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RASCUNHO K

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RASCUNHO	K:	AS	NEUROSES	DE	DEFESA	
(Um	Conto	de	Fadas	Natalino)	
	
Há	 quatro	 tipos	 e	 muitas	 formas	 dessas	 neuroses.	 Posso	 apenas	 traçar	 uma	
comparação	entre	histeria,	neurose	obsessiva	e	uma	forma	de	paranóia.	Elas	têm	várias	
coisas	em	comum.	São	aberrações	patológicas	de	estados	afetivos	psíquicos	normais:	
de	conflito	(histeria),	de	autocensura	(neurose	obsessiva),	de	mortificação	(paranóia),	
de	 luto	 (amência	 alucinatória	 aguda).	 Diferem	 desses	 afetos	 pelo	 fato	 de	 não	
conduzirem	à	resolução	de	coisa	alguma,	e	sim	a	um	permanente	prejuízo	para	o	ego.	
Ocorrem	sujeitas	às	mesmas	causas	precipitantes	dos	seus	protótipos	afetivos,	contanto	
que	a	causa	preencha	duas	precondições	a	mais	 -	que	seja	de	natureza	sexual	e	que	
ocorra	durante	o	período	anterior	à	maturidade	sexual	(as	precondições	de	sexualidade	
e	infantilismo).	Quanto	às	precondições	que	se	aplicam	à	pessoa	em	questão,	não	tenho	
novos	conhecimentos.	Genericamente,	diria	que	a	hereditariedade	é	uma	precondição	
a	mais,	no	sentido	de	que	ela	facilita	e	aumenta	o	afeto	patológico	-	isto	é,	a	precondição	
que,	 predominantemente,	 torna	 possíveis	 as	 gradações	 entre	 o	 normal	 e	 o	 caso	
extremo.	 Não	 creio	 que	 a	 hereditariedade	 determine	 a	 escolha	 de	 uma	 neurose	
defensiva	especial.	
Existe	 uma	 tendência	 normal	 à	 defesa	 -	 uma	 aversão	 contra	 dirigir	 a	 energia	
psíquica	de	tal	maneira	que	daí	resulte	algum	desprazer.	Essa	tendência,	que	está	ligada	
às	condições	mais	fundamentais	do	funcionamento	psíquico	(a	lei	da	constância),	não	
pode	ser	empregada	contra	as	percepções,	pois	estas	são	capazes	de	se	impor	à	atenção	
(como	é	evidenciado	pela	consciência	dessas	percepções);	tal	tendência	atua	somente	
contra	as	lembranças	e	os	pensamentos.	É	inócua	quando	se	trata	de	idéias	às	quais,	em	
alguma	 época,	 esteve	 ligado	 algum	 desprazer,	 mas	 que,	 na	 época	 atual,	 não	 tem	
possibilidade	de	originar	desprazer	(a	não	ser	o	desprazer	recordado);	também	em	tais	
casos,	essa	tendência	pode	ser	implantada	pelo	interesse	psíquico.	
A	tendência	à	defesa,	porém,	torna-se	prejudicial	quando	é	dirigida	contra	idéias	
também	capazes	de,	sob	a	forma	de	lembranças,	liberar	um	novo	desprazer	-	como	é	o	
caso	das	 idéias	sexuais.	É	nisso,	realmente,	que	se	concretiza	a	possibilidade	de	uma	
lembrança	ter,	posteriormente,	uma	capacidade	de	liberação	maior	do	que	a	produzida	
pela	 experiência	 correspondente.	 Somente	 uma	 coisa	 é	 necessária	 para	 isto:	 que	 a	
puberdade	se	interponha	entre	a	experiência	e	sua	repetição	na	lembrança	-	evento	que	
tanto	 aumenta	 o	 efeito	 da	 revivescência.	 O	 funcionamento	 psíquico	 parece	
despreparado	para	essa	exceção;	por	esse	motivo,	para	que	a	pessoa	esteja	 livre	da	
neurose,	 a	 precondição	 necessária	 é	 que	 antes	 da	 puberdade	 não	 tenha	 ocorrido	
nenhuma	estimulação	sexual	de	maior	significação,	embora	seja	verdade	que	o	efeito	
de	tal	experiência	deve	ser	incrementado	pela	predisposição	hereditária,	antes	de	poder	
atingir	um	nível	capaz	de	causar	doença.	
(Aqui	surge	um	problema	correlato:	como	ocorre	que,	sob	condições	análogas,	
em	vez	da	neurose	emerjam	a	perversão	ou,	simplesmente,	a	imoralidade?)	
	Por	certo	mergulharemos	profundamente	em	enigmas	psicológicos,	se	investigarmos	a	
origem	do	desprazer	que	parece	ser	liberado	pela	estimulação	sexual	prematura,	e	sem	
o	 qual,	 enfim,	 não	 é	 possível	 explicar	 um	 recacalmento.	 A	 resposta	 mais	 plausível	
apontará	o	fato	de	que	a	vergonha	e	a	moralidade	são	as	forças	recalcadoras,	e	que	a	
vizinhança	 em	 que	 estão	 naturalmente	 situados	 os	 órgãos	 sexuais	 deve,	
inevitavelmente,	despertar	repugnância	 junto	com	as	experiências	sexuais.	Onde	não	
existe	 vergonha	 (como	 numa	 pessoa	 do	 sexo	 masculino),	 ou	 onde	 não	 entra	 a	
moralidade	 (como	 nas	 classes	 inferiores	 da	 sociedade),	 ou	 onde	 a	 repugnância	 é	
embrutecida	pelas	condições	de	vida	(com	nas	zonas	rurais),	também	não	resultam	nem	
neurose	nem	recalcamento	em	decorrência	da	estimulação	sexual	na	infância.	Contudo,	
temo	que	essa	explicação	não	resista	a	um	teste	mais	aprofundado.	Não	penso	que	a	
produção	de	desprazer	durante	as	experiências	sexuais	seja	conseqüência	da	mistura	ao	
acaso	 de	 determinados	 fatores	 desprazerosos.	 A	 experiência	 diária	 nos	mostra	 que,	
quando	a	libido	alcança	um	nível	suficiente,	a	repulsa	não	é	sentida	e	a	moralidade	é	
suplantada;	penso	que	o	aparecimento	da	vergonha	se	relaciona,	por	meio	de	ligações	
mais	profundas,	com	a	experiência	sexual.	Em	minha	opinião,	a	produção	de	desprazer	
na	 vida	 sexual	 deve	 ter	uma	 fonte	 independente:	 uma	vez	que	esteja	presente	essa	
fonte,	 ela	 pode	 despertar	 sensações	 de	 repulsa,	 reforçar	 a	moralidade,	 e	 assim	 por	
adiante.	 Persisto	 no	 modelo	 da	 neurose	 de	 angústia	 em	 adultos,	 na	 qual	 uma	
quantidade	proveniente	da	vida	sexual	causa,	de	modo	parecido,	um	distúrbio	na	esfera	
psíquica,	embora	habitualmente	pudesse	ter	um	outro	uso	no	processo	sexual.	De	vez	
que	não	existe	nenhuma	teoria	correta	do	processo	sexual,	permanece	sem	resposta	a	
questão	da	origem	do	desprazer	que	atua	no	recalcamento.	[Ver	em	[1].]	
O	rumo	tomado	pela	doença	nas	neuroses	de	recalcamento	é,	em	geral,	sempre	
o	mesmo:	 (1)	 a	 experiência	 sexual	 (ou	 a	 série	 de	 experiências),	 que	 é	 traumática	 e	
prematura	e	deve	ser	recalcada.	(2)	Seu	recalcamento	em	alguma	ocasião	posterior,	que	
desperta	a	lembrança	correspondente;	ao	mesmo	tempo,	a	formação	de	um	sintoma	
primário.	 (3)	Um	estágio	de	defesa	bem-sucedida,	que	é	equivalente	à	saúde,	exceto	
quanto	 à	 existência	 do	 sintoma	 primário.	 (4)	 O	 estágio	 em	 que	 as	 idéias	 recalcadas	
retornam	e	em	que,	durante	a	luta	entre	elas	e	o	ego,	formam-se	novos	sintomas,	que	
são	os	da	doença	propriamente	dita:	isto	é,	uma	fase	de	ajustamento,	de	ser	subjugado,	
ou	de	recuperação	com	uma	malformação.	
As	principais	diferenças	entre	as	diversas	neuroses	são	demonstradas	na	forma	
como	 retornam	 as	 idéias	 recalcadas;	 outras	 diferenças	 são	 evidenciadas	 na	maneira	
como	os	sintomas	se	formam	e	no	rumo	tomado	pela	doença.	Mas	o	caráter	específico	
de	uma	determinada	neurose	está	no	modo	como	se	realiza	o	recalque.	
O	curso	dos	acontecimentos	na	neurose	obsessiva	é	o	mais	claro	para	mim,	pois	
foi	o	que	cheguei	a	conhecer	melhor	
	
