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Disciplina Didática I Coordenador da Disciplina Prof.ª Nidia Barone 7ª Edição Copyright © 2010. Todos os direitos reservados desta edição ao Instituto UFC Virtual. Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida, transmitida e gravada por qualquer meio eletrônico, por fotocópia e outros, sem a prévia autorização, por escrito, dos autores. Créditos desta disciplina Realização Autor Prof. Paulo Meireles Barguil Colaborador (es) Prof.ª Silvany Bastos Santiago Prof.ª Nidia Barone Sumário Aula 01: Escola, Sociedade, Trabalho docente e Didática .................................................................... 01 Tópico 01: Introdução à disciplina ......................................................................................................... 01 Tópico 02: Função Social da Escola: Manutenção ou Transformação da Realidade? ........................... 05 Tópico 03: Trabalho Docente: Características, Especificidades e Exigências do Cenário Contemporâneo ........................................................................................................................................... 12 Tópico 04: Didática: aspectos históricos, perspectivas atuais e contribuição para o trabalho docente . 17 Aula 02: Educação: crise de paradigmas ................................................................................................ 23 Tópico 01: Contextualizando a crise educacional .................................................................................. 23 Tópico 02: (Des)Encontros na Escola e Na Sala de Aula: Ética, Diálogo e Violência - I..................... 34 Tópico 03: (Des)encontros na escola e na sala de aula: ética, diálogo e violência - II.......................... 42 Tópico 04: As teorias educacionais e contribuições para o trabalho docente ........................................ 52 Tópico 05: Relação entre as teorias de aprendizagem e as práticas educacionais ................................. 67 Aula 03: Organização do Trabalho Docente .......................................................................................... 79 Tópico 01: Interdisciplinaridade e Transposição Didática..................................................................... 79 Tópico 02: Inovações Pedagógicas ........................................................................................................ 87 Tópico 03: Planejamento Educacional................................................................................................... 90 Tópico 04: Elementos de um Plano de Ensino....................................................................................... 94 Didática I Aula 01: Escola, Sociedade, Trabalho Docente e Didática Tópico 01: Introdução à disciplina Palavra da Coordenadora da Disciplina de Didática I VERSÃO TEXTUAL Sou prof.ª Nidia Barone, pedagoga, psicopedagoga, especialista em educação, mestranda em Tecnologia da Informação e Comunicação em formação para a EaD, gerente do Centro de Produção do Instituto UFC Virtual, professora universitária ... Estou também como professora conteudista de Didática I onde abordaremos o que vem a ser "Ensinar". Ensinar não é apenas transmitir conteúdos, executar tarefas, avaliar e aprovar ou reprovar. Ensinar antes de tudo é dialogar com as infinitas possibilidades do conhecimento; é abrir mentes, é combater a cegueira da escuridão mental; é dar razão ao sentido da vida, do ser e do mundo. É repassar firmeza, autoestima, capacidade, controle, atenção; é conduzir o ser ao caminho certo da reflexão, da exatidão, da inexatidão, enfim, das certezas e incertezas que nos conduzem na busca pelo saber. Queremos também refletir sobre o seu papel enquanto educador. Ser professor, não é apenas ser um diplomado, o dono do conhecimento. Ser professor é mais que isso. É ser um mestre da sabedoria e do transmitir a sabedoria. É dialogar com as múltiplas possibilidades e dificuldades do ensinar; é ser compreensível, atencioso e não ter medo de errar ou acertar; é ser um ser humano que busca entender e ensinar o outro. Portanto, nossa disciplina de didática, trará algumas questões importantes sobre ensino, escola, sociedade, conhecimento, aprendizagem, professor, aluno e planejamento. Indagações que diariamente acompanham o dia a dia daqueles que se envolvem com a educação. Nossa disciplina de Didática será dividida em três aulas que têm por objetivo: • Destacar a função social da escola na sociedade; • Compreender o andamento do professor em sala de aula, bem como saberes e competências; • Analisar as concepções de ensino e aprendizagem diante das dificuldades da atual educação brasileira; • Verificar o papel do professor e do alunado mediante as concepções de educação no Brasil; • Compreender a importância do planejamento e da avaliação escolar durante o processo de ensino e aprendizagem do aluno; • Investigar os encontros e desencontros entre aluno, professor, sociedade e violência escolar. Na primeira aula focaremos a escola, a sociedade, o trabalho docente e a didática. Nessa unidade, traçaremos definições importantes sobre a Didática e de sua importância para a prática docente em sala de aula: a didática como ferramenta do processo de ensino aprendizagem do professor. Iremos trabalhar a relação aluno - professor; o processo do ensinar e do aprender; e verificar a função social da escola. Nosso objetivo é compreender o papel da escola na sociedade; do professor e sua prática de ensino; da arte de ensinar e de aprender. Num segundo momento de nossa disciplina, discutiremos a crise educacional no Brasil, traçando um olhar sobre a sala de aula, a estrutura escolar, a realidade social e sua influência na educação, a violência no ambiente escolar e a relação aluno - professor - conhecimento - 1 aprendizagem. O objetivo dessa unidade 2 é compreender o processo de educação no Brasil, bem como verificar os paradigmas educacionais que estão inseridos no processo de ensino e aprendizagem do aluno. Na terceira e última aula, discutiremos a organização do trabalho docente, as inovações pedagógicas e o processo de planejamento das aulas, o currículo, a interdisciplinaridade e as renovações do saber. Nosso objetivo é entender o seguinte: o que ensinar? Como ensinar? Por que ensinar? Com que ensinar? Devemos pensar no saber e na forma de repassá-lo. E é por isso que devemos traçar uma maneira criativa, amistosa e saudável de educar. Dar aula não é uma tarefa fácil, pois exige muito de nós. Contudo, só podemos afirmar uma coisa: existe enumeras maneiras de ensinar invente a sua... ! Sejam todos bem-vindos à disciplina de didática! Forte abraço a todos, Prof.ª Nidia Barone Nesta disciplina, estudaremos sobre a Didática, a qual se constitui num importante aspecto do trabalho docente, que precisa ser entendido na complexa relação escola – sociedade. Para compreender a Didática de forma crítica, convém que o professor, constantemente, se indague: VERSÃO TEXTUAL • Qual é a função social da escola na atualidade? • Que saberes e competências eu preciso ter para ser um bom profissional na sociedade contemporânea, caracterizada pela crescente competitividade? • O que é Didática? • Quais são as concepções de ensino e de aprendizagem em que acredito? • Que papéis o professor e o estudante desempenham na relação pedagógica? • Qual é a importância do planejamento e da avaliação na minha atividade profissional? • Quais são e como se articulam os elementos constantes de um plano de trabalho? As respostas para tais questionamentos são variadas e expressam, dentre outros, valores éticos, cognitivos e políticos. O exercício da docência pressupõe coragem tanto para formular tais perguntas (e outras!) quanto para procurar respostas, as quais são sempre parciais, tendo em vista o caráter dinâmico da vida. Duranteestas aulas, as temáticas acima serão discutidas, permitindo que vocês, num processo individual e coletivo, (re)construam as crenças que orientarão a sua prática profisssional. 2 Didática Fonte [1] Quantas vezes já ouvimos (e falamos): “Fulano não tem didática!” para expressar a dificuldade desse(a) docente em socializar os conhecimentos aos seus estudantes? Mas, o que é a Didática? É possível aprender a ter Didática? Se sim, o que é necessário? Didática, conforme o dicionário Aurélio, é: “[Fem. substantivado de didático.] S. f. 1. A técnica de dirigir e orientar a aprendizagem; técnica de ensino. 2. O estudo desta técnica.” (FERREIRA, 1993, p. 587). De acordo com a definição supra, a Didática é uma técnica (que dirige e orienta a aprendizagem e de ensino) que pode ser estudada. Não é de estranhar, portanto, que, muitas vezes, os estudantes, no início desta disciplina, tenham a expectativa de apreender tal técnica, que equivaleria a receitas. Desde o século passado, a Educação tem vivido uma crise, a qual demanda do professor uma compreensão quanto à sua natureza, de modo que a sua atitude diante dela seja satisfatória. Postulo que um dos fatores que contribui para este quadro educacional é de natureza epistemológica, em virtude de o ensino, numa perspectiva tradicional, ter primazia sobre a aprendizagem. Acredito que, de modo geral, a preocupação do professor é muito mais com o ensino do que com a aprendizagem. As descobertas da neurociência na década recente ratificaram, de forma incisiva, as teorias de aprendizagem que enfatizam a importância da atividade do sujeito, da valorização das suas experiências e conhecimentos prévios, os quais são ponto de partida para os conceitos que se deseja que ele aprenda. Tendo em vista que, conforme a definição supra, Didática é um substantivo originado de Didático, convém conhecer, também, a definição deste: Didático, conforme o dicionário Aurélio, é: “[Do gr. Didaktikós.] Adj. 1. Relativo ao ensino ou à instrução, ou próprio deles: problemas didáticos. 2. Próprio para instruir; destinado a instruir: livro didático. 3. Que torna o ensino eficiente: Bom professor, recorre em suas aulas a todos os expedientes didáticos. 4. Típico de quem ensina, de professor, de didata: Tem um modo didático de se exprimir.” (FERREIRA, 1993, p. 587). Os problemas de aprendizagem revelam, na grande maioria das vezes, problemas de ensino (de didática), em virtude de o professor acreditar que o domínio de conteúdos e de certas técnicas é suficiente para garantir a aprendizagem dos estudantes. REFLEXÃO 3 Para reflexão, sugerimos a leitura do texto A volta de um personagem do século XVI ao Brasil. (clique aqui para abrir (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.)) Como entender que a educação escolar ainda utilize, a despeito das inúmeras transformações sociais, muitas vezes, práticas pedagógicas que se revelam, cada vez mais, inadequadas? Quais são as consequências da continuidade dessas rotinas? DICA O que é Educação? (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) No próximo tópico, será analisada a relação escola e sociedade. 4 Didática I Aula 01: Escola, Sociedade, Trabalho Docente e Didática Tópico 02: Função Social da Escola: Manutenção ou Transformação da Realidade? REFLEXÃO A sociedade brasileira se caracteriza, dentre outras coisas, por profundas e históricas desigualdades, frutos de um processo de exclusão e segregação social. - Será que a educação pública tem algo a ver com isso? - Será a educação mais uma expressão do descaso do Estado com as demandas da grande maioria da população? - Poderá a educação contribuir de alguma forma para a transformação desta situação? A relação entre Educação e Sociedade pode ser entendida, numa perspectiva filosófica, de três formas distintas: Redenção A educação é capaz de salvar a sociedade dos desvios individuais e grupais que a ameaçam (redenção). Reprodução A educação reproduz a sociedade, uma vez que os determinantes econômicos, sociais e políticos impedem que práticas pedagógicas contrárias ao sistema se desenvolvam (reprodução). Transformação A educação viabiliza um projeto social, que pode ser conservador ou transformador, tendo em vista o caráter histórico da sociedade (transformação). As tendências redentora e transformadora expressam-se, respectivamente, nas concepções pedagógicas liberal e progressista. Essas tendências, segundo Libâneo (1996), se diferenciam quanto: LIBERAL (tradicional, renovada progressivista, renovada não diretiva e tecnicista) PROGRESSISTA (libertadora, libertária e crítico-social dos conteúdos) 5 - ao papel da escola - os conteúdos de ensino - os métodos - o relacionamento professor-estudante - os pressupostos de aprendizagem - as manifestações na prática escolar PARADA OBRIGATÓRIA As Tendências Pedagógicas e a prática escolar. (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) Paulo Freire Fonte [2] Descrição da imagem: Foto do educador Paulo Freire. Paulo Reglus Neves Freire (1921- 1997) - foi um educador, escritor e filósofo pernambucano. Considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chamado pedagogia crítica. É também o Patrono da Educação Brasileira. 6 Cabelos brancos que vão até abaixo dos ombros, e barba comprida, também, branca. Usa óculos de armações finas e veste paletó preto e camisa lilás, com gravata. Acredito que a escola pública é um espaço importante que as classes trabalhadoras têm para compreender a História do Brasil. Para tanto, elas precisam ter acesso às informações e saber interpretá- las. Paulo Freire [3] formulou, nos anos 60, um método de alfabetização [4], que sintetiza seu compromisso com a transformação do mundo, a qual só é possível quando as pessoas se percebem como sujeitos e não como objetos da História (Pedagogia da Libertação). Neste sentido, ele diferenciou a educação bancária da educação libertadora/problematizadora. Educação bancária O conhecimento é decorado, fruto da transmissão acrítica dos conteúdos “guardado” em gavetas. Educação libertadora/problematizadora O conhecimento é entendido na sua dimensão histórica, seja no que se refere à sua construção, seja na sua relevância na realidade dos discentes (que sempre nos perguntam: “Professor, para que eu vou estudar isto?”), possibilitando que esses elaborem significado/sentido dos saberes socializados. Compartilho, portanto, da opinião de Freire : Uma das tarefas essenciais da escola, como centro de produção sistemática de conhecimento, é trabalhar criticamente a inteligibilidade das coisas e dos fatos e a sua comunicabilidade. É imprescindível, portanto, que a escola instigue constantemente a curiosidade do educando em vez de ‘amaciá-la’ ou ‘domesticá- la’. (FREIRE, 2009, p. 122-123) 7 MULTIMÍDIA Filosofia de Paulo Freire I [5]. Filosofia de Paulo Freire II [6]. O professor é um profissional cujo trabalho é ajudar estudantes (crianças, adolescentes e adultos) no seu processo de crescimento pessoal, o qual contempla múltiplas dimensões: cognitiva, afetiva, física, social. Considerando que os estudantes brasileiros vivem num país de seculares injustiças, é fundamental que o cotidiano escolar (conteúdos, práticas...) favoreça a compreensão discente quanto aos fatores que perpetuam tal dinâmica, bem como na instauração de renovadas relações, pautadas em valores éticos. Fonte [7] Descrição da imagem: Imagem ilustrativa com os seguintes dizeres: Pretérito: eu não estudei. Tu não se responsabilizaste. Eles não investiram em educação. Presente: eu depredo, me drogo, agrido. Tu choras. Eles não investem em educação. Futuro: Eu sofrerei. Tu sofrerás. Eles se elegerão. REFLEXÃO Que profissional/cidadão a escola pública brasileira, que atende 85% das nossas crianças e adolescentes, deveajudar a formar? Entender a sociedade como resultado da ação humana e não de fenômenos naturais pode aumentar a intensidade do compromisso na transformação daquela? É possível aprender a ser cidadão na escola? Edgar Morin 8 Fonte [8] Descrição da imagem: Foto do educador Edgar Morin. Cabelos brancos, boné preto. Usa uma blusa cinza por fora e um cachecol xadrez (vermelho, preto e branco). Edgar Morin - cujo verdadeiro nome é Edgar Nahoum, nasceu em 8 de julho de 1921. Formado em Direito, Geografia e História, ele também realizou estudos em filosofia, sociologia e epistemologia. Edgar Morin é considerado um dos principais pensadores ainda vivo. Edgar Morin acredita que a Educação, em todos os níveis, precisa contemplar sete aspectos para atender às demandas do futuro, o que implica na redefinição de objetivos e práticas dos cotidianos escolares. A seguir, um breve resumo de “Os sete saberes necessários à Educação do futuro”, na concepção de Morin: AS CEGUEIRAS DO CONHECIMENTO: ERRO E ILUSÃO Conhecer é interpretar, construir significado, a partir das nossas experiências. Desta forma, devem-se considerar o erro e a ilusão, uma vez que a realidade se modifica a todo momento: objetivamente (os acontecimentos) e subjetivamente (as nossas leituras). 9 OS PRINCÍPIOS DO CONHECIMENTO PERTINENTE Conhecer é integrar dimensões variadas (partes) para entender a (complexidade da) realidade (todo). IDENTIDADE HUMANA Resgatar a identidade humana, compreendendo-a como uma espécie organizada em sociedade que habita a Terra, a qual participa de um cosmos repleto de mistérios (indivíduo-espécie-sociedade). Ao mesmo tempo, somos homo sapiens, ludens, economicus, mitologicus ... A COMPREENSÃO HUMANA Compreender o outro e a si mesmo como indivíduos complexos. O individualismo é uma ameaça à espécie humana, pois afasta a pessoa dos seus semelhantes e de si, gerando sérios problemas de natureza emocional, que se revelam na qualidade dos relacionamentos. A INCERTEZA A incerteza e o inesperado fazem parte da vida, da ciência. A história da humanidade é uma possibilidade e não uma determinação da natureza. A CONDIÇÃO PLANETÁRIA A Terra precisa ser cuidada para que possamos nela continuar. A ecologia, os conflitos religiosos e políticos, as demandas (crises) econômicas e a escassez de alimento e de água revelam que precisamos zelar pela perpetuação da nossa espécie. A ANTROPOÉTICA A antropoética enfatiza que o Homem tem três aspectos: individual, social e genético. Ela só pode se manifestar na democracia, ao permitir que os indivíduos assumam, na medida do possível, a sua responsabilidade social. As ONG, que funcionam sem se prender à religião e à política, permitem que a humanidade desenvolva uma ética atenta aos imensos desafios contemporâneos. 10 MULTIMÍDIA Os sete saberes – Edgar Morin [9]. Defendo, com vigor, que a escola tem um importante papel na difusão e na vivência de novos valores humanos. Ela é, portanto, um espaço de formação, entendida não como um local que adapta, modela as pessoas, de acordo com interesses estranhos a elas, mas que possibilita que cada artesão-sujeito descubra a configuração que deseja. Finalizo este tópico com mais uma contribuição do maior educador brasileiro: (...) se a educação não pode tudo, alguma coisa fundamental a educação pode. Se a educação não é a chave das transformações sociais, não é também simplesmente reprodutora da ideologia dominante. O que quero dizer é que a educação nem é uma força imbatível a serviço da transformação da sociedade, porque assim eu queira, nem tampouco é a perpetuação do status quo porque o dominante o decrete. (FREIRE, 2009, p. 112) O compromisso político demanda uma satisfatória formação técnica, o que nos remete à seguinte indagação: “Quais são as competências que o professor precisa ter?”. É o que será abordado na próxima seção. LEITURA COMPLEMENTAR Função Social da Escola (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.). OLHANDO DE PERTO Ensinar, aprender: leitura do mundo, leitura da palavra (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.). Os sete saberes necessários à Educação do futuro (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.). 11 Didática I Aula 01: Escola, Sociedade, Trabalho Docente e Didática Tópico 03: Trabalho Docente: Características, Especificidades e Exigências do Cenário Contemporâneo VERSÃO TEXTUAL • O que significa ser professor(a)? • Quais são as características desta profissão? • Considerando as novas tecnologias de informação e comunicação, que facilitam o acesso à informação, o professor ainda é necessário no processo de aprendizagem dos estudantes? • Será que os cursos de formação têm atendido aos novos desafios? • Os professores podem atender satisfatoriamente tais crescentes mudanças? Não existe professor sem estudante e conhecimento. O trabalho docente, portanto, demanda a presença destes dois componentes (esta temática será abordada, sob diversos aspectos, reiteradas vezes durante estas aulas). O ensino é “[...] uma prática social concreta, dinâmica, multidimensional, interativa, sempre inédita e imprevisível. É um processo que sofre influências de aspectos econômicos, psicológicos, técnicos, culturais, éticos, políticos, institucionais, afetivos, estéticos.” (PASSOS, 2006b, p. 01). LEITURA COMPLEMENTAR Características do trabalho docente. (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) Quais são os saberes que o professor precisa para desempenhar de forma satisfatória seu labor? Diversos pesquisadores têm investigado sobre este assunto e enfatizando a sua relevância “[...] para a formação, atuação e desenvolvimento dos professores.” (CUNHA, 2009). Na sua prática profissional (planejamento, implementação e avaliação), o professor precisa gerir/administrar a matéria e a sala de aula, ou seja, ele mobiliza diferentes saberes. O quadro abaixo apresenta uma síntese das categorias dos saberes docentes formuladas por alguns dos estudiosos mais conceituados sobre esse tema: Categorização dos “saberes docentes ou dos professores” 12 Tardif, Lessard e Lahaye (1991) Pimenta (1999) Gauthier et al (1998) Saviani (1996) Das disciplinas e currículos Do conhecimento Disciplinares e curriculares Específico e didático- curricular Da formação profissional Pedagógicos Das Ciências da Educação, da tradição pedagógica e da ação pedagógica Pedagógico, crítico- contextual e atitudinal Da experiência Da experiência Da experiência Descrição da Tabela: Tardif, Lessard e Lahaye (1991): Das disciplinas e curriculares - Da formação profissional - Da experiência. Pimenta (1999): Do conhecimento - Pedagógicos - Da experiência. Gauthier et AL (1998): Disciplinares e curriculares - Das Ciências da Educação, da tradição pedagógica e da ação pedagógica - Da experiência. Saviani (1996): Específico e didático-curricular - Pedagógico, crítico- contextual e atitudinal A formulação de Pimenta (1999) congrega em três amplas categorias os saberes docentes. São elas: Do conhecimento Contempla o saber disciplinar (conteúdo a ser ensinado) e o saber curricular (seleção e organização do conteúdo). Pedagógicos Refere-se às teorias da Educação, que permitem o entendimento dos processos de ensino e de aprendizagem. Da experiência Contempla as representações que orientam (princípios, crenças ...) a prática docente, as quais estão em permanente transformação, pois que se alimentam da realidade, enquanto inspiração e espaço de validação. 13 Por entender que o saber da experiência refere-se, muitas vezes, aos saberes do conhecimento e pedagógico, e que a dimensão subjetiva do pesquisador é ignorada, proponho a substituição do saber da experiência pelo saber existencial, que se refere aos sentimentos, valores, crenças e ideais docentes, osquais o (i)mobilizam na melhoria dos demais saberes. PARADA OBRIGATÓRIA Saberes Necessários à Prática do Professor (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) A transformação da sociedade na contemporaneidade implica na redefinição da Educação, da escola e do trabalho docente. Libâneo (1998) defende a importância do professor para auxiliar o estudante a aprofundar o seu significado da cultura e da ciência. Considerando este contexto, ele apresenta as seguintes novas atitudes docentes: 1) Assumir o ensino como mediação: aprendizagem ativa o aluno com a ajuda pedagógica do professor; 2) Modificar a ideia de uma escola e de uma prática pluridisciplinares para uma escola e uma prática interdisciplinares; 3) Conhecer estratégias do ensinar a pensar, ensinar a aprender a aprender; 4) Persistir no empenho de auxiliar os alunos a buscarem uma perspectiva crítica dos conteúdos, a se habituarem a apreender as realidades enfocadas nos conteúdos escolares de forma crítico-reflexiva; 5) Assumir o trabalho de sala de aula como um processo comunicacional e desenvolver capacidade comunicativa; 6) Reconhecer o impacto das novas tecnologias da comunicação e informação na sala de aula (televisão,vídeo games, computador, internet, CD-ROM, etc); 7) Atender à diversidade cultural e respeitar as diferenças no contexto da escola e da sala de aula; 8) Investir na atualização científica, técnica e cultural, como ingredientes do processo de formação continuada; 9) Integrar no exercício da docência a dimensão afetiva; 10) Desenvolver comportamento ético e saber orientar os alunos em valores e atitudes em relação à vida, ao ambiente, às relações humanas, a si próprios (LIBÂNEO, 1998, p.28-48). 14 Zabalza (2003) apresenta as seguintes competências docentes, as quais, no seu entendimento, são imprescindíveis para quem quer atuar na escola do futuro: empática, comunicativa, cognitiva, didático- disciplinar, institucional, criativa e cidadã. É possível alguém atender a tudo isto? Diante de tantas adversidades (salário baixo, excesso de trabalho, indisciplina e violência na sala, pressão dos superiores na hierarquia, desgate físico e falta de valorização) e exigências, o docente brasileiro está, cada vez mais, doente. Este drama tem recebido a atenção de profissionais da educação e da saúde, uma vez que interfere diretamente na qualidade do trabalho docente e da sua vida pessoal. Descrição da imagem: É importante compreender a natureza deste problema, o qual tem gerado um alto custo social, seja porque, muitas vezes, faltam profissionais habilitados na sala de aula, seja porque o investimento do poder público na formação docente é desperdiçado. As políticas públicas precisam, inspiradas nos diagnósticos emanados das pesquisas sobre essa temática, atuar de forma vigorosa na reversão do cenário acima relatado, sob pena de continuarmos a assistir a diminuição da qualidade de vida (pessoal e profissional) do professor. PARADA OBRIGATÓRIA Sob pressão (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) - O Estresse docente REFLEXÃO Qual é a contribuição da Didática na compreensão e superação dos desafios profissionais? 15 O papel da Didática na Educação (e no trabalho docente) tem se modificado ao longo da História, sendo assunto do próximo tópico. LEITURA COMPLEMENTAR Leia os seguintes artigos para saber mais sobre o trabalho docente: ◦ Desafios e possibilidades ao trabalho docente e à sua relação com a saúde (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) ◦ Educação, cultura e desporto: concepção e desafios para o século XXI (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) ◦ Experiência e competência no ensino (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) ◦ Formação docente como estratégia de superação do precarizado trabalho docente (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) ◦ Globalização e Educação: ideias para um debate (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) ◦ Saberes docentes ou saberes dos professores? (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) ◦ Perspectivas atuais na Educação (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) ◦ Significado e sentido do trabalho docente (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) ◦ Trabalho docente: características e especificidades (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) 16 Didática I Aula 01: Escola, Sociedade, Trabalho Docente e Didática Tópico 04: Didática: aspectos históricos, perspectivas atuais e contribuição para o trabalho docente A Didática, como área de conhecimento dos cursos de formação de professores, caracteriza-se pela mudança dos seus objetos e objetivos. Fonte [10] Descrição da imagem: Retrato do Comênius, Cabelos castanhos que vão até os ombros, e barba comprida, também, castanha. Veste roupa eclesiástica preta, própria para bispo, e uma estola vermelha. [Jan Amos Komenský – Iohannes Amos Comenius] (1592-1670) - foi um bispo protestante da Igreja Morávia, educador, cientista e escritor checo. Como pedagogo, é considerado o fundador da didática moderna. 