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Economia Industrial, da Tecnologia e Inovação
Aula 5: Equilíbrio Geral
Apresentação:
Até a aula anterior, trabalhamos apenas com o equilíbrio parcial. Nessa situação, estudamos os diferentes mercados de
forma independente, como se um não in�uenciasse o outro.
A abordagem do equilíbrio geral, que estudaremos agora, é muito mais próxima da realidade do mundo econômico, pois
pressupõe a interdependência dos mercados.
Equilíbrio geral é um tema muito complexo. Como nossa abordagem é introdutória, trabalharemos para simpli�car apenas
com consumidores interdependentes, mostrando como sua interação, por meio de trocas das mercadorias que possuem,
leva a uma situação de equilíbrio. Para o melhor entendimento dessa questão, introduziremos o conceito da caixa de
Edgeworth.
Objetivos:
Examinar o equilíbrio de dois mercados interdependentes;
Esclarecer o conceito de equilíbrio geral;
Identi�car a importância da caixa de Edgeworth.
Como tratar a interligação dos mercados na teoria econômica?
Até aqui trabalhamos com equilíbrio parcial, em apenas um mercado.
Mas, todos sabem, os mercados se relacionam. É fácil entender essa
dinâmica a partir do comportamento dos bens complementares e
substitutos.
Carnes de boi e frango são bens substitutos, portanto se há aumento do preço do primeiro devido à escassez, o consumidor
opta pelo segundo e o consumo de frango sobe. Terno e gravata são bens complementares, consequentemente, caindo a
procura por terno, diminuirão as vendas de gravata. Esses são exemplos simples de como a mudança no equilíbrio de um
mercado afeta outro.
Entretanto, a realidade é mais complexa. Um aumento do preço do petróleo, por exemplo, afeta praticamente todos os
mercados de uma economia. Isso ocorre não só porque os derivados do petróleo são amplamente utilizados como também
devido ao fato de que o transporte de cargas no Brasil é basicamente rodoviário, movido, portanto, a óleo diesel.
Há ainda o efeito feedback ou bumerangue. Pense no primeiro exemplo citado: O aumento da demanda por carne de galinha
deve aumentar seu preço e a queda da procura por carne de boi, possivelmente, irá induzir a uma contração no seu preço.
Portanto, num segundo momento, alguns consumidores poderão voltar a consumir carne de boi, visto que seu custo não estará
tão alto quanto antes em relação ao do frango.
Constata-se, então, que o mercado de carne de boi afeta o mercado de carne de frango, que, por sua vez, impacta no mercado
de carne de boi e por aí segue.
Como tratar a interligação dos mercados na teoria
econômica? Essa foi a questão que enfrentou Leon Walras
(1834-1910), um dos fundadores do marginalismo. A
solução que encontrou foi transformar todos os diferentes
mercados de uma economia, de produtos e fatores
produtivos, em equações que incorporariam essas
interligações.
Nelas, a quantidade ofertada de cada mercado – variável
dependente – dependia dos preços de todos os demais
mercados (variáveis independentes). Walras demonstrou
que, trabalhando dessa forma e adotando a hipótese de
ceteris paribus , a economia acaba se ajustando e chega a
uma situação de equilíbrio de preços e quantidades em
todos os mercados (equilíbrio geral).
A comprovação �nal do modelo de Walras, como era de se
esperar, dependeu do desenvolvimento da matemática e do
trabalho de outros economistas como John von Neumann,
Kenneth Arrow e Gerald Debreu, esse último foi prêmio
Nobel de economia de 1983 (BRUE; GRANT, 2017).
Curiosamente, seu modelo é atualmente utilizado principalmente não na Microeconomia, mas na Macroeconomia, muitas
vezes combinado com a matriz insumo-produto , para analisar impactos de medidas de políticas econômicas e choques
externos (ex.: aumento do preço do petróleo) sobre a economia.
