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Economia para Negócios Flávio Benilton da Silva Medeiros © 2020 por Editora e Distribuidora Educacional S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. Imagens Adaptadas de Shutterstock. Todos os esforços foram empregados para localizar os detentores dos direitos autorais das imagens reproduzidas neste livro; qualquer eventual omissão será corrigida em futuras edições. Conteúdo em websites Os endereços de websites listados neste livro podem ser alterados ou desativados a qualquer momento pelos seus mantenedores. Sendo assim, a Editora não se responsabiliza pelo conteúdo de terceiros. Presidência Rodrigo Galindo Vice-Presidência de Produto, Gestão e Expansão Julia Gonçalves Vice-Presidência Acadêmica Marcos Lemos Diretoria de Produção e Responsabilidade Social Camilla Veiga Gerência Editorial Fernanda Migliorança Editoração Gráfica e Eletrônica Renata Galdino Luana Mercurio Supervisão da Disciplina Vaine Fermoseli Vilga Revisão Técnica Vaine Fermoseli Vilga 2020 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR e-mail: editora.educacional@kroton.com.br Homepage: http://www.kroton.com.br/ Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Medeiros, Flávio Benilton da Silva M488e Economia para negócios / Flávio Benilton da Silva Medeiros. – Londrina : Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2020. 200 p. ISBN 978-85-522-1668-1 1. Microeconomia. 2. Macroeconomia. 3. Economia. I. Título. CDD 330 Jorge Eduardo de Almeida CRB-8/8753 Sumário Unidade 1 Aspectos gerais de microeconomia ............................................................. 7 Seção 1 Problema econômico fundamental e fluxo circular de renda ............................................................................................... 8 Seção 2 Conhecendo o mercado: demanda ................................................21 Seção 3 Conhecendo o mercado: oferta e equilíbrio .................................33 Unidade 2 Elasticidade e estrutura de mercado .........................................................53 Seção 1 Elasticidade........................................................................................54 Seção 2 Estrutura de mercado: concorrência perfeita e monopólio ......................................................................................66 Seção 3 Estrutura de mercado: concorrência monopolística e oligopólio ........................................................................................80 Unidade 3 Aspectos gerais de macroeconomia ..........................................................97 Seção 1 Economia externa .............................................................................98 Seção 2 Liberalismo econômico x keynesianismo ..................................114 Seção 3 Governo e o mercado ....................................................................129 Unidade 4 Conjuntura econômica e políticas econômicas ....................................145 Seção 1 Política fiscal ...................................................................................147 Seção 2 Política monetária e política de rendas .......................................160 Seção 3 Exemplos de ações governamentais marcantes no Brasil ..........................................................................................178 Palavras do autor Olá, seja muito bem-vindo à disciplina Economia para Negócios! Começaremos nossa jornada fazendo uma pergunta: qual, entre as diversas características que um profissional de liderança precisa ter para obter sucesso na carreira profissional, é, na sua opinião, a mais importante? Você pode pensar em várias e, provavelmente, não existe uma única resposta para essa questão. Entretanto, observe: você concorda que todos os líderes de sucesso têm em comum a qualidade de saber tomar decisões? E o que é necessário para que um profissional tome boas decisões? Ainda que, no passado, aspectos subjetivos tenham tido muita importância, a realidade de hoje é muito diferente: a enorme quantidade de informação disponível e a velocidade e a intensidade das transformações no ambiente de negócios, entre outros fatores, requerem que o líder de uma organização consiga interpretar corretamente o ambiente de negócios em que atua. A essa altura, você já percebeu a importância da economia como ferra- menta de auxílio à tomada de decisões. Você não precisa se capacitar para ser um formulador de políticas econômicas, mas, certamente, o entendimento dos princípios econômicos lhe proporcionará ferramentas muito úteis na hora de tomar decisões relativas ao seu negócio. Dessa forma, o objetivo dessa disciplina será apresentar os assuntos estudados em uma abordagem aplicada, de forma que você consiga enxergar como os conhecimentos econômicos são diferenciais na hora de planejar e decidir o que fazer no mundo dos negócios. Além disso, você poderá entender como o governo atua para atingir as suas metas econômicas, bem como a forma como ele constrói cenários que serão úteis no seu processo de tomada de decisão Para isso, vamos começar entendendo o problema econômico funda- mental, aprendendo como o ser humano faz escolhas e o papel do custo de oportunidade. A partir, daí você terá condições de entender como os agentes econômicos se comportam, entendendo a demanda, a oferta e o equilíbrio de mercado. Na sequência, para entender melhor como o mercado funciona, você precisará compreender um conceito fundamental: a elasticidade. Em seguida, conheceremos as principais estruturas de mercado: monopólio, oligopólio e concorrência perfeita. Nosso passo seguinte será entender os aspectos principais da macroeco- nomia, que tem como foco analisar o comportamento da economia como um todo. Conheceremos a importância das relações econômicas com o exterior, veremos as duas principais correntes econômicas e os objetivos principais do governo ao intervir na economia. Para encerrar, conheceremos as principais políticas econômicas, a monetária e a fiscal, para podermos compreender a história econômica recente do Brasil, em especial, a estabilização da inflação após o Plano Real, os desequilíbrios recentes e os esforços para reequilibrar as contas públicas brasileiras. Para que nossa caminhada seja de sucesso, é preciso que o principal fator funcione: seu esforço! É necessário que você leia o material com atenção, acesse os links, procure outras leituras e leve as dúvidas para discutir com o seu professor. Você é o condutor desse automóvel possante que é o seu talento, e para explorá-lo ao máximo, a dedicação ao estudo é indispensável. Está pronto para dar o melhor de si? Unidade 1 Flávio Benilton da Silva Medeiros Aspectos gerais de microeconomia Convite ao estudo A economia se divide em duas grandes áreas: a microeconomia e a macro- economia. As duas oferecem abordagens diferentes, mas complementares: o foco da microeconomia é o comportamento dos agentes e suas interações no mercado, enquanto a macroeconomia analisa questões mais abrangentes e de foco mais amplo. Dessa forma, questões como crescimento e desenvol- vimento econômico, desemprego, inflação, câmbio, etc. são analisadas pela macroeconomia, enquanto o comportamento de compradores e vendedores, as escolhas dos agentes econômicos, as condições de concorrência, etc. são estudadas pela microeconomia. Nas aulas iniciais, veremos assuntos relacionados à microeconomia. A primeira será dedicada a apresentar os conceitosproduto irá adquiri-lo, fazendo com que os outros 39 consumidores fiquem sem o produto, a não ser que unidades adicionais sejam oferecidas. Você se lembra de quando houve a greve dos caminhoneiros no Brasil e os preços do combustível subiram muito? Pois bem, naquela época, nem todos os motoristas se dispuseram a pagar aquele preço mais alto pelo combustível. Com isso, os consumidores que não se dispuserem a pagar aquele preço maior ficaram sem o produto, até o momento em que unidades adicionais foram oferecidas, com o final da greve. Já na competição entre os produtores, o ganhador será aquele que vender seu produto pelo menor preço. Com isso, aqueles que apresentarem custos de produção mais baixos conseguirão ser lucrativos frente a preços menores, afastando os produtores menos eficientes. Nesse processo, o resultado é que o comprador disposto a pagar o maior preço fará negócio com o vendedor disposto a vender pelo menor preço. Por isso, se um preço está muito elevado, poucos compradores estarão dispostos a adquirir aquele produto, frente a um grande número de vendedores ofertan- do-o. Nesse cenário, é fácil perceber que os produtores que apresentam menores custos de produção oferecerão seus produtos a um preço menor, o que também atrairá mais compradores ao mercado. Se, porventura, o preço estiver muito baixo, diversos compradores estarão dispostos a adquirir aquele produto, frente a um pequeno número de vende- dores ofertando seus produtos. Nesse cenário, é fácil perceber que os consu- midores que apresentam maior utilidade estarão dispostos a pagar mais por aquele produto, o que aumentará os preços praticados, o que também atrairá mais produtores ao mercado. Percebeu, então, o que acontece? Se o preço está acima ou abaixo do equilíbrio, as forças de mercado atuarão para conduzi-lo ao ponto de equilí- brio. Esse equilíbrio de mercado se assemelha ao brinquedo de criança tipo “João bobo”, que sempre volta para o mesmo lugar, ou ao boneco de lutas com o mesmo princípio. Mas, então, o que é o ponto de equilíbrio? O ponto de equilíbrio é aquele em que, a um determinado preço (chamado de preço de equilíbrio do mercado), a quantidade que as pessoas querem comprar de uma mercadoria (chamada de quantidade demandada) é igual à quantidade que as empresas querem oferecer daquela mercadoria (chamada de quantidade ofertada). Em qualquer outro preço as forças de mercado empurrarão o preço na direção do equilíbrio. Uma boa ilustração é a de uma bola colocada em uma vasilha, que sempre retornará para a posição estável. Na Figura 1.8 vemos que ao preço de R$ 16,00 (preço de equilíbrio), os empresários e os consumidores têm interesse de produzir e comprar, respectivamente, a mesma quantidade: 20 unidades (chamada de quantidade de equilíbrio). 40 Assimile No preço de equilíbrio a quantidade ofertada é igual à quantidade demandada, e essa estabilidade tende a se manter. Figura 1.8 | O equilíbrio de mercado Fonte: Dias (2015, p. 48). Quando aparece uma situação de equilíbrio de mercado, isso significa dizer que os empresários não gostariam de cobrar preços maiores pelos seus produtos, ou que os consumidores não gostariam de pagar preços menores por eles? A resposta é não! Os empresários sempre querem cobrar mais pelos seus produtos (afinal, o objetivo de qualquer empresa é maximizar o seu lucro), e os consumidores sempre querem pagar o mínimo possível por qualquer bem. No entanto, se os empresários quiserem vender por preços acima do preço de equilíbrio (P2 da Figura 1.9), mais empresários vão querer produzir aquele bem (Q2 à direita de Q1, na Figura 1.9), mas menos consu- midores estarão dispostos a adquiri-lo (Q2 à esquerda de Q1, na Figura 1.9), ou seja, haverá excesso de mercadoria no mercado (produtos parados nos estoques), pois a oferta estará maior do que a demanda. Assim, como os produtores não conseguirão vender tanto quanto gostariam, eles diminuirão o preço, até que o equilíbrio de mercado seja restabelecido (P1 e Q1, na Figura 1.9). Em contrapartida, se os consumidores quiserem pagar um preço abaixo do preço de equilíbrio do mercado (P3 da Figura 1.9), mais consumidores 41 estarão dispostos a comprar aquela mercadoria (Q3 à direita de Q1), mas menos empresários vão estar dispostos a produzi-la (Q3 à esquerda de Q1), fazendo com que haja escassez do produto no mercado (demanda maior do que oferta). Assim, para acabar com essa escassez, os consumidores precisam aceitar preços maiores por aquele bem, para que os empresários se sintam mais estimulados a produzi-lo (até que o equilíbrio do mercado seja restabe- lecido - P1 e Q1, na Figura 1.9). Vamos, então, utilizar novamente o petróleo como exemplo? Imagine que o preço de equilíbrio seja de R$ 30,00. Se, por algum motivo, uma força externa (o governo, por exemplo, para melhor remunerar as empresas da cadeia produtiva do petróleo, pode interferir no mercado, indicando um preço mínimo acima do preço de equilíbrio do mercado) determinar que o preço a ser cobrado pelo petróleo deve ser de R$ 50,00, a quantidade ofertada será maior do que a quantidade demandada, ou seja, haverá sobra de produto. Como os vendedores não conseguirão vender tanto quanto gostariam, eles teriam que reduzir os preços para conquistarem uma parte do mercado que não está sendo atendida pelos produtores que não reduziram os seus preços. Já em uma situação em que os preços estejam abaixo do equilíbrio (isso pode acontecer, por exemplo, se o governo, com o intuito de controlar a inflação, passar a administrar (estipular) um preço máximo do petróleo que esteja abaixo do ponto de equilíbrio do mercado), por exemplo R$ 20,00, a escassez serviria de estímulo para que os consumidores se dispusessem a pagar mais pelo produto, o que elevaria o preço e incentivaria o aumento da oferta por parte dos produtores. Figura 1.9 | A tendência ao equilíbrio Fonte: Dias (2015, p. 49). 42 Dessa forma, como pode ser notado, não existe nenhum instrumento melhor do que o sistema de preços para determinar como as sociedades devem utilizar os seus recursos: maiores preços estimularão os produtores a oferecerem mais produtos e, ao mesmo tempo, afastarão alguns consumi- dores; preços reduzidos farão com que os produtores reduzam sua oferta e a demanda por aquele produto aumente. Bem, agora que você já entendeu as dinâmicas de oferta e demanda, poderá perceber como o uso de gráficos permite uma visualização precisa dos efeitos de alterações tanto na demanda quanto na oferta. Por exemplo, se um produto entrar na moda e a sua demanda se deslocar para a direita, o resultado disso é que ocorrerá um aumento no preço (o preço muda de P0 para P1) e na quantidade de equilíbrio do mercado (a quantidade muda de q0 para q1), conforme Figura 1.10. Ou seja, ao mesmo nível de preço (P0), os empresários não têm estímulo para produzir mais, mas, cobrando um preço maior (P1), os empresários passam a ter uma intenção maior de produção, fazendo com que alguns consumidores estejam dispostos a pagar esse preço mais caro (afinal, aquele produto está na moda). Figura 1.10 | O novo equilíbrio de mercado após um aumento da demanda Fonte: Dias (2015, p. 34). Quando ocorre uma redução na demanda – que pode ter sido causada por uma queda na renda da população, por exemplo – o deslocamento da curva para a esquerda fará com que o novo preço de equilíbrio seja menor do que o anterior e uma quantidade de equilíbrio menor também apareça (na Figura 1.11, o ponto de equilíbrio muda de (P0, q0 para p2, q2). 43 Figura 1.11 | O novo equilíbrio de mercado após uma queda na demanda Fonte: Dias (2015, p. 36). Já se a oferta aumentar (Figura 1.12) por conta de uma redução de custos, por exemplo, o resultado será uma redução no preço de equilíbrio, mas a uma quantidade maior do que a anterior (ou seja, o equilíbrio passará de P0, q0 para P1, q1). Mas por que isso acontece? Se os empresários quiserem vender mais pelo mesmo preço(fato que deslocou a curva de oferta para a direita), não haverá mais compradores para aquela mercadoria. No entanto, se os empresários diminuírem seus preços de vendas de P0 para P1 (já que seus custos de produção estão menores), eles encontrarão novos compra- dores (aumento na quantidade de equilíbrio de q0 para Q1), fazendo com que todos saiam ganhando, conforme Figura 1.12. 44 Figura 1.12 | O novo equilíbrio de mercado após o aumento da oferta Fonte: Dias (2015, p. 36). Por fim, em situações nas quais a oferta se reduz – por conta de aumento nos custos de produção, por exemplo – o resultado é um aumento no preço de equilíbrio (de P0 para P2) e uma redução na quantidade de equilíbrio (de q0 para q2), conforme Figura 1.13. Figura 1.13 | O novo equilíbrio de mercado após a redução da oferta Fonte: Dias (2015, p. 36). 45 Esses exemplos permitem a você ter uma visão dos diferentes cenários a serem enfrentados pelas empresas e que podem ser construídos a partir das interações entre as forças de oferta e demanda. Conhecê-los pode lhe colocar em uma posição privilegiada em termos estratégicos, concorda? Por isso, não perca tempo: leia o material sugerido e aprofunde-se nesses temas para que você se torne um profissional diferenciado. Até a próxima! Sem medo de errar Olá! Agora que você acompanhou toda nossa discussão sobre o equilí- brio de mercado, é o momento de voltarmos nossa atenção para o Rodrigo, que foi convocado para um encontro com uma associação de consumidores do município onde ele trabalha na secretaria de agricultura. Essa associação, bastante atuante nesta cidade de porte médio, trouxe uma reclamação a respeito do aumento excessivo do preço do quilo do tomate nas últimas semanas (R$ 10,00), e uma solicitação para que a prefeitura determine um congelamento de preços (a R$ 5,00 o quilo) do tomate no município, enquanto durar a escassez do produto, argumentando que o preço atual está impedindo que muitos consumidores façam suas compras. Rodrigo sabe que o aumento atual dos preços foi causado por uma quebra de safra, pois a secre- taria de agricultura acompanha de perto a produção agrícola do município, e registrou que a ocorrência de fortes chuvas, algumas semanas atrás, reduziu a produtividade de muitas lavouras. Como o tomate é uma cultura que leva pouco mais de três meses entre a colheita e o plantio, a redução da oferta resultou no aumento de preços perce- bido pela associação. Com base no estudo do equilíbrio do mercado, Rodrigo deve concordar com o pedido e recomendar que a prefeitura promova um congelamento nos preços? Quais devem ser os argumentos do Rodrigo para embasar sua resposta? Pelo que aprendemos, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que Rodrigo não deve indicar o tabelamento. Para convencer a associação de consumidores do município da inadequação da medida, Rodrigo primeira- mente deve dizer que, com as fortes chuvas, o preço de equilíbrio do tomate foi elevado para R$ 10,00 (P2) porque houve um deslocamento da curva de oferta para a esquerda, fazendo com que menos pessoas pudessem comprar o tomate (q2), conforme demonstrado na Figura 1.14. 46 Figura 1.14 | Novo ponto de equilíbrio com o deslocamento da curva de oferta para a esquerda Fonte: Dias (2015, p. 36). Apesar de parecer uma boa decisão para proteger os consumidores, a imposição de um preço (R$ 5,00) abaixo daquele que está sendo praticado nesse momento (o preço de equilíbrio, no momento, é de R$ 10,00) não trará bons resultados. Se o governo acatar ao pedido da associação de consumidores do município, ou seja, se ele determinar um preço máximo para o tomate – R$ 5,00 (P1, na Figura 1.15) - que seja menor do que o preço de equilíbrio – R$ 10,00 (P0, na Figura 1.15), haverá uma quantidade demandada (Qd) maior do que uma quantidade ofertada (Qs), já que, com o preço menor, os consumi- dores terão uma intenção maior de compra, enquanto os produtores estarão menos estimulados a oferecerem o tomate, trazendo escassez de mercadoria para esse mercado, como mostrado na Figura 1.15: 47 Figura 1.15 | Preço máximo do tomate abaixo do preço de equilíbrio do mercado Fonte: Gremaud et al. (2017, p. 138). Avançando na prática O batom da protagonista A Empresa X, produtora de cosméticos, está buscando aumentar a demanda pelo seu carro chefe: o batom Y. Dentre as diversas alternativas apresentadas, está sendo analisada a possibilidade de fazer um merchandi- sing em uma novela de grande audiência, colocando a protagonista usando um batom da empresa, sendo elogiada pelo galã e conseguindo conquistá-lo, além de dizer que os batons daquela marca são muito superiores a qualquer um que ela já tinha usado. O responsável pelo marketing da empresa está defendendo essa ação promocional, afirmando que o investimento feito será totalmente recuperado porque os preços do batom e a demanda dele aumen- tarão. Para convencer os diretores da empresa com a sua ideia, ele convida você, que trabalha na estipulação dos preços de venda dos batons, para corroborar seu argumento. Com base no equilíbrio de mercado, se a ação promocional da empresa for bem-sucedida, de que forma você explica aos diretores que tanto o preço como a quantidade demandada serão ampliados? 48 Resolução da situação-problema Para convencer os diretores da empresa com a sua ideia, o que o diretor de marketing está defendendo é uma ação para deslocar a curva de demanda por batons para a direita. Se a ação for bem-sucedida, o resultado é o demons- trado na Figura 1.16: Figura 1.16 | Novo equilíbrio com o deslocamento da curva de demanda por batons para a direita Fonte: Dias (2015, p. 34). O gráfico mostra que o deslocamento da curva para a direita, por uma maior procura, faz com que o novo preço de equilíbrio seja maior (de P0 para P1) e também a uma quantidade maior (de q0 para q1). O que acontece é que as pessoas estão mais dispostas a adquirir o batom Y, mas, ao mesmo preço de venda, a Empresa X não estaria interessada em aumentar a produção. Assim, à medida que os consumidores se dispõem a pagar um valor maior pelo batom Y, a empresa X fica mais interessada em aumentar a oferta dele, fazendo com que o novo ponto de equilíbrio traga preço e quantidade maiores (em relação ao equilíbrio inicial). 49 Faça valer a pena 1. Observe o gráfico a seguir: Fonte: Dias (2015, p. 36). Com relação ao comportamento dos agentes, analise o excerto a seguir, completando suas lacunas. “Essa figura descreve um deslocamento da _____________ causado por um(a) _____________ no(a) _____________”. Assinale agora a alternativa cuja sequência de termos preenche corretamente as lacunas. a. curva de demanda; redução; renda. b. curva de oferta; redução; custo de produção. c. curva de oferta; aumento; renda. d. oferta; redução; renda. e. curva de oferta; redução; gosto do consumidor. 50 2. Suponha que o mercado do produto A está em equilíbrio (ou seja, a quantidade ofertada é igual à quantidade demanda (situação que gera uma quantidade de equilíbrio) a um determinado preço (que é chamado de preço de equilíbrio) e ocorra uma redução na alíquota de imposto (o que reduz o custo de produção). Considerando uma condição coeteris paribus, qual é o efeito esperado dessa ação sobre o mercado do produto A? a. O preço de equilíbrio aumenta e a quantidade transacionada também aumenta. b. O preço de equilíbrio aumenta, enquanto a quantidade transacio- nada diminui. c. O preço de equilíbrio diminui e a quantidade transacionada também diminui. d. O preço de equilíbrio diminui, enquanto a quantidade transacio- nada aumenta. e. O preço de equilíbrio diminui, enquanto a quantidade transacionada permanece constante. 3. Tomando como referência o conceito de equilíbrio de mercado e os fatores que o influenciam, avalie as seguintes asserções e a relação proposta entre elas. I. Quando é feito um tabelamento de preços, em que o preço máximo estipulado fica abaixo do preço de equilíbrio, issotrará um excesso de mercadoria no mercado (mercadorias paradas no estoque). PORQUE II. Preços máximos abaixo do preço de equilíbrio do mercado fazem com que haja uma oferta (intenção de produção) maior do que uma demanda (intenção de aquisição de bens e serviços). A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta. a. As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não justifica a I. b. As asserções I e II são proposições verdadeiras e a II justifica a I. c. A asserção I é uma proposição verdadeira e a II, falsa. d. A asserção I é uma proposição falsa e a II, verdadeira. e. As asserções I e II são proposições falsas. Referências BRAGA, M. B. Princípios de Economia: abordagem didática e multidisciplinar. São Paulo: Atlas, 2019. Disponível em https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788597022841. Acesso em: 2 dez. 2019. COMPLETAMOS dez anos de produção no Pré-sal. Fatos e Dados, Petrobras, 4 set. 2018. Disponível em: http://www.petrobras.com.br/fatos-e-dados/completamos-dez-anos-de-produ- cao-no-pre-sal.htm. Acesso em: 20 nov. 2019. DIAS, M. C. Economia Fundamental: guia prático.1. ed. São Paulo: Érica, 2015. Disponível em https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788536518695/. Acesso em: 2 dez. 2019. FREITAS, E. Setores da Economia. Brasil Escola, [s.d.]. Disponível em https://brasilescola.uol. com.br/geografia/setores-economia.htm. Acesso em: 14 out. 2019. FÜRSTENAU, M. Alemanha Oriental, uma experiência fracassada de ditadura. Deutsche Welle, 8 nov. 2019. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/alemanha-oriental-uma-expe- riência-fracassada-de-ditadura/a-50705422. Acesso em: 19 out. 2019. GREMAUD, A. P. et al. Manual de economia: equipe de professores da USP. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. MANKIW, N. G. Introdução à economia. São Paulo: Cengage Learning, 2013. NOGAMI, O.; PASSOS, C. R. 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Para que um profissional de gestão alcance sucesso na sua carreira, acertar na tomada de decisões é uma capacidade essencial. Para isso, é preciso entender o efeito de alterações nos preços e em outros fatores que afetam a demanda e a oferta, além de conhecer as diferentes estruturas de mercado e suas implicações. Ao entender os conceitos de elasticidade e estrutura de mercado e como eles impactam a gestão das organizações, você será capaz de avaliar as estra- tégias que cada tipo de firma (empresa) pode utilizar para a maximização do seu lucro. A elasticidade, assunto desta seção, é uma medida da intensidade da mudança, ou seja, o quanto a alteração em um fator vai impactar o compor- tamento do outro, o que também impactará a gestão das organizações. Dessa forma, aprenderemos a calcular a Elasticidade Preço da Demanda, a Elasticidade Renda da Demanda, a Elasticidade Cruzada da Demanda e a Elasticidade Preço da Oferta. Para completar os conhecimentos microeconômicos fundamentais, conheceremos as diferentes estruturas de mercado: começaremos pela concorrência perfeita, depois conheceremos monopólio e o monopsônio (todas na Seção 2.2), para, em seguida, estudarmos a concorrência monopo- lística, o oligopólio e o oligopsônio (na Seção 2.3). O domínio desses conteúdos pode fazer muita diferença na sua vida profissional, então dedique-se bastante a essa unidade! 16 Seção 1 Elasticidade Diálogo aberto Seja bem-vindo! Vamos começar a seção com uma pergunta: será que um empresário precisa saber se um pequeno aumento no preço da mercadoria que vende vai fazê-lo perder muitos ou poucos clientes? Se você acha impor- tante saber isso (e alguns outros entendimentos), você então já percebeu a necessidade de conhecer um indicador fundamental para analisar o mercado: a elasticidade. Para entender a elasticidade, vamos acompanhar uma situação pode ocorrer com algumas pessoas: Otávio está desempregado e sobrevive dos aluguéis que recebe de dois apartamentos que recebeu de herança. Um dos imóveis, localizado no Bairro Classe A, está alugado para João por R$ 2.500,00 mensais, enquanto o outro imóvel, localizado no bairro Classe B, está alugado para Pedro, no valor de R$ 750,00 mensais. O contrato de aluguel desses dois apartamentos está para vencer no próximo mês e, por esse motivo, Otávio foi conferir a documentação dos locadores. Nessa pesquisa, Otávio viu que a renda mensal de João é de R$ 12.000,00, enquanto a renda de Pedro é de R$ 1.500,00 por mês. Em uma possível renovação contratual, Otávio pode subir R$ 250,00 o valor do aluguel de João (o que corresponde a 10% do valor pago por ele, atualmente) e R$ 75,00 o valor do aluguel de Pedro (também 10% do valor do aluguel atualmente pago). Com base no conceito da Elasticidade Preço da Demanda, qual locador tem o maior risco de rescindir o contrato, caso esse reajuste de 10% seja feito por Otávio: João, que terá que desembolsar R$ 250,00 a mais por mês, ou Pedro, que terá uma ampliação de gasto de R$ 75,00? Se você fosse consultado por Otávio, de que forma o ajudaria a responder essa dúvida? Para resolver esse problema, você precisará entender o conceito de elasti- cidade e, em especial, aplicar a Elasticidade Preço da demanda a essa situação. Ao longo desta seção, você descobrirá como os diferentes tipos de elastici- dade ajudam a prever comportamentos e a ajustar estratégias dos agentes em diferentes cenários. Vamos lá? Não pode faltar Olá, aluno!Nesta seção, vamos discutir um aspecto econômico que pode fazer muita diferença para as empresas: a elasticidade. Antes de começarmos, 17 o que acha de retomarmos, de forma bem resumida, alguns assuntos que são importantes para o entendimento da elasticidade? Existem vários fatores que podem afetar a intenção de compra do consu- midor (demanda), sendo o preço o fator de maior peso. Essa constatação levou ao estabelecimento da lei da demanda, que afirma que o aumento nos preços causará redução na quantidade demandada (e vice-versa), desde que os outros fatores permaneçam constantes (coeteris paribus). A demanda é uma relação entre um conjunto de diferentes quantidades associadas a um conjunto de preços. Sendo assim, cada preço determina uma quantidade demandada específica, e mudanças nos preços levam a alterações nas quantidades demandadas, sem que a relação fundamental (a demanda) seja modificada. Contudo, existem fatores que podem fazer com que o consu- midor mude a sua decisão de compra, mesmo que os preços não se alterem, ou seja, são os fatores que causam mudanças na curva da demanda. O mesmo raciocínio se aplica à curva de oferta. Assimile Quando os preços mudam, ocorre uma mudança de pontos ao longo da mesma curva, pois a demanda continua a mesma. Quando a curva de demanda se desloca, a demanda foi alterada. Nesse caso, o consumidor altera a quantidade consumida, mesmo que os preços não tenham mudado. Você já sabe que se o preço de um bem aumenta, a tendência é que seja reduzida a sua procura. Mas será que a reação na demanda de todos os produtos a uma mudança de preços terá a mesma intensidade? Certamente que não. Talvez você nunca tenha se defrontado com essa questão e possa estar se perguntando: mas qual a necessidade disso? Se uma empresa sabe de antemão como os consumidores reagirão a uma alteração do preço, isso afetará a sua estratégia. Na verdade, essa característica pode afetar até algumas políticas governamentais, como veremos mais adiante. Quer entender isso melhor? Suponha que um consumidor gaste mensalmente a mesma quantia com transporte e com lazer. Se ambos os serviços sofrerem um aumento de 10% nos seus preços, a queda no consumo não será igual, concorda? É de se esperar que os gastos com transporte caiam menos do que os gastos com lazer, frente ao mesmo percentual de aumento do preço. Como, então, medir a intensidade desse impacto? A ferramenta utilizada é a elasticidade, que pode ser definida como a intensidade da mudança em um fator causado por uma mudança em outro fator relacionado. 18 Como estamos analisando o efeito de mudanças nos preços sobre a demanda, a elasticidade a ser calculada é chamada de Elasticidade Preço da Demanda (EPD), que é obtida dividindo-se a variação percentual na quanti- dade demandada (ΔQ) pela variação percentual no preço (ΔP). EPD = Variação % Quantidade Demandada Mercadoria X = D D Q P Variação % Preço Mercadoria X Como a relação entre preços e quantidades demandadas é negativa (pois se o preço sobe, a demanda muda em sentido oposto, ou seja, ela diminui), a elasticidade preço da demanda também será sempre negativa, pois, coeteris paribus, sempre que o preço subir, a demanda será menor, e vice-versa. Por isso, nessa análise não consideramos o sinal. Exemplificando Suponha que com o aumento de 10% nos preços, o consumidor passe a demandar 5% a menos de transporte. Isso significa que a alteração na quantidade demandada ocorre em uma intensidade menor do que a alteração nos preços. Para calcular o valor da elasticidade basta dividir a variação da demanda (-5%) pela variação no preço (10%), obtendo o valor 0,5. Observe que como a relação entre preço e quantidade demandada é inversa, o sinal da EPD será negativo. Mas não se preocupe com o sinal agora, pois nessa análise não o levaremos em consideração. EPD = Variação % Quantidade Demandada Mercadoria X = ∆ ∆ Q P = − = 5 10 0 5% % , Variação % Preço Mercadoria X E no caso do lazer? Vamos supor que o aumento também de 10% no preço gere uma redução de 30% no consumo, ou seja, a queda na quanti- dade demandada de lazer foi mais do que proporcional à elevação do preço desse serviço. Repete-se o processo: EPD = Variação % Quantidade Demandada Mercadoria X = ∆ ∆ Q P = − = 30 10 3 0% % , Variação % Preço Mercadoria X Como o valor de 3 é superior ao valor 0,5, consideramos que a demanda de lazer é mais elástica (sensível) em relação ao preço do que a demanda por transporte. Observe que todas as vezes que a intensidade da mudança na quantidade demandada for superior à intensidade da mudança no preço (ambas medidas em porcentagem), o valor da elasticidade será maior do que a unidade (EPD 19 > 1). Nessa condição, dizemos que aquele produto apresenta uma demanda “elástica”. Dessa forma, a partir do exemplo trazido, como a EPD do lazer é de 3 (desconsiderando o sinal), essa demanda é classificada como elástica, ou seja, a alteração percentual da demanda é superior à intensidade percentual da mudança dos preços. Por outro lado, utilizando o exemplo apresentado, vemos que a EPD do transporte é 0,5 (desconsiderando o sinal), mostrando que a sua demanda é pouco sensível (inelástica) a alterações de preço. Sempre que a EPD for menor do que 1 (EPD 1), isso significa que a quantidade demandada de um bem é bastante sensível a alterações de preço. Da mesma forma, se a EPD de uma mercadoria for inelástica (EPDcom a quantidade deman- dada de gasolina, quando o preço do litro desse combustível subisse, por exemplo, 10%? A demanda cairia mais ou menos do que 10%? Reflita sobre o assunto. O segundo fator (essencialidade) tem a ver com a característica dos produtos, se são essenciais ou supérfluos. Nesse caso, quanto mais essen- cial for aquele bem para o consumidor, mais inelástica será sua demanda. Para entender isso, imagine que uma pessoa não consiga ficar sem comer um determinado chocolate, toda noite. Para esse indivíduo, o chocolate é um bem muito essencial, e aumentos no preço do chocolate trarão reduções da demanda menos do que proporcionais à essa ampliação no preço (EPD inelástica). Já para outro indivíduo, o consumo de chocolate pode ser visto como supérfluo, não essencial. Assim, para ele, aumentos no preço do choco- late trarão reduções mais do que proporcionais na demanda desse produto, já que ele não faz tanta questão de comer aquele doce (ou seja, a EPD é elástica). É por isso que quando consideramos o comportamento de um conjunto de consumidores, itens como remédios e energia elétrica têm sua demanda menos afetada pelos preços do que roupas, por exemplo, já que a maioria das pessoas considera remédios e energia elétrica como bens muito essenciais. Por fim, a participação (peso) no orçamento do consumidor indica que, quanto maior a fatia da renda gasta em determinado bem ou serviço, maior será sua EPD (e vice-versa). É por isso que produtos como balas e chicletes tendem a ter EPD inelástica, pois mesmo que o preço deles mude bastante, o efeito sobre a decisão do consumidor de adquirir mais ou menos desses itens será baixo, já que o peso dessa compra dos doces no orçamento do consu- midor será sempre muito pequeno. Assim, quando você decide comprar uma 21 bala que custava 20 centavos, se o preço dela se alterar para 25 centavos ou 15 centavos, isso pouco afetará sua decisão, e a razão é que mesmo que a inten- sidade do aumento tenha sido elevada, a parcela da sua renda utilizada para comprar balas é tão pequena que isso não fará muita diferença. Por outro lado, o aluguel acaba abocanhando uma grande fatia do orçamento de muitas pessoas. Nessas situações, pequenos aumentos em seus valores fazem com que os locadores passem a buscar novos locais para morar. Reflita Para populações de menor renda, apesar da porcentagem da renda gasta em alimentação ser muito elevada, esses produtos apresentam baixa elasticidade por não terem substitutos e serem essenciais. Por isso, principalmente em países mais pobres, o aumento no preço de alimentos costuma trazer muitos problemas, às vezes até de ordem política. Que tipo de ação governamental poderia ser feita para minimizar, de forma imediata, os efeitos negativos trazidos pelo aumento do preço de alimentos? Reflita sobre o assunto. Depois que vimos a EPD, vamos, agora, estudar como podemos medir o grau do efeito da renda do consumidor sobre a demanda dos bens e serviços. A renda é um dos fatores que mais afetam a decisão do consumidor, sendo que, normalmente, quando a renda de um consumidor é elevada, a tendência é que a demanda de um bem também seja ampliada. Contudo, a resposta da demanda a mudanças na renda não será a mesma entre os diferentes produtos, por isso, é necessário calcular a Elasticidade Renda da Demanda (ERD), definida como a intensidade da alteração na quantidade demandada de um produto causada por uma mudança na renda do consumidor. Para fazermos esse cálculo, dividimos a variação percentual na quantidade demanda de um bem pela variação percentual na renda de um consumidor (DIAS, 2015). ERD = Variação % na Quantidade Demandada Mercadoria X = D D Q R Variação % na Renda do consumidor Para quase todos os produtos, aumentos na renda de um consumidor trazem aumentos nas quantidades demandadas, por isso, o sinal da ERD é positivo (ERD > 0). Há, no entanto, uma condição apresentada por alguns produtos, cujo consumo se reduz quando a renda aumenta. Esses bens são chamados de inferiores e apresentam ERD negativa (ERD 0), pois a ocorrência de bens inferiores é menos frequente. Para isso, analisa- remos dois tipos de bens: os normais e os superiores. Os bens normais são aqueles cujo consumo é pouco afetado por variações na renda, de forma que alterações na renda causarão mudanças na demanda no mesmo sentido, mas com uma proporção menor. Os bens normais apresentam ERD maiores do que zero e menores do que um: 0 1). Por exemplo, a tendência é que o consumo que uma família faz de arroz, macarrão, feijão mude pouco com alterações na renda, mas o consumo de iogurte, vinho, joias, por exemplo, seja bastante alterado com mudanças na renda. Exemplificando Imagine que a renda de uma família seja ampliada em 10%. O mais provável é que o aumento no consumo de alimentos básicos seja em um percentual menor do que 10%. Se for de 2%, a ERD será igual a 0,2, caracterizando o arroz como um bem normal. ERD = Var. % na Quantidade Demandada Mercadoria X = ∆ ∆ Q R = = 2 10 0 2% % , Variação % na Renda do consumidor Por outro lado, a ampliação do gasto de sua família com cultura e lazer, em resposta a uma ampliação na renda de 10%, deverá ser maior do que 10%. Se for de 15%, a ERD será igual a 1,5, caracterizando esses produtos (serviços) como superiores, pois apresentam uma mudança da demanda em percentual superior às alterações na renda. ERD = Var. % na Quantidade Demandada Mercadoria X = ∆ ∆ Q R = = 15 10 1 5% % , Variação % na Renda do consumidor 23 O último aspecto que afeta diretamente a intenção do consumidor de adquirir mais ou menos de um produto (demanda), sem que o preço dele tenha sido alterado, é o preço de outros produtos relacionados. Pense: a demanda por refrigerantes pode ser alterada por mudanças nos preços dos sucos? E a demanda por areia para construção, é afetada pelo preço do cimento? Quando tratamos dessas relações, estamos estudando a Elasticidade Cruzada da Demanda (ECD), que nos traz o entendimento dos bens substi- tutos e dos bens complementares. Para melhor compreensão desses conceitos, que tal uma situação prática? Quando você vai ao mercado comprar um produto, é provável que você veja também outros que podem substituí-lo, concorda? Imagine o consu- midor que foi ao supermercado disposto a comprar carne de boi, mas que, ao chegar no setor de carnes, depara-se com uma oferta de carne suína. Essa oferta é suficiente para que ele compre menos carne bovina e adquira uma quantidade de carne suína que não havia planejado comprar inicialmente. Note que ele não consumiu uma quantidade menor de carne de boi porque o preço da carne de boi subiu, mas porque o preço de outra mercadoria, a carne de porco, diminuiu. Essa é uma situação em que existem produtos substi- tutos, que são aqueles que disputam entre si a escolha do mesmo consumidor. Nessasituação, a ECD é positiva (ECD > 0), ou seja, a mudança no preço de um bem causará uma mudança na quantidade demandada do outro bem, no mesmo sentido (uma redução no preço da carne de boi faria a demanda por carne de porco reduzir, por exemplo). Já nos produtos complementares, a relação é inversa: quando o preço de uma mercadoria aumenta, a demanda por outra mercadoria diminui. Isso ocorre porque esses produtos são utilizados em conjunto. Quer ver um exemplo? Imagine dois materiais de construção, como brita e areia: basta que o preço de apenas um deles suba para alterar o consumo de ambos, concorda? Em termos matemáticos, a diferença entre as duas ECD é apenas no sinal: os produtos substitutos apresentam ECD positiva (ECD > 0), pois a variação no preço de um produto gerará uma alteração no mesmo sentido na demanda do outro produto. Por outro lado, os produtos complementares apresentam ECD negativa (ECD 1, ou seja, a resposta da quantidade ofertada é mais intensa do que a variação no preço, enquanto produtos com EPO inelástica (0em uma intensidade superior 4. Elasticidade Preço da Demanda menor do que um Fonte: elaborado pelo autor. Assinale a alternativa que apresenta a associação CORRETA entre as colunas. a. I - 4; II - 3; III - 2; IV - 1. b. I - 2; II - 1; III - 4; IV - 3. c. I - 4; II - 1; III - 2; IV - 3. d. I - 3; II - 4; III - 1; IV - 2. e. I - 1; II - 3; III - 2; IV - 4. 28 Seção 2 Estrutura de mercado: concorrência perfeita e monopólio Diálogo aberto Olá, é uma alegria estarmos juntos nesta seção! Agora, vamos conhecer como os mercados funcionam na prática por meio das estruturas de mercado. Mas o que termos como monopólio e concorrência perfeita tem a ver com a estratégia das empresas? Para responder a essa importante pergunta, acompanharemos a decisão que o Haroldo, um empreendedor do agrone- gócio, precisa tomar. Vamos conhecer a história dele? Depois de muito tempo morando em uma grande cidade, Haroldo decidiu arrendar uma área no interior do país para produzir soja. Nessa empreitada, ele está contando com o apoio do seu sócio, Cláudio, que tem bastante experiência na condução da cultura. Conversando sobre as estraté- gias a serem empregadas, Cláudio sugeriu a Haroldo que buscasse alterna- tivas para criar uma marca para a sua soja e, assim, conseguir agregar valor ao seu produto. Contudo, Haroldo está com dúvidas se essa seria uma estra- tégia viável para a soja que ele vai produzir. Uma informação que ele tem é que a soja é uma commodity, ou seja, um produto padronizado em escala mundial, cujo preço é determinado pelas forças de oferta e demanda, sendo sinalizado globalmente pelas operações da Bolsa de Mercadorias de Chicago, a CBOT. A partir dessas informações, Haroldo precisa responder à seguinte pergunta: a criação de uma marca para a soja produzida na sua fazenda é uma estratégia viável para aumentar as vendas ou é mais recomendável a utilização de outras estratégias? Para responder essa pergunta, precisaremos definir em qual estrutura de mercado opera uma fazenda de soja para, em seguida, estipularmos quais as estratégias que poderão ser utilizadas. Vamos lá? Não pode faltar Olá, aluno! Gostou do que já vimos até agora? É interessante que você tenha segurança dos conceitos já apresentados, pois esse é um momento muito importante, no qual analisaremos um tema que pode afetar direta- mente o resultado das empresas e que também tem muito a ver com as 29 condições que enfrentamos ao realizar nossas compras como consumidores: as estruturas de mercado. Você já deve ter percebido que nem sempre os agentes (empresas, por exemplo) têm forças iguais no mercado, não é mesmo? Mas, quando isso ocorre, quais as consequências para o mercado? Além disso, o governo deve atuar para evitar esse tipo de situação? Se você já percebeu que essas perguntas podem alterar o desempenho de uma empresa, já entendeu a importância de estudarmos as estruturas de mercado. Você sabe o que são as estruturas de mercado? Não? Vamos à explicação! Assim como qualquer pessoa, as empresas não agem sozinhas em uma socie- dade, já que estão inseridas em mercados (locais, virtuais ou reais, em que compradores e vendedores negociam e realizam transações econômicas) com diferentes características. Essas características dependem de três variáveis: 1. Número de participantes (ou seja, número de compradores e vendedores). 