17 Em 1657, Iohannes Amos Comenius [11] – João Amos Comênio, em Português – publicou, em latim, Didactica Magna (Didática Magna – Tratado da Arte Universal de Ensinar Tudo a Todos), tida como a primeira obra no mundo ocidental voltada aos processos de ensinar e de aprender, motivo pelo qual é considerado como o pai da Didática Moderna. A proposta educacional de Comênio – ensinar tudo a todos – afrontava a concepção escolástica católica, que era voltada à elite e com currículo restrito, permeado de conteúdos abstratos. Comênio acreditava no poder da educação para aproximar o Homem de Deus, tornando-o bom cristão: sábio (erudição), crente (religião) e generoso (virtude). No entendimento desse pensador, o cotidiano escolar deveria se inspirar no ritmo da natureza, contemplando todas as áreas do conhecimento e valorizando as situações do cotidiano, além de atender às necessidades e aos interesses de professor e estudantes. Por acreditar que tudo o que se deveria saber necessitaria ser ensinado, Comênio defendia que o professor, durante o ensino, deveria: Gravura do próprio Comênio para um de seus livros de texto: aprender brincando [12] Descrição da Imagem: Gravura feita pelo próprio Comênio para um de seus livros. A gravura traz várais crianças se divertindo num espaço ao ar livre e cercado. Elas são observadas por um adulto enquanto brincam. i) ser claro e direto; ii) utilizar aplicações práticas para facilitar o processo de aprendizagem; iii) enfatizar as origens desse conteúdo; iv) explicar, inicialmente, os princípios gerais; 18 v) respeitar o tempo adequado para fazê-lo. A Didática Magna contém as características principais da escola moderna: o entendimento da infância como momento único; a influência da relação família-escola no desenvolvimento do estudante; a necessidade de uma metodologia de ensino (tendo ele proposto a instrução simultânea); e o educador como uma pessoa preparada para tal ofício. Introdução da Didática Magna, de Comênio TRATADO DA ARTE UNIVERSAL DE ENSINAR TUDO A TODOS Processo seguro e excelente de instituir, em todas as comunidades de qualquer Reino cristão, cidades e aldeias, escolas tais que toda a juventude de um e de outro sexo, sem excetuar ninguém em siveiarte alguma, possa ser formada nos estudos, educada nos bons costumes, impregnada de piedade, e, desta maneira, possa ser, nos anos da puberdade, instruída em tudo o que diz respeito à vida presente e à futura, com economia de tempo e de fadiga, com agrado e com solidez. Onde os fundamentos de todas as coisas que se aconselham são tirados da própria natureza das coisas; a sua verdade é demonstrada com exemplos paralelos das artes mecânicas; o cursodos estudos é distribuído por anos, meses, dias e horas; e, enfim, é indicado um caminho fácil e seguro de pôr estas coisas em prática com bom resultado. A proa e a popa da nossa Didática será investigar e descobrir o método segundo o qual os professores ensinem menos e os estudantes aprendam mais; nas escolas, haja menos barulho, menos enfado, menos trabalho inútil, e, ao contrário, haja mais recolhimento, mais atrativo e mais sólido progresso; na Cristandade, haja menos trevas, menos confusão, menos dissídios, e mais luz, mais ordem, mais paz e mais tranqüilidade. Fonte: Comenius (2001) A cronologia, a seguir apresentada, não é consenso entre os estudiosos, mas permite compreender a trajetória percorrida na estruturação da Didática no Brasil. Destacam-se, na versão escolhida, quatro momentos: Primeiro Momento Começa com a sua implantação em 1939, como curso e disciplina, e termina no começo dos anos 50. Ela se caracteriza, inicialmente, pela dificuldade de se definir e delimitar seu objeto e conteúdo e pela influência da Escola Nova, que enfatizou conteúdos técnicos e metodológicos. Segundo Momento 19 Da década de 1950 até meados dos anos 70, a Didática aprofunda a dimensão técnica-metodológica, priorizando o caráter normativo/prescritivo, sob o manto da neutralidade científica, e afastando-se da reflexão quanto aos determinantes e objetivos sociopolíticos da Educação. Oliveira e André (1997, p. 8) caracterizam este momento como “(...) o da construção da Didática na perspectiva do liberalismo”. Terceiro Momento Situado entre a segunda metade da década de 1970 e a primeira metade da década seguinte, que tem como marco fundante o I Seminário “A Didática em Questão” (1982), vê brotar críticas e denúncias à Didática Tecnicista – que mascarava o caráter reprodutivista da escola – redundando em movimentos antagônicos: negação e reconstrução da área. No que se refere à última perspectiva, diversos encontros nacionais propiciaram o aporte teórico e prático necessário para redefini-la, ao promover o intercâmbio de pesquisas e experiências pedagógicas de intelectuais e professores. Quarto Momento Inicia-se na segunda metade da década de 1980 e chega até a atualidade, expressa o esforço dos especialistas da área para articular o saber didático às questões metodológicas, epistemológicas e ideológicas, compreendendo o ensino como prática social concreta. Neste sentido, o ensino precisa ser analisado nas suas múltiplas dimensões, evitando os reducionismos das fases anteriores, o que significa dizer que a Educação deve ser contextualizada nos seus aspectos sociais, históricos, políticos e culturais, levando à compreensão dos pressupostos que inspiram as práticas pedagógicas e articulam teoria e prática. Esse breve relato permite perceber os avanços que ocorreram na área no que se refere às críticas e aos esforços de superá-las, que se expressa na reconfiguração da área, atenta às exigências e aos desafios contemporâneos. LEITURA COMPLEMENTA Leia o trecho extraído de Passos (2006a). A didática no contexto atual (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) A Educação é um fenômeno social que pode ser vivenciado com graus diferentes de formalidade: formal, não formal e informal. Formal Ministrada por instituições – colégios, escolas, faculdades, institutos, universidades públicas e privadas, destinadas à Educação Básica e à Educação Superior. Não formal 20 Ministrada por instituições – empresas, escolas profissionalizantes, ONGs – com caráter complementar e suplementar em relação à educação formal. Informal Ministrada no cotidiano, num processo contínuo, assistemático e não organizado. A Pedagogia é a Ciência que busca descrever e compreender a Educação, as teorias e as práticas educativas, com o intuito de melhorá-las. A Didática, por sua vez, é uma disciplina pedagógica voltada ao processo de ensino, o que implica investigar, também, o processo de aprendizagem. A ação educativa contempla aspectos cognitivos, afetivos, éticos, políticos, dentre outros. Na próxima aula, estudaremos sobre a crise educacional. LEITURA COMPLEMENTAR Didactica Magna (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.). OLHANDO DE PERTO O habitus professoral: o objeto dos estudos sobre o ato de ensinar na sala de aula. (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) A Trajetória Histórica da Didática (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.). ATIVIDADE DE PORTFÓLIO Entreviste dois agentes pedagógicos: um docente e um discente, conforme orientações no roteiro. (Clique aqui para seguir roteiro da atividade) (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.). Após entrevistas e considerando as leituras e as reflexões realizadas na aula 01, redija o que você aprendeu com essa atividade. Coloque a sua produção no seu Portfólio. FÓRUM Comente com seus colegas e com seu(sua) tutor(a) a relação entre Didática e o texto “Os sete saberes necessários à educação do futuro (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.)", de Edgar Morin. Para o autor, esses saberes relacionam-se aos “setes buracos negros da educação”, que são completamente ignorados, subestimados ou fragmentados nos programas educativos. Fontes das Imagens 21 1 - https://media.giphy.com/media/CH4ejLIpCfwly/giphy.gif 2 - http://www.ufrgs.br/ufrgs/noticias/jornadas-na-faced-debatem-o-pensamento-de-paulo-freire 3 - https://brasilescola.uol.com.br/biografia/paulo-freire.htm 4 - https://www.infoescola.com/pedagogia/metodo-paulo-freire/ 5 - http://www.youtube.com/watch?v=c0qEP5cIp_o 6 - http://www.youtube.com/watch?v=qxnNKNPeWFM 7 - http://blogorlandeli.zip.net/images/charge24x11x07.jpg 8 - http://4.bp.blogspot.com/_NGfADw-06_Q/Rx_RtOhqcTI/AAAAAAAAAHc/f7lNjvtLrVY/s400/falamestre.jpg 9 - http://www.youtube.com/watch?v=C0RyOmLZ4aE 10 - http://comenius-projekte.eu/johann-amos-comenius-2/ 11 - https://www.infoescola.com/biografias/jan-amos-comenius/ 12 - http://3.bp.blogspot.com/-7LDxr4WioEk/T831QrVytdI/AAAAAAAAAXk/465lFPA8qyY/s1600/brincar.jpg 22 Didática I Aula 02: Educação: crise de paradigmas Tópico 01: Contextualizando a crise educacional Neste esforço de compreender a crise educacional, é necessário que sejam investigadas as relações entre as pessoas, notadamente a relação professor-estudante. O Homem é um ser complexo, que tem várias dimensões – física, emocional, espiritual, cognitiva, ... – as quais precisam ser consideradas. Neste tópico, enfatizaremos a dimensão cognitiva, que é a mais facilmente percebida na Educação. No próximo, contemplaremos os aspectos emocionais e físicos, os quais, infelizmente, na grande maioria das vezes, não recebem a devida atenção. INSTITUTO UNIVERSIDADE VIRTUAL Descrição da Imagem: Imagem ilustrativa de uma criança sentada de costas pra lousa, cabisbaixa, na lousa está escrito a palavra educação, no entanto a palavra está escrita ao contrário. ESCOLA E SOFRIMENTO - DE RUBEM ALVES (1994) Estou com medo de que as crianças me chamem de mentiroso... Pois eu disse que o negócio dos professores é ensinar a felicidade. Acontece que eu não conheço nenhuma criança que concorde com isto. Se elas já tivessem aprendido as lições da política, me acusariam de porta voz da classe dominante. Pois, como todos sabem, mas ninguém tem coragem de dizer, toda escola tem uma classe dominante e uma classe dominada: a primeira, formada por professores e administradores, e que detém o monopólio do saber, e a segunda, formada pelos alunos, que detém o monopólio da ignorância, e que deve submeter o seu comportamento e o seu pensamento aos seus superiores, se desejam passar de ano. Basta contemplar os olhos amedrontados das crianças e os seus rostos cheios de ansiedade para compreender que a escola lhes traz sofrimento. O meu palpite é que, se fizer uma pesquisa entre as crianças e os adolescentes sobre as suas experiênciasde alegria na escola, eles terão muito que falar sobre a amizade e o companheirismo entre eles, mas pouquíssimas serão as referências à alegria de estudar, compreender e aprender. 23 A classe dominante argumentará que o testemunho dos alunos não deve ser levado em consideração. Eles não sabem, ainda… Quem sabe são os professores e os administradores. Acontece que as crianças não estão sozinhas neste julgamento. Eu mesmo só me lembro com alegria de dois professores dos meus tempos de grupo, ginásio e científico. A primeira, uma gorda e maternal senhora, professora do curso de admissão, tratava-nos a todos como filhos. Com ela era como se todos fôssemos uma grande família. O outro, professor de Literatura, foi a primeira pessoa a me introduzir nas delícias da leitura. Ele falava sobre os grandes clássicos com tal amor que deles nunca pude me esquecer. Quanto aos outros, a minha impressão era a de que nos consideravam como inimigos a serem confundidos e torturados por um saber cujas finalidade e utilidade nunca se deram ao trabalho de nos explicar. Compreende-se, portanto, que entre as nossas maiores alegrias estava a notícia de que o professor estava doente e não poderia dar a aula. E até mesmo uma dor de barriga ou um resfriado era motivo de alegria, quando a doença nos dava uma desculpa aceitável para não ir à escola. Não me espanto, portanto, que tenha aprendido tão pouco na escola. O que aprendi foi fora dela e contra ela. Jorge Luís Borges passou por experiência semelhante. Declarou que estudou a vida inteira, menos nos anos em que esteve na escola. Era, de fato, difícil amar as disciplinas representadas por rostos e vozes que não queriam ser amados. Esta situação, ao que parece, tem sido a norma, tanto que e assim que aparece frequentemente relatada na literatura. Romain Rolland conta a experiência de um aluno: … afinal de contas, não entender nada já é um hábito. Três quartas partes do que se diz e do que me fazem escrever na escola: a gramática, ciências, a moral e mais um terço das palavras que leio, que me ditam, que eu mesmo emprego – eu não sei o que elas querem dizer. Já observei que em minhas redações as que eu menos compreendo são as que levam mais chances de ser classificadas em primeiro lugar. Mas nem precisaríamos ler Romain Rolland: bastaria ler os textos que os nossos filhos têm de ler e aprender. Concordo com Paul Goodmann na sua afirmação de que a maioria dos estudantes nos colégios e universidades não desejam estar lá. Estão lá porque são obrigados. Os métodos clássicos de tortura escolar como a palmatória e a vara já foram abolidos. Mas poderá haver sofrimento maior para uma criança ou um adolescente que ser forçado a mover-se numa floresta de informações que ele não consegue compreender, e que nenhuma relação parecem ter com sua vida? Compreende-se que, com o passar do tempo a inteligência se encolha por medo e horror diante dos desafios intelectuais., e que o aluno passe a se considerar como um burro. Quando a verdade é outra: a sua inteligência foi intimidada pelos professores e, por isto, ficou paralisada. Os técnicos em educação desenvolveram métodos de avaliar a aprendizagem e, a partir dos seus resultados, classificam os alunos. Mas ninguém jamais pensou em avaliar a alegria dos estudantes – mesmo porque não há métodos objetivos para tal. Porque a alegria é uma condição interior, uma experiência de riqueza e de liberdade de pensamentos e sentimentos. A educação, fascinada pelo conhecimento do mundo, esqueceu-se de que sua vocação é despertar o potencial único que jaz adormecido em cada estudante. Daí o paradoxo com que sempre nos defrontamos: quanto maior o conhecimento, menor a sabedoria. T. S. Eliot fazia esta terrível pergunta, que deveria ser motivo de meditação para todos os professores: “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?” Vai aqui este pedido aos professores, pedido de alguém que sofre ao ver o rosto aflito das crianças, dos adolescentes: lembrem-se de que vocês são pastores da alegria, e que a sua 24 responsabilidade primeira é definida por um rosto que lhes faz um pedido: “Por favor, me ajude a ser feliz…”. Rubem Alves Blog não oficial [1] - Coletânea de textos desse grande Educador Conforme foi visto na aula anterior, diversas concepções de aprendizagem têm desfilado nos palcos escolares nos últimos séculos. Nesta seção, é reafirmado o fato de que elas expressam uma compreensão de como o Homem produz e socializa o conhecimento, ou seja, de uma epistemologia. Essas teorias costumam discordar quanto ao papel que o sujeito e o objeto desempenham na produção de conhecimento, entendendo aquele como o que conhece e esse como o que se quer conhecer. Defendo a posição em que o saber é significativo para cada pessoa e não uma peça decorativa (no duplo sentido), descartável, uma vez que pode ser rapidamente substituída por outra que seja mais atraente. Conforme Bruner (2001, p. 15/19), são duas as concepções sobre o funcionamento da mente: o "computacionalismo" e o culturalismo. O “computacionalismo” O “Computacionalismo” defende o argumento de que o Homem processa informações, como se fosse um computador, uma vez que elas estão dispostas num código linguístico compreensível para aquele. A missão do professor é fornecer aos alunos dados para que esses executem os comandos cerebrais pertinentes e possam aprender. O culturalismo O culturalismo evidencia a capacidade que o Homem tem de simbolizar e interpretar, uma vez que ele pertence a uma comunidade que produz cultura. Dessa forma, a aprendizagem e o pensamento não são processos mecânicos, idênticos para todas as pessoas, mas constituem atividades peculiares, diretamente vinculadas ao desenvolvimento de cada uma delas num contexto particular, motivo pelo qual os significados de um mesmo objeto/acontecimento podem (e costumam) ser diversos para vários indivíduos. 25 Descrição da imagem: Enquanto o “computacionalismo” se baseia no processamento de informações, privilegiando a explicação, o culturalismo defende a produção de significado, destacando a interpretação. A visão da mente humana como uma máquina não é nova na História da Humanidade. Capra (2001, p. 66/68) relata que a ciência cognitiva, no seu início, defendeu a noção de que a inteligência humana poderia ser entendida como um processador de informações. Tal atitude, envolta num amplo entusiasmo de membros da academia e do público em geral, pode ser comparada com a ideia, lançada no século XVII por Descartes, de que o funcionamento do corpo humano se assemelhava ao do relógio. A utilização de termos tipicamente humanos (memória, linguagem, ...) reforçou a concepção cartesiana de que o Homem é uma máquina, embora tal crença tenha se revelado recentemente uma falácia, pois a inteligência da máquina (a “artificial”) é totalmente diversa da humana, uma vez que o: (...) sistema nervoso humano não processa nenhuma informação (no sentido de elementos separados que existem já prontos no mundo exterior, a serem apreendidos pelo sistema cognitivo), mas interage com o meio ambiente modulando continuamente sua estrutura. Além disso, os neurocientistas descobriram fortes evidências de que a inteligência humana, a memória humana e as decisões humanas nunca são completamente racionais, mas sempre se manifestam coloridas por emoções, como todos sabemos a partir da experiência. Nosso pensamento é sempre acompanhando por sensações e por processos somáticos. Mesmo que, com frequência, tendamos a suprimir estes últimos, sempre pensamos também como o nosso corpo; e uma vez que os computadores não têm um tal corpo, problemas verdadeiramente humanos sempre serão estrangeiros à inteligência deles. (CAPRA, 2001, p. 68). Piaget também pesquisou o desenvolvimento moral da criança e concluiu que o julgamento moral expressa a consciência que a criança tem do mundo social. Dessa forma, as experiênciaspor ela vivenciadas permitem avançar nos estádios descritos por ele: i. Pré-moral (desconhecimento de regras); ii. Moralidade heterônoma (os deveres e os valores são seguidos fielmente); iii. Semiautonomia (início da relativização de ordens e de regras); e iv. Moralidade autônoma (baseada na reciprocidade). A importância dessa concepção de moralidade infantil é a recusa de entendê-la como um processo maturacional, pois enaltece as interações que o sujeito estabelece com o meio ambiente. A excessiva valorização das consequências das ações é, progressivamente, substituída pelas intenções dos sujeitos, as quais passam a ser entendidas dentro de um sistema valorativo, possibilitando que as regras e as exigências sociais sejam relativizadas, hajam vistas as especificidades individuais, num interminável diálogo. 26 A partir dessas contribuições piagetianas, os papéis do aluno e do professor transformam-se radicalmente: para elaborar o conhecimento, aquele deve confrontar os seus saberes com a realidade, considerar as informações dos colegas, de modo a formular explicações mais consistentes. Agindo assim, ele abandonará a enfadonha tarefa de guardar (por pouco tempo) conteúdos amorfos e assumirá, cada vez mais, a responsabilidade pela sua vida, que congrega bem mais do que a área cognitiva, num processo interminável de equilibração. Nessa perspectiva, o professor tem grande influência na dinâmica da sala, nas interações, motivo pelo qual ele deve abandonar a atitude de conferencista, de divulgador de um conhecimento que só ele detém, e propor problemas e desafios aos seus pupilos. Para que isso ocorra, ele precisa investigar o contexto social em que o alunado vive, permitindo que esse atinja níveis mais complexos de entendimento da dinâmica social, permeada que é, no caso do Brasil, por inúmeras contradições e injustiças, as quais não são acontecimentos naturais, mas acontecimentos históricos, sendo passíveis de transformação. De um modo geral, os estudos de Piaget permitiram melhor compreensão do universo infantil, das suas capacidades, limitações e necessidades. Pesquisas posteriores relevam que as suas ideias quanto à capacidade de realização das crianças pré-escolares e ao egocentrismo não são totalmente verdadeiras. Isso não tira o mérito do esforço empreendido por ele, mas mostram a transitoriedade do conhecimento, que se torna cada vez mais depurado, com a formulação de mais teorias (acomodação). PARA DOLL JR. (1997, P. 80), OS ESTUDOS DE JEAN PIAGET SÃO A alternativa de explicação para o desenvolvimento humano em substituição à Física newtoniana, uma vez que o modelo aberto, por ele apresentado, privilegia as relações que os seres humanos estabelecem como o seu meio, enaltecendo a noção de que o valor que as partes têm só pode ser entendido no sistema como um todo, e não mediante o isolamento entre aquelas. Suas investigações, forjadas numa perspectiva da Biologia, objetivavam desvendar a interação das pressões que o meio ambiente situa sobre o organismo e a reação por este apresentada a essas pressões. Rejeitou a explicação lamarckiana (as respostas formuladas pelos indivíduos às pressões do meio ambiente são herdadas) e a darwiniana (que entendia as pressões ambientais como suscitando respostas aleatórias, com a sobrevivência do mais adaptado), pois, para ele, a primeira era mecanicista e a segunda não tinha objetivo. Segundo Doll Jr. (1997, p. 96/97), a epistemologia proposta por Piaget é o “terceiro caminho”, que privilegia a “interação entre o organismo e seu meio ambiente” ressaltando “a maneira pela qual o organismo busca ativamente responder ao meio ambiente e ao mesmo tempo resiste a qualquer pressão para mudar seus próprios padrões”. O equilíbrio nunca é plenamente alcançado, haja vista que os estímulos do meio levam o organismo a reformular as suas estruturas. Porém, “o meio ambiente não molda o organismo; os organismos moldam a si mesmos”, não sendo, dessa forma, passivos, como se costumava pensar, mas dotados de uma capacidade de reagir positivamente às pressões ambientais. 27 Antes de finalizar essa reflexão sobre as contribuições do construtivismo para a Educação, saliento a discussão que ele fomentou sobre o erro, notadamente no ambiente escolar, o qual só se revela como tal quando o sujeito é capaz de confrontar o seu conhecimento com o de outras pessoas, seja de forma verbal ou escrita. Assim, ele é uma etapa natural na elaboração do conhecimento, não devendo ser motivo de culpa, vergonha ou complexo de inferioridade. Conforme o referencial piagetiano, o erro pode ser compreendido como construtivo e como não construtivo. Essa diferença na natureza do erro demanda atitudes distintas do professor, motivo pelo qual devem ser refutadas atitudes demasiadamente permissivas em relação aos erros cometidos pelos alunos, notadamente quando esses forem do tipo não construtivo. CONSTRUTIVO (indica uma complexificação nas estruturas mentais do sujeito). NÃO CONSTRUTIVO (revela que não houve mudança nas estruturas mentais do sujeito). As novas gerações têm o direito de desfrutar momentos de aprendizagem inspirados numa nova lógica de saber, dando-lhes a oportunidade de experimentar, descobrir, errar, melhorar e aprender com os próprios equívocos, incrementando a autoimagem e a autoestima. A degustação de todas as formas de conhecimento permitirá que elas compreendam que o saber é histórico, pois que resulta da jornada da Humanidade na Terra, sendo, portanto, passível de transformação, de melhoria. Os postulados sociointeracionistas ratificam o fato de que, para que a realidade educacional seja transformada, as práticas pedagógicas precisam considerar os processos intra e interpessoal que caracterizam a significação do saber, a qual nunca se encerra, haja vista que: VERSÃO TEXTUAL “É na inconclusão do ser, que se sabe como tal, que se funda a educação como processo permanente. Mulheres e homens se tornaram educáveis na medida que se reconheceram inacabados” (FREIRE, 1997, p. 64). Os atos de aprender e ensinar, portanto, são atividades que caracterizam o existir humano, não sendo exclusividade do ambiente escolar, uma vez que ele é apenas um dos locais onde isso é possível de 28 acontecer. O que deveria ser peculiar desse espaço é a possibilidade de que os sujeitos estabelecessem vínculos muito mais intensos, permitindo que aqueles, por meio de uma compreensão do mundo mais intensa (pois fruto de um processo deliberado), fossem preparados para participar mais ativamente do mundo. A escola precisa, portanto, considerar o cotidiano, as experiências dos seus sujeitos, professor e alunos, de modo que o saber os ajude a decifrar as complexas ligações entre os acontecimentos. Esse desafio, embora seja coletivo, precisa ser vivenciado pelas pessoas, pois ela necessita decifrar, interpretar o mundo. A experiência implica a capacidade de aprender a partir da própria vivência. Experienciar é aprender; significa atuar sobre o dado e criar a partir dele. O dado não pode ser conhecido em sua essência. O que pode ser conhecido é uma realidade que é constructo da experiência, uma criação de sentimento e pensamento. (TUAN, 1983, p. 10). Diante do exposto, é necessário que as relações entre os agentes pedagógicos sejam pautadas no respeito mútuo, condição indispensável para se estabelecer um diálogo, que substitua o monólogo que, acredito, impera na grande maioria das salas de aula. Nessa perspectiva, a oitiva é tão importante quanto a fala, devendo aquela preceder essa, sob pena de se produzir um monólogo estéril, inócuo. O ato de ensinar anda de mãos dadas com o de aprender, aquele não está na frente desse, não o precede, mas se alimentam mutuamente. Essa também é a opinião de Freire (1997, p. 128): “Somente quem escuta paciente e criticamente o outro, fala com ele, mesmo que, em certas condições, precise de falar a ele. Oque jamais faz quem aprende a escutar para poder falar com é falar impositivamente”. Reconheço que a ausência do diálogo não é privilégio da escola, mas nela os resultados são ainda mais catastróficos, considerando que a mensagem subliminarmente difundida é a de que o conhecimento é algo inútil e chato, que não tem nenhuma relação com a vida, com a realidade, seja a dos alunos, seja a dos professores; mas, será que é possível sonhar com algo distinto? Vislumbro um cenário em que professor e alunos assumam os papéis de flor e abelha, onde o conhecimento é o mel, tal como imaginado por Gibran (1970, p. 69): (...) o prazer da flor é entregar o mel à abelha. Pois, para a abelha, uma flor é uma fonte de vida. E para a flor, uma abelha é mensageira de amor. E para ambas, a abelha e a flor, dar e receber o prazer é uma necessidade e um êxtase. Kenski (2000, p. 137) ressalta o fato de que, numa prática apoiada nos ideais de Vygotsky, “o poder da fala do professor é substituído pela interação, pela troca de conhecimentos e pela colaboração grupal a fim de se garantir a aprendizagem”, fortalecendo, dessa forma, o diálogo e as trocas de informações. Assim, na perspectiva do sociointeracionismo, “As aprendizagens, o desenvolvimento do pensamento lógico e científico, realizam-se através da interação comunicativa, o que possibilita a construção social do conhecimento”. 