Mercados interdependentes
Veremos aqui o modelo de Walras numa versão simpli�cada com dois mercados consumidores e produtores. Analisaremos o
caso de dois mercados interligados, o de ingressos de cinema e de aluguéis de �lmes pela TV a cabo ou via internet .
Nosso ponto de partida é o grá�co, situado à esquerda, de número de ingressos de cinema. Estamos inicialmente em equilíbrio
com quantidade Q e preço R$ 6,00, pois é este o ponto de interseção das curvas de S (oferta) e D (demanda) (Grá�co 1).
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
c c c
 Gráfico 1 - Dois mercados interdependentes: aluguel de filmes e ingressos de cinema (Fonte: adaptado de Pindyck e
Rubinfeld, 2013).
O governo, então, resolve colocar um imposto de R$ 1,00 em cada ingresso de cinema. Isso leva a um deslocamento da curva
de oferta de Sc para S*C. Teremos, então, um novo preço R$ 6,35 e quantidade Q’c de equilíbrio.
Se essa fosse uma análise de equilíbrio parcial, esse seria o �m da estória. Mas estamos trabalhando com equilíbrio geral –
numa versão simpli�cada com dois mercados interligados de bens substitutos. Logo, o que acontece com os ingressos de
cinema afetará o aluguel de �lmes.
Vemos no grá�co situado à direita o mercado de aluguel de �lmes.
Inicialmente, estamos em equilíbrio com quantidade Qv e preço R$ 3,00,
pois é esse o ponto de interseção das curvas de Sv (oferta) e Dv (demanda).
 
O encarecimento dos ingressos de cinema acarretará maior demanda por
aluguel de �lmes, deslocando essa curva de Dv para D’v. Temos agora R$
3,50 como novo preço de equilíbrio. O processo, no entanto, não termina
aqui devido ao efeito rebote/feedback. Agora é o mercado de aluguel de
�lmes que irá afetar o de ingressos.
 
Por conta desse fato, a curva de demanda de ingressos se desloca de Dc
para D’c. Com isso, o preço passa de R$ 6,35 para R$ 6,75 e a quantidade de
Q’c para Q’’c. Esse vai e vem entre os dois mercados, um impactando o
outro, continuará até que, �nalmente, os preço se estabilizem em R$ 6,82
para ingressos e R$ 3,58 para aluguel de �lmes.
O progresso técnico e novos bens complementares e substitutos
O economista Joseph Schumpeter (1883-1950) criou a
expressão destruição criativa referindo-se ao impacto do
progresso técnico na economia, que leva à destruição de
produtos e setores, mas, ao mesmo tempo, gera novos.
Esse foi, por exemplo, o caso da indústria do cinema
fortemente afetada por mudanças tecnológicas.
Desde seu surgimento, o DVD (alugado ou não) passou a
funcionar tanto como bem substituto como bem
complementar do �lme visto no cinema. Se o consumidor
gostava muito do �lme, posteriormente comprava ou
alugava o DVD. O DVD tinha ainda a vantagem de vir com
extras. Ele funcionava, dessa maneira, como bem
complementar ao ingresso no cinema
O consumidor poderia também deixar de ir ao cinema e
esperar para ver o �lme quando chegasse à locadora. Dessa
forma, o DVD funcionava como bem substituto.
Saiba mais
Na segunda década deste século, o streaming – a possibilidade, via internet, de alugar ou comprar um �lme (ou série) para vê-lo
num computador, celular, tablet ou numa TV adaptada para tal – se popularizou. Todo esse movimento contribuiu para a
mudança na frequência nos cinemas, atingindo principalmente os cinemas de bairro e os que não fossem multiplex (com
múltiplas salas), que foram se extinguindo.
O DVD e o Blu-ray estão moribundos ou relegados a um mercado restrito. O setor de locação de vídeo, com lojas físicas,
acabou. Mas o streaming parece ter o futuro garantido. Foram muitas mudanças em pouco tempo provocadas pelo progresso
técnico e sua destruição criativa.
