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Reflexões Para o Autoconhecimento Autor das reflexões: Desconhecido Apoio: facebook.com/conheceroser/ Índice A Espera de um Milagre 4 A Grande Caridade 6 Cada um Tem o Instrutor que Merece 8 Das Percepções da Projeção 11 Não Há Nada a Fazer 13 O Anel de Giges 15 O Grande Teatro da Vida 16 O Mito da Caverna 17 O que significa o Amor? 21 Os Sete Pecados Capitais 22 Por Que Não Mudamos? 24 Raiva de Tudo 27 Sobre a Ansiedade 29 Sobre a Busca por Aceitação e Auto-Afirmação 31 Sobre a Caridade 33 Sobre a Compaixão 36 Sobre a Culpa 39 Sobre a Devoção 41 Sobre a Equanimidade 44 Prática - Meditando no Relacionamento Humano 46 Sobre a Espiritualidade dos Dias de Hoje 47 Sobre a Espiritualidade Materialista 49 Sobre a Felicidade 52 Sobre a Fuga da Vergonha 56 Sobre a Fuga do Medo 58 Sobre a Gratidão 60 Sobre a Identificação com o Sofrimento Alheio 63 Sobre a Identificação com Pensamentos 64 Sobre a Identificação 67 Sobre a Ilusão da Aceitação e da Auto-Afirmação 70 Sobre a Ilusão da Superioridade e da Inferioridade 71 Sobre a Ilusão do Autoconhecimento 72 Sobre a Ilusão do Controle 75 Sobre a Ilusão do Futuro (A Fuga do Presente) 77 Sobre a Ilusão do Otimismo e do Pessimismo 78 Sobre a Ilusão do Status e da Posição Social 79 Sobre a Inveja 81 Sobre a Lei da Atração 83 Sobre a Má Vontade 85 Sobre a Mágoa 88 Sobre a Maldade 91 Sobre a Mente 94 Sobre a Mística 96 Sobre a Paz 98 A Paz Perfeita – Conto de Autor Desconhecido 103 Sobre a Projeção como Fuga da Realidade 106 Sobre a Raiva 108 Sobre a Renúncia 114 Sobre a Sensação de Mandar e Ser Mandado 117 Sobre a Solidão 119 Sobre a Vaidade 121 Sobre a Vergonha do Externo a Nós 124 Sobre a Vergonha e a Moralidade 125 Sobre a Vergonha e os Padrões 127 Sobre a Vergonha 129 Sobre a Vingança (O Eu Justiceiro) 132 Sobre Abster-se de Causar Sofrimento 134 Sobre Aceitação 137 Sobre a Aceitação de Si Mesmo 145 Sobre as Práticas 147 Sobre as Virtudes 152 Sobre Associações Mentais 155 Sobre Conselhos 157 Sobre as Desculpas e Justificativas 160 Sobre Fantasias 162 Sobre a Impaciência nos Engarrafamentos 165 Sobre Imposição de Mãos 166 Sobre a Irritação no Trânsito 169 Sobre o Amor 170 Sobre o Derrotismo 173 Sobre o Julgar 177 Sobre o Medo e a Moralidade 181 Sobre o Medo 183 Sobre o Nosso Lado Sombra 187 Sobre o Perdão 188 Sobre o Servir 190 Sobre as Raízes do Sofrimento 193 Sobre as Nossas Razões 195 Sobre o Apego ao Sofrimento 198 Sobre o Verbo 203 Sobre Ofensas e Elogios 206 Sobre Projeção 211 Sobre Repressão 214 Segurança, Insegurança e o Medo da Morte 216 Sobre Vícios 218 Sobre Virtudes e Defeitos 220 Trombando com Cegos 224 Tudo se Resume ao Pisão no Pé 225 À Espera de um Milagre Muitas virtudes, comportamentos, são colocados por nós como inatingíveis, como algo muito distante, previsto talvez para uma outra vida ou para quando nos tornarmos um Buda, um Cristo, um Mestre, um Iluminado, um Santo. Mas, temos que começar agora. A melhor maneira de se tornar um Buda é ser Buda, é viver como um Buda e seguir seus ensinamentos. A melhor maneira se tornar um Cristo é ser Cristo, é viver como um Cristo e seguir seus ensinamentos. O fato é que veneramos estes seres superiores, mas nada fazemos para sermos iguais a eles. Como diz Cristo, em Lucas 6: 46 - E por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo? 47 - Qualquer que vem a mim, e ouve as minhas palavras, e as observa, eu vos mostrarei a quem é semelhante. 48 - É semelhante ao homem que edificou uma casa, e cavou, e abriu bem fundo, e pôs os alicerces sobre rocha; e, vindo a enchente, bateu com ímpeto a corrente naquela casa e não a pôde abalar, porque estava fundada sobre rocha. 49 - Mas o que ouve e não pratica é semelhante ao homem que edificou uma casa sobre terra, sem alicerces, na qual bateu com ímpeto a corrente, e logo caiu; e foi grande a ruína daquela casa. Fica muito fácil para nós culparmos religiões, seitas, credos, por não sermos ou não agirmos como esses Seres Divinos. Mas, mesmo quando percebemos que nossa religião não nos mostrou a verdade, nada fazemos, continuamos os mesmos. Tudo isso é muito cômodo para nós. Esperamos que as situações se tornem ideais para que expressemos o nosso ideal. Mas, em verdade, não existe vida perfeita e sim a nossa capacidade de vivê-la com perfeição, arte e equilíbrio. Não podemos esperar que a vida atinja um determinado grau de perfeição para então começarmos a viver plenamente, para expressarmos as nossas virtudes, pois isso nunca vai acontecer, e, ainda que acontecesse neste exato momento, logo estipularíamos uma outra condição para podermos viver plenamente, para podermos expressar nossas virtudes, ou seja, criaríamos uma nova justificativa para a nossa incapacidade. Devemos aceitar viver a vida com a perfeição que nos é possível, com a nossa condição atual. Devemos viver o agora em plenitude. É agora que devemos expressar todas as nossas virtudes. É de fundamental importância e sabedoria que paremos de culpar os outros pelas coisas que acontecem, temos que tomar as rédeas das situações. Somente assim elas poderão ser mudadas, nunca antes disto, nunca enquanto essas situações são explicadas pela culpa dos outros, das condições externas, etc. Não podemos mudar ninguém, temos que mudar a nós mesmos. Quando mudamos interiormente e de forma radical, o mundo à nossa volta também muda, as pessoas mudam, tudo muda. A maior parte das condições que colocamos para sermos corretos com os outros depende de nós mesmos, nós é que devemos nos resolver internamente. Devemos trabalhar nossos problemas de baixa estima, mania de grandeza, soberba, respeito, etc. Diz Samael Aun Weor, em “A Revolução da Dialética”: Não precisamos submeter as mentes alheias porque isso é magia negra. O que precisamos é submeter a nossa própria mente, dominá-la. Precisamos parar de cobrar, de criticar, de causar sofrimento aos outros. Precisamos nos tornar doces para com o próximo e duros, sinceros, honestos para conosco. Isso não significa auto-cobrança, não significa violência com nós mesmos. Significa ver o certo como certo e o errado como errado, de forma sincera, sem desculpas, sem pretextos, sem explicações. Diz H. P. Blavatsky, em “A Voz do Silêncio”: “Antes que possas entrar em Jnana-Marga e chamar teu, a tua Alma tem de se tornar como o fruto maduro da mangueira: mole e doce como a sua polpa dourada para as angústias dos outros e duro como o caroço para as tuas próprias dores e angústias, ó triunfador da alegria e da tristeza.” Mas, enquanto continuarmos a fazer as mesmas coisas ou imobilizados, os resultados serão sempre os mesmos. Precisamos mudar, precisamos agir, precisamos morrer de instante em instante. E isso é urgente. Precisamos viver a espiritualidade na prática, precisamos viver uma espiritualidade baseada em fatos concretos do dia-a-dia, em pequenos gestos. Nada mudará enquanto continuarmos entretidos apenas com literaturas espiritualistas ou sagradas. Nada mudará enquanto continuarmos a freqüentar palestras, seminários, cultos, missas, cursos, sem que vivamos os ensinamentos adquiridos de forma prática e concreta, longe das fantasias da mente. Nada mudará enquanto continuarmos a praticar a espiritualidade em busca de vantagens, a espiritualidade barata e vazia. Nada mudará enquanto continuarmos a praticar uma espiritualidade sem transcendência, uma espiritualidade materialista, mentalista, baseada em ensinamentos que não nos levam a uma transformação. Buda, Cristo, Samael e muitos outros ensinaram a renúncia, o caminho da renúncia. Mas não queremos renunciar a nada, queremos uma espiritualidade que nos seja cômoda, que atenda aos nossos anseios imediatos, queremos continuar com nossas fantasias. Sem perceber,enganamos a nós mesmos e, pior, gostamos. Afinal, perceber que nos auto-enganamos nos faz sofrer. Assim, preferimos não aceitar certos fatos, preferimos continuar a nos enganar, achando que estamos evoluindo, que somos espiritualistas, que somos espiritualizados. Entre os universalistas, os espiritualistas independentes, observamos algumas características comuns: não conseguem escolher um caminho; duvidam muito, duvidam de tudo, estão sempre em cima do muro; não demonstram ter força ou capacidade para trilhar, para se entregar a um caminho definitivo; são orgulhosos demais para aderirem a algo que não foi criado por eles mesmos; rotulam-se para se sentir mais seguros, para poder se justificar; costumam se auto-enganar e continuam com suas vidas comuns, sem transformação alguma. Nada mudará enquanto ficarmos buscando e buscando, sem começarmos a trilhar um caminho, um único caminho, pois claro está que não será possível trilhar vários caminhos ao mesmo tempo. Nada mudará enquanto não fizermos nossa escolha, enquanto não optarmos por um caminho e, a partir desta escolha, passarmos a viver o caminho. Nada mudará enquanto não morrermos em nós mesmos de instante em instante. A Grande Caridade A grande caridade está em curar os doentes da alma, assim como fez Jesus. Está em levar a verdade e fazer os cegos, aqueles que não vêem a verdade, enxergarem, do modo como fez Jesus. Fazer com que aqueles que não conhecem o caminho o conheçam e comecem a caminhar, aqueles que estão parados ou perdidos no caminho voltem a caminhar, de mesma maneira que fez Jesus curando mancos, coxos e paralíticos. Está em levar a verdade sem bandeiras, sem orgulho e sim com humildade. Querer ver os demais evoluindo é caridade, é amor. Querer convencê-los de nossas crenças é orgulho, arrogância, e não há verdade nisso. O ego se reveste de ovelha, nos engana e, nos enganando tenta enganar os demais. Devemos estar atentos para os verdadeiros motivos que nos levam à caridade. Será que estamos querendo ajudar de forma altruísta, de forma verdadeiramente desinteressada? Será que estamos querendo nos mostrar bonzinhos para convencer os outros de nossas crenças ou simplesmente para aparecer? Curar os doentes da alma não é tentar converter os demais, não é convencer os outros de nossas crenças. Curar os doentes da alma é querer vê-los livres. A verdade não está em nenhuma religião, ninguém pode possuí-la. A salvação e a libertação não estão em nenhuma religião, não estão em lugar nenhum senão dentro de nós mesmos. Querer mostrar que temos qualidades e virtudes é coisa do ego, não é caridade, é orgulho e arrogância. Não podemos fazer dos outros objetos para satisfação e auto-afirmação de nossos egos, de nossa auto-imagem de bonzinhos, santos, iluminados, evangelizadores e caridosos. Precisamos criar alguma luz dentro de nós para podermos levar aos outros, mas não precisamos esperar que nos tornemos Mestres Perfeitos para levarmos ensinamentos aos outros; em contrapartida também não podemos levar aos outros aquilo que não compreendemos, que não praticamos, e que não vivemos. Diz H. P. Blavatsky, em “A Voz do Silêncio”: “Sê, ó Lanu, como Eles. Dá luz e conforto ao exausto peregrino, e procura aquele que sabe ainda menos do que tu; que na sua desolação miserável está faminto do pão da sabedoria e do pão que alimenta a sombra, sem Mestre, esperança ou consolação, e fá-lo ouvir a Lei.” Diz Sri Krishna no “Bhagavad-Gita”: “Aquele que propagar esta filosofia secreta entre Meus devotos, realizará o mais elevado serviço devocional para Mim, e certamente virá ter Comigo, e não haverá ninguém sobre a Terra que seja mais querido por Mim.” Entretanto, sem altruísmo, de nada adiantarão tais esforços de nossa parte. Sobre isso diz Sri Krishna no “Bhagavad-Gita”: “Faça as suas ações no melhor de suas habilidades, Ó Arjuna, com sua mente ligada ao Senhor, abandonando a preocupação e o apego egoísta para os resultados, permanecendo calmo tanto no sucesso como no fracasso. O serviço sem egoísmo traz paz e tranqüilidade da mente, que conduz à união com Deus.” “O trabalho feito com motivo egoísta é inferior e está longe do serviço desapegado. Portanto, seja um trabalhador desapegado, Ó Arjuna. Aqueles que trabalham apenas para o gozo dos frutos dos seus trabalhos são infelizes.” “Um Karmayogi, ou uma pessoa desapegada, torna-se livre tanto da virtude como do vício em sua vida. Portanto, esforce-se por serviço desapegado. Trabalhar o melhor das suas habilidades, sem apegar- se egoisticamente pelos frutos do trabalho, chama-se Karmayoga ou Seva.” Diz Alcione (J. Krishnamurti) em “Aos Pés do Mestre”: “Sê verdadeiro na ação; nunca pretendas parecer senão aquilo que és, pois todo fingimento constitui um obstáculo à pura luz da verdade, que deve brilhar através de ti como a luz do Sol através de um vidro transparente.” “Precisas discernir entre o egoísmo e o altruísmo, pois o egoísmo reveste muitas formas e, quando pensas tê-lo morto, finalmente numa delas, surge noutra tão forte como sempre. Porém, gradualmente, o pensamento de auxiliar aos outros te encherá de tal modo, que não haverá lugar nem tempo para pensares em ti mesmo.” “De outra maneira, ainda deves utilizar o discernimento: aprende a distinguir a Deus que está em todos e em tudo, por pior que seja a sua aparência exterior. Podes ajudar teu irmão pelo que tens de comum com ele – a Vida Divina. Aprende a despertar nele essa Vida, aprende a invocá-la nele; assim o salvarás do mal.” “Procura verificar o que vale a pena ser feito e lembra-te que as coisas não devem ser julgadas pela sua grandeza aparente. Uma pequena coisa de utilidade imediata à obra do Mestre merece muito mais ser feita, do que uma grande coisa que o mundo considera boa. Precisas distinguir não somente o útil do inútil, mas ainda o mais útil do menos útil. Alimentar os pobres é uma boa obra, nobre e útil; porém, alimentar-lhes as almas é ainda mais nobre e mais útil.” Uma frase atribuída ao Mestre Kuthumi diz: “Se vossos esforços ensinarem ao mundo uma letra que seja do alfabeto da Verdade - essa Verdade que outrora penetrou no mundo inteiro - não vos faltará a recompensa.” Uma carta dirigida a Srta. Mary Gebhard e atribuída ao Mestre Morya diz: “Somos conduzidos, Senhora, ao vórtice do destino preparado previamente por nós para nós próprios, como um navio no Maelstrom. Agora você começa a compreender isso. O que irá fazer? Não pode resistir ao destino. Você está pronta para fazer a sua parte no grande trabalho de filantropia? Você ofereceu-se para Cruz Vermelha; mas, Filha, existem doenças e feridas da alma que não podem ser curadas pela arte de nenhum cirurgião. Irá auxiliar-nos a ensinar a humanidade que os doentes da alma devem curar-se a si próprios? Sua ação será a resposta.” Então, concluímos que a mesma mensagem é passada de diferentes formas. Então vejamos que, se a grande caridade é levar a verdade, curar os doentes da alma, talvez o curar a si próprio, que é a condição necessária para curar os outros, seja uma caridade ainda maior. A busca interior é um ato de caridade, é um ato de puro amor. Cada um Tem o Instrutor que Merece Existe um conto de um homem que era muito simples e puro e um dia ouviu falar de um mestre e foi atrás para encontrar e receber suas instruções. Apesar de ser um farsante, tal mestre tinha alguns discípulos, e ao encontrar com o mestre o homem pediu instruções. Uma das instruções que o homem recebeu era utilizar o nome do mestre sempre que estivesse em perigo ou sempre que precisasse; com a pronúncia de seu nome poderia fazer coisas como andar sobre as águas e flutuar, pois segundo o mestre seu nome era um mantra poderoso. O homem ficou encantado e saiu pronunciando o nome do mestre. Pouco depois os discípulos viram o homem perto de um lago, e o homemcomeçou a andar sobre as águas enquanto pronunciava o nome do dito mestre. Os discípulos correram para chamar o mestre e insistiram que o mestre fizesse o mesmo. Depois de relutar, o tal mestre tentou, quase se afogou, e acabou tendo que ser socorrido pelos discípulos. Para não perder a fama e não ser desmoralizado pelo homem, o mestre disse que o homem deveria saltar de um penhasco. O homem saltou, e pronunciando o mantra desceu suavemente. O mestre tentou o mesmo e se arrebentou no chão. Para quem duvida, desconfia, suspeita nenhum instrutor ou mestre será suficiente. O mesmo instrutor é mestre para uns e ignorante para outros, pois cada um o percebe de uma forma segundo seus próprios conteúdos internos e suas próprias projeções. É aí que está a questão do merecimento: merecemos segundo o que cultivamos dentro de nós mesmos. O único deus em que acreditamos é aquele que criamos em nossa mente. E só acreditamos nele por ser nossa criação. Nós nos cremos os próprios mestres, pois se assim não fosse não os criticaríamos, se assim o fazemos é porque de alguma forma nos cremos melhores do que eles. Precisamos analisar porque queremos alguém para nos guiar ou alguém para seguirmos se somos melhores dos que eles. Isso não faz sentido, parece loucura. Alguns se acham vítimas, injustiçados do destino. Acreditam que se tivessem vivido perto do Mestre Samael seria muito mais fácil, que se tivessem recebido orientações diretas dos Mestres Morya ou Koot Hoomi estariam muito avançados no caminho, que se tivessem vivido com o Cristo Jesus teriam subido aos céus junto com Ele. Tudo isso é fantasia. Tudo isso é desculpa para continuarmos a ser como somos. Justificativas para nossas fraquezas e incapacidades. Escolas esotéricas sempre existiram. A história está repleta de grandes nomes de Mestres, Budas, Santos e Iluminados. Se não seguimos o ensinamento de nenhum deles mesmo após terem deixado a terra, e temos “certeza” de quem eram esses mestres, jamais seguiríamos se estivessem vivos e surgissem bem na nossa frente. A dúvida sempre aparece, questionamos se é mesmo um mestre ou não, questionamos o que foi deixado, os escritos e os ensinamentos. Aos nossos olhos seriam apenas homens como quaisquer outros. Nunca acreditamos no filho do carpinteiro, no sapateiro e sempre dizemos que nada de bom pode vir de Nazaré. A verdade é que não estamos prontos, não somos dignos e não temos o merecimento necessário para isso. E estes fatos são fáceis de observar uma vez que não conseguimos seguir as orientações dos mestres e dos instrutores que temos. O que queremos é uma mãe que nos mime, que passe a mão em nossas cabeças quando erramos, alguém para suprir nossas carências. Existe outro conto em que um homem chega para um Mestre e pede que este lhe ensine e lhe permita ser um discípulo. O Mestre não o aceita e o manda embora. Então, depois que o homem se foi, um discípulo questionou o Mestre por não tê-lo aceitado, achou que o Mestre agiu mal, que deveria ter sido mais compassivo e brando. Nisso um passarinho entrou pela janela, e o Mestre disse para o discípulo observar. O passarinho se bateu pela sala procurando uma saída até que pousou em uma janela, e então o Mestre bateu palmas para assustar o passarinho, que voou janela afora. Se o Mestre tivesse ficado com o homem que já estava pronto ou quase pronto teria atrapalhado seu processo. Um Mestre quer ver os outros crescerem, evoluírem espiritualmente, não interessa se com ele ou sem ele. Um Mestre não quer reunir muitos discípulos para o adorarem ou coisa do gênero. Dominados por nossos próprios conceitos, nossas idéias fixas, acusamos os outros de nos darem pedras quando pedimos pães. Não reconhecemos pães como pães e não somos gratos pelos ensinamentos recebidos. No início da Sociedade Teosófica, os Mestres Morya e Koot Hoomi se correspondiam com algumas pessoas através de bilhetes, cartas e telegramas. Dois dos principais correspondentes dos Mestres eram A. P. Sinnett e A. O. Hume. Estes dois também mantinham contato direto com H. P. Blavatsky, com o coronel Olcott e com alguns chelas dos Mestres. O que mais se percebe nas cartas é que os dois duvidavam do que lhes era ensinado, diziam que os ensinamentos eram picados, que não eram completos. Duvidavam dos fenômenos que os Mestres realizavam. Criticavam as coisas que os Mestres escreviam, diziam que eram vulgares, grosseiros, orgulhos e soberbos. Criticavam os método, as provas, diziam ser cruéis e imorais. Chegaram até mesmo a duvidar da existência dos Mestres. Sinnett chegou a ter uma experiência em astral com o Mestre, o que de nada adiantou. Abaixo segue um trecho do texto “Levante, Desperte, e Não Pare Até Alcançar A Meta!”: “Depois disso Naren [nome de Vivekananda] passou a visitar Ramakrishna com freqüência. Viu-se gradualmente envolvido no círculo de jovens discípulos — quase todos de sua idade — que Ramakrishna treinava para a vida monástica. Naren não se rendeu facilmente à influência dele. Continuava a perguntar- se se o hipnotismo podia explicar o poder de Ramakrishna. A princípio, recusou-se a participar do culto a Kali, considerando-o mera superstição. Ramakrishna parecia apreciar esses escrúpulos. Costumava provocar: — Teste-me como os cambistas testam suas moedas. Você não deve acreditar em mim antes de testar-me por completo. — Por sua vez, ele testava Naren, não tomando conhecimento de sua presença durante semanas, para verificar se isso faria com que o jovem deixasse de vir a Dakshineswar. Naren voltava assim mesmo. Ramakrishna louvou-lhe a força interior: — Qualquer outro — disse — teria me deixado há muito tempo.” Temos medo de estar entrando em um caminho ou escola errados. Este medo coloca em dúvida todos os ensinamentos recebidos, e por mais que recebamos comprovações elas sempre serão questionadas e talvez até reforcem as dúvidas. Seja qual for a origem ou o motivo do medo, as pessoas acabam por tentar ficar sempre perto da porta de saída, ou seja, elas “entram no caminho”, as portas se abrem e elas não avançam, pois estão sempre petrificadas, sempre olhando para trás, querem sempre estar perto da porta de saída, ter uma chance de fuga, de escape. Isso lhes dá segurança, mas esta mesma segurança os impede de avançar e pode acabar por aumentar a dúvida, enfraquecer e desmotivar. É preciso perceber que isso nos torna mornos e os mornos serão vomitados, como já é sabido. É preciso perceber ainda que isso nos torna materialistas, ou seja, indica que estamos presos, apegados ao mundo material e seus conceitos, formas, sensações, aos nossos antigos padrões, as idéias de sociedade, aos ensinamentos que recebemos na escola. É preciso lançar-se ao abismo e entregar-se sem condições, sem falsas esperanças, sem desejo de retorno, escapatórias ou rotas de fuga. Se dissermos que decidimos e no futuro acontecer algo diferente, nós voltamos atrás ou mudamos nossa decisão. Então, estamos decididos em fazer algo diferente de nossa suposta decisão inicial, ou seja, em verdade não decidimos; estamos nos enganando, criando desculpas para desistir, para abandonar uma decisão e não para continuarmos firmes com ela, estamos criando e fortalecendo pontos de dúvida, que são formas de defesa. Os motivos que arrumamos para acreditar, ter fé e se entregar à alguma coisa, são na verdade motivos para nos mantermos sem acreditar, sem ter fé e sem nos entregarmos. Toda condição que criamos para prosseguir com uma decisão é na verdade uma desculpa para desistirmos. Existe uma carta do Mestre Koot Hoomi para uma aspirante a chela que queria presenciar fenômenos e coisas mais para poder publicar algum artigo a fim de atrair pessoas para Sociedade Teosófica. Tal aspirante já havia estado com o Mestre em corpo físico. Nesta carta o Mestre deixa claro que ele queria os fenômenos para ele mesmo e não para os demais e também diz: “Se um oriental, especialmente um hindu, tivessetido até mesmo a metade de um vislumbre, uma só vez, do que você já teve, iria considerar-se abençoado pelo resto da vida.”. Assim vemos como somos estúpidos e ingratos. Muitos já tiveram sonhos, experiências no astral, compreensões, já receberam ensinamentos, já viram e ouviram coisas. Porém, ainda duvidam, ainda vacilam, continuam querendo uma certeza. Existe uma dúvida positiva que é o questionamento a fim de aprender. Existe uma dúvida negativa que é a desconfiança. Sobre isso o bendito Mestre Koot Hoomi diz num carta: “Tome cuidado, Mohini Mohun Chatterjee: a dúvida é um câncer perigoso. Começa-se duvidando de um pavão e termina-se duvidando de Koot Hoomi.” E o bendito Mestre Morya diz em uma de suas cartas: “Por favor, compreenda o fato de que, enquanto os homens duvidarem, haverá curiosidade e pesquisa, e que a pesquisa estimula a reflexão, que gera o esforço; mas, uma vez que nosso segredo tenha sido completamente vulgarizado, não só a sociedade cética não terá grandes benefícios, como também, a nossa privacidade estaria constantemente em perigo e teria que ser resguardada a um custo irracional de energia. Tenha paciência amigo meu. O Sr. Hume levou anos para matar um número suficiente de pássaros para completar o seu livro; e ele não mandava que eles abandonassem os seus retiros cheios de folhas, mas tinha que esperar que chegassem até ele para que os empalhasse e rotulasse; assim também vocês devem ter paciência conosco. Ah, Sahibs, Sahibs! Se vocês pudessem pelo menos catalogar-nos, rotular- nos e colocar-nos no Museu Britânico, então de fato o seu mundo poderia ter a verdade absoluta, a verdade dissecada.“. Todos nós vivemos em busca de algo mais, que venha a nos preencher; sempre achamos que existe algo faltando, algo a ser adquirido. Então caminhamos pela vida atrás de casas, carros, títulos, salários, divertimentos e conhecimento. Em algum momento iniciamos uma busca religiosa, mas iniciamos esta busca com a mesma mentalidade, ou seja, acreditando que ao somarmos uma religião a nossa vida vamos conseguir o que falta. Deste modo, muitos dos que somam uma religião em suas vidas criam uma fantasia de que está tudo resolvido, acreditam que são felizes e plenos. Outros alteram seus conceitos materialistas por conceitos religiosos a fim de continuar a viver a vida da mesma forma, mascarando sua realidade, de maneira que passam a orar por emprego, cargo, casa, carro e dizer que Deus enviou estas coisas. Não que isso não seja possível, não é esta a questão, e é importante observar que isso acontece em todas as religiões. Na vida verdadeiramente religiosa não existe nada para ser obtido, tudo para ser abandonado e renunciado, principalmente falsos conceitos e falsos valores. Disse em uma carta o Mestre Koot Hoomi: “Aqueles que realmente desejam aprender devem abandonar tudo e vir até nós, em vez de pedir ou esperar que nós avancemos até eles.” E em resposta a algumas perguntas de C. W. Leadbeater o Mestre Koot’ Hoomi escreveu: “Não é necessário que alguém esteja na Índia durante os sete anos de provação. Um chela pode passá-lo em qualquer lugar.” “A aceitação de qualquer homem como chela não depende de minha vontade pessoal. Isso pode ser apenas o resultado do próprio mérito e esforço de alguém nesta direção. Force qualquer um dos ‘Mestres’ que você possa ter escolhido; faça bons trabalhos em seu nome e pelo amor a humanidade; seja puro e resoluto no caminho da retidão (como descrito em nossas regras); seja honesto e altruísta; esqueça você mesmo e lembre-se apenas do bem de outras pessoas – e você terá forçado aquele ‘Mestre’ a aceitá- lo.” Em resumo, o que o Mestre Koot’ Hoomi diz é para seguir na ação reta, na prática de virtudes, para morrer para si mesmo, para fazer sacrifícios pela humanidade. Mais uma vez a mensagem de todos os Mestres. Mais uma vez a mensagem de Samael Aun Weor. Das Percepções da Projeção A percepção da projeção se dá através de aspectos e oitavas, ou seja, se dá aos poucos – a menos que se consiga atingir uma percepção muito profunda, de forma instantânea, o que é raro, por envolver muitos fatores que não vêm ao caso agora. Normalmente, o que vem primeiro é a informação, a explicação e o entendimento do que é projeção. Neste momento, podemos analisar certos casos a nível intelectual e rotular: isto é projeção, isto não é projeção; tenho isto ou aquilo dentro de mim. Porém, esta análise não significa perceber que temos dentro de nós este ou aquele aspecto, este ou aquele defeito. Aqui, neste estágio, podemos começar a diminuir as críticas, pelo menos aquelas expressas em palavras, pois já temos a informação do que é projeção, e sabemos que, ao expressarmos nossas críticas em palavras, estaremos nos confessando, nos expondo aos olhos do mundo. Acontece com muita freqüência de, por exemplo, nos irritarmos com uma situação ou pessoa e descontarmos em outra. Isto é o que chamamos de transferência. Também neste estágio podemos começar a diminuir a transferência de emoções e sentimentos. Nossos pensamentos a respeito dos outros não podem ser falsos ou mentirosos. Não podemos imputar aos demais fatos que desconhecemos. Não podemos achar que somos sempre o centro do pensamento alheio. Os pensamentos dos outros, em sua grande maioria, giram em torno deles mesmos, assim como os nossos em torno de nós. Cada um tem as suas próprias preocupações e, na maior parte das vezes, não somos a razão das preocupações alheias. Ao julgarmos que um certo alguém nos quer ofender ou ferir, que esse alguém nos odeia, criamos uma fenda pela qual os maus pensamentos penetram e vão se alojar em nossas mentes. E, a partir daí, ficamos propensos a comportamentos equivocados. Portanto, vigiar a mente é fundamental. Geralmente, o que costuma ocorrer é que as pessoas acabam transferindo para os outros suas frustrações, raivas, mágoas, ressentimentos, seus conflitos pessoais. Não podemos nos esquecer de que todos vivem atormentados pelos próprios demônios internos, por seus egos, e a eles reagem. Se nos damos conta disto, passamos a agir de maneira consciente, agimos com compaixão. Do contrário, continuaremos a agir mal, inconscientemente, inclusive contra nós mesmos. Não há motivo para nos irritarmos com alguém que nos atormenta. É o mesmo que sentir raiva de um louco pelo fato de ele ser louco. É o mesmo que ficar com raiva do cego que nos deu um esbarrão porque não pôde nos ver em seu caminho. Há, sim, todos os motivos para termos compaixão, tolerância, paciência. É muito importante perceber que os argumentos racionais nos levam a muitos auto-enganos. Assim, o que precisamos é chegar a percepções reais e cada vez mais profundas. Algum tempo depois de compreendermos essa dinâmica, começamos a perceber a projeção de emoções e sentimentos, dos diversos comportamentos que costumamos criticar nos demais. Contudo, como ainda não conhecemos a fundo os mecanismos que permeiam as emoções e os sentimentos, as fantasias e as fascinações, os conceitos, os preconceitos e os padrões, estas percepções ainda se dão a nível superficial. A etapa seguinte é percebermos a projeção dos conflitos internos. Evidentemente, isso acontece depois de compreendermos o que significam os conflitos internos, bem como seus mecanismos e manifestações. Tais conflitos podem ser percebidos como desejos antagônicos, incompatíveis – dilemas muito comuns em nossa mente dualista. Um exemplo prático desta situação é o desejo de comer uma feijoada em contraposição ao desejo de perder peso. Seja qual for a nossa opção, acabaremos por nos sentir culpados. Tudo isso tem a ver com a falta de compreensão dos desejos, com a falta de aceitação, com a falta de contentamento. Percebemos aqui a necessidade de desenvolvermos a vontade, a decisão, a firmeza, a serenidade, a renúncia. A seguir, começamos a perceber a projeção dospensamentos. Nesta fase, começamos a nos perceber como algo à parte do pensamento. Começamos a perceber que reagimos às nossas próprias idéias, conceitos e preconceitos, padrões; que tememos nossas próprias reações . Com isso, percebemos também que precisamos nos abster de julgar o próximo, pois nossas impressões sobre as pessoas não passam de tentações e tormentos criados por nossos próprios demônios internos, que, uma vez instalados em nossa mente, nos faz invejar, cobiçar, despertando-nos a raiva. Precisamos abandonar esses julgamentos, esses pensamentos. Eles envenenam nossas mentes, levando- nos a reações indesejáveis, equivocadas. Agora já podemos começar a perceber que projetamos para pessoas, objetos e situações externas a responsabilidade por nossos estados internos, por nossos humores, por nossas emoções, sentimentos e reações equivocadas. Enquanto responsabilizarmos terceiros pelo que nos acontece, nenhuma mudança será possível em nossas vidas. Se não conseguimos perceber as projeções instantaneamente, é porque ainda nos vemos como vítimas. Esta é uma visão que precisa ser extirpada de dentro de nós, e à qual devemos renunciar. O pensamento voltado para “o meu”, “a minha”, “eu”, “mim” aprisiona, como também acontece com o pensamento voltado para “o dele”, “o seu”, “aquele”. São formas que encontramos para nos isolarmos, para nos colocarmos no papel de vítimas. Isso acontece de maneira sutil e está muito enraizado dentro nós. É a postura interna de vítima que nos mantém como vítimas. Enquanto percebermos a nós mesmos como vítimas, seremos vítimas. Sentimo-nos como vítimas, pensamos como vítimas, colocamo-nos e posicionamo-nos como vítimas, seja dos outros, das situações, dos pensamentos, das emoções - tanto nossas quanto do outro -, do destino, da divindade. Esta postura demonstra também uma percepção equivocada do sofrimento. Ao nos vermos como vítimas, a reação primeira é sentirmos raiva dos outros, pois, de acordo com as nossas ilusões, são eles os únicos culpados pelo que há de errado conosco. Por sermos ingratos, por nos vermos como rejeitados, esquecidos, excluídos e vítimas, refletimos isso no externo agindo com raiva, ódio, agressividade, grosseria e de forma vingativa. Isso ocorre porque não percebermos o quanto a Divindade é misericordiosa, terna, compassiva, pacienciosa, tolerante, generosa e bondosa conosco. Se percebermos estas coisas seremos profundamente gratos, e se esta for nossa realidade interior, iremos refleti-la no exterior. O grande problema é esquecer, deixar de sentir. Infelizmente não termos força para sustentar gratidão, felicidade, paz, devoção, serenidade e tranqüilidade. Ainda não percebemos a importância destas coisas ou o quanto elas nos fazem bem. Assim, estas coisas ainda não se tornaram nossos objetivos e prioridades. Estamos tão preocupados em evitar os nossos defeitos, e evitar as manifestações de nossos egos que não vemos as nossas virtudes, não as vivemos. Precisamos parar de olhar para o mundo externo e agir a partir do que vemos no mundo externo. É preciso olhar para o mundo interno e agir a partir do mundo interno, do centro. Para lograrmos êxito nesta proposta, devemos manter o foco no mundo interno. Mestre Samael nos diz que “para o sábio, o mundo interno é mais concreto que o mundo externo.” Cabe ressaltar, mais uma vez, que tais percepções acontecem aos poucos. Acontecem através de aspectos e oitavas cada vez mais profundas ou elevadas, cada vez mais sutis. Tudo vai acontecendo na medida em que vamos criando e desenvolvendo um centro permanente de consciência, a partir do qual passamos a agir. Não Há Nada a Fazer Elas buscam muitos refúgios, nas montanhas e florestas, nos parques e santuários: pessoas ameaçadas pelo perigo. Esse não é o refúgio seguro, não é o refúgio supremo, esse não é o refúgio, ao qual se você for, ganhará a libertação de todo sofrimento. ( Dhammapada 188) As esperanças, as expectativas, nos impedem de viver o momento presente. Com nossas perspectivas voltadas para algo melhor que possa acontecer no futuro, acabamos por nos esquecer do presente. E, assim, seguimos sempre a acreditar que existe um futuro mais promissor, que há algo melhor a ser obtido, conquistado. Isso acaba por nos remeter à famosa mensagem afixada nos bares: “fiado só amanhã”. E nunca existe satisfação, contentamento, gratidão. Se mudássemos nosso modo de pensar e nos tornássemos atentos para o que acontece no momento presente, talvez pudéssemos encontrar algo que nos satisfizesse. Mas, como estamos buscando algo no futuro, algo que ainda não existe, algo mais perfeito, mais maravilhoso, mais prazeroso, não encontramos nada. E não encontramos nada por uma única razão: por estarmos buscando o que não está presente. Quando entramos em uma escola e começamos a fazer práticas de maneira séria, um dia percebemos que não somos vítimas das coisas externas, sejam elas boas ou más, percebemos que os nossos estados internos, sejam estes estados de ira ou de serenidade, de tristeza ou de alegria, são criados por nós mesmos e podem ser mantidos por nós mesmos. De modo geral, as pessoas possuem uma grande capacidade de manter seus estados internos equivocados, ou seja, conseguem permanecer tristes, ressentidas, ofendidas, por longo tempo. Teimam em contaminar seus pensamentos com preocupações, medos, mágoas e irritações, seja através da televisão, de conversas inapropriadas ou da tagarelice de suas próprias mentes. Assim como mantemos estados internos incorretos, também é possível manter os estados corretos de paz, felicidade, satisfação, contentamento. Manter esse tipo de estado, no entanto, não significa se enganar, não significa repetir frases positivas. Papagaiar frases é mera tolice. A criação e manutenção desses estados corretos resultam de uma visão correta sobre as situações. Por conhecimento informativo, costumamos dizer que tudo isso não passa de projeções da mente, fantasias, ilusões; que as respostas estão dentro de nós mesmos; que, quando fugimos de um lugar para outro por algum motivo, estamos apenas escondendo, jogando para debaixo do tapete, aquilo que nos aflige; e que continuaremos a carregar dentro de nós todas as nossas aflições. Mas a percepção, a compreensão do que se passa conosco, o insight revelador, é algo muito diferente, é algo verdadeiramente transformador. Após percebermos, por uma experiência direta, que nós mesmos criamos e podemos manter nossos estados internos, verificamos a perfeição dos ensinamentos. Esta experiência motiva-nos, fortalece- nos, enche-nos de fé e confiança. Não há dúvida em relação àquilo que é experimentado diretamente, ou, pelo menos, não deveria haver. Só então percebemos que não há nada a temer ou com que se preocupar, não há nenhum outro lugar para ir e nada a fazer, tudo acontece em nosso íntimo, tudo. Quando compreendemos as dificuldades da vida como lições a serem aprendidas, passamos a ver que o sofrimento, na verdade, é como um amigo que nos estimula a mudar, a ir além. Percebemos que não há nada que possa preencher os nossos desejos de forma completa e absoluta. Dinheiro, posses, pessoas, status ou fama, podem até trazer alguma satisfação, mas não são capazes de preencher os nossos desejos de forma completa e absoluta. Se o desejo ou a repulsa se manifesta em nós, se a insatisfação, a mágoa, a raiva e a inveja se instalam em nosso ser, não há lugar nenhum para ir senão para o íntimo. E logo perceberemos que não há nada a temer, porque tudo se desfaz continuamente. É apenas o reflexo da idéia de permanência que nos leva temer as situações, como se elas fossem durar para sempre. Quando compreendemos que não há mais nada a fazer e nenhum outro lugar a ir, constatamos também que não adianta procurar outras escolas, outras religiões, outras pessoas e outros lugares a seremconhecidos, visitados. Constatamos que não há nada a ser comprado, possuído, sejam casas, carros, empregos, cargos, títulos, conhecimentos. Não há nenhum outro lugar para ir e nada o que fazer, tudo acontece no nosso íntimo. Se somos assolados pelo tédio, pelas pressões internas, se surgem aqueles impulsos ocasionais de sair para dar uma volta, de falar com alguém, de comprar, de comer; se somos tomados por impulsos que nos levam buscar uma fuga, uma forma de alívio, seja com diversões, jogos, televisão, sexo, devemos ser sensatos e não ceder. É preciso deixar que a água ferva. Esta será uma oportunidade de auto- conhecimento, pois não há nenhum lugar a ir e nada a fazer, tudo ocorre dentro de nós mesmos. Estas percepções nos libertam e nos conduzem à renúncia que leva pra longe a inveja, a vaidade, o orgulho, o medo, e traz a paz, a felicidade, a serenidade, a satisfação, o contentamento. Também é preciso compreender que não há nenhum passado a ser evitado e nem revivido, não há nenhum evento futuro a ser buscado ou evitado, não existem condições a serem preenchidas. Esta compreensão nos levará a centrar toda a atenção no momento presente, que é o único momento em que as percepções do real podem acontecer de fato e os insights podem surgir. Se nos mantivermos plenamente atentos para o que nos acontece, poderemos perceber que nada falta, que não há nada a ser buscado. Então todo os nossos esforços serão direcionados para nos mantermos no momento presente, pois é nele, e somente nele, que residem as reais percepções, as possibilidades de libertação, a satisfação, o contentamento. Não existe nada no futuro a não ser nossas fantasias, nossas projeções mentais. A satisfação, o contentamento, a felicidade, estão no agora, na simplicidade do momento presente, este momento do qual vivemos fugindo. Se não há nada a ser consumido, ninguém a ser conhecido, empregos ou cargos a serem conquistados, lugar algum para ir, então a satisfação se dá com o que se apresenta a cada instante, no agora. E assim a gratidão vai brotando em nossos corações. É preciso olhar as situações da vida com simplicidade, objetividade, sem fugas, sem esperanças, sem desejos reincidentes de algo melhor que poderá acontecer num futuro imaginário. Só assim poderemos estar no momento presente, este momento único onde a vida acontece e o insight é possível. Nenhum insight é possível no passado ou no futuro. O insight só acontece no presente. As percepções e as compreensões só são possíveis no presente, só se dão no presente. Somente com nossas atenções voltadas para o momento presente, com a mente tranqüila, sem esperanças, sem desejos, sem agitação, é que podemos perceber que nada nos falta, que nada está acontecendo, que não há lugar algum para irmos. E daí surge o contentamento e a satisfação, a felicidade. Ao percebermos a magia do momento presente, todo os nossos esforços são dirigidos para este espaço temporal real, e, com isso, evitamos fantasias, projeções, fugas, e esperanças vãs. Não há planos a serem feitos, seja para daqui a um ou dez minutos, seja para amanhã ou para daqui a um ou dez anos. O único lugar em que precisamos estar é o lugar onde realmente estamos, o lugar que nos permite circular por dentro de nós mesmos, o lugar onde nos redescobrimos a cada dia, onde nos deliciamos com a doutrina. Porém quando buscar refúgio no Buda, Dhamma, e Sangha, você verá com sabedoria as quatro nobres verdades - sofrimento, a causa do sofrimento, a cessação do sofrimento, e o nobre caminho óctuplo, o caminho para silenciar o sofrimento: esse é o refúgio seguro, esse é o refúgio supremo, esse é o refúgio, que se você buscar, ganhará a libertação de todo sofrimento. (Dhammapada 192) O Anel de Giges Esta é uma alegoria narrada por Platão no Livro II de “A República”. “Giges era um pastor que servia em casa do que era então soberano da Lídia. Devido a uma grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá dentro um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão. Arrancou-lho e saiu. Ora, como os pastores se tivessem reunido, da maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, o que dizia respeito aos rebanhos, Giges foi lá também, com o seu anel. Estando ele, pois, sentado meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observado estes fatos, experimentou, a ver se o anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o voltasse para fora, ficava visível. Assim senhor de si, logo fez com que fosse um dos delegados que iam junto ao rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim se tomou o poder.” Esta aí um bom teste para nossas virtudes. O que faríamos nós se achássemos esse anel? A resposta a esta pergunta normalmente discorre do porquê de ainda não termos poderes, do porquê de ainda não estarmos preparados. No caso do texto, o primeiro fato é que Giges saqueia o túmulo. Depois; o poder corrompe, ou traz à tona nosso lado corrompido e podre. Na questão de saquear e roubar, quem pode dizer que nunca fez? Cometemos este delito quando pegamos um papel, um lápis ou uma caneta do trabalho sem pedir a ninguém, quando podemos fazer algo bem feito e fazemos de qualquer forma. Criticamos governo, patrões, etc, mas são eles apenas reflexos de nós mesmos, de tal maneira que é só uma questão de oportunidade e de proporção. Como contribuintes nós sonegamos, como governantes eles desviam a verba arrecadada. Como funcionários fazemos corpo mole, não valorizamos o emprego, e como patrões eles não valorizam o empregado. Platão diz no final do livro que devemos ser justos, com anel ou sem anel, o que parece claro. O Grande Teatro da Vida Em verdade, não somos nós mesmos em pelo menos 99% do tempo. Passamos quase todo o tempo interpretando personagens. No ambiente de trabalho, por exemplo, assim que o sujeito atravessa a porta, começa a representar seu papel de funcionário, de acordo com o cargo que ocupa. E, assim, gerentes representam papéis de gerentes ou de chefes; secretárias representam papéis de secretárias; assistentes representam papéis de assistentes, tal como ocorre com cada um dos diversos integrantes do quadro funcional de uma empresa: para cada cargo, um papel. E todos esses papéis possuem várias matizes. Um gerente pode ser bravo ou compreensivo, simpático ou arrogante, tolerante ou repressor. Uma secretária pode ser sóbria ou comunicativa, descontraída ou recatada, intelectualmente pedante ou humilde. Em casa, as pessoas também representam seus papéis. Marido, esposa, pai, mãe, filho, filha são os papéis mais comumente representados no cenário doméstico. Também neste caso existem várias matizes para os papéis desempenhados. Nas instituições de ensino, nos templos religiosos, no meio político, na polícia, na justiça, em qualquer segmento social, veremos indivíduos representando seus papéis: mestres, guias espirituais, defensores da nação, homens da justiça, defensores públicos, etc. Enfim, no cenário da vida, todos estamos representando os nossos papéis. Raramente conseguimos interpretar a nossa própria verdade. Não conseguimos ser o que realmente somos no desempenho de nossas atividades. Insistimos em assumir papéis,representar papéis, e acabamos por nos identificar com os personagens criados, que várias vezes são múltiplos. Quando nos identificamos com um papel, queremos defender o personagem, ou seja, o conceito que construímos de “pai ideal”, “chefe ideal”, “mãe ideal”, “filho ideal”, etc. Tornamo-nos apegados a esse papel, que consideramos perfeito e que deve ser adorado por todos. Afinal, nós o adoramos, nós nos auto- adoramos, adoramos a nossa criação. Fazemos o mesmo em relação aos papéis dos outros. Definimos o papel perfeito para um filho, uma esposa, um chefe, e, quando esses personagens fogem do script imaginado como ideal, ficamos irados, magoados. Reagimos, achando-nos no direito de nos vingar e sair do script também. A criação do ideal é uma maneira de fugir do presente, é o medo da realidade. Criamos estes papéis idealizados para podermos viver escondidos da realidade. Se pudéssemos ver como realmente somos, provavelmente, a vida não seria possível para a maioria de nós. Nesse teatro, a espontaneidade praticamente desaparece. Cercados e assombrados por nossos medos, nossas experiências, nosso passado, não sobra espaço para ela. Não agimos em função das situações apresentadas, mas de acordo com o passado. Baseados em nossas experiências, em nossas memórias de situações que foram distorcidas pela mente, pelos egos, definimos conceito e preconceitos. Definimos em nossa mente, por exemplo, o conceito de como deve ser o gerente ideal ou o gerente que gostaríamos de ser, ou da figura dos pais ideais ou dos pais que gostaríamos de ser. E então, passamos a representá-los, de acordo com o conceito criado. Os pais, os professores, a sociedade, a televisão, certamente ajudam, e muito, na formação de nossos personagens. Assim, criamos, ou criam para nós, roteiros a ser encenados: uma mãe tem que ser assim, um pai tem que ser assado; é preciso casar e ter filhos, é preciso cuidar dos filhos de tal maneira; patrão deve ser assim, empregado deve ser assado; é preciso trabalhar, estudar... São milhares de “tem que”, “deve ser” e “é preciso”. Devemos eliminar todos os "tem que" de nossa mente, acabar com o condicionamento imposto pelos pais, pelos professores, pela televisão, pela religião, pela sociedade. Infelizmente, somos assim. Reprimimos o outro porque somos reprimidos, porque acreditamos em padrões pré-estabelecidos, em idéias erradas. E, ao vivermos essa vida de repressão, de representação, ao vivermos fazendo tipos, vamos deixando de lado nossa felicidade e nós mesmos. Em tudo isso, o pior papel é