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Vestibular Cidadão – Gramática – Prof. Reginaldo Rodrigues LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS Aulas 13 e 14 – Figuras de linguagem Com a finalidade artística ou retórica, o uso das figuras de linguagem torna-se um recurso que possibilita trazer à construção um efeito de sentido renovado. Esse procedimento é alcançado por meio de combinações, assim classificadas: I – Figuras de som (ou de harmonia); II – Figuras de palavras (ou semântica ou tropos); III – Figuras de construção (ou de sintaxe); IV – Figuras de pensamento. I – Figuras de som (ou de harmonia) Onomatopeia: consiste no aproveitamento de palavras cuja pronúncia imita o som ou a voz natural dos seres. É um recurso fonêmico ou melódico. Ex. Pedrinho, sem mais palavras, deu rédea e, lept! Lept! Arrancou estrada afora. Aliteração: repetição de fonemas idênticos ou semelhantes. Ex. Boi bem bravo, bate baixo, bota baba, boi berrando. (Guimarães Rosa) Assonância: consiste na repetição de fonemas para sugerir acusticamente uma ideia presente no texto. Neste predominam fonemas vocálicos. Ex. “Juro que não acreditei / Eu te estranhei / Me debrucei / Sobre o teu corpo e duvidei” (Chico Buarque) Paranomásia: também chamada de paronomásia, é a aproximação de palavras de um texto pela sua semelhança na forma ou na pronúncia (parônimos). Ex. Vou retificar o que você falou a fim de ratificar o que eu falei. II – Figuras de palavras (ou semântica ou tropos) Metonímia: é a utilização de uma palavra por outra, porque mantêm elas uma relação constante ou contiguidade de sentido. Eis os principais casos: - o autor pela obra: Você já leu Camões? - o efeito pela causa: Respeite minhas rugas. - o instrumento pela pessoa: Júlio é um bom garfo. - o continente pelo conteúdo: Ele comeu dois pratos. - o lugar pelo produto: Ele gosta de um bom havana. - a parte pelo todo: Não tinha teto aquela família. - o singular pelo plural: O paulista adora trabalhar. - o indivíduo pela espécie ou classe: Ele é um judas. - a matéria pelo objeto: A porcelana chinesa é belíssima. - a marca pelo produto: pacote de bombril, fazer a barba com gilete, mascar um chiclete. Antonomásia (perífrase): pode ser entendida como um tipo de metonímia. É uma espécie de apelido que se confere aos seres, valorizando algum de seus feitos ou atributos. Ex. Leu a obra do Poeta dos Escravos (Castro Alves). O Rei do Futebol fez mais de mil gols (Pelé). Você gosta da Terra da Garoa (São Paulo)? Sinédoque: um outro tipo de metonímia é a sinédoque. Ela ocorre quando há a substituição de uma palavra que sofre, no contexto, uma redução ou ampliação do seu sentido básico. Em exemplos práticos, é o que acontece com: chaminé pela fábrica, o telhado pela casa, o singular pelo plural, a substância pelo produto, a nação pelo governo, o gênero pela espécie. Comparação (símile): ocorre quando elementos de universos diferentes são aproximados de forma “explícita”, ou seja, com uso de conectivo comparativo (como, tal qual, igual). Ex. Minha irmã é bondosa como um anjo. Metáfora: é uma comparação abreviada, associação de ideias ou de característica comum entre dois seres. Nasce por meio da analogia e da similaridade e dispensa os conectivos que aparecem na comparação. Ex. Minha irmã é um anjo. Toda profissão tem seus espinhos. Adélia se via enclausurada numa teia de dúvidas. Catacrese: metáfora tão usada que perdeu seu valor de figura e tornou-se cotidiana, não representando mais um desvio: céu da boca; cabeça do prego; asa da xícara; dente de alho; pé da cadeira. Também se encontra no emprego impróprio por esquecimento ou ignorância de origem. Isso ocorre pela