes. Mostram que não somos capazes de dizer com sinceridade e franqueza o que realmente 
queremos dizer e a quem. Assim, escondemos a nós e a nossa maldade atrás dessas insinuações. E 
quando descobertos, negamos nossas declarações, alegando que não era bem o que queríamos dizer. 
 
V. M. Samael Aun Weor, em sua "Mensagem de Natal” de 1966, disse: 
 
A gente vai andando por uma rua, de repente se encontra com as turbas que vão protestar por algo 
ante o palácio do senhor Presidente. Se a gente não está em estado de alerta, identifica-se com o desfile, 
mescla-se com as multidões, fascina-se e a seguir vem o sonho, grita, lança pedras, faz coisas que em 
outras circunstancias não faria, nem por um milhão de dólares. 
 
Certamente diremos que não fazemos tais coisas, que jamais as faríamos. Mas, se fizermos uma 
análise um pouco mais profunda, poderemos constatar algumas breves analogias. Quantas e quantas 
vezes não passamos por colegas estavam a fofocar, a maldizer alguém, e acabamos aderindo a esta 
sessão de fofocas e intrigas? Quantas vezes passamos por um grupo que se reúne num canto para 
desmoralizar fulano ou cicrano, e acabamos entrando no “bolo” e nos divertindo como partícipes desse 
pobre festival de difamações e fofocas? Ou seja, identificamo-nos, mesclamo-nos com o que há de pior, 
fascinamo-nos e lançamos pedras. Quantas e quantas vezes nos juntamos a um grupo empenhado em 
ridicularizar um determinado colega e nos tornamos parte dessas conspirações difamatórias, da zombaria 
generalizada? Identificamo-nos, mesclamo-nos, fascinamo-nos e lançamos de nossas pedras – este é o 
processo. 
 
 Existem também aqueles maldosos que fingem ser santos, e realmente acreditam nisso. Porém, 
satisfazem-se ao assistir exibições do ridículo humano, a exemplo do quadro “video-cassetadas”, de 
certa emissora televisiva, satisfazem-se com as maldades veiculadas em filmes, novelas, seriados, ou 
mesmo com as maldades praticadas pelos outros na vida diária. 
 
 Precisamos nos dar conta de nossos erros, de nossas falhas, de nossa ignorância, estupidez, 
brutalidade, selvageria, e depois arrependermo-nos, ajoelharmo-nos e pedirmos perdão a este Ser que 
habita nossos corações. 
 
A cada vez que nos lembrarmos do semblante daqueles a quem maltratamos, ofendemos, 
humilhamos, ridicularizamos, a cada vez que nos lembrarmos daqueles com quem fomos brutos e 
estúpidos, devemos, de joelhos, pedir perdão ao nosso Pai Interno. 
 
Devemos pedir ao nosso Pai Interno que nos conceda a luz necessária para afastar de nós a 
maldade. A luz da consciência, da bondade, da compaixão. A luz que nos faz perceber a maldade cometida. 
O arrependimento só é possível quando realmente percebemos a nossa maldade. 
 
Somente com outros olhos, com olhos de bondade, sensibilidade e compaixão, é que podemos ter 
consciência da nossa maldade. Nunca nos será possível percebê-la com olhos maliciosos e egoístas. 
Nunca nos será possível percebê-la enquanto arrumarmos desculpas e justificativas para o que fizemos de 
mal, para nossos ataques de ira, nervosismo, irritação. Enquanto acreditarmos que estamos ou que 
estávamos certos, continuaremos a pensar como sempre pensamos, e, por conseqüência, continuaremos a 
agir como sempre agimos. Enquanto tivermos esse olhar equivocado, continuaremos a chamar nossos 
vinganças de justiça. 
 
Ao percebermos a verdade de todos os erros cometidos, a dor do arrependimento será 
grande e inevitável. Em compensação, esta dor será também um sinal de que uma grande e 
definitiva transformação está por vir. 
 
É urgente abster-se de causar o mal. Tentar perceber a própria maldade é um ato de caridade para 
com a humanidade. Em verdade, o mal não existe, ele está apenas em nossas mentes. 
 
E, como disse Mahatma Gandhi: Os únicos demônios que existem no mundo, são os que habitam 
nossos corações, e é lá que a Guerra Santa deve ser travada. 
 
Somos assombrados pela maldade que existe em nós, que nos tira a paz, que faz com que nos 
preocupemos com o que vão dizer ou fazer a nosso respeito. É a maldade que nos aflige e nos tira o 
sossego, deixando-nos apreensivos, pensando se irão nos prejudicar, maldizer, tirar nossos doces, 
ameaçar nossos prazeres, nossas seguranças, nossas bases. Logo, nossa maldade causa mais sofrimento 
a nós mesmos do que aos que dela são vítimas. 
 
Ao percebermos isso, percebemos também o quanto o ser humano sofre com suas próprias 
maldades. E, assim, podemos abrir o coração, podemos sentir compaixão pelos demais. 
 
Olhamos para as situações da vida com a mente impregnada de idéias, conceitos e 
preconceitos e padrões, com o coração vazio, desprovido de bondade, compaixão, sensibilidade e 
altruísmo. Precisamos mudar essa realidade em nós. Precisamos olhar para os acontecimentos da 
vida coma mente esvaziada, livre de conceitos e preconceitos, livre de padrões, e com o coração 
repleto de bondade e compaixão. 
 
Precisamos desenvolver a empatia, precisamos aprender a nos colocar no lugar dos demais, 
a olhar para as situações com os olhos do outro. Se assim procedêssemos, certamente não teríamos 
muitos dos comportamentos indesejáveis que costumamos ter, não faríamos tantas maldades, pois 
teríamos consciência de que não gostaríamos que tais atos fossem praticados contra nós. Está nas 
palavras do Cristo: Portanto, tudo o que vós quereis que os homensvos façam, fazei -lho também 
vós, porque esta é a lei...(Mateus 7:12) 
 
Para concluir, finalizemos esta reflexão com palavras de V. M. Samael Aun Weor, em seu "Tratado 
de Psicologia Revolucionária”: 
 
A crueldade continuará existindo sobre a superfície da Terra enquanto não aprendermos a 
nos colocar no lugar dos outros. 
... 
Se nos pusermos no lugar dos demais, descobriremos que os defeitos psicológicos que 
imputamos aos outros temos de sobra em nosso interior. 
 ... 
Amar o próximo é indispensável, mas como poderíamos amar os outros sem antes ter 
aprendido, no trabalho esotérico, a nos colocarmos na posição das outras pessoas? 
 
Sobre a Mente 
 
 
Podemos observar com certa facilidade que nossos pensamentos geram sensações. Se 
imaginarmos, ou se trouxermos à lembrança, cenas de medo, raiva, prazer, inveja, ansiedade, tensão, 
alegria, podemos sentir as sensações correspondentes às vezes até com a mesma intensidade de quando 
ocorreram realmente. Com a imaginação, somos capazes de sentir cheiros, toques, gostos, sabores, de ver 
imagens e ouvir sons. 
 
Sofrimento é preocupação, desespero, medo, autocobrança, é aquela ânsia insatisfeita no coração 
e na mente. 
 
A mente atormentada tenta se agarrar a subterfúgios, tenta buscar um ponto seguro, um chão, um 
apoio. Mas o único lugar onde ela poderá encontrar essa zona de segurança é dentro dela mesma. Estes 
pontos não passam de estruturas rígidas, idéias fixas, ilusões, fantasias, criticas, valores, padrões, 
experiências, lembranças, sensações, conceitos e preconceitos arraigados. Esta busca por segurança é o 
medo da não existência. 
 
Quando a mente encontra uma referência que lhe ofereça a sensação de segurança, agarra-se a 
ela com força. Então surge a posse e o apego. A posse nos traz o orgulho, a vaidade. Tornamo-nos 
orgulhosos e envaidecidos de tudo o que possuímos, ou acreditamos possuir. 
 
O extremo apego baseia-se na crença da permanência das coisas - uma crença equivocada. 
Evidentemente, se tivéssemos a percepção da efemeridade da matéria, não nos apegaríamos a ela. 
 
Os momentos, os estados, os fenômenos da mente e do corpo, surgem e desaparecem, mudam 
constantemente. Porém nos mantemos agarrados a estes eventos, a estes processos, e passamos a 
considerá-los como nossos. Acreditamos que isto é a realidade última da vida. Acreditamos nas histórias 
que a mente conta. Quando pensamos em termos de "eu", "meu", "minha", "mim", ficamos aprisionados, 
assim como quando pensamos em termos de "dele", "seu", "aquele". 
 
Queremos nos libertar da mente e de seus mecanismos. Porém, não a liberamos. Ao contrário, 
prendemo-la, criamos pressões e tensões dentro dela, não relaxamos. Deixamos a mente se agarrar às 
coisas. Não só permitimos que ela se agite, como até incentivamos e alimentamos suas agitações. Nós 
torturamos a mente. 
 
É preciso observar os pensamentos que passam pela nossa mente. Mas também é preciso sentir a 
mente e observá-la. Observemos a expressão aqui utilizada: "sentir a mente". 
 
Lutamos contra a mente ao invés de relaxá-la. Esta luta é uma evitação de seus fatores, de seus 
estados, das formações mentais. Todas as formações são impermanentes, transitórias. Todas as formações 
se dissolvem. Assim, não há por que agarrar-se a elas, nem tampouco repudiá-las. Assim como surgem, se 
vão, desde que não nos agarremos a elas. 
 
Só quando sentimos a mente, quando observamos o que se passa dentro dela, em nosso corpo e 
em nosso coração, é que conseguimos nos distanciar, é que conseguimos perceber que não somos a estas 
manifestações. Enquanto tentarmos evitar, enquanto brigarmos com estas manifestações, estaremos 
presos à mente e suas reações. 
 
Somos nós que construímos, fortalecemos, enrijecemos as formações da mente, os conceitos, os 
padrões, os valores. 
 
Não é por acaso que o budismo considera a mente como um sentido. Existe uma razão para isso. 
 
É preciso sentir e observar as sensações da mente e na mente. Existe o sentir do coração e existe 
o sentir da mente. Precisamos conhecer os dois, pois eles se completam, interagem entre si, influenciam-se 
mutuamente. 
 
Precisamos observar que tudo está na mente, precisamos sentir tudo o que está na mente. 
Observar e sentir suas mudanças, as mudanças dos estados mentais. Sentir os pensamentos surgirem, 
tomarem corpo, forma, sentir a mente reagindo a tais pensamentos e estados. Observar e sentir a agitação 
da mente, a pressão, a tensão, a opressão, a rigidez, o desespero, o impulso de agarrar-se e o impulso de 
fugir. Devemos observar, sentir, permanecer com essas sensações e permitir que passem. 
 
Ensinamentos budistas mostram que o vazio nunca muda. Assim, a mente vazia nunca muda, não 
se desespera, não enrijece, não se agita. Ao conquistarmos uma mente tranqüila e serena, ela pode vir a 
funcionar como um espelho. 
 
Por exemplo, imaginemos uma situação onde estamos atrasados para um compromisso e alguém 
nos detém para uma conversa. A mente fica agitada, começamos a olhar para o lado, para a direção que 
queríamos ir, para a saída. Olhamos repetidas vezes para o ponto de fuga e não conseguimos nos livrar da 
pessoa. A mente quer sair daquela situação, quer fugir, e se inquieta. Outro exemplo é quando nos vemos 
diante de algo que “devemos fazer” mas queremos fazer outra coisa. Há também aquela situação em que 
duas pessoas esperam de nós ações distintas, então nos afligimos por não podermos agradar a ambas. 
Neste caso, a pressão que a mente produz é terrível. Outra situação em que a mente quer desaparecer, 
quer fugir, evitar o que está ocorrendo, é quando somos tomados pela sensação de vergonha. 
 
Nas práticas de silenciar a mente, de meditação reflexiva, de concentração, de contemplação, de 
relaxamento, podemos perceber todos esses movimentos, estados e reações da mente. A partir da prática 
formal, podemos levar as percepções para a vida diária. A prática formal é o treino, a vida diária é o campo 
de batalha. 
 
O exercício de silenciar a mente aos poucos nos leva ao desapego dos pensamentos. Este 
desapego é um distanciamento. Acreditamos que possuímos os pensamentos, e com isso acabamos 
possuídos por eles. Este apego aos pensamentos é um contínuo agarrar-se, como se tal apego pudesse 
nos oferecer alguma segurança real. Todo apego está ligado a conceitos e preconceitos, a padrões e 
valores. 
 