o papel de si mesmo. Essa representação é como a daquele ator que exagera em sua dramatização. Toda essa representação acontece naturalmente e de forma muito inconsciente. Aqueles que conseguem perceber este processo de forma consciente, geralmente são pessoas que não têm amor nem compaixão. Acabam por fazer esse teatro de forma intencional, conduzindo, controlando e manipulando terceiros. Só que essas pessoas podem se esquecer de que, assim como elas, outras pessoas também podem ter consciência de sua representação. No palco da vida, quando somos nós mesmos, causamos estranheza aos olhares alheios, pois todos esperam que representemos o nosso papel. E, no caso de insistirmos em expor a nossa verdade, corremos o risco de ser retirados da cena, do palco, da peça ou até mesmo do teatro, dependendo dos personagens com os quais estamos contracenando. No teatro da vida, agimos como crianças brincando de casinha. Choramos, esbravejamos, quando os outros não agem como achamos que deveriam agir em seus papéis. As crianças que brincam de casinha, pelo menos, combinam antes o que cada uma delas vai fazer. Já em nosso caso, montamos tudo em silêncio no imaginário e queremos que todos adivinhem. Os motores que dão a partida e movimentam esses papéis são, como sempre, o desejo, a auto- imagem, a auto-importância, o amor próprio e o apego. Precisamos entrar em contato com o nosso verdadeiro Ser e perceber que somos algo mais. Só assim poderemos parar de interpretar aquilo que não somos e ser nós mesmos o tempo todo. Uma escritora seguidora de Jung escreveu: Então você fica sabendo que nunca poderá ser outra coisa senão você mesmo, que nunca poderá perder-se e que nunca se alienará de si. Isto é assim porque você sabe que o eu é indestrutível, que é sempre um e o mesmo, que não pode ser dissolvido nem trocado por outra coisa. O eu lhe permite permanecer o mesmo em todas as condições de sua vida. O Mito da Caverna O “Mito da Caverna” é uma alegoria contada por Platão no Livro VII de “A República”. Reproduzi- lo aqui é a forma mais enriquecedora e bela de iniciarmos esta reflexão. Sócrates – Figura-te agora o estado da natureza humana, em relação à ciência e à ignorância, sob a forma alegórica que passo a fazer. Imagina os homens encerrados em morada subterrânea e cavernosa que dá entrada livre à luz em toda extensão. Aí, desde a infância, têm os homens o pescoço e as pernas presos de modo que permanecem imóveis e só vêem os objetos que lhes estão diante. Presos pelas cadeias, não podem voltar o rosto. Atrás deles, a certa distância e altura, um fogo cuja luz os alumia; entre o fogo e os cativos imagina um caminho escarpado, ao longo do qual um pequeno muro parecido com os tabiques que os pelotiqueiros põem entre si e os espectadores para ocultar-lhes as molas dos bonecos maravilhosos que lhes exibem. Glauco – Imagino tudo isso. Sócrates – Supõe ainda homens que passam ao longo deste muro, com figuras e objetos que se elevam acima dele, figuras de homens e animais de toda a espécie, talhados em pedra ou madeira. Entre os que carregam tais objetos, uns se entretêm em conversa, outros guardam em silêncio. Glauco – Similar quadro e não menos singulares cativos! Sócrates – Pois são nossa imagem perfeita. Mas, dize-me: assim colocados, poderão ver de si mesmos e de seus companheiros algo mais que as sombras projetadas, à claridade do fogo, na parede que lhes fica fronteira? Glauco – Não, uma vez que são forçados a ter imóveis a cabeça durante toda a vida. Sócrates – E dos objetos que lhes ficam por detrás, poderão ver outra coisa que não as sombras? Glauco – Não. Sócrates – Ora, supondo-se que pudessem conversar, não te parece que, ao falar das sombras que vêem, lhes dariam os nomes que elas representam? Glauco – Sem dúvida. Sócrates – E, se, no fundo da caverna, um eco lhes repetisse as palavras dos que passam, não julgariam certo que os sons fossem articulados pelas sombras dos objetos? Glauco – Claro que sim. Sócrates – Em suma, não creriam que houvesse nada de real e verdadeiro fora das figuras que desfilaram. Glauco – Necessariamente. Sócrates – Vejamos agora o que aconteceria, se se livrassem a um tempo das cadeias e do erro em que laboravam. Imaginemos um destes cativos desatado, obrigado a levantar-se de repente, a volver a cabeça, a andar, a olhar firmemente para a luz. Não poderia fazer tudo isso sem grande pena; a luz, sobre ser-lhe dolorosa, o deslumbraria, impedindo-lhe de discernir os objetos cuja sombra antes via. Que te parece agora que ele responderia a quem lhe dissesse que até então só havia visto fantasmas, porém que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, via com mais perfeição? Supõe agora que, apontando-lhe alguém as figuras que lhe desfilavam ante os olhos, o obrigasse a dizer o que eram. Não te parece que, na sua grande confusão, se persuadiria de que o que antes via era mais real e verdadeiro que os objetos ora contemplados? Glauco – Sem dúvida nenhuma. Sócrates – Obrigado a fitar o fogo, não desviaria os olhos doloridos para as sombras que poderia ver sem dor? Não as consideraria realmente mais visíveis que os objetos ora mostrados? Glauco – Certamente. Sócrates – Se o tirassem depois dali, fazendo-o subir pelocaminho áspero e escarpado, para só o liberar quando estivesse lá fora, à plena luz do sol, não é de crer que daria gritos lamentosos e brados de cólera? Chegando à luz do dia, olhos deslumbrados pelo esplendor ambiente, ser-lhe ia possível discernir os objetos que o comum dos homens tem por serem reais? Glauco – A princípio nada veria. Sócrates – Precisaria de algum tempo para se afazer à claridade da região superior. Primeiramente, só discerniria bem as sombras, depois, as imagens dos homens e outros seres refletidos nas águas; finalmente erguendo os olhos para a lua e as estrelas, contemplaria mais facilmente os astros da noite que o pleno resplendor do dia. Glauco – Não há dúvida. Sócrates – Mas, ao cabo de tudo, estaria, decerto, em estado de ver o próprio sol, primeiro refletido na água e nos outros objetos, depois visto em si mesmo e no seu próprio lugar, tal qual é. Glauco – Fora de dúvida. Sócrates – Refletindo depois sobre a natureza deste astro, compreenderia que é o que produz as estações e o ano, o que tudo governa no mundo visível e, de certo modo, a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna. Glauco – É claro que gradualmente chegaria a todas essas conclusões. Sócrates – Recordando-se então de sua primeira morada, de seus companheiros de escravidão e da idéia que lá se tinha da sabedoria, não se daria os parabéns pela mudança sofrida, lamentando ao mesmo tempo a sorte dos que lá ficaram? Glauco – Evidentemente. Sócrates – Se na caverna houvesse elogios, honras e recompensas para quem melhor e mais prontamente distinguisse a sombra dos objetos, que se recordasse com mais precisão dos que precediam, seguiam ou marchavam juntos, sendo, por isso mesmo, o mais hábil em lhes predizer a aparição, cuidas que o homem de que falamos tivesse inveja dos que no cativeiro eram os mais poderosos e honrados? Não preferiria mil vezes, como o herói de Homero, levar a vida de um pobre lavrador e sofrer tudo no mundo a voltar às primeiras ilusões e viver a vida que antes vivia? Glauco – Não há dúvida de que suportaria toda a espécie de sofrimentos de preferência a viver da maneira antiga. Sócrates – Atenção ainda para este ponto. Supõe que nosso homem volte ainda para a caverna e vá assentar-se em seu primitivo lugar. Nesta passagem súbita da pura luz à obscuridade, não lhe ficariam os olhos como submersos em trevas? Glauco – Certamente. Sócrates – Se, enquanto tivesse a vista confusa – porque bastante tempo se passaria antes que os olhos se afizessem de novo à obscuridade – tivesse ele de dar opinião sobre as sombras e a este respeito entrasse em discussão com os companheiros ainda presos em cadeias, não é certo que os faria rir? Não lhe diriam que, por ter subido à região superior, cegara, que não valera a pena o esforço, e que assim, se alguém quisesse fazer com eles o mesmo e dar-lhes a liberdade, mereceria ser agarrado e morto? Glauco – Por certo que o fariam. Sócrates – Pois agora, meu caro Glauco, é só aplicar com toda a exatidão esta imagem da caverna a tudo o que antes havíamos dito. O antro subterrâneo é o mundo visível. O fogo que o ilumina é a luz do sol. O cativo que sobe à região superior e a contempla é a alma que se eleva ao mundo inteligível. Ou, antes, já que o queres saber, é este, pelo menos, o meu modo de pensar, que só Deus sabe se é verdadeiro. Quanto à mim, a coisa é como passo a dizer-te. Nos extremos limites do mundo inteligível está a idéia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que, conhecida, se impõe à razão como causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da luz e do sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível, e sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria nos negócios particulares e públicos. Glauco – Concordo também, até onde sou capaz de seguir tua imagem. Sócrates – Continuemos pois – disse eu – Concorda ainda comigo, sem te admirares pelo fato de os que ascenderam àquele ponto não quererem tratar dos assuntos dos homens, antes se esforçarem sempre por manter a sua alma nas alturas.É natural que seja assim, de acordo com a imagem que delineamos. Glauco – É natural – confirmou ele. Sócrates – Ora, pois! Entendes que será caso para admirar, se quem descer destas coisas divinas às humanas fizer gestos disparatados e parecer muito ridículo, porque está ofuscado e ainda não se habituou suficientemente as trevas ambientes, e foi forçado a contender, em tribunais ou noutros lugares, acerca das sombras, e a disputar sobre o assunto, e sobre o que dispõe ser a própria justiça quem jamais a viu? Glauco – Não é nada de admirar. Sócrates – Mas quem fosse inteligente – redargüi – lembrar-se-ia de que as perturbações visuais são duplas, e por dupla causa, da passagem da luz à sombra, e da sombra à luz. Se compreendesse que o mesmo se passa com a alma, quando viesse alguma perturbada e incapaz de ver, não riria sem razão, mas reparava se ela não estaria antes ofuscada por falta de hábito, por vir de uma vida mais luminosa, ou se, por vir de uma maior ignorância a uma luz mais brilhante, não estaria deslumbrada por reflexos demasiadamente refulgentes; à primeira deveria facilitar pelas suas condições e pelo seu gênero de vida; da segunda, ter compaixão e, se quisesse troçar dela, seria menos risível essa zombaria do que se aplicasse àquela que descia do mundo luminoso. *** A caverna é o mundo sensível que habitamos, na medida em que não conhecemos a verdade, na medida em que vemos apenas sombras e reflexos que tomamos por verdade. Os grilhões são nossos conceitos e preconceitos, nossa confiança em nossos sentidos e opiniões, nossa ilusão, nossos medos e repressões. Não poder voltar o rosto, não poder olhar de lado, corresponde a não conseguir olhar para os outros, a ser egoísta e olhar somente para si mesmo. Dar nomes as sombras é fazer julgamentos, rotular coisas e pessoas. Julgar que os ecos dos que passam são as próprias sombras reverberando significa acreditar que nossas projeções são realmente os outros, e que nada além disso é real. E quando ao que assim julga a luz é revelada, descortinando-lhe a verdade de que o que via antes eram apenas reflexos de si mesmo, ele nega ser igual às suas projeções e acredita que as pessoas realmente são como imaginava. A dor de ver a luz e a pena de se levantar representam o sofrimento de ver aquilo que verdadeiramente se é. Desviar os olhos do fogo é negar a verdade. Para poder ver as sombras sem dor é preciso saber discerni-las, bem como as imagens dos homens e de outros seres refletidos sobre as águas, e, em seguida, erguer os olhos para a lua e para as estrelas, contemplar os astros noturnos mais facilmente do que o que é visível ao resplendor do dia. E, depois de desvendar os enigmas da noite, sentir-se apto a ver o próprio sol, primeiro refletido e então diretamente. Assim, vamos compreendendo a vida, seus reflexos, vamos conhecendo a verdade aos poucos. Primeiro, a verdade que pertence aos outros; depois, voltando o olhar direta e profundamente para a nossa essência mais íntima, a verdade de nosso próprio ser. O Mito da Caverna apresenta a dialética como movimento ascendente de libertação, de iluminação. Com esta metáfora, Platão nos diz que não é possível ensinar sobre as coisas, pode-se apenas ensinar a procurá-las. Os olhos foram feitos para ver, a alma, para conhecer. Os primeiros estão destinados à luz solar; a segunda, à fulguração da idéia. A dialética é a técnica liberadora dos olhos do espírito. O que significa o Amor? Por vezes, o “amor” parece uma doença incurável, que causa muitas dores e muitas marcas... Talvez não estejamos, neste caso, falando de amor verdadeiramente. O amor não dói, não aprisiona. A paixão, sim, pode fazer isto. Mas paixão é um outro tipo de sentimento.Não podemos confundi-la ou misturá-la com o sentimento puro de amor. Se sentimos dor, é porque estamos apegados às pessoas, aos prazeres que elas nos proporcionam, às contraditórias sensações que nos trazem. Não queremos perder essas sensações. É a possibilidade de tal perda que dói, até muito mais do que a perda em si. Na realidade, quem sente dor é o ego, a personalidade. O problema é que, como estamos identificados com a personalidade, confundimos tudo. As sensações são criadas a partir de projeções mentais que fazemos em relação a pessoas e coisas. Assim, aquilo que muitas vezes chamamos de “amor” não passa de apego a sensações, apego a projeções mentais, fascinação, fantasia. Em nossas projeções, achamos que as pessoas são desta ou daquela maneira. Não as vemos como verdadeiramente são. E o resultado desta visão distorcida é a desilusão, a frustração, a mágoa, a dor. Nossos desejos, nossa sede de felicidade, de prazer, são tão grandes que não conseguimos enxergar a verdade. As sensações de prazer não estão apenas relacionadas ao sexo, embora seja este um componente muito forte. Entram em cena também a sensação de aceitação, de segurança, de ser “normal” – ou seja, compatível com conceitos e padrões impostos pela sociedade –, a sensação de estar feliz ou a simples promessa, esperança, de sê-lo um dia. Essas sensações, por sua vez, trazem outras consigo, como a sensação de superioridade, orgulho, vaidade. É preciso perceber e compreender todas as trapaças desse mecanismo interno para que possamos amar verdadeiramente. Do contrário, não iremos além das ilusões, das fantasias; continuaremos a sofrer e sofrer. É preciso um profundo mergulho dentro de nós mesmos para conhecermos, por inteiro, nossa real essência – a essência capaz de alcançar o amor verdadeiro. Os Sete Pecados Capitais Todas as grandes religiões falam de regras morais e ética, todas falam sobre o que devemos cultivar, desenvolver e o que devemos evitar, eliminar. No Cristianismo temos os Dez Mandamentos, trazidos por Moisés e reforçado pelo Cristo Jesus com o ensinamento “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Também no Cristianismo temos os Sete Pecados Capitais, os quais devemos evitar e eliminar. São Tomás de Aquino (1225-1274) compilou sete das nossas maiores faltas em um grupo, que denominou Os Sete Pecados Capitais. Estes pecados, dos quais muitos outros derivam, são: a gula, a vaidade, a luxúria, a avareza, a preguiça, a ira e a inveja. Os Sete Pecados Capitais têm sido alvo de muitas interpretações, servindo de referência e base para quem busca trilhar o caminho do auto-conhecimento. E, para que sejam transformados em virtudes, faz-se necessário, antes de tudo, conhecê-los, e depois buscá-los dentro de nós mesmos. No Budismo encontramos As Quatro Nobres Verdades, O Caminho Óctuplo, As Paramitas. O Budismo considera todos os sete pecados do Cristianismo, à exceção da luxúria, talvez porque este pecado esteja estreitamente relacionado com os demais. O “Bhagavad-Gita” nos contempla com as sábias palavras de Sri Krishna – fontes de inspiração e estudo para várias religiões, como Hinduísmo e o Hare-krishna, por exemplo –, que afirmam ser a luxúria, a avareza e a ira as três portas para o inferno. A percepção das faltas que cometemos, a auto-observação, é o caminho mais indicado para que esses pecados não nos dominem. Podemos ignorar ou considerar as pequenas faltas, mas é sempre prudente levar em conta que é nas pequenas faltas que criamos e alimentamos defeitos que, em situações que o favoreçam, se tornarão grandes faltas. Quem costuma cometer faltas leves, sem aprender com elas, negando-se à oportunidade de adquirir sabedoria, ruma para incorrer futuramente em faltas graves, com todos os retornos que estas podem trazer. Enquanto não vencemos estes sete demônios internos, refugiamo-nos na ilusão de que somos superiores – seja através do poder, da aquisição de bens, do sexo –, permanecemos na busca incessante de compensações para a nossa incompreensão da existência, para o nosso vazio interior. E assim, ficamos sempre a perseguir o sentido da vida fora de nós, buscando acumular riquezas, poder, matérias, prazeres, sem nos darmos conta de que a maior riqueza, o maior tesouro, se encontra dentro de nós mesmos. Recordemos as palavras de um sábio filósofo: Sete são os obstáculos clássicos ou impurezas que, de acordo com tradição cristã, podem bloquear nossa percepção do verdadeiro Sol de amor e alegria espirituais. Essas sete 'nuvens', por assim dizer, são o orgulho, a inveja e a avareza (predominantemente no nível mental); a ira, a luxúria e a gula (predominantemente no nível emocional); e a preguiça (predominantemente no nível físico). ... Na sua presença nós perdemos, durante aquele período de tempo, a percepção daquele Sol espiritual de amor e deleite, e assim separamos a nós mesmos dos outros. A necessidade de compartilhar a bem-aventurança, que é amor, não parece estar ali, e nos sentimos solitários. Esta é apenas uma percepção distorcida daquela unidade que permeia todas as coisas e todos os seres. Para evitar esta distorção, nós não precisamos criar o amor, o que é tão impossível quanto criar o Sol, mas apenas evitar as sete 'nuvens' mencionadas, não as nutrindo. Então, a glória do Sol será visível novamente. De fato, o Sol esteve sempre brilhando, somente a nossa percepção estava bloqueada e não podia vê-lo. Portanto, para evitar a formação de nuvens se requer uma vigilância, momento a momento, a fim de restabelecer a percepção da unidade, como um novo nascimento, como o Cristo disse: 'Naquele dia sabereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós. ... Os defeitos são como nuvens que se antepõe ao sol. A sabedoria é a arte de não deixar que estes obstáculos, estas nuvens, se formem em nossa vida. Tais obstáculos matam a liberdade da alma, aprisionam ela em estado depressivo. Examinemos então a essência dos Sete Pecados: Inveja: consiste, fundamentalmente, em negar o valor do outro, em projetar a negação do próprio valor. Na inveja, desvalorizamos os méritos alheios por nos sentirmos inferiorizados. Sentimos raiva, tristeza, por alguém ter algo que não temos, mas que gostaríamos de ter. Ira: é marcada por raiva, ódio, irritação. É uma emoção totalmente destrutiva, tanto para quem a sente como para quem se torna objeto dela. A ira faz com que agridamos terceiros, projetando este sentimento contra nós mesmos. Gula: é o exagero, a voracidade, no comer e no beber, mas também pode ser entendida como gula existencial, no sentido de abocanharmos, sem comedimentos, tudo o que os olhos vêem e desejam. Avareza: é o sórdido e excessivo apego ao dinheiro, é o medo de que bens materiais venham a faltar, uma sensação contínua de escassez. Orgulho: é uma mera ilusão de si mesmo, uma idéia exagerada e soberba daquilo que se é. Luxúria: é a busca insaciável por prazeres, pela satisfação dos sentidos, não se restringindo somente a prazeres sexuais. Preguiça: é caracterizada pela lentidão ou falta de vontade para agir, trabalhar, realizar. É um estado exagerado de inércia, marcado pela indiferença e apatia. Os defeitos são manifestações da nossa ignorância, da nossa inconsciência, e estão todos dentro de nós, são gerados sempre dentro de nós. Nenhuma resposta para os defeitos é encontrada fora de nós, por mais que suas expressões sejam ou pareçam estar associadas a situações externas. Diz Samael Aun Weor em “A Revolução da Dialética”: Não há porque se resistir ao negativo e sim praticar o positivo incondicionalmente, ensinando suas vantagens pela prática. Atacando o erro, provocaremos o ódio dos que erram. ... Façamos luz, se é que queremos vencer as trevas. A estas palavras, acrescentamos a sábia frase de Gandhi, para ilustrar as reflexões aqui abordadas: Os únicos demôniosque existem no mundo são os que habitam o coração do homem, e é aí que a Guerra Santa deve ser travada. Analisando Os Sete Pecados Capitais sob a ótica budista, de maneira bem simplificada - mas não superficial -, podemos concluir que: a inveja é o desejo de possuir o bem alheio; a ira nasce da frustração dos desejos; a gula é um desejo voraz associado à necessidade de consumo; a avareza é o desejo de reter tudo para si, de possuir todas as coisas; o orgulho é o desejo de ser reconhecido, aceito, adorado; a luxúria é o desejo insaciável de prazeres, da satisfação dos sentidos, através das sensações; e a preguiça é o desejo de nada fazer. Por Que Não Mudamos? De um modo geral, todo mundo acredita estar evoluindo, mudando, melhorando. Mas a triste realidade é que, entra dia e sai dia, somos sempre os mesmos. São sempre os mesmos comportamentos, os mesmos dizeres, as mesmas brincadeiras, as mesmas reclamações, os mesmos hábitos. Nossos pensamentos e crenças são a causa de tudo o que nos acontece, são os agentes desencadeadores de toda a realidade que nos cerca. Devemos mudar o paradigma de sermos vítimas para o de sermos responsáveis por tudo o que nos acontece. O processo do auto-conhecimento é lento. As barreiras que nos separam da verdade vão sendo derrubadas gradualmente, e só então podemos perceber diretamente a responsabilidade que temos sobre nós mesmos. Não é um caminho fácil. Compreender as dificuldades da vida como lições a serem aprendidas é um enfoque diferente, é uma mudança de paradigma. Não mudamos porque buscamos em livros, palestras, doutrinas, seminários ou cultos apenas a confirmação de nossas crenças. Não nos abrimos ao novo, ao que, na realidade, a vida tenta nos passar, mostrar, ensinar. Nossas crenças nos levaram até onde estamos. Para seguirmos adiante, precisamos quebrar os paradigmas atuais. Precisamos questionar a realidade, questionar se os fatos devem ser realmente assim como se apresentam aos nossos olhos, assim como os pensamos. Obviamente, enquanto continuarmos a repetir as mesmas ações, nossos resultados serão sempre os mesmos, não há como ser diferente. Não mudamos porque gostamos de ser como somos, porque estamos identificados com nossa personalidade, porque estamos apaixonados por nós mesmos. Somos fascinados com o personagem que construímos ao longo de toda uma vida. Temos um medo profundo de enxergarmos a realidade do que somos. Nossa forma de ser, nosso comportamento, nossos pensamentos, estão tomados por mecanismos de defesa, adquiridos por meio de experiências, sofrimentos e dores vivenciados ao longo de nossa existência. Fomos nos construindo, nos moldando, para evitar as sensações de dor e estimular as sensações de prazer. Não mudamos porque nos falta vontade, força, honestidade, sinceridade, capacidade de renúncia. Uma mudança, uma transformação, significaria deixarmos de ser quem somos. E, como somos apegados a nós mesmos, a o que somos ou ao que achamos ser, reagimos negativamente. Tememos nos transformar em algo que não vamos gostar, em algo que os outros não vão gostar. Tememos perder o pouco que temos ou achamos ter. Tememos ser rejeitados, perder a popularidade, a fama, o status, a consideração, os prazeres. Tememos deixar de existir, nossos egos temem deixar de existir. Satisfazemo-nos com nossa realidade. Os dias se sucedem e permanecemos os mesmos, sempre os mesmos, não mudamos em nada. Cometemos os mesmos erros, erros que nem sabemos quais são, rimos das mesmas piadas sem graça, reclamamos das mesmas coisas, humilhamo-nos sempre em situações que se repetem. Sentimos medo e vergonha das mesmas coisas, nas mesmas circunstâncias ou em circunstâncias parecidas. Irritamo-nos, ficamos nervosos, irados, indignados, brigamos e somos agressivos com as mesmas pessoas, nas mesmas ocasiões. Demonstramos vaidade, arrogância e orgulho nas mesmas situações. Reagimos sempre da mesma forma a insultos, críticas, ofensas ou elogios. Passamos desapercebidos pelas mesmas coisas, pelos mesmos locais, como se estivéssemos adormecidos, sonhando. Projetamos sempre as mesmas idéias, fantasiamos sempre as mesmas histórias, sofremos com as mesmas expectativas, ficamos ansiosos pelas mesmas bobagens. Agimos sempre da mesma forma egoísta e mesquinha, desrespeitamos sempre as mesmas regras, as mesmas pessoas, não cuidamos do que dizemos e nem de como dizemos, repetimo-nos por inúmeras vezes. É um quadro lamentável, e muitos que assim vivem ainda se consideram realizados, o que é um enorme auto- engano. Este quadro, por si só, já reproduz a terrível imagem do sofrimento. Muitos dizem que a vida é uma escola, que devemos aprender com ela, com as situações e com os sofrimentos que ela nos impõe. Mas as situações se sucedem e nenhuma transformação ocorre. Todas as propostas de mudança ficam apenas no imaginário, não existe ação efetiva, não existe transformação verdadeira. Alguns, equivocadamente, se deixam convencer e se confortam com a idéia de que estão mudando, de que estão evoluindo, de que a vida muito lhes tem ensinado, quando, na realidade, só estão se tornando cada vez mais travados, cada vez mais embotados, mais infelizes. Não percebem que estão criando mais e mais dispositivos de defesa, de travas mentais. Geralmente, acreditamos que, por freqüentarmos uma religião, por conhecermos e seguirmos certas teorias, doutrinas, conceitos morais e éticos, estamos mudando, evoluindo. Mas, na verdade, o que estamos fazendo é apenas nos aprisionarmos em gaiolas mais bonitas. Não mudamos porque nos auto-definimos, não mudamos por atribuirmos rótulos atraentes a nós mesmos, por nos fascinarmos com esses rótulos, que nos levam a auto-adoração, o que impede-nos de enxergar a realidade e de nos transformarmos verdadeiramente. Por exemplo, se nos definimos, antecipadamente, como pessoas calmas, pacientes, tolerantes, serenas, tranqüilos, estamos dificultando a nossa observação, o exercício do auto-conhecimento, que nos permitiria detectar a nossa intranqüilidade, a nossa falta de serenidade, nossas irritações, medos, ansiedade, expectativas e esperanças. Sem esta percepção, passamos a arrumar uma série de justificativas, desculpas, explicações para as nossas faltas. E com um agravante: além das faltas anteriores, agora nos falta também aceitação, honestidade, sinceridade, força. Somos enganados pela auto-imagem, pelo amor próprio. Ficamos facilmente fascinados com nossos personagens. Caímos no auto-engano. Quando uma situação se apresenta, ao invés de estarmos presentes e nos auto-observarmos, partimos logo para a ação, tentando expressar serenidade. Agimos falsamente, e sentimos prazer por termos conseguido transmitir a imagem de alguém sereno; chegamos mesmo a nos surpreender com o fato de termos mudado tanto, evoluído tanto; admiramo-nos do quanto somos calmos e serenos e de termos conseguido nos manter assim durante toda a situação. Acreditamos piamente que nos saímos bem. Com isso, projetamos nossas ilusões, nossas fantasias, para os outros. Achamos que todos estão admirados de sermos assim tão serenos, que nos tomam como exemplos, que nos apreciam. E então somos tomados por confortáveis sensações às quais nos apegamos, e acreditamos ser esta a nossa realidade. Mas tudo não passa de projeções mentais, nós é que nos admiramos, nós é que nos auto-adoramos, que nos envaidecemos e nos enchemos de orgulho. Para piorar, se, depois de tudo, alguém ainda nos elogia, o embotamento aumenta. É como assinassem embaixo de nossas ilusões, de nossas projeções mentais. Precisamos renunciar a tais sensações, projeções, ilusões. Na verdade, o que temos é excesso de amor próprio. Tal qual artistas no palco, queremos aplausos. Não percebemos que estes aplausos são caras, bocas, tapinhas nas costas, elogios, bajulações. Precisamosexpandir esses exemplos, precisamos explorá-los e compreendê-los, precisamos meditar muito, rogar a essa Divindade Interior maravilhosa, à nossa Mãe Divina, ao nosso Pai Interno, que nos livre do auto-engano, da ilusão, e nos mostre a verdade. Não mudamos apenas quando só uma parte de nós quer mudar e as outras continuam a fazer as mesmas coisas, a se comportar do mesmo jeito. Se assim acontece, é porque não estamos plenamente decididos a mudar, não estamos aptos a renunciar a nós mesmos, a nossos desejos, a nossas ilusões e prazeres fugazes. Se assim acontece, não nos entregamos, não nos empenhamos em busca de uma mudança, de uma transformação, pois certamente não estaremos dispostos a abrir mão de assistir nossos filmes, novelas, futebol, jogos; não estaremos dispostos a abrir mão das diversões, dos passatempos habituais, em nome dessas novas práticas. Se quisermos operar em nós mesmos alguma mudança real, precisamos de práticas diárias. Ao final de cada dia, devemos analisar e refletir sobre o que se passou, sobre gestos, palavras, situações, cenas e cenários. E precisamos ser extremamente auto-críticos. Precisamos meditar sobre as cenas de ira, luxúria, orgulho, inveja, gula ou de outras situações faltosas, sem alegorias ou escapes. Não mudamos porque inventamos desculpas para não mudarmos, para justificar nossa incapacidade de mudar, nossa fraqueza, nossa falta de coragem de olhar para dentro de nós mesmos. O demônio da má vontade atua em nós de forma muito astuta. Algumas linhas religiosas ou filosóficas retratam o homem como um ser essencialmente bom, outras como um ser essencialmente mau. Se o homem é essencialmente bom ou mau, não vem ao caso agora. Seja ele bom ou mau, o fato não nos impede de olharmos para dentro de nós e enxergarmos a vergonha, o medo, a violência, a ignorância, a falsidade, a fraqueza, a maldade, a ira, a inveja, a avareza, a gula atuando em nosso ser. Conceituar a essência do homem como boa ou má é só uma idéia, uma idéia que nos limita muito, como qualquer outra idéia, conceito, preconceito, definição ou auto-definição. O medo, o sofrimento, a vergonha, o orgulho, a ira, a ansiedade, a gula, a inveja são os mesmos, seja para que acreditam que o homem é essencialmente ruim ou para os que acreditam que o homem é essencialmente bom, seja para os cristãos, budistas, maometanos, hinduístas, seja para os brancos, pretos, morenos, amarelos, vermelhos. O objeto desses sentimentos indesejáveis pode mudar, mas isso não muda nada. Apontamos erros e defeitos naqueles nos cercam e não nos damos conta da lei da atração, não nos damos conta das projeções. Aquilo que poderia ser uma ótima oportunidade de auto-conhecimento passa a servir apenas para alimentar ainda mais a nossa vaidade, nossa auto-adoração, nosso amor- próprio. Não mudamos porque lemos e ouvimos falar sobre erros, sobre maus comportamentos, sobre comportamentos equivocados, mas, como nos auto-adoramos, nada vemos de errado em nós mesmos. Voltamos os olhar crítico somente para os outros, e com esse olhar julgamos e censuramos os que vivem ao nosso redor. Raiva de Tudo Domine a raiva com a serenidade; o mal com o bem; a mesquinharia com a generosidade; a mentira, com a verdade. (Dhammapada 223) O desejo não realizado leva à frustração. A frustração leva à raiva. A raiva leva ao endurecimento do coração e ao desejo de vingança. A vingança leva à maldade. Raiva e desejos de vingança ocorrem em função do apego ao próprio objeto gerador da raiva, do qual queremos nos vingar. E com este objeto competimos, na incansável tentativa de superá-lo. Ao refletirmos sobre cada objeto, é possível identificar determinados aspectos da ira que ele despertou. Dependendo do objeto, um aspecto pode se mostrar mais perceptível do que outros. E esses aspectos que nos são compreensíveis não devem ser deixados de lado, devemos utilizá-los em outras reflexões. A mente transfere a ira para outros objetos, o que dificulta ou impossibilita uma análise pertinente. Logo, não podemos perder de vista o pressuposto de que a ira é fruto de um desejo frustrado. Uma análise dos opostos também pode ajudar. Também é importante observar que não precisamos aguardar por uma explosão de raiva, por um ataque de ira, para então começarmos a analisar e buscar a compreensão dos fatos. Podemos tentar relembrar os momentos de irritação, frustração, descontentamento, insatisfação, tristeza, indignação, mágoas, ressentimentos, desejos de vingança e inconformismo do passado, e trabalharmos sobre eles. A raiva se esconde atrás de múltiplas e diferentes roupagens. Em um dado ponto das reflexões pode ser necessário recorrer à abstração, de modo a direcionar a reflexão para a raiva em si, já que os objetos dela podem limitar a percepção, a compreensão. O mundo, com suas luzes, cores, com seus brilhos e encantos, desperta em nós os desejos, levando-nos à busca de uma satisfação que nunca acontece. E, desta forma, acabamos por nos frustrar com o mundo. E esta frustração nos leva a ter raiva do mundo e a planejar vinganças. Passamos a competir com o mundo, com a vida. Em nossas fantasias, queremos superar o mundo, e o resultado disto é que ficamos irritados e nem sabemos por quê. Todos que nos cercam sofrem conosco, pois transferimos para eles essa nossa raiva do mundo. Queremos nos vingar do mundo através de tudo e de todos que o habitam. Isso tudo ocorre porque continuamos a acreditar nas ilusões mundanas. Ou seja, num primeiro momento, alimentamos as ilusões e as desejamos; em seguida, passamos a odiá-las. E assim invertemos todo o processo. Se pudéssemos compreender as ilusões apenas como ilusões, nada disso aconteceria. Precisamos perceber que tudo ocorre dentro de nós mesmos, e que estamos apenas transferindo nossos anseios para objetos externos, para objetos do mundo externo. Não é possível competir com o mundo ou com a vida. Isso é uma grande tolice. Assim como é tolo discutir com quem nos insulta, trocar ofensas. Todos esses impasses são armadilhas o mundo usa para nos enganar e nos manter aprisionados. Portanto, a melhor forma de vencer o mundo é renunciar a ele, assim como a melhor forma de vencer os nossos agressores é renunciar à discussão, renunciar à disputa pelo monopólio da razão, à vitória, à superioridade; é manter a serenidade e uma certa indiferença – que não significa nem desprezo, nem superioridade; que não significa uma forma de vingança, nem tampouco uma tentativa de vencer. Toda expressão de raiva é uma forma de vingança. Precisamos compreender as dificuldades da vida como lições a serem aprendidas. Em verdade, como nos ensina o Budismo, esta é uma reta visão sobre o sofrimento, e a retidão de tal visão enche-nos de gratidão. Se passamos a encarar as dificuldades da vida como lições a serem aprendidas, se passamos a priorizar na vida o aprendizado e a evolução, então a ofensa, a agressão e as pressões deixam de existir, existirão apenas os aprendizados. Mas se, ao contrário, ficamos nervosos, irritados, se insistimos em maldizer algo ou alguém, é porque o aprendizado não é o fator mais importante. Neste caso, o fato de ser bem tratado, elogiado, reconhecido, aceito, adorado, passou a ter mais importância do que o aprendizado. E isso é a manifestação expressa da própria auto-importância. A gratidão, a satisfação, o contentamento, a bondade, nascem da percepção do real, da renúncia ao irreal, da entrega, da devoção. Tudo é como deveria ser, tudo está como deveria estar. Somos o único inimigo a quem devemos derrotar. Somos nossos inimigos quando não nos conhecemos e atrapalhamos o fluxo da vida. A vida não tem nada de errado, nós é que destruímos e atrapalhamos o seu curso; nós é que tendemos a tudo controlar, a tudo julgar. A vida segue suas leis naturais, e tudo o que fazemos é perturbar essas leis.Na vida não existem ganhos ou perdas, tudo não passa de uma grande ilusão. Existem apenas aprendizados. As verdadeiras virtudes não provenientes de sentimentalismos baratos ou de apelos emocionais. Estes devem ser eliminados. Mas devemos cuidar para não confundir a eliminação desses sentimentos com o endurecimento do coração. No lugar dessas manifestações apelativas devem nascer sentimentos e emoções puras, vindas do fundo do coração. Não podemos descontar em terceiros nossa raiva, nossas frustrações, nossas mágoas e ressentimentos; não podemos dar vazão às nossas vinganças, alegando que assim agimos porque fomos tomados por impulsos sentimentalistas ou emocionais. Isso é um terrível auto- engano. Ao agirmos assim, estamos apenas liberando de dentro de nós a maldade que estava reprimida pela falsa moral, por normas de boa conduta e pelos ditos bons costumes. Nunca devemos nos esquecer de que devemos nos abster de fazer o mal; devemos cultivar a bondade, a compaixão. Na verdade, as pessoas são infelizes e sofrem porque viraram as costas para Deus. Revoltam-se contra a Divindade e consideram-se injustiçadas. Esta raiva que as pessoas sentem por Deus é um sentimento muito destrutivo, e se manifesta de forma tão sutil nos indivíduos, que eles oram, freqüentam lugares considerados sagrados e acreditam-se devotos fiéis. Em cada sentimento de não aceitação, de culpa, em cada preocupação, reclamação, crítica, expressão de raiva, em cada instinto de vingança, sentimento de ódio, mágoa, em cada um desses ímpetos negativos está alojado o vírus da raiva pela Divindade. A percepção deste processo já nos permite aliviar um pouco as nossas cargas, deixar o nosso coração um pouco mais leve. Mas é somente o arrependimento sincero pode nos livrar realmente deste terrível fardo. As expressões de ira ocorrem porque temos uma visão equivocada sobre os eventos da vida, porque nos identificamos com pensamentos equivocados, impregnados de maldade, vingança, indelicadeza, estupidez, brutalidade. Muitos dos motivos – quando não todos – que nos levam à expressão da ira poderiam se transformar em motivos para expressarmos virtudes, paciência, tolerância, compaixão e bondade, se tivéssemos uma visão correta dos eventos da vida. Por exemplo: se sabemos que algo é correto e explicamos ao outro o que deve ser feito, e este age contrariamente às nossas explicações, isso não deve ser motivo de ira, mas de compaixão. Se o outro não ouve ou não entende nossas explicações, por uma, duas, três ou N vezes, isso não deve ser realmente motivo para irritação, mas para o exercício da paciência e da tolerância. Sobre a Ansiedade A ansiedade esconde diversos medos. É o estar preocupado com o segundo passo quando ainda nem o primeiro foi dado. Precisamos perceber que somos nós mesmos que criamos a sensação de ansiedade e depois a sensação de alívio. Nossos estados internos são tão facilmente controlados pelas coisas externas que até mesmo um relógio - que deveria servir apenas para referências -, pode facilmente alterar estes estados, gerando ansiedade, pressionando-nos, criando um inferno dentro de nós mesmos a cada movimento do ponteiro. Podemos perceber a ansiedade em nós nos mais simples movimentos do dia-a-dia, como por exemplo na hora de comer. Mastigamos pensando na próxima garfada, comemos apressadamente, como se alguém fosse retirar o prato dali. Na realidade, é uma pressa por algo que não existe. Podemos fazer nossas tarefas rapidamente, mas sem ansiedade. O problema é que ficamos o tempo todo pensando no próximo passo. Podemos, ainda, detectar nossa ansiedade ao falar. Ela está presente quando falamos muito, quando falamos demais, atropelando as palavras ou gaguejando. Quando alguém diz algo que desperta em nossa mente alguma recordação, nos identificamos e ficamos ansiosos para falar, para mostrar que somos iguais, que também tivemos esta ou aquela experiência. A ansiedade também se faz notar quando não há o que fazer e ficamos inquietos. Começamos a mexer os pés, balançar as pernas, tamborilar os dedos sobre as superfícies, mexer em canetas, moedas, no cabelo, orelha, rosto, coçamos o que não esta coçando, e por aí vai. Tudo isso é um processo de fuga do presente. Não conseguimos ficar parados, quietos, porque estamos evitando olhar para nós mesmos, conviver conosco. Neste caso, parar, para nós, simboliza uma morte. E tememos a morte. Temos necessidade de estar sempre fazendo coisas. E, quando não há o que fazer, inventamos. Quando não há problemas que possamos resolver, criamo-los. Enfim, precisamos ter sempre mil coisas para fazer: compromissos, problemas, diversões. Outro exemplo de ansiedade latente é quando não conseguimos deixar o carro parado, silencioso, diante de um semáforo sinalizando que está fechado para o motorista. Ainda, podemos notar a ansiedade em certos hábitos, como fumar demais, roer as unhas, arrancar a pele do dedo, olhar o relógio repetidamente, não ficar parado nos pontos de ônibus, plataformas de trem ou hall de elevadores. Também a identificamos na ânsia de conhecer pessoas, nas entrevistas de emprego, na preocupação de ir para um lugar bom após a morte, e mesmo na expectativa das condições meteorológicas, ou seja, querer saber se vai chover, se vai ter sol, etc. Quando vemos ou ouvimos alguma coisa, a mente traz à tona várias de nossas antigas experiências, quando não todas, e relaciona-as com o assunto em questão. Durante uma conversa, por exemplo, à medida que nos mencionam certos fatos, o pensamento nos direciona para situações do passado. Por esta razão, vamos ficando ansiosos verbalizar nossas experiências. É a ansiedade de sermos aceitos, é a identificação atuando em nós. Estamos condicionados a agir desta forma, ou seja, de forma ansiosa. Possivelmente, algum medo gerou este comportamento ansioso, em algum aspecto. E este comportamento vai nos contagiando, vamos transferindo a experiência passada para outras coisas, para outras situações da vida. E então é hora de refletir, de analisar quais são os medos que se escondem por trás de cada manifestação de ansiedade. Geralmente, os sintomas da ansiedade são: palpitações, dores nas costas, euforia, agitação, tensão, respirações curtas ou ofegantes, sudorese, insônia, frio na barriga, aperto no peito, incapacidade de relaxar antes de dormir, entre outros. A ansiedade pode ser desencadeada só de pensar no futuro, de fantasiar o futuro, de temer que acontecimentos frustrantes do passado voltem a ocorrer, de desejar situações utopicamente felizes, fantásticas, maravilhosas, distantes da realidade. Existe em nós uma convicção natural de que, se analisarmos o futuro em todas as suas possibilidades de erro, de dor e sofrimento, poderemos evitar o indesejável, poderemos controlar o futuro. Acreditamos que podemos, com isso, controlar a vida. Assim, ficamos martelando situações imaginárias, na ânsia de evitar o que não existe, o que não está acontecendo, o que não aconteceu, e que talvez nunca venha a acontecer. E, por mais imaginárias que sejam essas situações, muitas vezes damos como certas algumas dessas fantasias trágicas. Ao criarmos condições artificiais para ficarmos felizes, para ficarmos em paz, geramos uma série de expectativas, uma ansiedade para que nosso desejo logo se concretize e nos traga rapidamente essa felicidade e essa paz que idealizamos. Devemos ser felizes agora tanto quanto possível. Devemos estar em paz agora tanto quanto possível. Toda expectativa gera ansiedade, toda expectativa é fuga da realidade, do presente, é falta de fé e de confiança. É falta de se entregar à vida como ela se apresenta. Ao tentarmos repetir prazeres, evitar dores e experiências passadas, ao invés de aproveitar as novas experiências que nos podem acontecer, acabamos por nos imobilizar. As mais simples tarefas se tornam complicadas, se transformam pontosde ansiedade. Ansiedade de provar algo aos outros, de parecer aquilo que não somos, por uma questão primária de orgulho e vaidade. Até mesmo situações de alegria, como festas e comemorações são transformadas em sofrimento, em ansiedade, em crise de nervos, devido às nossas expectativas. Fazemos comida em excesso para evitar a possibilidade catastrófica, para nós, da falta de comida, para depois termos que jogar todo o restante fora, desperdiçando-a. Ficamos aflitos com a expectativa da chegada dos convidados. Enfim, uma festa, que, a princípio, deveria ser uma oportunidade de lazer, acaba se tornando uma doença. Devemos parar e relaxar ao sentirmos que a ansiedade está prestes a nos dominar. Devemos impedi-la de se instaurar em nós. Se ela em nada nos ajudou até agora, não há razão para querermos alimentá-la. Acreditamos que o fato de nos preocuparmos com algo significa ser responsável. Que pai é aquele que não se preocupa com o desemprego, com a falta de dinheiro ou de comida? Que mãe é aquela que não se preocupa com os filhos, com a família? É natural que todos se preocupem, que fiquem momentaneamente ansiosos. Este é o padrão, este é o condicionamento. Depois de um sem número de preocupações descabidas, de loucos momentos de ansiedade, o “herói” se acha merecedor de reconhecimento por tudo o que fez, por sua dedicação, seu amor. Com isso, soma à sua coleção uma nova expectativa, a expectativa do reconhecimento. Só que o “herói” se esquece que ninguém lhe pediu para ficar preocupado, ansioso, muito pelo contrário. Então, por não obter o reconhecimento esperado, ele se frustra e geralmente assume o papel de vítima. Ficamos na expectativa, na esperança de que os outros venham a preencher as idéias que criamos. Fazemos planos, nos esquecemos do real, pois nos é conveniente. Mas ninguém tem a obrigação de atender às nossas expectativas, de realizar as nossas ilusões e fantasias. Ninguém tem a obrigação de ser como idealizamos. E, como isso não acontece, a frustração é inevitável. Contrariados, colocamo-nos na posição de vítima, declaramo-nos decepcionados com aqueles que não nos fizeram a vontade. Em nossa loucura, não esperávamos essa atitude deles. Precisamos perceber, ainda, como reagimos ao querermos nos livrar de uma situação ou de uma conversa com alguém que nos desagrada ou quando estamos atrasados para dar-lhe atenção. Nossos movimentos se tornam inquietos, agitamos as mãos e os pés, mexemos nas orelhas, no cabelo, no botão da camisa, na gravata, na fitinha da blusa, coçamos a cabeça. Precisamos perceber cada um de nossos movimentos, não porque lemos sobre isso ou porque nos disseram, mas porque esta é uma tarefa que deve partir de nós mesmos. Precisamos observar e perceber como a ansiedade atua no nosso centro motor, por que fazemos coisas desnecessárias, sem sentido, por que estamos fugindo. Precisamos perceber o que nos deixa sem jeito, incomodados, envergonhados ou constrangidos, para então conseguirmos cortar a conversa ou modificar a situação, sem problemas. Essas reações são sinais de um conflito interno, são reflexos da ansiedade. Talvez tenhamos medo de desagradar, de ser indelicado, de magoar; talvez estejamos vivendo um grande dilema, preocupados com nós mesmos, com a nossa auto-imagem, mesmo sem perceber. Sobre a Busca por Aceitação e Auto-afirmação Mendigamos aceitação, humilhamo-nos na busca da sensação de sermos aceitos pelos outros. Com isso, passamos a atribuir uma importância muito grande a tudo aquilo que os outros dizem, ao que acham de nós. Este comportamento é o reflexo da nossa auto-importância, nosso orgulho. Nessa infantil busca por aceitação e auto-afirmação, tentamos mostrar a todos o que sabemos fazer, o que conseguimos fazer. Tentamos provar que somos superiores. Agimos como crianças, mas estamos longe de ter a pureza delas. Temos, sim, muita malícia e esperteza, que nos levam a fazer jogos, tramas, chantagens, a fazer papel de vítima. A baixa estima é que gera essa busca incessante de aceitação. E, neste processo, tornamo-nos escravos, fantoches fáceis de se controlar. Basta um elogio para nos sentirmos aceitos. Daí saímos fazendo tudo que os outros querem. Num dado momento, podemos até perceber este mecanismo. Mas, como não superamos facilmente o sentimento de baixa estima, começamos a achar que os elogios a nós dirigidos não passam de mentiras convenientes, que são somente uma tentativa de se aproveitarem de nossas fraquezas. Então passamos a nos posicionar como vítimas, demonstrando uma baixa estima ainda mais grave. Se não nos aceitamos, ficamos inseguros. Em conseqüência, saímos em busca de quem nos aceite para compensar a nossa insegurança. Procuramos fora de nós a compensação para a nossa não aceitação. E, para sermos aceitos, vale apelar para tudo o que chame atenção: roupas da moda, carros bonitos, corpos perfeitos. Usamos esse tipo de compensação física e material por nos acharmos inferiores, feios, inexpressivos, inadequados. Agradamos, bajulamos, rastejamos; estamos dispostos a tudo pela aceitação alheia. Esforçamo- nos para tentar ser ou parecer aquilo que esperam de nós. Pelos outros, ou melhor, por sua aceitação e reconhecimento, nós nos sacrificamos, nós nos tornamos heróis a qualquer preço, violentamos nossa natureza, nós nos humilhamos, imploramos perdão por falhas que nem sempre são nossas, abrimos mão da própria vida, negamos o nosso Ser. Ao final, notamos que criamos uma personalidade idealizada, muito distante da nossa verdadeira essência, tudo pela aceitação do outro. Tudo o que fazemos para os outros é movido por segundas intenções, é com o objetivo de agradarmos para sermos aceitos, bajulados, reconhecidos. Assim, cobramos elogios, agradecimentos, reconhecimento. E, quando não nos dão o retorno esperado, ficamos com raiva. Para sermos aceitos, achamos que devemos mudar, melhorar, evoluir, a qualquer custo. Agindo desta forma, só nos violentamos e nos reprimimos. Passamos a nos fechar, temendo as críticas e a rejeição. E assim se instaura um conflito interno, uma guerra contra nós mesmos, pois, se nos reprimimos, nos rejeitamos. A baixa estima nos leva a crer que aqueles que nos criticam são melhores, são superiores a nós. Na verdade, são apenas pessoas reprimidas, que se cobram, que não se aceitam, e estão apenas projetando suas fraquezas. Mas, cegos pela baixa estima, não conseguimos enxergar isso. Quando não aceitamos alguma parte de nós, nos separamos desta parte. Identificamo-nos com algumas partes e projetamos outras, criando assim a separatividade. Como conseqüência, desenvolvemos uma necessidade de auto-afirmação de nossas idéias, uma forma de negar aquilo que existe em nós. Sempre acreditamos que uma parte de nós é melhor do que outra, sempre gostamos mais de uma parte do que de outra. Por esta razão, rejeitamos e nos antipatizamos com qualquer um se que mostre, que se comporte de forma similar à parte que rejeitamos em nós. Desprezamos nos outros aquilo que não gostamos em nós. Para vivermos em paz, precisamos aceitar cada um de nossos aspectos, os bons e o maus, os que gostamos e os que não gostamos, evitando o apego aos aspectos considerados bons, ou seja, os que gostamos de ter. Na busca de aceitação, criamos situações complicadas, confusões, brigas, magoamos as pessoas, sentimos raiva, acumulamos ressentimentos, transformamos os outros em veículos para a satisfação de nossas necessidades de aceitação e auto-afirmação. Na busca de aceitação, de auto-afirmação, desempenhamos papéis que não são nossos, tentando nos adaptar a padrões pré-estabelecidos. Procuramos pessoas, grupos de pessoas, que tenham idéias, dificuldades, limites e defeitos parecidos com os nossos. E, uma vez identificados com estas pessoas ou grupos, conseguimos uma maior sensação de segurança e nos auto-afirmamos. Rejeitamos, ridicularizamos, diminuímos,maldizemos as pessoas, os grupos, que apresentam idéias, dificuldades, limites ou defeitos diferentes dos nossos. Esse tipo de reação faz com que nos achemos melhores, superiores, e reforça a nossa auto-afirmação. Na separatividade, nossas dificuldades, limites, defeitos, são melhores do que os dos outros; nossa família é melhor do que a família dos outros; nossos amigos são melhores, nossas virtudes são maiores e mais admiráveis, nossa religião é superior, nosso trabalho é mais nobre, nossos conhecimentos são mais credenciados. E, quando somos rejeitados, ou observamos alguém na mesma situação, nossos mecanismos de defesa são acionados para ignorarmos a dor da rejeição, de forma a conseguirmos ser aceitos. Nessa mendicância emocional, criamos falsos personagens, tentamos parecer o que não somos. Por vivermos mendigando a aceitação alheia, vamos nos transformando em ninguém. Tentar ser o que as pessoas esperam de nós só para obter sua aceitação, ou seja, tentar ser o que não somos, é ser ninguém. E, nessa ciranda, o que somos dependerá sempre de uma situação, do lugar onde estamos e das pessoas com quem interagimos. Ao invés de nos esforçarmos para nos aproximar do Divino que existe dentro de nós, preferimos buscar a aceitação dos outros, e isso, por sua vez, nos afasta cada vez mais do Divino que há em nós. Negamos quem somos, negamos o nosso Ser, em nome da aceitação alheia, em nome de uma auto- imagem fantasiosa, em nome de nossos egos. A verdade é que temos medo de ser quem somos, temos vergonha de ser quem somos, em virtude do risco de sermos rejeitados. Sobre isso, diz Cristo em Lucas 9: 24 – Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim, esse a salvará. 