inexistência de palavras mais apropriadas e dá- se devido à semelhança da forma ou da função: ferradura de prata; embarcar no avião; fazer sabatina na sexta-feira; péssima caligrafia; ficou de quarentena dois meses; fazer uma novena durante esta semana. Sinestesia: é a figura que proporciona a mistura de percepções, mistura de sentidos. Ex. Tinha um olhar gelado. III – Figuras de construção (ou de sintaxe) Elipse: É a omissão de palavra ou expressão que pode ser facilmente subentendida. Ex. Requer-se seja intimado. Toda a cidade parada por causa do calor. Zeugma: é um tipo de elipse. Ocorre zeugma quando duas orações compartilham o termo omitido, isto é, quando o termo omitido é o mesmo que aparece na oração anterior. Ex. Na terra dele só havia mato; na minha, só prédios. Meus primos conheciam todos. Eu, poucos. Anacoluto: é a quebra da estrutura normal da frase a fim de introduzir nova palavra sem ligação sintática com as demais. Ex. Minha vida, tudo sem importância. Eu, eles diziam que a culpa era minha. Vestibular Cidadão – Gramática – Prof. Reginaldo Rodrigues Anáfora: é também a repetição de palavras, no início de frase ou versos. Ex. Eu quase não saio Eu quase não tenho amigo Eu quase não consigo Ficar na cidade sem viver contrariado (Gilberto Gil) Hipérbato: é a alteração da ordem direta dos termos ou das próprias orações. Ex. Aquela pessoa nunca mais quero ver. Da casa saíram as crianças. Da igreja estava ele na frente. Sínquise: é a inversão muito violenta na ordem natural dos termos, de modo que a compreensão seja seriamente prejudicada. Ex. Cobertor fofinho quente bebê dormia no. Piscina mergulhou na gelada ele. Por entre frio verdes passava folhas o vento. Polissíndeto: repetição de conjunções (síndetos). Ex. Não sorriu, nem feliz ficou, nem quis me ver, nem se importou com a partida. E resmunga, e chora, e grita, e pula, e berra. Assíndeto: ausência da conjunção entre palavras ou entre orações de um período. Nunca tivemos glória, amores, dinheiro, perdão. Vim, vi, venci. Pleonasmo: repetição da mesma ideia com objetivo de realce. Ex. Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal (Fernando Pessoa) Silepse: é a concordância que se faz com a ideia, e não com a palavra expressa. Há três tipos: - de gênero: Vossa Santidade será homenageado. - de pessoa: Os brasileiros somos massacrados. - de número: Havia muita gente na rua, corriam desesperadamente. IV – Figuras de pensamento Hipérbole: exagero proposital. Ex. Estou morrendo de alegria. Chorou um rio de lágrimas. Eufemismo: emprego de palavra ou expressão com objetivo de amenizar alguma verdade triste, chocante ou desagradável. Ex. Ele foi desta para melhor. Personificação ou (prosopopeia): É dar a vida ao seres inanimados ou dar características humanas aos animais e objetos. Ex. A formiga disse que tinha de trabalhar A vida ensinou-me a ser humilde. Antítese: aproximação de ideias de sentidos opostos. Ex. Tinha na alma um herói e um covarde. Paradoxo (ou oximoro): é o emprego de duas ideias antagônicas, que se excluem mutuamente, mas que aparecem em uma mesma frase. “Amor é fogo que arde sem se ver; é ferida que dói e não se sente” (Camões) "Estou cego e vejo " (Carlos Drummond de Andrade) Gradação (ou clímax): aumento ou diminuição gradual. Ex. A paixão crescia, amadurecia, vingava... Apóstrofe: invocação ou interpelação de ouvinte ou leitor, seres reais ou imaginários, presentes ou ausentes. Também é conhecido como vocativo. Ex. Ó Deus! Mereço tanto sofrimento? Tenha piedade, Senhor, de seus filhos Ironia: forma intencional de dizer o contrário do que pensamos. Ex. Ele era fino e educado (comeu como um porco), além de ser gentil (nem disse obrigado). Referências bibliográficas CEREJA, William R. e MAGALHÃES, Thereza C. Gramática Reflexiva – texto, semântica e interação. São Paulo: Atual, 4. ed, 2013. NICOLA, José de. Língua, literatura e produção de textos. São Paulo: Scipione, v. 1, 2 e 3, 2009 TERRA, Ernani. Curso Prático de Gramática. 