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Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101). 3333 DESENVOLVIMENTO TÍPICO Vinic A, Velloso RL. Processos e desenvolvimento da cognição social. Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101):3-10. processos e desenvolvimento da cognição social alessandra aronovich vinic1 renata de lima velloso2 (1) Psicóloga, Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento, Universidade Presbiteriana Mackenzie, SP. (2) Fonoaudióloga, Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento, Universidade Presbiteriana Mackenzie, SP. CORRESPONDÊNCIA Alessandra Aronovich Vinic alessandra@servicli.com.br RESUMO PROCESSOS E DESENVOLVIMENTO DA COGNIÇÃO SOCIAL: Neste artigo, são abordados conceitos, processos e habilidades relativos à cognição social no curso típico do desenvolvimento, bem como são indicadas condições atípicas que se associam a déficits nesses pro- cessos e habilidades. Descritores: Cognição social, Empatia, Atenção compartilhada, Autopercepção, Alexitimia. ABSTRACT SOCIAL COGNITION: PROCESSES AND DEVELOPMENT: Concepts, processes and abilities involved with social cognition in typical de- velopment are focused on, and atypical conditions associated with deficits in such processes and abilities are indicated as well. Keywords: Social cognition, Empathy, Joint attention, Self-conscious emotions, Alexithymia. A interação social é o resultado do uso das habilidades que compõem a Cognição Social. O ser humano possui uma ca- pacidade de processamento limitada relativa ao mundo social, o que nos leva a recorrer a esquemas sobre nós mesmos, sobre os outros, sobre os papéis sociais. Isso gera um processa- mento da informação sobre o mundo social. Esses esquemas auxiliam nossa compreensão do código social que, muitas vezes, é subentendido e complexo. São eles: - Experiências / Expectativas: modo de categorizar as pessoas a partir dos indícios e das informações, prevendo o seu comportamento e as suas atitudes. - Impressões: noções que se criam no contato com as pessoas e que nos dá um quadro interpretativo para as avali- armos. - Atitudes: predisposição, tendência relativamente estável a responder de forma positiva ou negativa a um objeto social. - Representações sociais: conhecimento que se distin- gue do conhecimento científico. Conjunto das explicações, das crenças e das ideias partilhadas e aceitas coletivamente numa determinada sociedade e que são produto das intera- ções sociais. Precursores no estudo da Cognição Social, Lamb e Sher- rod1 definiram-na, em 1981, como a capacidade que o indiví- duo tem de perceber e compreender o outro para, assim, interagir de maneira adequada. Em 1991, Fiske e Taylor2 ampliaram esse conceito com a ideia de que, para compre- ender o outro, a pessoa deveria desenvolver também a auto- percepção e, a partir disso, interpretar e responder aos sinais sociais. Butman e Allegri3 definiram Cognição Social como o pro- cesso neurobiológico que possibilita aos seres humanos interpretar adequadamente os signos sociais e apresentar respostas apropriadas. O início desse processo se daria nos primeiros anos de vida, permitindo à pessoa interagir ade- quadamente com o outro, a partir da compreensão dos sinais faciais e das emoções do grupo social no qual está inserido. Algumas aquisições seriam esperadas em determinadas faixas etárias, sendo parâmetros importantes para diagnósti- cos diferenciais, nos quais algum aspecto desse processo não se manifesta (Quadro 1). Atualmente, entende-se Cognição Social como um cons- tructo que envolve diversas habilidades como a atenção compartilhada, a empatia, o reconhecimento de expressões faciais, inferências, a antecipação, o faz de conta (pretend- play), a falsa crença, e a autopercepção (self-conscious emo- tions), entre outras, ou seja, todas as ferramentas que possibili- tam que o indivíduo perceba e decodifique os sinais sociais e possa emitir a resposta adequada no momento certo. Trata-se de uma habilidade adaptativa para o ser huma- no. Em outras palavras, trata-se de um sistema cognitivo complexo, no qual as habilidades envolvidas interagem e se complementam para que a pessoa possa fazer e ver sentido no mundo social (Figura 1). Quando existem déficits em al- guma dessas habilidades, a circuitaria da Cognição Social falha, e o sujeito não compreende e não emite a resposta adequada à solicitação do meio. Estudos sobre as habilidades envolvidas no que hoje chamamos de Cognição Social remontam às primeiras pes- quisas de Charles Darwin, que foi pioneiro em relacionar as ex- Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101). 