25 – Pois, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder-se, ou prejudicar-se a si mesmo? 26 – Porque, quem se envergonhar de mim e das minhas palavras, dele se envergonhará o Filho do homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos. Sobre a Caridade Muito se fala sobre caridade. Preocupamo-nos em fazer doações, em fazer grandes obras. Louvamos os que praticam grandes ações humanitárias. No entanto, não fazemos o mais simples, aquilo que está ao nosso alcance a todo instante, ou seja: sermos educados, polidos, gentis, generosos, gratos ou solidários. Não cedemos o lugar para os idosos, não deixamos as gestantes tomarem a frente nas filas, corremos atropelando os outros ao subirmos escadas ou passarmos pelas portas, não damos passagem para o carro que quer mudar de faixa, não doamos nem os nossos restos. Nossa caridade, nossa bondade, nosso amor, estão sempre condicionados ao retorno, ao reconhecimento. Agindo desta forma, o que fazemos é colocar o ego acima de tudo, atribuindo a ele uma importância maior do que tais manifestações. O reconhecimento, o elogio, a aceitação dos outros, tornaram- se mais importantes do que o ato caridoso ou gentil. O foco mudou. Não somos humildes para aceitar ajuda dos outros, não somos humildade para ajudar. Não reconhecemos a bondade dos outros, não somos gratos aos outros. Quando alguém nos abre uma porta, nos cede passagem, ou nos faz um favor qualquer, ao invés de aceitarmos seu gesto com humildade e agradecermos, somos capazes ainda de massacrá-lo com as mais terríveis calúnias, chamando-o de puxa-saco, ridículo, interesseiro. Imaginamos que querem outros favores em troca, ou que querem aparecer. Isto quando não resolvemos explorar a boa vontade alheia. Enfim, tudo menos o simples, o mais acessível, o real. Não há humildade. Não há caridade. Há, sim, uma falsa caridade, a caridade do fariseu que vive em nossa psique. É essa a caridade que praticamos. A caridade está nos gestos simples do cotidiano, como escutar alguém que precisa desabafar, que não tem com quem conversar. A caridade está em se fazer presente e disponível. A caridade está em dar um simples sorriso, um abraço sincero. E ela começa dentro de nossos próprios lares. Sim, todos podemos ser verdadeiramente caridosos quando queremos, bastando para isso apenas um pouco de boa vontade, bondade, educação, respeito, compaixão, etc. Mas não é o que se costuma ver. Há quem decida fazer caridade para tentar ficar em paz com a sua “consciência”. É o caso daqueles que fazem doações a instituições filantrópicas, sem se preocupar sequer com o destino de sua doação - para quê ou para quem. Fazem um depósito ou pagam um boleto, e seguem achando que está tudo bem, que já fizeram a sua parte. E ainda gabam-se de serem pessoas generosas por ajudarem o próximo com a sua contribuição financeira. A caridade deve ser vista como uma forma de participação no processo da vida, de colaboração com o Todo. Isso ajuda a eliminar um pouco o fator de personalidade. Mestre Samael coloca a caridade, o sacrifício pela humanidade, como um dos pilares de sua doutrina ao estabelecê-la como terceiro fator de revolução da consciência. E quando Lhe perguntam sobre a caridade, Ele diz: Saiba que obras de caridade são as obras de misericórdia: dar de comer ao faminto, dar de beber ao sedento, vestir o desnudo, ensinar o que não sabe, curar os enfermos, etc. Ninguém é juiz para julgar, ademais a caridade não precisa de juiz. Isto faz parte do bom senso. Dar de comer ao faminto é algo bastante humano porque até aos presos se lhes dá de comer, senão morreriam de fome. Dar de beber ao sedento é algo lógico, já que seria demasiado cruel se negar um copo com água a alguém com sede. Presentear com uma camisa o mal vestido é natural, consolar um aflito é humano; para isso não se precisa de juízes. Contudo, seria absurdo dar-se álcool a um bêbado ou emprestar armas a um assassino. Amor é lei, porém amor consciente. A prática de boas ações, de caridade, de sacrifício pela humanidade, gera Dharma. E isso está descrito em muitas das grandes religiões, como no budismo, no cristianismo, no hinduísmo. Mas estas práticas não podem ser fruitivas, não podem visar os frutos, pois assim pode não haver frutos. Sobre isto, diz Sri Krishna no “Bhagavad-Gita”: A esmola oferecida a uma pessoa merecedora de tal benefício e que não possa retribuí-lo, com a idéia de cumprir um dever e em tempo e lugar adequados, é sattvica. Mas a esmola dada com expectativa de retorno ou recompensa, ou dada de má vontade, é rajasica. A esmola distribuída a pessoas indignas, com ar desdenhoso, sem guardar as devidas atenções e em tempo e lugar inoportunos, é tamasica. Não se deve abandonar os atos de sacrifício, esmola e ascetismo. Tais obras devem ser praticadas, pois o sacrifício, a esmola e o ascetismo são meios de purificação para o sábio. Mas mesmo essas obras devem ser executadas de forma desinteressada, sem o menor apego a ela ou a seus frutos. Esta é, filho de Prithâ, minha suprema e firme convicção. Todo sacrifício, toda escola, toda mortificação, ou qualquer outro ato praticado sem fé é chamado asat, filho de Prithâ, e é completamente nulo, tanto nesta vida como na futura. Ainda sobre esta questão, diz o Cristo Jesus, em Mateus 6: 1. - Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus. 2. - Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. 3. - Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; 4. - Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente. Assim, oferecer cada boa ação à Divindade é um ato de devoção, de gratidão, muito diferente dos atos movidos por vaidade e orgulho. Demonstrar gratidão beneficia muito mais a própria pessoa do que os outros. Diz o Swami Vivekanandaem "Karma Yoga": A compaixão é a essência do céu. Para sermos bons, devemos ser clementes. Até a justiça e o direito devem ser apoiados na clemência. Pensar em tirar proveito da obra que realizamos prejudica nosso progresso espiritual; ainda mais: provoca a miséria. Há outra maneira de levar à prática a misericórdia e a caridade altruísta: é considerar as obras como 'adoração' (quando cremos num Deus pessoal). Deste modo, abandonamos o fruto de nossas ações ao Senhor; e, adorando assim, não temos o direito de esperar nenhuma gratidão pelas obras que fazemos. Olhando por um certo aspecto, deveríamos ser gratos aos pedintes, aos necessitados, aos ignorantes, que nos possibilitam a prática da caridade, que abrem nossos corações e podem nos trazer algum Dharma. Existem muitas pessoas tremendamente necessitadas que criticam a caridade que recebem. Não possuem nada, e ainda assim se mostram ingratas pelo pouco – ou muito – que recebem. Talvez por isso nada tenham nunca. Falta-lhes humildade para receber uma doação, um favor, uma ajuda. Neste ponto, parece interessante não perdermos de vista que uma doação visa suprir uma necessidade, e não satisfazer a vaidade, o orgulho, os desejos, nossos ou dos outros. Talvez a experiência da caridade, da genuína doação, seja capaz de transformar a percepção daqueles que não sabem receber ajuda. Um outro caso interessante é o daqueles que, por ajudarem, acreditam que os outros também devem ajudá-los. E aqueles que julgam mal, que criticam a caridade praticada pelos demais, são também ingratos, na medida em que projetam uma série de defeitos próprios. Talvez falte-lhes a humildade necessária para receber uma doação, um favor, uma ajuda. Talvez falte-lhes o respeito, pois cada um tem sua capacidade de fazer doações, de praticar caridade. Mais do que isso, assim como existem capacidades de doação diferentes, existem também os diferentes graus de necessitados. Nenhuma doação, por mais humilde que seja, é desnecessária ou desprezível. Só a própria pessoa sabe o que se esconde por trás de seu ato de caridade, embora haja algumas que nem se dão conta. Cada um de nós sabe quais são os demônios internos que interagem na prática de um ato de caridade. Geralmente, entram em jogo o apego, a avareza, a mesquinhez, bem como o orgulho, a vaidade, a arrogância, a superioridade, o medo ou a vergonha. Um ato de caridade pode esconder a quebra ou a luta contra padrões, valores, conceitos e preconceitos que só o próprio agente sabe que tem em seu íntimo. Assim, sob o aspecto interno, um simples ato de caridade, um humilde ato de caridade, pode esconder a intenção de uma grande vitória, uma conquista, uma superação. O esforço do ignorante ao fazer uma caridade, por pequena que seja, pode ser muito maior e mais valioso do que o esforço do sábio ao dar tudo o que tem. Da mesma forma, a pequena doação de um pobre tem mais valor do que a grande doação do rico, pois, ao contrário deste, o pobre geralmente doa com sacrifício aquilo que fará diferença ou até mesmo falta em sua vida. Em síntese, há uma grande diferença entre doar com sacrifício e doar a partir de sobras e restos, que não fazem falta. Cabe aqui assinalar que aqueles que trabalham pela Causa da Fraternidade Universal, aqueles que se sacrificam pela humanidade, são auxiliados pelos Mestres em seus trabalhos desinteressados de caridade, fraternidade, sacrifício. Quem sabe sejam eles Seus agentes e não se dão conta disto? Alguns podem ser misteriosamente auxiliados, inclusive em suas vidas particulares, e nem de longe desconfiarem da grande retribuição Divina que recebem. Sobre a Compaixão Disse um grande sábio: Compaixão é a prática do amor, é um comportamento de amor. Compaixão é ampliação do raio de ação do que chamamos eu. Enquanto não compreendermos o que se passa ao nosso redor, não estaremos habilitados a sentir compaixão, estaremos apenas projetando nossos defeitos. Só quando percebemos a verdade dos fatos é que podemos ter compaixão por aqueles que não a percebem. Na verdadeira compaixão não existe projeção ou identificação. Enquanto estivermos identificados, o perdão será impossível. Estaremos sempre contando as mesmas histórias, as mesmas ladainhas. Estaremos sendo hipócritas ao negarmos, da boca para fora, um ressentimento, sabendo que ele ainda está dentro de nós. Precisamos nos esforçar para vermos as coisas sob outros ângulos, outros pontos de vista. O que costuma acontecer, na verdade, é que nos apegamos a dor, ao sofrimento. E isto impossibilita o perdão. A dor, neste caso, é reflexo de ressentimento, raiva, mágoa, que tende a nos colocar no papel de vítima, de um herói não reconhecido. Devemos, sim, ter compaixão pelo sofrimento alheio. Mas, algumas vezes, isto requer a não identificação, senão iremos sofrer junto com os outros. Diz H. P. Blavatsky, em “A Voz do Silêncio”: A compaixão não é um atributo. É a Lei das leis – a harmonia eterna, o próprio Ser de Alaya, uma essência universal sem praias, a luz da justiça eterna, o acordo de tudo, a lei do eterno amor. Quanto mais com ela te unificares, fundindo o teu Ser no seu Ser, tanto mais a tua Alma se unirá Áquilo que É, tanto mais te tornarás a Compaixão Absoluta. E, ainda, um Grande Mestre: Agora que os teus olhos foram abertos, algumas das tuas antigas crenças e cerimônias podem parecer-te absurdas; talvez, na realidade, o sejam. Apesar, porém, de não poderes mais tomar parte nelas, respeita-as por amor às boas almas para quem elas são ainda importantes. Têm o seu lugar e a sua utilidade; assemelham-se às duplas linhas que, quando criança, te guiavam para escrever em linha reta e na mesma altura, até que aprendeste a escrever muito melhor e mais livremente sem elas. Houve tempo em que delas necessitaste; esse tempo, porém, já passou. ... Um grande Instrutor escreveu certa vez: “Quando eu era criança, falava como criança, entendia como criança; porém, quando me tornei homem, abandonei os modos infantis”. No entanto, aquele que esqueceu a sua infância e perdeu a simpatia pelas crianças não é o homem que as possa instruir e ajudar. Assim, olha a todos bondosamente, gentilmente, tolerantemente; porém, a todos da mesma forma, quer sejam budistas, jainos, judeus, cristãos ou maometanos. Em termos de compreensão da verdade, todos somos crianças. Aquele que percebe a verdade, aquele que se torna homem, deve ter compaixão para com as crianças, uma vez que um dia já foi criança também. Se um homem não consegue expressar compaixão, então sua mente ainda se encontra nublada por seus egos. No dia em que percebermos nossa vasta ignorância, nosso desconhecimento de tudo, nossa nulidade, no dia em que percebermos o quanto nos auto-enganamos, poderemos alcançar o verdadeiro sentimento de compaixão. Enquanto isto não acontece, estaremos presos, cegos, pelo orgulho, pela auto- imagem, pela vaidade, pela auto-importância, impossibilitados de uma real compaixão, impossibilitados de amar. Mahatma Gandhi, um dia, afirmou: Os únicos demônios que existem no mundo são os que habitam nossos corações, e é lá que a Guerra Santa deve ser travada. Ao dizer isso, quase no fim de sua existência, ele foi questionado sobre como estava se saindo em sua batalha, ao que Gandhi sorriu e respondeu: Oh! Mal, e por isso tenho compaixão dos outros canalhas deste mundo. Nosso egocentrismo nos leva a crer que precisamos sempre sentir compaixão pelos outros, e nos faz esquecer que os outros também devem ter compaixão para conosco. Talvez, saindo um pouco de dentro de nós mesmos e sendo um pouco menos egoístas, possamos ter a percepção de que também precisamos da compaixão dos outros, pois não somos tão santos e invulneráveis quanto acreditamos ser. Esta percepção nos levará a relaxar e, por conseqüência, a ter muito mais compaixão para com os outros, pois entenderemosque eles também devem tê-la conosco. Um ponto importante, para o qual devemos sempre estar atentos, é o hábito de praticarmos a compaixão como um sentimento proveniente de orgulho, vaidade, desprezo, ou seja, como uma tentativa de nos colocarmos como melhores, como superiores. Talvez a busca pela compreensão e pela verdadeira compaixão para com o próximo seja uma chave para alcançarmos a verdade. Pode-se dizer que essa busca já é, em si, um ato de compaixão. Como a compaixão nos leva a tirar o foco de nós mesmos, vamos percebendo gradualmente o mundo externo. Conforme vamos nos conhecendo, conforme vamos compreendendo nossos medos e temores, nossos desejos, sofrimentos, apegos, esperanças, expectativas, condicionamentos, vamos nos libertando desses sentimentos, vamos conhecendo e aceitando melhor as pessoas à nossa volta, vamos compreendendo por que elas sofrem, por que passam por determinadas situações. E então sentimos verdadeiramente compaixão pelo próximo. Precisamos compreender que, se agimos mal um, dia foi por ignorância, por forças inconscientes que desconhecíamos. Se tivéssemos capacidade de reconhecer essas forças, de detectá-las, não teríamos agido mal. Essa compreensão é fundamental para nos levar à compaixão, pois é em decorrência dela que podemos perceber que a maioria das pessoas muitas vezes age mal por não compreender a vida, por ignorância. Também precisamos perceber dentro de nós mesmos a diferença entre pena ou piedade e compaixão. São sentimentos distintos. Compaixão está para "mais consolar do que ser consolado, compreender do que ser compreendido". É sair mais de dentro de nós mesmos e olhar um pouco para os outros, quebrando assim um pouco do nosso amor próprio, da nossa auto-importância. Aquele que critica e reclama com freqüência certamente não se aceita. Cobra-se demais e projeta sua auto-cobrança, sua não aceitação de si mesmo, sua auto-crítica. Provavelmente, está carregando um pesado fardo de orgulho, auto-imagem, auto-importância, de apego a si mesmo e às suas idéias. Tudo isso é motivo de tristeza, infelicidade, dor e sofrimento. Assim, temos que desenvolver em nós a compaixão e a aceitação daqueles que criticam, ofendem, reclamam. Um grande sábio disse: Todas as pessoas querem as mesmas coisas que nós, como por exemplo a felicidade, todos queremos ser felizes. Alguns passam dos limites e acabam passando por cima dos outros, buscam a felicidade a qualquer preço, desrespeitando o próximo. Muitos fazem uma confusão entre felicidade e prazer, mas felicidade não é prazer. Não podemos impedir os outros de serem o que são, o máximo que podemos é perceber o estado de animo dos nossos semelhantes. Se tivermos suficiente compreensão, sensibilidade, compaixão, até podemos renunciar, ceder a vez a essas pessoas, por que para nós será mais importante nosso estado de espírito, serenidade, paz, tranqüilidade, do que a fascinação momentânea por algo. Enquanto não tivermos a consciência desperta, devemos aceitar os defeitos que vemos nos outros, pois, desta forma, estaremos aceitando os nossos próprios defeitos, uma vez que o que vemos nos outros são apenas projeções. Conforme praticamos a aceitação, a compaixão, a paciência, a tolerância, o respeito para com os outros, as barreiras vão se rompendo. E então vamos nos percebendo mais e melhor, vamos percebendo a projeção existente. Assim como a verdadeira compaixão, o verdadeiro amor só aparece na ausência da identificação, na ausência do ego. São sentimentos Divinos, enlevados, que não podem se manifestar na presença e muito menos através do ego. Quando estamos conscientes, fazemos sempre o correto, não existe divisão. Não existe julgamento dos outros, a compaixão brota de forma plena e espontânea, com toda a sua grandeza. Assim acontece porque, conscientes, sabemos que o outro foi levado à ação errada por inconsciência, ignorância. Enquanto existir o medo dentro de nós, enquanto existir a preocupação com o “eu mesmo”, não poderemos exercer a compaixão de forma verdadeira. É nosso egocentrismo, nossa preocupação com nós mesmos, nossa auto-importância, nosso amor próprio, que nos impede de olhar para os motivos que levam as pessoas a fazer o que fazem, de ver que os outros também sofrem, de entender que agem de forma ignorante, inconsciente. É nosso egocentrismo, nossa preocupação com nós mesmos, nossa auto-importância, nosso amor próprio, que nos impede de termos uma verdadeira compaixão. Todos dizem que o amor tudo pode e que a compaixão tem o poder de destruir a negatividade dos outros, ou seja, que tem o poder de nos proteger. Mas usar a compaixão como forma de buscar algum tipo de proteção é um auto-engano, é egoísmo. Se formos praticar a compaixão, pratiquemo-la por amor, por devoção a Divindade, sem esperar algo em troca. Sobre a Culpa Tememos decepcionar os outros, sentimos culpa por decepcionar os outros. Mas uma pessoa não pode decepcionar ou desiludir outra, se a ilusão criada não partiu dela. Seria uma grande tolice pensar desta forma. Só que, muitas vezes, assumimos essas responsabilidades absurdas, movidos pela necessidade de aceitação, de auto-afirmação, ou por acreditarmos que somos salvadores do mundo, que aqui viemos para ajudar as almas perdidas. E isto, na realidade, só demonstra o nosso orgulho, a nossa fantasia sobre nós mesmos, nossa fascinação, nossa auto-adoração. Por causa da culpa, por nos acharmos salvadores do mundo, responsáveis por tudo e por todos, estamos sempre tentando evitar que algo de errado venha a acontecer. Então, carregamos pesos enormes sobre nossos ombros desnecessariamente. Achamos que somos responsáveis pelos outros, que os outros não podem, não conseguem, agir prudentemente sem a nossa ajuda. Muitas vezes até nos metemos a agir por eles, achando que iremos salvá-los de um mal maior. Tal atitude revela uma tremenda arrogância de nossa parte. Agindo assim, colocamo-nos como superiores, maiores, melhores, e jogamos para baixo aqueles a quem acreditamos estar ajudando, menosprezamos suas capacidades. O pior é que achamos normal assumir tal postura, convencidos de que estamos agindo por bondade, por compaixão. Estamos sempre tentando evitar que os outros se magoem ou que briguem conosco, que sintam raiva de nós. Estamos sempre tentando evitar que as pessoas briguem entre si, que nossa auto-imagem se desfaça. Não queremos ser responsáveis por nada de ruim, não queremos ser culpados por nada de ruim. Queremos, sim, fazer os outros felizes. Mas como fazer alguém feliz e não damos conta nem de nossa própria felicidade? Se achamos que os outros têm a responsabilidade de nos fazer felizes? Se acreditamos que as coisas externas vão nos trazer felicidade? Quanto mais tentamos evitar problemas, situações desagradáveis, brigas ou conflitos, mais contribuímos para a criação e manutenção de confusões e situações conflitantes. A culpa gera ansiedade, repressão, pressão, tensão. A culpa é a raiva secreta de si mesmo. A culpa é a não aceitação de si mesmo, a não aceitação das coisas como são, dos nossos limites físicos, materiais, psíquicos. A culpa é também o medo da rejeição. Por sentirmos culpa ou para evitarmos de senti-la, fazemos coisas que não queremos, contrariamos nossa própria natureza, nossas necessidades, nos violentamos. Se nos sentimos tão culpados assim é porque, na verdade, somos muito orgulhosos, vaidosos; é porque estamos preocupados com o que vão achar de nós, com o que vão dizer de nós. O fato é que cada um de nós está interessado em seus próprios prazeres, necessidades. Cada um de nós está preocupado consigo mesmo. Por isso, culpamos os outros pelos nossos erros, pelas nossas incapacidades, fraquezas, preguiça, má vontade, ignorância. Aquele que não tem consciência disto, que tem problemas de aceitação de si mesmo e dos fatos, chama a culpa para si. Aquele quecorre atrás da aceitação dos outros, que mendiga aceitação alheia, tende a sentir uma intensa e descabida culpa. Um filho que tem preguiça de fazer comida para si mesmo, por exemplo, culpa a mãe por não ter preparado sua refeição. Ou seja, vê na figura da mãe um objeto para a satisfação de suas necessidades. Por outro lado, uma mãe que tem problemas de carência, que não se aceita, está sempre culpando o filho pelas escassas visitas, por não receber dele atenção, por não ser reconhecida, lembrada. A fim de suprir seus desejos, suas necessidades de aceitação, apela para a chantagem emocional. Assim, de forma inconsciente, ela utiliza o filho como objeto de satisfação de seus desejos, de suas necessidades. Cabe aqui assinalar que isto não significa que se deva desprezar as mães, mas se, por exemplo, resolvemos visitar nossas mães movidos apenas pelo sentimento de culpa, vamos mal. Não há mérito em fazermos algo por alguém, se depois exigimos algum tipo de reconhecimento. Há muitas explicações para tanta solicitude em relação ao outro: carência, necessidade de aceitação, baixa estima. Há ainda aqueles que, quando não recebem o reconhecimento esperado após ajudar alguém, apelam para a chantagem, tentando fazer com que aqueles a quem prestou ajuda se sintam culpados, e assim acabem por reconhecê-lo, movidos por sentimentos que acreditam ser de arrependimento ou consciência. É preciso perceber que gratidão é uma coisa e culpa é outra, bem diferente, muito diferente. A culpa tem origem nos padrões, nos conceitos e preconceitos, nos falsos valores. Eis um quadro clássico: uma mãe acredita que tem que fazer tudo por seu filho, que tem que se preocupar com seu filho, já que é o que todo mundo diz e faz; e, se algo a impede de fazê-lo, ela irá se sentir profundamente culpada, mais ainda se o filho resolve culpá-la diretamente. A sociedade utiliza a culpa como regulador da moralidade, utiliza-a para controlar as pessoas, para fazer com que estas se sintam obrigadas a agir do modo mais conveniente. Para quem obtém as vantagens, é muito cômodo culpar os outros. Enfim, todos nos utilizamos da culpa, da chantagem, para obtermos o que queremos. É muito cômodo, muito comum, apesar de não nos darmos conta disso. Não sentimos culpa por qualquer coisa, por qualquer motivo. Sentimos culpa apenas em relação àquilo que julgamos correto, importante, justo. Sentimos culpa em relação a pessoas que julgamos importantes, segundo os nossos padrões, valores, conceitos. É de se questionar onde está a moral de quem usa de chantagem para cobrar moralidade de outrem. Dominados por medos diversos, cegos pelos desejos, moldados por conceitos e preconceitos, iludidos por falsos valores, influenciados pelos inúmeros egos que possuímos, não conseguimos a isenção necessária para que possamos verdadeiramente observar o que realmente ocorre dentro de nós. Vivemos a nos culpar no presente por causa de culpas do passado. E buscamos a aceitação ou o perdão alheio como se estivéssemos fugindo, evitando, negando ou nos justificando por culpas passadas. Este é um caso que merece muita reflexão. Tentemos refletir sobre tal situação com um exemplo: uma criança que foi rejeitada pela mãe pode vir a buscar essa aceitação de maneira inconsciente. Isto vai fazer com que ela passe a refletir essa necessidade de aprovação, de aceitação, no comportamento com as pessoas à sua volta. Porém, ainda que ela consiga obter posteriormente a aceitação da mãe ou dos outros, a rejeição de um dado momento nunca será compensada. Não será compensada porque ela teria de ser compreendida em si mesma; deveria haver, antes de tudo, a percepção direta de que se está tentando compensar um momento com outro. Só com esta consciência seria possível permanecer no presente, no agora. Sentimos culpa por causa da nossa auto-cobrança, por acharmos que poderíamos sempre ter sido melhores, que deveríamos ter feito isso ou aquilo. Quando nos culpamos ou nos recriminamos, e repetimos a contínua ladainha de que fomos burros, de que não poderíamos ter agido daquela maneira, estamos, na realidade, dizendo: “como é possível que alguém tão genial, tão brilhante, tão conceituado pelos outros, tão admirado, como nós, tenha falhado a esse ponto?” Neste sentido, estamos colocando a aparência, a auto- imagem é acima de qualquer outro valor. Usando de um outro exemplo para ilustrar a situação, quando uma criança se machuca e a mãe se sente culpada por isto, e diz para si mesma que não poderia ter se descuidado, na verdade ela está querendo dizer: “Como é que uma mãe como eu, tão atenta, tão preocupada, tão cuidadosa, pode falhar desta maneira?”. Assim, precisamos perceber que a auto-cobrança não passa de um esforço para preservarmos uma certa imagem diante dos outros, para preservarmos nossas fantasias sobre nós mesmos, para mantermos um conjunto de sensações agradáveis. A culpa é o ato interno de remoer uma situação mal resolvida. Precisamos observar, analisar, compreender e eliminar de dentro de nós esses agregados psíquicos que nos fazem sofrer, esses agregados psíquicos que fazem os outros sofrerem. Sobre a Devoção Dizem os Evangelhos do Cristo que muitos dos que eram por Ele curados - cegos, coxos, leprosos - seguiam glorificando o Senhor. Teus olhos foram abertos, o caminho foi a ti apresentado. E tu, o que fizeste? Seguiste glorificando a ti mesmo e à tua personalidade. Achas-te escolhido. Não tens devoção alguma. Não tens gratidão alguma. Olha, pois, a verdade e glorifica Aquele que te tira da cegueira e te faz enxergar. Torna-te devoto do Senhor teu Pai e trabalha em Sua obra. Se queres te tornar um devoto, então tua devoção precisa ser profunda e verdadeira. Não podes apenas adorar tuas próprias projeções mentais, tens de entregar-te à Divindade com todo o teu sentimento e emoção. A devoção pura, renunciada, é o que deves buscar, e não pode ser pode ser praticada em troca de ganhos materiais ou desfrute dos sentidos, pois que, desta forma, criarás grandes obstáculos em teu caminho. Sê sincero no arrependimento e firme na decisão. É a entrega total ao Senhor a prova das provas, a renúncia das renuncias, o amor dos amores, a vitória das vitórias sobre ti mesmo e tua auto-importância, teu amor próprio. Crê, ó buscador, que a devoção será para ti a arma primeira para exterminares em ti a auto- importância, para acabares com este comportamento em que te colocas acima de tudo e de todos, mais importante que tudo e todos. Compreende, ó devoto, que a devoção é o amor à Divindade, o apego à Divindade. E este apego, ó servo do Senhor, é o único apego benéfico. Mais ainda, este é o apego que destrói apegos outros. A devoção é a paixão pela Divindade, e bem sabes tu que, quando alguém se entrega plenamente à uma paixão, desconhece-se o que pode suceder. Tua devoção, ó devoto, será a melhor forma de acabares com o amor-próprio, de acabares com tanta auto-adoração, esta vil adoração à tua própria personalidade, a quem atribuis todas as tuas conquistas, todas as tuas realizações, como se esta personalidade tivesse algum poder. Tua personalidade não tem poder algum, é filha do tempo, filha de tuas experiências mal digeridas, de fantasias, é filha de tua imaginação. E muito menos tu, ó prisioneiro de Maya, tens poder algum. Somente o Pai, que está em segredo, tem poder e tudo pode. Quando realizas teu trabalho, na busca de prazeres, da satisfação de teus desejos mundanos, praticas uma ação fruitiva e colherás o karma desta ação. A busca de satisfação só trará dor e sofrimento, atormentando-te e tornando-te cada vez mais infeliz. Mas, se ao Senhor entregares teus esforços e teu trabalho, então até o mais simples de teus trabalhos tornar-se-á grandioso, e tua alma se alegrará em servir ao Senhor. Portanto, entrega teu trabalho e teu esforço ao Senhor teu Pai, de todo teu coração, para que a paz se faça em teucoração e para que possas conhecer a verdadeira felicidade. O fato de, porventura, não vires a te identificar com o trabalho não significa que não irás trabalhar de forma correta. É preciso que mudes a visão que tens de teu trabalho. Deves reconhecê-lo como é, o sustento e o suporte para que as coisas do Espírito possam se manifestar nesse plano em que te encontras agora. E se identificares-te com o trabalho, os Eus, os egos que estão em ti, passarão a ser mais importantes que o trabalho. Daí nascerá a disputa, a necessidade de auto-afirmação, de provar superioridade, de ser melhor do que os demais, fazendo com isso nascer, paralelamente, a insegurança, o medo. Então, neste momento, teu foco já não será mais o trabalho, teu foco estará voltado para o ego e seus desejos, para o ego e suas necessidades de prazer. Se trabalhares apenas sobre ti mesmo, e tomares para ti todos os avanços e compreensões, então enganar-te-ás e cairás nas armadilhas da vaidade e do orgulho. Mas, se agradeceres ao Senhor teu Pai por todas as graças de compreensão que recebes, se compreenderes que morres em ti mesmo por amor a Ele e não para glória de tua pobre e efêmera personalidade, então estarás caminhando na verdade e para verdade. Portanto, não te enganes, é Dele, teu Pai e teu Senhor, todas as glórias, e é a Ele que deves dirigi-las. Sacrifica, pois, teus demônios aos pés do Senhor teu Deus. Sempre que tua mente for assaltada por pensamentos que te levem a crer que muito fizeste e que, portanto, mereces reconhecimento, lembra-te de que nada fizestes, de que a nada ou a mui pouco renunciaste; lembra-te do quanto és fraco; lembra-te dos santos, daqueles que muito trabalharam por esta humanidade doente, e que, mesmo sendo grandes aos olhos dos outros e aos olhos do Senhor, ainda assim se achavam pequenos. Abstém-te de julgar os demais. Tuas impressões sobre os demais não passam de tentações e tormentos de teus próprios demônios internos, que foram lançadas em tua mente para que invejasses, cobiçasses, enraivecesses. Abandone-as, pois que elas só servem para confundir teus relacionamentos. Tuas virtudes atuam em teu ser tal qual armas para derrotar os inimigos que habitam em ti. Porém, deves utilizar-te de tuas armas por amor ao teu Pai. Cada ação virtuosa deve ser devotada a Ele, com todo o teu coração. Entrega-te em devoção ao Senhor teu Pai, com toda tua mente e teu coração, e Ele livrar-te-á do laço do caçador, das correntes do ego, que te aprisionam em maus pensamentos, que aprisionam tua vontade. Se tua mente e teu coração estiverem entregues ao Senhor teu Deus, se inundares tua mente e teu coração com súplicas a Ele, então terás o escudo divino que te protegerá contra teus próprios demônios, que te atormentam com desejos vãos, sentimentos de cobiça, inveja, orgulho e vaidade; que te enganam, fazendo-te acreditar que um dia alcançarás a felicidade; que lançam a ira em tua mente, convencendo-te de que os demais te causam sofrimento e te impedem de alcançar a felicidade. São estes teus demônios que podem induzir-te ao desejo de destruir e matar os demais. Tuas tentativas de te assenhoreares das coisas do mundo só causam-te dor e sofrimento. Assim, pois, muda tua atitude. Entrega a Deus, teu Senhor, tudo o que tens e tudo o que fazes, e serás feliz. Não queiras nada para ti mesmo, pois é neste ímpeto que o demônio se esconde e te engana. Trabalha para Deus e não para ti mesmo. Trabalha para Deus e não para teu chefe. Se trabalhares assim, trabalharás feliz, trabalharás livre, e o trabalho não mais será para ti um pesado fardo; ao contrário, fortalecer-te-á. Sente, pois, que a tua alma se regozija com esta simples idéia, sente e entrega-te a Deus. Desapega-te de tudo e sentirás leveza em teu coração. Desapega-te, pois, como disse o bendito santo de Assis: "...de todas as graças dadas pelo Espírito Santo, nenhuma é mais preciosa do que a da renúncia..." Se devotares teu trabalho ao Senhor teu Pai, então não mais serás afligido por preocupações, pelo desejo de querer parecer alguma coisa, de manter uma falsa imagem para os outros. Trabalharás livre. Crê, entrega-te e serve ao Senhor teu Deus e encontrarás a paz e felicidade, ó servidor da Luz. Enquanto trabalhas para ti mesmo, tudo o que fazes é lutar contra o mundo. E esta é uma luta pesada e cansativa, na qual tua derrota é praticamente certa. Desiste, pois, dela. Se lutas contra o mundo é porque acreditas que o mundo te deve algo. Mas, na verdade, és tu que, cheio de karmas por tuas más ações, deves ao mundo. E por isso deves retornar a ele por consecutivas vezes. Alarga teu entendimento, expande e aprofunda esta idéia. Emprega-a em outros âmbitos de tua vida, em todas as tuas ações. Não te prendas e não te restrinjas ao que te é exposto. Lembra-te sempre que suplicar por paciência é afirmar a existência de razões para que sejas impaciente, é tomar como real as ilusões que te trazem dor e sofrimento. Suplica, assim, que os demônios da impaciência que habitam em ti não sejam capazes de atingir-te. Suplica a teu Pai para que Ele te possa guiar a mente e o verbo, e assim a paz far-se-á em teu coração. Pede sempre pela purificação de teus pensamentos e de tuas emoções. Ao acreditares que crias todas as coisas, julga-te senhor de tudo. Mas a verdade é que nada crias e, portanto, não és senhor de nada, nem de ti mesmo, por mais que disto tenhas a impressão. Enquanto continuares na busca de assenhorear-te das coisas materiais, não poderás tornar-te um verdadeiro devoto. O homem é infeliz e sofre porque virou as costas para Deus. Existem muitas formas de adoração que ocultam o desejo de se conseguir benefícios materiais. Claro deve ficar para ti, no entanto, ó sincero devoto, que este tipo de adoração é uma perversão e uma deturpação da devoção. Quem caminha desta forma prende-se cada vez mais às misérias da existência material, fortalece cada vez mais as correntes que o aprisionam. O objetivo da vida, ó renunciante, é livrar- se das misérias da vida, e não cultivá-las, fortalecê-las ou prolongá-las. Mantém o foco de tuas orações nos assuntos transcendentais, não deixes que teu foco caia nos apelos materiais. O ego é astuto, envenena a mente com seus desejos e pode desviar-te de Deus. Manter teus pensamentos no Senhor é também manter o fogo aceso. Se condicionares a tua devoção aos benefícios conquistados, cedo ou tarde cairás no engano e odiarás ao Senhor teu Deus, assim afundando-te cada vez mais no pântano do sofrimento. Pergunta a ti mesmo por que tanto cobiças as coisas deste mundo. Sê reto na ação. Sê desapegado e renuncia a todo fruto. A prática de ações fruitivas, prender-te-á na matéria, pois tem tal prática tuas reações, boas ou más. É simples: a prática de boas ações traz prosperidade, a prática de más ações traz aflição, sofrimento. Em última análise, a prática de ações fruitivas é a busca do sofrimento. Abandona, assim, tais ações. Suplica, pois, dia e noite, para que, em nome do Senhor, sejas conduzido ao caminho reto e, portanto, salvo. A busca de conhecimento material, de desenvolvimento dos poderes da mente, são, em ultima análise, movimentos que visam a satisfação dos sentidos. E, assim sendo, essa busca prolonga a necessidade de existência, aumentando a miséria, o que é uma demonstração de ignorância e estupidez. Ó sábio devoto aprende que todo cultivo de conhecimento deve culminar no serviço devocional. Disse certa vez uma Grande Adepta: “A pureza do coração é uma condição necessária para o atingimento do ‘Conhecimento do Espírito’. Há dois meios principais pelos quais essa purificação pode ser atingida. Em primeiro lugar, afasta persistentemente todo mau pensamento; e em segundo, mantém a mente tranqüila sob quaisquer condições, nunca te agitando ou te irritando por qualquer coisa. Descobrir-se-á, assim, que estes dois meios de purificação são melhor estimulados pela devoçãoe pela caridade. Não devemos nos manter ociosos, sem tentar fazer alguma coisa para progredir, só porque não nos sentimos puros. Que todos tenham aspirações, e que trabalhem com o devido empenho; no entanto, devem trabalhar no reto caminho, cujo primeiro passo é purificar o coração.” ... “Através da fé, o coração é purificado das paixões e da insensatez; daí surge o domínio do corpo, e, por último, a subjugação dos sentidos.” Sobre a Equanimidade A equanimidade é a percepção de que não há nada melhor a ser conquistado, alcançado ou buscado. É um aspecto da cessação do desejo. É aceitação do que é. É harmonia com o que é. A equanimidade plena somente pode acontecer na completa ausência do ego. Não podemos nos abrir aos nossos maus pensamentos e mais do que isto, aos maus pensamentos dos outros. Precisamos perceber o quanto isso é importante. Os maus conceitos que fazemos dos outros podem nos deixar predispostos a estados e humores equivocados. Evidentemente, conceitos equivocados nos levam a estados e humores equivocados. Agimos movidos por conceitos, rótulos e opiniões. Assim, acreditamos que devemos agir de desta ou daquela maneira conforme estes conceitos, rótulos e opiniões se sucedem em nossas mentes. Se agem com grosseria conosco, então também agimos com grosseria. Se agem com delicadeza conosco, então somos delicados. Quem somos nós vai depender de um monte de variáveis, não há em nós um centro. Temos um comportamento condicionado pela dualidade. Agimos de uma maneira com pessoas que achamos ser boas, amigas, belas, legais, magras ou novas. Agimos de outra forma com pessoas que achamos ser ruins, más, inimigas, feias, chatas, gordas ou velhas. Agimos de um jeito em situações que julgamos ser vergonhosas, ou que são para nós de exposição. Agimos de modo diferente em situações que julgamos que podemos relaxar, pois não estamos expostos. Quando nos identificamos com nossos pensamentos nosso comportamento passa a ser condicionado, mecânico. Se formamos um bom conceito a respeito de uma determinada pessoa, conseqüentemente vamos ter com ela um bom contato, um bom relacionamento bom, uma boa interação; vamos nos dirigir a essa pessoa com educação, atenção e alegria. Ao contrário, se formamos um mau conceito a respeito de alguém, o resultado inevitável será um mau contato, um mau relacionamento, uma má interação; vamos nos dirigir a essa pessoa de forma grosseira, com irritação e com má vontade. Equanimidade é a imparcialidade que nasce da não identificação com pensamentos, sentimentos, emoções, conhecimentos, experiências, crenças e sensações. Os conceitos que fazemos de terceiros não passam de idéias, valores e rótulos, são apenas pensamentos. É como se estivéssemos nos relacionando com a fotografia de uma pessoa ou de uma situação, com a imagem mental, e não com a pessoa ou a situação em si. Olhar para uma fotografia é sempre olhar para o passado. O ego está preso ao tempo. Se agimos desta maneira, estamos reagindo ao passado, não estamos agindo efetivamente no presente. Portanto, não será esta uma ação adequada, pois nada de real está acontecendo no agora. Precisamos perceber este processo. A crítica separa, divide, fragmenta. A fragmentação é o ego. O preconceito e a discriminação estão na contramão da equanimidade. Para nos livrarmos da discriminação, se faz necessária a percepção da discriminação, quer diga respeito à cultura, raça, posição social, ocupação, sexo, cor, tamanho, crenças, religião, origem, pátria, conhecimento, estilo ou aparência. Nossos egos vivem criando problemas onde não existe nada além de uma mera situação. Infelizmente somos dados a nos identificarmos com as múltiplas ilações que a cabeça fabrica e metemos os pés pelas mãos, ao invés de enxergarmos os fatos com clareza e isenção. Por mais que as pessoas sejam realmente como pensamos, como supomos que são, e nossa opinião sobre ela não é das melhores; ainda assim se estivermos firmes no reto agir, na expressão de nossas virtudes, podemos expressar o sentimento de compaixão, bondade, paciência e tolerância. Não ficaremos irritados, nervosos, irados, não agiremos de forma violenta, de forma bruta ou com grosseria. A escravidão da dualidade e da identificação com pensamentos nos leva a muitos equívocos. Muitos, quando falam de dualidade, falam como se a dualidade não existisse, mas parece que não é esta a questão. Parece que a questão é o gostar, desejar um lado e o não gostar, rejeitar, repudiar o outro. É o se comportar de uma maneira porque uma pessoa é amiga e de outra forma porque a outra pessoa não é. O desafio é sermos equânimes perante a dualidade, é sairmos da escravidão da dualidade de forma a sermos gentis com pessoas amigas ou não, com quem é educado conosco ou não, serenos perante a crítica ou ao elogio. Parece que a questão é a escravidão de comportamento para um pólo e outro, e a escravidão da dualidade e da identificação com pensamentos nos levam a estados e humores equivocados. Esta equanimidade que nos é necessária não é indiferença ou frieza, é uma ação consciente. Toda dualidade existe para que as coisas possam ser percebidas: dia e noite, gordo e magro, quente e frio, espírito e matéria, luz e trevas, movimento e inércia, expansão e contração. Perceber as coisas não quer dizer desejar umas e rejeitar outras, não quer dizer criticar, julgar ou desprezar, porém isso faz com que o homem associe esses conceitos ao bem e ao mal. Precisamos nos abster de julgar os demais. Nossas impressões sobre os demais não passam de tentações e tormentos de nossos próprios demônios internos, lançados em nossa mente para que invejemos, cobicemos e nos enraiveçamos. Precisamos abandonar estes julgamentos, estes pensamentos que só servem para confundir nossos relacionamentos e envenenar. Não é apenas nos relacionamentos com as pessoas que esta equanimidade deve ser expressa, é em toda a vida. Podemos ficar irritados no trânsito quando estamos indo para o trabalho, porém, se houver transito para ir à praia ficamos bem. Quando trabalhamos por obrigação, com má vontade, nós nos sentimos cansados, nervosos e tensos. Contudo, quando estamos servindo, quando estamos ajudando alguém, trabalhamos até mais e não nos cansamos da mesma maneira, não ficamos tensos ou nervosos. Uma pessoa que tem medo de não ser aceita, medo de perder emprego, raiva do patrão, desprezo por alguém ou que tem algum tipo de preocupação, age sempre do mesmo modo sem que necessite fazer um esforço, pois apenas a lembrança de seus medos e de seus estados equivocados já basta para que desempenhe o mesmo papel novamente. Da mesma forma, a lembrança dos estados