2. Diferenciação (ou não) do produto transacionado entre as empresas. 3. Existência (ou não) de barreiras para a entrada de novas empresas nesse mercado. Assimile Para classificar uma estrutura de mercado é preciso ter informações a respeito: das barreiras à entrada, da força relativa dos agentes e da homogeneidade dos produtos. Em primeiro lugar, é preciso saber que o número de empresas que fazem parte de um mercado é um aspecto fundamental para a classificação das diferentes estruturas de mercado, pois a presença de muitas organizações disputando os mesmos clientes vai gerar uma concorrência entre elas. É importante esclarecer que, em economia, a concorrência é vista como uma ferramenta que beneficia toda a sociedade, pois incentiva as empresas e a efici- ência, amplia a escolha dos consumidores e contribui para reduzir os preços e melhorar a qualidade da mercadoria ou do serviço prestado (COMISSÃO EUROPEIA, 2012). De forma análoga, podemos lembrar que Ayrton Senna dizia que grande parte da sua eficiência e de seu sucesso profissional estavam atrelados a outro ótimo piloto que concorria com ele nas pistas de Fórmula 1, Alain Prost, pois essa rivalidade motivava o piloto brasileiro a sempre buscar alternativas de ser melhor do que o francês (COURREGE; LOPES, 2014). Conhecer a estrutura de mercado em que uma empresa está inserida é fundamental para balizar a escolha de estratégias fundamentais, tais como 30 determinação do preço de venda, gastos com propaganda, infraestrutura produtiva e pesquisa e desenvolvimento, entre outras que caracterizam a conduta das empresas. Para entender melhor as diferentes estruturas de mercado, utilizaremos uma das ferramentas mais poderosas da economia: os modelos. Da mesma forma que um manequim ou um boneco em uma loja de roupas dá uma ideia do que seja um corpo humano, os modelos econômicos permitem uma visão da realidade que, apesar de não ser perfeita, fornece informações suficientes que permitem o seu entendimento e também trazem indicações dos resul- tados que virão a partir das decisões tomadas. Assimile Os modelos econômicos são simplificações que, apesar de não serem perfeitas, permitem uma compreensão superior da realidade e possibi- litam simulações de resultados Nesta seção, vamos estudar alguns dos principais modelos das estruturas de mercado: competição (concorrência) perfeita, monopólio e monopsônio. Vamos, então, começar por aquela que é considerada a estrutura ideal, na qual os agentes negociariam os preços e as quantidades dos produtos e serviços em igualdade de forças. Esse é o modelo de competição perfeita, ou concorrência perfeita. A primeira característica desse modelo é que, como há uma grande quantidade de compradores e vendedores (o mercado é atomizado), nenhum dos agentes tem uma participação significativa no mercado a ponto de conseguir influenciar individualmente os preços dele. Isso implica em que nenhum comprador, por maior que seja a quantidade que consiga adquirir, individualmente, conseguirá reduzir o preço de mercado. Da mesma forma, nenhum comprador terá uma participação tão elevada nesse mercado, que consiga levá-lo, individualmente, a alterar os preços. Como consequência, a entrada ou saída de algum agente (comprador e/ou vendedor) não vai alterar as condições de equilíbrio desse mercado. A segunda característica é que os produtos são homogêneos, ou seja, os consumidores consideram os produtos exatamente iguais, não fazendo distinção entre os diferentes fornecedores. Por isso, tentativas de criação de marcas ou de estabelecimento de preços diferentes por parte dos vendedores não costumam valer a pena (mesmo que o produtor ache que o seu produto é diferente do concorrente, se essa diferença não for percebida pelo consu- midor, isso não vai adiantar nada). 31 Exemplificando O mercado de frutas e hortaliças é um bom exemplo de produtos homogêneos: quando você vai à feira ou a um supermercado, não encontrará marcas diferentes de laranjas ou de tomates, por exemplo. Isso ocorre porque, na prática, você e os outros consumidores não estão dispostos a pagar mais por uma marca de tomate específica, pois esses produtos não são vistos como diferentes (o tomate produzido na Fazenda A vai ser praticamente igual ao tomate produzido na Fazenda B; assim, se um supermercado comprar tomate desses dois fornecedores e colocá-los, juntos, na mesma gôndola, para revendê-los, o consumidor não conseguirá dizer qual é o tomate da Fazenda A e qual é o da Fazenda B). Outra característica da estrutura de mercado em concorrência perfeita é a inexistênciade barreiras para a entrada de novos participantes. As barreiras à entrada são definidas como o custo que uma nova firma terá que enfrentar para participar de um mercado e que não existe para aquelas que já estão estabelecidas. Por exemplo: quando uma firma decide entrar em um mercado em que terá de enfrentar marcas consolidadas, ela se defrontará com uma barreira à entrada. Além desse fator, patentes, determinações governamen- tais, domínio de tecnologias de ponta, economia de escala, curva de aprendi- zado, alta necessidade de capital, acesso a canais de distribuição constituem barreiras à entrada (BASTOS, 2014). De forma similar, quando uma empresa sabe que os custos de abandonar uma atividade são elevados (um maqui- nário específico que não é vendido facilmente, por exemplo), ela será desin- centivada a entrar nesse mercado, ou seja, as barreiras à saída funcionam também como barreiras à entrada. Em um ambiente de barreiras reduzidas ou mesmo inexistentes (como o de concorrência perfeita), sempre que uma firma apresentar um lucro elevado, outras poderão entrar no mercado, aumentando a oferta e reduzindo o preço de equilíbrio dele. Como consequência, mercados mais competitivos como os de concorrência perfeita tendem a apresentar preços menores e produtos de melhor qualidade no longo prazo, beneficiando toda a população. Além dessas três características citadas, outro pressuposto da concor- rência perfeita é que os agentes tenham completo acesso às informa- ções disponíveis (característica chamada de simetria da informação). Por exemplo, em uma feira livre (que é um dos exemplos mais usados de concor- rência perfeita), você pode coletar todas as informações disponíveis sobre os produtos à venda nas diferentes barracas antes de efetuar sua compra. Assim, como os produtos são homogêneos, se um feirante cobrar um preço acima das outras barracas, todos os consumidores vão saber dessa informação, 32 fazendo com que ninguém compre com aquela pessoa que está cobrando um preço acima dos demais. E quais as implicações para uma empresa (firma) que opera em um mercado de concorrência perfeita? Em termos de preços, se ela quiser vender o seu produto abaixo do preço de equilíbrio do mercado, isso significa tomar uma decisão pouco racional pois, como sua quantidade ofertada é pequena em relação ao mercado, ela apenas venderá seu produto mais rápido, bastando aos outros produtores esperar que ela venda todo o seu estoque para que o preço retorne à condição de equilíbrio. Em contrapartida, se a empresa tentar vender a um preço maior do que o preço de equilíbrio, os consumi- dores saberão que outros produtores estarão ofertando o mesmo produto a um preço menor, e ela não conseguirá vender nada. Assim, os vendedores que participam de um mercado em concorrência perfeita são tomadores de preços – price takers (eles simplesmente têm que adotar o preço estipulado no equilíbrio do mercado, sem ter poder de alterá-lo). E a diferenciação de produtos, será que é uma estratégia válida? Pense: como o consumidor considera os produtos homogêneos (lembra, por exemplo, que os tomates produzidos pelas Fazenda A e B eram indistinguíveis?), a diferen- ciação ou criação de marcas não é uma estratégia recomendada, pois o consu- midor acabará optando sempre pelo produto de menor valor. Dessa forma, o foco de um produtor operando em um mercado de concorrência perfeita terá de ser, obrigatoriamente, a redução de custos, pois ele também não terá como cobrar um preço superior ao preço praticado no mercado. Reflita Você certamente já ouviu falar da Revolução Industrial e dos seus impactos sobre o progresso da humanidade. Contudo, a revolução que talvez mais venha a moldar o futuro da humanidade seja a dos meios de comunicação: hoje, o custo de conversar, obter informações e fazer negócios com uma pessoa do outro lado do mundo tende a zero. Essa redução de custos de comunicação permite ao consumidor obter informações a respeito dos produtos que deseja junto a diferentes consu- midores. De que forma esse processo se assemelha a uma das caracterís- ticas da estrutura de mercado de concorrência perfeita? Reflita sobre isso. Pode acontecer que uma ou mais empresas, operando em um determi- nado mercado de concorrência perfeita, apresentem um lucro acima de outras empresas (que é chamado de lucro extraordinário ou lucro supranormal). Por exemplo: ao longo de 2019 ocorreu um aumento no preço das carnes de boi e de porco por conta de uma elevação de 40,4% nas importações de carne 33 de porco pela China, nos oito primeiros meses do ano, em comparação com o mesmo período de 2018 (IMPORTAÇÕES..., 2019). Esse processo ocorreu por conta de uma epidemia de peste suína que obrigou a um abate de cerca de 40% do plantel chinês. Em consequência disso, os lucros dos suinocultores brasileiros aumentarão; mas esse resultado financeiro acima da média não vai durar muito tempo. Você sabe por qual motivo? Simples: esse lucro vai estimular outros produtores a entrarem no mercado (ou os próprios produ- tores aumentarão sua oferta) para aproveitarem esse lucro maior (já que no mercado estruturado como concorrência perfeita não há barreiras para a entrada de novos participantes). Isso deslocará a curva da oferta da carne de porco para a direita, fazendo com que o preço de equilíbrio diminua, reduzindo, consequentemente, o lucro extraordinário (até que ele seja total- mente eliminado, com reequilíbrio da oferta) Essa situação está representada na Figura 2.1 a seguir. Um possível aumento de oferta de carne suína no mercado deslocaria a curva de oferta de O para O’, fazendo com que o preço de equilíbrio diminuísse de p0 para p1. Com esse preço menor, o lucro extraordinário dos suinocultores iria diminuir, havendo, inclusive, a possibilidade de ele ser extinto, caso uma quantidade ainda maior de produtores dessa carne entre nesse mercado, o que reduziria ainda mais o preço de equilíbrio dele. Figura 2.1 | A redução do preço de equilíbrio após deslocamento da curva de oferta Fonte: Braga (2019, p. 36). Ainda que nem sempre seja possível determinar que um mercado funcione exatamente da forma como preconiza o modelo de concorrência perfeita, o entendimento das vantagens é suficientemente forte para fazer 34 com que muitos governos mantenham estruturas e leis para estimular o aumento da concorrência e, assim, trazer benefícios à sociedade. Apesar de você, provavelmente, já ter vivenciado uma experiência de consumo em um ambiente próximo ao da competição perfeita, o mais provável é que em seus processos de compra você tenha se deparado com situações nas quais você não tinha alternativas de alterar os preços, e se sentia com menos poder do que o vendedor. Essas são situações em que não ocorre a competição perfeita, pois há um desequilíbrio de forças. A estrutura de mercado em que esse desequilíbrio de forças é mais intenso é o monopólio, no qual um único vendedor domina completamente um ramo de atividade, não existindo qualquer outro fornecedor do seu produto ou serviço. O termo monopólio vem do grego mono (que significa “um”) e polein (que significa “vender”). Nessa estrutura de mercado, os consumidores não podem optar por produtos ou serviços que possam substituir os oferecidos pelo monopolista – ou seja, não há bens substitutos àquele vendido pelo monopolista. Por isso, muitos continuarão a adquirir aquele produto mesmo que os preços aumentem, o que faz com que o monopolista, frequentemente, prefira aumentar os seus preços, mesmo que alguns consumidores deixem de comprá-lo, pois o aumento no lucro em cada unidade vendida trará a ele maior lucro total. Esse prejuízo à população faz com que alguns defendam a quebra de todos os monopólios, mas essa é uma decisão que não pode ser tomada sem a análise de suas implicações, pois nem sempre isso é possível ou mesmo desejável. Vamos analisar algumas situações? Em primeiro lugar, nos mercados monopolísticos existembarreiras que impedem o acesso de novos concorrentes ao mercado. Essas barreiras podem ter diferentes origens, sendo que as principais são a obtenção de patentes, a proteção legal e especificidades de produção (como altos custos) que tornam um único produtor (fabricando em grande quantidade) mais eficiente do que uma grande quantidade de produtores, fabricando pequenas quantidades (o que é chamado de economias de escala). As patentes surgem da necessidade de estimular a pesquisa e a inovação: a legislação permite que empresas que desenvolvam novos produtos ou processos possam registrar sua patente e atuar como monopolistas enquanto essa patente durar. 35 Exemplificando Uma companhia farmacêutica que, eventualmente, descubra um novo medicamento revolucionário, ao receber a patente passa a ter exclu- sividade de produção desse medicamento durante certo número de anos. Após esse período, os medicamentos produzidos com o mesmo princípio ativo são chamados de genéricos. Essa exclusividade de venda (temporária) acontece para que a empresa que teve altíssimos gastos com pesquisa (até descobrir e desenvolver um novo medicamento) consiga retornos financeiros suficientes para cobrir esse investimento feito. Já a proteção legal significa que a existência de concorrentes é proibida por lei. Um exemplo é a geração de energia nuclear no Brasil. Por ser consi- derada questão de segurança nacional, a exploração dessa tecnologia é exclu- sividade da empresa estatal, a Nuclebrás (NUCLEP, [s. d.]). Reflita Na Europa, a posse de Margaret Thatcher como primeira ministra da Inglaterra, em 1979, deu início a uma onda privatizações que se manteve ao longo dos seus três mandatos consecutivos, até 1990, e que alcançou países como a França e a Alemanha (TEIXEIRA, 2016; MÜZELL, 2016). No Brasil, além de existirem empresas que têm tido sua existência como monopólio estatal questionada (por algumas correntes do pensamento econômico), como os Correios e as empresas estaduais de saneamento, há outras que já foram privatizadas, como a Telebras. Você acredita que a população brasileira seria beneficiada com a privatização dessas estatais? Reflita sobre o assunto. Outra razão para a existência de monopólio decorre de economias de escala, o processo de redução de custos com o aumento da quantidade produ- zida. Em algumas atividades econômicas esse custo é significativo, e quando isso ocorre pode ser que a alternativa de menor custo seja o monopólio. Por exemplo, na cidade em que você mora certamente, só existe uma empresa de fornecimento de água e tratamento de esgoto. A economia de escala faz com que esse serviço apresente menor custo se for prestado por uma única empresa do que se fosse dividido entre duas ou mais, em um mesmo município. Além disso, a tecnologia de distribuição de água e coleta e tratamento de esgoto ainda é essencialmente mecânica. Imagine como ficariam as ruas da cidade se cada vez que um consumidor decidisse mudar 36 de fornecedor a nova empresa tivesse que cavar um buraco para trocar o encanamento. Agora precisamos olhar para a estratégia de uma firma monopolista: se o seu objetivo é maximizar o seu lucro no longo prazo, ela fará todo o esforço possível para evitar a entrada de novos concorrentes, concorda? Isso explica a atenção redobrada que essas firmas precisam receber do poder púbico. Se você estiver utilizando um computador é provável que o seu sistema operacional seja aquele famoso fornecedor de software que, apesar de não ter uma proteção legal, é quase monopolista em sistemas operacionais, não é mesmo? E quando você quer procurar uma coisa na internet é quase certo que utilizará um site que se tornou sinônimo de buscas. Pois bem, o Google foi multado em 2,42 bilhões de euros pela Comissão Europeia, em 2017, por fragilizar a concorrência no mercado das buscas pela internet (COMISSÃO EUROPEIA, 2017). Em 2019, representantes de 50 estados americanos anunciaram uma investigação conjunta contra a companhia por práticas anticompetitivas (ESTADOS..., 2019). A Microsoft já foi processada por monopólio tanto nos Estados Unidos (BLANCO, 1998) quanto na Europa (MICROSOFT..., 2007). A questão é que, quanto maiores as barreiras à entrada, maior a capaci- dade de uma firma de exercer seu poder de mercado no longo prazo. Essa é a vantagem de uma empresa atuar em um mercado monopolístico? Sim, claro! Se o lucro de um monopolista cresce, a um determinado preço estipulado por essa empresa (o monopolista é um price maker – estipulador de preço para o mercado), atingindo um lucro acima da média de outros setores (o chamado lucro extraordinário), é praticamente impossível que uma outra firma possa entrar no mercado (devido às barreiras de entrada) e aumentar a concorrência (o que diminuiria o preço de equilíbrio do mercado, reduzindo, consequentemente, o lucro extraordinário), o que traz a tendência desse lucro extraordinário persistir no longo prazo (diferentemente do que ocorre no mercado de concorrência perfeita), levando a situações nas quais as empresas caminharem muito perto do limite legal e ético. Por outro lado, o avanço da tecnologia tem, de forma geral, beneficiado o consumidor no que se refere à competição, pois áreas que antes eram monopólios hoje apresentam disputa entre as empresas. Nas telecomunica- ções no Brasil, por exemplo, a digitalização dos processos permitiu o desapa- recimento do monopólio e o estabelecimento de concorrentes. Contudo, em situações em que os monopólios persistem, é comum que os governos busquem desenvolver esforços tentando evitar ou pelo menos atenuar os efeitos desta situação. Isso se dá por meio de medidas legais ou 37 de regulamentação dos preços, ou até mesmo tornando o monopólio uma empresa pública, tentando reduzir o prejuízo à sociedade. Assimile Ainda que, a princípio, os monopólios representem um potencial de prejudicar os consumidores, é preciso analisar bem todos os aspectos envolvidos antes de se decidir por uma quebra de monopólios. Existem situações em que a manutenção do monopólio pode acabar sendo a alternativa de menor prejuízo para a sociedade. Por fim, precisamos conhecer mais uma estrutura de mercado que é pouco comum, mas de grande importância. Essa estrutura ocorre quando um único comprador controla substancialmente o mercado em que atua, sendo ele, exclusivamente, quem demanda toda a produção de um determinado bem ou serviço: o monopsônio. Ocorre normalmente quando uma grande empresa é a única opção para um grande número de vendedores. Com isso, esse comprador possui grande poder de mercado e, assim como acontece no monopólio, ele pode determinar (price maker) o preço da mercadoria que será praticado nesse mercado, beneficiando-o. No Brasil, um exemplo de monopsônio é a Petrobras, que exerce exclusividade de compra junto aos produtores de gás natural, sendo a única a adquirir o gás que é produzido no Brasil (ZAGO; OLIVEIRA, 2019). Com isso alcançamos o objetivo desse encontro: você conheceu as duas estruturas opostas que o consumidor pode se defrontar: o monopólio, em que existe apenas um fornecedor de um produto ou serviço, e a concorrência perfeita, na qual nenhum dos vendedores possui uma parcela do mercado suficiente para afetar os preços. Vimos também o monopsônio, em que apenas um comprador é a única opção para um grupo de vendedores. Agora é com você: leia o material e se prepare para enfrentar mercados em concorrência perfeita, monopólio ou monopsônio. Bons estudos! Sem medo de errar Agora que você já conhece os conceitos fundamentais de monopólio, oligopólio e concorrência perfeita, pode ter segurança para opinar a respeito da estratégia sugerida ao Haroldo pelo Cláudio. Você está lembrado da situação? Haroldo passou a produzir soja em uma área arrendada, após ter decidido mudar de uma grande cidade para o interior do país. Para ajudá-lo com a parte técnica, ele conta com o apoio do 38 seu sócio, Cláudio, que tem bastanteexperiência na condução da cultura. Nas reuniões de planejamento de atividades, Cláudio sugeriu a Haroldo uma nova estratégia: desenvolver uma marca para a sua soja a fim de conseguir agregar valor ao seu produto. Haroldo não ficou convencido da viabilidade da ideia, e por isso precisa responder à seguinte pergunta: a criação de uma marca para a soja produzida na sua fazenda é uma estratégia viável para aumentar as vendas ou é mais recomendável a utilização de outras estratégias? Se o Haroldo realizar uma análise criteriosa do mercado de produção de soja, concluirá que ela é um produto homogêneo, ou seja, para o consumidor não faz diferença se a soja é produzida na fazenda deles ou em qualquer outra propriedade. Além disso, os mercados agrícolas, em geral, se aproximam do modelo de concorrência perfeita, pois dispõem de um grande número de produtores com reduzida força individual, sendo que nenhum consegue, individualmente, afetar os preços do mercado da soja que, em especial, são balizados a partir dos milhões de contratos que são negociados diariamente na Bolsa de Chicago. Sendo assim, Haroldo deve dizer a Cláudio que não há sentido em investir na criação de uma marca e em divulgação para um produto que, se estiver mais caro, será deixado de lado pelo consumidor (que, pela homoge- neidade e simetria da informação, vai preferir o mais barato). Dessa forma, os sócios Cláudio e Haroldo deveriam abandonar a estratégia de criação de uma marca, dedicando-se a produzir soja ao menor custo possível, pois o preço será uma variável sobre a qual eles não terão controle. Avançando na prática Como melhorar o transporte público Fabrício foi contratado para prestar consultoria a uma organização não governamental (ONG) de sua cidade que foi formada por empresários, prestadores de serviço, associações de moradores etc. e que recebe aporte de recursos da prefeitura. A ONG tem como objetivo o desenvolvimento econô- mico do município. Foi realizada uma pesquisa com a população que indicou que o trans- porte público é o serviço que recebe a pior avaliação por parte da população, que critica os poucos horários disponíveis, a reduzida oferta de itinerários e a baixa qualidade dos ônibus da população, além das muitas reclamações sobre o alto preço das passagens. 39 O transporte público na cidade é exclusividade de uma única empresa, sendo que essa condição é garantida por lei em um contrato celebrado 15 anos atrás e que será encerrado nos próximos meses. Fabrício se dedicou a pesquisar o assunto e, ao consultar pesquisa reali- zada por uma associação de municípios da região, descobriu que a maioria das cidades com população similar à do seu município apresenta pelo menos duas empresas de transporte público. O que ele deve sugerir a ONG em relação a essa situação? Resolução da situação-problema A exclusividade garantida pela legislação transforma a empresa em monopólio. A falta de concorrência desestimula a empresa a buscar melhorar a qualidade do serviço prestado à população e estimula a prática de preços abusivos. É fundamental que a ONG se mobilize para aproveitar o encerra- mento do contrato e encaminhar ao poder público (Executivo e Legislativo), uma proposta para alteração da lei que permita a operação de mais de uma empresa de transporte público na cidade, o que vai estimular a melhoria dos serviços e a queda nos preços. Essa melhoria certamente contribuirá para o melhor aproveitamento dos recursos, gerando um melhor ambiente econômico no município. Faça valer a pena 1. Os modelos econômicos, ainda que não consigam expressar a realidade em sua totalidade, permitem uma boa visualização das características funda- mentais do mercado, bem como a projeção de comportamento deles. Existe uma estrutura de mercado que demonstra, de forma bastante similar, as características fundamentais de mercados agrícolas (como os de frutas e verduras), que apresentam produtos homogêneos, grande número de compradores e vendedores e inexistência de barreiras à entrada. Qual é essa estrutura? a. O monopólio. b. O oligopólio. c. O oligopsônio. d. A concorrência perfeita. e. O monopsônio. 40 2. As estruturas de mercado são modelos que captam aspectos de como os mercados estão organizados. Cada estrutura de mercado destaca aspectos essenciais da interação da oferta e da demanda, baseando-se em caracterís- ticas observadas em mercados existentes. Em todas as estruturas clássicas os agentes são maximizadores de lucro. As estruturas de mercado estão condi- cionadas por três variáveis principais: a) número de firmas produtoras no mercado; b) diferenciação do produto; e c) existência de barreiras à entrada de novas empresas (GONÇAVES, 2011). Tomando como referência as estruturas de mercado, julgue as afirmativas a seguir em (V) Verdadeiras ou (F) Falsas. Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta. a. V – F – V – F. b. F – V – V – F. c. V – F – F – V. d. V – V – F – V. e. F – F – V – V. 3. As receitas combinadas de gigantes da internet como Facebook, Micro- soft, Google, Amazon e Apple chegam a cerca de US$ 3,7 trilhões anuais, maior do que o PIB da Alemanha. Esse poder concentrado nas mãos de poucos tem levado a propostas de desmembramento dessas empresas (TECH GIANTS, [s.d.]). Com base nas estruturas de mercado, avalie as seguintes asserções e a relação proposta entre elas. I. A preocupação dos governos europeus e norte-americano de impor limites ao poder de mercado a esse gigantes da internet advém da constatação dos prejuízos que a população pode ter, decorrentes do poder concentrado em uma única empresa ou grupo. PORQUE II. Devido à inexistência de barreiras à entrada de novos participantes na estrutura de monopólio, o lucro das empresas monopolísticas tende a desaparecer, ao longo do tempo. 41 A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta. a. As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não justifica a I. b. As asserções I e II são proposições verdadeiras e a II justifica a I. c. A asserção I é uma proposição verdadeira e a II, falsa. d. A asserção I é uma proposição falsa e a II, verdadeira. e. As asserções I e II são proposições falsas. 42 Seção 3 Estrutura de mercado: concorrência monopolística e oligopólio Diálogo aberto Olá, seja bem-vindo a nossa caminhada pela microeconomia. Nesta seção, vamos estudar as estruturas de mercado, com foco no oligopólio, no oligopsônio e na concorrência monopolística. Para isso, vamos conhecer uma empresa do ramo farmacêutico, conhe- cido por estar estruturado em mercados oligopolizados. Pronto para o desafio? Lucas é um dos diretores de uma grande empresa farmacêutica, a Empresa YY, líder no mercado brasileiro de remédios para dor de cabeça. Na última reunião de diretoria, ele foi desafiado a aumentar as vendas desse produto, pois uma análise indicou que a empresa está operando com capacidade ociosa. Sabendo que essa empresa é líder do mercado, mas não possui exclu- sividade na venda do produto, ele precisa responder a seguinte pergunta: para aumentar as vendas desse remédio para dor de cabeça, a redução do preço de venda seria uma boa alternativa ou existem outras estratégias mais adequadas? Para responder a essa pergunta, você precisará entender as estruturas de mercado que serão apresentadas nesta seção, bem como as melhores estra- tégias a serem utilizadas pelas empresas em cada uma das situações. Você perceberá que os temas apresentados aqui estão diretamente ligados a situa- ções enfrentadas pelas empresas, por isso, conhecê-los e saber como aplicá- -los poderá fornecer a você um diferencial para se destacar no mercado. Vamos lá? Não pode faltar Olá, aluno. As estruturas de mercado podem apresentar posições extremas e opostas, como a concorrência perfeita (em que os agentes não têm poder individual, sendo tomadores de preços) e o monopólio (em que a empresa apresenta muito poder, podendo definirfundamentais da microeco- nomia, discutir o problema econômico fundamental (como utilizar recursos limitados para satisfazer necessidades infinitas) e responder às questões essenciais da economia (o que produzir, quanto produzir, como produzir e para quem produzir). Para completar, conheceremos as duas abordagens diferentes que foram tentadas para responder a essas perguntas: a economia centralizada e a economia de mercado. Na aula seguinte, começaremos a analisar o mercado e a formação de preços, e faremos isso estudando o comportamento dos consumidores, por meio da demanda. Você entenderá como ela é formada e sua representação gráfica, que é a curva de demanda. Além disso, analisaremos sua conformação e os deslocamentos da curva. Por fim, começaremos estudando o comportamento dos produtores/vendedores, que é a oferta, seus determinantes, a curva de oferta e seus deslocamentos, para, finalmente, podermos analisar como as forças de oferta e demanda que, apesar de antagônicas, completam-se e permitem que o mercado possa alcançar o equilíbrio por meio do ajuste dos preços. 8 Seção 1 Problema econômico fundamental e fluxo circular de renda Diálogo aberto Olá, aluno! Muitas pessoas acreditam que economia é algo meio distante da realidade, mas, caso você pense parecido, vai ver que essa ideia é total- mente diferente da realidade. A economia está presente nas nossas escolhas diárias e mais ainda no dia a dia de um profissional que precisa tomar decisões em relação aos seus negócios. Para nos ajudar nesse entendimento, conheceremos o Douglas, que está terminando o seu curso de administração na faculdade e já está aplicando os conhecimentos adquiridos no seu trabalho. Seu desempenho chamou a atenção de seu gestor imediato, que tem sinalizado a possibilidade de uma promoção quando ele terminar sua graduação. Ao longo dos últimos anos, sua organização na administração dos gastos pessoais permitiu que ele conseguisse acumular uma reserva financeira razoável, dentro das limitações do salário de um jovem que estuda e trabalha. Com o final do ano se aproximando e as despesas de formatura já pagas, Douglas foi convidado por alguns colegas de sala para acompanhá-los em uma viagem para a praia, no final do ano. Contudo, o valor que ele gastaria nessa viagem é o mesmo que ele precisaria pagar para aproveitar o desconto que a faculdade está oferecendo para alunos da instituição que se matricu- larem, antecipadamente, em um curso de pós-graduação. Um dos cursos oferecidos é na área que o gestor imediato de Douglas recomendou a ele, pois faz parte dos planos de expansão da empresa abrir novas vagas nessa área. Como o Douglas pode utilizar os conhecimentos de economia, em especial o de custo de oportunidade, para tomar a melhor decisão nesse cenário? Ao entender como os princípios de economia podem ajudar o Douglas a resolver essa questão, você verá o quanto eles podem ser úteis em problemas que você enfrenta nos negócios. 9 Não pode faltar Olá, seja muito bem-vindo à disciplina Economia para Negócios. Você já teve algum contato com a ciência econômica antes? É comum que as pessoas pensem que economia tem a ver com investimentos, mercado de ações e finanças, entre outras coisas. Elas não estão erradas, mas não se trata só disso. O termo economia vem da junção dos vocábulos gregos oikos (casa) e nomos (costume, lei ou também gerir, administrar). Daí “regras da casa” (lar) ou “administração da casa”. São Tomás de Aquino (1225-1274) descreveu ecônomo como o responsável por administrar bens, rendas e despesas do lar. Depois de algum tempo, o uso de oikos ampliou-se e incluiu o Estado, noção que dura até hoje. A definição clássica de economia a estabelece como a ciência social que estuda a produção, distribuição e consumo de bens e serviços. A economia se diferencia em duas partes fundamentais: macroeconomia, que olha para o todo, e a microeconomia, que é mais específica. Podemos comparar a macroeconomia com uma visão panorâmica da floresta, enquanto a microeconomia estuda cada árvore, individualmente, ou um grupo de árvores de forma mais detalhada. Dessa forma, a microeconomia estuda aspectos como o comportamento dos agentes econômicos (o consu- midor e a empresa), bem como a formação dos preços dos bens e serviços nas diferentes estruturas de mercado. Por sua vez, a macroeconomia estuda o desempenho dos agregados e suas inter-relações (consumo, poupança, crescimento econômico, inflação, emprego, etc.), por isso foca no comporta- mento da economia como um todo, analisando aspectos como as contas do setor público, o desenvolvimento econômico e as relações econômicas com o exterior. Outro ponto muito importante a ser destacado é que a economia se preocupa com uma questão fundamental da humanidade: como utilizar recursos produtivos escassos para atender desejos ilimitados. Essa questão se apresenta como um grande desafio, mas certamente você verá o quanto ela é importante, tanto na sua vida pessoal e profissional, quanto na qualidade de vida da humanidade. Então, para entender os desafios que essa questão nos traz, precisaremos, primeiramente, falar de necessidades (que em economia são sinônimos de desejos), para, depois, tratarmos sobre recursos produtivos. Se você considerar com cuidado, constatará que as necessidades humanas são infinitas. Pense: o fato de você estar se dedicando a ter um diploma de curso superior significa que não está totalmente satisfeito com a sua atual condição e que quer ter uma qualidade de vida superior no futuro, certo? Ou seja, sua insatisfação está levando você a fazer algo bom. Isso comprova que 10 as pessoas sempre vão querer mais do que já têm, ou seja, o fato de as neces- sidades serem infinitas implica em que as pessoas sempre vão querer mais, em termos de bens e serviços. O que você acha que motivou as grandes invenções da humanidade? Exatamente! As pessoas estão dispostas a pagar por um produto ou serviço que aumente o seu nível de satisfação, e os inventores sabiam que seriam remunerados se oferecessem isso às pessoas. Podemos, então, afirmar que a insatisfação é a origem do progresso da humanidade. Por outro lado, a maioria das guerras surgiu porque alguém (ou um povo, ou uma nação) que estava insatisfeito tentou tomar posse de algo que pertencia a outro, por meio da força, não é mesmo? Ou seja, a insatisfação humana não é intrinsicamente boa ou ruim, o problema é se ela é canalizada para o benefício ou para o prejuízo da humanidade. Vamos, agora, analisar os recursos produtivos disponíveis para satisfazer as necessidades humanas: eles não são inesgotáveis, são limitados, o que resulta em que nem todas as necessidades poderão ser satisfeitas. Vamos pensar um pouco na seguinte afirmação: “a escassez está presente tanto nos países ‘ricos’ quantos nos países ‘pobres’”. Você concorda? Mesmo nas sociedades mais ricas, os recursos disponíveis são limitados e encontra- remos desejos não atendidos. Depois que o consumidor compra uma moto, ele vai querer um carro, depois outro carro, depois um iate, um avião, e assim por diante. Perceba que, por maior que seja a quantidade disponível dos recursos produtivos, eles não conseguirão suprir todos os desejos do ser humano, pois ele sempre deseja mais (e nunca está totalmente satisfeito). E qual a implicação disso? Todos precisamos fazer escolhas, e a economia surge dessa necessidade, por isso também é conhecida como a ciência da escolha ou da escassez. Então, podemos dizer, de uma forma resumida: as necessidades infinitas frente aos recursos produtivos limitados fazem com que os agentes econômicos tenham que fazer escolhas em um ambiente de escassez. Assimile A economia surgiu como ciência a partir da constatação de duas reali- dades: as necessidades humanas são infinitas e os recursos produtivos para atendê-las são limitados. É importante que você perceba que, quando falamos sobre os recursos produtivos (ou fatores deos preços que quer praticar). O nosso foco agora, entretanto, são as estruturas intermediárias, que também são as mais frequentes no mundo atual: o oligopólio, o oligopsônio e a concorrência monopolista. Sabe que existe uma característica que ocorre em 43 todas elas? É a interdependência mútua, fundamental para definir as estraté- gias de uma empresa! Vamos conhecê-las, então, começando pelo oligopólio. O termo oligopólio também tem origem grega (oligos significa “poucos”, e polein se refere ao processo de venda) e ocorre quando existe um número reduzido de empresas (poucos vendedores) que dispõem de poder suficiente para exercer algum tipo de controle sobre o preço. Note que o que caracte- riza um oligopólio não é o pequeno número total de empresas, mas o fato de poucas possuírem muito poder. Assimile O oligopólio tem mais ofertantes do que o monopólio, contudo, a maior parcela do mercado fica concentrada em poucos vendedores. A presença da estrutura de mercado do oligopólio é facilmente perce- bida em setores como de telefonia móvel brasileira, em que quatro empresas dominam o mercado e o número de outros fornecedores é irrisório (CHIAPINOTO et al., 2017). No Brasil, setores como de refrige- rantes também são oligopólios: segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes (ABIR) citados por Gentilini (2011), em 2008, havia 835 fabricantes de refrigerantes que, segundo Motomura (2011) fabri- cavam 3.500 marcas, que incluíam sabores como de abacaxi e de guaraná com catuaba. Contudo, esse grande número de marcas e fabricantes não impede que as marcas ligadas ao principal fabricante detenham quase 60% do mercado nacional de refrigerantes (BOUÇAS, 2018). Por meio desses exemplos, você pode perceber que, no oligopólio, os produtos tanto podem ser diferenciados (como os refrigerantes, que apresentam embalagens, sabor, volumetria etc. diferentes), quanto homogê- neos (como os serviços de telefonia, as indústrias de cobre etc.). Uma das características que costuma estar presente nessa estrutura é a economia de escala (resultando em que quanto maior a produção menor o custo médio por unidade produzida, fazendo com que as empresas de maior porte tenham custos menores). Dessa forma, é comum que ocorram fusões e aquisições entre as empresas operando nesse mercado, pois elas buscam reduzir os seus custos e aumentar sua participação de mercado. Se você olhar para o que está acontecendo no mundo, em setores como bancos e fabricantes de automóveis ou aviões, terá a confirmação dessa informação. Nesse mercado, as decisões de cada firma sobre o preço a ser cobrado e outros aspectos chave precisam considerar não apenas os seus custos e a demanda de mercado, mas também as possíveis reações de seus rivais, já que o índice de concentração do mercado é alto (um oligopolista leva em 44 consideração e reage às decisões de preço e produção dos outros oligopolistas do setor). Por isso, conhecer a elasticidade preço cruzada da demanda de um produto em relação aos seus principais concorrentes poderá fazer muita diferença. Qual a consequência desse cenário? Em muitas situações, a dificuldade de previsão das ações e reações dos outros agentes gera uma elevada incerteza, que faz com que as empresas optem por evitar guerras de preços, fazendo com que, em alguns oligopólios, os preços acabem apresentando pouca diferença entre si. Dentro desse tipo de comportamento das empresas oligopolistas (de evitar uma guerra de preços), podemos ver dois tipos de estratégias diferentes: liderança de preço e competição extra preço. Vamos entendê- -las? Na liderança de preços, uma empresa oligopolista dominante (pela sua participação no mercado e/ou capacidade de trabalhar com custos menores) estipula o seu preço de venda (mais baixo). As outras empresas participantes desse mercado, apesar de poderem cobrar o preço que quiserem pelos seus produtos, acabam copiando o preço da empresa líder (como se tivessem um acordo informal), pois se cobrarem preços maiores do que o do oligopolista dominante seriam eliminadas do mercado. Já na estratégia de competição extra preço não há acordos (formais ou informais) entre os oligopolistas e a competição entre eles acontece por meio de guerras publicitárias, na tenta- tiva de chamar a atenção do cliente em potencial. Assim, amostras grátis, brindes, campanhas publicitárias na internet, na televisão ou outras mídias são ações implementadas por esses oligopolistas para cativar o consumidor, que até aceitará pagar um preço maior do que o preço os concorrentes, levan- do-se em conta a marca (altamente impactada pelo marketing) e a qualidade do produto. No entanto, pense agora por um momento: se você estivesse à frente de uma das (poucas) firmas líderes de mercado operando em um oligopólio, que tipo de estratégias você pensaria em estabelecer para minimizar os seus riscos e maximizar seus lucros? Será que a ideia de fazer um acordo com outros (poucos) oligopolistas passaria pela sua cabeça? Muitas pessoas diriam que sim! Com isso, você percebe, então, que o oligopólio estimula a elaboração de pactos entre as firmas? Esses acordos envolvem fatores como preços, divisão dos mercados em termos geográficos etc. e nem sempre são expressos, ou seja, não necessa- riamente os oligopolistas se reunirão para decidir alguma coisa, às vezes são acordos tácitos (apesar de não terem celebrado um acordo formal, os agentes atuam como se ele existisse). 45 Dentre os acordos efetivamente celebrados, o tipo mais conhecido e mais danoso à sociedade é o cartel, caracterizado por um conluio entre empresas independentes entre si e que produzem o mesmo tipo de bens participantes. A partir desse acordo, alguma característica – em especial o preço ou cotas de produção – é definida por negociação entre as firmas, de forma a maximizar os lucros e eliminar a concorrência. Essas empresas passam a assemelhar-se a um monopólio, no sentido em que as empresas cartelizadas funcionam como uma única empresa (NUNES, 2019). O cartel é considerado crime pela legis- lação brasileira e, no período em que esse material estava sendo escrito, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados havia aprovado uma proposta para aumentar a pena para esta prática (BITTAR, 2019). Assimile Um dos principais problemas do oligopólio é a possibilidade e o estímulo que os agentes principais desse mercado dispõem para formação de cartel, que é um acordo entre os ofertantes a fim de eliminar a concor- rência e trazer grandes prejuízos ao consumidor. Contudo, como esse acordo ocorre à margem da lei e depende do compromisso de cada agente de manter o que foi acordado, em algumas situações a “tentação” de quebrar o acordo e reduzir os seus preços ou tomar alguma posição que aumente sua participação no mercado torna o equilí- brio instável, apesar das vantagens dos acordos. Com isso, ações individuais independentes podem surgir, fazendo com que o conflito entre os interesses individuais dos integrantes do cartel e os interesses coletivos muitas vezes levem a uma guerra de preços. Exemplificando A partir de investigações conduzidas pela Polícia Federal que culmi- naram em operação de busca e apreensão realizada em julho de 2008, seguidas por Termos de Compromisso de Cessação (TCC), o Tribunal do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) condenou, em 10 de abril de 2019, 27 postos de gasolina, duas distribuidoras e 12 pessoas físicas por prática de cartel e outras infrações à ordem econômica no mercado de distribuição e revenda de combustíveis na região metropo- litana de Belo Horizonte, Minas Gerais. No total, foram aplicadas multas que somam R$ 156,9 milhões (CADE, 2019). 