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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA FACULDADE DE DIREITO GRADUAÇÃO EM DIREITO GABRIELA BARRETTO DE SÁ ENTRE MORDAÇAS E DIREITOS: AÇÕES DE LIBERDADE E RESISTÊNCIA ESCRAVA NA HISTÓRIA DO DIREITO NO BRASIL Salvador 2010 2 GABRIELA BARRETTO DE SÁ ENTRE MORDAÇAS E DIREITOS: AÇÕES DE LIBERDADE E RESISTÊNCIA ESCRAVA NA HISTÓRIA DO DIREITO NO BRASIL Monografia apresentada ao Curso de graduação em Direito, Faculdade de Direito, Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Direito. Orientador: Prof. Samuel Santana Vida. Salvador 2010 3 TERMO DE APROVAÇÃO GABRIELA BARRETTO DE SÁ ENTRE MORDAÇAS E DIREITOS: AÇÕES DE LIBERDADE E RESISTÊNCIA ESCRAVA NA HISTÓRIA DO DIREITO NO BRASIL Monografia apresentada e aprovada como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Direito, Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. Salvador, 23 de julho de 2010. Componentes da banca examinadora: Samuel Santana Vida (Orientador)________________________________________________ Especialista em Direito pela Universidade Estadual de Feira de Santana Universidade Federal da Bahia Elmir Duclerc Júnior__________________________________________________________ Doutor em Direito pela Universidade Estácio de Sá Universidade Federal da Bahia Jamile Silva Silveira___________________________________________________________ Mestre em História pela Universidade Federal da Bahia Faculdade de Tecnologia e Ciências 4 Isabel que história é essa Iê! Dona Isabel que história é essa De ter feito a abolição De ser princesa boazinha Que libertou a escravidão Estou cansado de conversa Estou cansado de ilusão Abolição se fez com sangue Que inundava esse país Que o negro transformou em luta Cansado de ser infeliz A abolição se fez bem antes Ainda por se fazer agora Com a verdade das favelas Não com as mentiras da escola Ôh, Isabel chegou a hora De se acabar com essa maldade De ensinar pra nossos filhos O quanto custa a liberdade Viva Zumbi nosso guerreiro Que fez-se herói lá em Palmares Viva cultura desse povo A liberdade verdadeira Que corria nos Quilombos Que já jogava capoeira Iê viva meu Deus Iê viva Zumbi Iê viva Palmares Iê a capoeira Iê o berimbau Iê jogo de angola (Mestre Toni Vargas) “Nós temos a lei e eu sei ter vontade.” (Luiz Gama) 5 A minha família. Por todo amor e esforços dedicados a minha formação. 6 AGRADECIMENTOS Fundamental é mesmo o amor É impossível ser feliz sozinho (Tom Jobim) Gratidão. Esta é a palavra. Publico aqui minha sincera gratidão aos muitos e muitas co- responsáveis por este trabalho! Das Utopias Se as coisas são inatingíveis... ora! não é motivo para não querê-las... Que tristes os caminhos, se não fora a mágica presença das estrelas! (Mario Quintana) É com muito amor e felicidade que compartilho esta conquista com toda minha família, companheiros do Serviço de Apoio Jurídico da UFBA - SAJU, companheiros do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Teto da Bahia – MSTB, queridos funcionários da FDUFBA, e todas as inúmeras pessoas lindas e amigas que a vida colocou em meu caminho! Meus amigos quando me dão a mão sempre deixam outra coisa presença, olhar, lembrança, calor. Meu amigos quando me dão, deixam na minha a sua mão. (Paulo Leminski) É dispensável citar nomes... Por cada sorriso, cada abraço e por todas as demonstrações de amor, apoio, confiança, carinho e torcida que recebi ao longo da graduação e durante a produção desta monografia, MUITO OBRIGADA! Guardar Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela. Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro Do que de um pássaro sem vôos. Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema: Para guardá-lo: Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda: Guarde o que quer que guarda um poema: Por isso o lance do poema: Por guardar-se o que se quer guardar. (Antonio Cicero) Guardo vocês no meu coração! “Gracias a la vida, que me ha dado tanto...” (Violeta Parra) 7 LISTAS DE ILUSTRAÇÕES, TABELAS E DE ABREVIATURAS E SIGLAS A. Ilustrações Figura 1 Estátua de Zumbi dos Palmares localizada na Praça da Sé, Salvador-Bahia 18 Figura 2 Anúncio em jornal da época sobre fuga de cativo 21 Figura 3 Fragmento de petição inicial de ação de liberdade ajuizada em 1883, no estado de Pernambuco. 33 Figura 4 Luiz Gama 38 Figura 5 Castigo de Escravos (Mordaça) 52 Figura 6 Estátua de Esperança Garcia escrevendo a petição que enviaria ao governador do Piauí. Localizada no Centro de Artesanato Mestre Dezinho, Teresina-Piauí 59 Figura 7 Sankofa (Ideograma Adinkra) 73 B. Tabelas Tabela 1 Período das ações de liberdade de escravos no tribunal de Campinas 35 Tabela 2 Distribuição dos presos na cadeia do Aljube em 1842 (cadeia destinada a escravos) 65 C. Abreviaturas e Siglas APB Arquivo Público do Estado da Bahia 8 RESUMO Trata-se de estudo monográfico de conclusão de curso de formação jurídica, versando sobre a ocorrência das Ações Cíveis de Liberdade na História do Direito no Brasil. Como ponto de partida, é apresentada uma análise geral que considera as limitações da abordagem tradicional da História do Direito no Brasil em razão do formalismo e da dogmática jurídica. Desta forma, constata-se a existência de lacuna na historiografia jurídica nacional quanto ao estudo das possibilidades de relações existentes entre o Direito e os negros escravizados. Como alternativa para superação desta realidade, é sustentada a importância da concepção transdisciplinar do fenômeno jurídico, tendo em vista as contribuições daí decorrentes para a compreensão dos conflitos sociais. Assim, são exploradas as relações históricas entre o Direito e as diversas reações escravas frente à privação da liberdade imposta pelo sistema escravista. Neste sentido, este trabalho aborda as ações cíveis de liberdade, verificadas ao longo do século XIX, enquanto importante capítulo da História do Direito nacional. Por meio de pesquisa bibliográfica, constata-se a existência de histórias de cativos que recorreram à justiça para satisfação de direitos. No mesmo sentido, como resultado da pesquisa documental, é apresentado estudo de caso referente à ação de liberdade ajuizada por uma cativa, no ano de 1849, na cidade de Salvador/Bahia. Por fim, são apresentadas as conclusões e possibilidades de desdobramento do tema abordado pelo trabalho. Palavras-chave: Direito e Escravidão no Brasil; Ações Cíveis de Liberdade; História do Direito. RESUMEN Se trata de un estudio monográfico de conclusión de curso de formación jurídica, versando sobre la ocurrencia de las acciones civiles de libertad en la Historia del Derecho en Brasil. Como punto de partida es presentado un análisis general que constata las limitaciones del abordaje tradicional de la historia del Derecho en Brasil en virtud del formalismo y de la dogmática jurídica. De esta manera, es constatada la existencia de una laguna en la historiografía jurídica nacional enrelación al estudio de las posibilidades de relaciones existentes entre el Derecho y los negros esclavizados en Brasil. Como alternativa para la superación de esta realidad, se sustenta la importancia del abordaje interdisciplinar del fenómeno jurídico, teniendo en vista las contribuciones de ahí decurrentes para la comprensión de los conflictos sociales. En ese sentido, son analizadas las relaciones entre el derecho y las diversas reacciones esclavas frente a la privatización de la libertad impuesta por el sistema esclavista. Así, este trabajo visa abordar las acciones civiles de libertad ajuiciadas a lo largo del siglo XIX, mientras sea el capítulo integrante de la historia del derecho nacional. A través de investigación bibliográfica y documental, se constata la existencia de historias de esclavos que recurrieron a la justicia para la satisfacción de sus derechos siendo presentado un estudio de caso referente a una acción de libertad presentada por una esclava en el año de 1849, en la ciudad de Salvador/Bahia. Finalmente, son presentadas las conclusiones y posibilidades de despliegue del tema abordado en el referido trabajo. Palabras clave: Derecho y Esclavitud en Brasil; Acciones Civiles de Libertad; Historia del Derecho. 9 SUMÁRIO Introdução 09 Capítulo 1: Ações de Liberdade 15 1.1 Notas sobre Escravidão e Resistência no Brasil 15 1.2 Ações Cíveis de Liberdade na História do Direito. 23 1.2.1 Fundamentos jurídicos 27 1.2.2 Ocorrência geográfica 34 1.2.3 Luiz Gama: um representante da liberdade 38 Capítulo 2: Direito e Escravidão Negra no Brasil Imperial 40 2.1 A Constituição de 1824 e os não cidadãos brasileiros 40 2.2 A res incapaz: coisificação do escravizado face à legislação civil no Brasil Império 45 2.3 Negros e negras escravizados e a legislação penal do Império 48 Capítulo 3: Histórias de Direitos 54 3.1 Surge Esperança: a primeira cativa a peticionar 56 3.2 Eva Maria do Bonsucesso, o caso da cabra e a justiça 60 3.3 Anacleta e os caminhos da ação de liberdade: um estudo alargado de caso 61 Conclusão 71 Referências 74 9 INTRODUÇÃO A práxis sócio-política revela que o Direito nasce das lutas sociais, do desejo permanente de libertação. Manifesta-se pois ao longo da história, como liberdade conquistada em permanente transformação. É processo, em devir, no processo histórico.1 O presente trabalho tem o propósito de analisar a ocorrência das ações cíveis de liberdade na história do direito no Brasil. A partir da abordagem transdisciplinar do fenômeno jurídico, visando estabelecer o diálogo entre o Direito e a História, foi desenvolvida pesquisa bibliográfica e documental. Com o objetivo de verificar empiricamente a ocorrência e compreender o contexto em que estão inseridas estas ações, foi consultado o acervo judiciário do Arquivo Público do Estado da Bahia. A pesquisa documental é referente à análise das informações contidas nos autos de uma ação de liberdade ajuizada na comarca de Salvador/Bahia, no ano de 1849, por uma escravizada que buscava a obtenção da liberdade por meio judicial. A história denomina ações de liberdade àquelas demandas judiciais por meio das quais os cativos buscavam adquirir a condição jurídica de libertos, à revelia da vontade senhorial. Figurando como autores destas ações, as negras e negros escravizados eram representados por um curador responsável por defender o pleito relativo à alforria. No outro pólo da relação processual estava o senhor que, face à pretensão de liberdade, opunha o seu direito de propriedade sobre o escravizado. Os estudos sobre o tema, recorrentes no âmbito da ciência da história, demonstram que o período onde se verifica a ocorrência destas relações processuais está compreendido entre o final do século XVIII e o século XIX.2 No âmbito do Direito, a tradição jurídica não privilegia as investigações sobre o capítulo da História do Direito referente à resistência escrava ao cativeiro através das disputas jurídicas 1 SANT'ANNA, Alayde. Por uma teoria jurídica da libertação. pp.27-28 In: SOUZA JÚNIOR, José Geraldo de (org.). O direito achado na rua. 3.ed. Brasília: UnB, 1990, p. 27. 2 Cf.: AZEVEDO, Elciene. O direito dos escravos: lutas jurídicas e abolicionismo na província de São Paulo na segunda metade do século XIX. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2003; CHALHOUB, Sidney. Visões da Liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990; SILVA, Ricardo Tadeu Caires. Os escravos vão à justiça: a resistência escrava através das ações de liberdade. Bahia, século XIX. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Filosofia e Ciência Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2000. 10 por libertação. Via de regra, a abordagem feita pela historiografia jurídica nacional a cerca do período da escravidão no Brasil se limita ao estudo da legislação vigente. Através desta concepção legalista do Direito não é considerada relevante a análise do papel assumido pelos escravizados3 enquanto agentes ativos frente ao ordenamento jurídico vigente. A ausência de estudos sobre o tema está relacionada à construção dogmática do nosso saber jurídico, marcada pelo apego ao formalismo e busca por pureza metodológica. Assim, as pesquisas jurídicas se restringem à investigação de fontes internas, considerando as leis e os códigos como principais fonte do direito. Desta realidade decorre o isolamento epistemológico do campo do Direito no âmbito das ciências humanas e sociais, terminando por afastar, e por vezes excluir, da análise jurídica dos conflitos sociais as contribuições de outras áreas das ciências humanas.4 Michel Miaille aponta para necessidade de superação do idealismo metodológico e da fragmentação de saberes imposta pelo positivismo jurídico. Na sua Introdução Crítica ao Direito, o autor aponta a importância da transdicisplinaridade, ou seja, a quebra de fronteiras entre as disciplinas com o intuito de abrir novas hipóteses científicas e redefinir o objeto de estudo do Direito para além das regras jurídicas. Para tanto, para a superação deste obstáculo epistemológico e conseqüente construção de uma ciência jurídica atenta à realidade social, o autor propõe a compreensão da existência de um “continente científico” do qual fariam parte todas aquelas ciências que estudam as sociedades e suas transformações ao longo da história: Ora o que eu me proponho mostrar é que direito e economia, mas também política e sociologia, pertencem a um mesmo continente, estão dependentes da mesma teoria, a da história. É que direito e economia podem ser reportados ao mesmo sistema de referências científicas. Para admitir esta nova perspectiva é necessário abandonar o mito da divisão natural do saber. Este mito não é de papel: é um obstáculo, na medida em que é preciso forçá-lo, a fim de se conseguir obter os meios de traçar um caminho científico. Resumamos as conclusões às quais chegamos agora. Para desenvolver um estudo científico do direito, temos de forçar três obstáculos tanto mais sólidos quanto mais naturais parecem: a aparente transparência 3 Neste trabalho, adotamos o termo escravizado em lugar de escravo, por considerar que a privação da liberdade não constitui condição natural e inerente a nenhum ser humano. Os homens e mulheres submetidos ao trabalho escravo no Brasil, não nasceram sob esta condição, foram submetidos a ela. De igual modo, acreditamos que o termo escravo, consagrado pelo senso comum, reproduz um estigma de passividade e sofrimento. 4 GUSTIN, Miracy Barbosa de Souza. (Re)pensando a pesquisa jurídica. Belo Horizonte:DelRey, 2006, pp. 27- 30. 11 do objeto de estudo, o idealismo tradicional da análise jurídica, a convicção, finalmente, de que uma ciência não adquire o seu estatuto senão isolando-se de todos os outros estudos.5 Fato é que, no Brasil, o campo do Direito permanece isolado das outras ciências sociais. Tal posição termina por afastar o Direito daquela realidade mesma à qual ele se propõe regular, visto que a limitada concepção jurídica tradicional desconsidera as peculiaridades histórico- sociais que conformam a sociedade. Este isolamento epistemológico revela-se ainda mais prejudicial diante da constatação de que a construção do pensamento jurídico brasileiro está diretamente vinculada às tensões sociais que marcam a história do Brasil. Ao manter os muros que o separam de outras disciplinas sociais, como a História, a ciência jurídica termina por não dialogar com a sua própria história, ocultando assim o seu caráter dinâmico e as conseqüentes possibilidades de transformação científica. Por outro lado, quando o Direito se debruça sobre a sua história, o faz a partir de abordagens legalistas, incapazes de dar conta da complexidade das relações jurídico-sociais desenvolvidas no Brasil. Antonio Carlos Wolkmer, ao analisar a História do Direito no Brasil, sintetiza algumas características da historiografia jurídica tradicional: Na trajetória da cultura jurídica moderna há consenso de que áreas de investigação, como História do Direito, História das Instituições Jurídicas e História das Idéias ou do Pensamento Jurídico, estão todas identificadas, ora com um saber formalista, abstrato e erudito, ora com uma verdade extraída de grandes textos legislativos, interpretações exegéticas de magistrados, formulações herméticas de jusfilósofos e institutos arcaicos e burocratizados.6 O isolamento epistemológico do campo jurídico em meio às outras ciências sociais contribui para a inexistência do diálogo entre o Direito e disciplinas como a história. Ao restringir a compreensão da realidade aos aspectos jurídicos, a ciência do direito termina por limitar a sua análise dos fenômenos sociais. Por não dialogar com a dimensão histórica inerente aos fatos sociais, o Direito termina por não dialogar satisfatoriamente com a sua própria história. Dessa constatação resulta ainda mais relevante o pensamento de Miaille quanto à importância da transdisciplinariedade no estudo do Direito com especial atenção à sua análise desde o ponto de vista histórico. 5 MIAILLE, Michel. Introdução Crítica ao Direito. Lisboa: Editorial Estampa, 1994, pp. 61-62. 6 WOLKMER, Antonio Carlos. História do direito no Brasil. Rio de Janeiro: Forense, 2003, p.18. 12 Tais características do pensamento jurídico brasileiro estão relacionadas ao passado colonial do país. O caráter exploratório da relação desenvolvida por Portugal em relação a colônia brasileira determinou que as medidas e incentivos dispensados à esta última se limitassem àqueles necessários a manutenção de uma ordem política e econômica favorável aos interesses comerciais lusitanos. Os incentivos culturais necessários à formação de uma intelectualidade local somente começam a ser iniciados após a chegada da família real portuguesa ao Brasil em 1808. Desta forma, com o intuito de adequar a colônia às necessidades da corte, D. João, então Rei de Portugal, adota diversas medidas, a exemplo da inauguração da Faculdade de Medicina da Bahia e da cadeira de Artes Militares, no Rio de Janeiro. Neste contexto, por muitos anos, o acesso ao ensino superior era privilégio dos integrantes da elite colonial que viajavam à Europa, principalmente para a Universidade de Coimbra, para realização dos estudos superiores, sobretudo na área jurídica. Quanto à ordem jurídica portuguesa neste período, vale salientar que entre final do século XVIII e início do século XIX a Europa estava mergulhada nos ares iluministas e vivia a renovação das instituições jurídicas. Ao analisar a história do direito privado, R. C. van Caenegem, aponta a dificuldade de aplicação prática das críticas liberais para a superação da antiga tradição jurídico-política: “'liberdade' e 'igualdade' eram, portanto, exigências essenciais tanto nos programas políticos dos déspotas esclarecidos quanto na Revolução Francesa”. 7 No Brasil, os bacharéis passaram a desempenhar relevante papel na vida econômica e política do país na medida em que adquiriam o status necessário à ocupação dos cargos públicos, consolidando-se enquanto elite cultural e dirigente. Tal fenômeno, conhecido como bacharelismo8 irá possibilitar que os bacharéis assumam posição de protagonistas na estruturação do Estado, perpetuando sua influência ao longo dos diversos períodos históricos nacionais. O avanço do bacharelismo possibilitou a criação de um ambiente político onde os ideais iluministas eram divulgados através da atividade acadêmica que ganhava vida. Ao ocuparem espaços estratégicos, como a imprensa da época, os bacharéis disseminavam críticas liberais à ordem vigente. 7 CAENEGEM, R. C. Van. Uma introdução histórica ao direito privado. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 118. 8 WOLKMER, op. cit., pp. 378-384. 13 A instituição dos cursos jurídicos no país somente terá origem após a Proclamação da República, quando o imperador Dom Pedro I sanciona a Carta de Lei de 11.08.1827 que previa a criação dos primeiros dois cursos de ciências jurídicas e sociais, sendo um em São Paulo, e outro em Recife. Cumpre salientar que a disciplina relativa à análise histórica do Direito não foi privilegiada quando da conformação do conteúdo dos primeiros cursos jurídicos no país. Somente em 1891, com a Reforma Benjamim Constante, foi criada a cadeira de História do Direito Nacional. Ainda hoje a disciplina continua preterida no currículo de diversas universidades. Wolkmer afirma que a criação dos cursos de Direito no Brasil atendeu às exigências das elites, sucessoras da dominação colonizadora, que visavam concretizar a independência político-cultural e consolidar-se como camada burocrático-administrativa responsável por gerenciar o país.9 Neste sentido, o autor considera a peculiaridade do liberalismo brasileiro, que se apresenta como “a forma cabocla do liberalismo anglo-saxão que em vez de identificar-se com a liberação de uma ordem absolutista, preocupava-se com a necessidade de ordenação do poder nacional”10. Os contornos desta concepção paradoxa que o liberalismo assumiu no Brasil irão ser refletidos na manutenção da escravidão e no conteúdo das leis que serão editadas durante o Império. A análise do cenário apresentado aponta para a necessidade de superação do isolamento epistemológico do saber jurídico, bem como do formalismo dogmático e dos limites daí decorrentes para o Direito. A partir do estudo das ações de liberdade através da abordagem transdisciplinar defendida por Michel Miaille, ao logo deste trabalho serão apresentados pontos de aproximação entre a História e o Direito, capazes contribuir para releituras críticas da história do direito no brasil. Para tanto, a presente monografia está divida em 3 capítulos. Para a melhor compreensão do tema, o primeiro capítulo pontua aspectos sobre a escravidão no Brasil e a participação do Estado no sentido de legitimar este processo. A abordagem é pautada na demonstração das reações de resistência daqueles submetidos à condição escrava. Dentre as diversas manifestações da insurgência dos escravizados, são apresentadas notas sobre os quilombos, realidade verificada desde o século XVI, chegando à apresentação da 9 Ibidem, p.67. 