Prévia do material em texto
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ ARQUITETURA E URBANISMO FRANCIELE ROVER CORRENT MATEUS RANIERO ZAMPAR ENXAIMEL MARINGÁ, 2017 Vedações verticais são as estruturas que definem e limitam verticalmente um edifício, protegendo contra agentes indesejáveis. Portanto, as vedações verticais são fundamentais em qualquer edificação. Existem inúmeros tipos de vedações verticais, diferentes técnicas e estilos, e uma delas é o enxaimel (ver figura 1). O enxaimel é uma técnica construtiva formada por um esqueleto de madeira estruturado na vertical, horizontal e com inclinações (ver figura 2). Tal estrutura é finalizada, em geral, apenas pelo encaixe (ver figura 3). Os espaços vazios são então preenchidos com algum material (barro; uma mistura de barro com pequenas pedras e palha; pedra; tijolos). De início era comum a utilização do barro, mas posteriormente o tijolo se tornou o material mais habitual (VEIGA, 2013, p. 77 - 78). Outra característica marcante é a grande inclinação do telhado, cuja função inicial era sustentar o mínimo possível de neve. Essa grande inclinação possibilita e favorece a construção de mais andares e sótãos. Com o passar do tempo e as mudanças socioculturais, o enxaimel deixou de ter a função básica de sustentar e estruturar a casa e passou a ter um valor estético, com a criação de fachadas cada vez mais elaboradas. A origem do enxaimel – ou Fachwerk, em alemão – é um ponto ainda muito questionado. Alguns acreditam que o princípio ocorreu ainda na Pré-história, advindo das palafitas. Vilas inteiras com palafitas teriam sido encontradas nos Alpes e então a técnica da construção de tais palafitas foi, supostamente, se irradiando pela Europa (WITTMANN, 2016). Porém, há quem defenda que a gênese ocorreu mais tarde, por volta do século XIII ou anteriormente, na região onde hoje se localiza a Alemanha (VEIGA, 2013, p. 76). Essa técnica também varia muito de região para região e de acordo com o período histórico. O enxaimel é organizado da seguinte forma (ver figuras 4, 5, 6 e 7): A estrutura de madeira, montada sobre uma fundação de pedra, era composta principalmente por quarto tipos de peças: os baldrames, peças horizontais que formam a base de cada andar da casa; os peitoris, também horizontais, dispostos entre os baldrames; os esteios, peças verticais, encaixadas nas duas anteriores; e as escoras, peças inclinadas, encaixadas entre as horizontais e verticais. (VEIGA, 2013, p. 78). Já Weimer (2005, p. 359) descreve o enxaimel da seguinte maneira: Em sua forma mais comum, a parede do enxaimel é contida por um baldrame, um frechal e dois cunhais (ou dois esteios principais, em se tratando de paredes internas). Nesse requadro estão encaixados os esteios secundários que definem os vãos, limitados horizontalmente, por verga e peitoril. Nos tramos fechados aparece o Mittelriegel que chamamos de peitoril ou verga conforme se situe abaixo ou acima da linha média das janelas. As paredes internas são marcadas externamente por esteios principais, mais robustos que os secundários. Nos tramos extremos de cada pano de parede aparecem escoras encaixadas entre o baldrame e o frechal. Quando os panos são muito grandes, pode aparecer uma escora intermediária. As peças de madeira recebem usualmente marcações, ou runas, (com frequência números romanos) para facilitar na posterior montagem (ver figura 8). A técnica possui ramificações que estão ligadas a diferentes regiões. Na Alemanha são três: o baixo-saxão, no norte; o alemânico, no sudoeste; e o franco, no sudoeste (OLIVEIRA, 2011, p. 22). O baixo-saxão habitualmente forma um desenho parecido com tabuleiro de xadrez, todo quadriculado, devido à continuidade dos esteios e baldrames e à ausência de escoras. Essa ramificação foi a mais difundida no Brasil (ver figura 9). O alemânico se caracteriza pelo grande afastamento estre os esteios principais, havendo assim a necessidade de várias escoras. Os desenhos mais comuns formados pelas escoras