A prática meditativa nos leva também ao estado de leveza mental, pois, quando nos agarramos a 
muitas coisas, tornamo-nos mentalmente pesados. Quanto mais nos prendemos a lastros, mais pesados 
vamos ficando. 
 
O medo e a vergonha se fixam por causa da evitação. Toda evitação é uma tentativa de fuga, mas 
é também um agarrar-se ao pensamento. Quando nos enrijecemos, estamos com os pensamentos rígidos. 
 
A falta de atenção, a falta de concentração, a ignorância, o desconhecimento dos processos e dos 
mecanismos da mente nos escraviza e nos faz sofrer. 
 
A prática de ouvir os sons, de concentrar-se nos sons, ou de prestar atenção aos pequenos 
instantes de silêncio entre um som e outro, é uma prática de concentração que nos leva a perceber o 
silêncio interior. Isto nos leva a parar de lutar contra os sons, a parar de impor resistência e de nos 
perturbarmos com os sons. Ao percebermos o silêncio interno durante essa prática, poderemos, aos 
poucos, levá-lo para a vida diária. Este silêncio interior é o centro a partir do qual passamos a agir. 
Conforme o praticamos e o levamos para vida, conforme o desenvolvemos, este centro vai se tornando 
cada vez mais permanente, constante. 
 
Ao experimentarmos momentos mentais libertos, precisamos perceber que eles vieram de dentro 
de nós, do nosso interior, e não do exterior. Assim como não devemos culpar ninguém pelo que de errado 
ocorrer em nossa mente, também não devemos elogiar quando se dá o contrário. O externo é muito pouco 
confiável e está fora do nosso controle. 
 
Precisamos parar de olhar para o mundo externo ede agir a partir do que vemos nele. É preciso 
olhar para o mundo interno e agir a partir do mundo interno, do centro. Para lograrmos êxito nesta proposta, 
precisamos manter o foco e a concentração no mundo interno. Mestre Samael nos diz que “para o sábio, o 
mundo interno é mais concreto que o mundo externo.” Realmente, precisamos perceber isso, precisamos 
viver isso. 
 
Sobre a Mística 
 
 
Mística é gratidão, é devoção, é louvor. O viver místico é um viver em gratidão, louvor e devoção 
permanentemente. É confessar os erros e arrepender-se. É suplicar por perdão. É suplicar por luz, paz, 
alegria e iluminação. 
 
A devoção pura, renunciada, é o que devemos buscar. Não podemos ser devotos em troca de 
ganhos materiais ou desfrute dos sentidos, pois desta forma criaremos grandes obstáculos em nosso 
caminho. 
 
A devoção é o amor e o apego à Divindade, e este é o único apego benéfico. Mais ainda, este é o 
apego que destrói outros apegos. 
 
Normalmente, quando nos sentimos gratos por uma atitude ou ação feita por outrem, retribuímos 
com alegria a tal ação ou sentimos uma gratidão no coração, um sentimento inexplicável de gratidão. 
Precisamos perceber tudo o que a Divindade nos dá e devemos ser gratos por todas estas coisas 
constantemente, permanentemente. 
 
Nós nos dizemos gratos quando nossos desejos são atendidos. Não temos sentidos para perceber 
as graças que recebemos e assim achamos que não estamos na graça de Deus e não somos gratos. Não 
percebemos o quanto somos protegidos, poupados, auxiliados e conduzidos. 
 
Nossa gratidão está quase sempre ligada a coisas externas, mesmo nossa gratidão a Divindade 
está sempre ligada a isso. Ficamos gratos por casas, empregos, aumentos, relacionamentos, vitórias e 
conquistas materiais. Não que não devêssemos nos sentir gratos por isso, não é esta a questão, mas 
precisamos olhar para dentro e ver tudo que já recebemos internamente: paz, felicidade, tranqüilidade, 
compreensões, sabedoria, purificações, vitórias e conquistas espirituais. Sobre estas coisas as pessoas não 
se lembram de agradecer, até porque a maioria das pessoas nem se dá importância a estas coisas. 
 
A busca de aceitação é a busca de apoio, consolação, reconhecimento, atenção, afeto e carinho, e 
esta busca de aceitação é carência, porém ninguém é carente dos outros senão de si mesmo. 
 
Na busca de aceitação as pessoas rastejam, humilham-se para os homens e com isso sofrem. Se 
se aplicassem com igual empenho na busca da união com Deus, rapidamente lograriam a felicidade. 
 
Enquanto quisermos ser visíveis aos homens não o seremos aos mestres. Enquanto buscamos a 
consolação, a aceitação exterior mais difícil se torna a consolação interior e divina. Enquanto buscamos a 
consolação, a aceitação do mundo, a consolação, a aceitação dos homens, acreditamos e damos mais 
importância para os homens e para o mundo do que para a Divindade, com isso sofremos. É preciso 
desenvolver a devoção, a veneração, a gratidão, a mística. 
 
Sofremos, somos tristes, infelizes, insatisfeitos, ansiosos, desejosos e descontentes, por sermos 
ingratos, por nos vermos como rejeitados, esquecidos, excluídos ou como vítimas. Isso ocorre porque não 
percebermos o quanto a Divindade é misericordiosa, terna, compassiva, pacienciosa, tolerante, generosa e 
bondosa conosco. Se percebermos estas coisas, seremos profundamente gratos, e então teremos alegria, 
felicidade, contentamento, paz e tranqüilidade. Estupidamente, não estamos na graça de Deus, não 
percebemos estar na graça do Pai Interno, não sentimos a consolação Divina por não nos acharmos ou nos 
percebermos consolados; por não nos acharmos ou nos percebermos em graça. 
 
Se percebermos estas coisas seremos profundamente gratos e teremos alegria, felicidade, 
contentamento, paz e tranqüilidade. Se percebermos estas coisas, se esta for nossa realidade interior, 
iremos refleti-la no exterior. 
 
Um dos grandes problemas é esquecer, é deixar de sentir. Como não somos fortes e firmes em 
nossa fé e confiança, em nossa devoção e mística, basta um contratempo qualquer que já voltamos a 
procurar as consolações dos homens e nas coisas do mundo. Somente renunciando às consolações 
exteriores é que se torna possível chegar às consolações interiores ou divinas. 
 
A consolação do mundo é passageira, impermanente, não podemos desejá-la e muito menos 
podemos nos apegar a ela. 
 
O ignorante, o maldoso, confundindo os brilhos das luzes, se apraz na maldade; mas é das virtudes 
que nascem as delícias da alma, os estados de paz, tranqüilidade e serenidade. Quando o sábio se recolhe 
com suas donzelas há felicidade, contentamento e satisfação. O sábio encontra regozijo na prática de 
virtudes. 
 
Não é por desejar que se chega a estes estados, não é por desejar que se recebe graças ou 
consolações divinas, pois as dores e sofrimentos, as tentações e tormentos da mente e do coração não 
cessam sem que a Divindade assim o permita. Quando o coração e a mente estão atormentados por ira, 
inveja, orgulho, vaidade, gula, avareza e luxúria, não há paz, tranqüilidade, contentamento ou satisfação. 
 
Aquele que aceita ser humilhado, se esta for a vontade de seu Pai Interno, não pode ser atingido 
pelos demais; assim como aquele que aceita a ira como um ensino, uma oportunidade de auto-
conhecimento, não pode ser atingido pelos demais. Forte é aquele que percebe e conhece suas fraquezas. 
 
Oferecer o sofrimento como sacrifício aos necessitados e aos que sofrem é um ato de caridade, é 
um comportamento místico, mas este sofrimento não precisa ser uma perda ou uma doença, existe um 
esforço, um sofrimento no viver, no trabalhar, existe muito sofrimento por causa de nossos egos, pelos 
tormentos que nos causam, pelas tentações a que somos submetidos. 
 
Se pudermos ver nossos esforços e nosso trabalho como um servir ao Pai Interno, aos Mestres, 
então até o mais simples dos trabalhos se tornará grandioso, e então sentiremos felicidade, contentamento 
e satisfação. 
 
Formas de praticar mística e de viver místico não faltam. Motivos ou razões para sermos gratos 
também não faltam. O que falta é apenas nossa capacidade de manter estas práticas. 
 
Sobre a Paz 
 
 
A paz vem de dentro de nós, é um estado interior, não depende de situações externas. A sensação 
de paz que reside em fenômenos que ocorrem fora de nós ou é abalada por eles é falsa. Não passa de uma 
ilusão. Não são as situações externas que promovem a paz em nós, mas a sensação de que podemos 
relaxar, de que conseguimos realizar algo, de que não há ameaças. 
 
Todos os nossos momentos de paz são aqueles em que nos permitimos senti-la verdadeiramente. 
É quando relaxamos nossos egos, nossas auto-cobranças, nossos desejos, e conseguimos atingir esse 
estado de leveza interior, ainda que seja por alguns instantes, por um breve momento. Resta-nos apenas 
perceber este processo para nos permitirmos desfrutar deste estado de forma cada vez mais constante. 
 
A paz não é o intervalo entre duas brigas, duas guerras, dois conflitos. É um estado de 
preenchimento – não um preenchimento de elementos externos, mas do próprio espírito. A paz é uma 
conseqüência natural da nossa capacidade de viver em harmonia com a vida, de adaptarmo-nos às 
situações, de mantermos o equilíbrio de nosso estado interior mesmo diante das aparentes dificuldades 
externas. A harmonia nasce da compreensão das polaridades. 
 
A paz está ligada à percepção do real, à percepção de que a vida é passageira e que nada 
conseguirá realmente nos afetar, afetar o nosso Ser. 
 
Sendo a vida um movimento contínuo, é inconcebível compreender a paz, que é a harmonia com a 
vida, como estagnação. A paz não é inação, estagnação, é movimento harmônico com a existência. É um 
resultado da plena aceitação, da devoção, do contentamento, da satisfação, da gratidão. 
 
Conflitos internos, desejos antagônicas, incompatíveis – dilemas muito comuns em nossa mente 
dualista -, ou uma auto-imagem distorcida sãofatores que muito contribuem para a ausência de paz. A 
predisposição para agir, de modo a contrariar exclusivamente os "tem que" dos pais, da sociedade, geram 
muitos conflitos internos. O mesmo acontece diante do desejo de comer uma feijoada em contraposição ao 
desejo de perder peso. Qualquer que seja a nossa opção, acabamos por nos sentir culpados. Isso tem a ver 
com a falta de compreensão dos desejos, com a falta de aceitação, a falta de contentamento. Os desejos 
muitas vezes nascem para compensar a falta de algo que não podemos compreender. 
 
Disse um Mestre: 
 
A desordem não pode ser transformada em ordem. Porém, a negação da desordem é a natureza da 
transformação: a própria negação é a transformação. 
 
Então aquela negação do que é falso, que é a natureza da transformação, é verdade. 
 
Essa desordem é criada pelo pensamento, que é o eu e que cria a separação. 
 
Qualquer movimento do pensamento apenas criará mais desordem. 
 
O próprio pensamento tem de negar a si mesmo. 
 
Portanto, quando o pensamento compreende que o que quer que ele faça, qualquer movimento que 
ele faça, é desordem, então há o silêncio. A natureza da transformação da desordem é o silêncio. 
 
É o silêncio quem cria a ordem, não o pensamento. 
 
E um filósofo complementa: 
 
A partir do silêncio que é paz, que é bem-aventurança, que é amor, vem a completa entrega àquela 
Vida Una que é a natureza essencial de todos os seres e de todas as coisas. Quando todos os conflitos 
cessam, há somente uma harmonia para ser compartilhada com todos. Pois a nossa dificuldade geral para 
sentir o significado da vida é que nós estamos em conflito com a vida, demasiado apegados e identificados, 
através dos sentidos, com as correspondentes atrações e repulsões do nossos corpos. Quando se encontra 
essa harmonia com a vida, o significado está lá, como um perfume que está por toda parte: ele nos leva na 
cálida brisa da sua graça. 
 
