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Cosméticos em patches.pdf USO COSMÉTICO DE PATCHES: artigo de revisão1 Daniela Furlani 2 Nayara da Silva2 Daisy Janice Aguilar Netz 3 Resumo: A veiculação de ativos de aplicação cosmética por meio de patches é recente e ainda muito pouco difundida entre os profissionais da área de estética e até mesmo na academia, embora algumas publicações abordem esta aplicação há alguns anos. O emprego desta tecnologia representa um importante avanço na área da cosmetologia, uma vez, que pode proporcionar grande incremento na permeação de ativos sobre a pele e nas diferentes camadas-alvo, potencializando desta forma a eficácia da formulação. Assim, este trabalho teve como objetivo o levantamento de dados e informações relativas a este tipo de dispositivo, buscando o entendimento aprofundado da relação entre a pele e a penetração de ativos, do seu mecanismo de ação e estruturação dos patches e o levantamento de produtos desta categoria de cosméticos disponíveis no mercado nacional e internacional. Palavras-chave: Cosmecêuticos. Patches. Cosméticos 1 INTRODUÇÃO A pele é considerado o maior órgão humano, pesando, em um adulto mediano, por volta de 4 kg, cobrindo uma superfície de cerca de 2 m2 e recebendo aproximadamente um terço da circulação sanguínea do corpo. Com a espessura de apenas alguns milímetros (2,97 ± 0,28 mm), a pele separa a rede de circulação sanguínea e os demais órgãos do corpo do ambiente externo, ajudando a manter a temperatura corporal, evitando a perda excessiva de água pelo corpo, além de protegendo o indivíduo contra a entrada de agentes químicos e ambientais 1 Artigo apresentado como requisito para aprovação no Curso de Especialização Lato Senso em Estética Facial e Corporal, da Universidade do Vale do Itajaí, Unidade Ilha, Florianópolis, SC, sob orientação da Profª Drª Daisy Janice Aguilar Netz. Março 2012 2 Acadêmicas do Curso de Especialização Lato Senso em Estética Facial e Corporal – UNIVALI, Balneário Camboriú, Santa Catarina. dani_furlani@hotmail.com e nana_nyr@hotmail.com 3 Professor de Graduação no Curso de Farmácia e de Cosmetologia e Estética – UNIVALI. danosos, particularmente os infecciosos (bactérias e vírus), impurezas e a radiação solar. Além disso, possui funções metabólicas, imunológicas e táteis (CHIEN 1992). Observam-se ainda várias estruturas anexas, que são os pêlos, as unhas e as glândulas sudoríparas e sebáceas. (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2004). De acordo com Ribeiro (2010) o termo cosmético vem do grego kosméticos, que designa prática ou habilidade em adornar, e no Brasil, a ANVISA define que são preparações que compreendem uma vasta classe de produtos destinados a aplicação nas diversas partes do corpo, ou seja, pele, sistema capilar, unhas, lábios, órgãos genitais externos, dentes, membranas e mucosas da cavidade oral e que possuem como objetivo exclusivo ou principal limpá-los, perfumá-los, alterar sua aparência ou corrigir odores corporais e ou ainda protegê-los e mantê-los em bom estado (BRASIL, 2005). Partindo do ponto de vista que cosméticos podem desempenhar uma gama de ações, muitos produtos cosméticos contem ativos capazes de alterar de modo considerável a funcionalidade da pele, os quais são denominados de cosmecêuticos, termo criado por Kligman há mais de 30 anos, e que deriva na mistura das palavras cosmético e farmacêutico (cosme + cêutico). De uma forma geral, estes produtos veiculam ativos com mecanismo de ação conhecido, como são o dos fármacos, e, em função disso, prometem benéficos comprovados. Embora o termo não seja termo reconhecido pela ANVISA, é amplamente empregado pelo mercado de profissionais da área de cosmetologia (RIBEIRO, 2010) A indústria cosmética os define como produtos cosméticos que proporcionam benefícios “semelhantes” aos dos medicamentos. Os dermatologistas devem conhecê-los, pois podem ser úteis como coadjuvantes ao tratamento clínico medicamentoso, no preparo da pele para procedimentos e na manutenção de resultados (BEGATIN 2009). Logo, existe uma grande variedade de ativos classificados como cosmecêuticos. Esses ativos podem ser didaticamente enquadrados em categorias tais como: agentes despigmentantes, retinóides, filtros solares, vitaminas, antioxidantes, minerais, hidroxiácidos, fatores de crescimento, proteínas extratos botânicos, entre outras (GAO et al., 2008). O termo patch deriva do inglês “remendo”, “emplastro”, sendo atualmente na medicina e na estética empregado como terminologia geral para dispositivos colocados sobre a pele os quais liberam ativos nesta camada, que podem ficar retidos na camada córnea e exercer ação localizada, podem permear entre as camadas e abaixo do estrato córneo e na derme (liberação intradérmica) assim como podem proporcionar a ação sistêmica (transdérmica). Consistem basicamente de materiais poliméricos dispostos na forma de filmes delgados e flexíveis, delineados basicamente por um suporte externo impermeável, o qual protege um reservatório contendo uma preparação semissólida, na qual os ativos se encontram dispersos próximos à concentração de saturação, revestido por um filme adesivo protetor (em contato com a pele). Podem conter uma quantidade de ativo suficiente para algumas horas ou até alguns dias e de uma forma geral, liberam os ativos da formulação para o estrato córneo numa razão controlada. Os patches são classificados em duas categorias principais, os monolíticos ou matriciais e os de velocidade limitada por membrana (BARRY, 2005). A veiculação de ativos de aplicação cosmética por meio de patches comerciais é recente e ainda muito pouco difundida entre os profissionais da área de estética e até mesmo na academia, embora algumas publicações abordem esta aplicação há vários anos (GUERET, 2000; 2003; 2008; AUBRUN-SONNEVILLE, 2010). Nos sistemas que veiculam medicamentos, são denominados de transdérmicos, mas para aplicação cosmética, são usados os termos transdérmico e também intradérmico. O emprego de patches para a veiculação de ativos cosméticos representa um importante avanço na área da cosmetologia, uma vez, que pode proporcionar grande incremento na permeação de ativos sobre a pele e nas diferentes camadas-alvo, proporcionando desta forma o aumento da eficácia da formulação, aspecto de grande importância. Algumas empresas classificam este tipo de veiculo, em função do caráter inovativo e do potencial em proporcionar grande efeito de retenção e de penetração de ativos de interesse na pele, como a “terceira geração dos cosméticos” (BIOTECDERMO, 2010) Este trabalho teve como objetivo o levantamento de dados e informações relativas a este tipo de preparação cosmética, buscando o entendimento do seu mecanismo básico de ação, da relação entre a pele e a penetração de ativos, a estruturação e composição básica destes dispositivos e a busca de exemplos de sistemas disponíveis no mercado de produtos cosméticos. 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Estrutura da pele humana A pele humana é a cobertura externa do corpo e equivale a mais de 15% do peso corporal. Limita a evaporação de água corporal, serve como receptora para as sensações (dor, pressão, temperatura e tato), protege contra a radiação ultravioleta, atua na regulação térmica e também na excreção de substâncias através das glândulas sudoríparas e do tecido adiposo (CHIEN, 1992; ROSS et al., 1993; SAMPAIO; RIVITTI, 2001). É composta por várias camadas de células distintas, que podem ser divididas em três grandes camadas: a epiderme, a derme e a hipoderme. A epiderme é a camada mais externa e é composta por tecido epitelial estratificado. Na epiderme é possível diferenciar várias camadas de células distintas. O estrato germinativo ou camada basal é constituído fundamentalmente por células colunares, nucleadas, contendo filamentos de queratina e organelas celulares. O, estrato espinhoso apresenta células achatadas e poligonais, núcleo ovóide, com a presença, no citoplasma, de pequenos grânulos lamelares. Tonofibrilas se estendem para o interior dos prolongamentos citoplasmáticos, semelhantes a espinhos e se fixam na placa densa do desmossoma. O estrato granuloso é composto de várias camadas de queratinócitos anucleados, achatados, com grânulos de querato-hialina, de formato irregular, sem membrana limitante e associados a tonofilamentos. Já o estrato lúcido somente é observado em determinados cortes de pele espessa e se apresenta como uma linha clara, brilhante e homogênea. As células (eosinófilos) são finas e achatadas, sem núcleo ou organelas. O estrato córneo é formado por 10 a 20 camadas de queratinócitos anucleados, com 10 m de espessura quando seca. Apresentam citoplasma contendo agregados de filamentos intermediários de queratina, unidos por ligações cruzadas com filagrina, que confere o aspecto achatado característico. (MENDELSOHN et al., 2006) A derme é constituída por tecido conjuntivo e apresenta papilas que se projetam para a epiderme, apresentando função primordial relacionada à resistência e a elasticidade (WAINWRIGHT, 1995). Nesta camada são encontrados os capilares sanguíneos e também estão presentes os apêndices da pele, como os folículos pilosos e as glândulas sebáceas e sudoríparas. Histologicamente, aderme é dividida em derme papilar, constituída de tecido conjuntivo frouxo e localizada imediatamente abaixo da epiderme, contendo prolongamentos nervosos e vasos sanguíneos que irrigam a epiderme, mas não penetram nela, e derme reticular, mais profunda e espessa, constituída por tecido conjuntivo denso. Apresenta fibras colágenas mais espessas e menor quantidade de células que a camada papilar (ROSS et al., 1993). Abaixo da derme, encontra-se a hipoderme ou tecido subcutâneo, uma camada de tecido conjuntivo mais frouxo, que contem quantidade variável de tecido adiposo, o qual desempenha varias funções, entre elas o fornecimento de energia, a definição corporal e a ação absorvedora de choques, isolamento térmico e preenchimento de espaços. Também apresenta função imunológica, pela secreção de adipocinas como a interleucina 6, o fator de necrose tumoral α e os fatores do complemento B, C3 e D (adipsina) e função cardiovascular, pela secreção de moléculas do eixo renina-angitensina.Também está relacionada com a função metabólica, em função da produção de ácidos graxos livres, adiponectina, resistina, visfatina e ácido palmitoleico (C16:1, ω-7). Por fim, quanto a função endócrina, secreta leptinas, associadas à regulação dos depósitos energéticos e da fertilidade e ainda a secreção de hormônios esteroidais (SPEROFF, 1995) Cosmecêuticos Cosméticos são produtos de uso externo, destinados a aplicação na pele, sistema capilar, unhas, lábios, órgãos genitais externos, dentes e membranas mucosas da cavidade oral, constituídos de substâncias sintéticas ou naturais, cuja função ou objetivo está relacionado com limpar, perfumar, alterar a aparência e ou corrigir odores corporais ou ainda com a função de proteger ou manter em bom estado (BRASIL, 2005). O emprego de substâncias capazes de melhorar a aparência cutânea pode trazer benefícios amplos, desde aos aspectos psicológicos, podendo afetar até mesmo as relações inter-indivíduo, uma vez que promove aumento da auto-estima, proporcionando maior bem estar, afetando assim o estado físico também, promovendo a saúde e desta forma, proporcionando aumento da longevidade (LAWRENSE, 2000). A indústria de produtos cosméticos representa uma considerável área no mercado mundial, que tende a crescer ainda mais, devido à busca universal pela melhoria da qualidade de vida e de aumento do bem-estar (KLIGMAN, 2000). No Brasil, a indústria que engloba produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos apresentou, nos últimos 15 anos, crescimento médio (deflacionado) de 10,5%, com faturamento líquido de 27,3 bilhões em 2010 (ABIHPEC, 2012). Até a década de 60, os produtos cosméticos se limitavam a desempenhar uma ação superficial, tendo como alvo principal a ornamentação e a beleza, não afetando a estrutura nem a função da pele. Assim, os produtos cosméticos deveriam ser completamente inertes ou farmacologicamente inativos. Tal função, apresentar qualquer efeito biológico, era restrita a fármacos. Entretanto, após a década de 1960, os estudos começaram a mostrar que quase todas as substâncias podem afetar a estrutura e função da pele. Como exemplo, a água, uma substância fundamental para todos os processos celulares, pode ser danosa, se o contato com a mesma for excessivo, prejudicando a função de barreira e predispondo a pessoa a lesões com outros agentes químicos e dermatose. Conforme KLIGMAN (2000), a pele, quando em contato com a água por aproximadamente 48 horas poderá apresentar afrouxamento de corneócitos, alteração na produção de células de langerhans, melanócitos e queratinócitos, aumento dos espaços intercelulares, aumento do fluxo sanguíneo e ativação de citoquinas pró-inflamatórias Visto desta forma, onde nem mesmo a água é inerte, percebeu-se que muitos ativos cosméticos podem realmente vir a atuar não somente com efeito cosmético, mas alterando profundamente a pele. Tal classe de produto é conhecida como “cosmecêutico”. Este termo foi introduzido por Albert Kligman, em1988 (GAO et al., 2008), sendo designado para produtos que contenham ingredientes biologicamente ativos, com mecanismo de ação conhecido, capazes de proporcionar benefícios semelhantes aos dos medicamentos, sendo entretanto ainda considerados cosméticos. Assim, além de satisfazer as necessidades de “beleza”, estes produtos podem atuar de modo mais efetivo em determinados problemas estéticos. Embora o termo cosmecêutico não tenha aceitação oficial por parte dos órgãos regulatórios, como o FDA e a ANVISA, entrou para o vocabulário da indústria de cosméticos e é empregado em todo o mundo, com variações de nomenclatura, sendo designados também como Dermocosméticos, Cosméticos de desempenho, Cosméticos funcionais e Neocêuticos. Entretanto, independente do nome dado, devido ao seu aspecto funcional, estes produtos fazem mais do que melhorar a aparência através da ocultação e camuflagem. E assim, o emprego dos cosmecêuticos é justificado em função de apresentarem propriedades farmacológicas úteis para aplicações específicas, de finalidade cosmética. Com esta premissa, pode-se desenvolver produtos cosméticos com ingredientes multifuncionais, como por exemplo, para o tratamento da acne (alfa e beta- hidroxiácidos), de sinais do fotoenvelhecimento e manchas de pele (idebenona, coenzima Q 10, hidroquinona, arbutin, ácido kójico, ácido ferúlico, vitaminas A, B, C e E, extratos polifenólicos de plantas, derivados do ácido retinóico) da pele seca (ácido hialurônico) assim como na proteção a radiação ultravioleta (RIBEIRO, 2010). Produtos cosméticos e cosmecêuticos geralmente são empregados na forma de semisólidos, como emulsões consistentes (cremes) ou fluidas (loções), suspensões, magmas, géis loções, ou ainda na forma de soluções, pós, entre outras formas de preparação. Estas formas de apresentação são denominadas de sistemas de liberação, que podem ser divididos em convencionais ou modificados. São denominados de convencionais quando a liberação do ativo a partir do veículo ou base, não é modelada, direcionada, e como modificados ou não convencionais quando a liberação é controlada, direcionada. Patches são dispositivos capazes de veicular ativos e proporcionar a liberação de modo modificada, ou seja, são sistemas não convencionais (BARRY, 2005). Entretanto, anterior a abordagem do que são estes dispositivos, é importante salientar alguns aspectos tocantes á permeação cutânea. Permeação cutânea A maioria dos cosméticos empregados aplicados na pele possui ação superficial, entretanto, muitos ativos necessitam permear o estrato córneo para chegar ao seu local de ação, como no caso dos utilizados para o tratamento de hidrolipodistrofia ginóide (celulite). Considerando a constituição e o efeito protetor do estrato córneo, estes podem apresentar dificuldades em atravessar essa barreira e atingir seu sítio de ação (BARRY, 2004). A pele compreende três camadas, derme, epiderme e hipoderme. A camada mais externa da pele, a epiderme, é de aproximadamente 100-150 micrômetros de espessura e não tem fluxo de sangue. Ela inclui uma camada dentro dela conhecida como o estrato córneo. Esta é a camada mais importante, no sentido de ser a limitante para a para a aplicação transdérmica (ANSEL; POPOVICH; ALLEN, 2003). A administração de ativos na pele seja para um tratamento local (tópico) ou sistêmico (transdérmico), baseia-se na difusão destes através das diversas camadas da epiderme. O estrato córneo mantém o conteúdo de água mesmo em condições climáticas variáveis, bem como limita a absorção de substâncias tóxicas (ou não tóxicas) do ambiente. Assim, a maioria dos ativos liberados pelos sistemas transdérmicos são moléculas pequenas, apolares, potentes e relativamente lipofílicas. No entanto, a quantidade que penetra na pele depende quase sempre do veículo utilizado (BARRY, 2003) Os ativos podem atravessar o estrato córneo através de três diferentes vias, a intercelular, a transcelular e pela via dos anexos, conforme ilustra a figura 1. Pela via intercelular, difunde-se ao redor dos corneócitos, permanecendo constantemente dentro da matriz lipídica; pela via transcelular, atravessam diretamente através dos corneócitos e da matriz lipídica intercelular intermediária. Já na via apêndices, denominada de rota paralela, os ativos podem ser absorvidos pelo folículo piloso, glândulas sebáceas e glândulas sudoríparas. A absorção de ativos na pele é afetada por vários fatores tais como espessura, temperatura, grau de hidratação, limpeza da pele, fluxo sanguíneo, concentração de lipídios, número de folículos pilosos, função das glândulas sudoríparas, raça, pH na superfície da pele e integridade do estrato córneo (BARRY, apud AULTON, 2005) Figura 1. Vias de permeação de fármacos através do estrato córneo: através da matriz lipídica, entre os corneócitos (penetração intracelular) e através dos corneocitos e a matriz lipídica (penetração transcelular). Fonte: Moser, et al , 2001. Embora a proposta da aplicação de produtos cosméticos não inclua a ação sistêmica dos ativos, muitos destes ativos desempenham sua ação em tecidos localizados nas camadas abaixo do estrato córneo e até mesmo na derme e na hipoderme. Neste caso encontram-se os ativos empregados para o tratamento da HLDG, de clareadores de manchas, hidratantes de ação profunda, entre outros. Assim, partindo-se da necessidade de promover a penetração de determinados ativos, os patches ou adesivos transdérmicos e as bandagens têm sido propostos para veicular produtos de cuidado pessoal e cosméticos (KANTNER, 2005) Adesivos ou patches transdérmicos Patches, adesivos e bandagens são dispositivos que, quando colocados sobre a pele, são capazes de permitir a liberação de fármacos ou ativos na pele por um determinado tempo, numa, de tal forma que o adesivo, e não o estrato córneo, controla a velocidade com a qual o ativo se difunde sobre a pele (BARRY, 2005). As bandagens foram os primeiros tipos de adesivos colocados sobre a superfície da pele, sendo que os primeiros materiais empregados, derivados de borracha natural, datam do final do século 19, sendo o primeiro produto delineado pela empresa Johnson & Johnson’s (VENKATRAMAN; GALE, 1998). Os dispositivos transdérmicos consistem basicamente de um suporte externo impermeável, o qual protege um reservatório contendo uma preparação semi- sólida, na qual o fármaco se encontra disperso próximo à concentração de saturação, revestida por um filme protetor. Liberam o fármaco para a pele a uma razão controlada, numa velocidade abaixo da capacidade de aceitação da pele, sendo que o dispositivo deve controlar a difusão no estrato córneo (HADGRAFT, 2001). Os adesivos são classificados em duas categorias principais, os monolíticos ou matriciais e os de membrana limitante a velocidade. A figura 2 ilustra um dos tipos de sistema, o monolítico. Estes sistemas são compostos por uma camada posterior, que protege a matriz que contem a formulação e o (s) ativo (s), uma camada adesiva, que contem o ativo disperso em equilíbrio com a matriz, é a responsável pela fixação à pele. No sistema denominado de reservatório, o (s) ativo (s) está situado entre uma camada não permeável e uma membrana que limita a liberação, que geralmente é porosa. Independente do tipo de sistema, algumas características dos materiais empregados e dos ativos ali colocados são fundamentais para que se tenha um bom desempenho. Com relação aos ativos, salientam-se a solubilidade, pKa e tamanho molecular. Com relação aos materiais, a capacidade de aderir, biocompatibilidade, porosidade e elasticidade (KANDAVILLI et al., 2002) Figura 2 Representação esquemática de um dispositivo de liberação transdérmica baseado no modelo matricial ou monolítico. Fonte: adaptado de AULTON (2005) Os materiais empregados podem ser classificados em vários grupos, dependendo da função desempenhada. Uma classificação básica compreende: a) materiais formadores de matriz; b) membrana