E�ciência nas trocas
Analisaremos agora não mais mercados, mas consumidores
interdependentes, mostrando como sua interação, por meio de trocas das
mercadorias que possuem, também leva a uma situação de equilíbrio.
Trabalharemos com base em dois pressupostos: todos estão perfeitamente
informados sobre suas preferências e não há custo em nenhuma transação.
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
Vamos considerar a situação de James e Karen. Ele tem 1 unidade de vestuário (V) e 7 de alimentação (A). Karen possui 5
unidades de vestuário (V) e 3 de alimentação (A). Cada um deseja possuirmais do que tem pouco. Logo, James quer mais
alimentação, e Karen, mais vestuário. Note que essa diferença é que torna a troca possível.
Por conta dessa distribuição de bens, a taxa marginal de substituição (TMS) de Karen e James vai diferir. TMS é a medida
numérica de o quanto se está disposto a ceder um produto em troca de uma unidade de outro produto que se deseja.
No nosso exemplo, TMS seria a quantidade de vestuário a ser trocada por uma unidade de alimento. Ela é também a razão
entre as utilidades marginais dessas mercadorias para seus possuidores. Isso porque só há troca quando se ganha com isso.
Portanto, abre-se mão do que tem menor utilidade para receber algo de maior utilidade, segundo a subjetividade das pessoas
que realizam a transação.
Para bens normais, a TMS é decrescente, seguindo a inclinação da curva de indiferença. Observe que, quando se tem muito de
um bem, sua utilidade marginal cai, vide a lei dos rendimentos decrescentes.
Vamos supor que Karen esteja disposta a dar 3 unidades de vestuário por uma de alimentação, portanto sua TMS é 3. Já
James daria 0,5 unidade de vestuário por uma de alimentação – TMS = 0,5.
Em função das diferenças das TMS, ocorre a primeira troca. Vamos supor que James dê para Karen uma unidade de
alimentação (�cando com -1A) em troca de uma unidade de vestuário (recebendo +1V). Karen, portanto, �cará com +1A, pois
cedeu -1V (vide Tabela 1).
K
J
Indivíduo Alocação inicial Troca negociada Alocação final
James 7A, 1V -1A, +1V 6A, 2V
Karen 3A, 5V +1A, -1V 4A, 4V
 Tabela 1 - Trocas entre James e Karen (Fonte: adaptado Pindyck e Rubinfeld, 2013).
Outra forma de ver essa mesma transação é por meio da caixa de Edgeworth (1845-1926) (Figura 1). Note que agora Karen
está do lado direito na parte de cima e James na parte de baixo à esquerda. O eixo vertical representa vestuário, Karen à direita
e James à esquerda, e o horizontal representa alimento, na mesma lógica.
O importante aqui é entender aquele pequeno quadrado dentro da caixa que mostra, com setas, como se passa do ponto A
(posição inicial) para o ponto B (posição �nal, depois da troca), ou seja, o que cada um ganha e perde com a troca de 1 unidade
de alimento por 1 unidade de vestuário.
 Figura 1 - Trocas em uma caixa de Edgeworth.
Essa troca aumentou o bem-estar de ambos , que, estando agora numa situação melhor, com certeza, vão continuar com as
trocas até o momento em que não valha mais a pena realizá-las.
À medida que cada um recebe mais daquilo que necessita, dando em troca algo a que não atribui tanto valor, a demanda vai
sendo atendida. Num determinado ponto, não fará sentido realizar trocas, pois o valor do alimento em relação ao vestuário será
o mesmo para James e Karen. Nesse ponto, a TMS de vestuário por alimento de ambos será igual e o ponto de e�ciência terá
sido alcançado.  
O Grá�co 2 apresenta as trocas entre James e Karen, ainda na caixa de Edgeworth, mas na forma de curvas de indiferença. O
ponto de partida é A.