puros e libertos, dos estados de felicidade, paz, harmonia, tranqüilidade, satisfação, contentamento, e a tentativa de reavivar essas virtudes faz com elas penetrem em nós e pouco a pouco se tornem parte da nossa constituição, cristalizando-se. É preciso renunciar a estes padrões equivocados, a esta dualidade de agir e de pensar, a esta mecanicidade e buscar a reta ação. Ao termos uma experiência direta de renúncia, mesmo que seja apenas uma única vez, sentimos e conhecemos a liberdade e a leveza. Traz uma grande felicidade se livrar dos pensamentos dualistas que nos atormentam. Precisamos colocar em prática de instante a instante, a cada momento do dia a dia esta renúncia, esta aceitação, esta equanimidade. Conforme formos colocando em prática, mesmo que uma ou duas vezes ao longo do dia, poderemos mais facilmente fazer o mesmo outras vezes, e aos poucos vamos nos soltando das nossas reações mecânicas e dando um grande passo. Desta forma, poderemos perceber que um pensamento, uma emoção, um estado ou um humor que apareça poderá ser detido e transformado, não precisará ser carregado o dia todo. Isso pode nos trazer um relaxamento grande e nos mostrar o caminho para a paz interior. Prática -Meditando no Relacionamento Humano Imagine três pessoas no espaço à sua frente: alguém a quem você ama, alguém de quem você não gosta e alguém que lhe é indiferente. Retenha essa imagem durante toda a meditação. Em primeiro lugar centralize sua atenção em seu amigo. Permita que seus sentimentos por ele venham á tona. Sinta a felicidade de estar junto dele, como você deseja sua felicidade. Agora se volte para seu inimigo. Registre cuidadosamente o que sente. Finalmente volte-se para o estranho. Observe sua indiferença. Agora medite e reconheça que a base do gostar ou não gostar reside no que essas pessoas fizeram para você. Essas pessoas, num passado remoto, já puderam desempenhar papéis diferentes em sua vida. Agora volte para seu amigo e imagine uma situação que faria o relacionamento terminar. Imagine seu amigo se voltando contra você. Sinta o ressentimento e a dor por isso, e como não há mais afeição. Você já não deseja o bem dele. Onde está seu amigo agora? Lembre-se que essa pessoa não era sua amiga antes de você conhecê-la, e agora poderá não ser novamente. Agora se volte para o inimigo. Imagine uma situação que pudesse tê-los colocado juntos: um interesse comum, uma palavra de elogio, uma ajuda moral ou financeira. Você está cedendo? Você pode aprender a se sentir afetuoso com relação ao seu inimigo. E quanto ao estranho, imagine como um ato de afabilidade ou raiva da parte dessa pessoa poderia imediatamente transformá-la num amigo ou inimigo. Não existem estranhos que o sejam de modo definitivo; esse estranho pode se tomar um amigo ou inimigo. Mantenha as três pessoas nitidamente à sua frente. Pense a respeito da frágil impermanência desses relacionamentos. É somente a crença equivocada na estabilidade deles que mantém sua mente afastada da possibilidade de mudança. Seu amigo, seu inimigo e o estranho desejam a felicidade tanto quanto você. Fonte: Curso de Meditação da Fundasaw Sobre a Espiritualidade dos Dias de Hoje Atualmente, muitas religiões são como empresas. Não nos damos conta de que certos procedimentos que costumamos criticar no governo, na família, numa empresa, são, muitas vezes, igualmente reproduzidos em nossas religiões. O mundo esotérico ou pseudo-esotérico é hoje puro comércio. Seus divulgadores estão mais interessados em atrair clientes, em seduzir seu público, do que em passar informações que transformem verdadeiramente o ser humano, informações que possam levar os fiéis a uma genuína evolução. Na verdade, esses representantes de uma suposta fé não possuem o auto-conhecimento necessário para poderem transmitir ao público informações transcendentes. Nos espaços esotéricos ou pseudo-esotéricos, assim como na maioria das religiões, fala-se apenas aquilo que as pessoas querem ouvir, de modo a deixá-las felizes, satisfeitas, e a estimulá-las a continuar consumindo seus produtos. Muitos passam a viver exclusivamente do esoterismo, da espiritualidade. Com isso, desenvolvem cursos, palestras e outros produtos relacionados, visando auferir lucros. Tudo fazem para manter a freqüência e o consumo de seu público. E esses ingênuos seguidores, que pensam estar aprendendo e evoluindo espiritualmente, passam a gastar, nesses lugares, seu suado dinheiro, vítimas do apelo consumista. Transformar algo em uma fonte de renda nos leva a defender bandeiras pessoais e não mais a verdade. Cedo ou tarde, a ambição pelo dinheiro, pela fama, pelo status, acaba adquirindo mais importância do que a verdade. Não há diferença entre o mundo espiritualista de hoje e as igrejas evangélicas que seguem a chamada teologia da prosperidade. Não só a idéia de prosperidade é a mesma entre dois, mas também o público. Ambos praticam uma espiritualidade materialista. Ambos acreditam em “histórias da Carochinha” e entregam seu dinheiro ingenuamente. Conhecedores de certos mecanismos da mente, esses líderes religiosos manipulam sentimentos como: culpa, orgulho, vaidade, medo, ignorância, fraqueza, fragilidade. Jogam com a fé das pessoas. Utilizam-se de chantagem emocional e moral para influenciar seu público. Geralmente, apelam para frases marqueteiras do tipo: "Se você quer realmente melhorar, mudar sua vida, então matricule-se no nosso curso", "Você só não vai se interessar em freqüentar o curso se não estiver nem aí para a sua vida", "Se você desistir do nosso curso é porque está desistindo de si mesmo"... Desprovidos de verdadeiro auto-conhecimento, querem aplausos, elogios. Orgulham-se e envaidecem-se por atraírem um grande público, por este público gostar do que lhe é dito, palavras que vão absolutamente contra a genuína espiritualidade. Diante disto, os prazeres, aplausos e elogios tornam-se mais importantes do que a verdade. Sem se darem conta, esses líderes utilizam o público para satisfação de seus desejos, de suas necessidades, de seus egos. Obviamente, esse tipo de ação está muito longe de representar um sacrifício pela humanidade. Ao contrário, representa o sacrifício de certos membros da humanidade por seu tão querido ego. Os espiritualistas, os esoteristas, brincam de bruxinhas, de maguinhos, se auto-intitulam mestres. Parecem crianças no mundo do “faz de conta”. E o público se fascina com essas pessoas, idolatram-nas. Tais espiritualistas, esoteristas, não se conhecem. Não buscam morrer em si mesmos. Com isso, se deixam fascinar pelas falsas ilusões e se tornam presas fáceis da fama, do status, do orgulho, da vaidade. Afundam e, pior, arrastam com eles o pobre público também fascinado por suas palavras. Nenhum de nós está isento de erro, de engano, de auto-engano. Assim, precisamos nos observar, precisamos nos trabalhar, precisamos morrer em nós mesmos, de instante em instante. E, mais do que tudo, precisamos suplicar muito à Divindade para que Ela não nos deixe cair em erros. O público, em geral, tem boa fé, acredita nas idéias que lhe são passadas, acredita que está evoluindo, seguindo o caminho da salvação, que está desempenhando alguma grandiosa missão. Ingenuamente, esses crédulos correm atrás de diplomas, de certificados, correm atrás de conhecimento. Ninguém se preocupa em mergulhar dentro de si mesmo. Ninguém se dá conta que não existe diploma ou certificado de iluminação. Esse público se empenha fervorosamente em fazer cursos com esoteristas, com espiritualistas de nome, fama e status. Sem perceber, repete velhos padrões. Existe ganância, cobiça, inveja, orgulho e vaidade referentes a conhecimentos esotéricos. E também existe ganância, cobiça, inveja, orgulho, vaidade no que diz respeito a poderes, clariaudiência, clarividência e outras manifestações do gênero. Todos esses fenômenos facilmente se disfarçam de espiritualidade, fascinando esoteristas, espiritualsitas e enganando o público, desprovido de auto- conhecimento. O conhecimento obtido em livros, cursos, seminários, palestras ou pregações precisa ser vivenciado. Precisa ser profundamente compreendido. Conhecer verdades não é o mesmo que compreender verdades. Não se pode ensinar o auto-conhecimento. Pode-se, quando muito, ensinar práticas que nos levem ao auto-conhecimento. Mas ninguém quer se ocupar com práticas deste tipo. Precisamos parar de pensar através das idéias de terceiros, das idéias adquiridas nos livros, por meio de palestrantes, pregadores, orientadores ou de qualquer outra voz externa a nós. Precisamos aprender a pensar por nós mesmos, precisamos perceber, compreender as coisas diretamente, sempre por nós mesmos. Precisamos saber discernir sobre coisas e pessoas, sobre o bem e o mal. Precisamos ser sinceros e honestos com nós mesmos, ver o quanto nos enganamos no passado e o quanto ainda continuamos a nos enganar. Precisamos morrer em nós mesmos, de instante em instante, de momento a momento. Precisamos de práticas meditativas, reflexivas. Precisamos de práticas que silenciem a mente, práticasdevocionais. Precisamos mudar nosso comportamento, passar a ser retos, corretos. Assim, lentamente, a verdade vai se revelando, os Véus de Isis vão se rompendo. Sobre a Espiritualidade Materialista Vende-se hoje uma promessa de prosperidade, que assegura felicidade, bem-estar e prazeres. Porém, não pode haver prosperidade, e muito menos felicidade, enquanto as pessoas não se transformarem interna e radicalmente. Vende-se uma idéia de que, se concentrarmos a mente em um determinado objetivo, teremos sucesso em alcançá-lo. Jesus disse claramente: "Onde estiver seu tesouro, lá estará também seu coração". E ainda: "Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me". Isto significa que estamos fazendo o contrário de tudo que as religiões, as grandes e genuínas religiões, pregam. Significa que estamos fazendo o contrário do que todos os Mestres, todos os Iluminados, todos os Avatares ensinaram. Estamos negando a Cristo e aumentando mais ainda o que temos por aqui: nossos lastros, nossos apegos, nossas paixões. Precisamos nos perguntar por que colocamos toda nossa vontade em um carro, um emprego, uma casa, um amor, desviando-a da evolução espiritual genuína. Não fazemos práticas que nos elevem, não renunciamos a nada, não nos desapegamos de nada. Se realmente acreditamos em vida após a morte, em reencarnação, precisamos analisar com sinceridade e honestidade o que estamos fazendo pela nossa evolução. Precisamos analisar, com sinceridade e honestidade, que próxima vida estamos plantando. O Budismo nos fala que os desejos, os apegos aos prazeres são as causas de todos os nossos sofrimentos. Parece que haver algo de errado à nossa volta, pois muitos espiritualistas defendem a busca do prazer, ensinam que o sentido da vida está no prazer. O demônio da má vontade, que existe dentro de cada um de nós, diz que precisamos curtir a vida, que precisamos aproveitá-la ao máximo, que o radicalismo limita, que todo ser humano precisa de um pouco de prazer e divertimento; diz que não há problemas em se ter bens materiais e a eles nos apegarmos. Assim, iniciamos uma corrida desesperada atrás de coisas externas a nós, achando que esses elementos promovem felicidade e prazer. Empenhamo-nos em tentativas fúteis para nos livrarmos das misérias da vida. E a cessação temporária dessas misérias é falsamente chamada de felicidade. Fascinados e com a mente embotada por falsas idéias de prosperidade, felicidade e prazer, buscamos o bem-estar nas coisas materiais. Certamente, já vimos muitas pessoas que, apesar de possuírem tudo o que a vida material pode lhes dar, não são felizes. Mas facilmente nos esquecemos desse tipo de exemplo. Estupidamente, acreditamos que, se conseguirmos tudo que os outros têm, seremos felizes. Não seria necessário cometermos todos os erros do mundo para aprendermos alguma coisa, bastaria observarmos um pouco mais a vida. Só que não conseguimos enxergar nossa ganância, nossa inveja, nossa arrogância em ação, em plena ação. Então sofremos, e só então vemos na dor a última forma de aprendizado possível. O camelo come cactos, pois gosta de sentir o sabor do sangue misturado ao da planta espinhosa. Ele não percebe que está se ferindo e que isso lhe faz mal. Assim somos nós com os nossos desejos, nossos prazeres. Não passamos de camelos. Pode ser que os livros de auto-ajuda sejam proveitosos para alguns. Mas o máximo que podem fazer é trazer um pouco mais de informação, algumas idéias novas, percebidas por pessoas que, de certa forma, possuem os nossos mesmos defeitos, em maior ou menor grau. De forma bastante diferente dos “manuais de auto-ajuda”, o Sutta Budista Anguttara Nikaya (X 69) fala sobre a importância de ter poucas necessidades, sobre a satisfação (aceitação, contentamento, gratidão), sobre o isolamento, sobre não estar enredado (não estar apegado, fascinado, não ter lastros), sobre estimular a energia (vontade), sobre a virtude, sobre a concentração, sobre a sabedoria, sobre a libertação, e sobre o conhecimento e a visão da libertação. Este é o ensinamento do Buda, muito mais enriquecedor. Um sábio disse uma vez: A revolução só é possível através de doutrinas revolucionárias. Tais doutrinas são trazidas por Budas, Cristos, Profetas e Avatares. É nestas fontes que temos que buscar as sementes para semearmos nossa mente, nossa Alma com novos valores, novas idéias, novas concepções. Questionamentos e Comentários - Se curtir ou aproveitar a vida, prazer e divertimento são coisas ditas pelo 'demônio da má vontade', logo, devo deduzir que são coisas ruins. Não é uma questão de bom ou ruim, é uma questão de prioridade. O fato é que existe em nós uma certa má vontade para com as coisas do espírito, pois estamos muito distantes dele, não podemos senti-lo. O que podemos sentir são os prazeres, as sensações. Então nos entregamos a isso. O início deste desprendimento pode ser um tanto difícil. Mas, com o tempo, muitas coisas deixam de fazer sentido. Claro está que precisamos renunciar a algumas delas para termos outras, o que acontece inclusive na própria vida material. Mas tudo isso tem que ser percebido diretamente. - Entendo que viver por conta de desejos escraviza e gera sofrimento. Mas o que é aproveitar a vida? Devemos renegar o prazer e o divertimento? Por que então existiriam? Enquanto, para uns, aproveitar a vida significa deleitar-se com os prazeres que ela proporciona, para outros, aproveitá-la significa evoluir espiritualmente. Haverá um momento em que será necessário negar o prazer e o divertimento, em prol da evolução. Mas devemos sempre buscar compreender por que nos deixamos atrair pela matéria e pelos prazeres fugazes, por que nos mantemos apegados a eles. Com o tempo, não mais será necessário renegá-los, já que não mais farão sentido. Toda dualidade existe para que os acontecimentos possam ser percebidos. Largo e florido é o caminho para o abismo, para a perdição, e estreita é a porta que leva à salvação da Alma. - Se no mundo material muitas coisas refletem o astral/espiritual, se as doenças refletem estados interiores e os males da alma, do espírito, então, o que reflete uma vida miserável e problemática? Miséria interna, ignorância, Karma. - Acho que, quando algo de bom acontece em nossa vida, a melhor forma de agradecimento é aproveitar essa dádiva, com gratidão. Estar no mundo sem ser do mundo, ou seja, aproveitar sem se apegar. Sem ilusões, sem fantasias, sem fascinações. - Acho que não cabe abdicação, privação. Nem deve ser isto o que esteja querendo dizer. Viver em busca do material não preenche os anseios de uma pessoa, mas isso não quer dizer que coisas materiais sejam ruins. Além do mais, como você vai dizer ao miserável que ter comida na mesa não é importante, que poder usar uma roupa limpa não é importante, que satisfazer suas necessidades não é importante? As coisas materiais não são boas nem ruins. A questão está no uso que se faz dos bens materiais, na intensidade do apego e da importância que atribuímos a eles. Por certo, dizer para o miserável que não é importante ter comida na mesa é algo de difícil compreensão para ele. É como tentar mostrar a um apaixonado a realidade, nem sempre agradável, sobre a pessoa por quem se apaixonou. Sobre a Felicidade “Feliz aquele que tem uma alma. Feliz aquele que não a tem. Infelicidade e sofrimento para aquele que só tem a semente dela.” Gurdjieff As causas reais da infelicidade não estão na ausência de pessoas, dinheiro, casa, carro ou emprego. As causas reais estão dentro, e não fora de nós, nunca do lado de fora. A felicidade não é e nem está em qualquer objeto a ser encontrado ou possuído, não está em nenhum lugar fora de nós mesmos. Desse modo, não há lugar nenhum para ir, não há nada a fazer e nem a ser conquistado para se alcançar afelicidade. Felicidade é um estado interno, é satisfação, contentamento e regozijo. Felicidade é. Quando desejamos a felicidade negamos que somos felizes, nós a afastamos, criamos um véu que nos impede de percebermos que somos e podemos ser felizes. Criado este véu, saímos em busca de uma felicidade inexistente, de uma fantasia. É como se estivéssemos procurando por dinheiro estando sentados num baú de ouro, procurando pelos óculos que estão em nosso rosto ou procurando nossos próprios olhos. Para ser feliz basta ser feliz. Ninguém pode possuir a felicidade. Diz Samael Aun Weor em seu “Tratado de Psicologia Revolucionária”: “Que se entende por bem-aventurado? Que se entende por felicidade? Estamos seguros de que somos felizes? Quem é feliz? Conheci pessoas que diziam: Eu sou feliz! Estou contente com a minha vida! Sou ditoso! Porém, desses mesmos vim a escutar: “me desagrada fulano de tal! Aquele tipo não me cai bem! Não sei por que não me fazem aquilo que tanto queria que me fizessem!”. Então, não são felizes... O que acontece realmente é que são hipócritas.” ... “Existem momentos prazerosos, muito agradáveis, mas isso não é felicidade. As pessoas confundem o prazer com a felicidade.” Não podemos confundir prazer com felicidade. Do contrário seguiremos pelo caminho errado e nunca chegaremos aonde queremos. O prazer é do tempo, é passageiro, momentâneo, impermanente e fugaz, mas estamos sempre querendo mais, como se tentássemos de alguma forma, eternizar o que é efêmero. Diz o verso 290 do Dhammapada: “Se, pela renúncia a uma felicidade inferior, é possível alcançar uma felicidade superior, que o homem sábio abandone a inferior pela superior.” Renunciar ao prazer para obter a verdadeira felicidade é uma atitude inteligente. O prazer e a busca do prazer não trazem sabedoria; trazem apenas dor e sofrimento, ao que alguns tolos chamam de aprendizados da vida. O prazer não liberta; ao contrário escraviza e aprisiona. Na ânsia de se obter prazer ou temendo não obtê-lo, vamos nos tornando cada vez mais luxuriosos, gulosos, gananciosos e invejosos; vamos medindo e premeditando cada vez mais as nossas palavras, nos transformando em alvos cada vez mais fáceis da malícia e da maldade, em seres exploradores e manipuladores, que passam a usar os outros como objetos para a satisfação de seus próprios desejos. Por mais incrível que possa parecer, todos querem ser felizes, mas ninguém é feliz. Na busca da felicidade alguns ultrapassam os limites, causando dor e sofrimento ao próximo. É impossível obter a verdadeira felicidade à custa da infelicidade alheia. Pode-se até obter algum prazer agindo desta maneira, mas sabemos que há maldade e crueldade nessa forma desumana de se buscar felicidade. O ensinamento de Buda nos alerta: “Evitar o mal, cultivar o bem, purificar a própria mente: esse é o ensinamento de todos os Budas”.(Dhammapada 183) As pessoas perdem seu tempo e suas vidas atrás de prazer, riqueza, fama, sucesso, status, títulos, atrás de uma felicidade ilusória e de fantasias. Por exemplo: quase nunca uma pessoa está plenamente satisfeita com seu parceiro afetivo, e valendo-se de muitos pretextos, continuam a buscar ansiosamente a “pessoa certa”. Mesmo já tendo uma relação estável, esses insatisfeitos costumam se encantar facilmente com novas pessoas e possibilidades, depositando nelas suas esperanças de felicidade que, definitivamente, não está ali. E não tardam a descobrir que não está, mas, ainda assim, continuam a procurar. Procuram alguém mais alto, mais bonito, mais bem sucedido, mais culto, mais espiritualizado, mais isso e mais aquilo, como se tais predicados pudessem assegurar a satisfação plena. O que estão fazendo e não sabem, é correr atrás de mudanças externas para tentar resolver algo que acontece internamente. Acreditam que podem preencher o vazio interno com algo externo. Em momento algum, param para refletir e analisar o porquê dessa procura insaciável e de tudo o que se esconde por trás dela. Em momento algum param para refletir e analisar sua própria infelicidade, e assim seguem infelizes e insatisfeitos. Na realidade este exemplo cabe em todas as situações da vida, este quadro de insatisfação não se restringe apenas aos relacionamentos amorosos, ocorre também nas buscas relacionadas a emprego, casa, carro, dinheiro, religião e amigos. Vivemos em busca de mais, sempre mais. Vivemos na esperança, na expectativa de um dia conseguir alcançar esse mais, como se alguma coisa estivesse faltando, mas é somente renunciando a tudo isso que a verdadeira felicidade se torna possível. A satisfação e o contentamento surgem diante da percepção de que nada falta. Para se alcançar a verdadeira felicidade, não há nada a ser conquistado; há, sim, muito a se renunciar. Precisamos admitir que as motivações que assimilamos e prontamente aceitamos estão erradas, equivocadas. A busca por riqueza, fama, sucesso, status, títulos e a luta para ser “alguém” nunca nos levou e nem nos levará à felicidade. Tais ambições e motivações, só nos levam à competição, inveja, cobiça, frustração, mágoa e tristeza. Essas buscas frementes não farão de nós pessoas mais felizes e realizadas. Tudo o que conseguiremos é uma vida de aparências e infelicidade, distante da nossa própria essência. Seremos ricos, diplomados, famosos e... infelizes. O mundo sempre prometeu muito, mas nunca cumpriu. Sempre nos levou às tristezas, mágoas e frustrações. O que nos levou a acreditar nas promessas do mundo foram nossos próprios desejos. Para ser feliz é preciso renunciar a tudo isso. É preciso ter coragem de renunciar às promessas e apelos do mundo. Se criamos condições, esperanças e expectativas é porque estamos insatisfeitos, descontentes com o presente, com as situações que se apresentam diante de nós. Mas somos nós que criamos a nossa própria infelicidade, não há nada de errado com a vida ou com as situações e condições que ela nos impõe. A felicidade é de certa forma uma habilidade, a habilidade de saber viver. É um estado interno. É preciso manter um estado de felicidade e paz interior, ainda que a realidade externa se apresente negativa aos nossos olhos. Para atingir esse estado temos de abandonar os sonhos e as fantasias, as esperanças e as expectativas. É possível sentir alegria e felicidade, mesmo quando as coisas não saem como esperamos. É possível sentir alegria pelo sucesso e felicidade do outro. Se assim não acontece, é porque há algo errado; é porque estamos com inveja, com raiva, frustrados, insatisfeitos e descontentes. Diz Gandhi: "Felicidade é a harmonia entre o pensar, o dizer e o fazer." Quando experimentamos sensações de liberdade, paz e felicidade, não devemos pensar que elas vieram do exterior. Da mesma forma, não podemos achar que alguma provocação externa desencadeou o que está errado em nossa mente. O externo é pouco confiável e está fora de nosso controle, e depender de algo pouco confiável não é uma atitude inteligente. Quando a mente está limpa e tranqüila, atenta, livre dos discursos dos egos, a felicidade e a paz surgem naturalmente. Nesses breves momentos, podemos compreender que a verdadeira paz e a felicidade são de fato possíveis. Para sermos felizes não precisamos fazer nada. Precisamos apenas parar de gerar infelicidade e de criar problemas. Gostamos de criar problemas porque no fundo eles distraem a mente e nos dão o que fazer. É uma forma de fugir do tédio, da vida. De certa forma, chegamos a sentir prazer em vivê-los. Chegamos até mesmo a nos vangloriar, nos orgulhar, e nos envaidecer de nossos problemas. Estabelecemos condições e metas que os outros devem cumprir, para que possamos então nos abrir e ser felizes. Como não é isso que normalmente ocorre, nos frustramos e culpamos os outros pela nossa infelicidade. Estabelecemos condições e metas que nós mesmos nos propomos a cumprir para nos tornarmos felizes: uma casa, umcarro, um emprego melhor. Mesmo que alcancemos tudo isso, não ficamos felizes, ou se ficamos, é só por alguns instantes. Isso ocorre porque estamos buscando do lado de fora uma felicidade que deve vir de dentro, porque estamos tentando preencher o vazio interno com algo externo. Estabelecer condições para sermos felizes é, na realidade, criar uma situação para não sermos felizes, é criar justificativas para a nossa incapacidade de gerar e manter um estado pleno de felicidade, contentamento, satisfação e gratidão. A maior parte das condições que impomos a nós mesmos e a terceiros, senão todas, deveria ser resolvida internamente. Tanto quanto possível precisamos a cada instante estar felizes com nós mesmos, a cada grau de consciência que temos. Precisamos estar felizes agora, com as condições que realmente temos, com as situações que se apresentam neste momento. Especuladores vendem-nos scripts de vida, oferecem-nos fórmulas para vivermos felizes, para encontrarmos alegria, criam roteiros que instruem como tudo deve ser. Instruem homens a agirem assim, porque é o que toda mulher quer e instruem mulheres a “agirem assado” porque é o que todo homem quer. Não cansam de dizer: “olhe para aquele, olhe para aquela! São pessoas felizes, que têm tudo: família, filhos saudáveis, dinheiro.” A verdade é que, quando olhamos atentamente não vemos felicidade alguma, mas mesmo assim seguimos suas orientações, pois é o que todos estão fazendo. E, depois de fazermos tudo segundo os parâmetros dos scripts que nos foram vendidos como caminho para a felicidade, sentimos um vazio profundo. Percebemos que de nada valeram todos os nossos esforços e ainda sofremos desnecessariamente por isso. Assim, é preciso estar atento para notar a diferença que existe entre viver os acontecimentos com consciência e vivê-los sob os desígnios da mente e seus padrões. Quando persistimos em viver uma situação que nos traz infelicidade e sofrimento, é porque de alguma forma estamos obtendo algum prazer com isso, ou porque estamos sendo movidos pela expectativa e pela esperança de prazeres futuros. Ninguém em sã consciência insiste em alimentar situações que não tragam ou não venham a trazer algum benefício, por mais ilusório que seja o benefício e o prazer. É a expectativa e a esperança, que não nos deixam parar de sofrer. Obstinadamente, acreditamos que um dia tudo há de dar certo, e que neste dia tudo terá valido a pena. Estes processos muitas vezes chegam a se transformar em obsessões. A dor de deixar uma situação de sofrimento e infelicidade é na verdade a dor da sensação de perda da possibilidade de experimentar uma sensação de prazer – seja um prazer que efetivamente ocorre ou uma simples promessa, uma expectativa de prazer futuro. A esperança é a crença de que algo pode acontecer. É a espera de que uma possibilidade possa vir a se tomar realidade. Isso causa sofrimento e deve ser renunciado, é preciso renunciar à esperança do amanhã para que o hoje seja possível. A felicidade amanhã nunca acontecerá, sempre haverá um amanhã. É preciso renunciar à possibilidade de felicidade amanhã para que possamos sentir a felicidade agora, no momento presente, em que tudo é possível e nada falta. Não devemos buscar a felicidade nos grandes eventos de um futuro imaginado. Devemos buscar a felicidade onde ela está: no aqui e agora. No momento presente nada falta, a falta só passa a existir quando olhamos para o futuro ou para o passado. A felicidade, o contentamento, a satisfação e a gratidão estão no momento presente, no aqui e agora. A infelicidade é fruto de nossa ganância, avareza, orgulho, vaidade e inveja. É fruto de nossa falta de contentamento, satisfação e gratidão. Disse um iluminado: “Para quem abre o coração a felicidade sempre está disponível.” Costumamos reprimir as crianças quando elas estão felizes. Isto geralmente ocorre porque somos reprimidos e nos é difícil aceitar qualquer manifestação parecida com aquilo que reprimimos em nós mesmos As pessoas vivem atormentadas e torturadas por suas mentes e seus desejos. Acomodadas em seus dilemas acreditam que a vida é assim, que elas são assim. Estão tão envolvidas em seus tormentos, que não conseguem vislumbrar a possibilidade de se tornarem entidades plenas e iluminadas, de se tornarem cristos ou budas. Na verdade, não acreditar na possibilidade de se tornar um iluminado, um santo, um buda, um cristo, é não acreditar na própria existência destes seres. Normalmente, todos correm atrás de divertimento e entretenimento, chamando a isto de alegria, mas na realidade as diversões e o lazer não passam de artifícios para distrair a mente, de uma tentativa de fuga de si mesmo, de uma tentativa desesperada de esquecer as preocupações, os medos, a infelicidade, a ansiedade e de fazer com que a mente pare de atormentar, de torturar. Divertimentos e entretenimentos são formas de entorpecer a mente. Sem perceber este processo, as pessoas buscam cada vez mais opções que possam lhes entreter e divertir, seja na televisão, no cinema, nos jogos, nos esportes radicais, no álcool, ou nas drogas. Esta fuga, esta tentativa de esquecer, esconder e sufocar nossos sofrimentos leva apenas a uma necessidade cada vez maior de novos e diferentes divertimentos e entretenimentos. Nenhuma sabedoria será alcançada desta forma. Somos nós mesmos que nos atormentamos, somos nós mesmos que criamos e sustentamos os próprios demônios. É preciso perceber que não há lugar nenhum a ir, que não há nada a ser feito, realizado ou conquistado. É preciso perceber que estamos apenas correndo atrás de projeções mentais, de fantasias e ilusões. Tal percepção pode nos trazer paz, felicidade, contentamento, satisfação e plenitude. Disse, ainda, o iluminado: “Quando a iluminação lhe der o sabor do real, você perceberá que todos os seus prazeres e todas as suas felicidades eram simplesmente constituídos da matéria da qual os sonhos são feitos; eles não eram reais. E o que veio agora, veio para sempre.” E disse um sábio monge renunciante: “A existência material do ser vivo é uma condição doente da vida real. Vida real é a existência espiritual, onde há vida eterna, bem aventurada e plena de conhecimento. A existência material é temporária, ilusória e cheia de misérias, não se encontra felicidade absolutamente, fazem-se apenas tentativas fúteis de se livrar das misérias e a cessação temporária da miséria é falsamente chamada de felicidade.” ... “O objetivo da vida é se livrar das misérias da vida e não cultivá-las, fortalecê-las ou prolongá-las.” Os mestres sempre nos ensinaram como eliminar com sabedoria as causas da infelicidade, porém, nunca estamos dispostos a fazer o esforço necessário. Queremos eliminar diretamente própria infelicidade, sem nos preocuparmos com suas causas. É impossível eliminar a infelicidade sem explorar sua origem. Se realmente queremos ser felizes, precisamos mudar este quadro e passar a seguir os ensinamentos dos mestres, a viver sob a luz desses ensinamentos; precisamos trabalhar firmemente sobre nós mesmos, conhecer e reconhecer as causas de nossos tormentos e então abandoná-las, renunciar a elas. Sobre a Fuga da Vergonha Para evitarmos a vergonha, fazemos caras e bocas, tentamos transmitir aos outros os mais diversos tipos de sensações, a fim de que não zombem de nós. Tenham piedade de nossos erros, de nossa estupidez, ignorância. Por vergonha tapamos o rosto, tal qual faz um avestruz ao esconder a cabeça na terra para fugir dos predadores. Achamos absurdo o comportamento do avestruz, mas, assim como ele e sem nos darmos conta, tapamos o rosto quando sentimos vergonha. Muitas situações constrangedoras são pautadas por leis, mandamentos, padrões, conceitos da sociedade. Houve um tempo em que a área genital do corpo humano era chamada de "vergonhas". Quando alguém é surpreendido nu, imediatamentecobre sua genitália com as mãos, como se tal gesto fosse o último recurso para livrá-lo da vergonha total. Isso nos remete ao livro do Gênesis na Bíblia, onde Deus cria Adão e, depois, de sua costela, cria Eva. Diz o Gênesis: “E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam”. Em dado momento, surge a serpente e tenta Eva a comer do fruto da árvore proibida, dizendo que ela se tornaria poderosa como Deus, que seus olhos seriam abertos e teria o conhecimento do bem e do mal. Eva come do fruto e oferece-o a Adão, que também dele prova. E... “Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.”. A questão que fica é: "Seria possível voltarmos a ficar nus - sem máscaras, sem falsidades, sem interpretações de papéis –, sem nos envergonharmos por isso?" Ao sentirmos vergonha, devemos aceitar que estamos com vergonha. Não devemos resistir, não devemos negar, não devemos fugir das situações, dos sentimentos, das emoções. É preciso aceitar e observar o que estamos sentindo, o que está acontecendo dentro de nós, que pensamentos fervilham em nossa mente. Não podemos continuar a negar nossos demônios, não podemos continuar a fugir de nossos demônios. A vergonha é uma realidade humana. Não é uma verdade, mas é uma realidade. Assim, temos que observá-la para um dia podermos compreendê-la. Questionamentos e Comentários - Sim, será possível voltarmos a ficar nus - sem máscaras, sem falsidades, sem interpretações de papéis, sem medo de exposição, sem insegurança, etc. - e não nos envergonharmos! Mas só após o Julgamento, quando os 'que vencerem' - como diz a Bíblia - forem morar na Eternidade com Cristo! Ainda, segundo a Sagrada Escritura, o mundo jaz, está completamente mergulhado no maligno. Por isso, e pela essência da maldade que Adão adquiriu, é impossível a nudez sem máscaras aqui na Terra! Realmente, é uma triste realidade. Parece que arrumamos desculpas para não mudarmos, desculpas para justificar nossa incapacidade de mudar, desculpas para justificar nossa fraqueza, nossa falta de coragem para olhar para dentro de nós mesmos. O demônio da má vontade atua em nós de forma muito astuta, está sempre lavando as mãos, como fosse bom e nada mais pudesse fazer. Se o homem é essencialmente bom ou mau, não vem ao caso agora e não nos impede de olharmos para dentro de nós mesmos, de encararmos a vergonha, o medo, a violência, a ignorância, a falsidade, a fraqueza que existe em nosso ser. A essência do homem pode ser boa ou má. É só uma idéia, uma idéia que nos limita muito, assim como qualquer conceito, preconceito, definição, auto-definição. O medo é o mesmo, quer para os que acreditam que o homem é essencialmente ruim, quer para os que acreditam que o homem é essencialmente bom. O medo é o mesmo, quer sejamos cristãos, budistas, maometanos, hinduístas, quer sejamos brancos, pretos, morenos, amarelos, vermelhos. O objeto do medo pode mudar, mas o medo é o mesmo, precisamos perceber isso. - Por que, afinal, nos importamos tanto em sentir vergonha por estarmos envergonhados? Penso que nós, humanos, temos muito medo de assumir que, essencialmente, somos sós! Numa segunda etapa, então, é que vamos perceber que fazemos parte do Todo (que é o Cósmico, o Eterno, o Divino). Parece que queremos evitar desesperadamente que os outros percebam que estamos envergonhados, com medo, nervosos, fragilizados. Queremos parecer perfeitos, temos medo de nos expor, de mostrarmos nossas falhas, fraquezas, dificuldades, de nos depreciarmos dentro do conceito dos outros. Estamos preocupados demais com nossa personalidade, nosso ego. É a tal da auto-importância e o tal do amor próprio, tão profundamente fortes em nós. Todo medo está baseado no medo da morte, na nossa idéia de vida, de existência. Existência é o que temos como referência: sou isso, sou aquilo, moro aqui, trabalho ali. Criamos nossas bases, nossas referências sobre nós mesmos, nos auto-definimos para nos sentirmos seguros. Queremos passar esta imagem para os outros, precisamos nos auto-afirmar. Existimos, nossos egos existem enquanto referências. E, se as referências, as bases, as auto-definições sucumbem, então morremos. Não deixamos espaço para as nossas idéias erradas, incorretas ou incompletas, pois nos consideramos perfeitos, nos apaixonamos por nossas próprias idéias, e a elas nos apegamos. Nossas idéias passam a servir de referência, de base. E então morremos quando o nosso mundo bem organizado despenca, quando percebemos que erramos. Vivemos sob o domínio de dogmas, que nos dão segurança, que nos protegem, e atrás dos quais nos escondemos. E, quando um desses dogmas cai por terra, nos despedaçamos. Sobre a Fuga do Medo Não conseguimos ficar com a mente quieta no vazio das situações, não conseguimos encarar a realidade das situações. Ficamos com medo, entramos em desespero. Isso pode ser sutil, muito sutil, pois a mente começa a fantasiar, criando falsas impressões, ilusões, sensações, para fugir do aparente vazio do momento presente, na busca de prazeres que venham a preenchê-lo e disfarçá-lo. Se parássemos para observar este vazio, para enxergar o real, poderíamos ver a magia do presente, a magia da realidade. Mas não... Ao invés de pararmos, damos asas a fantasias e projeções. Por medo do vazio, criamos falsas impressões e ilusões na busca do prazer imediato. Ocorre que esse desejo de prazer traz em si dor, sofrimento e medo. O medo gera mais medo, a fuga do medo gera um medo ainda maior. Somos nós que inventamos, criamos e definimos nossos medos. A fuga do presente, o medo do real, as falsas sensações, a identificação, a fantasia, as ilusões, levam ao embotamento da mente. Fantasiamos que pessoas nos observam, pensam coisas sobre nós, nos admiram ou invejam. Experimentamos sensações de prazer, de sermos melhores, diferentes; sentimo-nos orgulhosos, superiores por uma falsa ilusão de fama, sucesso, status, reconhecimento, aceitação, auto-afirmação. Criamos divisões, nos definimos, nos identificamos. Tudo isso por medo do comum, do ordinário, do vazio, do deserto do real. Mas este mesmo movimento de fantasiar que nos traz prazeres, também pode trazer impressões opostas; pode trazer dor e sofrimento, pode trazer a sensação estarmos sendo inferiores, ridículos aos olhos dos outros, pode trazer o medo da rejeição, da crítica. Um carro é somente um carro, uma roupa é somente uma roupa, é a mente que atribui valor à matéria, com pesos, imagens e fantasias a ela associados. Isto nos leva a obter sensações de prazer. O mesmo ocorre com os fatos: um erro é só um erro, mas, quando a mente começa a fantasiar, exagerar, projetar, surge o medo, a vergonha, a culpa, a ansiedade. Movidos por orgulho, ganância, ilusão, criamos padrões, modelos, idéias. A criação do ideal é uma maneira de fugir do presente, do real, ocasionada pelo medo. Queremos que as pessoas sigam nossos mesmos ideais, acreditamos que os outros têm de ser como os definimos. Quando estamos em uma situação de poder, usamos a imposição do medo para podermos controlar, fazer com que os outros sigam os nossos modelos. Apelamos para ameaças, castigos, torturas, punições, chantagens, transmissão de sensações e emoções através de caras, bocas e posturas para instilar o medo nos outros. Esse comportamento é facilmente verificado em pais, professores, chefes, ou seja, em nós. O controle através do medo é uma maldade, um preconceito dos poderosos, da sociedade. Por medo nos apegamos a coisas e situações, na tentativa de fugir de algo. Mas este apego gera outro medo: o medo de perder o objeto do apego. Todo vício é uma fuga. Julgamos os drogados, os alcoólatras, os fumantes, mas não percebemos nossos próprios vícios, nossas formas de fuga. A televisão, o cinema, o jogo, o entretenimento, a diversão, a dança, a gastronomia, o trabalho, os livros, osditos "passatempos", a busca, o desejo por prazeres sempre efêmeros, são formas de fuga, alienação. Não são tão prejudiciais à saúde do corpo, mas talvez sejam muito mais nocivos à psique, à alma, pois estamos aproveitando a vida apenas aparentemente. Iludidamente, dizemos que precisamos de um pouco de diversão, de distração, dizemos que esses prazeres fazem bem, que os merecemos. Valemo-nos destes artifícios não para fugir de uma realidade externa, mas para fugir de uma realidade interna, do chamado de nossa alma, que clama por liberdade. Nossa alma clama por liberdade e fugimos para a televisão, para a diversão, para o prazer imediato. Utilizamos até mesmo a religião, a meditação em nosso plano de fuga. Escondemo-nos atrás de belas roupagens por pura hipocrisia. Estamos sempre em busca de desafios, do novo; estamos sempre criando problemas, tudo para não olharmos dentro nós mesmos, para fugirmos da realidade, do tédio, do nosso vazio existencial. Quando surge o medo, quando surge a sensação de medo entramos em desespero, desejamos nos livrar dele, tentamos fugir, tentamos evitá-lo desesperadamente. E o desejo de se livrar do medo gera mais medo. Tentamos, por diversas formas, fugir de nossos medos, de nosso vazio, de nossas misérias, da vida. Apegamo-nos às nossas fugas, e assim passamos a desejá-las continuamente. Trecho do diário de um Mestre: Existe o medo. O medo nunca é uma realidade: vem sempre antes ou depois do presente ativo. Quando há medo no presente ativo, será isso medo? Esta ali e não há como fugir dele, não há como escapar. Ali, no momento presente, há a atenção total ao momento de perigo, físico ou psicológico. Quando há atenção total, não há medo. Mas o próprio fato da desatenção gera o medo; o medo surge quando há uma evitação do fato, uma fuga; então a fuga, é ela própria, o medo. Ao sentirmos medo, devemos aceitar que estamos com medo. Não devemos resistir, não devemos negar, não devemos fugir das situações, dos sentimentos, das emoções. É preciso aceitar e observar o que estamos sentindo, o que está acontecendo dentro de nós, que pensamentos fervilham em nossa mente. Não podemos continuar a negar nossos demônios, não podemos continuar a fugir de nossos demônios. Não há nada de errado, horrível ou vergonhoso no fato de sentir medo. O medo é uma realidade humana. Não é uma verdade, mas é uma realidade. Assim, temos que observá-lo para um dia podermos compreendê-lo. Mas, negando nosso medo, recusando-nos a aceitá-lo, não poderemos observá-lo. Um sábio disse: Sempre que algo for realmente bom, também é amedrontador, porque lhe traz insights. Ele o força em direção a certas mudanças, leva-o a um ponto crucial a partir do qual, se você voltar, jamais se perdoará. Você sempre se lembrará de si mesmo como um covarde. E, se você seguir em frente, será perigoso. Por isso é amedrontador. Quando houver algum medo, lembre-se sempre de não voltar, porque essa não é a maneira de resolvê-lo. Entre no medo. Se você tiver medo da noite escura, entre na noite escura – porque essa é a única maneira de superar, de transcender o medo. Entre na noite; não existe nada mais importante do que isso. Espere, fique ali sozinho e deixe que a noite aja. Se você tiver medo, trema. Deixe que o tremor esteja presente, mas diga à noite: ‘Faça o que você quiser fazer. Estou aqui.’ Após alguns minutos, você perceberá que tudo se ajustou. A escuridão não é mais escura, ela se tornou luminosa. Você a desfrutará , poderá tocá-la – o silêncio aveludado, a vastidão, a música. Você será capaz de desfrutá-la e dirá: ‘Que tolo eu fui de ficar com medo de uma experiência tão linda!’