limitante da liberação; c) película protetora. Assim, os formadores de matriz, ou seja, os que estão em contato direto com a formulação, tem como exemplos de principais materiais diversos tipos de como os polietilenoglicóis (PEG´s), derivados do ácido acrílico, polivinilpirrolidona, derivados de celulose, lecitina, tensoativos como o monoesteratode sorbitano e o Tween®, poloxamers, entre outros. Já entre os materiais denominados de membrana limitante, os quais podem ser porosos ou não, citam-se os copolímeros do etileno acetato de vinila (EVA), borracha de silicone, poliuretano, materiais sensíveis à pressão (PSA). Finalmente, como película protetora destacam-se o polietileno, o filme de poliuretano, os copolímeros de etileno acetato de vinila, o polipropileno, os poliuretanos, os polipropilenos e os poliésteres (polietileno Película destacável Filme protetor removível Molécula do fármaco Cristal do fármaco Camada anterior Reservatório do fármaco Membrana Adesivo Molécula do fármaco Cristal do fármaco Película protetora Reservatório do fármaco Membrana Adesivo tereftalato). Durante a estocagem, o patch se encontra envolvido por uma capa protetora, a qual é removida imediatamente antes da aplicação sobre a pele. Apesar de fazer parte da embalagem primária, está em contato próximo com o sistema de liberação, devendo estar em concordância com os requerimentos a respeito de inerticidade e biocompatibilidade quanto á reatividade química, permeação do fármaco, promotor de absorção ou água. Patches propostos para uso cosmético A veiculação de ativos de aplicação cosmética por meio de patches comerciais é recente, embora algumas publicações abordem esta aplicação há vários anos (GUERET, 2000; AUBRUN-SONNEVILLE, 2010). Nos sistemas que veiculam medicamentos, são denominados de transdérmicos, mas para aplicação cosmética, são usados os termos transdérmico e também intradérmico. O termo intradérmico se refere à liberação de ativos sobre a pele, em determinado período de tempo, a partir de um determinado patch, que pode ser formado por vários tipos de filmes e matrizes, contendo uma vasta gama de ativos veiculados. Shcherbina; Roth; Nussinovich (2010) avaliaram as propriedades físicas de um patch contendo óleo essencial de Lavandula augustifolium, um óleo essencial de grande aplicação na dermocosmética e na aromaterapia. Os patches foram desenvolvidos utilizando-se goma caraia, propilenoglicol, glicerina, emulsificante, água destilada e amido de batata como diluente e com concentrações de óleo essencial variando de 2,5 a 10%. Foram preparados pelo método de geleificação em baixa temperatura (-20°C) seguida de solidificação em placa de Petri. Embora se reconheça que óleos essenciais, por suas características físico-químicas sejam moléculas hábeis para penetrar no ambiente anfifílico do estrato córneo, a utlização de patches pode favorecer grandemente a terapêutica, dada a capacidade do sistema em atuar como um depósito que libera gradualmente pequenas quantidades do óleo essencial. A empresa Natural Patches (http:www//naturalpatches.com) disponibiliza uma extensa linha de patches com diferentes óleos essenciais, com proposta para aplicações cosméticas e de aromaterapia. O sistema é delineado para que a liberação dos óleos essenciais seja ativada pela temperatura corporal (Shcherbina; Roth; Nussinovich, 2010). Batchelder et al (2004) avaliaram a permeção in vitro (em modelo animal, com pele de porco) de catequinas e cafeína a partir do extrato de chá verde. Utilizaram patches contendo diferentes concentrações do extrato e quantificaram a presença da (−)-epigallocatechina gallato (EGCg), (−)-epigallocatechina (EGC) and (−)- epicatechina (EC) dissolvidas. A importância do emprego tópico deste extrato e dos polifenóis nele presentes tem sido demonstrada, não somente para o tratamento da HLDG, mas também como terapia para tratamento de tumores de pele malignos e não malignos , conforme artigo de LU et al (2002 apud Batchelder et al., 2004). Os autores avaliaram a permeação e observaram que o correspondente a 0,1% de EGCg permeou em 24 horas, o que corresponde ao mesmo percentual quando administrada a mesma concentração por via intragástrica em ratos (CHEN at al., 1997 apud Batchelder et al., 2004).Estes resultados demonstram que a liberação transdérmica de catequinas e xantinas derivadas do extrato de chá verde em concentrações efetivas e seguras. Kantner (2005) descreve um tipo diferente de patch para uso cosmético (veiculação de ativos dermocosméticos, capilares, para aplicação nas unhas, pigmentos para maquiagem) e dermatológico, ou seja, com potencial aplicação também para fármacos. A inovação está no caráter hidrofílico, com o emprego de filme polimérico dissolvível e sensível à pressão (isto, de acordo com o autor, proporciona grande aderência na pele). Os ativos, quando veiculados sobre o filme e ou matriz, são liberados após a lenta desintegração do sistema, permitindo desta forma longo tempo de contato da pele. O nome do produto é 3MTM HydroElegance, 3M. Este sistema foi delineado para veicular uma ampla variedade de ingredientes, de caráter hidrossolúvel e também lipossolúvel. O adesivo, contendo o (s) ativo (s) deve ser mantido seco até o momento do uso. Os ativos podem estar na matriz, dissolvidos, suspendidos, emulsificados ou aderidos sobre o adesivo. São diferenciais neste sistema a versatilidade de aplicação, uma vez que pode sem empregado para pequenas ou grandes áreas do corpo, podenso ser aplicado sobre a pele, cabelo e unhas, além de mucosa mucal e em dentes. A tecnologia permite tratamentos prolongados, muitas vezes essenciais para a eficácia da terapia (KANTNER, 2005) Viyoch et al. (2005) descrevem a preparação e avaliação de patch contendo alfa- hidroxiácidos (AHAs) contidos no extrato da polpa de tamarindo. Os autores argumentam que apesar do amplo emprego destes AHAs em formulações dermatológicas e cosméticas, existem limitações de uso, concernentes especialmente ao potencial irritante dos mesmos, devido suas características acídicas e a quantidade permeada em formulações convencionais. A escolha do extrato da polpa de tamarindo se deu em função do uso tradicional, do percentual de AHAs (8-23% de ácido tartárico, 2% de ácido lático e pequenas quantidades de ácido cítrico e mandélico) e do baixo potencial de irritação dérmica. Assim, os autores propuseram a veiculação deste ativo em patches de hidrogéis compostos da mistura de quitosana ligada com diferentes tipos de amido (mandioca, milho e arroz) através do reticulante glutaraldeído. O artigo teve como foco a avaliação da liberação a partir das variáveis de uma determinada composição de hidrogéis e mostraram que esta variação pode implicar no perfil de liberação, no potencial de irritação e na permeação. A empresa multinacional L´Oréal é detentora de várias patentes de patches com aplicação cosmética. GUERET (2000) descreve a patente de um tipo de patch contendo uma matriz polimérica anidra, hidrofóbica, contendo material adsorvente, especialmente delineada para veicular ativos instáveis à oxidação, como por exemplo a vitamina C. O patch é formado por uma camada oclusiva ligada a uma camada reservatório, que estoca uma matriz polimérica de silicone, poliéster ou poliéster polituretano, que contem pelo menos um ativo cosmético ou farmacêutico. O (s) ativo (s) são liberados deste dispositivo após o mesmo entrar em contato com apele e então, as partículas adsorventes sofrem sweeling e gradualmente solubilizam o ativo, liberando-o em direção as camadas da pele. Gueret também é o inventor de outras patentes semelhantes (GUERET, 2003; GUERET, 2008). Ainda outra patente (AUBRUN-SONNEVILLE, 2010), assinada pela empresa L´Oréal, descreve patches que consistem de um filme hidrofílico (suporte contendo fibras solúveis em meio aquoso, em temperatura ≤ 30°C) contendo componentes ativos dispersos em géis ou emulsões, o qual deve ser umedecido e aplicado sobre a pele. Após a aplicação, sofre swelling e após ser deixado por determinado período na área pode ser retirado com água. Pode ser aplicado para limpeza de pele e para incorporação de ativos hidrofílicos, para o tratamento de pele oleosa e acnéica, para hidratação remoção de maquiagem, para peeling e tratamento de pele sensível, veiculando ativos hidrofílicos como por exemplo, alfa e beta hidroxiácidos, queratina hidrolisada, entre outros. O emprego de patches associado ao mecanismo da iontoforese é a proposta da empresa Biotec Dermocosméticos, que comercializa no Brasil o produto denominado Power Paper®, um patch que utiliza a microeletrônica para tratamento estético, o qual é acionado logo após a colocação na pele, e, sob ação da temperatura corpórea é acionado e, sob efeito da iontoforrese, promove aumento da hidratação e firmeza em apenas 20 minutos. Através de um campo elétrico de baixa voltagem (3V), obtido por um diferencial de cargas, ocorrem os fenômenos da eletrorepulsão, eletroosmose e difusão, facilitando a permeação de água e moléculas de ativos carregados além de também estimular a circulação local, promovendo melhora visível na região onde foi aplicado (BIOTEC, 2010). Alguns exemplos de patches disponíveis no mercado nacional e internacional estão incluídos no quadro 1. Quadro 1. Exemplos de patches cosméticos disponíveis no mercado nacional e internacional Nome do Produto Ativo (s) veiculado (s)/Proposta Imagem LÓRÉAL Perfect Slim Patch® Cafeína/Tratamento da HLDG * New SPA Skin Care® Colágeno, ácido hialurônico/Anti- envelhecimento ** Verseo Flawless Skin Firming Patches® Ativos não informados/Ação hidratante, firmadora *** MD Skincare Instant Beautification Lip Area Firming Patch Múltiplos ativos/Hidratação e firmeza **** POWER PATCH (BIOTEC) Múltiplos ativos/Hidratação e firmeza ***** Thalgo Thalgogive Restructuring Firming Patches Pro-colágeno marinho, óleo de damasco, extrato de Imperata cylindrica ****** Natural Patches of Vermont® Aplicação ampla: cosmetologia, aromaterapia, medicinal. Veiculação de blend de óleos essenciais. ******* http://www.microsofttranslator.com/bv.aspx?from=&to=pt&a=http://www.naturalpatchesofvermont.com/node/542 Fontes: *http://blog.setecosmetic.com.br/?p=85;**http://www.new-spa.us/item/skin-care-products-collagen- ma/super-hydrating-collagen-eye-p/lid=5999215;***http://www.verseo.com/verseo-flawless-skin-firming- patches.html;****http://www.beautyflashshop.co.uk/cat-face-and-body/eyes-and-lips/instant-beautification-lip- area-firming- patch.html?ref=shopzilla;*****http://www.biotecdermo.com.br/default.aspx;******http://br.ozcosmetics.com/Thal go/Thalgogive-Restructuring-Firming-Patches-Tamanho-profissional- /128945;*******http://www.naturalpatchesofvermont.com/node/95 3 METODOLOGIA Foi realizado levantamento bibliográfico, que segundo Severino (2008) é aquele que se realiza a partir do registro disponível, decorrente de pesquisas anteriores, em documentos impressos, como, livros, artigos, tese, etc. Utilizou-se de dados ou de categorias teóricas já trabalhadas por outros pesquisadores e devidamente registrados. Os textos tornam-se fontes dos temas a serem pesquisados e o pesquisador trabalha a partir das contribuições dos autores dos estudos analíticos constantes do texto. Assim, foi realizado levantamento bibliográfico em periódicos nacionais e internacionais, livros e sites que abordam o assunto sobre o emprego de patches na cosmetologia. 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO Impulsionada por um mercado cada vez mais exigente, a indústria de produtos cosméticos incessantemente direciona suas pesquisas para a obtenção de produtos que sejam realmente capazes de veicular ativos com alto desempenho na pele, ou seja, que apresentem eficácia aliada à segurança. Estes aspectos vêm sendo salientados desde a década de 1980, quando Kligman utilizou pela primeira vez o termo cosmecêutico (RIBEIRO, 2010). Seguindo a tendência da busca pela eficácia dos produtos dermocosméticos, buscou-se mais uma vez na área farmacêutica a proposta de um sistema realmente capaz de potencializar a ação dos ativos sobre a pele e nas diferentes http://www.naturalpatchesofvermont.com/node/95 camadas da pele. Tais sistemas ou dispositivos são denominados de adesivos ou patches trandérmicos na área farmacêutica e são chamados de patches intradérmicos pela indústria cosmética. Independente do termo escolhido, o mecanismo de ação e a tecnologia de preparo e estrutura são idênticos. Trata-se de sistemas que aderem sobre a pele, formados por diferentes camadas de filmes poliméricos, contendo ou não um sistema reservatório, proporcionando contato íntimo da formulação com o estrato córneo, por um determinado período de tempo e com controle da razão de liberação destes ativos (GUERET, 2000). Interessante aplicação para um patch foi relatada no trabalho de Bian et al. (2003), que relata a veiculação do ácido gentísico, um agente despigmentante, antioxidante e estimulador da renovação celular, derivado da hidroquinona. Este ativo tem se mostrado seguro e tem sido empregado para diversos tipos de desrodens de pigmentação, incluindo o melasma induzido por radiação UV. Patches veiculando blends de óleos essenciais são vendidos pela empresa norte- americana Natural Patches of Vermont. Inclui uma ampla linha direcionada para tratamento cosmético e aromaterapêutico. Este tipo de ativo foi veiculado e avaliado por Shcherbina; Roth; Nussinovich (2010) em patches compostos por goma caraia, amido como diluente e outros excipientes, contendo o óleo essencial de lavanda. O questionamento dos autores envolveu a possibilidade de a veiculação de altas cargas de óleo essencial comprometer aspectos físicos e mecânicos do patch (adesividade, elasticidade, etc..). Concluíram que a adição de amido de batata como diluente possibilitou a veiculação de até 10% de óleo nos patches sem perda de integridade e de propriedades mecânicas ou aderência na pele. Além dos artigos citados acima, foram relatadas algumas patentes, da empresa francesa L´Oréal (GUERET, 2000, 2003, 2008; AUBRUN-SONNEVILLE, 2010), que descrevem patches hidrofílicos, solúveis em água e patches hidrofóbicos, apropriados para veiculação de ativos instáveis e que sofrem oxidação facilmente. Percebe-se que mais uma vez a empresa L´Oréal salienta-se na área de pesquisa e inovação em produtos cosméticos, não só pelas patentes requeridas, mas por disponibilizar no mercado de cosméticos este tipo de produto. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Buscou-se neste trabalho realizar um levantamento bibliográfico do estado da arte dos patches cosméticos. Embora a aplicação de produtos transdérmicos esteja há décadas consolidada no emprego de fármacos, na área cosmética não existem trabalhos clínicos avaliando estes dispositivos. Foram relatados alguns artigos científicos que abordam diretamente o desenvolvimento e a avaliação física ou físico-química da performance de patches para emprego cosmético (BIAN et al., 2003; SHCHERBINA; ROTH; BATCHELDER et al., 2004; VIYOCH et al., 2005; NUSSINOVICH, 2010) e algumas patentes (GUERET, 2000; 2003; 2008; AUBRUN-SONNEVILLE, 2010). Foram encontrados vários sites de empresas que distribuem patches cosméticos, especialmente no mercado internacional. Esta escassez de informações mostra quanto é nova e necessária esta abordagem, especialmente para o mercado brasileiro REFERÊNCIAS ABIHPEC. Associação Brasileira de Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos. Disponível em: <http://www.abihpec.org.br/>. Acesso em: 07 mar. 2012. ANSEL, H.C.; POPOVICH, N.G; ALLEN Jr., L. V. 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INTRODUÇÃO A busca do ser humano pela beleza é algo que sempre existiu, mesmo quando não eram disponíveis os recursos que te- mos, hoje em dia. No entanto, nos últimos tempos, é evidente o aumento da preocupação de mulheres e homens com a aparência visual. Esta postura começa com um maior cuidado com a pele, seja no intuito de corrigir imperfeições, seja na tentativa de preve- nir e/ou retardar o aparecimento dos sinais de envelhecimento. Esta “nova ordem” se explica, em parte, pela ampla divulgação de padrões de beleza, e pela maior valorização da aparência pelo mercado de trabalho. Nos últimos anos, têm ocorrido avanços na área cosmeto- lógica, realizados pelas empresas de ponta do setor, sendo esta uma área em franca expansão com fins dos mais lucrativos. Um marco fundamental para a indústria cosmética está centralizado em pesquisas de novos sistemas para incorporação de ativos cos- méticos (MAGDASSI, 1997). NANOCÁPSULAS COMO UMA TENDÊNCIA PROMISSORA NA ÁREA COSMÉTICA: A IMENSA POTENCIALIDADE DESTE PEQUENO GRANDE RECURSO CLARISSA SCHMALTZ1. JUCIMARY VIEIRA DOS SANTOS2. SÍLVIA STANISÇUASKI GUTERRES3. 1. Acadêmica do Curso de Farmácia - Faculdade de Farmácia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS. 2. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas, Faculdade de Farmácia - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS. 3. Professor Doutor, disciplina de Farmacotécnica e Cosmetologia, Faculdade de Farmácia, UFRGS, 90.610-000, Av. Ipiranga 2752, Porto Alegre - RS – Brasil. Autor responsável (S.S. Guterres) E-mail: nanoc@farmacia.ufrgs.br A evolução da tecnologia tem permitido a produção de formulações cosméticas mais eficazes e estáveis, solucionando problemas estéticos pela diversificação na possibilidade de esco- lha dos produtos, desde os tradicionais hidratantes, os autobron- zeadores, anti-rugas, e os recentes produtos para tratamentos di- recionados à prevenção da celulite, estrias, gordura localizada e outros. Os avanços nas pesquisas cosméticas refletem uma ten- dência tecnológica mundial em todos os setores de produção, que pode ser traduzida em “quanto menor, melhor”. Denomina-se esta revolução de nanotecnologia, cujo termo é originário de uma unida- de de medida que equivale a 10-9 metros (um milionésimo de milí- metro). O que pode nos oferecer? Quais as vantagens? A resposta é uma infinidade de benefícios e facilidades em todas as áreas de atuação, desde chips de computadores cada vez menores, até sis- temas mais eficientes para veicular e aumentar a eficácia de fárma- cos no organismo. Dentre os sistemas propostos, encontra-se uma nanoes- 81Infarma, v.16, nº 13-14, 2005 trutura chamada nanocápsula, que, aos poucos, começa a ser um sistema tecnológico disponível para incorporação de substâncias ativas, resultando no surgimento de alguns produtos no mercado. Em se tratando de produtos cosméticos, a substância ativa, ao invés de ser adicionada diretamente no veículo cosmético, ou seja, na forma livre, é encapsulada em vesículas nanométricas – as nano- cápsulas. Estas vesículas proporcionam um modo diferente de car- rear e distribuir as substâncias ativas, oferecendo vantagens: 1) protegem o ativo da degradação por diminuir seu contato com o restante da formulação, 2) proporcionam uma maior performance da substância ativa na pele por permitirem uma liberação gradual da substância, concomitantemente com o aumento do tempo de contato com a pele, evitando possíveis irritações locais que pode- riam ocorrer, se o ativo estivesse livre, isto é, se todo ele estivesse disponível para agir, de uma só vez (CUA et al., 1990; KUMAR, 2000; LBOUTONNE et al., 2002; JIMÉNEZ et al., 2004). O material técnico-científico disponível sobre nanocápsu- las é abundante no que diz respeito a estas nanoestruturas como carreadoras de fármacos (KREUTER, 1994; SOPPIMATH et al., 2001), havendo diversos estudos demonstrando a sua eficácia te- rapêutica e tecnológica. Por outro lado, ainda existem poucos tra- balhos a respeito destas vesículas poliméricas como sistemas car- readores para substâncias com finalidade de uso na cosmetologia, tendo apresentado resultados animadores quanto ao seu desempe- nho quando adicionadas a veículos para aplicação tópica sobre a pele. Na verdade, a maioria das pesquisas tem seu foco centraliza- do pelos laboratórios fabricantes de cosméticos – pesquisas às quais não se tem acesso devido à proteção das informações sobre formulações por parte das empresas. Desta forma, este trabalho busca demonstrar as aplicações cosméticas das nanocápsulas no mercado brasileiro, procurando evidenciar os seus benefícios e potencialidades, nesta área, carac- terizando as nanoestruturas aplicadas a cosméticos. Para tanto, buscou-se em bases de dados o material técnico-científico disponí- vel a respeito, juntamente com um levantamento dos produtos disponíveis no mercado cosmético contendo nanocápsulas. 