são a cruz Santo André, a Shwabisches Weibel e o Wilder Mann (ver figura 10). O franco é uma espécie de fusão entre os anteriores. Nele, as possibilidades estéticas são intensamente exploradas pois são criadas inúmeras variações, peças curvadas e muitos desenhos numa mesma fachada (ver figuras 11 e 12). É popular também que as casas em enxaimel sejam decoradas de outras formas além dos desenhos formados com os caibros de madeira. Entre eles estão pinturas, entalhes abstratos ou com motivos florais, e esculturas (ver figuras 13 e 14). Ademais, com o emprego do tijolo para preenchimento, estes foram usados também para criar desenhos (ver figura 15). Uma empresa alemã que tem se destacado no ramo da construção civil utilizando-se da técnica do enxaimel é a Huf Haus. A ideia principal é utilizar o vidro e a madeira para criar casas modernas, pré-fabricadas e ecológicas. As plantas são adaptadas e as casas são montadas em poucos dias, diretamente no terreno escolhido pelos compradores. Todo o edifício é projetado para atender as necessidades do cliente, mas também para combinar com a paisagem circundante. Os projetos são de alto nível, reinterpretando a tradição do enxaimel. Uma característica forte da empresa é a utilização de grandes superfícies de vidro para minimizar a utilização de energia elétrica para iluminação da casa, reduzindo o consumo e melhorando o conforto (ver figuras 16 e 17). Ela possui modelos pré-estabelecidos conforme o perfil do cliente, a função, o ambiente (edifícios unifamiliares, comerciais, entre outros). Analisaremos um modelo chamado Huf Haus Modum 7:10 (ver figura 18). Suas dimensões são 8,86 m x 12,46 m. A casa Modum 7:10 se chama assim devido à sua modulação. O quer dizer que as dimensões da casa obedecem a esta proporção. O número 7 representa a largura com base no módulo aproximadamente de 1,2 m. Portanto, a largura da casa corresponde a 8,4 m ou 7 vezes 1,2m. O número 10 corresponde ao comprimento da edificação com base no módulo de 1,2m. Portanto, o comprimento da casa é de 12 metros ou 10 vezes 1,2 m. A casa se destaca pela sua volumetria tradicional, definida pelos planos de inclinação acentuada do telhado de duas águas e beirais salientes. As peças estruturais de madeira encaixadas, combinadas com o telhado tradicional, evidenciam o enxaimel na edificação. Nesta releitura contemporânea da técnica, as peças de madeira aparente são posicionadas na horizontal e na vertical, evidenciando a divisão da casa em dois pavimentos e realçando a sua simetria. Ademais, a utilização dos espaços é otimizada (ver figuras 19, 20, 21 e 22). No pavimento térreo, por exemplo, todos os ambientes são integrados. Ser uma casa modular e pré-fabricada implica uma série de vantagens, como a rapidez da execução, o bom desempenho estrutural, a facilidade de manutenção e limpeza, a grande durabilidade, a economia, a preocupação ecológica, o conforto lumínico, térmico e acústico. Talvez a única desvantagem seja a falta de flexibilidade e impessoalidade, já que o projeto já vem previamente definido. No entanto, a residência modular pode ser customizada de acordo com as preferências e necessidades dos clientes. Neste exemplo, a fachada principal ganhou uma porta de madeira com acabamento em laca azul, que deu mais personalidade à edificação (ver figura 23). Além dos quadros de madeira, as fachadas se alternam em superfícies de vidro e painéis de parede (ver figura 24). Os amplos planos envidraçados utilizados nas superfícies externas marcam, portanto, o contraste entre o contemporâneo e o enxaimel tradicional. O vidro também proporciona um melhor aproveitamento da luz natural e das vistas para a paisagem externa. Por ser uma edificação de alto padrão, essas grandes janelas são de vidro, em sua maioria, triplo, garantindo assim um bom desempenho térmico, lumínico e acústico. Obviamente, as aberturas podem ser customizadas de modo a se adaptar às condições locais epreservar a intimidade dos moradores, como neste exemplo, em que