. Sobre a Gratidão A gratidão nasce do reconhecimento, da satisfação, da aceitação, do contentamento, da devoção, da fé, da entrega. Quem não é capaz de dizer um simples obrigado também não é capaz de sentir uma verdadeira gratidão. Muitas vezes, diz-se “obrigado” por educação, costume, emocionalismo, sentimentalismo, fantasias, projeções mentais. Mas também há quem o diga movido pela necessidade de expressar uma genuína gratidão, que brota do fundo do coração. Talvez seja mais fácil falar de ingratidão do que de gratidão. Talvez seja mais fácil chegarmos ao real significado da gratidão abordando um pouco do que seja ingratidão. É importante percebermos o que nos impede de expressar gratidão. Alguns podem interpretar essa incapacidade como ingratidão. Então precisamos analisar, refletir sobre os aspectos da ingratidão. Muitos dizem que levantam as mãos para os céus todos os dias para agradecer, e em seguida estão a reclamar disto ou daquilo, o que é totalmente contraditório, é uma gratidão da boca para fora. Mas as pessoas não se dão conta disto. Alguns agradecem pelo emprego que têm, mas, por outro lado, se queixam de que mereciam um salário maior, mais tempo para descansar, menos cobranças. Reclamam do chefe, do colega de trabalho, da faxineira, da mulher do café. Reclamam de um número tão grande de coisas que fica impossível entender o que eles estão agradecendo, uma vez que nada está bom. Outros agradecem pela vida que levam, mas, em contrapartida, esperam que os filhos sejam assim ou assado, que façam isso ou aquilo. Esperam que o companheiro mude, que o trabalho melhore, que possam trocar de carro, aumentar a casa, trocar os móveis. Quando se trata de dinheiro, sobretudo, as pessoas nunca estão satisfeitas, nunca são gratas. Seja seu dinheiro proveniente de uma herança, de uma bonificação ou aumento no trabalho, prêmio, presente. Enfim, elas nunca estão satisfeitas; quanto mais recebem, mais querem; mais acham que deveriam ter recebido. Quando as pessoas perdem algo ou alguém, elas ficam triste, ficam com raiva, sentem-se roubadas em seus sonhos, em suas expectativas, seus planos para o futuro. Com a visão nublada pelos seus apegos e desejos, não podem ver e ser gratas pelo que tiveram, pensam apenas no que deixaram de ter; condicionam-se a um conjunto de projeções mentais relacionado a algo que ainda não aconteceu e que pode ser que nunca venha a acontecer. Todos os nossos julgamentos, reclamações ou críticas demonstram ingratidão, intolerância, desrespeito. E estamos sempre a reclamar, seja do garçom, do lixeiro, do entregador, do tintureiro, do padeiro, do frentista, do caixa do mercado. Todos estão a nos prestar serviços, nos ajudam, de uma forma ou de outra, facilitando a nossa vida. E, apesar disso, somos incapazes de demonstrar-lhes gratidão. Achamo-nos independentes, superiores, mas, no fundo, somos profundamente dependentes uns dos outros, estamos profundamente ligados aos outros. Deveríamos ser gratos até aos pedintes, aos necessitados, aos ignorantes, que nos possibilitam a prática de caridade, que abrem nossos corações, podendo gerar algum Dharma. Ao invés de sermos gratos às inteligências que – a despeito de todas as nossas interferências destrutivas na natureza, comprometendo até o clima do planeta – trazem o sol e a chuva, reclamamos destes eventos que, entre outras coisas, garantem as colheitas de nossas lavouras. Pior ainda, maldizemos a Divindade quando a seqüência destes eventos – causados exatamente por essa nossa interferência no meio ambiente – acabam por "prejudicar" as colheitas. Não pode haver uma genuína gratidão se nos culpamos ou culpamos os outros. Onde há culpa, há também raiva, descontentamento, insatisfação. A gratidão se mostra em fatos concretos, em ações, em atitudes. Aquele que está sempre cobrar que os outros demonstrem gratidão está, na verdade, projetando sua ingratidão. Aquele que está sempre a se dizer agradecido por isto ou aquilo está tentando provar a si mesmo uma gratidão que na realidade não tem. É a gratidão do fariseu. A inveja esconde muita ingratidão. Se desejamos aquilo os outros possuem é porque não estamos contentes com o que temos, não somos gratos,não reconhecemos o que recebemos. Existem pelo menos dois tipos de inveja: a inveja destrutiva, que leva uma pessoa a destruir os outros e os bens que eles possuem, e a inveja auto-destrutiva, que é a inveja feita de mágoas silenciosas. O mesmo se aplica à ingratidão, que pode ser carregada de raiva, revolta, ou cheia de mágoas, manifestando-se em situações onde as pessoas se colocam como vítimas. Ao final, as duas escondem crianças mimadas. O “eu vítima” é profundamente ingrato. É o véu do orgulho, da vaidade, da auto-adoração, do amor próprio, que nos impede de perceber quando deveríamos expressar gratidão. Acreditamo-nos responsáveis por tudo aquilo que nos acontece de bom e culpamos os outros por tudo aquilo que nos acontece de ruim. Acreditamo-nos dignos, merecedores, de tudo de bom que nos acontece. E assim não somos gratos. Parece que a gratidão às pessoas reforça a gratidão à Divindade, e a gratidão à Divindade reforça a gratidão às pessoas. O auto-conhecimento nos leva à gratidão. O auto-conhecimento nos leva a perceber que fizemos o que podíamos com o tanto de conhecimento, ou de ignorância, que tínhamos sobre cada situação em seus momentos específicos. Assim, podemos perceber que os nossos pais, os nossos professores, também fizeram o que podiam, a partir do tanto de conhecimento, ou de ignorância, que tinham. É esta percepção que nos leva à gratidão. Isso não é e nem deve ser apenas uma teoria convincente, mas sim uma percepção profunda, de si e do outro, livre de mágoas e ressentimentos. Foi a nossa Divindade interior e mais uma série de Seres superiores que nos ajudaram e nos impulsionaram a chegar onde estamos, a encarnar, a passar por uma série de experiências, a chegarmos às instituições, aos grupos a que pertencemos. Desta forma, ao virarmos as costas a esses acontecimentos, aos ensinamentos, aos Mestres, estamos manifestando nossa ingratidão. Ao renegarmos as práticas que esperam de nós, ao não vivermos como nos é ensinado, mostramo-nos ingratos. Ou seja, podemos continuar pertencendo às instituições, aos grupos, e ainda assim sermos ingratos, e ainda assim virarmos as costas a tudo o que ali se passa . Mais uma vez, a gratidão se mostra em fatos concretos, em ações, em atitudes. Dominados por nossos próprios conceitos, nossas idéias fixas, acusamos os outros de nos darem pedras quando pedimos pães. Não reconhecemos pães como pães. Assim, não somos gratos pelos ensinamentos recebidos. Ensinamentos budistas professam: Os maus homens não reconhecem nas ações erradas um erro e, se esse erro for trazido à sua atenção, eles continuarão a praticá-lo e desprezarão todo aquele que o advertir sobre seus maus atos. Os bons e sábios homens são sensíveis ao que é certo e errado, param de fazer algo tão logo percebam que esta errado, são gratos a todo aquele que lhes chama a atenção sobre as ações erradas. Oferecer cada boa ação à Divindade é um ato de gratidão, diferente daquele ato de vaidade e arrogância que toma tudo para si mesmo. Demonstrar gratidão é mais benéfico para a própria pessoa do que para os outros. Existem pessoas extremamente necessitadas que costumam criticar as doações que recebem. Não possuem nada, e ainda assim são ingratas pelo pouco, ou mesmo muito, que recebem. Talvez seja por isso mesmo que nada têm. Aqueles que julgam mal, que criticam as doações feitas por outrem, também são ingratos, na medida em que projetam uma série de defeitos próprios. Talvez falte-lhes o respeito, pois cada um tem sua capacidade de doação. Mais do que isso, assim como existem capacidades de doação diferentes, existem os diferentes graus de necessitados. Nenhuma doação, por mais humilde que seja, é desnecessária ou desprezível. Compreender as dificuldades da vida como lições a serem aprendidas é um enfoque diferente, é uma grande mudança de paradigma, de visão da vida. Em verdade, como ensina o budismo, esta é uma reta visão sobre o sofrimento, a qual nos enche de gratidão. Evidentemente, esta visão não diz respeito àquilo que costumamos chamar de “aprendizagem” e que, na verdade, não passa de mágoas, ressentimentos, medos, repressões; não passa de criação de travas, de dispositivos de defesa. Se passamos a ver as dificuldades como lições a serem aprendidas, se o importante na vida passa a ser a evolução pelo aprendizado, então não existe mais ofensa, agressão, pressão. Existe apenas aprendizados. Mas, se ficamos nervosos, irritados, se começamos a maldizer alguém ou uma situação, é porque algo passou a ser mais importante que o aprendizado. É porque o fato de ser bem tratado, elogiado, reconhecido, aceito, adorado, passou a ser mais importante do que o aprendizado. E isso nada mais é do que a manifestação da própria auto-importância. Olhamos as situações da vida com a mente repleta de idéias e o coração vazio. Precisamos mudar esta realidade. Precisamos olhar os fatos da vida com a mente vazia, livre de conceitos e preconceitos, livre de padrões, e com o coração cheio de bondade e compaixão. As pessoas fazem seus pedidos à Divindade e recebem um auxílio. Só que muitas vezes não conseguem perceber que receberam um auxílio, ou não reconhecem o auxílio como auxílio, até porque muitos pedidos são mundanos, frutos de desejos do ego, que não reconhecem respostas que, por vezes, podem ser transcendentes e ater-se à existência, e não a um momento específico, à satisfação do ego. Existem casos em que devemos até ser gratos porque alguns de nossos pedidos não foram realizados, atendidos. Por não percebermos nossa evolução - evidentemente não estamos falando sobre a fantasia de evolução e sim da evolução de fato, uma vez que a fantasia de evolução é "percebida" -, não somos gratos. Os preceitos budistas ensinam que não devemos desdenhar de nossas próprias conquistas espirituais. Tal atitude revelaria ingratidão e desrespeito. Há aqueles que, por terem beneficiado uma pessoa, acreditam que esta lhe deve gratidão pelo resto da vida. Não hesitam em lembrá-la de suas dívidas para com eles, o que popularmente é chamado de "jogar na cara". Confundem gratidão com bajulação, apego, carência, dependência, escravidão, algo parecido com as trocas de "favores" dos mafiosos. E esta forma de "gratidão", muitas vezes, é esperada também por aqueles que, a princípio, deveriam estar muito além disso, ou seja: pelos instrutores, sejam eles monges, palestrantes, padres ou pastores. Disse o grande sábio: Se você recolhe um passarinho que está com a asa quebrada e cuida dele com muito jeito e muito cuidado, ele vai voar depois, vai para longe. E você vai se sentir só por causa disso? Abandonado, preterido, diminuído,desprezado, humilhado? Pois digo-lhe que deveria sentir-se feliz por ver aquele a quem ajudou voando com suas próprias asas, cumprindo sua missão, atividade ou papel na natureza. Infelizmente, nossas percepções são totalmente desfocadas e inversas; por isso, temos que fazer uma profunda auto-crítica, uma reeducação; buscar formar urgentemente essa reta visão, percepção de nós mesmos, para que não invertamos os valores, nem as leis que sustentam a vida ou as leis que se resumem na única lei, que é a consciência livre. Vendo a situação descrita acima pelo lado oposto, o vôo do passarinho pode ser encarado como um ato de gratidão, encantando aquele que o ajudou. O passarinho não pode permanecer comodamente num determinado local por medo, insegurança, traumas do passado, culpa ou carência. Não pode achar que, pelo resto da vida, terá de ficar para pagar sua dívida. Isso não passaria de uma capa para esconder esse medo, insegurança, culpa ou carência. Sobre a Identificação com o Sofrimento Alheio Parece que o principal motivo para querermos ajudar os que sofrem, ou para querermos sanar suas dores, muitas vezes até de uma forma desesperada, é o fato de estarmos identificados com o sofrimento desse alguém. Geralmentesofremos por não agüentarmos ver os outros sofrerem, o que denota fraqueza, identificação, projeções mentais em demasia, apego ao passado, medo do futuro. Esse tipo de identificação é, particularmente, muito comum nos pais que não suportam ver seus filhos sofrendo. Porém, os níveis de identificação são amplos. Inconscientemente, o que queremos, na verdade, é nos livrarmos de sofrimentos nossos, estejam eles no presente ou no passado, através dos outros. Assim, sentimos alívio diante de alguém que consegue se livrar de um sofrimento.Evidentemente,não sentiríamos este alívio se não estivéssemos sofrendo também, de alguma forma; se não estivéssemos identificados com o sofrimento alheio. E, como esta sensação de alívio não se dá pela eliminação do nosso próprio sofrimento, voltaremos a buscá-la, por incontáveis vezes, enquanto não eliminarmos nossas próprias angústias, o que só é possível por meio de uma reta compreensão do problema. É freqüente observarmos certos “vilões” que costumam aparecer nessas situações, entre eles os que encarnam papéis como: o “eu vítima”, o “eu coitadinho”, o “eu sofredor”, o “eu compreensivo”, o “eu salvador”, o “eu herói” ou “eu mártir”. É bom que se preste atenção, pois estes “eus” geralmente estão acompanhados dos “eus” do orgulho, do orgulho místico. Na ânsia de livrarmos os outros de algum sofrimento, criamos confusões, mal-entendidos, perturbamos, atormentamos, incomodamos, infernizamos, e com isso acabamos por dificultarmos ainda mais a paz alheia. O mais espantoso é que, ao final de tudo, ainda nos queixamos, dizendo que não somos reconhecidos ou compreendidos por estarmos querendo ajudar. Por exemplo,se vemos alguém desesperado por estar enfrentando dificuldades financeiras, e se já vivenciamos situação semelhante no passado, apressamo-nos em dizer ao outro que sabemos o que ele está passando, o quanto está sofrendo, que sua situação corta-nos o coração, nos deixa consternados. Nossas recordações vêm a tona. E, sem perceber, reagimos a essas lembranças. A mente faz muitas associações. Todas as palavras de consternação sobre a situação do outro não passam de lamentações relacionadas ao nosso próprio passado. O “eu vítima” se lamenta de seus sofrimentos, de suas dores e dificuldades. A memória traz também o emocionalismo. Na verdade, o que desperta em nós é um profundo sentimento de auto-comiseração. Mas não percebemos nada disso, acreditamos piamente que estamos a nos compadecer do próximo, acreditamos que um nobre sentimento de empatia nos move. Para podermos compreender o sofrimento do outro, precisamos antes compreender os nossos próprios sofrimentos, bem como as ilusões, os apegos e os desejos a eles associados. Enquanto não encararmos o sofrimento como uma ilusão, viveremos a nos identificar com o sofrimento alheio, e seremos incapazes de ter um real sentimento de compaixão. É comum nos convencermos de que muito aprendemos com nossos sofrimentos, quando, na realidade, o que acreditamos ser aprendizagem não passa de mágoas, ressentimentos, medos e repressões acumuladas, não passa travas criadas, de dispositivos de defesa. Enquanto carregarmos esses fardos, estaremos presos a um passado, um passado que, provavelmente, não aconteceu ou foi mal interpretado. Apegamo-nos aos nossos sofrimentos, apegamo-nos às nossas versões das situações e à nossa forma de vê-las. Somos incapazes de perceber que tais situações não se passaram como as imaginamos, como as fantasiamos em nossa mente.Não conseguimos ver as ilusões como meras ilusões. Criamos problemas, inventamos versões para as mais diversas situações, distorcemos os fatos, distorcemos a realidade e seguimos acreditando que assim o foi. É muito difícil olharmos para trás, olharmos para o nosso passado e aceitarmos que nada do que achamos que tinha acontecido realmente aconteceu. Na realidade, o passado, tal qual acreditamos que foi, não aconteceu. E um dos fatores que nos impulsiona a ajudar os outros, a eliminar suas dores, é a culpa que sentimos face ao sofrimento alheio. Sobre a Identificação com Pensamentos É importante manter a mente limpa. É importante que não deixemos os maus pensamentos penetrarem nossas mentes. Após termos observado a doutrina dos múltiplos Eus, após termos experimentado diretamente, ao menos uma vez, a pluralidade desses Eus dentro de nós, podemos, enfim, compreender a identificação com os pensamentos, podemos explorar a experiência direta do que vem a ser, na verdade, a identificação com os pensamentos. Compreendendo um Eu, observamos, de forma direta, pensamentos, conceitos, explicações, padrões, experiências e lembranças a ele associados. Da mesma forma, podemos também observar que muito dos pensamentos que passam diariamente por nossa mente não são nossos, mas destes Eus. No entanto, muitas vezes acreditamos no que estamos pensando, e ficamos apaixonados por nós mesmos, apaixonados pelos pensamentos que passam por nossa mente, ou seja, nos identificamos. Diz Samael Aun Weor em “Tratado de Psicologia Revolucionária”: Do centro intelectual surgem diversos pensamentos provenientes não de um Eu permanente como supõem nescicamente os ignorantes ilustrados, mas dos diferentes “Eus” em cada um de nós. Quando um homem está pensando, crê firmemente que ele em si mesmo e por si mesmo está pensando. Sabemos que um Eu magoado, por exemplo, tem suas histórias, suas canções. Cientes disto, o que temos de fazer é procurar compreender por que acreditamos que os pensamentos de mágoa que atormentam nossas idéias são pensamentos nossos, por que nos identificamos com tais pensamentos e nos sentimos magoados com isso. Quando um Eu magoado toma conta de nosso centro intelectual e nós nos identificamos, tendemos a acreditar que este Eu é realmente parte de nós. Enquanto não nos dissociarmos destes Eus, enquanto não tomarmos verdadeira consciência de que existem muitos Eus dentro de nós, continuaremos a nos identificar com esses Eus. E, assim, o sofrimento será inevitável. Por acreditarmos que todos os pensamentos que passam por nossa mente são nossos, vivemos em conflito interno, sofremos a cada vez que somos assaltados por desejos antagônicos, frustramo-nos quando oscilamos de um estado a outro, da euforia à tristeza. Isto ocorre porque não conseguimos compreender, perceber, que não somos nós. Somos incapazes de reverter tal situação em benefício de nosso auto-conhecimento. Projetamos nossos defeitos nos outros, identificamo-nos com pensamentos que passam por nossa mente como relâmpagos ou com os mesmos velhos pensamentos carregados de conceitos e preconceitos, valores, rótulos. E nos comportamos de acordo com tais pensamentos. Enquanto nos deixarmos fascinar por nossos pensamentos, lindos e floridos pensamentos que nutrimos sobre nós mesmos; enquanto estivermos experimentando uma sensação de prazer cada vez maior com eles, inevitavelmente sofreremos diante dos maus pensamentos, nossos e dos outros. O tempo todo precisamos nos relacionar com os demais. Inevitavelmente, em tais relacionamentos nossos defeitos, mais cedo ou mais tarde, saltam à vista. Porém, nos mantemos atentos, somos capazes de percebê-los. Os maus conceitos que fazemos dos outros podem nos deixar predispostos à irritação, à violência, à má vontade. Ocorre que, uma vez identificados com tais pensamentos, antes de começarmos a estabelecer o contato com o outro, já nos mostramos irritados com ele. Em nosso pensamento condicionado, o outro já é culpado antes mesmo de começar a falar, antes mesmo de estar em nossa presença. Uma vez Identificados com tais pensamentos, muitas vezes não conseguimos ouvir ou interpretamos mal o que o outro está dizendo. Esses conceitos, esses preconceitos, não passam de projeções mentais. São pensamentos com os quais nos identificamos fortemente. Não questionamos, porém, que talvez alguns dos conceitos que formamos sobrealguém em nossa mente tenham sido passados por uma outra pessoa. Desta forma, se alguém nos diz que o outro é de desta ou daquela forma, mesmo sem conhecermos a pessoa em questão, já nos antecipamos agindo condicionados por projeções mentais que nem são nossas, mas de outrem. Formamos opiniões pré-concebidas como: "Ele é orgulhoso"; "Ele é enrolador"; "Lá vem aquele chato!"; "Vou ter que falar com aquele ignorante!"; "Vamos ver do que ele vai reclamar agora"; "Lá vem pergunta idiota novamente"; "Estou aqui ocupado e lá vem ele de novo me atrapalhar com suas bobagens"; "Cuidado com o Fulano, pois ele já fez isso, aquilo e aquele outro"... Não podemos nos abrir aos nossos maus pensamentos. Mais do que isto, não podemos nos abrir aos maus pensamentos dos outros. Nossos egos vivem criando problemas onde não existe nada além de uma mera situação. Infelizmente, somos dados a nos identificar com as múltiplas ilações que a cabeça fabrica e metemos os pés pelas mãos, ao invés de enxergarmos os fatos com clareza e isenção. Justamente por esta razão, os planos que fazemos para resolvermos nossas pendências, para abordarmos o outro, e que envolvem pensamentos como: “Vou contar isso para Fulano, mas se ele disser aquilo, vai ver só..."; "Acho que ele vai brigar comigo"; "Ele não vai me fazer perder tempo" etc., geram medo, insegurança, dúvida, incerteza, ansiedade. Deixam-nos predispostos à irritação, ao nervosismo, à violência, à grosseria, à brutalidade. São apenas pensamentos, é verdade. Mas, se nos identificamos com eles, já nos surpreendemos planejando maldades, vinganças, violência, brutalidade, antes mesmo de a situação existir. Tais planos são parte de alguns de nossos dispositivos de defesa. E alimentar esses planos é uma forma criar problemas. Se agimos desta forma, com planos premeditados, não será possível desfrutarmos de relações serenas e espontâneas. Se agimos desta forma é porque estamos presos ao passado e longe do momento presente, estamos reagindo a situações já vividas. Em síntese, se nos identificamos com os maus pensamentos, acabamos nos irritando sem mesmo sabermos ao certo o motivo de tal irritação, sem consciência dos fatores que geram tal reação, pois não paramos um momento para nos perguntarmos o porquê da situação e de nossa irritação. Por mais que as pessoas sejam realmente como pensamos, como supomos que são, e nossa opinião sobre ela não é das melhores, ainda assim, se nos conhecemos bem e se temos em nós o sentimento de compaixão, bondade, paciência, tolerância, não ficaremos irritados, nervosos, irados, não agiremos de forma violenta, de forma bruta, com grosseria. Como já mencionado anteriormente, quando nos identificamos com nossos pensamentos, nosso comportamento passa a ser condicionado, mecânico. Se formamos um bom conceito a respeito de uma determinada pessoa, consequentemente, vamos ter com ela um bom contato, um bom relacionamento bom, uma boa interação; vamos nos dirigir a essa pessoa com educação, atenção e alegria. Ao contrário, se formamos um mau conceito a respeito de alguém, o resultado inevitável será um mau contato, um mau relacionamento, uma má interação; vamos nos dirigir a essa pessoa de forma grosseira, com irritação, com má vontade. Os conceitos que fazemos de terceiros não passam de idéias, valores, rótulos, são apenas pensamentos. É como se estivéssemos nos relacionando com a fotografia de uma pessoa ou de uma situação, com a imagem mental de uma pessoa ou de uma situação, e não com a pessoa ou a situação em si. Olhar para uma fotografia é sempre olhar para o passado. O ego está preso ao tempo. Se agimos desta maneira, estamos reagindo ao passado. Não estamos agindo efetivamente no presente. Portanto, não será esta uma ação adequada, pois nada de real está acontecendo no agora. Precisamos perceber este processo. Ficamos com vergonha por nos identificarmos com o pensamento que de a situação é vergonhosa. Ficamos ofendidos por nos identificarmos com o pensamento de que uma ofensa foi dirigida para nós, por estarmos identificamos com pensamentos, o conceito de que certas palavras, certas formas de expressão, são ofensivas. Ficamos com medo por nos identificarmos com o pensamento de que a situação é temerosa. Deveríamos analisar como seriam as mesmas situações se tais pensamentos não nos habitassem a mente, ou mesmo se, apesar de já terem passado por nossa cabeça, não tivéssemos nos identificado com eles. Deveríamos analisar como seriam as mesmas situações se não tivéssemos em nós apenas o desejo de experimentar sensações boas, rejeitando, repudiando, evitando qualquer possibilidade de virmos a nos submeter a sensações ruins. A identificação com conceitos, padrões, valores, que permeiam nossos pensamentos e idéias, embota a mente. A identificação com pensamento é a própria crença num Eu permanente, o que se contrapõe inteiramente à doutrina Gnóstica e também à doutrina Budista. Para começarmos a reduzir gradativamente a identificação com os pensamentos, a prática meditativa de silenciar a mente é a melhor opção. Mas não podemos, de forma alguma, deixar de lado a prática da meditação reflexiva, analítica, e as súplicas à Divindade, ao Cristo Interno, a Mãe Divina, visando à morte dos Eus. Sobre a Identificação Identificação é como sonho. Acontece quando achamos que somos algo de nós, como por exemplo, o corpo, ou quando achamos que somos algo que ocorre conosco, como por exemplo, o que foi dito ou dirigido à nossa pessoa. É como se estivéssemos em estado de hipnose, totalmente fascinados por tudo que nos cerca, por nós mesmos, ou melhor, fascinados pelo que achamos que somos, pelo que achamos que são coisas são, pelo que achamos ser a realidade. Ao que parece, existem níveis de consciência ou de inconsciência de identificação. A identificação é um fenômeno que ocorre de forma tão absurdamente forte em nós que nos identificamos com o personagem que estamos representando nesta existência, com a personalidade. Então, como não conseguimos lidar bem com isso, projetamo-nos para uma camada superior e passamos a nos identificar com outras coisas, em camadas cada vez mais externas a nós. A princípio, nos identificamos com idéias e pensamentos, depois com o próprio corpo, com as pessoas e com as situações. Enquanto não conseguirmos nos desidentificar em relação à personalidade, continuaremos a nos identificar com situações e pessoas externas. Assim, identificamo-nos com os personagens da televisão, rimos, choramos, ficamos tristes, nervosos. Sentimos todas as emoções desses personagens. Mas a realidade é que, em nenhum momento saímos da frente da TV, ou seja, não havia motivo real para alterações do estado emocional. Tudo não passou de projeções e identificações, fascinações, sonhos e fantasias. Fomos e somos enganados pela mente. E o pior é que gostamos de ser enganados, sentimos prazer com isso. A diferença entre este tipo de projeção/identificação e a projeção/identificação com a vida e com as pessoas é que, quando desligamos a TV, sabemos que nada do que assistimos era real. É bem verdade que algumas pessoas continuam em processo de identificação e projeção mesmo após sair da frente da TV, mas estes são casos mais extremados de fuga. Sempre que passamos por algum sofrimento, nos identificamos com o sofrimento dos outros, seja na televisão ou na vida, no dia-a-dia. Identificamo-nos com mendigos, cachorros, indivíduos desempregados, maltratados, falidos, abandonados, de acordo com a natureza de nossas experiências, impressões, memórias, conceitos e preconceitos, padrões ou sensações. Se uma pessoa se identifica com algo é porque, em alguma instância, ela é esse algo ou possui esse algo. Porém, a “casca” intelectual, os padrões, os conceitos e preconceitos, o orgulho e a vaidade, impedem a compreensão desta realidade. Seja como for, o fato é quenos identificamos com uma visão muito limitada de nós mesmos, baseada no desejo, na ignorância, na ilusão, na necessidade de aceitação, de auto-afirmação, e essa visão limitada corresponde só a uma pequena parte de nós. Assim, divididos, separados, fragmentados, cheios de conflitos internos, vamos projetando tudo isso, vamos criando conflitos com os outros e alimentando a separatividade. Em síntese, identificamo-nos com aquilo que reconhecemos ou aceitamos em nós e rejeitamos, nos outros, aquilo que não reconhecemos ou não aceitamos em nós. Vivemos a fazer julgamentos, identificados com a parte da história que achamos ser a melhor. Rotulamo-nos e ficamos identificados com rótulos que nos atribuímos. Sempre que emitimos um julgamento, como por exemplo: “isso é raiva” e “isso é paciência”, rotulamo-nos como pacientes, nos identificamos com este quadro e ficamos cegos para as situações de raiva ainda não observadas. Justificamos aquelas já observadas e ficamos cegos para os aspectos da raiva ainda não reconhecidos. Esta postura dificulta muito, quando não impossibilita, qualquer tipo de mudança, qualquer tipo de evolução. Limitamo-nos. Não há mais o que conhecer sobre a raiva. Como previamente determinamos, somos “pacientes”. A identificação é uma escravidão que nasce da insegurança, da necessidade de aceitação e de auto-afirmação, de uma mente frágil e divida pelos egos. Se nos atribuem rótulos favoráveis, se nos elogiam, sentimos prazer, nos identificamos, de pronto, como a imagem positiva que fizeram a nosso respeito. Identificados, cegos e fascinados, tudo fazemos para correspondermos às expectativas que depositaram em nós e recebermos mais e mais elogios. E, nessa busca incessante por aceitação e prazer, vamos nos escravizando. Enquanto estivermos identificados, estaremos apenas trocando de rótulos. Embora sejam rótulos mais bonitos e agradáveis, continuarão a ser rótulos, e nós continuaremos cegos. Na realidade, não existe importância ou valor para qualquer rótulo que possamos receber em função de nossas falhas, de nossos atos fora de padrão. Se estamos atribuindo importância aos rótulos a nós destinados, que acreditamos ser negativos, maus, inferiores, é porque estamos identificados com rótulos que acreditamos ser positivos, bons, superiores. Para nos conhecermos melhor, precisamos, ao invés de nos identificarmos conosco, ser imparciais. A projeção pode ser uma arma poderosa para o auto-conhecimento. Mas, antes de analisar terceiros para melhor nos conhecermos, precisamos estar totalmente livres de qualquer identificação, precisamos ser totalmente imparciais. Conta a mitologia grega que Medusa, um ser monstruoso, com serpentes na cabeça, presas pontiagudas, mãos de bronze e asas de ouro, tinha o poder de petrificar aqueles que a olhassem diretamente. O herói Perseu, enviado para exterminá-la, utilizou então um escudo mágico de metal polido, que refletia a imagem de Medusa como se fosse um espelho. Desta forma, pôde decapitá-la com a espada de Hermes. Esta lenda ilustra bem a proposta desta reflexão. Ainda, a título de ilustração, reproduzimos as palavras de Samael Aun Weor em seu “Tratado de Psicologia Revolucionária”: Do mesmo modo que é indispensável aprendermos a caminhar no mundo exterior para não cairmos em algum precipício, para não nos perdermos nas ruas de uma cidade, para selecionarmos nossas amizades, para não nos associarmos com pessoas erradas, para não ingerirmos veneno, etc, assim também, mediante o trabalho psicológico sobre nós mesmos, precisamos aprender a caminhar no mundo interior, o qual é explorável pela auto-observação. Para aquele que tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, corpos falam, olhares falam, paredes falam, gestos falam, palavras dizem muito mais do que os sentidos normais podem perceber. O interior dos homens se revela através de seu exterior. É possível enxergar bem além das aparências. Empresas especializadas em sistemas de Call Center, utilizam uma técnica conhecida como desidentificação, a fim de evitar que os atendentes se irritem e maltratem os clientes. A técnica é aplicada atribuindo a cada um dos atendentes um nome fictício, que pode variar. Na verdade, trata-se de um artifício, de uma muleta, destituída de uma compreensão correta do que seja a não identificação. Porém, neste procedimento, os funcionários atendem às ligações como se fossem outras pessoas, uma vez que a identificação de si mesmos com o próprio nome é praticamente inevitável e traz conseqüências. Se o atendente utilizasse seu verdadeiro nome nesse sistema de comunicação, ao ser ofendido pelo cliente, iria se sentir diretamente atingido. Mas, atuando desta forma não identificada, acaba vendo tudo como uma brincadeira. Será que é necessário utilizarmos esse tipo de muleta? Será que é impossível, no dia-a-dia, percebermos que não somos um nome, uma personalidade, uma imagem mental? Será que é impossível percebermos que a vida é uma brincadeira, um jogo, um filme? A identificação pode acontecer sob as mais variadas formas, tão variadas quanto podem ser variadas as experiências de cada um de nós. Todos estamos identificados com nós mesmos, com nossos nomes – temos a sensação de sermos o nome. Assim, quando os atendentes da empresa assumem um outro nome, a sensação é de que são outras pessoas ou de não serem eles mesmos. Por conseguinte, vêem as ofensas recebidas como sendo dirigidas a outra pessoa. Estamos identificados com nós mesmos, com nossos nomes, personalidades. Temos a sensação de sermos o nome, de sermos a personalidade. Vivemos fascinados pelo personagem que criamos; nos apaixonamos profundamente por este personagem, por nossa personalidade. E, como todo apaixonado, não conseguimos perceber a realidade. Por vezes ocorre de estarmos vivendo uma situação parecida com a que uma outra pessoa também já viveu de maneira prazerosa. Neste caso, a pessoa irá se lembrar dos momentos vividos, se identificar neles, e tenderá a nos ajudar, a nos apoiar ou elogiar. Em contrapartida, a reação de alguém que passou por situação simular e não sentiu prazer nessa experiência provavelmente será a de reclamar, introduzir- nos medo e apreensão, desencorajando-nos, em virtude da identificação. Há também o caso daqueles que não passaram pela situação mas que desejam passar por ela um dia. Estes, ao se identificarem, podem reagir de duas maneiras: sentir inveja e criticar ou ficar feliz por nós e nos apoiar, nos elogiar. Uma outra hipótese, ainda, é a de alguém que não passou pela situação, desejaria ter passado por ela, mas acha que já não é mais possível. Este, ao se identificar, pode ficar enfurecido e não aceitar, e aí seus egos saltarão das sombras, ou pode, por outro lado, se alegrar, realizando-se através de nós. Todas as formas de nos auto-definirmos, nos auto-conceituarmos, nos rotularmos, devem ser deixadas para trás, devem ser postas de lado, para que possamos ter paz, para que nos tornemos pessoas livres. A identificação com funções, com riqueza ou pobreza, com religiões, com alegrias ou tristezas, com sofrimentos e aflições, ou até mesmo com a própria aparência física, surge de condicionamentos que absorvemos desde o nascimento. É sábio identificar e descartar tudo isso. A personalidade, os egos, querem tudo para si, acreditam que tudo existe em função deles. Assim, se alguém elogia um trabalho que executamos, por exemplo, nos identificamos e tomamos o elogio para nós; se alguém expressa gratidão por nossas ações, tomamos essa gratidão para nós. E, quando tomamos essas manifestações para nós, para a nossa personalidade, para o nosso ego, passamos a projetar, a fantasiar. Acreditamos que somos ótimos, que nos adoram, que nosso trabalho é maravilhoso, que somos extremamente competentes. Somos tomados por sensações de prazer, poder, fama, aceitação. O sofrimento está diretamente ligado ao fato de acharmos que somoso centro de tudo, à nossa ganância de elogios, prazeres, poder, fama, aceitação. Movidos por esses impulsos, não há como não sofrer diante da contraparte negativa das manifestações a nós dirigidas, ou seja, quando, ao invés de elogios, recebemos críticas, ofensas ou humilhação, o que despertará em nós um sentimento de inferioridade, impotência, rejeição. Por exemplo, quando alguém critica um trabalho que realizamos, tomamos a crítica para nós e nos identificamos, interpretamos o fato como uma questão pessoal e sofremos. E assim ocorre com cada uma de nossas idéias que venha a ser criticada, direcionamos essa desaprovação para nós. Sofremos, ficamos psicologicamente abalados, por acharmos que somos as nossas idéias. Precisamos perceber que não somos nossas idéias, não somos nossas tarefas, nosso trabalho, não somos o corpo, a personalidade, não somos uma imagem, um representação mental, não somos nossa casa, carro, roupa, não somos diplomas, títulos, cargos. Enquanto continuarmos a viver identificados desta maneira, viveremos como escravos das situações, sempre reagindo sem qualquer controle. Sempre reagindo, nunca agindo. A vida nos leva a fazer escolhas diárias entre o certo e errado, entre o bem e o mal, entre um extremo e outro. E muitas vezes achamos que nossas escolhas são as melhores, mas, como estamos identificados a um nível inconsciente, nem sempre conseguimos enxergar a verdade das situações. Assim, nossa reação será uma reação viciada pelo passado. E reagir já é um erro em si. Precisamos parar de culpar os outros pelo que nos acontece de ruim, precisamos tomar as rédeas das situações. Esta é a única maneira de modificá-las. Mas essa mudança nunca acontecerá enquanto acharmos que a culpa é dos outros, das condições externas, etc. Procurar culpas externas faz parte da fantasia, da fascinação, faz parte da identificação. Só conhecendo a verdade sobre cada aspecto da identificação é que conseguiremos nos libertar dela e compreenderemos o que é a identificação em sua essência. Por enquanto, podemos concluir apenas que nada sabemos sobre identificação, que somos ignorantes neste assunto. Qualquer tentativa, neste momento, de definir a identificação em nós pode limitar nossas experiências. Precisamos estar abertos, para que possamos nos permitir, cada vez mais, a descoberta, o conhecimento da identificação em nós. Precisamos estar abertos, para que possamos nos permitir, cada vez mais e mais profundamente, a descoberta, o conhecimento da identificação em si. Sobre a Ilusão da Aceitação e da Auto-afirmação A auto-imagem é uma ilusão, frágil, sobre si mesmo, que leva à insegurança, à necessidade de auto-afirmação, à necessidade de aceitação. A satisfação de tais necessidades provoca uma sensação momentânea de prazer. As pessoas se identificam, inevitavelmente, umas com as outras, seja por seus problemas, aflições, sofrimentos, posses, posições sociais, crenças religiosas, ou por suas necessidades aceitação, de auto- afirmação. E, assim, vão criando suas tribos, seus grupos. Grupos de drogados, de alcoólatras, executivos, médicos, religiosos, compostos pelos mais variados tipos de participantes: pessoas elegantes, milionárias, roqueiros, donas-de-casa, mães, solteirões, separados, etc. Como os integrantes desses grupos costumam pensar da mesma forma, acreditar nas mesmas coisas e ter as mesmas ilusões, acabam acreditando também que suas ilusões são reais. Por exemplo, quando duas integrantes de um grupo de mulheres elegantes se encontram, é comum vê-las trocando elogios, ou seja, projetando o que acham sobre si mesmas. Cegas pelo orgulho e pela vaidade, influenciadas por conceitos e valores distorcidos, identificadas, acreditam que são realmente lindas, elegantes, maravilhosas. A necessidade de aceitação e de auto-afirmação pertence aos egos, são pura ilusão. Pessoas com idéias, ilusões, padrões e valores contrários se rejeitam; pessoas com idéias, ilusões, padrões e valores similares, se atraem. Um indivíduo luxurioso se identifica com outro indivíduo luxurioso, os dois projetam mutuamente entre si seus egos de luxúria. Com isso, se sentem aceitos, se auto-afirmam. Por outro lado, um sujeito reprimido tende a rejeitar o luxurioso, mas também está apenas projetando seus egos de santidade, retidão. São meras repressões de seus egos de luxúria, uma espécie de inversão de valores. Desta forma, o luxurioso pode sentir as dores da rejeição e o reprimido os prazeres da auto-afirmação. É tudo uma grande insensatez. Ficamos a projetar incessantemente nossas virtudes e defeitos. Se nos identificamos, nos adoramos nos outros; se não nos identificamos, nos repudiamos nos outros. E, no final das contas, não há ninguém a nos rejeitar ou aceitar, é a nossa própria mente que faz isso conosco. Mais uma vez, somos vítimas de nossa própria ignorância. Ao nos auto-afirmarmos, vamos fortalecendo nossos egos, aumentando nossos lado sombra, nossas trevas, vamos aumentando nossas ilusões sobre nós mesmos e sobre a realidade. E continuamos a nos projetar e nos identificar, a rejeitar ou aceitar, projetando nossos próprios reflexos nos outros. Enquanto não nos aceitamos, não paramos de correr atrás da aceitação dos outros. Mas o desejo de sermos aceitos traz junto consigo o medo da rejeição. Quando, enfim, nos aceitamos, alcançamos a libertação. Já não somos mais escravos de nossos demônios ou dos demônios alheios, tampouco do nosso orgulho ou do orgulho alheio. Quando nos aceitamos, já não nos importa se nos acham feios ou bonitos, gordos ou magros; passamos a compreender que éramos prisioneiros de conceitos e preconceitos sem fundamento. Neste momento, já somos capazes de aceitar os que pensam da forma que pensávamos antes, pois sabemos que essas criaturas encontram-se aprisionadas em suas idéias. Neste momento, já somos verdadeiramente capazes ter compaixão, pois compreendemos o sofrimento daqueles que agonizam nas próprias prisões que criaram. Sobre a Ilusão da Superioridade e da Inferioridade Alguns acreditam que, por terem mais dinheiro, ou um carro mais caro, uma casa maior, um cargo melhor, uma posição hierárquica mais alta, mais escolaridade, mais erudição, são mais ou melhores do que outros. Porém, há um fato insofismável, que não pode mudado: todas as pessoas são apenas pessoas. Diz Mestre Samael, em uma de suas conferências: O homem, mesmo que seja muito perfeito, na realidade, mesmo que chegue a ser um Boddisattwa, não é mais que isso: um homem. Deus é o Pai que está em secreto; só ele é Deus. Não há certificado, crachá, carro ou bens que possa mudar o que somos. Não adianta ter, ter e ter. A questão não é “ter”, mas “ser”. E, quando se “é” verdadeiramente, percebe-se que ninguém é mais ou menos do que o outro. A formação familiar, a influência dos professores, os conceitos e preconceitos existentes na sociedade, introduzem a idéia de que umas pessoas são melhores do que outras, induzem a competição, segundo seus valores. Disto decorre a necessidade de auto-afirmação, de aceitação, que certos indivíduos têm, bem como o seu orgulho e a sua vaidade. A conseqüência dessa postura é a repressão, a auto-cobrança, o desejo, o sofrimento. De tanto que somos criticados, de tanto que somos cobrados, acabamos achando que aquele que nos critica e nos cobra é maior e melhor do que nós. Mas isto é apenas uma impressão fabricada por nossa mente, não é a realidade. A possibilidade maior, nesses casos, é que são os nossos próprios críticos que não se aceitam, que se cobram, que se criticam ou se culpam demais. Nós estamos somente desempenhando o papel de objeto de suas projeções. Não há ninguém acima de nós. Se temos esta impressão, esta sensação, é porque estamos, nós mesmos, colocando-nos para baixo. E, sendo assim, precisamos reavaliar nossos pontos de vista, nossasimpressões e sensações. Libertarmo-nos da idéia de que não há ninguém acima de nós é bem mais fácil do que nos libertarmos da idéia de que somos superiores. Sobre a Ilusão do Auto-conhecimento Os indivíduos acreditam que se conhecem e que conhecem os outros. Na realidade, o que eles conhecem é apenas a máscara que lhes é apresentada. E mesmo assim, muito mal. Estamos acostumados a atribuir rótulos às pessoas que nos cercam. E, quando não conseguimos fazê-lo, passamos a ver como estranhos aqueles que escaparam dos nossos rótulos. Passamos a temê-los, uma vez que parecem estar fora de nosso controle. Disse um grande Mestre: Necessitas confiar em ti mesmo. Dizes que te conheces muito bem? Se assim pensas, não te conheces; conheces apenas o débil envoltório externo que freqüentemente tem caído na lama. Auto-conhecimento não é a acumulação de informações sobre nós mesmos. Auto-conhecimento é a percepção dos mecanismos de operação da memória, pensamento, mente, instintos, emoções e sentimentos. Sem o auto-conhecimento, os demais conhecimentos podem ser até perigosos. Quanto mais acumulamos conhecimento sobre nós mesmos, sobre o que é o medo, a raiva, o sofrimento, mais nos cegamos. Vamos achando que mudamos, que evoluímos, que não temos mais este ou aquele defeito. E nesta cegueira seguimos vivendo miseravelmente. Sofremos, sentimos mágoas e medos, sem sequer perceber a ação destes sentimentos em nós. Isto acontece porque não somos sinceros ao olharmos para dentro de nós mesmos. Não estamos verdadeiramente decididos a nos conhecer, a nos purificar, não compreendemos realmente o que se passa dentro de nós. Somos feitos de muitos aspectos. Alguns são conhecidos por todos, outros apenas pelos mais próximos, há aqueles que só nós conhecemos e os que só nós desconhecemos, e ainda há os aspectos que ninguém conhece, estes “só Deus sabe”. Compreender é a meta. Através do auto-conhecimento, do discernimento, podemos alterar nossos estados internos. O entendimento é o primeiro passo; a prática, o segundo. O auto-conhecimento não é a auto-aplicação de rótulos. Ao notarmos que precisamos mudar, melhorar, começamos a nos rotular. E assim vamos atribuindo rótulos melhores para as nossas partes “deficientes”. Mas, enquanto não percebermos que somos ignorantes em relação a nós mesmos, que não nos conhecemos; enquanto não observarmos que quanto mais nos explicamos, menos sabemos sobre nós, enquanto nada disso acontece, vamos acreditando que nos conhecemos cada vez mais e melhor. Na verdade, estamos apenas trocando rótulos. O auto-conhecimento foi trocado pelo prazer de rotular, pelo amor próprio, pela auto-importância, por sentimentos que, desde há muito, vêm nos cegando. O que as pessoas conhecem das outras é o comportamento padrão, condicionado pela sociedade, pela falsa moral - os ditos “bons costumes” -, pelo medo, pelos conceitos e preconceitos, pelos vícios de conduta fortemente arraigados, pelo mecanicismo. Existe uma infinidade de defeitos e virtudes ocultos dentro de cada um. A partir de tal premissa, é possível justificar por que algumas pessoas, aparentemente calmas e afáveis, são capazes de, num rompante inesperado, cometer crimes, assassinatos, estupros. Tais circunstâncias só nos surpreendem porque achávamos que conhecíamos a pessoa em questão. O ser humano é um mistério, e pouco sabemos deste mistério. Uma pessoa que aos nossos olhos pode parecer mesquinha, egoísta, avarenta, muitas vezes se dedica a grandes obras de caridade ou trabalha como voluntária em louváveis projetos de inclusão social, sem que ninguém saiba. Disse uma grande sábia: Uma pessoa tida com caridosa pode ser arrogante, convencida e até mesmo cruel em seus relacionamentos pessoais, pode ser gentil com os animais e duros com os seres humanos ou gentil com os seres humanos e indiferente para com animais e plantas. Quem vai saber o que se passa na mente daquela pessoa que sempre nos cumprimenta com um sorriso habitual? Talvez ela esteja pensando: “Lá vai aquele idiota, aquele chato”. Quem saberá? Um sorriso amigável, que nos causa simpatia, não define o caráter ninguém. Pode ser até que aquela pessoa aparentemente simpática seja generosa e boa. Mas, novamente, quem saberá? Se nos mantivermos abertos e observarmos cuidadosamente as pessoas, poderemos chegar a conclusões mais apuradas, e até contraditórias. Mas, para isso, temos que ser livres de preconceitos, temos que ser imparciais. Não temos como saber como alguém vai reagir em diferentes situações de pressão, não temos como prever os limites de cada um, não temos como conhecer o estado emocional do outro, em determinados momentos. Seqüências diferentes de acontecimentos podem levar pessoas a ações muitos diferentes em acontecimentos isolados. Muitos indivíduos fazem coisas que eles mesmos chegam a duvidar, posteriormente, que foram capazes de fazê-las. Não é raro vermos nos jornais autores de crimes bárbaros dizerem às autoridades que não sabem explicar o que aconteceu. As pessoas, muitas vezes, se modificam conforme o ambiente e as pessoas com quem convive. Assim, costumam assumir diferentes comportamentos e facetas em função de cada contexto, ou seja, junto à família, na companhia de amigos, no local trabalho, quando estão a sós com outro alguém e na intimidade de seus próprios sonhos. Não nos conhecemos. Como podemos afirmar que nos conhecemos? Como podemos afirmar que conhecemos o outro? Não, não podemos. Acreditar nisto é só mais uma fantasia que nos dá uma certa segurança, ou melhor, uma certa sensação de segurança, uma referência que nos ajuda a viver. O auto-conhecimento só começa a se tornar possível quando admitimos nossa ignorância, nossa miséria, nossa nulidade. A partir de então, vamos deixando de carregar o peso do orgulho e da vaidade. Paulatinamente, vamos diminuindo a auto-definição, a identificação, o que nos tornará abertos para nos conhecermos, para conhecermos os outros, para conhecermos o mundo. O fato de não conseguirmos perceber defeitos em nós não significa que somos evoluídos. Ao contrário, significa que estamos cegos, adormecidos, que não nos aceitamos como somos, que não nos conhecemos. A busca por auto-conhecimento não pode ser uma busca por perfeição, já que a perfeição é produto do orgulho, da vaidade, e um fardo muito difícil de ser carregado. A busca por perfeição, mais cedo ou mais tarde, nos levará a achar que somos melhores que os outros, que já somos isso ou aquilo. Então o auto- conhecimento não será possível. Uma famosa psicóloga junguiana disse certa vez: Individuação significa ser revelado como pessoa total – não perfeita, senão completa. Segundo Jung, todo indivíduo possui uma tendência para a individuação ou auto-desenvolvimento. Individuação é um processo de desenvolvimento da totalidade dentro de cada um, e, portanto, um movimento em direção a uma maior liberdade, é um processo de integração das várias partes da psique. E, decerto, essas partes não são perfeitas em sua totalidade. O auto-conhecimento amplia a consciência, diminuindo o egocentrismo, diminuindo desejos, temores, esperanças, expectativas, ambições de caráter pessoal, que sempre compensamos ou invertemos de forma inconsciente. O auto-conhecimento faz parte de um processo de desenvolvimento do Ser em seu objetivo de tornar-se uno. Não é um processo de desenvolvimento da personalidade, não é um processo direcionado para a obtenção de maior aceitação, reconhecimento, erudição, auto-afirmação, segurança, felicidade, prosperidade, riqueza; não é um processo que visa retorno, que visa a satisfação dos sentidos. O auto- conhecimento é um processo que se caracteriza pela devoção, pela entrega e pela veneração, onde reconhecemos e compreendemos os animais, os demônios, que vivem em nosso interior e os sacrificamos aos pés da Divindadeque existe dentro de cada um de nós. No processo do auto-conhecimento, precisamos desnudar e compreender personalidade, que é formada por muitos egos. Ao dissolvermos esta máscara, descobrimos que, embora ela aparente ser individual, é um resultado da sociedade e do tempo, visto que é na interação com os outros que vai se formando. Descobrimos que ela nada tem de real, que não passa de um conglomerado de conceitos e preconceitos, de padrões sociais, culturais e de época, de experiências, memórias, preferências, crenças, medos e temores. Somos levados, por falsos conceitos, a crer na individualidade, no “eu mesmo”. Mas enquanto existir um ego dentro de nós, não teremos nossa individualidade, nossa unicidade. O ego não deve, em hipótese alguma, se confundir com o Ser. A mente não pode compreender a mente, um ego não pode compreender outros egos. Precisamos da consciência para compreender os egos, e precisamos do sopro Divino para eliminar esses egos, uma vez compreendidos. Em Mateus 12, as palavras falam por si: 22 – Trouxeram–lhe, então, um endemoninhado cego e mudo; e, de tal maneira o sarou que o cego e mudo falava e via. 23 – E toda a multidão se admirava e dizia: Não é este o filho de Davi? 24 – Mas os fariseus, ouvindo [isto,] diziam: Este não expulsa os diabos senão por Belzebu, príncipe dos diabos. 25 – Jesus, porém, conhecendo os seus pensamentos, disse–lhes: Todo reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá. 26 – E, se Satanás expulsa a Satanás, está dividido contra si mesmo; como subsistirá, pois, o seu reino? 27 – E, se eu lanço fora os diabos por Belzebu, por quem os lançam fora, então, os vossos filhos? Portanto, eles mesmos serão os vossos juízes. 