46 Reflita Notícias de punições aos praticantes de cartel não são comuns de serem vistas. Qual seria o motivo da dificuldade de condenar essa prática? Uma dica: um dos princípios do direito diz que o ônus da prova tem que ser da acusação, ou seja,é preciso haver provas para condenar alguém De acordo com Retamiro (2016, p. 182) A cooperação entre os oligopolistas parece uma estra- tégia mais interessante para todos. No entanto, apesar de desejável, a cooperação é bastante complexa e difícil. Isto nos leva a uma teoria usada na economia, que é chamada de teoria dos jogos, fundamentada em modelos de decisão, em que cada empresa (ou outro tipo de jogador) escolhe uma estratégia para maximizar os seus resultados, sendo que as estratégias da outra empresa (player) podem influenciar a sua escolha estratégica maximizadora de resultados. Portanto, irá se tratar de um estudo sobre a tomada de decisão estratégica, com base nas ações das outras empresas. Essa incerteza sobre o comportamento alheio faz com que os agentes precisem considerar os diferentes cenários que poderão enfrentar, a partir das ações que elas e seus concorrentes poderão tomar. Essa forma cooperativa de pensar foi estudada por alguns pesquisadores, e o expoente dessa abordagem, que depois se mostrou revolucionária, foi John Nash, ganhador do Nobel de Economia de 1994 e que teve sua luta contra a esquizofrenia retratada no filme Uma Mente Brilhante, ganhador de oito prêmios Oscar em 2002. Se puder, assista esse filme, dando especial atenção à cena do bar, em que ele percebe que a busca da maximização da satisfação individual nem sempre resulta na melhor solução para todos e afirma, para espanto dos seus amigos: “Adam Smith estava errado”. Ele propõe uma abordagem na qual cada agente deve tomar suas decisões considerando as opções disponíveis para os outros agentes, o chamado equilí- brio de Nash (NETO; MENDONÇA, 2011) que demonstra que, quando um agente considera as alternativas disponíveis para os outros agentes, nem sempre a solução mais provável será a solução ótima. Para mostrar o conceito de equilíbrio de Nash, vamos acompanhar uma de suas proposições mais conhecidas, o Dilema dos Prisioneiros. 47 Imagine que dois perigosos marginais, Tripa-Seca e Quase-Nada, foram presos em flagrante, hoje pela manhã, com objetos roubados. Apesar de terem ocorrido praticamente no mesmo horário, as prisões foram em locais e circunstâncias diferentes, e eles sabem que a pena por esse crime é de seis meses. Contudo, o delegado responsável pela investigação tem certeza que a dupla foi responsável também por um assalto a banco de algumas semanas atrás, mas sabe que as provas que possui não são suficientes para condená- -los. O delegado resolveu interrogar cada criminoso de forma separada, pois precisava que eles confessassem o crime de assalto a banco. No interrogatório do Tripa-Seca, o delegado disse para ele: “Olha, a gente sabe que você e o Quase-Nada assaltaram o banco e a gente até já prendeu ele. Então o negócio é o seguinte: se você confessar que participou do assalto a banco e afirmar que Quase-Nada também participou desse crime, eu consigo um acordo e você vai ser liberto, e ele pode pegar até dez anos de cadeia. Só que eu vou fazer a mesma proposta para ele e, se ele falar e você ficar quieto, Quase-Nada será solto e você vai ficar dez anos preso. No caso de vocês dois confessarem, aí cada um de vocês vai pegar três anos de encarceramento.” Antes de responder, Tripa-Seca pensa um pouco mais e pergunta: e se nenhum de nós dois confessar? O delegado então é obrigado a dizer que, nesse caso, os dois serão condenados apenas pelo crime dessa manhã (objetos roubados) e ficarão livres depois de seis meses de cadeia. Tripa-Seca tem meia hora para decidir e não pode falar com seu comparsa. Resumindo a história, temos algumas possibilidades de conclusão desse caso: 1- caso um dos prisioneiros traia o outro, e o outro permaneça em silêncio, o que acusou é solto, imediatamente, enquanto quem ficou em silêncio pega dez anos de prisão; 2- caso os dois fiquem em silêncio sobre o crime no banco, a condenação é de seis meses para cada (pelo crime de roubo de objetos); e 3- caso ambos traiam a confiança do outro, cada um pega três anos de prisão. Ao analisar a situação, Tripa-Seca percebe que, se ele não confessar, terá a possibilidade de sair em apenas seis meses, mas, também corre o risco de ficar dez anos preso. Por outro lado, se confessar, garante que sua condenação não passará de três anos, podendo inclusive, ser solto, imediatamente. Qual é a questão chave? Ele não tem como saber como seu comparsa agirá! Se ele tivesse a certeza de que seu comparsa faria o mesmo, a melhor escolha seria não confessar (e ambos passariam seis meses presos). Mas, como ele não sabe qual a atitude que seu comparsa de crime tomará, qual seria a decisão que minimizaria o seu risco? Para chegar a essa conclusão, os prisio- neiros devem analisar muito bem a situação. Caso Quase-Nada fique em silêncio, a melhor estratégia para Tripa-Seca é confessar (pois, dessa forma, 48 ele ganharia a liberdade), já que, se ele não confessar, Tripa-Seca pegaria seis meses de cadeia. Por outro lado, caso Quase-Nada não fique em silêncio, a melhor estratégia para Tripa-Seca é, mais uma vez, confessar (passando três anos preso, em vez de dez anos, caso ficasse em silêncio). Ou seja, a melhor estratégia para ambos (independentemente do que o outro faça) é confessar, o que fará cada um deles permanecer três anos na cadeia. Mas, como vimos, esse resultado é péssimo para ambos, que poderiam pegar apenas seis meses de prisão cada, se um cooperasse com o outro, permanecendo em silêncio. Interessante, não é mesmo? Isso é o que acontece em um mercado oligopolista: apesar de sempre ser vanta- josa a cooperação mútua, será que o concorrente vai permanecer fiel na parceria ou, em algum momento, vai buscar o interesse próprio, quebrando o acordo? Certamente, os oligopolistas gostariam de aproveitar todas as vantagens (lucro maior) que a cooperação lhes proporcionaria, mas o interesse próprio (dar uma burlada no acordo para tirar vantagens individuais) faz com que os oligopolistas compitam entre si, reduzindo a lucratividade de todos. Desta forma, o número de oligopolistas e a capaci- dade de cooperação entre elas vai levar cada segmento oligopolizado a uma situação de maior ou menor lucro. Cabe ressaltar que alguns acordos (cartéis) não são permi- tidos e que o controle governamental (feito por políticas antitrustes) sobre esses conluios também interfere nos resultados dos oligopolistas. (RETAMIRO, 2016, p. 185) Já que terminamos de falar sobre o oligopólio, vamos aproveitar para analisar o oligopsônio? Você já deve ter concluído que essa estrutura ocorre quando há um grande número de vendedores e um pequeno número de compradores, correto? Contudo, você pode estar se questionando: com mercados tão desenvolvidos, será possível a existência de uma estrutura como essa ainda hoje? Perceba: existem setores, como a produção de automóveis e de motoci- cletas, em que há um pequeno número de montadoras de presença global que adquirem diversos produtos e serviços oferecidos por um grande número de fornecedores de menor porte. Isso faz com que as empresas oligopsonistas tenham ao seu redor vários fornecedores dos quais elas são as principais e, às vezes, únicas clientes dessas várias empresas. Outro exemplo ocorre no processamento de alimentos: produtos lácteos, sucos de frutas, processamento de grãos e similares são formados por um grande número 49 de produtores rurais que normalmente enfrentam um número bastante reduzido de compradores para os seus produtos. É importante destacar que, ainda que possa parecer que os produtores sejam prejudicados quando um mercado se estrutura em um oligopsônio, em muitas situações, essa é a estrutura que melhor atenderá às necessidades do mercado. Vamos levar em conta o setor de grãos (como soja, milho etc.) que são produ- zidos em propriedades a milhares de quilômetros de distância dos centros consumidores: os oligopsônios surgem pelas economias de escala que ocorrem nas operações de transporte, secagem,armazenamento e processamento. Se em vez de grandes grupos como os atuais houvesse uma enorme quantidade de pequenos transportadores, armazenadores e processadores, é provável que esses produtos acabassem chegando mais caros na mesa do consumidor. A nossa última estrutura de mercado é um modelo um pouco mais recente na teoria econômica e que representa condições muito próximas da realidade atual: a concorrência monopolística. Apesar do nome, a associação com o monopólio é praticamente inexistente, pois há uma intensa concor- rência entre os vendedores (ou seja, há um grande número de vendedores). Sua principal característica é a concorrência entre produtos que não são exatamente iguais (os produtos são heterogêneos), mas que apresentam similaridades entre si, ou seja, são similares, porém substitutos. Por exemplo: pense em setores como o de calçados, roupas e restaurantes. No setor calçadista há diversas lojas de sapatos, que vendem uma infinidade de modelos, tamanhos, cores etc., ou seja, os diversos sapatos (na mesma loja ou em lojas diferentes) travam uma disputa acirrada pela escolha do consumidor. Figura 2.2 | Pequena loja de calçados Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/b6/Hanoi_shoe_shop.JPG/1024px-Ha- noi_shoe_shop.JPG. Acesso em: 16 dez. 2019. 50 Nessa pequena loja da Figura 2.2, haverá vários produtos com enormes diferenças de preços (dependendo de características tangíveis e intangí- veis), mas, basicamente, com a mesma função: calçar os pés. A escolha do consumidor levará em consideração diversos fatores, inclusive o preço, das diferentes alternativas. A partir desse exemplo prático, podemos analisar os principais pressu- postos da concorrência monopolística: • Os consumidores são em grande número e apresentam reduzida força individual. • As barreiras à entrada para os vendedores são quase nulas (livre entrada e saída de empresas) – diferentemente do mercado de oligo- pólio, que possui grandes barreiras à entrada – fazendo com que a saída e entrada de agentes no mercado seja frequente. • Apesar de poderem ser substituídos entre si, os produtos são perce- bidos pelos consumidores como diferenciados. • Há um número significativo de empresas no mercado que tem relativa liberdade de estabelecer o preço de seus produtos. • A partir dessas condições, as empresas serão mutuamente afetadas pelas ações umas das outras. Como há um grande número de empresas nesse mercado (pense em quantas lojas e modelos de roupa há na sua cidade, por exemplo, ou quantos contadores, advogados e arquitetos oferecem serviços em seu município), elas acabam por responder por uma pequena fatia dele. Além disso, a hetero- geneidade do produto (tangíveis, como: cores, tamanhos, tipos de tecidos etc., ou intangíveis como: marcas, história, confiança, design etc.) permite que cada empresa cobre um preço diferente por ele (não há um único preço de equilíbrio do mercado, como acontece no mercado de concorrência perfeita). Nesse tipo de estrutura de mercado, o lucro acima do normal (chamado de lucro extraordinário ou supranormal) tende a desaparecer ao longo do tempo, pois inexistem barreiras para a entrada de novos concor- rentes, que acabarão por dividir a lucratividade de todas as empresas partici- pantes (por exemplo, se o setor de restaurantes começa a apresentar um lucro supranormal, isso vai estimular a entrada de outros empresários nesse ramo, e, quando uma pessoa for almoçar ou jantar, ela terá mais opções de escolha, fazendo com que a demanda total por refeições (todas as pessoas que procu- raram um restaurante na hora das refeições) seja dividida entre um número maior de empresas. 51 Para conseguirem atrair a atenção dos consumidores, as diversas empresas que compõem o mercado de concorrência monopolística vão fazer uso de estratégias de marketing, tais como: brindes, liquidações, propagandas em sites de compra coletiva, atendimento dos funcionários, estacionamento grátis etc. No entanto, dificilmente veremos alguma delas conseguir fazer um anúncio no intervalo da novela das 21h (você já viu algum escritório de contabilidade da sua cidade fazer esse tipo de propaganda?), já que essas empresas não alcançam o poderio financeiro das que atuam no mercado oligopolístico, por exemplo. E qual seria, então, a palavra-chave para o sucesso nesse ambiente? Se você pensou em diferenciação, acertou, pois à medida em que uma marca ou produto consegue ser percebida como diferente, a liberdade para que o produtor altere seus preços e, assim, melhore seus resultados aumenta, o que faz com que as ações de propaganda apresentem grande importância nessa estrutura. Para concluirmos, analise um dos fatores de maior importância na confor- mação das estruturas de mercado de hoje: a tecnologia. Em alguns setores, podemos notar novas empresas surgindo e tomando espaço entre oligopólios já consolidados, como a entrada da Tesla e de montadoras coreanas, chinesas e indianas no mercado global de automóveis, e de empresas aéreas de baixo custo no mercado internacional de passagens aéreas. Em outros, é muito interessante notar a velocidade em que o protagonismo troca de mãos, como o mercado de celulares e smartphones, em que empresas como a Motorola e Nokia tiveram seu auge e perderam muito de sua relevância, e que, hoje, empresas como Samsumg e Xiaomi brigam para tirar o protagonismo da Apple. Contudo, isso não impede que, na próxima esquina da história, agentes como Google, Facebook, Amazon se posicionem como predominantes em um mercado. E o que isso tudo tem a ver com você? Como muitos, você pode ser apenas um espectador e correr o risco de ser engolido por uma tendência de mercado, como os donos de videolocadoras. Por outro lado, você pode decidir ser protagonista e investir na sua capacitação. E o que você acha de tomar as rédeas de sua história? Continue apren- dendo mais sobre a economia! Sem medo de errar Você está lembrado de que Lucas é um dos diretores de uma grande empresa farmacêutica, a YY, que é líder no mercado brasileiro de remédios para dor de cabeça. Ele precisa aumentar as vendas, pois a empresa está 52 operando com capacidade ociosa. Apesar de ser líder do mercado, a Empresa YY não tem exclusividade na venda do produto, trabalhando em um mercado oligopolizado. Frente a esse cenário, ele precisa responder a seguinte pergunta: para aumentar as vendas desse remédio para dor de cabeça, a redução do preço de venda seria uma boa alternativa ou existem outras estratégias mais adequadas? Para tomar uma decisão, Lucas precisa entender que o setor farmacêutico é um mercado oligopolizado (a maior parcela do mercado está concentrada em poucas empresas e existem muitos consumidores) e, por isso, a empresa YY tem que pensar na reação dos concorrentes a suas ações, pois há outros fabricantes do produto. Como a Empresa YY é a líder do mercado, a tendência é que os outros participantes do mercado passem a cobrar um preço muito próximo àquele cobrado por ela pelo seu remédio para dor de cabeça. Por isso, se ela decidir reduzir o seu preço de venda, isso poderá dar início a uma guerra de preços, em que os resultados finais seriam ruins para a Empresa YY. Diante desse quadro, uma boa alternativa a ser considerada por Lucas seria a possibilidade de adotar estratégias extra preço, como aumentar os investindo em ações de marketing, para tentar estabelecer, na mente do consumidor, uma percepção de que o remédio para dor de cabeça da Empresa YY é superior ao da concorrência (pois traz, por exemplo, alívio imediato, ou não dá sono em quem fizer uso dele etc.), o que permitirá à Empresa YY um aumento na participação de mercado. Perceba como o entendimento da estrutura de mercado em que a empresa opera foi fundamental para a tomada de decisão correta? Isso é verdadeiro também para os outros assuntos apresentados nesta seção. Avançando na prática Atraindo novos clientes Sônia é Raquel são irmãs e trabalhamem salão de beleza desde a adoles- cência. Uma situação familiar inesperada fez com que elas tivessem que pedir demissão do salão onde trabalhavam há muitos anos e se mudassem para uma nova cidade. Logo depois de sua chegada, elas decidiram juntar as economias e o dinheiro da rescisão para abrir um novo salão na cidade onde se instalaram. Como não são conhecidas na cidade, elas precisam trazer novos clientes. De que forma o conhecimento das estruturas de mercado pode ajudá-las a resolver esse problema? 53 Resolução da situação-problema Os salões de beleza constituem uma situação típica de mercado operando em concorrência monopolística, pois há uma grande quantidade de empresas oferecendo produtos e serviços similares, mas que são percebidos pelos consumidores como diferenciados. Nessa estrutura de mercado, ações de marketing podem trazer resultados muito significativos, por isso, as irmãs têm que colocar a “mão na massa” e desenvolver ações que atraiam clientes, como cupons de desconto, anúncios em sites de compra coletiva, massagem nos pés grátis e outras. Faça valer a pena 1. O ambiente competitivo enfrentado pelas empresas a cada dia se torna mais acirrado e complexo e entender as diferentes estruturas de mercado é um diferencial estratégico. A estrutura de mercado em que há um grande número de vendedores que só pode vender seus produtos para um pequeno número de compradores é chamada de. Assinale a alternativa correta. a. Monopólio. b. Monopsônio. c. Oligopólio. d. Oligopsônio. e. Concorrência monopolística. 2. As estruturas de mercado são simplificações da realidade que buscam demonstrar os aspectos fundamentais da organização de um mercado, a partir de características observadas em mercados existentes, em que a interação das forças de oferta e da demanda assumem papel fundamental. A partir do referencial teórico das diferentes estruturas de mercado, julgue as afirmativas a seguir em (V) Verdadeiras ou (F) Falsas. ( ) A característica fundamental do oligopólio é o grande número de vendedores, que impedem a concentração do mercado na mão de algumas empresas mais poderosas. 54 ( ) Apesar de constituir crime, as condenações por formação de cartel são raras, e isso decorre da dificuldade de comprovar que ocorreu acordo explí- cito para sua efetivação. ( ) Na concorrência monopolística ocorre uma intensa concorrência pois os produtos são exatamente iguais, disputando, entre si, a escolha do consu- midor. ( ) No oligopsônio, as empresas compradoras apresentam uma força reduzida frente aos vendedores e a entrada e saída de novos agentes é fácil. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA. a. V – V – F – F. b. F – F – V – V. c. V – F – V – F. d. V – F – V – V. e. F – V – F – F. 3. De acordo com Garcia e Vasconcellos, (2005, p. 35): A partir da demanda e da oferta de mercado são deter- minados o preço e a quantidade de equilíbrio de um dado bem ou serviço. O preço e a quantidade, entretanto, depen- derão da particular forma ou estrutura desse mercado, ou seja, se ele é competitivo, com muitas empresas, produ- zindo um dado produto, ou concentrado em poucas ou em uma única empresa. Com base nas estruturas de mercado, avalie as seguintes asserções e a relação proposta entre elas. I. Muitos oligopólios surgem e se mantêm pela existência de barreiras à entrada geradas por economias de escala. PORQUE II. As economias de escala surgem quando outras empresas participantes do oligopólio seguem o preço estabelecido pela empresa dominante. 55 A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta. a. As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não justifica a I. b. As asserções I e II são proposições verdadeiras e a II justifica a I. c. A asserção I é uma proposição verdadeira e a II, falsa. d. A asserção I é uma proposição falsa e a II, verdadeira. e. As asserções I e II são proposições falsas. Referências BASTOS, E. O que são barreiras à entrada? Portal Gestão, 24 nov. 2014. Disponível em: https://www.portal-gestao.com/artigos/7545-o-que-são-barreiras--entrada.html. Acesso em: 23 nov. 2019. BITTAR, P. CCJ aprova pena maior para o crime de cartel entre empresas. Câmara os Deputados, 9 out. 2019. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/596980-ccj-aprova-pena-maior5- -para-o-crime-de-cartel-entre-empresas/. Acesso em: 27 nov. 2019. BLANCO, A. 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Você consegue lembrar de situações em que uma empresa que parecia estar com tudo em ordem foi surpreendida por alguma alteração no ambiente econômico que trouxe impactos tão severos que a perpetuação dela foi comprometida? Então, você já se deu conta de que, por mais que uma empresa possa ser bem administrada, conhecer o ambiente econômico onde ela está inserida é fundamental. Por isso, vamos conhecer a macroeconomia, que procura ter uma visão ampla do funcionamento da economia, que estuda temas como: cresci- mento econômico, inflação, comércio exterior, desemprego, déficit público etc. Começaremos aqui conhecendo como a economia analisa as relações econômicas de um país com o exterior por meio do registro do seu balanço de pagamentos; em seguida, vamos aprender como o câmbio é um aspecto fundamental das relações entre os países e, por fim, nos atualizaremos em relação aos processos de formação de blocos econômicos (tudo isso na Seção 3.1). Na sequência, você irá conhecer um dos debates mais importantes da economia: qual deve ser o tamanho do Estado e quanto ele deve intervir na atividade econômica, acompanhando duas correntes de pensamento: o liberalismo econômico e o keynesianismo. Você, então, entenderá o conceito da mão invisível do mercado e as outras ideias originalmente propostas por Adam Smith. Conhecerá também as ideias de Keynes, o principal crítico da abordagem clássica, que defendeu a intervenção econômica do governo na economia, e perceberá como sua influência perdura até os dias atuais (tudo isso na Seção 3.2). Por fim, dada a importância da política econômica, é preciso que você conheça, na Seção 3.3, as funções do governo, os mercados econômicos, as metas econômicas e as políticas utilizadas para atingi-las.Pronto para essa jornada? 60 Seção 1 Economia externa Diálogo aberto Olá, aluno. Temos certeza de que você já ouviu falar sobre exportações, importações e câmbio, uma vez que esses assuntos frequentemente estão presentes nas principais notícias de vários jornais. Mas, você sabe o quanto eles afetam a economia em geral e a nossa qualidade de vida, em particular? Será que esses temas afetam o desempenho econômico das empresas? E os empregos oferecidos por elas? Talvez a empresa para a qual você esteja traba- lhando, atualmente, faça parte de um setor que esteja ligado ao comércio internacional e você nem tenha se atentado a isso! Para lhe ajudar a entender a dimensão e a abrangência desses aspectos, nós analisaremos a situação enfrentada por Ricardo, que é o responsável pelas vendas de um abatedouro de frangos que está em processo de expansão. O abatedouro recebeu, recentemente, o credenciamento do Ministério da Agricultura para exportação e está muito próximo de fechar um grande contrato com um grupo do Oriente Médio para enviar um lote de várias toneladas de carne. Com o avanço das negociações, o dono da empresa chamou Ricardo para uma conversa e pediu sua opinião a respeito de ideia de ampliar as instalações para tentar exportar mais. Considerando que as perspectivas para o futuro da economia são de desvalorização do Real, você acredita que Ricardo deva recomendar a ampliação? Ao estudar os conceitos necessários para responder à pergunta, você compreenderá a importância das questões relativas à economia externa e sua influência sobre a atividade econômica e o desenvolvimento de um país. Além disso, irá adquirir conhecimentos que podem lhe trazer um diferencial competitivo no mercado de trabalho. Lembre-se: você é o responsável pela gestão de sua própria carreira e sua dedicação será recompensada. Mantenha o alto nível de comprometimento, ok? Vai valer a pena. Não pode faltar Que bom ter você aqui novamente, seja bem-vindo! Deixe-me fazer uma pergunta: você já parou pra analisar o quanto as profissões estão cada dia mais especializadas? Você consegue ver isso até em atividades mais tradi- cionais como a de pedreiro, em que é possível ver especialistas em nichos 61 específicos –como acabamento, fundação etc. E isso se dá porque as pessoas estão percebendo que a especialização é vantajosa para todos, pois ela está diretamente ligada ao aumento da produtividade. Se você analisar com atenção, nas sociedades de renda mais elevada esse fenômeno é percebido em todas as atividades. Essa constatação é fundamental para responder uma questão que normalmente desperta muitas controvérsias: qual é a melhor estratégia para um país: produzir tudo internamente ou realizar trocas com outros países? Em algumas situações, a resposta é clara: se um país consegue comprar um produto de outro país por um preço inferior ao custo que teria para produ- zi-lo ou consegue vender outro produto por um preço menor do que o custo que esse outro país teria para produzi-lo, os dois saem ganhando com uma transação internacional. Esse é o conceito das vantagens absolutas proposto por Adam Smith. Exemplificando O Brasil produz apenas parte do trigo que consome, importando grande parte desse trigo da Argentina. Ao mesmo tempo, boa parte do minério de ferro consumido pela Argentina tem origem no Brasil. Com isso, tanto os consumidores argentinos quanto brasileiros têm acesso a trigo e minério de ferro a preços menores se comparados a um cenário em que os países não realizassem comércio entre si. Contudo, em muitas situações, um país pode ser melhor do que outro em diversos produtos (alcançando custo de produção menor ou maior quali- dade, por exemplo), podendo parecer que ele não teria vantagem em realizar comércio. Como ficaria essa situação? Para responder a esse desafio, preci- samos lembrar do conceito do custo de oportunidade, que é basicamente o que um país deixaria de ganhar ao decidir produzir determinado produto ao invés de outro. Podemos expressar esse conceito com uma situação simples: imagine um neurocirurgião que também é um excelente jardineiro. Se ele precisar desmarcar uma consulta para cuidar do seu jardim, simples- mente porque poderia fazer um trabalho melhor do que o jardineiro de sua vizinhança, estaria tomando uma boa decisão? Certamente que não! O mesmo raciocínio se aplica aos países: eles devem se concentrar em produzir os produtos nos quais são mais competentes, pois seus recursos de produção são limitados (MANKIW, 2013). Para os países de menos recursos, poder oferecer produtos e serviços de menor custo para sua população resultará em uma melhora na qualidade de vida. É por isso que a maior parte dos economistas defende a redução das 62 barreiras comerciais entres os países como instrumento para melhoria da qualidade de vida da população. Nas palavras de Mankiw (2013, p. 53), “o comércio pode beneficiar todos os membros da sociedade porque permite que as pessoas se especializem em atividades nas quais têm uma vantagem comparativa”. Além disso, vale destacar que os países não conseguem produzir inter- namente tudo o que precisam (existe a possibilidade, por exemplo, de se produzir uma fruta tropical na Islândia ou extrair ferro em um país que não tem esse metal em seu subsolo?). Com isso, o comércio internacional sempre teve grande importância nas transações econômicas dos países, sendo que, inclusive, ao longo dos anos, foram criadas outras estratégias para facilitar as trocas internacionais, como a formação de blocos econômicos (ou blocos comerciais). Cabe destacar que alianças econômicas entre países sempre existiram, contudo, uma das marcas do final do século passado foi a multipli- cação dos blocos econômicos pelo mundo. Atualmente, há distintos tipos de blocos econômicos, cujas diferentes denominações refletem os níveis de integração entre os seus países-membros. Vamos entendê-los? O marco inicial dos blocos comerciais foi a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, criada em 1951, com o objetivo principal de superar as rivalidades centenárias entre alguns países europeus (que culmi- naram com a Segunda Guerra Mundial). O acordo foi uma evolução do Montanunion, um plano proposto por Robert Schuman (ministro francês das Relações Exteriores do pós-guerra e considerado o “pai da União Europeia”) de uma comunidade que integrasse a produção franco-alemã de carvão e aço. Os membros iniciais (Alemanha, França, Itália, Bélgica, Luxemburgo e Holanda) se comprometeram a garantir um mercado livre de taxações para exportação e importação de aço e carvão, de forma a não prejudicar o livre comércio (WAGNER, 2020). Reflita As penalidades econômicas impostas à Alemanha no final da Primeira Guerra Mundial impulsionaram o ambiente de revolta que abriu espaço para o nazismo. Já no final da Segunda Guerra, os Estados Unidos fizeram com que Alemanha, Itália e o Japão, em especial, se tornassem seus parceiros comerciais. Você acha que parcerias comerciais que proporcionem ganhos para todos os participantes podem funcionar como inibidoras de guerras? Reflita sobre o assunto! A eliminação (ou diminuição significativa) das tarifas alfandegárias dos produtos comercializados entre os países-membros caracterizam a Zona 63 de livre comércio, o primeiro dos diferentes arranjos dos blocos comerciais (o NAFTA – North American Free Trade Agreement é um exemplo de zona de livre comércio em que Estados Unidos, Canadá e México fazem transa- ções comerciais entre si, livres (ou quase totalmente livres) de tarifação. Por sua vez, na União Aduaneira, além de ter as mesmas características de uma Zona de Livre Comércio, os países-membros adotam uma Tarifa Externa Comum (TEC) aplicada aos produtos advindos de países não membros dos blocos. Atualmente, o Mercosul (Mercado Comum do Sul), que entrou em vigor em 1995, tendo como membros efetivos Argentina, Brasil, Paraguai e o Uruguai, estabeleceu uma TEC para diversos produtos(PIANI; KUME, 2005). Contudo, a situação de União Aduaneira nunca se efetivou plena- mente nesse bloco, pois fatores como as disparidades de industrialização e de política econômica, entre outros, aliados ao grande número de exceções na Tarifa Externa Comum e nas tarifas no comércio entre os membros têm impedido sua efetivação como União Aduaneira (FURTADO, 2017). Para passar de União Aduaneira para Mercado Comum (outro tipo de bloco econômico), é necessário um grande avanço, pois, além dele apresentar todas as características de uma União Aduaneira, as fronteiras entre os seus membros tornam-se quase inexistentes, em termos comerciais e de mobili- dade populacional, pois produtos, pessoas, bens, capital e trabalho podem circular livremente. Se você gosta de futebol, sabe que alguns campeonatos europeus aceitam uma quantidade limitada de jogadores estrangeiros em cada equipe. Dentro dessa realidade, atletas italianos não são vistos como estrangeiros em uma equipe alemã, por exemplo, já que Itália e Alemanha fazem parte da União Europeia (UE), um bloco econômico que tem caracte- rísticas de Mercado Comum, permitindo a livre circulação de pessoas dentro dos países-membros (vale dizer que, pelo mesmo motivo, futebolistas brasi- leiros buscam obter cidadania europeia, para que não entrem na quota de um jogador estrangeiro em sua equipe). Por fim, a forma mais ampla (completa) de os países se unirem em blocos econômicos é a União Econômica e Monetária, em que, além de todas as características de um Mercado Comum, há uma moeda comum que substitui as moedas locais ou passa a valer comercialmente em todos os países-mem- bros. Também é criado um Banco Central do bloco, que passa a adotar uma política econômica comum para todos os integrantes. No mundo, o único exemplo tanto de Mercado Comum quanto de União Econômica e Monetária é a União Europeia (UE), que foi elevada a esse patamar, em 1993, após a assinatura, no ano anterior, do Tratado de Maastricht. Apesar das vantagens comprovadas dos processos de integração e de abertura comercial, a existência de barreiras comerciais ainda é a realidade mundial. Em muitas situações, a preservação de empresas e setores estratégicos 64 é apresentada como justificativa para impedir a queda de barreiras. Ainda que possam ser identificadas algumas situações que justificariam exceções (e o fato de que o país precisa estimular o aumento da produtividade dos seus diferentes setores), experiências como a da indústria de computadores do Brasil, nos anos 1990, o protecionismo europeu em relação aos produtos agrícolas de países em desenvolvimento e as barreiras impostas pelo governo americano em relação ao aço mostram que, na maioria das vezes, os consu- midores acabam sendo os mais prejudicados nessas situações. Mas, quando um país faz uma transação econômica com outra nação, onde esse registro é feito? Que parâmetros são usados? Antes de dar a resposta para essas perguntas, é importante que você entenda que para se efetuar qualquer análise é preciso ter indicadores de referência, que só existirão se os processos forem medidos com os mesmos padrões. É por isso que as regras contábeis são fundamentais, pois elas estabelecem indicadores de resultado que podem ser utilizados como elementos de comparação. Esse raciocínio serve tanto para organizações quanto para países: se as regras forem diferentes, a comparação será difícil e, às vezes, impossível, concorda? Dessa forma, os indicadores mais importantes das contas externas são as reservas internacionais, a dívida externa e o balanço de pagamentos (BP). No Brasil, o responsável pelo registro e a divulgação mensal desses indica- dores é o Banco Central (BC), que segue a metodologia estabelecida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), elaborada com o intuito de garantir a uniformidade e comparabilidade entre as diferentes economias do mundo (ALVIM et al., 2017). Nosso foco, aqui, será o balanço de pagamentos. Entre janeiro de 2001 e maio de 2015, o Brasil seguia a metodologia recomendada na 5ª edição do Manual do Balanço de Pagamentos, editada pelo FMI, em 1993. Em 2015, o BC atualizou a metodologia de acordo com a 6ª edição do Manual de Balanço de Pagamentos e Posição Internacional de Investimentos (BPM6), publicada em 2009 (VECCHI, 2017). Assimile O balanço de pagamentos é a conta onde se registram todas as transa- ções econômicas de um país com o resto do mundo. Sempre que uma transação internacional trouxer moeda estrangeira para o país (como a venda de uma mercadoria ao exterior, chamada de exportação), ela é lançada com o sinal positivo para cálculo do saldo do BP. Por outro lado, quando uma transação econômica internacional gerar a saída de moeda estrangeira do país (como a compra de uma mercadoria estrangeira do exterior, chamada de importação), ela é lançada com o sinal negativo para o cálculo do saldo do BP. 65 Assim, quando as entradas de moeda estrangeira no país (por expor- tações, turismo internacional no país, empréstimos internacionais ao país etc.) superam as saídas (por importações, turismo de residentes no exterior, envio de lucro de filiais no país à sede no exterior etc.), dizemos que houve um superávit no BP (BP > 0). No caso contrário (saídas de moeda estrangeira maiores do que entradas de moedas estrangeiras no país), dizemos que houve déficit no BP (BPimporta matéria- -prima do México, ela não vai pagar em reais (moeda brasileira) por essa operação comercial, mas em dólar. Assim, imagine, inicialmente, que um país só faça duas transações comerciais com o exterior: exportações para o Marrocos no montante de 200 dólares e importações do México no valor de 100 dólares. Isso vai fazer as reservas em moeda estrangeira do Brasil (chamadas de reservas internacionais) aumentarem em 100 dólares. Agora, pense em uma outra situação: as exportações para o Marrocos caírem para 100 dólares e as importações do México subirem para 180 dólares. Esse déficit no balanço de pagamentos de 80 dólares precisa ser pago em moeda aceita internacionalmente, não poderá ser pago em reais, concorda? Por isso, será necessário retirar 80 dólares das reservas internacionais do Brasil. Caso não existisse reserva interna- cional suficiente (no caso, os 80 dólares), o Brasil teria de pegar dólar emprestado com o FMI para honrar esses compromissos em moeda estrangeira. Para finalizarmos nossa abordagem da economia externa, vamos falar de um tema indispensável: a taxa de câmbio. A palavra câmbio quer dizer mudança, e esse sentido é mantido na análise econômica: podemos consi- derar a moeda estrangeira (também chamada de divisa, como o dólar, euro etc.) uma mercadoria e o preço para trocá-la por moeda nacional (a taxa de câmbio) é definido pelas forças de oferta e demanda. Outro aspecto importante é que, apesar de ser muito comum as pessoas falarem que o dólar subiu ou desceu, essa forma não é a mais adequada. A análise deve ser feita sempre tendo como referência o comportamento da moeda do país em relação à moeda estrangeira, ok? 67 Vocabulário Taxa de câmbio é o preço pago em moeda nacional por uma unidade de moeda estrangeira. Assim, se você ouve que a taxa de câmbio do real em relação ao dólar está em 4,10, isso significa dizer que são necessá- rios R$ 4,10 (quatro reais e dez centavos) para a aquisição de US$ 1,00 (um dólar). Por isso, todas as vezes em que houver uma demanda por dólares maior do que oferta (por exemplo, de forma simplificada, quando tem mais gente importando mercadorias – que precisarão ser pagas em dólar – do que expor- tando – que traria dólar ao país), o seu preço (cotação) irá aumentar. Com isso, serão necessárias mais unidades de real para comprar uma unidade de dólar, o que significa que o real se desvalorizou frente ao dólar. No sentido inverso, todas as vezes que o oferta de dólares for maior do que a demanda (por exemplo, de forma simplificada, quando tem mais gente exportando mercadorias – quem exportou recebe em dólar, mas troca essa moeda por reais para fazer suas transações econômicas dentro do Brasil – do que impor- tando – que fará com que haja demanda por dólares para o seu pagamento), serão necessárias menos unidades de real para adquirir uma unidade de dólar, ou seja, o real se valorizou. Mudanças na taxa de câmbio afetam diversos setores econômicos, em especial importadores e exportadores. Vamos entender isso? Com a valori- zação da moeda nacional, a quantidade de reais para comprar os produtos importados cairá. Essa redução de custo será transmitida pelos importadores aos preços dos produtos no Brasil, pressionando os produtores nacionais a reduzirem os seus preços (o que colabora para a redução da inflação do país). Ao mesmo tempo, as exportações ficarão mais caras para o comprador internacional, o que reduzirá a competitividade das empresas brasileiras que vendem mercadorias no exterior, fazendo com que que a produção diminua e o desemprego cresça. Por sua vez, quando a moeda nacional se desvaloriza, as exportações ficarão mais baratas (para o comprador internacional) e as importações ficarão mais caras para os brasileiros. O resultado é que as exportações irão crescer, o que irá aumentar a atividade econômica e o nível de emprego. Contudo, os produtos importados ficarão mais caros, o que irá pressionar a inflação do país. 68 Exemplificando Situação 1 (desvalorização da moeda nacional causando impacto sobre exportações): • Câmbio hoje: R$ 1,00 = US$ 1,00: Uma empresa situada no Brasil vende um chaveiro por R$ 1,00 (um real). Se alguém nos EUA quiser comprar 1 unidade deste chaveiro, precisará gastar US$ 1,00 (um dólar), pois, pelo câmbio de hoje, US$ 1,00 (um dólar) é trocado por R$ 1,00 (um real). • Câmbio amanhã: R$ 2,00 = US$ 1,00 (moeda nacional se desva- lorizou): A empresa situada no Brasil continua a vender um chaveiro por R$ 1,00 (um real). Se alguém nos EUA quiser comprar 1 unidade deste chaveiro, precisará gastar apenas US$ 0,50 (cinquenta centavos de dólar), pois, pelo câmbio de amanhã, US$ 1,00 (um dólar) é trocado por R$ 2,00 (dois reais) e o valor de venda do chaveiro é de apenas de R$ 1,00 (um real). Ou seja, para o comprador norte-americano, o chaveiro ficou mais barato pela alteração do câmbio. Ou seja, sempre que a moeda nacional se desvaloriza, há uma tendência ao aumento do volume das exportações (pois elas ficam mais baratas ao comprador estrangeiro). Situação 2 (desvalorização da moeda nacional causando impacto sobre importações): • Câmbio hoje: R$ 1,00 = US$ 1,00: Uma empresa situada nos EUA vende um chaveiro por US$ 1,00 (um dólar). Se alguém no Brasil quiser comprar 1 unidade deste chaveiro, precisará gastar R$ 1,00, pois, pelo câmbio de hoje, R$ 1,00 (um real) é trocado por US$ 1,00 (um dólar), que é o preço do chaveiro nos EUA. • Câmbio amanhã: R$ 2,00 = US$ 1,00 (a moeda nacional se desva- lorizou): A empresa situada nos EUA continua a vender um chaveiro por US$ 1,00 (um dólar). Se alguém no Brasil quiser comprar 1 unidade deste chaveiro, precisará gastar R$ 2,00, pois, pelo câmbio de amanhã, para ter US$ 1,00 (um dólar), que é o preço do chaveiro nos EUA, o brasileiro terá que desembolsar R$ 2,00 (dois reais). Ou seja, para o comprador brasileiro, o chaveiro ficou mais caro pela alteração do câmbio. Dessa forma, sempre que a moeda nacional se desvaloriza há uma tendência de diminuição do volume das importações (pois elas ficam mais caras ao comprador brasileiro). Situação 3 (valorização da moeda nacional causando impacto sobre exportações): • Câmbio hoje: R$ 1,00 = US$ 1,00: 69 Uma empresa situada no Brasil vende um chaveiro por R$ 1,00 (um real). Se alguém nos EUA quiser comprar 1 unidade deste chaveiro, precisará gastar US$ 1,00 (um dólar), já que US$ 1,00 (um dólar) é trocado por R$ 1,00 (um real), que é o preço do chaveiro. • Câmbio amanhã: R$ 0,50 = US$ 1,00 (moeda nacional se valorizou): A empresa situada no Brasil continua a vender um chaveiro por R$ 1,00 (um real). Se alguém nos EUA quiser comprar 1 unidade deste chaveiro, precisará gastar US$ 2,00 (dois dólares), pois, com apenas US$ 1,00 (um dólar), ele só conseguirá trocar por R$ 0,50 (cinquenta centavos de real), mas o preço do chaveiro é de R$ 1,00 (um real). Ou seja, para o comprador norte-americano, o chaveiro ficou mais caro pela alteração do câmbio. Dessa forma, com moeda nacional valorizada há uma tendência de diminuição do volume das exportações do país (pois elas ficam mais caras ao comprador estrangeiro). Situação 4 (valorização da moeda nacional causando impacto sobre importações): • Câmbio hoje: R$ 1,00 = US$ 1,00: Uma empresa situada nos EUA vende um chaveiro por US$ 1,00 (um dólar). Se alguém no Brasil quiser comprar 1 unidade deste chaveiro, precisará gastar R$ 1,00 (um real), pois, pelo câmbio, R$ 1,00 (um real) é trocado por US$ 1,00 (um dólar), que é o preço de venda do chaveiro nos EUA. • Câmbio amanhã: R$ 0,50 = US$ 1,00 (moeda nacional se valorizou) A empresa situada nos EUA continua a vender um chaveiro por US$ 1,00 (um dólar). Se alguém no Brasil quiser comprar 1 unidade deste chaveiro, precisará gastar apenas R$ 0,50 (cinquenta centavos de real), pois pelo câmbio, R$ 0,50 (cinquenta centavos de real) é trocado por US$ 1,00 (um dólar), que é o preço de venda do chaveiro nos EUA. Ou seja, para o compradorbrasileiro, o chaveiro ficou mais barato pela alteração do câmbio. Dessa forma, quando a moeda nacional se valoriza há uma tendência de aumento do volume das importações no país (pois elas ficam mais baratas ao comprador brasileiro). Assimile Produtos importados ficam mais baratos com a valorização da moeda nacional (o que ajuda a controlar a inflação do país), mas as exporta- ções ficam mais caras (o que prejudica o crescimento da produção e do emprego no país). Por outro lado, a desvalorização da moeda nacional tende a aumentar a atividade econômica e o nível de emprego (por 70 causa do aumento das exportações), apesar de ela dificultar o combate à inflação (já que, com esse cenário, as importações ficam mais caras). Considerando a intensidade da influência do câmbio sobre a atividade econômica, você poderá estar pensando se não seria adequado manter a taxa de câmbio sob o controle do governo. Vamos entender isso? Em uma situação extrema, o governo pode, por exemplo, congelar a taxa de câmbio em um determinado patamar (o chamado regime de câmbio fixo). Nesse