10 TRINDADE, Hélgio. Bases da Democracia Brasileira: Lógica Liberal e Práxis Autoritária (1822-1945) Apud WOLKMER,2003,op cit, p.65. 14 resistência escrava através das ações de liberdade, noticiadas desde final do século XVIII. A opção por analisar as ações de liberdade, núcleo central deste trabalho, já no primeiro capítulo, decorre da necessidade de apresentar o tema ao leitor, tendo em vista que o assunto é pouco explorado pelo direito. Neste sentido, são apresentados aspectos relativos ao procedimento, ocorrência e fundamentos jurídicos destas ações. O segundo capítulo buscará traçar panorama crítico referente ao tratamento da escravidão dispensado pela legislação do Brasil Império. Neste estudo serão apresentados os contextos de surgimentos destas leis e os debates suscitados em razão do avanço das idéias abolicionistas. A abordagem feita quanto à condição jurídica do escravizado frente à legislação contribui para o melhor entendimento do cenário jurídico e das dificuldades enfrentadas por aqueles que buscavam o auxílio da justiça para obter o estatuto de liberto. No terceiro capítulo são apresentados os resultados das pesquisas documental e bibliográfica. Inicialmente, constatamos a ausência da análise das ações de liberdade na historiografia jurídica nacional. Em seguida são apresentadas histórias que demonstram as relações históricas dos cativos com a justiça. Como resultado da pesquisa documental, analisamos a ação de liberdade ajuizada em Salvador, no ano de 1849, em favor da escravizada Anacleta. Por fim, apresentamos conclusões, questionamentos e desdobramentos estimulados pela pesquisa realizada para a elaboração do trabalho. 15 CAPÍTULO 1 AÇÕES DE LIBERDADE Há sempre, direitos, além e acima das leis, até contra elas, como o direito de resistência, que nenhum constitucionalista, mesmo reacionário, poderá desconhecer […]11 As análises desenvolvidas neste capítulo são decorrentes da necessidade de contribuir com o pensamento crítico do Direito, através da superação de uma lacuna da história jurídica nacional. Aqui, nos referimos à ausência de estudos que considerem as ações de liberdade enquanto relevante manifestação da resistência escrava na História do Direito. Tradicionalmente, a abordagem da escravidão pelo direito gravita em torno de inúmeras leis, decretos e outras normas surgidas no intuito de regular o sistema escravista no Brasil. Ao longo de todo o século XIX, o Estado brasileiro atuou como representante da elite dominante e esteve envolvido na busca por mecanismos para reprimir as rebeliões escravas. Tendo em vista o arcabouço construído para a manutenção deste status quo, faz-se necessária análise cuidadosa das relações existentes entre Direito e escravidão no Brasil. Isto porque, caso o negro escravizado atuasse como mero espectador do processo, sujeito passivo no sistema escravista, não haveria necessidade de atividade legislativa tão intensa no sentido de coibir e punir a população de cativos. O rigor com que foi conduzida a repressão às insurreições de escravizados, sugere que a reação exercida em sentido contrário, aquela que ansiava por liberdade, era real e igualmente intensa, dinâmica e criativa. 1.1 Notas sobre escravidão e resistência no Brasil A primeira manifestação do escravismo no Brasil deu-se contra os povos que aqui se encontravam quando da chegada dos portugueses em 1500. No caso dos habitantes originários das terras de Santa Cruz, posteriormente denominados indígenas pelo dominante europeu, a exemplo do que ocorreu na América Espanhola, reduzi-los à escravidão foi o primeiro recurso 11 LYRA FILHO, Roberto. Por que estudar direito, hoje? In: SOUZA JÚNIOR, op. cit., p. 22. 16 empregado por Portugal para garantir a mão de obra necessária à exploração do território recém conquistado. E, mais que isso, a intervenção subjugadora do branco europeu era justificada pela necessidade de salvar, através da fé católica, os que aqui habitavam. Neste sentido, esta população foi submetida à catequese desenvolvida pelas missões jesuíticas. Perdigão Malheiros dedica ao estudo da escravidão do índio o volume dois do seu ensaio jurídico social sobre a escravidão no Brasil e afirma que “o governo reconhecia e legalizava assim com a sua autoridade soberana e onipotente o fato abusivo e odioso da escravidão dos Indígenas; e, longe de reprovar e punir, quase se diria que o acoroçoava” 12. A referida prática era ainda legitimada pelas leis da época13 que, em reconhecimento ao “direito do vencedor” permitia que os índios fossem escravizados. Neste sentido, em 06 de janeiro de 1574, visando regular a escravidão indígena foi decidido. 1.° que seria legítima a escravidão do índio aprisionado em guerra manifestamente lícita; entendendo-se por tal a que fosse feita pelos Governadores segundo os seus Regimentos, ou a que ocasionalmente se vissem os Capitães forçados a fazer, precedendo resolução com voto dos Oficiais da Câmara e outras pessoas experientes, dos Padres da Companhia, do Vigário, e do Provedor da Fazenda, de que se deveria lavrar auto; 2.°, que também se reputaria legitimamente cativo o índio que, maior de 21 anos e escravo de outros índios, preferisse ser escravo de cristão; 3.°, que o resgate não era aplicável ao índio manso; o qual não podia portanto ser por tal título reduzido a cativeiro; exceto se, fugindo da aldeia para o sertão, estivesse ausente mais de um ano. [...].14 Ocorre que, a super exploração desta mão de obra na extração do pau brasil e posteriormente no trabalho nas lavouras de cana de açúcar, aliado aos maus tratos e atrocidades cometidos pelos colonos à estes trabalhadores, suscitou o acirramento dos conflitos entre portugueses e os grupos indígenas, ameaçando a estabilidade da estrutura econômica que, conforme anteriormente exposto, estava assentada sobre o labor nativo. Por outro lado, a crise de mão de obra era acentuada pelo aumento do número de fugas15 daqueles que não mais queriam se submeter às condições impostas e, para tanto, tinham a seu favor o conhecimento do território - que lhe pertencia. Some-se ainda a proliferação da varíola e de doenças venéreas trazidas 12 MALHEIROS, Agostinho Marques Perdigão. A escravidão no Brasil: ensaio histórico, jurídico social. v2. Rio de Janeiro: Typografia Nacional, 1867. Fonte digital, transcrição para eBook: eBooks Brasil, 2008, p. 21. 13 COLAÇO, Thais Luzia. O direito nas missões jesuíticas da América do Sul. pp. 317-348. In: WOLKMER, Antonio Carlos (Org.). Fundamentos de história do direito. Belo Horizonte: Del Rey, 2008. 14 MALHEIROS,v2, op cit, pp.40-41. 15 Sobre as fugas indígenas: “Um outro limite à liberdade do indígena reduzido era a proibição de andarem a cavalo, dificultando assim a sua mobilidade, impedindo que se afastassem das reduções”. COLAÇO, op cit., p. 338. 17 pelo branco europeu, que dizimou grande parte desta população nativa. Neste contexto, são formadas as condições que ensejarão que o tráfico negreiro seja a fórmula escolhida para proceder à substituição da mão de obra na recém conformada colônia portuguesa. Neste contexto, o alvará de 29 de março de 1559 oficializa a permissão para que os senhores de engenhos importassem africanos de S. Tomé, com licença do Governador Geral. Neste ponto, cumpre apresentar a contribuição de Flávia Lages de Castro ao explicar que a escravidão na África negra já era praticada antes da chegada dos portugueses, porém, apresentava feição diversa ao modelo desenvolvido pelo europeu por não apresentar cunho mercantil, sendo reservada àqueles que eram capturados em guerras e disputas entre grupos locais e passavam a ser submetidos ao trabalho forçado. Ocorre que, com a investida do tráfico negreiro patrocinado pelo Estado português, tais relações conflituosas foram acirradas,levando ao extermínio de diversos grupos que eram mais vulneráveis naquelas sociedades.16 Violentamente arrancados do seu continente, dos seus laços sociais e afetivos, os negros são embarcados em navios negreiros para serem submetidos ao trabalho escravo no Brasil, país de costumes, idioma e território até então desconhecidos. E assim, o tráfico passa a ser a fonte originária da escravidão do negro no Brasil, sendo que a outra maneira de torna-se escravizado decorria do nascimento em terras brasileiras, evento que transmitia tal condição aos filhos e filhas de mulheres escravizadas. Agostinho Perdigão M. Malheiros, ao estudar a regulamentação legal do sistema escravista no Brasil, no volume 1 do seu clássico A escravidão no Brasil: ensaio histórico, jurídico, social, escrito em 1866, não pôde se omitir à mencionar a ocorrência de levantes, insurreições e quilombos que marcaram a resistência escrava no Brasil. Tal fato merece relevância se considerarmos que o referido jurista, integrante do Instituto dos Advogados do Brasil, fundado em 1843, iria ser um dos opositores à Lei do Ventre Livre em 1870. Sobre as reações de resistência dos escravizados, Perdigão Malheiros irá destacar que as fugas eram recorrentes e que na busca por liberdade muitos deles abandonavam a casa dos senhores 16 CASTRO, Flávia Lages de. História do direito geral e Brasil. 8ª ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010, p.387. 18 e se refugiavam nas matas, assumindo os perigos e privações que esta opção acarretava.17 Neste sentido, destaca que a reunião destes negros foragidos resultava na formação de organizações conhecidas como quilombos ou mocambos. Ressalta ainda o autor que devido à vastidão das matas, a natureza funcionou como aliada à esta estratégia de resistência. Malheiros expõe de forma sucinta como se dava a organização dos quilombos: Essas reuniões foram denominadas quilombos ou mocambos; e os escravos assim fugidos (fossem em grande ou pequeno número) quilombolas ou calhambolas — No Brasil tem sido isto fácil aos escravos em razão de sua extensão territorial e densas matas, conquanto procurem eles sempre a proximidade dos povoados para puderem prover às suas necessidades, ainda por via do latrocínio. É alheio do nosso propósito atual dar notícia mais minuciosa; é, porém, por demais notável o quilombo dos Palmares, para que deixemos de mencioná-lo.18 Figura 1: Estátua de Zumbi dos Palmares localizada na Praça da Sé, Salvador-Bahia.19 Fonte: Arquivo pessoal da autora 17 MALHEIROS, Agostinho Marques Perdigão. A escravidão no Brasil: ensaio histórico, jurídico social. v.1. Rio de Janeiro: Typografia Nacional, 1867. Fonte digital, transcrição para eBook: eBooks Brasil, 2008, p.27. 18 Ibidem. 19 “Apesar da reconhecida importância de Zumbi dos Palmares para a história da resistência do povo negro e, em última análise do povo brasileiro, somente no dia 30 de maio de 2008 foi inaugurado na Praça da Sé (Centro Histórico de Salvador) um monumento em homenagem à memória do guerreiro. Em contrapartida, ao longo da cidade de Salvador encontramos diversos monumentos reverenciando os ‘heróis’ da história oficial brasileira, a exemplo do monumento em homenagem aos ‘Heróis de Canudos’ que homenageia aqueles responsáveis pelo massacre de milhares de homens, mulheres, idosos e crianças que participaram do Movimento de Canudos, considerado por muitos historiadores como o último quilombo da Bahia, em razão da elevada concentração de pessoas negras e pobres.” SÁ, Gabriela Barretto de. As cores da cidade: uma análise do racismo ambiental na ocupação urbana de Salvador. Salvador, 2008. 19 A abordagem de Perdigão Malheiros nos revela a preocupação de toda a sociedade escravista frente às organizações quilombolas. Tendo em vista o caráter simbólico que revestia estes focos de resistência, por representar mau exemplo para os cativos. Os quilombos significavam ainda prejuízos econômicos aos senhores, pela perda da propriedade do negro fugido. Quanto ao Quilombo de Palmares, citado por Malheiros por ser demais notável, merece nossa atenção em virtude de ter existido durante aproximadamente um século: 1595-1695, resistindo a diversos ataques escravistas. Abdias do Nascimento defende que, com população estimada de trinta mil rebeldes africanos, entre homens e mulheres, os palmarinos estabeleceram o primeiro governo de africanos livres nas terras do Novo Mundo, constituindo a República de Palmares, um verdadeiro Estado Africano em terras brasileiras, na região onde atualmente é o estado de Alagoas.20 Cumpre salientar ainda que Zumbi, o último Rei de Palmares, de origem banto, tornou-se referência de resistência negra, sendo que no dia 20 de novembro, atribuído à sua morte, se celebra contemporaneamente o Dia da Consciência Negra. Ressaltando a importância e a organização sócio-econômica e política dos Palmares, Nascimento afirma: A República dos Palmares, com sua enorme população relativamente à época, dominou uma área territorial de mais ou menos um terço do tamanho de Portugal. Essa terra pertencia a todos os palmarinos, e o resultado do trabalho coletivo também era propriedade comum. Os autolibertos africanos plantavam e colhiam uma produção agrícola diversificada, diferente da monocultura vigente na colônia; permutavam os frutos agrícolas com seus vizinhos brancos e indígenas. Eficientemente organizados, tanto social quanto politicamente, em sua maneira africana tradicional, foram também altamente qualificados na arte da guerra. Palmares pôs em questão a estrutura colonial inteira: o exército, o sistema de posse da terra dos patriarcas portugueses, ou seja, o latifúndio, assim como desafiou o poder todo poderoso da Igreja católica. Resistiu a cerca de 27 guerras de destruição lançadas pelos portugueses e holandeses que invadiram e ocuparam por longo tempo o território pernambucano.21 Assim, configurados os mocambos como um ameaça real à estrutura escravista da sociedade, os senhores de engenho organizavam diversas buscas para reprimir e destruir estas organizações. A ameaça à paz social advinda das organizações quilombolas tornou urgente a necessidade de conter o fortalecimento dos quilombos, levando o Estado a intervir através da criação de leis que legitimavam o surgimento da figura do capitão do mato. Sobre a atuação deste personagem, Malheiros destaca que lhes era determinado que marcassem com ferro 20 NASCIMENTO, Abdias do. O Quilombismo. 2ªed. Brasília/Rio de Janeiro: Fundação Palmares/OR Editor Produtor Editor, 2002, p.57. 21 Ibidem. 20 quente a letra F àqueles fugitivos que pela primeira vez fossem capturados. Quando, porém, fosse a segunda apreensão do escravizado, deveria ser-lhe cortada a orelha, tão logo fosse apreendido, independente de processo judicial, por simples mandado do Juiz. O Regimento dos capitães do mato, de 1724, previa ainda que fosse atribuído o prêmio de 20 oitavas de ouro por cada negro capturado.22 Sobre a “institucionalização” dos caçadores de trabalhadores escravizados fugidos: No Brasil, a destruição de quilombos maiores exigia a organização de expedições, onerosas paras as populações que sofriam exações extraordinárias. Foi criada a categoria de homens do mato, que se regulava por regimentos especiais e tinha hierarquia própria: soldado, cabo, capitão, sargento-mor e capitão-mor do mato. A partir do posto de capitão do mato era preciso obter uma patente concedida pela autoridade pública.23 Dessa forma, buscando reprimir a resistência dos quilombos, várias foram as legislações estaduais que ressaltavam o caráter criminoso destes agrupamentos. O regimento aprovado pela Câmara de São Paulo em 1773, definia por quilombo o juntamento de 4 negros ou maisque viviam no mato e tinham como objetivo atuarem em roubos e homicídios.24 Deste modo, nos deparamos com o fenômeno da criminalização dos quilombos. Quer dizer, vítimas de uma ordem social perversa, sujeitos a excesso de trabalho, castigos e maus tratos, são considerados criminosos pelo poder público quando tentam, na medida das suas forças, transgredir a ordem vigente. Diante da existência de todo um aparato repressor para punir as tentativas de libertação, os cativos buscam novos caminhos para tentar garantir o seu direito a liberdade. Cumpre salientar que na sociedade escravocrata do Brasil independente a escravidão era regida pela norma da perpetuidade, assim, uma vez que o indivíduo encontrava-se submetido ao trabalho escravo, tal situação só teria termo, do ponto de vista jurídico, com a ocorrência de um destes eventos: a morte do trabalhador escravizado, a sua alforria ou disposição legal autorizando o fim do cativeiro.25 Arno Wehling explica que a perda da condição de escravizado em decorrência da morte obedecia à mesma regra que disciplinava a capacidade civil do homem livre, assim, retirado do mundo jurídico, suas relações deixavam de existir.26 22 MALHEIROS, op. cit, v.1, p.27. 23 GORENDER, O escravismo colonial. 6ªed. São Paulo: Ática, 2001. p. 60. 24 FIABANI, Adelmir. Mato, Palhoça e Pilão: o quilombo, da escravidão às comunidades remanescentes (1532-2004). São Paulo: Expressão Popular, 2005, p.269. 25 “A escravidão pode terminar; 1.º pela morte natural do escravo; 2.º pela manumissão ou alforria; 3.º por disposição da lei.” MALHEIROS, op. cit., v.1, p. 57. 26 WEHLING, Arno. O escravo ante a lei civil e a lei penal no império (1822-1871), pp.388-407. In WOLKMER, Antonio Carlos (org.). Fundamentos de História do Direito. Belo Horizonte: Del Rey, 2008, 21 No caso específico daqueles submetidos ao trabalho escravo a liberdade post mortem vigorava ainda o entendimento derivado do direito natural segundo o qual se ao escravizado lhe “se fosse possível ressuscitar, seria como livre”.27 Figura 2: Anúncio em jornal da época sobre fuga de cativo.28 Fonte: ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de. FILHO, Walter Fraga. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006, p. 120. No que tange à liberdade concedida por alforria (manumissão) a mesma poderia ser concedida por ato inter vivos ou mortis causa, por instrumento público ou particular. Por qualquer modo, pois, que a liberdade seja conferida ao escravo, solene ou não, direta ou indiretamente, expressa ou tacitamente ou mesmo em forma conjectural ou presumida, por atos entre vivos ou de última vontade, por escrito público, particular, ou ainda sem eles, a liberdade é legitimamente adquirida; e o escravo assim liberto entra na massa geral dos cidadãos, readquirindo a sua capacidade civil em toda a plenitude, como os demais cidadãos nacionais, ou estrangeiros. — Está entendido que, quando isto dizemos, é em tese, cujo desenvolvimento daremos em outros lugares; assim como quais os direitos políticos e civis dos libertos, e suas relações com os patronos. Os modos mais comuns no Brasil são: 1.º a carta, ainda que assinada somente pelo senhor ou por outrem a seu rogo, independente de testemunhas; 2.º o testamento ou codicilo; 3.º a pia batismal.29 p.393. 27 BREMEU, Padre. Univ. Jur. Trat. l.º tit. 6.º §1.º n.º 1. Apud MALHEIROS, op. cit., v,1, p. 169. 28 Através da análise do referido anúncio observamos que a recompensa oferecida àqueles que apreendessem o cativo fugido, contribuía para que, dentre a parcela livre da sociedade, todos, em alguma medida, fizessem as vezes de capitães do mato. 29 MALHEIROS, op. cit., v,1, p. 61. 22 O jurisconsulto Perdigão Malheiro nos conta ainda que, para a validade da relação jurídica que concedia a liberdade, era exigida a capacidade daquele que praticou o ato, sendo que seria decretada sua nulidade caso apresentasse vícios tais como a falsidade, o erro substancial, a ausência de vontade, a violência ou coação, a incapacidade do autor do ato, e outras hipóteses semelhantes.30 Mas ainda aqui a lei favorece as liberdades. Assim, posto que falso o título, o testamento, por ex., se o herdeiro ou legatário libertou o escravo, não volta este ao cativeiro; há apenas lugar à indenização; se o erro não é essencial, igualmente; se o senhor é coagido, não pelo escravo, nem pelo povo, nas manumissões por modo não solene, era válida a manumissão, por Dir. Rom.; se o menor incapaz de libertar, exceto por justa causa, iludia, nem por isto deixava de ser valiosa a manumissão.31 Por outro lado, o entendimento das Ordenações Filipinas que durante largo período estiveram vigentes no Brasil, era no sentido de restringir a liberdade concedida mediante a possibilidade de revogação das alforrias concedidas pelos senhores, caso aquele que foi beneficiado incorresse em ingratidão contra o seu benevolente senhor: As doações puras e simplesmente feitas sem alguma condição, ou causa passada, presente ou futura, tanto que são feitas por consentimento dos que as fazem, e aceitação daquelles, a que são feitas, ou do Tabelião, ou pessoa, que per Direito em seu nome pode aceitar, logo são firmes e perfeitas, de maneira que em tempo algum não podem ser revogadas. Porém, aquelles, a que forem feitas, forem ingratos contra os que lhas fizeram, com razão podem per elles as ditas doações ser revogadas por causa de ingratidão.32 Adauto Damásio, ao estudar as alforrias e as ações de liberdade na primeira metade do século XIX, em Campinas, afirma que, ordinariamente, a concessão da carta de alforria era negociada entre o cativo e o proprietário. Desta constatação resulta que a carta de liberdade não era um direito formalmente assegurado ao escravizado, estando configurada como uma concessão do senhor, diretamente atrelada aos seus direitos de livre disposição sobre qualquer objeto de sua propriedade. Assim, através destas negociações os escravizados poderiam obter a alforria mediante o pagamento do valor da sua liberdade, ou seja, deveria pagar pela sua liberdade o mesmo preço que outro senhor pagaria para adquiri-lo como propriedade. Outras vezes, dos acordos entre senhor e cativos resultava a concessão de alforrias condicionadas à 30 Ibidem, p. 62. 