29 Descrição da imagem: Para se compreender a natureza das críticas ordinariamente enunciadas sobre o construtivismo, é necessário esclarecer que ele não é uma teoria educacional, como muitos estão habituados a pensar e propagar, mas uma teoria do conhecimento. Acredito que a grande dificuldade de se entender o potencial transformador do ideário construtivista reside no fato de que ele propõe uma forma radicalmente diferente de se explicar como o Homem aprende. As pessoas que buscam receitas para ensinar, que podem ser seguidas por qualquer indivíduo e em qualquer contexto social, acreditam que a mente é um processador de informações, motivo pelo qual o conhecimento pode e deve ser transmitido, de forma clara e precisa, pelo professor aos alunos. Ora, não bastasse o fato de que o construtivismo não é uma pedagogia, pois afigura-se como uma epistemologia, ele fomenta o desenvolvimento de uma teoria da aprendizagem (e do ensino) que valoriza a interpretação, a produção de significados, o que só se efetiva quando o sujeito confronta a sua realidade (social, emocional, cognitiva, ...) com a produção cultural a que tem acesso por via das mais variadas formas. O construtivismo, portanto, é um golpe no “computacionalismo”, que acredita no poder do professor de explicar, e uma aposta no culturalismo, que crê na capacidade do aluno de produzir sentido. Não somente no Brasil, mas também no mundo, de um modo geral, a teoria do conhecimento que predomina nas salas de aula e dos professores, bem como nos gabinetes dos diretores e dos gestores, é o “computacionalismo”, expresso no intento de massificar, de produzir em série, de apresentar a solução para a maior quantidade de pessoas possível. É por isso que a crença de que o construtivismo seria a solução da Educação no contexto nacional se revelou um grande fiasco. 30 A culpa, todavia, não está na explicação apresentada pela teoria construtivista, mas no nefasto uso e na distorção que dela fizeram, objetivando atingir objetivos distintos, e até mesmo contraditórios, dos que ela formula. Da mesma forma, o responsável por esse fracasso não é o professor, que seria incapaz de compreender e pôr em prática os seus fundamentos, mas de uma proposta educacional que acredita que ele tem o poder de sozinho resolver todos os problemas, de naturezas diversas, que afligem os seus alunos. O culturalismo demanda uma organização do trabalho escolar bastante diversa da que costuma caracterizar o cotidiano no Brasil. A autonomia do professor e do aluno não deve ser entendida como um isolamento do sujeito da sua realidade, mas exatamente o contrário. Somente um indivíduo que experimenta o prazer de descobrir(-se) pode contribuir e facilitar para que outras pessoas também tenham o privilégio de o desfrutarem. Individualidade não é sinônimo de individualismo, uma vez que a vocação ontológica do Homem é se encontrar (e perder-se) no e com o outro, numa perspectiva de união e não de isolamento. A relação do professor com o aluno é apenas uma das possibilidades de encontro que toda pessoa tem com seu ambiente (social/cultural e natural), o qual foi poeticamente descrita por Freire (1997, p. 151/152) assim: Estar disponível é estar sensível aos chamamentos que nos chegam, aos sinais mais diversos que nos apelam, ao canto do pássaro, à chuva que cai ou que se anuncia na nuvem escura, ao riso manso da inocência, à cara carrancuda da desaprovação, aos braços que se abrem para acolher ou ao corpo que se fecha na recusa. É na minha disponibilidade permanente à vida a que me entrego de corpo inteiro, pensar crítico, emoção, curiosidade, desejo, que vou aprendendo a ser eu mesmo em minha relação com o contrário de mim. E quanto mais me dou à experiência de lidar sem medo, sem preconceito, com as diferenças, tanto melhor me conheço e construo meu perfil. O professor, portanto, deve viver a sua autonomia (entendida por mim como sempre inconclusa, merecedora, assim, de cuidado e dedicação ininterruptos) para que ele proponha atividades que contribuam e favoreçam o desenvolvimento da autonomia pelo corpo discente. Para tanto, é necessário que o ambiente e o material pedagógicos sejam ricos e diversos, possibilitando a exploração, pelos sujeitos, de opções, com incremento da respectiva flexibilidade, respeitando a diversidade que caracteriza o mundo, com a formulação de explicações que contemplem a complexidade da dinâmica da vida, e rejeitando aquelas que, deliberadamente ou não, a negam. O construtivismo, como teoria do conhecimento, favorece o desabrochar de uma ética nas relações humanas pautada na igualdade e na diversidade, as quais não podem ser entendidas como antagônicas, mas complementares. Afinal, a igualdade reside no fato de que se trata de seres humanos, enquanto a diversidade de cada qual ressalta a peculiaridade do que cada um viveu, vive e viverá. Professor e alunos não são, portanto, oponentes, mas companheiros de uma mesma aventura, cada um procurando desempenhar seu papel da melhor forma possível, confiando e acreditando na lealdade de que está ao seu lado (ou na sua frente... ou, ainda, atrás!). O fato de a autoria da aprendizagem ser individual, em virtude de a constituição de signos ser feita por pessoa, não significa, de forma alguma, que ela é desligada das relações sociais. Considerando a reflexão desenvolvida sobre o construtivismo, se é verdade que o professor não pode ensinar, em virtude da singularidade da forma com que o Homem aprende, isso não significa que ele não tem um papel de destaque na sala de aula. Muito pelo contrário! Sua importância é ainda mais enaltecida: 31 ele é convidado a assumir a individualidade, a expor sua sensibilidade, a estabelecer vínculos afetivos com os seus alunos, sendo a cultura e o conhecimento pretextos para que isso ocorra. O erro do aluno, nesse cenário, não é visto como catástrofe, uma vez que ele nos lembra haver sempre algo a ser aprendido, requerendo que o professor, com a sua gama de conhecimento e sensibilidade, o interprete e formule oportunidades e desafios para o estudante, continuamente, reelaborar a sua resposta. Acredito que tal atitude não deve ocorrer apenas quando acontecer um erro. Tendo em vista a crescente quantidade de saberes e a impossibilidade de dominá-la, mesmo que precariamente, como devem ser a Educação, o ensino-aprendizagem e a relação professor-aluno? Diante de tantas informações, não há como se absorver, intuir um conhecimento geral, um saber daquilo que o ser humano supostamente deveriaestar ciente. Não me iludo mais com isso. A única forma de se criar um conhecimento geral, um conhecimento inteiro, é dentro de cada pessoa, e só essa pessoa sabe quais são as informações necessárias para que ela mesma seja inteira. Isso não significa isolamento. Continuaremos nos influenciando uns aos outros, permanecemos inspirando uns aos outros, porém não devemos querer o controle sobre o outro, mas apenas deixar disponíveis para o outro as informações que temos, e que o outro siga o próprio caminho. (LOUREIRO JR, 1996, p. 44). À luz das reflexões apresentadas, destaca-se o fato de que o Homem é um ser que necessita do encontro para se realizar como tal, não significando isso que os desentendimentos, as contradições sejam uma negação do processo. Enquanto há vida, ele está aprendendo, ampliando a sua capacidade de interpretar, de criar significados do mundo. O ponto de chegada nunca é definitivo, constitui-se apenas numa temporária escala para outras viagens, descobertas e aventuras. O desconhecido está sempre à sua frente, instigando-o a prosseguir, a avançar, demandando que cada pessoa seja movida pela fé, pela esperança e não pela certeza, a qual se revela inócua e incompatível com a dinâmica da natureza. A excessiva valorização da Ciência fez com que se acreditasse que o conhecimento permite o controle do mundo. Essa pretensão é motivo de muito sofrimento e de empobrecimento para o Homem, pois grandes são as suas frustrações (quando ele percebe, na maioria das vezes, que algo não saiu como ele desejava e queria que acontecesse) e pequenas e efêmeras são as suas alegrias (porque ele não está apto a dançar ao ritmo da melodia do universo e de se deliciar com os seus mistérios). A não permanência não é a exceção, ela é a regra da vida. Essa verdade requer que o Homem assuma o seu caráter finito e incompleto, o que não é nenhum demérito, nem motivo de sofrimento, mas a condição necessária para sempre crescer, aprender e usufruir das maravilhas que irrompem, a todo o momento, ao seu redor e no seu interior. Para desenvolver o seu Eu, cada indivíduo precisa do outro, do não eu, para formar um par e deslizar nos palcos do Planeta azul. Postulo a ideia de que a escola possibilite às pessoas aprenderem a valorizar o outro, a se alegrarem com o encontro, que sempre permite aprender algo. Afinal, descobrir a cultura ou o outro é, de certa forma, desvendar a si mesmo. Relação pessoal de homem para homem – no diálogo, no respeito e consideração, na confiança e no amor – não é mais, em sentido próprio, uma relação de sujeito e objeto, mas uma relação de sujeito para sujeito, de eu e tu. Daí que resultam estruturas e categorias completamente diferentes das que se encontram num esquema rígido de sujeito e objeto, dado que não se antepõe a mim uma coisa objetivamente apreensível e disponível, mas uma essência pessoal da mesma qualidade e mesmo valor que eu, que se abre ou se fecha livremente e que só posso ‘compreender’ na aceitação cheia de fé e confiança de sua livre autoabertura. (CORETH, 1973, p. 99). 32 Acredito que as ideias de Moreno e a concepção de conhecimento na Teoria de Santiago (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) enriqueçam e aprofundam os estudos sobre a construção do conhecimento, motivo pelo qual os professores devem conhecê-la. A escola, conforme as considerações aqui delineadas, constitui-se num espaço de encontros entre pessoas com valores, crenças, sonhos e experiências diferentes. É importante que professores e estudantes aprendam a conviver com a diversidade, uma vez que a sociedade é ainda mais plural. É sobre isto que estudaremos nos próximos dois tópicos. DICA “Ser” aluno: o segredo do “ser” professor (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.). PARADA OBRIGATÓRIA O processo ensino-aprendizagem e o papel do professor como gestor do pensar (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.). 33 Didática I Aula 02: Educação: crise de paradigmas Tópico 02: (Des)encontros na Escola e Na Sala de Aula: Ética, Diálogo e Violência - I A crise educacional tem um componente afetivo, que se explicita nos crescentes conflitos entre os agentes pedagógicos, que têm como característica comum a falta de respeito. VERSÃO TEXTUAL • O que é necessário para se estabelecer o diálogo? • Por que será que as pessoas se agridem cada vez mais? • A escola pode fazer algo para diminuir a violência? NA ESCOLA – CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE Democrata é Dona Amarílis, professora na escola pública de uma rua que não vou contar, e mesmo nome de Dona Amarílis é inventado, mas o caso aconteceu. Ela se virou para os alunos, no começo da aula, e falou assim: ― Hoje eu preciso que vocês resolvam uma coisa muito importante. Pode ser? ― Pode – a garotada respondeu em coro. ― Muito bem. Será uma espécie de plebiscito. A palavra é complicada, mas a coisa é simples. Cada um dá sua opinião, a gente soma as opiniões e a maioria é que decide. Na hora de dar opinião, não falem todos de uma vez só, porque senão vai ser muito difícil eu saber o que é que cada um pensa. Está bem? ― Está – respondeu o coro, interessadíssimo. ― Ótimo. Então, vamos ao assunto. Surgiu um movimento para as professoras poderem usar calça comprida nas escolas. O governo disse que deixa, a diretora também, mas no meu caso eu não quero decidir por mim. O que se faz na sala deve ser de acordo com os alunos. Para todos ficarem satisfeitos e um não dizer que não gostou. Assim, não tem problema. Bem, vou começar pelo Renato Carlos. Renato Carlos, você acha que sua professora deve ou não usar calça comprida na escola? ― Acho que não deve – respondeu, baixando os olhos. ― Por quê? ― Porque é melhor não usar. ― E por que é melhor não usar? ― Porque minissaia é muito mais bacana. 34 ― Perfeito. Um voto contra. Marilena, me faz um favor, anote aí no seu caderno os votos contra. E você, Leonardo, por obséquio, anote os votos a favor, se houver. Agora quem vai responder á Inesita. ― Claro que deve, professora. Lá fora a senhora usa, por que vai deixar de usar aqui dentro? ― Mas aqui dentro é outro lugar. ― É a mesma coisa. A senhora tem uma roxo-cardeal que eu vi outro dia na rua, aquela é barbara. ― Um a favor. E você, Aparecida? ― Posso ser sincera, professora. ― Pode, não. Deve ― Eu, se fosse a senhora, não usava. ― Por quê? ― O quadril, sabe? Fica meio saliente... ― Obrigada, Aparecida. Você anotou, Marilena? Agora você, Edmundo. ― Eu acho que Aparecida não tem razão, professora. A senhora fica muito bacana de calça comprida. O seu quadril é certinho. ― Meu quadril não está em votação, Edmundo. A calça, sim. Você é contra ou a favor da calça? ― A favor 100%. ― Você, Peter? ― Para mim, tanto faz. ― Não tem preferência? ― Sei lá. Negócio de mulher eu não me meto, professora. ― Uma abstenção. Mônica, você fica encarregada de tomar nota dos votos iguais ao do Peter: nem contra, nem a favor, antes pelo contrário. Assim, iam todos votando, como se escolhessem o Presidente da República, tarefa que talvez – quem sabe? – no futuro sejam chamados a desempenhar. Com a maior circunspeção. A vez de Rinalda. ― Ah, cada uma na sua. ― Na sua, como? ― Eu na minha, a senhora na sua, cada um na dele, entende? ― Explique melhor. ― Negócio seguinte. Se a senhora quer vir de pantalona, venha. Eu quero vir de midi, de máxi, de short, venho. Uniforme é papo furado. ― Você foi além da pergunta, Rinalda. Então é a favor? ― Evidente. Cada um curtindo à vontade. 35 ― Legal! – exclamou Jorgito – Uniforme está superado, professora. A senhora vem de calça comprida, e a gente aparecemos de qualquer jeito. ― Não pode – refutou Gilberto – vira bagunça. Lá em casa, ninguém, anda de pijama ou de camisa aberta na sala. A gente tem de respeitar o uniforme. Respeita, não respeita, a discussão esquentou, Dona Amarílis pedia ordem, ordem, assim não é possível,mas os grupos haviam se extremado, falavam todos ao mesmo tempo, ninguém se fazia ouvir, pelo que, com quatro votos a favor da calça comprida, dois contra, e um tanto-faz, e antes que fosse decretada por maioria absoluta a abolição do uniforme escolar, a professora achou prudente declarar encerrado o plebiscito, e passou à lição de História do Brasil. Fonte: (SABINO, 2002, p. 54-57) Diariamente, ouvimos (e falamos) sobre a falta de ética, mas... O que é ética? Como se aprende? É possível ensiná- la? MULTIMÍDIA Assista ao vídeo do filósofo Mario Sérgio Cortella no programa do Jô Soares sobre "O que é ética e moral?". Acesse a aula online para visualizar este conteúdo Ética, conforme o Dicionário Aurélio, é: [Fem. substantivado do adj. ético.] S. f. 1. Estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto. (FERREIRA, 1993, p. 733) De acordo com a definição supra, a Ética contempla o julgamento do comportamento do Homem, à luz de determinados valores, dentre os quais se destaca o respeito (e o cuidado) pela vida. VERSÃO TEXTUAL • Por que é difícil (e necessário) dialogar, principalmente na seara educacional? • O que revela este descaso por ela? 36 Socializo a seguinte reflexão de Barguil (2006, p. 166-167): (...) a forma como me relaciono com o outro está em sintonia com a forma como me relaciono comigo. Todo educador precisa aprender a olhar para dentro de si, perceber o que se passa no seu interior, acolhendo, também, o não-eu, tanto aquilo que já vive como o que ainda não veio à tona. Essa abertura se exerce também quando ele abraça o aluno, com os seus saberes, peculiaridades e limitações. Cônscio das incompletudes que permeiam o seu viver, o educador desenvolverá atividades entremeadas de um sentimento de humildade diante do universo, que se apresenta como eterno desconhecido. Ele, portanto, precisa ter uma relação com o saber compatível com aquela que deseja que seus alunos tenham consigo mesmos e com os outros: “Como professor não me é possível ajudar o educando a superar sua ignorância se não supero permanentemente a minha. Não posso ensinar o que não sei”. (FREIRE, 1997: 107). Viva o diálogo! (Itálico no original) A despeito de objetivar a compreensão da realidade escolar, postulo o argumento de que essas considerações possam (e devam) ser ampliadas para um contexto mais amplo, que congregue a sociedade como um todo, pois em ambos é sintomática a negação do direito de individuação. Pensar sobre o homem é difícil também, porque sendo o homem, ao mesmo tempo, sujeito e objeto da reflexão, essa tarefa significa um desvelar do nosso próprio ser, uma compreensão das nossas crenças e uma busca de desmistificação de ideologias que, ao longo de nossa vida, sedimentaram-se em nossa forma de ver e pensar o mundo. (GONÇALVES, 1994, p. 74). O Homem se caracteriza por um movimento ambíguo, do qual dificilmente ele se apercebe. Por um lado, ele intenta descobrir, ser diferente, inovar, aventurando-se no desconhecimento; de outra parte, ele quer sentir-se seguro, ter certezas, sem ameaças do inesperado. A convivência do Homem com seus semelhantes possibilita tanto a identificação como a diferenciação, ou, pelo menos, deveria ser assim, uma vez que aquele não é mero reflexo da realidade, pois, constantemente, interpreta-a, valora-a e cria significados, ou seja, (re)elabora a sua subjetividade. REFLEXÃO Há, entretanto, uma tentativa incessante de festejar e privilegiar o ideal de homem-modelo. • A quem interessa a padronização? • O que leva as pessoas a não se diferenciarem umas das outras e passarem a pensar, a almejar as mesmas coisas? • Qual é o preço que elas pagam por essa negação de si mesmas? Atualmente, é fácil perceber que a padronização é um dos pilares do capitalismo, que instituiu a produção em série, tomando o lugar da manufatura, do artesanato, que se baseavam na peculiaridade de cada peça produzida. A escola, na maior parte das vezes, organiza as suas práticas baseadas num estudante-modelo, tanto como ponto de partida como de chegada, as quais requerem, também, um professor-padrão. Agindo assim, ela elimina qualquer possibilidade de os agentes pedagógicos (estudantes e professores) se perceberem como sujeitos singulares, particulares, distintos de todos os outros, de conceberem, continuamente, a autopercepção e a autoestima. 37 Acredito que toda pessoa tem o direito inalienável de desenvolver a sua subjetividade, entendida não como algo estático, mas como um universo em movimento e expansão. Para tanto, ela precisará desenvolver uma intensa relação com o meio ambiente, a qual permitirá que ela descubra (conheça) o que aprecia e o que rejeita, vislumbrando novos horizontes e despertando porções interiores adormecidas. Para que isso ocorra, o indivíduo deve estar em sintonia com os seus afetos, as suas emoções, sob pena de viver como um autômato, que executa, mas não sente, que faz, mas não avalia, sendo incapaz de identificar as situações que lhe são prazerosas ou não e, posteriormente, de escolher o que gostaria de viver. Para reaver a subjetividade e favorecer o processo de individuação, a Educação deve ensejar situações em que o sujeito, superando a sua visão quantificadora, fragmentadora, valorize as suas emoções, o seu corpo, superando a oposição destes em relação à mente e à razão (FONTANELLA, 1995, p. 10), e desenvolvendo uma compreensão holística, que perceba as sutis relações entre as partes e o todo e se renda à impossibilidade de medir as belezas da vida, não capturáveis aos formalismos numéricos. Para Gonçalves (1994), a corporalidade, que contempla tudo aquilo que diz respeito ao indivíduo, costuma ser ignorada e reprimida na escola, o que enseja sua recuperação, de forma a contemplar tanto o educando como o educador. Fonte [2] Descrição da Imagem: Foto em preto e branco do sociólogo Michel Foucault (1926- 1984) nasceu em Paris - FR. Foi filósofo, historiador das ideias, teórico social, filólogo, crítico literário e professor da cátedra História dos Sistemas do Pensamento. 38 Michel Foucault. A foto mostra apenas o rosto de Foucault. Careca, óculos de armações finas, sorriso largo. Foucault (2002) analisou, com detalhes, como o corpo foi tratado na História. No início, o controle sobre ele era exercido com o uso da força. Posteriormente, entraram em cena a coerção e a disciplina, que objetivavam a fabricação de corpos submissos, dóceis. Para atingir os objetivos estabelecidos, o espaço escolar foi projetado para possibilitar que o professor pudesse controlar os seus estudantes, verificando se eles estavam se comportando conforme o esperado. É por isso que, além de ensinar, a escola passou a ser uma máquina de “(...) vigiar, de hierarquizar, de recompensar”. (FOUCAULT, 2002, p. 126). Desde os primórdios, o Homem, para conhecer o seu ambiente, movimenta-se com o seu corpo no espaço, fazendo indagações, vislumbrando possibilidades, avaliando resultados, buscando opções, alargando, continuamente, seus horizontes, numa graciosa dança existencial, ao som de uma música cuja melodia expressa a convicção de que há sempre algo novo (BARGUIL, 2000). Privá-lo disso é, sem dúvida, negar-lhe o direito de aprender, de transcender. A imposição de um espaço e de um tempo tem como finalidade a submissão do sujeito. Ao longo da História, ele tem utilizado as suas habilidades físicas, cognitivas e emocionais de modo diverso. Nas sociedades pré-industriais, o corpo tinha grande importância na identidade pessoal bem como para o funcionamento da sociedade, uma vez que a força, destreza e agilidade eram importantes em torneios, em competições, na guerra e na política (GONÇALVES, 1994, p. 18). Com a produção capitalista, o Homem inaugurourelações diferentes com a natureza, modificando o seu corpo, bem como distanciando-se do produto (externo e interno) do seu trabalho, uma vez que foram dissociadas as suas forças corporal e espiritual (GONÇALVES, 1994, p. 22). Embora o cerceamento dos corpos, dos movimentos, das emoções, seja ainda a realidade da grande maioria das nossas escolas, muito me anima saber que os rituais escolares são processos históricos, como tais, passíveis de mudança, de transformação. Para McLaren (1992, p. 354), embora os ritos sejam estabelecidos pela instituição escolar e adotados pelos professores, eles são intensamente questionados pelos estudantes, que utilizam os seus corpos e as suas falas para expressar a sua insatisfação. Esse desagrado em relação ao instituído, com a disciplina, com o controle dos corpos, das mentes e dos corações não é mais aceito como o era no passado recente. A globalização, ao tentar impor a uniformização de costumes, povos e línguas, possibilitou ao Homem valorizar as suas diferenças e lutar pelo direito de permanecer com a sua singularidade, originando mais conflito do que se esperava (ROCHA, 2000, p. 142). No entendimento de Illich (1977, p. 77), a escola, ao instituir a aprendizagem em matérias, fragmentando o conhecimento, forma “(...) dentro do estudante um currículo feito desses blocos pré- 39 fabricados”. Essa cisão do estudante é acompanhada pela negação da subjetividade, uma vez que a avaliação normalmente efetuada é centrada no professor, retirando daquele a possibilidade de olhar para si, de assumir a responsabilidade pela sua vida e reforçando um padrão de subserviência à opinião, ao controle de outrem, negando o desenvolvimento da individualidade e aprofundando a alienação. Ao se pôr sobre alguém sentidos já prontos, não houve processos de experimentação e criação de sentidos que, no próprio ato de irem se fazendo obra vão se configurando. Na doação ou no estabelecimento de sentidos (ou nem isso) há uma mecânica que simula o utilitarismo fabril dominante. A arte na educação vai sucumbindo ao medo de produzir e experienciar sentidos, ensaiaram-se obras (LINHARES, 2003, p. 240). Bruner (2001, p. 44) assinala que a humanidade organiza e administra o conhecimento do mundo de duas formas: O pensamento lógico cientifico (que a permite tratar de coisas) e O pensamento narrativo (que a habilita lidar com pessoas e condições). Para ele, é inaceitável o fato de que a maioria das escolas não valorize as artes da narrativa (canto, drama, ficção, teatro etc.), compreendendo-as apenas como uma decoração, uma vez que o Homem sempre utiliza o discurso narrativo para contar histórias. Isso se torna ainda mais grave, diante da afirmação de psicanalistas de que a neurose “é um reflexo de uma história insuficiente, incompleta ou imprópria que um indivíduo tem de si mesmo”. (BRUNER, 2001, p. 44). A valorização da sensibilidade e da arte na escola, portanto, não é apenas um enfeite, mas uma necessidade vital que é, há muito tempo, negada aos sujeitos pedagógicos. O espaço da estética não pode ser de responsabilidade apenas de uma pessoa, em um momento e em um lugar determinados, mas deve inspirar o projeto político-pedagógico da escola, sob pena de falsear a transformação que pretende promover. Isso não quer dizer que a presença de um profissional habilitado seja dispensável, muito pelo contrário. Considerando a aridez da formação de quase todos os nossos professores, ele é necessário para que esse projeto se efetive e avance com a colaboração da comunidade escolar. Na opinião de Matos (2002, p. 18), ensinar é pensar com o outro, é ter esperanças coletivas. Diante da constatação de que o mundo moderno privilegia o isolamento, promove o distanciamento (físico, afetivo e cognitivo) entre as pessoas, esse autor defende a ideia de que a arte, por expressar o inenarrável, contribui na importante aprendizagem de se colocar no lugar do outro: Também no domínio estético, o estudante tem progressos a realizar: que as obras das quais ele é o autor tornem-se cada vez mais suas, respondam às preocupações de ordem e que a visão do belo esteja cada vez mais aí presente; que sua própria iniciativa se separe, que saia do banal, de seu banal e a seu modo, para se estabelecer em um nível mais alto da 40 emoção estética. E paralelamente para as obras admiradas por ele. (SNYDERS, 1988, p. 253). Somente dialogando, é possível ao sujeito compreender o outro e a si mesmo, o que ocorre de forma simultânea. Esse aprendizado é inesgotável, uma vez que ambos estão em constante mudança. A identificação de novos elementos está ligada à criatividade, capacidade de interpretar de forma distinta a situação renovada, agindo de maneira que leve em conta as transformações ocorridas, não se limitando, portanto, à repetição do que foi feito, o que demanda contínua flexibilidade. A urgência do estudo da corporalidade reside no fato de que, com exceção da Psicomotricidade e disciplinas correlatas voltadas à Educação Infantil, não há na Educação um cuidado com o corpo, o que, acredito, diminui sobremaneira as possibilidades de verdadeira transformação da escola e de suas práticas. Conceber a corporalidade integrada na unidade do homem significa resgatar o sentido do sensível e do corpóreo na vida humana. A práxis humana se efetiva porque o homem é um ser corpóreo, que possui necessidades materiais e espirituais. Sua relação com o mundo não é simplesmente a relação de uma consciência que o pensa o mundo, sem deixar-se tocar, mas é a relação de um ser engajado no mundo – que tem emoções, que ama, que odeia, que tem fome, que tem dor, que vive a solidão, a amizade, o desprezo etc. –, enfim, de um ser que sente, solo sobre o qual o pensamento se edifica. Da práxis humana e dos modos dela decorrentes de coexistência entre os homens criam-se formações ideológicas, que impregnam sua maneira de ser. Assim, podemos compreender as formas alienadas de o homem sentir e pensar, no mundo contemporâneo, são como que penetradas pelo tecido econômico que se tornou, no sistema capitalista, o prisma do qual as coisas mundanas fundam seu sentido. Essas formas estão in“corpo”radas em seu ser e encerram todas as distorções e os tipos de alienação que o homem contemporâneo, que se manifestam tanto nas relações inter-humanas, nas relações com a natureza e com a cultura, como nas formas de o homem lidar com sua corporalidade. (GONÇALVES, 1994, p. 176-177). Outro indício da negação da subjetividade é a crescente violência escolar. Embora esse fenômeno seja muito complexo, e contemple acontecimentos que são sociais e invadem o espaço acadêmico, como é o caso das drogas e das gangues, é inegável que a violência simbólica, verbal e institucional, a que são submetidos professores e estudantes, está cada vez mais intensa. Continuaremos esta temática no tópico seguinte. DICA Clique aqui (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) para ler o texto “Ensinar a Alegria”, de Rubem Alves. 