28 – Mas, se eu lanço fora os diabos pelo espírito de Deus, é conseguintemente chegado a vós o Reino de Deus. 29 – Ou, como pode alguém entrar em casa do [homem] valente, e furtar os seus bens, se primeiro não manietar o valente, saqueando, então, a sua casa? 30 – Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha. Sobre a Ilusão do Controle Passamos a vida reclamando, desesperados, estressados, infelizes, por causa das condições do mundo exterior. Queremos controlar a tudo e a todos, vivemos na ilusão de que podemos controlar o que é externo a nós. Mas tudo não passa de uma sensação. Elaboramos planos para nossas ações, planos que também nos dão a confortável sensação de controle. No entanto, esquecemos que a vida tem seus próprios planos, nosso espírito tem seus próprios planos. Um planejamento simples, como por exemplo, acordar cedo, tomar um banho, vestir tal roupa e sair para trabalhar, pode não ser tão garantido quanto parece, uma vez que depende de condições exteriores, alheias à nossa vontade. Vários contratempos podem acontecer e nos fazer acordar mais tarde, impedir o banho planejado, o uso da roupa previamente escolhida e a saída para o trabalho naquele momento. A princípio, a situação parece depender apenas do sujeito que a planejou. Mas suponhamos que sua mãe ligou dizendo que estava passando mal e precisava de ajuda para ir ao hospital, ou que faltou energia para o seu banho quentinho, ou que a empregada queimou a roupa que ele pretendia vestir, ou que o cachorro do vizinho latiu a noite toda e ele só conseguiu dormir tarde da noite, e dormiu tão pesado que passou do horário. Como se pode notar, há muitas variáveis entre um plano e sua execução. Sabemos que a coisa funciona assim. Mas é mais cômodo acreditarmos que estamos no controle, iludidos por confortáveis sensações. No exemplo acima, o sujeito fantasiou uma situação, ainda que cotidiana e simplória, e acabou por se frustrar. Estava planejando um dia de paz, mas teve que se confrontar com situações externas e alheias à sua vontade. A condição de paz seria: que o telefone não tocasse, que o sujeito não precisasse desviar seu caminho, que houvesse energia elétrica disponível naquele momento, que a empregada não tivesse queimado a roupa, que o cachorro não latisse. Se num caso de planejamento isolado é possível ocorrer tantos contratempos, podemos imaginar como seria se os planos fossem feitos em conjunto. Nada além do universo interior pode estar sob nosso controle, e é exatamente esse universo que entregamos nas mão de nossos demônios e dos demônios dos outros também. As ilusões de que temos controle, as sensações de que estamos no controle, nos dão uma idéia segurança, uma falsa idéia, pois são meras ilusões, meras sensações. O desejo de controle gera o medo do descontrole, o desejo de segurança gera o medo da insegurança. Queremos controlar o trânsito, os sentimentos e as emoções alheias, as condições do tempo, o dinheiro, o trabalho, as tarefas diárias, etc. Temos medo de que algo dê errado, de que algo escape de nosso controle. O que preferimos ignorar é que, na realidade, nada esteve sob nosso controle. Como controlar o dinheiro? Impossível, pois inúmeros imprevistos podem acontecer. Podemos controlar, sim, a ganância, o consumismo, a tendência ao desperdício. O dinheiro não. A ganância, o desejo de ter sempre mais, está dentro de nós. O consumismo é uma ilusão, uma compulsão, que também está dentro de nós. E o que está dentro de nós é passível de controle. Há pessoas que passam a vida planejando e nada fazem. Sempre encontram possibilidades de falhas, erros, catástrofes, e hesitam diante delas. Planejar é algo um pouco diferente de tomar as medidas necessárias para fazer algo acontecer. É comum, quando algo dá errado após exaustivos planejamentos, nos exasperarmos e dispararmos uma série de queixas, dizendo que nos matamos de trabalhar, que pensamos em todos os detalhes, que nossos planos eram perfeitos, que não é justo o ocorrido. Porém, não nos perguntamos se chegamos a acreditar que realmente poderia dar certo. Provavelmente, estávamos mais preocupados com o que poderia dar errado. Estávamos mais preocupados em controlar. Acabamos por gerar fadiga, estafa, ansiedade, na tentativa desesperada de controlar o mundo externo. Mal conseguimos controlar o presente, e ainda assim pretendemos controlar futuro. Não conseguimos aceitar aquilo que não está sob nosso controle. Somos inseguros demais, não temos fé suficiente para saber aceitar o que não dominamos. Algumas vezes, podemos até ter um certo grau de influência sobre as coisas, mas isso não é controle, e logo saberemos. Uma grande sábia indiana disse: A vida consiste em enfrentar numerosas responsabilidades, as demandas de uma situação particular, as pessoas com quem estamos envolvidos, a família, os colegas de profissão. Assim o mundo nos induz a ações involuntárias. Podemos ter a impressão de que temos uma certa escolha, no casamento, por exemplo, nas amizades que fazemos ou nos interesses que cultivamos, mas a escolha é freqüentemente bastante ilusória. O casamento pode parecer resultado de uma livre opção, mas de fato as circunstâncias nos põem em contato com um número muito limitado de pessoas, e os nossos impulsos interiores entrando em ação naquele contexto e naquele circulo particular, criam uma escolha que não é realmente verdadeira. Nós praticamente caímos nos braços da situação. Se formos inteligente o suficiente, poderemos tirar o melhor proveito dela. De qualquer modo, desde a infância as condições exteriores nos impõem padrões e valores que assimilamos inconscientemente, essas são as fontes dos impulsos ocultos que resultam em ações. No Oriente, fala-se sobre uma escravidão pelo karma. O karma não é uma lei abstrusa agindo no universo, tão pouco é um processo abstrato, ele se manifesta em nossas vidas porque somos dominados por nosso ambiente e pelas condições à nossa volta, nós somos levados a ações em busca involuntária, porque desde cedo em nossasvidas, absorvemos como uma esponja as idéias e valores predominantes em torno de nós. Esses valores são de muitos tipos, geralmente estamos inconscientes de suas implicações. Podemos alterá-los um pouco, mas apesar de tudo aceitamos o condicionamento. As nossas buscas, que parecem ter sido feitas livremente, surgem do solo dessas noções que absorvemos. Quando percebemos nossa ignorância, nossa nulidade, quando abrimos espaço para errar, quando abrimos mão do controle, estamos nos abrindo também para a incerteza. Pode parecer contraditório, mas somente a incerteza pode nos trazer confiança. O controle não pode nos dar segurança, confiança, a própria idéia de controle traz consigo a insegurança, o medo do descontrole. Entregar-se às incertezas é uma demonstração de fé, de devoção. É como dar um passo para um abismo, onde somente a fé pode nos sustentar. E, quando damos este passo, sentimos a força da liberdade, da paz, do amor. Sobre a Ilusão do Futuro (A Fuga do Presente) A busca de prazeres externos através da TV, seja assistindo jogos, shows ou novelas, é uma fuga da realidade. Essas formas de entretenimento não passam de ilusões para tentarmos suprir o vazio interior. Existem lares em que cada pessoa tem sua própria televisão. Assim, vivem mais intensamente sua alienação particular, sua ilusão. Distanciando-se do convívio com o outro, não precisam se ver no espelho. A busca destes prazeres acaba se tornando um vício, que transforma essas pessoas em vídeo- dependentes. O mesmo também costuma acontecer no mundo virtual, proporcionado pelo computador: jogos eletrônicos, e–mails, salas de bate–papo, mensagens instantâneas, etc. Outro dia um certo palestrante contou uma historinha: Uma mãe entra no quarto e vê o filho assistindo TV. Pergunta se está tudo bem, preocupada com o fato de ele estar ali já há um bom tempo. O filho responde que está tudo bem e diz à mãe que, se algum dia ele adoecesse e ficasse dependente de uma máquina, preferia morrer. Então a mãe lhe responde que ele já pode morrer, já que está totalmente dependente da TV. Quando assistimos TV, costumamos nos projetar e nos identificar com os personagens e com as situações de um filme, uma novela, etc. Choramos, sentimos raiva, ficamos tristes, nos realizamos através desses personagens. Com essas identificações, fortalecemos nossos egos, nossas mágoas, nossos sofrimentos, nossas fantasias, nossos medos, condicionamentos, padrões. Casos de sofrimento, de heroísmo, fortalecem o herói lutador e sofredor que carregamos dentro de nós. Precisamos renunciar ao sofrimento. E isto significa renunciar ao nosso passado mal interpretado, mal compreendido. Isto significa renunciar ao que somos para que possamos nos tornar algo que não somos. A diferença entre ilusão relacionada à televisão e a ilusão relacionada ao futuro é que, quando desligamos a TV, sabemos que nada daquilo era real, ao passo que, na ilusão direcionada ao futuro, o filme nunca acaba, e passamos a tê-lo como uma verdade. Um bom exemplo disso é a fantasia depositada nos filhos. Acreditamos que o nascimento de um filho pode melhorar o casamento e a vida, começamos a fantasiar o que irá acontecer a partir de sua existência. Passeios, a primeira palavra, um cônjuge agradecido e feliz, uma família invejável, ensinamentos que podemos passar à criança, seu crescimento saudável, sua formatura na faculdade, seu sucesso, uma grande carreira grande profissional. A fantasia vai longe. Quando olhamos um filho, estamos olhando muito mais para a nossa fantasia do que para o próprio filho. E ficamos felizes por isso. Vivemos a fantasia. Antes mesmo que a criança faça alguma coisa, já ficamos gratos pelas alegrias que ela poderá nos dar. Realizamos nossas frustrações através dela, fantasiamos que desta vez tudo vai dar certo, que estamos mais maduros. Este novo ser realizará tudo o que não tivemos chance de realizar. E a fantasia voa cada vez mais longe, ao ponto de nos esquecermos da realidade, da vontade do filho. Nada é levado em conta, somente nossos sonhos, nossas utopias, nossos desejos. É como um filme que se projeta em nossa mente. Com isso, a frustração é praticamente inevitável. É certo que o mesmo não se dá exclusivamente no caso dos filhos e pode ser estendido para muitas esferas. Também pode acontecer quando o foco é um emprego, um casamento, um namoro, viagens, um carro, um imóvel, etc. Vivemos fantasiando um futuro que poderá nunca existir. Com isso, perdemos a magia do momento presente, da realidade. Vivemos de fantasiar o futuro e esquecemos de um importante detalhe: quando o futuro chegar, quem garante que estaremos lá? Sobre a Ilusão do Otimismo e do Pessimismo Ter otimismo não é o mesmo que ter espiritualidade, não é o mesmo que ter fé. É apenas um padrão de pensamentos, de bons pensamentos. Mas mesmos os bons pensamentos são utilizados pelos egos - pelo ego da ganância, da vaidade, do orgulho, da ironia, do sarcasmo, etc. Acreditamos que rezar, pensar positivo, ser otimista, repetir frases positivas, pode fazer com que algo dê certo. Mas, nem nos momentos de nossas orações temos fé. A vida é feita de bons e maus momentos. Ver nesses momentos uma oportunidade de aprendizado é algo saudável. Valer-se do otimismo para negar os maus momentos ou ver os bons momentos com olhos pessimistas é negar a realidade. O otimismo é uma forma de pensar muitas vezes polarizada e frágil, visto que situações contrárias ou indesejáveis podem transformar um otimista em pessimista, com raiva da vida, com raiva de Deus. Espiritualildade nada tem a ver com o excesso ou com a falta de bens. Otimismo e pessimismo são dois pólos de uma mesma ilusão, de uma mesma falta de compreensão da vida. Um crê no pior, o outro no melhor – logo, ambos são crentes. Um se apega à idéia do pior, o outro se apega à idéia do melhor – logo, ambos são apegados. Um está condicionado pelo pior, o outro está condicionado pelo melhor – logo, ambos são condicionados. Aquele que tem fé, que tem sabedoria, não se deprime nos maus momentos nem, tampouco, entra em euforia nos bons momentos. As crenças geram recorrências, as recorrências reforçam as crenças. Uma vez que nossas crenças criam a realidade em que vivemos, melhor ser otimista. Mas nada ou muito pouco disso pode contribuir verdadeiramente para a nossa evolução espiritual. Pensamentos, positivos ou negativos, são apenas o resultado de conceitos, preconceitos, valores ou padrões previamente formados e a identificação que se faz com eles. De um modo geral, alguns gurus do “pensamento positivo” incitam as pessoas a pensar em dinheiro, a imaginar que tem dinheiro, que está bem de vida, que já possui o carro ou a casa dos sonhos, que atingiram o sucesso. Instruem-nas a visualizarem-se trabalhando em determinada empresa e a dizerem constantemente que se amam, que se aceitam. O que muitos não percebem é que, ao agirem desta maneira, estão dando vazão à ganância, à luxúria, à avareza, ao orgulho, à vaidade, aos apegos, aos desejos, ao egoísmo, à auto-adoração. É mais do que evidente que ninguém vai evitar de se magoar, de se sentir inferior, pelo simples fato de repetir diariamente para si mesmo que se aceita. O máximo que esses indivíduos podem conseguir é esconder um pouco as suas vulnerabilidades, o que é auto-engano. As frases típicas desse tipo de “pensamento positivo” nada resolvem. Também são uma forma de negar a realidade, de se auto-enganar. Nossa mente já vive abarrotada de idéias e conceitos, e está profundamente embotada por tudo isso. Logo, só pioramos o quadro ao congestioná-la ainda mais com essas frases de apelos “positivos”. De nada adianta dizermos todos os dias para nós mesmos que somos felizes, que temos sucesso, saúde ou outra tolice imaginária qualquer. Os imprevistos acontecerão,quer digamos ou não que temos saúde ou sucesso. De que adianta ficarmos repetindo belas frases de impacto, se não trabalhamos sobre nós mesmos? Sobre a Ilusão do Status e da Posição Social Somos escravos do desejo de fama, de poder, de status, de admiração, de adoração, de aceitação. É muito interessante observar como fantasiamos a nossa realidade profissional, social. Orgulhamo- nos, envaidecemo-nos por nossas posições sociais, nossos cargos. Quando encontramos alguém, não perdemos a oportunidade de falar onde trabalhamos, sobre o nosso cargo, nossas atribuições. Temos uma necessidade crônica de mostrar aos outros que estamos bem, de projetar nossas fantasias para o mundo. Segundo nossos conceitos, e os conceitos da sociedade, de um modo geral, uma pessoa que ocupa um cargo de destaque, que trabalha em empresa de grande porte, que mora em bairro nobre, é uma pessoa de sucesso, alguém importante, admirado. Inseridos na ilusão do mundo, cegos pelo desejo, pela auto-adoração, não conseguimos enxergar a realidade. Em verdade, nem queremos ver a realidade. Como já mencionado anteriormente, somos todos escravos do desejo de fama, de status, de admiração, de adoração, de aceitação. Somos todos escravos dos conceitos da sociedade, da mídia. Corremos atrás destes falsos brilhantes sem sequer perguntarmo-nos por quê. Distantes da realidade, conquistamos ouro de tolo com a sensação de termos conquistado ouro maciço. A mídia, a sociedade, os pais, todos nos dizem o tempo todo: estude nas melhores escolas, seja importante, um profissional de sucesso, famoso; mostre seu valor, esforce-se, realize seus sonhos. É isso que todo mundo quer. Seja competente, seja necessário, faça a diferença! Estimulam a competição e a disputa. Somos atirados ao ringue. Como conseqüência, pagamos o preço de conviver com a inveja, com a auto-cobrança, o ódio, a discórdia, a frustração, a insatisfação, o descontentamento. E vamos passando isso adiante, sem questionar. As escolas são classificadas, os alunos são classificados. Aqueles que obedecem, que conseguem se adequar mais e melhor aos padrões, aos interesses dos poderosos, aqueles que estão fascinados pela ração e bom pasto, são os bons bois, os bois que seguem felizes e contentes para o abatedouro. As empresas buscam seus profissionais dentro desta classificação. Ingenuamente, as pessoas são tomadas de orgulho e vaidade, e buscam, com todas as suas forças, o preparo necessário para atender tais interesses. Assim, vivem uma fantasia em função de seu status, orgulhosas e vaidosas de sua posição social, cargos, títulos. Não percebem, e não querem perceber, que estão escravizadas. Não percebem que estão numa senzala de luxo, até porque não suportariam tal idéia. Não percebem que estão fazendo o que não querem, o que não gostam, apenas para obter a cenoura que alguém pendurou na ponta da vara. Não há vantagem alguma em o ser chefe da senzala ou o líder de um grupo de escravos. Não é motivo de orgulho ou vaidade ser o escravo que dirige o carro de boi, ao invés do que corta cana; ser o capitão do mato, ao invés do escravo comum. A escravidão é a mesma. Antigamente, os escravos eram obrigados a fazer determinadas tarefas. Para cada tipo de tarefa era necessária uma determinada aptidão. Assim, os poderosos escolhiam os escravos a serem comprados a partir da análise de determinadas características. Atualmente, podemos, de certa forma, escolher a tarefa que vamos fazer. Mas devemos nos preparar para essa tarefa, devemos desenvolver as aptidões necessárias. Uma vez que, nos dias de hoje, o número de vagas é limitado e existem muitos pretendentes, os poderosos escolhem os pretendentes a partir de uma análise um pouco mais complexa e criteriosa. Como foi muito bem alegorizado no filmes Matrix e A Ilha, em um dado momento, alguém percebe que as pessoas trabalham mais e melhor quando existe algum tipo de esperança, de expectativa, por mais ilusórias que estas possam ser. Da mesma forma, em nosso dia-a-dia, somos estimulados pela esperança, pela expectativa de comprar nossas próprias roupas, nossa própria casa, nosso próprio carro, de conquistar status, fama, poder, de ter diversões, sensações de prazer, férias, qualidade de vida, viagens. Enfim, somos movidos pela ilusão de sermos livres, de fazermos o que quisermos, ainda que por alguns momentos. E, estas esperanças, estas expectativas, são permanentemente incentivadas, para que a máquina humana produza e consuma cada vez mais. Ninguém sofre por sofrer, ninguém permanece em uma situação de sofrimento sem que exista nela algum tipo de prazer, sem que estejam em cena a sensação de prazer momentâneo ou, sobretudo, a expectativa de prazeres futuros. E estas expectativas de sensações de prazeres futuros acabam por nos cegar, por embotar nossas mentes, tornando-nos prisioneiros de uma ilusão. A verdadeira qualidade de vida, as verdadeiras férias, os verdadeiros refúgios, estão na mente e no coração tranqüilos do sábio, do liberto dos desejos. A ameaça de ir para o tronco ainda ecoa pelos ares, sendo que os castigos de hoje se dão muito mais na esfera psicológica do que na física, e a crueldade desse tipo de castigo talvez seja ainda maior. Paralelamente, também ecoa a vaga esperança de escapar para algum quilombo. As barras das prisões, as paredes, as correntes, foram trocadas pelo aprisionamento das mentes, cultivando e desenvolvendo o desejo, o apego, a esperança, a expectativa, o sonho, a fantasia. E o resultado disto é muito mais devastador do que as prisões, as paredes, as correntes. Por uma tola ilusão, muitos de nós ainda trocamos as barras e as correntes de ferro das prisões psicológicas por barras de ouro, que passamos a adorar. Sobre a Inveja A inveja está ligada com a insatisfação, a ingratidão, a não aceitação, o descontentamento o fingimento, a mentira, a hipocrisia, a traição, a dissimulação, a maldade, a discórdia, a falsidade, a vingança, a falta de caráter, a fraqueza, a incapacidade e a incompetência. Identificados, fascinados pelas nossas fantasias, nós as projetamos para o mundo, acreditamos que elas são a realidade de nós mesmos. Deste modo acreditamos que as fantasias dos outros também são a realidade sobre eles. O que nos leva ao conflito, à irritação, à inveja, à competição, ao medo, à vergonha e ao desejo. A pessoa vaidosa quer aparecer, odeia todos aqueles que ofuscam sua imagem, a que ela tenta projetar. Logo, a vaidade traz também a inveja, o ser vaidoso sente inveja de qualquer indivíduo que pareça ser ou ter mais do que ele, quer a atenção e a adoração de todos, quer elogios e aplausos só para si. A vaidade envolve a inveja, a insatisfação e a privação dos outros. A vaidade envolve competição, conflito e humilhação, portanto, o resultado não pode ser bom. Todos esses sentimentos causam dor, sofrimento, violência, brigas e até mesmo guerras. A sensação de ser invejado é reflexo da nossa própria inveja, dos conceitos, dos padrões, da idéia do que isso vem a ser. Logo, um sujeito vaidoso é também um sujeito invejoso, insatisfeito; ou seja, projeta para os outros a sua inveja, sua insatisfação e tem a sensação de estar sendo invejado, admirado e adorado. Direta ou indiretamente, a vaidade causa sofrimento em quem a sente. Ela gera medo, insegurança, auto-cobrança, incerteza, dúvida, insatisfação, vergonha, timidez, inveja, sentimento de inferioridade, raiva, irritação, ansiedade e preocupação. Manifestações exageradas de dor pela dor de alguém podem encobrir uma certa satisfação. Podemos perceber nas conversas o quanto incomoda algumas pessoas quando contamos algo de bom que nos aconteceu, mas é só começar a contar uma tragédia que muitos outros se interessam. Os altos índices de audiência dos programas de televisão sobre o sofrimento, o drama e a desgraça alheia confirmam esse interesse. A inveja é a tristeza,a raiva, a mágoa com o bem alheio, é a alegria pelo mal dos outros. Ela gera sentimentos de impotência, inferioridade, insatisfação, descontentamento e ingratidão. Quando criticamos alguém, quando diminuímos, ofendemos, quando temos necessidade de falar mal de alguém, provavelmente estamos sentindo inveja. Na escola, na família e na sociedade são incentivadas a comparação e a competição, mas ambas levam à inveja que é condenada pelos mesmos que as incentivaram. É preciso abandonar a idéia de competição, pois os que ganham sentem prazer e os que perdem sentem inveja, raiva e buscam vingança. A própria sede de prazer é inveja e gera a condição de vingança. Existe uma inveja destrutiva, cheia de revolta, uma inveja que leva as pessoas a quererem destruir as outras pessoas, a estragar o que as outras pessoas possuem. E existe uma outra inveja que é auto destrutiva, uma inveja cheia de mágoas, de situações onde as pessoas se colocam como vítimas. As duas escondem crianças mimadas. A inveja autodestrutiva esconde um eu derrotista. A inveja esta baseada no desejo de vir a ser, do tornar-se, do conquistar algo, do ter algo para ser alguma coisa. Este é o desejo de ser alguém. A crença de que existe algo ali melhor do que o que esta aqui, característica de pessoas, bens, amizades, posições e empregos, gera inveja. Alguns aspectos da esperança escondem inveja. Se desejamos aquilo que os outros possuem é porque não estamos contentes com o que temos, não somos gratos e não reconhecemos o que recebemos. Ao invés de darmos atenção ao presente, de sermos gratos pelo que temos ou pelo que somos, estamos esperançosos por algo melhor que possa vir num futuro qualquer. Se mudássemos essa forma de pensar e nos tornássemos atentos àquilo que está ocorrendo, poderíamos ser gratos, poderíamos encontrar algo que nos trouxesse satisfação, contentamento, paz e felicidade. A renúncia leva à extinção da inveja. Aquele que renunciou ao luxo, ao status, à competição, às fantasias, às ilusões, à fama, às paixões, aos falsos brilhantes, e deixa de desejar essas coisas, está livre da cobiça e da inveja; já não precisa se preocupar com o que os outros pensam ou vão pensar. As pessoas generosas e altruístas, que mantêm seu coração aberto e compassivo, sempre se alegram com as conquistas, vitórias e alegrias dos outros. Seu real desejo é ver a felicidade do próximo. Já os egoístas e invejosos têm o coração endurecido por uma visão distorcida da realidade, onde estão presentes a competição, a maldade, a raiva, a tristeza e a frustração. Não sabem servir e acreditam que todos estão sempre a se aproveitar deles. A raiva que sentem dos outros é, no fundo, a raiva que têm de si mesmos. Essas pessoas desconhecem o que é gratidão, satisfação e contentamento; por conseguinte, desconhecem o que é paz, o que é felicidade. Vivem atormentadas por seus próprios demônios. A idéia de que os outros estão a se aproveitar, a abusar de nós, não passa pela mente dos altruístas, dos generosos e daqueles que têm um coração compassivo. Esse tipo de pensamento existe apenas no coração e na mente dos maldosos. Nada disso está nos outros, é apenas mais uma projeção, mais um auto-engano, mais um aspecto da auto-adoração e da auto-importância. A teoria da conspiração está na mente dos conspiradores, a maldade está na mente dos maldosos e a bondade no coração dos bondosos. Sobre a Lei da Atração A verdadeira Lei da Atração está no nível de ser predominante em cada um de nós. Se o nosso nível predominante de ser é a condição de bêbado, estaremos junto aos bêbados. Se o nível predominante é de o da miséria interna, estaremos junto aos miseráveis. Nascemos no seio da família “N” por sermos iguais aos nossos familiares. Estudamos com os colegas “X” por sermos também semelhantes a eles. Moramos no local “Y” por termos pontos em comum com os moradores dali. Trabalhamos com as pessoas “Z” por sermos similares a elas. O externo é o reflexo do interno. Para mudarmos o externo, devemos operar em nós profundas mudanças internas. Isto não significa mudar algumas idéias superficiais ou subjetivas. Aborda-se aqui uma mudança mais radical, uma mudança do nível de ser. Atualmente, fala-se muito sobre a Lei da Atração. No mundo espiritualista, diz-se que se deve pensar em dinheiro para atrair dinheiro, que se deve pensar em riqueza para atrair pessoas afins e, com isso, mudar de vida. O que as pessoas não percebem é que estão dando vazão à ganância, à luxúria, à avareza, ao orgulho, à vaidade, aos apegos, aos desejos, ao egoísmo, e que, desta forma, atrairão outros gananciosos, luxuriosos, avarentos, orgulhosos, vaidosos, apegados, desejosos, egoístas. As pessoas distorcem a Lei da Atração segundo suas idéias, necessidades, defeitos, fantasias e ilusões, na ânsia de satisfazer seus desejos. Esta Lei, que os indivíduos deveriam utilizar para observar o meio em que vivem e se auto- conhecerem, está sendo banalizada, mal utilizada, ridicularizada. Isto mostra o nível de degeneração da nossa humanidade, e, uma vez degenerados, não atrairemos nada além de outros degenerados. Pode até ser que algumas pessoas consigam melhorar sua vida financeira a partir de pensamentos direcionados, mas enquanto continuarem a carregar o fardo dos egos dentro delas, continuarão a sofrer ou sofrerão ainda mais. Muitos que buscam atrair prosperidade acabam por se auto-enganar e começam a negar a realidade. Uma coisa é não cultivar pensamentos negativos e outra, muito diferente, é negar a realidade. A Primeira Nobre Verdade do Budismo nos diz que o sofrimento é uma realidade humana. Dentro do sofrimento residem a raiva, as doenças, a mentira, a mágoa, o medo, a vergonha, a inveja, a tristeza, a rejeição, o desprezo, a indiferença, a perda, o ressentimento, a repressão, a ansiedade, a avareza, o apego, a exposição, o erro, a inferiorização, a humilhação, a infelicidade, o abandono, a dor. Se negarmos esses sentimentos, não seremos capazes de atrair prosperidade, pois estaremos praticando a mentira, o auto-engano, a falsidade. Ao contrário, o que iremos atrair são os enganadores, os mentirosos, os falsos. Frases positivas nada resolvem. Também são uma forma de negação da realidade, de auto- engano. Precisamos compreender a nós mesmos, compreender os nossos defeitos, as nossas misérias, os nossos sofrimentos. Precisamos morrer de instante em instante, de momento a momento. Estas práticas fazem parte da Terceira Nobre Verdade do Budismo, a Verdade da Extinção do Sofrimento. O objetivo do ser humano saudável é livrar-se das misérias da vida, ao invés de cultivá-las, fortalecê-las ou prolongá-las. Comentários e Questionamentos - Eu acredito na Lei da Atração, mas acredito que não seja necessário negarmos a realidade! Você tem razão! É preciso que procuremos nos conhecer mais profundamente e acharmos onde estamos no momento, o porque estamos e para onde queremos ir! Porém, é preciso que tenhamos objetivos e metas a seguir. Sem objetivos ou sem sonhos, não chegamos a parte alguma! Sonhos são fantasias, projeções da mente, as fantasias embotam a mente, precisamos parar de sonhar. Não podemos cultivar falsas expectativas, falsas esperanças. Infelizmente, todos nós vivemos de ilusões, de expectativas e esperanças fantasiosas, por exemplo, casar, conquistar a casa própria, ter filhos, um emprego melhor, um carro novo. Tudo isso é motivo de sofrimento. Sobre a Má Vontade Olhando para o mundo, podemos notar a má vontade dos governantes. Mas o externo é apenas um reflexo do interno. Assim, se olharmos para dentro de nós mesmos, veremos que o nosso mundo interno, nosso país interno, nossas cidades internas, são quase todas governadas pela má vontade. A má vontade permeia muitas das nossas ações, que podem se manifestar de forma grosseira ou sutil. Ela não é um dos 7 Pecados Capitais,mas parece colaborar com a atuação de todos eles. O Senhor Buda coloca a má vontade como um dos cinco obstáculos que distorcem a percepção e corrompem o nosso pensamento. Má vontade é o impulso negativo que nos impede de ver, ouvir, sentir, fazer, o que não queremos. Ela nos cega para o que é desagradável e para o que é contrário à nossa opinião ou desejo. Em um dado sentido, agir com má vontade não é muito diferente de roubar, enganar, trair, já que aceitamos fazer algo, assumimos fazer algo, e não o fazemos da devida maneira. Muitas vezes, a má vontade está ligada à raiva, brutalidade, vingança, grosseria, preguiça, desdém, desrespeito, desprezo, fraqueza, incapacidade, maldade. Também pode estar associada ao desejo de poder, à sensação de poder, de prazer. A expressão da má vontade mostra nosso orgulho, fraqueza, mágoa, dúvida, indecisão, mostra nossa falta de bondade, compaixão, compreensão, paciência, tolerância, contentamento, gratidão, satisfação. Ela aparece estreitamente ligada à auto-importância e o amor próprio, fruto da nossa auto-adoração. Afinal, amamos demais a nossa personalidade, somos por demais apegados a nós mesmos. Queremos ter prazer, ou sensações de prazer, em tudo o que fazemos. E, quando isto não ocorre, ficamos insatisfeitos, descontentes. E o que não nos traz prazer, fazemos com má vontade. Assim, a ausência de prazer em nossas ações representa um obstáculo, que resulta na má vontade. Mas isso só ocorre porque definimos, conceituamos, o que é bom e o que é ruim. Isso só ocorre porque nos apegamos às sensações prazerosas e repudiamos as não prazerosas. Falta-nos equanimidade. A má vontade acontece porque não sabemos servir, porque agimos em benefício dos outros, de outras personalidades. Não fazemos de nossas ações atos de devoção, de entrega, de servidão. Assim, do fato de se fazer algo para uma outra personalidade logo surge o herói, a vítima, o injustiçado, o sofredor. E, junto com eles, a mágoa, o ressentimento, a raiva. Agimos com má vontade quando não agem bem conosco. Nosso comportamento é condicionado, escravizado, dependente, profundamente inconsciente. Muitas vezes, quando tratamos mal as pessoas, quando somos impacientes, intolerantes com elas, quando nos irritamos e ficamos nervosos, é porque estamos dominados pela má vontade decorrente de conceitos que fizemos em relação a essas pessoas ou de nossas mágoas, por estarmos presos a situações do passado, apegados às situações de sofrimento do passado. E, principalmente, é porque nos falta bondade e compaixão. Logo, desenvolver e cultivar uma mente e um coração plenos de bondade e compaixão é a saída para a libertação. A má vontade se expressa através de críticas, reclamações, demonstrações de insatisfação consigo próprio e com a vida, em geral. Uma outra forma de expressão da má vontade é quando arrumamos desculpas, explicações, justificativas, para as nossas más ações, para a nossa miséria interior, o que revela falsidade, hipocrisia. Desculpas e explicações refletem um interior de desculpas e explicações para não aceitar nossos erros, para negar as manifestações do ego. Por má vontade, fazemos as coisas de qualquer jeito, sem atenção, sem capricho. Por medo, insegurança, agimos de má vontade, sem nos importarmos com o que fazemos ou para quem fazemos. Tudo o que queremos é nos livrar da tarefa assumida rapidamente. Também existe em nós muita má vontade para as práticas espirituais. O demônio da má vontade atua em nós de forma muito astuta, sempre com uma boa desculpa e explicação para tudo. E nos influencia a nos distanciarmos das práticas espirituais, sob o pretexto de que não as compreendemos, de que parecem não fazer sentido. Arrumamos desculpas, justificativas, como fôssemos muito bem intencionados e nada mais pudéssemos fazer para melhorar qualquer situação; como se a vida fosse da maneira que é e nada pudéssemos fazer para transformá-la; como se fôssemos o que somos e nada pudesse ser feito para nos modificarmos. Mas qualquer um de nós já deve ter passado por experiências que nos levaram a uma compreensão mais abrangente da vida e a uma conseqüente mudança, transformação. Ora, parece evidente que, se compreendêssemos a fundo certas situações, poderíamos mudar muitos outros pontos, até mesmo aqueles dos quais nem fazemos idéia. Sempre que percebemos algo novo, tudo parece tão claro, tão evidente, que, ao analisarmos racionalmente o ocorrido, mal conseguimos acreditar como não havíamos percebido antes tal situação. Podemos mudar, podemos mudar muito, podemos mudar radicalmente. Mas, para tanto, precisamos de muita vontade, força, decisão, firmeza. Os mais acomodados preferem acreditar que existe uma evolução no plano espiritual e que aqui no plano físico nada pode ser feito. Assim, acreditam que não precisam mudar suas atitudes, seus comportamentos, seus conceitos e opiniões. Acreditam que podem continuar a viver como vivem, que podem continuar a usufruir das sensações de prazer proveniente de seus desejos e paixões. Acreditam simplesmente que o corpo tem seus anseios e vontades, e nada pode ser feito para mudá-los. Acreditam que os julgamentos que a mente faz a partir dos sentidos não podem ser alterados. Mas todas as grandes religiões, todos os Mestres, ensinam que o primeiro passo está na mudança da forma de pensar e de agir. A Doutrina de Buda e o Cristianismo Místico são muito claros nisso. O Budismo ensina que o pensamento precede a ação. Ou seja, a mudança da forma de pensar precede a mudança da forma de agir. O exemplo dos iluminados, dos santos, dos mestres, está em seus comportamentos, suas formas de pensar. A legitimidade de um santo é expressa por atos, palavras, sentimentos, é expressa por virtudes. A santidade se expressa por meio de fatos. As mudanças internas são refletidas no mundo externo, ou seja, quando mudamos internamente, nossos atos, nosso comportamento, nossos interesses, os lugares que freqüentamos, também mudam. A mudança em nossa forma de fazer, pensar, sentir, imaginar, é a transformação em si mesma, é a própria transformação. Se não deixamos de sentir mágoa, raiva, inveja, não mudamos nada. Se não deixamos de pensar em perversidades, vinganças, volúpia, não mudamos nada. Se não deixamos de lado as grosserias, as fofocas, as zombarias, a confusão, as brigas, as disputas, não mudamos nada. A consciência, a compreensão e a vontade podem submeter o corpo. Os desejos podem ser compreendidos e eliminados. Não podemos confundir desejo com vontade, ou desejo concentrado com vontade, ou ainda o anelo da alma com o desejo mundano, egoísta. O ego pode e deve ser eliminado. Aqui ensinamos como isso pode ser alcançado. Julgar e classificar são coisas da mecanicidade da mente que precisa ser domada, treinada, e dos egos que precisam ser eliminados. O ego é algo estranho à natureza humana, e por esta razão deve ser eliminado. Infelizmente, a cada vez que retornamos a este plano, recomeçamos tudo praticamente do zero. Isso é algo que podemos constatar facilmente. Se as pessoas estivessem evoluindo, não haveria violência, guerras, capitalismo mais que selvagem, corrupção, promiscuidade, vícios. O ser humano é hoje muito pior do que o que foi no passado. E tudo aponta para que se torne pior a cada dia. O ser humano vem se degenerando a passos largos. As idéias de aprendizagem no plano espiritual, em provas propostas, em missões, são fantasiosas. É o desejo de continuar a fazer as mesmas coisas, a ter as mesmas sensações, é o apego ao mundo físico, é a auto-adoração, a nossa profunda ignorância e nossa tremenda má vontade que nos impede de ver tudo com clareza e agir com decisão, força, firmeza e vontade consciente na direção de uma mudança, de uma evolução efetiva, de uma evolução baseada em fatos concretos. Por má vontade, deixamos, às vezes, de fazer coisas que são necessárias, que fazem parte de nossa função, denossa obrigação. Por má vontade, podemos deixar de fazer coisas necessárias até mesmo à nossa sobrevivência, nossa subsistência. Por má vontade, podemos agir com lentidão, de forma demorada, ou mesmo negarmo-nos a fazer aquilo que nos é solicitado, a fazer favores, a prestar ajuda, a servir. É má vontade, quando, ao nos pedirem um favor, pedimos para esperar um pouco, dizemos que já vamos fazê-lo, que agora não dá. Assim, o que demonstramos é desprezo por aqueles solicitam nossa ajuda. Colocamos sempre o que estamos fazendo, as nossas coisas, como prioridade, são sempre mais importantes do que as necessidades do outro. Acreditamos que todos devem esperar pela nossa boa vontade, que geralmente acontece no momento em que não temos mais nada de importante a fazer. Ocorre que, muitas vezes, quando resolvemos enfim nos dispor a fazer aquilo que nos foi solicitado, já não é mais necessário, o tempo passou. E, ao invés de nos arrependermos, sentimos alívio por não termos mais de fazer aquilo que não queríamos. A questão não é se culpar, e sim se arrepender, reconhecer a falha e mudar, perceber a necessidade da mudança. Enfim, é por má vontade que nos sentimos incomodados quando nos solicitam ajuda, quando nos pedem algo. É por má vontade que reclamamos, dizendo que estamos ocupados, que estamos descansando, que não nos deixam em paz. Agimos também com má vontade quando nos omitimos por medo de errar, por falta de confiança, e vamos postergando, arrumando desculpas, justificativas, alegando falta de tempo, outras prioridades, esquecimento. O que costumamos fazer é tentar achar alguém que faça por nós aquilo que nos foi solicitado. Assim não corremos o risco de sermos mal vistos, de cairmos no conceito dos outros, de passarmos algum tipo de vergonha. Isso decorre da preocupação com a auto-imagem, com o que os outros vão pensar, com o que os outros vão dizer. Podemos, ainda, agir com má vontade por interesse, porque a demora, a lentidão ou a omissão pode nos trazer um benefício ilusório, uma sensação de estarmos levando vantagem. E, finalmente, quando nos identificamos com pensamentos comodistas, do tipo: “as coisas são difíceis”, “as coisas são complicadas”, somos tomados pela má vontade. É preciso renunciar à má vontade. Sobre a Mágoa Por mais que tentemos não magoar alguém, isso sempre acaba acontecendo, de uma maneira ou de outra. É inevitável. Na verdade, não somos nós que magoamos os outros, eles se magoam sozinhos. Assim como não são os outros que nos magoam, nós nos magoamos sozinhos. Quando nos preocupamos em não magoar uma pessoa, na realidade estamos preocupados com nós mesmos, temendo ser rejeitados ou que alguém nos veja de uma forma que não é aquela que desejamos mostrar. Geralmente, quando achamos que não devemos dizer certas coisas ao outro porque ele pode se sentir magoado, é porque o que queremos dizer nos magoaria, se nos fosse dito por alguém. É apenas mais uma projeção, mais um aspecto da projeção. Mas não é por termos consciência disto que vamos sair por aí dizendo absurdos e grosserias a terceiros. Ao percebermos que as pessoas são vítimas e escravas das situações externas, nossa responsabilidade aumenta, e, por esta razão, devemos respeitar as pessoas que estão nesse estado, ter compaixão para com elas, que ainda não podem enxergar a verdade que outrora também não enxergávamos. E, certamente, ainda teremos muitas outras verdades para descobrir. Assim, somente quando percebemos, por nós mesmos, que não são os outros que estão nos magoando, mas nós mesmos que ficamos magoados com nossos egos, é que podemos compreender os outros, compreender por que ficam magoados. Ninguém além de nós mesmos é responsável por nossos desejos, fantasias, ilusões, planos, expectativas, esperanças. Somos nós que criamos e alimentamos tudo isso. Da mesma forma, ninguém também pode ser responsabilizado por nossas frustrações, desilusões, decepções. A mágoa esconde a auto importância, o achar que os outros deveriam nos dar importância, reconhecer-nos pelo que fizemos ou achamos que fizemos por eles. A mágoa esconde a auto comiseração, a dó de nós mesmos, o achar que não deveriam dizer ou fazer coisas para nós por que não merecíamos ser mal tratados. Enquanto temos dó, piedade dos outros é porque também temos de nós mesmos. Enquanto achamos que o que vamos dizer ou fazer pode magoar alguém é porque ainda somos magoáveis e porque ainda nos preocupamos em não sermos magoados. É mais uma vez a auto importância projetada. Mas quando esta auto importância diminui a que se ter muito cuidado para que não esqueçamos dos outros, desrespeitando, magoando os outros, quando esta auto importância diminui a que se desenvolver a compaixão, a bondade. Sempre que contamos nossas histórias de mágoa, colocamo-nos no papel de heróis injustiçados, vítimas da maldade alheia, da crueldade do mundo perverso. Somos sempre os mártires que tudo fizeram pelo outro, sem receber qualquer demonstração de reconhecimento; somos sempre os traídos. Em nossas histórias, acreditamos ter agido sempre com generosidade, correção e justiça, criamos modelos convenientes em nossa mente, uma ilusão para compensar a situação real e, assim, nos sentirmos bem, nos sentirmos superiores. Muitos dizem que perdoam, mas não podem nem olhar para a pessoa em questão, não a querem ver nem pintada de ouro, e juram que nunca mais farão nada por ela. Outro grande erro é ficarmos computando quantas vezes ajudamos alguém, na expectativa de, em algum momento, sermos recompensados por isso. E, quando surge a oportunidade e a recompensa não acontece, ficamos profundamente ressentidos. Primeiro, nos julgamos heróis, que se matam pelos outros. Depois, nos comportamos como vítimas, acreditando só ter recebido deles injustiça e ingratidão. O fato de não querermos magoar terceiros, de não querermos ser rejeitados, só nos leva a um mundo de mentiras, de falsas desculpas, justificativas e explicações, de fingimento e dissimulação. Sentimos mágoa de muitas coisas, a mágoa ocorre em muitas situações. Mas nem sempre conseguimos percebê-la a fundo. Existem véus que encobrem a realidade, protegendo a psique, de alguma forma. Podemos ter noção de algumas mágoas, mas é raro termos total consciência delas. Nem sempre temos consciência do motivo exato que gerou certas mágoas. Por vezes, não temos sequer consciência de que sentimos mágoa. Costumamos achar que temos algumas poucas mágoas de grandes proporções e não nos damos conta das inúmeras pequenas mágoas que nos afligem. E são estas as que mais nos destroem. Atuando de forma sutil, elas são responsáveis por muitos de nossos condicionamentos. Enquanto nos ocupamos das grandes mágoas, as pequenas mágoas, aquelas das quais não temos muita consciência, vão gerando problemas reais no nosso dia-a-dia. As grandes mágoas são como uma cortina de fumaça para as pequenas. Insistimos em darmos importância ao que os outros dizem de nós. Guardamos e ficamos remoendo qualquer reprovação, não aceitamos críticas. Dizemos que perdoamos, mas estamos sempre relembrando o ocorrido. E, se nos perguntam por quê, respondemos que falamos por falar, que não há ressentimento algum. Mas, se realmente não houvesse, os fatos não voltariam à nossa mente. Por causa de certas mágoas, podemos agir de forma condicionada por toda a vida, se não conseguimos verdadeiramente compreender. Tomemos como exemplo uma pessoa tenha passado por situações de violência e brutalidade em sua infância. Quando adulta, essa pessoa tem seus filhos e tenta compensar e inverter a situação através deles, enchendo-lhes de mimos, carinhos, cuidados, dando a eles tudo o que não teve. Com isso, muitas vezes, não consegue se impor de maneira firme quando necessário. Podemos dizer então que este relacionamento com os filhos está condicionado, escravizado pelo passado, pelas mágoas. Mas as mágoas nãoprecisam estar necessariamente na infância. Há o caso daquela pessoa que, por um motivo ou outro, vê seu relacionamento afetivo chegar ao fim. Então ela começa a se lastimar, acreditando que foi muito concessiva com o parceiro, que tudo fez por ele e não foi reconhecida. Obviamente, esta é uma análise pobre, egocêntrica, não é uma compreensão da situação. Por conseqüência, a pessoa se propõe a, no próximo relacionamento, adotar uma postura mais exigente, mais dura, mais firme, fazendo menos e cobrando mais. Ela acredita que, invertendo o comportamento, obterá melhores resultados e sofrerá menos. E as chances de este próximo relacionamento dar certo também não são promissoras, uma vez que não existiu uma compreensão dos reais motivos que prejudicaram a relação anterior, e ela agora está escravizada por mágoas, ressentimentos, está condicionada ao passado. Nos dois casos exemplificados acima, assim como em muitas outras situações, os personagens do afeto são usados como objeto de satisfação de desejos, de necessidades. A pessoa que teve uma infância de violência, por exemplo, vai se utilizar dos filhos, quando adulta, para se realizar através deles, ou seja, vai utilizá-los como veículos para alcançar sua satisfação pessoal, a satisfação de seus desejos pessoais e egoístas. Assim, não houve uma preocupação real com o bem do outro, com o desejo do outro, com os sentimentos do outro, nada. E é o que acontece com a maioria de nós, nas mais diversas situações. No fundo, estamos apenas interessados em nós mesmos. O auto-conhecimento, a compreensão, ampliam a consciência, reduzindo o egocentrismo, os desejos pessoais, neutralizando temores, esperanças, expectativas, mágoas, ressentimentos, ambições, que sempre compensamos ou invertemos, de forma inconsciente. Assim, sem que venhamos a compreender de fato as situações que nos afligem, tenderemos sempre a reagir de forma equivocada, podendo, inclusive, gerar situações ainda piores. Analisando um pouco mais a fundo o caso da pessoa cuja infância foi de brutalidade e violência, podemos inferir que seus pais agiram desta forma por ignorância, segundo seus limites de compreensão e seus condicionamentos. Neste caso, podemos afirmar, então, que o filho, ao se tornar um adulto, repete o erro dos pais, agindo de forma igualmente condicionada. O que muda são as impressões de cada um. Muitos podem ser os motivos que levaram esses pais à ação condicionada que se refletiu em brutalidade e violência. Talvez a raiva de uma gravidez e um casamento indesejados, posteriormente transferida à criança. Talvez uma revolta natural por parte dos pais. Talvez a dificuldade de se relacionar com a própria criança. Talvez a insatisfação com a vida que levavam. Talvez a necessidade de passar a imagem de uma figura inabalável, forte para a vida, ou por se acharem fracos, ou por verem parentes e vizinhos no caminho errado, ou, simplesmente, por desejarem que os filhos não sejam como eles, que não sofram o que sofreram. E, assim, agem da forma que lhes é possível para atingir seus objetivos em relação aos filhos. E nem sempre a forma possível é a forma ideal. É nosso egocentrismo, nossa preocupação com nós mesmos, nossa auto-importância e nosso amor-próprio que nos impedem de enxergar os motivos pelos quais as pessoas são levadas a fazer o que fazem. É nossa preocupação com o próprio sofrimento que nos impede de ver que os outros também sofrem. É nossa estupidez que nos impede de entender que muitos agem por ignorância, de forma inconsciente. É nosso egocentrismo, nossa preocupação com nós mesmos, nossa auto-importância, nosso amor-próprio, nossa preocupação com o próprio sofrimento, nossa estupidez, que mantém as mágoas, os ressentimentos e as infelicidades que nos afligem. Com nossas boas ações, esperamos obter reconhecimento e elogio em troca. Não agimos pensando no outro, não fazemos nada por fazer, não agimos por amor nem por devoção. Assim, quando o reconhecimento ou o elogio não vem, sofremos. Ficamos magoados e nos colocamos como vítimas, sem imaginar que, na verdade, os outros é que eram as nossas vítimas, já que estávamos nos utilizando deles como veículos para nossa satisfação, para fomentar nossas necessidades de reconhecimento, de auto- afirmação, de aceitação. Não, não somos