tipo de regime cambial, para manter o câmbio fixo, o governo precisa intervir constantemente no mercado cambial, comprando dólar (quando há uma entrada de divisas maior do que uma saída de divisas no país), ou vendendo dólar (quando há uma saída de divisas maior do que uma entrada de divisas no país). Esse modelo cambial traz uma grande segurança para investidores estrangeiros e para as empresas que atuam no mercado internacional, impor- tando ou exportando, já que eles sabem, exatamente, qual será a taxa de câmbio a ser usada em cada transação (pois a taxa de câmbio é a mesma, dia após dia). No entanto, o câmbio fixo traz a necessidade de um volume muito grande de reservas internacionais, o que pode ser um problema para muitos países. Em uma perspectiva totalmente oposta ao câmbio fixo, temos o câmbio flutuante (também chamado de livre ou flexível), em que o governo não intervém, em momento algum, no mercado cambial. Nesse tipo de regime cambial, a relação demanda versus oferta de moeda internacional vai alterando a taxa de câmbio. Assim, quando há um aumento da demanda por dólar (isso acontece sempre que há uma saída de divisa maior do que uma entrada de divisa no país), o preço do dólar sobe, ou seja, a moeda nacional se desvaloriza. Por outro lado, quando há um aumento da demanda por real (isso acontece sempre que há uma entrada de divisa maior do que uma saída do país), o preço do real sobe, isto é, a moeda nacional se valoriza. O regime de câmbio flutuante traz insegurança para investidores estrangeiros e agentes que atuam diretamente no comércio exterior, pois a cotação do dólar é alterada a todo momento. No entanto, ele deixa que o próprio mercado regule a taxa de câmbio, fazendo com que o país não tenha de usar suas reservas internacionais em intervenções cambiais por parte do governo. Há também outros regimes cambiais que misturam as características de câmbio fixo (com intervenções cambiais por parte do governo) e câmbio flexível (quando o governo deixa o câmbio flutuar livremente). Recentemente, no Brasil, foram usados dois tipos de câmbio híbridos: as bandas cambiais e a flutuação suja. Vamos entendê-los? O regime de bandas cambiais foi utili- zado no Brasil, do início do Plano Real, em 1994, até 1999. Nesse regime, o 71 governo estipula um valor mínimo (chamado de piso cambial) e um valor máximo (chamado de teto cambial) que ele aceita que a taxa de câmbio do país atinja. Assim, dentro desse intervalo (ou seja, dentro dessa banda), o governo permite que a taxa de câmbio flutue livremente (como acontece em um câmbio flutuante). No entanto, quando um excesso de saída de divisas do país força a taxa de câmbio a ficar em um patamar acima do teto cambial, o governo, através do Banco Central, intervém nesse mercado (característica de um câmbio fixo), vendendo dólar. Já quando um excesso de entrada de divisa pressiona a taxa de câmbio para um nível abaixo do piso cambial, o governo também intervém, mas, nesse caso, comprando dólar. As bandas cambiais trazem uma certa segurança aos agentes que atuam no mercado internacional (o que é uma vantagem desse regime cambial), pois todos eles sabem quais os valores cambiais, mínimos e máximos, em que serão feitas as transações econômicas internacionais. No entanto, como todos os agentes conhecem o intervalo de valores que o governo vai aceitar que o câmbio atinja, esse regime cambial é suscetível a ataques especulativos (o que é uma desvantagem dele). A flutuação suja (também chamada de dirty float), por sua vez, segue o mesmo princípio do regime de bandas cambiais, mas sem as pré estipulações dos valores mínimo (piso cambial) e máximo (teto cambial) que o governo vai aceitar para a taxa de câmbio, minimizando o risco de ataques especula- tivos contra a moeda do país, mas ampliando as incertezas para os agentes que atuam no mercado internacional. Atualmente, no Brasil e em boa parte das economias do mundo, é utili- zado o regime de flutuação suja. Moedas como o dólar representam um ativo buscado por quem procura segurança. Consequentemente, a demanda por dólar aumenta sempre que há alguma insegurança política ou econômica (o que traz desvalorizações para a moeda nacional). Em contrapartida, expec- tativas positivas dos agentes internacionais em relação ao Brasil traduzem-se em aumento da entrada de dólares, tanto por investimentos diretos em atividades produtivas quanto em investimentos no mercado financeiro e de capitais, o que colabora com a valorização da moeda nacional. Quando esse “jogo” de entrada e saída de divisas do país foge do controle (valorizando ou desvalorizando a moeda nacional, além daquilo que o governo percebe como positivo para nossa economia), o Banco Central interfere no mercado cambial, ou vendendo dólar (quando nossa moeda se desvaloriza muito, comprometendo metas inflacionárias), ou comprando dólar (quando o real fica muito valorizado, comprometendo metas produtivas). Com isso, encerramos nossa seção dedicada à economia externa. Espero que você tenha gostado e percebido o quanto nosso dia a dia é influenciado 72 pelas questões econômicas. Vamos continuar discutindo temas ligados ao nosso dia a dia nos próximos encontros, espero você lá, ok? Sem medo de errar A nossa situação-problema apresenta um aspecto muito frequente na questão cambial: em que medida a cotação da nossa moeda frente ao dólar afeta diferentes agentes. Você lembra da questão enfrentada pelo Ricardo, o responsável pelas vendas de um abatedouro de frangos que está em processo de expansão e que foi, recentemente, credenciado pelo Ministério da Agricultura para exportação. O abatedouro está em negociações avançadas para enviar um lote de várias toneladas de carne para um grupo do Oriente Médio e o dono da empresa pediu a opinião do Ricardo a respeito de uma ampliação das instalações para tentar exportar mais. Ricardo deve levar em consideração que as perspectivas para o futuro são de desvalorização do real frente ao dólar. Qual deve ser a recomendação dele para o dono da empresa? Ricardo deve dizer ao dono do abatedouro que a desvalorização do real traz grandes vantagens para os exportadores, pois eles passam a vender mais para o exterior, já que as exportações ficam mais baratas para os compradores inter- nacionais. Para entender isso, imagine que o quilo da carne de frango é vendido por R$ 8,00 e a taxa de câmbio é R$ 4,00 = US$ 1,00. Com essa taxa de câmbio, para comprar um quilo de carne, o grupo do Oriente Médio vai gastar US$ 2,00 (dois dólares). No entanto, caso a moeda nacional se desvalorize (conforme as expectativas) e a taxa de câmbio mude, por exemplo, para R$ 4,21 = US$ 1,00, para comprar a mesma quantidade de frango (um quilo), o grupo do Oriente Médio precisaria desembolsar apenas US$ 1,90 (um dólar e noventa centavos). Por causa disso, se a empresa está credenciada paraexportar, encontrou um comprador no exterior e a perspectiva é de desvalorização da moeda nacional, o cenário futuro dela é muito positivo, e Ricardo deve dizer ao dono da abate- douro que ele deve, sim, investir na ampliação de suas instalações, pois, prova- velmente, haverá um aumento da demanda internacional por frango (causada pela desvalorização da moeda nacional). Avançando na prática Mudança de foco Selma é franqueada em uma rede de agências de viagens, situada em uma cidade do interior de Minas Gerais. Ao longo dos últimos anos, ela teve uma 73 demanda constante de viagens para diversos destinos dentro do Brasil e pouca procura para os Estados Unidos e a Europa. Contudo, ela está pensando em aumentar parcerias com outras agências no exterior, buscando aumentar a oferta de opções turísticas fora do Brasil. Em um cenário de valorização da moeda nacional, essa é uma estratégia recomendada? Resolução da situação-problema O custo de viagens para o exterior está diretamente relacionado à cotação da taxa de câmbio. Sempre que o real se valoriza (conforme o cenário apresentado), as viagens para o exterior tornam-se mais baratas em relação às viagens dentro do Brasil. Por isso, se a perspectiva é de valorização da moeda nacional, é importante que Selma se prepare para um aumento na demanda de viagens para o exterior. Para comprovar isso, imagine que uma viagem de sete dias para os Estados Unidos seja vendida pela agência de viagens de Selma por US$ 2.000,00. Se a taxa de câmbio for de R$ 4,00 = US$ 1,00, um brasileiro que quiser fazer essa viagem internacional precisa desembolsar R$ 8.000,00. Já, se houver uma valorização da moeda nacional e a taxa de câmbio mudar para R$ 3,50 = US$ 1,00, para comprar a mesma viagem para os EUA, que é vendida a US$ 2.000,00, o cliente de Selma teria de gastar apenas R$ 7.000,00. Faça valer a pena 1. Um exportador brasileiro está tentando vender pedras preciosas para um joalheiro suíço. Simultaneamente, um importador brasileiro tem intenção de adquirir peças deste mesmo joalheiro suíço para vender aqui no Brasil. Logo após o fechamento do contrato, um aumento nas tensões no Oriente Médio fez com o que ocorresse uma desvalorização do real frente ao dólar. Nesse novo cenário, qual das afirmações a seguir é verdadeira? a. O exportador será prejudicado e o importador será beneficiado. b. O exportador será beneficiado e o importador será prejudicado. c. O exportador e o importador serão prejudicados. d. O exportador e o importador serão beneficiados. e. O exportador e o importador não serão afetados. 74 2. Apesar de globalismo e globalização serem temas bastante controversos, a melhoria das condições de vida em geral ao redor do mundo é apontada por boa parte dos economistas como um dos benefícios do aumento do comércio internacional nas últimas décadas. Todas essas transações econômicas inter- nacionais que foram ampliadas pela globalização são registradas no balanço de pagamento do país. Tomando como referência o balanço de pagamentos, classifique as afirma- tivas a seguir em (V) verdadeiras ou (F) falsas. ( ) Ao seguir a metodologia do FMI no cálculo do balanço de pagamentos, o Banco Central garante que os dados possam ser comparados com os de outros países. ( ) A conta Corrente é um dos componentes fundamentais do balanço de pagamentos e registra todos os fluxos de capital ligados aos investimentos estrangeiros. ( ) Déficits no balanço de pagamentos podem comprometer a capacidade do país de honrar os seus compromissos internacionais. ( ) O resultado da balança comercial é fortemente influenciado pela taxa de câmbio: desvalorizações da moeda tendem a reduzi-lo e valorizações tendem a aumentá-lo. Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta de classificação (de cima para baixo): a. F – V – V – F. b. V – F – V – F. c. V – V – F – V. d. F – F – V – F. e. V – F – F – V. 3. O Tratado de Maastricht ou Tratado da União Europeia foi firmado em 7 de fevereiro de 1992 com representantes dos doze países-membros das “Comunidades Europeias”, isto é, Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Grécia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Holanda, Portugal e Reino Unido. Mais tarde, aderiram ao Tratado: Áustria, Finlândia e Suécia. Atual- mente, a União Europeia é um exemplo de União Econômica e Monetária. Com base nos blocos econômicos, avalie as seguintes asserções e a relação proposta entre elas. 75 I. Por ter uma tarifa externa comum (TEC), o NAFTA é um exemplo de zona de livre comércio PORQUE II. Nos países-membro do NAFTA (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) são cobradas as mesmas tarifas sobre produtos importados de outras nações. A respeito dessas asserções e da relação entre elas, assinale a alternativa correta: a. As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não justifica a I. b. As asserções I e II são proposições verdadeiras e a II justifica a I. c. A asserção I é uma proposição verdadeira e a II, falsa. d. A asserção I é uma proposição falsa e a II, verdadeira. e. As asserções I e II são proposições falsas. 76 Seção 2 Liberalismo econômico x keynesianismo Diálogo aberto Olá! Você é do time que adora um bom papo sobre política ou daquele que passa longe desse assunto? Ainda que, infelizmente, no Brasil e em outros lugares, política e polícia acabem sendo citados juntos, entender de economia pode nos levar a ter uma posição de menos paixão e de mais racio- nalismo em muitas das questões políticas, pois grande parte das divisões das agremiações políticas do mundo tem a ver com a visão econômica dos seus associados, você sabia disso? Eu quero lhe convidar, então, a conhecer as duas principais correntes econômicas, o liberalismo e o keynesianismo, e como eles enxergam a forma que o governo deve atuar para promover o crescimento econômico. Para isso, conheceremos João, que trabalha na área de planejamento financeiro de uma empresa do ramo automobilístico. No último biênio, o governo brasileiro reduziu as alíquotas de alguns tributos incidentes sobre a produção de automóveis, ajudando o setor a ter uma alavancagem em suas vendas (já que os carros eram vendidos a preços menores, devido a essa redução de custo tributário). No final desse ano, há eleições presidenciais no Brasil e os dois candidatos com maior intenção de votos, segundo recentes pesquisas, têm ideias opostas sobre como comandar a economia do país: um deles, o candidato A, segue a linha do liberalismo econômico, e o outro, o candidato B, se aproxima dos ideais keynesianos. Ao fazer o planejamento financeiro da empresa para o próximo ano, João precisa construir dois cenários opostos: um em que o candidato A, liberal, vença, e outro em que o candidato B, defensor do keynesianismo, saia vencedor. Se você fosse assistente de João na construção do planejamento financeiro, de que forma a tributação do setor automobilístico poderia ser impactada com a vitória do candidato A? E se o candidato B vencesse as eleições, o que poderia acontecer com a tributação no setor automobilístico? Para responder a esses questionamentos, você terá que identificar as principais diferenças dessas duas correntes de pensamento econômico: o liberalismo e o keynesianismo. Bons estudos! 77 Não pode faltar Olá! Nesta aula, acompanharemos uma pergunta fundamental para a economia e para as sociedades: qual é o tamanho ideal do Estado (governo)? Para termos condições de respondê-la, precisamos retroceder no tempo. Na história da humanidade, nem sempre os regimes democráticos foram predominantes. Se colocada em perspectiva, a democracia é algo relativa- mente recente, pois podemos tomar a Revolução Francesa e a Independência Americana, no final dos anos 1700, como referências do início da hegemonia da democracia no mundo. É importante que você tenha essa perspectiva para entender que, desde então, na maioria dos países onde ocorrem eleições livres, acontece uma alternância deprodução), não estamos nos referindo ao dinheiro, pois ele é apenas um facilitador de troca utilizado para adquirir os recursos de produção, que são: o trabalho das pessoas, a energia, as máquinas, as 11 fábricas, a terra cultivável e para a criação de animais, os recursos minerais, entre outros. Outro termo usado em economia, fundamental para ser compreendido, é agente econômico: é toda entidade autônoma e capaz de realizar operações econômicas, o que pode incluir uma pessoa, uma empresa ou até um agente da administração pública, tanto dentro do país, como em outras nações. Atenção Quando falamos de agentes econômicos, normalmente nos referimos a quatro tipos de grupos: 1. as famílias; 2. as empresas; 3. o governo; e 4. O resto do mundo. As famílias são compostas pelas pessoas físicas que têm o papel de consumo dos bens e serviços, sendo elas as proprietárias de todos os fatores de produção (sim, em economia, os fatores de produção são de propriedade das famílias). As empresas são compostas pelas pessoas jurídicas que têm o papel de produção dos bens e serviços, por meio do uso dos fatores de produção (cedidos pelas famílias). O governo tem diversos papéis, dos quais fazem parte a regulação e a regulamentação do mercado (como famílias, empresas e resto do mundo se relacionam uns com os outros). Por fim, o resto do mundo é composto pelos outros países com os quais as famílias, empresas e governo do seu país mantêm transações econômicas. Os agentes econômicos são considerados racionais, ou seja, espera-se que eles sempre tomarão a melhor decisão. Esse processo é condicionado por uma característica específica do gênero humano que é o egoísmo racional, o que implica que as pessoas buscarão a melhor forma de satisfazerem suas necessidades, utilizando a menor quantidade possível de recursos produtivos (fatores de produção). Por isso, a maximização será sempre o alvo no compor- tamento dos agentes: a busca do maior ganho, maior renda, maior satisfação, etc. Com isso, espera-se que o consumidor sempre escolha o menor preço, o trabalhador o maior salário, o vendedor o maior lucro. Agora, podemos voltar à nossa proposição inicial: os agentes econômicos precisão tomar decisões de como utilizar os recursos produtivos limitados para satisfazerem os seus desejos infinitos. Por isso, um dos diferentes conceitos de economia é que ela é o estudo dos agentes e das razões pelas quais eles tomam decisões, tanto de consumo quanto de produção. Para escolher uma boa forma de utilizar os recursos produtivos é preciso conhecê-los melhor; vamos fazer isso? Existem duas características funda- mentais dos recursos de produção: a primeira é que eles podem ser utilizados para produzir mais de um tipo de bem ou serviço, ou seja, são versáteis. 12 Observe como o petróleo pode ser utilizado para vários tipos de combus- tíveis ou para produção de plásticos. A segunda é que os recursos podem ser combinados em proporções variáveis no processo produtivo. A produção de feijão pode utilizar mais mão de obra ou mais maquinário, por exemplo (SILVA, 2018). Para facilitar o entendimento, os fatores de produção são agrupados em quatro tipos: recursos naturais, trabalho, capital e capacidade empresa- rial, vamos conhecê-los mais? Os recursos naturais (também chamados de recurso “terra”) são obtidos diretamente da natureza. A água (da superfície ou do subsolo), minerais, sol, vento, etc. Por sua vez, o trabalho (ou recursos humanos) refere-se à atividade humana (esforço físico e mental) empregada na produção de bens ou serviços, podendo ser exemplificado pelos serviços de profissionais como o administrador, o contador, o carpinteiro, o operário, o vaqueiro, o médico. Em seguida, temos o capital, representado pelos bens produzidos pelo homem e utilizados nos processos produtivos: infraestru- tura (transportes, telecomunicações, energia), matérias-primas, construções, máquinas e equipamentos, etc. Recentemente, a capacidade empresarial passou a ser incluída entre os fatores de produção, referindo-se à organização da produção, ou seja, a ação de reunir e combinar os outros fatores de produção. Com esse detalhamento de informações e sabendo que os fatores de produção são limitados, podemos compreender como a sociedade precisará responder quatro perguntas para encontrar o melhor uso para os fatores de produção: 1. O que produzir? 2. Quanto produzir? 3. Como produzir? 4. Para quem produzir? Para responder à pergunta “o que produzir?”, é necessário, primeiro, identificar as necessidades para, então, decidir o que será produzido para satisfazê-las: alimentos, vestuário, habitação, transporte, educação. Pode ser que, em um momento, os agentes econômicos queiram determinado produto e, mais à frente, prefiram outro (isso vai impactar as decisões das empresas do ela deverá produzir). Já a segunda pergunta (“quanto produzir?”) está ligada à constatação de que os recursos produtivos são limitados; por isso, é preciso determinar quanto será produzido de cada coisa para satisfação das necessidades. Perceba que se todos os recursos disponíveis de uma economia estiverem sendo utilizados, haverá um limite na quantidade de bens e de serviços que poderão ser produzidos. 13 Como produzir? Essa é outra questão fundamental, pois existem diferentes combinações de fatores de produção para que se obtenha um determinado bem ou serviço. A disponibilidade – e por consequência o preço – de cada um deles influenciará de que forma eles serão combinados de forma otimi- zada, bem como o nível tecnológico que pode ser empregado ao se utilizar cada um dos fatores. Por fim, a pergunta “para quem produzir?” permeia, de certa forma, as questões anteriores. No entanto, como as empresas estão interessadas na maximização de seus lucros, em termos racionais elas não estão preocupadas se todas as mercadorias produzidas vão ser vendidas para uma única pessoa ou se todas as pessoas terão acesso àquele bem. Assim, o poder de compra dos indivíduos acabará por ajudar na resolução dessa pergunta. Dessa forma, a limitação dos fatores de produção aliada às necessidades ilimitadas obriga os agentes econômicos a fazerem escolhas, o que faz surgir um conceito fundamental na economia: o custo de oportunidade. O custo de oportunidade é uma medida da perda que os agentes econômicos incorrem todas as vezes que fazem uma escolha, manifestando-se tanto na produção quanto no consumo. Em um processo produtivo que esteja utilizando todos os recursos produtivos disponíveis, o aumento na produção de um bem implicará na redução na quantidade produzida de outro ou outros bens. Nesse ponto, você percebe o quão fundamental é a evolução tecnológica, que afeta tanto os limites produtivos quanto possibilita um aproveitamento superior dos recursos escassos? Exemplificando Em uma propriedade rural, a área disponível, as máquinas e equipa- mentos são limitados, e o produtor é obrigado a escolher qual cultura será plantada. Em uma situação em que tanto soja quanto milho poderão ser plantados, cada hectare a mais de soja implicará em um hectare a menos de milho, concorda? Qual é, então, o custo de oportu- nidade da soja? O valor que o agricultor deixou de receber ao decidir não plantar milho para plantar soja. Assimile Dentro do processo produtivo, uma classificação importante na economia refere-se aos setores econômicos. Você já ouviu falar sobre eles? São três grandes setores ou atividades: primário, secundário e terciário. Vamos conhecê-los? 14 O setor primário, de forma geral, utiliza de forma intensiva os recursos naturais, englobando a agricultura, pecuária e as atividades extrativistas. O setor secundário utiliza, em maior intensidade, o fator capital e inclui a produção de máquinas, equipamentos e bens de consumo, construção civil e geração de energia. O setor terciário tem como principal fator o trabalho, incluindo uma enorme variedade de atividades como comércio, transportes,poder entre duas forças políticas: aqueles que defendem uma maior intervenção do Estado na economia, e os que defendem que ele tenha menor participação direta nos assuntos econômicos. Por exemplo, nos Estados Unidos, há os Republicanos e os Democratas. Na Inglaterra, os Conservadores e os Trabalhistas. Na Alemanha, a União Democrata Cristã e os Social Democratas. Em outros países, podem ocorrer arranjos mais complexos, mas a maior ou menor presença do Estado costuma ser um elemento fundamental na estruturação das forças políticas dos países. Essa divisão tem origem na economia, pois a maior ou menor presença do Estado como promotor do desenvolvimento econômico está por trás das duas principais correntes econômicas, associadas a dois dos maiores econo- mistas de todos os tempos: John Maynard Keynes e Adam Smith. É certo que antes deles já havia discussões a respeito do papel do estado, nível de impostos, etc., mas ainda muito focadas na questão política. Contudo, a publicação, em 1776, de Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações (ou simplesmente, A riqueza das nações – como ficou conhecido) fez com que Adam Smith (1723-1790) passasse a ser considerado o pai da economia moderna. É fundamental perceber que a sua defesa pela liberdade econômica pode ser associada às demandas por liberdade política (a Revolução Americana ocorreu no mesmo ano, e a Revolução Francesa aconteceu pouco tempo depois), liberdade religiosa (a Europa ainda lidava com os efeitos da Reforma Protestante) e, consequentemente, liberdade de pensamento. Além disso, a efervescência da Revolução Industrial e a criação de riqueza em grande escala aumentaram a força de suas ideias. Assim, nesse momento, você pode estar se perguntando: quais seriam, então, as ideias defendidas por Adam Smith? Muito bem, vamos conhecê-las! 78 Adam Smith foi o primeiro a apresentar a ideia de que a busca dos indiví- duos de satisfazer seus próprios interesses traria benefícios para toda a socie- dade. Ao resumir suas ideias, Smith usou uma expressão que ficou famosa, a qual dizia mais ou menos o seguinte: não é pela benevolência do padeiro que eu como o meu pão quentinho todo dia de manhã, mas pelo interesse dele de ter lucro. Mas, o que ele quis dizer com isso? Adam Smith quis ressaltar que, no processo produtivo, ao focar na redução dos seus custos, na melhoria de sua margem de lucro, etc., o vendedor acabará beneficiando toda a sociedade, pois ele oferecerá produtos cada vez melhores e de menor custo aos clientes. Da mesma forma, o consumidor, que também agirá movido pelo egoísmo, premiará os melhores produtos e serviços. Essa ideia é expressa por meio da figura de uma “mão invisível” que conduziria o mercado ao preço e à quantidade ideais, ou seja, se os mercados funcionarem livremente (sem a intervenção governamental), será melhor para todo mundo, pois o egoísmo dos agentes acaba ajudando a economia a ser mais eficiente e justa, maximizando o bem-estar geral. Para Adam Smith, tentativas de intervenção do governo no mercado, como tabelamento de preços ou ações similares, podem acabar levando a desequilíbrios, como a falta de mercadorias disponíveis no mercado. Smith também se dedicou a analisar as causas da riqueza das nações, apontando a produtividade como o elemento fundamental desse processo, sendo que o aumento da produtividade, por sua vez, está diretamente ligado à especialização trazida pela divisão do trabalho. Exemplificando Adam Smith utilizou o processo de fabricação de alfinetes para demons- trar a importância da especialização do trabalho. Ele exemplificou a fabricação de um alfinete, que envolvia os seguintes processos: desen- rolar, endireitar e cortar o arame, fazer a ponta, esmerilhar, ajustar a cabeça, pratear e colocar o alfinete finalizado na embalagem. Nessa produção, se um único trabalhador fizesse, sozinho, todas essas etapas que compunham a produção do alfinete, ele teria uma produção diária muito menor do que se a produção fosse dividida por vários trabalha- dores, cada um se especializando em uma etapa do processo (uma pessoa só desenrolaria o arame, outro funcionário só endireitaria o arame, outro só cortaria o arame, e assim por diante). Esse aumento de produtividade apareceria por três motivos: 1. A especialização faria cada funcionário ficar com maior destreza em sua função. 79 2. Seria perdido menos tempo na produção (essa perda é maior quando a mesma pessoa passa de uma atividade para outra). 3. Seria inventado um grande número de ferramentas e máquinas especializadas que abreviariam o trabalho. Essa abordagem é a razão do título do seu livro, já que o enriquecimento das nações está ligado à especialização, e é preciso haver liberdade para que os agentes escolham em que se especializarão. A liberdade de escolha e, consequentemente, o livre comércio, assumiu um papel tão fundamental na abordagem de Adam Smith que ele passou a ser conhecido como o fundador do liberalismo econômico. A abordagem microeconômica de oferta, demanda e preço de equilíbrio baseia-se no conceito de que um mercado sem intervenção alcançará a alocação de recursos mais eficientes para a sociedade Assimile Para o liberalismo econômico, os mercados devem funcionar livre- mente, sem a intervenção do governo, pois, assim, serão mais eficientes e o benefício para a população será maior. Ao ampliar essa abordagem para o mercado de trabalho, o liberalismo econômico (também chamado de teoria clássica) aponta que haveria um nível de equilíbrio de pleno emprego, que corresponderia ao ponto de encontro das funções de oferta e demanda de mão-de-obra, ou seja, o desemprego seria uma situação de desequilíbrio. Para os clássicos, o desemprego seria volun- tário, pois teria origem em alguma tentativa dos trabalhadores de impor uma condição diferente daquela que seria a determinada pelo mercado (como um salário diferente do valor de equilíbrio), o que levaria ao aparecimento do desemprego. Ou seja, na abordagem clássica, a economia estaria sempre no pleno emprego do trabalho e também dos outros fatores de produção (se o trabalhador aceitasse receber o salário de equilíbrio do mercado, ele encontraria trabalho, sendo que o nível (valor) desse salário mudaria de acordo com a oferta de trabalho (quem oferece trabalho, é o trabalhador) e a demanda por trabalho (quem demanda trabalho é o empresário)). Por isso, qualquer desemprego que surgisse seria um problema de curto prazo e passageiro, pois seria eliminado pelos mecanismos automáticos do mercado (nível do salário) rapidamente, a não ser que estes fossem impedidos de funcionar também por forças exógenas, como a determinação de salários mínimos pelo governo (DATHEIN, 2005). 80 Ao longo do século XIX, o liberalismo econômico foi implementado em boa parte dos países mais importantes do mundo e, em especial, nos Estados Unidos, após sua independência. Os ganhos de produtividade da Revolução Industrial foram multiplicados pela incorporação das ideias de Ford e Taylor, e as condições de vida da população em geral melhoravam. Após o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918, e ao longo da década de 1920, os Estados Unidos, já o país mais rico do mundo, passaram a suprir a devastada Europa com manufaturas e alimentos, além de conquistarem outros mercados, como a América Latina. O aumento da produção trouxe crescimento e prosperidade ao país. O governo, seguindo os preceitos do liberalismo, reduzia impostos e regulamentos (VAN DEURSEN, 2018). Empréstimos e vendas a crédito se popularizaram para ajudar as pessoas a comprarem cada vez mais produtos, como carros e eletrodomésticos, além do surgimento de uma nova moda: investir em ações, que se valorizavam de forma irreal, estimulando a especulação. Por exemplo, uma ação da Radio Corporation of America, a qual, em 1921, custava 1,5 dólar, valia 57 vezes mais em 1928. Os boatos sobre riquezas fabulosas ganhas no mercado acionário pormotoristas, vaqueiros e atrizes se espalhavam (VAN DEURSEN, 2018). Esse processo, entretanto, foi interrompido em 1929, com o início da Grande Depressão, considerada o pior e o mais longo período de recessão econômica do século XX. Ainda não há um consenso entre os economistas sobre as causas determinantes da crise, mas o fato é que, a partir da quebra da Bolsa de Nova Iorque, em 24 de outubro de 1929, milhares de acionistas perderam grandes somas em dinheiro em poucos de dias. A questão principal, contudo, é que os danos não se limitaram aos investidores do mercado finan- ceiro, pois iniciou-se uma enorme redução na atividade econômica em todo o país, com queda nas vendas e deflação, que, combinadas, levaram ao fecha- mento de inúmeras empresas, tanto no comércio quanto na indústria. Além disso, com a queda no faturamento, muitas empresas da cidade e fazendas no campo não conseguiram pagar os empréstimos que haviam levantado junto aos bancos e tiveram que entregar seu patrimônio e fechar suas portas. Para a população, o pior efeito da recessão foi o drástico aumento nas taxas de desemprego, que se manteve elevado durante anos, levando muitas famílias a perderem tudo o que tinham. O sofrimento dessa época conseguiu ser magistralmente registrado por Dorothea Lange, em uma foto de março de 1936, intitulada Migrant Mother (mãe imigrante). É uma das fotografias mais reproduzidas da história, tendo aparecido em milhares de publicações (SMITHSONIAN, [s.d.]). 81 Figura 3.1 | Migrant Mother Fonte: Smithsonian ([s.d; s.p]). Essa foto, escolhida pela Revista Life como uma das 100 fotografias que mudaram o mundo, retrata Florence Owens Thompson, de 32 anos e mãe de sete crianças, que estava em busca de um emprego ou de ajuda social para sustentar sua família, pois seu marido havia perdido seu trabalho, em 1931, e morrera no mesmo ano. Reflita A economia vai muito além de números e teorias, pois lida com a reali- dade das pessoas, os danos e benefícios que elas sofrem, bem como suas reações. Em que medida o entendimento das razões e dos efeitos de questões econômicas ajuda a compreender melhor os processos históricos? Reflita sobre o assunto! A Figura 3.2 também é uma foto entre as muitas imagens tristemente icônicas da década de 1930: uma enorme fila de desempregados e sem-teto diante de um restaurante que promete “sopa, café e rosquinhas grátis para os desempregados”. Só tem um detalhe: esse restaurante gratuito fora criado pelo mafioso Al Capone, após o crash da Bolsa de Valores, em 1929, que se gabava em atender 5 mil pessoas por dia. Em 1931, de acordo com as 82 contas do jornal Chicago Tribune, ele já havia servido 120 mil refeições (VAN DEURSEN, 2018). Figura 3.2 | Fila de desempregados para refeições gratuitas em um restaurante de Al Capone Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Unemployed_men_queued_outside_a_depression_soup_ kitchen_opened_in_Chicago_by_Al_Capone,_02-1931_-_NARA_-_541927.jpg#/media/File:Unemployed_ men_queued_outside_a_depression_soup_kitchen_opened_in_Chicago_by_Al_Capone,_02-1931_-_ NARA_-_541927.jpg. Acesso em: 20 dez. 2019. Os danos dessa recessão foram tão avassaladores que se espalharam pelo mundo, influenciando tanto a crise do café no Brasil (que abriu espaço para a chegada de Getúlio Vargas ao poder, em 1930) quanto a ascensão de Hitler na Alemanha. A lentidão da recuperação da oferta de empregos, em oposição ao que era defendido pelos clássicos, trouxe contestação ao conceito de que a inter- venção do Estado na economia seria sempre negativa (os clássicos e o libera- lismo econômico estavam em xeque). O economista de maior destaque desse movimento foi o britânico John Maynard Keynes, que ressaltava o papel fundamental das expectativas (que ele chamou de animal spirit) para a ativi- dade econômica. Para ele, quando as empresas se mostravam inseguras em relação ao futuro, elas passavam a investir menos, o que dava início a um processo de retração econômica, que poderia resultar no estabelecimento de uma crise. Nesse ambiente, mesmo que os trabalhadores se dispusessem a receber salários menores, as empresas não estariam dispostas a contratar mais (ou seja, havia desemprego involuntário). 83 Na sua obra fundamental, Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro, Keynes apresentou, como premissa fundamental para o desenvolvimento econômico, a necessidade de manutenção dos níveis de consumo e inves- timento do governo, das empresas e dos próprios consumidores. Partindo desse princípio, a doutrina keynesiana afirma que o pleno emprego não é uma situação natural, na medida em que, em muitas situações, os trabalha- dores desempregados não conseguirão emprego, mesmo se oferecendo para trabalhar por menores salários, pois o desemprego pode também ser gerado por uma demanda efetiva muito baixa, não pelo salário real elevado. Nessas condições, o desemprego involuntário pode se estender por longos períodos, o que justificaria ações governamentais para tirar a economia dessa situação indesejada. Com isso, ele se coloca frontalmente contra o argumento clássico fundamental de que o livre mercado levaria automaticamente ao pleno emprego, argumentando que as políticas públicas contra o desemprego eram indispensáveis. A campanha presidencial de 1932, nos Estados Unidos, teve como pano de fundo uma taxa de desemprego estimada em 23,6% (INFOPLEASE, [s. d.]), a qual gerou uma elevada rejeição para o então presidente, Herbert Hoover, que acabou perdendo as eleições para o Democrata Franklin Roosevelt, que se usou das ideias de Keynes (que já haviam se espalhado pelo meio acadêmico) para estabelecer seu ambicioso programa denominado de New Deal, o qual pode ser traduzido como um novo pacto (no sentido de um compromisso do governo, das empresas e dos consumidores para retomarem o crescimento econômico). A partir das ideias de um grupo de renomados economistas inspirados em Keynes, foram articulados planos de ação estatais e privados associados a um conjunto de medidas, como: empréstimos aos bancos, criação do sistema de seguridade social (que incluía seguro desemprego), estímulo à produção agrícola e realização de uma grande quantidade de obras públicas, entre outras. Essas medidas tiveram como objetivo ocupar a população economica- mente ativa e estimular o consumo da população, aquecendo a produção industrial, agrícola e de serviços, em todos os níveis. O sucesso das medidas trouxe novo vigor à economia norte-americana, ao ponto de estudos afirmarem que, dez anos após a implantação do New Deal, os EUA se aproxi- maram dos patamares econômicos em que se encontravam em 1929 (VAN DEURSEN, 2018). 84 Para os keynesianos, a necessidade da intervenção governamental decorria do fato de o capitalismo ser visto como um modo de produção integrado, no qual o desenvolvimento de todos os setores econômicos derivava do aumento do consumo, principalmente, dos trabalhadores (CARVALHO, 2008). O sucesso econômico do New Deal foi a referência para a implementação do Welfare State (um conjunto de políticas de bem-estar social) na Europa devastada no pós-guerra: o Estado assumia a responsabilidade de reduzir as desigualdades e criar as infraestruturas necessárias para uma vida digna para a maioria da população. O maciço investimento em saúde, educação, infraes- trutura, etc. colaborou para um grande crescimento econômico na Europa e nos Estados Unidos nas décadas seguintes. Esse sucesso ressaltou um dos pilares do keynesianismo, o efeito multi- plicador: para Keynes, era possível identificar o aumento na atividade econô- mica gerado por uma despesa adicional do governo. Ou seja, o aumento nos gastos seria justificado pela criação de novos empregos e pelo aumento nos investimentos de outras empresas privadas. Exemplificando Considere uma situação em que haja uma estagnação da economia associada a um elevado desemprego e o governo decida elevar o gasto público, por meio da realização deobras de construção civil. Para realizar essas obras, o Estado comprará máquinas e equipamentos e contratará novos funcionários. Dessa forma, as empresas que produzem máquinas e equipamentos precisarão adquirir os fatores de produção necessários e remunerá-los (pagando lucro e salários). Os salários recebidos pelos empregados contratados pelo governo e pelas empresas fornecedoras de máquinas e equipamentos (bem como o lucro distribuído entre os proprietários das empresas fornecedoras) serão utilizados para adquirir bens e serviços variados (móveis, automó- veis, eletrodomésticos, vestuário, alimentação, etc.). A produção desses bens e serviços variados (que serão adquiridos) gerará uma nova renda pelo uso dos fatores de produção (as empresas de móveis, vestuário, etc. precisarão contratar novos funcionários e adquirir novas máquinas para conseguirem atender a essa demanda), repetindo o ciclo. Com isso, perceba que há uma expansão do gasto total – e, consequentemente, da atividade econômica – a partir da decisão do governo de ampliar seus gastos (com as obras públicas). A intensidade dessa expansão é o efeito multiplicador de renda: o ciclo expansivo de consumo derivado de um aumento do gasto público. Note que, quanto maior essa expansão, maior será a contratação de novos funcionários, o que reduzirá o desemprego involuntário 85 Contudo, na década de 1970, o mundo testemunhou uma inversão de papéis, ainda que de forma menos intensa: uma grave crise em diversos países que adotavam políticas keynesianas não conseguiu ser superada por meio dos mecanismos tradicionais. Como consequência, a década de 1980 foi marcada pela substituição da linha de pensamento econômico hegemônico (do keyne- sianismo pelo neoliberalismo econômico), com destaque para os Estados Unidos (com Ronald Reagan como presidente entre 1981 a 1989) e a Inglaterra (com Margaret Thatcher como primeira ministra entre 1979 e 1990). Os conceitos principais do neoliberalismo podem ser resumidos no Consenso de Washington, um conjunto de dez regras formuladas por econo- mistas de instituições, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, em novembro de 1989, e que constituíram o receituário a ser seguido pelos países que buscavam recursos junto ao FMI para cobrir os seus déficits públicos (SILVEIRA, 2019): 1. Disciplina Fiscal – o Estado não deve gastar mais do que arrecada com os tributos, eliminando o déficit público. 2. Redução dos gastos públicos. 3. Reforma fiscal e tributária, para viabilizar o equilíbrio nas contas públicas. 4. Abertura comercial e econômica, eliminando o protecionismo e atraindo investimento estrangeiro. 5. Taxa de câmbio de mercado competitivo. 6. Liberalização do comércio exterior. 7. Eliminação das restrições ao investimento estrangeiro direto. 8. Privatização, com a venda das empresas estatais. 9. Desregulamentação, com afrouxamento das leis de controle econô- mico e das relações trabalhistas. 10. Direito à propriedade intelectual. Depois de décadas de predominância de políticas neoliberais, o mundo enfrentou nova crise, em 2009, a partir da queda do Banco Lemann Brothers, nos Estados Unidos. A reação do governo norte-americano foi claramente keynesiana, a ponto de comprar ações de empresas tradicionais para impedir a falência delas e, assim, impedir o aumento do desemprego. 86 Para concluir, vale a pena considerar as palavras de um dos expoentes do pensamento liberal brasileiro que não poupa elogios a Keynes (FRANCO, 2008, [s. p.]): Vale lembrar que as crises financeiras existem desde sempre, e que invariavelmente são combatidas por inter- venções salvadoras dos governos, que terminam fazendo o sistema mais robusto. John Maynard Keynes, tão lembrado recentemente, foi um dos heróis na vitória sobre uma grande crise e estava muito longe de ser hostil ao que hoje se chama de neoliberalismo. [...] Na verdade, para os que acreditam em mercados e no capitalismo, o pragmatismo se chama Keynes. É dele que as pessoas falam quando é preciso inovar e produzir uma ‘resposta criadora’ diante de uma urgência grave e inespe- rada. [...] Fica-se com a impressão de que ‘intervenções do Estado no domínio econômico’ têm mais chances de funcionar quando feitas por gente que acredita em mercados e que vê a intervenção como exceção, não como regra. Agora é o momento de você complementar seu estudo, fazendo as leituras adicionais e os exercícios, pois ainda tem muita coisa legal por vir. Um abraço e até a próxima! Sem medo de errar Chegou o momento de aplicarmos os conhecimentos adquiridos na resolução de uma questão prática. Vamos relembrá-la? Haverá eleições presidenciais no Brasil no final desse ano e, segundo as pesquisas mais recentes, os dois candidatos com maior intenção de votos seguem linhas econômicas distintas: o candidato A é adepto do liberalismo econômico, enquanto o candidato B já manifestou apreço pela abordagem keynesiana. Frente a esse cenário, para o próximo ano, João precisa construir o plane- jamento financeiro da empresa do ramo automobilístico onde trabalha. Para isso, ele precisa analisar como a vitória na eleição de cada candidato poderia impactar na tributação do setor automobilístico, considerando que, no último biênio, o ramo automobilístico obteve redução, pelo governo brasileiro, de algumas alíquotas de tributos incidentes sobre a produção de 87 automóveis, ajudando o setor a ter um crescimento nas suas vendas, por conta da redução nos preços (decorrente da redução do custo tributário). Se você fosse assistente de João na construção do planejamento financeiro, de que forma a tributação do setor automobilístico poderia ser impactada com a vitória do candidato A? E se o candidato B vencesse as eleições, o que poderia acontecer com a tributação no setor automobilístico? Vamos pensar juntos: se o candidato A, liberal, vencer as eleições, é de se esperar que a redução de tributos específica para o setor não se mantenha, pois a teoria clássica prevê uma intervenção mínima do governo no mercado, ou seja, os setores devem competir entre si pela escolha do consumidor em igualdade de condições. Com isso, a ação dos agentes levará ao melhor uso dos fatores de produção disponível (a chamada mão invisível), melhorando a economia como um todo. Além disso, subsídios podem trazer desequilíbrio fiscal, o que é indesejável para um candidato liberal. Assim, com esse cenário, você deve aconselhar João a fazer um planejamento que vislumbre essa possi- bilidade de redução tributária ao setor automotivo. Por outro lado, se o candidato B, keynesiano, vencer as eleições, a possi- bilidade do setor automobilístico continuar recebendo apoio governamental na forma de alíquotas mais baixas dos tributos deve ser considerada como altamente provável (isso deve aparecer no planejamento financeiro de João), pois o keynesianismo defende uma maior participação do governo na economia, como forma de estimular a geração de empregos, ainda que, no médio prazo, o equilíbrio fiscal possa ser comprometido. Avançando na prática O governo deve intervir? Francisco é assessor do Secretário de Desenvolvimento de uma cidade do interior de Minas que passou por uma tragédia terrível de rompimento de uma barragem, a qual matou algumas pessoas, causou grandes prejuízos e gerou uma estagnação econômica na cidade. Após um processo na justiça, a empresa realizou um acordo e se dispôs a efetuar pagamentos individuais às famílias e às empresas que foram preju- dicadas, contudo, alegou que não haveria necessidade de disponibilizar recursos para a prefeitura, pois os pagamentos aos agentes seriam suficientes para recuperar a economia do município. 