41 Didática I Aula 02: Educação: crise de paradigmas Tópico 03: (Des)encontros na Escola e Na Sala de Aula: Ética, Diálogo e Violência - II No Brasil, é assustadora a quantidade de matérias nos diversos meios de comunicação que relatam fatos de violência que acontecem na escola: “Ameaças e agressões dos alunos contra professores, violência sexual entre alunos e alunas, uso de armas, consumo de drogas, roubos, furtos e assaltos, violência contra o patrimônio” (ABRAMOVAY E RUA, 2004, p. 22). Ressalto que esses acontecimentos não são privilégio do contexto nacional, mas estão globalizados. A escola pública tem se surpreendido como o fato de ser subitamente assaltada por uma população crescente de gangue de subúrbio. Os educadores não parecem distinguir simples agrupamentos da rapaziada de grupos já com funcionamento mais ostensivo, que utilizam violência. (LINHARES, 2003, p. 147). AUNESCO, no Brasil, promove, desde 1997, inúmeras pesquisas sobre temas diversos – juventude, violência e cidadania – com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas que possam, efetivamente, resolver os diversos problemas que atingem essa parcela da nossa população: • mercado de trabalho, • família, • educação, • participação social .... (ABRAMOVAY E RUA, 2004, p. 32). Na opinião de Debarbieux (apud ABRAMOVAY, 2003, p. 18-19), a violência no cotidiano das escolas está associada a três dimensões: 42 • degradação do ambiente escolar; • violência que entra na escola, pela ação das gangues, das drogas; • componente interno da escola. A partir de uma pesquisa realizada em 2001 em quatorze capitais brasileiras, Abramovay (2003, p. 73- 74) propõe que a violência seja entendida de duas formas: Violência Física Intervenção física de um indivíduo ou grupo contra a integridade de outro(s) ou de grupo(s) e também contra si mesmo, incluindo suicídio, espancamentos, roubos, assaltos, homicídios, acidentes de trânsito, agressões sexuais. Violência Simbólica São manifestações de violência simbólica: abuso de poder baseado no consentimento obrigado por meio de símbolos de autoridade, violência verbal, violência institucional – marginalidade, discriminação, estratégias e práticas de poder para fazer com que os outros se sintam inferiorizados e menosprezados. Para uma análise mais apropriada da violência no ambiente escolar, é necessário, portanto, perceber- se que ela tem várias origens, motivo pelo qual ela deve ser entendida a partir de várias perspectivas. Inicialmente, é de fácil constatação o fato de que a violência está presente em toda a nossa sociedade, não sendo um privilégio da escola. A insatisfação é sentida tanto pelos jovens como pelos membros do corpo técnico-pedagógico. Há mútuas críticas e acusações e a escola aparece, ao mesmo tempo, como causa, consequência e espelho dos problemas aos quais, muitas vezes, não consegue responder e cuja solução não se encontra ao seu alcance. (ABRAMOVAY, 2004, p. 93-94). Isso, porém, não significa que ela nada pode fazer a respeito, como se estivesse à mercê dos acontecimentos. É necessário identificar as práticas escolares que, por meio de amplo e profundo processo de segregação, fomenta, silenciosamente, a violência nos (e dos) agentes pedagógicos. Acredito que a tristeza, a apatia e a indiferença que muitos daqueles sentem nas nossas escolas revelam uma insatisfação com o que nelas vivem. Conforme Abramovay (2003, p. 78), a relação professor-aluno, o centro do processo educacional, está bastante deteriorada, desgastada, não somente na escola pública! Os jovens da pesquisa reclamaram que os professores estão afastados da sua cultura, os seus códigos culturais não são compreendidos, eles não são escutados, eles são etiquetados, fazendo com que 43 sintam haver um “(...) enorme buraco que os separa dos adultos”. Por sua vez, os professores e os membros do corpo-técnico se ressentem com a falta de respeito, ameaças e humilhações proferidas pelo corpo discente. Dessa forma, é fácil entender a razão pela qual as relações de confiança são quase inexistentes e por que é tão difícil haver diálogo. (...) [O] conhecimento do outro não quer dizer apenas que é o outro que o possui mas que meu conhecimento comporta dentro dele esse olhar do outro e, também, que o outro possui saber e essa relação que eu estabeleço sempre envolve a dimensão desiderativa, além da cognitiva. Na Escola, onde o sujeito epistêmico se relaciona com seus pares e com o educador, a socialidade vai sendo esculpida nos corpos. É nessa instituição o lugar onde se passa o saber sistematizado e, nela, um sujeito se constrói com a mediação do outro que é o grupo (no sentido lato). Nesse lugar de passagem do conhecimento (porque o conhecimento é algo que migra) também vai-se esculpindo nos sujeitos a vestidura da socialidade com seus silêncios, conflitos, lacunas, palavras, ritos. Na escola, ao operarmos com os aspectos lógicos e lingüísticos, da linguagem e do número, costumamos excluir da cena todo um campo de expressão que não envolve apenas esse modo de estruturação do pensamento. (LINHARES, 2003, p. 205). OBSERVAÇÃO Embora a escola seja, presumidamente, o local privilegiado do conhecimento na sociedade, parece que ele não é usufruído pelas pessoas que a frequentam. Esta constatação revela um profundo desconhecimento do outro, da sua realidade, da sua necessidade, dos seus sentimentos, expresso na falta de cuidado, de atenção. Diversos estudos constatam o fato de que a cultura dos educandos não é devidamente considerada pela escola, que a rejeita sistematicamente, seja ignorando-a, seja desqualificando-a. A consequência dessa atitude pedagógica é, como relatei há pouco, a impossibilidade dos alunos constituírem a sua subjetividade, com a reinterpretação da sua cultura. Até quando ela permanecerá surda, estática e insensível a tais denúncias? Existe nas escolas uma multiplicidade de vozes, de corpos e movimentos. Movimentos e corpos que se apresentam de forma diferenciada nas posturas de professores e alunos. Sem precisar dizer, é possível saber que pela “fala” do corpo a identidade de seu dono e a sua posição no contexto educativo: os que “ensinam” e os que “aprendem”. Estes últimos, crianças e jovens em geral, possuem hábitos, atitudes e comportamentos que revelam um nova cultura, em muitos casos ignorada (em alguns casos, rejeitada) pela escola. (KENSKI, 2000, p. 126). Observei, então, em um movimento de construção teórica que foi se urdindo aos poucos, que a expulsão da cultura do educando, em suas formas expressivas, poéticas e o trabalho com esta forma de conhecer que é a arte, se fazia a expensas da mutilação de dimensões vitais. O modo como as classes populares se situavam socialmente no mundo do trabalho e a forma de a escola pública funcionar como agenciadora de mão de obra fazia com que a cultura escolar fosse uma cultura do sacrifício. Já que para as classes populares trabalho é sacrifício, a escola funcionaria como um treinamento para a sujeição. (LINHARES, 2003, p. 27). REFLEXÃO 44 “De que forma desenvolver uma experiência educativa que estabeleça a relação direta com o mundo real, com o trabalho, seus fins e conseqüências para o homem, a sociedade humana e a natureza?”. (SOARES, 2000, p. 53). Para confrontar essa alienação, dentre outras coisas, é necessária uma nova compreensão da relação entre as partes e o todo, que, superando a visão mecanicista, reducionista, atomística, que enfatiza as partes, privilegie o todo, o organismo, a ecologia, instaurando, dessa forma, uma perspectiva holística, sistêmica, expressa no “pensamento sistêmico” (CAPRA, 2001, p. 33). Outro aspecto que pode contribuir para essa transformação é que a ideia de ordem estabelecida pela Física não newtoniana chegue à escola, permitindo que as relações entre professores e alunos mudem drasticamente, as quais “(...) exemplificarão menos o professor instruído que informa os alunos não instruídos, e mais um grupo de indivíduos interagindo juntos na mútua exploração de questões relevantes” (DOLL JR, 1997, p. 37). Profícuas também são as investigações sobre a satisfação que os alunos têm com o (ou no) prédio escolar. Loureiro (1999, p. 69-70) relata que as crianças das escolas pública e particular “têm diferentes formas de estruturar sua satisfação com o prédio escolar – o foco central para os dois grupos é a experiência direta com a sala de aula”. Para as primeiras, porém, a disponibilidade de biblioteca e quadra de esporte é valorizada, enquanto que para as outras, a satisfação depende da qualidade do ensino ministrado. As imagens falam por si mesmas. A “escola-jaula” está aí a nos lembrar a necessidade de superar a escola que priva da liberdade, que adestra por meios de castigo e, mais ainda, que produz o “tédio ea revolta” própria aos animais enjaulados: por um lado, a “escola-açougue”, este lugar que destrincha, que divide, que esquartela, que tortura física e mentalmente, precisa ser superado por uma escola que tenha como função social a produção da unidade e da homogeneidade. Nesse ambiente, a diferenciação, base da hierarquia educativa, é fruto da ação dos próprios sujeitos – as crianças –, observados e conduzidos pelo professor, que, é bom observar, também incorporou outras funções e qualificações na nova ordem escolar: a de psicólogo e a de analista. (FARIA FILHO, 2000, p. 79). A violência simbólica na (e da) escola, portanto, se manifesta no seu distanciamento em relação à realidade, permeada de contradições. Para romper esse isolamento, essa atitude de dar as costas aos conflitos e às demandas crescentes (atingíveis?), é preciso desenvolver uma Educação transformadora, crítica, que não tem medo de enfrentar os desafios de quem luta por uma sociedade mais justa, verdadeira e livre (GONÇALVES, 1994, p. 124). Essa também é a opinião de França (1994, p. 67), pois, diante do divórcio entre a vida e a universidade, denunciada pelos alunos, advoga a noção de que os valores educacionais devem ser repensados. Por isso, ela postula a noção de que a escola seja utilizada como “um território da contradição, onde pode surgir uma contracorrente, uma contraideologia, ou qualquer outra variação semântica”, permitindo-nos formular, assim, uma perspectiva de mudança (FRANÇA, 1994, p. 99). Ao longo da sua existência, a escola desenvolve, em virtudes de motivações diversas (políticas, religiosas, epistemológicas), as quais devem ser entendidas de forma contextualizada e numa perspectiva relacional, práticas que objetivam o disciplinamento, o controle do corpo. Rocha (2000) elaborou cuidadosa e detalhada pesquisa sobre as formas de como o exercício do controle, da vigilância na escola se transformou. Embora as estratégias, os meios, tenham se atualizado, a intenção permaneceu 45 a mesma: “disciplinar, manter, aprisionar, anestesiar, acalentar, educar” (ROCHA, 2000, p. 144). Essa mudança dos meios, que se tornaram, pelo menos no discurso, mais doces, justos, científicos, humanos e fraternos, vislumbravam, na verdade, ser “mais econômicos, mais produtivos, mais abrangentes, menos violentos (entendendo-se sempre violência como força, coação física)”. Para tanto, o aparato tecnológico é indispensável (ROCHA, 2000, p. 144-145). A pesquisadora gaúcha propõe que a escola exerce três tipos de vigilância: “repressora, disciplinadora e tecnológica” (Itálico no original). Embora, para formular tais conceitos, ela tenha se inspirado nas escolas que pesquisou, a autora declara que essa reflexão precisa ser ampliada para o cenário social mais amplo, considerando que “outros locais públicos e privados de convivência social” têm sido contemplados com medidas que visam ao controle (ROCHA, 2000, p. 145-146). No início da escolarização de massa, dadas as peculiaridades das primeiras escolas – ligadas ao clero, com rígidas regras e hierarquias a serem seguidas –, mas também o perfil do aluno a que se destinavam – poucos e nobres homens que deveriam aprender como melhor governar outros homens e que, portanto, deveriam saber exercer o controle de si e dos outros para obter de todos o máximo proveito possível (sem discórdias nem insatisfações) – tínhamos um tipo de vigilância repressora: coativa, coercitiva, que usava a força física para impedir, impor limites, regrar, regular, normalizar. (ROCHA, 2000a, p. 145) (Itálico no original). O crescimento e a diversidade da clientela, a ampliação das instâncias responsáveis pela Educação e as novas organizações socioeconômicas e culturais contribuíram para a mudança no padrão de vigilância exercido, que passou a ser menos direta: “disciplinadora (que disciplina por ‘convencimento’, explicando, argumentando, assujeitando o outro através do saber socialmente aceito, pois ir à escola dizem ser um bem universal a que todos têm direito)”. (ROCHA, 2000, p. 145) (Itálico no original). Recentemente, temos “a vigilância tecnológica (que disciplina por ‘impedimento’, que impede sem violentar, através de meios invisíveis, de alta tecnologia, ampla cobertura, grande velocidade e acumulação de informações)”. (ROCHA, 2000, p. 145) (Itálico no original). A vigilância, seja ela qual for, transforma a perspectiva que o Homem tem do espaço, pois seu acesso e uso são limitados, controlados, com a formatação de quadrículos físicos ou imaginários. A escola, também, tem seu espaço transformado, porque: (...) quanto mais organizado, distribuído, delimitado, previsto, quanto melhor determinadas suas ocupações e funções, menor será o exercício do controle externo, arbitrário, totalitário, único e unilateral. (ROCHA, 2000, p. 146). Por isso, ela assevera que a tipologia do espaço escolar reflete uma forma de exercício de vigilância: As escolas que necessitam de controles mais ostensivos constroem determinados espaços físicos (fechados, fortemente hierárquicos, complexos, delimitados). As escolas que ensinam seus alunos a ocuparem os espaços que lhes são permitidos, que lhes ensinam a tomar as melhores decisões, a viver com sabedoria, justiça, paz, fraternidade, igualdade, democracia (e todos os demais valores universais tão constantemente inculcados nesta e por esta sociedade) geralmente constroem espaços físicos onde os próprios alunos sabem o quê e quando fazer. As escolas que exercem o controle de forma anônima (identificável ou não), constroem seus espaços prevendo este tipo de vigilância, dispondo instrumentos tecnológicos em locais 46 estratégicos, dispondo móveis, utensílios, paredes, muros e cercas de outras maneiras. (ROCHA, 2000, p. 146). Conforme vimos durante esta aula, a crise educacional é complexa e requer que o professor esteja atento a inúmeros aspectos, embora, em sua grande maioria, ele pouco possa fazer. Refletir coletivamente sobre a realidade é uma contribuição importante que os profissionais da Educação devem empreender com afinco, possibilitando que as novas gerações tenham um olhar mais crítico sobre a sociedade. MULTIMÍDIA Acesse a aula online para visualizar este conteúdo LETRA DA MÚSICA ESTUDO ERRADO Estudo Errado 1Gabriel O Pensador Eu tô aqui Pra quê? Será que é pra aprender? Ou será que é pra aceitar, me acomodar e obedecer? Tô tentando passar de ano pro meu pai não me bater Sem recreio de saco cheio porque eu não fiz o dever A professora já tá de marcação porque sempre me pega Disfarçando espiando colando toda prova dos colegas E ela esfrega na minha cara um zero bem redondo E quando chega o boletim lá em casa eu me escondo Eu quero jogar botão, vídeo-game, bola de gude Mas meus pais só querem que eu "vá pra aula!" e "estude!" Então dessa vez eu vou estudar até decorar cumpádi Pra me dar bem e minha mãe deixar ficar acordado até mais tarde Ou quem sabe aumentar minha mesada Pra eu comprar mais revistinha (do Cascão?) Não. De mulher pelada A diversão é limitada e o meu pai não tem tempo pra nada E a entrada no cinema é censurada (vai pra casa pirralhada!) A rua é perigosa então eu vejo televisão 47 (Tá lá mais um corpo estendido no chão) Na hora do jornal eu desligo porque eu nem sei nem o que é inflação - Ué não te ensinaram? - Não. A maioria das matérias que eles dão eu acho inútil Em vão, pouco interessantes, eu fico pu.. (Vai pro colégio!!) Então eu fui relendo tudo até a prova começar Voltei louco pra contar: Manhê! Tirei um dez na prova Me dei bem tirei um cem e eu quero ver quem me reprova Decorei toda lição Não errei nenhuma questão Não aprendi nada de bom Mas tirei dez (boa filhão!) Quase tudo que aprendi, amanhã eu já esqueci Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi Quase tudo que aprendi, amanhã eu já esqueci Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi Decoreba: esse é o método de ensino Eles me tratamcomo ameba e assim eu num raciocino Não aprendo as causas e conseqüências só decoro os fatos Desse jeito até história fica chato Mas os velhos me disseram que o "porque" é o segredo Então quando eu num entendo nada, eu levanto o dedo Porque eu quero usar a mente pra ficar inteligente Eu sei que ainda num sou gente grande, mas eu já sou gente E sei que o estudo é uma coisa boa O problema é que sem motivação a gente enjoa O sistema bota um monte de abobrinha no programa Mas pra aprender a ser um ingonorante (...) Ah, um ignorante, por mim eu nem saía da minha cama (Ah, deixa eu dormir) Eu gosto dos professores e eu preciso de um mestre 48 Mas eu prefiro que eles me ensinem alguma coisa que preste - O que é corrupção? Pra que serve um deputado? Não me diga que o Brasil foi descoberto por acaso! Ou que a minhoca é hermafrodita Ou sobre a tênia solitária. Não me faça decorar as capitanias hereditárias!! (...) Vamos fugir dessa jaula! "Hoje eu tô feliz" (matou o presidente?) Não. A aula Matei a aula porque num dava Eu não agüentava mais E fui escutar o Pensador escondido dos meus pais Mas se eles fossem da minha idade eles entenderiam (Esse num é o valor que um aluno merecia!) Íííh... Sujô (Hein?) O inspetor! (Acabou a farra, já pra sala do coordenador!) Achei que ia ser suspenso mas era só pra conversar E me disseram que a escola era meu segundo lar E é verdade, eu aprendo muita coisa realmente Faço amigos, conheço gente, mas não quero estudar pra sempre! Então eu vou passar de ano Não tenho outra saída Mas o ideal é que a escola me prepare pra vida Discutindo e ensinando os problemas atuais E não me dando as mesmas aulas que eles deram pros meus pais Com matérias das quais eles não lembram mais nada E quando eu tiro dez é sempre a mesma palhaçada Refrão Encarem as crianças com mais seriedade Pois na escola é onde formamos nossa personalidade 49 Vocês tratam a educação como um negócio onde a ganância a exploração e a indiferença são sócios Quem devia lucrar só é prejudicado Assim cês vão criar uma geração de revoltados Tá tudo errado e eu já tou de saco cheio Agora me dá minha bola e deixa eu ir embora pro recreio... GABRIEL O PENSADOR. Estudo errado. Intérprete: Gabriel O Pensador. Ainda é só o começo. Chaos/Sony Music. 1995. Faixa 06. DICA Clique aqui (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) e veja uma série de relatos sobre violência na escola. REFERÊNCIAS ABRAMOVAY, Miriam (Org.). Escola e Violência. 2. ed. Brasília: UNESCO, UCB, 2003. ABRAMOVAY, Miriam; RUA, Maria das Graças (Orgs.). 4. ed. Violências nas Escolas. Brasília: UNESCO, 2004. ALVES, Rubem. A Alegria de ensinar. 5. ed. São Paulo: Ars Poética, 1994. ______. A Escola da Ponte (3). In: ______. A Escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir. 5. ed. Campinas: Papirus, 2003. p. 51-55. BACHELARD, Gaston. O Novo espírito científico. Tradução Juvenal Hahne Júnior. 2. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1985. BARGUIL, Paulo Meireles. Avaliação – momento de angústia ou oportunidade de crescimento pessoal? In: PASCUAL, Jesus Garcia; DIAS, Ana Maria Iorio (Orgs.). Construtivismo e Educação contemporânea. Fortaleza: Brasil Tropical, 2006. p. 145-173. ______. Há sempre algo novo! – Algumas considerações filosóficas e psicológicas sobre a avaliação educacional. Fortaleza: ABC Fortaleza, 2000. BENITO, Agustín Escolano. Tiempos y espacios para la escuela – Ensayos históricos. Madrid: Biblioteca Nueva, 2000. BRUNER, Jerome. 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São Paulo: Cortez, 2000. 51 Didática I Aula 02: Educação: crise de paradigmas Tópico 04: As teorias educacionais e contribuições para o trabalho docente É consenso a crise que permeia as escolas, não somente no Brasil, mas também em todo o mundo. VERSÃO TEXTUAL • Como deve ser ela entendida? • Estaria, também, o mundo em crise? • Afinal, que crise é essa, a perpassar a vida em quase todos os lugares do mundo, independentemente de nação, cor, sexo, idade e religião? • O que as escolas podem (se é que podem!) fazer diante dela? Nesta aula, discutiremos sobre a crise educacional, dirigindo nosso olhar para a sala de aula, em especial sobre: as teorias de aprendizagem que orientam as práticas pedagógicas; a relação professor- conhecimento-estudante; e os (des)encontros no ambiente escolar, que revelam o quanto a realidade social o influencia, mas não o determina. Crise educacional Para Hall (1973, p. 289), a crise tem três facetas – racial, urbana e educativa – as quais por estarem intimamente relacionadas, devem ser consideradas conjuntamente. Esse quadro, segundo ele, é causado pelo excessivo desenvolvimento do Homem, que produziu a dimensão cultural, sendo que a maior parte dela lhe permanece oculta. Preocupado, o autor indaga por quanto tempo pode o Homem se permitir ignorar deliberadamente esse aspecto da sua vida. Na mesma perspectiva, é a opinião de Najmanovich (2001, p. 66): A crise atual não se caracteriza só pela emergência de novos paradigmasna ciência ou pela revolução tecnológica permanente. As mudanças em nossa forma de conceber a relação humano-mundo são o “sistema nervoso central” das transformações deste final de modernidade. Alinhando-me a esses pensadores, acredito ser indispensável investigar os intricados vínculos que o Homem estabelece com o meio ambiente, ou seja, entender como ele produz cultura. Creio que essa perspectiva mais ampla é necessária para que se compreenda a dinâmica ocorrente no espaço escolar. E, quanto à crise na Educação? Uma interessante linha de investigação é se indagar sobre o funcionamento das escolas. Para tanto, exponho duas descrições: 52 Como são e tem sido as escolas? A imagem: uma casa, várias salas, crianças separadas em grupos chamadas “turmas”. Nas salas, os professores ensinam saberes. Toca uma campainha. Terminou o tempo da aula. Os professores saem. Outros entram. Começa uma nova aula. Novos saberes são ensinados. O que os professores estão fazendo? Estão cumprindo um “programa”. “Programas” é um cardápio de saberes organizados em seqüência lógica, estabelecido por uma autoridade superior invisível, que nunca está com as crianças. Os saberes do cardápio “programa” não são “respostas” às perguntas que as crianças fazem. Por isso as crianças não entendem por que têm de aprender o que lhes está sendo ensinado. (ALVES, 2003, p. 51-52). Que nos diz a memória? No silêncio da sala de aula ecoa a voz do mestre. Alunos calados escutam e copiam suas palavras. Pausadamente, o professor dita a sua versão da matéria com o estatuto de verdade absoluta. Alguns dos alunos permanecem com os olhos fixos no ambiente da sala, mas o pensamento viaja. Estão espacialmente presentes, mas mentalmente ausentes, distantes, embalados pelo som constante e monotônico da preleção. A hora e vez desses alunos nos espaços pedagógicos são restritas e definidas. Reproduzir nos exercícios, trabalhos e provas o pensamento do professor que “ensina”. Para esquecê-los depois. (KENSKI, 2000, p. 136). INSTITUTO UNIVERSIDADE VIRTUAL Descrição da Imagem: magem ilustrativa de uma criança sentada de costas pra lousa, cabisbaixa, na lousa está escrito a palavra educação, no entanto a palavra está escrita ao contrário. Inspirados nestes alertas-denúncias, que sintetizam bem o que (não) acontece na escola, os educadores não podem nos limitar a perpetuar rituais castradores e limitantes das potencialidades humanas, lamentando as dificuldades que permeiam a nossa atividade laboral. Precisamos avançar no desvelamento dos valores que orientam nosso exercício profissional, com o fito de identificar aquelas que, ao contrário do pensamento anterior, atrapalham a instauração de uma nova dinâmica social, bem como o desenvolvimento da subjetividade dos agentes pedagógicos envolvidos. 