4444 Quadro 1. Aquisições esperadas de acordo com as diferentes faixas etá- rias. Idade Aquisições recém-nascido - contato ocular 18 meses - habilidade cognitiva de metarrepresenta- ção é perceptível nas crianças 2 anos - melhor expressão das emoções pela face e observação dessa expressão facial das emoções nos outros - compreesão dos seus desejos (egocen- trismo) 30 meses - grande quantidade de estados mentais: emoções, desejos, crenças, pensamentos, sonhos, propósitos 3 anos - conhecimento das expressões básicas - relato de experiências emocionais de outras pessoas - percepção de que determinadas situa- ções e atitudes podem provocar certos estados emocionais nas pessoas 4 anos - percepção de que as reações emocionais podem variar de pessoa para pessoa Figura 1. Habilidades envolvidas no sistema da cognição social. pressões faciais com a evolução do homem, atribuindo ao rosto o caráter de indicativo social fundamental para a sobrevi- vência. Publicado originalmente em 1872, o livro The expressi- ons of the emotions in men and animals (São Paulo: Compa- nhia das Letras; 2000) ressalta a existência de um processo evolucionário também para as expressões faciais. Ekman4 preconizou que existem emoções básicas universais e trans- culturais, ou seja, que não precisam ser ensinadas e que não variam entre os grupos sociais diversos. Essas emoções bási- cas são o medo, a raiva, a alegria, a tristeza, o nojo e a surpresa. Baron-Cohen5,6 fez um levantamento de 412 emoções hu- manas distintas e semanticamente diferentes, das quais al- gumas foram confirmadas como emoções básicas: o medo, a raiva, a alegria, a tristeza, o nojo, o estado pensativo e a neutralidade. A partir desse levantamento, passou a investi- gar as inferências sobre os estados mentais que uma pessoa faz sobre outras envolvidas em interações sociais. Piaget (apud Jou e Sperb7) foi um dos primeiros estudio- sos dos conteúdos mentais infantis. Para ele, no período pré- escolar, a criança com desenvolvimento normal não diferen- cia claramente os estados mentais dos estados físicos. Ele fez referência à capacidade que a criança deveria ter para perceber a distinção entre aparência e realidade, conceitos similares ao da falsa crença na Cognição Social. Mais especi- ficamente sobre empatia, Piaget descreve a questão do ego- centrismo, que seria o contraponto da habilidade de empatia, desenvolvida posteriormente, como a perda da visão de mundo na qual o referencial é somente a própria criança. Malatesta e Haviland8 ampliaram essa visão afirmando que a criança corresponde às expressões faciais de sua mãe desde os primeiros meses de vida, e que a adequação e a modulação dessas respostas ocorrem em consequência da cultura, do gênero e dos costumes familiares nos quais está inserida. Para Otta et al.9, crianças com desenvolvimento típico identificam facilmente as expressões faciais, seja por fotografias, desenhos esquemáticos ou associações com histórias. Aos 2 anos ocorre um aumento significativo na capacida- de da criança com desenvolvimento normal de nomear emo-ções; aos 3 anos, já relata experiências emocionais de outras pessoas e, aos 4, já percebe que as reações emocionais podem variar de pessoa para pessoa10. Para Izard e Ackerman11, aos 3 anos a criança já conhece as emoções básicas, e Saarni e Thompson12 referem que, já a partir de 2 anos, as crianças começam a ser capazes de expressar melhor as emoções por meio da face e de observar isso também nos outros, o que melhora muito as suas rela- ções sociais e a empatia. A autopercepção (self-conscious emotions) permitiria ao indivíduo identificar e descrever seus sentimentos, além de desenvolver a consciência corporal própria e do outro. Défi- cits nessa habilidade acarretam estilo cognitivo concreto, interpretação da realidade com base no pensamento operató- rio e vida emocional pobre, com baixa capacidade para fanta- siar, como um quadro de alexitimia13. Prejuízos na interação social estão intimamente relacio- nados com os elementos da Cognição Social, e acarretam dificuldades de relacionamento, de compreensão dos sinais sociais (expressão facial, tons de voz) e alteração de prosó- dia. Essas dificuldades se expressam, principalmente, em todas as variáveis do espectro do autismo, e constituem as- pectos decisivos para o diagnóstico dessas condições5,6. Cognição Social Empatia Atenção compartilhada Autopercepção (self-conscious emotions) Reconhecimento de expressões faciais Falsa crença e faz de conta (pretend-play) Inferências Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101). 