Passamos a vida em busca de condições para assegurar a paz, como saúde, trabalho, dinheiro, 
relacionamentos bem sucedidos, apoio dos pais, adaptação à situação econômica do país, etc. 
Condicionados pela ganância, pela busca de resultado, achamos que há sempre algo mais a ser alcançado 
para que possamos obter a paz. Mas, no esforço dessa busca de resultados, impomos a violência contra 
nós mesmos. As realizações voltadas para satisfazer o ego não nos trarão paz, porque o ego é insaciável. A 
paz vem de uma profunda humildade, da simples percepção de que não somos os egos. 
 
Quando condicionamos a paz, vivemos de expectativas, de esperas, de sofrimento, de ansiedade, 
até que a condição aconteça. E, quando a condição esperada acontece, mal conseguimos desfrutar de uns 
poucos momentos de paz. Logo em seguida, já estamos novamente tomados por outra expectativa, desta 
vez pela expectativa de não perder tal condição. 
 
Criar condições para obtermos a paz é, na realidade, criar situações para nos distanciarmos da paz. 
É criar justificativas para a nossa incapacidade de gerar e manter o estado de paz. A maior parte (senão 
todas) das condições que estipulamos deve ser internamente resolvida por nós mesmos. 
 
Precisamos estar em paz, o tanto quanto possível, a cada instante. 
 
Precisamos estar em paz, o tanto quanto possível, a cada grau de consciência que tivermos. 
Precisamos estar em paz, o tanto quanto possível, agora, com as condições que temos, com as situações 
que se nos apresentam neste momento. 
 
Devemos abrir mão de nossas ambições para sermos felizes, para alcançarmos a paz. E de que 
estamos dispostos a abrir mão para isso? Qual é o preço da nossa paz, da nossa felicidade? Parece que 
vendemos muito barato esses bens, bens que não têm preço. 
 
O ato abrir mão é ilusório, e talvez só seja percebido como tal após acontecer. A renúncia vai nos 
levando a perceber a verdade, e não por interferência de segundos ou de terceiros, mas por nós mesmos, 
de forma direta. 
 
Vendemos a nossa paz por vinte siclos de prata, como fizeram os irmãos de José, que passaram a 
viver assombrados pelo seu erro. Vendemos a nossa paz por trinta moedas de prata, como fez Judas, que 
acabou se enforcando. Em resumo, vendemos a nossa paz por um salário maior, por status, por uma casa 
melhor, um carro, uma herança, uma paixão, pela posse de um território, por coisas que acabam por nos 
atormentar, nos enforcar. 
 
É sábio compreender que tudo passa, que não vamos levar as coisas materiais para o outro mundo. 
Apegados à matéria e aos desejos, acabamos levando, sim, um lastro que nos prenderá. Se somos 
obsessores em vida, após a morte seremos ainda mais. 
 
Um grande Mestre afirma que, se realmente acreditássemos na vida após a morte ou na 
reencarnação, não viveríamos como vivemos. Será que realmente acreditamos? 
 
É sensato sacrificarmos a nossa paz só pelo fato de querermos ter razão em uma disputa, em uma 
discussão? A razão, a opinião, é apenas uma idéia, um ponto de vista, por mais nobre que seja. Vendemos 
a nossa paz por uma idéia, pelo orgulho de ser o detentor da razão. Não seria isto uma insensatez? Agimos 
como crianças que discutem entre si, tentando, cada uma, provar que sua idéia é melhor. A diferença é que 
nas crianças, por sua inocência, tudo é perdoável e sem graves conseqüências. 
 
Achamos que somos os justiceiros universais, queremos fazer justiça, segundo a nossa ótica. E 
vendemos a paz por isso também. O que é a justiça, afinal? Quem pode dizer o que é justo? Devemos 
deixar que cada um pague seu Karma pelos erros cometidos, se é que são realmente erros. 
 
Devemos abrir mão dos bens materiais, das idéias, da nossa pretensa justiça. Ao adotarmos tal 
postura, estamos promovendo a prática do desapego, a habilidade de vivermos em paz. 
 
Vivemos dizendo que só queremos o que é nosso, o que nos é de direito. E o que é o direito? 
Enquanto estivermos preocupados com esses direitos não alcançaremos a paz. 
 
Criamos uma determinada situação e depois culpamos os outros por não vivermos em paz. 
Vendemos a nossa alma ao diabo e depois achamos que ele é o culpado. 
 
Como bem diz a sabedoria popular, “Quando um não quer, dois não brigam” ou “Os incomodados 
que se mudem.” Sim, os incomodados que se mudem. Isto se aplica perfeitamente ao mundo interno 
também. Na realidade, é a mudança interna, a percepção da realidade, que pode nos levar à mudança 
externa, à ação de sair de um lugar e ir para outro. Enquanto permanecermos apegados à matéria, 
enquanto nos situarmos no mesmo nível de ser dos demais, seremos apenas mais um deles. Bom seria que 
nos incomodássemos a ponto de mudar, bom seria que todos mudassem, mas... 
 
Não há esforço na prática da meditação, reflexão ou oração. Se houver esforço, então a prática, por 
si, deixa de existir. Deve haver vontade e disciplina. Guerra, conflitos ou lutas, não. São práticas onde a 
paz, o silêncio e a serenidade se fazem necessários. Se travarmos uma luta interna contra o medo, a 
maldade, a arrogância, a mania de perfeição, a miséria, a solidão, o abandono, a crítica, a injustiça, tanto 
interna quanto externamente, só vamos conseguir fortalecer estes sentimentos. Devemos aceitá-los com 
boa vontade e entregarmo-nos a essas práticas, que se encarregarão de eliminá-los, atraindo a paz, 
abrindo espaço para que ela invada nosso coração e preencha o nosso Ser. 
 
Diz Samael Aun Weor em “Revolução da Dialética”: 
 
Chegou a hora de refletir sobre o nosso próprio destino. A violência não resolve nada. A violência 
só pode nos conduzir ao fracasso. Necessitamos de paz, serenidade, reflexão e compreensão. 
 
Nós somos o único inimigo a quem devemos derrotar. Somos nossos inimigos quando não nos 
conhecemos e atrapalhamos o fluxo da vida. A vida não tem nada de errado, nós é que destruímos e 
atrapalhamos seu curso; nós é que queremos tudo controlar, tudo julgar. A vida segue as leis naturais, e 
tudo o que fazemos é perturbar essas leis. Na vida não existem ganhos ou perdas, tudo isso é uma grande 
ilusão. Existemapenas aprendizados. Deixemos que a vida faça a parte dela e façamos nós a nossa parte. 
Tenhamos confiança e fé no Divino, fiquemos em paz. 
 
As dificuldades que surgem ao longo de nossa existência acontecem para que possamos 
desenvolver as nossas habilidades. A vida está a favor e não contra nós. 
 
Ensinamentos budistas dizem: 
 
Existem três segredos para a paz. Primeiro, ser pacífico. Ser pacífico é ser livre de expectativas, é 
não querer nada de ninguém. Tome a iniciativa e seja generoso. Este é o segredo de ser contente em todas 
as circunstâncias. Segundo, sua paz despertará a paz natural nos outros e trará esperança a eles. Você só 
acredita na paz quando você a experimenta. Concentre-se no centro da testa, sente-se atrás dos seus olhos 
e observe. Este é o lugar onde você cria seus pensamentos. Ensine sua mente a refletir sobre a paz. 
Terceiro, a paz termina quando você fica emocionalmente envolvido com uma situação. A pratica de ser um 
observador independente ajuda você a ficar estável e calmo. 
 
A paz termina quando nos envolvemos emocionalmente com uma determinada situação, ou seja, 
quando nos identificamos. 
 
Uma grande Mestra disse: 
 
Pode-se estar confinado numa prisão e ainda assim ser um trabalhador pela causa. Desta forma, 
rogo-te para tirar de tua mente qualquer desgosto pelas circunstâncias presentes. 
 
A paz começa brotar dentro de nós quando, ao percebemos nossa ignorância, nossa miséria, nossa 
nulidade, começamos a deixar de carregar o peso do orgulho e da vaidade e nos abrimos para conhecer a 
nós mesmos e ao mundo. 
 
Quando nos damos conta de nossa ignorância, quando abrimos um espaço para a aceitação dos 
erros, quando abrimos mão do controle, estamos nos abrindo também para a incerteza. Por mais incrível 
que possa parecer, somente a incerteza pode nos trazer confiança. O controle, ao contrário do que se 
pensa, não é capaz de nos oferecer segurança, confiança. A própria idéia de controle trás consigo a 
insegurança, o medo do descontrole. Entregar-se à incerteza é demonstração de fé, é devoção. É como dar 
um passo em direção ao abismo, onde somente a fé pode nos sustentar. E, quando damos este passo, 
encontramos, enfim, a liberdade, a paz, o amor. 
 
Um sábio monge disse: 
 
Em todo caso, devemos ficar cientes que temos o poder de trazer a paz para nossa vida ao ajustar 
a forma em que vivemos e especialmente a forma em que interagimos com o mundo. Na medida que 
cultivamos a paz, fecharemos o portal da ira não só na nossa vida, como também ajudaremos a fechá-lo 
para os outros. Como a ira, a paz é contagiante e influencia aqueles a nossa volta. 
 
Enquanto o medo existir dentro de nós, não poderemos atingir a paz em plenitude. Assombrados 
por nossos temores, dominados frequentemente pela ansiedade e pela insegurança, fazemos da paz um 
bem distante e inexeqüível. 
 
 
Palavras de Sri Krishna 
 
 
Excerto selecionado do “Bhagavad-Gita”: 
 
Quando um homem renuncia aos desejos dos sentidos engendrados pela mente, obtendo 
contentamento unicamente no Eu, diz-se então que alcançou a consciência divina. 
 
Quem está sempre tranquilo apesar das três misérias; quem não se deixa exaltar quando há 
felicidade; quem está livre do apego; quem não tem ódio nem medo; merece o nome de Sábio. 
 
Neste mundo transitório quem não se deixa afetar pelo bem ou pelo mal que poderão sobrevir, sem 
louvá-lo ou maldizê-lo, já se encontra situado na consciência divina. 
 
Aquele que for capaz de retirar os sentidos de todos os seus objetos assim como a tartaruga 
recolhe os membros no casco, deve ser considerado um ser auto-realizado. 
 
A alma corporificada consegue renunciar aos prazeres dos sentidos muito embora ela não perca o 
sentido do prazer. Porque, depois de provar o gozo transcendental, ela fixa a consciência. 
 
Os sentidos são tão fortes que conseguem arrastar mesmo a mente do homem sóbrio que se 
esforça por domá-los. 
 
Quem controla os seus sentidos concentrando-se em Mim pode ser considerado um homem de 
mente estável. 
 
Ao contemplar os objetos a eles nos apegamos, do apego vem a luxúria, e da luxúria a ira. 
 
Da ira vem a ilusão, a ilusão turba a memória. A memória confundida desbarata a inteligência, e 
quando esta se destrói cai-se de novo no poço. 
 
Quem controla os seus sentidos por praticar os princípios da liberdade regrada recebe misericórdia 
e então fica liberado da aversão e do desejo. 
 
E para quem recebeu misericórdia divina já não existem misérias, e a inteligência fixa-se nessa 
condição feliz. 
 
Sem consciência divina a mente não se controla nem se fixa a inteligência, sem o quê, não existe a 
paz. E onde não existe paz, pode haver felicidade? 
 
Assim como um vento forte leva um barco mar afora, apenas um dos sentidos em que a mente se 
detenha pode levar para longe a inteligência do homem. 
 
Arjuna de braços fortes, aquele cujos sentidos estão livre dos objetos, tem a inteligência firme. 
 
O que é noite para todos é tempo de despertar para os autocontrolados. E o que é manhãpara 
todos, para o pensativo é noite. 
 
Quem não se deixa agitar pelo fluir dos desejos que entram qual rios no mar, que no entanto fica 
estável, é o único que tem paz; não aceite aquele que se esforça por saciar seus desejos. 
 
A pessoa que abandona o sentimento de posse e os desejos dos sentidos, desprovida de egoísmo, 
alcança a paz verdadeira. 
 
Eis o caminho da vida, divina e espiritual, onde não existe engano. Indo por este caminho, mesmo 
na hora da morte, chega-se ao Reino de Deus. 
 
 
 
A Paz Perfeita – Conto de Autor Desconhecido 
 
 
Havia um rei que ofereceu um grande prêmio ao artista que fosse capaz de captar numa pintura a 
paz perfeita. Foram muitos os artistas que tentaram. O rei observou e admirou todas as pinturas, mas houve 
apenas duas de que ele realmente gostou e teve que escolher entre ambas. 
 
