Portfólio de Neuro- Técnicas e Escalas
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Portfólio de Neuro- Técnicas e Escalas


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Portfólio \u2013 Fisioterapia em Neurologia \u2013 II Parte
TÉCNICAS UTILIZADAS NA REABILITAÇÃO NEUROFUNCIONAL
1. Terapia por contenção induzida (TCI)
A TCI visa recuperar a função do membro superior parético por meio de treinamento intensivo, prática de repetições funcionais e uso de dispositivo de restrição, luva ou tipoia, no membro superior não parético durante 90% do dia. A técnica baseia-se na superação da teoria do não uso aprendido (learned nonuse), ou seja, após uma lesão encefálica, o indivíduo que apresenta dificuldade no uso do membro superior afetado aprenderá rapidamente a utilizar estratégias compensatórias, fazendo uso apenas da extremidade não afetada; dessa forma, a TCI é capaz de melhorar a funcionalidade do membro superior acometido. Os princípios da TCI foram desenvolvidos em pesquisas com primatas os quais tiveram a extinção das sensações somáticas de um membro superior por meio de uma rizotomia dorsal. Nestes estudos, os macacos retornaram a utilizar o membro superior parético após contensão do membro sadio, superando o desuso aprendido. 
A técnica de tratamento é um método de recuperação sensório-motor pós-AVC que desencoraja o uso do membro não afetado e encoraja o uso ativo do membro superior parético, visando maximizar ou restaurar a função motora. Essa restauração ocorre por uma reorganização cortical uso-dependente, um fenômeno de plasticidade cerebral no qual o tamanho da área de representação cortical do membro superior, por exemplo, é diretamente proporcional ao uso do mesmo, interrompendo o não uso aprendido.
São características da TCI o uso máximo do membro afetado, a inserção do indivíduo em atividades funcionais e cotidianas, e a restrição do membro superior saudável nas tarefas do dia a dia. Dessa forma, há três princípios ou intervenções que formam a TCI: treino de tarefa orientada intensivo com repetição do membro superior acometido 3 horas por dia, por 2 semanas consecutivas, por meio do shaping, que é um método de treinamento baseado nos princípios do treino comportamental, cujo objetivo motor é alcançado em pequenos passos, e task pratice, técnica menos estruturada, envolvendo atividades funcionais realizadas integralmente em um período de 15 a 30 minutos; restrição do membro superior não afetado durante 90% das horas acordado no período de tratamento; aplicação de um conjunto de métodos comportamentais para reforçar a adesão e transferir os ganhos feitos no ambiente clínico para o mundo real do paciente.
2. Terapia Espelho 
A Terapia de Espelho (TE) é uma intervenção de baixo custo e fácil aplicabilidade, desenvolvida para o tratamento da dor do membro fantasma e atualmente usada no tratamento pós-AVE. A TE é aplicada por meio de um espelho que é posicionado entre os membros superiores do indivíduo de modo sagital. Com a intenção de reeducar o cérebro e promover uma ilusão visual e cinestésica, o indivíduo realiza uma série de movimentos com o membro saudável que são refletidos pelo espelho e interpretados como se fossem realizados pelo membro afetado. Com base na ativação do Sistema de Neurônios Espelhos (SNE) e do trato córtico-espinhal, a TE acelera a recuperação de hemiparéticos e promove a reorganização cortical, ocasionando ganhos funcionais e motores.
3. Treino de dupla tarefa 
A capacidade de executar duas tarefas simultaneamente é necessária e comumente utilizada pelos seres humanos no desempenho de diversas atividades cotidianas. Essa capacidade representa uma vantagem evolutiva, já que permite ao indivíduo executar diversas atividades concomitantes, com menor ativação neural, utilizando menos tempo comparado com a realização das mesmas tarefas de forma isolada. O prejuízo que uma - ou as duas - sofre é denominado interferência na dupla tarefa. Sua presença gera desvantagens e inclusive pode levar ao risco de lesões corporais quando uma delas exige adequado controle postural ou rastreio de riscos ambientais. 