vítimas. Não somos tão santos como imaginamos ser. Na verdade, estamos muito longe de ser santos. Sobre a Maldade Para algumas pessoas, a necessidade de receber atenção e carinho, a experiência de ser aceito, pode estar associada às agressões que sofreram por parte dos pais na infância, ao fato de ter sido motivo de riso dos colegas, de ter sido reprimido por professores. Para outros, significa a simples necessidade de bajulações, dengos, “melações”. Considerando que somos meros imitadores, acabamos reproduzindo os exemplos que tivemos, e, por ignorância, agiremos com maldade, se foi isto que recebemos. O que pensamos ser maldade, no entanto, pode ser apenas uma defesa. O que pensamos ser maldade pode ser apenas a ignorância. Agimos segundo nossas experiências. Se nossas experiências foram marcadas pela estupidez e violência, se foram estes os exemplos que tivemos na vida, então nosso comportamento tenderá a ser assim. E se assim o for, é devido à ignorância, ao desconhecimento de algo melhor e diferente, justamente por sermos meros imitadores. São os Eus maldosos que projetam pensamentos na mente, pensamentos com os quais nos identificamos. Estes Eus se satisfazem com emoções negativas, com vibrações fortes, densas. É a nossa própria maldade que nos leva a supor que estão querendo nos prejudicar, nos ofender. Se alguém se dirige a nós de forma colérica, somos incapazes de considerar que pode ter ocorrido alguma coisa grave a este alguém e que ele está apenas transferindo a sua cólera para nós. Se tivéssemos um coração aberto, compassivo, bondoso, perceberíamos que esta pessoa pode estar atormentada por seus próprios demônios. Não podemos atribuir maldade aos outros, precisamos olhar para dentro de nós mesmos, precisamos reconhecer nossa própria maldade. A maldade é o prazer em fazer o mal. A malícia é a própria maldade. O prazer da vingança é maldade. O prazer de humilhar, envergonhar, ridicularizar, coagir os outros é maldade. Os desejos e os planos de vingança, de revanche, de revide, de destruição, são todos impulsionados pela nossa maldade. O prazer em ver os outros sofrendo é maldade, crueldade. Chegamos ao cúmulo de chamar de justiça, e até de justiça divina, o sofrimento de alguns. Mas é apenas nossa maldade que distorce a realidade e se satisfaz com o sofrimento alheio, com aqueles que são despejados ou perdem sua moradia em catástrofes naturais, com os que perdem seu emprego, que se envolvem em acidentes, que são chamados à atenção, que são repreendidos. Há atos de maldade que são visivelmente óbvios e concretos. Atos com intenções de lesar, enganar, trair, ferir, desmoralizar, causar perdas, danos e dores, atos movidos pela vingança, pela crueldade, violência, atos como assassinato ou intenções homicidas, são expressões grosseiras de maldade. Mas também existem aqueles atos de maldade que são bem mais sutis. É quando criticamos, julgamos, reclamamos, zombamos, desprezamos, agimos com frieza, provocamos, irritamos, humilhamos, expomos, entristecemos, envergonhamos, reprimimos, constrangemos, pressionamos, menosprezamos, magoamos, rejeitamos, faltamos com o respeito ou ridicularizamos alguém. É quando agimos com sarcasmo ou ironia. É quando assustamos, apavoramos, introduzimos pânico e horror em alguém; quando criamos ou promovemos confusão, desavenças, desordens, discórdias, desarmonia, disputas, brigas, discussões ou conflitos. É quando atormentamos, perturbamos, espezinhamos, azucrinamos, cutucamos, espetamos, importunamos ou incomodamos a paz de outrem. Sempre que agimos desta forma estamos praticando o mal. Na verdade,nunca saímos de dentro de nosso próprio casulo, onde todos os pensamentos não giram senão em torno de nós mesmos, onde todas as preocupações convergem somente para nós. Com a mente embotada e a visão totalmente voltada para a própria existência, pensamos apenas nos sofrimentos que nos afligem, nas dores que sentimos, nos nossos próprios desejos. Cegos pela expectativa de prazeres fugazes, esquecemo-nos de nossa essência original e não medimos as conseqüências que nossos atos podem trazer, tanto para nós como para os outros. Apesar de dizermos frequentemente que não pretendemos prejudicar ninguém, somos incapazes de perceber o mal que fazemos aos outros, e muito menos por que o fazemos. Vemos apenas as maldades que nos fizeram ou que achamos que nos fizeram, somos incapazes de enxergar as maldades que já praticamos, sempre nos julgamos santos. Só quando percebemos a nossa própria maldade, a nossa ignorância, a ignorância de nossos atos, é que podemos passar a ter compaixão pelo próximo. Por maldade, por termos o coração endurecido, por nos faltar sensibilidade é que, muitas vezes, nos comprazemos ao ver uma pessoa sofrendo, sendo humilhada, coagida, ridicularizada, ofendida. Olhamos para seus semblantes de desespero, vergonha, sofrimento, humilhação, coação, e nos enchemos de prazer. Se tivéssemos um mínimo de sensibilidade, ao olharmos para a face de alguém nesse estado, tudo o que conseguiríamos sentir seria compaixão, solidariedade pela dor do próximo e sua tristeza. Mas, infelizmente, somos dados a pensar apenas em nós mesmos. O que importa é estarmos sorrindo, desfrutando dos prazeres possíveis. Há os que se lembram com alegria do dia em que brigaram com alguém, de seus ataques de fúria, do semblante de dor e sofrimento estampado na face do outro, os que se mostram exultantes por terem humilhado alguém. Numa demonstração de grande estupidez, relembram esses momentos deploráveis, relatam-nos com orgulho para os outros, afirmam e reafirmam que provaram a fulano que não são tolos, ou disparam alguma outra frase absurda do gênero. Ao invés de se arrependerem de seus erros, de sua ignorância, brutalidade, selvageria, grosseria, orgulham-se, envaidecem-se e vangloriam-se desses gestos menores. É uma tremenda inversão de valores, uma profunda cegueira, uma demonstração lamentável de embrutecimento. É muito comum ver certas pessoas que ficam felizes e exultantes por terem humilhado alguém, para provar que estavam certas em alguma questão. Insinuações e discursos indiretos mostram que, além de maldosos, somos fracos, hipócritas, falsos e covardes. Mostram que não somos capazes de dizer com sinceridade e franqueza o que realmente queremos dizer e a quem. Assim, escondemos a nós e a nossa maldade atrás dessas insinuações. E quando descobertos, negamos nossas declarações, alegando que não era bem o que queríamos dizer. V. M. Samael Aun Weor, em sua "Mensagem de Natal” de 1966, disse: A gente vai andando por uma rua, de repente se encontra com as turbas que vão protestar por algo ante o palácio do senhor Presidente. Se a gente não está em estado de alerta, identifica-se com o desfile, mescla-se com as multidões, fascina-se e a seguir vem o sonho, grita, lança pedras, faz coisas que em outras circunstancias não faria, nem por um milhão de dólares. Certamente diremos que não fazemos tais coisas, que jamais as faríamos. Mas, se fizermos uma análise um pouco mais profunda, poderemos constatar algumas breves analogias. Quantas e quantas vezes não passamos por colegas estavam a fofocar, a maldizer alguém, e acabamos aderindo a esta sessão de fofocas e intrigas? Quantas vezes passamos por um grupo que se reúne num canto para desmoralizar fulano ou cicrano, e acabamos entrando no “bolo” e nos divertindo como partícipes desse pobre festival de difamações e fofocas? Ou seja, identificamo-nos, mesclamo-nos com o que há de pior, fascinamo-nos e lançamos pedras. Quantas e quantas vezes nos juntamos a um grupo empenhado em ridicularizar um determinado colega e nos tornamos parte dessas conspirações difamatórias, da zombaria generalizada? Identificamo-nos, mesclamo-nos, fascinamo-nos e lançamos de nossas pedras – este é o processo. Existem também aqueles maldosos que fingem ser santos, e realmente acreditam nisso. Porém, satisfazem-se ao assistir exibições do ridículo humano, a exemplo do quadro “video-cassetadas”, de certa emissora televisiva, satisfazem-se com as maldades veiculadas em filmes, novelas, seriados, ou mesmo com as maldades praticadas pelos outros na vida diária. Precisamos nos dar conta de nossos erros, de nossas falhas, de nossa ignorância, estupidez, brutalidade, selvageria, e depois arrependermo-nos, ajoelharmo-nos e pedirmos perdão a este Ser que habita nossos corações. A cada vez que nos lembrarmos do semblante daqueles a quem maltratamos, ofendemos, humilhamos, ridicularizamos, a cada vez que nos lembrarmos daqueles com quem fomos brutos e estúpidos, devemos, de joelhos, pedir perdão ao nosso Pai Interno. Devemos pedir ao nosso Pai Interno que nos conceda a luz necessária para afastar de nós a maldade. A luz da consciência, da bondade, da compaixão. A luz que nos faz perceber a maldade cometida. O arrependimento só é possível quando realmente percebemos a nossa maldade. Somente com outros olhos, com olhos de bondade, sensibilidade e compaixão, é que podemos ter consciência da nossa maldade. Nunca nos será possível percebê-la com olhos maliciosos e egoístas. Nunca nos será possível percebê-la enquanto arrumarmos desculpas e justificativas para o que fizemos de mal, para nossos ataques de ira, nervosismo, irritação. Enquanto acreditarmos que estamos ou que estávamos certos, continuaremos a pensar como sempre pensamos, e, por conseqüência, continuaremos a agir como sempre agimos. Enquanto tivermos esse olhar equivocado, continuaremos a chamar nossos vinganças de justiça. Ao percebermos a verdade de todos os erros cometidos, a dor do arrependimento será grande e inevitável. Em compensação, esta dor será também um sinal de que uma grande e definitiva transformação está por vir. É urgente abster-se de causar o mal. Tentar perceber a própria maldade é um ato de caridade para com a humanidade. Em verdade, o mal não existe, ele está apenas em nossas mentes. E, como disse Mahatma Gandhi: Os únicos demônios que existem no mundo, são os que habitam nossos corações, e é lá que a Guerra Santa deve ser travada. Somos assombrados pela maldade que existe em nós, que nos tira a paz, que faz com que nos preocupemos com o que vão dizer ou fazer a nosso respeito. É a maldade que nos aflige e nos tira o sossego, deixando-nos apreensivos, pensando se irão nos prejudicar, maldizer, tirar nossos doces, ameaçar nossos prazeres, nossas seguranças, nossas bases. Logo, nossa maldade causa mais sofrimento a nós mesmos do que aos que dela são vítimas. Ao percebermos isso, percebemos também o quanto o ser humano sofre com suas próprias maldades. E, assim, podemos abrir o coração, podemos sentir compaixão pelos demais. Olhamos para as situações da vida com a mente impregnada de idéias, conceitos e preconceitos e padrões, com o coração vazio, desprovido de bondade, compaixão, sensibilidade e altruísmo. Precisamos mudar essa realidade em nós. Precisamos olhar para os acontecimentos da vida coma mente esvaziada, livre de conceitos e preconceitos, livre de padrões, e com o coração repleto de bondade e compaixão. Precisamos desenvolver a empatia, precisamos aprender a nos colocar no lugar dos demais, a olhar para as situações com os olhos do outro. Se assim procedêssemos, certamente não teríamos muitos dos comportamentos indesejáveis que costumamos ter, não faríamos tantas maldades, pois teríamos consciência de que não gostaríamos que tais atos fossem praticados contra nós. Está nas palavras do Cristo: Portanto, tudo o que vós quereis que os homensvos façam, fazei -lho também vós, porque esta é a lei...(Mateus 7:12) Para concluir, finalizemos esta reflexão com palavras de V. M. Samael Aun Weor, em seu "Tratado de Psicologia Revolucionária”: A crueldade continuará existindo sobre a superfície da Terra enquanto não aprendermos a nos colocar no lugar dos outros. ... Se nos pusermos no lugar dos demais, descobriremos que os defeitos psicológicos que imputamos aos outros temos de sobra em nosso interior. ... Amar o próximo é indispensável, mas como poderíamos amar os outros sem antes ter aprendido, no trabalho esotérico, a nos colocarmos na posição das outras pessoas? Sobre a Mente Podemos observar com certa facilidade que nossos pensamentos geram sensações. Se imaginarmos, ou se trouxermos à lembrança, cenas de medo, raiva, prazer, inveja, ansiedade, tensão, alegria, podemos sentir as sensações correspondentes às vezes até com a mesma intensidade de quando ocorreram realmente. Com a imaginação, somos capazes de sentir cheiros, toques, gostos, sabores, de ver imagens e ouvir sons. Sofrimento é preocupação, desespero, medo, autocobrança, é aquela ânsia insatisfeita no coração e na mente. A mente atormentada tenta se agarrar a subterfúgios, tenta buscar um ponto seguro, um chão, um apoio. Mas o único lugar onde ela poderá encontrar essa zona de segurança é dentro dela mesma. Estes pontos não passam de estruturas rígidas, idéias fixas, ilusões, fantasias, criticas, valores, padrões, experiências, lembranças, sensações, conceitos e preconceitos arraigados. Esta busca por segurança é o medo da não existência. Quando a mente encontra uma referência que lhe ofereça a sensação de segurança, agarra-se a ela com força. Então surge a posse e o apego. A posse nos traz o orgulho, a vaidade. Tornamo-nos orgulhosos e envaidecidos de tudo o que possuímos, ou acreditamos possuir. O extremo apego baseia-se na crença da permanência das coisas - uma crença equivocada. Evidentemente, se tivéssemos a percepção da efemeridade da matéria, não nos apegaríamos a ela. Os momentos, os estados, os fenômenos da mente e do corpo, surgem e desaparecem, mudam constantemente. Porém nos mantemos agarrados a estes eventos, a estes processos, e passamos a considerá-los como nossos. Acreditamos que isto é a realidade última da vida. Acreditamos nas histórias que a mente conta. Quando pensamos em termos de "eu", "meu", "minha", "mim", ficamos aprisionados, assim como quando pensamos em termos de "dele", "seu", "aquele". Queremos nos libertar da mente e de seus mecanismos. Porém, não a liberamos. Ao contrário, prendemo-la, criamos pressões e tensões dentro dela, não relaxamos. Deixamos a mente se agarrar às coisas. Não só permitimos que ela se agite, como até incentivamos e alimentamos suas agitações. Nós torturamos a mente. É preciso observar os pensamentos que passam pela nossa mente. Mas também é preciso sentir a mente e observá-la. Observemos a expressão aqui utilizada: "sentir a mente". Lutamos contra a mente ao invés de relaxá-la. Esta luta é uma evitação de seus fatores, de seus estados, das formações mentais. Todas as formações são impermanentes, transitórias. Todas as formações se dissolvem. Assim, não há por que agarrar-se a elas, nem tampouco repudiá-las. Assim como surgem, se vão, desde que não nos agarremos a elas. Só quando sentimos a mente, quando observamos o que se passa dentro dela, em nosso corpo e em nosso coração, é que conseguimos nos distanciar, é que conseguimos perceber que não somos a estas manifestações. Enquanto tentarmos evitar, enquanto brigarmos com estas manifestações, estaremos presos à mente e suas reações. Somos nós que construímos, fortalecemos, enrijecemos as formações da mente, os conceitos, os padrões, os valores. Não é por acaso que o budismo considera a mente como um sentido. Existe uma razão para isso. É preciso sentir e observar as sensações da mente e na mente. Existe o sentir do coração e existe o sentir da mente. Precisamos conhecer os dois, pois eles se completam, interagem entre si, influenciam-se mutuamente. Precisamos observar que tudo está na mente, precisamos sentir tudo o que está na mente. Observar e sentir suas mudanças, as mudanças dos estados mentais. Sentir os pensamentos surgirem, tomarem corpo, forma, sentir a mente reagindo a tais pensamentos e estados. Observar e sentir a agitação da mente, a pressão, a tensão, a opressão, a rigidez, o desespero, o impulso de agarrar-se e o impulso de fugir. Devemos observar, sentir, permanecer com essas sensações e permitir que passem. Ensinamentos budistas mostram que o vazio nunca muda. Assim, a mente vazia nunca muda, não se desespera, não enrijece, não se agita. Ao conquistarmos uma mente tranqüila e serena, ela pode vir a funcionar como um espelho. Por exemplo, imaginemos uma situação onde estamos atrasados para um compromisso e alguém nos detém para uma conversa. A mente fica agitada, começamos a olhar para o lado, para a direção que queríamos ir, para a saída. Olhamos repetidas vezes para o ponto de fuga e não conseguimos nos livrar da pessoa. A mente quer sair daquela situação, quer fugir, e se inquieta. Outro exemplo é quando nos vemos diante de algo que “devemos fazer” mas queremos fazer outra coisa. Há também aquela situação em que duas pessoas esperam de nós ações distintas, então nos afligimos por não podermos agradar a ambas. Neste caso, a pressão que a mente produz é terrível. Outra situação em que a mente quer desaparecer, quer fugir, evitar o que está ocorrendo, é quando somos tomados pela sensação de vergonha. Nas práticas de silenciar a mente, de meditação reflexiva, de concentração, de contemplação, de relaxamento, podemos perceber todos esses movimentos, estados e reações da mente. A partir da prática formal, podemos levar as percepções para a vida diária. A prática formal é o treino, a vida diária é o campo de batalha. O exercício de silenciar a mente aos poucos nos leva ao desapego dos pensamentos. Este desapego é um distanciamento. Acreditamos que possuímos os pensamentos, e com isso acabamos possuídos por eles. Este apego aos pensamentos é um contínuo agarrar-se, como se tal apego pudesse nos oferecer alguma segurança real. Todo apego está ligado a conceitos e preconceitos, a padrões e valores. A prática meditativa nos leva também ao estado de leveza mental, pois, quando nos agarramos a muitas coisas, tornamo-nos mentalmente pesados. Quanto mais nos prendemos a lastros, mais pesados vamos ficando. O medo e a vergonha se fixam por causa da evitação. Toda evitação é uma tentativa de fuga, mas é também um agarrar-se ao pensamento. Quando nos enrijecemos, estamos com os pensamentos rígidos. A falta de atenção, a falta de concentração, a ignorância, o desconhecimento dos processos e dos mecanismos da mente nos escraviza e nos faz sofrer. A prática de ouvir os sons, de concentrar-se nos sons, ou de prestar atenção aos pequenos instantes de silêncio entre um som e outro, é uma prática de concentração que nos leva a perceber o silêncio interior. Isto nos leva a parar de lutar contra os sons, a parar de impor resistência e de nos perturbarmos com os sons. Ao percebermos o silêncio interno durante essa prática, poderemos, aos poucos, levá-lo para a vida diária. Este silêncio interior é o centro a partir do qual passamos a agir. Conforme o praticamos e o levamos para vida, conforme o desenvolvemos, este centro vai se tornando cada vez mais permanente, constante. Ao experimentarmos momentos mentais libertos, precisamos perceber que eles vieram de dentro de nós, do nosso interior, e não do exterior. Assim como não devemos culpar ninguém pelo que de errado ocorrer em nossa mente, também não devemos elogiar quando se dá o contrário. O externo é muito pouco confiável e está fora do nosso controle. Precisamos parar de olhar para o mundo externo ede agir a partir do que vemos nele. É preciso olhar para o mundo interno e agir a partir do mundo interno, do centro. Para lograrmos êxito nesta proposta, precisamos manter o foco e a concentração no mundo interno. Mestre Samael nos diz que “para o sábio, o mundo interno é mais concreto que o mundo externo.” Realmente, precisamos perceber isso, precisamos viver isso. Sobre a Mística Mística é gratidão, é devoção, é louvor. O viver místico é um viver em gratidão, louvor e devoção permanentemente. É confessar os erros e arrepender-se. É suplicar por perdão. É suplicar por luz, paz, alegria e iluminação. A devoção pura, renunciada, é o que devemos buscar. Não podemos ser devotos em troca de ganhos materiais ou desfrute dos sentidos, pois desta forma criaremos grandes obstáculos em nosso caminho. A devoção é o amor e o apego à Divindade, e este é o único apego benéfico. Mais ainda, este é o apego que destrói outros apegos. Normalmente, quando nos sentimos gratos por uma atitude ou ação feita por outrem, retribuímos com alegria a tal ação ou sentimos uma gratidão no coração, um sentimento inexplicável de gratidão. Precisamos perceber tudo o que a Divindade nos dá e devemos ser gratos por todas estas coisas constantemente, permanentemente. Nós nos dizemos gratos quando nossos desejos são atendidos. Não temos sentidos para perceber as graças que recebemos e assim achamos que não estamos na graça de Deus e não somos gratos. Não percebemos o quanto somos protegidos, poupados, auxiliados e conduzidos. Nossa gratidão está quase sempre ligada a coisas externas, mesmo nossa gratidão a Divindade está sempre ligada a isso. Ficamos gratos por casas, empregos, aumentos, relacionamentos, vitórias e conquistas materiais. Não que não devêssemos nos sentir gratos por isso, não é esta a questão, mas precisamos olhar para dentro e ver tudo que já recebemos internamente: paz, felicidade, tranqüilidade, compreensões, sabedoria, purificações, vitórias e conquistas espirituais. Sobre estas coisas as pessoas não se lembram de agradecer, até porque a maioria das pessoas nem se dá importância a estas coisas. A busca de aceitação é a busca de apoio, consolação, reconhecimento, atenção, afeto e carinho, e esta busca de aceitação é carência, porém ninguém é carente dos outros senão de si mesmo. Na busca de aceitação as pessoas rastejam, humilham-se para os homens e com isso sofrem. Se se aplicassem com igual empenho na busca da união com Deus, rapidamente lograriam a felicidade. Enquanto quisermos ser visíveis aos homens não o seremos aos mestres. Enquanto buscamos a consolação, a aceitação exterior mais difícil se torna a consolação interior e divina. Enquanto buscamos a consolação, a aceitação do mundo, a consolação, a aceitação dos homens, acreditamos e damos mais importância para os homens e para o mundo do que para a Divindade, com isso sofremos. É preciso desenvolver a devoção, a veneração, a gratidão, a mística. Sofremos, somos tristes, infelizes, insatisfeitos, ansiosos, desejosos e descontentes, por sermos ingratos, por nos vermos como rejeitados, esquecidos, excluídos ou como vítimas. Isso ocorre porque não percebermos o quanto a Divindade é misericordiosa, terna, compassiva, pacienciosa, tolerante, generosa e bondosa conosco. Se percebermos estas coisas, seremos profundamente gratos, e então teremos alegria, felicidade, contentamento, paz e tranqüilidade. Estupidamente, não estamos na graça de Deus, não percebemos estar na graça do Pai Interno, não sentimos a consolação Divina por não nos acharmos ou nos percebermos consolados; por não nos acharmos ou nos percebermos em graça. Se percebermos estas coisas seremos profundamente gratos e teremos alegria, felicidade, contentamento, paz e tranqüilidade. Se percebermos estas coisas, se esta for nossa realidade interior, iremos refleti-la no exterior. Um dos grandes problemas é esquecer, é deixar de sentir. Como não somos fortes e firmes em nossa fé e confiança, em nossa devoção e mística, basta um contratempo qualquer que já voltamos a procurar as consolações dos homens e nas coisas do mundo. Somente renunciando às consolações exteriores é que se torna possível chegar às consolações interiores ou divinas. A consolação do mundo é passageira, impermanente, não podemos desejá-la e muito menos podemos nos apegar a ela. O ignorante, o maldoso, confundindo os brilhos das luzes, se apraz na maldade; mas é das virtudes que nascem as delícias da alma, os estados de paz, tranqüilidade e serenidade. Quando o sábio se recolhe com suas donzelas há felicidade, contentamento e satisfação. O sábio encontra regozijo na prática de virtudes. Não é por desejar que se chega a estes estados, não é por desejar que se recebe graças ou consolações divinas, pois as dores e sofrimentos, as tentações e tormentos da mente e do coração não cessam sem que a Divindade assim o permita. Quando o coração e a mente estão atormentados por ira, inveja, orgulho, vaidade, gula, avareza e luxúria, não há paz, tranqüilidade, contentamento ou satisfação. Aquele que aceita ser humilhado, se esta for a vontade de seu Pai Interno, não pode ser atingido pelos demais; assim como aquele que aceita a ira como um ensino, uma oportunidade de auto- conhecimento, não pode ser atingido pelos demais. Forte é aquele que percebe e conhece suas fraquezas. Oferecer o sofrimento como sacrifício aos necessitados e aos que sofrem é um ato de caridade, é um comportamento místico, mas este sofrimento não precisa ser uma perda ou uma doença, existe um esforço, um sofrimento no viver, no trabalhar, existe muito sofrimento por causa de nossos egos, pelos tormentos que nos causam, pelas tentações a que somos submetidos. Se pudermos ver nossos esforços e nosso trabalho como um servir ao Pai Interno, aos Mestres, então até o mais simples dos trabalhos se tornará grandioso, e então sentiremos felicidade, contentamento e satisfação. Formas de praticar mística e de viver místico não faltam. Motivos ou razões para sermos gratos também não faltam. O que falta é apenas nossa capacidade de manter estas práticas. Sobre a Paz A paz vem de dentro de nós, é um estado interior, não depende de situações externas. A sensação de paz que reside em fenômenos que ocorrem fora de nós ou é abalada por eles é falsa. Não passa de uma ilusão. Não são as situações externas que promovem a paz em nós, mas a sensação de que podemos relaxar, de que conseguimos realizar algo, de que não há ameaças. Todos os nossos momentos de paz são aqueles em que nos permitimos senti-la verdadeiramente. É quando relaxamos nossos egos, nossas auto-cobranças, nossos desejos, e conseguimos atingir esse estado de leveza interior, ainda que seja por alguns instantes, por um breve momento. Resta-nos apenas perceber este processo para nos permitirmos desfrutar deste estado de forma cada vez mais constante. A paz não é o intervalo entre duas brigas, duas guerras, dois conflitos. É um estado de preenchimento – não um preenchimento de elementos externos, mas do próprio espírito. A paz é uma conseqüência natural da nossa capacidade de viver em harmonia com a vida, de adaptarmo-nos às situações, de mantermos o equilíbrio de nosso estado interior mesmo diante das aparentes dificuldades externas. A harmonia nasce da compreensão das polaridades. A paz está ligada à percepção do real, à percepção de que a vida é passageira e que nada conseguirá realmente nos afetar, afetar o nosso Ser. Sendo a vida um movimento contínuo, é inconcebível compreender a paz, que é a harmonia com a vida, como estagnação. A paz não é inação, estagnação, é movimento harmônico com a existência. É um resultado da plena aceitação, da devoção, do contentamento, da satisfação, da gratidão. Conflitos internos, desejos antagônicas, incompatíveis – dilemas muito comuns em nossa mente dualista -, ou uma auto-imagem distorcida sãofatores que muito contribuem para a ausência de paz. A predisposição para agir, de modo a contrariar exclusivamente os "tem que" dos pais, da sociedade, geram muitos conflitos internos. O mesmo acontece diante do desejo de comer uma feijoada em contraposição ao desejo de perder peso. Qualquer que seja a nossa opção, acabamos por nos sentir culpados. Isso tem a ver com a falta de compreensão dos desejos, com a falta de aceitação, a falta de contentamento. Os desejos muitas vezes nascem para compensar a falta de algo que não podemos compreender. Disse um Mestre: A desordem não pode ser transformada em ordem. Porém, a negação da desordem é a natureza da transformação: a própria negação é a transformação. Então aquela negação do que é falso, que é a natureza da transformação, é verdade. Essa desordem é criada pelo pensamento, que é o eu e que cria a separação. Qualquer movimento do pensamento apenas criará mais desordem. O próprio pensamento tem de negar a si mesmo. Portanto, quando o pensamento compreende que o que quer que ele faça, qualquer movimento que ele faça, é desordem, então há o silêncio. A natureza da transformação da desordem é o silêncio. É o silêncio quem cria a ordem, não o pensamento. E um filósofo complementa: A partir do silêncio que é paz, que é bem-aventurança, que é amor, vem a completa entrega àquela Vida Una que é a natureza essencial de todos os seres e de todas as coisas. Quando todos os conflitos cessam, há somente uma harmonia para ser compartilhada com todos. Pois a nossa dificuldade geral para sentir o significado da vida é que nós estamos em conflito com a vida, demasiado apegados e identificados, através dos sentidos, com as correspondentes atrações e repulsões do nossos corpos. Quando se encontra essa harmonia com a vida, o significado está lá, como um perfume que está por toda parte: ele nos leva na cálida brisa da sua graça. Passamos a vida em busca de condições para assegurar a paz, como saúde, trabalho, dinheiro, relacionamentos bem sucedidos, apoio dos pais, adaptação à situação econômica do país, etc. Condicionados pela ganância, pela busca de resultado, achamos que há sempre algo mais a ser alcançado para que possamos obter a paz. Mas, no esforço dessa busca de resultados, impomos a violência contra nós mesmos. As realizações voltadas para satisfazer o ego não nos trarão paz, porque o ego é insaciável. A paz vem de uma profunda humildade, da simples percepção de que não somos os egos. Quando condicionamos a paz, vivemos de expectativas, de esperas, de sofrimento, de ansiedade, até que a condição aconteça. E, quando a condição esperada acontece, mal conseguimos desfrutar de uns poucos momentos de paz. Logo em seguida, já estamos novamente tomados por outra expectativa, desta vez pela expectativa de não perder tal condição. Criar condições para obtermos a paz é, na realidade, criar situações para nos distanciarmos da paz. É criar justificativas para a nossa incapacidade de gerar e manter o estado de paz. A maior parte (senão todas) das condições que estipulamos deve ser internamente resolvida por nós mesmos. Precisamos estar em paz, o tanto quanto possível, a cada instante. Precisamos estar em paz, o tanto quanto possível, a cada grau de consciência que tivermos. Precisamos estar em paz, o tanto quanto possível, agora, com as condições que temos, com as situações que se nos apresentam neste momento. Devemos abrir mão de nossas ambições para sermos felizes, para alcançarmos a paz. E de que estamos dispostos a abrir mão para isso? Qual é o preço da nossa paz, da nossa felicidade? Parece que vendemos muito barato esses bens, bens que não têm preço. O ato abrir mão é ilusório, e talvez só seja percebido como tal após acontecer. A renúncia vai nos levando a perceber a verdade, e não por interferência de segundos ou de terceiros, mas por nós mesmos, de forma direta. Vendemos a nossa paz por vinte siclos de prata, como fizeram os irmãos de José, que passaram a viver assombrados pelo seu erro. Vendemos a nossa paz por trinta moedas de prata, como fez Judas, que acabou se enforcando. Em resumo, vendemos a nossa paz por um salário maior, por status, por uma casa melhor, um carro, uma herança, uma paixão, pela posse de um território, por coisas que acabam por nos atormentar, nos enforcar. É sábio compreender que tudo passa, que não vamos levar as coisas materiais para o outro mundo. Apegados à matéria e aos desejos, acabamos levando, sim, um lastro que nos prenderá. Se somos obsessores em vida, após a morte seremos ainda mais. Um grande Mestre afirma que, se realmente acreditássemos na vida após a morte ou na reencarnação, não viveríamos como vivemos. Será que realmente acreditamos? É sensato sacrificarmos a nossa paz só pelo fato de querermos ter razão em uma disputa, em uma discussão? A razão, a opinião, é apenas uma idéia, um ponto de vista, por mais nobre que seja. Vendemos a nossa paz por uma idéia, pelo orgulho de ser o detentor da razão. Não seria isto uma insensatez? Agimos como crianças que discutem entre si, tentando, cada uma, provar que sua idéia é melhor. A diferença é que nas crianças, por sua inocência, tudo é perdoável e sem graves conseqüências. Achamos que somos os justiceiros universais, queremos fazer justiça, segundo a nossa ótica. E vendemos a paz por isso também. O que é a justiça, afinal? Quem pode dizer o que é justo? Devemos deixar que cada um pague seu Karma pelos erros cometidos, se é que são realmente erros. Devemos abrir mão dos bens materiais, das idéias, da nossa pretensa justiça. Ao adotarmos tal postura, estamos promovendo a prática do desapego, a habilidade de vivermos em paz. Vivemos dizendo que só queremos o que é nosso, o que nos é de direito. E o que é o direito? Enquanto estivermos preocupados com esses direitos não alcançaremos a paz. Criamos uma determinada situação e depois culpamos os outros por não vivermos em paz. Vendemos a nossa alma ao diabo e depois achamos que ele é o culpado. Como bem diz a sabedoria popular, “Quando um não quer, dois não brigam” ou “Os incomodados que se mudem.” Sim, os incomodados que se mudem. Isto se aplica perfeitamente ao mundo interno também. Na realidade, é a mudança interna, a percepção da realidade, que pode nos levar à mudança externa, à ação de sair de um lugar e ir para outro. Enquanto permanecermos apegados à matéria, enquanto nos situarmos no mesmo nível de ser dos demais, seremos apenas mais um deles. Bom seria que nos incomodássemos a ponto de mudar, bom seria que todos mudassem, mas... Não há esforço na prática da meditação, reflexão ou oração. Se houver esforço, então a prática, por si, deixa de existir. Deve haver vontade e disciplina. Guerra, conflitos ou lutas, não. São práticas onde a paz, o silêncio e a serenidade se fazem necessários. Se travarmos uma luta interna contra o medo, a maldade, a arrogância, a mania de perfeição, a miséria, a solidão, o abandono, a crítica, a injustiça, tanto interna quanto externamente, só vamos conseguir fortalecer estes sentimentos. Devemos aceitá-los com boa vontade e entregarmo-nos a essas práticas, que se encarregarão de eliminá-los, atraindo a paz, abrindo espaço para que ela invada nosso coração e preencha o nosso Ser. Diz Samael Aun Weor em “Revolução da Dialética”: Chegou a hora de refletir sobre o nosso próprio destino. A violência não resolve nada. A violência só pode nos conduzir ao fracasso. Necessitamos de paz, serenidade, reflexão e compreensão. Nós somos o único inimigo a quem devemos derrotar. Somos nossos inimigos quando não nos conhecemos e atrapalhamos o fluxo da vida. A vida não tem nada de errado, nós é que destruímos e atrapalhamos seu curso; nós é que queremos tudo controlar, tudo julgar. A vida segue as leis naturais, e tudo o que fazemos é perturbar essas leis. Na vida não existem ganhos ou perdas, tudo isso é uma grande ilusão. Existemapenas aprendizados. Deixemos que a vida faça a parte dela e façamos nós a nossa parte. Tenhamos confiança e fé no Divino, fiquemos em paz. As dificuldades que surgem ao longo de nossa existência acontecem para que possamos desenvolver as nossas habilidades. A vida está a favor e não contra nós. Ensinamentos budistas dizem: Existem três segredos para a paz. Primeiro, ser pacífico. Ser pacífico é ser livre de expectativas, é não querer nada de ninguém. Tome a iniciativa e seja generoso. Este é o segredo de ser contente em todas as circunstâncias. Segundo, sua paz despertará a paz natural nos outros e trará esperança a eles. Você só acredita na paz quando você a experimenta. Concentre-se no centro da testa, sente-se atrás dos seus olhos e observe. Este é o lugar onde você cria seus pensamentos. Ensine sua mente a refletir sobre a paz. Terceiro, a paz termina quando você fica emocionalmente envolvido com uma situação. A pratica de ser um observador independente ajuda você a ficar estável e calmo. A paz termina quando nos envolvemos emocionalmente com uma determinada situação, ou seja, quando nos identificamos. Uma grande Mestra disse: Pode-se estar confinado numa prisão e ainda assim ser um trabalhador pela causa. Desta forma, rogo-te para tirar de tua mente qualquer desgosto pelas circunstâncias presentes. A paz começa brotar dentro de nós quando, ao percebemos nossa ignorância, nossa miséria, nossa nulidade, começamos a deixar de carregar o peso do orgulho e da vaidade e nos abrimos para conhecer a nós mesmos e ao mundo. Quando nos damos conta de nossa ignorância, quando abrimos um espaço para a aceitação dos erros, quando abrimos mão do controle, estamos nos abrindo também para a incerteza. Por mais incrível que possa parecer, somente a incerteza pode nos trazer confiança. O controle, ao contrário do que se pensa, não é capaz de nos oferecer segurança, confiança. A própria idéia de controle trás consigo a insegurança, o medo do descontrole. Entregar-se à incerteza é demonstração de fé, é devoção. É como dar um passo em direção ao abismo, onde somente a fé pode nos sustentar. E, quando damos este passo, encontramos, enfim, a liberdade, a paz, o amor. Um sábio monge disse: Em todo caso, devemos ficar cientes que temos o poder de trazer a paz para nossa vida ao ajustar a forma em que vivemos e especialmente a forma em que interagimos com o mundo. Na medida que cultivamos a paz, fecharemos o portal da ira não só na nossa vida, como também ajudaremos a fechá-lo para os outros. Como a ira, a paz é contagiante e influencia aqueles a nossa volta. Enquanto o medo existir dentro de nós, não poderemos atingir a paz em plenitude. Assombrados por nossos temores, dominados frequentemente pela ansiedade e pela insegurança, fazemos da paz um bem distante e inexeqüível. Palavras de Sri Krishna Excerto selecionado do “Bhagavad-Gita”: Quando um homem renuncia aos desejos dos sentidos engendrados pela mente, obtendo contentamento unicamente no Eu, diz-se então que alcançou a consciência divina. Quem está sempre tranquilo apesar das três misérias; quem não se deixa exaltar quando há felicidade; quem está livre do apego; quem não tem ódio nem medo; merece o nome de Sábio. Neste mundo transitório quem não se deixa afetar pelo bem ou pelo mal que poderão sobrevir, sem louvá-lo ou maldizê-lo, já se encontra situado na consciência divina. Aquele que for capaz de retirar os sentidos de todos os seus objetos assim como a tartaruga recolhe os membros no casco, deve ser considerado um ser auto-realizado. A alma corporificada consegue renunciar aos prazeres dos sentidos muito embora ela não perca o sentido do prazer. Porque, depois de provar o gozo transcendental, ela fixa a consciência. Os sentidos são tão fortes que conseguem arrastar mesmo a mente do homem sóbrio que se esforça por domá-los. Quem controla os seus sentidos concentrando-se em Mim pode ser considerado um homem de mente estável. Ao contemplar os objetos a eles nos apegamos, do apego vem a luxúria, e da luxúria a ira. Da ira vem a ilusão, a ilusão turba a memória. A memória confundida desbarata a inteligência, e quando esta se destrói cai-se de novo no poço. Quem controla os seus sentidos por praticar os princípios da liberdade regrada recebe misericórdia e então fica liberado da aversão e do desejo. E para quem recebeu misericórdia divina já não existem misérias, e a inteligência fixa-se nessa condição feliz. Sem consciência divina a mente não se controla nem se fixa a inteligência, sem o quê, não existe a paz. E onde não existe paz, pode haver felicidade? Assim como um vento forte leva um barco mar afora, apenas um dos sentidos em que a mente se detenha pode levar para longe a inteligência do homem. Arjuna de braços fortes, aquele cujos sentidos estão livre dos objetos, tem a inteligência firme. O que é noite para todos é tempo de despertar para os autocontrolados. E o que é manhãpara todos, para o pensativo é noite. Quem não se deixa agitar pelo fluir dos desejos que entram qual rios no mar, que no entanto fica estável, é o único que tem paz; não aceite aquele que se esforça por saciar seus desejos. A pessoa que abandona o sentimento de posse e os desejos dos sentidos, desprovida de egoísmo, alcança a paz verdadeira. Eis o caminho da vida, divina e espiritual, onde não existe engano. Indo por este caminho, mesmo na hora da morte, chega-se ao Reino de Deus. A Paz Perfeita – Conto de Autor Desconhecido Havia um rei que ofereceu um grande prêmio ao artista que fosse capaz de captar numa pintura a paz perfeita. Foram muitos os artistas que tentaram. O rei observou e admirou todas as pinturas, mas houve apenas duas de que ele realmente gostou e teve que escolher entre ambas. A primeira era a de um lago muito tranqüilo. Este lago era um espelho perfeito onde se refletiam umas plácidas montanhas que o rodeavam. Sobre elas encontrava-se um céu muito azul com tênue nuvens brancas. Todos os que olharam para esta pintura pensaram que ela refletia a paz perfeita. A segunda pintura também tinha montanhas. Mas estas eram escabrosas e estavam despidas de vegetação. Sobre elas havia um céu tempestuoso do qual se precipitava um forte aguaceiro com faíscas e trovões. Montanha abaixo, parecia retumbar uma espumosa torrente de água. Tudo isto se revelava nada pacífico. Mas, quando o rei observou mais atentamente, reparou que atrás da cascata havia um arbusto crescendo de uma fenda na rocha. Neste arbusto encontrava-se um ninho. Ali, no meio do ruído da violenta camada de água, estava um passarinho placidamente aconchegado em seu ninho. Paz perfeita. Qual pensas que foi a pintura ganhadora? O rei escolheu a segunda. Sabes por quê? "Porque", explicou o rei, "paz não significa estar num lugar sem ruídos, sem problemas, sem trabalho árduo ou sem dor. Paz significa que, apesar de se estar no meio de tudo isso, permanecemos calmos no nosso coração. Este é o verdadeiro significado da paz". Comentários e Questionamentos – Por que é dito que a paz não é inação, estagnação, mas um movimento harmônico com a existência? A vida é movimento, quando não aceitamos o movimento da vida, não estamos em paz. Existem momentos de ação e momentos de não ação. Devemos atuar nos momentos de ação e permanecer quietos nos momentos de não ação. Estar em paz não significa ficar parado, escondido. – O que quer dizer “condicionados pela ganância”? A sociedade nos condicionou, e nós aceitamos, acreditamos neste condicionamento. Somos impulsionados a querer sempre mais, mesmo indo contra a natureza de nosso espírito. Ainda que nosso estado seja de felicidade plena, as vozes do condicionamento geram um conflito interno. – Será que é realmente assim que acontece? Será que não atingimos um pouco de paz quando satisfazemos oego? Seria o ego insaciável?” É uma questão de auto-observação. – A paz expressa no texto, mesmo descrita em harmoniosas palavras, ainda assim, não passa de projeções mentais. A ansiedade de nossas palavras, ao querermos conceituar, expressar algo, é capaz de comprometer exatamente paz que elas tentam reproduzir, bem como qualquer certeza ou consciência. Ou seja, nosso desejo de expor algo aos olhos do mundo, a nós mesmos, algo que achamos compreender, por si só, já nos torna aflitos. Observemos esta passagem: “Devemos abrir mão de nossas ambições para sermos felizes, para alcançarmos a paz. E de que estamos dispostos a abrir mão para isso? Qual é o preço da nossa paz, da nossa felicidade? Parece que vendemos muito barato esses bens, bens que não têm preço.” Abrir mão significa desapegar-se. Desapegar-se com o mesmo desapego de Buda, com o mesmo desapego de Krishna, apesar, é óbvio, da roupagem um tanto diferente e menos grandiosa. – Com base na frase “‘na vida não existem ganhos e perdas”, citada no texto, como então referir que “devemos abrir mão de nossas ambições para sermos felizes, para obtermos a paz”, se aqui está explícito que deve haver uma perda para atingirmos a paz? Segundo as palavras de Marcio Sorge, “quando nos desapegamos e compreendemos o desapego, percebemos que nada perdemos.” Consideremos aqui que o texto possui camadas. As aparentes contradições ocorrem apenas no nível da mente. Como o texto oscila frequentemente entre o nível mental e o espiritual, devemos tentar explorar bem certas frases, a fim de uma perfeita compreensão. Notemos que a frase “na vida não existem ganhos e perdas”, por exemplo, é utilizada sob o ponto de vista do Ser, e não da mente, não do ego. Como a questão das perdas e dos ganhos é aqui tratada como ilusões do ego, fica sugerido que devemos abrir mão dos desejos do ego, dos pensamentos, das idéias, dos conceitos, da religião. Ou seja, exercer o desapego. Um grande sábio disse: Todas as pessoas querem as mesmas coisas que nós, como por exemplo a felicidade, todos queremos ser felizes. Alguns passam dos limites e acabam passando por cima dos outros, buscam a felicidade a qualquer preço, desrespeitando o próximo. Muitos fazem uma confusão entre felicidade e prazer, mas felicidade não é prazer. Não podemos impedir os outros de serem o que são, o máximo que podemos é perceber o estado de ânimo dos nossos semelhantes. Se tivermos suficiente compreensão, sensibilidade, compaixão, até podemos renunciar, ceder a vez a essas pessoas, porque para nós será mais importante nosso estado de espírito, serenidade, paz, tranqüilidade, do que a fascinação momentânea por algo. – Está no texto , está em nossas palavras, está em nossas intenções, mas ainda não é parte do nosso Ser essa paz que tanto sugerimos a nós e aos outros. Há mais aflição do que paz no texto, não acha? Logo, essa paz ainda é dual, mental, ilusória, suposta e condicionada. O texto primeiramente expõe o que é a paz. Depois, os motivos que nos impedem de termos, de sermos, a paz. A aflição talvez seja resultante de algum tipo de identificação. São apenas palavras. Se lidas com o coração, podem assumir um determinado significado; se lidas com a mente, outro; e, se lidas com o ego, talvez nenhum significado tenham. – Observa-se conflitos no texto demonstrados claramente no que é projetado mais adiante: “Devemos entender que tudo pode ser conquistado sem esforço. O problema é que acreditamos que não há mérito em conquistas sem lutas. Queremos dificuldades, brigas, lutas, guerras.” Sendo assim, por que ainda se mantém este conflito, este esforço? Não seria porque a verdadeira paz ainda permanece oculta? Não há conflito algum, apenas uma observação da maneira como pensamos. Observa-se como a sociedade nos influencia, nos condiciona. Mais uma vez, sugiro explorar as camadas dessas frases. Para expor o conteúdo integral de cada uma delas, seria necessário escrever um livro sobre a paz. E isto representaria muita dialética para procedimentos simples, uma vez abrangeria muito mais conceitos do que percepções. A idéia aqui é justamente quebrar conceitos, lançar situações para que sejam percebidas, descobertas. A intenção é induzir uma nova visão dos fatos, mesmo que esta visão se contraponha às idéias expostas. Não podemos nos aprisionar em conceitos estáticos. Nosso espírito nos dá tudo, não existe a necessidade de luta. Buscar algo, ter vontade, é muito diferente de ter desejos, ansiedades. Uma ação voltada para a realização de um projeto não precisa envolver luta ou desespero. – A impressão que me passa, às vezes, é que, na ânsia de se propor uma idéia, define-se um padrão, um modo de pensar, um esquema rígido a ser seguido. E isto transmite uma tensão muito grande. Dá-nos a impressão de que o autor quer induzir um pensamento segundo a linha de suas convicções. E é justamente com isso que eu não concordo. Gosto muito da idéia central, mais não da maneira como ela é exposta, defendida. Creio ser mais eficiente expor a idéia, de modo a fazer com que o leitor pense e reflita a respeito. Penso que este procedimento agregaria muito mais valor às palavras. A idéia é, efetivamente, induzir alguma coisa, mas não exatamente pelo que está sendo dito. O que se pretende, acima de tudo, é fazer com que o leitor passe a se observar melhor e se abra para algo novo. É o caso de se questionar se a rigidez percebida não seria proveniente da influência de nossos atuais padrões, e não do texto, das novas idéias introduzidas. Não concordar pode significar não querer se desprender dos padrões atuais. E isto talvez explique a idéia de rigidez captada. Pode ser apenas uma projeção. O que se sugere aqui são mudanças, quebras de valores, reformulações. Se valem ou não a pena, isto fica por conta da percepção e do arbítrio de cada um. De fato, um “chacoalhão” é dado. Mas há sonos que são profundos, muito profundos. Sobre a Projeção como Fuga da Realidade É muito interessante observar que o conhecimento da lei da projeção não vai nos