A primeira era a de um lago muito tranqüilo. Este lago era um espelho perfeito onde se refletiam 
umas plácidas montanhas que o rodeavam. Sobre elas encontrava-se um céu muito azul com tênue nuvens 
brancas. Todos os que olharam para esta pintura pensaram que ela refletia a paz perfeita. 
 
A segunda pintura também tinha montanhas. Mas estas eram escabrosas e estavam despidas de 
vegetação. Sobre elas havia um céu tempestuoso do qual se precipitava um forte aguaceiro com faíscas e 
trovões. Montanha abaixo, parecia retumbar uma espumosa torrente de água. Tudo isto se revelava nada 
pacífico. 
 
Mas, quando o rei observou mais atentamente, reparou que atrás da cascata havia um arbusto 
crescendo de uma fenda na rocha. Neste arbusto encontrava-se um ninho. Ali, no meio do ruído da violenta 
camada de água, estava um passarinho placidamente aconchegado em seu ninho. Paz perfeita. 
 
Qual pensas que foi a pintura ganhadora? O rei escolheu a segunda. Sabes por quê? 
 
"Porque", explicou o rei, "paz não significa estar num lugar sem ruídos, sem problemas, sem 
trabalho árduo ou sem dor. Paz significa que, apesar de se estar no meio de tudo isso, permanecemos 
calmos no nosso coração. Este é o verdadeiro significado da paz". 
 
 
 
Comentários e Questionamentos 
 
 
– Por que é dito que a paz não é inação, estagnação, mas um movimento harmônico com a 
existência? 
 
A vida é movimento, quando não aceitamos o movimento da vida, não estamos em paz. Existem 
momentos de ação e momentos de não ação. Devemos atuar nos momentos de ação e permanecer quietos 
nos momentos de não ação. Estar em paz não significa ficar parado, escondido. 
 
 
– O que quer dizer “condicionados pela ganância”? 
 
A sociedade nos condicionou, e nós aceitamos, acreditamos neste condicionamento. Somos 
impulsionados a querer sempre mais, mesmo indo contra a natureza de nosso espírito. Ainda que nosso 
estado seja de felicidade plena, as vozes do condicionamento geram um conflito interno. 
 
 
– Será que é realmente assim que acontece? Será que não atingimos um pouco de paz quando 
satisfazemos oego? Seria o ego insaciável?” 
 
É uma questão de auto-observação. 
 
 
– A paz expressa no texto, mesmo descrita em harmoniosas palavras, ainda assim, não passa de 
projeções mentais. A ansiedade de nossas palavras, ao querermos conceituar, expressar algo, é capaz de 
comprometer exatamente paz que elas tentam reproduzir, bem como qualquer certeza ou consciência. Ou 
seja, nosso desejo de expor algo aos olhos do mundo, a nós mesmos, algo que achamos compreender, por 
si só, já nos torna aflitos. Observemos esta passagem: “Devemos abrir mão de nossas ambições para 
sermos felizes, para alcançarmos a paz. E de que estamos dispostos a abrir mão para isso? Qual é o preço 
da nossa paz, da nossa felicidade? Parece que vendemos muito barato esses bens, bens que não têm 
preço.” 
 
Abrir mão significa desapegar-se. Desapegar-se com o mesmo desapego de Buda, com o mesmo 
desapego de Krishna, apesar, é óbvio, da roupagem um tanto diferente e menos grandiosa. 
 
 
– Com base na frase “‘na vida não existem ganhos e perdas”, citada no texto, como então referir 
que “devemos abrir mão de nossas ambições para sermos felizes, para obtermos a paz”, se aqui está 
explícito que deve haver uma perda para atingirmos a paz? 
 
Segundo as palavras de Marcio Sorge, “quando nos desapegamos e compreendemos o desapego, 
percebemos que nada perdemos.” 
 
Consideremos aqui que o texto possui camadas. As aparentes contradições ocorrem apenas no 
nível da mente. Como o texto oscila frequentemente entre o nível mental e o espiritual, devemos tentar 
explorar bem certas frases, a fim de uma perfeita compreensão. 
 
Notemos que a frase “na vida não existem ganhos e perdas”, por exemplo, é utilizada sob o ponto 
de vista do Ser, e não da mente, não do ego. Como a questão das perdas e dos ganhos é aqui tratada 
como ilusões do ego, fica sugerido que devemos abrir mão dos desejos do ego, dos pensamentos, das 
idéias, dos conceitos, da religião. Ou seja, exercer o desapego. 
 
 Um grande sábio disse: 
 
Todas as pessoas querem as mesmas coisas que nós, como por exemplo a 
felicidade, todos queremos ser felizes. Alguns passam dos limites e acabam passando 
por cima dos outros, buscam a felicidade a qualquer preço, desrespeitando o próximo. 
Muitos fazem uma confusão entre felicidade e prazer, mas felicidade não é prazer. 
 
Não podemos impedir os outros de serem o que são, o máximo que podemos 
é perceber o estado de ânimo dos nossos semelhantes. Se tivermos suficiente 
compreensão, sensibilidade, compaixão, até podemos renunciar, ceder a vez a essas 
pessoas, porque para nós será mais importante nosso estado de espírito, serenidade, 
paz, tranqüilidade, do que a fascinação momentânea por algo. 
 
 
– Está no texto , está em nossas palavras, está em nossas intenções, mas ainda não é parte do 
nosso Ser essa paz que tanto sugerimos a nós e aos outros. Há mais aflição do que paz no texto, não 
acha? Logo, essa paz ainda é dual, mental, ilusória, suposta e condicionada. 
 
O texto primeiramente expõe o que é a paz. Depois, os motivos que nos impedem de termos, de 
sermos, a paz. A aflição talvez seja resultante de algum tipo de identificação. São apenas palavras. Se lidas 
com o coração, podem assumir um determinado significado; se lidas com a mente, outro; e, se lidas com o 
ego, talvez nenhum significado tenham. 
 
 
– Observa-se conflitos no texto demonstrados claramente no que é projetado mais adiante: 
“Devemos entender que tudo pode ser conquistado sem esforço. O problema é que acreditamos que não há 
mérito em conquistas sem lutas. Queremos dificuldades, brigas, lutas, guerras.” Sendo assim, por que ainda 
se mantém este conflito, este esforço? Não seria porque a verdadeira paz ainda permanece oculta? 
 
Não há conflito algum, apenas uma observação da maneira como pensamos. Observa-se como a 
sociedade nos influencia, nos condiciona. Mais uma vez, sugiro explorar as camadas dessas frases. Para 
expor o conteúdo integral de cada uma delas, seria necessário escrever um livro sobre a paz. E isto 
representaria muita dialética para procedimentos simples, uma vez abrangeria muito mais conceitos do que 
percepções. A idéia aqui é justamente quebrar conceitos, lançar situações para que sejam percebidas, 
descobertas. A intenção é induzir uma nova visão dos fatos, mesmo que esta visão se contraponha às 
idéias expostas. Não podemos nos aprisionar em conceitos estáticos. 
 
Nosso espírito nos dá tudo, não existe a necessidade de luta. Buscar algo, ter vontade, é muito 
diferente de ter desejos, ansiedades. Uma ação voltada para a realização de um projeto não precisa 
envolver luta ou desespero. 
 
 
– A impressão que me passa, às vezes, é que, na ânsia de se propor uma idéia, define-se um 
padrão, um modo de pensar, um esquema rígido a ser seguido. E isto transmite uma tensão muito grande. 
Dá-nos a impressão de que o autor quer induzir um pensamento segundo a linha de suas convicções. E é 
justamente com isso que eu não concordo. Gosto muito da idéia central, mais não da maneira como ela é 
exposta, defendida. Creio ser mais eficiente expor a idéia, de modo a fazer com que o leitor pense e reflita a 
respeito. Penso que este procedimento agregaria muito mais valor às palavras. 
 
A idéia é, efetivamente, induzir alguma coisa, mas não exatamente pelo que está sendo dito. O que 
se pretende, acima de tudo, é fazer com que o leitor passe a se observar melhor e se abra para algo novo. 
É o caso de se questionar se a rigidez percebida não seria proveniente da influência de nossos atuais 
padrões, e não do texto, das novas idéias introduzidas. Não concordar pode significar não querer se 
desprender dos padrões atuais. E isto talvez explique a idéia de rigidez captada. Pode ser apenas uma 
projeção. O que se sugere aqui são mudanças, quebras de valores, reformulações. Se valem ou não a 
pena, isto fica por conta da percepção e do arbítrio de cada um. De fato, um “chacoalhão” é dado. Mas há 
sonos que são profundos, muito profundos. 
Sobre a Projeção como Fuga da Realidade 
 
 
É muito interessante observar que o conhecimento da lei da projeção não vai nos transformar. 
Precisamos compreender verdadeiramente este fenômeno, observar como a projeção se processa em nós, 
utilizá-la de forma a nos conhecermos mais e melhor. 
 
O fato de perceber verdadeiramente que alguém está projetando pode nos ajudar a desenvolver a 
compaixão. Mas isso só se dá quando percebemos em nossos próprios defeitos, aí sim podemos perceber 
quando o outro age por projeção e identificação. Nunca antes disto, do contrário estaríamos nos 
enganando. 
 
Sem observarmos, sem compreendermos as nossas falhas, sem olharmos para dentro de nós 
mesmos, sem admitirmos nossas limitações, sem reconhecermos as nossas projeções, de nada adiantará 
termos conhecimento deste fenômeno. Estaríamos apenas utilizando a projeção como fuga e negação da 
realidade. O ego é esperto, astuto, sem nos auto-conhecermos, caímos facilmente no auto-engano. 
 
Apaixonados por nós mesmos, por nossa fantasiosa auto-imagem, cheios de amor próprio, somos 
facilmente enganados pelos egos. 
 
Como mostrar a alguém apaixonado os defeitos do ser amado? Não é possível. 
 
Assim, somos nós com nós mesmos. Somos por demais apaixonados por nós mesmos. Por mais 
que falem, que gritem, por maiores que sejam as projeções, os exemplos que nos são mostrados, nada 
conseguimos perceber. Continuamos a dormir profundamente, continuamos fascinados por nós mesmos, 
com a mente completamente embotada. 
 
Tudo o que fazemos é negar. Negamos as nossas projeções, negamos a realidade, utilizamos o 
conceito de projeção como fuga da realidade. 
 
Se somos criticados por sermos ou agirmos desta ou daquela forma, não admitimos tal crítica. 
Negamos, nos enganamos, nos convencemos de que o outro está apenas projetando, e que nós somos 
santos, inatingíveis, os perfeitos. 
 
Aquele que nos critica é visto por nós como um pobre coitado, que não percebe que está 
projetando, comoum ser desprovido de bondade, que julga seu próximo, manifestando sua ira e 
intolerância. Acreditamos que somos santos injustiçados. Somos incapazes de perceber nossa hipocrisia. 
Fugimos da realidade, da verdade. E a verdade é: nós é que estamos projetando, nós também projetamos. 
 
A projeção serve para nos conhecermos mais e melhor, não para fugirmos da realidade, não para 
negarmos a realidade. Ainda que conheçamos o conceito da projeção, quando somos insultados ou 
criticados, somos tomados por sensações ruins e fantasiamos idéias, invertemos conceitos, padrões, para 
que essas sensações se tornem mais agradáveis. Com isso, chegamos à equívoca e cômoda conclusão 
que os outros estão apenas projetando seus defeitos, pois nós somos sábios, calmos, superiores. E isto 
nada mais é do que o orgulho, a soberba, o amor próprio, auto-adoração atuando em nós. 
 
Temos que olhar para dentro de nós mesmos com sinceridade, com honestidade, temos que ser 
duros conosco, eliminar de dentro de nós todo esse equívoco, se realmente quisermos mudar, se realmente 
quisermos nos livrar de nossos sofrimentos. 
 
Medusa, personagem da mitologia grega, era um ser monstruoso, que tinha serpentes na cabeça 
em vez de cabelos, presas pontiagudas, mãos de bronze e asas de ouro. Conta a lenda que aquele que a 
olhasse diretamente seria petrificado. O herói Perseu, então, para neutralizá-la, utilizou um escudo mágico 
de metal polido, que refletia a imagem de Medusa, como se fosse um espelho. E assim ele conseguiu 
decapitá-la com a espada de Hermes. 
 