88 Francisco recebeu a incumbência de apresentar ao juiz as razões para que a prefeitura também receba recursos destinados à recuperação da economia da cidade. Com base na teoria keynesiana, quais argumentos ele deve apresentar?Resolução da situação-problema Francisco deve recorrer ao exemplo da recuperação econômica norte-a- mericana, por meio do New Deal, para argumentar que, mesmo que haja recursos disponíveis para consumo e investimento, se as expectativas não forem positivas, nem os consumidores nem as empresas tomarão decisões de consumo e investimento. O argumento deve ser de que a prefeitura deve receber recursos que serão utilizados para garantir aos agentes que a retomada econômica do município acontecerá: a prefeitura poderá encomendar obras, contratar pessoas, abrir licitações, etc. que rompam a inércia e iniciem um ciclo de investimentos no município. Além disso, se os recursos forem direcionados aos setores corretos, os ciclos subsequentes poderão trazer um grande crescimento na produção e no emprego, de acordo com o multiplicador keynesiano. Importante ressaltar que o governo deve ter o cuidado de ir se retirando do papel de protagonista, à medida que a economia se recupere. Faça valer a pena 1. Ao longo dos séculos, os economistas têm se dividido entre duas escolas distintas: uma que defende uma presença maior do Estado na economia (pois é responsabilidade deste a manutenção da atividade econômica), e outra que argumenta que, quanto menor o tamanho do Estado, melhor (pois os agentes otimizam suas decisões, sem a intervenção do governo). Essas duas escolas econômicas são, respectivamente: a. O socialismo e o capitalismo. b. O comunismo e o keynesianismo. c. O keynesianismo e o liberalismo. d. O liberalismo e o socialismo. e. O keynesianismo e o socialismo. 89 2. Uma das discussões mais antigas da ciência econômica refere-se ao papel do governo como promotor do crescimento econômico. Existem duas vertentes principais antagônicas a respeito do nível ideal de intervenção do governo na economia: o keynesiano e o liberalismo. Com base nas diferenças fundamentais entre essas duas abordagens, avalie as seguintes asserções e a relação proposta entre elas: I. Para os clássicos, o governo deve ser o motor da economia, enquanto, para os keynesianos, o governo deve evitar intervenções no mercado. PORQUE II. Para os clássicos, as intervenções do governo, na maioria das vezes, causam mais soluções do que problemas. A respeito dessas asserções e da relação entre elas, assinale a alternativa correta: a. A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II, falsa. b. As asserções I e II são proposições falsas. c. A asserção I é uma proposição falsa, e a II, verdadeira. d. As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II justifica a I. e. As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não justifica a I. 3. As diferentes linhas de pensamento econômico divergiram, ao longo dos séculos, basicamente, em quanto o Estado deve intervir no governo para proporcionar melhores condições para a sociedade. Tomando como referência as linhas de pensamento econômico, classifique as afirmativas a seguir em verdadeiras (V) ou falsas (F): ( ) Para Adam Smith, a produtividade é a causa fundamental da riqueza das nações, que devem estimular a especialização do trabalho para que esse processo seja mais intenso. ( ) O sucesso da recuperação econômica norte-americana, após a crise de 1929, por meio do New Deal, estimulou a adoção das ideias de Keynes em vários outros países nas décadas seguintes. ( ) As principais correntes políticas estão ligadas a uma divisão econômica: os keynesianos (defensores de uma menor presença do Estado) e os liberais (que afirmam que o pleno emprego não é alcançado automaticamente). 90 ( ) A predominância das políticas keynesianas no mundo durou até meados da década de 1970, quando sua incapacidade de superar uma nova crise mundial fez com que o neoliberalismo assumisse o protagonismo. Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta de classificação, de cima pra baixo: a. V – V – F – V. b. F – F – V – V. c. F – F – V – F. d. V – F – V – V. e. V – V – F – F. 91 Seção 3 Governo e o mercado Diálogo aberto Olá! Você já participou de alguma conversa sobre política? Nem sempre é um assunto tranquilo, não é verdade? Contudo, a política tem muito a ver com a macroeconomia, pois a intervenção do governo está diretamente ligada a essa questão. Além das questões partidárias, as decisões do governo podem afetar a economia como um todo e alguns setores ou empresas em particular. É sob essa perspectiva que iremos conhecer o Luís e o Otávio, que são sócios na Empresa X, que é especializada em fornecer treinamento para novos servidores aprovados em concursos públicos. A empresa passou bastante tempo recebendo muitos contratos de treinamento, mas, nos últimos tempos, tem notado uma redução na demanda por serviços. Além disso, os sócios receberam uma notícia que os levou a um questionamento sobre o futuro da empresa. A questão é que, após um período de constante crescimento na atividade econômica, a inflação cresceu muito e o governo anunciou que tomará medidas para controlá-la. A partir dessa informação proveniente do governo, Luís e Otávio precisam definir se, nesse momento, investem na aquisição de um terreno para a nova sede da empresa ou se assumem uma posição estratégia mais conservadora, de aguardar antes de realizar novos investimentos. Se você fosse consultado a opinar sobre o assunto, frente a esse novo cenário, qual deveria ser a estratégia a ser adotada pela empresa? Para responder a essa pergunta, você precisará entender os motivos que levam o governo a interferir na economia, os instrumentos que dispõe para isso, os objetivos que são buscados e os riscos envolvidos quando erros são cometidos. Você terá que compreender também o quanto essas políticas afetam o mercado em geral e os setores específicos em particular. Portanto, bom aprendizado! Não pode faltar Seja bem-vindo! Creio que você já percebeu o quanto a atuação gover- namental é um elemento fundamental para o comportamento dos indica- dores macroeconômicos do país, não é mesmo? Como o objeto de análise fundamental da macroeconomia são as relações entre os agregados econô- micos (taxas de juros, inflação, crescimento econômico, desemprego, etc.), os 92 ciclos econômicos e a influência da atuação do governo sobre os resultados econômicos, existe uma intensa interface entre as decisões econômicas do governo e as questões políticas. É importante separar as preferências pessoais das questões econômicas e, além do mais, quanto mais você conhecer de um determinado assunto, mais segurança terá para se posicionar, não é verdade? Por isso, precisamos, agora, estudar algumas questões básicas relativas à macroeconomia. Conheceremos, então, os mercados macroeconômicos, as funções do governo, as metas e políticas macroeconômicas e alguns agregados fundamentais. Você está pronto? Da mesma forma que o preço e a quantidade de equilíbrio de um deter- minado produto podem ser encontrados por meio da interação das forças de oferta e demanda, foram estabelecidos cinco mercados macroeconômicos: i. de bens e serviços; ii. de trabalho – esses dois primeiros compõem a parte “real” da economia –; iii. monetário; iv. de títulos; e v. de divisas – esses três últimos compõem a parte monetária da economia. Figura 3.3 | Mercados macroeconômicos M er ca do s m ac ro ec on ôm ic os Bens e serviços Monetário De títulos De divisas Trabalho Fonte: elaborada pelo autor. No mercado de bens e serviços, são determinados o nível de preços e o nível de produção do país, e o equilíbrio ocorre quando a oferta (intenção de produção de todas as empresas do país) e a demanda (intenção de compra de bens e serviços de todos os agentes econômicos) agregadas se igualam. Nesse mercado, são determinadas variáveis, como o Produto Interno Bruto (PIB), a inflação e os agregados macroeconômicos (consumo, poupança, gastos governamentais, investimentos, exportações e importações). 93 Atenção No estudo da macroeconomia, ao falarmosde oferta e demanda, temos que ter em mente que nos referimos à produção de todas as empresas e à intenção de compra de todos os consumidores do país, que acabam influenciando o nível médio de preços de todas as mercadorias e serviços, ou seja, a análise macroeconômica não é feita sobre apenas uma empresa, um consumidor, ou uma mercadoria, mas sobre tudo o que compõe a economia do país. Essa visão de totalidade vale para todos os mercados que serão estudados nesta seção. Já no mercado de trabalho, o equilíbrio ocorre quando a oferta e a demanda de trabalho se igualam, sendo o nível de emprego e o valor dos salários as variáveis determinadas nesse mercado. Nele, as empresas demandam traba- lhadores para produzirem bens e serviços, ou seja, demandam trabalho, enquanto os trabalhadores (os detentores do fator de produção “trabalho”) oferecem sua mão de obra. Para os empresários, quanto menor for o salário, mais trabalhadores serão demandados e, quanto maior for o salário, menor será o interesse em contratar funcionários. Já em relação aos trabalhadores, quanto maior for o salário, mais pessoas se disporão a trabalhar e, quanto menor for o salário, menos gente terá interesse em trabalhar. Com isso, haverá um valor de salário que igualará o número de trabalhadores deman- dados pelas empresas com a quantidade de funcionários dispostos a traba- lhar. Esse é o chamado salário de equilíbrio do mercado. Sempre que a oferta de trabalho for maior do que a demanda por trabalho (ou seja, sempre que houver mais gente disposta a trabalhar do que emprego sendo oferecido pelos empresários), a tendência é que haja uma diminuição no valor do salário de equilíbrio pago nessa economia (e vice-versa). Se você analisar o que acontece no mercado de trabalho, perceberá que existem fatores que podem afetar esse equilíbrio. Menores níveis de tributação sobre a folha de pagamento e melhores expectativas para a economia do país, por exemplo, ampliarão a demanda por trabalho por parte dos empresários e, consequentemente, diminuirão o nível de desemprego, ampliando o valor dos salários pagos no país. A oferta e a demanda por moeda determinam a taxa de juros no mercado monetário, a qual afetará a produção, os preços e os investimentos externos. Por sua vez, o mercado de títulos (que é analisado em conjunto com o mercado monetário) existe porque a transferência de recursos dos agentes econômicos superavitários para os deficitários ocorre por meio de títulos. 94 Exemplificando Você sabe como o governo financia boa parte dos problemas finan- ceiros nas contas públicas? Por meio da venda de títulos públicos. Para entender isso, imagine que, neste mês, o governo tenha arrecadado R$ 5.000.000,00 com a cobrança de tributos, mas gastou R$ 5.800.000,00 com diversos pagamentos (funcionários públicos, reforma de rodovias, construção de universidades, etc.), ou seja, ele tem um resultado público deficitário de R$ 800.000,00 que precisa ser pago. Para solucionar esse problema financeiro atual, o governo tomará dinheiro empres- tado na sociedade, vendendo “papéis” (chamados de títulos públicos) no montante de R$ 800.000,00. Quem compra esse título público (que pode ser eu, você, uma empresa, um banco, outro governo, etc.) espera reaver o dinheiro gasto com ele, no futuro (em 5, 10, 20 anos...), com o acréscimo de juros. Ou seja, com a venda dos títulos públicos a R$ 800.000,00, entra dinheiro, imediatamente, no caixa do governo, permitindo que ele pague funcionários, obras públicas, etc. que venciam naquele mês. No entanto, quando os títulos públicos vencerem (em 5, 10, 20 anos...), o governo precisará devolver o dinheiro para quem comprou esses papéis, acrescidos de juros, ou seja, o financiamento da dívida pública via venda de títulos posterga uma dívida presente do governo, que precisará ser quitada no futuro (é como se você, como pessoa física, tivesse uma dívida no Banco A, que vence hoje, e pegasse dinheiro emprestado no Banco B, que só será paga no próximo mês: a dívida continua existindo, mas seu prazo de quitação foi postergado). Por fim, o mercado de divisas (moedas estrangeiras) resulta das transações de cada país com o resto do mundo. Seu equilíbrio ocorre quando a oferta e a demanda de divisas se igualam. A variável determinada nesse mercado é a taxa de câmbio, que sobe ou desce de acordo com a demanda e a oferta de divisas no mercado. A participação dos governos nesses cinco mercados pode ser maior ou menor, de acordo com a ideologia político-econômica (mais liberal ou menos liberal) de quem toma essas decisões. Mas, por quais motivos o governo faz intervenções econômicas neles? A resposta é: para cumprir com as suas funções. E você, sabe quais são elas? Veja a Figura 3.4. 95 Figura 3.4 | Funções do governo na economia Alocativa Relacionada à participa- ção do governo na produção de bens e serviços. Por exemplo, espera-se que a segurança pública seja um serviço prestado pelo governo à sociedade. Estabilizadora Variações excessivas na economia trazem insegurança e podem levar a problemas no longo prazo. Por isso, espera-se que o governo atue trazendo maior estabilidade às variáveis econômicas. Distributiva Espera-se que o governo atue para reduzir a desigualda- de na distribuição de renda, diminuindo, como consequên- cia, a miséria. Reguladora A autoridade do governo deve ser utilizada para estabelecer regras, por meio de leis e disposições administrati- vas, que criem um ambiente de competição estável e seguro a toda a sociedade. Fiscalizadora Além do poder de regular, o governo deve �scalizar como os agentes se comportam, em especial, a questão tributária do país. Fonte: elaborada pelo autor. Agora que você já conhece os diferentes mercados e as funções do governo, é hora de pensarmos naquela que é a questão macroeconômica essencial: como o governo pode fazer com que a sociedade alcance uma melhor qualidade de vida? Para isso, espera-se que o governo atue naqueles que são os objetivos principais em termos econômicos, as chamadas metas econômicas: promover a estabilidade de preços (ou seja, o controle da inflação), o crescimento econômico (que trará maior oferta de empregos) e uma distribuição mais justa de renda, além de alcançar equilíbrio nas contas externas. Assimile As metas econômicas podem ser produtivas (crescimento do PIB e do emprego), inflacionárias (manter a inflação sob controle), distributivas (melhorar a distribuição de renda) e externas (equilibrar a entrada e saída de divisas). Nesse processo, existem situações que dois bons objetivos podem ser perseguidos sem que haja prejuízos para qualquer um deles. Por exemplo, quando o governo buscar promover o crescimento da atividade econômica, 96 isso também colaborará com o aumento da oferta de empregos. Por outro lado, há objetivos que podem apresentar conflitos para serem alcançados ao mesmo tempo, gerando a necessidade de dar-se preferência a um ou ao outro. Quando isso ocorre, caracteriza-se uma situação de trade-off. O trade-off mais característico e mais importante da economia é aquele entre o crescimento econômico e o controle da inflação. Isso significa que, ao buscar reduzir a inflação, o crescimento econômico será prejudicado e, ao estimular o crescimento, a inflação também será estimulada, obrigando o governo a escolher qual meta vai ser priorizada naquele momento: a produtiva ou a inflacionária. Vocabulário Trade-off é uma situação que acontece quando dois objetivos não podem ser alcançados simultaneamente e um deles tem que ser sacrifi- cado em benefício do outro. Exemplificando Em relação aos remédios, o ideal é que eles sejam, ao mesmo tempo, avançados e baratos, correto? Contudo, para que eles sejam avançados, é preciso que as empresas invistam muito em pesquisas. No entanto, esses altíssimos gastos com pesquisas não combinam com preçosbaixos (já que as empresas farmacêuticas visam ao lucro). Por isso, se os remédios inovadores não têm qualquer controle de preços, haverá muito estimulo a novos lançamentos (estímulo às pesquisas), mas muitos consumidores não poderão se beneficiar dos avanços (pois eles serão vendidos por preços muito altos). Por outro lado, se o governo impuser um controle de preços a esses medicamentos inovadores, muitas pesquisas deixarão de ser realizadas, o que caracteriza o trade-off. Uma forma de superar esse conflito é por meio das patentes: a empresa que descobriu e desenvolveu um remédio inovador terá exclusividade de comercialização durante um período definido. Ao encerrar esse tempo, outras empresas poderão oferecer a mesma substância: são os remédios genéricos. Reflita Às vezes, é preciso escolher entre crescimento econômico e inflação. Quem deve ter a prioridade? Reflita sobre o assunto! Nesse momento, é possível que você esteja se perguntando: mas, quanto de inflação é aceitável? Qual é o mínimo de crescimento produtivo necessário? 97 Responderemos a essas perguntas em seguida, mas, para isso, é preciso que você saiba como devemos medir a inflação e a atividade econômica. Vamos começar pela atividade econômica? A atividade econômica de um país é medida pela quantidade de riqueza que foi gerada nele, ou seja, o Produto Interno Bruto (PIB). Ao calcularmos o PIB, precisamos delimitar o tempo e o espaço físico. Isso quer dizer que podemos calcular o PIB de uma cidade, estado, região ou país em bases mensais, trimestrais, anuais ou no período que desejarmos. Como ele expressa a quantidade de riqueza produzida, é obtido por meio da soma de todos os produtos e serviços finais produzidos na economia, ou seja, os produtos intermediários (utilizados como insumo na produção de outras mercadorias) não entram na sua soma final. Exemplificando Quando você paga por uma pizza consumida em um restaurante, no valor dela estão embutidos desde os custos com mão de obra e energia daquele restaurante até o valor das matérias-primas utilizadas. Dessa forma, uma pequena parcela do valor da pizza corresponde ao adubo que o agricultor utilizou para cultivar o trigo para fazer a massa da pizza, concorda? Por isso, no cálculo do PIB, não devemos contabilizar o valor da farinha de trigo que foi adquirida pelo restaurante, nem o valor do trigo que foi gasto pela indústria que o transformou em farinha de trigo, pois eles já estão incluídos no valor final que o cliente do restaurante pagou pela pizza. Existe uma padronização mundial da forma de cálculo do PIB e, ainda que possam existir algumas diferenças entre alguns países, o principal indicador dele é o seu crescimento percentual. Isso quer dizer que, quando um país tem um crescimento de 4% no PIB, a soma dos produtos e serviços finais que foram produzidos naquele ano é 4% superior à produção do ano anterior. Outra observação importante é que o PIB representa a riqueza gerada, pois, ao utilizar os fatores de produção (trabalho, capital e terra) necessários para produzir alguma coisa, os donos deles recebem remunerações (ou seja, recebem salário, lucro e aluguel). Dessa forma, a riqueza de um país não é determinada pelo seu estoque de matéria-prima ou de qualquer outro fator, mas pela sua produção de bens e serviços finais (conceito conhecido como Produto), que equivale às remunerações geradas (conceito conhecido como Renda). 98 Reflita O baixo crescimento do PIB é sempre indesejável, mas será que suas consequências são iguais para todos os países? Por exemplo, em um país onde o crescimento da população está estagnado, os danos serão tão intensos quanto em um país onde a população apresenta elevados índices de crescimento? E a inflação, ela é realmente algo que deva trazer preocupação? Se você não sofreu de perto os danos de uma inflação elevada (realidade vivida pelos brasileiros até 1994), é muito importante que entenda os malefícios que esse processo causa e a importância de combatê-los. Porém, antes de tudo, vamos conceituar o que é inflação? De uma forma bem simples, podemos consi- derar inflação como o aumento persistente e generalizado de preços. A medida da inflação é uma média ponderada das alterações dos preços, o que quer dizer que os produtos que pesam mais no orçamento das famílias devem receber maior importância no cálculo (ADVFN, [s. d.]). Dessa forma, o aumento de preço dos panetones no Natal ou o fato de você pagar mais caro pelo tomate na entressafra não causarão, necessariamente, aumento da inflação. A simples existência da inflação não é um problema, pois uma inflação baixa tem como objetivo sinalizar alterações na oferta e na demanda de bens e serviços e promover correções de preços. Mas, então, quando ela é aceitável? É muito difícil um país não apresentar inflação, no entanto, patamares muito altos da inflação são muito prejudi- ciais para as economias. De acordo com os dados do Index Mundi, em 2019, apenas Venezuela, Congo, Sudão, Angola, Líbia, Síria, Argentina, Iêmen, Egito e Suriname (todos países com problemas em suas economias) apresen- taram taxas de inflação superiores a 20% (INDEX MUNDI, [s. d.]). No caso do Brasil, a opção, desde 1999, é pelas metas de inflação, em que o Conselho Monetário Nacional (COPOM) determina o valor da meta de inflação anual e cabe ao Banco Central utilizar os mecanismos necessários para seu alcance. Entre 2005 e 2018, por exemplo, a meta da inflação foi de 4,5% ao ano, enquanto, em 2019, ela foi de 4,25% ao ano (CAUTI, 2019). A inflação traz enormes prejuízos à economia de qualquer país, e é consi- derada uma das maiores responsáveis pelo aumento da desigualdade social no Brasil, ao longo dos anos 1980. Por isso, o ideal é que esteja sempre sob controle, mas, se algo acontecer, os danos que ela causa são tão intensos que seu controle deve ser priorizado, mesmo que isso signifique abrir mão de algum crescimento econômico. 99 Mas, que tipo de ações o governo pode utilizar para atingir as metas (produtivas, inflacionárias, externas e distributivas) da economia do país? Ele pode fazer uso de políticas fiscais, monetárias, cambiais e/ou de rendas apresentadas na Figura 3.5. Vamos conhecê-las? Figura 3.5 | Tipos de políticas econômicas Fiscal Ações do governo que impactam as receitas e despesas governa- mentais. Monetária Intervenções do governo sobre a quantidade de moeda em circulação. Cambial Interveções do governo sobre a oferta e demanda por divisas, impactando o valor do câmbio. De Rendas Ações governa- mentais com o �m especí�co de melhorar a distribuição da renda da população. Fonte: elaborada pelo autor. A política fiscal tem duas dimensões: de um lado, os recursos arrecadados pelo governo dos agentes econômicos (por meio da cobrança de tributos), e de outro, os gastos públicos que retornam para a população na forma de bens e serviços prestados. Ampliando ou reduzindo tributos (mudanças nas alíquotas e criação de novos impostos) ou gastos públicos, o governo faz política fiscal para atingir metas econômicas. A política monetária tem como foco fundamental a estabilidade da moeda (o controle da inflação) e utiliza as taxas de juros e a oferta de moeda e de crédito com o objetivo de promover o crescimento econômico, sem perder o controle sobre a inflação. Por sua vez, na política cambial, o governo influi nas condições do câmbio, as quais, por sua vez, exercem um papel fundamental para o comércio exterior, impactando as exportações e as importações do país. Na política de rendas, o governo tem como foco a melhoria da distri- buição de renda e utiliza tanto mecanismos de regulação do mercado quanto gastos específicos para fazê-la. Para atingir as suas metas, no Brasil, o governo optou pelo tripé macro- econômico, termo que agrupa um conjunto de políticas que ajudarão o país a alcançar a estabilidade econômica. Ele é composto por: não intervenção no mercado decâmbio (referente à política cambial do país), manutenção 100 da disciplina fiscal (referente à política fiscal do país) e estabelecimento de metas de inflação (referente à política monetária do país). Agora é com você: para ampliar sua visão de como as políticas econô- micas podem influenciar a sociedade, estude todo o material desta seção que está disponível para você. Eu te espero no próximo encontro! Sem medo de errar Agora que você já aprendeu sobre as principais interações entre o governo e o mercado, é hora de voltar sua atenção para o problema da Empresa X, especializada em fornecer treinamento para novos servidores aprovados em concursos públicos. Luís e Otávio, seus donos, perceberam que, após um tempo significativo com bom faturamento a partir de contratos de treina- mento, recentemente, o número de requisição de serviços tem se reduzido. Contudo, o que está preocupando a empresa é a notícia de que, por conta do crescimento da inflação, após um período de muito crescimento na ativi- dade econômica, o governo anunciou que tomará medidas para controlá-la. Estava nos planos da empresa a aquisição de um terreno para a nova sede da Empresa X, mas, a partir dessa informação do governo, Luís e Otávio precisam definir se mantêm o investimento ou se assumem uma posição estratégia mais conservadora. Se você fosse consultado a opinar sobre o assunto, frente a esse novo cenário, qual deveria ser a estratégia a ser adotada pela empresa? Você deveria começar explicando aos sócios da Empresa X que o governo utiliza as políticas econômicas (fiscal, monetária, cambial e de rendas), buscando gerar crescimento econômico, ao mesmo tempo em que mantém a inflação sob controle. Contudo, há um trade-off fundamental entre inflação e crescimento econômico, o que faz com que ações de combate à inflação, normalmente, estejam associadas à redução da atividade econômica. No Brasil, as metas inflacionárias são prioritárias (pois uma inflação elevada é muito prejudicial a todos). Dessa forma, se o governo avisa que aplicará políticas econômicas de combate à inflação, os mercados de bens e serviços e de trabalho serão impactados, o que deverá prejudicar as metas produtivas da nação. Por isso, a empresa pode esperar tanto uma redução nos seus negócios com o governo quanto uma queda na atividade econômica 101 em geral. Ou seja, o fato de a Empresa X, provavelmente, se deparar com um cenário macroeconômico menos propenso para novos investimentos produ- tivos, com grande possibilidade de redução nos seus negócios, faz com que a aquisição de um terreno para a companhia, nesse momento, não seja a ação mais indicada. Às vezes, dar um passo atrás pode ser a melhor estratégia para uma empresa. Avançando na prática Uniformes Paula é a proprietária e gerente da Empresa U, uma empresa que produz uniformes para outras empresas. A sua demanda está diretamente ligada aos movimentos no mercado de trabalho, por isso, ela está sempre atenta a notícias que possam afetar o seu negócio. Acompanhando o noticiário, ela soube que as pesquisas que apontam a avaliação das pessoas sobre o governo (taxa de aprovação do governo) não apresentaram bons resultados, pois, apesar de a inflação estar controlada, havia uma grande quantidade de pessoas desempregadas. Em resposta a isso, o governo anunciou que efetuará uma diminuição da carga de impostos sobre a folha de pagamento das empresas, para aumentar as contratações. Essa ação terá algum efeito sobre o equilíbrio do mercado de trabalho? E poderá, de alguma forma, afetar a demanda da Empresa U? Resolução da situação-problema O mercado de trabalho é um dos mercados que é analisado pela macro- economia, sendo representado pela quantidade de vagas e pelo valor dos salários, que são determinados pelo equilíbrio entre a oferta e a demanda de mão de obra. A decisão do governo de diminuição da carga de impostos sobre a folha de pagamento das empresas estimulará novas contratações, pois deslo- cará a curva de demanda por trabalho (em economia, são as empresas que demandam trabalho). Com isso, o número de contratações no país aumen- tará, estimulando a demanda por uniformes. Dessa forma, Paula deve estar preparada para atender a essa demanda e aproveitar para conquistar mais espaço no mercado para a Empresa U. 102 Faça valer a pena 1. O conjunto de medidas tomadas pelo governo de um país com o objetivo de atuar e influir sobre os mecanismos de produção, distribuição e consumo de bens e serviços constitui a política econômica. Ela pode ser feita de diversas formas, sempre com objetivos bem claros a serem atingidos. Assinale a alternativa que corresponde corretamente a um dos objetivos das políticas econômicas: a. Menor número possível de pessoas empregadas. b. Atividade econômica em queda. c. Inflação em crescimento. d. Renda distribuída de forma justa. e. Saldo do Balanço de Pagamentos desequilibrado. 2. Com o desenvolvimento da ciência econômica, foram sendo estabele- cidas funções que o governo deveria desempenhar para colaborar com a melhoria das condições de vida da sociedade. De acordo com as informações apresentadas na tabela a seguir, faça a associação de algumas das funções do governo, as quais estão listadas na Coluna A, com suas respectivas descrições, apresentadas na Coluna B. Coluna A Coluna B I. Estabilizadora 1. Melhoria da distribuição de renda II. Distributiva 2. Participação do governo na produção de bens e serviços III. Alocativa 3. Exercida por meio de leis e disposições administrativas IV. Reguladora 4. Estabilização das variáveis econômicas Assinale a alternativa que apresenta a associação correta entre as colunas: a. I-4; II-1; III-2; IV-3. b. I-4; II-3; III-2; IV-1. c. I-2; II-1; III-4; IV-3. d. I-3; II-4; III-1; IV-2. a. I-1; II-3; III-2; IV-4. 103 3. Em 2019, em nota para a Revista Veja sobre o Plano Real, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso declarou: [...] a inflação havia se tornado um flagelo e as pessoas queriam contê-la. Tecnicamente, o plano foi bem feito: compreendemos que a ‘mágica’ de cortar zeros, mudar o nome da moeda ou mesmo da URV precisava de apoio em um processo de controle dos gastos públicos, renegociação das dívidas externas, privatização de bancos estaduais, enfim de uma reforma do Estado. (KIANEK; ROMANI, 2019, [s.p.]) Considerando as informações apresentadas sobre a inflação no Brasil, analise as afirmativas a seguir: I. O índice de inflação é uma média simples das alterações dos preços, e a ocorrência de qualquer valor de inflação já é um problema. II. Atualmente, no Brasil, o controle da inflação deve apresentar prioridade em relação aos mecanismos de estímulo ao cresci- mento econômico. III. Desde 1999, o Brasil trabalha como metas para a inflação. IV. A simples existência da inflação não é um problema, pois uma inflação baixa indica que os preços estão se ajustando com o passar do tempo. Considerando o tema em questão, é correto o que se afirma em: a. I, II e III, apenas. b. III e IV, apenas. c. I, II, III e IV. d. II, III e IV, apenas. e. I, II e IV, apenas. Referências ADVFN. O cálculo da inflação no Brasil. [s.d.]. Disponível em: https://br.advfn.com/ economia/inflacao/brasil/calculo. Acesso em: 18 dez. 2019. Alvim, C., Starling, A.; Mafra, O. Mudanças no Balanço de Pagamentos. Revista Economia e Energia (E&E), n. 96, jul./set. 2017. Disponível em: http://ecen.com.br/?page_id=661. Acesso em: 13 dez. 2019. Ayres, M. Déficit em transações correntes do Brasil dobra em 2018, a US$14,511 bi, aponta BC. Extra Digital, 28 jan. 2019. Disponível em: https://extra.globo.com/noticias/economia/deficio- t-em-transacoes-correntes-do-brasil-dobra-em-2018-us14511-bi-aponta-bc-23407696.html. Acesso em: 13 dez. 2019. BRAGA, M. B. 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Assim, você poderá fazer a análise da conjuntura econômica de um país para se antecipar às possíveis políticas fiscal e monetária a serem feitas pelo governo e seus efeitos sobre a economia como um todo e sobre setores específicos. Nosso primeiro tema será a Política Fiscal (Seção 4.1), relacionada aos gastos e às receitas do governo. A análise fundamental é a da relação entrereceitas e despesas públicas: quando o governo gasta mais do que arrecada, ele incorre em déficit nas contas governamentais. Por outro lado, quando o governo consegue equilibrar suas contas e arrecadar mais do que gasta, ele tem superávit nas contas governamentais. A Política Fiscal Expansionista ocorre quando o governo toma decisões que aumentam os seus gastos e diminuem os impostos pagos pelas pessoas e empresas. Já quando o governo diminui seus gastos e aumenta os impostos, ele está praticando uma Política Fiscal Contracionista. A Política Monetária (Seção 4.2) está relacionada à quantidade de moeda em circulação e à taxa de juros. Uma política expansionista atua para aumentar a oferta de moeda (e, consequentemente, diminuir a taxa de juros), e a Política Monetária Contracionista atua no sentido oposto. Você conhecerá também o multiplicador bancário, que pode ser utilizado como instrumento de política monetária. Nossa análise dos impactos das diferentes políticas econômicas sobre o crescimento econômico e a inflação partirá da constatação de que existe um trade-off entre eles. Em seguida, ainda na Seção 4.2, veremos como o controle de preços e salários e os programas de transfe- rência de renda compõem a política de rendas ou distributiva. Para terminar, na Seção 4.3, acompanharemos exemplos de ações gover- namentais marcantes no Brasil, começando pelos planos malsucedidos de combate à inflação da década de 1980 e o sucesso do Plano Real. Você verá a predominância do neoliberalismo com a estabilidade econômica após o Plano Real e os benefícios trazidos por ela. Por fim, conheceremos as políticas recentes para o reequilíbrio das contas públicas. Mãos à obra! 109 Seção 1 Política fiscal Diálogo aberto Oi, você já viveu uma situação em que um cliente seu atrasou algum pagamento ou, até mesmo, lhe “deu o cano”? Como fornecedor, você se defrontou com cenários em que ficou muito difícil manter o que foi acordado com o cliente? É muito ruim, não é mesmo? Só que, às vezes, isso ocorre por situações fora do nosso controle, concorda? É sob essa perspectiva que quero convidá-lo a conhecer a Empresa S, que trabalha com o fornecimento de refeições em larga escala e que cresceu muito nos últimos anos tendo empresas contratadas pelo governo do Estado como principais clientes. Lúcia é a proprietária da empresa e a responsável por seu gerenciamento. Os últimos anos foram de intenso crescimento, pois o governo criou um programa de obras públicas em que as empresas de construção civil contratadas tinham a obrigação de fornecer alimen- tação para os trabalhadores temporários, e, com isso, as encomendas dessas empresas com a Empresa S cresceram muito. Contudo, nos últimos meses, Lúcia passou a ter dificuldades em receber alguns pagamentos, e passou a ouvir de vários clientes que o governo, apesar de estar em seu último ano, estava atrasando os pagamentos para as constru- toras que estavam realizando as obras. No final do ano, ocorreram as eleições e o atual governador não foi reeleito. O ganhador da eleição estabeleceu uma equipe para estudar a situação fiscal do estado, e após poucas semanas de trabalho, convocou uma entrevista coletiva em que fez uma declaração à imprensa afirmando que o governo anterior havia conduzido a política fiscal de forma irresponsável, deixando tanto uma enorme dívida quanto uma perspectiva de déficit nas contas públicas para os próximos anos. Por conta disso o futuro governador afirmou que ele precisará imple- mentar uma política fiscal contracionista nos próximos anos. A partir dessa informação, Lúcia precisa responder à seguinte pergunta: ela deve continuar focando as empresas contratados pelo governo como principais clientes ou fazer algum ajuste na estratégia da sua empresa? Para responder a essa pergunta, você precisa entender o que é a Política Fiscal, como alterações nos gastos e nas receitas do governo impactam tanto a economia em geral como setores específicos, bem como o que leva o governo 110 a adotar políticas expansionistas ou contracionistas. Esses conhecimentos lhe permitirão desenvolver habilidades de entendimento da realidade e de projeção de cenários futuros, sendo fundamental a sua dedicação, ok? Boa aula! Não pode faltar Olá, tudo bem? Os temas desta aula estarão muito próximos do seu dia a dia, já que nossas discussões seguirão uma linha muito específica: a análise da atuação do governo. Assim, iremos estudar como o governo pode influenciar a atividade econômica por meio da política fiscal entendendo suas razões e seus objetivos. De forma simples, podemos dizer que a política fiscal envolve os gastos do governo e as receitas do governo (advindas da tributação). A expansão dos gastos públicos para a recuperação dos Estados Unidos, após a Grande Crise de 1929, tornou hegemônica a ideia de usar os gastos governamentais como indutores do crescimento econômico, ou seja, todas as vezes que a economia tivesse sua atividade produtiva reduzida, enfren- tando altos níveis de desemprego, o governo deveria recorrer à Política Fiscal expansionista, ou seja, aumentar os gastos públicos e diminuir os tributos, o que estimularia a demanda agregada (intenção de compra dos agentes econômicos), fazendo com que as empresas voltassem a contratar novos funcionários para ampliar a produção (OLIVEIRA, 2018). Assimile Quando o governo aumenta os seus gastos ou diminui os tributos (impostos, taxas e contribuições), ele está fazendo Política Fiscal expan- sionista, o que aumenta a atividade econômica e, consequentemente, o nível de emprego. Esse processo ocorre da seguinte forma: imagine que o governo decida construir um novo porto (ampliando seus gastos). Para essa obra, ele contra- tará uma empresa que, por sua vez, irá contratar trabalhadores, adquirir (ou alugar) máquinas, comprar matérias-primas, contratar o serviço de outras empresas, etc. Percebe que esse processo ampliará a produção de diversas empresas (aumentando a renda correspondente aos pagamentos pela utili- zação dos recursos produtivos), bem como gerará empregos? Da mesma forma, a política fiscal expansionista pode ser feita com uma redução dos tributos, que fará com que os consumidores se interessem por comprar mais bens e serviços, pois estarão com sua renda disponível maior. 111 Ou seja, esse aumento da Demanda Agregada (causado pelo aumento da Renda Disponível, como consequência da diminuição tributária) resultará em um aumento da produção de bens e serviços, diminuindo o desemprego do país. Exemplificando Imagine se o governo reduzisse a alíquota do Imposto de Renda Pessoa Física de 7,5% para 2% para pessoas que ganham R$ 2.500,00 por mês. Isso faria com que o seu imposto pago passasse de R$ 187,50 para R$ 50,00. Dessa forma, a Renda Disponível (Renda Recebida menos Tributos pagos) dessa pessoa passaria de R$ 2.312,50 para R$ 2.450,00. Esse aumento de R$ 137,50 (ou seja, essa ampliação da Renda Dispo- nível) liberaria mais recursos para essa pessoa que seriam utilizados para a aquisição de mais bens e serviços, o que traria incentivo para as empresas produzirem mais, reduzindo o nível de desemprego do país. A política fiscal contracionista opera de forma inversa: o governo diminui os seus gastos e/ou aumenta a carga tributária. Com isso, temos menor ativi- dade produtiva (menos obras são realizadas, menos automóveis são vendidos, menos pessoas vão jantar fora, etc.) e, em consequência, menos empregos são gerados e menos riqueza é criada. Pode parecer estranho que um governo realize uma política que reduz a atividade econômica, e você irá entender em breve esse processo, mas, para isso, em primeiro lugar, é preciso conhecer os indicadores dos resultados fiscais de um país. Vamos a eles? Da mesma forma que eu, você e todas as empresas, o governo precisa que suas receitas sejam maiores do que suas despesas. Quando isso acontece, ocorre um superávit nas contas públicas. Já o déficit surge quando ogoverno gasta mais do que arrecada. Esses são chamados indicadores de fluxo, pois comparam os valores das receitas e dos gastos públicos, apresentando o resultado desse saldo em um determinado período. E se o governo continuar gastando mais do que arrecada ou se toma algum empréstimo para realizar uma obra? Isso resultará em dívida, que é um conceito de estoque, ou seja, déficits ou superávits irão alterar o tamanho da dívida pública. Agora, antes de avançarmos para entender melhor a contabilidade pública, precisamos compreender a diferença entre o resultado nominal e o resultado primário. Vamos lá? O resultado primário recebe esse nome por excluir os pagamentos ou recebimentos relativos aos juros da dívida, ou seja, indica o saldo das opera- ções que resultam em endividamento “novo” ou “primário”. Pode também 112 ser entendido como a diferença entre receitas e despesas não financeiras (sem juros), bem como pode ser superavitário ou deficitário. A importância desse indicador de fluxo é que ele mostra o nível de comprometimento da autoridade fiscal na amortização da dívida pública, ou seja, quanto que um país está conseguindo economizar para pagar os juros da dívida (TESOURO NACIONAL, 2017), podendo ser medido também em porcentagem do PIB. Exemplificando Imagine que, em janeiro, o governo arrecadou R$ 100,00 e gastou R$ 120,00, apresentando, portanto, R$ 20,00 de déficit público. Esse valor fez com que o governo acumulasse (estoque) R$ 20,00 de dívida pública, que foi acrescida de juros (por exemplo, mais R$ 5,00), pois o governo precisou pegar dinheiro emprestado para acertar essa pendência finan- ceira. No mês seguinte, em fevereiro, o resultado público do governo (receitas menos despesas) deverá apresentar um superávit primário, sobrando dinheiro para o pagamento dos juros da dívida que foi acumulada no mês anterior (por exemplo, se o governo, em fevereiro, arrecadar R$ 110,00 e gastar R$ 108,00, ele poderá usar esse superávit primário de R$ 2,00 para pagar parte dos juros (no valor de R$ 5,00) que recaem sobre sua dívida). Isso mostrará aos participantes do mercado que o governo está conseguindo organizar suas contas públicas para evitar que sua dívida continue crescendo. Já o resultado nominal inclui o pagamento de juros sobre o fluxo de receitas e despesas do governo, e de forma similar, pode ser superavitário ou deficitário. No exemplo anterior, mesmo que o governo tenha apresen- tado superávit primário de R$ 2,00, ele terá um déficit nominal de R$ 3,00 – correspondente a R$ 110,00 (arrecadados em fevereiro) menos R$ 113,00 (o total de R$ 108,00 gastos em fevereiro acrescidos de R$ 5,00 referentes aos juros da dívida). Déficits nominais, obviamente, não são bons, mas o déficit primário é pior, pois implica crescimento da dívida do governo. Reflita O governo pode apresentar um resultado primário superavitário e, ao mesmo tempo, um resultado nominal superavitário? Se sim, quando isso acontece? Reflita sobre o assunto. O padrão das contas públicas brasileiras era apresentar superávit primário e déficit nominal, ou seja, apesar do volume gasto para o pagamento da dívida ser elevado, os resultados permitiam alguma economia para o pagamento 113 dos juros da dívida. Contudo, a partir de 2014, o Brasil passou a apresentar déficits primários, o que resultou em grande elevação da dívida, conforme pode ser visto nas figuras 4.1 e 4.2: Figura 4.1| Resultado primário e nominal do governo central – 2008 a 2018 – em R$ bilhões Fonte: adaptada de Tribunal de Contas da União ([s.d.]). Figura 4.2 | Dívida bruta do governo geral – 2008 a 2019 – em % do PIB Fonte: adaptada de Banco Central ([s.d.]). A dívida bruta do governo geral abrange o total dos débitos de responsa- bilidade do Governo Federal, dos governos estaduais e dos governos munici- pais junto ao setor privado, ao setor público financeiro e ao resto do mundo (BRASIL, 2019a; 2019b) e alcançou um valor de R$ 5,431 trilhões, em março de 2019, o que correspondeu a 78,4% do PIB (OLIVEIRA, 2019). Essa relação entre dívida e PIB é a maior da série histórica, iniciada em dezembro de 2001 (OLIVEIRA, 2019). 