Diversos estudos têm apontado presença de interferência na dupla tarefa em indivíduos com doença ou lesão neurológica, tais como as doenças de Parkinson, de Alzheimer e de Huntington, esclerose múltipla, traumatismo crânio-encefálico (TCE) e acidente vascular encefálico (AVE). Ela pode ser expressa na marcha como diminuição da velocidade, do comprimento do passo e da cadência e aumento do tempo de duplo apoio. A interferência pode surgir também na forma de pior desempenho do membro superior, diminuição do número de palavras faladas e aumento da oscilação corporal, entre outras. 
Três modelos teóricos foram desenvolvidos a fim de explicar a interferência na dupla tarefa. A teoria da capacidade - ou teoria do compartilhamento de recursos (the capacity model), baseia-se no pressuposto de que os recursos atencionais são limitados, levando a prejuízo na execução de uma ou das duas tarefas quando a capacidade de processamento é excedida. A teoria da comunicação cruzada (the cross-talk model) explica que tarefas semelhantes utilizam as mesmas vias, diminuindo assim o risco de interferência na dupla tarefa. Por fim, a teoria do gargalo (the bottleneck model), em contraposição à teoria anterior, afirma que tarefas semelhantes competem pelas mesmas vias de processamento, gerando prejuízo na realização de uma ou das duas tarefas. De acordo com o tipo de atividades desempenhadas, a dupla tarefa pode ser motora, cognitiva ou cognitivo-motora. Uma estratégia de reabilitação cada vez mais utilizada é o treinamento de dupla tarefa, que visa facilitar, por meio da realização de atividades funcionais simultâneas, a alocação de recursos atencionais, diminuindo assim a interferência na dupla tarefa.
4. Imagética motora 
A literatura sugere que a IM pode ser um instrumento terapêutico importante para facilitar a recuperação motora de indivíduos após lesão neurológica. Uma vez que a IM permite ativar o repertório motor em todos os níveis de reabilitação, podendo ser usada como estratégia de treinamento para o reaprendizado de Atividades de vida diária (AVD). Este tipo de abordagem é considerado um ensaio mental de propriedades cinestésicas e/ou visuais dos movimentos, estando relacionada diretamente à ativação da área motora e áreas do córtex somatossensorial. A compreensão dos mecanismos corticais correlacionadas com a imagética motora são os objetivos de estudos de neuroimagem, bem como a identificação de redes neuronais envolvidas na execução de movimentos que também podem ser recrutadas durante a imaginação do movimento.
A imagética motora (IM) pode ser definida como ato de codificar o ensaio mental de uma ação pretendida, sem executá-la. A imaginação e a sensação de um movimento são fenômenos rigorosamente relacionados e possuem um perfil de controle totalmente voluntário. Esta ação consciente pode gerar mudanças neurofisiológicas não conscientes e influenciar eventos sobre o sistema nervoso autônomo (SNA), levando a mudanças na atividade cardiorrespiratória. Evidentemente, o SNA não pode ser modulado diretamente pelo movimento voluntário, sugerindo que estas mudanças seriam causadas pelos processos mentais que integram parte do programa motor evocado durante a IM
A IM é um processo cognitivo utilizado para aprender ou aperfeiçoar o desempenho motor, sem qualquer movimento corporal, e compreende experiências com a mente, sejam elas auditiva, visual, tátil, gustativa, olfativa, cinéstesica ou orgânica. Trata-se de um estado dinâmico complexo, autogerado, no qual uma ação específica do ato motor é ativada dentro da memória de trabalho do indivíduo. A abordagem terapêutica com o uso da imagética motora é uma ferramenta inovadora, com resultados promissores e contribuições significativas na reabilitação funcional das disfunções neurológicas. Além disso, trata-se de um recurso terapêutico de baixo custo, e fácil aplicabilidade.
5. Treinamento Neuroevolutivo (Bobath no Adulto)
O Conceito Neuroevolutivo Bobath surgiu na década de 50 através da contribuição do casal Bobath, Karel e Berta Bobath. Nesta época, Berta Bobath recebeu como paciente um famoso pintor, hemiplégico