Atente-se para o fato de que qualquer curva de indiferença que estivesse à esquerda de U j não interessaria a James, pois ele
estaria perdendo utilidade . Consequentemente, o mesmo ocorre com Karen em qualquer curva à direita de U . Logo, a área
hachurada é aquela em que é possível haver troca sem perda de bem-estar.
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
1
1
k
 Gráfico 3 - Eficiência das trocas (Fonte: Pindyck e Rubinfeld, 2013).
Com a troca, agora estamos no ponto B. Ele é melhor para
James, pois está numa curva de indiferença mais à direita
(U2J), e também para Karen, pois está mais à esquerda
(U2K). Entretanto, esse ponto não é e�ciente, já que as
curvas se cortam e não se tangenciam, havendo, portanto,
diferentes TMS.
Nos pontos C e D, existe tangência das curvas, ou seja, são
pontos e�cientes. Mas qual o melhor? Para James, o D e,
para Karen, o C, devido ao posicionamento de suas curvas
de indiferença – U3j e U3K, respectivamente. Não existe um
ponto intermediário entre C e D, portanto não é possível
saber qual será o resultado �nal, que dependerá da
habilidade de negociação de cada um.
 Atividade
1. Assinale a alternativa incorreta.
a) Carne de boi e de galinha são bens substitutos.
b) Ingresso de cinema e pipoca são bens complementares.
c) Terno e gravata são bens complementares.
d) Álcool e gasolina são bens substitutos como combustíveis em automóveis bicombustíveis.
e) Telefone fixo e telefone celular são bens complementares.
2. Assinale a alternativa incorreta.
a) Se dois mercados se comunicam, um influencia o outro.
b) Se dois mercados não se comunicam, não há interdependência.
c) O mercado editorial e o cinematográfico não se comunicam.
d) O mercado editorial e o de ensino se comunicam.
e) Impressoras e cartuchos de impressão são bens complementares.
3. Os consumidores João e José têm quantidades iguais dos bens A e B. Como se inicia a troca entre ambos e qual deverá ser
o resultado �nal?
4. Assinale a alternativa incorreta.
a) A caixa de Edgeworth pode ser composta apenas por isoquantas.
b) A taxa marginal de substituição (TMS) é decrescente para bens normais.
c) A caixa de Edgeworth pode ser composta apenas por pontos que mostram a posição dos que efetuam trocas.
d) O ponto de tangência das isoquantas na caixa de Edgeworth são os pontos de equilíbrio.
e) O efeito feedback e o efeito bumerangue são complementares.
5. Explique em que consiste, numa troca, a taxa marginal de substituição do bem A pelo bem B.
Notas
Título modal 1
Lorem Ipsum é simplesmente uma simulação de texto da indústria tipográ�ca e de impressos. Lorem Ipsum é simplesmente
uma simulação de texto da indústria tipográ�ca e de impressos. Lorem Ipsum é simplesmente uma simulação de texto da
indústria tipográ�ca e de impressos.
Título modal 1
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Referências
BRUE, S.; GRANT, R. R. História do Pensamento Econômico. 3. ed. São Paulo: Ceangage Learning, 2017. cap. 14, p. 273-294 e
cap. 18, p. 367-394.
PINDYCK, R. S.; RUBINFELD, D. L. Microeconomia. 8. ed. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2004. cap. 16, p. 589-622.
VARIAN, H. Microeconomia Princípios Básicos. 9. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2015. cap. 27, p. 529-558.
Próxima aula
Caixa de Edgeworth e curva de contrato;
Ótimo de Pareto;
Curva de fronteira de possibilidades de utilidade.
Explore mais
Leia Vercelli, A. Por uma macroeconomia não reducionista
<//www.eco.unicamp.br/images/arquivos/artigos/413/01VERCELLI.pdf> : uma perspectiva de longo prazo, Revista Economia e
Sociedade, v. 3, n. 1, 1994, se estiver interessado em uma visão crítica do modelo de Walras.
http://www.eco.unicamp.br/images/arquivos/artigos/413/01VERCELLI.pdf

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