2. DEFINIÇÕES 2.1 A pele A pele é o principal alvo, no corpo humano, de agressões exógenas, protegendo-nos de fatores climáticos nocivos, como o frio e vento, de radiações ultravioleta e da perda de água endógena. É composta por três camadas: epiderme, derme e hipoderme. A epiderme é o tecido superficial da pele, e sua camada superior, o estrato córneo, é uma barreira efetiva contra um vasto número de substâncias (WELSS et al., 2004). Além dos fatores externos acima citados, há diversas con- dições que influenciam as características da pele e suas proprieda- des biomecânicas, tais como sexo, idade, área corporal, caracterís- ticas genéticas e patologias (MANSCHOT & BRAKKEE, 1987; CUA et al., 1990; PIÉRARD & LAPIÈRE, 1997; WISSING & MÜLLER, 2003). A epiderme possui um importante papel na resistência da pele a agressões mecânicas, e esta resistência é de- pendente de suas propriedades hidrofílicas e lipofílicas (LÉVE- QUE & DE RIGAL, 1985; WISSING & MÜLLER, 2003), por isso um aumento na hidratação e nutrição melhora a resistência contra deformações (WISSING & MÜLLER, 2003). A aplicação de cosméticos é um recurso importante para a manutenção da saúde da pele e, conseqüentemente, de sua beleza. Através deles pode-se mantê-la hidratada e nutrida. Para o desen- volvimento de novos produtos cosméticos, seus efeitos positivos na hidratação e viscoelasticidade da pele são importantes critérios a serem considerados (EDWARDS & MARKS, 1995; WISSING & MÜLLER, 2003). Estes efeitos podem ser influenciados por veículos adequados ou pelos ativos que são incorporados na for- mulação (WISSING & MÜLLER, 2003). Neste contexto, veículos com propriedades de liberação controlada de substâncias ativas podem ser de grande utilidade para formulações dermatológicas (JENNING et al., 2000). Subs- tâncias ativas irritantes, tais como peróxido de benzoíla (WES- TER et al., 1991; JENNING et al., 2000) ou tretinoína (MASINI et al., 1993; SCHÄFER-KORTING et al., 1994; JENNING et al., 2000), tendem a ser menos irritante se aplicadas em sistemas de liberação controlada, que também podem reduzir a absorção sistê- mica da substância (EMBIL & NACHT, 1996; JENNING et al., 2000). Em geral, o principal propósito de um cosmético é prote- ger, modular e retardar o processo de envelhecimento da pele (DA- NIELS, 2001). Para protegê-la das agressões, um produto cosmé- tico apropriado deve conter componentes com atividade específi- ca, distribuindo e causando adesão ou penetração das moléculas ativas na epiderme, a fim de obter melhores resultados (MAG- DASSI, 1997). 2.2 Sistemas de liberação de substâncias ativas na pele Pode-se dizer que o desenvolvimento de novos sistemas de liberação em cosméticos foi influenciado principalmente pelo estudo de novos tensoativos sintéticos e pela maior compreensão da estrutura e função da pele em relação à absorção percutânea, tendo sido intensamente estudados, ao longo dos anos (NACHT, 1995; MAGDASSI, 1997). Entre os fatores que afetam a absorção cutânea estão as propriedades físico-químicas do próprio ativo, as especificações do veículo, e o estado fisiológico da pele. As emulsões foram os primeiros sistemas de liberação de ativos cosméticos na pele, e constituem uma dispersão cuja fase dispersa é composta por gotí- culas de um líquido, distribuídas em um veículo no qual é imiscível, a fase dispersante, (ANSEL et al., 2000) por intermédio de um tensoativo. O veículo pode exercer uma forte influência no resultado esperado de um produto, demonstrando ser uma ferramenta chave para o desenvolvimento de formulações. Aliado à importância da qualidade e do avanço tecnológico, um outro fator a se destacar é que a característica externa do produto final representa um aspec- to relevante nas formulações. Desta forma, a inovação de produtos cosméticos não é medida apenas pela performance dos componentes ativos e do excipiente, mas também pelo impacto psicológico sobre o consu- midor (MAGDASSI, 1997). Devido ao exposto, atualmente, as formulações para o cuidado da pele devem satisfazer altos padrões de eficácia, compatibilidade com a pele e apelo estético e sensorial. Nos últimos anos, a performance e o marketing estão alia- dos aos produtos destinados ao cuidado da pele. Novos excipien- tes, refinadas técnicas de processamento e um melhor conheci- mento das propriedades físico-químicas têm levado ao desenvol- vimento de novos conceitos. As nanoemulsões, nanopartículas lipídicas, lipossomas e nanocápsulas são exemplos de alguns dos avanços resultantes de pesquisas, já estando presentes em produtos contemporâneos para o cuidado da pele (DANIELS, 2001). Os lipossomas consistem de pequenas vesículas esféricas compostas por uma bicamada de fosfolipídios envolvendo um centro aquoso. São estudados há mais tempo e têm sido largamen- te utilizados em cosméticos, entretanto, altas doses de fosfolipídi- os aplicados topicamente por um longo período podem levar a irritações na pele normal e seca. Igualmente, tem sido mencionado Infarma, v.16, nº 13-14, 200582 que devido a um mecanismo de feedback bioquímico, a aplicação de fosfolipídios em longo prazo pode ter um impacto no metabo- lismo lipídico da derme (DANIELS, 2001). Além do mais, o trabalho de desenvolvimento de liposso- mas tem sido limitado, devido a problemas inerentes à sua estrutu- ra, tais como uma baixa eficiência na encapsulação e pobre estabi- lidade, durante o armazenamento (SOPPIMATH et al., 2001; WEISS, 2001). Diante do exposto, recentemente, as nanopartículas poli- méricas biodegradáveis, dentre as quais as nanocápsulas, têm atra- ído uma atenção considerável, em relação aos lipossomas, como dispositivos potenciais para a liberação de moléculas ativas no organismo (SOPPIMATH et al., 2001; SCHAFFAZICK et al., 2003). 2.3 O que são nanocápsulas? São estruturas coloidais constituídas por vesículas de um fino invólucro de polímero biodegradável e uma cavidade central com núcleo oleoso, no qual a substância ativa encontra-se dissolvi- da, sendo, por isso, consideradas um sistema reservatório, o qual apresenta diâmetro submicrométrico, variando entre 10 a 1000 nm. O componente ativo representado na Figura 1, ao invés de estar dissolvido na cavidade central oleosa, pode se adsorver à parede polimérica (SOPPIMATH et al., 2001; WEISS, 2001; SCHAFFAZICK et al., 2003). Também, é possível desenvolver nanocápsulas lipofílicas contendo um núcleo aquoso, como demonstraram LAMBERT et al. (2000), utilizando poliisobutilcianoacrilato, o que aumenta o número de substâncias que podem ser carreadas. Por outro lado, há várias pesquisas voltadas para a preparação de nanopartículas utilizando polímeros hidrofílicos, como a quitosana (KUMAR, 2000; SOPPIMATH et al., 2001). FIGURA 1 - Representação esquemática de nanocápsulas com a substância ativa: (a) adsorvida à parede polimérica, e (b) dissolvida no núcleo oleoso. As nanocápsulas começaram a ser estudadas como siste- mas carreadores de fármacos, em meados dos anos 90 (KREU- TER, 1994; KUMAR, 2000; SOPPIMATH et al., 2001; RA- FFIN et al., 2003). Nos últimos anos, pesquisadores têm buscado o controle da liberação de substâncias em sítios de ação específicos no organismo, com o propósito de melhorar o resultado da terapia farmacológica (KREUTER, 1994; SOPPIMATH et al., 2001), e os sistemas poliméricos nanoparticulados, como as nanocápsulas, apresentam aplicações potenciais para a administração de molécu- las terapêuticas (SOPPIMATH et al., 2001; SCHAFFAZICK et al., 2003). Com o desenvolvimento destes novos sistemas, existe a possibilidade de se vetorizar uma substância ativa, ou seja, buscar uma liberação seletiva desta em órgãos (por exemplo, a pele), teci- dos ou células, direcionando-a ao local específico do corpo no qual sua atividade se faça necessária. Deste modo, é possível aumentar a eficácia e diminuir a toxicidade da substância por proporcionar um aumento da concentração da mesma em sítios específicos e/ou a redução dos efeitos tóxicos em sítios não-específicos (KREU- TER, 1994). Somando-se também que na área cosmética as nanocápsu- las despertaram um grande interesse, por parte de fabricantes, como uma nova opção para obter melhores resultados de seus produtos. Laboratórios de grande porte em todo o mundo aposta- ram na idéia de pesquisar o desempenho destas nanoestruturas em suas formulações, resultando em diversos produtos baseados nes- te recurso. 3. COMO AS NANOCÁPSULAS SÃO PREPARADAS E QUAIS AS MATÉRIAS-PRIMAS UTILIZADAS A discussão pormenorizada das técnicas de preparação de nanocápsulas vai além do âmbito desta revisão. A obtenção das nanocápsulas tem sido realizada por duas técnicas principais, que são a deposição interfacial de polímeros pré-formados (ESPUE- LAS et al., 1997; QUINTANAR-GUERRERO et al., 1997; QUIN- TANAR-GUERRERO et al., 1998; MARCHAIS et al., 1998; SANTOS-MAGALHÃES et al., 2000), e a polimerização interfa- cial de monômeros dispersos. Independentemente do método de preparação, os produtos são obtidos como suspensões coloidais aquosas (GALLARDO et al., 1993; CHOUINARD et al., 1994; LENAERTS et al., 1995; SAKUMA et al., 1997; LAMBERT et al., 2000; SCHAFFAZICK et al., 2003). Nas pesquisas que verificam o efeito de nanocápsulas em formulações para aplicação tópica, a técnica de deposição interfa- cial é a mais freqüente, até o momento, sendo que o polímero utilizado é geralmente a poli(epsilon-caprolactona) (ALVAREZ- ROMAN et al., 2001; LBOUTOUNNE et al., 2002; JIMÉNEZ et al., 2004). Vale salientar a possibilidade de acrescentar como metodo- logia a tecnologia de produção de nanopartículas utilizando fluído supercrítico, que se apresenta como um assunto de interesse na área, devido à sua propriedade de fornecer nanopartículas atóxi- cas. Métodos convencionais, tais como a polimerização in situ, freqüentemente requerem a utilização de solventes tóxicos e/ou tensoativos. Portanto, algumas pesquisas têm direcionado esforços para desenvolver a encapsulação de forma segura no que tange à com- posição do meio em que é realizada a produção das nanoestrutu- ras. Fluídos supercríticos estão se tornando alternativas atrativas, por proporcionarem um modo de fácil produção, e o método pode ser utilizado para processar partículas com alta pureza e sem ne- nhum traço de solventes orgânicos, de uma maneira economica- mente viável (SOPPIMATH et al., 2001). 4. APLICAÇÕES COSMÉTICAS 4.1 Artigos científicos Na busca por material científico indexado em bancos de dados, foram encontrados poucos trabalhos direcionados especifi- camente a nanocápsulas em cosméticos. A escassez de informa- ções técnico-científicas talvez possa ser explicada pelo fato de que a utilização de nanocápsulas em cosméticos é bem mais recente que o uso das mesmas em fármacos, para os quais já há um número bem maior de estudos publicados. A busca pelos artigos científicos foi realizada, através do acesso a bancos de dados (ISI Web of ScienceÒ e Pub Med). ALVAREZ-ROMAN et al. (2001) estudaram nanocápsu- las contendo metoxicinamato de octila (OMC), um filtro solar lipofílico, verificando que estas proporcionaram uma liberação 83Infarma, v.16, nº 13-14, 2005 contínua da substância em um modelo utilizando pele de porco. A intenção do estudo foi verificar o efeito das nanocápsulas na foto- proteção. Foi observado que a proteção contra eritema induzido por radiação ultravioleta foi significativamente maior (p < 0.05) a partir do gel contendo nanocápsulas, as quais foram produzidas utilizando poli(epsilon-caprolactona) pelo método de deposição interfacial. A taxa de encapsulação foi alta (99 ± 1% da concentra- ção inicial de OMC), sendo obtidas nanocápsulas com um diâme- tro médio de 300 nm. Segundo os autores, os resultados apresen- tados sugerem que as nanopartículas, devido à sua alta área super- ficial específica, são capazes de cobrir eficientemente a superfície da pele e melhorar a habilidade do protetor solar em inibir o erite- ma. Os pesquisadores destacaram que os resultados deste estudo enfatizam o potencial de nanocápsulas como novos sistemas de distribuição de substâncias ativas na pele. Em outro estudo sobre nanocápsulas contendo OMC, JI- MÉNEZ et al. (2004) compararam o desempenho do ativo na forma livre e na forma encapsulada, sendo preparadas quatro emul- sões A/O e O/A contendo OMC. A técnica utilizada para preparar as nanocápsulas foi a de deposição interfacial, utilizando poli(epsilon-caprolactona), e as formulações foram aplicadas em pele de porco num estudo in vitro. As nanocápsulas obtidas apre- sentaram um diâmetro médio de 374 nm e uma alta percentagem de encapsulação (97,52%). Os autores verificaram que as nanocápsulas diminuíram a penetração cutânea do OMC, retendo esta substância na superfí- cie da pele, o que é fundamental para uma efetiva fotoproteção. Além disso, proporcionaram uma liberação contínua aumentando, conseqüentemente, o tempo de contato do ativo com a superfície da pele. Diante dos resultados, os pesquisadores salientaram que emulsões contendo nanocápsulas podem ser utilizadas como car- readores de moléculas ativas, sendo novos tipos de sistemas de aplicação de substâncias na pele. Os dados demonstram que a aplicabilidade das nanocápsulas em produtos destinados à foto- proteção representa um vasto potencial de mercado. Nanocápsulas contendo o antisséptico clorexidina aumen- tam o tempo de contato desta substância com a pele, como verifi- caram LBOUTOUNNE et al. (2002) utilizando pele de porco. As nanoestruturas foram preparadas utilizando poli(epsilon-capro- lactona), através do método de deposição interfacial, e proporcio- naram uma liberação contínua da substância por pelo menos 8 horas. Houve uma alta taxa de encapsulação do antisséptico, cor- roborando com JIMÉNEZ et al. (2004). A concentração residual de clorexidina no estrato córneo foi três vezes maior utilizando a suspensão de nanocápsulas em hidrogel em relação à formulação contendo a substância ativa não-encapsulada, proporcionando uma atividade antimicrobiana tópica prolongada contra Staphylococcus epidermidis. Segundo BOUCHEMAL et al. (2004), o alfa-tocoferol (vitamina E) é largamente utilizado como antioxidante em muitos cosméticos, mas apresenta uma rápida degradabilidade, devido à sua sensibilidade à luz, ao calor e ao oxigênio. Os pesquisadores relatam que carreadores capazes de encapsular substâncias ativas, tais como nanocápsulas, são uma oportunidade atraente para pro- teger moléculas contra a degradação. Este grupo de pesquisa produziu nanocápsulas de alfa- tocoferol, utilizando o polímero poliuretano e poli(éter uretano), através de uma nova técnica que engloba a policondensação inter- facial (MONTASSER et al., 2001) combinada com emulsificação espontânea. Os autores verificaram que o método oferece numero- sas vantagens, quando comparado à técnica clássica de policon- densação interfacial. Eles destacam que uma das vantagens destes sistemas na- nométricos está em apresentar uma enorme área superficial, o que torna tais dispositivos convenientes para importantes aplicações cosméticas e farmacêuticas, bem como formulações tópicas de subs- tâncias lipofílicas encapsuladas para uma liberação homogênea. 4.2 Mercado Se, por um lado, encontrou-se pouco material científico sobre o tema, por outro, verificou-se que há várias empresas do setor cosmético investindo em pesquisas para identificar quais os benefícios que as nanocápsulas podem oferecer. Empresas do ramo, em todo o mundo, estão demonstrando interesse em desenvolver formulações contendo este recurso, colocando à disposição do consumidor linhas de cosméticos em que destacam as vantagens das nanocápsulas como o diferencial do produto (Tabela 1). Tudo isso parece indicar que os estudos independentes realizados por estas empresas sustentam um resultado positivo quanto aos efei- tos que as nanocápsulas podem proporcionar. TABELA 1 - Vantagens oferecidas pelos sistemas nanoencapsulados. Aumento da eficácia dos produtos. Melhoria na resistência natural da pele, ajudando a reparar e a fortalecer camadas mais profundas Incremento na eficácia de ação da substância. Aumento da estabilidade e eficiência de ação do ativo. Liberação gradual em doses favoráveis. Foi realizado um levantamento no mercado nacional e internacional, a fim de apresentar uma relação de empresas cosméticas que comercializam produtos baseados em nanocápsulas. Laboratórios, como L’Oreal Paris e Lancôme, disponibilizam diversos produtos oferecendo as vantagens da nova tecnologia. Nas preparações cosméticas mais variadas, como creme, gel, gel-creme, loções e até sprays, encontram-se ativos como as vitaminas A e E, triceramidas, retinol e beta-caroteno contidos em nanocápsulas, conforme apresentado na Tabela 2. TABELA 2. Nanocápsulas no mercado de cosméticos. EMPRESA ATIVOS FORMAS COSMÉTICAS L’Oreal Paris Lancôme Vichy Ziaja Cosmetics Matis Vitaminas A e E, retinol, beta-caroteno Vitaminas A e E, retinol, beta-caroteno, ceramidas, licopeno Vitamina A Retinol Complexo de despigmentação Creme, loção Creme, gel, gel-creme, loção, spray Creme Creme Creme As vantagens apontadas pelas empresas (Tabela 1) são o fato de que as nanocápsulas preservam as propriedades origi- nais dos ativos nelas contidos por um período maior, por melho- rarem sua estabilidade, carreiam os ativos às camadas mais pro- fundas da pele, fazendo com que a ação dos mesmos seja mais efetiva, e asseguram a liberação gradual dos ativos em doses favo- ráveis para prevenir irritações de pele e prolongar sua ação. Pode- se citar o caso das nanocápsulas de vitamina E produzidas pela Lancôme, às quais atribui-se a capacidade de liberar uma quanti- Infarma, v.16, nº 13-14, 200584 dade de ativo até trinta vezes maior nas camadas internas da epiderme. Durante a pesquisa, evidenciou-se a existência de empre- sas que comercializam nanocápsulas para aplicações cosméticas. Há um laboratório especializado em comercializar nano e micro- cápsulas, sediado em Berlin (Capsulution NanoScience AG). A empresa destaca seu método único de encapsulação, com tecno- logia patenteada, salientando o potencial de seus produtos como sistemas de distribuição para utilização em cosméticos funcio- nais e medicamentos e, também, para aplicação em outros tipos de produtos, como nutracêuticos, material para diagnóstico, bio- sensores, catalizadores, papel e tinta. Outra empresa, Lipotec S.A., localizada na Espanha, co- mercializa nanocápsulas de retinol para utilização em cosméti- cos, além de desenvolver tecnologias focadas em aplicações far- macêuticas e em indústrias de alimentos. A existência de empre- sas do gênero pode indicar uma tendência em adotar a nanotecno- logia como ferramenta de uso corrente num futuro próximo. 5. CONCLUSÕES A nanotecnologia está sendo um dos principais recursos para o desenvolvimento e inovação na área cosmética. As empre- sas do ramo destinam recursos para pesquisar esta nova opção tecnológica, sinalizando uma opção importante no combate à de- preciação celular cutânea. Com base no que foi relatado nas pesquisas científicas citadas, as nanocápsulas são capazes de melhorar a distribuição, na pele, das substâncias incorporadas aos cosméticos. Os estu- dos confirmam propriedades atribuídas às nanocápsulas pelas empresas que as comercializam em seus produtos: um aumento no tempo de retenção de substâncias ativas, proporcionando um contato mais duradouro do ativo com a pele; um controle da liberação, fazendo com que haja uma distribuição gradual da subs- tância, e uma maior proteção da molécula ativa contra possíveis degradações provenientes do meio. Por todos os dados descritos, as nanocápsulas apresentam-se como um novo e eficiente siste- ma de liberação de ativos na pele. 6. 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Josenir Monteiro, Vanessa dos Santos.pdf 1 NANOCOSMÉTICOS Josenir Rodrigues Monteiro¹: Acadêmica do Curso de Tecnologia em Cosmetologia e Estética, da Universidade do Vale do Itajaí, Balneário Camboriú, Santa Catarina (Univali). Vanessa Rodrigues dos Santos² :Acadêmica do Curso de Tecnologia em Cosmetologia e Estética, da Universidade do Vale do Itajaí, Balneário Camboriú, Santa Catarina (Univali). Denise Kruger Moser³: Tecnóloga em Cosmetologia e Estética; Professora do Curso de Tecnólogo em Cosmetologia e Estética da Universidade do Vale do Itajaí, Balneário Camboriú, Santa Catarina . Contatos: ¹josie_1704@hotmail.com ²vanessarsantos@yahoo.com.br ³denise.moser@univali.br Resumo: A busca pela eterna juventude ou mesmo por uma pele e cabelos saudáveis são desafios lançados pelos consumidores de produtos cosméticos constantemente ao mercado da indústria cosmética. Segundo a ABIHPEC o Brasil encontra-se em terceiro lugar no ranking mundial em consumo de cosméticos e o desenvolvimento de novas tecnologias é esperado para este setor. Pode-se citar a Nanotecnologia ou os Nanocosméticos, uma inovação tecnológica utilizada em vários setores da indústria utilizando-se de nanoestruturas. Estas nanoestruturas nos cosméticos, assim como também na indústria dos fármacos que podem ser definidas como nanopartículas, carreadores de princípios ativos que são cem mil vezes menores que a espessura de um fio de cabelo. Este universo ainda em estudo pode trazer muitos benefícios aos tratamentos cosméticos. O estudo foi desenvolvido por meio de pesquisa bibliográfica tendo como fonte de consulta para coleta dos dados, livros, cosméticos, sites da internet, revistas específicas e artigos correlacionados. Percebeu-se que apesar de já estar sendo utilizada pelas indústrias de cosméticos há algum tempo, ainda se faz necessário muitas pesquisas sobre o assunto e publicações de artigos para esclarecimentos como um todo. Empresas inovadoras nesta área como L’oréal e O Boticário já fazem uso de princípios ativos e matérias carreados em nanopartículas. A tecnologia parece ser do futuro, mas já está presente no cotidiano da sociedade. Porém os estudos em relação à toxicidade das nanoestruturas no organismo ainda não foram concluídos e a sociedade científica preocupa-se também com prováveis danos que os mesmos possam causar ao ser humano consequentemente. Palavras chaves: Nanotecnologia; Nanocosméticos; Produtos cosméticos. 