Perseu não utilizou o escudo para ficar se auto-adorando, tampouco para ficar observando quão 
tétricas eram as serpentes que se moviam na cabeça da Medusa ou para olhar suas terríveis garras. Nada 
disso ele fez. Pelo contrário, limitou-se a observar e analisar a perigosa criatura. Só assim pôde enfim 
liquidá-la. 
 
De forma análoga, é para isso que serve a projeção, para observarmos um defeito nosso através de 
um espelho, de um alguém que nos mostre as nossas imperfeições. A decapitação de Medusa representa a 
decapitação de nossos próprios defeitos. 
 
Um sábio monge budista disse: 
 
Nosso rosto é algo que normalmente nunca vemos. Embora usemos a nossa boca para falar todos 
os dias, nunca vemos que formato ela tem. Embora nosso nariz não pare de respirar, nunca conseguimos 
vê-lo. Nossos ouvidos ouvem sons o tempo todo, porém não podemos ver a sua aparência. Nossos olhos 
podem enxergar todo tipo de coisa, no entanto não conseguem enxergar a si mesmos. Dependemos de 
espelhos para ver o nosso reflexo. Somente desta maneira podemos ter idéia de como é o nosso rosto. 
Quando as pessoas têm sabedoria, é como se elas tivessem um grande espelho para enxergar a si 
mesmas, porque a sabedoria é o conhecimento claro que surge de uma mente luminosa, limpa e pura, livre 
das distorções, livre das ondulações 
 
Mas, infelizmente, parece que as pessoas preferem ter mais conhecimento para poderem julgar 
melhor o seu próximo, o que significa um brutal auto-engano. E quando, por acaso, alguém admite ou 
percebe que está vendo seu reflexo no outro, nada faz. Simplesmente aceita que é deste ou daquele jeito e 
continua a ser. 
 
Sobre a Raiva 
 
 
Um dia alguém disse que a raiva podia ser um sentimento bom, uma vez que dela provinha o 
impulso para realizar transformações, grandes feitos. Não parece ser este um conceito muito sensato, pois 
a raiva destrói; destrói nossa mente, nosso estômago, nosso cérebro, etc. Raiva não é vontade. Vontade é 
uma força bem diferente disto. 
 
Se precisamos de um impulso para nos motivar a agir, certamente a raiva não é o melhor deles, já 
que anda sempre ao lado de pares ruins, como o orgulho e a vaidade, por exemplo. 
 
A raiva não é boa conselheira, pois nos leva a agir inconscientemente com sentimentos negativos, 
como é o caso do orgulho e da vaidade, acima mencionados. A raiva nos cega. Os resultados de ações 
movidas por ela nunca serão benéficos. 
 
Diz Samael Aun Weor em “A Revolução da Dialética”: 
 
A cólera aniquila a capacidade de pensar e de resolver os problemas que a originam. Obviamente, a 
cólera é uma emoção negativa. 
 
Cultivamos padrões de pensamentos, emoções que vêm de longo tempo, anteriores mesmo à 
nossa existência, como, por exemplo, o ódio entre países ou entre crenças. Muitas criaturas sequer sabem 
por que se odeiam. 
 
Criamos expectativas fantasiosas, que se transformam em frustrações e geram raiva; raiva da vida, 
raiva de pessoas e coisas que nos contrariam, raiva de nós mesmos por termos criado essas fantasias, por 
termos acreditado em ilusões. 
 
E sempre tentamos nos justificar, dizendo que tivemos motivos para sentir raiva, para nos irritarmos, 
para ficarmos nervosos. Mas a verdade é que não existe um motivo real para que isso aconteça, não 
existem motivos externos para a raiva, os motivos são sempre internos. 
 
Muitas vezes a raiva vem de uma má interpretação das situações, de uma impressão distorcida dos 
fatos, de uma visão egocêntrica dos fatos, uma visão identificada, viciada. A raiva normalmente está dentro 
nós mesmos, e acabamos por projetá-la nos outros. Ela tem origem nos conflitos internos, em nossos 
desejos muitas vezes antagônicos. 
 
Se nos irritamos, se ficamos nervosos, agressivos porque alguém nos provoca, então vamos mal. 
Estamos sendo escravos e fantoches de terceiros; estamos submetidos aos poderes de outrem. E perceber 
isto também pode nos deixar com raiva, com raiva de nós mesmos, o que pode levar à negação ou à 
transferência deste sentimento para alguém ou alguma coisa. 
 
Existe uma história interessante atribuída ao colunista Sidney Harris. Contam que um certo dia, ele 
acompanhava um amigo à banca de jornais. O amigo cumprimentou o jornaleiro amavelmente, mas, como 
retorno, recebeu um tratamento rude e grosseiro. Pegando o jornal que foi atirado em sua direção, o amigo 
de Harris sorriu polidamente e desejou um bom fim de semana ao jornaleiro. Quando os dois amigos 
desciam a rua, o colunista perguntou: 
 
– Ele sempre lhe trata assim com tanta grosseria? 
– Sim , infelizmente é sempre assim. 
– E você é sempre tão polido e amigável com ele? 
– Sim, sou. 
– Por que você é tão educado, já que ele é tão indelicado com você? 
– Porque não quero que ele decida como eu devo agir.” 
 
É fácil observar que, se nos irritamos, se ficamos nervosos, irados diante de uma provocação, então 
estamos sendo escravos dos outros e dos nossos demônios, estamos sendo manipulados por eles. 
Também não é difícil observar quando nos deixamos escravizar, quando somos facilmente manipulados, 
com chantagens emocionais, aplicação de rótulos, falsos conceitos, idéias tortas. 
 
Quando a mente sai da serenidade, da paz, nossos conceitos precisam ser revistos, sem o foco no 
ego, no eu, no mim mesmo, no meu. 
 
Um grande Mestre disse: 
 
O corpo astral tem seus desejos – e os tem às dúzias; há de querer ver–te encolerizado, ouvir–te 
dizer palavras ásperas, que sintas ciúmes, que sejas ávido por dinheiro, que invejes os bens alheios e 
cedas ao desânimo. Quererá todas essas coisas e muitas outras mais, não porque deseje prejudicar–te, 
mas por que lhe aprazem as vibrações violentas e gosta de mudá–las continuamente. Tu, porém, não 
desejas nenhuma destas coisas e, portanto, deves distinguir os teus desejos dos de teu corpo astral. 
 
A raiva é também uma forma de defesa, apesar de ser uma emoção destrutiva, tanto para os que a 
sentem quanto para os que se tornam objeto dela. Todos nós temos nossas inseguranças, nossos medos. 
Uns reagem com ira, outros com inibição ou timidez; cada um tem seus mecanismos de defesa, que variam 
em função de suas experiências, necessidades, valores. 
 
Vários estudos científicos comprovam que a raiva enfraquece as defesas do organismo e é uma 
causa importante de doenças e morte prematura. Há indícios científicos de que a expressão repetida da 
fúria aciona reações bioquímicas nocivas ao organismo.O impulso colérico é relacionado até a algumas 
manifestações de câncer. 
 
A raiva destrói nossa serenidade, constituindo-se num grande obstáculo ao desenvolvimento da 
compaixão e do altruísmo. Sua Santidade o Dalai Lama reforça a afirmação de que não é possível superar 
tal emoção apenas suprimindo-a ou fingindo que ela não existe. Da mesma forma, deixar a raiva fluir sem 
controle, na esperança de nos livrarmos dela por sua simples vazão, também não resolve. A solução é 
evitá–la ou transformá–la pelo cultivo de seus antídotos: a paciência e a tolerância. 
 
Diz Sua Santidade o Dalai Lama em “A Arte da Felicidade”: 
 
Um resultado espontâneo da paciência e da tolerância é o perdão. 
 
Precisamos não nos identificar, não lutar contra raiva, não resistir, pois não somos a raiva. Tudo que 
é passageiro não é real, somente é real o que não muda. Logo, a raiva é uma ilusão, não é real, pois é 
passageira, momentânea. A paz, sim, é real. Sempre que a raiva se vai, lá está ela: a paz. Não é 
necessário fazer nada, não é necessário acontecer nada para que estejamos em paz. A paz simplesmente 
é. 
 
Um grande sábio disse: 
 
Talvez o defeito não seja a raiva, mas a falta de paciência. A impaciência é a falta de bondade. 
 
É muito fácil sermos pacientes enquanto não existe nada nem ninguém chamando pela expressão 
de nossa paciência. O desafio está em praticarmos a serenidade, a paciência, a tolerância no dia-a-dia, no 
calor das situações. É assim que forjamos nossas virtudes. 
 
Só depois de termos chegado à compreensão da raiva, do nervosismo exacerbado, da irritação, é 
que podemos olhar para aqueles que se encontram nesse estado e sentir uma profunda compreensão, uma 
real compaixão. Através da ignorância do outro, podemos avaliar também o quanto fomos ignorantes, o 
quanto fomos estúpidos, o quanto nos tornamos ridículos quando vivenciamos este mesmo estado. 
 
É comum nos deixarmos tomar por irritação e raiva sempre que nossos objetivos são frustrados, 
sempre que alguém ou alguma coisa atrapalha a realização de nossos desejos, sempre que a nossas 
expectativas de prazer são ameaçadas, sempre que somos privados de situações de comodidade e 
satisfação. 
 
Condicionamos nossos estados internos, e assim vivemos na expectativa, na ansiedade, na 
esperança de condições propícias que nos levem à paz e à tranqüilidade. Mas isso não passa de uma 
ilusão, pois, quando essas tão aguardadas condições não acontecem, ficamos irritados, com raiva. 
 
Construímos em nossa mente situações ideais que nos dão a sensação de segurança, de 
tranqüilidade, de conforto, de prazer. Quando essas situações são ameaçadas por algo ou alguém, lá 
estamos nós, dominados pela raiva e pela irritação. Ficamos nervosos, ansiosos, querendo de volta, a 
qualquer preço, aquela situação onde sentíamos segurança e conforto. 
 
Não há motivo para irritação com algo que não podemos mudar, pois, se não podemos mudar, se 
isto não está em nossas mãos, não há por que se irritar, não há por que perder a paz e a serenidade, não 
há por que se preocupar. O que podemos fazer, o que está em nossas mãos, é tentar relaxar e aceitar, é ter 
paciência, tolerância, serenidade. Isso sim está em nossas mãos, ou pelo menos deveria estar. 
 
Não há motivo para irritação com algo que podemos mudar, pois, se podemos mudar, se a 
mudança está em nossas mãos, não há por que se irritar, não há por que perder a paz e a serenidade, não 
há por que se preocupar, basta trabalharmos pacientemente para que a mudança ocorra. 
 
Geralmente, queremos ter razão em disputas e discussões. Se não conseguimos, se os outros não 
concordam conosco, ficamos irados. Devemos compreender que são apenas idéias, pontos de vista, 
conceitos e opiniões, que podem divergir ou não, e, por mais nobres que sejam, não passam disso. Mas, 
movidos por nossas inseguranças, nos apegamos e nos identificamos ferrenhamente com essas idéias. 
Temos medo de perder a razão, temos medo de ser dominados. 
 
Não são os outros que não aceitam nossas opiniões, somos nós que não aceitamos que os outros 
não aceitem nossas opiniões. Somos nós que não aceitamos que os outros tenham opiniões diferentes das 
nossas. Chamamos de teimosos àqueles que não aceitam facilmente nossos pontos de vista. 
 
Egoístas que somos, acreditamos que precisamos ter paciência e tolerância com os outros e nos 
esquecemos de que os outros também devem fazer o mesmo conosco. Talvez saindo um pouco de dentro 
de nós mesmos, sendo menos egoístas, possamos perceber que os outros também precisam ter muita 
paciência e tolerância para conosco. Afinal, não somos tão santos quanto pensamos ser; também nos 
irritamos, também temos nossas chatices, nossas crises de humor. Esta percepção nos levará a relaxar, e, 
por conseqüência, a ter muito mais paciência e tolerância com o nosso próximo, que, por sua vez, deve ter 
a mesma atitude para conosco. 
 
