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1 SUMÁRIO UNIDADE 1 – INTRODUÇÃO ..................................................................................... 2 UNIDADE 2 – ENFERMAGEM COMO PROFISSÃO ................................................. 4 2.1 ORIGEM E EVOLUÇÃO ............................................................................................ 4 2.2 FUNDAMENTOS E TEORIAS ..................................................................................... 7 2.3 O AMBIENTE HOSPITALAR .................................................................................... 19 2.4 O ESTRESSE PROFISSIONAL ................................................................................. 22 UNIDADE 3 – HUMANIZAÇÃO ................................................................................ 28 3.1 CONCEITOS E IMPORTÂNCIA ................................................................................ 28 3.2 A ARTE DE CUIDAR .............................................................................................. 29 UNIDADE 4 – ÉTICA ................................................................................................ 37 4.1 ÉTICA E BIOÉTICA ............................................................................................... 37 4.2 CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM ................................................................ 44 4.3 LEGISLAÇÃO ....................................................................................................... 47 4.4 COMISSÕES DE ÉTICA ......................................................................................... 49 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 53 2 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 1 – INTRODUÇÃO Não há feriado, final de semana, férias coletivas! O hospital não fecha as portas para descanso ou balanço! É nesse ambiente e nesse contexto que atuam os(as) enfermeiros(as) e técnicos(as), dedicando grande parte de suas vidas ao cuidado às pessoas/pacientes que deles necessitem. Seja no pronto-socorro, administrando os primeiros atendimentos, seja na enfermaria, seja nos apartamentos, no berçário, nas Unidades de Tratamento Intensivo, lá estarão sempre altivos, carinhosos, praticando a “arte de cuidar” para amenizar o sofrimento de ambos, os pacientes e seus familiares. Enquanto ciência humana que é, a Enfermagem, um campo de conhecimento que fundamenta sua prática no cuidado de seres humanos, que abrange do estado de saúde aos estados de doença, mediada por transações pessoais, profissionais, científicas, estéticas, éticas e políticas. Criar condições para o cliente recuperar sua saúde; trabalho articulado no cotidiano de cuidar, tratamento humanizado, considerando as diferenças e igualdades são outras condições para o(a) enfermeiro(a) exercer com maestria sua profissão. Veremos ao longo deste módulo, a origem e evolução dessa profissão, falaremos sobre o ambiente hospitalar, o estresse pelo qual passa esse profissional; o conceito e importância da humanização, bem como refletiremos sobre a arte de cuidar. A ética, bioética, participação do Conselho Federal de Enfermagem, a legislação que rege a profissão e as comissões de ética também serão temas contemplados no momento. Ressaltamos em primeiro lugar que embora a escrita acadêmica tenha como premissa ser científica, baseada em normas e padrões da academia, fugiremos um pouco às regras para nos aproximarmos de vocês e para que os temas abordados cheguem de maneira clara e objetiva, mas não menos científicos. Em segundo lugar, deixamos claro que este módulo é uma compilação das ideias de vários autores, incluindo aqueles que consideramos clássicos, não se tratando, portanto, de uma redação original e tendo em vista o caráter didático da obra, não serão expressas opiniões pessoais. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 3 Ao final do módulo, além da lista de referências básicas, encontram-se outras que foram ora utilizadas, ora somente consultadas, mas que, de todo modo, podem servir para sanar lacunas que por ventura venham a surgir ao longo dos estudos. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 4 UNIDADE 2 – ENFERMAGEM COMO PROFISSÃO A maneira mais didática para definirmos “Enfermagem” vem do Guia do estudante publicado pela Editora Abril (2009). Vejamos: É a ciência que se dedica a promover, a manter e a restabelecer a saúde das pessoas. O enfermeiro atua na proteção, na promoção e na recuperação da saúde, bem como na prevenção de doenças. Em hospitais, é indispensável em todos os setores, da UTI à psiquiatria. Ele coleta os dados sobre o estado de saúde do paciente por meio de exames físicos e entrevistas e faz o diagnóstico de enfermagem para estabelecer a conduta a ser seguida. Trabalha em equipe multiprofissional (com médicos, nutricionistas, psicólogos, entre outros). É responsável desde a higiene e a alimentação até a administração de remédios e a prescrição de curativos. A enfermagem não se limita ao trabalho em hospitais e clínicas. Um campo importante é o da saúde coletiva, na qual o profissional atua na promoção da saúde e na prevenção de doenças, realizando também trabalhos educativos na comunidade. O licenciado está apto a ministrar aulas teóricas e práticas em cursos técnicos, sejam de nível médio, seja em escolas profissionalizantes, para formar auxiliares de enfermagem. Mas como surgiu a profissão? 2.1 Origem e evolução Foi no início do século XIX que o paradigma cientificista ganhou espaço tentando superar a concepção mágico-religiosa1 vigente até então. É nesse período que o nome de Nightingale ganha importância na área da enfermagem a partir da sistematização de um campo de conhecimentos, instituindo-se “uma nova arte e uma nova ciência”, para a qual é preciso educação formal e organizada sobre bases científicas (DAHER, SANTO; ESCUDEIRO, 2002 apud OLIVEIRA; PAULA; FREITAS, 2007). O trabalho da enfermeira britânica Floresce Nightingale constituiu um marco para a história da enfermagem moderna. Atuou como enfermeira civil e voluntária na Guerra da Criméia (1854-1856), e, antes de sua chegada à região 1 Nesse modelo, os sacerdotes ou xamãs expulsavam os espíritos que causavam doenças. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 5 do conflito, os soldados encontravam-se no maior abandono. Poucos detinham os conhecimentos básicos para agir diante das emergências impostas, tanto que, durante essa guerra, a mortalidade entre os soldados chegou a 40%. Florence não conheciao conceito de contato por microrganismos, uma vez que este ainda não tinha sido descoberto, porém já acreditava em um meticuloso cuidado quanto à limpeza do ambiente e pessoal, ar fresco e boa iluminação, calor adequado, boa nutrição e repouso, com manutenção do vigor do paciente para a cura. Ao longo de toda a Guerra da Criméia, Florence conseguiu reduzir as taxas de mortalidade entre os soldados britânicos, através de seus esforços como enfermeira e provou a eficiência das enfermeiras treinadas para a recuperação da saúde. Diga-se de passagem, que até aquele momento, só homens e mulheres religiosos podiam cuidar dos soldados no exército. Florence ficou conhecida na história pelo apelido de “A dama da lâmpada”, pelo fato de servir-se deste instrumento para auxiliar na iluminação ao auxiliar os feridos durante a noite. Foi pioneira na utilização do Modelo biomédico, baseando-se na medicina praticada pelos médicos. Também contribuiu no campo da Estatística, sendo pioneira na utilização de métodos de representação visual de informações. As concepções teórico-filosóficas de enfermagem desenvolvidas por Nightingale tiveram como base observações sistematizadas e registros estatísticos extraídos de sua experiência prática no atendimento diário a doentes. Dessa vivência, foram obtidos quatro conceitos fundamentais: 1) ser humano, 2) meio ambiente, 3) saúde e 4) enfermagem. Esses conceitos, considerados revolucionários para sua época, foram revistos e ainda hoje se identificam com as bases humanísticas da enfermagem, tendo sido revigorados pela teoria holística (OLIVEIRA, PAULA, FREITAS, 2007). A história não para por aí... Segundo Oguisso (2005), as condições sanitárias do hospital de Scutari na Turquia, eram as piores possíveis, com excesso de feridos, muitos deitados no chão, poucos sanitários, falta de suprimentos para alimentação ou higiene e escassez de roupas, o que obrigava os pacientes a continuar com seus uniformes sujos de sangue e terra. Oguisso Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 6 ressalta ainda que, em dois meses, Nightingale colocou ordem no hospital de campanha, o que lhe valeu a reputação de administradora e reformadora de hospitais; em seis meses, ela havia reduzido a mortalidade entre os feridos a 2%. No Brasil, encontramos em Edith de Magalhães Fraenkel, a organizadora e primeira diretora da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Nascida no Rio de Janeiro (1889), neta de Benjamim Constant, e filha de cônsul, estudou na Alemanha, Suécia e Uruguai, dominando vários idiomas. Devido sua trajetória trazer muitos benefícios para o Brasil e para a classe, vamos falar um pouco sobre ela. Durante a primeira guerra, em 1918, fez o curso de Samaritana na Cruz Vermelha. Em 1920, fez o curso de visitadora na Inspetoria de Tuberculose do Departamento Nacional de Saúde Pública onde foi nomeada enfermeira-chefe. Edith Fraenkel candidatou-se e foi aceita em 1922 na Escola de Enfermagem do “Philadelphia General Hospital”, pela qual se diplomou em outubro de 1925. De volta ao Brasil, passou a lecionar na Escola Ana Néri2, onde permaneceu de 1925 a 1927, como instrutora e coordenadora do ensino. Em 1926 influiu na criação da Associação Nacional de Enfermeiras Diplomadas Brasileiras, hoje Associação Brasileira de Enfermagem (ABEN) da qual foi a primeira presidente de 1927 a 1938. Em 1927, foi nomeada enfermeira chefe do Departamento Nacional de Saúde Pública e no ano seguinte diretora da Divisão de Enfermeiras de Saúde Pública desse mesmo departamento. Em 1936, fundou no Rio de Janeiro a primeira Escola de Serviço Social a funcionar no Brasil. No ano de 1939, foi convidada pela Fundação Rockefeller para organizar e dirigir a Escola de Enfermagem a ser criada em São Paulo. Sua sábia e eficiente direção levou a Escola de Enfermagem de São Paulo a atingir, em poucos anos, padrão de ensino comparável ao das melhores instituições congêneres dos EUA. 2 Ana Nery nascida Ana Justina Ferreira (1814-1880), mãe de dois filhos, sendo um médico do Exército e foi sua inspiração para atuar como enfermeira na Guerra do Paraguai, daí a homenagem em colocar seu nome na primeira escola de enfermagem fundada no Brasil. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 7 Ao longo do século XX, várias escolas de enfermagem foram fundadas no Brasil, principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, assim como a Associação Brasileira de Enfermagem (ABEN). 2.2 Fundamentos e teorias Segundo Cianciarullo (2001), a enfermagem sempre se fundamentou em princípios, crenças, valores e normas tradicionalmente aceitas. A evolução da ciência, que possibilitou a compreensão da importância de pesquisar para constituir o saber, levou os enfermeiros a questionar esses preceitos tradicionais. No período de 1950, esse questionamento aumentou, fazendo surgir a necessidade de se desenvolver um corpo de conhecimento específico, o que seria possível somente pela elaboração de teorias próprias. Começando por alguns fundamentos que consideramos essenciais, temos a questão filosófica e os fundamentos teóricos da Sociopoética. Considerar o cuidado como a essência da profissão enfermagem conduz à reflexão sobre o compromisso dos profissionais de saúde com a orientação dos seus clientes centrada no autocuidado, o que pode se caracterizar como seu principal alvo no cotidiano de trabalho (GAUTHIER; HIRATA, 2001). Assim, considera-se também que pensar em saúde e em enfermagem é pensar em promoção da vida, com qualidade para vivê-la. Entende-se, dessa maneira, o saber/fazer que condiciona as ações e intervenções do profissional dessa área do conhecimento. A questão da implementação do processo de trabalho do(a) enfermeiro(a) volta-se, então, para a identificação de diagnósticos que lhe permite estabelecer um sistema de classificação de cuidados, demonstrando a necessidade de intervenções de enfermagem para o atendimento aos clientes. Defendemos, concordando com Santos et al. (2010), que a orientação principal para cuidar de pessoas considera a sua própria possibilidade de se tornar independente dos cuidados profissionais de baixa complexidade. Refere-se à responsabilidade pessoal de cada um na promoção de sua saúde, ou seja, no seu direito de bem viver a vida. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 8 A teoria de Nola Pender sobre o deslocamento do modelo assistencialista de saúde para uma perspectiva de comprometimento do cliente quanto ao seu bem-estar no decorrer de sua vida cabe muito bem neste momento. Portanto, a orientação de enfermagem para o autocuidado institui o exercício da cidadania para o profissional e promoção da independência do cliente (SANTOS et al., 2010). A exigência para esse comprometimento leva à reflexão de que é imprescindível à enfermagem reconstruir o seu modo de cuidar específico e, principalmente, desvinculadode um modelo que privilegia a cura de doenças que afetam as pessoas. Fazer enfermagem aplicando seu conhecimento específico ressalta o exercício da autonomia de saber dos(as) enfermeiros(as), bem como fortalece sua identidade profissional. Filosoficamente, podemos conjecturar que na enfermagem a prática é um saber tanto teórico como prático. A aplicação dos sentidos humanos, a intuição e a experiência no trato com a imprevisibilidade dos seres humanos ressaltam a cientificidade dos enfermeiros, ou seja, o reconhecimento de que suas habilidades contribuem para a construção de um novo paradigma científico (SANTOS, 1997). A arte de cuidar consolida-se na parceria profissional/cliente, pois cuidando com intenções e ações a partir do compartilhamento de saberes entre enfermeiro e cliente descaracteriza um cuidar vendo as pessoas apenas como objeto de trabalho (SANTOS et al., 2006). Cuidar em enfermagem é a busca de integração, espaço institucional e liberdade, desafiando o medo do desconhecido e enfrentando riscos inerentes ao crescimento. Os desafios do cuidar assumindo o verdadeiro papel profissional conduzem o enfermeiro e o cliente à sua autonomia (TAVARES, 1998). Além dessas concepções, considera-se que, para implementar uma perspectiva que torne viável a parceria cliente/profissional na promoção de suas vidas com bem-estar, é necessário pensar em outras concepções aplicáveis a uma ciência que, ao se reconstruir a cada dia, acrescenta mais sensibilidade ao seu desenvolvimento. Desse modo, reflete-se sobre a enfermagem no sentido de que sua cientificidade pode ser estabelecida através dessa sensibilidade impregnada no seu saber/fazer e em produzir conhecimentos. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 9 Assim, encontramos na sociopoética uma abordagem no conhecimento do homem como ser político e social, que tem como princípios filosóficos: 1) a importância do corpo como fonte de conhecimento; 2) a importância das culturas dominadas e de resistência e dos conceitos que elas produzem; 3) o papel dos sujeitos de investigação como corresponsáveis pelo conhecimento produzido; 4) o papel da criatividade no aprender, no conhecer e no investigar; 5) a importância do sentido espiritual, humano, das formas e conteúdos do processo da construção do conhecimento (SANTOS et al., 2005). O criador da sociopoética, Jacques Gauthier, esclarece que essa abordagem é, também, um desenvolvimento da Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire (2006), caracterizando um amadurecimento da filosofia dialógica desse grande educador brasileiro ao enfatizar que não devemos dizer ou impor ao povo nossa visão de mundo, mas sim, adotar uma postura de respeito mútuo e intercâmbio entre conhecimentos intelectuais e populares. Observando-se como acontece a interação entre cliente e profissional, indispensável ao cuidar, reflete- se que, ideologicamente, na enfermagem existe concordância com essa postura dialógica. Por ser a enfermagem uma profissão privilegiada devido à proximidade dos profissionais com as pessoas nos seus momentos de sofrimento e/ou prazer, pode-se parodiar a assertiva de Augusto Boal: o cuidar em enfermagem é a arte de nos vermos humanos nos seres humanos; é a arte de aprender a viver, vivendo com a nossa humanidade (SANTOS et al., 2010). A Escuta Sensível, teorizada por René Barbier, é outra prática que vem sendo adotada como uma tecnologia de apoio para Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), proporcionando resultados caracterizados em diagnósticos de impossível obtenção quando se emprega apenas tecnologias duras-leves, através de equipamentos e aparelhos (CORRÊA, SANTOS, ALBUQUERQUE, 2008). Portanto, a proposta de Barbier facilita a expressão de subjetividade que ajuda na reconstituição do equilíbrio físico, mental e espiritual do cliente, sendo assim reconhecida na enfermagem como Escuta Terapêutica. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 10 A Escuta Terapêutica pode ser definida como a capacidade de sentir o universo afetivo, imaginário e cognitivo do outro, possibilitando-lhe a compreensão do que se expressa a partir do mais profundo e interior do ser humano, as atitudes e os comportamentos, o sistema de ideias, de valores, de símbolos e de mitos (BARBIER, 2002). Enfim, essa modalidade de escuta torna-se uma tecnologia a ser empregada na ciência do sensível que é a enfermagem, quando desenvolvida em um paradigma estético, passando a orientar os princípios filosóficos que simultaneamente os sociopoetas seguem. A utilização dessa tecnologia no cuidar recorda uma humanidade refletida e assumida, pois, segundo o autor da escuta sensível, uma pessoa só existe pela presença de um corpo, de uma imaginação, de uma razão, de uma afetividade em permanente interação. Daí que os sentidos corporais humanos são desenvolvidos na pesquisa sociopoética quando se aplica a escuta sensível. Tais sentidos, junto às emoções, sensibilidade, sentimentos, intuição e razão, corroboram um dos cinco princípios sociopoéticos que devem permear o universo do enfermeiro (SANTOS et al., 2010). Rolim, Pagliuca e Cardoso (2005 apud OLIVEIRA; PAULA; FREITAS, 2007) afirmam que a teoria no campo da enfermagem foi fundamentada na prática profissional. Elas constituem um modo sistemático de olhar o mundo para descrevê-lo, explicá-lo, prevê-lo ou controlá-lo. Dessa forma que a teoria de enfermagem é definida como uma conceitualização articulada e comunicada da realidade, inventada ou descoberta, com a finalidade de descrever, explicar, prever ou prescrever o cuidado de enfermagem. Chinn e Kramer, Hickman, Carraro (s.d apud CARVALHO; DAMASCENO, 2003) defendem que as teorias de enfermagem promovem a identidade profissional, pois constituem a base na qual o profissional de enfermagem se apoia para explicar seu trabalho. Igualmente para Almeida, Lopes e Damasceno (2005), o uso de teorias na Enfermagem reflete um movimento da profissão em busca da autonomia e da Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 11 delimitação de suas ações. Torna-se, portanto, de extrema relevância que as teorias possam ser analisadas quanto à sua aplicabilidade na prática. Para Cianciarullo (2001), as reflexões e a observação da prática conduziram à conclusão de que, no universo da enfermagem, os fenômenos e os conceitos centrais eram os seres humanos, o ambiente, a saúde e a própria enfermagem, ou seja, a ação profissional. Todos os modelos conceituais ou teorias foram construídos pelo relacionamento desses conceitos, e sua publicação data, majoritariamente, das décadas de 1960 e 1970. De modo geral, a enfermagem tem utilizado teorias lançadas fora do âmbito da enfermagem como base de sustentação para o desenvolvimento de suas próprias teorias. Entre as que foram elaboradas fora da enfermagem e que têm sido aplicadas a esse campo, a fim de oferecer explicações para as relações entre homem, ambiente, saúdee enfermagem e guiar o processo de enfermagem, estão: a teoria de sistemas; da tensão e adaptação; do crescimento e desenvolvimento e do ritmo. No que tange à Teoria das Relações Interpessoais de Peplau, pode-se dizer que seus fundamentos são as do crescimento e desenvolvimento, como os estudos de Erick Fromm e, sobretudo, a Teoria Interpessoal de Harry Stack Sullivan (GEORGE, 2000). De forma geral, essas teorias adotam como pressuposto básico que o crescimento e o desenvolvimento humanos ocorrem de forma gradual até a realização do seu potencial máximo. O crescimento é entendido como um aumento relacionado ao tamanho e formas físicas, ordenado e com tendências regulares em seu direcionamento, mas que acontece para cada pessoa em um padrão único influenciado por fatores intrínsecos e extrínsecos. O desenvolvimento, por outro lado, refere-se a mudanças funcionais no indivíduo, mais de caráter qualitativo, e que também recebem influências internas e externas (LEDDY; PEPPER, 1989 apud ALMEIDA, LOPES, DAMASCENO, 2005). A importância desta teoria reside no fato de que o profissional passa pelas fases de orientação, identificação, exploração e resolução do problema na qual a enfermagem desenvolve diferentes papéis para auxiliar o paciente no Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 12 desenvolvimento de suas necessidades, até que esse esteja pronto a assumir uma atuação independente da enfermagem (ALMEIDA, LOPES, DAMASCENO, 2005). A teoria de enfermagem do déficit de autocuidado (teoria geral de enfermagem de Dorothea Orem) é composta de três teorias inter-relacionadas, ou seja, a teoria do autocuidado, a teoria do déficit de autocuidado e a teoria dos sistemas de enfermagem. Incorporados a essas três teorias, Orem preconiza seis conceitos centrais e um periférico. Os seis conceitos centrais são: i) autocuidado; ii) ação de autocuidado; iii) déficit de autocuidado; iv) demanda terapêutica de autocuidado; v) serviço de enfermagem e vi) sistema de enfermagem (DIÓGENES E PAGLIUCA, 2003). O conceito periférico, a autora denominou de fatores condicionantes básicos, que é relevante para a compreensão de sua teoria geral de enfermagem (GEORGE, 2000). i) A Teoria do autocuidado: Para se entender a teoria do autocuidado, é necessário definir os conceitos relacionados, como os de autocuidado, ação de autocuidado, fatores condicionantes básicos e demanda terapêutica de autocuidado. Autocuidado é a atividade que os indivíduos praticam em seu benefício para manter a vida, a saúde e o bem-estar. Ação de autocuidado é a capacidade de o homem engajar- se no autocuidado. Os fatores condicionantes básicos seriam a idade, o sexo, o estado de desenvolvimento, o estado de saúde, a orientação sociocultural e os fatores do sistema de atendimento de saúde. Na teoria do autocuidado incorpora-se o conceito dos requisitos de autocuidado: universais, desenvolvimentais e desvio de saúde. Os requisitos universais são comuns aos seres humanos, auxiliando-os em seu funcionamento, estão associados com os processos da vida e com a manutenção da integridade da estrutura e do funcionamento humano. Os requisitos desenvolvimentais ocorrem quando há a necessidade de adaptação às mudanças que surjam na vida do indivíduo. Os requisitos por desvio de saúde acontecem quando o indivíduo em estado patológico necessita adaptar-se a tal situação. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 13 Os requisitos para o autocuidado por desvio de saúde são: � busca e garantia de assistência médica adequada; � conscientização e atenção aos efeitos e resultados de condições e estados patológicos; � execução de medidas prescritas pelo médico e conscientização de efeitos desagradáveis dessas medidas; � modificação do autoconceito (e da autoimagem) na aceitação de si como estando num estado especial de saúde; � aprendizado da vida associado aos efeitos de condições e estados patológicos, bem como de efeitos de medidas de diagnósticos e tratamentos médicos, num estilo de vida que promova o desenvolvimento contínuo do indivíduo. Os requisitos de autocuidado são: � manutenção e ingesta suficiente de ar, água e alimento; � a provisão de cuidados com eliminação e excreção; � manutenção de um equilíbrio entre atividade e descanso, entre solidão e interação social; � a prevenção de riscos à vida, ao funcionamento e ao bem-estar humano; � a promoção do funcionamento e desenvolvimento humano, em grupos sociais, conforme o potencial humano, limitações humanas conhecidas e o desejo de ser normal (GEORGE, 2000). ii) A teoria do déficit do autocuidado: O déficit de autocuidado ocorre quando o ser humano se acha limitado para prover autocuidado sistemático, necessitando de ajuda de enfermagem. Constitui a essência da teoria geral de enfermagem de Orem, pois possibilita apontar a necessidade de enfermagem. Justifica-se quando o indivíduo acha-se incapacitado ou limitado para prover autocuidado contínuo e eficaz. Orem identifica cinco métodos de ajuda, no déficit de autocuidado: agir ou fazer para o outro, guiar o outro, apoiar o outro (física ou psicologicamente), proporcionar um ambiente que promova o desenvolvimento pessoal, quanto a se tornar capaz de satisfazer demandas futuras ou atuais de ação, ensinar o outro. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 14 iii) A teoria de sistemas de enfermagem: A teoria de sistemas de enfermagem é dividida em sistema totalmente compensatório, quando o ser humano está incapaz de cuidar de si mesmo, e a enfermagem o assiste, substituindo-o, sendo suficiente para ele. Sistema parcialmente compensatório, quando a enfermagem e o indivíduo participam na realização de ações terapêuticas de autocuidado. iv) O sistema de apoio-educação é quando o indivíduo necessita de assistência na forma de apoio, orientação e ensinamento (GEORGE, 2000). O enfermeiro é um profissional treinado e experiente que pode proporcionar cuidados de enfermagem para pessoas que necessitam de cuidados especiais, beneficiando-as. Os quatro principais conceitos dessa teoria são: ser humano, saúde, sociedade e enfermagem em seu trabalho. O ser humano se diferencia dos outros seres vivos porque tem a capacidade de refletir sobre si mesmo e o ambiente que o cerca (DIÓGENES, PAGLIUCA, 2003). Quanto ao conceito de saúde, sustenta a definição da Organização Mundial de Saúde, “como estado mental e social e não apenas a ausência de doença ou da enfermidade” (FOSTER, BENETT, OREM, 2000, p. 89). A saúde tem por base a prevenção da saúde, incluindo a promoção e manutenção da saúde, o tratamento da doença e prevenção de complicações. Ou seja, a prevenção primária, a secundária e terciária, respectivamente. Em se tratando de sociedade, atualmente acredita-se que as pessoas adultas sejam responsáveis por si e pelo bem-estar de seus dependentes (GEORGE, 2000). No processo de trabalho da enfermagem, o enfermeiroé o profissional que poderá ajudar o indivíduo, promovendo interação mútua através da consulta de enfermagem, abordagem com a família envolvendo-a no tratamento, reuniões de grupos, orientando-os e levando-os a aprenderem como realizar práticas de autocuidado. A teoria geral de Orem proporciona a visão do fenômeno da enfermagem permitindo que o enfermeiro juntamente com o indivíduo implementem ações de Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 15 autocuidado adaptadas de acordo com as suas necessidades, de maneira que a relação de ajuda se expresse no diálogo aberto e promova o exercício do autocuidado. Já a Teoria de Martha Rogers, é uma teoria dedutiva, que parte do geral para o particular, substantiva, usa modelos de abrangência universal, e predicativa, descreve, especifica e prediz o fenômeno. Utiliza linguagem geral, científica e simbólica e o homem é visto como um todo – ser biológico, psicológico, sociocultural e espiritual. Embora não apresente procedimentos ou o processo de enfermagem, utiliza como instrumentos e valores, a imaginação e a criatividade. Para Rogers, a enfermagem é uma ciência e uma arte, tendo como objetivo o cuidar das pessoas para que atinjam seu potencial máximo de saúde, e busca o preenchimento das necessidades humanas. O(a) enfermeiro(a) é um agente de mudanças; sendo que esse profissional de amanhã será diferente dos de hoje, o de hoje é diferente dos passados. A Teoria do Cuidado Transcultural citada por Leininger (1985 apud BRAGA, 1997) enfatiza que há diversidades no cuidado humano, com características que são identificáveis e que podem explicar e justificar a necessidade do cuidado transcultural de enfermagem, de forma que este se ajuste às crenças, valores e modos das culturas, para que um cuidado benéfico e significativo possa ser oferecido. Os atos do cuidado cultural que são congruentes com as crenças e valores do cliente são considerados como sendo o conceito mais significativo, unificador e dominante para se conhecer, compreender e prever o cuidado terapêutico popular. O cuidado baseado culturalmente é o fator principal e significativo na afirmação da Enfermagem como curso e como profissão, e no fornecimento e manutenção da qualidade do cuidado de enfermagem prestado aos indivíduos, às famílias e aos grupos comunitários. Leininger (1983 apud BRAGA, 1997) declara o cuidado como centro, único e dominante, foco característico da Enfermagem. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 16 O cuidado cultural, ainda referendando a autora, significa avaliação consciente e um esforço deliberado para usar valores culturais, crenças, modo de vida de um indivíduo, família ou grupo comunitário, para fornecer auxílio significativo para estas necessidades de cuidado nos serviços de saúde. Leininger (1984, p. 42), segundo Braga (1997), refere que culturalmente, as ações de cuidado de enfermagem e intervenções são previsíveis para manter a saúde do cliente, fornecer satisfação e ajudá-lo a se recuperar de doenças ou incapacidades. O cuidado culturalmente congruente pode também ajudar clientes face à morte de modo significativo e pacífico. Desta forma, a Enfermagem tem como foco segundo Leininger, o estudo da análise comparativa de diferentes culturas ou subculturas no que diz respeito ao comportamento relativo ao cuidado em geral, ao cuidado de enfermagem, assim como aos valores, crenças e padrões de comportamento relacionados à saúde e doença (GUALDA; HOGA, 1992). Essa autora afirma ainda que o objetivo da enfermagem transcultural vai além da apreciação de culturas diferentes, mas de tornar o conhecimento e a prática profissional culturalmente embasada, conceituada, planejada e operacionalizada. Se aqueles que praticam a enfermagem não considerarem os aspectos culturais da necessidade humana, suas ações poderão ser ineficazes e trazer consequências desfavoráveis para os assistidos. Os pressupostos básicos da Enfermagem Transcultural e que desafiam a Enfermagem a descobrir em profundidade o fenômeno do cuidado, são: � o cuidado humano é um fenômeno universal, mas a expressão, o processo e o modelo variam entre as culturas; � cada situação de cuidado de enfermagem tem comportamento no cuidado transcultural, necessidades e implicações; � o ato e processo de cuidar são essenciais para o desenvolvimento humano, crescimento e sobrevivência; � o cuidado poderá ser considerado a essência e unificação intelectual e dimensão prática do profissional de enfermagem; Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 17 � o cuidado tem dimensões biofísicas, psicológicas, culturais, sociais e ambientais, as quais puderam ser estudadas, praticadas no sentido a prover cuidado holítisco para as pessoas; � o comportamento de cuidado transcultural, formas e processos, tem ainda que ser verificado em diversas culturas, quando este corpo de conhecimento é obtido, tendo potencial para revolucionar a prática diária da enfermagem; � para fornecer cuidado de enfermagem terapêutico, a enfermeira poderá ter conhecimento de valores culturais, crenças e práticas dos clientes; � os comportamentos de cuidados e funções variam de acordo com características da estrutura social de determinada cultura; � a identificação de comportamento universal e não universal, cuidado popular e cuidado profissional, crenças e práticas, serão importantes para o avanço do corpo de conhecimentos de Enfermagem; � há diferenças entre a essência e as características essenciais de cuidado e comportamentos de cura e processos; � não existe cura sem cuidado, mas pode existir cuidado sem cura (BRAGA, 1997). Desde que escreveu seu primeiro livro, em 1979, a enfermeira Jean Watson, passou a ser considerada pioneira no estudo da enfermagem como uma disciplina científica que une a racionalidade e a sensibilidade. A teoria sobre o Cuidado Transpessoal faz de Jean Watson, a mãe de um novo paradigma em cuidados de saúde, pois conforme ela explica: Em vez de um enfermeiro ministrar analiticamente um tratamento a um doente, quer-se que o técnico de saúde saiba comunicar, interagir, conhecer para então depois proporcionar o cuidado necessário. O objetivo é a cura global do paciente e a satisfação do prestador de ajuda (BASTOS, 2009). No fundo, o que se perspectiva neste novo paradigma, segundo ela “é saber responder às necessidades de cada doente, é ter de recorrer a um complexo altamente criativo para encontrar as melhores soluções”. Soluções que, tem levado departamentos e mesmo hospitais a adotarem novos comportamentos por parte do seu corpo de enfermeiros (as). Há preocupação com uma mudança de valores, unindo racionalidade e sensibilidade e tornando a enfermagem um Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicosou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 18 processo interativo entre quem cuida e quem é cuidado. Jean Watson afirma que não se pode dissociar a prática da enfermagem sem outras áreas de conhecimento como a filosofia, a teologia, a educação, a psicologia ou a antropologia. A perspectiva humanística do cuidado quer abandonar o modelo do diagnóstico da doença e buscar a humanidade da cura, equacionando-se as suas dimensões psicológicas, espirituais e socioculturais. Encontrar o equilíbrio, “o centro”, como diz, entre corpo e mente deverá ser a meta de qualquer intervenção em saúde. Nesta importante profissão de cuidar-curar, a enfermagem assume um papel ainda mais importante: a enfermagem detém a única profissão em que acaba por ser o elo de ligação entre o hospital, os médicos e a família. É preciso interromper o atual padrão de funcionamento da enfermagem. É preciso encontrar novas formas de cuidar. É preciso criar um novo ambiente de cura, essa é a verdade! Para Watson (1988 apud RIBEIRO, 2005), o cuidar é visto como um ideal moral da enfermagem. É, sobretudo, a essência da enfermagem, sendo característica fundamental a preservação da dignidade humana. Reflete também, que o cuidado manifesta-se no encontro das pessoas que estão envolvidas no ato de cuidar, ou seja, na reciprocidade entre a equipe de enfermagem e a pessoa cuidada. Assim, o cuidado está relacionado com a interação entre seres humanos através da intersubjetividade, permitindo um encontro real e autêntico entre quem cuida e é cuidado, transcendendo o mundo meramente físico e material, fazendo contato com o mundo emocional e subjetivo da pessoa. Chistóforo e cols. (2006, p. 59 apud BASTOS, 2009) complementam que a relação de cuidado em enfermagem é uma relação humana, o que consequentemente implica a conjugação de dois seres humanos totalmente diferentes, uma vez que cada pessoa representa um universo inimaginável e irrepetível, que se rege por sentimentos, percepções, pensamentos, emoções e necessidades. Segundo Jean Watson, os fatores importantes no cuidar são: � praticar o amor; � praticar a amabilidade; Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 19 � praticar a coerência dentro de um contexto de cuidado consciente; � ser autêntico; � estar presente; � ser capaz de praticar e manter um sistema profundo de crenças e um mundo subjetivo de sua vida e do ser cuidado; � cultivar suas próprias práticas espirituais e transpessoais de ser, mas além de seu próprio ego, aberto a outros com sensibilidade e compaixão; � desenvolver e manter uma autêntica relação de cuidado, de ajuda e confiança; � estar presente e dar apoio na expressão de sentimentos positivos e negativos, como uma conexão profunda com o espírito do ser e do ser que cuida do outro; � uso criativo do ser, de todas as formas de conhecimento, como parte do processo de cuidado para comprometer-se artisticamente com as práticas de cuidado e proteção; � comprometer-se de maneira genuína em uma experiência de prática de ensino e aprendizagem; � criar um ambiente protetor em todos os níveis, onde se está consciente do todo, da beleza, do conforto, da dignidade e da paz; � assistir às necessidades humanas conscientemente, administrando um cuidado humano essencial, o qual potencializa a aliança mente corpo, espírito; � estar aberto e atento à espiritualidade e à dimensão existencial de sua própria vida. Falamos de algumas teorias, mas ressaltamos que existem muitas outras e que estas, expostas até o momento, mereciam aprofundamento, portanto, consultem as referências ao final da apostila e boas leituras. 2.3 O ambiente hospitalar A origem da palavra “hospital” vem do latim hospitalis, que significa hospitaleiro, acolhedor. Na realidade é um adjetivo de hospes, que significa hóspede, estrangeiro, viajante (BORBA; LISBOA, 2006). Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 20 Estes termos: hospital e ospedale surgiram do latim primitivo, mas nos primórdios da Era Cristã, quando se pretendia identificar o lugar onde ficavam doentes era comumente chamado de nosocomium, e a recepção de doentes = nosodochium, palavras de origem grega. Watanabe (2007) afirma que, desde a Antiguidade, o hospital mantinha uma forte ligação com a igreja, e, também, uma forte vocação altruísta de acolher pessoas, que naqueles tempos já eram marginalizadas pela sociedade vigente, podendo estes ser pobres, órfãos ou peregrinos. Com o passar dos séculos, foi tomando outro sentido, ou seja, assumiu a função de recepcionar e tratar doentes. Atualmente, o hospital é parte integrante de uma organização Médica e Social, cuja função básica consiste em proporcionar à população assistência médica sanitária completa, tanto curativa como preventiva, sob qualquer regime de atendimento, inclusive o domiciliar, cujos serviços externos irradiam até o âmbito familiar, constituindo-se também, em centro de educação, capacitação de Recursos Humanos e de Pesquisas em Saúde, bem como de encaminhamento de pacientes, cabendo-lhe supervisionar e orientar os estabelecimentos de saúde a ele vinculados tecnicamente. Podemos assim agrupar as funções hospitalares: � prestação de atendimento médico e complementares aos doentes em regime de internação; � desenvolvimento, sempre que possível, de atividades de natureza preventiva; � participação em programas de natureza comunitária, procurando atingir o contexto Sócio Familiar dos pacientes, incluindo aqui a educação em saúde, que abrange a divulgação dos conceitos de promoção, proteção e prevenção da saúde (GONÇALVES, 1983). As regras que hoje ditam os rumos profissionais obrigaram o mercado a tomar inúmeras ações que vem modificando totalmente o sentido da atenção médica, especialmente nos últimos dez anos. Por um lado, a população tem se conscientizado dos seus direitos enquanto consumidores, ou seja, usuários de serviços, e por outro, alertou os hospitais, quer sejam públicos ou privados, de que precisavam reconhecer a necessidade de melhorar os seus serviços, otimizar os seus recursos e buscar profissionais cada vez mais capacitados. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 21 No segmento privado, estas alterações são ainda mais evidentes, pois os resultados comerciais são diretamente afetados pela concorrência, cada vez mais acirrada. Evidentemente, em um país em desenvolvimento, como o Brasil, nem sempre os projetos andam linearmente, dentro dos esquemas previstos. Porém, nota-se cada vez mais que as entidades buscam de todas as formas não apenas se atualizar em termos de tecnologia, mas também aprimorar ao máximo sua equipe profissional, de tal forma que o serviço oferecido à população seja o melhor possível. Para Teixeira (1983), o Administrador no hospital tem menos autoridade e poder queem outras organizações, porque o hospital não pode ser organizado com base em uma linha única de autoridade. A coexistência de linhas de autoridade legal, profissional e mista gera muitos problemas administrativos. Ele tem quatro centros de poder, a diretoria superior, os médicos, a administração e os demais profissionais, entre os quais destaca-se a enfermagem. Entretanto, numa contradição, a organização formal dos hospitais, de modo geral, mostra que a direção superior tem toda a autoridade e a responsabilidade pela instituição. A diretoria delega ao administrador a gerência do dia-a-dia da instituição, o qual delega às chefias dos serviços sua autoridade de comando. O corpo clínico do hospital pode estar subordinado ao diretor e/ou administrador e o médico tem grande autonomia no seu trabalho e também autoridade profissional sobre outros na organização. Tal processo varia entre os tipos de hospitais. Também é fato que o hospital tem pouco controle sobre seus públicos, principalmente os médicos e os pacientes. O trabalho hospitalar é diversificado e com pouca padronização. São pessoas cuidando de pessoas, participando ativamente do processo produtivo (TEIXEIRA, 1983). Os serviços de atenção e tratamento são personalizados a cada paciente. Nas situações de emergência, a instituição tem pouca tolerância aos erros. O valor econômico do produto organizacional é secundário ao valor social humanitário. É uma organização especializada, departamentalizada e profissionalizada, que não pode funcionar efetivamente sem uma coordenação Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 22 interna, motivação, autodisciplina e ajustes informais e voluntários de seus membros. A coordenação de esforços e atividades é importante pela interdependência do trabalho que deve ser realizado. Esse é, em linhas gerais, o ambiente hospitalar em termos de estrutura macro, o básico que precisamos saber para atuar enquanto corpo de enfermagem. 2.4 O estresse profissional Vários autores consideram, com razão, a Enfermagem como uma profissão estressante, devido à vivência direta e ininterrupta do processo de dor, morte, sofrimento, desespero, incompreensão, irritabilidade e tantos outros sentimentos e reações desencadeadas pelo processo doença (BATISTA; BIANCHI, 2006). Se pensarmos nas unidades de emergência, é exigido do enfermeiro, aumento da carga de trabalho e maior especificidade nas suas ações na prestação de suas tarefas. Os maiores estressores citados nesta área são: � número reduzido de funcionários; � falta de respaldo institucional e profissional; � carga de trabalho; � necessidade de realização de tarefas em tempo reduzido; � indefinição do papel do profissional; � descontentamento com o trabalho; � falta de experiência por parte dos supervisores; � falta de comunicação e compreensão por parte da supervisão de serviço; � relacionamento com os familiares; � ambiente físico das unidades; � tecnologia de equipamentos; � assistência ao paciente e situação de alerta constante, devido a dinâmica do setor (BATISTA; BIANCHI, 2006). Ainda existe, mesmo que entrelinhas, a dupla jornada de trabalho, os profissionais da enfermagem se obrigam a trabalhar em mais de uma instituição Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 23 para aumento da renda familiar, além disso, o trabalho em turnos é uma característica da enfermagem, uma vez que a assistência é prestada 24 horas. A verdade é que todas essas condições obrigam que o profissional trabalhe a noite, nos fins de semana e feriados, limitando assim, sua vida social (PAFARO; MARTINO, 2004). Já ao pensarmos nas Unidades de Terapia Intensiva, a atenção deve ser redobrada; as habilidades, assim como a responsabilidade requerida são específicas; o senso de ajuda, a concentração, a habilidade em tomar decisões, somam-se para construir o corpo de profissionais que ali atuam. Os profissionais que trabalham na área de saúde apresentam acentuado risco ocupacional, considerando o estresse, por conviver constantemente com situações de sofrimento, depressão, dor, tragédia, etc. A enfermagem vive uma realidade de trabalho cansativo e desgastante gerada pela diversidade, intensidade e simultaneidade de exposição a cargas físicas, químicas, mecânicas, fisiológicas e psíquicas. Este ambiente de trabalho turbulento e conflitante colabora para o aparecimento do estresse que geralmente o profissional demora em perceber seu adoecimento. Por vezes, envolvido pela rotina do setor, a qualidade do atendimento acaba por tornar-se insatisfatório pelo paciente (HARBS; RODRIGUES; QUADROS, 2007). O estresse caracteriza-se por uma resposta adaptativa do organismo frente a novas situações, especialmente àquelas entendidas como ameaçadoras. É considerado um processo individual, com variações sobre a percepção de tensão e manifestações psicopatológicas diversas. No âmbito laboral, pode produzir uma diversidade de sintomas físicos, psíquicos e cognitivos, por requerer respostas adaptativas prolongadas para tolerar, superar ou se adaptar a agentes estressores, os quais podem comprometer o indivíduo e as organizações (PASCHOALINI et al., 2008). De acordo com Stacciarini e Troccoli (2001), a palavra estresse tem sido muito recorrida, associada a sensações de desconforto, sendo cada vez maior o número de pessoas que se definem como estressadas ou relacionam a outros indivíduos na mesma situação. O estresse é quase sempre visualizado como algo negativo que ocasiona prejuízo no desempenho global do indivíduo. Estressor é Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 24 uma situação ou experiência que gera sentimentos de tensão, ansiedade, medo ou ameaça que pode ser de origem interna ou externa. O estresse não deve ser entendido como uma condição estática, pois é um fenômeno bastante complexo e dinâmico. Para Clarke (1984 apud STACCIARINI; TROCCOLI, 2001), o estresse é difícil de conceituar e pode ser entendido de três formas distintas: a) como estímulo; b) como resposta; ou, c) como interação ou transação entre ambiente interno e externo do indivíduo. Admite-se estas três questões envolvidas na conceituação, segundo distintas abordagens: a) como estímulo, com o enfoque no impacto dos estressores; b) como resposta, quando examina a tensão produzida pelos estressores; e, c) como processo, quando entendido a partir da interação entre pessoa e ambiente. O estresse é um processo psicológico e a compreensão dos eventos estressantes é afetada por variáveis cognitivas; não é a situação nem a resposta da pessoa que define o estresse, mas a percepção do indivíduo sobre a situação (MONAT; LAZARU, 1977 apud STACCIARINI; TROCCOLI, 2001). De acordo com Isaacs (1998), estresse pode ser definido como: � sobrecarga a uma pessoa que requer ajustes ou adaptações; � estímulo ou situação que produz desconforto; � síndrome que consiste em respostas inespecíficas induzidasno organismo, denominada síndrome geral da adaptação, apresentando três estágios: (a) reação de alarme: as defesas corporais são mobilizadas quando o sistema nervoso simpático e o sistema endócrino reagem ao estresse ativando uma grande quantidade de adrenalina e cortisona; (b) estágio de resistência: as respostas adaptativas tentam limitar os danos causados pelo agente estressor; (c) estágio de exaustão: isso pode ocorrer se a tentativa de adaptação do corpo não é bem sucedida; � relação entre pessoa e ambiente avaliada pela pessoa como superando seus recursos e colocando em risco seu bem-estar. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 25 Já Montanholi, Tavares e Oliveira (2006) consideram estresse como sendo resultante da percepção entre a discordância das exigências de determinadas tarefas e os recursos pessoais para cumpri-las. Uma pessoa pode sentir tal discordância como desafio e, em consequência, reagir dedicando-se à tarefa. Ao contrário, se a discordância é percebida como ameaçadora, o trabalhador enfrentará uma situação estressante negativa, que poderá conduzi-lo a evitar a tarefa. De acordo com Coronnetti et aI (2006), o estresse não é uma doença, é o estado do organismo quando submetido à tensão. Numa situação estressante, o corpo sofre reações químicas. Em excesso, isso pode prejudicar o organismo. O estresse pode atuar sobre várias partes do corpo: � cérebro – o cérebro produz uma família de substâncias conhecidas como opiaceos, responsável pela sensação de bem-estar, e serotonina, que faz o corpo relaxar. Submetido ao estresse, o cérebro diminui a produção das duas. Com isso, a pessoa torna-se irritável e, às vezes, insone; � maxilares – a pessoa estressada costuma ranger os dentes, o que pode desgastá-los e deslocar a mandíbula a ponto de pressionar os nervos da face. Isso produz zunidos nos ouvidos e até tontura; � glândulas – fabricam adrenalina, que mantém o corpo alerta, e cortisol, que energiza os músculos; � suprarrenais – fabricam adrenalina, que mantém o corpo alerta, e cortisol, que energiza os músculos. Em excesso, o cortisol reduz a resistência às infecções. Pode causar morte de neurônios, envelhecimento cerebral e perda de memória; � coração – a noradrenalina, produzida nas suprarrenais, acelera os batimentos cardíacos, provoca uma alta de pressão arterial e, quando produzida durante longos períodos, sobrecarrega o músculo cardíaco; � pulmões – a tensão acelera a respiração. Para quem sofre de asma, pode desencadear crises; � pele – sob estresse, os vasos sanguíneos periféricos - mais próximos da pele contraem-se e são menos irrigados. Se o estresse é constante, o envelhecimento é mais rápido; Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 26 � estômago – o cérebro ordena ao estômago que produza os ácidos do suco gástrico. O excesso de acidez, unido à queda de resistência a infecções, pode provocar úlceras e gastrite; � mãos – um dos maiores indicadores de tensão é suar frio nas mãos e nos pés; � órgãos sexuais – nas mulheres, o estresse diminui os níveis de progesterona, podendo causar queda da libido e distúrbios que causam cólicas horríveis no período menstrual. Nos homens, os efeitos do estresse podem prejudicar o desempenho sexual; � articulações – situações de estresse podem desencadear crises em pessoas que sofrem de artrite e reumatismo. O mecanismo que as causa, porém, ainda não está totalmente esclarecido (BOTTO, 2009). Os principais sintomas de estresse, destacados por Montanholi, Tavares e Oliveira (2006), são: suor, calores, dor de cabeça, tensão muscular, alteração no batimento cardíaco, dores de estômago, colite e irritação. O estresse pode também se refletir em atrasos, insatisfação, sabotagem e baixos níveis de desempenho no trabalho. Com isso, haverá uma diminuição da qualidade de vida da pessoa. Com relação à enfermagem, o estresse está presente no seu cotidiano desde tempos remotos. Vimos que o trabalho de enfermagem apresenta várias vicissitudes do viver humano, pois esses profissionais lidam, de modo constante, com a vida, a saúde, a doença e a morte. Isso é vivenciado de modo intenso em setores de urgência, emergência e terapia intensiva, onde as atividades envolvem atenção, habilidade e agilidade. Para Paschoalini et al. (2008), a atividade laboral hospitalar é caracterizada por excessiva carga de trabalho, contato com situações limite, alto nível de tensão e de riscos para si e para outros. Inclui problemas de relacionamento interpessoal entre indivíduos que prestam assistência direta aos pacientes e preocupações com demandas institucionais. Contudo, não se tem conhecimento de estudos que investiguem, de forma integrada, indicadores de alterações cognitivas e emocionais frente aos agentes estressores que afetam o exercício profissional na área da enfermagem. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 27 Os trabalhadores de enfermagem, além de enfrentarem no seu dia a dia, situações limites, e em especial o cuidado de pacientes críticos, convivem em um ambiente de trabalho com riscos resultantes de agentes químicos, físicos, biológicos e psíquicos, capazes de causar danos à saúde em função de uma natureza, concentração ou intensidade e tempo de exposição. Desse modo, ao estabelecer a relação entre estresse e fatores de risco presentes no ambiente de trabalho, entende-se o fator de risco como uma característica ou circunstância detestável em indivíduos ou em grupos, associada à probabilidade de experimentar um dano à saúde e suas consequências (SANTOS, OLIVEIRA, MOREIRA, 2006). As condições de trabalho, principalmente no que se refere aos parcos recursos materiais e humanos, desencadeiam um grau significativo de estresse, uma vez que a inexistência de condições dignas de trabalho promove o sofrimento, quando a organização não atende aos padrões mínimos de higiene, saúde e segurança (LIMA; TEIXEIRA, 2007). Portanto, é imprescindível atentar para os riscos aos quais os profissionais de enfermagem estão expostos no seu exercício do cuidar de pessoas doentes, com vistas à melhoria da qualidade do cuidado que presta à sua clientela e à sua própria saúde. As chefias precisam estar abertas às queixas dos trabalhadores e em constante relação dialógica, de forma a intervir mais prontamente sobre os estressores gerados no trabalho, minimizando seus efeitos sobre a saúde individual e coletiva (DE MARTINO; MISKO, 2004). Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 28 UNIDADE 3 – HUMANIZAÇÃO 3.1 Conceitos e importância Humanizar na maioria dos dicionários se reporta a ‘adocicar’,‘suavizar’, ‘civilizar’. Embora façamos relações mais pertinentes adiante entre humanização e ética, no campo das políticas públicas de saúde, ‘humanização’ diz respeito à transformação dos modelos de atenção e de gestão nos serviços e sistemas de saúde, indicando a necessária construção de novas relações entre usuários e trabalhadores e destes entre si (PEREIRA; BARROS, 2009). A ‘humanização’ em saúde volta-se para as práticas concretas comprometidas com a produção de saúde e produção de sujeitos (CAMPOS, 2000), de tal modo que atender melhor o usuário se dá em sintonia com melhores condições de trabalho e de participação dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde (princípio da indissociabilidade entre atenção e gestão). Este voltar-se para as experiências concretas se dá por considerar o humano em sua capacidade criadora e singular inseparável, entretanto, dos movimentos coletivos que o constituem. Orientada pelos princípios da transversalidade e da indissociabilidade entre atenção e gestão, a ‘humanização’ se expressa a partir de 2003 como Política Nacional de Humanização (PNH) (BRASIL, 2004). Como tal, compromete- se com a construção de uma nova relação seja entre as demais políticas e programas de saúde, seja entre as instâncias de efetuação do Sistema Único de Saúde (SUS), seja entre os diferentes atores que constituem o processo de trabalho em saúde. O aumento do grau de comunicação em cada grupo e entre os grupos (princípio da transversalidade) e o aumento do grau de democracia institucional por meio de processos cogestivos da produção de saúde e do grau de corresponsabilidade no cuidado são decisivos para a mudança que se pretende (PEREIRA; BARROS, 2009). No contexto da saúde, mais precisamente na Enfermagem, seria valorizar a qualidade do cuidado do ponto de vista técnico, ou seja, nos colocar no lugar do paciente e enxergá-lo como um ser biopsicossocial com necessidades diferentes, e entender que apesar do paciente estar com todos os equipamentos necessários Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 29 para sua sobrevivência, ele está em um local estranho, sendo cuidado por pessoas estranhas, perdendo suas intimidades e principalmente com dor. A humanização visa justamente trazer o máximo de conforto e cuidado para o paciente como pessoa. Uma vez que a enfermagem é uma disciplina que lida com o ser humano, que é um ser em evolução, tem que haver humanização. Uma pessoa está doente e vai procurar um profissional da saúde com o desejo que alivie seus sintomas e livre-o de seu sofrimento. Ele deseja ser cuidado. O cuidado humano é exercitado, vivido e sentido no interior de cada um, envolvendo atos, princípios, valores, ética que devem fazer parte do nosso cotidiano (ALMEIDA, 1986). 3.2 A arte de cuidar Embora tenhamos discorrido sobre o cuidado na perspectiva de diversas teorias, vamos refletir um pouco mais sobre a arte de cuidar, tamanha sua dimensão e importância para o binômio cliente-paciente. Pois bem, a palavra cuidar é derivada do latim cogitare, que tem como significado pensar, julgar, tomar conta, e cuidado deriva de cogitatus, que traduz preocupação, carinho, diligência e atuação. Dessa forma, para cuidar de pessoas é preciso dispensar atenção e interesse sobre as necessidades dela, refletir sobre todos os elementos relacionados ao ambiente de cuidado e então agir a favor do indivíduo (SOUZA, 2000). Segundo Silva (2007), o cuidado de enfermagem tem sido compreendido comumente como técnicas e procedimentos realizados pelos profissionais, uma vez que a Enfermagem é uma área perfilada por seu aspecto prático. No entanto, ao se deparar com o ser cuidado, o profissional de enfermagem reconhece que é impossível cuidar sem abarcar os diferentes aspectos de sua natureza física, social, psicológica e espiritual. Para isso, sua relação com o ambiente necessita ser considerada para que resulte em condições propícias para que o cuidado ocorra de forma interativa entre os elementos: cuidador – ambiente – ser cuidado (WALDOW, 2005). O cuidado ultrapassa a compreensão comum e vai além da atenção à saúde desenvolvida por procedimentos técnicos. Reporta-se a ações de Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 30 integralidade com significados e sentidos voltados para a promoção da saúde, como o direito do ser humano, expresso pelo respeito, acolhimento, atendendo ao indivíduo no momento de fragilidade social e/ou de sofrimento, em que a interação entre pessoas se torna característica desse contexto (PINHEIRO; MATOS, 2004). Para que a interação se efetive, há necessidade de compreender que ela se faz pela troca de experiências e não unidirecionalmente (STEFANELLI, 2005 apud SILVA, 2007). No modelo biomédico hegemônico existem poucos espaços para a escuta dos pacientes e de seus anseios, tensões e sofrimentos. Esses sentimentos estão presentes de modo intenso e contínuo no processo de adoecimento, principalmente nos casos em que os pacientes se deparam com a ausência de prognóstico de cura. Destarte, o cuidado profissional auxilia o indivíduo no enfrentamento de situações relativas à doença, na redução do impacto e sofrimento causados por ela, bem como dá oportunidade às pessoas de expressar e compartilhar seus sentimentos (LACERDA; VALLA, 2005). O cuidado se traduz no ato de reciprocidade prestado a nós mesmos e que nos torna capazes e autônomos para prestá-lo a outros que apresentam definitiva ou temporariamente necessidade de ajuda (COLLIÈRE, 1999 apud SILVA, 2007). A natureza do cuidado se torna imprescindível à Enfermagem como disciplina e profissão, pois ele não se desenvolve no vazio, mas no contexto em que está inserido, levando em conta as experiências humanas, a subjetividade, a consciência e a vida, sentindo primeiramente em si próprio, para então buscá-las no outro (SILVA, 2000 apud SILVA, 2007). O cuidado é o resultado do processo de cuidar, que se distingue pelo encontro entre o ser cuidado e o cuidador em ambiente propício, envolto por comportamentos e atitudes que se destacam pelo respeito, gentileza, responsabilidade, interesse, segurança e oferta de apoio, confiança, conforto e solidariedade. Entretanto, é importante destacar que esses fatores só são efetivados em ambiente interacional e comunicacional, uma vez que ao faltarem interação e comunicação o cuidado se torna simples procedimento técnico (WALDOW, 2005). Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 31 Os profissionais de enfermagem ao assumir seus papéis com responsabilidade, tendem a sentir-se integrados ao seu meio e, assim, aprimorar sua percepção. Nesse sentido, passa a existir a oportunidade de experimentar sentimentos de motivação com elevação da autoestima ao se perceber como profissional competente, capaz de contribuir com a sociedade ao cuidar do outro em suas necessidades básicas humanas (BISON, 2003). Entretanto, de formageral, a academia tem discutido pouco sobre o cuidado com foco na integralidade do ser humano, o que acaba resultando no despreparo dos profissionais de saúde para lidar com as situações que se apresentam no cotidiano da prática profissional (LACERDA; VALLA, 2005). A preocupação de ser reconhecido como profissional com atribuições e competências para o cuidado não se deve centrar unicamente em aplicação de técnicas e procedimentos. A percepção do cuidado deve ser ampliada ao levar em consideração igualmente a percepção daquele que recebe o cuidado por intermédio dos processos comunicacional e interacional (WALDOW, 2007). O cuidado humano de enfermagem é imbuído de sentimentos e valores que podem fortalecer ou enfraquecer as oportunidades de criar vínculo e interação entre cuidador e ser cuidado. Para isso, as pessoas que estão envolvidas nesse cuidado necessitam perceber o outro e suas necessidades, o ambiente e os fatores a eles relacionados e, não menos importante, a percepção de si mesmas (BISON, 2003). A percepção é entendida como processo interativo do indivíduo com o meio ambiente, em que se adquire conhecimento por meio dos sentidos. Seu conceito, de modo mais amplo, é caracterizado pelo processo de cognição em que os procedimentos mentais se realizam mediante o interesse ou a necessidade de estruturar nossa interface com a realidade e o mundo e selecionar as informações percebidas, armazenando-as e conferindo-lhes significado. Ela pode ser considerada um dos principais comportamentos recorrentes, através dos quais construímos nossa realidade (OLIVEIRA; DEL RIO, 1999). O termo percepção designa o ato que nos proporciona condições para conhecermos um objeto do meio exterior. A maior parte de nossas percepções Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 32 conscientes provém do meio externo, pois as sensações dos órgãos internos não são conscientes na maioria das vezes e desempenham papel limitado na elaboração do conhecimento do mundo. Trata-se a percepção como uma situação subjetiva baseada em sensações, acompanhada de avaliação e frequentemente de juízos. Assim, é possível perceber o ambiente de várias maneiras, em que indivíduos diferentes percebem um mesmo espaço de forma distinta (OLIVEIRA; DEL RIO, 1999). A percepção das ações de enfermagem se torna referência para se ter consciência dos elementos que norteiam e fortalecem a relação entre o profissional de enfermagem e a pessoa cuidada no ambiente e no instante do cuidado. Confirma-se que a percepção é subjetiva e importante para nutrir a essência do momento do cuidado, dignificando a condição de ser humano, dando- lhe oportunidade de fortalecer sua autonomia (RIVERA ÁLVAREZ; TRIANA, 2007 apud SILVA, 2007). A arte de cuidar também passa por atender às necessidades e desejos dos pacientes, igualmente dos seus familiares! Figueiredo et al. (2003) vêm algum tempo se propondo a ampliar esse entendimento da enfermagem para além desse cuidado, partindo do discurso ecológico, ou seja, todos nós vivemos em um grande sistema aberto, em que faz trocas ao se relacionar com os outros, ao procriar seus filhos, ao estudar, ao ensinar e ao trabalhar. Esse entendimento se fundamenta num registro de Guattari (1995) chamado de Ecosofia – uma filosofia ecológica –, que exige uma compreensão sobre o ambiente em que tudo acontece, sobre as relações pessoais (ninguém vive sem se relacionar com o outro de modo concreto) e sobre a subjetividade humana (tudo aquilo que envolve o subjetivo, nosso modo de ser e de pensar, nem sempre expressado de forma clara). Assim, o ambiente do cuidado pode estar no hospital, no posto de saúde, nas instituições sociais e religiosas, nas ruas, nas praças, nos clubes, nas saunas, nos presídios, nos espaços de prostituição. Isso significa que é preciso Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 33 pensar um macroambiente (o próprio mundo) e um microambiente (um pedaço do todo: hospital, nossa casa, nosso trabalho). Nada é isolado do todo, o todo não é isolado de sua parte. Os mesmos autores nos cobram estar atentos a tudo que acontece ao nosso redor, principalmente no ambiente de trabalho, pois de alguma maneira somos nós quem fazemos a ponte entre os demais profissionais, o cliente/paciente, sua família, que buscamos equilibrar o sistema institucional de saúde. Pois bem, os cuidados envolvem a circulação do ar não somente de forma adequada, mas para deixar o ambiente sadio e agradável; envolvem uma iluminação que não incomode o cliente; manter os ruídos num nível suavizado; manter igualmente limpos os ambientes, o leito, os sanitários, os materiais usados pelo cliente, de maneira higiênica e esterilizada, até mesmo móveis em boa aparência. Evidente que deveria partir da administração a atenção para esses cuidados provendo com recursos e mobiliários, utensílios necessários, mas o cuidar deles, o zelo pode partir de nós mesmos no cotidiano. Uma vez que vivemos em um ambiente amplo, a partir do momento que necessitamos ficar “presos” a uma cama de hospital, a vida nos mostra aquela pequena parcela que muitas vezes é, digamos, ‘feia’ e podemos perder um tanto da autoestima, somando-se a ela, sentimentos de tristeza, de desprezo podem contribuir de maneira negativa e ao contrário de nos fortalecermos, podemos somatizar e arrastar o estado de ‘doente’. Então, é chegado o momento de amenizar esses sentimentos e buscar atender para além das necessidades básicas, irmos de encontro aos desejos dos nossos clientes. Criar um ambiente agradável exige uma investigação detalhada sobre os hábitos e estilos do cliente. Por exemplo, onde mora, como é sua residência e o que há dentro dela, se gosta de música e que tipo gosta de ouvir, se gosta de ler e que leitura faz, se gosta de ver TV e qual é o programa de sua preferência, que religião pratica, a que horas se alimenta, como faz sua higiene corporal, qual é o Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 34 seu lazer preferido. Isso é o mínimo que deveríamos saber sobre aqueles de quem cuidamos e com quem passamos parte do nosso tempo. Conhecendo esses fatos, poderemos fazer um diagnóstico de suas necessidades e de seus desejos, que ultrapassam as suas dimensões biológicas, afinal de contas sabemos que as pessoas, com ou sem saúde, têm necessidades humanas básicas a serem atendidas. A maioria é de ordem biológica, mais concreta e ligada à sobrevivência humana. A teoria das necessidades humanas básicas de Maslow (1968) e sua apropriação por Horta (1995) – autores que ainda hoje são atuais para apoio teórico no cuidado –, classifica essas necessidades da seguinte maneira: 1. Necessidade de oxigenação - respirar, viver. 