2 1 INTRODUÇÃO Desde os tempos mais remotos, existe uma preocupação constante das pessoas com a sua aparência, que expressa seu estilo pessoal e as características individuais de elegância e irreverência. A exigência quanto à melhora na aparência torna-se mais intensa enquanto o ser humano busca melhor qualidade de vida e longevidade. A aparência é factível ao ser humano para sua auto-afirmação e aceitação. Em um mundo globalizado onde a ciência e tecnologia andam juntas, desenvolvem-se diariamente vários produtos destinados aos cuidados da pele e dos cabelos, ou seja, produtos desenvolvidos para efetivamente ajudarem nos cuidados com a aparência do ser humano. Para suprir ainda mais as necessidades de um público exigente e esperando resultados mais eficazes como penetração efetiva dos princípios ativos seja na pele ou nos cabelos, é que está sendo incluída também no mundo cosmético a nanotecnologia, que pode se tratar de algo revolucionário em se falando de tecnologia. Conforme relata Nunes (2009) as pessoas buscam uma “beleza inteligente” por meio de produtos produzidos com nanotecnologia que prometem penetrar na pele e promover verdadeiros milagres como: cremes anti-rugas, para o clareamento das manchas, para a redução da celulite, novidades em produtos para coloração de cabelos. A nanotecnologia refere-se à tecnologia na qual a matéria é manipulada em escala atômica e molecular para criar novos materiais e processos com características funcionais diferentes dos materiais comuns. A nanotecnologia não trata apenas do estudo dessas entidades tão pequenas, mas da aplicação desse conhecimento (NEVES, 2008). O nanocosmético trata-se de uma formulação cosmética que veícula ativos ou outros ingredientes nanoestruturados e que apresenta propriedades superiores quanto a sua performance em comparação com produtos convencionais (SANTOS, 2010). O desenvolvimento do estudo foi realizado por meio de pesquisa bibliográfica e tem como objetivo fazer uma revisão na literatura existente sobre o assunto nanotecnologia utilizada na área cosmética, assunto este que ainda gera muitas dúvidas para os profissionais da cosmetologia e estética e até mesmo pode estar gerando para o próprio consumidor, por isso é de extrema importância dar continuidade ao desenvolvimento das pesquisas para avaliação da eficácia e da segurança, bem como divulgação e esclarecimento de como esta estrutura possa estar levando o ativo a camadas mais profundas da pele, pois mesmo 3 apresentando uma melhor performance em relação aos produtos cosméticos convencionais ainda gera muitas dúvidas em questão da sua toxicidade. 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA A nanotecnologia é um dos principais focos das atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação em todos os países industrializados do mundo. Os investimentos superam dois bilhões de dólares por ano e o seu desenvolvimento tem sido apontado como uma nova revolução tecnológica, que em ritmo acelerado de crescimento, simboliza uma área estratégica para economias consolidadas e emergentes, promovendo uma competição tecnológica mundial, dentro de um mercado de um trilhão de dólares estimados para o período entre 2010 e 2015 (RAMOS; PASSA, 2008). O vocábulo nanotecnologia vem de nanômetro, medida que equivale à bilionésima parte do metro, algo, quase 100 mil vezes, menor do que a espessura de um fio de cabelo. Também pode ser entendida como a arte de manipular a matéria em nível atômico, construindo moléculas inéditas, com propriedades diferentes (GUAZELLI, 2010). Segundo Ramos; Passa (2008), a nanotecnologia encontra aplicações em praticamente todos os setores industriais e de serviços, incluindo as nanopartículas, os revestimentos, catalisadores e nanocomponentes. A nanotecnologia brasileira produz resultados de vanguarda nas áreas farmacêutica e de interface com a biotecnologia, dentre os quais podem ser citados os nanocarreadores, usados em cosméticos e associados a medicamentos, como alguns quimioterápicos antitumorais (SANTOS, 2010). 2.1 Evolução do Mercado cosmético Quando se refere a cosmético a gama de produtos é enorme, vem desde um simples produto de higiene oral (um mercado de quase 2 bilhões de reais no ano de 2006 e com grande expectativa de crescimento em até cinqüenta por cento em 2011) até uma máscara capilar ou até mesmo um batom que a embalagem pode ser considerada uma verdadeira jóia. A variedade é satisfatória para todos os gostos e classes sociais, isto porque a vaidade já nasceu com o ser humano resultando no desenvolvimento de cosméticos desde os tempos mais remotos da história (ABIHPEC, 2010; MARQUES, 2009). 4 Para Marques (2009) vale ressaltar que desde os tempos antigos já havia uma preocupação com a auto-imagem, pois o requinte e a vaidade, por exemplo, dos assírios chamavam a atenção sendo que os mesmo tinham o hábito de enfeitar a barba e os cabelos com fios de ouro ou prata caracterizando a realeza. Épocas, fatos, lendas e a busca pelo conhecimento marcam a história dos cosméticos, histórias e grandes feitos científicos asseguram interesses na descoberta e no melhoramento de matérias primas. Com a 1° Guerra Mundial houve uma grande mudança de atitude em relação ao uso dos cosméticos, eles tornavam-se respeitáveis. Em meados da década de 1929 o mercado cosmético permaneceu como “mercado de especialidade” um mercado para a classe média alta (CARVALHO, 2006; DRUCKER, 2001). Segundo dados da ABIHPEC – Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (2010) o consumo de produtos cosméticos no Brasil está entre os maiores consumidores a nível mundial. Por isso o mesmo está em constante desenvolvimento, pois encontramos hoje consumidores mais bem informados e exigentes. Pela busca acelerada por satisfazer um consumidor cada vez mais exigente e com a evolução da ciência e da tecnologia está em constante desenvolvimento há algum tempo o estudo e aplicação da Nanotecnologia em produtos cosméticos que prometem ação mais eficaz, menor tempo de uso, resultados mais satisfatórios e com todo essa necessidades de tecnologia foi aberto há 15 anos pela empresa francesa Lancôme, divisão de luxo da L’Oréal, o lançamento de um creme para o rosto transportado por nanocápsulas de vitamina E pura para combater o envelhecimento da pele. O desenvolvimento nanotecnológico foi feito na Universidade de Paris, que patenteou a inovação, licenciada pela empresa. Desde então vários gigantes do setor de cosméticos mundial investiram em pesquisa para desenvolver produtos nessa linha ( ERENO, 2008). O mercado mundial de nanocosméticos em 2007 foi estimado em US$ 72 milhões, com previsão de chegar a uns US$ 140 milhões até 2012, nessa área, a maior quantidade de patentes é para produtos para o cabelo (GUAZELLI, 2010). O Boticário, foi a empresa que tomou a frente na utilização de nanotecnologia em seus produtos. Com investimento de R$14 milhões desenvolveu a linha Active com o lançamento do Nanoserum, poderoso anti-sinais, com nanotecnologia avançada, que permite uma distribuição mais homogênea e eficaz dos ingredientes ativos na pele e combate o envelhecimento (NUNES, 2010; SANTOS,2010). 5 A empresa Natura (2007) citada por Bento (2009, p. 11) dá ênfase ao resultado de suas pesquisas nas quais se aplicando a micro e a nanoencapsulação de fármacos na área cosmética, obteve uma série de vantagens como: Aumento da penetração do ativo no substrato (pele ou cabelo); liberação mais efetiva no ativo para o substrato (área de superfície); possibilidade de distribuição de ativos mais uniformes no substrato (pele ou cabelos); maior possibilidade de penetração causando melhora de eficácia biológica dos ativos; aumenta a solubilidade dos ativos, permitindo maior flexibilidade dos ativos na formulação; aumento da estabilidade físico-química. Segundo Santos (2010), os ativos dos produtos cosméticos na década de 70 chegavam apenas na camada córnea. Já com o passar dos tempos surgiram os alfa-hidróxidos ácidos que chegam até a camada granulosa e na camada espinhosa atuam os lipossomas dos cremes anti- rugas, porém na camada basal que podem chegar as nanopartículas, como mostra figura abaixo: Figura 1: Camadas da pele. Fonte: SANTOS, 2010. Sendo assim, com o desenvolvimento de produtos em empresas brasileiras pioneiras no desenvolvimento desta nova geração de cosmético serve de exemplo para o setor cosmético e a tendência para a utilização cada vez mais de nanoestruturas em cosméticos que prometem a eficácia, em produtos cosméticos comparando-os com produtos que possuam os mesmos princípios ativos, porém, não a mesma tecnologia. 6 2.3 A Nanotecnologia Sant’anna (2007 apud BENTO, 2009) conceitua a nanotecnologia como sendo o estudo e a manipulação dos materiais quando reduzidos a partículas cujos tamanhos encontram-se na casa do nanômetro ou milionésimo do milímetro – número cem mil vezes menor que o diâmetro de um fio de cabelo. Em média um átomo mede de 0,2 a 0,4 nanômetros, logo outra definição pode ser dada a ciência, por tratar-se da capacidade de manipular átomos e moléculas de forma a dar aos materiais propriedades diferentes das que eles apresentam em seu estado natural. Um dos segmentos que incluiu a nanotecnologia foi a indústria farmacêutica, segundo Duran; Marcato e Teixeira (2010) as nanopartículas no encapsulamento de fármacos têm se destacado nas últimas décadas devido a possibilidade da redução da toxicidade de drogas, liberação sustentada, além de aumento da eficácia do medicamento, diminuindo as quantidades terapêuticas necessárias. Além disso, esses sistemas nanoestruturados mostram propriedades interessantes devido à possibilidade de passagem de barreiras celulares por endocitose ou fagocitose em leucócitos, monócitos, macrófagos e outras células do organismo endotelial. A nanotecnologia farmacêutica teve início em meados da década de 1970 com os lipossomas como carregadores de fármacos hidro ou lipofílicos. Em 1980 surgiram as nanopartículas poliméricas carreadoras de fármacos lipofílicos, principalmente empregando polímeros biodegradáveis. Na década de 1990 surgiram as nanopartículas lipídicas sólidas. Cada um desses sistemas apresenta peculiaridades que devem ser consideradas na escolha do sistema de liberação (DURAN; MARCATO; TEIXEIRA, 2010). Segundo os autores a nanotecnologia não se restringe somente aos fármacos. O desenvolvimento dos nanocosméticos vem se destacando e cada vez mais se ouve falar sobre a nanotecnologia aplicada nos cosméticos. 2.4 Nanocosméticos Segundo Schmaltz (2005 apud MARCELINO, 2008) a nanotecnologia está sendo um dos principais recursos para o desenvolvimento e inovação na área cosmética. As empresas do ramo destinam cada vez mais recursos para pesquisas nesta opção tecnológica. Nos nanocosméticos a formulação cosmética devem veicular ativos ou outros ingredientes nanoestruturados e que apresentem propriedades superiores quanto a sua performance em comparação com produtos convencionais (SANTOS, 2010). 7 Para Bento (2009) as principais nanoestruturas utilizadas para a encapsulação de ativos são as nanopartículas poliméricas, as nanopartículas lipídicas, os lipossomas e as ciclodextrinas. Conforme Bento (2009) a encapsulação é uma tecnologia que permite o revestimento fino a partículas sólidas, gotas de líquidos, dispersões, como um filme protetor. Os sistemas coloidais incluem as emulsões, esferas, cápsulas, lipossomas e complexos lipídicos e são capazes de atuar como veículos para substancias lipofílicos e hidrofílicos. Os sistemas micros e nano-estruturados pode ser administrado pelas vias intravenosas, subcutâneas, oral, tópica, ocular e intramuscular. A principal vantagem desses sistemas é a capacidade de modificar consideravelmente a penetração intracelular das substâncias a eles associados. Dentre os sistemas nanoparticulados, os mais recentes são as nanopartículas lipídicas sólidas e os carreadores lipídicos nanoestruturados (MULLER et al, 2007). Segundo Muller (2007 apud MARCELINO, 2008) as nanopartículas lipídicas sólidas foram a primeira geração de partículas lipídicas desenvolvidas, porém apresentaram problemas de baixa eficiência de encapsulação devido à matriz da partícula formar uma estrutura de cristal relativamente perfeita, com espaço limitado para acomodar o ativo, o que pode levar à sua expulsão durante o armazenamento. Em contraste, os carreadores lipídicos nanoestruturados, usam uma mistura lipídica com moléculas estruturadas em diferentes tamanhos que distorcem a formação de um cristal perfeito. Dessa maneira, a matriz da partícula possui muitas imperfeições criando espaços para a acomodação do ativo na forma molecular, promovendo o aumento da eficiência de encapsulação e a liberação mais lenta do ativo da matriz. Outros sistemas bastante estudados são as nanopartículas poliméricas, que incluem as nanocápsulas e as nanoesferas, diferenciadas de acordo com a sua composição (SCHAFFAZICK et al, 2003 apud MARCELINO, 2008). A utilização da nanotecnologia permite um controle muito maior da velocidade com que o ativo é liberado, assim como a profundidade em que é liberado na pele. A nanotecnologia também está sendo utilizada em preparações capilares, uma vez que permite atingir os fios sem destruir a fibra externa que os recobre, e em produtos de maquiagem, com nanopigmentos pela maior quantidade de cores e textura permitida pela sua utilização (HIRATUKA et al , 2008). .Para os autores Duran; Marcato e Teixeira (2010) a área de cosméticos vem empregando nanotecnologia nos mais diversos produtos, como: partículas metálicas para aumento de brilho em maquiagens; nanoemulsões para cabelos que são hidratantes mais 8 promissores; proteção de ativos contra a degradação, por exemplo no encapsulamento da vitamina C ; liberação em camadas mais profundas da pele de ativos anti-rugas; melhoria da textura do creme e formação de um filme mais eficiente de protetores solar, como exemplo, o emprego de nanopartículas de dióxido de zinco. Tais produtos, no entanto, devem ser cuidadosamente investigados anteriormente à introdução no mercado, uma vez que tais sistemas nanoparticulados podem apresentar inúmeros benefícios, mas também podem ter algum efeito danoso. A indústria de cosméticos não está sujeita ao mesmo grau de exigências que os medicamentos para que a comercialização de um produto seja aprovada. Então, os estudos de segurança feitos em seus nanocosméticos são apenas aqueles exigidos para poder liberar o produto. A pesar de haver muito poucos estudos feitos para avaliar a toxicidade, estão sendo amplamente comercializados. E a grande maioria não identifica as nanopartículas em seus rótulos. São as próprias empresas fabricantes que garantem que seus produtos são seguros (GUAZELLI, 2010). Como não existe nenhuma regulamentação, não há qualquer exigência legal de rotular nanomateriais. Há uma atenção especial da indústria e das instituições em apresentar a nanotecnologia e os produtos nanotecnológicos como seguros, sem riscos. Praticamente só aparecem nos rótulos quando o propósito é fazer propaganda do produto, até porque, o tamanho das partículas pode fazer toda a diferença, nanopartículas menores do que 300 nanômetros, quando ingeridas, podem atingir o sistema linfático e penetrar na corrente sanguínea. Com 70 nm, as nanopartículas podem se incrustar no tecido pulmonar. Uma partícula de 50nm pode entrar nas células sem ser percebida. Partículas de 30 nm podem atravessar a barreira que protege o cérebro (GUAZELLI, 2010). Para a autora Nunes (2009), considerando que o produto ultrapasse a epiderme chegando à hipoderme, não se tem informações sobre como ele seria (ou não) eliminado pelo organismo, dessa forma gerando dúvidas de como ocorre a eliminação do mesmo a nível biológico. 3. METODOLOGIA O presente artigo foi desenvolvido a partir de pesquisa bibliográfica que é a fonte conceitual de um trabalho, é através dela que se podem desenvolver linhas de pensamento e defender idéias, apoiadas nos conceitos já existentes. 9 Segundo Gil (2002, p.49) “as fontes bibliográficas podem ser classificadas em livros de leitura corrente, livros de referencia (dicionários, enciclopédias, anuários e almanaques); publicações periódicas (jornais e revistas) e impressos diversos”. A pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos. Embora quase todos os estudos sejam exigidos algum tipo de trabalho desta natureza, há pesquisas desenvolvidas exclusivamente a partir de fontes bibliográficas. Boa parte dos estudos exploratórios pode ser definida como pesquisas bibliográficas. As pesquisas são ideologias, bem como aquelas que se propõe à análise de diversas posições acerca de um problema, também costumam ser desenvolvidas quase exclusivamente a partir de fontes bibliográficas (GIL, 2002). 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS O ser humano é movido pela busca de novidades. Novidades estas específicas no mercado cosmético quando o assunto é manutenção, prevenção e retardamento dos efeitos da idade e de agentes externos que causam danos a pele e aos cabelos. O mercado cosmético assim como o mercado da estética está em pleno desenvolvimento na busca por produtos com tecnologia mais desenvolvida. A tecnologia chamada de nano está sendo difundida na área dos cosméticos. Através desta pesquisa podemos rever e conhecer o que pode ser e onde pode se aplicar a nanotecnologia e qual a importância dela para o setor cosmético. Percebemos, que existem vários benefícios na utilização da nanotecnologia em produtos cosméticos tais como: aumento de brilho em maquiagens através de partículas metálicas, proteção de ativos contra a degradação, por exemplo, no encapsulamento da vitamina C, controle da velocidade em que o ativo será liberado, sensação mais suave ao toque, liberação em camadas mais profundas da pele e dos cabelos, formação de filme mais eficiente de protetores solar, como exemplo, o emprego de nanopartículas de dióxido de zinco. Observa-se que esta tendo um grande investimento em produtos cosméticos com essa tecnologia por parte dos setores industriais para desenvolvimento de novos produtos cosméticos e uma porcentagem mínima para estar avaliando a toxicidade e também pouca divulgação sobre a utilização das nanoestruturas em cosméticos. 10 Após a revisão de alguns artigos que foram utilizados neste estudo, o que nos chamou a atenção foi o fato de que ainda são suficientes os estudos sobre a segurança real da utilização das nanopartículas sem o comprometimento da saúde do ser humano. Sendo assim este é um assunto relacionado ao mercado cosmético de grande importância e sugere-se que outros estudos sejam desenvolvidos avaliando rotulagem dos produtos que contiverem seus princípios ativos nanoparticulados. Pois não se tem informações de como esta nanopartícula seria (ou não) eliminado pelo organismo, dessa forma gerando dúvidas de como ocorre a eliminação do mesmo a nível biológico. REFERÊNCIAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA DE HIGIENE PESSOAL, PERFUMARIA E COSMÉTICOS – ABIHPEC – Notícias. Disponível em:< http://www.abihpec.org.br/noticias_texto.php?id=966.> Acesso em 01 ago. de 2010. BENTO, P. da C. N. Desenvolvimento de sistema micro e nanoestruturados de Quitosa/MDI para aplicações cosméticas. 2009. 124f. Dissertação (Mestrado em Engenharia Química) Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Centro de Tecnologia – Departamento de Engenharia Química. Natal, 2009. CARVALHO, Dermeval. Produtos cosméticos seguros. Cosmetics&Toiletries Nov/Dez 2006 Vol 18 nr 6 p. 48. DRUCKER, P. F. O melhor de Peter Drucker: o homem a administração a sociedade, pg.377. São Paulo: Abril, 2001. DURAN, N.; MARCATO, P.D ;TEIXEIRA Z. Nanotecnologia nanobiotecnologia: conceitos básicos Disponível em: <http://www.cienciaviva.org.br/arquivo/cdebate/012nano/Nanotecnologia_e_Nanobiotecnolo gia.pdf> Acesso em: 30 set. 2010. ERENO, D. Nanotecnologia: beleza fundamentada. Grupo de pesquisadores em conjunto com empresas prepara nanocosméticos com aplicações variadas. Edição Impressa 146 - Abril 2008. Disponível em: <http://revistapesquisa.fapesp.br/index.php/arq/r/pt/926/colecao.pdf?art=3498&bd=1&pg=3& lg> . Acesso em: 17 out. 2010. GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 4º Ed. São Paulo: Atlas. 2002. http://www.abihpec.org.br/noticias_texto.php?id=966 11 GUAZELLI,M.J.,PEREZ,J.Nanotecnologia: a manipulação do invísel. Disponível em: <https://ieonline.microsoft.com/#ieslice>. Acesso em: 25 out.2010. HIRATUKA, C. et al. Relatório de acompanhamento setorial: Cosméticos. Volume II, dezembro de 2008. Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial – UNICAMP. São Paulo, 2008. Disponível em: <http://www.abdi.com.br/?q=system/files/Cosm%C3%A9ticos+II+-+dezembro+2008.pdf> Acesso em 30 set. 2010. MARCELINO, A. G. DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO DA EXTRAÇÃO DA SERICINA E PREPARAÇÃO DE NANOPARTÍCULAS PARA APLICAÇÃO EM COSMÉTICOS.2008, 146f. Dissertação (MESTRADO DE ENGENHARIA QUÍMICA. Área de Concentração Desenvolvimento de Processos Biotecnológicos. Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Engenharia Química, Campinas, 2008. MARQUES, S. A história do penteado. São Paulo: Matrix, 2009. MULLER, R.H., PETERSEN, R.D., HOMMONOSS, A., PARDEIKE, J.;Nanostructured Lipid Carriers (NLC) in Cosmetic Dermal Products; Advanced Drug reviews, v.59, p.522- 530, 2007. NEVES, Kátia. Nanotecnologia em cosméticos. Cosmetics&Toiletries. Jan/Fev 2008. NUNES, M. D. Na indústria do átomo a beleza é inteligente, enquanto questões de governança são nanoestruturadas. 2009. 173f. Dissertação (Mestrado em Sociologia Política) Universidade Federal de Santa Catarina – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Florianópolis, 2009. PASA, R.; RAMOS B.G.Z. Desenvolvimento da nanotecnologia: cenário mundial e nacional de investimentos. Revista eletrônica: Rev. Bras.Farm. 89(2): 95-101, 2008.Disponível em: <http://www.revbrasfarm.org.br/pdf/2008/RBF_R2_2008/pag_95a101_desenv_nanotecnologi a.pdf> Acesso em: 30 set. 2010. SANTOS, E. Nanotecnologia: fundamentos, aplicações e oportunidades. Faculdade de Farmácia – UFRJ – Departamento de Medicamentos Laboratório de Desenvolvimento Galênico. Disponível em:< http://www.abihpec.org.br/conteudo/nanotecnologia/RJ/RJ- ABIHPE-ElisabeteSantos.pdf> Acesso em: 30 set. 2010. SCHMALTZ, C.; SANTOS, J.V.; GUTERRES, S.S. Nanocápsulas como uma tendência promissora na área cosmética: a imensa potencialidade deste pequeno grande recurso. Infarma, v.16 (13-14), p.80-85, 2005. http://www.abdi.com.br/?q=system/files/Cosm%C3%A9ticos+II+-+dezembro+2008.pdf http://www.revbrasfarm.org.br/pdf/2008/RBF_R2_2008/pag_95a101_desenv_nanotecnologia.pdf http://www.revbrasfarm.org.br/pdf/2008/RBF_R2_2008/pag_95a101_desenv_nanotecnologia.pdf http://www.abihpec.org.br/conteudo/nanotecnologia/RJ/RJ-ABIHPE-ElisabeteSantos.pdf http://www.abihpec.org.br/conteudo/nanotecnologia/RJ/RJ-ABIHPE-ElisabeteSantos.pdf nanobiotecnologia255 (2).pdf 2 6 • C I Ê N C I A H O J E • v o l . 4 3 • n º 2 5 5 Nanoprojéteis que atacam tumores, mas não intoxicam as células sadias. Nanopartículas que atingem um local específi co do organismo para administrar com precisão um fármaco. Ficção científi ca ou realidade? Depois da agricultura, indústria e microeletrônica, a próxima revolução tecnológica já tem nome: nanotecnologia. Esse novo ramo interdisciplinar do conhecimento humano já é uma realidade palpável e está presente em nosso cotidiano, inclusive em medicamentos e cosméticos. No entanto, seu emprego para a melhoria da saúde humana ainda é motivo de discussão em vários setores da sociedade. E você, leitor, está preparado para a nanotecnologia? Fernanda S. Poletto Programa de Pós-graduação em Química, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Adriana R. Pohlmann Departamento de Química Orgânica, UFRGS Sílvia S. Guterres Faculdade de Farmácia, UFRGS Uma pequena grande revolução C I Ê N C I A S D A S A Ú D E 2 6 • C I Ê N C I A H O J E • v o l . 4 3 • n º 2 5 5 d e z e m b r o d e 2 0 0 8 • C I Ê N C I A H O J E • 2 7 No filme Querida, encolhi as crianças, que passou nos cinemas na década de 1990, o cientista Wayne Szalinsky (interpretado pelo ator canadense Rick Mora- nis) inventa uma máquina que, por acidente, encolhe seus filhos e os do vizinho até o tamanho de insetos. Perdidos no jardim da própria casa, os personagens deparam-se com perigos fantásticos, como tempestades e a ameaça de serem devorados por formigas gigantes e outros ‘monstros’. Um novo mundo? Nem tanto. Em ambas as escalas de tamanho (do metro, no caso das crianças no início do filme, e do centímetro, após sua redução acidental), a força gravitacional e a força de atrito predominam. E se o equipamento estivesse ajustado para reduzi-los ainda mais? Que tal mil vezes mais que o tamanho de um grão de areia? Esse sim seria um mundo bem diferente daquele que costumeiramente vivenciamos. Nele, o papel da força de gravidade é praticamente inexistente. Trata-se de um mundo dominado pelas forças de van der Waals, responsáveis, por exem- plo, pela capacidade de as lagartas e os insetos andarem pelas paredes. Os personagens do filme estariam em movimento aleatório (também co- nhecido como movimento browniano), ou seja, eles se chocariam uns com os outros e com qualquer coisa ao redor deles ininterruptamente (e não seria por vontade própria!). Uma pequena grande revolução Os impactos da nanobiotecnologia na saúde humana C I Ê N C I A S D A S A Ú D E © PA S IEK A / SCIEN CE PH O TO LIB R A RY/LATIN STO CK d e z e m b r o d e 2 0 0 8 • C I Ê N C I A H O J E • 2 7 2 8 • C I Ê N C I A H O J E • v o l . 4 3 • n º 2 5 52 8 • C I Ê N C I A H O J E • v o l . 4 3 • n º 2 5 5 efeitos indesejados dos medicamentos, chamados efeitos colaterais. A nanobiotecnologia pode ajudar a contornar es- ses e outros problemas. A chave é justamente a faixa de tamanho e o tipo de estrutura dos medicamentos nanotecnológicos, que atuariam como minúsculos dispositivos guiados para liberar o fármaco prefe- rencialmente no seu sítio-alvo (local onde o fármaco age, causando um efeito desejado, como o fígado, a pele ou o cérebro). Essa seletividade, em geral, não é possível com medicamentos convencionais. A idéia de obter minúsculos dispositivos guiados foi levantada no início do século passado pelo biólogo alemão Paul Erlich (1854-1915), ganhador do prêmio Nobel de Medicina em 1908. O modelo de Erlich ficou conhecido como ‘bala mágica’. Ao longo do século passado, várias abordagens foram propostas para concretizar o ideal da ‘bala mágica’. Entre elas, está a nanotecnologia farmacêu- tica, que tem se mostrado uma das mais acessíveis economicamente, pela possibilidade de transposi- ção para a escala industrial, bem como por ser efe tiva como ‘dispositivo guiado’. Nanoestruturas têm sido descritas em estudos científicos desde a década de 1960. As mais estudadas para fins medicinais são: i) os lipossomas; ii) as nanopartículas poliméricas; iii) as nanopartículas metálicas; iv) os dendrímeros; v) as micelas poliméricas. Porém, há também relatos de estudos envolvendo nanotubos de carbono e fulere- nos (ver infográfico ‘Arsenal de nanoestruturas’). A proporção entre a Terra e uma moeda de R$ 1 é aproximadamente igual à proporção entre uma moeda de R$ 1 e uma nanopartícula. Isso signifi ca que, se uma moeda fosse colocada no chão e o planeta Terra fosse reduzido até o tamanho da própria moeda, esta última passaria a ter o tamanho de uma nanopartícula Mas por que isso poderia ocorrer? Porque os persona- gens teriam sido reduzidos até a escala do nanômetro. Nela, os materiais têm proprie- dades únicas. O prefixo ‘nano’ deriva da palavra grega ‘anão’, corresponden- do a um termo técnico usado em qualquer unidade de medida (de com- primento, área, massa, volume etc.) para indicar um bilionésimo dessa unidade. Por exemplo, um nanômetro equivale a um bilionésimo de um metro. A miniaturização de pessoas e coisas, como des- crita acima, é pura ficção. Mas os fenômenos apre- sentados são reais. O estudo das propriedades dos materiais na escala do nanômetro é chamado nano- ciência. Quando esse conhecimento é empregado para a obtenção e o controle de nanomateriais com objetivos práticos e comerciais, é chamado nanotec- nologia. A lista completa das aplicações potenciais da nanotecnologia é vasta e diversificada. Mas, sem dúvida, um de seus maiores impactos na sociedade ocorrerá na área médica. Quando a nanotecnologia é aplicada às ciências da vida, é conhecida como nanobiotecnologia ou nanomedicina. Mas como a nanobiotecnologia poderia influen- ciar na saúde das pessoas? A resposta é o que pro- curamos apresentar a seguir. BALA MÁGICA A maioria dos medicamentos usados nos tratamen- tos modernos contém moléculas geralmente peque- nas (fármacos) que atingem a corrente sangüínea após sua administração, percorrendo todo o orga- nismo. Portanto, os fármacos chegam tanto ao seu alvo quanto a outros lugares do corpo que não têm relação com a doença. Essa última situação leva aos 12.756.000 m C I Ê N C I A S D A S A Ú D E d e z e m b r o d e 2 0 0 8 • C I Ê N C I A H O J E • 2 9 d e z e m b r o d e 2 0 0 8 • C I Ê N C I A H O J E • 2 9 C I Ê N C I A S D A S A Ú D E FICÇÃO OU REALIDADE? Na imaginação dos cientistas, o céu é o limite quan- do se trata de aplicar a nanotecnologia na área mé- dica. Usando nanoestruturas, idéias ousadas já foram total ou parcialmente concretizadas em laboratório, envolvendo a detecção precoce ou mesmo a cura de doenças – cabe salientar que os estudos descritos abaixo, apesar de animadores, encontram-se em fase de pesquisas pré-clínicas. É possível encontrar relatos impressionantes do potencial de uso da nanobiotecnologia no tratamen- to de várias doenças. Um estudo preliminar em ratos demonstrou a possibilidade de obtenção de nanopartículas com a habilidade de transportar e transferir oxigênio para os tecidos. Essas nanopar- tículas poderiam substituir as células vermelhas em transfusões sangüíneas. Há também estudos, em fa se inicial, na área de endocrinologia, nos quais se busca um nanomaterial que libere o hormônio in- sulina segundo o nível de glicose no sangue. Doenças ditas da terceira idade também são alvo dos estudos científicos. A osteoartrite é comum após os 65 anos de idade, quando as cartilagens que ligam os ossos entre si são progressivamente deterioradas. O tratamento convencional é uma injeção de glico- corticóide (antiinflamatório) diretamente na articu- lação. No entanto, esse tratamento não reduz ade- quadamente a dor decorrente da doença, pois seu efeito é de curta duração. A incorporação de glico- corticóides em nanopartículas tem sido uma estra- tégia promissora no aumento da duração do efeito do fármaco, pois essas nanopartículas, devido ao seu tamanho, liberam o fármaco na articulação de forma gradativa por dias. A nanomedicina pode ser útil inclusive no trata- mento de doenças neurodegenerativas, como o mal de Alzheimer, a esclerose múltipla e o mal de Par- kinson. Nesses quadros, os sintomas podem variar desde a perda de memória e da cognição até distúr- bios graves de comportamento. Para combater essas doenças, o fármaco deve atravessar a barreira he- matoencefálica, ou seja, passar do sangue ao cérebro. Há estudos relatando que nanomedicamentos podem levar o fármaco ao cérebro, liberando-o de forma controlada. A conseqüência é um tratamento mais efetivo e menos agressivo que o convencional. Há evidências de que a nanotecnologia também possa ter bons resultados no tratamento de câncer cerebral e de traumatismos cranianos. EXEMPLOS DE SUCESSO Em saúde e higiene pessoal, a transformação de uma idéia em um novo produto tem ocorrido em maior proporção na indústria cosmética. O mercado mun- dial de cosméticos cresce a uma taxa de 10% ao ano, e as companhias acreditam que a nanotecnologia já é a base de uma nova geração de produtos. O nanocosmético atua de forma controlada em camadas mais profundas da pele, o que o torna mais efetivo que os produtos convencionais. São exemplos de nanocosméticos já disponíveis no mercado mun- dial: i) agentes anti-rugas que empregam estruturas nanométricas que carregam pró-retinol A (matéria- prima para fabricação de vitamina A); ii) filtros solares à base de nanopartículas de óxido de zinco ou dióxido de titânio. A empresa francesa L’Oreal foi a pioneira a lançar, ainda em 1995, produtos cosméticos contendo nanoestruturas. Na área farmacêutica, o nanomedicamento à base de paclitaxel (substância de origem vegetal) vem sen- do empregado, com sucesso, no tratamento de câncer de mama há mais de uma década. O medicamento convencional causa efeitos indesejados por conter um produto tóxico, mas necessário para solubilizar o paclitaxel. No nanomedicamento, o paclitaxel fica inserido em nanopartículas de albumina. Esta última é uma proteína presente no organismo, cuja função é transportar moléculas insolúveis no sangue. Dessa forma, o nanomedicamento dispensa o uso do componente tóxico, e doses maiores do fármaco podem ser administradas com segurança. ADMIRÁVEL MUNDO NOVO Governos de vários países vêm investindo intensa- mente em pesquisas em nanotecnologia. Uma lista de 2003 mostra que os Estados Unidos foram os que mais investiram recursos públicos em nanotecnolo- gia (o Brasil ficou na 29ª posição, à frente da Índia e da África do Sul, por exemplo). Só para a área de nanobiotecnologia, cerca de US$ 89 milhões (cerca de R$ 180 milhões) foram empregados em pesquisas pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) em 2005. Dessa quantia, US$ 30 mi- lhões foram destinados a um programa do Instituto Nacional do Câncer (NCI). 0,024 m 0,000.000.001 m (diâmetro) . 3 0 • C I Ê N C I A H O J E • v o l . 4 3 • n º 2 5 53 0 • C I Ê N C I A H O J E • v o l . 4 3 • n º 2 5 5 Em 2001, o governo brasileiro apoiou a criação de quatro redes de pesquisa em diferentes áreas da nanotecnologia, sendo uma delas dedicada à nano- biotecnologia. Em 2004, foram instituídas, no Brasil, a Ação Transversal de Nanotecnologia nos Fundos Setoriais e a Rede BrasilNano, esta última com 10 redes de pesquisa em nanotecnologia. No ano se- guinte, foi lançado o Programa Nacional de Nano- tecnologia (PNN) e criado o Centro Brasileiro-Ar- gentino de Nanotecnologia para impulsionar as pesquisas latino-americanas nessa área. Mas o investimento em nanotecnologia não é apenas governamental. Para a iniciativa privada, a promessa da nanotecnologia é suficientemente real para atrair seu interesse. A NSF (sigla em inglês para Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos) estima que o mercado mundial de produtos nano- tecnológicos chegue a US$ 1 trilhão em 2015, dos quais quase US$ 200 bilhões referem-se à área far- macêutica. Porém, esse otimismo que cerca a nano- tecnologia é temperado por certa cautela. NÃO ACREDITE EM MODISMOS Considerando os cenários descritos acima para o mercado de produtos nanobiotecnológicos nos próximos anos, é importante vislumbrar o grau de aceitação pública da nanotecnologia. Apesar de suas inúmeras vantagens, a discussão sobre os aspectos de segurança, regulação e impacto am- biental da nanotecnologia dá seus passos iniciais nos âmbitos social, empresarial, governamental e acadêmico. Embora muitas apreensões sejam infundadas (por exemplo, o perigo iminente de nanorrobôs auto- replicantes, os chamados grey goo), é verdade que a avaliação toxicológica de muitos nanomateriais ainda está em andamento. Sabe-se, por exemplo, que moléculas isoladas de DNA (material genético) podem ser utilizadas para separar nanotubos de ARSENAL DE NANOESTRUTURAS Lipossomas • São vesículas esféricas compostas por bicamadas (lamelas) de fosfo- lipídios, que, por sua vez, são moléculas pre- sentes no organismo humano e com afinida- de tanto pela água quanto por óleos e gor- duras. Os lipossomas foram descobertos no início da década de 1960 e podem ser divididos conforme seu tamanho e número de lamelas. Polímeros (ou seja, plásticos) com alta afinidade por água podem ser incorporados à sua superfície, para au mentar sua estabilidade e seu tempo de permanência no organismo. Pode-se ainda ligar à sua superfície anticorpos, que atuariam como agentes de direcionamento dos lipos- somas para sítios específicos do organismo. Nanopartículas poliméricas • Desenvolvidas na década de 1990, podem ser divididas em nanoesferas, compostas por uma rede de polímeros, e nanocápsu- las, que são gotículas de óleo envoltas por um filme fino de polímero. Nanoemulsão • É o equivalente da nano- cápsula sem a parede polimérica ao seu redor. Assim como os lipossomas, podem apresentar moléculas em sua superfície que alteram suas características físico-químicas e biológicas. Dendrímeros • Conhecidos como moléculas-cascata, são esferas forma - das por um núcleo de polímero com ramificações, como galhos de árvore. O número de ramificações define o ta- manho do dendrímero. As moléculas de fármaco geralmente ficam ‘presas’ nos es- paços vazios formados pelas ramificações. A variedade de nanoestruturas para uso potencial na medicina é vasta. Em todas elas, as moléculas de fármaco podem estar adsorvidas (ou seja, fixadas na superfície), dispersas ou dissolvidas. Algumas das principais nanoestruturas empregadas em estudos na área médica são esquematicamente apresentadas neste infográfico. d e z e m b r o d e 2 0 0 8 • C I Ê N C I A H O J E • 3 1 d e z e m b r o d e 2 0 0 8 • C I Ê N C I A H O J E • 3 1 C I Ê N C I A S D A S A Ú D E Sugestões para leitura DURÁN, N.; MATTOSO, L. H.; DE MORAIS, P. C. (eds.) Nanotecnologia: introdução, preparação e caracterização de nanomateriais e exemplos de aplicação (São Paulo: Artiber Editora, 2006). FRONZA, T.; GUTERRES, S. S.; POHLMANN, A. R.; TEIXEIRA, H. Nanocosméticos: em direção ao estabelecimento de marcos regulatórios (Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2007). MORALES, M. (ed.). Terapias avançadas: células-tronco, terapia gênica e nanotecnologia aplicada à saúde (Rio de Janeiro: Atheneu, 2007) carbono de uma amostra sintética. O DNA interage apenas com os nanotubos de carbono de certo ta- manho. Embora seja uma ótima estratégia para fins de separação, essa interação entre o material gené- tico e nanotubos de carbono levanta questões sobre as conseqüências da absorção desse tipo de nano- estrutura pelos organismos vivos. Em 19 de junho de 2007, a Comissão Européia publicou um relatório denominado ‘Opinião preli- minar sobre a segurança de nanomateriais em pro- dutos cosméticos’. Nele, é feita uma proposta de classificação das nanopartículas em dois grandes grupos: i) nanopartículas lábeis (frágeis), que se desintegram totalmente após contato com a pele (por exemplo, lipossomas, nanoemulsões e nanopartícu- las poliméricas); ii) nanopartículas insolúveis, que não se desintegram (fulerenos, nanopartículas de óxidos metálicos, nanotubos de carbono etc.). Para o primeiro grupo, propõe-se que as medidas de se- gurança se restrinjam à avaliação da toxicidade do material usado para sua preparação, enquanto uma descrição detalhada de todo o ‘ciclo de vida’ das nanopartículas no ambiente seria requerida para o segundo grupo, em adição ao estudo de suas toxi- cidades. Paralelamente, foi publicado no Brasil o livro Nanocosméticos: em direção ao estabelecimento de marcos regulatórios, que traz uma proposta de clas- sificação de nanocosméticos, usando as mesmas bases empregadas para nanopartículas: lábeis ou insolúveis. Segundo os autores, os produtos nano- cosméticos deveriam ser classificados com grau de risco II, ou seja, aqueles que têm indicações espe- cíficas e que exigem comprovação de segurança e/ ou eficácia. Os autores apontam que o tamanho e a distribuição de tamanho das nanoestruturas são elementos-chave para o estabelecimento do grau de risco de nanocosméticos. Dessa forma, foi proposta a classificação das nanoestruturas em lábeis ou insolúveis, bem como maiores ou menores que 100 nm (100 nanômetros). No caso de nanopartículas insolúveis, é preciso fazer análises caso a caso. REALIDADE PALPÁVEL Nanorrobôs com capacidade de realizar cirurgias sem deixar cicatrizes ainda estão longe de sair dos livros e filmes de ficção científica. Em compensação, a nanobiotecnologia é uma realidade palpável. Es- tudos vêm sendo descritos na literatura científica sobre o emprego de nanopartículas como agentes de tratamento de câncer, osteoartrite, distúrbios neu- rodegenerativos, entre outros. O tamanho reduzido dos nanomedicamentos traz vantagens em comparação com os produtos conven- cionais, como seu direcionamento a alvos específi- cos, sua liberação progressiva do fármaco e a dimi- nuição de efeitos indesejados causados pelo fárma- co. Alguns desses avanços já estão disponíveis no mercado, mas boa parte ainda está em fase de estu- do. Prevê-se um crescimento animador do mercado nanobiotecnológico nos próximos anos, e o Brasil pode ocupar um lugar de destaque nesse campo. A liberação controlada de fármacos no organismo por meio da nanobiotecnologia pode contribuir muito para a melhoria da saúde humana. No entan- to, o estudo do efeito de longo prazo desses nano- medicamentos no organismo e no meio ambiente dá seus primeiros passos. Nesse sentido, é fundamen- tal o estabelecimento de marcos regulatórios para que sua produção, comercialização e seu descarte sejam feitos de forma segura. A história da nanotecnologia a serviço da saúde só está começando. Nanotubos de carbono e fulerenos • Estruturas de diâmetro muito menor, são compostos por unidades de carbono, assim como a grafita, o carvão e o diamante, porém com arquitetura que lhes confere propriedades especiais, como maior resistência mecânica e alta capacidade de trans- portar calor e eletricidade. Micelas poliméricas • De estrutura mais simples, são compostos por uma região interna com baixa afinidade pela água (hidro- fóbica) e por cadeias externas de polímero com alta afinidade pela água (hidrofílicas). Nanopartículas metálicas • São compostas por metais que têm pro- priedades diferentes daquelas obser- vadas em nível macroscópico devido ao seu reduzido tamanho. Além de seu uso como carregadores de fármacos, uma importante aplicação de um subgrupo delas, as nanopartículas magnéticas, é a magneto-hipertermia, fenômeno no qual ocorre um aumento da temperatura apenas no local do corpo onde as nanopartículas estejam presentes. Esse aumento de temperatura leva à morte das células e, por isso, essa estratégia é interessan- te para o tratamento do câncer. As nanopartículas magnéticas podem ser direcionadas a um local específico do corpo por meio de um campo magnético externo. Nanocosméticos v1.pdf NANOCOSMÉTICOS – QP 434 Alessandra Prando, Juliana Alves e Alvim Jorge O estudo do uso de cosméticos nas antigas culturas remete a primeira dinastia do Egito 3000 ac. As mulheres egípcias utilizavam um preparado verde nas pálpebras superiores e utilizavam o Kohl para escurecer a parte inferior e henna (arvore do norte da áfrica) nas unhas e lábios para deixá-los vermelhos. Apesar do kohol servir de como proteção estética e anti-infecciosa, estes preparados eram tóxicos (levavam na composição antimônio e chumbo) e geravam muitos problemas para a população. Os judeus já utilizavam cosméticos de acordo com o Velho testamento, provavelmente por influencia dos egípcios. Os romanos, no sec. I a.C. utilizavam punce para limpar os dentes (rocha ígnea porosa, atualmente utilizada nos cosméticos como esfoliantes). Durante as Cruzadas se observou o uso de cosméticos no Oriente, que foi posteriormente difundindo na Europa, sendo que os estudos iniciaram na França no século 19, visando melhores relações custo benefício, e mais recentemente o bem-estar. A atual definição de cosméticos diz que são preparações constituídas por substâncias naturais ou sintéticas, de uso externo nas diversas partes do corpo humano, pele, sistema capilar, unhas, lábios, órgãos genitais externos, dentes e membranas mucosas da cavidade oral, com objetivo exclusivo ou principal de limpa- los, perfumá-los, alterar sua aparência e/ou corrigir odores e/ou protegê-los ou mantê-los em bom estado. O setor de COSMÉTICO E CUIDADOS PESSOAIS foi responsável por 8% do faturamento líquido da indústria química brasileira em 2006, estimado em US$ 69,5 bilhões. Existem hoje no Brasil 1.367 empresas atuando no mercado de produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos. Apenas 15 delas, ou 1,09%, são de grande porte, com faturamento líquido acima de R$ 100 milhões, e responsáveis por cerca de 72 % do faturamento do setor. Em termos globais, esta é uma indústria que movimentou US$ 270 Bilhões em 2006. A utilização de Nanotecnologia tem crescido dentro da indústria cosmética, resultado da convergência de uma indústria que vive da moda com uma tecnologia que esta se tornando moda. Uma base de dados mantida por Project of Emerging Technology, uma iniciativa da universidade de Princeton, contou aproximadamente 125 produtos de saúde e beleza e 19 alimentos contendo nanopartículas – daqueles que voluntariamente identificaram os ingredientes. Nanopartículas, por exemplo, são encontrados em produtos como desodorante, sabonete, pasta de dente, xampu, condicionador de cabelo, creme anti rugas, bases, pó facial, batom, blush, sombra, esmalte, perfume e loção pós barba e são vendidos por firmas cosméticas como Revlon, L’Oréal, Estée Lauder, Proctor and Gamble, Shiseido, Chanel, Beyond Skin Science LLC, Dr Brandt, SkinCeuticals, Dermazone Solutions e muitas outras. Podemos adicionar neste grupo empresas brasileiras como Natura e Boticário. Na contramão do desenvolvimento desenfreado, críticos têm visto o mercado crescente da nanotecnologia como de potencial risco para a saúde e segurança, e estão trabalhando para garantir que a regulação federal os consiga vigiar. Essas preocupações se devem devido ao uso dos cosméticos e produtos de cuidado pessoal provocar risco de exposição, uma vez que os produtos são usados diariamente e diretamente na pele. Eles podem ser inalados ou até ingeridos, e oferece grande risco de toxidez. O principal dilema dos Nanocosméticos é conforme se diminui o tamanho de partícula até uma escala nanométrica, se observa um aumento da área superficial. Este fato potencializa todos os efeitos, sejam benéficos ou tóxicos. O gráfico 1 apresenta o aumento do percentual de moléculas na superfícies em função da redução do tamanho de partícula, observa-se um aumento drástico para partículas abaixo de 100 nm: NANOCOSMÉTICOS – QP 434 Alessandra Prando, Juliana Alves e Alvim Jorge Gráfico 1 – Variação do percentual de moléculas na superfície em função do diâmetro da partícula Além disso, nanopartículas podem ser mais facilmente absorvidas por membranas biológicas, células, tecidos e órgãos que as grandes partículas não podem. Uma vez que as nanopartículas estão no corpo e posuem tamanho compatível com enzimas carregadoras, podem ser facilmente transportadas e atuarem em tecidos diferentes dos alvos iniciais. Revisões científicas recentes realizadas por pesquisadores europeus, pela sociedade real britânica e pela academia real de engenharia têm mostrado potenciais conseqüências de inalação ou absorção de nanopartículas, que incluem possíveis danos nos tecido (como aumento no estresse oxidativo e produção de citoquinas inflamatórias), mudanças no DNA e reações anormais do sistema imune. Além disso, uma reportagem recente do National Nanotechnology Iniciative sobre os riscos da nanotecnologia sugere que algumas nanopartículas podem se acumular nos tecidos através do tempo, com possíveis efeitos tóxicos. Deve-se então tomar o devido cuidado para evitar o erro cometido no passado com os asbestos, que inicialmente considerados inofensivos, foram condenados por causar diversos tipos doenças. O outro lado da moeda do desenvolvimento de Nanocosméticos é a possibilidade de atingir diversos benefícios superiores com relação aos cosméticos convencionais. Alguns exemplos já estão na prateleira: Apagard a pasta de dente que acabará com a ida ao dentista, repara o dente e remove a placa utilizando uma nanopartícula de HidroxiApatita; a nova linha Prevage reduz as rugas já existentes devido ao sistema de nanocapsulas ou então o protetor solar que permite maior proteção devido a nanopartículas de Óxido de Titânio. Estes são apenas alguns exemplos do potencial que a Nanotecnologia pode agregar aos Cosméticos. Os Nanocosméticos já estão revolucionando a vidas dos usuários, tornando-as mais práticas, mais jovens, a um custo mais baixo, e até o momento com algumas incertezas quanto aos riscos toxicológicos. NANOCOSMÉTICOS – QP 434 Alessandra Prando, Juliana Alves e Alvim Jorge Bibliografia: • Euromonitor: Mercado Cosmético 2007 • www.greenlivingtips.com • www.newstandardnews. Net • BNDES Setorial, Rio de Janeiro, n. 25, p. 131-156, mar. 2007 • Treye Thomas, Karluss Thomas, Nakissa Sadrieh, Nora Savage, Patricia Adair, Robert Bronaugh, TOXICOLOGICAL SCIENCES, 91(1), 14–19 (2006) • www.thelancet.com Vol 369 April 7, 2007 • Claudia H. Deutsch, “Cosmetics break the skin barrier”, The New York Times, January 8, 2005. • Nano, Nano, On The Wall... L’Oréal and others are betting big on products with microparticles”, Business Week, December 12, 2005. • Press Release issued by Friends of the Earth Australia and Friends of the Earth U.S., Nanomaterials, sunscreens and cosmetics: small materials, big risks, May 2006. • Nanotechnology: The Future is Coming Sooner Than You Think, Joint Economic Committee United States Congress, March 2007 • G. J. NOHYNEK ET AL.; Critical Reviews in Toxicology, 37:251–277, 2007 • Scientific Committee on Consumer Products (SCCP) PRELIMINARY OPINION ON SAFETY OF NANOMATERIALS IN COSMETIC PRODUCTS 2007 • Nel, A.; Xia, T.; Madler, L.; Li, N.; Science, 331; 2006 • V.E. Kagan et al. / Nanomedicine: Nanotechnology, Biology, and Medicine 1 (2005) 313–316 Nanotecnologia aplicada aos Cosméticos.pdf 1 NANOTECNOLOGIA APLICADA A COSMÉTICOS: AVALIAÇÃO DA ROTULAGEM DE COSMÉTICOS COM NANOTECNOLOGIA Anne Desireé Figueiredo Reis1 Marcela Bruschi Silvestrim2 Daniela da Silva3 Resumo: A área da estética está em alta e continua crescendo no mundo inteiro. Com isso, torna-se necessário a realização de pesquisas, trabalhos e ensaios visando o aperfeiçoamento e inovação de produtos e tratamentos. Os produtos cosméticos contendo nanotecnologia são bons representantes dessa tendência tecnológica, já estando inseridos no mercado brasileiro. Devido aos altos custos de produção, sua presença aqui ainda é pequena e seus riscos e benefícios ainda são discutidos entre os profissionais da classe e pesquisadores. Sendo assim, este artigo aborda a nanotecnologia aplicada a produtos cosméticos e tem como objetivo analisar os rótulos de produtos com aplicação de nanotecnologia. Pela utilização de livros, artigos, revistas, assim como os rótulos dos produtos, essa pesquisa tem caráter bibliográfico e documental, do tipo descritivo com abordagem qualitativa. Os resultados revelaram a pouca quantidade de produtos desta classe no universo pesquisado, além da dificuldade de identificação desta tecnologia em alguns dos produtos. Isso reforça a necessidade de uma legislação própria e regulamentação adequada a esta categoria de cosméticos. Palavras-chaves: Nanocosmético. Nanotecnologia. Rotulagem. Princípio Ativo. 1 INTRODUÇÃO Com o avanço da ciência e da tecnologia, várias técnicas e conhecimentos são desenvolvidos e ampliados. Dentre eles, a nanotecnologia destaca-se como uma metodologia inovadora, sendo o resultado de pesquisas e estudos para contribuição na aplicação prática (SANTOS, 2008). Esse resultado dá-se pela busca por inovações tecnológicas que se mostra muito crescente em várias áreas, pois no que diz respeito a insumos tecnológicos o interesse dos consumidores é grande. Isso pode ser explicado por alguns critérios que produtores e consumidores consideram importantes como a especificidade, o detalhamento, a busca por algo mais prático e o mais perto possível do que se considera perfeito, e é isso que a nanotecnologia pode oferecer. Com uma diferenciação especial nos efeitos e 1 Acadêmica do Curso de Cosmetologia e Estética da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, Balneário Camboriú, Santa Catarina. E-mail: anne_desiree182@hotmail.com 2 Acadêmica do Curso de Cosmetologia e Estética da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, Balneário Camboriú, Santa Catarina. E-mail: tchelatravel@gmail.com 3 Orientadora, Professora do Curso de Cosmetologia e Estética da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, Balneário Camboriú, Santa Catarina. E-mail: daniela@univali.br 2 oferecendo um resultado muitas vezes maior do que aquele esperado, a nanotecnologia é considerada por muitos uma alternativa para alcançar novos caminhos e tem sido aplicada a diversas áreas há bastante tempo (ERENO, 2011). Com a proposta de trabalhar utilizando materiais na escala de átomos e moléculas, a nanotecnologia conquistou e já se aplica a diversas grandes áreas, dentre elas a cosmetologia. O uso dessa tecnologia em cosméticos oferece produtos que buscam atuar com maior efetividade, pois apresentam princípios ativos encapsulados e em moléculas muito pequenas que são capazes de permear em camadas mais profundas da pele (COSTA et al, 2004). Mas mesmo sabendo que um cosmético precisa permear entre as camadas da pele para cumprir o que promete, não se pode afirmar com absoluta certeza se esse diferencial de permeação da nanotecnologia apresenta apenas benefícios (DUTRA, 2009). Dessa maneira, torna-se relevante identificar a diferenciação dessa tecnologia em produtos cosméticos que dizem conter princípios ativos nanoencapsulados para não tornar-se apenas estratégia de marketing. Em decorrência deste fato, é necessário compreender as vantagens, aplicações, segurança e possíveis riscos dos nanocosméticos. Com o levantamento dessas questões e diante desse contexto, este artigo aborda a nanotecnologia aplicada a produtos cosméticos e tem como objetivo analisar os rótulos de produtos com aplicação de nanotecnologia. O Laboratório de Cosmetologia e Estética da Universidade do Vale do Itajaí - Campus de Balneário Camboriú foi o universo de pesquisa escolhido para análise da rotulagem destes produtos. Esse tema foi escolhido por sua relevância e notoriedade, pois muitas pesquisas e um grande número de patentes de nanomateriais estão relacionados ao setor de cosméticos (ZANETTI-RAMOS; CRECZYNSKI-PASA, 2007). Por isso a importância da continuidade de estudos no intuito de contribuir para as áreas científica, técnica e prática, sendo este um dos critérios utilizados e a intensão com a elaboração deste artigo. 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 Nanotecnologia 3 Pode se definir nanotecnologia como um conjunto de técnicas usadas para manipular a matéria na escala de átomos e moléculas, de acordo com o grupo ETC (Action Group on Erosion Technology and Concentration). Sendo também definida como um campo científico multidisciplinar que baseia e descreve as tecnologias que permitem a construção de materiais na escala dos nanômetros (nm), partículas muito pequenas correspondentes à bilionésima parte do metro (RICCI JUNIOR, [s. d.]; STYLIOS et al., 2005; GRUPO ETC, 2005). A nanotecnologia começou a tomar uma forma mais institucionalizada no país a partir de 2001. Foi nesse ano que o governo federal lançou o primeiro edital brasileiro na área da Nanociência e Nanotecnologia para a formação de redes cooperativas nessa mesma área. A utilização desta tecnologia se aplica em diversas áreas, como medicina, farmácia, cosmetologia. E em outras áreas como a tecnologia de informação e de eletrônicos a base nanotecnológica já era utilizada em meados de 1960, com realização de pesquisas mais efetivas por volta da década de 80 (BRASIL, 2011; GRUPO ETC, 2005). A indústria de produtos cosméticos incorporou esta tecnologia com sucesso há aproximadamente duas décadas. As nanocápsulas se tornaram um sistema muito interessante de carreação e liberação dos princípios ativos, pois ao invés de adicionada diretamente ao veículo do produto a substância ativa é encapsulada nessas vesículas nanométricas (JANSEN, [s. d.]). 2.2 Nanotecnologia aplicada a cosméticos Desenvolvida a partir dos anos 80, a nanotecnologia ainda representa novidade nos produtos cosméticos. O que é utilizado hoje em cuidados pessoais e beleza tem origem nas formulações que antes foram implementadas no segmento farmacêutico, entretanto no Brasil os fabricantes têm que driblar altos valores de maquinário para fabricá-los (GOTARDO, 2011). O caminho para os nanocosméticos no mercado mundial foi aberto pela empresa francesa Lancôme, divisão de luxo da L’Oréal, há 15 anos em média, com o lançamento de um creme para o rosto transportado por nanocápsulas de vitamina E pura para combater o envelhecimento da pele (ERENO, 2011). Rieux et al. (2006) define as nanopartículas são sistemas coloidais poliméricos com tamanho entre 10 e 1000 nm, nos quais o princípio ativo do cosmético pode se encontrar dissolvido, recoberto, encapsulado ou disperso http://www.freedom.inf.br/revista/HC65/destsazo_cosmeticos.asp 4 (SANTOS; FIALHO, 2007). Essas nanopartículas são classificadas em duas categorias, as nanoesferas e as nanocápsulas, as quais diferem entre si segundo a composição e a organização estrutural. Nanocápsulas são sistemas vesiculares em que o ativo se encontra no interior de uma cavidade aquosa ou oleosa circundada por uma membrana polimérica, ou podendo também ser encontrado adsorvido na membrana polimérica. Nanoesferas são formadas por uma matriz polimérica onde o ativo encontra-se disperso ou adsorvido (ABDELWAHED et al., 2006). Segundo o Comitê Científico de Produtos ao Consumidor da Comissão Européia, as nanopartículas ainda podem ser classificadas em lábeis e insolúveis. As nanopartículas lábeis são as que se dissolvem física ou quimicamente, depois de aplicadas sobre a pele, geralmente derivadas de lipídios. Entretanto, as nanopartículas insolúveis não se desestruturam, ou seja, não se dissolvem nos meios biológicos, podendo se agregar e gerar danos ao local de destino (DUTRA, 2009). No que diz respeito à área cosmética existem promessas de crescimento e expansão, pois a proposta de permeação cutânea em grandes níveis é o que mais chama atenção (COSTA et al., 2004). Somada a este fator, a diversidade de aplicação dessa tecnologia aos produtos cosméticos se estende a partículas metálicas para aumento de brilho em maquiagens; nanoemulsões para cabelos mais hidratados; proteção de ativos contra a degradação (encapsulamento da vitamina C); liberação em camadas mais profundas da pele de ativos antirugas; melhoria da textura do creme e formação de um filme mais eficiente para protetores solares (SANTOS, 2008). Em relação a liberação e distribuição das substâncias, existem vantagens no uso da nanotecnologia aplicada aos cosméticos, pois protegem os ativos instáveis da degradação, por diminuir seu contato com o restante da formulação. Outro fator importante é a liberação gradual da substância ativa evitando também o tempo de contato com a pele o que diminui os riscos de possíveis irritações. É positivo também o aumento da quantidade e profundidade de penetração dos ativos na pele, o que, resulta em maior eficácia além da administração segura e possibilidade de direcionamento a alvos específicos SCHMALTZ; SANTOS; GUTERRES (2005, APUD: CUA et al., 1990; KUMAR, 2000; LBOUTONNE et al., 2002; JIMENEZ et al., 2004); (COSTA et al., 2004; SANTOS, 2008). De acordo com o Grupo ETC (2005) algumas atividades, pesquisas e 5 aplicações da área trazem discussões sobre os riscos e impactos da nanotecnologia. Existem nanocosméticos que já se encontram no mercado e podem estar sendo utilizados sem que o consumidor tenha algum conhecimento sobre as controvérsias científicas em relação a possíveis riscos. Eles são de certa forma, inovadores, por isso ainda geram uma incerteza quanto à possibilidade de efeitos indesejados, inesperados e até mesmo acidentes. Então, torna-se essencial a reflexão a frente da Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990 – Código de Defesa do Consumidor – pois essa traduz a vontade do legislador em oferecer ao consumidor vulnerável a sua proteção no uso de produtos que possam apresentar determinados riscos à saúde, destacando nesse caso o uso de produtos com novas tecnologias (DUTRA, 2009). Sabendo que a nanotecnologia aplicada aos cosméticos tem como benefício à melhora na permeação dos princípios ativos para ter sua propriedade efetivada (COSTA et al., 2004), torna-se conveniente descrever o processo de permeação cutânea dos produtos bem como a diferenciação de locais e tempo de ação dos produtos com ativos nanoencapsulados. 2.3 Permeação cutânea Permeação compreende o movimento de substâncias através da pele. Embora o estrato córneo proporcione uma barreira à penetração, a pele é considerada uma membrana semipermeável (MICHALUN; MICHALUN, 2010). As propriedades de barreira do estrato córneo são atribuídas à composição dos lipídios presentes, ao arranjo estrutural da matriz extracelular e ao envelope lipídico que envolve as células (MOSER et al., 2001). Já o caráter semipermeável deve-se a sua afinidade por certas substâncias, especialmente materiais lipossolúveis (PRISTA; BAHIA; VILAR, 1992). Assim, o desafio dos cosméticos é romper essa barreira através da atuação de princípios ativos e sistemas de carreação inovadores, promovendo maior absorção (HARRIS, 2003). Existem três vias potenciais para a penetração de moléculas na pele: através dos folículos pilosos associados às glândulas sebáceas; através das glândulas sudoríparas; ou através da epiderme (BARRY, 2001). Porém, a contribuição da via de penetração através dos apêndices é considerada pequena, pois estes ocupam apenas 0,1% da superfície total da pele (MOSER et al., 2001). Sendo assim, a via transepidérmica (através da epiderme) é considerada a 6 mais importante. A permeação cutânea por essa via envolve a difusão através do estrato córneo, das células viáveis da epiderme, das camadas superiores da derme até a microcirculação (MARTINS; VEIGA, 2002). Existem então duas possíveis rotas de penetração através da epiderme: a rota lipídica intercelular, que ocorre entre os corneócitos, e a rota transcelular que ocorre através dos corneócitos e lipídios (MOSER et al., 2001). A capacidade de permeação, assim como a toxicidade das nanocápsulas está relacionada a fatores como tamanho, formato, curvatura da superfície, composição das partículas, capacidade de dissolução, área de aplicação, condições da superfície aplicada, idade do indivíduo e também a quantidade e tamanho dos folículos pilosos (COSTA et al., 2004). 