31 Ibidem. 32 CASTRO, op. cit., p. 386. 23 ocorrência de algum evento. Nestes casos, geralmente, a condição se relacionava com a previsão de concessão da alforria nos casos de morte do proprietário.33 Neste sentido, verifica-se que aqueles libertos via testamento possuíam neste documento o registro da sua liberdade. No entanto, considerados os casos gerais, a lei da época não determinava obrigatório o registro em cartório da carta de alforria.34 Deste modo, os alforriados vivenciavam a precariedade do título obtido, já que não eram raros os casos em que a libertação destes sujeitos era questionada. Em benefício da economia escravista, era possível que ex-senhores, herdeiros do antigo senhor ou outro interessado, tentassem garantir a reescravização destes alforriados. 1.2 Ações Cíveis de Liberdade na História do Direito Desde o final do século XVIII, a resistência ao cativeiro passou a assumir outras formas além das fugas e rebeliões coletivas. No contexto nacional, a disseminação das idéias iluministas e os apelos pela Independência, apontavam a necessidade de superação das estruturas coloniais. Assim, como alternativa aos abusos cometidos pelos proprietários, a busca da liberdade avança sobre as vias legais. Esta outra possibilidade de resistência escrava é proporcionadapelo ajuizamento de ações civis que buscavam a concessão ou o reconhecimento da condição de liberdade. Desse modo, ao longo do século XIX, as ações cíveis de liberdade são utilizadas como instrumento de defesa da aquisição e manutenção da alforria. Considerados não cidadãos pela Constituição de 1824 e coisificados pela legislação civil, os cativos, representados por rábulas ou advogados, passam a recorrer à tutela judicial do direito a liberdade. Através destas demandas, a população escrava demonstrava que, ainda que intuitivamente, se reconheciam enquanto sujeitos de direitos. Em especial, do direito que mais diretamente se relaciona àqueles que se encontram escravizados, o direito a liberdade. Assim, as ações cíveis pela liberdade passam a simbolizar novo instrumento de luta por direitos, estimulando os escravizados a protagonizarem um dos capítulos mais fascinantes e menos explorados pela História do Direito no Brasil. 33 Cf: DAMÁSIO, Adauto. Alforrias e ações de liberdade em Campinas na primeira metade do século XIX. 1995. 139f. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1995. 34 Ibidem. p. 13. 24 A existência das ações de liberdade demonstra como o campo jurídico serviu de palco para disputas travadas entre senhores e escravizados. A partir destas ações, os embates entre o direito à propriedade e o direito à liberdade, passaram a estar submetidos a tutela legal. Os estudiosos do tema coincidem quanto à afirmação de que a ocorrência de tais ações foi favorecida em grande medida pela ausência de uma legislação civil codificada, o que garantia as brechas necessárias para possibilitar o resultado almejado com as ações de liberdade.35 Deste modo, ao mesmo tempo em que legitima a escravidão a lei serve de terreno fértil para a contestação do sistema escravista. Além disso, diferindo do que ordinariamente ocorria nas outras ações judiciais que envolviam escravizados, nestas ações os cativos deixavam de figurar no pólo passivo da relação processual e apareciam como autores das ditas ações. Esta constatação revela a própria situação do negro escravizado no regime escravista a medida que, historicamente, não aceitaram a condição escrava de maneira passiva. Assim, através de insurreições individuais ou coletivas, lícitas ou ilícitas, assumiam os riscos e atuavam como sujeitos ativos e protagonistas dos rumos que poderiam tomar as suas próprias histórias. Flávio dos Santos Gomes, ao analisar os quilombos, mocambos e as comunidades de senzala do Rio de Janeiro ao longo do século XIX, apresenta panorama sobre as distintas correntes historiográficas que cuidam da análise das manifestações da resistência escrava. O autor destaca que até meados do século XX, predominaram as interpretações materialistas, influenciadas por idéias marxistas, que consideravam que as revoltas de cativos não representavam processo histórico em sentido próprio, capazes de intervir na realidade social, mas apenas subsídios ao processo econômico já em curso de desgaste social do escravismo.36 Gomes afirma que, apesar de reconhecer a existência das insurgências escravas, esta concepção baseada numa perspectiva subordinada aos modelos teóricos estruturais, terminava por coisificar os escravizados que agiam em sentido contrário à escravidão. Assim o cativo segue sem ser reconhecido enquanto aquele capaz de forjar no dia-a-dia sua própria história, sendo fortalecidos mitos que consideravam que “o escravo, ao invés de sujeito, aparecia apenas como um guerreiro de lógica inexorável, com um único sentido histórico. O escravo 35 Cf: AZEVEDO, op. cit.; CHALHOUB, op. cit.; SILVA, op. cit. 36 GOMES, Flávio dos S. Histórias de quilombolas. Mocambos e comunidades de senzala no Rio de Janeiro – século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995. pp.24-25 25 'coisa-passivo' cedia vez ao escravo ' coisa-rebelde'.”37 João José Reis e Eduardo Silva, ao analisarem a resistência negra no Brasil escravista, negam os estudos que atribuem à escravidão uma lógica determinista na qual os papéis desempenhados pelos escravizados somente poderiam oscilar entre aquele de vítima absoluta ou o seu extremo, de rebeldes e mártires. Os escravos não foram vítimas nem heróis o tempo todo, se situando na sua maioria e a maior parte do tempo numa zona de transição entre um e outro pólo. O escravo aparentemente acomodado e até submisso de um dia podia tornar-se o rebelde do dia seguinte, a depender da oportunidade e das circunstâncias. Vencidos no campo de batalha, o rebelde retornava ao trabalho disciplinado dos campos de cana ou café e a partir dali forcejava os limites da escravidão em negociações sem fim, às vezes bem, às vezes malsucedidas. Tais negociações, por outro lado, nada tiveram a ver com a vigência de relações harmoniosas, para alguns autores até idílicas, entre escravo e senhor. Só sugerimos que, ao lado da sempre presente violência, havia um espaço social que se tecia tanto de barganhas quanto de conflitos.38 E é justamente a partir desta concepção que a resistência escrava simbolizada pelas ações de liberdade é abordada neste trabalho. Antes de querer transformar em paladinos da justiça aqueles que enfrentavam os senhores em processos judiciais, o que se pretende neste trabalho é demonstrar que apesar de todas as amarras impostas à sua liberdade, os negros a buscavam movendo-se criativamente por diversos campos, inclusive no âmbito jurídico. Outro ponto pelo qual a resistência escrava através das ações de liberdade merece destaque está relacionado ao fato de que a partir destas ações, o Estado, através do Poder Judiciário, é provocado a intervir numa seara privada, onde tradicionalmente vigorava o direito costumeiro e o direito de propriedade. Isto é, o poder de alforriar já não estava mais restrito nas mãos do senhor, e, a medida em que o Estado poderia intervir nesta relação determinando que fosse concedida a alforria à revelia dos senhores, terminava por relativizar o domínio que os senhores detinham sobre os cativos. Chalhoub pondera que as ações de liberdade alteram uma realidade na qual a concentração do poder de alforriar exclusivamente nas mãos dos senhores 37 Ibidem, p.29. No mesmo sentido: “Em outras palavras, trata-se da postulação de uma espécie de exterioridade determinante dos rumos da história, demiurga de seu destino – como se houvesse um destino histórico fora das intenções e das lutas dos próprios agentes sociais”. CHALHOUB, op. cit, p. 19. 38 SILVA, Eduardo. REIS, João J. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 07. 26 fazia parte de uma ampla estratégia de produção de dependentes, de transformação de ex-escravos em negros libertos ainda fiéis e submissos a seus antigos senhores.39 Além do juiz, do senhor e do escravizado, estas ações envolviam a participação de outros atores, o que terminava por tornar ainda mais público um conflito que, a princípio, estaria restrito aos limites do direito de propriedade do senhor. Na maioria dos casos, as ações de liberdade envolvem os seguintes sujeitos: Juiz Municipal: Pelo direito antigo, era a denominação que se dava ao juiz que sucedia em grau ao Juiz de Paz. Era subordinado ao Juiz de Direito; Depositário: É a pessoa a quem se entrega ou se confia alguma coisa em depósito; Curador: Indica a pessoa que cuida, ou que trata de pessoa estranha ou seus negócios; Avaliador: Designa o perito ou a pessoa a quem se comete a missão de avaliar, isto é, dar preço justo e certo a determinada coisa ou bem; Juiz de Direito: Denominação genérica atribuída ao juiz togado, ou seja, magistradoque administra a justiça em primeira instância Senhor e escravo: Partes conflitantes.40 Quanto ao procedimento das ações de liberdade, regra geral, estas eram iniciadas com a petição inicial apresentada em cartório por pessoa livre, representante do escravizado, já que este, enquanto semovente, não poderia peticionar em juízo. Apresentada a petição inicial, o Juiz municipal deveria nomear curador para o libertando.41 Vale salientar que a nomeação do curador nestas ações obedecia à regra segundo a qual, “ainda quando o asserto escravo, ou o livre ou liberto, tenha procurador, ou curador nomeado pelo Juiz de Órfãos, deve o Juiz da causa dar-lhe curador in litem , como aos menores e demais pessoas miseráveis, isto é, dignas da proteção da lei pelo seu estado ou condição”42. A ausência de curador constituía um obstáculo enfrentado pelo cativo que recorria à justiça, tendo em vista que inviabilizava o prosseguimento da ação judicial. Desse modo, estando o escravizado legalmente assistido, era nomeado depositário43 a quem seria confiado o cativo até o final do processo. A partir daí, as partes apresentavam certidões, arrolavam testemunhas e tentam provar as suas alegações. O Juiz convocava audiência e, com 39 CHALHOUB, op cit, p. 100. 40 ABRAHÃO, Fernando Antônio. As ações de liberdade de escravos no tribunal de Campinas. Campinas: UNICAMP, Centro de memória, 1992, p.08. 41 Ibidem, p. 07. 42 MALHEIROS,op. cit.,v.I, p. 98. 43 No último capítulo deste trabalho, a partir da constatação empírica do procedimento de depósito, são apresentadas algumas considerações sobre a figura do depositário nas ações de liberdade. 27 vistas à resolução do conflito, era comum apresentar às partes a possibilidade de acordo. Não havendo acordo e em caso de dúvida ou divergência sobre o valor do cativo era designado avaliador responsável por determinar o preço justo a ser atribuído ao cativo e, por conseqüência, à sua liberdade. Após a lavratura do laudo de avaliação, o Juiz Municipal remetia os autos ao Juiz de Direito para o pronunciamento deste através de parecer ou sentença final. Em caso da sentença ser favorável ao autor, era conferida a carta de liberdade.44 Caso contrário, sendo a sentença desfavorável ao autor, existia a possibilidade de recurso para a segunda instância, o Tribunal da Relação45. A segunda instância, correspondia a uma nova fase de exposição de argumentos, sendo que eram nomeados novos advogados. Desse modo, concluída a ação, era proferido acórdão onde os desembargadores poderiam confirmar ou reformar a sentença obtida na primeira instância. Neste ponto, era possível ainda que a parte insatisfeita apresentasse embargos ao acórdão. Em caso de insatisfação da parte com a decisão do Tribunal da Relação, era possível requerer uma revista cível perante o Supremo Tribunal de Justiça. Na hipótese desta terceira instância se manifestar no sentido de conceder a revista, os autos seriam submetidos à decisão final junto ao Tribunal da Relação de outra província.46 1.2.1 Fundamentos jurídicos A vigência das Ordenações Filipinas e a ausência de legislação que regulasse a matéria de modo satisfatório, possibilitavam as brechas legais que favoreciam as ações cíveis de liberdade. Vários foram os fundamentos jurídicos utilizados para respaldar tais ações. Dentre os tipos de ações mais recorrentes, destacamos as que apresentavam os seguintes fundamentos: a) tráfico ilegal, b) liberdade mediante pecúlio, c) fundo de emancipação, d) ausência de matrícula, e) manutenção da liberdade. Importante destacar que os referidos argumentos guardavam relação com as diversas leis referentes à escravidão, editadas no 44 ABRAHÃO, op. cit, p. 07. SANTOS, Lídia Rafaela Nascimento dos. Ação de Liberdade: O escravo vai a justiça. Disponível em: <www.tjpe.jus.br/.../7_Acao_de_Liberdade_O_escravo_vai_a_Justica_Profa_Lidia_Rafaela.pdf>. Acesso em: 02 jun 2010. 45 Sobre o Tribunal da Relação, Ricardo T. C. Silva afirma: “Até 1874, quando foram criados os tribunais de Porto Alegre, Ouro Preto, São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Belém e Fortaleza, só existiam quatro tribunais da Relação no Brasil: Rio de Janeiro, Maranhão, Pernambuco e Bahia. Por sinal, o tribunal baiano era o mais antigo de todos, pois havia sido criado em 1609. Após funcionar até 1626, foi dissolvido e somente em 1652 voltou a ser reaberto”. Os escravos vão à justiça... op. cit. p. 04. 46 SILVA, op. cit., pp.04 - 05. 28 século XIX, mais notadamente, a partir da década de cinqüenta, com o crescimento do número de simpatizantes à causa abolicionista. A hipótese de liberdade fundada no tráfico ilegal decorre, inicialmente, da lei de 7 de novembro de 1831, conhecida como Lei Diogo Feijó. A referida lei estabelecia a ilegalidade do tráfico negreiro para o Brasil, e no seu artigo primeiro considerava livres todos os africanos entrados no Império a partir daquela data. Ocorre que os traficantes ignoravam a lei e seguiam desembarcando ilegalmente milhares de africanos em portos brasileiros. Em virtude da sua ineficácia, a lei de 1831 entrou para a história como “a lei para inglês ver”, tal referência se deve ao fato de que a normativa decorreu de pressões britânicas para acabar com o tráfico no Brasil. No que pese a ineficácia verificada no plano fático, a existência de dita lei no ordenamento constituiu importante fundamento jurídico para ações de liberdade de cativos ilegalmente importados após o ano de 1831. Assim, através de testemunhas e documentos os libertandos buscavam provar que foram trazidos ao Brasil durante a vigência da referida lei.47 Neste sentido, apresentamos ementa de ação de liberdade, fundada na Lei Diogo Feijó, ajuizada no ano de 1875, perante o Tribunal de Campinas/São Paulo: Ação Sumária de Liberdade baseada na Lei de 07 nov. 1831 (tráfico ilegal). Autores: Laurinda, 23 anos, Laurentino, 20 anos e Laudelina, 18 anos, filhos da liberta Laura, escravos da herança de custodio José Ignacio Rodrigues. Solicitador: Firmino Ramalho. Curador: o mesmo. Sentença: julgada procedente. Campinas, 18 abr. / 14 jun. 1876.48 Diante da ineficácia da lei de 1831, foi promulgada em 1850 a lei Eusébio de Queiróz que também será utilizada nas ações de liberdade. Tal lei apresenta a mesma finalidade da anterior, qual seja, coibir o tráfico de negros africanos para o Brasil. Outrossim, diversos fatores contribuíram para que a lei de 1850 fosse recebida na sociedade de modo diverso daquela que a precedeu. A eficácia, ainda que gradual, da lei Eusébio de Queiroz no sentido de por termo ao tráfico ilegal de cativos pode ser justificada não apenas em virtude das pressões externas sofridas pelo Brasil, mas também, e principalmente, por conta de diversos fatores internos.49 Dentre os fatos ocorridos no Brasil, destacamos o aumento da insurgência escrava através de 47 SILVA, op. cit., pp. 123-125. 48 ABRAHÃO, op. cit., p.19. 49 Ibidem. 29 crimes, insurreições e levantes, notadamente a partir de meados da década de 30.50 O aumento da organização e das proporções das rebeliões promovidas pelos escravizados aterrorizavam a elite a medida em que, cada vez mais, representavam ameaça real à manutenção do domínio senhorial. Assim, pouco a pouco, os negros irão se constituir numa terrível ameaça à manutenção da sociedade escravista, ganhando eco as vozes que defendiam o fim da escravidão como solução para minimizar tal ameaça, através da diminuição do número de africanos no Brasil. Conforme demonstrado, a proibição ao tráfico negreiro prevista nas leis Diogo Feijó e Eusébio de Queiroz constituiu o fundamento jurídico de muitas ações de liberdade ajuizadas ao longo do século XIX. A Lei nº 2.040, outorgada pela PrincesaIsabel, em 28 de setembro de 1871, também irá respaldar juridicamente as ações em favor da libertação de cativos. A referida lei, conhecida como Lei do Ventre Livre, conferia a condição de liberto a todos os nascidos após aquela data. Previa ainda a possibilidade de que o cativo comprasse a sua liberdade através de pecúlio. A permissão estava prevista no art. 4º da lei: “É permittido ao escravo a formação de um peculio com o que lhe provier de doações, legados e heranças, e com o que, por consentimento do senhor, obtiver do seu trabalho e economias”.51 A partir da permissão legal para constituir pecúlio, diversos foram os escravizados que conseguiram acumular quantia suficiente para adquirir a carta de alforria mediante pagamento do valor correspondente ao preço da sua avaliação. Com o fim de exemplificar possíveis resultados destas demandas, apresentamos algumas decisões de ações de liberdade por apresentação de pecúlio, ajuizadas perante o Tribunal de Campinas: Ação de Liberdade por apresentação de pecúlio. Autora: Emília, 24 anos, escrava de Gabriel dos Santos Cruz. Solicitador: Francisco Quirino dos Santos. Curador: o mesmo. Valor de avaliação: 1:300$000 réis. Sentença: homologada a avaliação, foi realizada a indenização ao senhor. Campinas, 29 nov. 1881 / 30 jan. 1882. 42 fls. (grifo nosso)52 Ação de Arbitramento para Liberdade por apresentação de pecúlio. Autor: Tobias, 51 anos, escravo de Luiz Abreu Pereira Coutinho. Solicitador: Francisco Glycerio de Cerqueira Leite. Curadores: o mesmo e Vicente Ferreira da Silva (em São Paulo). Valor de avaliação: 1:800$000 réis. Sentença: homologada a avaliação. Houve recurso: negado provimento, 50 Ver: REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 51 SANTOS, op. cit. p.14. 52 ABRAHÃO, op. cit. p. 25. 30 não foi libertado. Campinas, 02 out. 1878 / 04 jun. 1880. 71 fls. (grifo nosso)53 Ação de Arbitramento para Liberdade por apresentação de pecúlio. Autor: Guilherme, 54 anos, escravo de Pedro Rodrigues da Silva. Solicitador: Pedro Alexandrino Rangel Aranha. Curador: o mesmo.Valor de avaliação: 400$000 réis. Houve acordo para a liberdade. Campinas, 05 dez. 1878 / 22 mar. 1879. 24 fls. (Obs: liberdade concedida mediante a indenização de 50$000 réis, juntamente com a prestação de serviços durante 3 anos.) (grifo nosso)54 O texto da Lei do Ventre Livre previa ainda a criação do Fundo de Emancipação. O art. 3º dispunha que seriam “annualmente libertados em cada Provincia do Imperio tantos escravos quantos corresponderem á quota annualmente disponivel do fundo destinado para a emancipação”55. Desta forma, através do recolhimento de impostos o governo garantia as verbas que serviriam para indenizar os senhores quando o seu cativo obtivesse a liberdade por meio do Fundo de Emancipação.56 Outro dispositivo da Lei nº 2040 que passou a ser utilizado para respaldar as ações de liberdade foi a obrigatoriedade da Matrícula de Escravos, prevista no art. 8º da referida lei. A partir daí, os senhores estavam obrigados a matricular os escravizados dos quais eram proprietários, sob pena de multa. Porém, para o negro escravizado, o descumprimento pelo senhor quanto a obrigatoriedade lhe garantia a alforria. Isto porque, o parágrafo 2º do art.8º concedia a liberdade aos “escravos que, por culpa ou omissão dos interessados, não forem dados á matricula, até um anno depois do encerramento desta, serão por este facto considerados libertos.57” Desta forma, a ausência de matrícula foi utilizada como argumento legal em diversas ações de liberdade.58 53 Ibidem p. 21 Neste caso, interessante destacar que observamos a articulação de dois curadores, um curador em Campinas e outro em São Paulo, possivelmente para representar o libertando perante o Tribunal de Relação da capital, durante a fase recursal. Tal fato nos leva a questionar se era comum a incidência destes casos, já que dificilmente o cativo poderia arcar com os gastos daí decorrentes. 54 Ibidem. 55 SANTOS, op. cit. p.13. 