transformar. Precisamos compreender verdadeiramente este fenômeno, observar como a projeção se processa em nós, utilizá-la de forma a nos conhecermos mais e melhor. O fato de perceber verdadeiramente que alguém está projetando pode nos ajudar a desenvolver a compaixão. Mas isso só se dá quando percebemos em nossos próprios defeitos, aí sim podemos perceber quando o outro age por projeção e identificação. Nunca antes disto, do contrário estaríamos nos enganando. Sem observarmos, sem compreendermos as nossas falhas, sem olharmos para dentro de nós mesmos, sem admitirmos nossas limitações, sem reconhecermos as nossas projeções, de nada adiantará termos conhecimento deste fenômeno. Estaríamos apenas utilizando a projeção como fuga e negação da realidade. O ego é esperto, astuto, sem nos auto-conhecermos, caímos facilmente no auto-engano. Apaixonados por nós mesmos, por nossa fantasiosa auto-imagem, cheios de amor próprio, somos facilmente enganados pelos egos. Como mostrar a alguém apaixonado os defeitos do ser amado? Não é possível. Assim, somos nós com nós mesmos. Somos por demais apaixonados por nós mesmos. Por mais que falem, que gritem, por maiores que sejam as projeções, os exemplos que nos são mostrados, nada conseguimos perceber. Continuamos a dormir profundamente, continuamos fascinados por nós mesmos, com a mente completamente embotada. Tudo o que fazemos é negar. Negamos as nossas projeções, negamos a realidade, utilizamos o conceito de projeção como fuga da realidade. Se somos criticados por sermos ou agirmos desta ou daquela forma, não admitimos tal crítica. Negamos, nos enganamos, nos convencemos de que o outro está apenas projetando, e que nós somos santos, inatingíveis, os perfeitos. Aquele que nos critica é visto por nós como um pobre coitado, que não percebe que está projetando, comoum ser desprovido de bondade, que julga seu próximo, manifestando sua ira e intolerância. Acreditamos que somos santos injustiçados. Somos incapazes de perceber nossa hipocrisia. Fugimos da realidade, da verdade. E a verdade é: nós é que estamos projetando, nós também projetamos. A projeção serve para nos conhecermos mais e melhor, não para fugirmos da realidade, não para negarmos a realidade. Ainda que conheçamos o conceito da projeção, quando somos insultados ou criticados, somos tomados por sensações ruins e fantasiamos idéias, invertemos conceitos, padrões, para que essas sensações se tornem mais agradáveis. Com isso, chegamos à equívoca e cômoda conclusão que os outros estão apenas projetando seus defeitos, pois nós somos sábios, calmos, superiores. E isto nada mais é do que o orgulho, a soberba, o amor próprio, auto-adoração atuando em nós. Temos que olhar para dentro de nós mesmos com sinceridade, com honestidade, temos que ser duros conosco, eliminar de dentro de nós todo esse equívoco, se realmente quisermos mudar, se realmente quisermos nos livrar de nossos sofrimentos. Medusa, personagem da mitologia grega, era um ser monstruoso, que tinha serpentes na cabeça em vez de cabelos, presas pontiagudas, mãos de bronze e asas de ouro. Conta a lenda que aquele que a olhasse diretamente seria petrificado. O herói Perseu, então, para neutralizá-la, utilizou um escudo mágico de metal polido, que refletia a imagem de Medusa, como se fosse um espelho. E assim ele conseguiu decapitá-la com a espada de Hermes. Perseu não utilizou o escudo para ficar se auto-adorando, tampouco para ficar observando quão tétricas eram as serpentes que se moviam na cabeça da Medusa ou para olhar suas terríveis garras. Nada disso ele fez. Pelo contrário, limitou-se a observar e analisar a perigosa criatura. Só assim pôde enfim liquidá-la. De forma análoga, é para isso que serve a projeção, para observarmos um defeito nosso através de um espelho, de um alguém que nos mostre as nossas imperfeições. A decapitação de Medusa representa a decapitação de nossos próprios defeitos. Um sábio monge budista disse: Nosso rosto é algo que normalmente nunca vemos. Embora usemos a nossa boca para falar todos os dias, nunca vemos que formato ela tem. Embora nosso nariz não pare de respirar, nunca conseguimos vê-lo. Nossos ouvidos ouvem sons o tempo todo, porém não podemos ver a sua aparência. Nossos olhos podem enxergar todo tipo de coisa, no entanto não conseguem enxergar a si mesmos. Dependemos de espelhos para ver o nosso reflexo. Somente desta maneira podemos ter idéia de como é o nosso rosto. Quando as pessoas têm sabedoria, é como se elas tivessem um grande espelho para enxergar a si mesmas, porque a sabedoria é o conhecimento claro que surge de uma mente luminosa, limpa e pura, livre das distorções, livre das ondulações Mas, infelizmente, parece que as pessoas preferem ter mais conhecimento para poderem julgar melhor o seu próximo, o que significa um brutal auto-engano. E quando, por acaso, alguém admite ou percebe que está vendo seu reflexo no outro, nada faz. Simplesmente aceita que é deste ou daquele jeito e continua a ser. Sobre a Raiva Um dia alguém disse que a raiva podia ser um sentimento bom, uma vez que dela provinha o impulso para realizar transformações, grandes feitos. Não parece ser este um conceito muito sensato, pois a raiva destrói; destrói nossa mente, nosso estômago, nosso cérebro, etc. Raiva não é vontade. Vontade é uma força bem diferente disto. Se precisamos de um impulso para nos motivar a agir, certamente a raiva não é o melhor deles, já que anda sempre ao lado de pares ruins, como o orgulho e a vaidade, por exemplo. A raiva não é boa conselheira, pois nos leva a agir inconscientemente com sentimentos negativos, como é o caso do orgulho e da vaidade, acima mencionados. A raiva nos cega. Os resultados de ações movidas por ela nunca serão benéficos. Diz Samael Aun Weor em “A Revolução da Dialética”: A cólera aniquila a capacidade de pensar e de resolver os problemas que a originam. Obviamente, a cólera é uma emoção negativa. Cultivamos padrões de pensamentos, emoções que vêm de longo tempo, anteriores mesmo à nossa existência, como, por exemplo, o ódio entre países ou entre crenças. Muitas criaturas sequer sabem por que se odeiam. Criamos expectativas fantasiosas, que se transformam em frustrações e geram raiva; raiva da vida, raiva de pessoas e coisas que nos contrariam, raiva de nós mesmos por termos criado essas fantasias, por termos acreditado em ilusões. E sempre tentamos nos justificar, dizendo que tivemos motivos para sentir raiva, para nos irritarmos, para ficarmos nervosos. Mas a verdade é que não existe um motivo real para que isso aconteça, não existem motivos externos para a raiva, os motivos são sempre internos. Muitas vezes a raiva vem de uma má interpretação das situações, de uma impressão distorcida dos fatos, de uma visão egocêntrica dos fatos, uma visão identificada, viciada. A raiva normalmente está dentro nós mesmos, e acabamos por projetá-la nos outros. Ela tem origem nos conflitos internos, em nossos desejos muitas vezes antagônicos. Se nos irritamos, se ficamos nervosos, agressivos porque alguém nos provoca, então vamos mal. Estamos sendo escravos e fantoches de terceiros; estamos submetidos aos poderes de outrem. E perceber isto também pode nos deixar com raiva, com raiva de nós mesmos, o que pode levar à negação ou à transferência deste sentimento para alguém ou alguma coisa. Existe uma história interessante atribuída ao colunista Sidney Harris. Contam que um certo dia, ele acompanhava um amigo à banca de jornais. O amigo cumprimentou o jornaleiro amavelmente, mas, como retorno, recebeu um tratamento rude e grosseiro. Pegando o jornal que foi atirado em sua direção, o amigo de Harris sorriu polidamente e desejou um bom fim de semana ao jornaleiro. Quando os dois amigos desciam a rua, o colunista perguntou: – Ele sempre lhe trata assim com tanta grosseria? – Sim , infelizmente é sempre assim. – E você é sempre tão polido e amigável com ele? – Sim, sou. – Por que você é tão educado, já que ele é tão indelicado com você? – Porque não quero que ele decida como eu devo agir.” É fácil observar que, se nos irritamos, se ficamos nervosos, irados diante de uma provocação, então estamos sendo escravos dos outros e dos nossos demônios, estamos sendo manipulados por eles. Também não é difícil observar quando nos deixamos escravizar, quando somos facilmente manipulados, com chantagens emocionais, aplicação de rótulos, falsos conceitos, idéias tortas. Quando a mente sai da serenidade, da paz, nossos conceitos precisam ser revistos, sem o foco no ego, no eu, no mim mesmo, no meu. Um grande Mestre disse: O corpo astral tem seus desejos – e os tem às dúzias; há de querer ver–te encolerizado, ouvir–te dizer palavras ásperas, que sintas ciúmes, que sejas ávido por dinheiro, que invejes os bens alheios e cedas ao desânimo. Quererá todas essas coisas e muitas outras mais, não porque deseje prejudicar–te, mas por que lhe aprazem as vibrações violentas e gosta de mudá–las continuamente. Tu, porém, não desejas nenhuma destas coisas e, portanto, deves distinguir os teus desejos dos de teu corpo astral. A raiva é também uma forma de defesa, apesar de ser uma emoção destrutiva, tanto para os que a sentem quanto para os que se tornam objeto dela. Todos nós temos nossas inseguranças, nossos medos. Uns reagem com ira, outros com inibição ou timidez; cada um tem seus mecanismos de defesa, que variam em função de suas experiências, necessidades, valores. Vários estudos científicos comprovam que a raiva enfraquece as defesas do organismo e é uma causa importante de doenças e morte prematura. Há indícios científicos de que a expressão repetida da fúria aciona reações bioquímicas nocivas ao organismo.O impulso colérico é relacionado até a algumas manifestações de câncer. A raiva destrói nossa serenidade, constituindo-se num grande obstáculo ao desenvolvimento da compaixão e do altruísmo. Sua Santidade o Dalai Lama reforça a afirmação de que não é possível superar tal emoção apenas suprimindo-a ou fingindo que ela não existe. Da mesma forma, deixar a raiva fluir sem controle, na esperança de nos livrarmos dela por sua simples vazão, também não resolve. A solução é evitá–la ou transformá–la pelo cultivo de seus antídotos: a paciência e a tolerância. Diz Sua Santidade o Dalai Lama em “A Arte da Felicidade”: Um resultado espontâneo da paciência e da tolerância é o perdão. Precisamos não nos identificar, não lutar contra raiva, não resistir, pois não somos a raiva. Tudo que é passageiro não é real, somente é real o que não muda. Logo, a raiva é uma ilusão, não é real, pois é passageira, momentânea. A paz, sim, é real. Sempre que a raiva se vai, lá está ela: a paz. Não é necessário fazer nada, não é necessário acontecer nada para que estejamos em paz. A paz simplesmente é. Um grande sábio disse: Talvez o defeito não seja a raiva, mas a falta de paciência. A impaciência é a falta de bondade. É muito fácil sermos pacientes enquanto não existe nada nem ninguém chamando pela expressão de nossa paciência. O desafio está em praticarmos a serenidade, a paciência, a tolerância no dia-a-dia, no calor das situações. É assim que forjamos nossas virtudes. Só depois de termos chegado à compreensão da raiva, do nervosismo exacerbado, da irritação, é que podemos olhar para aqueles que se encontram nesse estado e sentir uma profunda compreensão, uma real compaixão. Através da ignorância do outro, podemos avaliar também o quanto fomos ignorantes, o quanto fomos estúpidos, o quanto nos tornamos ridículos quando vivenciamos este mesmo estado. É comum nos deixarmos tomar por irritação e raiva sempre que nossos objetivos são frustrados, sempre que alguém ou alguma coisa atrapalha a realização de nossos desejos, sempre que a nossas expectativas de prazer são ameaçadas, sempre que somos privados de situações de comodidade e satisfação. Condicionamos nossos estados internos, e assim vivemos na expectativa, na ansiedade, na esperança de condições propícias que nos levem à paz e à tranqüilidade. Mas isso não passa de uma ilusão, pois, quando essas tão aguardadas condições não acontecem, ficamos irritados, com raiva. Construímos em nossa mente situações ideais que nos dão a sensação de segurança, de tranqüilidade, de conforto, de prazer. Quando essas situações são ameaçadas por algo ou alguém, lá estamos nós, dominados pela raiva e pela irritação. Ficamos nervosos, ansiosos, querendo de volta, a qualquer preço, aquela situação onde sentíamos segurança e conforto. Não há motivo para irritação com algo que não podemos mudar, pois, se não podemos mudar, se isto não está em nossas mãos, não há por que se irritar, não há por que perder a paz e a serenidade, não há por que se preocupar. O que podemos fazer, o que está em nossas mãos, é tentar relaxar e aceitar, é ter paciência, tolerância, serenidade. Isso sim está em nossas mãos, ou pelo menos deveria estar. Não há motivo para irritação com algo que podemos mudar, pois, se podemos mudar, se a mudança está em nossas mãos, não há por que se irritar, não há por que perder a paz e a serenidade, não há por que se preocupar, basta trabalharmos pacientemente para que a mudança ocorra. Geralmente, queremos ter razão em disputas e discussões. Se não conseguimos, se os outros não concordam conosco, ficamos irados. Devemos compreender que são apenas idéias, pontos de vista, conceitos e opiniões, que podem divergir ou não, e, por mais nobres que sejam, não passam disso. Mas, movidos por nossas inseguranças, nos apegamos e nos identificamos ferrenhamente com essas idéias. Temos medo de perder a razão, temos medo de ser dominados. Não são os outros que não aceitam nossas opiniões, somos nós que não aceitamos que os outros não aceitem nossas opiniões. Somos nós que não aceitamos que os outros tenham opiniões diferentes das nossas. Chamamos de teimosos àqueles que não aceitam facilmente nossos pontos de vista. Egoístas que somos, acreditamos que precisamos ter paciência e tolerância com os outros e nos esquecemos de que os outros também devem fazer o mesmo conosco. Talvez saindo um pouco de dentro de nós mesmos, sendo menos egoístas, possamos perceber que os outros também precisam ter muita paciência e tolerância para conosco. Afinal, não somos tão santos quanto pensamos ser; também nos irritamos, também temos nossas chatices, nossas crises de humor. Esta percepção nos levará a relaxar, e, por conseqüência, a ter muito mais paciência e tolerância com o nosso próximo, que, por sua vez, deve ter a mesma atitude para conosco. Ao sermos tomados pela raiva, devemos aceitar que estamos com raiva, não devemos resistir, não devemos negar, não devemos fugir das situações, dos sentimentos, das emoções. Devemos aceitar e observar aquilo que estamos sentindo, aquilo que acontece dentro de nós, que tipo de pensamentos habitam a nossa mente. Não temos que continuar negando ou fugindo de nossos demônios. Isso não quer dizer que devemos partir para cima dos outros, que devemos brigar, insultar, ofender. Quer dizer que devemos nos observar, para percebermos como estamos sendo estúpidos, como está sendo idiota o nosso comportamento. A raiva é uma realidade humana, não é uma verdade. Mas é uma realidade, assim temos que observa–la para um dia podermos compreendê–la. Existe um fenômeno denominado ‘transferência’, no qual transferimos algo que sentimos em relação a nós mesmos para uma outra pessoa, ou o que sentimos em relação a um certo indivíduo para outro indivíduo, ou o que sentimos em relação a determinada coisa para outra coisa. Os itens podem ainda ser misturados, e então a transferência pode se dar de uma coisa para uma situação, de uma situação para uma pessoa, de nós mesmos para uma coisa, e por aí afora. Mas, em ultima análise, devemos ter em mente que a origem é sempre algo que está dentro de nós, algo com nossos próprios demônios. Se, por exemplo, estamos fazendo um curso que não gostamos mas não temos coragem e ousadia para abandoná-lo e começar outro, se não temos coragem e ousadia para assumir uma mudança de opinião, tudo indica que estamos preocupados demais com nossa auto-imagem. Ela se tornou mais importante do que nossa paz e nossa felicidade. Então sentimos raiva de nós mesmos, mas não conseguimos lidar com isso e transferimos, projetamos, para o que é externo a nós, como, por exemplo, colegas de classe, professores ou a própria instituição. Em outro exemplo, se moramos em um lugar que não nos agrada, que não é o lugar onde idealizamos morar, ficamos com raiva, raiva de nossa incapacidade, de nossa impotência diante da situação, de nossa falta de força, de coragem, de ousadia. Então, como não conseguimos lidar com a situação, transferimos, projetamos, nossa raiva para terceiros: para os vizinhos, para própria habitação, para os companheiros que moram conosco. Existe um outro fenômeno chamado ‘compensação’. Neste fenômeno tentamos compensar um sentimento que não admitimos com um contrário, um sentimento que compense o que estamos sentindo. Isso pode acontecer devido aos nossos condicionamentos, nossos padrões, conceitos, preconceitos, falta de aceitação de nós mesmos, da realidade. Se, por exemplo, sentimos raiva da mãe ou do pai e não admitimos este sentimento, entra em cena um mecanismo de compensação, que protege, valoriza e dá atenção em excesso, mas que não é sincero. Às vezes, chegamos ao ponto de acreditar no que estamos fazendo. Este fenômeno da compensação pode nos levar ao fenômeno da transferência, ou seja, já que não conseguimos lidar com a raiva da mãe ou do pai, então compensamos.Mas a raiva continua lá. Então a transferimos para colegas de trabalho, funcionários, motorista ou cobrador de ônibus, pessoas no trânsito, na rua, enfim, para quem chegar perto. Sempre que ficamos irritados, nervosos, com raiva, buscamos culpar alguém, alguma coisa, alguma situação, ou seja, não conseguimos lidar com o que estamos sentindo. Então projetamos, transferimos, e assim continuamos sem compreender, pois não assumimos nossas responsabilidades nem a verdade de nossos sentimentos. E, quando assumimos, passamos a nos culpar e nos torturar, ficamos com raiva de nós mesmos. Um grande Mestre disse: O teu pensamento acerca dos outros deve ser verdadeiro; não penses a seu respeito aquilo que não saibas. Não suponhas que os outros estejam sempre pensando em ti. Se um homem faz alguma coisa que julgas poder prejudicar–te, ou diz algo que parece ser–te dirigido, não suponhas imediatamente: ‘Ele pretende ofender–me.’. O mais provável é que nunca pensasse em ti pois cada alma tem as suas próprias preocupações e os seus pensamentos não giram, as mais das vezes, em torno senão de si própria. Se um homem te falar colericamente, não penses: ‘Ele me odeia e quer ferir–me.’ Provavelmente, alguém ou alguma coisa o encolerizou e, acontecendo encontrar–te, voltou a sua cólera sobre ti. Procede insensatamente, pois toda a cólera é insensata, mas nem por isso deves pensar falsamente a seu respeito. Por trás da irritação, da agressividade, da raiva, existem conflitos internos, desejos, esperanças, expectativas. Se ficamos com raiva porque não achamos os sapatos onde esperávamos que eles estivessem, é de se deduzir que tínhamos a expectativa de encontrar os sapatos em um dado local; como não estavam lá e a expectativa foi contrariada, nos irritamos. Em verdade, não há problema algum no fato de os sapatos não estarem no local esperado, mas, por nossa grande estupidez, nossa ignorância, falta de paciência, de tolerância, de gratidão, ficamos irritados, com raiva, quando algo não sai como planejamos. Geralmente, o passo seguinte é ficarmos com raiva de quem mudou ou não colocou os sapatos onde achávamos que deveriam estar – isso porque temos o desejo que os outros façam tudo exatamente da forma que queremos, como pretensamente achamos correto. Sentimos o impulso da raiva para reclamar, para brigar, para insultar. Mas achamos que não é certo sentí-lo, por causa de nossos conceitos, nossos padrões, nossas necessidades, que entram em conflito com nossos sentimentos e emoções, com outros conceitos e padrões, com outras necessidades. Achamos que não é prudente brigar com a pessoa que praticou a ação, pois ela pode ficar brava, ir embora e nos deixar na mão; ou então poderia ficar magoada e nos rejeitar, aí perderíamos seu carinho, afeto e serviços. Achamos que o outro nunca faz exatamente o que queremos, como queremos; não faz certinho, e sempre sobra para nós, os perfeitos, os salvadores do mundo, corrigir seus erros. Por preguiça ou má vontade, não queríamos ter trabalho nenhum. Então ficamos irritados por isso, com raiva. Achamos que os outros, sim, tiveram preguiça e má vontade. Estes conflitos de padrões com conceitos, conceitos com necessidade, etc. geram uma pressão interna, uma irritação crescente. O que sentimos é raiva de nós mesmos porque não somos capazes de reagir, por acharmos que não estamos no controle, por nos sentirmos impotentes, presos aos nossos próprios dilemas. Poderíamos pedir com paciência, gentileza, doçura, que a pessoa colocasse os sapatos em um lugar específico, e poderíamos repetir o mesmo pedido quantas vezes fossem necessárias. Assim como poderíamos também aceitar o fato de que sapatos podem mudar de lugar sempre que uma pessoa mexe neles, pois não há nisso qualquer conseqüência fundamental. Se não aceitarmos a simples mudança do lugar de um sapato, não vamos aceitar as mudanças que a vida traz, não vamos aceitar mudança alguma dentro de nós. Parece interessante observar que o que pode estar por trás de tudo isso é o medo e a insegurança. A ciência mostra que a raiva pode destruir neurônios, causar úlcera, gastrite, dor de cabeça, até mesmo câncer. Assim, destruirmos a nós mesmos por causa de um sapato fora do lugar soa como algo absurdo. Somente pessoas muito estúpidas, muito burras, assim como nós, são capazes desses desmandos. Talvez a auto-aceitação diminua a raiva que sentimos por nós mesmos, as culpas que remoemos, diminuindo assim a raiva que temos de tudo e de todos, a culpa que atribuímos a tudo e a todos. As idéias, preconceitos, percepções que temos sobre os defeitos dos outros deveriam nos levar à expressão de mais compaixão, mais compreensão, mais tolerância, mais paciência. Estes sentimentos deveriam substituir a raiva, a irritação, o nervosismo, a grosseria, a brutalidade. Pois, se já sabemos como os outros vão se comportar, e isso se confirma, não há razão para irritação. Já sabíamos que assim seria, é muita estupidez nossa nos irritarmos com algo que já sabíamos que iria acontecer. Estupidamente, ficamos com raiva dos outros porque nunca mudam, continuam sempre a cometer os mesmos erros. Por outro lado, também continuamos sempre a cometer os mesmos erros. Facilmente, ficamos irritados, com raiva, sofremos com isso e não percebemos que os outros também sofrem com os defeitos que têm, muitas vezes sem perceber por que sofrem, sem perceber seus defeitos. Há vezes em que chegam até a acreditar que estão expressando virtudes; há outras em que percebem seus defeitos e não conseguem mudar, pois não sabem como .Tudo isso é motivo para compaixão, nunca para irritação. Temos raiva de muitas coisas, sentimos raiva em muitas situações. Nem sempre conseguimos perceber nossas manifestações de raiva, pois existe uma camada de véus que encobre este fato e, de certa forma, protege a psiquê. Podemos ter até conhecimento de algumas manifestações de raiva, mas raramente temos total consciência delas; não temos consciência do objeto de nossa raiva e quase nunca de por que sentimos raiva. Vivemos achando que a raiva dentro de nós se manifesta apenas por meio de grandes irritações ou explosões de ira. Pode até ser o caso. Mas temos uma série de pequenas irritações, e estas são as que mais destroem. De forma sutil, geram tensão, cansaço, fadiga, estresse. Preocupamo-nos com as grandes irritações e explosões de ira, quando na verdade deveríamos nos preocupar com o que realmente gera problemas e conflitos no dia-a-dia: as pequenas manifestações de raiva, aquelas que das quais não temos consciência. As grandes manifestações de ira são como uma cortina de fumaça para as pequenas. Pela prática diária da meditação, a mente se torna serena. Esta serenidade, aos poucos, vai se incorporando ao nosso dia-a-dia, à nossa vida prática. A meditação reflexiva nos leva a compreender os motivos de nossa ira. Esta compreensão, aos poucos, vai se refletindo em nosso comportamento diário. Mas, se após compreendermos os muitos aspectos da raiva, ainda reincidimos em velhos erros, em repetições, recorrências, se ainda somos tomados facilmente pela ira, se ainda nos irritamos com as mesmas coisas, com as mesmas situações ou com pequenas variações das mesmas situações, talvez seja porque nosso coração ainda esteja muito duro. Talvez o foco principal esteja voltado para a própria mente, talvez estejamos muito preocupados com nós mesmos. Neste caso, nossa capacidade de compreensão se concentra apenas em nossa própria realidade, impedindo-nos de olhar um pouco mais para o outro, para o seu ponto de vista. Isto ocorre quando nos falta o amor, manifestado sob seus mais variados aspectos, ou seja: compaixão, paciência, tolerância, compreensão, sensibilidade, calma, respeito, bondade, gentileza, aceitação, perdão. É possível até que nunca tenhamos sequer percebido que tais virtudes são aspectos e variações do amor. É possível que, mesmo em nossas mais profundas reflexõese meditações, não tenhamos desviado o olhar de nós mesmos, da nossa exclusiva compreensão do universo. É o amor- próprio, a auto-adoração que nos torna cegos para os demais. E a prática dessas grandes virtudes, que representa um exercício de amor ao próximo, nos ajuda a combater essa cegueira e vencer o amor-próprio. Questionamentos e Comentários – Acredito que a raiva não nasce necessariamente do orgulho ou da vaidade. É possível ser orgulhoso ou vaidoso sem sentir raiva. Certamente que é possível sentir orgulho e vaidade sem sentir raiva. Mas por trás de toda manifestação da raiva esta o orgulho, a vaidade, a auto importância, o amor próprio. Isso precisa ser observado e compreendido para que possa haver uma mudança interna. Sobre a Renúncia Se, pela renúncia a uma felicidade inferior, é possível alcançar uma felicidade superior, que o homem sábio abandone a inferior pela superior. Dhammapada 290 Precisamos perceber, por nós mesmos, a leveza, a liberdade, quando verdadeiramente renunciamos a algo. Uma sábia monja budista escreveu: A verdadeira satisfação, a verdadeira paz interior, apenas podem ser conquistadas através da renúncia. A renúncia leva à dissolução do desejo. A renúncia é uma prova de desapego, ou melhor, é próprio desapego. E desapego é o caminho para a dissolução dos desejos. Somente no ato da renúncia é que percebemos quão apegados estávamos. Antes disto, tudo o que fazíamos era arrumarmos as mais diversas justificativas e desculpas, para manter nossos apegos. Ao vivermos preocupados, temendo perdas ou prejuízos, revelamos nossos apegos. Precisamos ter a coragem de renunciar, aceitar as perdas e os prejuízos sem medo. Precisamos perceber a impermanência das coisas. Por termos medos, apegos, acreditamos que é necessário mantermos nossas defesas, nossas armas. Desta forma não conseguiremos abandonar a raiva, a violência, a brutalidade. Na realidade, o que devemos fazer é renunciar a tudo isso. Os desejos nos cegam de tal maneira que somente quando renunciamos a eles é que podemos perceber a nossa cegueira. Precisamos nos conscientizar da impermanência das coisas. Tentamos evitar dores, sofrimentos ou situações ruins como se esses males fossem durar para sempre. Devemos nos trabalhar para aceitar o que o agora nos impõe, deixando de rejeitar, de tentar evitar, por um instante, o instante presente. Tentamos, de todas as maneiras, evitar que as dores, os sofrimentos e as situações ruins continuem no futuro. Mas, como já dito, o melhor a fazer é aceitá-las no agora, uma vez que elas só existem no agora, se é que existem. Da mesma forma, ao invés de vivermos intensamente um bom momento no presente, preferimos fantasiar o futuro, tentando eternizar ou transformar o que de bom nos acontece agora. A renúncia leva à extinção da inveja. Aquele que renunciou ao luxo, ao status, à competição, às fantasias, às ilusões, à fama, às paixões, aos falsos brilhantes, e deixa de desejar essas coisas, está livre da cobiça e da inveja. Já não precisa se preocupar com o que os outros pensam ou vão pensar. Viver uma vida simples é um ato efetivo, um ato concreto de renúncia. É evidente que, para isso, não é necessário que tenhamos de morar numa caverna, não é necessário que tenhamos de vestir algum tipo de manto sagrado. O fato de não renunciarmos ao passado se reflete no planejamento do futuro, nas falsas esperanças, nas expectativas, na necessidade de repetir e reviver experiências tidas como ideais. O apego ao passado e a esperança, a expectativa do futuro, geram medos em relação ao futuro. Não queremos sentir insegurança quanto ao futuro, mas também não renunciamos ao passado, à esperança, à expectativa. Queremos sair da armadilha, mas não largamos a isca. Quando não renunciamos a algo, ficamos, ou podemos ficar, na esperança de que, de alguma forma, a situação vivida volte a acontecer. Esta esperança de que poderemos voltar a experimentar uma mesma sensação, um mesmo prazer, amortece a dor da perda e conforta. Isto só demonstra que ainda estamos apegados, e pior: demonstra que estamos a nos auto-enganar. A sábia monja budista também escreveu: Renúncia significa abandonar todas as idéias e esperanças às quais a mente desejaria se apegar e reter, ter interesse e desejo de investigar. Existem pessoas que vivem apenas de esperanças e que, no fundo, preferem não concretizar suas idéias, que, uma vez realizadas, tirarão delas o sentido de viver. Ou seja, não mais terão do que reclamar, com quem brigar, o que fazer. Essas falsas esperanças aprisionam a mente, estreitam a visão, impedem as pessoas de viver o presente, causam dores e sofrimentos. São reflexos da insatisfação e do descontentamento com o presente. Está escrito em no verso 338 do Dhammapada: Se as raízes permanecem sem danos e fortes, uma árvore, mesmo que cortada, crescerá novamente. Assim também se um desejo latente não for cortado pela raiz, o sofrimento retornará novamente e novamente. É importante observar, perceber, compreender, que fomos nós mesmos que construímos a nossa cruz e que nos dispusemos a carregá-la, crucificamos a nós mesmos. Fomos nós que vendemos nossas almas ao diabo, não podemos culpá-lo por isso. Ninguém, além de nós mesmo, é responsável por isso. O apego às coisas, a sensação de posse, nos faz sofrer. Mas não nos damos conta de que temos apegos e nem ao que estamos apegados. Por maiores que sejam as nossas posses, acreditamos ter sempre o mínimo necessário para viver. Tolos que somos, vivemos a nos auto-enganar. No “Attadana Sutta” há um trecho que nos alerta: Quem nunca pensa em termos de posse não sente falta de coisa alguma; uma pessoa assim jamais é afligida pelo sentimento de perda. Quem nunca pensa em termos de “isso é meu”, “aquilo é dele” jamais se sentirá prejudicado. A idéia de posse sobre pessoas é bastante comum entre nós. Torna-se evidente nas demonstrações de ciúme de cônjuges, filhos, família ou amigos. Pessoas apegam-se umas às outras, e acreditam na posse recíproca. Há também idéia de posse sobre direitos, que acontece de forma um pouco mais sutil. A posse, a impressão de posse, a sensação de posse, não se manifesta somente em relação a carros, casas, bens em geral ou pessoas, mas em relação a nós mesmos, às nossas idéias, conceitos, direitos, nossa honra, auto-imagem, opinião, moral, nossa auto-definição. Identificar e descartar tudo isso, renunciar a tudo isso, é uma atitude inteligente e um desafio ao verdadeiro renunciante. Aquele que acredita possuir direitos sobre algo ou alguém sente-se profundamente afligido ao perdê-los, sente-se prejudicado, invadido. Infelizmente, não renunciamos sequer aos nossos sofrimentos, às nossas convicções sobre as situações vividas ou observadas, à nossa forma de ver a realidade. Se vemos um sofrimento apenas como sofrimento, e não como uma ilusão, é porque temos uma visão equivocada. E, desta forma, não poderemos nos livrar de qualquer sofrimento. Compreender os sofrimentos como lições a serem aprendidas é uma postura diferente. É uma grande mudança de paradigma, de visão de vida, de consciência da realidade. Como nos ensina o Budismo, esta é, na verdade, uma reta visão sobre o sofrimento, que nos enche de gratidão. E a visão reta é uma renúncia, uma renúncia à visão não reta. Acreditamos que aprendemos muito com nossos sofrimentos, e este é um dos motivos pelo qual nos apegamos a eles. Mas, na realidade, o que chamamos de aprendizagens não passa de mágoas, ressentimentos, medos, repressões, não passam de uma criação de travas, de dispositivos de defesa. Enquanto carregarmos estes sentimentos, estaremos presos a um passado, um passado que provavelmente não aconteceu ou foi mal interpretado. Se passamos a encarar os sofrimentos como lições a serem aprendidas, como impulsos para nossasmudanças interiores, se o importante na vida passa a ser o aprendizado e a evolução por meio dele, então não existe mais ofensa, agressão, pressão; existem apenas aprendizados. Mas quando ficamos nervosos, irritados, quando maldizemos a vida e as pessoas, é porque algo passou a ser mais importante do que o aprendizado. Isto significa então que o fato de ser bem tratado, elogiado, reconhecido, aceito, adorado, é mais importante que o aprendizado. Isto significa a predominância da auto-importância, auto- importância esta à qual se deve renunciar. Renunciar significa abandonar sem olhar para trás. Olhar para trás pode nos transformar em estátuas humanas, pois nos aprisiona a um passado. A experiência da renúncia não deixa dúvidas, expressa claramente que nos livrarmos de fardos que antes carregávamos desnecessariamente. A raiva, o orgulho, a vaidade, a cobiça, a inveja, são pesados fardo que carregamos. É muito prazeroso e libertador ver-se livre dos pensamentos que geram todas estas coisas. Ainda nas palavras da sábia monja: Se formos bem sucedidos, mesmo que uma ou duas vezes ao longo do dia, em nos soltarmos das nossas reações, teremos tomado um grande passo e poderemos mais facilmente fazer o mesmo outras vezes. Teremos compreendido que uma emoção que surgiu poderá ser detida, não precisamos carregá-la conosco o dia todo. O alívio proveniente disso será a prova de que uma grande descoberta interior foi realizada e de que a simplicidade da não dualidade nos mostra o caminho para a verdade. Todos nós vivemos em busca de algo mais, algo diferente que venha a nos preencher. Independente das conquistas alcançadas, sempre achamos que a vida está incompleta, que ainda há algo a ser adquirido, realizado. E passamos a vida a correr atrás de casas, carros, títulos, salários, divertimentos, conhecimento. Vivemos em busca de uma felicidade, paz e satisfação ilusórias. Distantes do verdadeiro caminho, seguimos, de ilusão em ilusão, de desilusão em desilusão, atrás de sonhos, esperanças e expectativas, que acabam levando a frustrações, tristezas, dores e sofrimentos. Mas é sempre tempo de reconhecer e renunciar a tudo isso. Podemos ser criaturas generosas, guardar preceitos éticos, dedicarmo-nos a práticas espirituais, tentar melhorar, mudar a cada dia, morrer em nós mesmos a cada dia, a cada instante, que sempre estará faltando algo. Como disse Cristo Jesus em Marcos 10:21: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me. Para finalizar este tema, nada melhor do que as palavras de HPB em "A Voz do Silêncio": Há só uma senda até o Caminho; só chegando bem ao fim se pode ouvir a Voz do Silêncio. A escada pela qual o candidato sobe é formada por degraus de sofrimento e de dor; estes só podem ser calados pela voz da virtude. Ai de ti, pois, discípulo, se há um único vício que não abandonaste; porque então a escada abaterá e far-te-á cair; a sua base assenta no lodo fundo dos teus pecados e defeitos, e antes que possas tentar atravessar esse largo abismo de matéria, tens de lavar os teus pés nas águas da renúncia. Acautela-te, não vás pousar um pé ainda sujo no primeiro degrau da escada. Ai daquele que ousa poluir um degrau com seus pés lamacentos. A lama vil e viscosa secará, tornar-se-á pegajosa, e acabara por colar-lhe o pé ao degrau; e, como uma ave presa no visco do caçador sutil, ele será afastado de todo o progresso ulterior. Os seus vícios tomarão forma e puxá-lo-ão para baixo. Os seus pecados erguerão a voz, como o riso e soluço do chacal depois do sol se por; os seus pensamentos tornar-se-ão um exército e levá- lo-ão consigo, como um escravo cativo. Mata os teus desejos, Lanu; torna os teus vícios impotentes, até dares o primeiro passo na jornada solene. Estrangula os teus pecados, torna-os mudos para sempre, antes que ergas um pé para subir a escada. Faze calar os teus pensamentos e concentra toda a tua atenção sobre o teu Mestre, que tu por enquanto não vês, mas sentes. Sobre a Sensação de Mandar e Ser Mandado Todos querem mandar uns nos outros. Queremos sentir o prazer da sensação de poder, da sensação de humilhar, subjugar, de submeter os outros ao nosso comando. São sensações que reforçam o orgulho, a vaidade e a necessidade de auto-afirmação em nós. Em contrapartida, quando nos vemos submetidos a situações onde é o outro que está no comando, sentimo-nos humilhados, ultrajados, ofendidos, explorados, impotentes. E isso gera irritação, raiva, medo, angústia e vergonha. Isso gera sofrimento. Os conceitos e padrões, os valores que nos tornam orgulhosos e envaidecidos, que nos fazem sentir prazer com a oportunidade de mandar, são os mesmos que nos fazem sofrer quando estamos do outro lado, na situação de comandado. Nas empresas, nas famílias, nas igrejas, nos grupos, todos querem mandar, controlar, assumir o poder, estar na liderança. Muitos se aproveitam de suas posições para, de alguma forma, exercer o poder, segundo as suas condições. Uns reclamam dos outros, e todos fazem o mesmo. Políticos, governantes, casais, pais, filhos, avós, porteiros, seguranças, recepcionistas, atendentes, chefes, juízes, árbitros, patrões, professores, todos querem mandar. Não adianta tentarmos nos enganar, nos auto-convencer de que fazemos isto ou aquilo porque assim determinamos e não porque alguém nos mandou fazer, e continuarmos com a sensação de estarmos sendo comandados. Antes de mais nada, é preciso saber obedecer para saber ordenar. É preciso ter a humildade de aprender a obedecer para que se possa aprender a ordenar. Queremos, de uma maneira ou de outra, estar sempre por cima das situações. E há quem experimente até um certo prazer, uma sensação de superioridade, de liberdade, de poder, ao agir com desrespeito, com insubordinação, ao desobedecer as regras. Agindo assim, acham que nada nem ninguém poderão lhes deter. Por mais que alguém nos pressione ou nos mande fazer algo, temos a escolha, a opção, de não fazer. Evidentemente, podemos ter de colher os frutos amargos de uma recusa, mas temos sempre a opção de não fazer. Ainda que exista a ameaça de perdermos o emprego ou até mesmo a vida, temos sempre esta opção. Culpamos os outros por nossa incapacidade, nossa impotência, nossa fraqueza, por estarmos aprisionados em nossos desejos, nossas necessidades, nossos medos. Transferimos para os outros a raiva que temos de nós mesmos. Achamos que os outros nos obrigam a fazer o que não queremos, quando quem nos obriga a fazer essas coisas são os nossos próprios egos. Mais uma vez, transferimos para terceiros o que está dentro de nós. O ego, por querer estar sempre ditando as regras, se enfurece quando é comandado. Nesta situação, o ego coloca-se como impotente, considera-se oprimido e injustiçado. Por nos acharmos muito importantes é que relutamos em obedecer, seguir, qualquer tipo de regra ou lei. E sofremos com isso. Existe uma grande diferença entre temer e respeitar. É preciso perceber e compreender tal diferença. A chantagem, a pressão, a opressão, a trapaça, a violência, a brutalidade, a persuasão mal intencionada, a bajulação, a coação, a repressão, a vexação e a coerção são algumas das formas mais comuns de se exercer poder, o comando. Queremos controlar, queremos ditar as regras. Repudiamos qualquer possibilidade que remeta à idéia de estarmos sendo controlados por algo ou por alguém. De forma arrogante, dizemos que ninguém manda em nós, que fazemos o que queremos, que ninguém pode nos obrigar a fazer o que não queremos, que somos livres, que temos os nossos direitos. Achamo-nos demasiadamente importantes, nos adoramos. Estamos profundamente apegados à nossa auto-imagem, às fantasias que fazemos sobre nós mesmos. A identificação com a idéia de estarmos sendo comandados nos faz sofrer. E isto ocorre por causa de padrões e conceitos previamenteintrojetados. A necessidade, o desejo de controlar as coisas externas nasce do descontrole interno, da incapacidade de auto-controle. Muitos acreditam deter o controle das coisas, das situações, de si mesmos. E, quando porventura agem de maneira estranha, quando dão vazão aos seus impulsos, imediatamente tratam de arrumar uma justificativa para seus atos. Na realidade, não temos controle algum sobre nada, não temos controle algum sobre nós mesmos. Estamos nas mãos de nossos egos, de nossos desejos, em diferentes graus de inconsciência. Não temos uma vontade própria, a bem dizer nem vontade temos. Temos, sim, um somatório de desejos, muitas vezes contraditórios, antagônicos. Somente quando aceitamos o fato de que não estamos no controle de coisa alguma é que podemos passar a ter algum controle, é que podemos passar distinguir as forças que atuam em nós, controlando e manipulando as nossas ações. Se nos criticam, criticamos; se nos ofendem, ofendemos; se comem perto de nós, ficamos com desejo de comer; se bocejam, bocejamos; se tossem, tossimos. Todos nos controlam e nos condicionam, menos nós mesmos. O “Eu mandão” se justifica dizendo que alguém tem que tomar a frente, e que só fará isso pelo bem de todos. O “Eu mandão” se esconde por trás da educação, da gentileza. Pede “por favor”, pede ajuda. Utiliza-se de gestos, caras e bocas. Algumas vezes, tenta simular que está sofrendo, precisando de apoio. Outras, tenta argumentar, de forma premeditada, que “não queria pedir, mas a força da situação exige que ele peça ou mande, se for o caso”. Sobre a Solidão A solidão costuma estar sempre acompanhada de ilusões, sentimentos de frustração, mágoa, carência, medo, insegurança e rejeição. O medo da solidão talvez seja o medo da palavra e da idéia que ela carrega e não da solidão em si mesma. A sensação de solidão acontece quando não nos sentimos bem conosco, quando não somos boas companhias para nós mesmos. O tamanho do vazio existencial parece ser proporcional à distância que estamos de nosso Ser. Na verdade, ninguém é carente de outra pessoa, mas de si mesmo. A questão da solidão não é bem o estar só mas sim o estarmos mal acompanhados pelos pensamentos negativos, pelos nossos egos, pelos nossos demonios internos. A solidão nos atormenta quando nos colocamos como vítimas, como pobres criaturas injustiçadas e abandonadas. Estamos por demais identificados com a nossa personalidade, com as idéias que temos sobre nós mesmos, com os nossos pensamentos. Passa-se a vida toda com medo de solidão, mas não se passa nem um minuto refletindo, meditando, sobre tal medo. Nem sempre estar só significa padecer de solidão. Existem pessoas que vivem sozinhas e não sofrem de solidão, assim como existem aquelas que vivem cercadas de gente e se sentem extremamente solitárias. Podemos sentir solidão até mesmo em festas e comícios, no meio da multidão. Logo, podemos concluir que a solidão não depende tanto assim de fatores externos, ao contrário do que costumamos imaginar. Aquele que associa sua solidão ao fato de não se sentir aceito, deve lembrar que a única condição para sermos aceitos pelos outros é nos aceitarmos primeiro. E neste momento, neste exato momento em que nos aceitamos, passamos a não mais fazer questão da aceitação dos outros, o que afasta de nós o sentimento de solidão. Há quem diga que aquele que sofre de solidão não dá valor a si mesmo. Mas esta afirmação não é verdadeira. Ao contrário do que possa parecer, sentimos solidão justamente por nos superestimarmos, por estarmos transbordando amor-próprio, auto-importância, auto-adoração, apego a nós mesmos e às nossas idéias – estados de alma que só nos distanciam do real Ser Interno. A solidão acontece quando queremos receber de outrem tudo aquilo que deixamos de dar a nós mesmos e aos outros, como, por exemplo: amor, carinho, atenção, aceitação. O fato é que estamos e estaremos sempre sozinhos, sempre. E isso não tem que ser necessariamente algo doloroso. Ninguém pode nascer ou morrer por nós. Ninguém passou, nem pode passar, pelas experiências que passamos, sentir nossas dores ou nossas alegrias. Por mais que existam outras pessoas dividindo uma mesma experiência, cada um tem a sua própria percepção do que está vivenciando. O sentimento de solidão geralmente está ligado à vontade de se ter alguém, por acreditarmos que seremos felizes com uma pessoa ao nosso lado. Afinal, é esta a imagem que a sociedade, a família, as novelas e os filmes vivem transmitindo. Influenciados por esta idéia e sem um alguém, frustramo-nos. O desejo de ter alguém nubla a visão, a percepção do real, e então a solidão se instaura e se apodera de nós. A sensação de solidão, de abandono, não passa mesmo de uma mera sensação. É uma ilusão, e, portanto, não tem existência real, verdadeira. A falta de esperança gera solidão. Não nos referimos aqui à falta de esperança no âmbito das fantasias, mas à falta de esperança no que diz respeito ao Real, ao Verdadeiro. Alguns preferem fugir do vazio existencial construindo esperanças e ilusões. Assim, alimentam sua esperança de felicidade na realização de sonhos, como, por exemplo, conseguir um bom emprego, ter uma casa espaçosa, filhos, um relacionamento sincero e estável, ganhar na loteria, etc. Outros resolvem compensar seu vazio existencial mergulhando de cabeça no trabalho, na bebida, nas drogas, no sexo. E ainda há aqueles que, para escapar da solidão e da tristeza, apelam para brincadeiras e palhaçadas, escondendo-se de si mesmo e negando a realidade. Sentimos solidão porque nos fechamos na torre do egoísmo. Neste aspecto, a prática da caridade pode ajudar bastante. Mas não aquelas caridades de ocasião praticadas apenas com doações de dinheiro, com boletos bancários. Neste caso, o melhor é a prática direta, o contato com pessoas realmente necessitadas, como, por exemplo, visitas a idosos nos asilos, trabalhos voluntários com crianças doentes ou carentes em creches ou orfanatos, assistência aos deficientes, auxílio em amparos maternais. A solidão acontece quando o Ser que existe em nós clama por liberdade, por algo que está muito distante daquilo que estamos fazendo. A solidão acontece quando todo o nosso Ser explode de repente, ecoando: "Não é isso que eu quero! Nada disso tem sentido! Existe algo errado!" Neste sentido, um grande conforto pode ser obtido com o trabalho psicológico esotérico, que é algo que encanta a Alma. O Ser se enche de alegria quando meditamos. Quando conhecemos o trabalho psicológico esotérico, aquela Alma que antes protestava bradando: "Não é isso que eu quero! Nada disso tem sentido! Existe algo errado!" passa a afirmar: "É isso que eu quero! Estou voltando para casa!" Lentamente, conforme atingimos o auto-conhecimento, vamos ficando cada vez mais plenos, cada vez mais preenchidos, não do externo, mas de nós mesmos, do nosso próprio e vasto Ser – o Deus Interno dos místicos. Sobre a Vaidade A vaidade é a vestimenta do orgulho. É a auto-adoração. É querer parecer algo que não somos, o que revela profunda insegurança e necessidade de auto-afirmação. E não se resume apenas ao fato de querer parecer bonito, rico, elegante, mas também de querer parecer culto, informado, sábio, bondoso, místico, fiel, caridoso, calmo, sereno, tranqüilo, justo, honesto, recatado. Devemos nos perguntar se estamos interessados em ser ou em parecer alguma coisa, em ser ou em parecer virtuosos. Se somos verdadeiramente humildes, justos e generosos, não importa o que digam, pouco importa que nos achem orgulhosos, injustos maldosos, É importante observarmos que querer parecer aquilo que não somos envolve mentira, falsidade e hipocrisia. Um grande Mestre disse: Sê verdadeiro na ação; nunca pretendas parecer senão aquilo que és, pois todo fingimento constitui um obstáculo à pura luz da verdade,