2.4 Riscos da Nanotecnologia Governos, indústrias e instituições científicas permitiram que produtos nanotecnológicos chegassem ao mercado sem que houvesse debate público e sem regulamentação. E estima-se que aproximadamente 475 produtos contendo partículas em nanoescala, inclusive não-regulamentada e não-mencionadas nos rótulos já estão comercialmente disponíveis – incluindo cosméticos (GRUPO ETC, 2005). Recentemente, Fronza (2007) realizou uma busca de informações de empresas, as quais são produtoras e/ou importadoras de produtos cosméticos associados à nanobiotecnologia. Os resultados mostram que, de aproximadamente 490 indústrias e importadoras de cosméticos de higiene pessoal e perfumes, somente 7,7% apresentam informações acerca da classificação do produto com base nanotecnológica (DUTRA, 2009). O Grupo ETC (2005) expõe que existem poucos estudos sobre a toxicologia de nanopartículas, mas parece que, como uma classe, são mais tóxicas do que os mesmos compostos em escala maior devido à sua mobilidade e aumento de reatividade. Isso levanta sérias preocupações quanto à saúde, porque as nanopartículas podem passar despercebidas pelos guardas do sistema imunológicos do corpo, através das membranas de proteção como a pele, a barreira do sangue e cérebro ou talvez da plaqueta (RICCI JUNIOR, [s. d.]). Uma das principais questões sobre os riscos nos nanocosméticos reside em seu tamanho nanométrico, e caracteristica das nanopartículas. Os riscos se voltam 7 com maior intensidade às nanopartículas insolúveis, considerando a possibilidade de provocarem interações indesejadas entre a sua estrutura e os sistemas biológicos (DUTRA, 2009). Com 70 nanômetros as partículas podem se incrustar profundamente no tecido pulmonar; e com 50 nanômetros introduzem-se dentro da célula sem ser notada. Partículas tão pequenas quanto 30 nm podem atravessar a barreira do sangue e cérebro (GRUPO ETC). Penetrando pela via transfolicular (folículo piloso), os produtos contendo nanopartículas podem ficar armazenados por até dez dias, sendo que os produtos tradicionais ficam armazenados por no máximo quatro dias (COSTA et al., 2004), o que pode ser menos seguro. Com relação ao uso de nanopartículas em protetores solares, Santos (2008) afirma que o óxido de zinco é bastante aplicado nas formulações de produtos para este fim e que protetores solares com nanocápsulas prometem menos oleosidade, maior fotoproteção e mais transparência no momento da aplicação. Mas a autora ainda comenta que as nanopartículas de dióxido de zinco em proteção solar, por exemplo, não devem penetrar até camadas mais profundas da pele, uma vez que poderiam ocasionar reações inclusive de danos ao DNA. Os pesquisadores citam vários desafios que deverão ser vencidos para que a nanotecnologia possa ser totalmente desenvolvida sem apresentar riscos para a população. E cinco desses são relevantes e maiores: métodos para avaliar a exposição ambiental aos nanomateriais; avaliação eficaz da toxicidade dos nanomateriais; modelos para prever o impacto potencial de nanomateriais sintetizados; formas de avaliar o impacto dos nanomateriais ao longo de seu ciclo de vida; programas estratégicos para permitir pesquisas sobre os riscos da nanotecnologia (SANTOS, 2008). Deve-se considerar algumas recomendações aconselhadas por Santos (2008) para a melhoria da aplicação dessa tecnologia, como: estudos de permeação utilizando modelos in vitro / in vivo, que garantam a segurança de uso dos nanocosméticos. Estudos de nanotoxicidade que assegurem a inocuidade destes materiais aos trabalhadores das indústrias de cosméticos, aos consumidores, e ao meio ambiente. Pacheco (2010) descreve a opinião do Ministério da Saúde que, por meio da Anvisa, se posicionou isento de responsabilidade perante a formulação de uma 8 política industrial para a área da saúde. O Ministério da Saúde diz que prefere trazer essa discussão para a sociedade por entender que sua natureza regulatória afasta ou inibe a inovação tecnológica, esclarecendo que, em conjunto com a sociedade podem formular uma solução, pois um marco regulatório é de responsabilidade de todos. 3 METODOLOGIA Este estudo consiste em uma pesquisa bibliográfica e documental do tipo descritiva, com abordagem qualitativa. Foi feita uma análise teórica embasada em livros, artigos, revistas especializadas e sites, visando buscar informações sobre a nanotecnologia aplicada a cosméticos. Oliveira (2002) diz que a pesquisa bibliográfica tem como finalidade o conhecimento das distintas formas de contribuição científica que se realizaram sobre determinado fenômeno ou assunto. Além disso, foram avaliados e descritos os rótulos de produtos contendo nanotecnologia. Uma pesquisa documental é formada por documentos provenientes de órgãos que realizaram as observações em questão, explora fontes documentais e utiliza materiais que ainda não receberam um tratamento analítico (MARCONI; LAKATOS, 2001). A pesquisa descritiva tem como objetivo descrever as características de determinada população ou fenômeno, ou então o estabelecimento de relações entre variáveis (GIL, 2002). A pesquisa qualitativa segundo Denzin e Lincoln (2006) permite entender o meio pesquisado e localiza o pesquisador a este meio, com práticas interpretativas, apoiadas a ferramentas que comprovam as afirmações feitas. Neste caso são os estudos já realizados, e os livros escritos por estudiosos da área. Foram avaliados os rótulos de 09 cosméticos com apelo de utilizarem a nanotecnologia disponíveis no Laboratório de Cosmetologia e Estética do campus de Balneário Camboriú da Universidade do Vale do Itajaí. Foram identificados os produtos cosméticos relacionando a composição descrita na rotulagem e os ativos nanotecnológicos, para correlacionar os benefícios da nanotecnologia aliada aos tratamentos estéticos. Os dados foram tabelados no programa Microsoft Office Word 2007 e distribuídos graficamente utilizando o programa Microsoft Office Excel 2007. 9 4 ANÁLISE DOS DADOS Produtos cosméticos contendo nanotecnologia são bons representantes da tendência tecnológica que continua crescendo na área da beleza. A nanotecnologia pode estar inserida nos cosméticos de diferentes formas: aplicada na preparação de suas bases, no caso das nanoemulsões; ou então seus princípios ativos podem estar nanoencapsulados. Além disso, pode estar presente nos mais variados tipos de produtos, como maquiagens até protetores solares (SANTOS, 2008). Foram avaliados 165 produtos cosméticos utilizados pelo Laboratório de Cosmetologia e Estética da Universidade do Vale do Itajaí - Campus de Balneário Camboriú, destes observou-se que apenas 9 ( 5,45%) apresentavam apelo de possuir nanotecnologia. Apesar da nanotecnologia ser uma tendência e um diferencial para o cosmético o resultado encontrado é contraditório isto pode estar relacionado aos altos custos para produção da nanotecnologia, além da falta de regulamentação específica podem ser os principais fatores para esta situação (GRUPO ETC, 2005). Ressalta-se que foram avaliados apenas os produtos com apelo nanotecnológico presente no rótulo, visto que é à maneira de mais fácil identificação para o consumidor, sendo assim possível que dentre os outros 94,55% haja algum cosmético com nanotecnologia que não apresente nenhum diferencial de apelo na rotulagem. Os cosméticos com apelo de nanotecnologia avaliados são utilizados nas diferentes áreas do laboratório como observado no gráfico 1. 10 Gráfico 1- Finalidade dos produtos contendo nanotecnologia Fonte: Dados da pesquisa Constata-se que dos 9 produtos, 4 são destinados a área capilar, outros 4 destinados a área da estética facial e apenas 1 para a área corporal (gráfico 1) apesar de normalmente ser esta a área onde existe a real necessidade de alta penetração dos cosméticos, pois seus ativos muitas vezes devem atingir a hipoderme. Outra questão relacionada a esta análise é o fato de 44,44% produtos serem de uso capilar (gráfico 1), sendo todos de uma mesma linha que contém um nanocomplexo de aminoácidos. Princípios ativos presentes nos cosméticos destinados aos cabelos precisam muitas vezes para serem eficientes ultrapassar as cutículas e atingir o córtex para agir na “massa” capilar, reestruturando os fios. Levando em conta que os cabelos não são vascularizados, ativos nanoencapsulados em produtos capilares representam um menor risco, pois estes não atingem a corrente sanguínea (WICHROWSKI, 2007). Porém um dos produtos da linha capilar é um shampoo o qual tem como finalidade limpar e remover sujidades da superfície dos cabelos e couro cabeludo. Considerando o fato colocado por Barry (2001) de uma das vias de penetração de cosmético ser através dos folículos pilosos, um shampoo contendo nanotecnologia não seria tão adequado por não ter a necessidade de permear, podendo assim tornar-se menos seguro que os outros produtos destinados aos cabelos. Na área facial foram identificados 4 produtos com proposta nanotecnológica e dentre estes, 2 possuíam o mesmo principio ativo e pertenciam à mesma linha de 11 tratamento. Devido à exposição contínua a agentes externos como radiação ultravioleta e poluentes, é nos cuidados com a face que se esperam maiores resultados. Seus ativos devem agir em camadas mais profundas da pele para reverter mudanças inerentes ao envelhecimento assim como outras alterações (BARBA, RIBEIRO, 2009). Além da identificação do apelo da nanotecnologia analisou-se a composição dos cosméticos para relacionar o benefício de utilizar esta tecnologia. Através do gráfico 2 observa-se que foram encontrados 5 princípios ativos diferentes. Apesar de ser pequena a variedade, torna-se relevante correlacionar estes ativos que se encontram encapsulados e suas respectivas funções. Gráfico 2 - Diferentes princípios ativos nanoencapsulados presentes nos produtos Fonte: Dados da pesquisa Na área corporal o ativo identificado foi o Algisium C, substância sintética à base silícios orgânicos que possui principalmente ação lipolítica, anti-inflamatória e bioestimulante da regeneração epidérmica. O uso da nanotecnologia nesse produto pode agregar maior eficácia especialmente nos tratamentos para lipodistrofia ginóide, pois facilita a permeação dos ativos até os adipócitos, onde devem atuar (GOMES, DAMAZIO, 2009). Os produtos da área capilar contêm um complexo de ativos nanoencapsulados com base protéica. Proteínas do arroz, da soja, do trigo e do milho estão presentes na sua forma hidrolisada - aminoácidos. Essa estrutura é bastante pequena e apresenta facilidade de internalizar-se na área aplicada. 12 Quando utilizados nos cabelos, os aminoácidos têm a função de reestruturar o córtex, área que mais é afetada com os danos sofridos pelo fio (WICHROWSKI, 2007). Pelo fato dos aminoácidos serem naturalmente capazes de penetrar mais profundamente na fibra capilar, colocá-los em partículas nanométricas talvez não fosse necessário. Entretanto em cabelos submetidos a procedimentos que contenham formol ou outras substâncias capazes de formar um filme na parte externa dos fios, o baixo peso molecular de aminoácidos nanoencapsulados pode ser vantajoso, visto que estes cabelos requerem um tratamento específico e diferenciado. Os ativos presentes nos produtos de estética facial foram o ácido kójico, silícios orgânicos e aminoácidos, e hidroxiprolisilane C. Hidroxiprolisilane C é composto pela associação de silanol, um tipo de silício, com hidroxiprolina, um aminoácido precursor do colágeno. A finalidade desses ativos seria regenerar a epiderme ao invés de epiderme e induzir a síntese do colágeno respectivamente. Trazendo benefícios como melhora do aspecto da pele e sustentação do tecido cutâneo, fatores essenciais no tratamento do envelhecimento. Devido ao fato do colágeno estar presente na derme, justifica-se o uso de nanopartículas nestes produtos para potencializar os resultados dos tratamentos uma vez que precisa agir mais internamente (PRISTA; BAHIA; VILAR, 1992). Outro ativo encontrado é o ácido kójico que com ação despigmentante auxilia na redução de hipercromias. Esse tipo de discromia está relacionada com o aumento da melanogênese. Devido à melanina ser produzida pelos melanócitos - células epidérmicas localizadas na membrana basal - ativos com função despigmentante devem penetrar até esta camada. Estando veiculado em nanopartículas, o ácido kójico alcançará a última porção da epiderme com menor dificuldade (WICHROWSKI, 2007). Tanto os silícios orgânicos como os aminoácidos são moléculas pequenas e não se pode afirmar que haja necessidade de seu uso em nanopartículas. Contudo, Costa et al. (2004) diz que quando nanoencapsulado, o princípio ativo permanece na região dos apêndices cutâneos por mais tempo que os ativos na forma tradicional podendo ser este o motivo para o uso dessa tecnologia. Em se tratando da face, os silícios orgânicos podem agir no combate à acne atuando diretamente nas glândulas sebáceas diminuindo a produção de oleosidade. 13 Em relação à rotulagem, não foram observadas diferenças consideráveis em comparação aos cosméticos sem nanotecnologia. Alguns dos produtos continham a informação necessária para identificação dos ativos nanoencapsulados em sua descrição química - como no caso dos produtos capilares, e 2 dos produtos faciais. No entanto, os outros produtos continham apenas o apelo de nanotecnologia na parte frontal do rótulo, sem diferencial algum na descrição de seus componentes – os 2 produtos faciais e o corporal. Apesar dos benefícios da nanotecnologia é importante que o profissional da estética consiga distinguir os produtos contendo nanotecnologia, pois estes possuem partículas em escala nanométrica que podem passar despercebidas pelo sistema imunológico (GRUPO ETC, 2005). Dutra (2009) comenta que o uso contínuo dessas partículas pode gerar riscos ao penetrar e transpor a corrente sanguínea, pois seus efeitos não são totalmente elucidados. Os produtos dessa categoria estão disponíveis livremente no mercado mesmo sem regulamentação própria e seu consumo ocorre de forma crescente. Porém deixa o consumidor sem a devida informação sobre sua segurança, benefícios e possíveis riscos (DUTRA, 2009). Apesar de representar uma promessa de crescimento com a constante preocupação em potencializar resultados, esta pode não ser a característica mais evidente nos produtos dessa categoria, pois os consumidores não possuem de forma clara a informação da utilização da nanotecnologia, ficando a critério do fabricante a responsabilidade no que diz respeito a propaganda e rotulagem do produto. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Após análise da rotulagem dos produtos, poucos foram identificados com aplicação de nanotecnologia, pois comparando o número total de produtos ao número de produtos contendo nanotecnologia, este é considerado pequeno. Dutra (2009) afirma que estes produtos se encontram disponíveis no mercado e com proposta de crescimento. Isso permite concluir que alguns fatores possam ser responsáveis por tal panorama, dentre eles destaca-se os altos custos para produção, falta de uma legislação própria e regulamentação adequada. Outra conclusão permitida por esta analise é que dos 9 produtos contendo a 14 proposta de nanotecnologia no rótulo, 3 produtos não possuíam nenhuma identificação de nanotecnologia na descrição da composição química. Essa característica deixa em aberto dúvidas a respeito da real aplicação de nanotecnologia a esses produtos e também não permite saber qual o princípio ativo encontra-se nanoencapsulado. Considerando que os produtos analisados são de uso profissional, o conhecimento necessário a respeito da ação de princípios ativos é essencial para análise da real necessidade dessa tecnologia. Profissionais Tecnólogos em Cosmetologia e Estética são capacitados para diferenciar propriedades de princípios ativos, porém em se tratando de produtos com ativos nanoencapsulados, é necessário além do conhecimento, contar com a idoneidade das empresas fabricantes destes produtos para a garantia dos resultados propostos. REFERÊNCIAS ABDELWAHED, W.; DEGOBERT, G.; FESSI, H. 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Acesso em: 01 junho 2011. 1 APÊNDICE A – Produtos cosméticos contendo nanotecnologia disponíveis no laboratório de cosmetologia da Universidade do Vale do Itajaí, no campus de Balneário Camboriú Nome do Produto e Finalidade Marca Apelo de Rótulo Composição Função do Ativo Shampoo (Capilar) Máscara Restauradora (Capilar) Defrizante Efeito Cacheado (Capilar) 1 1 1 Nanocomplex Amora Negra Nanocomplex Amora Negra Nanocomplex Amora Negra Aqua(water), Sódium Laureth Sulfate, Cocamide DEA, Lauryl Glucoside, Oleamide DEA, Polysorbate 80, Nanocomplex (PEG- 40/ PPG-8 Methylaminopropyl/ Hydropopyl Dimethicone Copolymer/ Hydrolyzed Rice Protein/ Hydrolyzed Soy Protein/ Hydrolized Wheat Protein/ Hydrolized Com Protein/ Polyquaternium-7/ Polyquaternium-10/ Polyquaternium-22), Parfum (Fragrance), Butylphenyl Methylpropional, Hexyl Cinnamal Limonene, Linalool, Polyquaternium-39, Laureth-2, Moris Nigra Fruit Extract, Panthenol, PEG-150 Distearate, Hydroxypropyl Guar Hydroxypropyltrimonium Chloride, Acrylates/ C 10-30 Alkyl Acrylate Crosspolymer, Polyquaternium- 67, Citric Acid, Cocoamidopropyl Betaíne, Methylchloroisothiazolinone, Methylisothiazolinone, Disodium EDTA, Sodium Hydroxide, PEG 180M Aqua (Water), Cetearyl Alcohol, Cetrimonium Chloride, Cetyl Alcohol, Dimethicone, Helianthus Annus (Sunflower) Seed Oil, Cyclomethicone/ Dimethiconol, Nanocomplex (PEG-40/ PPG-8 Methylaminopropyl/ Hydropropyl Dimethicone Copolymer/ Hydrolyzed Rice Protein/ Hydrolyzed Soy Protein/ Hydrolyzed Wheat Protein/ Hydrolyzed Com Protein/ Polyquaternium-7/ Polyquaternium-10/ polyquaternium-22), Behenamidopropyl Dimethylamine, Ceteareth-20, Distearyldimonium Chloride, Dimethicone/ Laureth-23, Diisopropyl Adipate, Parfum (Fragrance), Butylphenyl Methylpropional, Hexyl Cinnamal, Limonene, Linalool, Morus Nigra Fruit Extract, Citric Acid, Methylchloroisotiazolinone/ Methylisothiazolinone, Disodium EDTA, BHT Aqua (Water), Cetearyl Alcohol, Behentrimonium Methosulfate, Dimethicone/ Laureth– 4/ Laureth-23, Helianthus Annus (Sunflower) Seed Oil, Cyclomethicone/ Dimethiconol, PEG–75 Lanolin, Ethylhexyl Palmitate, Glycerin, Cetrimonium Chloride, Nanocomplex (PEG-40/ PPG-8 Methylaminopropyl/ Hydropropyl Dimethicone Copolymer/ Hydrolyzed Rice Protein/ Hydrolyzed Soy Protein/ Hydrolyzed Wheat Protein/ Hydrolyzed Com Protein/ Polyquaternium-7/ Polyquaternium-10/ polyquaternium-22), Ceteareth-20, Ethylhexyl Methoxycinnamate, Parfum (Fragrance), Benzyl Salicylate, Butylphenyl Methylpropional, Citronellol, Coumarin, Hexyl Cinnamal, Limonene, Linalool, Morus Nigra Fruit Extract, Panthenol, Methylchloroisotiazolinone/ Methylisothiazolinone, Disodium EDTA, Citric Acid Reestruturador da fibra, hidratante Reestruturador da fibra, hidratante Reestruturador da fibra, hidratante 2 Restaurador Autoaquecimento (Capilar) Serun Acne (Facial) Serun Vitalizante (Facial) Loção Eletrolítica Clareadora (Facial) Gel Creme Clareador (Facial) 1 2 2 3 3 Nanocomplex Nanocápsulas de Silícios Orgânicos e Aminoácidos Nanocápsulas de Hidroxiprolisilane C Nano ácido kójico Nano ácido kójico PEG-6, Propylene Glycol, Cetearyl Alcohol, Dimethicone, Cetrimonium Chloride, Ceteareth-20, Cetyl Alcohol, Behentrimonium Methosulfate, Polysorbate 20, Ethylhexyl Palmitate, Nanocomplex (PEG-40/ PPG-8 Methylaminopropyl/ Hydropropyl Dimethicone Copolymer/ Hydrolyzed Rice Protein/ Hydrolyzed Soy Protein/ Hydrolyzed Wheat Protein/ Hydrolyzed Com Protein/ Polyquaternium-7/ Polyquaternium-10/ polyquaternium-22), PEG-75 Lanolin, Diisopropyl Adipate, PEG-150 Distearate, Parfum (Fragrance), Butylphenyl Methylpropional, Hexyl Cinnamal, Limonene, Linalool, Citric Acid, Morus Nigra Fruit Extract Aqua, Salicilyc Acid, Zinc Acethylmethionate, Silanediol Salicylate, Aloe Barbadensis Leaf Extract, Cucumis sativus (Cucumber) Fruit Extrac, Citrus Medica Limonum (Lemon) Fruit Extract, Hydrolyzed Elastin, Hydrolyzed Collagen (Acne Biol), Glycerin, Potassium Azeloil Diglycinate, Metylsilanol Hydroxyproline Aspartate (and) Styrene/Acrylates Copolymer (Nanocápsulas de Silícios Orgânicos e Aminoácidos), Hibiscus Sabdariffa Extract (Hibiscus Vermelho), Hyaluronic Acid, Phenoxyethanol, Methylisothiasolinone, Sodium Chloride, Hydroxyethilcellulose, Parfum, Dissodium EDTA Aqua, Lipossomes, PMLs containing VC-PMG/Adenin and Alpha-Lipoic Acid (Kinetin L), Sorbitol, Methylsilanol Hydroxyproline Aspartate (Nanocápsulas de Hidroxiprolisilane C), Sodium PCA, Hyaluronic Acid, Sodium Chloride, Prolinamidoethylimidazole/Butyleneglicol (and) Aqua (EXSY ARL), Phenoxyethanol, Carbomer, Xanthan Gum, Triethanolamine, Parfum, Methylisothiazolinone Hydroxyethilcellulose, Dissodium EDTA, DMDM Hydantoin, Iodopropynyl Butyl Carbamate, Mandelic Acid, Allantoin, Ascophillum Nodosum Extract, Butylparaben, Propyleneglycol, Sodium Chloride Sodium Hydroxide, Sodium Metabissulfite, Glycerin, Xanthan Gum, Kojic Acid, Dissodium EDTA, Phenoxyethanol, Methylparaben, Ethylparaben, Isobutylparaben, Panthenol, Parfum, Aqua Mandelic Acid, Ascophillum Nodosum Extract, Kojic Acid, Glycerin, Lecitin, Sorbitol, Xanthan Gum, Dissodium EDTA, Phenoxyethanol, Methylparaben, Isobutylparaben, Benzophenone-4, Dissodium Hydroxide, Glycery Stearate, Cetearyl Alcohol, Stearic Acid, Sodium Cocoyl Glutamate, Sodium Acrylates Copolymer, Hydrogenated Polysobytene, phospholipids, Polyglyceryl-10 Stearat, Helianthus Annus Seed Oil, Reestruturador da fibra, hidratante Regulador da oleosidade Regenerador da epiderme, bioestimulante Despigmentante Despigmentante 3 Nano Creme de Massagem (Corporal) 3 Nano Algisium C Alcohol, Citrus Medica Limonum Peel Extract, Sodium Metabissulfite, Parfum, Aqua Carbomer, Isopropyl Palmitate, Dimeticone Disodium, EDTA, Cetearerh-20, BHT, Methylsilanol Mannuronate, Methylparaben, Propylparaben, Prunnus Amygdalus Dulcis Oil, Propylene Glycol, Rosamarinus Officinalis Oil, Cupressus Sempervirens Oil, Juniperus Communis Oil, Citrus Aurantium Amara Oil, Triethanolamine, Mineral Oil, Ruta Graveolens, Ginkgo Biloba Extract, Aesculus Hipocastanum Extract, Glyceryl Stearate, Cetearyl Alcohol, Stearic Acid, Sodium Cocoyl Glutamate, Aqua Lipolítico, anti- inflamatório, bioestimulante Fonte: Dados retirados do laboratório de cosmetologia da Universidade do Vale do Itajaí, no campus de Balneário Camboriú, em abril de 2011. 