114 O crescimento recente da dívida é o resultado de uma combinação de três fatores: os sucessivos resultados primários negativos (causados pelo excessivo aumento de gastos), o baixo crescimento do PIB (que causam uma diminuição na arrecadação tributária) e os juros pagos. Em 2018, os juros nominais pagos pelo governo alcançaram R$ 379,2 bilhões, o que equivale a 5,6% do PIB, colocando o Brasil entre os cinco mais endividados dos países emergentes (TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO, [s.d.]). A evolução dos gastos públicos no Brasil é mostrada na Figura 4.3. Figura 4.3 | Despesas Primárias do Governo Federal em R$ Bilhões – 1998 a 2018 Fonte: Tesouro Nacional ([s.d.]). Precisamos agora responder a uma pergunta muito importante: como o Brasil chegou a esse ponto? A utilização da política fiscal expansionista como indutora do crescimento foi intensivamente utilizada por diversos países, incluindo o Brasil, durante boa parte do século XX. Contudo, tanto aqui quanto em outros países, o processo não foi conduzido de forma respon- sável, pois levou a um aumento de gastos públicos sem correspondência nas receitas, gerando desequilíbrio e consequentes déficits fiscais. Em vez de adotar uma política fiscal restritiva (para reequilibrar as contas públicas), boa parte dos governos optou por financiar esses déficits fiscais por meio de emissão de moeda ou empréstimos externos, o que gerou a crise da inflação e da dívida externa nos anos 1980 e 1990, no Brasil. Esse processo começou com Juscelino Kubitschek, manteve-se com os militares e depois no governo Sarney. Os dois mandatos de Fernando 115 Henrique Cardoso e o primeiro mandato de Lula foram de responsabilidade fiscal (apresentar superávits primários), mas a partir da crise mundial de 2008, os gastos do governo brasileiro dispararam e, mesmo com o aumento da arrecadação, o país passou a enfrentar déficits primários, desde 2014. Desde o impeachment de Dilma, os governos Temer e Bolsonaro tem feito esforços para reverter esse quadro, mas existe muitas dificuldades. O esforço para se garantir despesas em um nível menor do que o das receitas é essencial para o equilíbrio financeiro, tanto das pessoas quanto das empresas. Em relação aos governos, é importante lembrar que é o dinheiro de todos os contribuintes que é usado para pagar os gastos públicos. Por isso, o desejável é sempre buscar um resultado primário com superávit, a fim de se gerar uma “poupança” para pagar os juros da dívida pública e reduzir o endividamento do governo no médio e longo prazos. Atenção O crescimento da dívida traz menor credibilidade e afasta investidores que ficarão temerosos quanto ao futuro do País. É por isso que, quando os resultados fiscais estão ruins, governos respon- sáveis optarão por uma política fiscal restritiva (contracionista), mesmo que ocorra redução da atividade econômica no curto prazo. Vale destacar que fica claro, nesse ponto, o trade-off entre inflação e cresci- mento econômico: o aumento dos gastos do governo e a diminuição dos impostos geram um aumento da atividade econômica (elevando o emprego), contudo, isso pode trazer o crescimento da inflação. Por outro lado, quando a inflação está elevada, uma das formas de controlá-la é reduzir os gastos do governo e aumentar os impostos, que reduzem a atividade econômica e, consequentemente, o emprego. Assimile O aumento da Demanda Agregada resultante de uma política fiscal expansionista acontece numa velocidade maior do que o aumento da Oferta Agregada, o que traz inflação. E como está a questão fiscal brasileira? Infelizmente, nada bem. De forma resumida, podemos dizer que tanto a arrecadação quanto os gastos governamentais brasileiros têm problemas de quantidade e de qualidade, ou seja, a política fiscal brasileira apresenta algumas injustiças que precisamcomunicações, intermediação financeira, imobi- liárias, hospedagem e alimentação, reparação e manutenção, serviços pessoais, governo e outras atividades afins (FREITAS, [s.d.]). Já para o consumidor, o custo de oportunidade representa a satisfação que ele deixou de obter ao abrir mão de um produto para adquirir outro. Essa é uma das razões pelas quais usamos nossos recursos financeiros para a aquisição de coisas diferentes: cada indivíduo tem uma escala de prioridades diferente e vai usar seu dinheiro para adquirir os bens e serviços em uma combinação que maximize sua satisfação individual. Assimile Por falar em bens e serviços, você sabe como a economia os diferencia? Esse é um tema importante, mas que não apresenta dificuldade: os bens são produtos tangíveis (que existem fisicamente, que podem ser tocados), por isso podem ser armazenados, transportados e sua posse pode ser transferida. Existe uma classificação fundamental em relação aos bens: se eles são bens de consumo ou bens de capital. Os bens de consumo atendem diretamente à satisfação das necessidades humanas, como os alimentos, as roupas, etc., enquanto os bens de capital não satisfazem diretamente as necessidades humanas, pois são utilizados para produzir outros bens: máquinas de uma indústria, tratores, etc. O investimento em bens de capital é fundamental para o desenvolvimento de um país, pois é o conjunto deste que constitui a “capacidade produtiva” de uma sociedade e, junto com os recursos humanos, determinam o nível de riqueza desta sociedade. Já os serviços são produtos intangíveis, ou seja, uma vez que um serviço é prestado, ele desaparece. Dessa forma, os serviços não podem ser armazenados ou transportados, nem sua posse pode ser transferida. A forma como os fatores de produção é gerida para a produção dos bens e serviços está ligada com os sistemas econômicos (socialismo ou capitalismo). 15 Vamos compreender esse ponto? Desde o início da história da humanidade, diversos pensadores se dedicaram a entender os processos econômicos. Na Grécia antiga, alguns dos filósofos dedicaram parte dos seus estudos ao tema, assim como na Arábia e em outras regiões. Há referências a processos econô- micos no antigo testamento da Bíblia e em outros escritos da época. Na Idade Média, os escolásticos e, a partir do século XV, escolas de pensamento como os mercantilistas e os fisiocratas estabeleceram teorias tentando responder qual a melhor forma de organizar os fatores produtivos em uma sociedade. Ao longo de 150 anos, entre meados do século XIX e até o final do século passado, muitos defenderam que uma economia centralizada (o sistema socialista) apresentaria resultados superiores aos da economia de mercado (o sistema capitalista). Mas o que seria um sistema socialista? De acordo com a teoria de Karl Marx, sua característica fundamental seria o controle gover- namental da produção e da distribuição dos bens em sistema de igualdade e cooperação, ou seja, o governo tem o papel de planejar as questões econô- micas (planejamento centralizado), havendo uma predominância da proprie- dade pública (governamental) dos fatores de produção (VASCONCELOS; GARCIA, 2011). O primeiro país do mundo a implementar as ideias de Marx foi a Rússia, após a revolução de 1917, que se tornou União Soviética (URSS) em 1922. O poderio militar da URSS colaborou para que, após o final da 2ª Guerra Mundial, diversos países adotassem os ideais socialistas, tais como Ucrânia e Tchecoslováquia, entre outros, estabelecendo a chamada cortina de ferro. Um dos processos mais emblemáticos do mundo durante a chamada Guerra Fria foi a construção do muro de Berlim, em 1961, para impedir a fuga dos cidadãos da Alemanha Oriental (socialista) para a Alemanha Ocidental, capitalista (a Alemanha fora dividida em duas, no final da 2ª Guerra Mundial). A partir do final da década de 1980, muitas nações socialistas como a União Soviética, a Alemanha Oriental e países do Leste Europeu passaram a abandonar o sistema socialista, adotando, gradualmente, o capitalismo, sendo dois processos marcantes da época a perestroika na Rússia e a queda do muro de Berlim na Alemanha. Qual a razão para ter havido uma diminuição no número de países que adotam o sistema socialista? Essa é uma pergunta muito difícil de ser respon- dida, mas, em termos técnicos, os índices de produtividade das economias socialistas sempre foram menores do que os das economias capitalistas, e isso pode ser associado a diferentes fatores, sendo que dois deles merecem destaque. Vamos a eles? 16 Por mais que um técnico governamental possa ter acesso a diferentes estudos e projeções, ele não poderá prever como os agentes se comportarão. Por isso, ao dar liberdade para que os agentes possam utilizar os recursos produtivos disponíveis, será a sociedade que, de uma forma dinâmica, encontrará as melhores respostas para as perguntas fundamentais: 1- o que produzir?; 2- quanto produzir?; 3- como produzir?; e 4- para quem produzir?. O segundo deles é o sistema de preços (muito perceptível no sistema capitalista), que acaba sendo um conjunto de incentivos para direcionar o uso dos recursos produtivos, pois tanto as necessidades humanas quanto a disponibilidade deles mudam, fazendo com que a alteração de preços acabe equilibrando o mercado. Reflita Enquanto muitas pessoas defendem que a solução dos problemas econômicos passa pela maior presença do Estado na economia, há outro grupo defendendo o anarquismo e pregando a extinção do Estado, situação em que cada um fica responsável por resolver seus problemas individualmente. O que você acha: seria melhor ficar tudo na mão do Estado, o Estado deveria desaparecer, ou seria bom definir que o Estado atue em áreas específicas? Reflita sobre o assunto! No capitalismo, ao contrário do socialismo, o peso do governo é reduzido, e os agentes possuem liberdade de escolha, uma vez que existe a posse privada dos fatores de produção. Por isso, as empresas buscarão o lucro como recom- pensa de sua eficiência (ele é o seu incentivo), o que gera um ambiente em que a competição entre as empresas é estimulada e o sistema de preços (pela relação entre a oferta e a demanda por bens e serviços) é quem direciona o funcionamento do mercado. No sistema capitalista, o uso dos fatores de produção é remunerado (pois a propriedade desses recursos produtivos é privada). Para entender essa relação, é fundamental a compreensão do fluxo circular de renda. Vamos a ele? Você já sabe que os fatores de produção (terra, capital e trabalho) são utilizados de forma combinada para produzir bens e serviços. Ocorre que esses recursos produtivos são propriedade do agente econômico “Família”, correto? Para simplificar, vamos considerar que, em uma economia, existem apenas dois tipos de agentes: as famílias e as empresas (portanto, nessa simpli- ficação, imaginaremos uma economia sem os agentes econômicos governo e resto do mundo). Como se dará a relação entre eles? 17 Lembre-se que todos os recursos produtivos (fatores de produção) pertencem às famílias. Dessa forma, as empresas terão que adquirir os fatores de produção disponibilizados pelas famílias e utilizá-los para produzir os bens e serviços. Como a família é o agente consumidor de bens e serviços, aqueles bens e serviços produzidos serão adquiridos pelas pessoas físicas (agente econômico “família”) para a satisfação de suas necessidades no mercado de bens e serviços. Esse processo é chamado de fluxo real da economia, pois envolve a disponibilização de recursos produtivos (fatores de produção) pelas famílias e a produção e distribuição de bens e serviços pelas empresas, estando representado na Figura 1.1. Figura 1.1 | Fluxo circular de renda Fonte: adaptada de Nogami e Passos (2016, p. 64). Mas como as famílias pagam pelos bens e serviços que vão adquirir? Se você observar a Figura 1.1, verá que existe um outro fluxo, que começa com o pagamento das empresas às famíliasser corrigidas. Na verdade, há quatro problemas fundamentais na política fiscal 116 brasileira, dois em relação aos gastos e dois em relação às receitas. Vamos começar falando da arrecadação? Grande parte do volume arrecadado com tributos no Brasil vem de impostos sobre o consumo, ao contrário de países de tributação mais justa, onde os impostos sobre a renda e sobre a posse representam uma parcela muito mais significativa. Além disso, os impostos sobre o consumo aumentam o custo dos produtos e prejudicam ainda mais as famílias mais pobres. Exemplificando Imagine que o imposto inserido em uma latinha de cerveja seja de 18%. Se uma latinha dessas é vendida por R$ 10,00, qualquer consumidor paga R$ 1,80 (18% desses R$ 10,00) de imposto. Assim, se uma pessoa ganha R$ 1.800,00 e compra uma latinha de cerveja, ela está compro- metendo 0,1% de sua renda (R$ 1,80 dividido por R$ 1.800,00) para o pagamento de imposto a cada cerveja adquirida, enquanto uma pessoa que ganha R$ 7.200,00 por mês compromete 0,025% de sua renda com imposto (R$ 1,80 dividido por R$ 7.200,00) a cada latinha adquirida. Ou seja, proporcionalmente (à renda), pagar R$ 1,80 é mais “pesado” para quem ganha R$ 1.800,00 por mês do que para quem ganha R$ 7.200,00 por mês. Isso comprova que os impostos sobre o consumo (que são a maioria no Brasil) são mais injustos, em termos de capacidade de pagamento. O segundo problema é que nossa carga tributária (percentual total de tributos, com relação ao PIB, pago por todas as empresas e pessoas físicas do país) é extremamente elevada quando comparada a outros países (se os gastos públicos são tão elevados, isso não poderia ser diferente, não é mesmo?), e a nossa legislação é uma das mais complexas do mundo, o que faz com que as empresas sejam obrigadas a contratar uma grande quantidade de advogados e contadores em vez de administradores e engenheiros, por exemplo. Esse aspecto diminui muito nossa competitividade, o que desestimula outros empreendedores a abrirem empresas no país. Para solucionar esse problema, em termos gerais, é necessário promover uma reforma tributária que simplifique os tributos, tornando o peso maior sobre impostos de Renda e propriedade e diminuindo o peso dos Impostos sobre consumo, pois a simplicidade do sistema tributário é fator crucial para o desenvolvimento de negócios em qualquer país. No Brasil, as áreas tributárias, que não geram nenhum valor para as empresas, são tão grandes quanto áreas estratégicas, como marketing e logística (ENDEAVOR BRASIL, 2019). Em 2019, no ranking elaborado pela Endeavor, o Brasil manteve-se 117 entre os 10 piores países do mundo em horas utilizadas para o pagamento de tributos, ocupando o 184º lugar, mesmo com a queda de 1.958 horas, em 2018, para 1.500 horas, em 2019 (ENDEAVOR BRASIL, 2019). Em 2017, na Argentina, por exemplo, o tempo médio era de 311,5 horas/ano, enquanto no México, o número caia para 240,5 horas/ano (MOVIMENTO BRASIL COMPETITIVO, 2017). Por parte dos gastos, o primeiro problema é o grande volume dos gastos públicos, causado pelo enorme tamanho do Estado brasileiro. Se isso signi- ficasse bons serviços, tudo bem, mas essa não é a realidade, não é mesmo? O outro aspecto é que boa parte do orçamento público está engessado por gastos obrigatórios cujo crescimento independe do volume arrecadado. Como consequência, eles estão correspondendo a uma parcela cada vez maior do PIB com crescimento, cada vez mais destacado, dos gastos previ- denciários, que cresceram a uma média de 13,7% ao ano entre 1995 e 2017, muito acima da inflação (ROQUE, 2019). Figura 4.4 | Evolução de quatro rubricas das despesas correntes do governo federal 2000 a 2018: Fonte: adaptada de Brasil (2019a; 2019b). Assimile Os gastos do governo brasileiro são elevados e o orçamento público é engessado (travado) por gastos obrigatórios concentrados nas despesas correntes (aquelas de custeio para a manutenção das atividades da administração pública, como os gastos com: pessoal, juros da dívida, previdência, serviços terceirizados, energia, telefone, etc.), que são de difícil redução, em caso de queda da arrecadação. Pelo lado da receita, os tributos são complexos e grande parte da carga tributária é de impostos indiretos. 118 Esse problema já é conhecido há muito tempo, e muitos estudos indicam a necessidade de amplas reformas para se corrigir essas distorções que limitam o crescimento da nossa economia. Por exemplo, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, apontou a necessidade de uma reforma tributária que restaure a sustentabilidade fiscal, além de reformas estruturais que melhorem o crédito, a infraestrutura e a liberali- zação do comércio (BASILE, 2018). Além dessas, reafirmou a importância da reforma da Previdência Social e a continuidade da política monetária para estimular a economia (BASILE, 2018). O reflexo dessa situação pode ser visto no valor destinado a investimentos públicos (aplicações de recursos do Estado que impulsionam o desempenho econômico – como as feitas em: infraestrutura de transporte, energia, comunicação, saneamento, pesquisa e desenvolvimento, etc. – estimulando o investimento privado), que apresentou queda significativa a partir de 2010, como pode ser visto na Figura 4.5: Figura 4.5 | Gastos do governo federal com investimentos 2000 a 2017 Fonte: adaptada de Brasil (2019a; 2019b). Percebe o quanto a Política Fiscal pode influenciar o desempenho econô- mico de um país? Por isso, é importante que você estude os materiais desta disciplina para se aprofundar nesses conhecimentos que poderão fazer muita diferença na sua carreira. Bons estudos! Sem medo de errar Muito bem, agora que você já entendeu os desafios relativos à política fiscal, é hora de ajudar a resolver a questão enfrentada pela Lúcia. Vamos 119 relembrar a situação? Ela é a proprietária e a gerente da Empresa S que fornece refeições em larga escala e que cresceu muito nos últimos anos tendo as empresas contratadas pelo governo do Estado como principais clientes. Apesar dos últimos anos terem sido de intenso crescimento, nos últimos meses, a empresa enfrentou dificuldades em receber alguns pagamentos e passou a ouvir de vários clientes (construtoras que prestam serviço para a esfera pública) que o governo estava atrasando os pagamentos. Seus temores aumentaram quando, após as eleições perdidas pelo atual governador, o candidato ganhador declarou em entrevista coletiva que, após estudo realizado pela equipe de transição, precisaria adotar uma política fiscal restritiva nos próximos anos, pois o governo anterior havia conduzido a política fiscal de forma irresponsável, deixando tanto uma enorme dívida quanto uma perspectiva de déficit nas contas públicas para os próximos anos. Diante desse cenário, a pergunta que Lúcia precisa responder é: ela deve continuar focando as empresas contratadas pelo governo como principais clientes ou fazer algum ajuste na estratégia da sua empresa? Desequilíbrios fiscais são enfrentados por governos comprometidos a resolver esses problemas por meio de medidas de austeridade. Por isso, a redução dos gastos do governo estadual é certa! Continuar apostando nas empresas contratadas pelo Estado como clientes confiáveis não é uma estratégia viável. Por isso, a empresa precisa se preparar para um cenário de redução da demanda, já que as políticas fiscais contracionistas diminuirão a atividade econômica, tanto pela redução dos gastos do governo quanto pelo aumento nos tributos. Perceba a importância de se conhecer os mecanismos à disposição do governo que compõem a política fiscal e os efeitos que eles causam sobre a economia como um todo e sobre empresas específicas em particular. Além disso, note como esse conhecimento está ligado a situações reais e como o domínio desses assuntos fará diferença na sua vida profissional. Faça valer a pena 1. O termo custo Brasil refere-se a uma sériede aspectos que dificultam a exportação de produtos brasileiros ou a competição de produtos nacionais com os produtos importados. Para a diminuição desses custos, é necessária a realização de reformas. Em relação à arrecadação tributária brasileira, quais aspectos fundamentais têm sido obstáculos e, por isso, precisam ser alterados? 120 a. A maior parte da arrecadação vir de impostos sobre renda e posse; e a complexidade dos tributos que eleva nossa competitividade. b. A maior parte da arrecadação vir de impostos sobre o consumo; e a complexidade dos tributos que diminui nossa competitividade. c. A maior parte da arrecadação vir de impostos sobre o consumo; e a simplicidade dos tributos que diminui a arrecadação. d. Os elevados gastos do governo com a aposentadoria de políticos e militares; e a falta de investimentos em educação. e. A elevada desvalorização da moeda nacional que dificulta nossas exportações; e a legislação que dificulta a condenação de corruptos. 2. Em artigo recente, Marcos Lisboa, Marcos Mendes e Marcelo Gazzano apontaram que “em 2013 e 2014, a economia brasileira desacelerou apesar da forte expansão dos gastos públicos. O déficit primário estrutural saiu de um resultado próximo de zero em 2013 para um déficit de quase 2% do PIB, e isso não impediu que entrássemos em uma das maiores recessões de nossa história” (LISBOA; MENDES; GAZZANO, 2019, [s.p.]). Tomando como referência os efeitos de uma política fiscal excessivamente expansionista no Brasil ao longo do século XX, classifique as afirmativas a seguir em (V) verdadeiras ou (F) falsas. ( ) O aumento de gastos públicos levou a déficits fiscais. ( ) Os déficits fiscais foram financiados pela desvalorização cambial. ( ) O financiamento da dívida pública com aumento da quantidade de moeda ajudou a controlar a inflação. ( ) A diminuição da intenção de compra contribuiu para aumentar a inflação. Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta de classificação, de cima para baixo. a. V – F – F – F. b. F – V – F – F. c. V – V – V – F. d. V – F – V – V. e. F – F – V – V. 121 3. A política fiscal ocupa um papel central nos instrumentos que o governo tem à sua disposição para atuar na economia, em especial no estímulo à atividade econômica. A política fiscal brasileira apresenta alguns problemas graves e de difícil solução. Tomando como referência os problemas fiscais brasileiros, classifique as afirmativas a seguir em (V) verdadeiras ou (F) falsas ( ) Gastos públicos crescentes. ( ) Orçamento público engessado por gastos obrigatórios. ( ) A maior parte da arrecadação vem de impostos sobre a renda. ( ) Sistema tributário complexo. Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta de classificação, de cima para baixo. a. V – V – F – V. b. F – F – F – V. c. F – F – V – V. d. V – V – V – F. e. V – F – V – F. 122 Seção 2 Política monetária e política de rendas Diálogo aberto Olá, tudo bem? Você já percebeu que, de alguns anos para cá, as manchetes sobre a inflação não são mais tão frequentes? Você saberia dizer se isso é bom ou ruim? E sobre a taxa SELIC, você já ouviu falar? Sabia que o resultado de muitos negócios é afetado pelos juros? Essas e outra importantes perguntas serão respondidas neste encontro. Para nos ajudar a respondê-las, quero que você conheça a Eliane, que concluiu o curso superior e recentemente fez uma pós-graduação em gestão de empresas. Ela recebeu a notícia de que seus pais e tios juntaram as economias de vários anos e compraram a Empresa C, uma loja que vende eletrodomésticos que estava à beira da falência. Logo em seguida, Eliane foi convidada a ser o sócio-gerente da empresa, mas, como não tinha recursos financeiros para investir, sua parte na sociedade seria adquirida pelas suas horas de trabalho. Com isso, ela precisaria fazer a empresa ter sucesso para ter alguma remuneração. Ao analisar as contas da empresa, Eliane percebeu que o fracasso da gestão anterior teve duas causas: a empresa tinha problemas sérios de gestão; e ela acabou enfrentando um grave momento de recessão no país (fruto de um período de sucessivas políticas monetárias contracionistas), tendo uma elevada dívida com fornecedores, um grande volume de produtos em estoque e gastos fixos elevados. Eliane sabe que terá o apoio da família para realizar as mudanças que a Empresa C precisa, mas estava em dúvida sobre o cenário econômico, e procurou se informar sobre o panorama atual e as perspectivas futuras. Sua pesquisa indicou que as políticas contracionistas foram necessárias para controlar a inflação, mas, que agora, como a inflação do país está sob controle, as expectativas dos agentes são bastante positivas para que o governo passe a promover política monetária expansionista. Frente a essa expectativa sobre a economia do país, e sabendo que um aquecimento da atividade econômica é fundamental para a recuperação financeira da Empresa C, Eliane poderia se beneficiar dessa política monetária expansionista para fazer a empresa vender mais? E sobre a dívida acumulada da Empresa C: Eliane teria mais facilidade em pagá-la, caso o governo faça política monetária expansionista? Por qual motivo? 123 Para responder a essas perguntas, você precisará entender os conceitos fundamentais da política monetária, bem como diferenciar os motivos que levam os governos a aplicarem uma política expansionista ou contracionista, bem como os efeitos de cada uma dessas políticas. Esses conhecimentos são fundamentais para quem quer assumir posições de comando dentro de qualquer empresa. É esse o seu caso? Então, vamos lá! Não pode faltar Olá, como você está? Chegou o momento de conhecermos uma política essencial que mostra a atuação do governo na economia: a política monetária. Vamos a ela? Money, moneda, münze… sabe o que essas palavras têm em comum? Todas elas têm o mesmo significado: moeda. E é daí que vem o tema principal desta unidade: a política monetária. O primeiro passo para entendermos a mecânica desta política é entender o papel fundamental da moeda. Você sabe qual é? A resposta é: ser meio de troca! Não há como precisar uma data, mas, em algum momento da história, as pessoas começaram a perceber que utilizar uma mercadoria (no caso, a moeda) para facilitar o processo de troca diminuía o tempo gasto na realização das transações, o que liberava mais tempo para ser gasto em atividades produtivas e aumentava a produtividade. Com isso, o uso da moeda se incorporou rapidamente à vida das pessoas. Assimile Além de meio de troca, a moeda também tem as funções de ser reserva de valor e unidade de conta. A função de reserva de valor da moeda quer dizer que o seu poder de compra se mantém no tempo, sendo uma forma de se medir a riqueza. Assim, se R$ 100,00 hoje compram 5 unidades da mercadoria A, seis meses depois, os mesmos R$ 100,00 também poderiam ser usados para a aquisição de 5 unidades da merca- doria A (caso não houvesse inflação nesse período). Já a função de unidade de conta refere-se ao fato de a moeda ser o referencial das trocas, ou seja, o padrão para cotação das mercadorias (os preços dos bens e serviços são expressos em valores monetários). Cabe destacar que independentemente da forma como ela é utilizada (meio físico ou digital), a moeda continua tendo como principal função ser instrumento (meio) de troca. 124 Imagine Por ser meio de troca, o dinheiro, em si, só tem valor quando há bens ou serviços pelos quais ele possa ser trocado. Imagine as seguintes situa- ções que parecem roteiro de cinema, mas que ajudam a entender a função meio de troca do dinheiro: na primeira, um avião cai no deserto e não há como se comunicar com ninguém, sendo que, para se salvar, você precisará caminhar vários quilômetros até encontrar uma civili- zação. Entre carregar uma caixa cheia de moedas ou água, qual seria sua escolha? Agora, imagine que você estivesse em um barco que naufragou em um local extremamentefrio e você só tivesse notas (moeda) para acender o fogo: o que você faria? Esses exemplos mostram a função fundamental da moeda, que é facilitar o comércio entre os agentes; não havendo bens para comprar, a moeda perderia a sua função de meio de troca. Depois que definimos as funções da moeda, já podemos falar sobre política monetária, que está relacionada com o controle da quantidade de dinheiro na economia, sendo que isso é feito pela autoridade monetária do país, o Banco Central (BC). Esse termo, autoridade monetária, tem a ver com o fato de que o Banco Central é o responsável por controlar a taxa de inflação, principalmente com o uso de política monetária. Além disso, saiba também que as notas e moedas não podem ser emitidas por bancos privados, pois o Estado possui o monopólio das emissões. Nós já citamos a inflação, mas, agora, precisamos nos aprofundar um pouco mais sobre esse tema. Vamos lá? Em primeiro lugar, grande parte da população brasileira não viveu os anos de elevada inflação, por isso não se lembra dos danos causados por ela: a corrosão do poder de compra dos trabalhadores (especialmente os de renda mais baixa) e o abandono de muitos investimentos produtivos (existem outros, mas esses são os princi- pais). Vamos entender melhor esses processos? Em uma economia com inflação elevada, a taxa de juros precisa ser alta para compensar a perda do valor da moeda. Isso faz com que os recursos deixem de ser investidos em atividades produtivas para serem direcionados em aplicações nos bancos. Se um agente pode receber mais de 10% ao ano, em um título do governo, por qual motivo ele se arriscaria a investir esse dinheiro na construção de uma nova fábrica, por exemplo? E tem mais: a história mostra que a inflação só foi controlada em muitos países após intensas crises, o que gera incerteza quanto ao futuro, fator que também desestimula os investimentos produtivos das empresas. Como resultado, muitos empregos 125 deixam de ser gerados, a produção diminui e o país empobrece no longo prazo. A perda do poder de compra do trabalhador pode ser facilmente demons- trada por um exemplo: Exemplificando Desde o início da década de 1980 até 1994, a inflação no Brasil, disparou com taxas chegando, em alguns momentos, a quase 100% ao mês (o que fazia com que o preço de alguns produtos dobrasse de um mês para outro). A inflação elevada obrigava que houvesse uma correção mensal dos salários, mas isso não mantinha o poder de compra dos trabalhadores, pois havia uma diferença entre o dia em que o valor do salário era definido (dia 20 de um mês, por exemplo) e o dia do recebi- mento (considere que seria no dia 5 do mês seguinte). Nesse espaço de tempo grande parte do poder de compra se perdia. Outro dano ao trabalhador era que, com a inflação elevada, os preços mudavam diariamente, obrigando o trabalhador a fazer suas compras no mesmo dia do recebimento do salário, pois no dia seguinte o seu dinheiro não seria mais suficiente para comprar a mesma quantidade de produtos. Já os trabalhadores de maior renda tinham acesso a correções diárias de suas aplicações financeiras, o que diminua o dano da inflação para essas pessoas. Por causa desses danos (o baixo nível de investimentos produtivos e a perda de poder de compra de boa parte da população), a inflação é consi- derada como uma das maiores responsáveis pelo aumento da desigualdade social no Brasil, em especial, no período entre o início da década de 1980 até 1994. Nessa época, o descontrole inflacionário gerou um aumento na desigualdade social e redução nos investimentos, piorando a condição de vida da população. Por isso, o controle da inflação, a partir de 1994 (fruto do Plano Real), permitiu que o efeito de outras políticas públicas fosse intensifi- cado na redução da desigualdade social registrada no Brasil, a partir do final do século passado. Desde 1999 o Brasil está sob o regime de metas de inflação para orientar sua política monetária. Mas você sabe o que isso quer dizer? A meta se refere à inflação acumulada em um ano e utiliza o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A cada mês de junho, o Conselho Monetário Nacional (CMN) define a meta para a inflação dos três anos seguintes: por exemplo, em junho de 2019, o CMN definiu a meta para 2022. A partir da definição do 126 valor dessa meta, há um intervalo de tolerância, também definido pelo CMN (ou seja, há um percentual para cima e para baixo do valor da meta, que a inflação pode atingir, sem comprometer a meta inflacionária prevista). Nos últimos anos, o intervalo definido pelo CMN tem sido de 1,5% para cima e para baixo. Exemplificando A meta da taxa da inflação brasileira informada pelo Banco Central para 2020 é de um IPCA de 4,00% ao ano, com uma tolerância de 1,5%, ou seja, aceita-se que a inflação anual do Brasil em 2020 fique dentro do intervalo de 2,5% (4% da meta menos 1,5% da tolerância) a 5,5% (4% da meta mais 1,5% e tolerância) (BCB, 2019). Para 2021, a meta anual é de 3,75% e de 3,5% para 2022 (BCB, 2019). No final de cada ano, se a inflação estiver fora do intervalo de tolerância, o presidente do Banco Central tem que enviar carta aberta ao Ministro da Fazenda e presidente do CMN, que apresente as razões do descumprimento da meta, bem como as providências a serem tomadas para normalizar a situação. Além disso, ele deve informar o prazo esperado para que as provi- dências surtam efeito. O estabelecimento das metas inflacionárias reduz incertezas e melhora a capacidade de planejamento das famílias, empresas e governo, pois a meta pode funcionar como uma âncora para as expectativas dos agentes sobre a inflação futura, desde que desvios da inflação em relação à meta sejam corri- gidos pelo BC. Dessa forma, a redução da incerteza faz com que as pessoas possam planejar melhor seu futuro e as famílias não tenham sua renda real corroída, o que acaba contribuindo para o crescimento da economia no longo prazo. Assimile O regime de metas de inflação é utilizado por diversos países com o objetivo de estabelecer um ambiente de previsibilidade para a economia. O Brasil utiliza esse regime desde 1999. A Figura 4.6 mostra a meta (linha contínua no meio do gráfico), os limites, superior e inferior (linhas tracejadas acima e abaixo da meta, respectiva- mente), e o comportamento do IPCA (linha que sobe e desce e, efetivamente, mostra o comportamento da inflação, ao longo dos anos), de dezembro de 2009 até dezembro de 2019, bem como a projeção do mercado para 2020. 127 Figura 4.6 | Comportamento da inflação Fonte: BCB ([s.d.]). A inflação pode ter diferentes causas. Vamos conhecer uma das princi- pais? Para isso, vamos adaptar a ideia desenvolvida por Milton Friedman, prêmio Nobel de economia: imagine uma ilha onde não ocorra nenhuma importação e exportação, ou seja, todos os produtos produzidos na ilha são vendidos ali, bem como tudo aquilo que é consumido na ilha é produzido ali dentro (ou seja, não há exportação nem importação). Há uma moeda na ilha, cuja função principal é servir de instrumento de troca. Um dia, de forma inesperada, cai dinheiro do céu (de forma literal), de forma que cada um dos habitantes da ilha tenha um aumento instantâneo de renda de 20%. O resultado desse aumento de renda será um aumento na demanda (intenção de compra de bens e serviços). Os vendedores, ao perceberem esse aumento na demanda, vão trazer um aumento nos preços daquilo que vendem, pois é mais fácil (e rápido) ampliar os preços do que aumentar a quantidade produ- zida. Como os habitantes tiveram um aumento de renda, o resultado será que o preço dos produtos e serviços negociados na ilha sofrerá um aumento na mesma proporção do aumento da quantidade de moeda em circulação (MEDEIROS, 2019). Interessante, não é mesmo? Essa é uma situação imaginária, mas cujas conclusões são muito úteis: perceba que o aumento da quantidadede moeda em circulação não gerou 128 aumento efetivo na renda (nem da produção), apenas da inflação, pois o aumento nos preços fez com que a capacidade de compra da população não se alterasse (MEDEIROS, 2019). A principal constatação dessa história apresentada é que sempre que ocorre um aumento da oferta de moeda (estoque total de moeda na economia) que não corresponda a um aumento na quantidade produzida em um país, não haverá aumento na renda, apenas na inflação (MEDEIROS, 2019). Reflita Além do excesso de moeda (relacionado à política monetária), o aumento do gasto público e a redução de tributos (que configuram uma política fiscal expansionista) também trazem inflação (por aumentarem a intenção e compra por bens e serviços). Dessa forma, qual a impor- tância de uma harmonia entre as políticas fiscal e monetária? Em que medida ações populistas de estímulo ao consumo ou de redução de impostos podem comprometer o combate à inflação e acabar gerando instabilidades e crises? Por isso que foi exposto até aqui (o excesso de moeda causa inflação), os instrumentos da política monetária tentam reduzir a quantidade de moeda em circulação para controlar o aumento generalizado e persistente dos preços (a inflação). Mas quais as ferramentas mais importantes para controlar a quantidade de dinheiro em circulação? Vamos ver duas ferramentas, que correspondem aos dois principais instru- mentos utilizados pelo BC para controlar a quantidade de moeda e, conse- quentemente, a inflação: a taxa de juros e as condições de oferta de crédito, especialmente a taxa de recolhimento compulsório dos bancos comerciais. Você lembra que a moeda tem como principal função ser meio de troca? E se a considerarmos como uma mercadoria, qual, então, seria o seu preço? Se você pensou em taxa de juros, acertou, pois, de forma similar aos bens e serviços, é a taxa de juros (ou, o preço do dinheiro) que vai equilibrar as forças de demanda e oferta de moeda. Pense em um mercado simples: quanto mais pessoas oferecerem recursos monetários para serem emprestados, menor será a taxa de juros (ou seja, menor será o preço do dinheiro). Por outro lado, quanto mais gente quiser tomar dinheiro emprestado, maior será a taxa de juros (o preço desse dinheiro será maior). Assim, em um mercado em que não houvesse intervenção do governo na taxa de juros, a interação entre os agentes determinaria a taxa de juros de equilíbrio. 129 Contudo, o Banco Central é um agente com tanto poder que as taxas de juros que ele utiliza (para remunerar os títulos públicos) acabam por balizar as taxas aplicadas por outros agentes. Quer ver? Existe uma taxa muito conhecida sobre a qual você já deve ter ouvido falar: a SELIC, que é a taxa de financiamento do Tesouro Nacional para operações financeiras feitas de um dia para o outro, utilizada nos empréstimos que ocorrem entre os bancos ao final de cada dia. O lastro dessa taxa são justamente os títulos públicos federais, listados e negociados no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (SELIC). Agora, imagine que você dispõe de um recurso para investimento e pode emprestá-lo para o governo (comprando um título público). Você só vai emprestar esse dinheiro ao governo (comprar um título público), se ele trouxer uma remuneração atrativa para você (ou seja, se os juros forem altos). Assim, se os juros forem altos (se taxa SELIC estiver alta), você vai preferir emprestar recursos ao governo, em vez de manter o dinheiro consigo mesmo (para adquirir bens e serviços), ou seja, ao adquirir títulos públicos do governo, o dinheiro que está em circulação diminui (o dinheiro deixa de ser usado por você para a aquisição de um bem ou serviço, sendo utilizado para a aquisição de um título governamental). E se o governo aumenta a taxa SELIC, o que acontece no mercado produ- tivo? Lembre-se que grande parte das compras das empresas (equipamentos, instalações etc.) tem valor (preço) unitário elevado, o que também acontece com alguns itens adquiridos pelas famílias (eletrodomésticos, automóveis, casa própria etc.). Assim, esses bens mais caros, normalmente, são adqui- ridos de forma parcelada. Por esse motivo, se houver um aumento da taxa de juros, o valor à vista desses bens não muda, mas o valor das parcelas crescerá (caso a compra tenha acontecido a prazo). Isso levará a uma diminuição na demanda (intenção de compra) por esses produtos, forçando os empresários a diminuírem o preço que estão cobrando pelas suas mercadorias (ou seja, haverá um deslocamento da curva da demanda agregada para a esquerda, o que fará com que o novo preço de equilíbrio do mercado seja menor). Cabe destacar também que, além disso, quando a taxa de juros está maior, muitos investidores direcionam seus recursos monetários para investimentos nos bancos (por meio de aplicações financeiras que são remuneradas com juros), em vez de utilizá-los em investimentos produtivos (assim, a aquisição de máquinas e equipamentos para aumentar a produção é menor, o que diminui a produção desses bens, aumentando o desemprego). Dessa forma, quando o governo vende um título público, ele está fazendo política monetária contracionista (ou seja, ele está retirando moeda de circulação da economia), cujo principal objetivo é o controle da inflação. 130 Contudo, outro efeito dessa política é a diminuição da atividade produtiva, que aumenta o desemprego. Em contrapartida, o governo pode fazer política monetária expansionista (ou seja, aumentar a quantidade de moeda em circulação), comprando de volta os títulos públicos. Mas como isso acontece? Depois de 5, 10 anos que o governo vendeu um título público, ele deve comprá-lo de volta, pagando o seu valor inicial com o acréscimo de juros. Quando isso acontece, o governo coloca moeda na mão daqueles que detinham o título público, o que faz o preço do dinheiro (ou seja, a taxa de juros, cair). Com juros menores, os agentes econômicos vão querer comprar mais mercadorias, o que é ótimo para a produção e para o emprego, mas é ruim para a inflação (os preços tendem a subir). Assim, quando o governo compra um título público, ele está fazendo política monetária expansionista (ou seja, ele está colocando mais moeda em circulação da economia), sendo que os efeitos dessa política são a ampliação inflacionária e o aumento da atividade produtiva, que diminui o desemprego. Os efeitos negativos (aumento da inflação) da política monetária expan- sionista são o motivo principal de o governo não imprimir mais dinheiro para dar aos pobres (certamente, em algum momento da sua vida, você já deve ter se perguntado por qual motivo o governo não imprime mais dinheiro para repassar aos mais necessitados, certo?). Essa outra forma de fazer política monetária expansionista (emitir mais moeda) ampliaria a quantidade de moeda em circulação que culminaria, no final do processo, em um aumento violento de preços. Interessante, não é mesmo? Mas vamos pensar em uma coisa. A moeda (física) é a única forma de alguém pagar alguma dívida? A resposta é não! Para efetuar pagamentos, você pode tanto utilizar notas e moedas em meio físico quanto utilizar um dinheiro que está na sua conta no Banco, via transferência bancária, pagamento de boleto ou cheque (lembre-se que o cartão de crédito, como o próprio nome diz, não é moeda, apenas um facilitador do processo de pagamento). Além disso, não há lastro metálico em ouro ou prata que garanta a conversibilidade do papel-moeda, ou seja, esse sistema é integralmente fiduciário, o que signi- fica que se baseia apenas na confiança dos agentes na moeda. Pare para pensar um pouco: hoje, você carrega um número maior ou menor de notas (cédulas) do que as pessoas andavam antigamente? É quase certo que a quantidade é menor, correto? A razão disso é que os meios digitais de pagamento estão substituindo o uso de cédulas e moedas metálicas. É muito mais prático e seguro deixar o dinheiro no banco e pagar “no crédito ou no débito”, oupor outros meios digitais. 