56 ABRAHÃO, op cit, p.04. Sobre a liberdade obtida através do Fundo de Emancipação Ricardo T. C. Silva, afirma que num primeiro momento, os cativos que conseguiram a liberdade por este meio foram preferencialmente aqueles que já possuíam algum pecúlio para completar seus valores. Destaca ainda que o referido fundo possibilitou a alforria de escravizados doentes e idosos. Neste sentido, apresenta a posição de Robert Conrad, segundo a qual os resultados do fundo foram inexpressivos, não chegando a libertar muitos negros e servindo aos interesses senhoriais por possibilitar que estes recebessem valores satisfatórios em troca de cativos já improdutivos. SILVA, op. cit., p. 96. 57 SANTOS, op. cit. p.15. 58 Como exemplo de ação de liberdade movida face a ausência de registro, a história de Claudina, residente na vila de Geremoabo - Bahia que em 1876 “provavelmente instruída por um protetor, a escrava apresentou uma certidão provando que não havia sido matriculada pelo seu falecido senhor e rapidamente recebeu a carta de liberdade a que tinha direito.[...]” SILVA, op. cit. p.80. No mesmo sentido, apresentamos ementa de ação de 31 Sobre as possibilidades de alforria advindas da Lei do Ventre Livre, Chalhoub afirma: O texto final da lei de 28 de setembro foi o reconhecimento legal de uma série de direitos que os escravos haviam adquirido pelo costume e a aceitação de alguns objetivos das lutas dos negros. […] Na verdade, a lei de 28 de setembro pode ser interpretada como exemplo de uma lei cujas disposições mais importantes foram “arrancadas” dos escravos às classes proprietárias.59 A afirmação do professor Sidney Chalhoub, ressalta a posição ativa do negro escravizado na luta pelos seus direitos. Daí também resulta a constatação de que, as fugas, insurreições, ações de liberdade e todas outras formas de resistência escrava contribuíram para a consolidação dos direitos dos cativos, influenciando o direito costumeiro diariamente construído e aplicado às relações sociais. No mesmo sentido, a observação feita pelo autor quanto ao fato de que os dispositivos da Lei nº 2040 de setembro de 1871 podem ser interpretados como conquistas arrancadas pelos escravizados aos proprietários, demonstra que os cativos não eram apenas objetos, meros destinatários passivos de normas jurídicas. Merece destaque o fato de que as insurgências escravas em busca da liberdade terminavam por fomentar, ou melhor, forçar, a edição de leis que contribuíssem para o avanço da luta pela liberdade e fim da escravidão. Em 1885, a Lei nº 3270, conhecida como Lei Saraiva-Cotegipe ou Lei dos Sexagenários, complementa a Lei do Ventre Livre e, interfere na aplicação do dispositivo referente à concessão da alforria mediante pecúlio. Dentre outras disposições, a referida lei estabeleceu uma tabela com valores fixos que deveriam ser pagos nas libertações por pecúlio. Os valores variavam em razão da idade e quanto mais idade tinha o cativo, mais baixo seria o valor estimado para sua liberdade. Ocorre que, a referida tabela atribuía aos escravizados valores muito acima daqueles que comumente eram pagos como indenização ao proprietário nas ações de liberdade. Segundo Ricardo Tadeu Caires Silva, era comum que os autores das ações se valessem do artifício de alegar doenças60 ou outros fatores que servissem para diminuir o liberdade fundada na ausência de matrícula, ajuizada perante o Tribunal de Campinas: “Ação Sumária de Liberdade pela não efetuação da matrícula de escravos (Art.8, parágrafo 2º da Lei n. 2040). Autor: Casimiro José deMoura, 47 anos, escravo de Estevão José de Siqueira. Solicitador: Francisco Dias Castelo Branco. Curador: o mesmo. Sentença: julgada procedente. Campinas, 04 out. 1879 / 27 fev.1880. 31 fls. (Obs: o senhor não atendeu as citações e a sentença foi dada a revelia. Entrou com recurso posterior, porém houve desistência tácita. O autor sabia ler e escrever)”. ABRAHÃO, op. cit., p.22. 59 CHALHOUB, op. cit. pp. 159-160. 60 “É impossível saber em que medida essas doenças eram reais ou apenas uma maneira de tentar empurrar para baixo o valor da indenização: por um lado, havia pouca preocupação dos escravos ou seus curadores em 32 preço do escravizado e, conseqüentemente, o valor da indenização a ser paga ao proprietário mediante pecúlio. Assim, em vista do aumento da ocorrência de alforrias obtidas mediante apresentação de pecúlio, e dos prejuízos daí correntes para os escravocratas, a referida lei arbitrava valores altos para dificultar a possibilidade de pagamento pelos cativos e evitar o uso de recursos para baixar o valor das indenizações.61 Além dos fundamentos decorrentes de lei, vários eram os argumentos utilizados pelos escravizados na busca pela aquisição ou manutenção da liberdade outrora conquistada. Eram comuns os casos em que os cativos afirmavam possuir a condição de libertos, porém seguiam no cativeiro em virtude do extravio da carta de alforria. Eram comuns ainda os casos em que a liberdade do escravizado era prevista pelo proprietário em testamento, estando submetida à condição. Em alguns destes casos, satisfeita a condição que autoriza a concessão da alforria, os herdeiros do testador ajuizavam ações de reescravização, na tentativa de assegurar a propriedade e manter o liberto em cativeiro. Nestas situações, as ações de liberdade eram ajuizadas com o fim de reconhecer a liberdade do escravizado ameaçada face à uma ação de escravidão. Outro argumento comumente suscitado pelos libertandos era o direito à alforria frente ao abandono do cativo pelo senhor. A relativização da propriedade em função do abandono decorre do Direito Romano e desde o período colonial já era aplicada no Brasil.62 A possibilidade de alforria em função do abandono estava assegurada também no parágrafo 4º do art. 6º da Lei do Ventre Livre. Exemplificando a diversidade dos fundamentos que poderiam embasar as ações de liberdade, Sidney Chalhoub relata o caso das ações movidas no Rio de Janeiro em defesa da alforria de Josefa e outras negras escravizadas que eram forçadas pelos proprietários-cafetões à se dedicarem à prostituição. Apesar de longa a citação, transcrevo um trecho sobre o caso em virtude da singularidade da questão, pelo fato da ação partir de iniciativa das autoridades públicas, e das informações sobre as relações entre a polícia e o poder judiciário que aí podem ser constatadas: apresentar atestado médico que reforçasse a alegação de doença; de outro lado, os juízes não solicitavam que os libertandos fossem examinados por médicos.” CHALOUB, Sidney. Visões da liberdade... op. cit. p.169 61 SILVA, op. cit. p.77. 62 ALGRANTI, Leila. O feitor ausente. Estudo sobre a escravidão urbana no Rio de Janeiro. 1998, p.101. Apud SILVA, op. cit. p.90. 33 A ação judicial com o objetivo de libertar Josefa foi parte de um esforço mais amplo do chefe de polícia da Corte, em articulação com o juiz municipal da segunda vara, no sentido de combater “o imoral escândalo da prostituição de escravas”. A estratégia utilizada foi a seguinte: os subdelegados elaboraram relações nominais das escravas empregadas por seus senhores na prostituição; o segundo passo foi enviar essas relações para o juiz municipal da segunda vara, que nomeou advogados como curadores das negras e determinou a apreensão e depósito imediato das mesmas; iniciaram-se assim em poucos meses cerca de duzentos processos de liberdade, baseados em disposições do direito romano segundo as quais os senhores que obrigavam suas escravas à prostituição eram obrigados a libertá-las.63 Figura 3: Fragmento de petição inicial de ação de liberdade ajuizada no ano de 1883, no estado de Pernambuco. Fonte: SANTOS, op. cit., p.02 1.2.2 Ocorrência geográfica Outro aspecto relevante sobre as ações de liberdade diz respeito à ocorrência geográfica de ditas ações. Durante a pesquisa realizada para a elaboração deste trabalho foi encontrada 63 CHALHOUB, Sidney. op. cit. p.152. 34 bibliografia referente à ocorrência de ações de liberdade ajuizadas nos estados da Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. No Arquivo Público do Estado da Bahia, na seção referente ao Judiciário, sub-seção Autos Cíveis II, consta o registro de 336 ações de liberdade em diversas localidades baianas. Este número considera os dados disponíveis no sistema digital de busca ao acervo do APB e foi obtido durante a pesquisa de campo realizada para este trabalho. Importante ressaltar que este número não equivale à existência física dos referidos autos, já que durante a pesquisa, foi possível verificar que alguns dos arquivos que apareciam no referido sistema digital não estavam disponíveis para consulta em razão de extravio ou deterioração64. Assim sendo, considerando que os limites teóricos, temporais e materiais, inerentes a pesquisa de graduação, não permitiram a análise de todos os casos disponíveis no sistema digital de buscas do APB, o número de casos aqui apresentados cumpre a função de fornecer panorama geral sobre a ocorrência das ações de liberdade na Bahia. Ricardo Tadeu Caires Silva afirma que em pesquisas realizadas durante os estudos de mestrado em história social na Universidade Federal da Bahia, constatou a incidência de 40 processos de ações de liberdade relativos ao município de Salvador65. O autor pondera que o reduzido número verificado está relacionado ao sumiço da documentação, já que casos citados por outros autores não foram localizados durante a pesquisa. Por fim, relata que foram encontrados 17 processos de manutenção, que poderiam ter como objetivo tanto a alforria como a permanência no cativeiro. 66 Ao analisar as visões da liberdade na última década da escravidão na corte, Chalhoub nos conta que debruçou-se sobre o estudo de “78 processos, referentes às décadas de 1860, 70 e 80, ações de liberdade na sua grande maioria”, disponíveis no Arquivo Nacional do Rio De Janeiro67. Neste sentido, retomando a informação fornecida pelo autor sobre as estimadas 200 ações de liberdade ajuizadas em favor das escravizadas submetidas à prostituição, é possível inferir que o arquivo da capital carioca abriga relevante volume de processos relativos à liberdade. 64 Neste sentido, durante as pesquisas, foi verificado que, apesar de constar no sistema digital, não foi encontrado para consulta o processo APB. Justificação de Liberdade. Class. 82/2928/21. 65 SILVA, Ricardo. op. cit. p.06. 66 Ibidem. 67 CHALHOUB, op. cit., p.21. 35 Em Minas Gerais, onde o trabalho escravo foi largamente utilizado para as atividades de mineração, Luiz Gustavo Cota localizou no Arquivo Histórico da Casa Setecentista da cidade de Mariana, 38 ações de liberdade compreendidas entre o período de 1871 a 1888.68 O pesquisador constata que a maioria das ações foram movidas por escravizados residentes em áreas rurais, fato que permite a conclusão de que a notícia sobre a possibilidade de conquistar a liberdade mediante ação judicial, ganhou visibilidade, alcançando até mesmo os cativos que viviam no campo.69 Já no estado de São Paulo, as informações divulgadas pelo Centro de Memória da Unicamp dão conta da ocorrência de 157 açõesde liberdade distribuídas em 3 ofícios da cidade de Campinas70. Estes arquivos estão situados entre 1803 e 1888, sendo assim distribuídos: Período das Ações Quant. % Anteriores a 1871 5 3,2 Entre 1871 a 1885 (período que compreende a Lei nº 2040) 108 68,8 Entre 1885 a 1888 (período que compreende a Lei nº 3270) 044 28,0 Tabela 1: Período das ações de liberdade de escravos no tribunal de Campinas. Fonte: ABRAHÃO, op. cit., p. 06. Expostos os dados referentes à incidência das ações de liberdade nas realidades apresentadas, cumpre destacar que o número de alforrias concedidas através das ações de liberdade, é consideravelmente inferior ao total das cartas de liberdade conquistadas pelos libertandos nos períodos analisados. Isto porque, regra geral, a concessão da alforria era negociada diretamente entre o senhor e o cativo, sendo que este último, poderia recorrer à justiça em caso de descumprimento de acordo por parte do proprietário, ou quando verificada qualquer outra situação de ameaça à concessão e fruição da liberdade. É dizer, diversos eram as cartas de alforria concedidas sem ser necessário que o Estado interviesse na relação entre as partes. Porém, importante ressaltar, que, não raras vezes, a ausência do Estado favorecia os interesses do senhor, que através de meios protelatórios, buscava manter o escravizado baixo seu 68 COTA, Luiz Gustavo S. Um direito sagrado – os advogados de Mariana e sua atuação nas ações de liberdade (1871-1888). p.05. Disponível em: < http://www.ichs.ufop.br/memorial/trab/h7_1.pdf>. Acesso em 02 abr 2010. 69 Ibidem. 70 ABRAHÃO, Fernando. op. cit., p.05. 36 domínio e dependência sobre o maior tempo possível. 1.2.3 Luiz Gama: um representante da liberdade Conforme anteriormente explicado, nas ações de liberdade os libertandos eram representados por pessoas livres que se dedicavam à sua defesa em juízo. O perfil destes representantes varia muito. Neste sentido, é verificada a atuação de pessoas livres que desenvolviam alguma relação afetiva com o libertando e terminavam por “apadrinhar” o mesmo nas ações de liberdade. Merece relevo também a atuação das irmandades religiosas71 e agrupamentos de profissionais de um mesmo ofício, que através de doações externas e contribuições dos integrantes, conseguiam a quantia em dinheiro necessária para alforriar alguns de seus membros. Por outro lado, a atuação de rábulas e bacharéis representando a parte autora, irá ganhando vulto a partir da década de cinqüenta, com o avanço da propaganda abolicionista. Neste ponto, impossível é discorrer sobre a defesa dos escravizados perante os tribunais e não mencionar a atuação de Luiz Gonzaga Pinto da Gama. Nascido em 21 de julho de 1830, filho de um fidalgo português e de Luiza Mahin, africana liberta a quem a história oral e a memória popular atribuem a participação em insurreições escravas, Luiz Gama é uma das personagens que protagonizavam a história da resistência escrava perante os tribunais. A sua própria história de vida já é um belo exemplo de insurgência face à escravidão. Em virtude da participação na Revolta dos Malês, ocorrida no ano de 1835, na cidade de Salvador, e na Sabinada, em 1837, Luiza Mahin precisou fugir da cidade Salvador, deixando o filho sob os cuidados do pai. Sobre sua mãe, e a separação da presença materna, Luiz Gama afirma: Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina (Nagô de Nação) de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, geniosa, insofrida e vingativa. Dava-se ao comércio – era quitandeira, muito laboriosa, e mais de uma vez, na Bahia, foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreições 71 “Algumas irmandades negras emprestavam dinheiro para a compra da alforria de irmãs e irmãos escravos. Em Porto Alegre, as irmandades de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, além de zelarem pelo sepultamento digno dos irmãos e irmãs, e ampará-los nas dificuldades, patrocinavam também a 'liberdade de filhos dos irmãos cativos'. Essa ajuda muitas vezes consistia em colocar à disposição dos irmãos um cofre onde eram depositadas contribuições em dinheiro até completar a quantia necessária para a compra da alforria.” ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de; FILHO, Walter Fraga. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006, p. 109. 37 de escravos, que não tiveram efeito.72 Elciene Azevedo, em estudo sobre a vida e obra desta fascinante personagem, informa que, em 1840, dois anos após a partida de Luiza Mahin, o fidalgo português, venderia o filho como cativo para cobrir dívidas de jogo. Desta forma, aos dez anos de idade Luiz Gama é embarcado com destino ao Rio de Janeiro, num navio que fazia o tráfico interprovincial de negros. No Rio de Janeiro, é vendido a um comerciante de negros que o leva para sua casa em São Paulo, onde Gama passa a atuar nos serviços domésticos. Aos dezessete anos Luiz Gama aprende a ler e escrever, coma ajuda de Antonio Rodrigues do Prado Júnior, hóspede da casa em que Gama servia. A partir daí, a historiografia desconhece os caminhos por ele percorridos, mas é sabido que em 1848, o negro baiano já era forro e atuava como praça da força pública de São Paulo. Posteriormente, o liberto ocupará a função de escrivão de polícia, cargo que lhe possibilitará estabelecer boas relações com homens ligados ao poder público.73 Em 1850, o interesse em estudar a ciência jurídica o levou a freqüentar como ouvinte a Faculdade de Direito, porém não lhe foi possível dar seguimento aos estudos em razão das reações da elite universitária, contrária à permanência daquele negro liberto na faculdade. Porém, Gama continuou, as incursões no mundo jurídico e contou com o apoio do Conselheiro Furtado de Mendonça, professor da Faculdade de Direito e proprietário de uma grande biblioteca jurídica, onde Gama passou a ter acesso livre para seus estudos enquanto auto-didata74. É este o resumo do caminho trilhado por Luiz Gama e que o leva a atuar como rábula, advogado sem formação universitária que atuou em centenas de ações judiciais em defesa de cativos, libertos e desvalidos. Advogava notadamente na defesa dos escravizados acusados de cometer crimes contra os proprietários, e durante um júri, advogando em defesa do cativo que assassinou o senhor, pronunciou a frase que entraria para a história “o escravo que mata o senhor”, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa. ”75 72 BENEDITO, Mouzar. Luiz Gama: o libertador de escravos e sua mãe libertária, Luiza Mahin. São Paulo: Expressão Popular, 2006, pp.66-67. 73 AZEVEDO, Elciene. Orfeu de carapinha: a trajetória de Luiz Gama na imperial cidade de São Paulo. Campinas: Editora da UNICAMP, 1999, pp. 37-38. 74 BENEDITO, op. cit., pp.24 – 25. 75 Ibidem, p.52. 38 Figura 4: Luiz Gama Fonte: AZEVEDO, op. cit. Azevedo apresenta anúncio de jornal do ano de 1869 onde Luiz Gama oferece os seus serviços para a atuação em ações de liberdade: “O abaixo assinado aceita, para sustentar gratuitamente perante os tribunais, todas as causas de liberdade que os interessados lhe quiserem confiar. Luiz Gonzaga Pinto de Gama”.76 De fato, Gama atuava em qualquer ação de liberdade, independente de existir ou não fundamento jurídico que legitime o pleito do autor. Como exemplo da sua atuação, a autora relata ainda a defesa do pardo Narciso, realizada em 1870, antes da Lei do Ventre Livre autorizar a liberdade do escravizado mediante apresentação de pecúlio. Aindaassim, não obstante as normas jurídicas da época reconhecerem o direito do proprietário negar a alforria, Gama desenvolveu a seguinte argumentação : (…) quer por direito romano, quer por direito português, quer por direito pátrio – são admitidas as alforrias forçadas; isto é, contra a vontade dos senhores, mediante retribuição, e até sem ela. Esta doutrina é sobremodo jurídica, aceita pelos nossos melhores juristas, e mantida com elevada independência pelos tribunais superiores do império.77 Mesmo inexistindo previsão legal no sentido de respaldar a concessão da alforria à revelia dos proprietários, o defensor dos escravizados ousou construir uma argumentação jurídica criativa o bastante para legitimar o pleito de liberdade. Nos parece que tal postura enche de sentido aquela afirmação do rábula baiano utilizada como epígrafe desta monografia: “Nós temos a lei 76 Radical Paulistano, 31 de maio de 1869. Apud AZEVEDO, op. cit., 1999, p.193. 77 GAMA, Luiz. Questão do pardo Narciso. Apud AZEVEDO, Ibidem, p. 214. 39 e eu sei ter vontade”78. Com vontade corajosa e criativa, de qualquer texto de lei é possível garimpar possibilidades, construir direitos. Atestando seu compromisso neste sentido, Luiz Gama assevera: Fique-se, pois, sabendo, uma vez por todas, que o meu grande interesse; interesse inabalável, que manterei sempre, a despeito das mais fortes contrariedades, é a sustentação plena, gratuitamente feita, dos direitos dos desvalidos que recorrerem ao meu tênue valimento intelectual.79 A exemplo de Luiz Gonzaga Pinto da Gama, outros rábulas e bacharéis se dedicaram à defesa dos libertandos nas ações cíveis. A disseminação das idéias abolicionistas, notadamente a partir da década de oitenta, levou muitos desses profissionais a atuarem nas ações de liberdade. Na Bahia, a propaganda abolicionista começa a ganhar popularidade em 1880, levando à criação de sociedades abolicionistas que congregavam não apenas advogados, alcançando outros setores da sociedade local, como estudantes universitários e médicos. Quanto à representação em juízo dos libertandos, são notórias as participações de Eduardo Carigé e Frederico Marinho de Araújo.80 Neste contexto, fatores como o aumento da organização dos escravizados na luta pela libertação, o aumento das fugas e a popularização das idéias e manifestações sociais pela abolição, contribuem para o desgaste e inviabilidade da manutenção do sistema escravista. Em 13 de maio 1888 a promulgação da Lei Áurea determina a extinção legal do sistema escravista no Brasil, reconhecendo a luta daqueles que, diariamente, protagonizavam a conquista da sua liberdade. 78 GAMA, Luiz.“Coisas admiráveis”, Correio Paulistano, 2 dez. 1870. Apud AZEVEDO, Ibidem, p.212. 79 GAMA, Luiz.“Foro da Capital” , Radical Paulistano, 29 jul. 1869. Apud AZEVEDO, Ibidem, p.200. 