1 Nanotecnologia nos cosméticos.pdf 45 Visão Acadêmica, Curitiba, v.13, n.1, Jan. - Mar./2012 - ISSN 1518-5192 NANOTECNOLOGIA APLICADA AOS COSMÉTICOS NANOTECHNOLOGY APPLIED TO COSMETICS 1 1 2 3BARIL, M. B ; FRANCO, G. F ; VIANA, R. S ; *ZANIN, S. M. W . 1Alunas do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade Federal do Paraná 2Farmacêutica. Universidade Federal do Paraná 3Professora Associada da Disciplina de Farmacotécnica da Universidade Federal do Paraná *Autor para correspondência UFPR – Departamento de Farmácia – Laboratório de Farmacotécnica Email: sandrazanin@ufpr.br RESUMO: A nanotecnologia está relacionada às estruturas, propriedades e processos envolvendo materiais com dimensões em escala nanométrica. Essas partículas são extensivamente investigadas por promoverem muitas vantagens em relação às formulações tradicionais. A nanotecnologia aplicada à cosmética refere-se à utilização de pequenas partículas contendo princípios ativos que são capazes de penetrar nas camadas mais profundas da pele, potencializando os efeitos do produto. Atualmente existem técnicas distintas para produção e avaliação das nanopartículas, bem como uma grande variedade de polímeros e biopolímeros que são utilizados como matéria- prima para o seu desenvolvimento. Embora o mercado seja promissor, ainda é ampla a discussão acerca desta tecnologia uma vez que se encontra em estágio inicial do seu desenvolvimento. Palavras-chave: cosméticos, pele, nanotecnologia ABSTRACT: Nanotechnology is related to the structures, properties and processes involving materials with nanoscale dimensions. These particles are extensively investigated for promoting many advantages over traditional formulations. Nanotechnology applied to cosmetics refers to the use of small particles containing active ingredients that are able to penetrate into the deeper layers of the skin, increasing the effects of the product. Currently there are different techniques for the production and evaluation of nanoparticles, as well as a wide variety of polymers and biopolymers which are used as raw material for its development. Although the market is promising, is still wide discussion about this technology because it is in the initial stage of its development. Keywords: cosmetics, skin, nanotechnology 1. INTRODUÇÃO O mercado global vem passando por períodos de grandes competições 46 Visão Acadêmica, Curitiba, v.13, n.1, Jan. - Mar./2012 - ISSN 1518-5192 cientícas e tecnológicas, principalmente após a nanociência e a nanotecnologia terem sido reconhecidas como uma tendência chave na ciência e tecnologia do século XXI, o que tem ocasionado um aumento nos recursos humanos e nanceiros na indústria mundial. A National Science Fundation estima que a nanotecnologia alcançará um impacto na economia global de cerca de 1 trilhão de dólares até 2015, requerendo aproximadamente dois milhões de trabalhadores (RAMOS et al, 2008; NNA, 2005). O maior nível de desenvolvimento em nanotecnologia é vericado nos Estados Unidos, União Européia e Japão, que investem cerca de um bilhão de dólares ao ano, concentrando juntos cerca da metade dos investimentos no mundo. No entanto, países como a Rússia, China, Índia e Brasil têm realizado investimentos signicativos no setor nos últimos anos, sendo que o governo brasileiro já investiu R$ 140 milhões entre 2001 e 2006 em redes de pesquisa e projetos na área de nanotecnologia (MINISTÉRIO DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA, 2006; RAMOS et al, 2008). A nanotecnologia fundamenta-se na habilidade de caracterizar, manipular e organizar materiais em escala nanométrica. Trata-se de um campo cientíco multidisciplinar que se aplica a praticamente todos os setores da pesquisa, da engenharia de materiais e processos e de mercado (LEE, 2004; DURÁN et al, 2006). O princípio dessa nova ciência é que os materiais nesta escala nanométrica podem apresentar propriedades químicas, físico-químicas e comportamentais diferentes daquelas apresentadas em escalas maiores (WORLD NANOTECHNOLOGY MARKET, 2005). A produção de nanocosméticos, especicamente falando, está mundialmente inserida na indústria de cosméticos convencionais, constituindo-se em uma linha de produtos diferenciados de base nanotecnológica, sendo geralmente classicado como um setor especíco da indústria química juntamente com os produtos de higiene pessoal e perfumaria (FRONZA et al, 2007). 2. MATERIAL E MÉTODOS A m de evidenciar o panorama da nanotecnologia no Brasil e no mundo, bem como vericar as suas principais aplicações no setor de cosméticos e as vantagens que é capaz de oferecer aos produtos que utilizam essa tecnologia, realizou-se um levantamento bibliográco acerca do tema em pesquisa a diversas fontes nacionais e internacionais, tais como teses, dissertações, banco de dados, artigos cientícos, livros, periódicos, entre outros. 3. LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO Dentre as diversas denições para nanotecnologia possíveis de serem 47 Visão Acadêmica, Curitiba, v.13, n.1, Jan. - Mar./2012 - ISSN 1518-5192 encontradas, destaca-se, no âmbito do presente trabalho, aquela utilizada pele Rede de Nanocosméticos, denida pela National Science Foundation como sendo, (...) o desenvolvimento de pesquisa e tecnologia nos níveis atômico, molecular ou macromolecular na faixa de dimensões entre 1 e 100 nanômetros para fornecer um entendimento fundamental dos fenômenos e materiais na nanoescala e criar e usar estruturas, dispositivos e sistemas que tenham novas propriedades e funções devido ao seu tamanho pequeno ou intermediário. As propriedades e funções novas e diferenciadas são desenvolvidas em uma escala crítica de dimensão da matéria tipicamente abaixo de 100 nm (...) (FRONZA, 2007). Na escala nanométrica, as propriedades dos materiais podem mudar de forma drástica, denominando-se “efeitos quânticos” a essas mudanças. Os átomos passam a revelar características peculiares, podendo apresentar condutividade elétrica, elasticidade, maior reatividade química, maior resistência, cores diferentes, entre outras características, apenas reduzindo o tamanho, sem mudar a substância (GRUPO ETC, 2005). Tendo como foco o setor cosmético, a empresa pioneira a introduzir um cosmético de base nanotecnológica, no âmbito internacional, foi a Lancôme, divisão de luxo da L`Oréal, em 1995, com o lançamento de um creme para o rosto constituído por nanocápsulas de vitamina E pura, para combater o envelhecimento da pele. Diversas outras empresas internacionais renomadas também passaram a investir em pesquisa para desenvolver produtos nesta linha (FAPESP, 2008, NEVES, 2008). Empresas como Christian Dior, Anna Pegova, Procter & Gamble, Revlon, Dermazone Solution, Chanel, Skinceuticals, Estee Lauder, Shiseido, Garnier, Johnsons e Johnsons exemplicam grandes empreendedoras do setor que vieram a lançar produtos baseados em nanotecnologia. No Brasil, a primeira empresa a desenvolver e colocar no mercado um nanocosmético foi O Boticário, com um creme anti-sinais para a área dos olhos, testa e contorno dos lábios, chamado Nanoserum. A composição nanoestruturada leva ativos como vitamina A, C e K e um produto para clareamento. A tecnologia, desenvolvida em parceria com o laboratório francês Comucel, teve investimentos de R$ 14 milhões e faz parte da linha Active, que começou a ser vendida em 2005. Em 2007, lançou o VitActive Nanopeeling Renovador Microdermoabrasão, cosmético anti-sinais com nanotecnologia aplicada. Outros itens incluem o Liftserum Anti-Sinais e o Sistema Avançado Anti-Sinais 65+. A Natura, por sua vez, lançou em 2007 um produto para hidratação corporal, chamado Brumas de Leite, com partículas da ordem de 150 nanômetros. No mesmo ano também colocou no mercado o Spray Corporal Refrescante para o público masculino (FAPESP, 2008, NEVES, 2008). A nanotecnologia voltada para a cosmética tem como foco, sobretudo, os produtos destinados à aplicação na pele do rosto e do corpo, com ação 48 Visão Acadêmica, Curitiba, v.13, n.1, Jan. - Mar./2012 - ISSN 1518-5192 antienvelhecimento e de fotoproteção, capazes de penetrar nas camadas mais profundas da pele, potencializando os efeitos do produto (NEVES, 2008). De acordo com Fronza et al (2007) a seguinte denição pode ser aplicada para um nanocosmético: “uma formulação cosmética que veicula ativos ou outros ingredientes nanoestruturados e que apresenta propriedades superiores quanto a sua performance em comparação com produtos convencionais”. No setor cosmético, nanomateriais, como as nanopartículas, estão presentes em xampus, condicionadores, pastas de dentes, cremes anti-rugas, cremes anti- celulites, clareador de pele, hidratantes, pós-faciais, loções pós-barba, desodorantes, sabonetes, foto protetores, maquiagens de modo geral, perfumes e esmaltes (FRONZA et al, 2007). As nanoemulsões, por sua vez, constituem uma classe de emulsões com gotículas uniformes e de dimensões muito diminutas, na faixa entre 20 e 500 nm, que estão se tornando cada vez mais populares como veículos para a liberação controlada e dispersão otimizada de ingredientes ativos (CAPEK, 2004). Em se tratando de produtos cosméticos, entretanto, é necessária uma escolha cuidadosa do tipo de carreador a ser utilizado para uma determinada substância ativa, tendo em vista o objetivo a que seu uso se propõe. Produtos que se destinam a permanecer na pele, sem que ocorra sua absorção, como é o caso dos ltros solares, por exemplo, devem ser formulados para atenderem a esse m. Dessa forma, a melhor forma de aumentar o desempenho de um ativo em uma formulação cosmética é o desenvolvimento de sistemas de liberação apropriados (MORGANTI et al, 2001). Alvarez-Román e colaboradores (2004) investigaram a penetração cutânea passiva e a permeação de produtos altamente lipofílicos, como o protetor solar octilmetoxicinamato (OMC) e o corante uorescente Nile red (NR), encapsulados em nanopartículas biodegradáveis de poli(£)caprolactona, comparativamente aos mesmos produtos não encapsulados. Os autores observaram que o encapsulamento nanoparticulado produziu um aumento de 3,4 vezes no nível de OMC dentro do estrato córneo, embora o uso de nanopartículas não tenha propiciado aumento na permeação do mesmo na pele, mas sim um aumento na sua disponibilidade no estrato córneo. Em nanopartículas contendo NR, a uorescência foi perceptível a profundidades maiores (acima de 60 µm) dentro da pele, comparativamente quando dissolvido em propilenoglicol, e que a alteração de distribuição foi devida, ao menos em parte, a atividade termodinâmica alterada que resultou em um aumento de seu coeciente de partição no estrato córneo. Na gura 1 estão evidenciadas as camadas da pele com suas respectivas dimensões, com base em trabalho de Chien (1992), permitindo a visualização dos diferentes graus de penetração de produtos nanoparticulados na pele. 49 Visão Acadêmica, Curitiba, v.13, n.1, Jan. - Mar./2012 - ISSN 1518-5192 Figura 1 – Camadas da Epiderme FONTE: Autores (2011) Por outro lado, quando se pretende um maior grau de penetração podem ser utilizados certos ativos para atender a esta nalidade; é neste âmbito que também se aplicam as nanopartículas. Os primeiros produtos que prometiam combater as rugas, tomando-os como exemplo, eram limitados a esfoliar a área mais supercial da epiderme, a camada córnea. Na década de 70, surgiram cremes cujas formulações continham substâncias que conseguiam penetrar na pele, porém apenas na camada córnea. Já nos anos 80, surgiram os alfa-hidroxiácidos, com capacidade de penetração um pouco maior. Em 1990, surgiram os lipossomas, minúsculas partículas compostas de gordura e água, que chegavam ainda mais fundo na pele, mas não na camada basal (NEVES, 2008). Pesquisas realizadas pela Faculdade de Engenharia Química da Unicamp demonstram que atualmente vêm sendo dada uma maior ênfase a dermocosméticos com ação diferenciada, como é o caso dos nanocosméticos, em que se espera, por exemplo, uma ação mais ecaz em rugas e preenchimentos, pela penetração mais profunda das partículas na pele, sem o risco de alcançar a corrente sanguínea. Isto porque, quando as moléculas dos princípios ativos dos cremes possuem tamanhos maiores elas cam apenas na superfície da pele, protegendo-a da perda de água, tendo efeito puramente cosmético (FAPESP, 2008). Alvarez-Román e colaboradores (2004), em outro trabalho, utilizando nanopartículas de poliestireno não biodegradáveis e uorescentes, com diâmetros de 20 e 200 nm, observaram que as nanopartículas se acumularam preferencialmente nas aberturas foliculares e que a sua distribuição aumentou de maneira tempo- dependente. Vericou-se também que a localização folicular foi favorecida pelas partículas de tamanho menor e que, independentemente desta localização, na região interfolicular também apareciam nanopartículas em imagens de superfície. Contudo, em imagens de secção transversal, observou-se que a estrutura da pele entre os folículos não oferece uma via de penetração alternativa para os vetores poliméricos, 50 Visão Acadêmica, Curitiba, v.13, n.1, Jan. - Mar./2012 - ISSN 1518-5192 cujo transporte foi claramente impedido pelo estrato córneo. As vantagens do uso da nanobiotecnologia na produção de nanocosméticos e formulações dermatológicas advêm da proteção dos ingredientes quanto à degradação química ou enzimática, do controle de sua liberação, principalmente no caso de irritantes em altas doses, e do prolongamento do tempo de residência dos ativos cosméticos ou fármacos na camada córnea (FRONZA et al, 2007). Segundo Sonia Tuccori, doutoura em Química que trabalha com a área de nanotecnologia na empresa Natura, “Os produtos cosméticos nano têm três apelos irresistíveis: melhor absorção, ação prolongada e um toque mais leve” (RANGEL, 2008). Além disso, novas nuances são fortes tendências, como explica a pesquisadora Silvia Guterres, da Rede de Nanocosméticos, que acredita que “serão obtidas tonalidades de cores nunca vistas antes, com muito mais nuances” (FAPESP, 2008). Além destas características, Wissing e Müller (2003) também destacam que as nanopartículas são vantajosas para aplicações cosméticas por atuarem como agentes oclusivos e também pelo potencial bloqueador das radiações ultra-violeta, atuando como ltros físicos, podendo estar combinados a ltros químicos com o propósito de melhorar a fotoproteção. A principal aplicação de nanopartículas poliméricas está justamente focada no desenvolvimento de novas formulações contendo ltro solares, uma vez que estas nanopartículas são capazes de carrear substâncias altamente lipofílicas e por sua capacidade em alterar e/ou mascarar as propriedades físico-químicas de fármacos ou ativos cosméticos encapsulados (OLVERA-MATÍNEZ et al, 2005; GUTERRES et al, 2007). Nos protetores solares, as gotículas são pigmentos de um branco brilhante que reetem luz de todos os comprimentos de onda. Porém, nanopartículas de TiO não 2 reetem a luz visível por serem transparentes, porém ainda bloqueiem a luz UV. Assim, partículas de TiO em nanoescala proporcionam excelente proteção UV nas aplicações 2 de ltro solar. Portanto, na forma de nanopartículas, além da maior eciência, não há o aspecto esbranquiçado típico provocado pela luz espalhada após a aplicação do protetor (NEVES, 2008; TOMA, 2004). Nas nanoemulsões, por sua vez, as minúsculas dimensões das gotículas reduzem muito a força da gravidade, evitando que haja a criação de sedimentos durante o armazenamento do produto. O pequeno tamanho das gotículas também evita a oculação. Evitando a oculação, o sistema mantém-se disperso, sem separação. As gotículas também evitam a coalescência por não serem deformáveis e não apresentarem alterações da superfície (NEVES, 2008). Outras vantagens das nanoemulsões podem ser observadas no Quadro 1. 51 Visão Acadêmica, Curitiba, v.13, n.1, Jan. - Mar./2012 - ISSN 1518-5192 QUADRO 1 - Vantagem das nanoemulsões frente às emulsões tradicionais FONTE: Adaptado de NEVES (2008). Em matéria publicada na revista Cosmetics & Toiletries (2007), Valcinir Bedin (médico dermatologista) armou que trabalhos realizados com alguns centros de pesquisa e desenvolvimento na área capilar revelaram que produtos usados para a coloração e para a modicação química da forma dos cabelos (alisamento ou permanentes) poderiam contar com a nanotecnologia. Na coloração dos cabelos há necessidade de abrir demasiadamente as cutículas dos os a m de promover a oxidação da melanina. Com a aplicação posterior do novo pigmento ocorre um dano ainda maior, deixando os os mais ressecados devido à perda de água. Portanto, se a cutícula não for fechada adequadamente pode ocorrer quebra dos os devido à fragilização da haste. Como a nanotecnologia se utiliza de moléculas muito pequenas, estes danos podem ser evitados, pois é capaz de promover a permeação da tintura sem abrir as cutículas. Em estudo realizado pela Universidade Estadual de Campinas e a Chemyunion, foram empregadas nanopartículas de sericina no tratamento cosmético de cabelos, culminando com o lançamento do produto Seriseal. A sericina é uma das proteínas constituintes do bicho-da-seda, e possui a capacidade de ligar-se à queratina da pele e cabelos, formando um lme resistente, hidratante e protetor, proporcionando a selagem das cutículas dos os danicadas (MARCELINO et al, 2008; FAPESP, 2008). Penetração na pele Devido a suas dimensões reduzidas, as nanoemulsões podem penetrar na superfície da pele, melhorando a penetração de ingredientes ativos. Estética A característica transparência do sistema, sua uidez (em concentrações razoáveis de óleo), bem como a ausência de espessante conferem às nanoemulsões ótimo aspecto estético e agradável sensorial à pele. Uso de menos tensoativo Ao contrário das microemulsões, que exigem alta concentração de tensoativos, normalmente na faixa de 20% ou mais, as nanoemulsões podem ser preparadas usando concentração mais baixa. Para uma nanoemulsão óleo-em-água a 20%, pode ser suciente a concentração de tensoativo da ordem de 5 a Liberação de fragrância As nanoemulsões podem ser usadas para liberar fragrâncias incorporadas aos produtos cosméticos. Além disso, matérias- primas de fragrâncias, como ésteres, aldeídos e cetonas, que não contêm álcool, podem ser usadas nas formulações de nanoemulsões. Substituição de lipossomas As nanoemulsões podem ser aplicadas como substitutas de lipossomas e vesículas, sendo possível, em certos casos, formar fases cristalinas lamelares de líquido ao redor das gotículas da nanoemulsão. 52 Visão Acadêmica, Curitiba, v.13, n.1, Jan. - Mar./2012 - ISSN 1518-5192 4. CONCLUSÃO A nanotecnologia é um fenômeno recente e vêm sendo mais extensivamente estudada e regulamentada principalmente nas duas últimas décadas. Esta tecnologia está promovendo uma revolução cientíca e tecnológica de proporções ainda não totalmente conhecidas. O setor cosmético vem fazendo uso desta tecnologia devido às diversas vantagens da sua aplicação, principalmente no que concerne a uma maior capacidade de penetração dos ativos nas camadas da pele. Porém, apenas em um futuro próximo, com um maior e mais efetivo desenvolvimento desta tecnologia, é que se poderá ver com mais clareza seus reais benefícios e a segurança dos produtos oferecidos com este apelo. Os possíveis riscos na aplicação de nanopartículas incluem uma possível toxicidade e uma possível ausência de biocompatibilidade dos materiais utilizados. Não menos importante é considerar os impactos ambientais que também pode vir a ocasionar, caso este aspecto não seja alvo de estudos. 5. REFERÊNCIAS ALVAREZ-ROMÁN, R.; NAIK, A.; KAILA, Y. N.; GUY, R. H.; FESSI, H. Enhancement of Topical Delivery from Biodegradable Nanoparticles. Pharmaceutical Research, v. 21, n. 10, p. 1818-1825, 2004. ALVAREZ-ROMÁN, R.; NAIK, A.; KAILA, Y. N.; GUY, R. H.; FESSI, H. Skin penetration and distribution of polymeric nanoparticles. Journal of Controlled Release, v. 99, p. 53-62, 2004. BEDIN, V. Nanotecnologia e cabelos: até onde vamos? Cosmetics and Toiletries, v. 19, n. 2, mar-abr, p. 44, 2007. CAPEK, I. Degradation of Kinetically-stable o/w emulsions. Advances in Colloid Interfacial Science, Amsterdam, v. 107, p. 125-55, 2004. CHIEN, Y. W. Novel Drug Delivery Systems. 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