5555 Para Howlin e Baron-Cohen14, as alterações da Cognição Social são como uma “cegueira mental”, representada por várias dificuldades que refletem funcionamento social inade- quado, não efetivo ou até inexistente. Essas alterações incluem: 1. pouca sensibilidade ou insensibilidade frente aos sen- timentos de outras pessoas; 2. dificuldade ou incapacidade para perceber e levar em conta o que outras pessoas sabem sobre determinada situa- ção social; 3. dificuldade ou incapacidade para iniciar amizades, compreendendo e respondendo às intenções do outro ou do grupo; 4. dificuldade ou incapacidade para sair do seu assunto de interesse para partilhar, escutar e conversar sobre o as- sunto do outro; 5. dificuldade ou incapacidade para detectar o significado da fala do outro, quer seja pelo conteúdo (metáforas) ou pela forma (piadas, simbolismos); 6. dificuldade ou incapacidade para antecipar-se ao que suas ações podem causar no outro, ou ao que o outro pode pensar; 7. dificuldade ou incapacidade para compreender mal en- tendidos ou enganos; 8. dificuldade ou incapacidade para compreender as in- tenções que existem por trás das ações dos outros; 9. dificuldade ou incapacidade para compreender as regras e convenções não explicitadas de forma clara e literal. À exceção do Inventário de Habilidades Sociais Del Pret- te15, que avalia a existência de diferentes classes de compor- tamentos sociais no repertório que o sujeito utiliza para res- ponder adequadamente às relações e às situações interpes- soais, não há instrumentos padronizados para a avaliação da Cognição Social, senão instrumentos para rastreamento e diagnóstico de transtornos do espectro do autismo (TEA) que incluem alguns dos elementos envolvidos no constructo da Cognição Social. Atenção cAtenção cAtenção cAtenção compartilhadaompartilhadaompartilhadaompartilhada Sobre a atenção compartilhada, Mundy e Sigman16 a de- finiram como sendo comportamentos da criança que envol- vem atitudes de comunicação verbal, não verbal e de contato / deslocamento ocular para dividir uma experiência. Segundo os autores, trata-se de habilidade que pode ser intencional ou automática, mas visa partilhar um evento social, ainda que minimamente. Para os autores, a atenção compartilhada está diretamente relacionada com o desenvolvimento da capaci- dade simbólica, e remete a um dos primeiros comportamen- tos sociais do ser humano no seu desenvolvimento neurobio- lógico. Ainda segundo os autores, as ferramentas seriam vocalizações, gestos e contato ocular. Tomasello e Akhtar17 colocaram que atenção compartilhada é uma habilidade que requer coordenação entre a atenção ao parceiro social, a si mesmo e ao foco de atenção dividida, tornando-se, portanto, um sistema complexo e que começa a ser desenvolvido logo nos primeiros meses de vida. A atenção compartilhada é uma habilidade fundamental para a interação social, com a comunicação do que é perce- bido. A criança comunica e coleta pistas sociais que a auxilia- rão na estruturação do jogo simbólico18. Desde os primeiros meses de vida, as crianças com de- senvolvimento típico apresentam sinais de atenção comparti- lhada. Aos 6 meses, por exemplo, estão aptas a seguir o olhar da mãe, e isso se intensifica a cada mês de vida. Alguns autores se aprofundaram no conhecimento das etapas pelas quais passa a estruturação da habilidade de atenção compartilhada. Segundo Franco e Butterworth (apud Brooks e Meltzoff19), aos 12 meses, as crianças apontam e, em seguida, olham para seu interlocutor; aos 14 meses, apontam e olham simultaneamente e, aos 16 meses, o olhar é anterior ao gesto, o que denota a evolução dessa habilida- de, pois a criança estaria refinando a noção de como levar o outro a olhar para onde lhe interessa compartilhar. Brooks e Meltzoff19 avaliaram o olhar seguinte de crianças de 12, 14 e 18 meses em tarefa na qual deveriam acompa- nhar o olhar de um adulto, com ou sem movimento de cabeça ao olhar para o alvo. Os resultados apontaram que, em todas as idades, a direção do olhar do adulto foi levada mais em conta do que apenas a direção da movimentação da cabeça, com desempenho melhor de acordo com a idade. Carpenter et al.20 ressaltaram que a atenção compartilha- da favorece o repertório protodeclarativo da criança, a possi- bilidade de compreender o ponto de vista do outro e de dividir ou mudar esse ponto de vista a favor de seu foco de interes- se. Perceber que o outro