80 Ver: SILVA, op. cit. 40 CAPÍTULO 2 DIREITO E ESCRAVIDÃO NEGRA NO BRASIL IMPERIAL Vieram três para bater no nêgo, você não sabe o que pode fazer o nêgo, não, troca as mãos pelos pés, os pés pelas mãos... (Ladainha de capoeira) Wlamyra Albuquerque e Walter Fraga Filho apontam o envolvimento dos negros, pobres e libertos nas lutas pela independência do Brasil. Esta parcela da população acreditava que o fim do domínio português representaria a melhoria das condições de vida e garantia de direitos. Porém, depois de assegurada a independência, a base escravista da sociedade permanece inalterada e segue a repressão aos escravizados.81 No mesmo sentido, ao analisar o processo de independência no Brasil, Nilo Odalia afirma que o real significado deste capítulo da história brasileira, “nada mais é do que a realização de um pacto e de um consenso em que se achavam envolvidos tão-somente os senhores de terra e de escravos e que visava preservar o que lhes interessava basicamente, a saber, um modo de produção escravista e a propriedade da terra”. 82 Desta forma, mesmo livre do domínio português a escravidão é mantida e, em função desta opção do Estado Brasileiro, permanece na produção legislativa da época a restrição de direitos à população escravizada. 2.1 A Constituição de 1824 e os não cidadãos brasileiros A independência do Brasil em 1822 representou, do ponto de vista formal, a possibilidade de inaugurar um novo capítulo político na história brasileira e o impulso necessário ao 81 Cf: ALBUQUERQUE, op. cit. Exemplificamos a repressão aos escravizados, através de trecho extraído da referida obra: “Depois da independência, as autoridades passaram a proibir danças e procissões organizadas pelas irmandades, como a do Rosário do Campo de Santana, no Rio de Janeiro. As autoridades justificavam essas proibições afirmando que as festas causavam bebedeiras e incomodavam a vizinhança. Na verdade, as autoridades temiam e tentaram impedir que as festas dessem lugar a desafios contra a ordem estabelecida.” Ibidem, p.113. 82 ODALIA, Nilo. As formas do mesmo: ensaios sobre o pensamento historiográfico de Varnhagen e Oliveira Vianna. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997, p.27. 41 surgimento de uma ordem jurídica distinta. Ainda que na prática perdurasse a influência de Portugal em diversos aspectos da vida econômica, política e social da ex-colônia, a proclamação da independência favoreceu o ambiente para o surgimento de anseios relativos à consolidação da nova nação, ganhando eco as vozes que há muito clamavam pela elaboração de uma legislação nacional. Animados pelos ideais liberais do período, em 1823 os membros do poder legislativo se reuniram na Assembléia Constituinte para a elaboração de um projeto de Constituição para o país em substituição às até então vigentes Ordenações da Coroa portuguesa. Ocorre que, os constituintes estavam limitados àqueles projetos que não configurassem ameaça à autoridade do imperador D. Pedro ao qual, dentre outras prerrogativas, lhe era assegurado o poder de veto e dissolução do parlamento. Sobre as peculiaridades deste episódio histórico e sua ligação com os interesses de Portugal, Luiz Carlos de Azevedo salienta que “permaneceram, assim, tanto a monarquia hereditária quanto a continuidade do direito à época aplicado, embora declarada a urgência de se redigirem e proclamarem novos estatutos em substituição à legislação reinol” .83 Neste sentido, mesmo antes do ano de 1822, a partir dos contornos que já se apresentavam sobre a conformação do país independente, eclodiam reações em prol da autonomia e soberania nacional. Muita destas com apelo abolicionista a exemplo da revolução pernambucana de 1817, que reivindicava a abolição lenta e gradual da escravidão. No plano teórico, destaca-se a “Memória sobre a necessidade de abolir a introdução de escravos africanos no Brasil” elaborada em 1821 por João Severiano Maciel da Costa84. Neste contexto, é de fundamental importância examinar as estruturas da sociedade que permanecem inalteradas pós – 1822, para compreender o que de fato se buscava com o projeto de independência do Brasil. Assim, cumpre ressaltar que a separação do Brasil com relação a Portugal em nada altera questões polêmicas referentes ao sufrágio universal ou a manutenção da escravidão no país; uma análise mais detida sobre o fato histórico de 1822 nos leva a questionar os limites deste ideal de independência, já que, no nosso entender, independência e liberdade são condições sinônimas. 83 AZEVEDO, Luiz Carlos de. Introdução à História do Direito. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p. 248. 84 LOPES, op. cit., p. 346. 42 Desta forma, permanecendo inalterada a base escravista da sociedade, aqueles negrose negras que se encontravam escravizados não gozariam da autonomia conquistada pela nação agora independente, permanecendo para este setor da sociedade o modelo de Estado imposto pela antiga metrópole. Daí considerar-se que o projeto de independência estava direcionado apenas ao setor que não estava submetido à escravidão, ou seja, tratou a independência de uma nova configuração política, um Estado livre para um público delimitado: a parcela branca da população85. Quanto à situação do escravizado no Brasil face ao processo de separação de Portugal, cumpre mencionar a participação de José Bonifácio de Andrada e Silva, político paulista, considerado pela história como o patriarca da independência.86 Foi ele o autor da “Representação à Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil” composta por trinta e dois artigos que visavam à proibição imediata do tráfico e abolição gradual da escravatura, além de reivindicar melhoria das condições de vida e trabalho da população negra. Dentre as medidas por ele advogadas destaca-se aquela que previa à negra escravizada o direito de não trabalhar fora de casa a partir do terceiro mês de gestação, sendo que, no mês anterior ao nascimento da criança lhe deveria ser assegurado descanso, e no primeiro ano após o parto, a mãe trabalharia junto ao filho. Assim José Bonifácio concluía a defesa da sua proposta: O mal está feito, senhores, mas não o aumentemos cada vez mais, ainda é tempo de emendar a mão. Acabado o infame comércio da escravatura, já que somos forçados pela razão política a tolerar a existência dos atuais escravos, cumpre em primeiro lugar favorecer sua gradual emancipação. E antes que consigamos ver o nosso país livre de todo este cranco, e que levará tempo, desde já abrandemos o sofrimento dos escravos87. 85 Neste sentido, compartilhamos do seguinte entendimento: “Como na História geral do Brasil não existe estritamente uma teoria racial em termos biológicos, que decidisse em favor de uma etnia em detrimento de outras, seu critério é o mais simples e o menos sofisticado: de um lado, a civilização, encarnada no homem branco, conquistador e cristão; de outro, a barbárie, indígena ou negra. Disso tudo resulta que o homem branco brasileiro nasce de uma rede de relações ideais e históricas, cuja realização final é ainda expressão da mesma vontade racionalizadora que projeta a nação.” ODALIA, op. cit., p.88. 86 No mesmo sentido, vale destacar a campanha contra a escravidão feita na Câmara de Deputados pelo político Joaquim Nabuco. De inspiração monarquista, Nabuco fundou em 1878 a Sociedade Antiescravidão Brasileira, e é autor da obra “O abolicionismo”. Ver: NABUCO, Joaquim. O abolicionismo. Disponível em: <http://www.bibvir.futuro.usp.br/textos/autores/joaquimnabuco/abolicionismo_textohtml>. Acesso em: 16 jun. 2010. 87 SALGADO, Graça. (org.). Memórias sobre a escravidão. 1988, p.70. Apud LOPES, José Reinaldo de Lima. O direito na história. São Paulo: Max Limonad, 2000, p.346. 43 Ocorre que, a representação de José Bonifácio direcionada à Constituinte não encontrou apoio entre os representantes do legislativo, e nenhuma de suas propostas foi convertida em lei. Ao analisar tais propostas percebe-se que muitas delas ameaçavam diretamente o poder dos senhores escravocratas e, conseqüentemente, a manutenção do status quo da sociedade escravista, a exemplo da previsão do seu artigo XX que proibia o senhor de impedir o casamento dos seus escravos com mulheres livres ou com escravas suas, bem como o proposto no artigo XXI que autorizava o governo a tomar medidas necessárias para que os senhores de engenho tivessem ao menos 2/3 (dois terços) de seus escravos casados.88 Numa sociedade assentada sob o patriarcado dos senhores, era comum que os proprietários estimulassem as relações afetivas temporárias e o não casamento entre os escravizados, possivelmente buscando evitar revoltas causadas pela venda de um dos cônjuges. Neste sentido, cabe a observação de Flávia Lages quanto à contradição latente na sociedade época a medida em que o cristianismo estava profundamente arraigado à sociedade, sendo inclusive ensinado aos escravizados pelos senhores, porém o elemento referente ao matrimônio entre o homem e a mulher era desconsiderado diante da possibilidade de desmonte da estrutura servil.89 A historiadora Gizlene Neder, professora da Universidade Federal Fluminense, afirma que a visão de família e o projeto de disciplinamento e de controle social e sexual da Igreja Católica estão fortemente arraigados na formação histórico-ideológica e na cultura política brasileira, configurando-se como “permanências histórico-culturais de longa duração”. Dentre outros aspectos, a influência destas idéias ao longo da história do Brasil, leva à desumanização do outro e a conseqüente intolerância diante da satisfação do seu gozo, da satisfação das necessidades afetivas inerentes à condição humana. Empregado este raciocínio à análise da postura dos senhores escravocratas ao dificultar o casamento dos escravizados, revela uma tentativa de expandir os limites da propriedade e da ingerência sobre o comportamento dos cativos. Assim, tentam assenhorar-se também da condução da vida afetiva destes.90 Em meio à sociedade patriarcal e escravocrata, a tarefa atribuída aos constituintes de elaborar um projeto de Constituição nacional suscitou diversos debates referentes à definir como se daria a inclusão dos negros e negras escravizados no texto da nova carta de direitos. Arno 88 CASTRO, op. cit., p.388. 89 Ibidem, p. 387. 90 Cf.: NEDER, Gizlene. Iluminismo jurídico-penal luso-brasileiro. Obediência e submissão. Rio de Janeiro: Revan, 2007. 44 Wehling ao analisar os Anais da Assembléia Constituinte de 1823, salienta que os debates foram especialmente mais acalorados quando da discussão do artigo 5º do projeto constitucional que disciplinava o reconhecimento da cidadania aos “escravos que obtiverem carta de alforria”.91 O deputado Vergueiro declarou-se favorável a uma cidadania ampla, que incluísse os escravos, pois achava absurda a existência de uma sociedade com cidadãos e não – cidadãos. Admitia, porém, a limitação do gozo efetivo da cidadania por vários processos. Os deputados Ferreira França e Montezuma manifestaram-se contra, defendendo a distinção entre brasileiros – inclusive escravos e índios – e cidadãos. A mesma posição foi defendida por Almeida e Albuquerque e Costa Barros, sob o argumento que a existência de escravos implicava forçosamente na distinção. Ambos defendiam, ainda mais radicalmente, ser absurda a concessão incondicional de cidadania ao liberto. O padre Alencar afirmou ser um risco à “salvação do Estado” a cidadania ampla, pois representaria o abandono da agricultura e afetaria o direito de propriedade dos senhores sobre seus escravos.92 Ocorre que, não obstante a defesa de posicionamentos favoráveis à concessão de cidadania aos que se encontravam submetidos à escravidão, o artigo 6º, inciso I, da Constituição Imperial outorgada em 25 de março de 1824, irá determinar que são cidadãos apenas aqueles nascidos no Brasil, quer sejam ingênuos ou libertos. Desta forma, o primeiro texto constitucional pátrio atesta a divisão entre os habitantes do país, já consolidada na prática das relações sociais, atribuindo-lhes o status de cidadão e não cidadãos, estando os negros e negras escravizados inseridos nesta segunda categoria. Quanto à figura do liberto, pode-se afirmar que constituíam cidadãos de segunda classe, visto que o exercício de tal cidadania restringia sua participação política às assembléias paroquiais, responsáveis por eleger os eleitores da província que elegeriam os deputados provinciais e da Assembléia – Geral.93 Sobre a opção constitucional feitapelo país em 1824, Perdigão Malheiros, em célebre ensaio jurídico – histórico e social sobre a escravidão no Brasil, afirma que foi repetida aquela regra invariavelmente seguida entre todos os povos antigos e modernos, em cujo seio se introduziu a escravidão — exclusão dos escravos da comunhão política, dos cargos públicos, do exercício de qualquer direito de semelhante ordem, de qualquer participação da soberania 91 WEHLING, Arno. O escravo ante a lei civil e a lei penal no império (1822-1871).pp.388-407. In WOLKMER, op. cit., 2008, 390. 92 WEHLING, op. cit, p.390. 93 Cf.: Constituição Política do Império do Brasil (de 25 de março de 1824). Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao24.htm>. Acesso em 05 jun 2010. 45 nacional e do poder público94. E foi assim que o Brasil consolidou a opção de Estado para alguns, esboçada já no processo de independência em 1822, e invisibilizou a existência daqueles submetidos à escravidão, legitimando as leis privadas e a tirania dos senhores face a este não cidadãos. A manutenção da escravidão é assegurada pelo texto constitucional, que, mesmo não dispondo expressamente neste sentido, vale-se do artifício de assegurar a defesa absoluta do direito de propriedade: Art. 179. A inviolabilidade dos Direitos Civis, e Politicos dos Cidadãos Brazileiros, que tem por base a liberdade, a segurança individual, e a propriedade, é garantida pela Constituição do Imperio, pela maneira seguinte [...] XXII. É garantido o Direito de Propriedade em toda a sua plenitude. [...] (grifo nosso)95 Contudo, é espantoso observar que, não obstante a inércia constitucional quanto à salvaguarda dos direitos dos escravizados, a Constituição Imperial de 1824 figura na história tradicional como uma das mais progressistas da época. Neste sentido, para não atestar o seu silêncio face ao tema, o artigo 179, parágrafo 19 do referido texto estabelece a proibição de punir os trabalhadores escravizados com açoites, tortura e marca de ferro quente96. Mera formalidade, já que o Estado não dispensava nenhum mecanismo de proteção àqueles não sujeitos de direitos e na prática o direito de propriedade dos senhores, bem como a livre disposição sobre a propriedade continuavam inalterados. Assim, anos mais tarde, o mesmo Estado, através do artigo 60 do Código Criminal de 1830, legitimaria a aplicação da pena de açoites... 3.2 A res incapaz: coisificação do escravizado face à legislação civil no Brasil Império A Constituição de 1824 marca o primeiro passo no caminho a ser traçado pelo Brasil para garantir um ordenamento jurídico próprio, independente das legislações portuguesas até então vigentes, sendo que, o próprio texto constitucional determinava que dentro do menor tempo possível fossem organizados um Código Civil e um Código Criminal para o Império. Diante da ausência de codificação civil própria, continuavam vigentes no Brasil independente as 94 MALHEIROS, Agostinho Marques Perdigão. A escravidão no Brasil: ensaio histórico, jurídico social. Vol. I. Rio de Janeiro: Typografia Nacional, 1866. Fonte digital, transcrição para eBook: eBooks Brasil, 2008, p. 14. 95 Constituição de 1824, op. cit. 96 Sobre a prática de punir os negros escravizados com a marca de ferro quente: “Em 1524 lei aboliu as marcas de ferro no rosto dos escravos, que passaram a ser feitas nas espáduas. No Brasil, porém, em 1741 as marcas de ferro no rosto dos quilombolas foram novamente introduzidas (marcava-se um F de fujão)”. LOPES, José Reinaldo de Lima. O direito na história. São Paulo: Max Limonad, 2000, p. 346. 46 Ordenações Filipinas (organizadas em 1603 pela coroa portuguesa) e a legislação portuguesa anterior a 25 de abril de 1821, consoante a lei de 20 de outubro de 1823 promulgada pelo governo imperial. Neste sentido, ao longo dos anos, conforme as relações sociais iam impondo a necessidade de novos posicionamentos jurídicos foram sendo editados diversos regulamentos, alvarás, leis e assentos com o intento de complementar e preencher as lacunas das já anacrônicas Legislações Filipinas. Além da confusão jurídica gerada por esta situação, questões como a escravidão geravam polêmicas na sociedade e exigiam posicionamento do direito privado. Sendo este o contexto da legislação civil vigente no Brasil Império, nos interessa o fato de que, ao negro escravizado era atribuída a incapacidade para os atos da vida civil, sendo considerado como res de propriedade do senhor, despossuído de quaisquer direitos civis ou políticos. É dizer, os milhões de trabalhadores escravizados que se encontravam no território brasileiro eram considerados como mero objeto de propriedade dos senhores da época. Por conta da sua incapacidade civil, esta parcela da população não poderia exercer atos como testemunhar em juízo, testar ou contratar, sendo que, a exemplo do que acontecia no Direito romano, de igual maneira não podiam constituir família, mas apenas uniões de fato (contubernium).97 O Direito Romano já havia reconhecido e firmado o princípio de que — o escravo não tinha nem tem família; entre escravos não havia, em regra, casamento, apenas contubernium, união natural ou de fato; nem parentesco; nem poder marital, ou pátrio. 98 Não obstante tal proibição, a grande ocorrência de famílias formadas por estes indivíduos levou o direito canônico a reconhecer muitas destas uniões e, embora os efeitos civis desses casamentos fossem mínimos, tal reconhecimento assegurava que a vida matrimonial não poderia ser obstada em função da venda de um dos nubentes. Neste sentido, destacamos a passagem do clássico ensaio sobre a escravidão, onde o influente jurisconsulto Perdigão Malheiros nos revela muito sobre o pensamento do Brasil imperial, ao lamentar a promiscuidade das relações entre os trabalhadores submetidos a escravidão: Entre nós, infelizmente, os escravos vivem em uniões ilícitas, por via de 97 WEHLING, op. cit., p.396. 98 MALHEIROS, v.1, op. cit. p.35. 47 regra, tanto os do serviço urbano como os do rural; entregues, por conseguinte, à lei da natureza ou à devassidão. Em algumas partes, é verdade confessar, sobretudo entre os lavradores, não é raro verem-se famílias de escravos, marido, mulher, filhos. A Igreja, ante a qual todos são iguais, sanciona e legitima esses matrimônios, embora por séculos fosse a escravidão impedimento dirimente do casamento.99 Merece destaque ainda o tratamento dispensado por esta legislação aos bens que por ventura os escravizados possuíssem, hipótese em que vigorava a regra geral do Direito Romano segundo a qual este nada possuía, sendo que tudo quanto fosse adquirido seria em benefício do seu senhor. Assim sendo, nem mesmo poderiam dispor o seu pecúlio, que compreendia tudo aquilo que era permitido ao escravizado adquirir, ganhar e administrar, mediante autorização expressa ou tácita do senhor.100 Sobre o direito de disposição sobre o pecúlio, José Bonifácio apresentou à época da independência, proposta no sentido de garantir ao escravizado o direito de livre disposição sobre o seu pecúlio, podendo inclusive deixá-lo como herança, ato que lhe era proibido em virtude da sua incapacidade para legar. A incapacidade era refletida também no âmbito relativo ao direito das obrigações, assim, não sendo sujeito de direitos de igual modo não poderia contrair obrigações em relação ao senhor ou a terceiros. Ainda quando excepcionalmente lhe era permitido contrair certas obrigações derivadas de contrato, por exemplo, a legislação vigente não respaldava o seu direito de exigir a satisfação dos seus direitos decorrentes daquela relação jurídica. Por outro lado, no campo dos direitos reais, sendo considerado comoum bem de propriedade do senhor, constantemente figurava como objeto de relações jurídicas envolvendo hipotecas, anticrese, penhor, usufruto e usucapião. Pelo direito de propriedade, que neles tem, pode o senhor alugá-los, emprestá-los, vendê-los, dá-los, aliená-los, legá-los, constitui-los em penhor ou hipoteca, dispor dos seus serviços, desmembrar da nua propriedade o usufruto, exercer enfim todos os direitos legítimos de verdadeiro dono ou proprietário.101 A despeito da diversidade de questões que podem ser suscitadas com referência à disciplina e situações decorrentes de cada uma destas situações jurídicas cujo objeto era o trabalhador 99 Ibidem p.36. 100 Ibidem p.37. 101 MALHEIROS, op. cit., v.1, p.46. 