Prévia do material em texto
EA
D
Cartas aos Colossenses
e aos Efésios – o
Bilhete a Filêmon 5
1. OBJETIVOS
• Compreender e conhecer as Cartas aos Colossenses e aos
Efésios, bem como o bilhete a Filêmon.
• Reconhecer e analisar os argumentos fundamentais des-
sas Cartas.
• Compreender e analisar os diversos argumentos utiliza-
dos nessas obras.
• Interpretar e valorizar os textos mais importantes dessas
obras.
• Analisar os argumentos paulinos presentes nessas cartas.
2. CONTEÚDOS
• Introdução à Carta aos Colossenses.
• Introdução à Carta aos Efésios.
• Introdução ao Bilhete a Filêmon.
© Cartas Paulinas164
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE
Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que
você leia as orientações a seguir:
1) Afirmamos algumas vezes que a questão da autenticida-
de das Cartas paulinas não é unanimidade da parte dos
estudiosos. Assim, não levamos muito em conta esse
elemento, conscientes de que ele não interfere substan-
cialmente na abordagem da doutrina e da mensagem
de Paulo expressas em suas Cartas. De fato, a questão
da autenticidade das Cartas está relacionada a diversas
questões, mas, de modo especial, à cronologia. Para
uma abordagem da questão, sugerimos que você con-
sulte: MURPHY-O'CONNOR, J. Paulo. Biografia crítica.
Tradução de Bárbara Theoto Lambert. São Paulo: Loyola,
2000. p. 17-46.
2) "Os gnósticos eram seguidores de uma variedade de
movimentos religiosos que ressaltavam a salvação por
meio da gnosis, ou 'conhecimento', isto é, das origens
da pessoa" (HAWTHORNE; MARTIN; REID, 2008, p. 603).
Isso podia deixar a Cristo, pregado pela Igreja, apaixo-
nadamente apresentado por Paulo e vivenciado nas
contradições do mundo por tantos discípulos, ofuscado
ou desfigurado. Paulo escreve a Carta (na hipótese de
protopaulinismo), ou alguém a escreve, atribuindo-lhe
autoria paulina (no caso deuteropaulinismo), intentan-
do deixar clara a soberania de Cristo Jesus sobre tudo e
todos.
3) Para maiores informações a respeito da gnose e do Gnos-
ticismo, recomendamos a consulta da seguinte obra:
HAWTHORNE, G. F.; MARTIN, R. P.; REID, D. G. Dicioná-
rio de Paulo e suas cartas. Tradução de Bárbara Theoto
Lambert. São Paulo: Paulus, Vida Nova, Loyola, 2008. p.
603-607. Recomendamos, ainda: ABBAGNANO, N. Di-
cionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p.
485-486.
165© Nome da unidade
4) Em todo o estudo do "corpus paulinum", é importante
que você leia previamente o texto bíblico em análise. As-
sim, recomendamos que a presente unidade seja acom-
panhada do texto das Cartas em questão.
5) Tendo em vista a questão dos elementos míticos, suge-
rimos a consulta da seguinte obra: CERFAUX, L. O cristão
na teologia de São Paulo. São Paulo: Paulinas, 1978. p.
445-483.
6) A respeito das questões ligadas às forças naturais e ou-
tras perspectivas próprias dos colossenses, você pode
consultar: BRUCE, F. F. Paulo, o apóstolo da graça. Sua
vida, cartas e teologia. Tradução de Hans Udo Fuchs. São
Paulo: Shedd Publicações, 2003. p. 397-412.
7) Para conhecer mais sobre a antiga cidade de Éfeso, su-
gerimos que você consulte o interessante site disponível
em: <http://www.bibleplaces.com/ephesus.htm>. Aces-
so em: 07 abr. 2012.
8) Para uma maior compreensão dos temas relativos à au-
tenticidade da Carta aos Efésios e outros aspectos de sua
própria redação, sugerimos que você consulte: CARREZ,
M. et al. As cartas de Paulo, Tiago, Pedro e Judas. São
Paulo: Paulinas, 1987. p. 226-228.
9) Relativamente à questão da escravidão e a todo o con-
junto da carta/bilhete a Filêmon, sugerimos a consulta
de: CARREZ, M. et al. As cartas de Paulo, Tiago, Pedro e
Judas. São Paulo: Paulinas, 1987. p. 235-239.
10) Confira, também, a pequena, mas interessante reflexão
de: CROSSAN, J. D.; REED, J. Em busca de Paulo. Como o
Apóstolo de Jesus Cristo opôs o Reino de Deus ao Impé-
rio Romano. São Paulo: Paulinas, s.d. p. 106-110.
11) Finalmente, para um comentário oportuno quanto ao
bilhete a Filêmon e às questões ligadas à escravidão,
confira: BRUCE, F. F. Paulo, o apóstolo da graça. Sua vida,
cartas e teologia. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Pau-
lo: Shedd Publicações, 2003. p. 383-396.
© Cartas Paulinas166
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
4. INTRODUÇÃO À UNIDADE
Na unidade anterior, você conheceu a Carta aos Romanos,
considerada um dos primeiros tratados teológicos do Cristianismo.
Você obteve informações importantes sobre a Igreja de Roma e
sobre o contexto em que tal Carta foi escrita.
Agora, o desafio é aprofundar o pensamento de Paulo na
Carta aos Colossenses, na Carta aos Efésios e no Bilhete a Filêmon.