.	
NEUROSE	OBSESSIVA	
Aqui,	a	experiência	primária	foi	acompanhada	de	prazer.	Quer	tenha	sido	uma	
experiência	ativa	(nos	meninos),	quer	tenha	sido	uma	experiência	passiva	(nas	meninas),	
ela	 se	 realizou	 sem	 dor	 ou	 qualquer	mescla	 de	 nojo;	 e	 isso,	 no	 casos	 das	meninas,	
implica,	 em	 geral,	 uma	 idade	 relativamente	 maior	 (cerca	 de	 8	 anos).	 Quando	 essa	
experiência	é	relembrada	posteriormente,	ela	dá	origem	ao	surgimento	de	desprazer;	
e,	 em	 especial,	 emerge	 primeiro	 uma	 autocensura,	 que	 é	 consciente.	 Na	 verdade,	
aparentemente,	é	como	se	todo	o	complexo	psíquico	-	lembrança	e	autocensura	-	fosse	
de	início	consciente.	Depois,	sem	que	nada	de	novo	sobrevenha,	ambas	são	recalcadas,	
e	 na	 consciência	 se	 forma,	 em	 lugar	 delas,	 um	 sintoma	 antitético,	 uma	 nuança	 de	
escrupulosidade.	
O	recalcamento	pode	processar-se	devido	ao	fato	de	que	a	lembrança	do	prazer,	
como	tal,	produz	desprazer,	quando	recordada	anos	depois;	isso	deveria	ser	explicável	
por	 uma	 teoria	 da	 sexualidade.	 Mas	 as	 coisas	 também	 podem	 acontecer	 de	 modo	
diferente.	Em	todos	os	meus	casos	de	neurose	obsessiva,	em	idade	muito	precoce,	anos	
antes	da	experiência	de	prazer,	tinha	havido	uma	experiência	puramente	passiva;	e	isso	
dificilmente	 se	 daria	 por	 acaso.	 Assim,	 podemos	 supor	 que	 é	 a	 convergência,	
posteriormente,	dessa	experiência	passiva	com	a	experiência	de	prazer	que	adiciona	o	
desprazer	 à	 lembrança	 prazerosa	 e	 possibilita	 o	 recalcamento.	 De	 modo	 que	 uma	
precondição	clínica	necessária	da	neurose