53 A Educação, independentemente da forma e do conteúdo, tem consequências para todos os que estão nela envolvidos, uma vez que habilidades diversas são socializadas, seja numa perspectiva de alienação/negação do sujeito ou numa perspectiva que possibilite a constituição como indivíduo (ou, ainda, em ambas!), motivo pelo qual ela jamais é neutra, mas tem sempre uma conotação política, num sentido mais amplo. Assim, é necessário se alargar a compreensão dos laços entre escola e sociedade, pois esses são por demais estreitos, havendo entre elas intenso e rico vínculo de influências e contribuições de toda ordem. A escola, portanto, não está a salvo das pressões e demandas sociais, de nada valendo, nesse sentido, os seus muros. Da mesma forma, não é ela uma vítima indefesa, que nada pode fazer diante dos acontecimentos, embora seu poder de transformação não seja tão grande quanto muitas vezes alguns enunciam... Ela deve descobrir o poder que tem no complexo jogo social e aproveitá-lo ao máximo. Diante dessa falta de sentido, que atinge tanto o corpo discente quanto o docente, o desafio atual é vislumbrar (e propor) opções propiciadoras de um diálogo entre as diferentes manifestações culturais, principalmente as dos alunos, que costumam ser ignoradas pela escola. Para tanto, é necessário que o Homem investigue a sua relação com a natureza, a qual é mais do que o seu lar; é o seu útero. Quanto mais o Homem se separa dela, mais ele pode se tornar consciente de si, sabendo-se um ser histórico, temporal (FONTANELLA, 1995, p. 15). Porém, ele precisa voltar, ininterruptamente, seu olhar para sua criadora, sob pena de desperdiçar a chance de aprofundar a sua capacidade de compreensão, pois somente quando ele se percebe separado da natureza, ele pode buscar a ligação, a relação, a integração com ela, a qual acontece, coetaneamente, em dois níveis: dentro e fora de si. Descrição da Imagem: Até quando o Homem continuará a francionar a sua existência em categorias estanques? Urge, pois, a busca de novos fundamentos propiciadores de uma educação que valorize o aluno, os seus conhecimentos, a sua história, os seus sonhos, a sua avaliação sobre o seu desempenho no cotidiano, não mais como realidades desunidas e quase sem relação, mas como elementos de um todo. Para tanto, é indispensável considerar que a questão curricular, porquanto o cotidiano escolar (onde o prédio é um aspecto material da maior importância) é consideravelmente influenciado por ela. 54 A recuperação da subjetividade e a valorização de uma visão integral do Homem são necessárias para que possa ocorrer uma aprendizagem significativa: (...) o único aprendizado que influencia significativamente o comportamento é o aprendizado autodescoberto, auto-apropriado. (...) Um conhecimento autodescoberto, essa verdade que foi pessoalmente apropriada e assimilada à experiência de um modo pessoal, não pode se comunicar diretamente a outra pessoa. (ROGERS, 1991, p. 254). Da mesma opinião é Illich (1977, p. 76): Na realidade, a aprendizagem é a atividade humana menos necessitada de manipulação por outros. Sua maior parte não é resultado de instrução. É, antes, resultado de participação aberta em situações significativas. A maioria das pessoas aprende melhor estando «por dentro»; mas a escola faz com que identifiquemos nosso crescimento pessoal e cognoscitivo com o refinado planejamento e manipulação. A partir da certeza de que “O acontecer é global e simultâneo. Ao passo que o verbal é sucessivo e linear...” (GAIARSA, s/d, p.13), pugno pela necessidade de se buscar, com fé e amor, uma Educação que valorize não mais somente a inteligência linguística e/ou lógico matemática. Compreendendo que o Homem é organismo extremamente complexo e misterioso, essa disciplina precisa possibilitar àquele desenvolver também (e principalmente, digo, diante do excessivo racionalismo) as demais inteligências – intrapessoal, interpessoal, musical, espacial, corporal-cinestésica e naturalística – afinal a aprendizagem acontece de modo mais consistente quando contempla as diversas maneiras como a pessoa apreende a realidade. Imagem ilustrativa INSTITUTO UNIVERSIDADE VIRTUAL Uma das relevantes contribuições da Teoria das Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner, não é a descoberta de inteligências, conforme a figura ao lado, com a ampliação das classificações das pessoas, mas exatamente a certeza de que o Homem não pode ser reduzido a um rótulo, a uma habilidade, a uma competência. Infelizmente, a substituição de paradigmas, de procedimentos, requer mais do que a mera leitura de novos postulados, uma vez que tais construtos passam por um crivo valorativo, cujas raízes estão incrustadas no íntimo do ser, alimentando-se de emoções e crenças. Tipos de Inteligências Múltiplas Musical Tipo Atributo Sinais Facilidades Aprende melhor Talento Musical 55 Tipo Atributo Sinais Facilidades Aprende melhor Talento Sensibilização e entonações, melodias, ritmos, timbres e tons. Compõe músicas, memoriza as letras e canta no ritmo. Cantar; tocar instrumentos; identificarsons, ritmos e tonalidades. Ao adicionar ritmos aos textos que lê, ao escrever as letras enquanto as escuta e criando versos e quadras sobre a matéria. Produtor, instrumenta- lista, compositor, maestro, crítico musical. Descrição da Tabela: Inteligência musical tem como atributo: Sensibilização e entonações, melodias, ritmos, timbres e tons. Os sinais: Compõe músicas, memoriza as letras e canta no ritmo. Facilidades: Cantar; tocar instrumentos; identificar sons, ritmos e tonalidades. Aprende melhor: Ao adicionar ritmos aos textos que lê, ao escrever as letras enquanto as escuta e criando versos e quadras sobre a matéria. Talento: Produtor, instrumenta-lista, compositor, maestro, crítico musical. Linguísta Tipo Atributo Sinais Facilidades Aprende melhor Talento Linguísta Domínio da linguagem, escrita e percepção de significados. Gosta de trocadilho e rimas, conta histórias coerentes. Memorizar nomes, lugares e efemérides; ler; escrever e redigir. Na leitura, sem problemas, em matemática, talvez. Então, ajude pedindo-lhe que leia uma receita e meça os ingredientes. Poeta, escritor, jornalista, político, ator, professor. Descrição da Tabela: Inteligência linguista tem como atributo: Domínio da linguagem, escrita e percepção de significados. Os sinais: Gosta de trocadilho e rimas, conta histórias coerentes. Facilidades: Memorizar nomes, lugares e efemérides; ler; escrever e redigir. Aprende melhor: Na leitura, sem problemas, em matemática, talvez. Então, ajude pedindo-lhe que leia uma receita e meça os ingredientes. Talento: Poeta, escritor, jornalista, político, ator, professor. 56 Lógico-matemática Tipo Atributo Sinais Facilidades Aprende melhor Talento Lógico- matemática Raciocínio ordenado, elaboração de conceitos, pesquisa. Estimar valores, fazer cálculos, criar métodos para o que faz. Raciocínio; fazer conta; resolver problemas e charadas. Ao classificar e categorizar tudo o que faz. Na leitura, é bom ensiná-lo a reconhecer os padrões de gramática e de síntese. Programador de computador, cientista, auditor, engenheiro. Descrição da Tabela: Inteligência Lógico-matemática tem como atributo: Raciocínio ordenado, elaboração de conceitos, pesquisa. Os sinais: Estimar valores, fazer cálculos, criar métodos para o que faz. Facilidades: Raciocínio; fazer conta; resolver problemas e charadas. Aprende melhor: Ao classificar e categorizar tudo o que faz. Na leitura, é bom ensiná-lo a reconhecer os padrões de gramática e de síntese. Talento: Programador de computador, cientista, auditor, engenheiro. Espacial Tipo Atributo Sinais Facilidades Aprende melhor Talento Espacial Boa memória visual, facilidade de reconhecer lugares. Desenha com todo tipo de material e gosta de organizar coisas. Leitura de mapa e plantas; quebra- cabeças; desenhos. Soletrando as palavras com blocos de letras, fazendo desenhos e colagens com as imagens correspondentes, comparando. Arquiteto, designer, inventor, pintor, cineasta, escultor. Descrição da Tabela: Inteligência Espacial tem como atributo: Boa memória visual, facilidade de reconhecer lugares. Os sinais: Desenha com todo tipo de material e gosta de 57 organizar coisas. Facilidades: Leitura de mapa e plantas; quebra-cabeças; desenhos. Aprende melhor: Soletrando as palavras com blocos de letras, fazendo desenhos e colagens com as imagens correspondentes, comparando. Talento: Arquiteto, designer, inventor, pintor, cineasta, escultor. Interpessoal Tipo Atributo Sinais Facilidades Aprende melhor Talento Interpessoal Perceber nos outros diferenças de ânimo e motivações. Facilidade em fazer amigos, gosto por atividades em grupo. liderar; organizar; mediar conflitos; comunicar-se. Quando pode se relacionar e se comparar com outras crianças. Sugira grupos de estudo e brincadeiras de escolinha com a turma. Professor, vendedor, terapeuta, político, líder religioso. Descrição da Tabela: Inteligência Interpessoal tem como atributo: Perceber nos outros diferenças de ânimo e motivações. Os sinais: Facilidade em fazer amigos, gosto por atividades em grupo. Facilidades: liderar; organizar; mediar conflitos; comunicar-se. Aprende melhor: Quando pode se relacionar e se comparar com outras crianças. Sugira grupos de estudo e brincadeiras de escolinha com a turma. Talento: Professor, vendedor, terapeuta, político, líder religioso. Intrapessoal Tipo Atributo Sinais Facilidades Aprende melhor Talento Intrapessoal Sensibilidade para captar o sentido de gestos e expressões. Saber expressar, com clareza, os próprios sentimentos. Estabelecer metas; reflexão; agir com intuição e originalidade. Ao estudar sozinho e relatar as próprias experiências e viagens interiores. Dá-se bem como autodidata. Poeta, conselheiro, terapeuta, filósofo, religioso. 58 Descrição da Tabela: Inteligência Intrapessoal tem como atributo: Sensibilidade para captar o sentido de gestos e expressões. Os sinais: Saber expressar, com clareza, os próprios sentimentos. Facilidades: Estabelecer metas; reflexão; agir com intuição e originalidade. Aprende melhor: Ao estudar sozinho e relatar as próprias experiências e viagens interiores. Dá-se bem como autodidata. Talento: Poeta, conselheiro, terapeuta, filósofo, religioso. Corporal Cinestésica Tipo Atributo Sinais Facilidades Aprende melhor Talento Corporal Cinestésica Capacidade de usar o corpo para se expressar e atingir metas. Coordenação motora bem desenvolvida, habilidade em esportes. Atividades físicas; expressão corporal; artesanato. Precisa se movimentar enquanto estuda. Pode dramatizar o que lê e recortar letras e números apenas com os dedos. Dançarino, atleta em qualquer modalidade, ator, artesão Descrição da Tabela: Inteligência Corporal Cinestésica tem como atributo: Capacidade de usar o corpo para se expressar e atingir metas. Os sinais: Coordenação motora bem desenvolvida, habilidade em esportes. Facilidades: Atividades físicas; expressão corporal; artesanato. Aprende melhor: Precisa se movimentar enquanto estuda. Pode dramatizar o que lê e recortar letras e números apenas com os dedos. Talento: Dançarino, atleta em qualquer modalidade, ator, artesão. Como é possível assistir, simultaneamente, a dois grandes movimentos antagônicos no que se refere à elaboração e à vivência do conhecimento? Acredito que a compreensão distinta do papel do erro pela ciência – etapa natural do processo do conhecimento – e pela escola – uma erva daninha, que precisa sempre ser erradicada, por atrapalhar o sucesso das atividades – oferece boa pista para a forma diferenciada como o cientista, o educador e o estudante valoram o conhecer, o aprender. 59 O cientista Para o cientista, a tarefa de conhecer é permeada de mistérios, ilusões, esperanças, explicações parciais (BACHELARD, 1985, p. 147). O educador Para o educador, é uma responsabilidade que deve ser executada da forma mais perfeita possível, numa rotina massacrante, sem espaços para equívocos e/ou dúvidas, sob pena de ser massacrado pelos estudantes ou pelo seu mito interno de infalibilidade. Estudante Para o estudante, enfim, é uma etapa obrigatória que precisa ser ultrapassada, mesmo que desprovida de significado para si, evitando ser ridiculizado pelo professor e/ou seus colegas. Considerando as recentes descobertas científicas reveladoras do caráter complexo e dinâmico da formação do conhecimento (MACHADO, 1995, p. 296), torna-se imperativa a busca de práticas educacionais – entendidas sempre para além das que acontecem na escola – baseadas no diálogo e na valorização da curiosidade, que recobrem a subjetividade dos autores do processode ensino- aprendizagem, propiciando o crescimento e respeito mútuos, além de favorecer o desenvolvimento da noção de totalidade. A compreensão do caráter histórico do conhecimento permite que o sujeito estabeleça com o primeiro uma relação menos tensa e angustiante, pois ele está cônscio de que a sua missão é interminável: sempre haverá algo a ser descoberto, refeito e ampliado (BARGUIL, 2000), fazendo com que o foco da sua atenção saia do produto (ele sabe nunca ser final) e se volte ao processo, permitindo-se desfrutar do privilégio que é aprender. Nesse sentido, a Educação deixa de ter um caráter meramente decorativo (no duplo sentido) e passa a contribuir no processo investigativo e exploratório do universo, bem como na constituição da subjetividade da pessoa. A Pedagogia é a reunião de vários campos de conhecimento – Filosofia, Sociologia, História, Psicologia – dentre outros. Cada um deles, de acordo com suas especificidades, contribui para a melhoria constante daquela. A força de cada uma dessas disciplinas é potencializada quando se busca criar elos entre estas, descobrindo vínculos efetivados ininterruptamente. O distanciamento entre o mundo do aluno e as práticas escolares explica, em grande parte, a apatia, o desânimo e a tristeza de aprender característicos das salas de aula, problemas que não são privilégio do Brasil. O que pode ser feito para que alunos e professores proclamem, não somente 60 com palavras, a beleza e o prazer de aprender (ALVES, 1994)? Nesse contexto de dramaticidade, a discussão sobre o currículo se revela importante e urgente. As propostas pedagógicas precisam valorizar a participação do aluno (de acordo com as suas possibilidades) em todas as etapas do processo educativo, desde a escolha dos conteúdos a serem estudados (que devem, sempre que possível, ter relação com a sua vida), passando pela multiplicidade de recursos, até a forma como a avaliação se efetivará, objetivando responder àquela antiga (mas sempre atual) indagação dos alunos sobre a importância de determinados conteúdos para a sua vida. OBSERVAÇÃO A meta educacional da Teoria de Piaget, segundo Kamii (1992): É o desenvolvimento da autonomia (moral e intelectual), em oposição à heteronomia. Defendo a ideia de que a autonomia dos autores pedagógicos seja um princípio da práxis educacional, o que só é possível com a mudança do ensino centrado no educador, o que demanda a transformação das relações pedagógicas, nas quais o ensino desenvolva, cada vez mais, a competência dos educando, permitindo-lhes assumir a responsabilidade pela sua vida.(KAMII, 1992) O presente é filho do passado, sobre o qual, costumeiramente, pouco se conhece. Pior do que isso é o fato de que nós, educadores, costumamos desdenhar da importância que a História tem na clarificação da gênese de determinada realidade. Não basta, porém, apenas constatar essa negligência, sendo imperioso diligenciar-se, com perseverança, no sentido de mapear, embora que de forma insatisfatória e incompleta no início, a disposição das variáveis que compõem um contexto social. Mais grave, ainda, é o fato de que, conforme alerta Gonçalves (1994, p. 14-15), na escola o futuro costuma ser privilegiado em detrimento do presente: “Todo o ensino caracteriza-se por constituir-se numa preparação para o futuro, esquecendo o momento existencial presente que a criança vive”. Agindo assim, ela contribui para que a alienação se aprofunde cada vez mais, tanto pela negação do presente como pelo fato de que o futuro é uma abstração, que nunca se realiza! Assim, as dimensões temporais – passado, presente e futuro – são merecedoras de uma teoria e de uma prática pedagógica que as contemplem de modo saudável, percebendo e valorizando as ligações entre elas, o que só acontece quando os agentes pedagógicos problematizam a sua vida. Só assim, creio, terá sentido se falar e pensar em amanhã... Destarte, o objetivo da interpretação deve ser a compreensão e não a explicação, uma vez que aquela, ao contrário dessa, admite a multiplicidade de visões. A narração de histórias é uma forma de permitir que cada pessoa elabore o significado do que ouve, de acordo com as suas experiências, valores e sonhos. Assim, a polissemia é o tempero permitido (e necessário) nessa prática (BRUNER, 2001, p. 92). Da mesma opinião é Doll Jr. (1997, p. 185): 61 O modo narrativo requer interpretação. Uma boa estória, uma grande estória, encoraja, desafia o leitor a interpretar, a iniciar um diálogo com o texto. Numa boa estória existe exatamente a quantidade suficiente de indeterminância para incitar o leitor ao diálogo. (DOLL JR, 1997, p. 185) Para tanto, o aluno deverá ser capaz de • analisar e comparar informação; • produzir conhecimento e expressá-lo de modo variado; • integrar conhecimento de fontes e disciplinas variadas em narrações; • elaborar perguntas para fomentar uma pesquisa produtiva; • expor as suas ideias de maneira rigorosa, criativa e convincente. Ao professor cabe a tarefa de • fomentar essas tarefas do corpo discente; • no momento avaliativo, estar apto a aceitar uma diversidade de respostas adequadas; • entender a avaliação como um processo e não como um veredicto final. Essa diversidade cultural, porém, não é aceita pela estrutura social que privilegia a padronização, a uniformidade de valores, crenças e sonhos de consumo. Para mascarar os graves conflitos sociais, que nos alertariam para a urgência da necessidade de se lutar pela transformação das relações de produção de bens, aqui entendidas no sentido amplo, somos seduzidos por várias promessas fantasiosas... Para Reimer (1983, p. 61-69), as sociedades modernas possuem quatro mitos – igualdade de oportunidades, liberdade, progresso e eficiência – os quais tentam impedir que se veja, respectivamente, a: Desigualdade imposta Uma vez que as “chances maiores são as de permanecer na base da escada do que chegar ao topo”; Crescente repressão e dominação Que, na maioria das vezes, silenciosamente permeia as relações entre o Estado e o cidadão; Falácia da melhora da qualidade de vida Uma vez que (...) estamos nos aproximando dos limites de absorção do calor pela atmosfera e de absorção de poluição pelos oceanos, os limites da capacidade do planeta de sustentar a população, os limites da paciência dos pobres em sobrevir às custas das dádivas dos ricos, os limites dos próprios ricos em suportar as peias impostas por si mesmos ou de aguentar os próprios luxos que inventaram; e Problemática humana Pode ser resolvida, desde que utilize a solução adotada nos problemas de produção, por meio de eficiente organização. 62 Descrição da Tabela Desigualdade imposta: Uma vez que as “chances maiores são as de permanecer na base da escada do que chegar ao topo”; Crescente repressão e dominação: Que, na maioria das vezes, silenciosamente permeia as relações entre o Estado e o cidadão; Falácia da melhora da qualidade de vida: Uma vez que (...) estamos nos aproximando dos limites de absorção do calor pela atmosfera e de absorção de poluição pelos oceanos, os limites da capacidade do planeta de sustentar a população, os limites da paciência dos pobres em sobrevir às custas das dádivas dos ricos, os limites dos próprios ricos em suportar as peias impostas por si mesmos ou de aguentar os próprios luxos que inventaram; e Problemática humana: Pode ser resolvida, desde que utilize a solução adotada nos problemas de produção, por meio de eficiente organização. A escola, com seus ritos, é utilizada para esconder tais abismos, uma vez que, enquanto as crianças estiverem ocupadas com diversas atividades, elas não pensarão neles. O sistema escolar, para Illich (1977, p. 37-38), repousa, também, sobre a grande ilusão (...) de que a maioria do que aprende é resultado de ensino. O ensino, é verdade, pode contribuir para determinadas espécies de aprendizagem sob certas circunstâncias.Mas a maioria das pessoas adquire a maior parte de seus conhecimentos fora da escola; na escola, apenas enquanto esta se tornou, em alguns países ricos, um lugar de confinamento durante um período sempre maior de sua vida. (ILLICH, 1977, p. 37-38) REFLEXÃO • Qual é o preço que as novas gerações pagam por esse confinamento? • Será que as vantagens superam as desvantagens? • É possível a escola desempenhar um papel diverso dessa concepção de escola-prisão? • Se sim, o que ela precisa modificar, nos mais variados aspectos (físico, simbólico...)? • Será razoável supor que a escola pode ser transformada tendo em vista as determinantes estruturais? Embora concorde com o pensador austríaco, no que concerne ao papel desempenhado pela escola na maioria das vezes, acredito, ao contrário dele, ser possível que ela possa contribuir na elucidação dos engodos culturais, motivo pelo qual não aceito a sua postulação de que, em virtude das inúmeras práticas desprovidas de significado para os seus agentes, ela é mais maléfica do que benéfica, devendo, por isso, ser fechada. Snyders (1988, p. 23) também admitia que Há formas de cultura que são adquiridas fora da escola, fora de toda autoformação metódica e teorizada, que não são o fruto do trabalho do esforço, nem de nenhum plano: nascem da 63 experiência direta da vida, nós a absorvemos sem perceber; vamos em direção a elas seguindo a inclinação da curiosidade e dos desejos; eis o que chamarei de cultura primeira. (SNYDERS, 1988, p. 23) Conforme o mesmo autor, a cultura elaborada, que circula (ou que deveria circular) na escola, permite que os valores da cultura primeira sejam vividos com plenitude, fomentando, ainda, a reflexão sobre a relação entre elas, permeada de continuidade e ruptura (SNYDERS, 1988, p. 24). MULTIMÍDIA Acesse a aula online para visualizar este conteúdo Link [3] LETRA DA MÚSICA OUTRO TIJOLO NO MURO (ANOTHER BRICK IN THE WALL – PART 2) Outro Tijolo no Muro Rogers Waters Nós não precisamos de nenhuma educação Nós não precisamos de nenhum controle de pensamento De sarcasmo sombrio na sala de aula Professores deixem as crianças em paz Ei, professores, deixem as crianças em paz! De qualquer maneira, é apenas mais um tijolo no muro De qualquer maneira, você é apenas mais um tijolo no muro “Errado, faça de novo!” “Se você não comer carne, não terá pudim. Como você espera ter pudim se você ainda não comeu a carne?” “Você. Sim, você atrás do bicicletário, fique parado garoto!” Traduzido do original Another Brick in the Wall – Part 2 [4] Afinal, qual é o papel que a escola desempenha e, ainda, pode desempenhar em virtude das circunstâncias? Se é verdade que a escola costuma ser utilizada para reproduzir uma cultura, de formatar corpos para a produção, também é verossímil que ela pode desempenhar um papel revolucionário, preparando os alunos para lidar com um mundo em transformação, embora seja necessário se indagar como decidiremos esses conteúdos e práticas, em virtude da transitoriedade das demandas (BRUNER, 2001, p. vii). 64 INSTITUTO UNIVERSIDADE VIRTUAL Essa abertura da escola para a vida não deve ocorrer de modo que ela perca a sua especificidade, o quinhão que lhe pertence, mas exatamente o contrário, permitir que ela seja enriquecida. A escola, na opinião de Snyders (1988, p. 274), corre dois riscos: continuar fechada ou assimilar acriticamente o mundo. O desafio é conseguir se transformar, remontando às origens da vida e da especificidade, elaborando uma síntese particular, fonte de uma alegria original. Não bastassem todas essas questões filosóficas, a escola é invadida pelos computadores e outros aparatos tecnológicos, os quais, por proporcionarem diversas maravilhas, nos fazem, na maioria das vezes, esquecer de indagar sobre esse acontecimento, o qual, acredito, de modo geral, favorece apenas uma mudança (superficial) das práticas e do ambiente escolares, perpetuando sua antiga crença de que a aprendizagem é um ato mecânico, prescindindo, assim, de motivação, interesse e curiosidade! Para Benito (2000, p. 43), a tecnologia modifica o universo da Educação, contemplando não apenas o cenário material onde esta se realiza, mas, também, a ecologia da aula, as interações dos atores envolvidos no processo pedagógico, o papel desempenhado pelos professores, os modelos de comunicação e os mecanismos de avaliação e controle. Essas transformações, ocorrentes em espaços e tempos convencionais, proporcionam mudanças das teorias e das práticas didáticas, levando, provavelmente, a escola a se conectar a um espaço e um tempo em movimento. A Educação, atualmente, é marcada por três grandes temas, (NAJMANOVICH, 2001, p. 97-98): Tema I A compreensão de que ela não se encerra com um diploma, devendo, portanto, ser permanente. Assim, ela precisa ser entendida juntamente com formação e capacitação, numa rede de elaboração e socialização cognitiva. Tema II Uma nova concepção epistemológica do conhecimento propicia e fomenta uma revolução na produção, divulgação e avaliação do saber. Tema III As novas tecnologias de informação e comunicação contribuem para que as formas utilizadas pela Humanidade para interagir sejam profundamente modificadas. Segundo Bruner (2001, p. 25), a mudança no mundo contemporâneo é a norma, motivo pelo qual, para que a educação desenvolvida na escola seja eficaz, ela deve possibilitar que os alunos corram riscos, 65 exercitem sua flexibilidade cultural. Para tanto, ela deve abandonar os ritos impedientes de os sujeitos ampliarem sua capacidade interpretativa, condição necessária para se adaptar aos novos tempos. O que significam, porém, esses "novos tempos"? Quais são as esperanças e os temores que são trazidos por esses ventos? Para responder a essas indagações, é necessário voltar um pouco (ou muito...) no espaço- tempo e compreender como surgiu e se desenvolveu o "velho tempo"... Afinal, a visão crítica sobre o passado possibilita um prisma (e uma atitude) menos arrogante no presente e mais esperançoso e cuidadoso para o futuro. Esse é o desafio sempre renovado e atual. No próximo tópico, será analisada a relação entre as teorias de aprendizagem e as metodologias de ensino. OLHANDO DE PERTO Selecione o material para saber mais sobre: A Teoria Inteligências múltiplas e suas implicações para a Educação [5] Mudança de paradigmas (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) FÓRUM 1 Tomando como referência o que foi abordado, discuta com os colegas o tema: “crise educacional”. 66 Didática I Aula 02: Educação: crise de paradigmas Tópico 05: Relação entre as teorias de aprendizagem e as práticas educacionais Neste tópico, aprofundaremos o entendimento da relação entre as teorias de aprendizagem e as práticas educacionais. Durante séculos, o processo de aprendizagem foi entendido como consequência “natural” do processo de ensino (daí a expressão processo ensino-aprendizagem). As revelações da neurociência permitem que os educadores compreendam melhor como as pessoas aprendem, permitindo-os repensarem as suas estratégias de ensino. Sobre o Ensino VERSÃO TEXTUAL Fonte [6] Descrição da Imagem: Desenho ilustrativo de um professor dando aula Depois um professor disse, Fala-nos do Ensino. E ele [o Profeta] respondeu: Ninguém vos poderá revelar nada que já não esteja meio adormecido na aurora do vosso conhecimento. O professor que caminha na sombra do templo, entre os seus discípulos, não dá a sua sabedoria, mas antes a sua fé e amor. Se for realmente sábio, não vos convida a entrar na casa da sua sabedoria, mas antes vos conduz ao limiar do vosso próprio espírito. O astrônomo pode falar-vos do seu entendimento do espaço, mas não vos pode dar o seu entendimento. 