131 Sempre que falamos em recursos financeiros que são depositados nos bancos comerciais, precisamos falar também da taxa de compulsório (que também acaba sendo uma ferramenta de política monetária). Calma, o nome não é muito atrativo, mas seu entendimento é simples. Vamos a ele? Existe um processo em que os bancos comerciais acabam “criando” moeda, que se inicia com um banco comercial recebendo um depósito de um cliente qualquer. Esse banco não vai guardar todo o dinheiro que foi deposi- tado, já que repassará uma parte desses recursos financeiros para outros clientes que estão à procura de empréstimos bancários (essa é a atividade central de uma instituição bancária). O percentual a ser recolhido (ou seja, o percentual do dinheiro que foi depositado que o banco comercial não pode emprestar para outro cliente) é chamado de taxa de reserva compulsória de depósitos e é definido pelo governo. Depois de “guardar” parte do dinheiro que foi depositado (de acordo com a taxa de compulsório), os recursos finan- ceiros que foram emprestados (ou seja, o valor depositado menos o que ficou reservado no banco comercial de forma compulsória, obrigatória) circularão na economia e, de alguma forma, voltarão a ser depositados, dando início a uma nova etapa do processo. A cada etapa, uma parcela é retida no banco e o restante retorna ao sistema bancário gerando outros empréstimos, o que amplia a quantidade de moeda (chamada de moeda escritural) na economia. Complicado? Que tal alguns exemplos para que você entenda melhor esse processo? Imagine que o banco receba R$ 1.000,00 em 10 cédulas de R$ 100,00, de um depósito de um novo cliente (o cliente A). Se a taxa de reserva compul- sória (estipulada pelo governo) for de 20%, R$ 200,00 precisam perma- necer retidos no banco, obrigatoriamente. Os outros R$ 800,00 (R$ 1.000,00 depositados menos R$ 200,00 retidos) ficarão à disposição do banco e serão emprestados para outro cliente (o cliente B, por exemplo). Agora, pense comigo: quando alguém (o cliente B, por exemplo) pega algum empréstimo no banco, essa pessoa não tem o objetivo de deixar esse dinheiro embaixo do colchão, concorda? Ela vai utilizá-lo para comprar alguma coisa ou saldar alguma dívida. Assim, imagine que o cliente B tenha pego R$ 800,00 empres- tados no banco para um comprar um armário na Loja X. Esse dinheiro (R$ 800,00), então, será pago pelo cliente B à Loja X, que vai depositá-lo no banco. Assim, temos um novo depósito no banco, de R$ 800,00, feito pelo cliente Loja X. Desses R$ 800,00 depositados, 20% (ou seja, R$ 160,00) são guardados de forma compulsória e a diferença (R$ 800,00 – R$ 160,00 = R$ 640,00) serão emprestados a outro cliente (o cliente D, por exemplo), que o utilizará para pagar por uma impressora adquirida na Loja Y, que depositará o valor no banco. O processo continua e dos R$ 640,00 depositados pela Loja Y, 20% (ou seja, R$ 128,00) são reservados compulsoriamente e, a diferença, 132 R$ 512,00, serão emprestados para o cliente E comprar uma máquina de café expresso na Loja W, que depositou esse valor no banco, que reservou R$ 102,40 de forma compulsória e emprestou R$ 409,60… Este ciclo continua até que seu efeito multiplicador termine. Quadro 4.1 | Criação de moeda escritural pelos bancos Cliente de- positário Valor de- positado (R$) Compulsó- rio (20%) (R$) Dinheiro a ser empres- tado (R$) Cliente tomador do emprésti- mo (R$) Loja que recebeu o dinheiro Novo depósito (R$) Cliente A 1.000,00 200,00 800,00 Cliente B (800,00) Loja X (800,00) 800,00 Loja X 800,00 160,00 640,00 Cliente D (640,00) Loja Y (640,00) 640,00 Loja Y 640,00 128,00 512,00 Cliente E (512,00) Loja W (512,00) 512,00 Loja W 512,00 102,40 409,60… Total 2.952,00 590,40 Fonte: elaborado pelo autor. Perceba que, no exemplo trazido (ilustrado no Quadro 4.1), de uma valor inicial de R$ 1.000,00 em dinheiro (10 notas de R$ 100,00), foi criada moeda escritural adicional e, até onde podemos acompanhar pela evolução do Quadro 4.1, temos um total de R$ 2.952,00 nessa economia (afinal, o cliente A tem direito a sacar R$ 1.000,00, a Loja X tem direito a sacar R$ 800,00, a Loja Y tem direito a sacar R$ 640,00 e a Loja W tem direito a sacar R$ 512,00). Portanto, não é apenas o Banco Central (mas também os bancos comerciais) que consegue influenciar a quantidade de moeda na economia. Dessa forma, o governo também faz política monetária contracionista (diminuindo a quantidade de moeda na economia), se ele ampliar a Taxa de Compulsório, por exemplo, para 60% (Quadro 4.2), pois ele diminui o total de moeda escri- tural criada (valor dos novos depósitos), a partir de um depósito inicial. Em contrapartida, se o governo diminuir a taxa de compulsório (para 10%, por exemplo, conforme Quadro 4.3), ele estará fazendo política monetária expansionista, pois aumentará a quantidade de moeda escritural criada (valor dos novos depósitos). 133 Quadro 4.2 | Criação de moeda escritural pelos bancos, com elevação da taxa de compulsório Cliente de- positário Valor de- positado (R$) Compulsó- rio (60%) (R$) Dinheiro a ser empres- tado (R$) Cliente tomador do emprésti- mo (R$) Loja que recebeu o dinheiro Novo depósito (R$) Cliente A 1.000,00 600,00 400,00 Cliente B (400,00) Loja X (400,00) 400,00 Loja X 400,00 240,00 160,00 Cliente D (160,00) Loja Y (160,00) 160,00 Loja Y 160,00 96,00 64,00 Cliente E (64,00) Loja W (64,00) 64,00 Loja W 64,00 38,40 25,60… Total 1.624,00 974,40 Fonte: elaborado pelo autor. Quadro 4.3 | Criação de moeda escritural pelos bancos, com diminuição da taxa de compulsório Cliente de- positário Valor de- positado (R$) Compulsó- rio (10%) (R$) Dinheiro a ser empres- tado (R$) Cliente tomador do emprésti- mo (R$) Loja que recebeu o dinheiro Novo depósito (R$) Cliente A 1.000,00 100,00 900,00 Cliente B (900,00) Loja X (900,00) 900,00 Loja X 900,00 90,00 810,00 Cliente D (810,00) Loja Y (810,00) 810,00 Loja Y 810,00 81,00 729,00 Cliente E (729,00) Loja W (729,00) 729,00 Loja W 729,00 72,90 656,10… Total 3.439,00 343,90 Fonte: elaborado pelo autor. Além da política fiscal e da política monetária existe uma área de atuação do governo que precisamos conhecer: a redução da desigualdade social por meio da política de rendas ou política distributiva. Existe uma associação entre violência e desigualdade de renda (CARDIA; SCHIFFER, 2002) e a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) apontou que essa desigualdade cria obstáculos para o aumento das capacidades de 134 consumo da população de menor renda, o que reduz a demanda de bens e serviços e tira o dinamismo das economias. Além disso, também gera descon- tentamento e instabilidade política e social, que também afetam a economia dos países (ONU, 2019). Quantos problemas são advindos das desigualdades de renda, não é mesmo? Mas como obter informações sobre a desigualdade de renda? Normalmente, o primeiro indicador a ser calculado é a renda per capita, que é obtido dividindo-se o valor do PIB pelo número de habitantes do país. Esse valor dá uma ideia da riqueza média gerada por habitante, mas não fornece informações a respeito de como essa renda é distribuída. Por isso, é neces- sário calcular um indicador de desigualdade, e o mais conhecido deles é o índice de Gini, que varia de zero (igualdade absoluta) até um (desigualdade máxima). No Brasil, o Índice de Gini foi estimado em 0,545, em 2018, o que o torna um dos países mais desigual do mundo (IBGE, 2019). A desigualdade de renda se manifesta também no fato do Brasil ter, em 2018, cerca de 52,5 milhões de pessoas – um quarto de sua população – vivendo na linha de pobreza, com renda familiar inferior a US$ 5,5 por dia, critério adotado pelo Banco Mundial para definir pobreza (NERY, 2019). Frente a essas situações, a sociedade demanda intervenções do governo, e, por isso, é importante analisar quais as medidasmais efetivas. Uma que é defendida por muitos, o controle de preços (máximos) por parte do governo (que acontece quando o governo controla preços de produtos como combus- tíveis, energia elétrica etc. ou mesmo impõe tabelamentos) não costuma ter elevada eficiência, pois os dados indicam que a concorrência tem se mostrado mais eficiente na redução de preços (ROQUE, 2019). Outra estratégia de política de preços é a imposição de preços mínimos, como acontece com o salário mínimo, pois isso pode evitar que os salários caiam a níveis ainda mais baixos, o que ampliaria as desigualdades de rendas no país. Atenção É importante lembrar que não há como se pensar em melhoria da distribuição de renda sem ter a estabilização monetária como condição fundamental, o que foi alcançado, na história recente do Brasil (a partir de 1994), após o Plano Real, que permitiu que o efeito de outras políticas públicas fosse intensificado na redução da desigualdade social registrada no Brasil. 135 Outra forma de fazer política de renda é a transferência direta de renda (em que indivíduos ou famílias carentes recebem recursos monetários, direta- mente do governo), que tem o Bolsa Família como exemplo, um programa direcionado às famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza, que busca garantir a elas o direito à alimentação e o acesso à educação e à saúde. Em 2019, por exemplo, mais de 13,9 milhões de famílias foram atendidas pelo Bolsa Família, em todo o Brasil (CEF, [s.d.]). É importante que você perceba que o Bolsa Família tem dois focos com horizontes distintos: o primeiro é atender às necessidades básicas das famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza, enquanto o segundo, menos conhecido, é promover uma mudança geracional, pois ao manter as crianças na escola e dar a elas condições de saúde, espera-se que, quando elas cheguem à idade adulta, tenham condição de gerar renda suficiente para que sua família não necessite mais ser atendida por um programa desse tipo. Exemplificando Dona Irani Estevão cria os quatro filhos sozinha, e sua única renda vem dos recursos do Bolsa Família. O filho Valdecir, de 12 anos, foi o único da sua turma a ser convidado para participar da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) (BOZZATO, 2019). Em repor- tagem do jornal A Gazeta, ela afirmou: Eu imagino um futuro muito melhor para eles. Quem tem quatro filhos, igual eu tenho, tem que se orgulhar. Esse meu, de 12 anos, foi um dos melhores alunos da sala. Fechou o bimestre com 30 pontos (máximo possível) e foi selecionado para fazer a prova do OBMEP. Foi o único da sala que conseguiu no meio de um monte de aluno. (BOZZATO, 2019, [s.p.]) No Brasil existem outros programas de transferência direta de renda que merecem destaque: o primeiro é a previdência rural, que garante uma aposen- tadoria para homens de 60 anos e mulheres de 55 anos, que tenham traba- lhado no campo, mesmo que não tenham contribuído para a previdência social. O outro é o Benefício de Prestação Continuada da Lei Orgânica da Assistência Social (BPC-LOAS), que concede um salário mínimo mensal à pessoa com incapacidade comprovada para o trabalho, incapazes de prover seu próprio sustento (nesse caso, também não é necessário que essa pessoa tenha contribuído para o INSS para ter direito a recebê-lo). 136 Atenção É fundamental que as políticas econômicas sejam aplicadas de forma harmônica: um excesso de gastos na área social que venha a compro- meter o equilíbrio fiscal, por mais que possa gerar benefícios no curto prazo, pode dar início a um processo inflacionário com potencial de gerar crises que anulem todas as conquistas ou até tragam retrocessos. Agora é com você: estude os materiais disponíveis e seja persistente no seu crescimento profissional. Até a próxima! Sem medo de errar Nesse encontro, conhecemos a Eliane, que recebeu uma proposta da família: tornar-se sócio-gerente de uma loja que vende eletrodomésticos (a Empresa C) e que estava à beira da falência (resultado da má gestão combinada com a recessão enfrentada pelo país). Sua parte na sociedade seria adquirida pelas suas horas de trabalho (pois Eliane não tem recursos financeiros para investir), o que torna obrigatório que ela faça a empresa ter sucesso para ter alguma remuneração. Certa do apoio da família para realizar as mudanças que empresa precisa, Eliane precisa analisar o ambiente econômico: as políticas utilizadas para controlar a inflação surtiram efeito, e as expectativas dos agentes são bastante positivas frente à perspectiva de uma política monetária expansionista. Frente a essa expectativa sobre a economia do país, e sabendo que um aqueci- mento da atividade econômica é fundamental para a recuperação financeira da Empresa C, Eliane poderia se beneficiar dessa política monetária expan- sionista para fazer a empresa vender mais? E sobre a dívida acumulada da Empresa C: Eliane teria mais facilidade em pagá-la, caso o governo faça política monetária expansionista? Por qual motivo? Para encontrar essas respostas, Eliane precisa saber que as políticas contracionistas trazem queda do crescimento produtivo (e, consequente- mente, do emprego) e da inflação, enquanto a política monetária expansio- nista (feita com emissão de moeda, compra de títulos públicos e/ou redução da taxa de compulsório) tem como consequência uma redução da taxa de juros da economia, que faz com que o interesse de compra por bens e serviços (demanda) seja ampliado, o que aumenta a produção das empresas e traz queda no nível de desemprego do país. Portanto, esse aumento da demanda vai favorecer a Empresa C, no sentido de ela poder ampliar as suas vendas, o que é fundamental para uma recuperação da loja de eletrodomés- ticos. Já com relação ao pagamento da dívida acumulada pela Empresa C, 137 uma situação de diminuição da taxa de juros da economia (causada pela política monetária expansionista), normalmente acaba reduzindo também os juros cobrados pelos bancos comerciais, quando eles concedem emprés- timos aos seus clientes. Essa redução da taxa de juros dos empréstimos faz com que a Empresa C tenha a possibilidade de pagar a sua dívida com menos dificuldade, o que também é uma ótima notícia para Eliane. Dessa forma, consegue-se perceber que o cenário econômico é favorável para a Empresa C reverter a situação econômica em que se encontra, cabendo a ela aproveitar o momento para, por meio de uma boa gestão, fazer a loja de eletrodomésticos ser lucrativa. Faça valer a pena 1. A desigualdade excessiva de renda não é apenas um problema social. Além da questão da violência, economias menos desiguais tendem a apresentar maior dinamismo econômico, por terem um contingente maior de consumidores. Tomando como referência a distribuição de renda e as políticas de renda, classifique as afirmativas a seguir em (V) verdadeiras ou (F) falsas. ( ) A renda per capita é o indicador de desigualdade mais conhecido e utili- zado pelos economistas, mas apresenta uma grande complexidade de cálculo. ( ) O Bolsa Família é um exemplo de política de renda feita no Brasil. ( ) O índice de Gini varia entre zero e um, sendo que quanto mais próximo de zero melhor, pois menos desigual será a distribuição da renda no país. ( ) Programas como o Bolsa Família melhoram a qualidade de vida de famílias carentes e possibilitam que as crianças tenham mais condições de uma renda futura melhor. Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta de classificação, de cima para baixo. a. V – V – F – V. b. F – V – V – V. c. F – F – V – F. d. V – F – V – V. e. V – V – F – F. 138 2. Em julho de 2013, de acordo com pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a preocupação dos brasileiros com o comportamento da inflação no futuro atingia o maior nível desde 2001 (PREOCUPAÇÃO…, 2013). Com base nos efeitos da inflação sobre o ambiente econômico, avalie as seguintes asserções e a relação proposta entre elas. I.A inflação descontrolada traz muitos problemas para um país, preci- sando ser combatida por políticas econômicas. PORQUE II. A política monetária expansionista ajuda a combater a inflação, já que tem como consequência uma ampliação da taxa de juros que desestimula a intenção de compra por bens e serviços, forçando os preços para baixo. A respeito das duas asserções e da relação entre elas, assinale a alternativa correta. a. A asserção I é uma proposição falsa e a II, verdadeira. b. A asserção I é uma proposição verdadeira e a II, falsa. c. As asserções I e II são proposições falsas. d. As asserções I e II são proposições verdadeiras e a II justifica a I. e. As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não justifica a I. 3. Manter a inflação sob controle é um dos principais objetivos econô- micos de um governo que dispõe de diversos instrumentos, entre os quais a definição do percentual da taxa de recolhimento compulsório pelos bancos, que afeta o multiplicado bancário. Sobre a política monetária feita com a alteração da taxa de compulsório, avalie as seguintes asserções e a relação proposta entre elas: I. Quando o governo reduz a taxa de recolhimento compulsório, ele está praticando uma política monetária expansionista. PORQUE II. A redução da taxa de compulsório vai diminuir a quantidade de dinheiro que os bancos teriam para emprestar, o que aumenta a quantidade de moeda escritural criada por eles. 139 A respeito das duas asserções e da relação entre elas, assinale a alternativa correta. a. A asserção I é uma proposição falsa e a II, verdadeira. b. A asserção I é uma proposição verdadeira e a II, falsa. c. As asserções I e II são proposições falsas. d. As asserções I e II são proposições verdadeiras e a II justifica a I. e. As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não justifica a I. 140 Seção 3 Exemplos de ações governamentais marcantes no Brasil Diálogo aberto Oi, e assim chegamos ao final, não é mesmo? E este nosso último encontro tem uma característica muito interessante: veremos, ao longo da história recente do Brasil, como as escolhas econômicas nos trouxeram até aqui e quais as perspectivas para o futuro. Para nos auxiliar nisso, vamos acompanhar o Felipe em uma decisão que precisa tomar. Ele é um brasileiro que mora no exterior há muitos anos e que, depois de muito esforço, abriu sua própria empresa de construção fora do país. Felipe tem um sobrinho, Paulo, que se formou em Engenharia em 2014, mas que foi demitido em 2015, pois a empresa que o contratou (logo depois de sua formatura) quebrou devido ao contexto da crise econômica desse período. A partir disso, ele passou a prestar serviço como autônomo, mas recebia valores muito baixos junto a alguns clientes, apesar de ele estar atuando como engenheiro e adquirindo experiência. O Paulo é uma pessoa com muita responsabilidade e que já tinha passado alguns meses morando com o Felipe, que pôde comprovar a ética e o compromisso com a qualidade de trabalho que o sobrinho possui. Com a saída de Dilma do poder, Paulo convenceu Felipe a empreender no Brasil, por isso, Felipe abriu uma empresa de construção no nosso país (similar àquela do exterior da qual é dono), tendo o sobrinho como engenheiro e diretor da empresa. Felipe não abandonou sua empresa fora do país e está aguardando o que irá acontecer com o empreendimento no Brasil para tomar algumas decisões sobre o seu próprio futuro. Tendo em vista as notícias recebidas da estabilização da inflação, da queda dos juros e das reformas que estão sendo feitas no país, Felipe quer ter uma resposta à seguinte pergunta: essas medidas aumentam a possibilidade da empresa aberta no Brasil obter novos clientes e, assim, aumentar suas vendas? Você deve se colocar no papel de alguém que vai trazer essa resposta para Felipe. Ao longo desta seção, o entendimento das políticas contracionistas e expansionistas aplicadas no Brasil nas últimas décadas dará a você um ótimo direcionamento sobre o assunto. Boa aula! 141 Não pode faltar Oi, tudo bem? Neste encontro, vamos acompanhar uma história que continuará se desenrolando depois do fim desta disciplina: a da trajetória econômica do Brasil. A ruptura da ordem democrática que ocorreu com o início do governo militar de 1964 será nosso ponto de partida. Esse período foi marcado por uma política fiscal expansionista, que se aproveitou da grande disponibilidade de capitais a juros baixos na década de 1960 e início da década de 1970. Contudo, a partir da inesperada alta do preço do petróleo, em 1973, conhecida como o primeiro Choque do Petróleo, em que o barril subiu de US$ 3 para US$ 11,60, houve uma redução da atividade econômica em escala global. Em resposta, o governo militar brasileiro aproveitou que ainda havia recursos financeiros internacionais disponíveis e tomou muitos emprés- timos, elevando nossa dívida externa de 12 bilhões para 40 bilhões de dólares entre 1974 e 1979, sendo que a inflação passou de 16% para 40% ao ano entre 1973 e 1978 (GOMES, 1985; JULIÃO, 2016). Essa situação piorou com o segundo Choque do Petróleo, em 1979 (a cotação média do barril saiu de US$ 12,44 para US$ 34,43 entre 1978 e 1981), que resultou no aumento das taxas de juros internacionais, que subiram de uma média anual de 7,5%, em 1977, para 20,18%, em 1980 (SAFATLE, 2012). Como as taxas de juros dos financiamentos contratados pelo Brasil eram pós-fixadas, nossa dívida externa cresceu muito. Assimile Quando um empréstimo é feito com taxas pré-fixadas, o valor das parcelas é conhecido no momento da contratação (qualquer alteração nas condições do mercado não vai mudar o valor dessas parcelas). Já com taxas pós-fixadas (como os empréstimos que o Brasil fez antes dos Choques do Petróleo), o valor das parcelas sofre mudanças quando há uma alteração cambial de inflação ou de outras taxas praticadas no mercado. No caso exemplificado, o aumento dos juros internacionais fez com que o total da nossa dívida crescesse exponencialmente. O aumento da inflação e o elevado déficit das contas públicas reduziram os investimentos públicos. João Figueiredo (que assumiu o Poder Executivo em 1979 e foi o último presidente da era dos governos militares no país) se deparou com um elevado déficit em transações correntes (que subira de US$ 11,4 bilhões, em 1981, para US$ 16,3 bilhões, em 1982, o equivalente a 6% do PIB) e efetuou desvalorizações da moeda brasileira para equilibrar as contas 142 externas: a primeira em 1979 e a outra em 1983, ambas de 30% (durante todo esse período a taxa de câmbio era determinada pelo governo), recuperando os superávits da Balança Comercial, mas impulsionando a inflação (GOMES, 1985; SAFATLE, 2012). Apesar de recorrer ao FMI (Fundo Monetário Internacional) e efetuar ajustes fiscais, a inflação continuou crescendo (atingiu mais de 160% ao ano, em 1983), a produção interna continuou caindo (a queda do PIB, entre 1981 e 1983, foi de 6,3%) e as contas públicas continuaram deficitárias (OREIRO, 2017; IBGE, [s. d.]). Reajustes salariais abaixo da inflação foram o gatilho para a recessão entre os anos 1981 a 1983, que fez o desemprego crescer de forma intensa. Em 1984, apesar do processo indireto, a pressão popular levou Tancredo Neves, o candidato da oposição, ao cargo de presidente do Brasil. Como ele faleceu antes de aceder essa posição, seu vice, José Sarney, assumiu. Após algum tempo de governo e com a popularidade em baixa, Sarney, em vez de controlar os gastos públicos e o excesso de moeda, apelou para uma solução heterodoxa para controlar a inflação, implementando, em fevereiro de 1986, um congelamento de salários e preços (ação que ficou conhecida como Plano Cruzado I). Os salários foram congelados com base na média dos últimos 6 meses acrescidos de um abono de 8% para os salários gerais e 16% para o salário mínimo (NERI, 1991). O plano também estabeleceu um gatilho salarial (os salários seriam automaticamentecorrigidos) que seria acionado sempre que a inflação acumulada ultrapassasse 20% (NERI, 1991), o que gerou uma explosão de consumo. A pressão sobre a inflação continuou, já que as políticas expansionistas permaneceram, ou seja, o governo manteve os gastos públicos em um alto patamar e não se comprometeu a diminuir a quantidade de moeda na economia. Em uma nova tentativa de controlar a inflação, o plano Cruzado II foi lançado em novembro de 1986 e uma série de reajustes de preços se deu em vários setores, o que trouxe a inflação de volta (a inflação mensal chegou a 11,65% em dezembro) (PORTAL BRASIL, [s. d.]). A partir disso, segui- ram-se planos que fracassaram (Bresser e Verão), pois o excesso de gastos do governo não foi combatido, fazendo com que, no último ano do governo Sarney (1989), a inflação anual chegasse a 1.972% (CASTRO, 2016). 143 Assimile Durante boa parte do século XX, a política fiscal (por meio da ampliação dos gastos governamentais) foi utilizada como indutora do crescimento econômico por diversos países, incluindo o Brasil. Contudo, tanto aqui quanto lá, o processo não foi conduzido de forma responsável, levando a um aumento de gastos públicos sem correspondência nas receitas, gerando desequilíbrio e consequentes déficits fiscais. Esse processo começou com Juscelino Kubitschek, manteve-se com os militares e depois com o Sarney. Os financiamentos desses déficits se deram, muitas vezes, por meio de emissão de moeda (política monetária expansionista), aumen- tando a quantidade de moeda em circulação, fazendo com que o país enfrentasse elevadas taxas de inflação nos anos 1980 e 1990. Além disso, as políticas fiscais expansionistas adotadas deslocaram a curva da Demanda Agregada para a direita, colaborando com o aumento da inflação. Fernando Collor foi o primeiro presidente eleito de forma direta, desde o período militar, e assumiu em meio a uma grave crise econômica. Em 16 de março de 1990, um dia depois de assumir a presidência, anunciou seu plano de controle da hiperinflação (o Plano Collor), composto das seguintes medidas: bloqueio dos valores depositados superiores a 50 mil cruzados novos, tanto em Contas Correntes quanto nas Cadernetas de Poupança dos brasileiros (que só seriam liberados 18 meses depois, de forma parcelada); congelamento de preços; reforma administrativa (redução de ministérios, programa de demissão voluntária de servidores e de desestatização); política fiscal contracionista (aumento de tributos e redução de despesas); e abertura comercial (câmbio flutuante, redução de barreiras e tarifas de importação) (BRASIL, 1990). A inflação caiu fortemente nos meses seguintes, mas, no final do ano, já havia retornado aos dois dígitos (18,44% ao mês, em dezembro de 1990) (PORTAL BRASIL, [s. d]). A impopularidade do presidente (causada, principalmente, pelo confisco dos depósitos bancários) e uma série de denúncias de corrupção levaram a um processo de impeachment e à renúncia de Collor, levando seu vice, Itamar Franco, a assumir a presidência. Depois de dois ministros da Fazenda em 5 meses, Itamar convidou o sociólogo Fernando Henrique Cardoso (FHC) para assumir o cargo. FHC, então, montou uma equipe econômica de alto gabarito (Edmar Bacha, Pérsio Arida, André Lara Resende, Gustavo Franco e Pedro Malan) que elaborou o Plano Real, que tinha como propósito combater a hiperinflação de forma totalmente diferente, anunciando previamente as etapas que seriam implan- tadas, o que reduziu a especulação por parte dos agentes econômicos. 144 Foram três as etapas fundamentais; vamos conhecê-las? A primeira foi o Programa de Ação Imediata (PAI), que focou a eliminação do desequilíbrio das contas do governo (a principal causa da inflação): um ajuste fiscal limitou os gastos com folha de pagamento de servidores públicos em 60% das receitas da União, o Fundo Social de Emergência (FSE) desvin- culou 20% das receitas obrigatórias (IANONI, 2009) e um novo tributo foi criado: o Imposto sobre Movimentações Financeiras (IPMF). A sonegação fiscal foi combatida pelo aumento da fiscalização sobre as empresas e sobre as declarações de renda das pessoas físicas. Ocorreu uma ampla renegociação das dívidas dos estados e municípios com a União, que, como contrapartida, aumentou o controle sobre Bancos Estaduais. O saneamento dos bancos federais e a privatização de várias empresas estatais reduziram o déficit público (REGO et al., 2010) e permi- tiram à iniciativa privada participar da modernização da infraestrutura do país, defasada pela falta de investimentos nos anos 1980. Apesar do ambiente de descrédito (resultado do fracasso dos planos anteriores) e da oposição de diversos partidos, a primeira etapa foi concluída e, em agosto de 1993, 1.000 cruzeiros passaram a valer 1 cruzeiro real, a nova moeda oficial do Brasil (BRASIL, 1993). Na segunda etapa do Plano, foi criada a Unidade Real de Valor (URV), lançada em março de 1994, junto com a informação de que, em quatro meses, ocorreria a transição para a nova moeda, o Real. Uma unidade de URV equivalia a 647,50 cruzeiros reais (GIAMBIAGI et al., 2011) e foi elabo- rada uma tabela, divulgada diariamente pelo Banco Central, com a cotação da URV. A transparência e antecedência no fornecimento de informações reduziram a desconfiança associada aos planos anteriores, e a URV passou a ser utilizada para determinar preços e salários, diminuindo as incer- tezas que ainda pairavam sobre a economia e que alimentavam a memória inflacionária. A URV constituiu uma etapa intermediária, que restaurou a função de unidade de conta da moeda e restabeleceu a confiança dos agentes econô- micos, preparando a economia para uma nova moeda descontaminada da memória inflacionária, o Real, a última etapa do plano (REGO et al., 2010). Apesar de não ter existido fisicamente (não existiram cédulas nem moedas da URV), ela funcionou para atrelar a economia ao dólar (1 URV = 1 dólar). Mas como esse processo funcionava? Os preços dos bens e serviços eram colocados em URVs, e quando o consumidor ia efetuar o pagamento, o valor era convertido em cruzeiros reais de acordo com a tabela. No último dia de utilização da URV (em julho de 1994), por exemplo, seu valor era de 2.750 cruzeiros reais (KIANEK, 2019). 145 A adoção da URV era voluntária, e o processo gradual permitiu que a sociedade percebesse que praticamente não havia inflação em URV, o que ajudou o aprendizado dos agentes econômicos e restabeleceu a perspectiva de negociação de preços, contratos, reajustes, etc. no médio e longo prazos. Com isso, ao final de junho de 1994, boa parte dos preços e contratos da economia já eram convertidos em URV, comprovando as expectativas positivas sobre o Plano Real. Em julho de 1994, ainda no governo de Itamar Franco, a emissão das notas e cédulas do Real deu início à terceira (e última) etapa de implantação do Plano. A partir disso, as políticas monetária e cambial sofreram mudanças fundamentais: houve uma forte restrição a emissões de moeda (para preservar sua estabilidade) e, apesar de não haver um câmbio fixo de forma explícita, a paridade próxima de 1 Real por dólar foi buscada (o governo havia construído uma grande reserva cambial, intervindo no mercado de divisa para manter essa taxa de câmbio próxima de R$ 1,00 = US$ 1,00). Em termos de controle da inflação, o Plano Real obteve um grande êxito, pois ela passou de mais de 2.000% ao ano, em 1993, para 9% ao ano, em 1996 (PORTAL BRASIL, [s. d.]). Apesar das políticas contracionistas (até mesmo com a privatização de empresas, seguindo um viés mais neoliberal da política econômica, que buscava e busca diminuir a intervenção do Estado na economia), o aumento do poder de compra dos salários (devido à redução da inflação) e o maior acesso ao crédito resultaram em um significativo aumento do consumo. Aproveitando os bons resultados do plano, FHC foi eleito presidente no primeiro turno, nas eleições de 1994. ExemplificandoO Plano Real é um ótimo exemplo de como o governo pode fazer política econômica para combater a inflação. O corte de gastos públicos, a criação de novos impostos (medidas que configuram política fiscal contracionista), o controle rígido sobre a emissão de moeda – que acaba por elevar a taxa de juros (política monetária contracionista) – e a moeda nacional valorizada, com a compra de dólar por parte do Banco Central (política cambial) – que torna as importações mais baratas, fazendo com que os empresários nacionais tentem não subir seus preços – foram medidas governamentais que, combinadas, finalmente, conseguiram acabar com a hiperinflação do Brasil. Após a posse de FHC, o governo elevou a taxa de juros e reduziu o gasto público, pois havia muita instabilidade externa e o aquecimento da economia 146 resultante do aumento do consumo e do investimento (reflexos da estabili- zação econômica) trouxeram o receio do retorno da inflação. Apesar de sua importância no combate à inflação, a valorização do Real resultou em déficits na Balança Comercial (as importações aumentaram e as exportações caíram), reduzindo as reservas internacionais do país e expondo a economia brasileira à vulnerabilidade externa, amplificada pelas crises no México (1994), na Ásia (1997) e na Rússia (1998), que resultaram em fuga de capitais. A elevação da taxa de juros e pequenas desvalorizações cambiais administradas conseguiram manter o controle da inflação e continuaram a atrair capitais estrangeiros para o mercado brasileiro no curto prazo, mas o cenário externo se deteriorava (GIAMBIAGI et al., 2011). As elevadas taxas de juros trouxeram uma redução do crescimento do PIB, que, em 1998, foi de 0,3% (IBGE, [s. d.]) (não valia a pena investir em atividades produtivas, pois os juros das aplicações financeiras estavam muito altos e era melhor investir financeiramente do que na produção). O sucesso do Real, contudo, permitiu a reeleição de FHC, que buscou ajuda do FMI para solucionar o déficit no Balanço de Pagamentos, que reduziam as reservas internacionais do país. No entanto, o socorro do FMI foi insuficiente para frear a especulação financeira contra o Real, o que obrigou o governo a mudar o regime cambial para o câmbio flutuante, o que fez a moeda nacional passar de R$ 1,20 para R$ 2,00 por US$ no início de 1999 (GIAMBIAGI et al., 2011). Armínio Fraga, que assumiu a presidência do Banco Central em março daquele ano, implementou o regime de metas da inflação, que estabeleceu limites (inferior e superior) para os índices de inflação que seriam aceitos, sendo o Banco Central o responsável por garantir o seu cumprimento. A partir disso, o tripé macroeconômico foi o norteador da condução da política macroeconômica: metas de inflação (controladas, basicamente, pela taxa de juros – política monetária), câmbio flutuante e responsabilidade fiscal (superávit primário). Como resultado, os níveis de inflação se mantiveram em níveis aceitáveis e a confiança na economia brasileira foi recuperada, graças também à maior transparência e previsibilidade das contas públicas (GIAMBIAGI et al., 2011). As reformas realizadas nos dois governos FHC mudaram a estrutura do setor público por meio da busca por eficiência: diversas empresas estatais foram privatizadas e foram criadas agências reguladoras, o monopólio do estado nos setores de petróleo e telecomunicações foi extinto, as condições para o capital internacional se tornaram mais atrativas, o sistema finan- ceiro foi saneado e ocorreu uma tímida reforma da Previdência Social (GIAMBIAGI et. al., 2011). 147 Na área fiscal, ocorreu a renegociação das dívidas dos estados, e a criação da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) em 2000, em especial, representou uma ferramenta para o controle dos gastos públicos da União, estados e municípios (BRASIL, 2000): a partir dela, não é mais possível criar uma despesa continuada na administração pública sem a indicação da fonte de receita (BRASIL, 2000), sendo definidos limites máximos de comprome- timento da receita corrente líquida com pessoal. Caso os governantes não sigam os limites estabelecidos por lei, poderão responder judicialmente por esses atos. Na área social (e, aqui, temos exemplo da aplicação prática de políticas de renda), foram criados programas destinados a determinadas populações em situação de vulnerabilidade: o Bolsa Escola (benefício pago a famílias de baixa renda e com crianças na escola), o Bolsa Renda (destinado para famílias pobres de regiões atingidas pela seca), o Bolsa Alimentação (para gestantes, nutrizes, crianças em situação de risco nutricional), o auxílio-gás e o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) (GIAMBIAGI et al., 2011; BRASIL, 2002). A estagnação econômica do final do governo FHC e, em especial, o elevado desemprego erodiram sua popularidade e ele não conseguiu eleger seu sucessor. Depois de três tentativas fracassadas, Luís Inácio Lula da Silva foi eleito presidente, em 2002. O período antes dessa eleição foi de incerteza (principalmente em relação à forma como o novo presidente, de oposição política ao governo daquele momento, viria a conduzir a política econômica do Brasil), o que desvalo- rizou o Real a um nível nunca antes visto. Apesar da aceleração inflacionária vista, que obrigou a um aumento na taxa de juros, o aumento da compe- titividade das exportações ajudou na recuperação econômica. Lula fez um esforço, antes das eleições, de se apresentar à comunidade internacional como alguém que manteria todos os compromissos e não abriria mão da estabilidade monetária No seu primeiro mandato, nomeou Antônio Palocci como Ministro da Fazenda e trouxe para o Banco Central, Henrique Meireles, que havia sido eleito Deputado Federal pelo PSDB, além de nomes como Alexandre Schwartsman para a área externa do Banco Central e Marcos Lisboa para a Secretaria de Política Econômica, que hoje são ícones do pensamento liberal brasileiro. Essas surpreendentes nomeações foram analisadas por Siqueira (2019, [s. p.]), que afirma: “Marcos, o economista liberal, era muito ‘de direita’ para o candidato do PSDB e completamente antagônico às ideias dos econo- mistas ‘de esquerda’. Mas era a sua agenda que o Ministro Palocci buscava trazer para o Ministério da Fazenda”. 148 Ao longo do seu primeiro mandato, o tripé macroeconômico foi mantido: a inflação foi controlada pelo aumento da taxa de juros (exemplo de política monetária contracionista), o câmbio foi mantido livre e foram alcançados superávits primários, sinalizando o compromisso de pagamento da dívida. Em março de 2006, Palocci foi substituído por Guido Mantega e Lula foi reeleito no mesmo ano. A partir disso, a responsabilidade fiscal passou a ser substituída por uma abordagem desenvolvimentista, que defendia um aumento de gastos do governo para estimular a atividade econômica (exemplo de política fiscal expansionista). Os indicadores econômicos do período Lula foram positivos, em especial o PIB (Produto Interno Bruto) cujo forte crescimento pode ser visto no Quadro 4.4: Quadro 4.4 | Crescimento anual do PIB do Brasil, em termos percentuais, de 2003 a 2010: 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 1,1% 5,8% 3,2% 4,0% 6,1% 5,1% -0,1% 7,5% Fonte: IBGE ([s. d.]). O sucesso do governo Lula deveu-se a um conjunto de fatores. Vamos conhecer os principais? 1) O início do século XXI foi marcado por um aumento na demanda e no preço dos principais produtos exportados pelo Brasil, o que gerou um aumento no volume e no valor das exportações brasileiras. Além disso, apesar da desvalorização do Real, no 2° semestre de 2002, o aumento dos juros, iniciado por FHC e ampliado por Lula, manteve a inflação sob controle e boa parte do crescimento do PIB foi sustentado pelo consumo externo. 2) A manutenção do compromisso com a estabilização econômica trouxe melhores perspectivas, o que atraiu mais investimentos, que, aliados à maior oferta de crédito, geraram aumento no consumo,principalmente das famílias de menor renda. 3) As políticas sociais foram intensificadas (Bolsa Família, em especial), aumentando a renda e melhorando a qualidade de vida nas periferias (a nova classe C). Ainda no governo Lula, a crise bancária que começou nos EUA em 2008 provocou uma enorme queda da atividade econômica mundial em 2009. A decisão de Mantega, referendada por Lula, foi de aumentar a aposta no Governo como motor do crescimento econômico (a eleição de Dilma, em 2010, implicou a manutenção de Mantega na Fazenda): o crédito para consumo foi ampliado por programas como o Fies e Minha Casa Minha 149 Vida; muitos setores receberam subsídios (telefonia, indústria naval, carnes, etc.); o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) implicou novos canteiros de obras em todo o país; e a realização de uma Copa do Mundo e uma Olimpíada no espaço de 2 anos foi algo emblemático (reforçando o caráter expansionista da política fiscal que vinha sendo praticada). O governo Dilma optou pela não realização de reformas e as medidas necessárias para equilíbrio fiscal (mas impopulares) nunca foram tomadas. Houve um grande estímulo ao consumo, mas alguns setores produtivos – em especial a indústria – reduziram o nível dos investimentos por temerem o futuro. Além do excesso de gastos, as intervenções do governo, como a queda forçada nos juros e a redução na tarifa de energia por decreto – que é um exemplo de política de rendas – aumentaram a insegurança. A desastrosa política que ficou conhecida como “política de campeões nacionais” (em que créditos foram destinados a grandes empresas brasileiras, como empreiteiras, telefônicas, empresas de alimentos, de celulose, etc., para torná-las gigantes globais, mas que não trouxeram os resultados esperados) contribuiu para o excesso de gastos, aumentando o desequilíbrio das contas do governo e impulsionando a inflação, que passou a atingir o teto da meta. Frente a esse cenário, o governo optou por controlar a inflação artificial- mente, via preços administrados (monitorados), ação que, até 2015, surtiu o efeito esperado sobre a inflação do país (NEMER, 2017). As eleições de 2014 foram ganhas por uma margem estreita e, logo depois, o governo Dilma iniciou um forte ajuste: o crédito escasseou, os juros aumentaram e ocorreu um forte aumento no preço dos combustíveis e da energia elétrica (principal- mente em 2015 e 2016) que estavam represados (NEMER, 2017), itens que, comumente, têm grande impacto sobre os índices de inflação. A insegurança em relação ao futuro gerou uma queda nos investimentos e o país, que já havia crescido apenas 0,5% em 2014, teve dois anos seguidos de queda: -3,8%, em 2015, e -3,6%, em 2016, configurando a pior recessão de nossa história (CURY; SILVEIRA, 2017). Depois do impeachment da presi- dente Dilma, em 2016, houve a posse do seu vice, Michel Temer. Ele montou uma equipe econômica que conseguiu, depois de alguns meses de taxa SELIC elevada, que a inflação fosse controlada. Apesar dos avanços nessa área, a acusação de corrupção gerou uma crise política que impediu que a Reforma da Previdência fosse aprovada em seu governo. A eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, com posse, em 2019, significou uma guinada em relação aos governos anteriores: apesar de ter defendido posições estatizantes no passado, ele criou o Ministério da Economia e deu ao ministro Paulo Guedes total autonomia na condução da política econômica. Ao final de 150 2019, a inflação se mostrou sob controle, sem apresentar indícios de retorno, e a taxa SELIC caiu ao menor nível de sua história: 4,5%. Foi aprovada a Reforma da Previdência (mais um exemplo de política fiscal contracionista, dessa vez, para tentar equilibrar as finanças governamentais) e as estima- tivas do mercado para 2020 são de retomada do crescimento e de aprovação das reformas Tributária e Administrativa. Na virada de 2019 para 2020, o desemprego alto ainda representava um grande desafio a ser contornado pela equipe econômica de Bolsonaro, apesar de indicadores econômicos terem mostrado dados que indicassem uma retomada da atividade produtiva. Reflita A condução de política econômica muitas vezes requer decisões que são corretas do ponto de vista econômico e que trarão resultados positivos a longo prazo, mas que causam dificuldades com a opinião pública, como, por exemplo, o aumento na taxa de juros para se controlar a inflação. Na sua opinião, as políticas econômicas devem ser elaboradas para um direcionamento correto dos caminhos do país ou de forma a trazer um grande apelo popular? Reflita sobre o assunto! É importante que você perceba que os processos econômicos levam tempo para mostrar resultados, sejam positivos ou negativos: a crise do final da década de 2010 foi resultado da política econômica praticada a partir de 2008, assim como a redução da desigualdade e o crescimento econômico no final da década passada (anos 2000) foram fruto da estabilização monetária (que não teria sido alcançada sem o equilíbrio fiscal) trazida pelo Plano Real e de uma série de políticas sociais feitas no começo dos anos 2000 (AGÊNCIA ESTADO, 2019). Por isso, aprofunde-se no estudo da economia sabendo que a discussão sobre medidas econômicas não precisa ser baseada em preferên- cias, já que muitas ideias são, naturalmente, antagônicas. Até a próxima! Sem medo de errar Depois da nossa viagem pela história chegou o momento de ajudarmos o Felipe a tomar uma decisão; lembra da situação? Ele mora e trabalha no exterior há muitos anos e investiu parte dos seus recursos financeiros na abertura de uma empresa de construção no Brasil, similar àquela que ele tem no exterior, tendo o Paulo, seu sobrinho, como engenheiro e diretor da empresa. Felipe tem acompanhado as notícias da estabilização da inflação, da queda dos juros e das reformas e quer ter uma resposta à seguinte pergunta: 151 essas medidas aumentam a possibilidade de a empresa obter novos clientes e, assim, aumentar suas vendas? Essa situação demonstra como não existem decisões econômicas sem risco, mas conhecer os fatores envolvidos ajuda a minimizá-los. A fase aguda da crise já ficou para trás, pois a inflação está sob controle e o país conseguiu um grande avanço com a criação de um ambiente macroeconômico atrativo para investimentos. Por isso, apesar de não podermos afirmar com 100% de certeza, as possibilidades de melhoria do ambiente econômico do Brasil e de aumento de investimentos são elevadas, logo, a empresa de Felipe poderá aproveitar as oportunidades que surgirem com a retomada do crescimento econômico, obter novos clientes e aumentar suas vendas. As políticas expansionistas (como a queda da taxa de juros, que caracte- riza uma política monetária expansionista) favorecem o aumento da ativi- dade produtiva no país, pois as pessoas passam a comprar mais quando são estimuladas por políticas econômicas de redução de juros e/ou tributos, por exemplo. Diante desse cenário econômico favorável, cabe a Paulo fazer uma boa gestão da construtora para que ela alcance resultados positivos. Faça valer a pena 1. A década de 1980 é conhecida no Brasil como “Década Perdida”, em alusão ao momento de altas inflações e baixo crescimento produtivo. Após muitos anos de taxas elevadas, o Brasil iniciou um processo de redução da inflação com previsão de menos de 4% ao ano em 2019 e 2020. No regime de metas de inflação, qual é o principal instrumento utilizado pelo governo para controle desta? a. A taxa de câmbio. b. O Bolsa família. c. A taxa de juros. d. O aumento dos gastos públicos. e. O aumento das importações. 