possa ter um ponto de vista diferen- te do seu, sobre coisas diferentes ou sobre a mesma coisa, é resultado do amadurecimento da habilidade de atenção com- partilhada. Dessa forma, a atenção compartilhada seria uma habili- dade precursora de outras envolvidas na formação da Cogni- ção Social, como a empatia, inferências, o faz de conta (pre- tend-play). Poder-se-ia, inclusive, apontar déficits de atenção compartilhada como um primeiro indicador de falhas na Cog- nição Social21. Nuku e Bekkering22 investigaram se o olhar e a posição da cabeça eram facilitadores para atrair a atenção comparti- lhada, alinhando o foco de interesse das pessoas envolvidas na interação. Em dois experimentos, foi utilizada uma cabeça humana virtual que, em algumas situações, estava de olhos abertos ou fechados e, em outras, apenas movendo a cabeça na direção do evento para o qual se desejava chamar aten- ção. A conclusão dos dois experimentos foi que a orientação da cabeça não é suficiente para provocar uma mudança na atenção do observador, mas que a direção do olhar é funda- mental para esse processo. Estudos recentes indicam que apontar para objetos, se- gui-los com o olhar, acompanhar o olhar do outro, e até al- cançar um objeto que se deseja fazem parte da atenção compartilhada. Falhas na habilidade de atenção compartilha- da dificultam que a pessoa possa dividir com um interlocutor Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101). 6666 o seu foco de interesse, ou, ainda, que possa acompanhar para onde se desloca eventualmente a percepção do outro. Em termos de ferramenta social, a atenção compartilhada é fundamental para eficiência das interações tanto duais quanto em grupos, ou para a simplesobservação de uma ocorrência social contextualizada. Inferir sobre os sentimentos do outro e compreender a re- lação de causalidade são processos mentais que também fazem parte da Cognição Social. Nos casos em que tais pro- cessos se apresentam deficitários, como ocorre nos casos de TEA, a noção de causa e efeito, ação e reação fica perdida, e planejar ou relativizar atitudes e impulsos é algo muito mais difícil. Inferir é consequência de estar atento a pistas sociais (atenção compartilhada), simbolizar, levar em conta os dados realmente fornecidos (falsa crença), conhecer o repertório de expressões faciais, colocar-se no lugar do outro (empatia) e, assim, emitir a resposta adequada23. Por volta dos 18 meses de idade, já se percebem nas cri- anças a habilidade cognitiva de metarrepresentação e a habi- lidade de atenção compartilhada, que é um dos componentes mentais indispensáveis para a existência da Teoria da Men- te24. Essa habilidade envolve vocalizações, gestos e contato ocular no propósito do indivíduo de dividir experiências em relação às propriedades dos objetos e dos eventos a seu redor16. Os jogos sociais têm papel significativo no desenvolvi- mento da habilidade de compartilhar interesses. Ao realizar uma atividade repetidamente, o bebê passa a entender as formas apropriadas de comunicação para cada atividade específica, desenvolvendo, assim, a comunicação intencio- nal25. A atenção compartilhada é, portanto, importante para o desenvolvimento da capacidade simbólica18. Mundy et al.26 definem o comportamento de atenção compartilhada como rico preditor do desenvolvimento da linguagem. Algumas habilidades que surgem na infância, como fingir num contexto de uma brincadeira ou jogo (faz de conta), parecem se manifestar apenas quando a capacidade de teorizar a respeito da mente dos outros é construída27. As relações entre esses mecanismos e a construção da linguagem são muito discutidas. Scheuer28 referiu que a Teo- ria da Mente tem implicações na constituição da linguagem. Por outro lado, Asting e Jenkins29 observaram que habilida- des iniciais de linguagem predizem o desempenho posterior nas provas de Teoria da Mente, sendo que o inverso não se verifica, e concluíram que a linguagem é essencial para a configuração da Teoria da Mente. Essa afirmação é justifica- da pelo fato de existir complexidade linguística envolvida nas provas de habilidades de Teoria da Mente. Empatia Empatia Empatia Empatia versusversusversusversus ssssistematização e o istematização e o istematização e o istematização e o reconhecimento de expressreconhecimento de expressreconhecimento de expressreconhecimento de expressões fões fões fões faciaisaciaisaciaisaciais À capacidade de decodificar os estados mentais do outro a partir de indicativos, dentre os quais se destacam as ex- pressões faciais, deu-se o nome