67 O músico pode cantar-vos o ritmo do espaço, mas não vos pode dar o ouvido que faz parar o ritmo, ou a voz que dele faz eco. E aquele que é versado na ciência dos números, pode falar-vosde pesos e medidas, mas não pode levar-vos até lá. Pois a visão de um homem não empresta as suas asas a outro homem. E, mesmo que cada um de vós esteja sozinho no conhecimento de Deus, também cada um de vós deve estar sozinho no seu conhecimento de Deus e na sua compreensão da Terra. Fonte: (GIBRAN, 1970, p. 53-54) Na disciplina Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem na Adolescência, vocês estudaram sobre as teorias de aprendizagem, motivo pelo qual faremos, apenas, uma breve revisão sobre as ideias de Piaget e Vygotsky. A Educação no século XX foi palco de grandes debates, notadamente a partir das pesquisas de Piaget e Vygotsky, as quais propiciaram o questionamento do que vinha sendo até então. É interessante perceber que ambos não eram educadores, motivo pelo qual suas descobertas devem ser estudadas com muito cuidado, de modo a evitar que as novas práticas supostamente nelas inspiradas não as contradigam. Breve revisão de Piaget e Vygostsky Jean Piaget Jean William Fritz Piaget (1896-1980), nasceu em Neuchâtel - Suiça. Foi um biólogo, psicólogo e epistemólogo suíço, considerado um dos mais importantes pensadores do século XX. 68 [7] Fonte [8] Descrição da Imagem: Foto em primeiro plano e em preto e branco de Jean Piaget. Ele tem os cabelos brancos e penteados para trás. Usa óculos de armações redondas e pretas. Jean Piaget, após concluir o doutorado em Ciências Naturais, trabalhou com Èdouard Claparède no então recém-inaugurado Instituto de Ciências Educativas Jean Jacques-Rousseau, aplicando testes de inteligência para crianças. Embora contar as respostas certas e erradas fosse tarefa repetitiva, ele buscou compreender os motivos que levavam os respondentes a escolher determinados itens e não outros. Portanto, a pesquisa psicogenética iniciada por Piaget objetivava deslindar a elaboração do conhecimento pelo sujeito, o qual, no seu entendimento, é um organismo ativo em constante interação com o meio, que tenciona estabelecer com esse um relação de equilíbrio, utilizando-se, para tanto, de operações mentais. Segundo Piaget (1991), as estratégias básicas são: A assimilação Esforço do indivíduo para compreender o mundo – físico, cultural, ... – a partir de suas estruturas cognitivas. A acomodação Mudança que ocorre nas suas estruturas em virtude da complexidade da realidade. Considerando que o sujeito está sempre incrementando a sua adaptação ao ambiente, os esquemas mentais (as estruturas) são transitórios, daí ele nomear esse processo de equilibração sucessiva: equilíbrio-desequilíbrio-reequilibração. O Epistemólogo suíço postula a ideia de que toda pessoa desenvolve suas estruturas cognitivas de acordo com uma sequência linear, mediante de sucessivos estádios: sensório-motor, pré-operatório, operatório concreto e operatório formal. As idades indicadas não são marcos fixos, obedecidos por todos os seres, mas servem como referência para compreender o desenvolvimento da mente humana. 69 ESTÁDIO SENSÓRIO-MOTOR O estádio sensório-motor – do nascimento aos dois anos de vida – é marcado pelas ações sensoriais e motoras, as quais possibilitam intensas transformações quantitativas e qualitativas na mente. No início, os reflexos automáticos – sugar, chorar, agarrar... – compõem a grande maioria das ações do bebê, as quais lhe permitem, em seguida, desenvolver os primeiros esquemas sensório- motores, ampliando exponencialmente as suas possibilidades de exploração e entendimento do espaço circundante. Por meio de imitações e situações criadas a partir do faz de conta, ela torna-se capaz de manipular símbolos. Para Piaget, a maior limitação da criança nessa fase é o egocentrismo, uma vez que ela é incapaz de imaginar, de entender a realidade a partir de outro ponto de vista que não seja o seu. ESTÁDIO PRÉ-OPERATÓRIO Estudos posteriores sobre o egocentrismo autorizaram os cientistas a afirmar que a capacidade de se colocar no lugar do outro não é mera questão cognitiva, mas possui forte carga emocional. A dificuldade de descentrar, de reconhecer outras leituras, explicações do mundo, elaboradas por outros olhos e mentes, não é exclusividade das crianças, uma vez que o grande desafio é utilizar a flexibilidade das estruturas cognitivas e não simplesmente tê-las. Rogers (1991, p. 255) já alertara para o fato de que o diferente, o não eu, não é uma ameaça à existência das pessoas, mas uma fonte de crescimento, por isso anota: Julgo que uma das melhores maneiras, mas das mais difíceis, para mim de aprender é abandonar minhas defesas, pelo menos temporariamente, e tentar compreender como é que a outra pessoa encara e sente a sua própria experiência. (...) uma outra forma de aprender é confessar as minhas próprias dúvidas, procurar esclarecer os meus enigmas, a fim de compreender melhor o significado real da minha experiência. ROGERS,1991, p. 255) ESTÁDIO OPERATÓRIO CONCRETO O estádio operatório concreto – dos sete aos catorze anos – caracteriza-se pela reversibilidade, que a ele enseja visualizar uma ação mental nos dois sentidos: indo e voltando. Essa flexibilidade também se manifesta na capacidade da criança de prestar atenção, quando diante de um problema, em mais de uma característica (um aspecto, uma dimensão) de um objeto, conforme atestam os testes de conservação de número, massa e líquido, elaborados por Piaget, superando o comportamento da fase anterior em que se fixava em apenas um deles. 70 Há outras importantes conquistas: A seriação Capacidade de classificar objetos, resultado da constituição do conceito de transitividade, quando objetos são comparados de acordo com alguma qualidade (tamanho, peso ...) A inclusão de classes Capacidade de relacionar a parte com o todo, quando ela compreende que há uma hierarquia entre diferentes categorias, as quais podem ser agrupadas de inúmeras maneiras. Descrição da Tabela: A seriação: Capacidade de classificar objetos, resultado da constituição do conceito de transitividade, quando objetos são comparados de acordo com alguma qualidade (tamanho, peso ...) A inclusão de classes: Capacidade de relacionar a parte com o todo, quando ela compreende que há uma hierarquia entre diferentes categorias, as quais podem ser agrupadas de inúmeras maneiras. ESTÁDIO OPERATÓRIO FORMAL Quando alcança o estádio operatório formal – dos 14 anos em diante – o indivíduo é capaz de pensar de forma muito mais versátil e flexível do que no estádio anterior, como atesta o desenvolvimento da capacidade de pensar em problemas hipotéticos e ideias, ampliando a manipulação mental para além do mundo concreto. Ele, também, começa a empreender uma busca sistemática de soluções, mediante a consideração de inúmeras possibilidades. Lev Semenovich Vygotsky 71 Fonte [9] Descrição da Imagem: Foto em primeiro plano e em preto e branco de Lev Vygotsky. Cabelos curtos e bem pretos, rosto comprido, nariz afilado. Aparenta uns 30 anos. Veste um terno escuro, camisa branca e gravata. Lev Semenovich Vygotsky (1896 - 1934), nasceu em Orsha, Bielorrússia Foi um psicólogo, proponente da Psicologia cultural- histórica. Pensador importante em sua área e época, foi pioneiro no conceito de que o desenvolvimento intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais e condições de vida. O caráter processual do conhecimento é fortemente defendido pela Teoria Sociointeracionista, de Lev Semenovich Vygotsky, conhecida como histórico-cultural ou sociohistórica, que enfatiza a importância do meio social no desenvolvimento das estruturas psicológicas superiores, uma vez que “(...) o aprendizado humano pressupõe uma natureza social específica e um processo através do qual as crianças penetram na vida intelectual daquelas que as cercam”. (VYGOTSKY, 1991, p. 99). (itálico no original). Nos princípios do século passado,os psicólogos comportamentalistas (Pavlov e Watson) afirmavam que o comportamento do Homem assemelhava-se ao do animal, que funciona num esquema de estímulo- resposta. Levantando-se contra esses, os gestaltistas (Wertheimer, Kohler, Koffka e Lewin) defendiam a ideia de que as funções psicológicas superiores – pensamento, linguagem e comportamento volitivo – não se estruturavam da mesma forma que as simples, resultado da maturação da base instintiva. Vygotsky (1991, p. 33), influenciado pelo materialismo dialético de Marx e Engels, advogava que o contexto social, que é histórico, exerce grande importância no desenvolvimento das funções superiores humanas: Desde os primeiros dias do desenvolvimento da criança, suas atividades adquirem um significado próprio num sistema de comportamento social e, sendo dirigidas a objetos definidos, são refratadas através do prisma do ambiente da criança. O caminho do objeto até a criança e desta até o objeto passa através de outra pessoa. Essa estrutura humana complexa é 72 o produto de um processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas ligações entre história individual e história social. Para Vygotsky (1991, p. 95/97), cada pessoa tem dois níveis de desenvolvimento mental: O Real Revela as funções cognitivas que já amadureceram, caracterizando-o retrospectivamente. O Proximal Revala as funções que ainda não amadureceram, que estão em maturação, caracterizando-o prospectivamente. Metaforicamente, enquanto o primeiro é o fruto, o segundo é a flor do desenvolvimento mental. No entendimento desse pesquisador bielo-russo, o desenvolvimento da fala e da inteligência prática ocorre simultaneamente. Para ele, a linguagem, durante a vida humana, tem duas funções: Descrever (Acompanhando a ação) Planejar (Precedendo a ação) Descrição da Tabela: Descrever: (Acompanhando a ação) Planejar:(Precedendo a ação) A segunda função (planejar) só ocorre no desenvolvimento humano após alguns anos do nascimento – e permite duas formas de comunicação para cada pessoa: A linguagem, portanto, permite que a noção de espaço seja (continuamente) refeita, revelando novas dimensões, pois a pessoa “(...) começa a perceber o mundo não somente através dos olhos, mas também através da fala” (VYGOTSKY, 1991, p. 36). O mundo é visto (e compreendido) pelo homem não somente pelas cores e formas, mas também pelos sentidos e significados (VYGOTSKY, 1991, p. 37), os quais são sempre reelaborados, influenciando na forma como ele se relaciona com o mundo. A cultura, que reúne as produções individuais e coletivas, é um conjunto de signos, os quais permitem o incremento da capacidade do Homem de se 73 relacionar com o mundo nas suas diversas formas. Muitas vezes, os profissionais da Educação desconhecem o fato de que a cultura é um signo, que para ter sentido para o sujeito precisa ser manipulado, afetiva e cognitivamente, permitindo, assim, que ele desfrute da beleza e suavidade do seu cotidiano. Nessa perspectiva, a natureza não é inerte à ação do ser humano, mas transforma-se e demanda transformações na forma como o homem se relaciona consigo mesmo, com o seu semelhante e com o meio ambiente. A linguagem utilizada por ela para expressar sua mensagem é silenciosa, mas nem por isso pouco compreensível, conforme atestam os crescentes desastres naturais em todo o Planeta. Síntese de algumas teorias de aprendizagem - Extraído de Dias (2008) BEHAVIORISMO Centrada apenas nos “comportamentos objetivamente observáveis”, negligenciando as atividades mentais. A aprendizagem é simplesmente definida como a aquisição de um novo comportamento. Princípios habituação, isto é, a diminuição da tendência para responder aos estímulos que, após uma exposição repetida, se tornaram familiares; o “condicionamento” é um processo universal de aprendizagem: condicionamento clássico, condicionamento instrumental (operante). Críticas a) não considera algumas capacidades intelectuais; b) não explica alguns tipos de aprendizagem; c) não explica alguns dados conhecidos de adaptação. Descrição da Tabela: Princípios: habituação, isto é, a diminuição da tendência para responder aos estímulos que, após uma exposição repetida, se tornaram familiares; o “condicionamento” é um processo universal de aprendizagem: condicionamento clássico, condicionamento instrumental (operante). Críticas :a) não considera algumas capacidades intelectuais; b) não explica alguns tipos de aprendizagem; c) não explica alguns dados conhecidos de adaptação. CONSTRUTIVISMO 74 Parte do pressuposto de que todos nós construímos nossa concepção do mundo em que vivemos a partir da reflexão sobre as próprias experiências. Cada um de nós utiliza “regras” e “modelos mentais” próprios (que geramos no processo de reflexão sobre a nossa experiência pessoal), consistindo a aprendizagem no ajustamento desses “modelos”, “acomodando”, “adaptando” as novas experiências... Princípios 1) a aprendizagem é busca do significado das coisas, por isso deve começar pelos acontecimentos em que os alunos estão envolvidos e cujo significado procuram construir...; 2) a construção do significado requer não só a compreensão da “globalidade” / totalidade, como das “partes” que a constituem e a integram num “contexto”; 3) para se poder ensinar bem é necessário conhecer os modelos mentais que os alunos utilizam e os pressupostos que suportam esses modelos; 4) aprender é construir seu próprio significado e não encontrar as “respostas certas” dadas por alguém. Descrição da Tabela: Princípios: 1) a aprendizagem é busca do significado das coisas, por isso deve começar pelos acontecimentos em que os alunos estão envolvidos e cujo significado procuram construir...; 2) a construção do significado requer não só a compreensão da “globalidade” / totalidade, como das “partes” que a constituem e a integram num “contexto”; 3) para se poder ensinar bem é necessário conhecer os modelos mentais que os alunos utilizam e os pressupostos que suportam esses modelos; 4) aprender é construir seu próprio significado e não encontrar as “respostas certas” dadas por alguém. A PERSPECTIVA DESENVOLVIMENTISTA DE PIAGET O ser humano, no seu desenvolvimento, constrói estruturas cognitivas sofisticadas – que vão dos reflexos do recém-nascido até às complexas atividades mentais do adulto. A estrutura cognitiva é um “mapa” mental interno, um “esquema” ou uma “rede” de conceitos construídos pelo indivíduo para compreender e responder às experiências dentro do seu meio envolvente. Princípios: quatro estágios de desenvolvimento e um conjunto de processos através dos quais o ser humano progride: * Sensório-Motor conceito de permanência do objeto; esquemas sensório- motores coordenados; imitações até chegar a representações mentais complexas. * Pré-Operatórios 75 pensamento representativo, mas carente de operações mentais (ordenação e organização). * Operações Concretas conceptualização e criação de “estruturas lógicas” para a explicação de experiências, sem abstração. * Operações Formais raciocínio abstrato, com hipóteses possíveis e capacidade de pensar cientificamente. Descrição da Tabela: Sensório-Motor: conceito de permanência do objeto; esquemas sensório-motores coordenados; imitações até chegar a representações mentais complexas. Pré-Operatórios pensamento representativo, mas carente de operações mentais (ordenação e organização). Operações Concretas:conceptualização e criação de “estruturas lógicas” para a explicação de experiências, sem abstração. Operações Formais: raciocínio abstrato, com hipóteses possíveis e capacidade de pensar cientificamente. O SOCIOINTERACIONISMO DE VYGOSTKY O desenvolvimento do indivíduo é resultado de um processo sócio-histórico, enfatizando o papel da linguagem e da aprendizagem nesse desenvolvimento. A aquisição de conhecimentos se dá pela interação do sujeito com o meio –questão central da teoria. Destaque para a formação de conceitos, que remetem às relações entre pensamento e linguagem no processo de construção de significados pelos indivíduos, ao processo de internalização e ao papel da escola na transmissão de conhecimento, que é de natureza diferente daqueles aprendidos na vida cotidiana. A formação das funções psíquicas superiores é resultado de internalização mediada pela cultura. Assim, a interação social e o instrumento linguístico são decisivos para o desenvolvimento, que tem, pelo menos, dois níveis: real, já adquirido ou formado, que determina o que o ser humano é capaz de fazer por si próprio, e potencial, ou seja, a capacidade de aprender com outra pessoa. A aprendizagem interage com o desenvolvimento, produzindo abertura nas zonas de desenvolvimento proximal (distância entre aquilo que o ser humano faz sozinho e o que é capaz de fazer com a intervenção/interação de outro; o desenvolvimento cognitivo é produzido pelo processo de internalização da interação social com materiais fornecidos pela cultura, num processo que se constrói de fora para dentro, a partir de uma mediação). Os problemas de aprendizagem revelam, na grande maioria das vezes, problemas de ensino (de didática), em virtude de o professor acreditar que o domínio de conteúdos e de certas técnicas é suficiente 76 para garantir a aprendizagem dos estudantes. Nesta concepção, crê-se que o conhecimento pode ser transmitido. Conforme vimos, Vygotsky, no início do século passado, diferenciou signo de significado: Signo O signo é de domínio social (por exemplo, a escrita dos algarismos) e pode ser socializado. Significado O significado é construído pelos sujeitos, num processo de mediação social, no qual a atividade do sujeito é fundamental. De modo geral, infelizmente, os educadores ignoram este fato e continuam a utilizar expressões que explicitam sua compreensão equivocada sobre o processo de aprendizagem (e, por conseguinte, também do de ensino) – “passar o conteúdo”, “transmitir a matéria” ... – perpetuando e aprofundando o fracasso escolar. Outros teóricos têm contribuído para clarear a compreensão quando ao processo de aprendizagem. Oportuno, neste sentido, apresentar, mesmo que de forma sucinta, a Teoria da Aprendizagem Significativa de Ausubel (o artigo sobre essa teoria se encontra na seção “Parada Obrigatória” desta aula). Na próxima aula, será analisada a relação professor-estudante. DICA Quer aprender mais sobre algo? Carrossel dos Sentidos (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) Inserção da Neurobiologia na Educação (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) Linguagem e aprendizagem significativa (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) PARADA OBRIGATÓRIA Leia algum desses artigos para aprofundar seus conhecimentos: Evolução dos conceitos sobre o cérebro e o processo de aprendizagem (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.). Teoria da aprendizagem significativa segundo Ausubel (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.). FÓRUM 2 77 Após leitura e estudo, argumente com seus colegas e tutor sobre a relação entre as teorias de aprendizagem e as práticas educacionais. ATIVIDADE DE PORTFÓLIO Descreva os principais pontos das teorias de Piaget e Vygotsky sobre educação. (mínimo de 25 linhas) Fontes das Imagens 1 - http://rubemalves.wordpress.com/2007/10/03/escola-e-sofrimento/ 2 - https://zahar.com.br/sites/default/files/styles/thumb-livros/public/img_colabora/Foucault.jpg?itok=zRs7gdYp 3 - https://www.youtube.com/watch?v=HrxX9TBj2zY 4 - http://www.pink-floyd-lyrics.com/html/another-brick-2-wall.html 5 - http://www.homemdemello.com.br/psicologia/intelmult.html 6 - http://2.bp.blogspot.com/_u5T1VKWyw1g/TEMqoAfcHZI/AAAAAAAABS4/qFZ90DIYbeo/s1600/Method_Paulo_Freire.jpg 7 - http://1.bp.blogspot.com/-YYH6Yo_baEM/UCOTTCpdN4I/AAAAAAAAhHo/WeRtL7WA0pQ/s1600/JeanPiaget.jpg 8 - http://1.bp.blogspot.com/-YYH6Yo_baEM/UCOTTCpdN4I/AAAAAAAAhHo/WeRtL7WA0pQ/s1600/JeanPiaget.jpg 9 - http://1.bp.blogspot.com/-g7Rp7esSZT4/TsWmAtx_GpI/AAAAAAAADV8/jUsSlDPko-c/s400/vygotsky.jpg 78 Didática I Aula 03: Organização do Trabalho Docente Tópico 01: Interdisciplinaridade e Transposição Didática Nesta aula, refletiremos sobre a organização do trabalho docente, contemplando os seguintes aspectos: interdisciplinaridade, transposição didática, inovações pedagógicas e planejamento. Interdisciplinaridade A missão da escola é ensinar. Essa tarefa, todavia, não é uma receita que possa ser aplicada igualmente em quaisquer tempo e espaço. Para que ela alcance o seu intento, é necessário que os profissionais que nela laboram se indaguem. VERSÃO TEXTUAL • O que ensinar? • Como ensinar? • Por que ensinar? • Com que ensinar? Embora essas perguntas façam parte de uma tarefa epistemológica global, esforço-me para responder à primeira delas, que contempla o currículo. Currículo: Entendido como o conjunto de saberes e valores que são socializados, mediante várias atividades, ao corpo discente. Descrição: Currículo: Entendido como o conjunto de saberes e valores que são socializados, mediante várias atividades, ao corpo discente. A crítica dos conteúdos lecionados revela-se cada vez mais premente, haja vista que eles não são naturais, mas que contemplam uma visão de Homem, de sociedade, de natureza, de cultura, ensejando (ou não!) o desenvolvimento da individuação dos atores pedagógicos em prejuízo da sua alienação. É como afirma Costa: “O currículo escolar é um dos mecanismos que compõem o caminho que nos torna o que somos”. (COSTA, 1999, p. 38) 79 O surgimento das primeiras instituições de ensino atende a uma necessidade de socializar uma série de conhecimentos (currículo) que não eram disponíveis na convivência. Esses saberes eram escolhidos pela autoridade que detinha o poder. A atual formatação do currículo foi forjada no final do século XVI e início do século XVII, motivo pelo qual, para entendê-lo, é preciso “resgatar práticas esquecidas, documentos obscuros, discursos já silenciados”, com o fito de compreender os seus pressupostos ao longo do tempo (VEIGA-NETO, 1999, p. 101). No Ocidente, durante séculos, a Igreja Católica teve a primazia na divulgação da explicação e finalidade da vida, influenciando o nosso presente e futuro, livrando uma parcela significativa da humanidade da angústia da incerteza. Esse poder eclesial foi tremendamente abalado com as descobertas e explicações de Galileu, as quais possibilitaram uma mudança na concepção de mundo, transferindo para a Ciência o poder antes usufruído pela Igreja. Não se pode, todavia, concluir que houve uma libertação do Homem, porquanto o que, efetivamente, ocorreu foi uma mera mudança de seara (da eclesial para a científica), pois ele continuou à mercê das verdades divulgadas por outrem. Para Galileu, o mundo é um livro aberto... escrito em linguagem geométrica, ou seja, somente aquilo que pode ser reduzido à formula, à expressão aritmética, à quantificação, é conhecimento. O que não se enquadra nessas determinações não é digno de adentrar o prestigioso império da razão: O programa de Galileu oferece-nos um mundo morto: extinguem-se a visão, o som, o sabor, o tato e o olfato, e junto com eles vão-se também as sensibilidades estética e ética, os valores, a qualidade, a alma, a consciência, o espírito. A experiência como tal é expulsa do domínio do discurso científico. É improvável que algo tenha mudado mais o mundo nos últimos quatrocentos anos do que o audacioso programa de Galileu. Tivemos de destruir o mundo em teoria antes que pudéssemos destruí-lo na prática. (R. D. LAING apud CAPRA, 2001, p. 34). A falta dos sentidos na interpretação (e degustação) do mundo pelo Homem explica a falta de sentido que o atormenta, a despeito dos inúmeros avanços que o cercam, mas que não acalentam as suas ânsias (talvez,até as tornem mais profundas!). Ainda sob essa manta galileana, desenvolveu-se a crença de que o conhecimento (produção e socialização) e o cientista são neutros, pois o que distingue uma pessoa das demais é exatamente aquilo que é desprezado: os valores, as crenças, os sentimentos e o compromisso social. Isso não é tudo! Para conhecer o mundo, Descartes criou o método do pensamento analítico, que defende a quebra dos fenômenos complexos em pedaços pequenos, de modo que as propriedades das partes expliquem o comportamento do todo. Para ele, a natureza tinha dois domínios independentes: a mente, e a matéria. E mais, o universo material é uma máquina, que para ser compreendida precisa ser analisada em suas diminutas partes (CAPRA, 2001, p. 34-35). 80 Na década de 1980, ocorreu interessante debate sobre a disciplinaridade do currículo, uma vez que ela não permitia a compreensão total de um fenômeno, mas apenas de uma parte do todo. Ora, isso não é um acidente, um desvio, mas o fruto mais legítimo da Ciência Moderna, que fraciona a realidade, sob a promessa de melhor entendê-la. (...) as disciplinas científicas são constituídas por discursos especializados e delimitam um determinado território diretamente associado aos mecanismos institucionais da comunidade científica em seu processo de produção do conhecimento. Nesse sentido, as disciplinas têm seu próprio campo intelectual de textos, práticas, regras de ingresso, exames, títulos para o exercício profissional, bem como de distribuição de prêmios e sanções (BERNSTEIN, 1998). É por intermédio de um mecanismo disciplinar que as ciências se organizam coletivamente, definem espaços de poder, de alocação de recursos e de reprodução dos métodos e princípios de construção do conhecimento. (LOPES, 2000, p. 156). A adoção, por parte da escola, dessa visão mecanicista e mensurada da realidade foi levada às últimas consequências, com a adoção de currículos que reservavam ao professor a missão de conduzir o estudante a alcançar a aprendizagem esperada, de acordo com um roteiro (objetivos e planejamento) elaborado por aquele, privilegiando a linearidade: uma tarefa depois da outra, sem lacunas e vazios. No currículo disciplinar tudo pode ser controlado: o que o estudante aprende, como aprende, com que velocidade o processo acontece e assim por diante. Tudo pode ser avaliado: o desempenho do estudante, a ‘produtividade’ do professor, a eficácia dos materiais didáticos etc. Da mesma forma, todo o processo pode ser metrificado e o desempenho do estudante traduzido numa nota, às vezes com requintes de fragmentação, incorporados no número de casas decimais. (GALLO, 2000, p. 169). Conhecer, nessa perspectiva, é simplesmente descobrir um mundo preexistente, determinado, expresso num sistema fechado, mediante o uso da razão, e não criar uma interpretação pessoal, com os sentimentos e as experiências, de uma realidade em constante mudança, indeterminado, representado por um sistema aberto (DOLL JR., 1997, p. 48). Essa lógica é maximizada com os princípios formulados por Tyler: i) Que propósitos educacionais as escolas devem tentar atingir?; ii) Que experiências educacionais podem ser proporcionadas para tornar mais provável que esses propósitos sejam atingidos?; iii) Como essas experiências educacionais podem ser efetivamente organizadas?; 81 iv) Como podemos determinar se esses propósitos estão sendo atingidos? (DOLL JR., 1997, p. 68) Para atingir os objetivos almejados, as experiências devem ser cuidadosamente selecionadas e organizadas, assim como a avaliação que verifica se aqueles foram contemplados. Dessa forma, os objetivos estão presentes em todo o processo e não somente no início (DOLL JR., 1997, p. 69). O método analítico, sobre o qual se desenvolve a disciplinaridade, teve os primeiros abalos quando algumas verdades científicas começaram a ser desmontadas. Na Física, a estabilidade do universo é substituída por noções como indeterminação, incerteza e relatividade, as quais caracterizam a vida. Sobre a disciplinaridade, Crema (1993, p. 132) declara que: (...) o reducionismo e a insuficiência desse enfoque suscitaram inteligentes alternativas reparadoras, como as abordagens multi, pluri e interdisciplinar. Como os termos indicam, entretanto, sempre ainda na órbita disciplinar: uma produtiva e ampliada dialogicidade entre os muitos discursos e enfoques do mesmo racionalismo científico. A interdisciplinaridade, do ponto de vista epistemológico, “aponta para a possibilidade de produção de saberes em grupos formados por especialistas de diferentes áreas”, enquanto que, na seara pedagógica, ela “indica um trabalho de equipe, no qual docentes de diferentes áreas planejam ações conjuntas sobre um determinado assunto”. (GALLO, 2000, p. 173). No âmbito educacional, essas opções oferecem a esperança de que os atores pedagógicos (professores e estudantes) consigam, enfim, estabelecer as relações entre as diversas áreas do conhecimento, dificuldade essa que não é peculiar do corpo discente, uma vez que o próprio corpo docente padece da mesma incapacidade. Na opinião de Crema (1993, p. 132), a transdisciplinaridade possibilita que sentem, lado a lado, na mesa do conhecimento, cientistas e poetas, técnicos e filósofos, racionalistas e místicos, permitindo o nascimento não somente de uma nova concepção de conhecimento, mas também de conhecedor. Penso que, apesar das ótimas intenções, em sua grande maioria, as propostas inter/multi/transdisciplinar fracassaram. A causa principal é que elas requerem dos profissionais uma abertura ao desconhecido, num esforço que vai além da questão teórica, mas que contempla os afetos, bem como a diversidade das linguagens empreendidas. Para tanto, eles precisam de uma formação radicalmente distinta da que lhes foi oferecida. Outra causa é que elas não convidaram para essa festa epistemológica a Arte, a Filosofia e a Religião, mas somente os rebentos da Ciência – Matemática, Física, Química, Biologia e História – perpetuando, dessa forma, o distanciamento entre razão e emoção, mente e corpo. A disciplinaridade, portanto, só pode ser superada por uma concepção de conhecimento que congregue todas as modalidades de saber e promova animada roda e não institui uma fila indiana. A concepção clássica tomava a separação radical sujeito-objeto como uma verdade inquestionável e não como uma perspectiva particular, entre muitas outras possíveis. O conhecimento humano poderia chegar a abarcar tudo, podiam chegar a ser estabelecidas 82 teorias completas sobre o mundo. Contudo, hoje nos damos conta de que ao expulsar o qualitativo e privilegiar exclusivamente o quantificável; ao mecanizar o cosmo e separar o corpo e a alma do homem; ficaram de fora do mundo da ciência a emoção e a beleza, a ética e a estética, a cor e a dor, o espírito e a fé, a arte e a filosofia, o corpo emocional e o mundo subjetivo. O sujeito da objetividade não podia dar conta de si mesmo, porque não se via, era um homem desencarnado. Essa dicotomia radical entre arte e ciência, razão e emoção, corpo e alma, atingiu fortemente o desenvolvimento das ciências humanas: como fazer ciência dos sujeitos sem considerar a subjetividade? Como descrever o qualitativo a partir do quantitativo? O homem que acreditava ter domesticado o universo, se havia perdido a si mesmo. (NAJMANOVICH, 2001, p. 83-84).