48 escravizado, nos furtamos à análise de tais matérias por constituir o objetivo principal deste trabalho, justamente, a desconstrução da coisificação e da imagem passiva que historicamente foi atribuída a tais pessoas. Neste sentido, se apresentamos panorama da legislação vigente na época imperial, o fazemos com o intuito principal de fornecer elementos para a compreensão do cenário repressor onde estes trabalhadores estavam inseridos e, por conseqüência, diariamente, resistiam, negociavam e forçavam brechas que lhes garantisse a sobrevivência.102 3.3 Negros e negras escravizados e a legislação penal do Império Enquanto no campo do Direito Civil a confusão legislativa em virtude da ausência de codificação própria, só teria fim com a edição do Código Civil de 1916, no campo penal a legislação pátria sobre a matéria conformou-se em 1830, com a edição do Código Criminal. Assim, a questão criminal no Brasil Império passou a ser regulada pelo referido código de 1830, pelo Código de Processo Criminal de 1832, leis decretadas pela Assembléia-Geral e assembléias provinciais, além dos atos administrativos e dos pareceres do Instituto dos Advogados do Brasil103. Face esta legislação, o trabalhador escravizado que cometesse conduta tipificada como crime respondia plenamente pelos seus atos, sendo considerado imputável. É dizer, diferentemente do tratamento dispensado pela legislação civil da época, no âmbito penal, aquele que não poderia ser sujeito de direitos civis era considerado como pessoa capaz de responder pelos seus atos. Assim, a res civil passava a ser considerada ente humano para efeitos de punição, sobre ela incidindo todas as regras aplicadas a qualquer homem livre. Impossível perder de vista, porém que, considerando a estrutura da sociedade escravista da época, a punição da “coisa criminosa” seria mais exemplar que aquela aplicada a qualquer cidadão livre. Por outro lado, quando o escravizado fosse paciente da conduta criminosa, o mal sofrido seria tipificado não enquanto crime de dano, mas ofensa física, devendo o ofensor indenizar o proprietário em virtude de haver atentado contra objeto de sua propriedade. Ou seja, se no 102 “No Brasil como em outras partes, os escravos negociaram mais do que lutaram abertamente contra o sistema. Trata-se do heroísmo prosaico de cada dia.” REIS, João José & SILVA, Eduardo. Negociação e Conflito. A Resistência Negra no Brasil Escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p.14. 103 Sobre o Instituto dos Advogados do Brasil e os debates entre os jurisconsultos, dentre eles o baiano Augusto Teixeira de Freitas, acerca da escravidão, recomendamos a seguinte leitura: PENA, Eduardo Spiller. Pajens da Casa Imperial, jurisconsultos, escravidão e a lei de 1871. Campinas: Editora da Unicamp/Centro de Pesquisa em História Social da Cultura, 2001. 49 pólo ativo do processo criminal o escravizado era elevado à categoria de pessoa para aí figurar em nome próprio, no pólo passivo, não era considerado senão enquanto objeto, como outro qualquer, sujeito a crime contra a propriedade. O furto de pessoa escravizada, por exemplo, caracteriza-se tão somente enquanto crime contra a propriedade, não obedecendo a nenhuma lógica parecida ao que ocorre no que hoje conhecemos como crime de sequestro, onde o bem jurídico ofendido relaciona-se à direito próprio da pessoa contra a qual a ação foi praticada. Assim o furto de escravos nem é simples furto, é pela lei qualificado roubo; vender ou alienar como próprio o escravo alheio, é estelionato; e assim em outros casos semelhantes.104 Quanto à edição do Código Criminal do Império, importante salientar que o momento será influenciado pela disseminação no Brasil das concepções iluministas sobre a abordagem social do crime e da punição, a exemplo das idéias defendidas por Beccaria, no clássico Dos Delitos e das Penas (1763), marcando o rompimento com a lógica religiosa-punitiva do absolutismo, onde, para a aplicação da pena, valia mais o julgamento do rei que qualquer regra de direito. Estas influências do liberalismo na legislação penal do Império se verificam, por exemplo, na limitação, ao menos do ponto de vista formal, do poder de castigar conferido ao senhor. Neste sentido, Arno Wehling destaca a circular do Ministério do Império, n.263, de 25 de novembro de 1852, que dispõe sobre a possibilidade do escravo requerer sua própria venda em caso de haver sevícias no castigo imposto pelo senhor. O autor ressalta ainda que a lei de 1º de outubro de 1828 determina que os casos de maus tratos sejam comunicados aos Conselhos Gerais das províncias, e o artigo 125 do Código de Processo Criminal que dispõe sobre a obrigação do senhor em assinar um termo de segurança em caso de que aja fundado receio sobre eventuais maus tratos contra as pessoas por ele escravizadas.105 A Constituição de 1824 também estabeleceu limites ao poder de punir do senhor, através da proibição da pena de açoites. Porém, como o texto constitucional não fazia distinção quanto a condição da pessoa beneficiada pela norma, quando da edição do Código Imperial vigorou a interpretação no sentido de que tal limitação constitucional referia-se apenas aos homens livres. Sobre as características da aplicação desta pena, Perdigão Malheiros destaca que: 104 MALHEIROS, op. cit., v.1, p.26. 105 WEHLING, op. cit., p.402. 50 O Juiz deve determinar na sentença o número de açoites da condenação, não podendo o escravo levar mais de 50 por dia; assim como o tempo e maneira de trazer o ferro. Este arbítrio deve ser exercido com toda a prudência e humanidade, de modo que não exceda uma justa punição, e degenere em pena mais grave do que a lei assim quis impor, como seria se o castigo fosse tal que dele proviesse ou pudesse provir a morte.106 Merece destaque ainda a disciplina legal relativa ao crime de insurreição que buscava coibir o avanço das fugas, levantes e impedir o surgimento de quilombos. A severidade da punição do crime, previsto no artigo 113 do Código Criminal, condenando os autores à pena de morte, nos leva a constatação de que o recrudescimento da repressão está diretamente relacionado com o aumento e fortalecimento das ações de resistência dos negros escravizados. Julgar-se-á cometido este crime (insurreição), reunindo-se vinte ou mais escravos para haverem a liberdade por meio da força. — Penas: aos cabeças, de morte no grau máximo, galés perpétuas no médio, e por 13 anos no mínimo; aos mais, açoites.107 Neste sentido, sobre a severidade das penas previstas no Código Criminal de 1830, cabe mencionar o trabalho da professora Gizlene Neder que ao analisar a história jurídico penal do Brasil Império a partir do estudo dos Anais do Parlamento Brasileiro da época, conclui que os debates em torno da inclusão de penalidades como pena de morte, o banimento e o exílio configuram permanências culturais de longa duração decorrentes das relações entre cultura jurídica e cultura religiosa.108Para melhor compreensão do ambiente jurídico em que foi discutido o projeto de emenda ao Código Criminal do Império, a autora apresenta relação dos parlamentares da época, ocupação e o posicionamento contrário ou a favor da inclusão da pena de morte no referido diploma legal. Os votos apresentados durante a sessão do dia 15 de outubro de 1830 nos fornecem pistas sobre a orientação conservadora dos juristas da época: dos dez deputados do campo jurídico que integravam a comissão especial de parlamentares, quatro votaram contra a pena de morte e seis deles a favor. 106 MALHEIROS, op.cit., v 1, p.19. 107 Ibidem, p.137 108 Cf.: NEDER, Gizlene. História da Cultura Jurídico-Penal no Brasil Império: Os debates parlamentares sobre pena de morte e degredo. In: RIBEIRO, G. S; NEVES, E. A; FERREIRA, Maria de Fátima C. M. (Org.). Diálogos entre Direito e História. 1 ed. Niterói: EdUFF, 2009, v. 1, p. 305-326. 51 Interessante observar os argumentos utilizados por uma e outra parte para respaldar seus posicionamentos em torno da polêmica sobre a possibilidade de punição com a pena de morte. Em linhas gerais, aqueles que eram contrários ao instituto o faziam tendo como fundamento jurídico a Constituição Imperial de 1824 que não contemplava a pena de morte. Outros, a exemplo do rábula e parlamentar baiano Antonio Pereira Rebouças109, o faziam invocando ainda princípios do direito natural e até o direito divino sobre a vida. Por outro lado, a defesa da previsão da pena capital na legislação penal tinha como ponto de partida argumentos distintos, alguns afirmavam ser esta a solução frente a ausência de estabelecimentos penitenciários para abrigar o número cada vez maior de infratores. Todos porém afirmavam que a medida justifica-se para garantir a paz no país, para o exercício efetivo do controle social. Remetemos o leitor à sustentação do deputado pernambucano Rego Barros: [...] Sómente sustentarei que a pena de morte não póde ser impopular entre nós, observando se que o Brazil não tem essas prisões seguras, como os paizes aonde esta pena foi abolida; assim como tambem esses paizes não têm a numerosa escravatura que o Brazil encerra em seu seio. […] A pena de morte deve ser com effeito ser abolida nos casos politicos, porém não nos casos de homicídio, e para conter a escravatura, pois que esta é a unica pena que a póde conter. […] É pois para o bem da meu paiz que eu voto á favor da pena de morte em alguns casos; e eu ouso dizer com todo o orgulho, que não cedo em humanidade a pessoa alguma: o contrário desejo que se saibe que eu, deputado do Brazil em 1880, votei contra a pena de morte nos casos politicos, e a favor della quando a severidade das leis deve exigir vingança do sangue derramado, ou para segurar nossa existencia contra os escravos.110 (grifo nosso) Da análise do texto supra resta evidente a motivação real e mais forte daqueles que eram favoráveis à pena de morte, o intuito não era outro senão assegurar punição exemplar à uma população revoltosa específica, no caso “a numerosa escravatura que o Brazil encerra em seu seio”. Assim, a opção legislativa de restringir da pena capital aos negros escravizados rebelados significou o equilíbrio entre aqueles que eram contra e os que eram a favor da pena capital. Neste sentido, reforçando tal raciocínio, destacamos a ponderação feita por Gizlene Neder no sentido de que ao longo da sua análise ao texto dos Anais do Parlamento do Império, não foi encontrado nenhum posicionamento contrário à pena de morte direcionada a essa parcela da população: 109 Ver: GRINBERG, Keila. O Fiador dos Brasileiros. Cidadania, escravidão e direito civil no tempo de Antônio Pereira Rebouças. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2002. 110 Cf.: NEDER, op. cit. 52 Interessante observar, que não encontramos um único pronunciamento dos deputados, de qualquer campo ideológico, contra a pena de morte para os escravos rebelados (nem de Rebouças, nem dos deputados Ferreira França). A impressão que nos causou a leitura dos debates parlamentares era de que os escravos (e suas humanidades, portanto, suas almas – conforme a concepção daquela temporalidade) não pesavam nas considerações dos senhores deputados, que invocavam argumentos de ordem religiosa contra a pena de morte.111 Nilo Batista e Raúl Zaffaroni, ao analisar a formação do pensamento criminalizante no Brasil, defendem que as punições aplicadas aos cativos estão inseridas num direito penal doméstico, exercido pelos proprietários. Tal direito é inerente ao escravismo e decorre do caráter privado das relações estabelecidas na sociedade escravista. O direito de propriedade assegurado aos senhores legitima a predominância de um poder punitivo doméstico que se manifesta na aplicação de penas corporais cruéis a exemplo de açoites, mutilações, queimaduras com ferro ou brasa quentes, uso de correntes e mordaças. As penas de açoites eram aplicadas em pelourinhos localizados em praças públicas. A submissão do cativo a essas penalidades, bem como as deformações e cicatrizes daí decorrentes, terminam por naturalizar o sofrimento e a violência contra o corpo negro. 112 Figura 4: Castigo de Escravos (Mordaça). Fonte: Pintura integrante do acervo de Jacques Etienne Arago - século XIX Assim, verificamos como as legislações imperiais do Brasil continuavam perpetuando as idéias conservadoras das disposições das Ordenações Filipinas, marcadas por influências de teorias religiosas, a exemplo das idéias de predestinação ao mal difundidas por Santo 111 NEDER, op. cit. 112 ZAFFARONI, Eugenio Raúl; BATISTA, Nilo; ALAGIA, Alejandro; SLOKAR, Alejandro. Direito Penal Brasileiro: Teoria Geral do Direito Penal. 2º ed., v. 1. Rio de Janeiro: Ed. Revan, 2003, pp.411-488. 53 Agostinho e reatualizadas na elaboração do Código Criminal. Neste sentido, destacamos principalmente o nascimento da legislação penal brasileira que já surge com a função precípua de reprimir a parcela da população escravizada que se rebelava contra as condições que lhes eram impostas. 54 CAPÍTULO 3 HISTÓRIAS DE DIREITOS Viva nós! Viva o povo brasileiro! (João Ubaldo Ribeiro) Miracy Gustin afirma que as monografias de conclusão de curso são relatórios de pesquisa, e, portanto, devem ser o “reflexo de pesquisas teóricas ou de campo, metodologicamente bem desenvolvidas.”113 Neste sentido, dedicamos este terceiro e último capítulo do trabalho à apresentação dos principais resultados obtidos com as pesquisas bibliográfica e documental realizadas. Os produtos desta investigação serão interpretados a partir do confronto com o referencial teórico aqui adotado, qual seja, a concepção transdisciplinar do fenômeno jurídico. Ressaltamos que, durante a realização da pesquisa bibliográfica não tivemos acesso a publicação da historiografia jurídica nacional voltada ao estudo de questões referentes às ações cíveis de liberdade.114 Por este motivo, a totalidade das referências específicas sobre o tema aqui utilizadas, são de autoria de historiadores. Desde já, antes de sugerir possíveis interpretações sobre o fato, cumpre salientar que não se pode perder de vista as limitações metodológicas, temporais e operacionais inerentes aos estudos empreendidos durante a graduação. Antônio Carlos Wolkmer, ao analisar o surgimento da escravidão negra no Brasil colonial, ressalta a existência de um Direito particular centrado no poder dos administradores das capitanias hereditárias, determinando que desde a formação do sistema escravista brasileiro os 113 GUSTIN, op. cit., p. 133.114 Neste ponto, salientamos que, através de insistente busca por publicações jurídicas sobre as ações de liberdade, foi encontrada referência à seguinte obra da historiografia jurídica nacional: NEQUETE, Lenine. Escravos e magistrados no 2º Reinado: aplicação da Lei n.º 2.040, de 28/9/1871. Brasília: Fundação Petrônio Portela, 1988. Porém, tal constatação ocorreu já na fase final do prazo estipulado para a conclusão desta pesquisa. Assim, não nos foi possibilitado, em tempo útil, o acesso à publicação. Porém, por considerar esta monografia como ponto inicial da investigação sobre o tema, a análise da obra se impõe como imperativo para as abordagens futuras sobre as ações de liberdade na história jurídica. Por fim, ponderamos que esta exceção descoberta em meio à produção jurídica nacional, não altera a hipótese verificada neste trabalho quanto à lacuna existente na historiografia jurídica quanto ao estudo das ações de liberdade. No mesmo sentido, a obra escrita por Perdigão Malheiros, “A escravidão no Brasil: ensaio histórico, jurídico, social”, escrito em 1866, utilizada nesta monografia, apesar de abordar as ações de liberdade, o faz desde uma análise da legislação escravista do século XIX. Ou seja, são expostos aspectos processuais relativos a essas ações. Neste caso, o que se verifica é a descrição da legislação da época, inexiste aí a abordagem crítica sobre o fenômeno aqui estudado. 55 negros ocupassem a posição de “alijados do governo e sem direitos pessoais”.115 Constata ainda que desde o século XVIII os setores da elite estavam relacionados ao surgimento de normas que justificassem o controle necessário à escravidão. Neste ponto, Wolkmer destaca a resistência dos escravizados frente à dominação, afirmando que “essa luta pela libertação alcança seu momento mais expressivo nos quilombos do sudeste do Brasil, entre os séculos XVII e XVIII”. 116 Da análise dos trechos supra-citados, sobressai o fato de que, a despeito de se tratar de obra das mais críticas e relevantes sobre a História do Direito no Brasil, a obra de Antônio Carlos Wolkmer silencia sobre a resistência travada pelos cativos no âmbito das ações cíveis para obtenção do direito a liberdade. Mesmo reconhecendo a importância da referida obra, não compactuamos com o posicionamento ali adotado pelo professor. Consideramos que desde a tentativa de fuga dos primeiros africanos que aqui desembarcaram, as reações escravas são expressivas e adquirem força e sentido ao longo da história da escravidão no Brasil, culminando com a abolição no ano de 1888. Ainda neste sentido, defendemos a relevância das ações cíveis de liberdade no contexto da resistência dos escravizados, enquanto reação desenvolvida através do mesmo aparato legal utilizado pelo Estado para fundamentar o cativeiro. Dimensão esta que não pode ser ignorada na abordagem da história jurídica nacional. Em continuação à análise da obra escrita por Wolkmer, verificamos nota de rodapé com indicação de algumas obras para “aprofundar a análise da resistência negra, da luta organizada, e dos processos criminais resultantes da escravidão”. 117 Apesar de citar somente os processos criminais, o autor aponta a existência das ações de liberdade, ao sugerir a leitura da obra “Liberata - A Lei da Ambigüidade: As Ações de Liberdade da Corte de Apelação do Rio de Janeiro. Século XIX.”, de autoria de Keila Grinberg. Vale destacar que esta foi a única referência a estas ações encontrada ao longo de toda a obra. De igual modo, não é realizada análise de nenhuma das leis relacionadas a escravidão que fornecem os fundamentos jurídicos das demandas judiciais para obtenção da alforria. Na oitava edição da obra “História do Direito – Geral e Brasil”, Flávia Lages de Castro 115 WOLKMER, op. cit, 2003, p. 43. 116 Ibidem pp.49-50 117 Ibidem p.50 56 apresenta importantes contribuições sobre o movimento abolicionista e sua influência sobre o surgimento de leis. Pondera ainda que as sublevações aumentavam proporcionalmente à disseminação das idéias favoráveis à abolição.118 Não obstante a existência de subcapítulo dedicado à análise da escravidão e a lei, não há menção ao fato dos cativos buscarem a justiça para a defesa de seus direitos. Ao iniciar o referido subcapítulo, a autora afirma: Ao se analisar o Brasil e a maior parte de sua história – Colônia, Reinado e Império, portanto de 1500 a 1888 -, veremos um elemento formador da Nação brasileira que sempre é deixado de lado nas análises – por mais genéricas que sejam – da legislação do País: o escravo. (grifo nosso)119 No trecho transcrito Flávia Lages de Castro critica as análises da legislação do Brasil que não abordam a questão referente ao escravizado. Ainda que não seja este o pensamento da autora, a afirmação pode induzir à idéia de que a análise do papel do escravizado estaria limitada ao estudo das disposições legislativas que lhe dizem respeito. Segundo esta interpretação, estaria desprezada a posição dos negros cativos enquanto autores de demandas judiciais e formadores não apenas da Nação, mas também do Direito nacional. Em outro importante trabalho utilizado para a elaboração desta monografia, Arno Wehling aborda a condição do cativo ante a lei civil e a lei penal ao longo do Brasil-Império.120 O texto fornece diversas informações e análises relativas às fontes jurídicas da escravidão, origem e termo da condição de cativo, regras aplicadas às situações de condomínio e usufruto de escravizados. São apresentadas ainda considerações sobre a concessão das alforrias no Brasil. Apesar do estudo abranger o período compreendido entre 1822 e 1871, estando aí localizadas a Lei Diogo Feijó, a Lei Eusébio de Queiróz e a Lei do Ventre Livre, mais uma vez, não constam informações sobre as disputas jurídicas pela carta de liberdade. Feitas estas considerações iniciais, compartilhamos a analise de algumas histórias de direitos desvendadas ao longo desta pesquisa. 3.1 Surge Esperança: a primeira cativa a peticionar Apresentamos ao leitor a história de Esperança Garcia, negra escravizada que no ano de 1770 escreveu uma carta ao governador da Capitania do Piauí. A carta de Esperança foi encontrada 118 Ibidem, pp.385-404. 119 Ibidem, p.385. 120 WEHLING, op. cit., pp.388-407. 57 no Arquivo Público do Piauí pelo antropólogo e professor da Universidade Federal da Bahia, Luiz Mott. Em obra de sua autoria sobre o Piauí colonial, o autor apresenta o conteúdo original da referida carta: Eu sou hua escrava de V.S dadministração do Cap.am Antº Vieira de Couto, cazada. Desde que o Cap.am pª Lá foi administrar, q. Me tirou da Fazdª dos algodois, onde vevia co meu marido, para ser cozinheira da sua caza, onde nella passo mtº mal. A primeira hé q. Há grandes trovoadas de pancadas enhum Filho meu sendo huã criança q lhe fez estrair sangue pella boca, em mim não poço esplicar q Sou hu colcham de pancadas, tanto que cahy huã vez do Sobrado abacho peiada; por mezericordia de Ds esCapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confeçar a tres annos. E huã criança minha e duas mais por Batizar. Pello ã Peç a V.S pello amor de Ds. E do Seu Valimtº ponha aos olhos em mim ordinando digo mandar a Porcurador que mande p. A Fazdª aonde ele me tirou pa eu viver com meu marido e Batizar minha filha. De V.Sa. Sua escrava Esperança garcia121 Luiz Mott explica que Esperança Garcia vivia na Fazenda do Algodões, que era uma das fazendas reais que foram incorporadas à Coroa depois da expulsão dos padres jesuítas e estava situada na Inspeção de Nazaré.122 Conforme se verifica do relato da cativa, passando dita fazenda a ser administrada pelo capitão Antônio Vieira de Couto, este adotou a medida de retirar Esperança da Fazenda dos Algodões, aonde vivia comseu marido e filhos, e levá-la para servir como cozinheira em sua casa, nesta mesma Inspeção de Nazaré. Ocorre que o capitão castigava violentamente a cativa e seus filhos, não a deixando sequer sair para visitar o marido que permaneceu trabalhando na Fazenda dos Algodões. O professor Luiz Mott transcreve ainda um documento que acompanha o manuscrito de Esperança Garcia. Apesar de não apresentar data ou assinatura, é escrito por alguém que escreve sobre as desumanidades que ocorrem na propriedade do Capitão Antônio Vieira de Couto, buscando reforçar o alegado por Esperança e intervir a favor dos escravizados que aí viviam. É no referido documento que consta a informação de que o capitão “não tem concedido tempo algum para a dita ir fazer vida com seu marido”. E acrescenta que os negros e negras que ali se encontram trabalham todas as noites sem descanso e se alimentam muito 121 MOTT, Luiz. Piauí colonial: população, economia e sociedade. Teresina: Projeto Petrônio Portela, 2010, p.141. 