2. A democracia brasileira, apesar de recente, já enfrentou processos econô- micos complexos que influenciaram diretamente o desempenho e a popula- ridade de diversos presidentes. 152 De acordo com as informações apresentadas na tabela a seguir, faça a associação de alguns processos econômicos listados na Coluna A com seus respectivos presidentes,pelos fatores produtivos utili- zados. Esses pagamentos são constituídos dos salários (relativos ao fator de produção trabalho), aluguéis (relativos ao fator de produção terra) e lucros (relativos ao fator de produção capital), ou seja, quando as famílias cedem os fatores de produção às empresas, em contrapartida, recebem essas remune- rações (em dinheiro). Dessa forma, o fluxo monetário se completa quando as pessoas utilizam o dinheiro que receberam com as remunerações (salários, aluguéis e lucros) para a aquisição de bens e serviços que foram produzidos nas empresas. 18 Assim, chegamos ao final dessa aula, na qual você pôde ter uma ideia geral da ciência econômica, tendo conhecido os seus principais conceitos. Não se esqueça de fazer as atividades do portal para solidificar os seus conhe- cimentos e participar das discussões com o seu professor. Sem medo de errar Agora que você já está dominando os temas que discutimos, é o momento de aplicar o que aprendeu para ajudar a resolver o dilema enfrentado pelo Douglas. Lembre-se que ele está terminando o curso e precisa decidir onde utilizar seus recursos financeiros: fazer uma viagem ou pagar por uma pós-graduação. Considerando o que você estudou, o que você acha que ele deve fazer? Por mais prazerosa que a viagem possa ser, Douglas precisa dimensionar qual é o seu custo de oportunidade: os gastos da viagem correspondem ao valor necessário para realizar uma pós-graduação em uma área que a empresa em que ele trabalha pretende se expandir. Como a chefia tem demonstrado satisfação com o trabalho dele, você concorda que agora não é momento de utilizar os recursos em lazer, mas, sim, de investir em capacitação? Cada indivíduo tem uma escala de prioridades diferente e vai usar seu dinheiro para adquirir os bens e serviços em uma combinação que maximize sua satis- fação individual, mas a escolha de gasto em um bem específico traz impactos no consumo de outros bens e serviços. Douglas precisa ter isso em mente na hora em que fizer a escolha dele. Pode até ser que Douglas não venha a ser contratado, mas investir na própria carreira é sempre um bom uso dos recursos financeiros. Faça valer a pena 1. Apesar de não ser uma frase inédita, a expressão “Não existe almoço grátis” ganhou muito destaque depois que o ganhador do prêmio Nobel, Milton Friedman, a utilizou como título de um livro, em 1975. O conceito básico da frase é que todo resultado de um processo produtivo, seja um produto ou um serviço, tem um custo. Ao escolher utilizar os recursos para produzir uma refeição, outros produtos deixam se ser ofertados, o que carac- teriza o custo de oportunidade. 19 Assinale, dentre as alternativas a seguir, aquela que explica corretamente as características dos recursos produtivos (fatores de produção) e das necessi- dades humanas que determinam a existência do custo de oportunidade. a. Os recursos produtivos são abundantes, e as necessidades humanas são limitadas. b. Os recursos produtivos são limitados, e as necessidades humanas são escassas. c. Os recursos produtivos são abundantes, e as necessidades humanas são infinitas. d. Os recursos produtivos são escassos, e as necessidades humanas são ilimitadas. e. Os recursos produtivos são renováveis e as necessidades humanas são versáteis. 2. A forma como os fatores de produção são geridos para a produção dos bens e serviços está ligada com os sistemas econômicos, sendo que os mais vistos nos países, ao longo dos últimos anos de história, são o socialismo e o capitalismo. Em relação às diferenças entre socialismo e capitalismo, assinale a alternativa correta. a. Ao passo que no socialismo há uma predominância da propriedade governamental dos fatores de produção, no capitalismo existe a posse privada dos fatores de produção. b. Ao passo que no socialismo existe a posse privada dos fatores de produção, no capitalismo há uma predominância da propriedade governamental dos fatores de produção. c. Ao passo que no socialismo existe a posse privada dos fatores de produção, no capitalismo há uma predominância da propriedade pública dos fatores de produção. d. Ao passo que no socialismo existe a posse governamental dos fatores de produção, no capitalismo há uma predominância da propriedade pública dos fatores de produção. e. No socialismo, as necessidades humanas são ilimitadas, ao passo que, no capitalismo, elas são limitadas. 20 3. Se no fim do século XVIII as máquinas a vapor revolucio- naram o mundo, agora é a vez da tecnologia ciberné- tica transformar a indústria. O movimento é chamado pelos economistas de 4ª Revolução Industrial e garante mudanças radicais no modo de produzir e consumir. A tendência é de automatização total das fábricas com a tecnologia robótica e cibernética, com isso, setores como Financeiro e Agronegócios já avançam no Brasil. Exemplo claro é o mercado financeiro. Bancos e empresas estão trabalhando cada vez menos dentro de agências e escritó- rios e estão apostando em espaços digitais. (REVOLUÇÃO, 2018, [s.p.]) Tendo como referência a evolução tecnológica e os princípios econômicos, avalie as seguintes asserções e a relação proposta entre elas: I. O desenvolvimento tecnológico fará com que, no futuro, todas as neces- sidades do homem sejam atendidas, solucionando a questão da escassez. PORQUE II. II. A tecnologia será capaz de suprir todas as necessidades humanas, e esse processo começará pelas sociedades com melhor distribuição de renda. A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta. a. As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não justifica a I. b. As asserções I e II são proposições verdadeiras e a II justifica a I. c. A asserção I é uma proposição verdadeira e a II, falsa. d. A asserção I é uma proposição falsa e a II, verdadeira. e. As asserções I e II são proposições falsas. 21 Seção 2 Conhecendo o mercado: demanda Diálogo aberto Olá, aluno! A tomada de decisões em relação ao futuro nem é sempre é fácil, concorda? Isso não acontece apenas na nossa vida pessoal, mas também nas empresas. Nessas situações organizacionais, ter boas informações é fundamental para diminuir o risco de cometer erros. Um dado importante a ser analisado pelas empresas é a maneira como funciona o desejo dos consu- midores, no que diz respeito à demanda que eles têm por bens e serviços. Por qual motivo ela aumenta ou diminui? De que forma o preço a altera? Para entendermos isso, acompanharemos a história da família do André. O pai dele é um mecânico de automóveis muito competente que, depois de ter trabalhado em uma assistência técnica oficial, abriu seu próprio negócio. Depois de muitos anos, graças à boa gestão e à qualidade dos funcionários e dos equipamentos utilizados, a empresa tem apresentado bons resultados, mesmo que, no passado, tenham ocorrido dificuldades na adaptação às novas tecnologias. André cresceu nesse ambiente de oficina e, desde cedo, destacou-se pela capacidade gerencial. Atualmente, a empresa está estabilizada, com uma boa base de clientes, é reconhecida na cidade pela qualidade do trabalho e possui capital próprio que lhe permite projetar investimentos para atender à demanda futura. Conduzir esse processo é a tarefa que André recebeu do seu pai. Após algumas conversas, ficou claro que a empresa precisa tomar uma decisão em relação ao que fará no futuro: manter o foco em motores de combustão interna ou buscar capacitação e equipamentos que permitam atender carros elétricos. Como a análise das alterações da demanda pode ajudar nesse processo de tomada de decisão? Não pode faltar Bem-vindo de volta! Você gostou do que já estudamos até agora? Espero que sim, e agora vamos entender melhor como a economia funciona, estudando a demanda. Você já deve ter ouvido que demanda e oferta fazem parte do mercado. Mas o que é o mercado? No passado, o conceito de mercado estava ligado ao local onde ocorriam os processos de comercialização (em algumasapresentados na Coluna B. COLUNA A COLUNA B I. Tentativas frustradas de combate à inflação por meio de planos como Cruzado, Bresser e Verão. 1. Lula II. Dar continuidade ao recém-criado Plano Real, câmbio flutuante, tripé macroeconômico. 2. Dilma III. Cenário externo favorável, grande crescimento do PIB, impulsionamento dos programas sociais. 3. José Sarney IV. Desenvolvimentismo, desequilíbrio fiscal, retorno da inflação, impeachment. 4. FHC Assinale a alternativa que apresenta a associação CORRETA entre as colunas. a. a. I - 4; II - 3; III - 2; IV - 1. b. b. I - 2; II - 1; III - 4; IV - 3. c. c. I - 4; II - 1; III - 2; IV - 3. d. d. I - 3; II - 4; III - 1; IV - 2. e. e. I - 1; II - 3; III - 2; IV – 4. 3. Figura | Moeda comemorativa aos 25 anos do real Fonte: Numismática (2019, [s.p.]). Essa é a moeda comemorativa dos 25 anos do Plano Real completados em 2019. Em nota de 22 de agosto de 2019, o Banco Central afirma que: A comemoração dos 25 anos do Real é a celebração da estabilidade econômica do país e de um padrão monetário que se tornou símbolo dessa estabilidade. Com o controle da inflação, o Real se firmou como uma moeda sólida e confiável. Mudanças frequentes no padrão monetário, com as quais a sociedade brasileira precisava conviver, ficaram para trás. O Real inaugurou uma era de previsibilidade. (BCB, 2019, [s.p.]) 153 Em relação aos efeitos do Plano Real, avalie as seguintes asserções e a relação proposta entre elas. I. A eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, foi sustentada pelo êxito do Plano Real no controle da inflação apesar das políticas contracionistas adotadas. PORQUE II. Com o Plano Real, mesmo com a redução do consumo causado pela perda de poder de compra dos salários e da maior dificuldade de acesso ao crédito, os gastos sociais diminuíram a perda de renda. A respeito das duas asserções e da relação entre elas, assinale a seguir a alter- nativa correta. a. As asserções I e II são proposições falsas. b. A asserção I é uma proposição verdadeira e a II é falsa. c. As asserções I e II são proposições verdadeiras e a II justifica a I. d. A asserção I é uma proposição falsa e a II é verdadeira. e. As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não justifica a I. Referências ABRAS BRASIL. Estudo mostra que concentração de renda no Brasil pode ser quase o dobro. [S.l.], 30 out. 2019. Disponível em: http://www.abras.com.br/clipping.php?area=2&clia- pping=69426. Acesso em: 5 jan. 2020. AGÊNCIA ESTADO. “Má gestão levou a maior desigualdade”, diz Marcos Lisboa. InfoMoney, 30 dez. 1019. 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Por isso, um conceito mais adequado aos novos tempos é que mercado é o ambiente físico ou virtual onde ocorrem os processos de compra (a demanda) e venda (a oferta). Assimile No passado, o termo mercado referia-se normalmente a um local ou região. O termo ambiente descreve melhor a realidade atual. Para que ocorra uma venda, é preciso que haja alguém interessado em comprar, não é mesmo? Por isso, começaremos pelo estudo da demanda, que nada mais é do que a intenção de compra do consumidor, e que pode ser conceituada como as diferentes quantidades de um produto que as pessoas estarão dispostas a adquirir de acordo com o preço dela. Uma rápida observação: quando falarmos de produtos, estaremos nos referindo tanto a bens, que são tangíveis, quanto a serviços, que são intangí- veis. Fique atento! Antes de avançarmos, é necessário esclarecer um ponto importante: na economia, quando se quer demonstrar o comportamento de um fator, é muito comum utilizarmos gráficos. Muita gente acaba criando barreiras a essa ferramenta por não perceber o quanto ela é útil. No entanto, em várias situações, um gráfico explica melhor um processo do que várias linhas escritas. Por isso, dedique especial atenção ao gráfico da demanda que apresentaremos, pois ele lhe ajudará muito. O fato de os consumidores comprarem mais quando os preços diminuem e menos quando os preços sobem expressa uma relação inversa entre preço e quantidade (você, como consumidor, entende dessa maneira, certo?). A Figura 1.2 a seguir representa o comportamento da demanda. Note o que acontece quando os preços, que estão representados no eixo vertical, diminuem: a quantidade consumida – que está no eixo horizontal – aumenta. Esse comportamento faz com que a curva de demanda seja negati- vamente inclinada. 23 Figura 1.2 | A curva de demanda Fonte: elaborada pelo autor. Lembra-se do conceito de demanda? Precisamos resgatá-lo aqui para esclarecer algo muito importante: quando a escolha do consumidor (a quantidade demandada) muda em razão de uma alteração nos preços, ocorre um movimento ao longo da mesma curva de demanda. Isso quer dizer que a relação entre os preços e as quantidades demandadas não se alterou, ou seja, a demanda – entendida como as diferentes quantidades demandadas relacio- nadas aos diferentes preços – não se alterou. O que acontece em uma liquidação? A redução nos preços dos produtos fará com que as pessoas comprem mais. A depender do tamanho do desconto e do tipo do produto que está sendo vendido, você verá cenas como esta, típica de liquidações na Black Friday ou nos primeiros dias de janeiro. 24 Figura 1.3 | O efeito da queda dos preços Fonte: http://bit.ly/2Eyt2RU. Acesso em: 29 nov. 2019. Mas o que faz as pessoas se comportarem dessa forma? A questão chave é que cada consumidor atribui um valor – em economia chamamos isso de utilidade – a cada produto que ele usa. Como seus recursos são limitados, ele precisa escolher quais produtos comprará (e em que quantidade) para maximizar sua satisfação. A cada compra realizada, a questão a ser respon- dida pelo consumidor é: esse é o produto que maximizará minha satisfação? Assimile Em economia não diferenciamos desejos de necessidades, por isso usamos a palavra utilidade para descrever a capacidade de um produto nos trazer satisfação (bem-estar), ou seja, atender nossos desejos/necessidades. A satisfação gerada por cada unidade a mais de um produto não cresce de forma linear. Na verdade, a satisfação a mais gerada por uma unidade adicional de um produto tende a ser decrescente. Isso pode soar estranho, mas pense comigo: imagine que você está com muita sede, e toma um copo de água bem gelada: é uma grande satisfação, correto? Agora, imagine que você toma mais um copo: a sua satisfação aumenta, mas o segundo copo não será tão refrescante quanto o primeiro, nem o terceiro será tão refrescante quanto o segundo, e assim por diante. Essa característica fundamental na microeconomia é chamada de utilidade marginal decrescente. A decisão de compra sempre considera as quantidades que o consumidor já possua daquele 25 bem ou serviço. Uma forma de dizer isso é que a decisão sempre ocorre na margem (MANKIW, 2013). Isso quer dizer que a decisão de compra do consumidor considerará a satisfação adicional gerada pela aquisição de uma unidade a mais do produto. Vamos usar um exemplo prático? Você conhece alguém que tenha mais óculos de grau do que blusas? Provavelmente não. Sabe por qual motivo? Uma pessoa que não consegue ler sem óculos sentirá muita necessidade de ter um par deles. Contudo, uma vez que já tenha adquirido o primeiro par, dificilmente se disporá a comprar outro. Isso ocorre porque a satisfação gerada pela segunda unidade dos óculos é muito menor do que a primeira, e o consumidor irá preferir utilizar o recurso para comprar alguma outra coisa que lhe traga maior satisfação. Em se tratando de blusas, a utilidade marginal de uma blusa adicional não será tão inferior à da anterior, por isso, a maioria das pessoas acabará adquirindo diversas blusas. Por isso, os vendedores oferecem promoções do tipo: uma camiseta por R$ 30,00, duas camisetas por R$ 50,00, pois o consu- midor só comprará uma blusa a mais se o preço for menor, porque a utilidade a cada blusa comprada é menor. Exemplificando Você já foi a uma churrascaria tipo rodízio? Prestou atenção em qual é a comida que já está na mesa na hora que você se senta? Mandioca, tropeiro, arroz, etc. O dono do restaurante sabe que para quem está com fome será muito difícil não “atacar” esses pratos. Certamente, ao final da refeição, mesmo que passe aquele corte que você mais gosta, a satisfação adicional será muito pequena. Assimile Ao analisar a compra de um produto, o consumidor vai comparar a satis- fação que ele obterá (considerando quantas unidades daquele produto ele já possui) com a satisfação que uma unidade adicional de outro produto lhe trará. Agora, precisamos pensar em uma pergunta muito importante: será que a decisão de compra dos consumidores é definida apenas pelos preços? Creio que você já encontrou a resposta: é obvio que os preços desempenham um papel fundamental, mas existem outros fatores que influenciarão na decisão dos consumidores. Vamos conhecê-los? Primeiro, vamos analisar a influência da renda, depois da preferência do consumidor (hábitos de consumo) e, por fim, dos preços de outros produtos relacionados. 26 Vamos começar pela renda: imagine que uma pessoa que gosta muito de filmes ganhe R$ 1.000,00 mensais de salário e, com essa renda, ela consiga ir uma vez por mês ao cinema (pagando R$ 30,00 pela entrada). Se essa pessoa passar a ganhar R$ 2.200,00 de salário mensais, ela pode passar a ir duas vezes ao mês no cinema, (pagando os mesmos R$ 30,00 pela entrada. Ou seja, a ampliação de demanda dessa pessoa por cinema não se deveu por uma diminuição do preço da entrada (o valor da entrada continuou o mesmo), mas porque ela teve uma ampliação no seu salário (renda). Da mesma forma, uma redução na renda teria o efeito contrário: a disposição de comprar do consumidor seria menor mesmo que o preço do produto (entrada de cinema ou qualquer outro) não tivesse se alterado. Observe atentamente a Figura 1.4, que demonstra o efeito de um aumento na renda: Figura 1.4 | Aumento da renda deslocando a curva da demanda para a direita Fonte: elaborada pelo autor. Veja que após um aumento na renda, a curva de demanda se deslocou para a direita, passando de D1 para D2, fazendo com que, ao mesmo preço, a quantidade demandada passassede Q1 para Q2 (por exemplo, ao mesmo preço de R$ 30,00 pela entrada do cinema, a quantidade demandada subiu de uma (Q1) para duas (Q2) entradas por mês). Você percebeu que a quanti- dade demandada mudou sem que o preço tenha se alterado? Essa é uma situação fundamental: todas as vezes que o consumidor altera sua intenção de compra, sem que o preço tenha se alterado, isso trará uma alteração da demanda (ou seja, teremos uma nova curva de demanda, mais à direita ou mais à esquerda). Contudo, nossa análise não pode se restringir a apenas um consumidor individual, correto? Por isso, ao juntarmos as curvas de demanda individuais dos diferentes consumidores teremos as curvas de mercado. Dessa forma, se 27 uma população experimenta uma mudança da renda, a demanda agregada por um dado produto se alterará, deslocando a curva de demanda. Assimile Quando um consumidor adquire uma quantidade diferente de um produto como consequência de alterações nos preços dele, temos uma mudança na quantidade demandada, pois a curva não se alterou (temos essa representação gráfica feita na mesma curva de demanda). Quando um consumidor adquire uma quantidade diferente de um produto sem que o preço deste produto tenha mudado, ocorre uma mudança da curva, ou seja, a demanda mudou (houve deslocamento da curva de demanda). Se houver ampliação na quantidade demandada, sem que tenha havido alteração no preço do bem/serviço, a curva de demanda é deslocada para a direita. Já se houver diminuição na quanti- dade demandada, sem que tenha havido uma alteração no preço do bem/serviço, a curva de demanda é deslocada para a esquerda (por exemplo, quando a entrada do cinema continua sendo vendida por R$ 30,00, mas a pessoa passa a ir uma vez por mês, em vez de duas vezes, porque ela perdeu o emprego em que ganhava R$ 2.200,00 e passou a ganhar R$ 1.500,00 mensais, a curva de demanda do cinema é deslo- cada para a esquerda). Vamos agora ao próximo fator que pode alterar a demanda de um produto: as mudanças no gosto ou preferência do consumidor. Esse fator é muito fácil de entender: ocorre todas as vezes que um determinado produto passa a ser mais ou menos desejado sem que o seu preço tenha se modificado, porque houve uma mudança no hábito de consumo do consumidor. Exemplificando Existem vários exemplos de alterações de demanda por mudança de gosto do consumidor, sendo que, algumas vezes, elas podem ser influenciadas por uma grande estrela de cinema ou da música. Oliveira (2015) nos mostra a seguinte situação: a cantora Beyoncé foi fotogra- fada, em 2015, vestindo um certo modelo de calça, e isso fez com que os estoques desta mercadoria se esgotassem em poucas horas nas lojas – ou seja, a demanda por aquela calça explodiu, sem que o preço dela tivesse abaixado. No entanto, o termo “gostos e preferências” nem sempre se refere a mudanças superficiais. Imagine um casal que descobre que estão 28 esperando um filho: diversos produtos e serviços que não faziam parte dos hábitos de consumo dessa família começarão a ser demandados. O último fator a ser analisado é a influência dos preços de produtos relacionados. Para entender isso, vamos pensar em dois tipos de produtos: os substitutos e os complementares. Vamos lá? Dois produtos disputam entre si a escolha do mesmo consumidor (bens que são chamados de substitutos), sendo que, por esse motivo, ao escolher um, o consumidor deixará de consumir outro. Por exemplo, ao construir uma casa, você pode utilizar tijolos de barro ou bloco de concreto. Ao escolher um, automaticamente você não comprará o outro, correto? Por isso, se o preço de um tipo de tijolo se modificar, a demanda pelo outro tijolo será alterada, mesmo que o preço desse segundo tijolo não mude, ou seja, se o preço do tijolo de barro diminuir, alguns consumidores deixarão de comprar os tijolos de concreto (mesmo que o preço dele não tenha sido alterado para cima), o que deslocará a curva de demanda do tijolo de concreto para a esquerda. Na economia moderna, o acesso à informação é cada vez mais simples e barato, e isso aumenta a quantidade de alternativas à disposição do consu- midor. Se por um lado o aumento de alternativas pode elevar a satisfação do consumidor por poder utilizar melhor seus recursos limitados, aumenta a necessidade dos vendedores de convencer os consumidores da superioridade dos seus produtos em relação aos produtos dos concorrentes, entendendo que o conceito de produto ou serviço concorrente pode ser bastante abrangente. Por outro lado, existem os produtos complementares, que são utilizados em conjunto, e, por isso, também exercem influência entre si. Mantendo o exemplo na construção civil, vamos pensar em areia e brita: dificilmente um produto será usado separado do outro, correto? Agora, imagine que uma nova legislação ambiental faça o preço da areia aumentar. Como as pessoas comprarão menos areia, a demanda por brita também diminuirá (mesmo que o preço da brita não tenha sido ampliado), ou seja, a curva de demanda da brita será deslocada para a esquerda. Reflita Algumas leis podem afetar o comportamento dos consumidores e isso faz com que o poder dos agentes públicos seja muito maior do que a maioria das pessoas perceba. Os malefícios do fumo são conhe- cidos pela ciência desde o final da segunda guerra, mas levou algumas décadas para que surgissem leis que restringissem o seu consumo. Essas leis incluem: proibição de propaganda, restrição de locais onde o fumo 29 é permitido, aumento de impostos, etc. Essas regulamentações buscam alterar apenas a quantidade demandada ou tentam alterar também a demanda? Reflita sobre o assunto. É importante lembrar de que existe uma curva de demanda específica para cada bem ou serviço em um mercado, mas que em todos eles o mesmo comportamento é encontrado: a relação entre preços e quantidades deman- dadas é inversa, ou seja, a inclinação da curva é sempre negativa. Mesmo que alterações em outros fatores diferentes dos preços desloquem a curva, sua inclinação continuará negativa. Nos exemplos apresentados até agora o foco esteve no comportamento individual. Esses mesmos princípios valem para quando analisarmos a demanda de mercado, em que os efeitos de cada um dos fatores serão combi- nados, lembrando que nem sempre o fator mais importante para um consu- midor será o mais importante para o mercado. Para encerrarmos esta seção, precisamos pensar em uma questão bem prática: ao iniciar uma análise de demanda, pode ficar complicado a análise de todos os fatores juntos: preço, renda, preferências, preços de outros fatores, etc. Para contornar esse problema, há uma abordagem que analisa o efeito de cada fator isoladamente: a condição coeteris paribus. Essa é uma expressão em latim que significa “tudo o mais permanecendo constante” e é aplicada quando analisamos o efeito de cada fator isoladamente, mantendo os outros constantes, ou seja: ao variarmos a renda, consideramos que os outros fatores permanecerão constantes. Agora que você já está “craque” em demanda, poderemos avançar para nosso próximo desafio: conhecer a oferta e o equilíbrio de mercado. Vamos lá? Sem medo de errar Você está lembrado da decisão que o André precisa tomar? É um problema que muitos gestores gostariam muito de enfrentar: a oficina da família está bem posicionada no presente, tanto em questões técnicas quanto em relação às finanças e gestão, e agora é o momento de se preparar para o futuro. Por isso, a empresa precisa decidir se deve manter o foco em motores de combustão interna ou buscar capacitação e equipamentos que permitam atender carros elétricos nos próximos anos. Muitas pessoas, preocu- padas com a conservação do meio ambiente, têm mudado seus hábitos de consumo, buscando produtos que sejam ambientalmente responsáveis. Em todo o mundo, a preocupação com a redução da poluição tem levado 30 à busca de alternativas de motores menos poluentes e os motores elétricos já são uma realidadeem carros, automóveis, ônibus, caminhões e até em aviões. Por isso, a previsão é de que a demanda por serviços especializados nesse tipo de motor cresça muito nos próximos anos, ou seja, a curva de demanda será deslocada para a direita, o que aumentará as oportunidades para empresas que atendam os desejos dos consumidores. Dessa forma, entender esse processo de alteração da curva de demanda é uma ferramenta importante para o planejamento da empresa de André, que deverá começar a pensar em investir em materiais, equipamentos e capacitação profissional para atender essa nova realidade do mercado, quando ela se apresentar de forma mais consistente. Avançando na prática Finalizar o estoque Ana é a gerente de uma concessionária de automóveis que está enfren- tando um problema inesperado: ela acabou de receber a notícia que a fabricante decidiu adiantar em três meses o lançamento da nova versão do modelo campeão de vendas da marca. A questão é que ela está com um elevado estoque da versão que deixará de ser fabricada. Seu desafio, então, é estimular a demanda por este modelo mais antigo para zerar o estoque dele. Quais estratégias você poderá sugerir à Ana para atingir esse objetivo? Resolução da situação-problema Você deve dizer a Ana que, para aumentar a demanda de automóveis, é necessário alterar um conjunto de fatores. Alguns deles, como ampliação na renda, aumento da preferência dos consumidores pelo modelo e elevação do preço dos veículos das marcas concorrentes deslocariam a curva de demanda do modelo antigo que Ana tem em sua concessionária para a direita (ou seja, haveria uma procura maior por esse veículo). Contudo, a alteração desses fatores está fora do raio de ação da concessionária, ou seja, não há nada que a Ana possa fazer em relação a eles. No entanto, há uma outra forma para ampliar a demanda do modelo cujo estoque precisa ser zerado: reduzir o seu preço de venda. Essa redução implicará em um aumento na quantidade demandada, ou seja, surgiriam clientes dispostos a comprar esse modelo e, assim, diminuir os estoques da concessionária. Como a demanda pelo modelo antigo deverá reduzir quando 31 o novo modelo chegar, ela não pode esperar mais: a redução nos preços tem que começar o quanto antes. Faça valer a pena 1. Observe os dois gráficos a seguir: Fonte: elaborados pelo autor. O gráfico A representa mudança _____________ causada por alteração _____________ e o gráfico B representa mudança ____________ causada por alteração ___________. A sequência de palavras que completa corretamente a frase é: a. na quantidade demandada; no preço; na demanda; na renda. b. na quantidade demandada; na renda; na demanda; no preço. c. na demanda; na renda; na quantidade demandada; no preço. d. na demanda; no preço; na quantidade demandada; na renda. e. na oferta; na renda; na quantidade ofertada; no preço. 2. Suponha que uma famosa atriz usou determinado tipo de sandália feminina em uma cena de novela que foi muito comentada e depois viralizou na internet, fazendo com que muita gente assistisse a cena, o que fez esse modelo de calçado entrar na moda. A partir dessa informação, pode-se esperar que ocorra qual fenômeno? Assinale a alternativa que responde corretamente ao questionamento feito: a. Um deslocamento da curva de demanda da sandália para a direita. b. Um deslocamento da curva de oferta da sandália para a direita. c. Um deslocamento da curva de demanda da sandália para a esquerda. 32 d. Um deslocamento da curva de oferta da sandália para a esquerda. e. Um deslocamento ao longo da mesma curva de demanda da sandália. 3. Apesar de complexo, o comportamento do consumidor em relação a mudanças de preços de um determinado produto pode ser expresso pela curva de demanda. I. A curva de demanda apresenta inclinação negativa, fazendo com que o consumidor compre maiores quantidades de um bem ou serviço quando os preços aumentam. PORQUE II. O comportamento do consumidor não é racional, pois ele acaba comprando coisas por impulso, sem ter necessidade delas. A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta. a. As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não justifica a I. b. As asserções I e II são proposições verdadeiras e a II justifica a I. c. A asserção I é uma proposição verdadeira e a II, falsa. d. A asserção I é uma proposição falsa e a II, verdadeira. e. As asserções I e II são proposições falsas. 33 Seção 3 Conhecendo o mercado: oferta e equilíbrio Diálogo aberto Olá, prezado aluno! Com esta seção encerraremos a discussão sobre os aspectos gerais de microeconomia. Parabéns pela caminhada! Aprofunde-se nos temas discutidos, que certamente lhe ajudarão muito na sua carreira profissional. Você já se deu conta do quanto os processos de compra e venda evolu- íram nos últimos anos? Se os consumidores têm tido mais acesso à infor- mação, isso requer comportamentos mais arrojados do produtor, certo? Esse comportamento do produtor depende de vários fatores, assunto que acompanharemos durante esta seção. Para nos ajudar no entendimento desse tema tão importante, conhe- ceremos o desafio enfrentado por Rodrigo. Ele trabalha na secretaria de agricultura de uma cidade de porte médio, e foi convocado para um encontro com uma associação de consumidores do município. Essa associação trouxe a ele uma reclamação a respeito do aumento excessivo dos preços do tomate nas últimas semanas, que passou a ser vendido por R$ 10,00 o quilo. Ela veio solicitar que a prefeitura determine um congelamento de preços do tomate (a R$ 5,00 o quilo), enquanto durar a escassez de produto, argumen- tando que o preço atual está impedindo muitos consumidores de adquiri-lo. Como a secretaria de agricultura acompanha de perto a produção agrícola do município, Rodrigo sabe que o aumento atual dos preços foi causado por uma quebra de safra que ocorreu porque fortes chuvas, algumas semanas antes, reduziram a produtividade de muitas lavouras. O tomate é uma cultura que leva pouco mais de três meses entre a colheita e o plantio. Com base no estudo do equilíbrio do mercado, Rodrigo deve concordar com o pedido e recomendar que a prefeitura promova um congelamento nos preços? Quais devem ser os argumentos do Rodrigo para embasar sua resposta? Para compreender o que Rodrigo deve fazer, é necessário entender sobre equilíbrio de mercado e preços fixados acima ou abaixo do preço de equilí- brio de mercado. Vamos assimilar esses conceitos com o estudo desta seção? 34 Não pode faltar Olá, aluno! Agora que você já entendeu o comportamento da demanda em relação aos preços e aos outros fatores de importância, ficará muito mais fácil entender o comportamento da oferta. Para isso, vamos começar concei- tuando oferta. A oferta está relacionada com as diferentes quantidades de um bem ou serviço que os produtores (empresários) estão dispostos a colocar no mercado, a um conjunto alternativo de preços, havendo uma relação direta entre eles, ou seja, quando o preço sobe, a oferta (intenção de produção de um bem ou serviço) cresce. Assim como a demanda, a oferta pode ser expressa por meio de um gráfico, como você pode observar na Figura 1.5: Figura 1.5 | A curva de oferta Fonte: elaborada pelo autor. Vamos reforçar aqui uma observação muito importante: a oferta é a curva, ou seja, é um conjunto de pontos que mostra a intenção de produção de um bem, de acordo com alterações nos preços dele, ou seja, a oferta representa a maneira de pensar do produtor (empresário) de um bem, já que a preços altos, ele terá uma intenção maior de produzir um bem (e vice-versa). Para facilitar a nossa análise e os exemplos numéricos, consideraremos a oferta como uma reta, ou seja, uma função linear. 35 Outro ponto essencial é que nossa análise considerará que o produtor, assim como o comprador (representado pela demanda), não terá força para impor os seus preços. Ainda que possa haver exceções, vamos considerar o preço ao produtorcomo uma variável sob a qual ele não tem controle. Dessa forma, ao mudar os preços, as quantidades ofertadas mudarão também (VASCONCELLOS; GARCIA, 2019). Em termos individuais, considere que, se nada mais houver mudado (em economia, essa condição é caracterizada pela expressão coeteris paribus), uma mudança nos preços implicará uma mudança nas quantidades ofertadas. Observe que uma mudança nos preços não deslocará a curva, apenas mudará o ponto em cima da mesma curva. Assimile Você já sabe que, conforme o preço sobe, a quantidade de um produto que as empresas estão dispostas a oferecer aumenta. Isso deve-se ao fato de que as empresas apresentam diferentes custos de produção. Para fixar esse conceito, vamos usar o exemplo do petróleo: existem locais onde o seu custo de extração é muito baixo (na maioria dos países do Oriente Médio, por exemplo), o que permite que as empresas obtenham lucro mesmo se o preço estiver muito baixo. Já em outros locais onde o custo de extração é maior, como em alto-mar, a extração do petróleo só é viável economicamente se os preços recebidos por essa commodity forem maiores. Com isso, se os preços estão baixos, a produção ocorrerá apenas onde os custos de produção forem menores (haverá menos empresários interessados na produção do petróleo). Se os preços aumentarem, locais de maior custo passarão a ser viáveis e a oferta aumentará. Ou seja, a curva de oferta é positivamente inclinada, pois a única forma de aumentar a oferta de petróleo é incorporando áreas onde o custo de produção é mais elevado. Nesse ponto, você pode estar pensando: será que existem outros fatores, além do preço, que também podem influenciar a decisão do produtor e, assim, deslocar a curva de oferta? A resposta é sim! Vamos conhecê-los? Alterações nos custos e em outros fatores relacionados à produção podem deslocar a curva de oferta, ou seja, o nível de impostos, o preço dos insumos (a matéria-prima utilizada para produzir algo), etc. afetarão diretamente o custo do que está sendo produzido. E qual será a reação do produtor a essas mudanças? Acompanhe o exemplo a seguir. 36 Exemplificando Suponha que você esteja fazendo brigadeiros em casa para vender na faculdade. Ao ir ao supermercado fazer sua compra semanal de ingre- dientes, você notou que o preço do leite condensado aumentou, o que vai tornar mais cara a sua produção de brigadeiros. Caso você tenha que vender o brigadeiro ao mesmo preço de antes, terá uma intenção menor de produzir o brigadeiro, o que fará a curva de oferta dele se deslocar para a esquerda (que demostra que, ao mesmo preço, há uma intenção menor de produzir), podendo até mesmo chegar ao ponto de você querer encerrar a produção de brigadeiros. Por outro lado, uma redução no preço do leite condensando (ou quaisquer outros insumos) deslocará a curva de produção para a direita. Reflita A necessidade de reduzir impactos ambientais tem feito com que muitos consumidores busquem meios de transportes menos poluentes. Por esse motivo, diversos governos têm oferecido incentivos fiscais à produção de carros elétricos. Em que medida esses incentivos fiscais alteram a curva de oferta de carros elétricos? Reflita sobre o assunto. Além dos custos de produção, outro fator que desloca a curva de oferta é o desenvolvimento de tecnologias. A oferta de smartphones é um exemplo claro desse processo. Os primeiros modelos que ofereciam GPS, por exemplo, eram os top de linha e de valores muito elevados. Com o desenvolvimento tecnológico e barateamento dos custos de produção, a curva de oferta de smartphones foi deslocada para a direita, permitindo que, hoje, mesmo os aparelhos mais simples apresentam esse recurso. O deslocamento da curva de oferta pode ser visto na Figura 1.6: Figura 1.6 | Deslocamentos da curva de oferta para a direita e para a esquerda Fonte: Dias (2015, p. 44). 37 Exemplificando Após um período de turbulência, o valor de mercado da Petrobras, em 2019, tem alcançado recordes. Entre as razões apontadas estão a queda no custo de extração do petróleo no pré-sal e a redução no tempo de utilizado para a construção de um poço marítimo no pré-sal (ou seja, melhora tecnológica) (COMPLETAMOS…, 2018), já que isso certamente ampliará a intenção de produção (oferta) de petróleo da Petrobras, trazendo a possibilidade de lucros maiores aos acionistas da empresa. Figura 1.7 | Evolução dos indicadores do pré-sal Fonte: Completamos… (2018, [s. p.]). A oferta de um bem também é impactada pelo comportamento dos preços de outros bens, principalmente quando o produtor pode utilizar seus recursos produtivos em diferentes opções. Esse aspecto é muito obser- vado na produção agrícola, pois quando o preço de um produto como a soja aumenta, diversos produtores de milho passam a produzir soja. Vale destacar também que, na produção agrícola, os fatores climáticos também são determinantes no comportamento da oferta, deslocando-a para a direita (clima muito favorável que trouxe uma supersafra) ou para a esquerda (clima desfavorável – excesso/falta de chuva, calor/frio em excesso, etc.). Atividades minerais também estão sujeitas ao surgimento de novas áreas de exploração e ao esgotamento de minas, por exemplo, o que provoca deslocamento na curva de oferta. Assimile Alterações nos preços não alteram a curva de oferta, apenas geram uma mudança na quantidade ofertada (mudanças de pontos que formam a mesma curva de oferta). Quando algum fator faz com que o produtor se disponha a ofertar uma quantidade diferente (mudanças no preço dos 38 insumos, na tecnologia ou nas expectativas) sem que o preço tenha se modificado, ocorre uma mudança na oferta, ou seja, um deslocamento da curva de oferta. Agora podemos, finalmente, abordar um dos aspectos mais importantes: o equilíbrio de mercado. Você já aprendeu que as curvas de oferta e demanda mostram como vendedores e compradores respondem às mudanças no preço de um bem. Agora, surge a pergunta: se os consumidores sempre buscam os menores preços possíveis e os produtores sempre vão atrás dos maiores preços possí- veis, como é encontrado um preço que atenda aos dois lados (chamado de preço de equilíbrio), para que haja fechamento do negócio? Para responder adequadamente, precisamos voltar no tempo, para quando ainda não havia nenhum tipo de moeda. Nesse período, só havia duas formas de se obter um produto: ou você mesmo produzia ou tinha que obtê-lo por meio de troca de produto por produto (escambo). Com o surgi- mento da moeda, o processo ficou muito mais fácil, e o dinheiro assumiu o papel fundamental que exerce na economia até hoje: ser meio de troca. Como consequência, todos os produtos em uma economia passaram a ter o seu valor expresso em moeda (BRAGA, 2019). Dessa forma, quando um consumidor analisa o preço de um produto, ele contabiliza quantas unidades de um outro produto poderão ser adquiridas com aquela mesma quantidade de moeda. Da mesma forma, o produtor avalia se a quantidade de dinheiro recebida remunera adequadamente todos os gastos e esforços que foram utilizados no processo produtivo. Como já vimos, cada consumidor tem uma hierarquia de necessidades, por isso um determinado produto que é muito desejado por um consumidor desperta pouco interesse em outro, fazendo com que o preço que eles se disponham a pagar seja diferente. Por outro lado, os produtores apresentam diferentes níveis de custos para um mesmo produto, fazendo com que um mesmo preço possa ser aceitável para um, mas não para outros. É importante que você entenda essas características de consumidores e vendedores, pois, quando analisamos o mercado, vemos que a disputa real não é entre produtores e consumidores, mas, sim, duas disputas: uma entre os consumidores e outra entre os produtores. Vamos entender isso melhor? Do lado dos compradores existe uma disputa entre eles, uma espécie de leilão, na qual quem pagar mais sairá vencedor: quem se dispuser a pagar mais por um determinado