(Itálico no original). A recuperação da corporalidade do sujeito demanda novas teorias e práticas pedagógicas, as quais devem valorizar aspectos que foram historicamente desprezados (emoção, intuição, solidariedade, ...), bem como diminuir a importância de outros que até aqui receberam todas as honras (razão, competição, ...). Alinho-me a Doll Jr. (1997, p. 22): “Um currículo criativo e transformativo precisa combinar o científico com o estético.” Para que um currículo seja transformador, o conhecimento deve ser visto não como umprédio, uma acumulação, mas feito uma rede, que modifica continuamente as suas estruturas, bem como as relações entre elas, num processo auto-organizativo (DOLL JR., 1997, p. 83-84). Assim, a linearidade é substituída pela não linearidade, a qual se revela bem mais próxima da dinâmica da vida do que aquela. Segundo Doll Jr. (1997, p. 193-199), um currículo nessa nova perspectiva deve privilegiar: a riqueza A riqueza consiste no fato de que cada saber tem seu contexto, conceitos e vocabulários próprios. A multiplicidade de linguagens desenvolve essa riqueza ao se dedicar à interpretação de metáforas, mitos e narrativas. a recursão A recursão revela que um final não é absoluto, pois pode ser, sempre, um ponto de partida para descobertas. Cada atividade – trabalho, teste, diário de campo – não pode ser desvinculada, desligada de um processo maior de conhecimento. as relações As relações devem ser entendidas numa perspectiva pedagógica e cultural, que são complementares. Na primeira, por instituírem práticas que possibilitam a troca, a parceira entre os atores envolvidos. Na segunda, por se referirem àquelas manifestações cosmológicas, não contempladas pelo currículo. o rigor O rigor evita que o currículo “caia ou num ‘relativismo extravagante’ ou num solipsismo sentimental”. Indica a busca intencional de diferentes alternativas, relações e conexões. 83 Dewey defendia o argumento de que a escola deveria ser uma comunidade crítica e apoiadora. Para que ela se transforme nesse ideal, é necessário que os objetivos educacionais sejam desenvolvidos num processo que valorize as experiências, as criações e as inovações e se afaste da concepção de Tyler, que se baseia na execução de um planejamento construído por uma pessoa sem levar em conta as peculiaridades dos estudantes e numa avaliação que contempla a quantificação (DOLL JR., 1997, p. 69). As teorias críticas do currículo possibilitaram que as experiências, os valores e os conhecimentos dos atores pedagógicos sejam contemplados, não como verdades que devem ser veneradas, mas como matéria-prima do trabalho acadêmico a ser desenvolvido no ambiente escolar. No Brasil, isso é ainda mais necessário, haja vista a diversidade sociocultural do nosso País, revelando-se um absurdo todas as propostas de unificação cultural. Como devem ser entendidos os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN)? Embora os seus autores declarem que eles não devem ser lidos como uma prescrição, mas como um guia, que fornece várias informações, transferindo ao leitor o direito de escolher o que lhe aprouver, Lopes (1999) entende que os PCN revelam o desejo de homogeneizar a cultura nacional, esconder os seus contrastes, que revelam uma sociedade profundamente injusta. Essa diversidade social é contemplada pela emergência dos Estudos Culturais, que ressaltando as diferenças culturais, de gênero, raça, cor, sexo etc., postulam currículos que as valorizem e não as ignorem e tentem sufocá-las (BERTICELLI, 1999, p. 173). Os Estudos Culturais têm muito a contribuir na formulação de um currículo que respeita as diferenças dos sujeitos, contribuindo para o seu desenvolvimento e não para a sua submissão (intelectual, social e cultural): Desde a última década, começamos a desenvolver uma consciência cósmica e inter-relacional. O desafio deste reconhecimento é duplo: por um lado, respeitar o caráter local das nossas percepções e, por outro, perceber que as nossas perspectiva locais estão integradas numa matriz cultural, ecológica e cósmica muito mais ampla. O nosso progresso e a nossa existência – como indivíduos, como comunidades, como uma raça, como uma espécie, como uma forma de vida – dependem da nossa capacidade de criar uma harmonia complementar entre essas duas perspectivas. (DOLL JR., 1997, p. 199). OBSERVAÇÃO Diversos pesquisadores entendem que atrás do currículo anunciado, divulgado, há outro, implícito, “oculto”. Enquanto o primeiro contempla as disciplinas e os programas explicitados, o segundo refere- se ao que, embora não propagado, está presente no ambiente escolar – valores, crenças, espaços, tempos ... – influenciando e participando significativamente do processo de ensino-aprendizagem. O desenvolvimento pessoal ocorre em duas dimensões – individual e social – as quais, embora sejam singulares, devem ser compreendidas na intensa dinâmica que as vincula: por um lado, o indivíduo precisa percorrer uma singular estrada para desabrochar suas aptidões tipicamente humanas e, por outro, é somente na convivência com seus semelhantes e com a natureza que aquela jornada se realiza (VYGOTSKY, 1991). O meio ambiente, porém, não é somente a base física da existência humana, uma vez que cada pessoa está constantemente elaborando significados daquele, num intenso processo de organização, classificação, descrição e disciplinamento, que ocorre dentro e fora dos tempos e espaços escolares: 84 O controle físico e corporal exercido através do currículo e seus dispositivos espaço-temporais nos ensinam gestos, movimentos, posições possíveis, formas de nos dirigirmos e nos relacionarmos aos/com os outros, lugares de pertencimento, regras de sociabilidade. (ROCHA, 2000, p. 23). O espaço escolar é um currículo “oculto” que contribui para que os estudantes não sejam vistos como sujeitos, isolando-os intelectual e afetivamente, mas como objetos de (e para o) consumo, desprovidos de subjetividade, de paixão, dotados apenas do desejo de ter mercadorias. Antes de finalizar, expresso a minha convicção de que todas essas ideias só se efetivarão se o Homem mudar a forma como percebe e se relaciona com o meio ambiente. O método científico fomentou a ilusão de que a natureza pode ser entendida e controlada pela humanidade, pois ela seria apenas mais um objeto que se renderia aos poderes do sujeito. Essa Ecologia antropocêntrica, porém, precisa, urgentemente, ser substituída por uma ecocêntrica, pois o Homem tem profundo vínculo com o meio ambiente, o qual influencia, de forma significativa, o seu bem-estar (físico, psíquico, emocional). Transposição didática O saber científico/acadêmico para ser ensinado aos estudantes precisa ser transformado num objeto do saber escolar. Esta adaptação foi chamada por Chevallard de transposição didática, que contempla três diferentes tipos de saber: Sábio Produzido pelos cientistas e intelectuais. A ensinar Conteúdo científico nos livros e materiais didáticos. Ensinado Apresentado na sala de aula. Percebe-se, portanto, que na transposição didática há uma intensa preocupação com a articulação entre epistemologia e pedagogia. O professor, inicialmente, seleciona um conteúdo, que contempla vários conceitos, os quais têm importância variada, merecendo, por isso, graus de atenção diferenciada. O tempo é organizado para permitir a socialização, com recursos múltiplos, dos temas escolhidos. Percebe-se, portanto, que a disciplina escolar não é a cópia do conhecimento científico, tanto em virtude das modificações necessárias para a sua compreensão pelos estudantes, como por considerar os recursos didáticos utilizados para propiciar a aprendizagem. A transposição didática será tanto mais eficaz quanto melhor o professor conseguir articular os saberes que vimos na aula anterior: 85 Conhecimento (disciplina e currículo) Domínio do conteúdo, seleção dos seus principais conceitos, relação dele com outras áreas e a contextualização. Pedagógico Escolha de estratégias e recursos didáticos que permitam aos estudantes, em diversas situações, construírem significado do conteúdo. Experiência Reflexão sobre as suas práticas bem como as de seus pares. Professor, para melhorar a transposição didática, precisa, ao longo da sua prática, melhorar nos três campos acima descritos, o que demanda uma atitude permanente de humildade e avaliação, ao admitir a sua incompletude, que se expressa, inexoravelmente, na sua práxis. OLHANDO DE PERTO Aprendizagemde conteúdos por meio da transposição didática (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) Transposição Didática, Interdisciplinaridade e Contextualização (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) Um novo tipo de conhecimento - transdisciplinaridade (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) Usos e abusos do conceito de transposição didática (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) 86 Didática I Aula 03: Organização do Trabalho Docente Tópico 02: Inovações Pedagógicas A crise educacional, que foi assunto da aula passada, demanda alternativas para a sua superação. VERSÃO TEXTUAL • Qual é a importância das inovações pedagógicas? • Que critérios o professor deve observar para adotá-las? Na nossa vida, a rotina/repetição tem um caráter estruturador, pois permite ao Homem viver com um nível mínimo de incerteza, a qual é fonte de insegurança. Por outro lado, ele também tem a necessidade de desenvolver sua capacidade criativa, a qual é indispensável para superar limitações e desafios do cotidiano, ou seja, ser um profissional cidadão, capaz de agir de forma interativa e responsável na sociedade. Os processos de ensino e de aprendizagem de um conteúdo, por envolverem pessoas, são sempre diferentes, peculiares. Desta forma, o professor sempre pode ter algo para melhorar na sua prática –seja no material escolhido, que está relacionado à metodologia, seja nos objetivos, que se vinculam aos seus valores e crenças, seja nos procedimentos avaliativos – de modo a incrementar a aprendizagem dos estudantes. Conforme o Dicionário Aurélio, Inovar é: "[Do lat. innovare.] V. t. d. 1. Tornar novo; renovar. 2. Introduzir novidade em.” (FERREIRA, 1993, p. 948). 87 Descrição da imagem Como relacionar novo, inovar, renovar e novidade com o conhecimento? O estudante para aprender precisa compreender a nova informação com sua estrutura cognitiva, ou seja, dar significado. Cabe ao professor escolher estratégias/recursos que possibilitem ao corpo discente, caracterizado pela diversidade, estabelecer as conexões necessárias do conteúdo – a novidade – com as experiências prévias, sob pena dele ser esquecido, por não ter relevância para a sua vida. A cada aula, o professor tem a oportunidade de verificar em que intensidade as suas escolhas – metodologia, recursos didáticos, atividades – foram adequadas e, se for o caso, pensar sobre o que precisa ser incrementado/inovado para torná-las mais eficientes. Tendo em vista que a definição de inovar remete a renovar, continuemos nossa pesquisa na obra supra: PARA FERREIRA (1993, P. 1485), RENOVAR É: [DO LAT. RENOVARE.] V.T.D. 1. Tornar novo; dar aspecto ou feição de novo a; mudar ou modificar para melhor: “se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires” (Machado de Assis, História sem Data, pp. 4-5). 2. Substituir por novo, por coisa nova. 3. Recomeçar, reinicar, restaurar: Os agressores renovaram a luta. 4. Dizer ou fazer de novo; repetir: O suplicante renovou os apelos. 5. Consertar, reformar, corrigir, melhorar em todos os aspectos ou praticamente em todos: Os sábios renascentistas renovaram a ciência medieval. 6. Fazer novamente; refazer: renovar um contrato; uma promissória. 7. Excitar de novo; tornar a excitar. 8. Consertar, reparar; reformar: Mandou renovar o motor do carro. 9. Pôr novamente em vigor; restaurar, restabelecer: renovar um regulamento esquecido. 10. Dar novo brilho a. 11. Dar novas forças a: O sol renova a vegetação. 12. Trazer de novo a lembrança; relembrar: Renovava com saudade os seus tempos de criança. T. d. e. i. 13. Fazer de novo; repetir; reiterar: Renovarei o pedido às autoridades. Int. 14. Deitar novos rebentos ou renovos; brotar: As plantas renovam na primavera. 15. Surgir de novo; vir novamente; reaparecer, restabelecer-se, renovar-se: Com a falta de providências sanitárias, a epidemia renovou. 16. Sobrevir; suceder-se; renovar-se: Os ataques inimigos renovam a cada dia. P. 17. Rejuvenescer, juvenescer, revigorar-se: Renovou-se com a medicação geriátrica. 18. Aparecer de novo; repetir-se: Observações astronômicas prevêem que a aparição do cometa renovar-se-á em 80 anos.” (FERREIRA, 1993, p. 1485). Do extrato acima, renova-se algo quando este é transformado, modificado, restaurado, repetido, ... O professor, para propor e implementar inovações pedagógicas, precisa: • refletir sobre os processos de ensino e de aprendizagem; • experimentar/experienciar/propor práticas múltiplas; • avaliar a sua práxis, contemplando o seu planejamento, a sua implementação e os resultados. 88 REFLEXÃO Mais importante do que inovar é o professor saber o que quer atingir com tal mudança, ou seja, os objetivos, a intenção. • Baseado em que informações o professor implementa uma novidade no seu trabalho? • Posteriormente, como saber se a inovação foi positiva? O trabalho docente, portanto, possibilita e requer do professor uma constante reflexão sobre a sua práxis, que contempla o planejamento, a implementação e a avaliação. Isto será analisado mais detalhadamente na próxima seção, bem como na próxima aula. PARADA OBRIGATÓRIA Basta implementar inovações nos sistemas educativos? (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) 89 Didática I Aula 03: Organização do Trabalho Docente Tópico 03: Planejamento Educacional Descrição da imagem Por que um profissional precisa planejar a sua prática? Qual é a importância do planejamento para atividade docente? Planejamento, conforme o Dicionário Aurélio, é: “S. m. 1. Ato ou efeito de planejar. 2. Trabalho de preparação para qualquer empreendimento, segundo roteiro e métodos determinados; planificação: o planejamento de um livro, de uma comemoração. 3. Bras. Elaboração, por etapas, com bases técnicas (especialmente no campo sócio-econômico), de planos e programas com objetivos definidos; planificação. (FERREIRA, 1993, p. 1342). Planejar, conforme o Dicionário Aurélio, é: “V. t. d. 1. Fazer o plano ou planta de; projetar, traçar: Um bom arquiteto planejará o edifício. 2. Fazer o planejamento de; elaborar um plano ou roteiro de; programar, planificar: planejar um roubo. 3. Fazer tenção ou resolução de; tencionar, projetar: ‘Mesmo antes do dia nascer, levantara- se, planejando uma vistoria aos serviços’ (Nélson de Faria, Cabeça-Torta, p. 135).” (FERREIRA, 1993, p. 1342). Clique sobre a imagem para ampliar. 90 Fonte [1] Descrição da imagem Tirinha explicando como as ideias chegam de forma diferente na mente de cada pessoa. O PLANEJAMENTO – SEGUNDO PASSOS O planejamento, na maioria das vezes, é visto como mais uma exigência burocrática, um documento a ser arquivado, que só é elaborado para se desobrigar dessa cobrança, e não porque se perceba necessidade ou algum sentido em realizar. As reflexões a seguir buscam superar essa compreensão de planejamento, percebê-lo como uma atividade inerente à ação docente e ir além de uma perspectiva meramente formal e burocrática que o limita ao preenchimento de formulários e ao atendimento de exigências administrativas. O planejamento é a previsão, a projeção de uma prática. Contribui para guiar, orientar uma ação em busca de resultados. No caso do ensino, planejar envolve decidir sobre o quê e o como ensinar, com base nas concepções do por quê e do para quê ensinar. Não são, portanto, decisões meramente técnicas, uma vez que envolvem escolhas, interesses e fundamentam-se em valores. 91 Para além do desobrigar-se de uma exigência burocrática, planejar é refletir sobre a prática pedagógica, para adequá-la a seu contexto, solucionar problemas que se apresentam, superar dificuldades, enfim para aperfeiçoar a ação docente. Ao planejar o professor torna-se protagonista de sua ação, negando-se a ser simples executor de esquemas elaborados por outrem. Mesmo partindo de propostas pensadas longe doespaço de sua sala de aula, o professor pode tomá-las como objeto de reflexão, avaliando-as, ressignificando-as, redirecionando-as, apropriando-se crítica e criativamente delas, imprimindo-lhes o significado desejado. Planejar é dar sentido à ação, é questionar sobre a importância das práticas pedagógicas, do conteúdo ensinado, das exigências feitas ao aluno, do tipo de avaliação empregado, das atividades propostas. É perguntar-se: qual o significado de cada um desses elementos na formação do meu aluno? Somente a partir dessa concepção de planejamento é possível evitar uma ação docente fundada na reprodução de rotinas descontextualizadas e desmotivantes. A reflexão, a problematização e o questionamento do significado da ação desenvolvida permitem sua dinamização e renovação de acordo com a realidade para qual se destina. É através do planejamento que é possível encontrar caminhos para a efetivação dos princípios pedagógicos assumidos. O planejamento é a mediação entre aquilo que pensamos teoricamente ser a educação e o ensino, e a realidade concreta, como nos lembra Luckesi (1992, p. 168): “Para planejar torna-se necessário ter presentes todos os princípios pedagógicos a serem operacionalizados, de tal forma que sejam dimensionados para que se efetivem na realidade educativa”. O planejamento deve ser flexível, contínuo e participativo. A flexibilidade deve ser uma característica inerente ao planejamento do ensino, pois trata-se de prática social, interativa, imprevisível. Traçar princípios norteadores para a ação não significa que seja possível prevê-la em todos os seus detalhes. Não se trata, portanto, de uma camisa de força, um esquema rígido de ação, mas um roteiro flexível de orientação para a ação. É como um mapa que orienta a viagem, mas não representa a totalidade da viagem. Como prática social, o ensino apresenta sempre situações que não se repetem, portanto previsões rígidas não se encaixam nessa realidade. Estamos sempre lidando com a contingência, com o inesperado. Isso exige uma constante revisão, adaptação, contextualização do foi previsto inicialmente. Planejar é, pois, uma atividade contínua que percorre todo o processo, e não apenas realizada no início para não ser mais retomada. Dar ao planejamento uma perspectiva participativa garante que a ação a ser vivenciada, não seja esteja centrada na concepção de uma única pessoa ou de um grupo específico, valorizando apenas sua percepção da realidade, discriminando e excluindo outras leituras possíveis. Os alunos dão constantes evidências de sua percepção sobre o desenvolvimento do ensino aprendizagem, assim como outros sujeitos como: pais, outros professores, comunidade, demais profissionais da escola, pedagogos podem oferecer importantes elementos a serem considerados durante o planejamento. Do exposto, concluímos que, o planejamento numa perspectiva crítica, mais do que uma previsão técnica de objetivos, conteúdo, metodologia e avaliação, implica numa tomada de posição sobre a educação e o ensino, para, a partir de então, organizar a ação no sentido pretendido. Planejar é refletir sobre a ação docente, compreendê-la em seus determinantes, limites e possibilidades, e propor, com base nessa compreensão as possibilidades de construção de uma prática em constante superação. Extraído de Passos (2006). 92 O planejamento educacional, portanto, pressupõe que o docente tenha uma disposição permanente para refletir sobre a prática, no sentido de avaliar em que medida os elementos constantes do plano foram satisfatórios e o que precisa ser modificado/melhorado. Convém, portanto, que ele seja um professor reflexivo, conforme defendem inúmeros estudiosos (Schön, Nóvoa, dentre outros). No próximo tópico, estudaremos sobre os diferentes tipos de plano de ensino, bem como os seus elementos constituintes. DICA Professor reflexivo: da alienação da técnica à autonomia da crítica (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) Celso dos Santos Vasconcellos fala sobre planejamento escolar [2] O Planejamento deve ser flexível [3] Vamos estudar juntos? [4] PARADA OBRIGATÓRIA Planejamento de ensino: peculiaridades significativas (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) OLHANDO DE PERTO O professor pesquisador e reflexivo (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) 93 Didática I Aula 03: Organização do Trabalho Docente Tópico 04: Elementos de um Plano de Ensino Conforme vimos no tópico anterior, o planejamento é uma atividade indispensável para o trabalho docente, o qual visa à aprendizagem do estudante. A avaliação da aprendizagem do estudante revela, portanto, não somente o que este aprendeu, mas permite saber em que medida as metas estabelecidas (no plano) pelo professor foram alcançadas. Planejar-implementar-avaliar: este é o cotidiano do professor comprometido com a qualidade do seu trabalho, que acredita que a Educação pode, de alguma forma, como preconizava Paulo Freire, em citação apresentada no tópico 2, da Aula 1, contribuir para a transformação da realidade. Qual a diferença entre planejamento, plano de ensino e plano de aula? As expressões planejamento, plano de ensino e plano de aula, apesar de estarem, em educação, diretamente articuladas umas às outras, necessariamente, não têm o mesmo significado. Veja abaixo: Planejamento Como já definimos no tópico anterior, o planejamento consiste no processo de organização de determinada ação; é a previsão, a projeção de uma prática. Contribui para guiar, orientar uma ação em busca de resultados. No caso do ensino, planejar envolve decidir sobre o quê e o como ensinar, com base nas concepções do por quê e do para quê ensinar. Não são, portanto, decisões meramente técnicas, uma vez que envolvem escolhas, interesses e fundamentam-se em valores. Plano de ensino Consiste na sistematização do processo de organização da ação. Devem estar sistematizadas as ações que se pretende desenvolver, informações e princípios que balizam e sustentam essas ações. O plano de ensino se configura, portanto, num registro escrito, apresentado sob a forma de um documento. Plano de aula Documento necessário no cotidiano docente, pois registra vários componentes sobre o ensinar – o que (conteúdo), por que (justificativa), para que (objetivos – geral e específicos), como (metodologia), com que (recursos) e quando (as atividades e o tempo) – além das estratégias de análise da aprendizagem (avaliação) e das fontes utilizadas (bibliografia). Na Educação, temos vários tipos de planejamento, de acordo com o tempo contemplado: • disciplina (semestre e/ou ano) 94 • unidade • aula O docente, no planejamento educacional, deve considerar os meios (recursos) e os fins (objetivos), os quais estão intimamente vinculados, bem como as etapas e os caminhos, que precisam considerar o tempo disponível. Embora seja impossível a qualquer pessoa prever todas as possibilidades de uma situação, a improvisação na ação docente deve ser evitada a priori, ou seja, o professor precisa estar ciente de que o seu plano é uma orientação, um guia, mas que nem tudo sairá como planejado, sendo necessário, por vezes, criar uma alternativa para contornar uma situação inusitada. Nesta disciplina, nos deteremos mais no plano de aula. Existem vários modelos de plano, cujas principais diferenças residem na nomenclatura dos elementos e na disposição dos mesmos. Nesta disciplina, adotamos um modelo que contém os seguintes elementos: conteúdo, justificativa, objetivos, metodologia, recursos didáticos, atividades-tempo, avaliação e bibliografia. Eles serão explicados, a seguir, um por um. Alerto, todavia, que esta opção didática não nos permite concluir que os elementos podem ser entendidos separadamente, uma vez que é exatamente o contrário: VERSÃO TEXTUAL O entendimento deles só emerge quando interligados, posto que eles compõem umtodo. Neste sentido, é a reflexão de Barguil (2006, p. 77): A compreensão da realidade não é alcançada com o seu fracionamento em partes menores (para facilitar o entendimento) e com o seu isolamento (para garantir que variáveis externas não influenciarão o estudo), como defendia Descartes, mas com a consideração dos vínculos, das relações que as partes estabelecem entre si e entre o todo. Tal ênfase inaugura uma perspectiva holística, global, e se expressa num pensamento orgânico, sistêmico. Conteúdo (Ementa) Apresenta o conteúdo, em formas de tópicos e em frases nominais (sem verbos), que será trabalhado no período indicado no plano, que, conforme vimos, pode ser de disciplina, de unidade e de aula. 95 Tradicionalmente, os conteúdos se restringiam à capacidade cognitiva. Zabala (1998, p. 30) defende a ideia de que eles devem contemplar, também, as dimensões motora, afetiva, de relação interpessoal e inserção social. Col (1986 