122 Ibidem. 58 mal123, visto que nem a farinha que a fazenda faz é destinada ao sustento destes, sendo integralmente direcionada aos negócios do proprietário. Informa ainda que o capitão Costa “tem feito umas correias para castigar e diz que veio para ensinar os ditos escravos”.124 A história de Esperança Garcia merece destaque por diversos aspectos. Primeiro, por se tratar de um manuscrito de uma mulher negra escravizada que sabia ler e escrever em pleno século XVIII, quando tal prerrogativa era restrita a uma pequena parcela da população formada por homens das classes dominantes.125 Por outro lado, a atitude da cativa representa sua coragem em denunciar os desmandos que ocorrem nos domínios do Capitão Couto. Se considerarmos as relações de poder entre a elite dirigente da época, possivelmente a função de administrador de Inspeção seria cargo de confiança e, ao reivindicar que fosse designado procurador para a fazenda, Garcia estaria afrontando as relações de poder estabelecidas entre os abastados senhores piauienses da época. Tal insurgência escrava que desafiava o poder de um capitão de certo não seria vista com bons olhos pelos poderosos. Da leitura da petição supra transcrita, merece destaque o caráter coletivo do apelo de Esperança Garcia, que postulava por si e pelas outras que se encontravam em condição igual a sua. No intuito de ver garantidos o direito de maternidade seu e de suas companheiras de cativeiro, a mulher e mãe negra de nome Esperança busca garantir o batismo do seu filho e das outras crianças que ali se encontravam. Talvez, neste contexto de escravidão, lutar para que fossem batizados significasse garantir a estes pequenos o simbólico ato pelo qual lhes seria garantida alguma cidadania. Sendo privados de qualquer liberdade, lhes deveria ser conferido o mesmo direito ao batismo que gozavam as crianças nascidas de ventres livres. De igual modo, considerando que estas mulheres reivindicavam a concretização do seu direito de confessar, ao observar esta busca de compartilhar dos preceitos religiosos do catolicismo, nos permitimos intuir que tal fato guarda estreita relação com a marginalidade que os cativos 123 Sobre a alimentação destinada aos negros escravizados: “Todos os observadores da escravidão foram unânimes em denunciar a má qualidade da alimentação fornecida aos escravos. Foi a precária alimentação uma das causas principais da curta expectativa de vida dos cativos e das camadas mais pobres da população livre. Ao longo do período colonial e imperial, diversas leis e decretos foram criados para obrigar os senhores a fornecer alimentação suficiente ou reservar parte de suas terras ao cultivo de gêneros de subsistência, em particular a mandioca.” ALBUQUERQUE, op. cit, p.82. 124 No documento consta ainda que Esperança Garcia “ vendo apertada com vários castigos tem fugido por várias vezes” e encontrava-se fugida no momento em que foi escrito o referido documento. MOTT, op. cit., p. 142. 125 MOTT, op cit p.140 59 enfrentavam em todas as esferas da sociedade escravista e frente à todas suas instituições. Assim, longe de negar as manifestações religiosas de matriz africana praticadas e compartilhadas pela população negra e escravizada, defendemos a hipótese segundo a qual estes momentos em que compartilhariam da vida religiosa comum a todos os cidadãos, simbolizaria uma situação de inclusão, onde a Igreja, instituição da sociedade que os excluía, voltaria os seus olhos para a população escravizada. Esperança Garcia é considerada a primeira cativa a exercer o direito de petição. Isto é, indo além da reação individual da fuga ou da violência, Esperança postula direitos próprios perante a autoridade máxima da província, atribuindo ao poder público a prerrogativa de intervir como terceiro pacificador para dirimir conflitos e coibir arbitrariedades de particulares. Recorrendo à justiça, expõe os fatos da situação a qual estava submetida e reivindica a providência que julga adequada para satisfazer sua pretensão. Em virtude da sua ousadia na luta por justiça, é reputada como importante personagem histórica do povo piauiense. Em homenagem àquela conhecida como “a primeira escrava a peticionar” o dia estadual da consciência negra no Piauí é 06 de setembro, uma referencia à data em que, em 1770, Esperança Garcia valeu-se de coragem, e empunhou papel e caneta na busca por direitos. Figura 6: Estátua de Esperança Garcia escrevendo a petição que enviaria ao governador do Piauí. Localizada no Centro de Artesanato Mestre Dezinho, Teresina-Piauí. Fonte: Arquivo pessoal da autora. 60 3.2 Eva Maria do Bonsucesso e seus amigos de pouco crédito: quando a feira ocupa o tribunal Nireu Cavalcanti Oliveira, pesquisador da história fluminense, publicou um livro de crônicas sobre o Rio de Janeiro na época colonial. O autor relata que a idéia da publicação surge durante as pesquisas em arquivos das cidades do Rio de Janeiro e Lisboa, realizadas à época dos seus estudos de doutorado, quando Oliveira teve acesso a vasta documentação referente ao Rio colonial.126 Segundo o autor: A leitura de tais documentos facultou-me sentir nas entrelinhas do formalismo de uma certidão carreirola, de um processo judicial ou de proclamas em um processo de casamento, a pulsação da vida cotidiana das pessoas e da própria cidade que lhes servia de cenário.127 Na esteira do pensamento de Nireu Oliveira, salientamos que a análise dos registros históricos, em especial dos documentos judiciais, pode trazer valorosas contribuições para a História do Direito no Brasil. Neste sentido, a partir da leitura de um processo judicial encontrado no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro o autor traz a público a história de Eva Maria do Bonsucesso. Por conta das peculiaridades da história de Eva, que foi levado à justiça fluminense do começo do século XIX, acreditamos ser oportuna a análise do caso. Nascida no Brasil, a negra forra Eva Maria do Bonsucesso vivia através da venda de banana e couve na feira localizada na Rua da Misericórdia, no Rio de Janeiro. Conta o autor que no dia 16 de julho de 1811, por volta de 9 horas da manhã, Eva montava o seu tabuleiro para começar mais um dia de trabalho quando foi surpreendida por uma cabra que lhe subtraiu um maço de couve e algumas bananas. Diante do prejuízo que tal situação lhe poderia causar, a quitandeira agarrou uma vara e correu atrás do dito animal. Com a vara, a liberta batia na cabra, no intento desesperado de resgatar o que sobrou das mercadorias subtraídas. O fato foi parar na justiça porque José Inácio de Souza, senhor branco que cuidava da cabra, “indignado” com a agressão contra o animal, interveio na situação, agredindo Eva. A quitandeira reagiu à violênciae a questão foi levada ao conhecimento da justiça.128 O fato é que, tendo a confusão ocorrido no espaço público da feira, foi assistida por um 126 OLIVEIRA, Nireu Cavalcanti. Crônicas históricas do Rio colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004, p.13. 127 Ibidem. 128 Ibidem, pp. 183-185. 61 grande número de pessoas que foram chamadas a testemunhar sobre o que presenciaram. Assim, foram chamadas aproximadamente trinta testemunhas e o depoimento de todas era em favor da liberta, chegando alguns a exaltar as qualidades do caráter da mesma. Diante deste cenário, estando averiguados os fatos, as provas levaram o juiz a ordenar a prisão de José Inácio. Sendo funcionário da Coroa Portuguesa, José Inácio alegou em sua defesa que tomara tal atitude para proteger a cabra que, segundo ele, pertencia ao príncipe D. Pedro de Alcântara e que Eva deveria ter respeitado a realeza do animal posto que este levava ao pescoço coleira de prata adornada com as armas reais. Já tendo sido preso e buscando escapar da condenação, o funcionário da Coroa escreveu a D. João solicitando sua intervenção no caso e explicando que as testemunhas apresentadas por Eva Maria era “gente de pouco crédito, e entre elas o próprio amásio de Eva Maria do Bonsucesso.”129 Apesar de não se ter notícia sobre o desfecho do caso, mesmo não sabendo se a petição feita a D.João foi atendida, o fato representa a vitória judicial da negra liberta, visto que o seu agressor foi condenado e passou alguns meses na prisão. Face à sociedade escravista da época, a resposta do judiciário no sentido de inocentar a liberta e condenar o senhor branco, funcionário da realeza, é simbólica se considerarmos que, principalmente durante a primeira metade do século XIX, vigorava a crença de que, “todo preto é escravo e fugido, até que se prove o contrário” 130. A predominância deste pensamento levava à instabilidade da liberdade vivenciada pelos negros e negras forros à medida que, no seio da sociedade escravista da época, a liberdade do ex-cativo era vista sempre com desconfiança e, não raras vezes, os libertos eram levados para a prisão sob a suspeita de serem fugidos, e, portanto, criminosos.131 Mesmo depois de forros, os negros e negras poderiam ter suas cartas de alforria questionadas e serem vítimas de tentativas de reescravização, tendo que lutar pela manutenção da liberdade. Isto posto, se acentua ainda mais o caráter peculiar da decisão judicial, pois, ao que parece, a despeito do pensamento dominante na sociedade escravista, a questão foi analisada com base nos fatos, desprezados os lugares sociais dos envolvidos. 3.3 Anacleta e os caminhos da ação de liberdade: um estudo alargado de caso 129 Ibidem, p. 185. 130 CHALHOUB, Sidney. Escravidão e polícia na Corte imperial. Palestra proferida no dia 30 de março de 2010 durante o III Simpósio Procad Unicamp – UFBa – UFC A Pesquisa Histórica e Suas Fontes. Programação do evento disponível em: <http://www.ppgh.ufba.br/spip.php?article417>. 131 Ibidem. No mesmo sentido: “Nas batidas policiais às tabernas e nas ruas não era incomum serem presos escravos e libertos.” ALBUQUERQUE, op. cit., p. 109. 62 No primeiro capítulo deste trabalho foi apresentado panorama geral das ações de liberdade e, neste percurso, afirmamos que as leis que surgem a partir da segunda metade do século XIX irão constituir a principal base legal dos pleitos de liberdade apresentados à justiça. Com o objetivo de verificar empiricamente a ocorrência das ações de liberdade durante a primeira metade do século XIX, apresentamos agora um estudo de caso de uma ação de liberdade apresentada à justiça baiana no ano de 1849. Para tanto, como opção metodológica para o estudo do caso optamos pelo método alargado de estudo de caso 132, utilizado por Boaventura de Souza Santos na análise dos conflitos fundiários urbanos na cidade de Recife. Tal método foi desenvolvido pela antropologia cultural e social, sendo que sua principal característica reside na oposição “à generalização positivista, pela quantidade e pela uniformização, a generalização pela quantidade e pela exemplaridade”133. Assim, a partir da análise de apenas um caso, ou de um número limitado deles, é possível realizar um estudo que, apoiado em detalhes descritivos da sua complexidade, conduza à descoberta dos aspectos mais gerais que ali podem ser encontrados134. No presente trabalho, a opção metodológica apresentada se justifica tendo em vista que a decisão de realizar estudo empírico sobre as ações de liberdade ajuizadas na Bahia do século XIX, parte da premissa de que a leitura destes documentos históricos tem o condão de fornecer elementos sobre as relações sociais estabelecidas na época e seus reflexos no campo jurídico. Portanto, ao verificar os argumentos utilizados por ambas as partes envolvidas nesses litígios, bem como a atuação do juiz nestas ações, acreditamos ser possível ter acesso a informações referentes ao cenário jurídico da época. Desse modo, através de pesquisa realizada no acervo judiciário do Arquivo Público do Estado da Bahia (APB), adentramos ao mundo das ações de liberdade movidas pelos negros e negras escravizados e aqui apresentamos um estudo de caso alargado da ação de liberdade ajuizada pela parda Anacleta. Preliminarmente, antes de partir para a análise do caso, é importante apresentar algumas notas históricas para contextualizar o cenário onde se desenrola o caso. Em meados do século XIX a “valorosa cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos” 135 contava com população 132 SANTOS, Boaventura de S. Os conflitos urbanos no Recife: o caso do Skylab. Disponível em: <www.- boaventuradesousasantos.pt/pages/pt/artigos-em-revistas-cientificas.php.> Acesso em:10 mai. 2010. 133 Ibidem, p.03. 134 Ibidem, p.04. 135 Durante a pesquisa documental realizada no acervo do APB, constatamos que era comum que nas peças jurídicas a cidade de Salvador fosse mencionada através da expressão supra transcrita. 63 estimada em 86.984 habitantes.136 O censo realizado em 1855 nos informa que 30% desta população era constituída por cativos. Ainda segundo dados do censo de 1855, 67% dos habitantes eram pretos e mestiços, ou seja, mais da metade da população local era composta por afrodescendentes.137 No que se refere à parcela escravizada dos habitantes, apesar das informações quanto ao número de africanos importados para a Bahia serem incompletas e muitas vezes divergentes entre si, estima-se que ao longo da primeira metade do século XIX desembarcaram na Bahia 300 mil negros e negras egressos do golfo do Benin.138 Isto posto, remetemos o leitor para a cidade de Salvador no ano de 1849. À esta época, a parda Anacleta, casada com o pardo Felippe, se achava recolhida à prisão do Aljube, por ordem e a disposição da Sra. Ignácia Maria de Carvalho Lima, viúva e inventariante de Francisco Pinto Lima. Cabe mencionar ainda que a referida viúva alegava ser proprietária de Anacleta e Felippe, tendo em vista que seu falecido marido haveria adquirido os dois cativos através de compra feita ao Capitão Manoel Bento de Sousa Guimarães. Este é basicamente o cenário apresentado às primeiras páginas da ação de liberdade139 estudada. O processo é iniciado com a petição dirigida ao juiz municipal da 2ª vara cível e assinada por João Pedro, procurador da suplicante. Na peça, a primeira informação apresentada diz respeito à condição de liberta de Anacleta. A despeito do fato de se encontrar a vários anos servindo na casa da família de Francisco Pinto Lima, Anacleta afirma que, em 25 de julho de 1848, o seu antigo patrono, o Capitão Manoel Guimarães, lhe concedeu título de liberdade que foi lançado em nota. Ocorreque a referida carta de alforria teria sido extraviada estando a parda impossibilitada de comprovar sua liberdade. Com o intuito de constituir prova sobre tal informação, são apresentadas três testemunhas. Sobre as testemunhas, cabe destacar a presença de Joaquim Carvalho de Lima, descrito como “cabra natural desta cidade, officio de sapateiro”. O fato dele ser classificado em função da sua cor como cabra, possuir o mesmo ofício que o pardo Felippe, e utilizar os sobrenomes da Sra. Ignácia, nos permite supor que a referida testemunha era, ou já foi um dia, propriedade da 136 MATTOSO, 1978:138. Apud COSTA, Ana de Lourdes R. da. Ekabó! Trabalho escravo, condições de moradia e reordenamento urbano em Salvador no século XIX. 1989. 232f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 1989. 137 Cf.: COSTA, op. cit., 138 GOULART, Maurício. Escravidão africana do Brasil. São Paulo, 1950, p.272. Apud VERGER, Pierre. Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos. São Paulo, Corrupio, 1987, p.663. 139 APB, Judiciário, 41/1474/12. 64 família da dita Ignácia Maria de Carvalho Lima. A partir do contato com as ações de liberdade disponíveis no Arquivo Público do Estado da Bahia, verificamos que os cativos, normalmente, não possuíam sobrenomes, sendo utilizadas após o prenome expressões como “escravo”, “negro”, “cabra”, “pardo”, “africano”. Outros porém, adotavam o sobrenome dos proprietários. Assim, as evidências de que Joaquim era cativo ou forro, revela outro aspecto singular das ações de liberdade. A participação de escravizados e libertos como testemunhas em ações de liberdade permite a disseminação da possibilidade de resistência através destas ações. Acrescenta ainda o referido documento que em virtude de estar recolhida à prisão por ordem e a disposição de Ignácia Maria de Carvalho Lima, receava as violências que poderia sofrer diante da possibilidade de ser dali retirada a qualquer momento pela mesma.140 Desse modo, solicita que lhe seja permitido nomear fiador ou depositário nas mãos de quem ela passaria a ser submetida, até que se concluísse o processo. Neste ponto, para melhor compreensão do pedido de depósito pleiteado pela suplicante, Perdigão Malheiros nos informa que, à luz do direito da época tal providência costumava proceder a propositura das ações de liberdade. Uma providência costuma preceder a propositura dessas ações de que tratamos; é o depósito do individuo em poder de pessoa idônea, à semelhança do depósito da mulher casada na ação de divórcio, ou nulidade do matrimônio; e isto a bem da segurança do mesmo, e da liberdade de sua defesa. — Tal depósito não é necessário, quando ele se acha na posse de estado de pessoa livre.141 Assim sendo, a suplicante apresenta o nome de Joaquim de Mello para que este seja declarado como idôneo fiador ou depositário da sua pessoa. Com o fito de atestar a idoneidade de Joaquim, informa ainda que o referido senhor é “casado, proprietário e estabelecido nesta cidade”, cabendo à parte contrária, representada pela senhora Ignácia Maria, pronunciar-se acerca da idoneidade do mesmo. Anacleta afirma também que solicita que seja declarado o seu depósito tendo em vista o seu estado de saúde que se encontra bastante debilitado por conta do confinamento, levando-a a temer a morte caso tenha que continuar ali recolhida. Diante das alegações sobre o estado de saúde de Anacleta e o receio de morte manifestado, parece oportuno trazer algumas informações sobre a prisão do Aljube, disponíveis na 140 Sobre a finalidade do instituto referente ao depósito: “Não é difícil imaginar os riscos que corriam os negros que tentavam obter a liberdade na justiça e perdiam. Além da decepção da derrota, a volta para 'casa' podia incluir seu cortejo de sevícias por parte de um senhor irado e vingativo.” CHALHOUB, op. cit., 1990, p.108. 141 MALHEIROS, v.1, op cit., p. 101. 65 dissertação de mestrado de Cláudia Trindade. A autora afirma que a referida prisão foi construída no século XVII e inicialmente era destinada ao confinamento de clérigos que cometessem delitos. A partir de 1833, ela é transformada em prisão civil e, posteriormente, regulamentos sobre o funcionamento das prisões em Salvador, editados da década de 40, determinam que a prisão passe a ser destinada exclusivamente aos infratores que estivessem submetidos à condição escrava. A autora afirma que, de fato, as condições da prisão eram tão degradantes que “a desativação do Aljube foi prioridade para todos os presidentes que governaram de 1855 a 1861”, ano em que a prisão foi finalmente desativada. 142 Com base na tabela apresentada no referido trabalho, verifica-se que, no ano de 1842, aqueles cativos que se encontravam depositados por qualquer motivo e aqueles fugidos eram confinados no mesmo espaço. No caso da cela feminina, de proporções pequenas e pouco arejada, ali eram encarceradas todas aquelas que se encontrassem pronunciadas, sentenciadas, depositadas, como Anacleta, ou fugidas: Prisão Divisão de presos Descrição Nº de presos em 1843 Nº 1 Escravos pronunciados e sentenciados 9x 6 m de larg. e chão de tijolo. 32 Nº 2 Escravos depositados ou que se encontravam fugidos 7, 5 x 6 m de larg. Arejada e caiada. 34 Nº 3 Escravas compreendidas nos dois itens acima 7 x 6 de larg. Chão de tijolos e pouco arejada. 22 Nº 4 Uso extraordinário Escura, suja, úmida e de tijolo. 20 a 25 Tabela 2: Distribuição dos presos na cadeia do Aljube em 1842. “Cadeia destinada a escravos”. Fonte: TRINDADE, op. cit., p.35. Ainda sobre a prisão do Aljube, da leitura das informações contidas nos autos vamos descobrir o motivo pelo qual Felippe e sua esposa aí se encontravam. Anacleta explica que a descoberta de que ela e seu marido constavam no inventário do falecido Francisco Pinto Lima, como se fossem propriedades deste, resultou numa “desordem” que levou o cativo a ser processado e recolhido à prisão, resultando que, posteriormente, também ela fosse aí recolhida. Em que consistiu tal desordem só nos será relatado em manifestação apresentada 142 TRINDADE, Claudia Moraes. A casa de prisão com trabalho da Bahia, 1833-1865. 2007. 172f. Dissertação (Mestrado em História) Faculdade de Filosofia e Ciência Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2007, p.79. 