grandes aberturas estão posicionadas para a parte posterior do terreno e para o jardim. Análise crítica: A prática do enxaimel, como qualquer outro tipo de vedação vertical, contém inúmeras vantagens e dentre estas podemos destacar algumas. Uma delas é o seu caráter artesanal, o fato de ser algo passado de gerações em gerações, e não estar ligada à industrialização; ou seja, ela foi criada aproveitando-se dos recursos naturais locais, se adaptando ao clima e à topografia da região em que surgiu (VEIGA, 2013, p. 75). É também devido a essa artesanalidade que o enxaimel não exige mecanização e equipamentos. Outro ponto relevante é o seu bom desempenho estrutural: as peças de madeira conferem grande estabilidade e resistência mecânica contra intempéries devido ao seu sistema de travamento e ao seu desenho estrutural. A durabilidade é um aspecto também presente no enxaimel. Se a madeira for tratada corretamente (contra cupins, por exemplo), pode se conservar bem por muito tempo. A durabilidade também varia de acordo com o material de preenchimento. A mobilidade é um traço questionável pois varia muito dependendo do material de preenchimento. O enxaimel pode ser considerado pouco móvel pois suas peças de madeira não podem ser removidas com facilidade: uma vez encaixadas, a retirada de alguma pode comprometer a estrutura inteira já que uma depende da outra. Porém, se retiradas de forma correta, essas peças podem ser reutilizadas, montadas novamente em outro local ou construção, mas não é algo bem viável. Por não serem estruturais, apenas de vedação, os vãos com preenchimento podem ser removidos. Se as áreas vazias forem preenchidas em alvenaria, por exemplo, dificilmente a remoção seria algo viável. Entretanto, se for utilizado gesso acartonado, steel frame, old frame, ou qualquer outra vedação considerada removível, o enxaimel adquire certa mobilidade, apesar de as peças de madeira se manterem no lugar. Essa técnica também tem desvantagens. O fato de a madeira ser um material fundamental para a execução é uma delas. Esse material tem se tornado cada vez mais escasso, principalmente depois da Revolução Industrial. Madeiras legalizadas podem não ser tão acessíveis tanto fisicamente quanto em relação ao custo. Além de que o custo também pode aumentar com a manutenção. Ainda que a vedação nas áreas vazias seja de fácil manutenção e limpeza, a madeira precisa de certo cuidado especial, como já foi dito, contra cupins por exemplo. A artesanalidade do enxaimel também tem suas desvantagens e a principal delas é a necessidade de mão de obra especializada. Durante a montagem in loco e também durante a fabricação das peças de madeira, a mão de obra é de extrema importância já que todo o processo se da manualmente. É importante salientar que com o passar do tempo e o desenvolvimento de novas tecnologias, ocorreram mudanças na execução do enxaimel. As peças de madeira que antes eram cortadas apenas manualmente e com o auxílio de ferramentas, hoje já podem ser feitas em máquinas. Dessa forma, algumas características acima destacadas se modificaram. O custo inicial, por exemplo, foi reduzido e a mão de obra não necessita de tanta especialização. Todavia, com essas mudanças, o caráter artesanal também perde o seu espaço. A produtividade e a rapidez de execução estão intimamente ligadas. Como já foi dito, por ser uma técnica mais artesanal, demanda mais tempo de execução levando em consideração a fabricação das pecas de madeira até a finalização. Portanto a produtividade não seria tal alta. Porém, com a industrialização, alguns processos puderam ser otimizados, diminuindo o tempo de execução e aumentando a produtividade. O desempenho acústico, lumínico e a segurança contra incêndio do enxaimel variam muito conforme o material que preenche os vãos nas paredes. Considerando a alvenaria comum, a mais utilizada atualmente no enxaimel, ela possui uma baixa reação e uma boa resistência ao fogo (FERREIRA, 2015, p. 42). O desempenho lumínico da alvenaria é