de empatia. Etimologicamen- te, o termo empatia origina do grego em-pathos, que significa “sentir dentro”, e foi utilizado originalmente no mundo da pintu- ra para explicar os sentimentos que uma obra de arte é capaz de suscitar em quem a contempla30. Freud (apud Coelho Jr.31) já utilizava o conceito de empa- tia como ferramenta terapêutica, já que “sentir-se como” era fundamental para o processo psicanalítico. Chamou essa habilidade cognitiva de Einfühlung, considerando-a também como ferramenta essencial ao indivíduo na sociedade. Posteriormente a Freud, Carl Rogers definiu empatia co- mo a principal ferramenta para a técnica que desenvolveu de psicoterapia centrada na pessoa. Nela, o terapeuta, respon- dendo empaticamente ao paciente, sentindo-se como ele, teria maior alcance nas interpretações do material emocional trabalhado na sessão32. A empatia é uma habilidade cognitiva com componente afetivo, já que pressupõe uma resposta emocional, e se de- senvolve durante a infância. Essa habilidade se refere à ca- pacidade de perceber se alguém está olhando para você ou não; de julgar uma expressão facial básica de outra pessoa; de ter atenção compartilhada; de responder adequadamente ao estado emocional do outro; de julgar as intenções do outro33. Um dos primeiros estudiosos no campo do reconhecimen- to das emoções foi Harris34, segundo o qual crianças com desenvolvimento considerado normal reconhecem, já entre 3 e 4 anos de idade, que determinadas situações e desejos podem provocar certos estados emocionais nas pessoas. Em 1977, Izard10 realizou um trabalho fundamental para os primeiros estudos sobre empatia, reunindo fotos de norte- americanos adultos e crianças, com diversas expressões faciais. Mostrou-as a indivíduos de cinco países: Brasil, Chi- na, Argentina, EUA e Japão, solicitando que identificassem as emoções apresentadas nas fotos. Houve concordância de todos os países em relação ao reconhecimento das expres- sões de medo, raiva, alegria, nojo, tristeza e surpresa. Diante desses resultados, Izard considerou essas expressões faciais como universais, ou seja, facilmente reconhecidas por dife- rentes culturas. Crianças com desenvolvimento normal apresentam habili- dades empáticas no reconhecimento de expressões faciais entre os 4 e 5 anos de idade. Em estudos mais específicos sobre identificação de emoções, afirma-se que, a partir dos 3 anos de idade, as crianças já percebem que determinadas situações e atitudes podem provocar certos estados emocio- nais nas pessoas35. Segundo Otta et al.9, crianças identificam facilmente as expressões faciais, seja por fotografias, desenhos esquemá- ticos ou associações com histórias. O surgimento e a especi- alização da empatia em crianças por volta do segundo ao terceiro ano de vida viabiliza sua adaptação ao meio social, e permite que respondam a esse meio de maneira adequada e que, assim, mostrem um ajustamento crescente36. Baron-Cohen37 publicou a Teoria do Cérebro Extrema- mente Masculino do Autismo, segundo a qual o cérebro mas- culino seria mais sistemático do que empático, e que o autis- mo seria uma forma extrema de funcionamento do cérebro masculino. O Quociente de Empatia (QE) e o Quociente de Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101). 7777 Sistematização (QS) foram medidas desenvolvidas pelo autor e sua equipe5,6. Nesse sentido, sistematização é a capacida- de de analisar ou construir sistemas do ponto de vista cogni- tivo, e empatia é a capacidade de identificar os estados men- tais do outro e responder a eles com emoção apropriada37. Para chegar a essa conclusão, o autor utilizou diversos dados de pesquisas realizadas anteriormente (como o QE, o Teste dos Olhos, o Teste de Expressões Faciais Complexas, avali- ação de contato visual, desenvolvimento da linguagem, avali- ação de déficit pragmático, o Questionário de Amizades), como também investigou indicadores de funcionamento cog- nitivo mais sistemático do que empático, incluindo ilhas de interesse, atenção a detalhes, preferência por informações pontuais, desempenho em testes de física intuitiva, avaliação de preferência de brinquedos, interesse por coleções, obses- são por sistemas fechados (como computadores, circuitos de corrida etc.) e o QS37. Dando sequência a essas pesquisas, Baron-Cohen com- parou o QS, que seria a contrapartida do QE, entre homens, mulheres e pessoas com TEA. O estudo confirmou as hipóte- ses de que os homens normais tinham QS maior que as mulheres, e os sujeitos com TEA apresentavam QS maior que os outros dois grupos