Ao sermos tomados pela raiva, devemos aceitar que estamos com raiva, não devemos resistir, não 
devemos negar, não devemos fugir das situações, dos sentimentos, das emoções. Devemos aceitar e 
observar aquilo que estamos sentindo, aquilo que acontece dentro de nós, que tipo de pensamentos 
habitam a nossa mente. Não temos que continuar negando ou fugindo de nossos demônios. Isso não quer 
dizer que devemos partir para cima dos outros, que devemos brigar, insultar, ofender. Quer dizer que 
devemos nos observar, para percebermos como estamos sendo estúpidos, como está sendo idiota o nosso 
comportamento. A raiva é uma realidade humana, não é uma verdade. Mas é uma realidade, assim temos 
que observa–la para um dia podermos compreendê–la. 
 
Existe um fenômeno denominado ‘transferência’, no qual transferimos algo que sentimos em relação 
a nós mesmos para uma outra pessoa, ou o que sentimos em relação a um certo indivíduo para outro 
indivíduo, ou o que sentimos em relação a determinada coisa para outra coisa. Os itens podem ainda ser 
misturados, e então a transferência pode se dar de uma coisa para uma situação, de uma situação para 
uma pessoa, de nós mesmos para uma coisa, e por aí afora. Mas, em ultima análise, devemos ter em 
mente que a origem é sempre algo que está dentro de nós, algo com nossos próprios demônios. 
 
Se, por exemplo, estamos fazendo um curso que não gostamos mas não temos coragem e ousadia 
para abandoná-lo e começar outro, se não temos coragem e ousadia para assumir uma mudança de 
opinião, tudo indica que estamos preocupados demais com nossa auto-imagem. Ela se tornou mais 
importante do que nossa paz e nossa felicidade. Então sentimos raiva de nós mesmos, mas não 
conseguimos lidar com isso e transferimos, projetamos, para o que é externo a nós, como, por exemplo, 
colegas de classe, professores ou a própria instituição. 
 
Em outro exemplo, se moramos em um lugar que não nos agrada, que não é o lugar onde 
idealizamos morar, ficamos com raiva, raiva de nossa incapacidade, de nossa impotência diante da 
situação, de nossa falta de força, de coragem, de ousadia. Então, como não conseguimos lidar com a 
situação, transferimos, projetamos, nossa raiva para terceiros: para os vizinhos, para própria habitação, 
para os companheiros que moram conosco. 
 
Existe um outro fenômeno chamado ‘compensação’. Neste fenômeno tentamos compensar um 
sentimento que não admitimos com um contrário, um sentimento que compense o que estamos sentindo. 
Isso pode acontecer devido aos nossos condicionamentos, nossos padrões, conceitos, preconceitos, falta 
de aceitação de nós mesmos, da realidade. 
 
Se, por exemplo, sentimos raiva da mãe ou do pai e não admitimos este sentimento, entra em cena 
um mecanismo de compensação, que protege, valoriza e dá atenção em excesso, mas que não é sincero. 
Às vezes, chegamos ao ponto de acreditar no que estamos fazendo. Este fenômeno da compensação pode 
nos levar ao fenômeno da transferência, ou seja, já que não conseguimos lidar com a raiva da mãe ou do 
pai, então compensamos.Mas a raiva continua lá. Então a transferimos para colegas de trabalho, 
funcionários, motorista ou cobrador de ônibus, pessoas no trânsito, na rua, enfim, para quem chegar perto. 
 
Sempre que ficamos irritados, nervosos, com raiva, buscamos culpar alguém, alguma coisa, alguma 
situação, ou seja, não conseguimos lidar com o que estamos sentindo. Então projetamos, transferimos, e 
assim continuamos sem compreender, pois não assumimos nossas responsabilidades nem a verdade de 
nossos sentimentos. E, quando assumimos, passamos a nos culpar e nos torturar, ficamos com raiva de 
nós mesmos. 
 
Um grande Mestre disse: 
 
O teu pensamento acerca dos outros deve ser verdadeiro; não penses a seu respeito aquilo que 
não saibas. Não suponhas que os outros estejam sempre pensando em ti. Se um homem faz alguma coisa 
que julgas poder prejudicar–te, ou diz algo que parece ser–te dirigido, não suponhas imediatamente: ‘Ele 
pretende ofender–me.’. O mais provável é que nunca pensasse em ti pois cada alma tem as suas próprias 
preocupações e os seus pensamentos não giram, as mais das vezes, em torno senão de si própria. Se um 
homem te falar colericamente, não penses: ‘Ele me odeia e quer ferir–me.’ Provavelmente, alguém ou 
alguma coisa o encolerizou e, acontecendo encontrar–te, voltou a sua cólera sobre ti. Procede 
insensatamente, pois toda a cólera é insensata, mas nem por isso deves pensar falsamente a seu respeito. 
 
Por trás da irritação, da agressividade, da raiva, existem conflitos internos, desejos, esperanças, 
expectativas. Se ficamos com raiva porque não achamos os sapatos onde esperávamos que eles 
estivessem, é de se deduzir que tínhamos a expectativa de encontrar os sapatos em um dado local; como 
não estavam lá e a expectativa foi contrariada, nos irritamos. Em verdade, não há problema algum no fato 
de os sapatos não estarem no local esperado, mas, por nossa grande estupidez, nossa ignorância, falta de 
paciência, de tolerância, de gratidão, ficamos irritados, com raiva, quando algo não sai como planejamos. 
Geralmente, o passo seguinte é ficarmos com raiva de quem mudou ou não colocou os sapatos onde 
achávamos que deveriam estar – isso porque temos o desejo que os outros façam tudo exatamente da 
forma que queremos, como pretensamente achamos correto. 
 
Sentimos o impulso da raiva para reclamar, para brigar, para insultar. Mas achamos que não é certo 
sentí-lo, por causa de nossos conceitos, nossos padrões, nossas necessidades, que entram em conflito 
com nossos sentimentos e emoções, com outros conceitos e padrões, com outras necessidades. Achamos 
que não é prudente brigar com a pessoa que praticou a ação, pois ela pode ficar brava, ir embora e nos 
deixar na mão; ou então poderia ficar magoada e nos rejeitar, aí perderíamos seu carinho, afeto e serviços. 
Achamos que o outro nunca faz exatamente o que queremos, como queremos; não faz certinho, e sempre 
sobra para nós, os perfeitos, os salvadores do mundo, corrigir seus erros. Por preguiça ou má vontade, não 
queríamos ter trabalho nenhum. Então ficamos irritados por isso, com raiva. Achamos que os outros, sim, 
tiveram preguiça e má vontade. Estes conflitos de padrões com conceitos, conceitos com necessidade, etc. 
geram uma pressão interna, uma irritação crescente. O que sentimos é raiva de nós mesmos porque não 
somos capazes de reagir, por acharmos que não estamos no controle, por nos sentirmos impotentes, 
presos aos nossos próprios dilemas. 
 
Poderíamos pedir com paciência, gentileza, doçura, que a pessoa colocasse os sapatos em um 
lugar específico, e poderíamos repetir o mesmo pedido quantas vezes fossem necessárias. Assim como 
poderíamos também aceitar o fato de que sapatos podem mudar de lugar sempre que uma pessoa mexe 
neles, pois não há nisso qualquer conseqüência fundamental. Se não aceitarmos a simples mudança do 
lugar de um sapato, não vamos aceitar as mudanças que a vida traz, não vamos aceitar mudança alguma 
dentro de nós. Parece interessante observar que o que pode estar por trás de tudo isso é o medo e a 
insegurança. 
 
A ciência mostra que a raiva pode destruir neurônios, causar úlcera, gastrite, dor de cabeça, até 
mesmo câncer. Assim, destruirmos a nós mesmos por causa de um sapato fora do lugar soa como algo 
absurdo. Somente pessoas muito estúpidas, muito burras, assim como nós, são capazes desses 
desmandos. 
 
Talvez a auto-aceitação diminua a raiva que sentimos por nós mesmos, as culpas que remoemos, 
diminuindo assim a raiva que temos de tudo e de todos, a culpa que atribuímos a tudo e a todos. 
 
As idéias, preconceitos, percepções que temos sobre os defeitos dos outros deveriam nos levar à 
expressão de mais compaixão, mais compreensão, mais tolerância, mais paciência. Estes sentimentos 
deveriam substituir a raiva, a irritação, o nervosismo, a grosseria, a brutalidade. Pois, se já sabemos como 
os outros vão se comportar, e isso se confirma, não há razão para irritação. Já sabíamos que assim seria, é 
muita estupidez nossa nos irritarmos com algo que já sabíamos que iria acontecer. 
 
Estupidamente, ficamos com raiva dos outros porque nunca mudam, continuam sempre a cometer 
os mesmos erros. Por outro lado, também continuamos sempre a cometer os mesmos erros. Facilmente, 
ficamos irritados, com raiva, sofremos com isso e não percebemos que os outros também sofrem com os 
defeitos que têm, muitas vezes sem perceber por que sofrem, sem perceber seus defeitos. Há vezes em 
que chegam até a acreditar que estão expressando virtudes; há outras em que percebem seus defeitos e 
não conseguem mudar, pois não sabem como .Tudo isso é motivo para compaixão, nunca para irritação. 
 
Temos raiva de muitas coisas, sentimos raiva em muitas situações. Nem sempre conseguimos 
perceber nossas manifestações de raiva, pois existe uma camada de véus que encobre este fato e, de certa 
forma, protege a psiquê. Podemos ter até conhecimento de algumas manifestações de raiva, mas 
raramente temos total consciência delas; não temos consciência do objeto de nossa raiva e quase nunca de 
por que sentimos raiva. Vivemos achando que a raiva dentro de nós se manifesta apenas por meio de 
grandes irritações ou explosões de ira. Pode até ser o caso. Mas temos uma série de pequenas irritações, e 
estas são as que mais destroem. De forma sutil, geram tensão, cansaço, fadiga, estresse. Preocupamo-nos 
com as grandes irritações e explosões de ira, quando na verdade deveríamos nos preocupar com o que 
realmente gera problemas e conflitos no dia-a-dia: as pequenas manifestações de raiva, aquelas que das 
quais não temos consciência. As grandes manifestações de ira são como uma cortina de fumaça para as 
pequenas. 
 
Pela prática diária da meditação, a mente se torna serena. Esta serenidade, aos poucos, vai se 
incorporando ao nosso dia-a-dia, à nossa vida prática. 
 
A meditação reflexiva nos leva a compreender os motivos de nossa ira. Esta compreensão, aos 
poucos, vai se refletindo em nosso comportamento diário. 
 
Mas, se após compreendermos os muitos aspectos da raiva, ainda reincidimos em velhos erros, em 
repetições, recorrências, se ainda somos tomados facilmente pela ira, se ainda nos irritamos com as 
mesmas coisas, com as mesmas situações ou com pequenas variações das mesmas situações, talvez seja 
porque nosso coração ainda esteja muito duro. Talvez o foco principal esteja voltado para a própria mente, 
talvez estejamos muito preocupados com nós mesmos. Neste caso, nossa capacidade de compreensão se 
concentra apenas em nossa própria realidade, impedindo-nos de olhar um pouco mais para o outro, para o 
seu ponto de vista. Isto ocorre quando nos falta o amor, manifestado sob seus mais variados aspectos, ou 
seja: compaixão, paciência, tolerância, compreensão, sensibilidade, calma, respeito, bondade, gentileza, 
aceitação, perdão. É possível até que nunca tenhamos sequer percebido que tais virtudes são aspectos e 
variações do amor. É possível que, mesmo em nossas mais profundas reflexõese meditações, não 
tenhamos desviado o olhar de nós mesmos, da nossa exclusiva compreensão do universo. É o amor-
próprio, a auto-adoração que nos torna cegos para os demais. E a prática dessas grandes virtudes, que 
representa um exercício de amor ao próximo, nos ajuda a combater essa cegueira e vencer o amor-próprio. 
 
 
Questionamentos e Comentários 
 
 
– Acredito que a raiva não nasce necessariamente do orgulho ou da vaidade. É possível ser 
orgulhoso ou vaidoso sem sentir raiva. 
 
Certamente que é possível sentir orgulho e vaidade sem sentir raiva. Mas por trás de toda 
manifestação da raiva esta o orgulho, a vaidade, a auto importância, o amor próprio. Isso precisa ser 
observado e compreendido para que possa haver uma mudança interna. 
 