2. Necessidade de eliminação - tudo que entra no organismo e não é absorvido, além dos resíduos provenientes da nutrição e das trocas químicas celulares, deve ser eliminado. 3. Necessidade de alimentação - não é possívelviver sem se alimentar. Essas três primeiras necessidades são fundamentais para a manutenção da vida. O não-atendimento delas provoca doenças e até a morte. 4. Necessidade de pertencer - todo ser humano deve ter uma ligação com alguém, geralmente sua família. 5. Necessidade de segurança - fundamental para manter o equilíbrio na vida, no trabalho, na doença. 6. Necessidade de amor - todos nós precisamos ser amados e isso envolve vários tipos de amor, inclusive o da enfermagem pelo ser humano. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 35 Vejamos a ilustração abaixo: Elementos que compõem desejos e necessidades humanas Em qualquer que seja a situação, todo ser humano tem necessidades (clientes, equipe de saúde, funcionários técnicos, família, etc.), e todas elas devem ser consideradas. As necessidades básicas não são as únicas responsáveis pela vida e pela alegria de viver. O desejo é fundamental como dimensão subjetiva que move o corpo a desejar, querer, sonhar, imaginar, lutar, ser livre, criar, escolher. Embora essa palavra esteja marcada por um processo histórico e religioso no qual sempre esteve ligada à carne e ao ato sexual, com um forte sentido erótico, a nossa visão teórica apoia-se em outros autores que falam sobre o desejo (FIGUEIREDO, 2003). Teixeira e Figueiredo (2001) publicaram um livro em que, entre várias conclusões, afirmam que a enfermagem tradicional, apoiada na pedagogia de um sujeito passivo (cliente), entende a necessidade do sujeito como sobrevivência, alguém que precisa de nós para ser educado e cuidado, uma vez que somos técnicos de saúde que detêm o saber e o poder sobre os seus corpos, descritos pela cultura biomédica. Portanto, necessidade é sobrevivência biológica: os órgãos e sistemas do corpo precisam respirar, alimentar, eliminar, amar (sobrevivência objetiva). Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 36 O desejo, por sua vez, é motivado por impulsos que estimulam o sujeito para vida, para superar problemas, adquirir coisas; é de ordem subjetiva. Hoje entendemos que é necessário considerar essas duas dimensões no cuidado. No entanto, a necessidade não é apenas aquela da concepção humana de Maslow, nem o desejo é apenas demanda psicológica com origem na necessidade. O desejo tem autonomia: quando o sujeito tem sede, ele necessita de água, mas pode desejar beber água com gás, na garrafa, na lata, etc. Assim, o homem desejante de quem a enfermagem cuida é um sujeito singular, único (não existe outro igual a ele), e deve receber um ambiente em que possa viver os dias de internação sem muito sofrimento. Podem existir doenças iguais (diabetes, por exemplo), mas as pessoas são outras, com outras origens, outros estilos, outras histórias, outras vivências e experiências, inclusive a de ser diabético. Enfim, o cliente é um ser único que quer se realizar, que não pode ser generalizado e que tem dimensão inconsciente. Quando a enfermagem focaliza as necessidades para cuidar, ela está usando uma base instrumental-funcional como profissional do saber-fazer. Porém, quando inclui o desejo no cuidado, ela utiliza uma base sensível como profissional que aparentemente sabe e pode porque essa base sugere uma estética da vida. Se cuidarmos tendo em conta essas duas bases, estaremos criando uma ruptura com aquilo que fizemos e ensinamos ao longo de nossas vidas de enfermeiros e docentes de enfermagem. Estaremos incluindo mudanças e transformações, quem sabe até criando outras necessidades e desejos não só para os clientes, mas também para a enfermagem. Por fim, ao adoecer e internar-se, o sujeito muda de seu habitat natural (sua casa) para um outro habitat (o hospital). Uma vez internado, a enfermagem deve criar condições para que o cliente mantenha suas necessidades e desejos aguçados e assim mantenha a vontade e o impulso de voltar para o fluxo da vida. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 37 UNIDADE 4 – ÉTICA 4.1 Ética e bioética Apesar de toda a evolução do conhecimento e da tecnologia na área da saúde, o instrumental mais importante para cuidar do ser humano continua sendo o cuidado. Paralelamente, o simples fato da disponibilidade de um determinado conhecimento ou tecnologia não é argumento válido o bastante para aplicá-lo em toda e qualquer situação da prática profissional. Sempre será necessário analisar os aspectos positivos e negativos de qualquer ação, tendo por referência os valores que dão origem à mesma, seja para a pessoa assistida, seja para grupos da população. O estudo e análise desses aspectos, ou seja, do valor de uma ação, é o que se denomina, no seu sentido amplo, ética (TOCANTINS; SILVA; PASSOS, 2003). A ética pode ser entendida como o “estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de visto do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto”. (FERREIRA, 2004). Nesse sentido, a ética sempre irá referir-se ao valor da ação humana, à ação de um ser consciente, racional e com liberdade para optar por este ou aquele valor para fundamentar o seu agir em determinadas situações da vida. A pessoa, o ser humano, é o valor central de tudo quanto nos rodeia. Contudo, mesmo com essa liberdade de agir de cada ser humano, o valor deste agir é constituído concretamente mediante relações com outros seres humanos. Assim, os orientadores da validade dos valores do agir de cada ser humano são o convívio e o aprendizado das regras e valores de diferentes grupos humanos. Falar em ética nos reporta quase que automaticamente para a moral! Esta palavra moral tem sua origem no latim (more) e remete aos usos e costumes. O conjunto de regras de conduta consideradas como válidas, quer de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, quer para grupos ou pessoa determinada, é denominado moral. Como conjunto de normas e costumes, ao mesmo tempo em que tende a regulamentar o agir das pessoas, a moral oportuniza refletir sobre Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 38 o valor do agir humano. Com esse entendimento, a ética é o estudo, a análise, a discussão da moral do agir humano em determinada realidade. Enquanto a regra moral é ideal e se fundamenta no respeito a essas regras a partir de convicções próprias de cada ser humano, a regra legal é uma norma prática, de aplicação compulsória e faz agir por obrigação externa, por conformidade à lei. Nesse sentido, o questionamento quanto à eticidade de determinada ação ocorre quando existem dúvidas quanto à adequação moral de cada escolha, quando a escolha envolve proposições opostasou uma situação com apenas duas possibilidades de ação difíceis ou penosas, ou seja, um dilema ético (TOCANTINS; SILVA; PASSOS, 2003). A ética, de forma geral, ocupa-se da análise do que é bom (ou correto) e do que é mau (ou incorreto) no agir humano. A ética aplicada, nessa mesma linha de pensamento, trata de questões relevantes à pessoa e à humanidade. A partir de 1960, a preocupação mundial com as questões morais em diferentes setores da sociedade fez emergir, segundo Clotet (1997), entre outras: � ética dos negócios, em que a questão da corrupção e abusos econômico- financeiros passaram a ser objeto de discussão; � ética ambiental, envolvendo principalmente os valores a fundamentar a defesa da preservação e proteção do meio ambiente; � bioética, cujo objeto de estudo ético tem como realidade a vida dos seres humanos em geral, significando um diálogo para formular, articular e resolver dilemas que emergem das propostas de pesquisa e intervenção sobre a vida, a saúde, o meio ambiente. Ao focalizar a reflexão ética no fenômeno da vida, e considerando o dinamismo dos eventos vitais, as temáticas tratadas pela Bioética podem ser subdivididas em: aquelas que emergem dos conflitos entre o progresso das ciências e os direitos humanos, como a fecundação artificial, a clonagem; e aquelas presentes no cotidiano das pessoas, como a eutanásia, o aborto, a violência. A Bioética é o estudo sistemático das dimensões morais – incluindo visão moral, decisões, condutas e políticas – das ciências da vida e atenção à saúde, Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 39 utilizando uma variedade de metodologias éticas em um cenário interdisciplinar. (REICH, 1995 apud TOCANTINS; SILVA; PASSOS, 2003). Com esse entendimento, a Bioética envolve o estudo sistemático da conduta humana na área das ciências da vida e da atenção à saúde, conduta esta examinada à luz dos valores e princípios morais (GONÇALVES, 1994). No que se refere aos cuidados e à atenção à saúde, e tendo por base a sua diretriz central, os valores que fundamentam o agir no setor saúde podem ser agrupados em: � orientados por recursos – na situação em que a diretriz central são os recursos, predomina o valor do custo-benefício, isto é, a relação entre o custo de investimentos em recursos financeiros, materiais e recursos humanos e o benefício de alcançar o máximo de saúde; � orientados por doenças – quando a diretriz central é a doença, o valor presente é de que qualquer problema de saúde pode ser eliminado pela aplicação de tecnologias médicas e de saúde. Nesse contexto, ela é entendida como a ausência de qualquer doença, entendida por sua vez como apresentando um fundamento fisio-biológico particular, passível de ser diagnosticado pelo profissional de saúde. Assim, o valor positivo da assistência de saúde é o adequado tratamento dos indivíduos que apresentam uma doença, contribuindo para a eliminação de sinais e sintomas fisiobiológicos, caracterizados como situação de anormalidade; � orientados por decisões políticas – o agrupamento das ações que envolvem decisões políticas trazem em destaque os valores e interesses das lideranças políticas, que em princípio expressam os problemas de saúde da população de uma região ou país, envolvendo implicitamente a questão do direito como cidadão, a saúde e equidade no acesso a serviços; � orientados por valores de clientes e familiares – o agir no setor saúde que tem como diretriz central os clientes e seus familiares apresenta como valor central os valores daqueles que se beneficiam da assistência à saúde. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 40 Nessa situação, as necessidades concretas de assistência de saúde da pessoa ou de grupos da população são concebidas não como uma concepção abstrata, mas, tendo por referência problemas vivenciados, como a única forma possível de garantir o preenchimento do seu direito à saúde e ao bem-estar. Os valores da atenção à saúde podem ser refletidos e analisados, no sentido ético, tendo por fundamento princípios morais. Os princípios que orientam a análise de dilemas éticos, tanto aqueles que emergem da vida em geral quanto aqueles que envolvem o setor saúde (como os valores da prática profissional), são o respeito à autonomia, à beneficência, à não-maleficência e à justiça (BEAUCHAMP; CHILDRESS, 1994 apud TOCANTINS; SILVA; PASSOS, 2003). A concepção central que fundamenta o princípio da autonomia é a autogovernabilidade, a de que cada pessoa é soberana para decidir tudo o que se refere ao seu corpo, ao seu pensar e ao seu agir. Está implícita a perspectiva social de respeito a outro ser humano, ou seja, o respeito à autonomia de modo recíproco. O princípio do respeito à autonomia tem como valor fundamental que cada ser humano é capaz de decidir sobre o que é melhor para si mesmo e para seu grupo. Assim, não considerar essa capacidade, seja negando a liberdade pessoal e social de agir, seja omitindo informações disponíveis que subsidiam o julgamento do seu agir, significa faltar com respeito a essa autonomia. Alguns trechos do Juramento Profissional do Enfermeiro – “respeitando a dignidade e os direitos da pessoa humana, exercendo a enfermagem com consciência e fidelidade”; “respeitar o ser humano desde a concepção até depois da morte” – focaliza como valor central o respeito pela autonomia daquele que é assistido e a responsabilidade pelo seu agir profissional. Paralelamente, faz-se importante destacar que o reconhecimento, total ou parcial, da capacidade de julgamento e decisão de uma pessoa pode variar de acordo com a cultura do grupo ou sociedade que integra. Dessa forma, aqueles que na nossa sociedade são considerados legalmente imaturos (menores de idade), aqueles considerados incompetentes para fazerem julgamentos ou se autogovernarem (doentes mentais) ou aqueles institucionalmente