pesquisados33. Em estudo realizado para avaliar empatia em pessoas com TEA, Baron-Cohen5 comparou o desempenho de três homens com Síndrome de Asperger, homens sem Síndrome de Asperger e mulheres da população geral em tarefas que envolviam empatia e sistematização. Para avaliar empatia, utilizou instrumento elaborado por sua equipe, o Social Stori- es Questionnaire (SSQ), que compreende histórias nas quaiso paciente deve avaliar atitudes de um personagem que po- dem perturbar o outro personagem. Na avaliação de sistema- tização, a tarefa era responder o Physical Prediction Questio- nnaire (PPQ), que envolve compreensão de sistemas de física, prevendo o movimento seguinte do sistema proposto. Nessa prova, as mulheres tiveram desempenho significativa- mente inferior aos dois grupos de homens, e entre os grupos masculinos não houve diferença significativa. Já na tarefa de empatia, as mulheres tiveram resultados significativamente superiores. Falsa cFalsa cFalsa cFalsa crençarençarençarença Falsa crença, termo traduzido do inglês false beliefes, re- fere-se a uma crença que diverge da realidade por estar baseada em informações perceptuais parciais sobre determi- nada situação ou objeto. Em 1983, Wimmer e Perner38 cons- truíram uma tarefa para investigar a falsa crença, baseada no que chamaram de transferência inesperada, que passou a ser referência na área. Conseguir acertar a tarefa significa que a criança tem capacidade para predizer o comportamen- to do personagem baseado na sua crença (falsa). A falsa crença, segundo alguns teóricos, não estaria esta- belecida antes dos 3 anos, por falta de recursos de metarre- presentação no desenvolvimento típico. A metarrepresenta- ção possibilita que a criança desenvolva inferências e o faz de conta, inicialmente, no seu brincar e, posteriormente, para lidar com situações em interação social27. Wimmer e Perner38 determinaram que, em crianças normais, a falsa crença está estabelecida entre os 4 e 6 anos. Em estudo com crianças brasileiras, Santana e Roazzi39 colocaram que a falsa crença estaria estabelecida por volta dos 5 anos. Essas diferenças podem ser devidas ao método de estudo utilizado40. Partindo desse paradigma, Baron-Cohen41 desenvolveu o teste de Sally-Ann, especificamente para avaliar se havia com- prometimento dessa habilidade em crianças com diagnóstico de TEA. A tarefa envolve o contexto social e, por isso, pode indicar como a criança faz ou não inferências sobre os estados mentais de outras pessoas. Os autores enfatizaram que a compreensão da falsa crença, tanto quanto das crenças ver- dadeiras, é determinante para derivar o comportamento social. Pernner et al.42 utilizaram uma adaptação ao teste de Sally-Ann e à tarefa dos Smarties e, assim, avaliaram 90 crianças de 4, 5 e 6 anos de idade, das quais 30 viviam em orfanato, 30 tinham nível sócio-econômico baixo e 30, nível sócio-econômico médio, a fim de investigar se havia influên- cia do nível cultural no desempenho em situações que exigi- am habilidades de falsa crença. Crianças de 4 anos de nível sócio-econômico baixo e médio apresentaram a habilidade desenvolvida, mas as que viviam em orfanato só alcançaram bons resultados a partir dos 6 anos, observações que aponta- ram para uma possível relação entre estímulos do ambiente e melhora na habilidade de falsa crença. Autopercepção ou Autopercepção ou Autopercepção ou Autopercepção ou sssselfelfelfelf----conscious emotionsconscious emotionsconscious emotionsconscious emotions Alexitimia é, por definição, a incapacidade para nomear os próprios sentimentos e emoções. Foi cunhado por Pierre Marty (apud Carneiro43), na década de 1960, a partir de suas observações em pacientes que tinham doenças consideradas psicossomáticas por seu grupo de pesquisa. Referia-se a uma forma de pensar muito pragmática, concreta, com pouca capacidade de simbolização, o que tornava a pessoa pouco reativa aos eventos ao seu redor. Em 1977, Freyberger (apud Fitzgerald e Bellgrove44) pro- pôs a diferenciação entre alexitimia primária, que seria um traço de personalidade e, por isso, pouco sujeita a modifica- ções, e alexitimia secundária, ou seja, um estado emocional resultante de aspectos ambientais. Lewis et al.45 identificaram emoções secundárias que se- riam chamadas de self-conscious emotions, que envolvem autorreflexão e autopercepção baseadas em valores pesso- ais e nos de outras pessoas, e o fracasso em atingi-las leva o sujeito a um estado que poderá fazê-lo vivenciar ou não o sentimento, dependendo da objetivação de sua reflexão. Essas emoções secundárias são fundamentais como parâ- metros reguladores de funcionamento social adequado ao sujeito; são como alertas em relação ao contexto e ao feed- back que ele recebe por suas atitudes e reações. São elas: a vergonha, a culpa, o orgulho e o embaraço. As habilidades de Cognição Social se cruzam à medida que o sistema é utilizado, e uma acaba dependendo da outra Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101). 