apud ZABALA, 1998, p. 31) divide os conteúdos em três categorias: conceituais (saber), procedimentais (saber fazer) e atitudinais (saber viver). Penso que o ser pode ser substituído por saber viver. Os componentes de cada conteúdo, conforme Zabala (1998, p. 32), são: Conceituais Fatos, conceitos e princípios Procedimentais Procedimentos, técnicas e métodos Atitudinais Valores, atitudes e normas COMO ESCOLHER CONTEÚDO – SEGUNDO PASSOS É com base nos conteúdos (conhecimentos, saberes) que se procura alcançar os objetivos. A escolha dos conteúdos que devem compor o plano, não é uma questão meramente técnica, já que no processo de seleção alguns conhecimentos são incluídos e outros são excluídos. Essa decisão se dá, com base em certas compreensões que se tem desses saberes e do seu papel na formação dos alunos. Não se pode, nesse sentido, esquecer o caráter de construção social próprio da seleção dos conteúdos programáticos de um plano de ensino. É necessária uma constante reflexão sobre os conteúdos a serem trabalhados, se quisermos realmente superar uma concepção de ensino baseada apenas na transmissão/reprodução de conhecimentos. Para isso torna-se imprescindível criar e ocupar espaços para que os conteúdos: ◦ sejam instrumentos de compreensão e intervenção crítica na realidade, para isso precisam estar articulados com essa realidade; ◦ superem a fragmentação e permitam uma visão de totalidade, através de uma perspectiva interdisciplinar; ◦ sejam dinâmicos, atualizados e oportunizem o desenvolvimento o desenvolvimento das capacidades cognitivas, éticas, afetivas, atitudinais e psicomotoras do educando; ◦ oportunizem a manifestação e o respeito à diversidade. Extraído de Passos (2006). Conclui-se, portanto, que a seleção dos conteúdos, por estar fortemente vinculada aos objetivos, expressa uma concepção política, a partir do momento que pode (ou não) contribuir para a formação profissional de indivíduos, entendendo-os como sujeitos sociais. O próximo elemento – Justificativa – contempla este aspecto. Justificativa (Introdução/Apresentação) 96 Exposição sobre o conteúdo da disciplina e a sua importância, no contexto educacional do estudante. Deve responder aquela famosa pergunta dos estudantes: “Para que eu estou estudando isso, professor (a)”?. Objetivos – Geral e Específicos Os objetivos devem expressar as capacidades/habilidades (cognitiva, motora, afetiva, de relação interpessoal e inserção social) que devem ser desenvolvidas pelos estudantes durante o processo de ensino. Há somente um objetivo geral, que se desmembra em vários objetivos específicos. Eles são escritos com o verbo no infinitivo para indicar a competência a ser alcançada (por exemplo: refletir, analisar, aprofundar, compreender, diagnosticar, identificar, elaborar, redigir, desenvolver, construir, valorizar, diferenciar, conhecer, estabelecer ...), podendo serem complementados com outro verbo no gerúndio. Os objetivos, conforme dissemos, estão relacionados aos conteúdos. Segundo Passos: Os objetivos indicam as aprendizagens que se pretende desenvolver como consequência do processo de ensino. Constituem-se numa direção norteadora para a ação (não devem ser entendidos como previsão de um produto acabado). São os resultados buscados pela ação educativa. É a partir da definição dos objetivos que se pode acionar os meios adequados para atingi-los. Na definição dos objetivos devem ser considerados: as características dos alunos para os quais se dirige o ensino (nível de desenvolvimento, necessidades, interesses), a realidade social e institucional e as características da disciplina. Numa perspectiva crítica os objetivos devem propiciar o desenvolvimento: das capacidades mentais, do espírito crítico e da criatividade, de processos participativos, da relação teoria-prática, da solidariedade, do conhecimento cultural e científico. Neste enfoque a meta é superar níveis de aprendizagem que se limitem à reprodução de conhecimentos, à memorização de informações. É preciso ter consciência que as aprendizagens não se esgotam na dimensão cognitiva. O desenvolvimento do cidadão e do profissional (de qualquer área) envolve também as dimensões afetiva, ética, atitudinal, e em muitos casos envolve também aprendizagens motoras. A formação de um cidadão e de um profissional não se limita aos conhecimentos técnicos e científicos é, portanto, fundamental que os objetivos expressem isso. Cabe ainda esclarecer que, quanto à abrangência, os objetivos podem ser: Objetivo Geral Geral: que se constitui em diretrizes gerais para o trabalho pedagógico; expressa um posicionamento político sobre a relação da instituição formadora com a sociedade. Alguns autores denominam de finalidades. É definido pelo sistema escolar (sistema federal de ensino - LDB, diretrizes curriculares - estadual ou municipal); pela instituição que define princípios e diretrizes através de uma proposta pedagógica; e pelos professores da disciplina. Nesse nível de abrangência são definidos: o papel da educação, do ensino ou da disciplina na formação dos sujeitos. Objetivo Específico Específicos: são os pequenos passos em direção ao alcance das finalidades. Referem-se a resultados de aprendizagens alcançáveis num espaço de tempo menor. Os objetivos mais amplos (formação de consciência crítica, desenvolvimento da criatividade, da capacidade de expressão, de atitudes de preservação e respeito ao ambiente; compreensão da organização do espaço; desenvolvimento do raciocínio lógico, dentre outros) são construídos a partir da combinação de aprendizagens alcançáveis num tempo menor, mas que são fundamentais para que se atinjam as grandes metas. 97 Extraído de Passos (2006). Metodologia Definidos os conteúdos e os objetivos, o professor precisa escolher as estratégias/ações de ensino, ou seja, o “como” fazer. São várias as metodologias: aulas expositivas(-dialogadas), dinâmicas, debates, seminários, exercícios, análises, situações-problemas, ... O professor precisa conhecê-las e utilizá-las de acordo com a idade dos seus estudantes, o conteúdo a ser apresentado, o grau de conhecimento dos estudos sobre o mesmo, os recursos disponíveis, dentre outros. A seguir, duas reflexões de pesquisadoras cearenses sobre a metodologia. EXTRAÍDO DE PASSOS (2006) A metodologia refere-se ao como desenvolver a ação pedagógica e só pode ser entendida articuladamente ao por quê e ao para quê dessa ação. Há uma grande expectativa de que a partir de mudanças na metodologia se possa conseguir resultados positivos na aprendizagem. Entretanto, uma mudança significativa demanda uma reflexão da prática pedagógica em sua totalidade, seus princípios e fundamentos. Uma mudança significativa não resultará de um acréscimo superficial e fragmentado de novas tecnologias e procedimentos de ensino. A metodologia é um recurso encaminhador de uma proposta pedagógica, neste sentido deve ser considerada em sua relação com os demais elementos que compõema ação pedagógica, e não de forma auto-suficiente. É nesse contexto que se inserem novas metodologias, procedimentos e tecnologias. A escolha dos encaminhamentos metodológicos não deve ser aleatória, desvinculada dos objetivos e dos conhecimentos que se pretenda trabalhar. Também não é uma escolha neutra, pois o modo como se conduz a ação pedagógica compromete-se com uma concepção de realidade e de educação; contribui com a formação de um determinado tipo de cidadão. Se a intenção do plano é superar uma concepção reprodutora/conservadora de ensino a metodologia deve respeitar os seguintes princípios: • compreensão da metodologia como parte de uma proposta pedagógica mais abrangente • relação professor-aluno dialógica • criação de espaço para a pergunta, a dúvida e a problematização • o aluno percebido como sujeito ativo de sua aprendizagem, alguém que constrói conhecimento (observa, relata, lê, resolve problemas, investiga, produz, cria, analisa, interpreta, tira conclusões, posiciona-se, experimenta, questiona, busca informações – ou seja, sai da posição de mero ouvinte) • relação teoria-prática • contextualização do objeto ou assunto em estudo • visão de totalidade • variação das situações de aprendizagem EXTRAÍDO DE SILVEIRA (2005) 98 Metodologia é o estudo dos métodos. Metodologia de ensino significa o conjunto de métodos aplicados à situação didáticopedagógica. Método de ensino é o caminho escolhido pelo professor para organizar as situações ensinoaprendizagem. A técnica é a operacionalização do método. No planejamento, ao elaborar o projeto de ensino, o professor antevê quais os métodos e as técnicas que poderá desenvolver com seu aluno em sala de aula na perspectiva de promover a aprendizagem. E, juntamente com os alunos, irão avaliando quais são os mais adequados aos diferentes saberes, ao perfil do grupo, aos objetivos e aos alunos como sujeitos individuais. Nesse processo participativo o professor deixa claro suas possibilidades didáticas e o que ele pensa e o que espera do aluno como sujeito aprendente, suas possibilidades, sua capacidade para aprender, sua individualidade. Quando o professor exacerba um método ou uma técnica, poderá estar privilegiando alguns alunos e excluindo outros, e, mais ainda, deixando de realizar singulares experiências didáticas que o ajudariam aperfeiçoar sua prática docente e possibilitar ao aluno variadas formas de aprender. Ainda arriscar a trabalhar o saber de diferentes formas, percorrendo criativos trajetos em sala de aula. O medo de mudar, às vezes, impede o professor de arriscar novos caminhos pedagógicos. Daí o significado didático-pedagógico na formação do professor. Os paradigmas das experiências anteriores podem ser as referências de muitos professores. Assim posto, é válido para o docente buscar novas técnicas, desbravar novos caminhos, numa investida esperançosa de quem deseja fazer o melhor, do ponto de vista metodológico e didático. Tal atitude implica em estudar sobre a natureza didática de sua prática educativa. Donald Schon tem sido uma referência teórico-metodológica dos profissionais que atuam na área de formação de professores por afirmar que os bons profissionais utilizam um conjunto de processos que não dependem da lógica, da racionalidade técnica, mas sim, são manifestações de sagacidade, intuição e sensibilidade artística. Schon orienta para que se observe estes professores para averiguarmos como desenvolvem suas práticas, como fazem e o que fazem, para colhermos lições para nossos programas de formação. O professor deve refletir didaticamente sobre sua prática, pensar no cotidiano sobre o saberfazer em sala de aula, para não escorregar na mesmice metodológica de utilização dos mesmos recursos e das invariáveis técnicas de ensino. É importante que o professor estude sobre essa temática, uma vez que há uma diversidade metodológica que pode ser trabalhada em sem sala de aula e/ou numa situação didático-pedagógica. Exemplo: exposição com ilustração, trabalhos em grupos, estudos dirigidos, tarefas individuais, pesquisas, experiências de campo, sociodramas, painéis de discussão, debates, tribuna livre, exposição com demonstração, júri simulado, aulas expositivas, seminários, ensino individualizado. Recursos Didáticos Os recursos didáticos devem ser escolhidos a partir de um referencial psicopedagógico que possibilite aos estudantes compreenderem o conteúdo estudado, ampliando a explicação do professor. Eles precisam ter: orientações pedagógicas, aspectos motivacionais, indagações/exercícios que permitam o aprofundamento/a síntese do assunto. Na escolha do recurso didático, o professor precisa considerar os seguintes aspectos: Primeiro Aspecto 99 1. Características do público a quem se destina. Segundo Aspecto 2. Características do recurso que será utilizado, considerar principalmente, a adequação, a pertinência e a linguagem. Terceiro Aspecto 3. Características da situação em que o recurso será utilizado. Os recursos didáticos podem ser obtidos, basicamente, através de três formas: seleção, adaptação e confecção. Quanto ao uso, eles podem ser: • fartos (atendem vários estudantes), • variados (estimulam diferentes áreas do cérebro e ampliam as experiências) • significativos (contemplam aspectos do conteúdo) Toda sala de aula deve dispor de material básico (cartolina, revista, caneta hidrocor, cola, tesoura, fita gomada ...) para permitir a realização de atividades rápidas. O professor, para escolher o recurso didático, deve observar os seguintes critérios: * Tamanho: os materiais devem ser confeccionados ou selecionados em tamanho adequado à faixa etária dos alunos. Materiais excessivamente pequenos não ressaltam detalhes de suas partes componentes ou perdem-se com facilidade. O exagero no tamanho pode prejudicar a apreensão da totalidade (visão global). * Significado Tátil: o material precisa possuir um relevo perceptível e, tanto quanto possível, constituir-se de diferentes texturas para melhor destacar as partes componentes. Contrastes do tipo: liso/áspero, fino/espesso, permitem distinções adequadas. * Segurança: o material não deve provocar reações alérgicas ou irritação da pele e não devem oferecer perigo para os alunos. * Estimulação Visual: o material deve ter cores fortes e contrastantes. * Facilidade de Manuseio: os materiais devem ser simples e de manuseio fácil, proporcionando ao aluno uma prática utilização. 100 * Durabilidade: os recursos didáticos devem ser confeccionados com materiais que não se estraguem com facilidade, considerando o frequente manuseio pelos alunos. Descrição da Tabela: * Tamanho: os materiais devem ser confeccionados ou selecionados em tamanho adequado à faixa etária dos alunos. Materiais excessivamente pequenos não ressaltam detalhes de suas partes componentes ou perdem-se com facilidade. O exagero no tamanho pode prejudicar a apreensão da totalidade (visão global). * Significado Tátil: o material precisa possuir um relevo perceptível e, tanto quanto possível, constituir-se de diferentes texturas para melhor destacar as partes componentes. Contrastes do tipo: liso/áspero, fino/espesso, permitem distinções adequadas. * Segurança: o material não deve provocar reações alérgicas ou irritação da pele e não devem oferecer perigo para os alunos. * Estimulação Visual: o material deve ter cores fortes e contrastantes. * Facilidade de Manuseio: os materiais devem ser simples e de manuseio fácil, proporcionando ao aluno uma prática utilização. * Durabilidade: os recursos didáticos devem ser confeccionados com materiais que não se estraguem com facilidade, considerando o frequente manuseio pelos alunos. Desde o final do século passado, as novas tecnologias de informação e comunicação (TIC) têm sido, cada vez mais, utilizadas para facilitar os processos de ensino e de aprendizagem. Com a internet, aspossibilidades se multiplicaram, com a criação dos Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA), como é o caso do SOLAR, desenvolvido pela UFC Virtual. O desafio atual é identificar em que aspectos os recursos tecnológicos contribuem e, eventualmente, atrapalham a Educação. A tecnologia redimensiona os papéis de docente e de estudantes, os quais, em sua grande maioria, precisam de algum tempo para compreender que a dinâmica muda. Fonte [5] 101 Não é, porém, somente o aparato tecnológico que redesenha as relações em sala de aula. Outros recursos didáticos, a depender dos objetivos pretendidos pelo docente, têm a capacidade de permitir que os estudantes superem a passividade típica do ensino tradicional, que se caracteriza, principalmente, pela passividade do corpo discente. Em relação a isso, convém conhecer o cone da aprendizagem, proposto pelo psicólogo Edgar Dale, nos idos de 1960. Não devemos nos prender aos percentuais, mas perceber a importância da atividade para a aprendizagem. Descrição da imagem Imagem de uma tabela trazendo o cone de aprendizagem, mostrando que o professor não deve se prender aos percentuais, mas perceber a importância da atividade para a aprendizagem do aluno. Desta forma, os recursos didáticos – quadro, cartaz, painel, retroprojetor, tv, dvd, computador, datashow, internet e suas possibilidades (sites, e-mail, hipertextos, webconferências... ) – devem estar a serviço da proposta pedagógica do professor, que se expressa em vários elementos do plano de ensino. Atividades e Tempo O próximo passo é descrever as atividades e alocar o tempo disponível para elas. Esta etapa é indispensável para evitar que, no caso de: I) uma aula, o professor ultrapasse o tempo previsto, bem como fique sem saber o que propor aos estudantes; II) uma disciplina, o docente ensine alguns conteúdos com mais profundidade e outros, igualmente importantes na sua compreensão, de forma superficial. 102 Com o passar dos anos, o professor vai adquirindo experiência e aperfeiçoando a distribuição do tempo para as atividades, recorrendo aos seus planos anteriores e às respectivas avaliações quanto à eficácia dos mesmos. Muito importante, também, é a troca de ideias com os colegas, que possibilitam uma reflexão do que se faz, bem como o conhecimento de outras estratégias. Para estimar o tempo de cada atividade, o professor deve considerar que os estudantes precisam de tempo para entender a atividade, organizarem-se e realizarem-na de acordo com as orientações. É recomendável não planejar muitas atividades para pouco tempo, uma vez que é interessante que os estudantes possam trocar ideias com os colegas e apresentarem, de alguma forma, os resultados, os quais devem ser fontes de avaliação docente, tema a ser discutido a seguir. Avaliação Embora venha formalmente no final do plano, a avaliação está presente em toda a sua elaboração. Neste momento, o docente deve indicar quais serão as opções adotadas (por exemplo: participação, análise de caso, atividades práticas, situações-problemas, provas, experimentos) para acompanhar o processo/grau/nível de aprendizagem dos estudantes. Ressalte-se que a aprendizagem não pode ser medida e que um instrumento pode ser adequado a alguns indivíduos e revelar-se inconveniente para outros. Desta forma, é importante que, sempre que possível e a depender de diversas variáveis (idade dos estudantes, conteúdo, ....), o professor realize mais de uma verificação de aprendizagem, a qual permitirá que ele (re)planeje sua atuação. A avaliação pode ter três funções: Pedagógico-didática Cumprimento dos objetivos geral e específicos da disciplina. Diagnóstica Identificam-se os progressos e as dificuldades dos estudantes, provocando mudanças na atuação do/a professor/a. Formativa Mediante sucessivas avaliações, para assegurar a ampliação de conhecimentos por parte dos estudantes, qualificando os resultados escolares. Abaixo, as pesquisadoras cearenses apresentam suas considerações sobre a avaliação. AVALIAÇÃO – SEGUNDO PASSOS (2006) A avaliação tem sido usada como instrumento de poder, mecanismo ameaçador, disciplinador, punidor, gerando medo, tensão e inibição. Apesar do título avaliação, o processo esgota-se no ritual de aplicação, correção, entrega de testes e provas; reduz-se a função de atribuir notas tornando-se fator de seleção e exclusão; limita-se a ser classificatória e burocrática; rotula os alunos (os que sabem e os que não sabem, os que acertam e os que erram). 103 A avaliação tem polarizado o processo de escolarização tornando-se um fim em si mesma, ou seja, tudo na instituição de ensino acaba girando em torno da avaliação, da nota e da preparação para processos seletivos: o que é importante, é importante porque cai na prova ou no vestibular; o que mais interessa ao aluno é saber como o professor vai avaliar, como será a prova; o importa é passar. A aprendizagem, o desenvolvimento do aluno, seu progresso em relação a níveis mais complexos de compreensão da realidade ficam em segundo plano. Com essas características a avaliação reduz-se a procedimentos que constatam problemas de aprendizagem, mas pouco ou nada fazem para solucionar tais problemas. Depois de realizada s as provas e entregues as notas, passa-se ao conteúdo seguinte sem que nenhuma providência seja tomada em relação às dificuldades que foram evidenciadas no instrumento de avaliação aplicado. Para que a avaliação deixe de ser um mecanismo de exclusão e de produção do fracasso escolar e possa contribuir para a inclusão, e a superação das dificuldades de aprendizagem diagnosticadas, é preciso ressignificá-la como parte de uma prática pedagógica. Mudanças significativas só ocorrem quando se repensa a postura pedagógica como um todo, mudar a avaliação isoladamente não leva a uma mudança consistente. Por exemplo: incluir outros instrumentos de avaliação como seminários, relatório sem repensar o seu papel dentro do processo de ensino aprendizagem tende a ser uma mudança superficial. É fundamental resgatar a essência da avaliação, isso significa torná-la um meio para o crescimento do aluno, identificando suas dificuldades, como primeiro passo para sua superação; torná-la contínua e diagnóstica, o que leva a uma tomada de decisões, ao redirecionamento da prática, à reflexão do fazer pedagógico, para a busca de resultados satisfatórios. Nesta perspectiva, o erro que o aluno comete deve servir para construir a superação e não para desqualificá-lo ou ridicularizá-lo. Os resultados da avaliação oferecem evidências sobre o encaminhamento do processo de ensino aprendizagem, são subsídios que devem implicar num redirecionamento da ação, num replanejamento da ação pedagógica. O que revelam esses resultados? Houve aprendizagens? Quais os erros mais incidentes? O que significam esses erros? Que decisão se deve tomar? Retomar os conhecimentos que não repercutiram em aprendizagens? Prosseguir independente do que informam os resultados da avaliação? São decisões que implicam em reflexão sobre a ação pedagógica, que envolvem planejamento. Resgatar o papel da avaliação como subsídio para a superação das dificuldades de aprendizagem implica ir além do papel que tem cumprido de limitar-se a uma função de classificação e seleção. Para tanto há que se considerar alguns aspectos como: • Estabelecimento de critérios para a avaliação e correção dos instrumentos de avaliação, evitando decisões arbitrárias, ou avaliação de aspectos irrelevantes. Neste sentido os objetivos são elementos norteadores (se quero desenvolver o raciocínio a capacidade de análise crítica, qual o sentido de perguntar aspectos irrelevantes só para “pegar” o aluno?); • Utilização de vários instrumentos e vários momentos de avaliação, coletando evidências da aprendizagem (ou das dificuldades de aprendizagem) em várias situações; • Oportunizar situações variadas para a recuperação da aprendizagem e superaçãodas dificuldades identificadas; • Evitar utilizar a prova como recurso de punição e coerção do aluno. A avaliação, considerando os aspectos levantados, pode contribuir para o crescimento do aluno, deixando de se constituir num ato definitivo, estático e seletivo para se converter num processo de investigação para a construção de resultados positivos de aprendizagem. (Luckesi, 1995; Esteban, 1999). 104 As reflexões acima pretenderam oferecer elementos para o professor repensar o planejamento passando a percebê-lo para além da formalidade do cumprimento de uma exigência burocrática, com potencialidade para se constituir num instrumento de aperfeiçoamento do ensino, para a superação de uma prática pedagógica engessada, repetitiva, descontextualizada, incapaz de responder aos desafios da contemporaneidade à educação, à formação dos cidadãos. Tomando por base os elementos sugeridos o planejamento (e seu resultado, o plano) pode ser um fator dinamizador da ação docente e contribuir para melhoria da qualidade de ensino, ao lado de outros fatores indispensáveis na busca dessa qualidade: valorização do trabalho docente e melhores condições de realização desse trabalho. AVALIAÇÃO – SEGUNDO SILVEIRA (2005) A avaliação é uma etapa presente quotidianamente em sala de aula, exerce uma função fundamental, que é a função diagnóstica. O professor deverá acolher as dificuldades do aluno no sentido de tentar ajudá-lo a superá-las, a vencê-las. Evitar a função classificatória, comparando sujeitos entre sujeitos. A avaliação deverá considerar o avanço que aquele aluno obteve durante o curso. Há muito que estudar sobre avaliação. Um das dicas é a de realizar as articulações necessárias para que se possa promover testes, provas, relatórios, e outros instrumentos a partir de uma concepção de avaliação que diz respeito ao aluno como sujeito de sua aprendizagem, uma vez que planejar é uma ação dinâmica, interativa, e acontece antes de se iniciar o processo de ensino, durante e depois do processo. É uma ação reflexiva, que exige do professor permanente investigação e atualização didático-pedagógica. Bibliografia É interessante que o professor consulte livros universitários e didáticos, bem como sites e outros (revistas, mapas, ...), para revisar seus conhecimento e elaborar seu plano. Ela pode ser dividida em bibliografia básica e complementar. Ressalte-se a sua importância ao indicar para outras pessoas fontes de aprofundamento, caso assim queiram. Antes de finalizar esta aula e a disciplina Didática I, enfatizo o fato de que o trabalho docente não deve ser entendido como individual, uma vez que ele pertence a uma comunidade acadêmica, motivo pelo qual ele deve, sempre que possível, buscar articular-se com os colegas que lecionam na mesma turma, bem como com aqueles que lecionam a mesma matéria nos anos anterior e posterior. O planejamento educacional, infelizmente, costuma ser visto como um ato burocrático, esvaziado de sentido, pois que reduz, muitas vezes, a encontros nos sábados, nos quais os professores pouco ou nada conversam sobre as suas práticas curriculares. Neste sentido, o projeto pedagógico representa a oportunidade que a comunidade tem de discutir sobre as escolhas e as estratégias, bem como se avaliá-las a longo prazo, implementando as mudanças que se 105 fizerem necessárias e lutando para melhorar as condições de trabalho, as quais sempre podem ser melhoradas, notadamente se se tratar de uma escola pública. DICA Modelos de Plano de Aula: Fundamental [6] OLHANDO DE PERTO A Didática nos cursos de licenciatura: o futuro educador e a avaliação contínua (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) Instrumento de avaliação (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) Planejamento docente (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) PARADA OBRIGATÓRIA Avaliação – momento de angústia ou oportunidade de crescimento pessoal? (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.) FÓRUM Discuta com seu(sua) tutor(a) como organizar o trabalho docente em uma disciplina, de forma interdisciplinar e utilizando-se da transposição didática. ATIVIDADE DE PORTFÓLIO Elabore um plano de aula da disciplina que leciona conforme modelo (clique aqui (Visite a aula online para realizar download deste arquivo.)) e poste em seu portfólio. REFERÊNCIAS BARGUIL, Paulo Meireles. O Homem e a conquista dos espaços – o que os alunos e os professores fazem, sentem e aprendem na escola. Fortaleza: Gráfica e Editora LCR, 2006. BERTICELLI, Ireno Antonio. Currículo: tendências e filosofia. In: COSTA, Maria Vorraber (Org.). O Currículo nos limiares do contemporâneo. 2. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 1999. p. 159-176. CAPRA, Fritjof. A Teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. Tradução Newton Roberval Eichemberg. 5. ed. São Paulo: Cultrix, 2001. COSTA, Maria Vorraber. Currículo e política cultural. In: COSTA, Maria Vorraber (org.). 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