impedidos de exercerem a sua liberdade de ação (presidiários) requerem proteção da sua Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 41 autonomia para, em última instância, não serem desrespeitados como seres humanos. O princípio da beneficência tem o bem como fundamento básico de toda e qualquer ação profissional de saúde, isto é, o valor moral de agir em benefício de outros. Com esse entendimento, a assistência à saúde visa sempre os interesses do cliente, da família e da comunidade. A beneficência distingue-se da benevolência; enquanto a primeira refere- se à característica da ação que visa o bem, a segunda caracteriza a atitude de boa vontade de uma pessoa em relação a outra. O bem visado pela ação do enfermeiro – e explicitamente detalhada no seu juramento profissional – é a vida, tanto na dimensão individual como coletiva (“respeitar o ser humano desde a concepção até depois da morte”; “atuar junto à equipe de saúde para o alcance da melhoria do nível de vida da população”) (TOCANTINS; SILVA; PASSOS, 2003). O princípio danão-maleficência tem como valor máximo que qualquer ação deve, em primeira instância, não infligir dano intencional (primum non nocere). Esse princípio também está explícito no juramento profissional do enfermeiro – “não praticar atos que coloquem em risco a integridade física ou psíquica do ser humano”. Muitos autores entendem que o valor da ação profissional “não causar dano” é complementar ao valor do princípio da beneficência, especificando que uma ação benéfica deve priorizar em primeiro lugar “não colocar em risco a saúde e a vida” e em segundo lugar “maximizar os benefícios”. Essa priorização, denominada “dever prima facie”, justifica-se pelo fato de, ao prevenir um dano intencional, o profissional está concretamente tendo em vista um bem. A distribuição justa, equitativa, apropriada e universal no que se refere aos benefícios dos serviços e das ações dos agentes de saúde é o valor que compõe o princípio da justiça aplicado ao setor da saúde e à prática profissional, também chamado Justiça Distributiva. É um dos valores implícitos no juramento do profissional enfermeiro: “atuar junto à equipe de saúde para o alcance da melhoria do nível de vida da população”. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 42 O Princípio da justiça distributiva inclui o entendimento de que o Estado, nos seus diferentes níveis, tem como dever promover o direito à saúde universal, isto é, o bem-estar coletivo. Apesar de todos os valores sociais deverem ser distribuídos igualmente – critério da equidade –, uma distribuição desigual tem valor moral positivo desde que redunde em vantagem para todos, especialmente os mais necessitados. Nesse contexto, é importante não confundir os termos justiça e direito; a justiça refere-se a um critério moral, enquanto o direito é concretizado no convívio em sociedade. Uma das áreas na qual a Ética sempre ocupou um lugar de destaque é a da saúde, particularmente em questões que envolvem vida e morte. Com a evolução e a diversificação das práticas no setor saúde, emerge a particularidade de diferentes ações profissionais, entre as quais, os de Enfermagem, que por sua vez fundamenta-se em valores distintos. O conteúdo nuclear da enfermagem pode ser descrito por meio de três conceitos centrais: � ser humano – aquele que é assistido e recebe cuidados de enfermagem, podendo estar representado por uma pessoa, uma família, uma comunidade ou grupos da sociedade; � meio ambiente – representado pelos arredores institucionais imediatos, a comunidade ou o entorno social, que se relaciona de modo direto e/ou indireto com o ser humano; � saúde – expresso pelo bem-estar, individual e/ou coletivo, decidido mutuamente pelo ser humano assistido e o enfermeiro. A articulação da especificidade destes conceitos aponta para os valores e a direção de seus fatos e eventos, valores estes expressos no Código de Ética desses profissionais que veremos mais adiante. Voltando então à questão da humanização, Baraúna (2007) a entende como um processo de construção gradual, realizada através do compartilhamento de conhecimentos e de sentimentos. As ações de humanização englobam muitas e diversificadas práticas profissionais que vêm sendo introduzidas no tratamento de pessoas Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 43 hospitalizadas, como, por exemplo: a psicologia, a terapia ocupacional, a arteterapia, a contação de histórias, a arte do palhaço, as artes plásticas, o toque terapêutico, a massoterapia, etc. Nas ações da humanização, procura-se resgatar o respeito à vida humana, a nossa e a do paciente. Mais do que isso, humanizar é adotar uma prática na qual o enfermeiro, o profissional que cuida da saúde do próximo, enfim, toda a equipe multiprofissional do hospital, encontre a possibilidade de assumir uma posição ética de respeito ao outro, de acolhimento do desconhecido, do imprevisível, do incontrolável, do diferente e singular, reconhecendo os seus limites (CEMBRANELLI, 2007). Quando falamos, portanto, em “humanização do atendimento”, não falamos apenas em resgatar o mais bonito do humano ou o quanto somos “maravilhosos”, mas resgatar-nos de uma forma mais inteira, mais coerente em todas essas nossas dimensões da comunicação. Temos que ser capazes de não ficar imaginando que “em algum lugar do planeta” nos comunicaríamos muito bem, mas sim entendermos que a nossa habilidade de comunicação passa pela verdade de sermos capazes de nos relacionar com quem existe à nossa volta; que as pessoas que nos rodeiam são os nossos professores de comunicação, e que melhorar a nossa comunicação significa conquistar o melhor de nós mesmos, significa colocarmos a atenção em dimensões que, muitas vezes, não a pomos (SILVA, 2007). Relembrando, a definição do Ministério da Saúde (BRASIL, 2004) à humanização em hospitais envolve essencialmente o trabalho conjunto de diferentes profissionais, de toda a equipe. O trabalho interdisciplinar pode favorecer a uma multiplicidade de enfoques e alternativas para a compreensão de aspectos que estão envolvidos no atendimento ao paciente. Isto tudo pode colaborar para o estabelecimento de uma nova cultura de respeito e valorização da vida humana no atendimento ao paciente. É necessário mudar a forma como os hospitais se posicionam frente ao seu principal objeto de trabalho – a vida, o sofrimento e a dor de um indivíduo fragilizado pela doença. De nada valerão os esforços para o aperfeiçoamento gerencial, financeiro e tecnológico das organizações de saúde, pois a mais Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 44 extraordinária tecnologia, sem ética, sem delicadeza, sem respeito, não produz bem-estar. Muitas vezes, desertifica o homem (BRASIL, 2004). 4.2 Conselho Federal de Enfermagem O Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), entidade que fiscaliza o exercício profissional de enfermagem em nível federal e estadual, através dos seus Conselhos Regionais, foi criado em 12 de julho de 1973, por meio da Lei nº 5.905. Conforme preceituava essa lei, o Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) organizou três quadros distintos para fins de inscrição: quadro I (enfermeiros), quadro II (técnicos), quadro III (auxiliares de enfermagem, práticos de enfermagem e parteiras práticas). A Lei nº 5.905/73 determinava que fosse adotado como critério da categorização de enfermagem o disposto na Lei nº 2.604/55, a qual regulamentava o exercício da enfermagem antes de ser substituída pela Lei nº 7.498/86. O técnico de enfermagem, categoria surgida em 1966, não estava incluído nessa lei, que é de 1955. O COFEN, fundamentando-se na legislação de ensino, decidiu criar o quadro II para incluir essa categoria (OGUISSO; SCHMIDT, 1999). A filiação ao sistema COFEN/COREN é obrigatória e abrange todas as categorias profissionais de enfermagem. A votação nas eleições para compor a diretoria é compulsória, sob pena de pagamento de multa, correspondente a umaanuidade. Cada categoria vota em candidatos de seu quadro. O conselho é a única entidade de classe de vinculação obrigatória para o exercício profissional. Com respaldo na Lei nº 5.905/73, os conselhos regionais e o Conselho Federal de Enfermagem são órgãos com poder de fiscalização e regulamentação das atividades de enfermagem nas áreas de sua jurisdição territorial (no caso dos conselhos regionais) e em nível nacional, em se tratando de provimentos ou resoluções emanadas do COFEN. Cabe lembrar que nem todas as profissões demandam um controle ou regulamentação, mas tão somente aqueles que no seu exercício, envolvam a Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 45 preservação de certos valores elementares como a vida, a integridade, a segurança física e social das pessoas. O exercício do poder de disciplinar se verifica frequentemente, em nosso Direito, através de entidades especiais, criadas por autorização legislativa do Congresso Nacional por lei específica, que estabelecem as diretrizes gerais sobre a disciplina e fiscalização das categorias técnico-profissionais jurisdicionadas. Por sua natureza e as funções relevantes que desempenham, essas entidades representam um sistema especificamente destinado a verificar as condições de capacidade para o exercício profissional tendo, inclusive, autoexcecutoriedade para aplicar sanções disciplinares e administrativas à Pessoas Físicas e Jurídicas que sejam consideradas faltosas aos zelosos deveres da atividade profissional, após conclusão de um processo específico. Este é o caso do COFEN e dos CORENs. Tanto que é da competência legal dos conselhos regionais e do Conselho Federal de Enfermagem a aplicação de penas aos profissionais de enfermagem que cometam infrações ao Código de Ética de Enfermagem. Assim, o art. 18 da Lei nº 5.905/73 preceitua o seguinte: Aos infratores do Código de Deontologia de Enfermagem poderão ser aplicadas as seguintes penas: I. Advertência verbal; II. Multa; III. Censura; IV. Suspensão do exercício profissional; V. Cassação do direito ao exercício profissional. A referida lei, em seu § 10 do art. 18, destaca que as penas previstas nos incisos I, II, III e IV são da alçada dos Conselhos Regionais, enquanto a pena do inc. V é de competência exclusiva do Conselho Federal, ouvido o COREN interessado. Além destas e de outras inúmeras atribuições legais do COREN, podemos destacar as seguintes: deliberar sobre inscrições e seu cancelamento; disciplinar e fiscalizar o exercício profissional, observadas as diretrizes gerais do Conselho Federal; executar as instruções e provimentos do Conselho Federal; Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 46 manter o registro dos profissionais com exercício na respectiva jurisdição; conhecer e decidir os assuntos atinentes à ética profissional, impondo as penalidades cabíveis; elaborar a sua proposta orçamentária anual e o projeto de seu regimento interno e submetê-los à aprovação do Conselho Federal; expedir a carteira profissional indispensável ao exercício da profissão, que tem validade como registro de identidade ex vi Lei 6.206, de 07 de maio de 1975; zelar pelo bom conceito da profissão e dos que a exerçam; propor ao Conselho Federal medidas visando à melhoria do exercício profissional; eleger sua Diretoria e seus Delegados Regionais e etc. O Conselho Federal, por seu turno, caracteriza-se como instância superior, uma vez que a sua missão precípua é ordenar e coordenar, através de seu poder normativo, não só as atividades dos profissionais como também de todo o SISTEMA COFEN/CORENs. Dentre as inúmeras atribuições do COFEN, podemos destacar: aprovar seu regimento interno e os dos Conselhos Regionais; instalar os Conselhos Regionais; elaborar o Código de Deontologia de Enfermagem e alterá-lo quando necessário, ouvidos os Conselhos Regionais; baixar provimentos e expedir instruções, para uniformidade de procedimento e bom funcionamento dos Conselhos Regionais; dirimir dúvidas suscitadas pelos Conselhos Regionais; apreciar, em grau de recursos, as decisões Profissionais de identidade e as insígnias da profissão; homologar, suprir ou anular atos dos Conselhos Regionais; aprovar anualmente suas contas e a proposta orçamentária, remetendo-as aos órgãos competentes; publicar relatórios anuais de seus trabalhos; convocar e realizar eleições para sua diretoria e exercer as demais atribuições que lhe forem conferidas por lei (PINHEIRO; PARREIRAS, Conforme o dizer de Meirelles (1990), o COFEN e os CORENs são entidades “sui generis”, porque além das funções administrativas comuns a quaisquer entidades, dispõem do poder normativo, para regulamentar e suprir a legislação federal no que concerne às atividades técnicas das profissões compreendidas nos serviços de enfermagem, sujeitas ao seu controle, sejam em instituições/entidades públicas ou privadas. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 47 4.3 Legislação Focando na área de Unidades de Terapia Intensiva, vale assinalar a Resolução nº 7 de 24 de fevereiro de 2010, que dispõe sobre os requisitos mínimos para funcionamento de Unidades de Terapia Intensiva3 e na Instrução Normativa nº 4, da mesma data, que dispõe sobre os indicadores para avaliação de UTIs. Sem entrarmos no mérito da questão, em defesas ou ataques, sugerimos a leitura do artigo publicado no site portal da enfermagem, de autoria de Sérgio Luz (2012). Ele comenta que um dos pontos mais polêmicos nas negociações foi a relação enfermeiro/paciente. A reivindicação era da proporção de 1 enfermeiro para 5 pacientes, apesar das evidências técnicas e científica e concordância da maioria dos membros da mesa de negociação (...) [...] Entretanto, de maneira unilateral e sem qualquer participação das entidades acima elencadas, a ANVISA, por meio da RESOLUÇÃO – RDC Nº 26 DE 11 DE MAIO DE 2012, altera a Resolução RDC nº 07, aumentando a relação de no mínimo um enfermeiro a cada dez leitos ou fração, em cada turno, além de suprimir a exigência de um técnico de enfermagem por UTI para serviços de apoio assistencial em cada turno. Trata-se de um odioso retrocesso, evidente resultado da pressão que as instituições hospitalares têm exercido sobre o governo para reduzir os seus custos. O artigo na íntegra encontra-se no site: http://www.portaldaenfermagem.com.br/plantao_read.asp?id=2952 Quanto aos indicadores (Instrução Normativa nº 4/10), os quais serão vistos ao longo do curso, abaixo encontra-se sua íntegra. 3 Em 11 de maio, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) publicou a RDC 26, que altera a RDC 07, de 24 de fevereiro de 2010, sobre os quesitos mínimos para o funcionamento das Unidades de Terapia Intensiva. Os quesitos revistos foram acordados em reunião ocorrida em 20 de março de 2012. São eles: recomenda-se que haja no mínimo um enfermeiro assistencial para cada dez leitos oufração, em cada turno, e no mínimo um técnico de enfermagem para cada dois leitos em cada turno. Ao final do texto, há a indicação que os incisos apresentados devem entrar em vigor imediatamente e o cumprimento dos artigos 13, 14 e 15 da Seção III – Recursos Humanos e Seção I – Recursos Materiais dos Capítulos III, IV e V permanecem com o prazo inicial de três anos. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 48 A Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, no uso da atribuição que lhe confere o inciso II, § 2°, do art. 55 do Regimento Interno da ANVISA, aprovado nos termos do Anexo I da Portaria nº 354 da ANVISA, de 11 de agosto de 2006, republicada no DOU de 21 de agosto de 2006, em reunião realizada em 22 de fevereiro de 2010, resolve: Art. 1º - Em relação aos registros de avaliação de desempenho e do padrão de funcionamento global da UTI, assim como de eventos que possam indicar necessidade de melhoria da qualidade da assistência, exigidos no Capítulo II, Seção IX - Avaliação, Artigo 48 da RDC/ANVISA Nº 7, DE 24 DE FEVEREIRO DE 2010, devem ser monitorados mensalmente, no mínimo, os seguintes indicadores: I - Taxa de mortalidade absoluta e estimada; II - Tempo de permanência na Unidade de Terapia Intensiva; III - Taxa de reinternação em 24 horas; IV - Densidade de Incidência de Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAV); V - Taxa de utilização de ventilação mecânica (VM); VI - Densidade de Incidência de Infecção Primária da Corrente Sanguínea (IPCS) relacionada ao Acesso Vascular Central; VII - Taxa de utilização de cateter venoso central (CVC); VIII - Densidade de Incidência de Infecções do Trato Urinário (ITU) relacionada a cateter vesical. Art. 2º Os indicadores relacionados nos incisos IV a VIII do Art. 1º desta Instrução Normativa devem ser de acordo com o preconizado nos Critérios Nacionais de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde, publicados pela ANVISA e disponibilizados no sítio eletrônico www.anvisa.gov.br: I - Neonatologia: Critérios Nacionais de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde; II - Trato Respiratório: Critérios Nacionais de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde; III - Infecção do Trato Urinário: Critérios Nacionais de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde; Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 49 IV - Corrente Sanguínea: Critérios Nacionais de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde. Art. 3º Esta Instrução Normativa entra em vigor na data de sua publicação. 4.4 Comissões de ética A Lei nº 5.905, de 12 de julho de 1973, ao criar os conselhos de fiscalização do exercício profissional de enfermagem, estabeleceu suas competências. Com o correr dos anos, aumentou o contingente de profissionais de enfermagem, e hoje a enfermagem é o grupo numericamente mais expressivo da área da saúde. O COFEN (2001) normalizou a criação da Comissão de Ética de Enfermagem nas instituições de saúde em 1994, e o COREN-SP baixou um Regimento para criação, formação e funcionamento das Comissões de Ética de Enfermagem (CEE), que foi oficializado, incentivando-se a criação delas nos hospitais. Esse Regimento estabelece que o órgão representa o COREN, em caráter permanente junto às instituições de saúde, com funções educativas, fiscalizadoras e consultivas do exercício profissional e ético dos profissionais de enfermagem nas referidas instituições. São finalidades da CEE as que constam do art. 30 do referido Regimento, que englobam as explicitadas na Resolução nº 172/94 do COFEN: � garantir a conduta ética dos profissionais de enfermagem da instituição de saúde, pela análise das intercorrências notificadas por meio de denúncia formal e auditoria; � zelar pelo exercício ético dos profissionais de enfermagem da instituição; � colaborar com o COREN no combate ao exercício ilegal da profissão e na tarefa de educar, discutir, orientar e divulgar temas relativos à ética dos profissionais de enfermagem. A Resolução do COFEN e o Regimento do COREN são instrumentos legais importantes, mas insuficientes para a existência de uma CEE eficiente que atenda às necessidades de assessoria, consultoria e orientação dos profissionais de enfermagem nas instituições de saúde. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 50 Por isso, é necessário que o COREN e as instituições de saúde invistam na formação de profissionais que irão atuar na CEE, preparando-os adequadamente. Convém lembrar que a formação curricular na graduação não propicia esse preparo para enfermeiros, e a maioria deles nunca trabalhou em uma instância como essa. A falta de investimentos nessa formação poderá comprometer a intenção de fortalecer a atuação dos órgãos de fiscalização nas instituições de saúde. Por essa razão, o COREN precisa assessorar de forma permanente os membros da CEE, envolvendo também as chefias de enfermagem, em especial as de escalão mais elevado. É imprescindível o apoio da gerência, diretoria ou chefia do serviço de enfermagem para que a CEE possa desempenhar seu papel, provendo local adequado para reuniões, orientações, consultas e acompanhamentos dos casos comunicados, pois não basta a existência de profissionais motivados para desenvolver as atividades desse órgão. É mister também apoio do COREN para orientar os membros da CEE, as gerências de enfermagem e os profissionais, desde o momento da instauração do processo eleitoral até a posse e o desenvolvimento de suas atividades. Dentre vários estudos nessa linha de ação, existem alguns interessantes citados por Freitas (2007) que valem ser expostos: Ao tratar das infrações éticas envolvendo pessoal de enfermagem, em um hospital público, de grande porte, destinado ao ensino, verificou-se que, de um total de 62 denúncias, 90% partiram dos próprios funcionários do hospital e que os enfermeiros foram responsáveis pela maioria delas (72,5%) (MENDES; CALDAS JUNIOR, 1999). Esses dados foram corroborados por outro autor que constatou que, de um total de 114 ocorrências ou infrações éticas, no período de 1995 a 2002, 97,37% delas haviam sido comunicadas pelos enfermeiros da instituição. Acredita-se que tal fato se deva à maior autonomia e tomada de decisão do enfermeiro para encaminhar as ocorrências para a apreciação da CEE. Em relação aos estudos mencionados, convém ressaltar as seguintes denúncias: maus-tratos aos pacientes (ofender, humilhar, não alimentar, agredir fisicamente e assediar sexualmente), indisciplina (agressões físicas entre Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 51 membros da equipe, não cumprimento de ordens superiores,desrespeito a colegas, dormir durante o serviço, algazarra, jogos, arrombamento de porta), negligência (descuido de material coletado de paciente, quebra de material hospitalar, não-atendimento às solicitações do paciente, ausência da vigilância necessária do paciente), falsidade ideológica (registro no prontuário de ações não realizadas), imperícia (erros cometidos por incapacidade técnica do denunciado), ineficiência (desempenho incompleto de grande parte das tarefas solicitadas), imprudência (adoção de procedimento inadequado com conhecimento de suas possíveis implicações no que se refere a danos para o paciente), etc. Daquele total de 114 ocorrências encaminhadas à CEE, 47,2% foram caracterizadas como tendo sido causadas por negligência dos profissionais envolvidos, 28,4% decorreram de imprudência, 11,8% foram causadas por imperícia, 8,3% estavam relacionadas à indução ao erro do profissional de enfermagem (prescrição médica inelegível, por exemplo) e 4,2 % referiram-se à omissão propriamente dita, ou seja, não realização de um procedimento prescrito ou solicitado pelo médico ou pelo enfermeiro (não fazer mudança de decúbito, por exemplo). Esse estudo revelou também que a categoria mais envolvida com as ocorrências éticas foi a do auxiliar de enfermagem, independentemente de fatores como: negligência, imperícia ou imprudência dos profissionais envolvidos. Tal fato se justifica pelo aumento crescente de auxiliares de enfermagem na prestação de cuidados diretos de enfermagem, em substituição aos atendentes de enfermagem, que somente poderiam exercer atividades elementares de enfermagem, conforme Resolução COFEN nº 185/1995 por não terem formação específica regulada em lei (FREITAS, 2007). Com relação aos direitos e deveres do paciente, Gauderer (1991) destaca o direito do paciente de obter informações sobre seu caso, por meio de cópias do seu prontuário, cujos registros devem estar em letra legível, incluindo exames, bem como o conteúdo desses documentos, tais como: anotações, evoluções, prescrições, laudos, avaliações, etc. Esse mesmo autor aponta que o paciente, o cônjuge ou os filhos têm o direito de gravar ou filmar atos médicos realizados, requerer que profissionais se reúnam para discutir a patologia para a tomada de decisão mais adequada, morrer dignamente, escolher o local e a maneira que Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 52 julgar melhor para morrer, recusar tratamentos dispendiosos e de resultado imprevisível. O Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem é um parâmetro para avaliar direitos e deveres dos profissionais dessa área, sejam em relação ao paciente, ao colega, às entidades de classe e à sociedade em geral. Além dos deveres dos profissionais, há também os deveres dos usuários dos serviços e das ações de saúde. Kfouri Neto (2001) ressalta alguns deveres do paciente como seguir orientações ou prescrições técnicas, pois o descumprimento desobriga o profissional de continuar lhe prestando cuidados. Entretanto, o paciente não pode ser abandonado em meio à assistência; por isso, deve-se assegurar o acompanhamento por outro profissional, igualmente capacitado para tal, evitando, assim, a alegação de que houve abandono ou quebra da continuidade da assistência e, por conseguinte, infração ética do profissional no que tange ao dever de não expor o paciente à situação de risco ou causar-lhe dano. Cooperar com a assistência ou o tratamento constitui obrigação do paciente, o qual deve informar todos os dados que sejam de interesse para esse fim e que forem necessários para a elucidação de diagnóstico e implementação de condutas técnicas. Dessa forma, ele estará contribuindo para que o processo assistencial ocorra de maneira eficaz. No que se refere ao enfermeiro, exige-se que este profissional seja capaz de ouvir o paciente, investigar cuidadosamente suas queixas, respeitar suas crenças e convicções, tratá-lo com respeito em sua dignidade, aplicando todos os esforços, meios e recursos disponíveis, a fim de aliviar o sofrimento, e ajudar nas medidas terapêuticas, sem riscos desnecessários ou previsíveis. Orientar os profissionais de enfermagem, por meio de um processo educativo-reflexivo permanente, é missão precípua da CEE, visando à prevenção de ocorrências éticas danosas ao paciente no exercício da profissão. Desse modo, ao lembrar alguns desses direitos e deveres dos profissionais de saúde, e da enfermagem, convém frisar que tais obrigações devem ser sopesadas diante de cada caso concreto, seja pela chefia imediata, seja pela CEE, seja por outras instâncias internas ou externas nas instituições de saúde. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 53 REFERÊNCIAS REFERÊNCIAS BÁSICAS FIGUEIREDO, Nébia Maria Almeida de. Práticas de Enfermagem: fundamentos, conceitos, situações e exercícios. São Caetano do Sul: Difusão Enfermagem, 2003. WALDOW, V. R. Cuidar: expressão humanizadora da enfermagem. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 2007. REFERÊNCIAS COMPLEMENTARES ALMEIDA, M.C. P de O. O saber de enfermagem e sua dimensão prática. São Paulo: Cortez, 1986. ALMEIDA, Vitória de Cássia Félix de; LOPES, Marcos Venícios de Oliveira; DAMASCENO, Marta Maria Coelho. Teoria das relações interpessoais de Peplau: análise fundamentada em Barnaum. 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