8888 no momento de emitir a resposta adequada ao estímulo social. As self-conscious emotions, por exemplo, estão associadas a dois aspectos da Cognição Social: a habilidade de reconhecer que um determinado comportamento social tem consequên- cias aos olhos dos outros, e a habilidade de compreender a violação das normas sociais46. O autoconceito foi reconhecido como fundamental para o desenvolvimento normal da Cognição Social, pois é formado, em grande parte, pela comparação com o outro e determina o modo como nos posicionamos em diversas situações sociais47. Pesquisas ressaltam que reconhecer as próprias emoções é uma forma de perceber os limites sociais e manter-se dentro de padrões aceitáveis do comportamento social. A percepção de emoções como timidez e vergonha é reguladora nesses casos. Em pessoas com TEA, por exemplo, muitas vezes a habilidade de identificar as próprias emoções, ter consciência delas e compreender o que elas causaram é um processo que precisa ser aprendido, não raramente anos depois do que seria esperado para a faixa etária da pessoa48. Modelo de PModelo de PModelo de PModelo de Processamento da Informação Social rocessamento da Informação Social rocessamento da Informação Social rocessamento da Informação Social ((((Social Information ProcessingSocial Information ProcessingSocial Information ProcessingSocial Information Processing –––– SIP)SIP)SIP)SIP) O funcionamento adequado das habilidades sociais a ser- viço da Cognição Social sugere que o conteúdo social absor- vido deva seguir um modelo de organização e processamen- to. O modelo mais aceito foi o proposto em 1994, por Crick e Dodge49, que entendem que, desde pequena, a criança, por meio da observação, da reflexão e da avaliação, pode pesar as possíveis consequências antes de agir ou reagir em diver- sas contingências de seu desenvolvimento, aprimorando, dessa forma, o processamento de informação social. Essas etapas supõem que haja uma codificação da infor- mação social, seguida de sua interpretação, de acordo com repertórios, educação, cultura e faixa etária. Depois ocorre a clarificação de metas, visando à elaboração de respostas, decisão e, finalmente, à emissão do comportamento50 (Figura 2). Figura 2. Modelo de Processamento de Informação Social (SIP) em crianças (adaptado de Crick & Dodge, 199450). Considerações finaisConsiderações finaisConsiderações finaisConsiderações finais O desenvolvimento típico da Cognição Social é funda- mental para as interações sociais efetivas do ser humano, e alterações nessa habilidade são observadas especialmente em pessoas com diagnósticos de TEA, Esquizofrenia, De- pressão, Transtorno Específico de Linguagem, Paralisia Ce- rebral, Sociopatia, Déficit no Processamento Auditivo, Fobia Social, Mal de Alzheimer, Demência, Transtorno Não Verbal de Aprendizagem e Transtorno de Personalidade Esquizoide. No caso específico dos TEA, embora se refiram a condi- ções cujo diagnóstico clínico ainda é considerado o “padrão- ouro”51, a avaliação dos elementos da Cognição Social é uma forma de mapear os déficits dessa população no domínio social e, assim, poder dimensionar de onde devem partir as intervençõesa serem feitas. Todavia, não existem instrumentos validados ou padroni- zados, até o momento, que abranjam todas as habilidades discutidas neste artigo, mas alguns questionários e escalas desenvolvidos em pesquisas realizadas por grupos idôneos Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101).Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101). 