bom, já o desempenho acústico não é tão satisfatório. Entretanto, considerando o Steel Frame (estrutura de painéis formados pelos perfis de aço, componentes de fechamento, isolantes térmicos, absorventes acústicos, um sistema de fixação constituído de parafusos e chumbadores e algum tipo de acabamento), o desempenho muda. Por ser uma técnica mais moderna, a segurança contra incêndio é muito satisfatória (FERREIRA, 2015, p. 60), assim como os desempenhos acústico e lumínico. Figuras: Figura 1 – Casa típica de enxaimel (VEIGA, 2013, p. 98) Figura 2 – Estrutura de madeira típica de enxaimel (WEIMER, 2005, p. 212) Figura 3 – Detalhe dos encaixes das peças de enxaimel (WEIMER, 2005, p. 283 – 286) Figura 4 – Estrutura do enxaimel (Teia Design. Disponível em: <http://teiadesign10.blogspot.com.br/2013/03/tecnica-construtiva-enxaimel-germanica.html>. Acesso em: 16 jul. 2017) Figura 5 – Detalhe de contravamento (WEIMER, 2005, p. 71) Figura 6 – Detalhe de contravamento (WEIMER, 2005, p. 71) Figura 7 – Detalhe de contravamento (WEIMER, 2005, p. 71) Figura 8 – Runas (WEIMER, 2005, p. 91) Figura 9 – Sistema construtivo baixo-saxão (WEIMER, 1994, p. 17) Figura 10 – Sistema construtivo alemânico (WEIMER, 1994, p. 18) Figura 11 – Sistema construtivo franco (WEIMER, 2005, p. 70) Figura 12 – Sistema construtivo franco (WEIMER, 1994, p. 19) Figura 13 – Decorações no enxaimel (GROSSMANN, 2006, p. 58 – 59) Figura 14 – Decorações no enxaimel (VEIGA, 2013, p. 88) Figura 15 – Decorações no enxaimel (VEIGA, 2013, p. 91) Figura 16 – Exemplo de Huf Haus (Huf Haus. Disponível em: <https://www.huf-haus.com/it>. Acesso em: 16 jul. 2017) Figura 17 – Exemplo de Huf Haus (Huf Haus. Disponível em: <https://www.huf-haus.com/en/the-huf-house/commercial-constructions/commercial-construction-project-1.html>. Acesso em: 16 jul. 2017) Figura 18 – Casa Modum 7:10 (Huf Haus. Disponível em: <https://www.huf-haus.com/en/the-huf-house/modum/modum-7/modum-7-sample-project-2.html>. Acesso em: 16 jul. 2017) Figura 19 – Planta do primeiro piso da casa Modum 7:10 (Huf Haus. Disponível em: <https://www.huf-haus.com/en/the-huf-house/modum/modum-7/modum-7-sample-project-2.html>. Acesso em: 16 jul. 2017) Figura 20 – Planta do segundo piso da casa Modum 7:10 (Huf Haus. Disponível em : <https://www.huf-haus.com/en/the-huf-house/modum/modum-7/modum-7-sample-project-2.html>. Acesso em 16 jul. 2017) Figura 21 – Área interna da Casa Modum 7:10 (Huf Haus. Disponível em: <https://www.huf-haus.com/en/the-huf-house/modum/modum-7/modum-7-sample-project-2.html>. Acesso em: 16 jul. 2017) Figura 22 – Área interna da Casa Modum 7:10 (Huf Haus. Disponível em: <https://www.huf-haus.com/en/the-huf-house/modum/modum-7/modum-7-sample-project-2.html>. Acesso em: 16 jul. 2017) Figura 23 – Fachada da Casa Modum 7:10 (Huf Haus. Disponível em: <https://www.huf-haus.com/en/the-huf-house/modum/modum-7/modum-7-sample-project-2.html>. Acesso em: 16 jul. 2017) Figura 24 – Fachada da Casa Modum 7:10 (Huf Haus. Disponível em: <https://www.huf-haus.com/en/the-huf-house/modum/modum-7/modum-7-sample-project-2.html>. Acesso em: 16 jul. 2017) Referências: FERREIRA, Rafaela Costa Lima. Desempenho de vedações verticais em Light Steel Framing e alvenaria de blocos cerâmicos: estudo comparativo. Porto Alegre, 2015. GROSSMANN, G. U. Fashwerk in Deutschland. Petersberg: Imhof, 2006. OLIVEIRA, Daniel Schommer. Resgate de técnicas construtivas mais sustentáveis: análise e descrição do sistema enxaimel. Porto Alegre, 2011. VEIGA, Maurício Biscaia. Arquitetura neo-enxaimel em Santa Catarina: a invenção de uma tradição estética. São Paulo, 2013. WEIMER, Gunter. Arquitetura enxaimel em Santa Catarina. Porto Alegre: LP&M, 1994. ________. Arquitetura popular da imigração alemã. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2005. WITTMANN, Angelina. Fachwerk, a técnica construtiva enxaimel. São Paulo: Arquitextos, 2016. Disponível em:<http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/16.187/6131>.Acesso em: 14 jul. 2017.