6a edição, 3a reimpressão. São Paulo: Scipione, 2011 GUIMARÃES, Thelma de Carvalho. Vereda digital – Gramática uma reflexão sobre a língua.São Paulo: Moderna, 1. ed, 2018 AMARAL, Emília. et al. Novas Palavras: 1o ano. 3a Ed. São Paulo: FTD, 2016 Vestibular Cidadão – Gramática – Prof. Reginaldo Rodrigues Questão 01 GOMES, C. Disponível em: . Acesso em: 29 out. 2017 (Adaptação). Para responder às perguntas e conceituar sentimentos, a personagem do caramujo emprega a figura de linguagem a) comparação, porque associa semelhanças e diferenças entre os elementos citados. b) metáfora, porque instaura entre os termos uma relação incomum de semelhança. c) pleonasmo, porque utiliza a redundância dos termos na construção do sentido. d) gradação, porque apresenta os sentimentos em uma sequência decrescente. e) paradoxo, porque aproxima proposições aparentemente antagônicas. Questão 02 TEXTO I O mosquito que zomba do mundo Por que nossa orgulhosa civilização tecnológica do século XXI está perdendo a guerra para o inseto transmissor do temido vírus zika. VEJA. São Paulo: Abril, 2 463. ed., ano 49, n. 5, 03 fev. 2016. TEXTO II O mosquito O mundo é tão esquisito: Tem mosquito. [...] Tudo de mau Você reúne Mosquito pau Que morde e zune. Você gostaria De passar o dia Numa serraria – Gostaria? Pois você parece uma serraria! MORAES, V. Disponível em: . Acesso em: 22 nov. 2017. [Fragmento] Os textos anteriores utilizam o mesmo recurso prosódico para encenar a realidade que pretendem representar. Para descrever a ação do mosquito no título do texto I e na segunda estrofe do texto II, empregou-se a a) anáfora. b) metáfora. c) assonância. d) onomatopeia. e) paronomásia. Questão 03 Os dias escuros Amanheceu um dia sem luz – mais um – e há um grande silêncio na rua. Chego à janela e não vejo as figuras habituais dos primeiros trabalhadores. A cidade, ensopada de chuva, parece que desistiu de viver. Só a chuva mantém constante seu movimento entre monótono e nervoso. É hora de escrever, e não sinto a menor vontade de fazê-lo. Não que falte assunto. O assunto aí está, molhando, ensopando os morros, as casas, as pistas, as pessoas, a alma de todos nós. Barracos que se desmancham como armações de baralho e, por baixo de seus restos, mortos, mortos, mortos. Sobreviventes mariscando na lama, à pesquisa de mortos e de pobres objetos amassados. Depósito de gente no chão das escolas, e toda essa gente precisando de colchão, roupa de corpo, comida, medicamento. O calhau solto que fez parar a adutora. Ruas que deixam de ser ruas, porque não dão mais passagem. Carros submersos, aviões e ônibus interestaduais paralisados, corrida a mercearias e supermercados como em dia de revolução. O desabamento que acaba de acontecer e os desabamentos programados para daqui a poucos instantes. ANDRADE, C. D. Os dias escuros. Correio da Manhã. 14 fev. 1966. [Fragmento] O poeta Carlos Drummond de Andrade também escreveu textos em prosa. No fragmento anterior, a liberdade com que o autor usa a língua está expressa na(s) a) figuras de linguagem. b) linguagem técnica. c) coloquialidade. d) interlocuções. e) ironia. Questão 04 Inscrição para uma lareira A vida é um incêndio: nela dançamos, salamandras mágicas Que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta? Em meio aos toros que desabam, cantemos a canção das chamas! Cantemos a canção da vida, na própria luz consumida... QUINTANA, M. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005. A metáfora em “A vida é um incêndio”, no contexto do poema de Mário Quintana, sugere que a vida é a) luminosa e inconsistente. b) emotiva e devastadora. c) intensa e passageira. d) alegre e abrangente. e) bela e acolhedora. Vestibular Cidadão – Gramática – Prof. Reginaldo Rodrigues Questão 05 Soneto Mancebo sem dinheiro, bom barrete Medíocre o vestido, bom sapato Meias velhas, calção de esfola-gato Cabelo penteado, bom topete; Presumir de dançar, cantar falsete, Jogo de fidalguia, bom barato, Tirar falsídia ao moço do seu trato, Furtar a carne à ama, que promete; A putinha aldeã achada em feira, Eterno murmurar de alheias famas, Soneto infame, sátira elegante; Cartinhas de trocado para a freira, Comer boi, ser Quixote com as damas, Pouco estudo: isto é ser estudante. MATOS, G. Gregório de Matos. Porto Alegre: L&PM Editores, 1986. p. 27- 28. A obra de Gregório de Matos representa a estética barroca, vigente em sua época. A poesia do “Boca do Inferno” tematizou, além da religiosidade, a passagem do tempo, a sociedade e o amor – este tanto no plano platônico quanto nos planos erótico, carnal e escatológico. Um recurso empregado em textos barrocos que pode ser identificado no soneto anterior é a a) intertextualidade em “Comer boi, ser Quixote com as damas”. b) fala coloquial em “A putinha aldeã achada em feira”. c) linguagem grotesca em “Tirar falsídia ao moço do seu trato”. d) metalinguagem em “Soneto infame, sátira elegante”. e) antítese em “Pouco estudo: isto é ser estudante” Questão 06 Sonho branco De linho e rosas brancas vais vestido, Sonho virgem que cantas no meu peito!... És do Luar o claro deus eleito, Das estrelas puríssimas nascido. Por caminho aromal, enflorescido, Alvo, sereno, límpido, direito, Segues radiante, no esplendor perfeito, No perfeito esplendor indefinido... As aves sonorizam-te o caminho... E as vestes frescas, do mais puro linho E as rosas brancas dão-te um ar nevado... No entanto, Ó Sonho branco de quermesse! Nessa alegria em que tu vais, parece Que vais infantilmente amortalhado! SOUSA, J. C. Broquéis e faróis. Porto Alegre: L&PM, 2002. Valorizando as sensações humanas e empenhado em criar uma poesia comprometida com os sentidos humanos, Cruz e Sousa emprega a característica simbolista da a) personificação de elementos do inconsciente humano de forma objetiva, clara e sem emoção. b) remoção do eu lírico na descrição de um ambiente propício ao amor infantil e à iluminação sonhadora. c) musicalização agressiva própria de uma sociedade moderna em acelerado processo de industrialização. d) elaboração do vocabulário culto da classe alinhada às discussões racionalizantes do discurso cientificista. e) metaforização evocadora de um universo instável, efêmero e distante da objetividade e da concretude. Questão 07 Disponível em: . Acesso em: 07 dez. 2018. Na campanha contra o trabalho infantil, empregou-se no texto verbal, para impor expressividade, a figura de linguagem a) personificação. b) eufemismo. c) pleonasmo. d) hipérbole. e) antítese. Questão 08 Encontra-se um exemplo de antítese – figura de linguagem que apresenta oposição de ideias – na seguinte opção: a) “Luz, quero luz. / Sei que além das cortinas/ São palcos azuis...” (Chico Buarque) b) “Dia ímpar tem chocolate/ Dia par eu vivo de brisa/ Dia útil ele me bate/ Dia santo ele me alisa...” (Chico Buarque) c) “Vivia a te buscar/ Porque pensando em ti/ Corria contra o tempo...” (Chico Buarque) d) “Vida, minha vida/ Olha o que é que eu fiz/ Verti minha vida/ Nos cantos, na pia...” (Chico Buarque) e) “Como num romance/ O homem dos meus sonhos/ Me apareceu no dancing...” (Chico Buarque)