9999 vêm sendo utilizados como norteadores clínicos desse tipo de avaliação. É o caso, por exemplo, de materiais produzidos pelo grupo da Universidade de Cambridge (Austim Research Center), liderado por Simon Baron-Cohen. Duas tarefas que avaliam, respectivamente, a capacidade de sistematização em adultos e o QE e QS em crianças já foram traduzidas e adaptadas para a Língua portuguesa52,53. O Questionário de Predição Física (QPF)52 compreende 40 itens retirados do Vincent Mechanical Diagrams Test, no qual o sujeito estuda diagramas mecânicos e deve predizer o movimento de duas alavancas em consequência do movi- mento de uma alavanca. O QPF possibilita avaliar na popula- ção adulta com TEA a capacidade de sistematização, o que está diretamente relacionado com pouca flexibilidade. A Es- cala de Avaliação do Quociente de Empatia e Sistematização (para crianças), traduzida e adaptada para a Língua portu- guesa por Vinic e Shwartzman53, consta de 55 questões, das quais 27 são relativas à empatia e 28, à sistematização. São frases afirmativas para as quais a mãe deve escolher, numa escala do tipo likert, entre as opções “concordo totalmente”, “concordo em parte”, “discordo em parte” e “discordo total- mente”. É indicada para a faixa etária entre 4 e 11 anos. O resultado reflete uma comparação entre os QE e QS, hipote- tizando-se que, nos casos de TEA ou de déficits da Cognição Social, QS será >QE. Conhecer, investigar e avaliar a Cognição Social, especi- almente em casos suspeitos de TEA ou de outras condições, pode ser um caminho para buscar um prognóstico social mais favorável para essas pessoas. Além disso, é uma forma de compreender como essas pessoas enxergam as relações sociais que as rodeiam, já que seu isolamento social é muito mais decorrência da falta de ferramentas de avaliação do que do desejo propriamente dito de ficar num mundo à margem das interações sociais, imagem erroneamente ainda associa- da principalmente aos TEA. ReferênciasReferênciasReferênciasReferências 1. 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Atualização Alves ACJ, Matusukura TS. Reflexões sobre o uso da tecnologia assistiva no contexto escolar. Temas sobre Desenvolvimento 2011; 18(101):10-6. Artigo recebido em 21/06/2010. Aceito para publicação em 31/03/2011. reflexões sobre o uso da tecnologia assistiva no contexto escolar ana cristina de jesus alves1 thelma simões matsukura2 (1) Terapeuta ocupacional, Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Educação Especial da Universidade Federal de São Carlos, SP. (2) Terapeuta ocupacional, Docente do Programa de Pós-graduação em Educação Especial e do Programa de Pós- graduação em Terapia Ocupacional da Universidade Federal de São Carlos, SP. Programa de Pós-graduação em Educação Especial da Universidade Federal de São Carlos, SP. CORRESPONDÊNCIA Ana Cristina de Jesus Alves Rua Benjamin Stauffer 466 / 01 – 14.020-350 – Ribeirão Preto – SP – crisjalves@yahoo.com.br. RESUMO REFLEXÕES SOBRE O USO DA TECNOLOGIA ASSISTIVA NO CONTEXTO ESCOLAR: O Censo Escolar realizado no Brasil no ano de 2008 localizou 11.617 deficientes físicos matriculados em classes comuns no estado de São Paulo. O uso de recursos de tecnologia assis- tiva tem trazido benefícios em relação à necessidade de auxílio e de cuidado a essa população. Estudos internacionais apontam que a promoção da independência foi um dos benefícios mais frequentemente citado por pais e por professores. Na literatura nacional, as publi- cações estão focadas em indicações de recursos que visam favorecer o desempenho escolar da criança com deficiência. Este estudo tem como objetivo apresentar a trajetória do uso de recursos de tecnologia assistiva no âmbito nacional e internacional, focando o contexto es- colar e discutindo os conceitos, as práticas e os modelos teóricos que fundamentam esse uso. Descritores: Educação especial, Inclusão, Tecnologia assistiva, Terapia ocupacional, Paralisia cerebral. ABSTRACT REFLECTIONS ON THE USE OF ASSISTIVE TECHNOLOGY IN THE SCHOOL CONTEXT: The Brazilian Scholar Census 2008 identified 11,617 disabled persons enrolled in regular classes in São Paulo state. The use of assistive technology has brought benefits related to the assistance and care needs of this population. International researches indicate that one of the benefits most frequently reported by parents and teachers is the advancement of the independence in students. In national literature, the research is focused on resources that aim at promoting the school performance of disabled children. The objective of this review is to present the historical use of assistive technology re- sources at national and international references, focusing on the school context and discussing the concepts, approaches and theoretical model that underlie their use. Keywords: Special education, Inclusion, Assistive technology, Occupational therapy, Cerebral palsy. O Censo Escolar realizado no Brasil no ano de 2008 loca- lizou 384.599 alunos com necessidades educacionais especiais matriculados em classes comuns, com suplementação em classe de recurso ou não. Nesse contingente, o número de