 
Sobre a Renúncia 
 
 
Se, pela renúncia a uma felicidade inferior, é possível alcançar uma felicidade superior, 
que o homem sábio abandone a inferior pela superior. 
 
Dhammapada 290 
 
 
Precisamos perceber, por nós mesmos, a leveza, a liberdade, quando verdadeiramente 
renunciamos a algo. 
 
Uma sábia monja budista escreveu: 
 
A verdadeira satisfação, a verdadeira paz interior, apenas podem ser conquistadas através da 
renúncia. A renúncia leva à dissolução do desejo. 
 
A renúncia é uma prova de desapego, ou melhor, é próprio desapego. E desapego é o caminho 
para a dissolução dos desejos. Somente no ato da renúncia é que percebemos quão apegados estávamos. 
Antes disto, tudo o que fazíamos era arrumarmos as mais diversas justificativas e desculpas, para manter 
nossos apegos. 
 
Ao vivermos preocupados, temendo perdas ou prejuízos, revelamos nossos apegos. Precisamos ter 
a coragem de renunciar, aceitar as perdas e os prejuízos sem medo. Precisamos perceber a 
impermanência das coisas. 
 
Por termos medos, apegos, acreditamos que é necessário mantermos nossas defesas, nossas 
armas. Desta forma não conseguiremos abandonar a raiva, a violência, a brutalidade. Na realidade, o que 
devemos fazer é renunciar a tudo isso. 
 
Os desejos nos cegam de tal maneira que somente quando renunciamos a eles é que podemos 
perceber a nossa cegueira. 
 
Precisamos nos conscientizar da impermanência das coisas. Tentamos evitar dores, sofrimentos ou 
situações ruins como se esses males fossem durar para sempre. Devemos nos trabalhar para aceitar o que 
o agora nos impõe, deixando de rejeitar, de tentar evitar, por um instante, o instante presente. 
 
Tentamos, de todas as maneiras, evitar que as dores, os sofrimentos e as situações ruins 
continuem no futuro. Mas, como já dito, o melhor a fazer é aceitá-las no agora, uma vez que elas só existem 
no agora, se é que existem. 
 
Da mesma forma, ao invés de vivermos intensamente um bom momento no presente, preferimos 
fantasiar o futuro, tentando eternizar ou transformar o que de bom nos acontece agora. 
 
A renúncia leva à extinção da inveja. Aquele que renunciou ao luxo, ao status, à competição, às 
fantasias, às ilusões, à fama, às paixões, aos falsos brilhantes, e deixa de desejar essas coisas, está livre 
da cobiça e da inveja. Já não precisa se preocupar com o que os outros pensam ou vão pensar. 
 
Viver uma vida simples é um ato efetivo, um ato concreto de renúncia. É evidente que, para isso, 
não é necessário que tenhamos de morar numa caverna, não é necessário que tenhamos de vestir algum 
tipo de manto sagrado. 
 
O fato de não renunciarmos ao passado se reflete no planejamento do futuro, nas falsas 
esperanças, nas expectativas, na necessidade de repetir e reviver experiências tidas como ideais. O apego 
ao passado e a esperança, a expectativa do futuro, geram medos em relação ao futuro. Não queremos 
sentir insegurança quanto ao futuro, mas também não renunciamos ao passado, à esperança, à 
expectativa. Queremos sair da armadilha, mas não largamos a isca. 
 
Quando não renunciamos a algo, ficamos, ou podemos ficar, na esperança de que, de alguma 
forma, a situação vivida volte a acontecer. Esta esperança de que poderemos voltar a experimentar uma 
mesma sensação, um mesmo prazer, amortece a dor da perda e conforta. Isto só demonstra que ainda 
estamos apegados, e pior: demonstra que estamos a nos auto-enganar. 
 
A sábia monja budista também escreveu: 
 
Renúncia significa abandonar todas as idéias e esperanças às quais a mente desejaria se apegar e 
reter, ter interesse e desejo de investigar. 
 
Existem pessoas que vivem apenas de esperanças e que, no fundo, preferem não concretizar suas 
idéias, que, uma vez realizadas, tirarão delas o sentido de viver. Ou seja, não mais terão do que reclamar, 
com quem brigar, o que fazer. 
 
Essas falsas esperanças aprisionam a mente, estreitam a visão, impedem as pessoas de viver o 
presente, causam dores e sofrimentos. São reflexos da insatisfação e do descontentamento com o 
presente. 
 
Está escrito em no verso 338 do Dhammapada: 
 
Se as raízes permanecem sem danos e fortes, uma árvore, mesmo que cortada, crescerá 
novamente. Assim também se um desejo latente não for cortado pela raiz, o sofrimento retornará 
novamente e novamente. 
 
É importante observar, perceber, compreender, que fomos nós mesmos que construímos a nossa 
cruz e que nos dispusemos a carregá-la, crucificamos a nós mesmos. Fomos nós que vendemos nossas 
almas ao diabo, não podemos culpá-lo por isso. Ninguém, além de nós mesmo, é responsável por isso. 
 
O apego às coisas, a sensação de posse, nos faz sofrer. Mas não nos damos conta de que temos 
apegos e nem ao que estamos apegados. Por maiores que sejam as nossas posses, acreditamos ter 
sempre o mínimo necessário para viver. Tolos que somos, vivemos a nos auto-enganar. 
 
No “Attadana Sutta” há um trecho que nos alerta: 
 
Quem nunca pensa em termos de posse não sente falta de coisa alguma; uma pessoa assim jamais 
é afligida pelo sentimento de perda. 
 
Quem nunca pensa em termos de “isso é meu”, “aquilo é dele” jamais se sentirá prejudicado. 
 
A idéia de posse sobre pessoas é bastante comum entre nós. Torna-se evidente nas demonstrações de 
ciúme de cônjuges, filhos, família ou amigos. Pessoas apegam-se umas às outras, e acreditam na posse recíproca. 
Há também idéia de posse sobre direitos, que acontece de forma um pouco mais sutil. 
 
A posse, a impressão de posse, a sensação de posse, não se manifesta somente em relação a 
carros, casas, bens em geral ou pessoas, mas em relação a nós mesmos, às nossas idéias, conceitos, 
direitos, nossa honra, auto-imagem, opinião, moral, nossa auto-definição. Identificar e descartar tudo isso, 
renunciar a tudo isso, é uma atitude inteligente e um desafio ao verdadeiro renunciante. 
 
Aquele que acredita possuir direitos sobre algo ou alguém sente-se profundamente afligido ao 
perdê-los, sente-se prejudicado, invadido. 
 
Infelizmente, não renunciamos sequer aos nossos sofrimentos, às nossas convicções sobre as 
situações vividas ou observadas, à nossa forma de ver a realidade. Se vemos um sofrimento apenas como 
sofrimento, e não como uma ilusão, é porque temos uma visão equivocada. E, desta forma, não poderemos 
nos livrar de qualquer sofrimento. 
 
Compreender os sofrimentos como lições a serem aprendidas é uma postura diferente. É uma 
grande mudança de paradigma, de visão de vida, de consciência da realidade. Como nos ensina o 
Budismo, esta é, na verdade, uma reta visão sobre o sofrimento, que nos enche de gratidão. E a visão reta 
é uma renúncia, uma renúncia à visão não reta. 
 
Acreditamos que aprendemos muito com nossos sofrimentos, e este é um dos motivos pelo qual 
nos apegamos a eles. Mas, na realidade, o que chamamos de aprendizagens não passa de mágoas, 
ressentimentos, medos, repressões, não passam de uma criação de travas, de dispositivos de defesa. 
Enquanto carregarmos estes sentimentos, estaremos presos a um passado, um passado que 
provavelmente não aconteceu ou foi mal interpretado. 
 
Se passamos a encarar os sofrimentos como lições a serem aprendidas, como impulsos para 
nossasmudanças interiores, se o importante na vida passa a ser o aprendizado e a evolução por meio dele, 
então não existe mais ofensa, agressão, pressão; existem apenas aprendizados. Mas quando ficamos 
nervosos, irritados, quando maldizemos a vida e as pessoas, é porque algo passou a ser mais importante 
do que o aprendizado. Isto significa então que o fato de ser bem tratado, elogiado, reconhecido, aceito, 
adorado, é mais importante que o aprendizado. Isto significa a predominância da auto-importância, auto- 
importância esta à qual se deve renunciar. 
 
Renunciar significa abandonar sem olhar para trás. Olhar para trás pode nos transformar em 
estátuas humanas, pois nos aprisiona a um passado. A experiência da renúncia não deixa dúvidas, 
expressa claramente que nos livrarmos de fardos que antes carregávamos desnecessariamente. 
 
A raiva, o orgulho, a vaidade, a cobiça, a inveja, são pesados fardo que carregamos. É muito 
prazeroso e libertador ver-se livre dos pensamentos que geram todas estas coisas. 
 
Ainda nas palavras da sábia monja: 
 
Se formos bem sucedidos, mesmo que uma ou duas vezes ao longo do dia, em nos soltarmos das 
nossas reações, teremos tomado um grande passo e poderemos mais facilmente fazer o mesmo outras 
vezes. Teremos compreendido que uma emoção que surgiu poderá ser detida, não precisamos carregá-la 
conosco o dia todo. O alívio proveniente disso será a prova de que uma grande descoberta interior foi 
realizada e de que a simplicidade da não dualidade nos mostra o caminho para a verdade. 
 
Todos nós vivemos em busca de algo mais, algo diferente que venha a nos preencher. 
Independente das conquistas alcançadas, sempre achamos que a vida está incompleta, que ainda há algo a 
ser adquirido, realizado. E passamos a vida a correr atrás de casas, carros, títulos, salários, divertimentos, 
conhecimento. Vivemos em busca de uma felicidade, paz e satisfação ilusórias. Distantes do verdadeiro 
caminho, seguimos, de ilusão em ilusão, de desilusão em desilusão, atrás de sonhos, esperanças e 
expectativas, que acabam levando a frustrações, tristezas, dores e sofrimentos. Mas é sempre tempo de 
reconhecer e renunciar a tudo isso. 
 
Podemos ser criaturas generosas, guardar preceitos éticos, dedicarmo-nos a práticas espirituais, 
tentar melhorar, mudar a cada dia, morrer em nós mesmos a cada dia, a cada instante, que sempre estará 
faltando algo. Como disse Cristo Jesus em Marcos 10:21: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, 
e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me. 
 
Para finalizar este tema, nada melhor do que as palavras de HPB em "A Voz do Silêncio": 
 
Há só uma senda até o Caminho; só chegando bem ao fim se pode ouvir a Voz do Silêncio. A 
escada pela qual o candidato sobe é formada por degraus de sofrimento e de dor; estes só podem ser 
calados pela voz da virtude. Ai de ti, pois, discípulo, se há um único vício que não abandonaste; porque 
então a escada abaterá e far-te-á cair; a sua base assenta no lodo fundo dos teus pecados e defeitos, e 
antes que possas tentar atravessar esse largo abismo de matéria, tens de lavar os teus pés nas águas da 
renúncia. Acautela-te, não vás pousar um pé ainda sujo no primeiro degrau da escada. Ai daquele que ousa 
poluir um degrau com seus pés lamacentos. A lama vil e viscosa secará, tornar-se-á pegajosa, e acabara 
por colar-lhe o pé ao degrau; e, como uma ave presa no visco do caçador sutil, ele será afastado de todo o 
progresso ulterior. Os seus vícios tomarão forma e puxá-lo-ão para baixo. Os seus pecados erguerão a voz, 
como o riso e soluço do chacal depois do sol se por; os seus pensamentos tornar-se-ão um exército e levá-
lo-ão consigo, como um escravo cativo. 
 
Mata os teus desejos, Lanu; torna os teus vícios impotentes, até dares o primeiro passo na jornada 
solene. 
 
Estrangula os teus pecados, torna-os mudos para sempre, antes que ergas um pé para subir a 
escada. 
 
Faze calar os teus pensamentos e concentra toda a tua atenção sobre o teu Mestre, que tu por 
enquanto não vês, mas sentes. 
Sobre a Sensação de Mandar e Ser Mandado 
 
 
Todos querem mandar uns nos outros. Queremos sentir o prazer da sensação de poder, da 
sensação de humilhar, subjugar, de submeter os outros ao nosso comando. São sensações que reforçam o 
orgulho, a vaidade e a necessidade de auto-afirmação em nós. 
 