66 nos autos pela viúva Ignácia, onde esta afirma que o dito Felippe atentou contra a vida do Coronel Francisco Xavier de Carvalho, pai da mesma, sendo condenado a cumprir a pena de galés perpétuas143, “por sentença do juri confirmada por todos os tribunais do Império”. Depois da tentativa de homicídio praticada por Felippe, explica a viúva que “estando no domínio e na posse” do casal de cativos, ordenou que também Anacleta fosse recolhida ao Aljube. Reforçando o pleito de remoção de Anacleta através da determinação de fiador ou depositário, seu procurador salienta o fato de que prisão nunca foi local apropriado para estar aí encarcerado quem não cometeu crime algum. Em resposta à esta pretensão e a tudo quanto exposto pela autora da ação, Nicolás Canamirim, procurador constituído pela viúva Ignácia Maria, apresenta as seguintes considerações: Illmo sen.or D.or Juiz do Civel Aquestão não he como figura a Supp.e acerca deste ou daquelle fiador, de sua idoneidade ou falta della: aquestão he com que direito a Supp.e requer para dar fiança ou para ser removida do deposito. Si ella he e está reconhecida como escrava do casal do finado Francisco Pinto Lima si nesta qualidade está comprehendida no respectivo inventario feito perante o juizo de orfans pela existenciade menores si ella foi recolhida ao Aljube como escrava à ordem e adispozição da Viuva da quelle Pinto Lima qual o direito que lhe assiste para requerer em juizo no seo proprio nome pedindo para ou prestar fiança ou para ser removida? Por ventura já houve algum acto judicial que tirasse ao casal de Pinto Lima a propriedade da Suppe. para esta se diser liberta por huma terceira pessôa? E si não houve ainda nem este acto nem outro algum não he hum ludibrio aley o vêr a Supp.e requerer em seo nome para ser tirada do Aljube á pretexto de incommodos que sofre, como si a hum escravo assistisse o direito para inventar o que lhe parecesse e faser requerimentos tais? […]. (grifo nosso) Interessante observar que a argumentação da parte ré se desenvolve sobre um único ponto: o direito de propriedade invocado face à condição de cativa de Anacleta e, como conseqüência quase natural, a sua total ausência de direitos. Quanto ao fato de Anacleta ser forra em decorrência de ato de seu antigo patrono, a viúva e seu procurador afirmam tratar-se de uma mentira inventada pela parda no intento de ludibriar a lei. A respeito de tais informações cumpre trazer a manifestação da parte contrária: 143 No direito brasileiro, a pena de galés perpétuas era inicialmente aplicada com base no Livro V das Ordenações Filipinas, passando a ser prevista também no Código Criminal do Império. Sobre o cumprimento da pena nas prisões de Salvador: “O trabalho forçado, atividade do condenado a pena de galés, era geralmente cumprido na prisão do Arsenal da Marinha e nas obras públicas em geral […].” TRINDADE, op. cit., p.42. 67 Ill.mo Snr D.or Juiz de Dr.to Civel A Supp.da ouseo Procur.or se fastou sobre o q'. devia responder: se aceitava, ou não o Depozito oufiador offerecido; ese lhe hé ou não idoneo; prizão nunca foi lugar proprio pa. ser nella conservada. q.m não tem crime algum como aSupp.e tanto assim q' ams.ma Supp.da reconhecendo onenhú direito q'. tem napessoa da Supp.e, a recolheo aprizão, há mais de anno, e athé hoje nem ao menos asustenta.144 (…) E acrescenta: A resposta da Supp.da não pode de modo algu embaraçar a remoção do deposito requer.da p.la Supp.e, por q.to dizendo-se primeiram.te, q' a escrava pertence ao cazal de Fran.co Pinto Lima, ad.a remoção em nada distroe esse dir.to verdadr.o ou falso, real ou imaginario p.r q. [ilegível] no depozito p.a onde for a Supp.e ficará sujeita à liquidação e julgam.to (...). Tendo a inventariante se calado quanto a pretensão imediata da suplicante, qual seja, a saída da prisão mediante o depósito em mãos de Jozé Joaquim de Melo, o procurador de Anacleta problematiza tal situação através de interessante construção argumentativa. Ora, se em outra oportunidade era a parte autora acusada de inventar mentiras com o intuito de burlar a lei em prol de garantir o seu direito de liberdade, agora é a suplicada quem, sutil e inteligentemente, vê descreditado o seu direito de propriedade sobre a cativa. Assim, mesmo claramente demonstrando não confirmar o direito de propriedade da viúva, pondera que, caso este exista, o depósito não o prejudicaria. Diante de tais alegações parece não restar outra alternativa ao juiz da 2ª Vara Cível de Salvador, Luis Lopes Villas Boas, que em dezembro de 1850 declara: “Visto nada dizer a parte sobre o depositario oferecido, assignando este o respectivo termo, seja removida.” Satisfatoriamente atendido o pleito de remoção do Aljube, a ação de liberdade segue com o objetivo de comprovar a condição de liberta da autora, já que, conforme alegado preliminarmente pela parte autora, a carta de liberdade que comprovaria tal fato foi extraviada. Neste ponto, é oportuno salientar como a tática de defesa da viúva é modificada e passa a se valer de novos argumentos. Ao que parece, comprovando que a alegação do direito 144 Buscando compreender o alegado pela parte autora, não encontramos informação referente a eventual obrigação do senhor de sustentar o cativo recolhido à prisão. Porém, inferimos que tal prática estava relacionada ao direito de propriedade exercido pelo senhor e os interesses daí decorrentes. Neste sentido, informação contida no Regulamento de 30 de agosto de 1844 demonstra que haviam casos de cativos presos que eram sustentados pelos seus senhores: “Dentre as obrigações do carcereiro incluía-se, através do §3º do art.2º, a de que este deveria assistir por si ou por pessoa de sua confiança à distribuição das rações a serem fornecidas aos presos escravos, entregues à Justiça por qualquer motivo, que não fossem sustentados por seus senhores […] (grifo nosso)” FUNDAÇÃO CULTURAL DO ESTADO DA BAHIA. Legislação da Província da Bahia sobre o negro: 1835-1888. Salvador: FUNCEB/DIBIP, 1996. 68 de propriedade de Ignácia não teve força bastante para impedir o depósito de Anacleta em mãos de terceiro, o direito de propriedade (ainda ele...) sobre Anacleta e Felippe passará a ser invocado em nome dos filhos da inventariante, por ela tutelados. Neste sentido, o procurador da família Lima irá defender que a carta de liberdade referida por Anacleta somente teria o condão de garantir a sua condição de forra, e fazer com que a parda e seu marido deixassem de constar no rol dos bens deixados no inventário de Francisco Pinto Lima, caso houvesse sido reclamada nos autos do inventário perante o juízo de órfãos e com a convocação dos herdeiros para audiência. Ainda sobre os novos rumos que a defesa tomara nesta fase do processo, surpreende o fato de que a mesma parte que antes sustentava que a existência de uma carta de alforria em nome de Felippe e Anacleta não passava de invenção da parte autora, passa agora a questionar não mais a existência do dito documento, mas a sua validade. Desse modo, em embargos oferecidos por seu procurador Ignácia Maria de Carvalho Lima irá afirmar que seu falecido marido Francisco Pinto Lima, tornou-se proprietário do casal de pardos através de compra efetuada em outubro de 1834 perante o Capitão Manoel Bento de Sousa Guimarães. No mesmo sentido, a viúva demonstra ter conhecimento da existência da carta de liberdade ao narrar que esta foi expedida pelo Capitão Guimarães depois do crime cometido por Felippe, portanto, muito tempo depois de celebrada a venda do casal de cativos em favor de Francisco Pinto Lima. As afirmações da referida senhora reforçam ainda mais a suspeita de que a carta de alforria de fato existiu, a medida em que sugerem que o dito Capitão, julgando-se permanecer como proprietário dos cativos, haveria tornado público o ato de alforria. P. que foi depois disso, que o dito Cap.mor se quis attribuir a propriedade dos referidos escravos, que negava ter vendido, supondo que no barulho e na confusão de papeis do referido Pinto Lima se houvesse desencaminhado o referido documento. [...] P. que estando assim a embargada no dominio e na posse do cazal de Francisco Pinto Lima e, tendo sido como sua escrava descripta e avaliada no competente inventario procedido perante o juizo de orfaos desta cidade e cartorio do escrivão Jozé Olympio Gomes de Souza, de nada vale essa carta de liberdade, que depois da exposta tentativa de assassinato, e [ilegível] passou em favor da embargada e de seu marido, o mencionado Cap.mor Manoel Bento de Souza Guimarães, que nelles nenhum doiminio tinha p. os poder libertar. […] P. que a embargante é uma matrona indubitavelmente séria e incapaz de faltar à verdade. Nesses Termos. P. que se ajusta com os de Direito serem affirmativamente defferidos os prezentes embargos, julgando-se sem fundamento, e sem motivo legal o deposito requerido pela petição f.2 para ser a Embargada restituida effectivamente ao Cazal, de que é escrava. 69 Junto aos embargos cujo trecho transcrevemos acima, constam as certidões de avaliaçãodo casal de pardos. Anacleta é descrita como “cabra de maior idade, que cose, costura, renda”. É informado que a mesma “sofre de inflamação”, estando avaliada em trezentos mil réis. Por sua vez, Felippe é descrito como “cabra moço, officio sapateiro”, sendo avaliado em quatrocentos mil réis. Vale ressaltar que, apesar do aparente envolvimento direto com a questão central da referida ação – a condição de forra de Anacleta - não encontramos nos autos qualquer indício de manifestação do Capitão Manoel Bento de Souza Guimarães ou de alguém que o representasse. Mencionamos ainda que, apesar das informações encontradas no processo apontarem no sentido de que a carta de alforria também beneficiaria a Felippe, a ação é proposta apenas em nome de Anacleta. À época da proposição dos citados embargos, Anacleta já não contava com a defesa de João Pedro, procurador que lhe assistiu até a época da remoção do Aljube. Visando possibilitar a resposta da embargada, o juiz designa um novo curador para a postulante. Nomeado o referido curador, este irá responder ao alegado por Ignácia Maria afirmando que, se a mesma desconhece a existência de ato válido que retire o seu direito sobre Anacleta, a parte autora de igual modo não tem conhecimento de nenhum ato judicial que anule o direito de liberdade da parda. Neste sentido, a questão continuará sendo discutida a partir da oposição do direito de propriedade da embargante frente ao direito de liberdade da embargada. Infelizmente, não foi possível identificar o resultado final da referida ação. A última informação conhecida diz respeito a uma audiência realizada em 14 de abril de1853. De todo modo, independente da sentença reconhecer ou não o direito de liberdade de Anacleta com base na carta de alforria que lhe foi concedida pelo Capitão Manoel Bento de Sousa Guimarães, da análise da referida ação de liberdade um fato resta evidente: os negros e negras escravizados recorriam ao judiciário na busca de garantir seus direitos. E, para além da mera provocação ao judiciário, o fato do juiz ter concedido a pretensão imediata de Anacleta, autorizando o seu depósito em mãos de terceiro por ela apresentado, demonstra que o instituto do depósito não se encontrava apenas no mundo do dever-ser jurídico, sendo efetivamente aplicado nas ações de liberdade como meio de garantir a segurança necessária daqueles que 70 litigavam contra seus senhores. Desta forma, verificamos que, com algum esforço argumentativo, o direito de propriedade poderia ser relativizado na medida em que o depósito afastava o cativo do domínio e da posse do seu senhor, até que fosse decidida a questão da liberdade do litigante. Neste sentido, tal limitação ao direito do proprietário em decorrência do depósito pode ser ilustrada a partir de manifestação constante do caso aqui estudado: P.que o depozito, ou como se diz, a remoção de depozito da Embargada para o poder de 3ª pessoa à titulo de fôrra, quando ella se achava recolhida no Aljube por ordem da Embargante, como escrava do cazal de seu marido Francisco Pinto Lima, não pode proceder, e veio a ser uma verdadeira aniquilação do Direito do mesmo cazal e dos menores. (grifo nosso) A decisão judicial em benefício ao depósito de Anacleta merece ainda mais destaque se considerarmos que a referida ação foi ajuizada no ano de 1849, muito anteriormente à Lei do Ventre Livre e outras leis que viriam a constituir a principal base legal das ações de liberdade ao longo da segunda metade do século XIX. A exemplaridade do caso se verifica ainda pelo fato de que, na Bahia, a influência da propaganda abolicionista na sociedade começa a ganhar vulto apenas por volta do ano de 1880145. Porém, a partir do estudo de caso conclui-se que, mesmo em meio ao predomínio das idéias conservadoras que legitimavam a manutenção do cativeiro e distante do movimento de intelectuais pela abolição, os negros e negras escravizados já demonstravam que a resistência à condição escrava era criativa e inteligente. Além das fugas e dos levantes, a batalha pela liberdade seria levada à justiça, forçando o judiciário a debruçar-se sobre tais demandas. Assim, diante da análise destas histórias de direitos, conhecidas através de pesquisas bibliográficas e interpretação de fontes primárias, é possível constatar que os negros e negras escravizados, de diversas forma, se moviam criativamente na arena jurídica. Seja pela busca de melhoria das condições escravas de trabalho, seja visando adquirir ou garantir o estatuto jurídico de libertos, os cativos são protagonistas de diversas histórias de direitos, a serem exploradas pela historiografia jurídica nacional. 145 Cf: SILVA, op. cit. 71 CONCLUSÃO A flor e a náusea. [...]Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem. Seu nome não está nos livros. É feia. Mas é realmente uma flor. [...]É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. (Carlos Drummond de Andrade) O objetivo da presente monografia foi analisar a resistência escrava por meio das ações cíveis de liberdade, considerando que a ocorrência destas demandas constitui capítulo relevante da História do Direito no Brasil. Neste sentido, verificou-se que a historiografia jurídica nacional não se ocupa com as investigações sobre o tema, configurando assim, a existência de lacuna no campo da história jurídica. Como fator determinante para o silenciamento quanto ao tema, são apontados o isolamento epistemológico da ciência jurídica, o dogmatismo e o formalismo presentes na abordagem tradicional do fenômeno jurídico. Compreendendo a necessidade de superação deste cenário, evidenciou-se a importância da abordagem transdisciplinar do Direito no sentido de aprofundar o diálogo com outras ciências humanas e sociais, notadamente com a História, tendo em vista que o contato com estas disciplinas é capaz de fornecer importantes elementos para a melhor compreensão da dinâmica social, bem como dos conflitos verificados na sociedade. Nessa linha, foram expostas notas sobre a escravidão no Brasil, evidenciando os mecanismos repressivos e restritivos de direitos impostos à população escrava, decorrentes da necessidade de manutenção do sistema escravista. Comprovou-se como tais medidas atendiam aos interesses das elites dirigentes e contavam com a legitimação estatal. Da análise deste contexto, emerge a análise da insubordinação dos cativos, notadamente através das fugas e formações de quilombos. Tal fato foi explorado no sentido de comprovar a atuação dos escravizados enquanto sujeitos ativos, conscientes, ainda que intuitivamente dos seus direitos. Nesse sentido, enquanto manifestação de resistência face à escravidão analisou-se as ações de liberdade ajuizadas pelos negros e negras escravizados, realidade verificada desde o início do século XVIII e ao longo do século XIX. A partir da análise das disposições contidas na Constituição de 1824, no Código Criminal de 72 1830 e da legislação civil vigente no Império, verificou-se como o Estado regulava a escravidão e disciplinava a condição jurídica dos escravizados. No mesmo sentido, da análise das discussões e posicionamentos parlamentares, fica demonstrado que as reações dos cativos em oposição às condições que lhes eram impostas se refletiam no âmbito jurídico. Visando a compreensão da ocorrência das ações de liberdade, foi apontado o procedimento seguido por estas demandas judiciais, bem como foram apresentados os sujeitos envolvidos nestas relações processuais. A incapacidade civil dos cativos, implicava restrição a busca de direitos, a medida que determinava a necessidade de representação dos escravizados para a defesa jurídica dos seus interesses. Neste sentido, demonstrou-se a importante atuação de rábulas e juristas de inspiraçãoabolicionista, a exemplo do ex-escravizado baiano Luiz Gama, na tentativa de garantir a representação em juízo dos libertandos. Assim, ao investigar os fundamentos jurídicos de tais pleitos, evidenciou-se como eram exploradas as brechas do ordenamento jurídico e as interpretações aplicadas ao conteúdo dos seguintes textos legais: Lei Diogo Feijó (1831); Lei Eusébio de Queiróz (1850); Lei do Ventre Livre (1871); Lei dos Sexagenários (1885). Acreditamos que os resultados obtidos através da análise das pesquisas bibliográficas e do estudo de caso realizado, evidenciam a inserção das ações de liberdade no âmbito da História do Direito. A partir desta abordagem, são verificados importantes elementos para a análise histórica do pensamento jurídico, referentes a atuação dos juristas, aos contextos que influenciam a atividade legislativa, dentre outras possíveis contribuições. Neste sentido, resgatamos que o desafio da postura transdisciplinar na abordagem do Direito, impõe a necessidade de redimensionar a abordagem histórica do fenômeno jurídico. E neste contexto se insere o estudo das ações de liberdade. Diante da constatação de que a abordagem do tema necessita ser introduzida à História do Direito nacional, cabe salientar que este trabalho reveste-se de caráter notadamente introdutório. As informações aqui apresentadas funcionam como pistas a serem levadas em conta nas futuras abordagens sobre o tema. Como estímulo ao uso das fontes primárias nas pesquisas jurídicas, destacamos que, seguramente, os arquivos públicos brasileiros abrigam inúmeros autos de ações de liberdade. A partir do contato com aqueles documentos históricos, que conseguem resistir ao desgaste do tempo, permanecendo legíveis, tendem a (re)surgir histórias de direitos protagonizadas por negros, negras, cabras, pardos e pardas. Neste sentido, 73 cada caso analisado pode estimular novas reflexões e contribuições para a historiografia jurídica nacional. Defendemos que a abordagem transdisciplinar do Direito é condição essencial para construção de um pensamento jurídico crítico e efetivamente comprometido com as demandas sociais. Demandas estas, atualmente apresentadas pelos excluídos, organizações populares e movimentos sociais. Para tanto, para a possibilidade de atuação transformadora do Direito, é imprescindível o aporte do pensamento de outras ciências, no sentido de ampliar a compreensão quanto à dinâmica das relações sociais. Mais que isso, o estudo das Ações Cíveis de Liberdade e a constatação de que a ocorrência destas demandas só foi possível através dos esforços compartilhados entre pessoas escravizadas e juristas, serve de exemplo e impõe ao Direito o desafio de protagonizar as lutas sociais junto àqueles historicamente excluídos. Por fim, afirmamos que as análises desenvolvidas ao longo deste trabalho conduzem à possibilidades de desdobramento da pesquisa, contribuindo com diversos campos do saber jurídico a partir do resgate da história afro brasileira. Neste sentido, compartilhamos com o leitor algumas das possibilidades investigativas às quais fomos conduzidos a partir dos resultados aqui verificados. O fazemos, apontando os seguintes eixos temáticos: 1) Análise das conexões entre relações raciais, acesso à justiça e racismo institucional; 2) Formulação da garantia do Direito à História da população afrodescendente, enquanto política de reparação; 3) Defesa da extensão dos efeitos da Lei n.º10.639/11.645 (adição à LDB), para que a história da cultura afrodescendente seja inserida nos cursos nacionais de graduação em Direito. Sankofa!146 Figura 7: Sankofa (Ideograma Adinkra) Fonte: NASCIMENTO, Elisa Larkin. (Org.). Sankofa, Matrizes Africanas da cultura Brasileira. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 1996, p.32. 146 Sankofa: “Palavra da língua dos povos akan da África Ocidental, sobretudo Gana e parte da Costa do Marfim, tem uma conotação simbólica muito forte de recuperação e valorização das referências culturais africanas. [...] Significado: ‘Nunca é tarde para voltar e apanhar aquilo que ficou para trás. Sempre podemos consertar nossos erros’.” NASCIMENTO, Elisa Larkin. (Org.). Sankofa, Matrizes Africanas da cultura Brasileira. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 1996. pp.29-32. 74 REFERÊNCIAS A. Fonte documental Arquivo Público da Bahia Núcleo: Tribunal de Relação SÉRIE: Ação de Liberdade Seção: Judiciários 41/1474/12. B. Fontes bibliográficas ABRAHÃO, Fernando Antônio. As ações de liberdade de escravos no tribunal de Campinas. Campinas: UNICAMP, Centro de memória, 1992. ADAN, Caio. História do direito no brasil: um estudo de caso sobre a ouvidoria dos Ilhéus. 2008. 91f. Monografia (Graduação em Direito) – Faculdade de Direito, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2008. ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de; FILHO, Walter Fraga. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais. Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006. AZEVEDO, Elciene. O direito dos escravos: lutas jurídicas e abolicionismo na província de São Paulo na segunda metade do século XIX. 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