Em contrapartida, quando nos vemos submetidos a situações onde é o outro que está no comando, 
sentimo-nos humilhados, ultrajados, ofendidos, explorados, impotentes. E isso gera irritação, raiva, medo, 
angústia e vergonha. Isso gera sofrimento. 
 
Os conceitos e padrões, os valores que nos tornam orgulhosos e envaidecidos, que nos fazem 
sentir prazer com a oportunidade de mandar, são os mesmos que nos fazem sofrer quando estamos do 
outro lado, na situação de comandado. 
 
Nas empresas, nas famílias, nas igrejas, nos grupos, todos querem mandar, controlar, assumir o 
poder, estar na liderança. Muitos se aproveitam de suas posições para, de alguma forma, exercer o poder, 
segundo as suas condições. Uns reclamam dos outros, e todos fazem o mesmo. Políticos, governantes, 
casais, pais, filhos, avós, porteiros, seguranças, recepcionistas, atendentes, chefes, juízes, árbitros, patrões, 
professores, todos querem mandar. 
 
Não adianta tentarmos nos enganar, nos auto-convencer de que fazemos isto ou aquilo porque 
assim determinamos e não porque alguém nos mandou fazer, e continuarmos com a sensação de estarmos 
sendo comandados. 
 
Antes de mais nada, é preciso saber obedecer para saber ordenar. É preciso ter a humildade de 
aprender a obedecer para que se possa aprender a ordenar. 
 
Queremos, de uma maneira ou de outra, estar sempre por cima das situações. E há quem 
experimente até um certo prazer, uma sensação de superioridade, de liberdade, de poder, ao agir com 
desrespeito, com insubordinação, ao desobedecer as regras. Agindo assim, acham que nada nem ninguém 
poderão lhes deter. 
 
Por mais que alguém nos pressione ou nos mande fazer algo, temos a escolha, a opção, de não 
fazer. Evidentemente, podemos ter de colher os frutos amargos de uma recusa, mas temos sempre a opção 
de não fazer. Ainda que exista a ameaça de perdermos o emprego ou até mesmo a vida, temos sempre 
esta opção. Culpamos os outros por nossa incapacidade, nossa impotência, nossa fraqueza, por estarmos 
aprisionados em nossos desejos, nossas necessidades, nossos medos. Transferimos para os outros a raiva 
que temos de nós mesmos. Achamos que os outros nos obrigam a fazer o que não queremos, quando 
quem nos obriga a fazer essas coisas são os nossos próprios egos. Mais uma vez, transferimos para 
terceiros o que está dentro de nós. 
 
O ego, por querer estar sempre ditando as regras, se enfurece quando é comandado. Nesta 
situação, o ego coloca-se como impotente, considera-se oprimido e injustiçado. Por nos acharmos muito 
importantes é que relutamos em obedecer, seguir, qualquer tipo de regra ou lei. E sofremos com isso. 
 
Existe uma grande diferença entre temer e respeitar. É preciso perceber e compreender tal 
diferença. 
 
A chantagem, a pressão, a opressão, a trapaça, a violência, a brutalidade, a persuasão mal 
intencionada, a bajulação, a coação, a repressão, a vexação e a coerção são algumas das formas mais 
comuns de se exercer poder, o comando. 
 
Queremos controlar, queremos ditar as regras. Repudiamos qualquer possibilidade que remeta à 
idéia de estarmos sendo controlados por algo ou por alguém. De forma arrogante, dizemos que ninguém 
manda em nós, que fazemos o que queremos, que ninguém pode nos obrigar a fazer o que não queremos, 
que somos livres, que temos os nossos direitos. Achamo-nos demasiadamente importantes, nos adoramos. 
Estamos profundamente apegados à nossa auto-imagem, às fantasias que fazemos sobre nós mesmos. 
 
A identificação com a idéia de estarmos sendo comandados nos faz sofrer. E isto ocorre por causa 
de padrões e conceitos previamenteintrojetados. 
 
A necessidade, o desejo de controlar as coisas externas nasce do descontrole interno, da 
incapacidade de auto-controle. Muitos acreditam deter o controle das coisas, das situações, de si mesmos. 
E, quando porventura agem de maneira estranha, quando dão vazão aos seus impulsos, imediatamente 
tratam de arrumar uma justificativa para seus atos. Na realidade, não temos controle algum sobre nada, não 
temos controle algum sobre nós mesmos. Estamos nas mãos de nossos egos, de nossos desejos, em 
diferentes graus de inconsciência. Não temos uma vontade própria, a bem dizer nem vontade temos. 
Temos, sim, um somatório de desejos, muitas vezes contraditórios, antagônicos. 
 
Somente quando aceitamos o fato de que não estamos no controle de coisa alguma é que podemos 
passar a ter algum controle, é que podemos passar distinguir as forças que atuam em nós, controlando e 
manipulando as nossas ações. 
 
Se nos criticam, criticamos; se nos ofendem, ofendemos; se comem perto de nós, ficamos com 
desejo de comer; se bocejam, bocejamos; se tossem, tossimos. Todos nos controlam e nos condicionam, 
menos nós mesmos. 
 
O “Eu mandão” se justifica dizendo que alguém tem que tomar a frente, e que só fará isso pelo bem 
de todos. O “Eu mandão” se esconde por trás da educação, da gentileza. Pede “por favor”, pede ajuda. 
Utiliza-se de gestos, caras e bocas. Algumas vezes, tenta simular que está sofrendo, precisando de apoio. 
Outras, tenta argumentar, de forma premeditada, que “não queria pedir, mas a força da situação exige que 
ele peça ou mande, se for o caso”. 
 
Sobre a Solidão 
 
 
A solidão costuma estar sempre acompanhada de ilusões, sentimentos de frustração, mágoa, 
carência, medo, insegurança e rejeição. 
 O medo da solidão talvez seja o medo da palavra e da idéia que ela 
carrega e não da solidão em si mesma. 
 
A sensação de solidão acontece quando não nos sentimos bem conosco, quando não somos boas 
companhias para nós mesmos. 
 
O tamanho do vazio existencial parece ser proporcional à distância que estamos de nosso Ser. 
 
Na verdade, ninguém é carente de outra pessoa, mas de si mesmo. 
 
 A questão da solidão não é bem o estar só mas sim o estarmos mal 
acompanhados pelos pensamentos negativos, pelos nossos egos, pelos nossos 
demonios internos. 
 
A solidão nos atormenta quando nos colocamos como vítimas, como pobres criaturas injustiçadas e 
abandonadas. Estamos por demais identificados com a nossa personalidade, com as idéias que temos 
sobre nós mesmos, com os nossos pensamentos. 
 
Passa-se a vida toda com medo de solidão, mas não se passa nem um 
minuto refletindo, meditando, sobre tal medo. 
 
Nem sempre estar só significa padecer de solidão. Existem pessoas que vivem sozinhas e não 
sofrem de solidão, assim como existem aquelas que vivem cercadas de gente e se sentem extremamente 
solitárias. Podemos sentir solidão até mesmo em festas e comícios, no meio da multidão. Logo, podemos 
concluir que a solidão não depende tanto assim de fatores externos, ao contrário do que costumamos 
imaginar. 
 
Aquele que associa sua solidão ao fato de não se sentir aceito, deve lembrar que a única condição 
para sermos aceitos pelos outros é nos aceitarmos primeiro. E neste momento, neste exato momento em 
que nos aceitamos, passamos a não mais fazer questão da aceitação dos outros, o que afasta de nós o 
sentimento de solidão. 
 
Há quem diga que aquele que sofre de solidão não dá valor a si mesmo. Mas esta afirmação não é 
verdadeira. Ao contrário do que possa parecer, sentimos solidão justamente por nos superestimarmos, por 
estarmos transbordando amor-próprio, auto-importância, auto-adoração, apego a nós mesmos e às nossas 
idéias – estados de alma que só nos distanciam do real Ser Interno. 
 
A solidão acontece quando queremos receber de outrem tudo aquilo que deixamos de dar a nós 
mesmos e aos outros, como, por exemplo: amor, carinho, atenção, aceitação. 
 
O fato é que estamos e estaremos sempre sozinhos, sempre. E isso não tem que ser 
necessariamente algo doloroso. Ninguém pode nascer ou morrer por nós. Ninguém passou, nem pode 
passar, pelas experiências que passamos, sentir nossas dores ou nossas alegrias. Por mais que existam 
outras pessoas dividindo uma mesma experiência, cada um tem a sua própria percepção do que está 
vivenciando. 
 
O sentimento de solidão geralmente está ligado à vontade de se ter alguém, por acreditarmos que 
seremos felizes com uma pessoa ao nosso lado. Afinal, é esta a imagem que a sociedade, a família, as 
novelas e os filmes vivem transmitindo. Influenciados por esta idéia e sem um alguém, frustramo-nos. O 
desejo de ter alguém nubla a visão, a percepção do real, e então a solidão se instaura e se apodera de nós. 
 
A sensação de solidão, de abandono, não passa mesmo de uma mera sensação. É uma ilusão, e, 
portanto, não tem existência real, verdadeira. 
 
A falta de esperança gera solidão. Não nos referimos aqui à falta de esperança no âmbito das 
fantasias, mas à falta de esperança no que diz respeito ao Real, ao Verdadeiro. 
 
Alguns preferem fugir do vazio existencial construindo esperanças e ilusões. Assim, alimentam sua 
esperança de felicidade na realização de sonhos, como, por exemplo, conseguir um bom emprego, ter uma 
casa espaçosa, filhos, um relacionamento sincero e estável, ganhar na loteria, etc. Outros resolvem 
compensar seu vazio existencial mergulhando de cabeça no trabalho, na bebida, nas drogas, no sexo. E 
ainda há aqueles que, para escapar da solidão e da tristeza, apelam para brincadeiras e palhaçadas, 
escondendo-se de si mesmo e negando a realidade. 
 
Sentimos solidão porque nos fechamos na torre do egoísmo. Neste aspecto, a prática da caridade 
pode ajudar bastante. Mas não aquelas caridades de ocasião praticadas apenas com doações de dinheiro, 
com boletos bancários. Neste caso, o melhor é a prática direta, o contato com pessoas realmente 
necessitadas, como, por exemplo, visitas a idosos nos asilos, trabalhos voluntários com crianças doentes ou 
carentes em creches ou orfanatos, assistência aos deficientes, auxílio em amparos maternais. 
 
A solidão acontece quando o Ser que existe em nós clama por liberdade, por algo que está muito 
distante daquilo que estamos fazendo. A solidão acontece quando todo o nosso Ser explode de repente, 
ecoando: "Não é isso que eu quero! Nada disso tem sentido! Existe algo errado!" 
 
Neste sentido, um grande conforto pode ser obtido com o trabalho psicológico esotérico, que é algo 
que encanta a Alma. O Ser se enche de alegria quando meditamos. 
 
Quando conhecemos o trabalho psicológico esotérico, aquela Alma que antes protestava bradando: 
"Não é isso que eu quero! Nada disso tem sentido! Existe algo errado!" passa a afirmar: "É isso que eu 
quero! Estou voltando para casa!" 
 
Lentamente, conforme atingimos o auto-conhecimento, vamos ficando cada vez mais plenos, cada 
vez mais preenchidos, não do externo, mas de nós mesmos, do nosso próprio e vasto Ser – o Deus Interno 
dos místicos. 
 
 
 
Sobre a Vaidade 
 
 
A vaidade é a vestimenta do orgulho. É a auto-adoração. É querer parecer algo que não somos, o 
que revela profunda insegurança e necessidade de auto-afirmação. E não se resume apenas ao fato de 
querer parecer bonito, rico, elegante, mas também de querer parecer culto, informado, sábio, bondoso, 
místico, fiel, caridoso, calmo, sereno, tranqüilo, justo, honesto, recatado. Devemos nos perguntar se 
estamos interessados em ser ou em parecer alguma coisa, em ser ou em parecer virtuosos. Se somos 
verdadeiramente humildes, justos e generosos, não importa o que digam, pouco importa que nos achem 
orgulhosos, injustos maldosos, É importante observarmos que querer parecer aquilo que não somos 
envolve mentira, falsidade e hipocrisia. 
 
Um grande Mestre disse: 
 
Sê verdadeiro na ação; nunca pretendas parecer senão aquilo que és, pois todo fingimento constitui 
um obstáculo à pura luz da verdade,

Mais conteúdos dessa disciplina