É uma oportunidade para conhecer as antigas igrejas de Colossos
e de Éfeso e o contexto sociocultural em que surgiu o Cristianismo.
Bom estudo!
5. CARTA AOS COLOSSENSES
O contexto da Carta
A Carta aos Colossenses é considerada, como Filipenses e
Efésios, uma carta de cativeiro. Paulo encontra-se preso ou em Ce-
sareia, entre os anos de 58 e 60, ou em Éfeso, entre 54 e 57, ou,
finalmente, em Roma, entre os anos de 61 e 63, no primeiro cati-
veiro, se considerarmos que houve um segundo cativeiro, poste-
rior ao relato de Atos dos Apóstolos 28,30–31. É complicado datar
essa carta, tanto mais que, sobre ela, pesam dúvidas a respeito da
autenticidade paulina. Ela é incluída na lista das Cartas deutero-
paulinas e, assim, é frequentemente apresentada. Mas não con-
vém observá-la apenas sob esse critério.
A igreja de Colossas, ou Colossos (as duas formas são possí-
veis), não era de origem paulina, mas, sim, fora fundada por Epa-
fras, zeloso e empenhado colaborador do Apóstolo. É uma comu-
nidade marcada por intensas buscas de sinais, sentimentos, ideias
e crenças marcadas por elementos cósmicos, naturais (os quatro
elementos), zodiacais, místicos. É difícil reconhecer, em um caldo
tão espesso de crenças e noções vagas e afetivas, um traço preciso
167© Nome da unidade
de uma ou outra corrente de pensamento. O que mais é possível
de se enxergar é um latente Gnosticismo, com forte acentuação de
elementos filosóficos gregos.
Não nos parece difícil reconhecer a índole protopaulina des-
sa Carta. Por exemplo, os períodos longos da Carta e seu desen-
volvimento são difíceis de coadunarem-se com a realidade de um
texto escrito por um secretário. Na redação desse tipo, a tendên-
cia é dividir o pensamento em períodos mais compreensíveis, não
obstante algumas dificuldades relativas à linguagem e aos argu-
mentos. Paulo não precisava se repetir constantemente na argu-
mentação! Pelo contrário, se ele escrevia em função das situações
concretas das igrejas com as quais se comunicava, é de se esperar
que os argumentos mudassem. As questões vocabulares são, tam-
bém, anexas a essa circunstância e ao conhecimento do secretário
que se empenhava na escrita.
A despeito das alegadas dificuldades, respeitando, contudo,
as posições muito difundidas do deuteropaulinismo, tudo indica
que a Carta aos Colossenses deva ser datada do primeiro cativeiro
romano, entre os anos de 61 e 63. Se é uma Carta deuteropaulina,
ela poderia ter sido escrita pelo ano 80, em Éfeso.
Estrutura e comentários à Carta aos Colossenses
Façamos uma breve análise da Carta aos Colossenses e de
sua estrutura observando o Quadro 1.
Quadro 1 Carta aos Colossenses.
CARTA AOS COLOSSENSES – ESTRUTURA
1,1–14
1,14—2,5
1,15–20
1,21–23
1,24—2,5
Prólogo
Primeira parte: doutrina
Hino cristológico
Os colossenses em Cristo
Paulo e os gentios
© Cartas Paulinas168
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
CARTA AOS COLOSSENSES – ESTRUTURA
2,6—3,4
2,6–8
2,9–15
2,16–23
3,1–4
Segunda parte: consequências doutrinárias
"Não" às doutrinas vãs, "sim" a Cristo
Cristo é o principal
Costumes e atitudes falsas
Em Cristo, a vida nova
3,5—4,6
3,5–17
3,18—4,1
4,2–6
4,7–18
Terceira parte:ética
Comportamento cristão
Moral doméstica
Comportamento apostólico
Conclusão
Prólogo (1,1–14)
Paulo escreve a Carta junto a Timóteo, que ele chama, aqui,
de irmão. Afirma que conhece a fama da fé da Igreja de Colossas
e ora por ela. Afirma, também, que o Evangelho, tendo chegado
até lá, está em todo o mundo produzindo frutos. O apóstolo de
Colossas foi Epafras, chamado de querido companheiro de serviço
de Paulo (1,8).
Paulo declara, também, que o conhecimento de Deus, de sua
sabedoria, conduz à herança dos santos. Eles podem entrar na luz,
em contrapartida a viver nas trevas. Certamente, aqui, iniciam-se
os argumentos que devem, depois, ser desenvolvidos. Os colos-
senses estão muito relacionados a elementos mistéricos e míticos,
não olhando de frente a Cristo. Por isso vem a perícope seguinte.
Primeira parte: doutrina (1,14—2,5)
A primeira parte tem acento na doutrina, especialmente na
compreensão do mistério de Cristo Jesus. É mais fácil olhar e se-
guir os sentimentos sensíveis da natureza e da mitologia do que
compreender o mistério de Cristo Salvador.
169© Nome da unidade
Hino cristológico (1,15–20)
O hino cristológico é uma pérola teológica inserida por Pau-
lo. Ele identifica Cristo como cabeça da Igreja e vai muito além do
hino a Cristo em Filipenses. Em Colossenses 1,15, Jesus é declara-
do imagem do Deus invisível e primeiro das criaturas. A ele é atri-
buída uma identidade divina, a preexistência sobre tudo e todos.
Isso é essencial para a compreensão do pensamento da Car-
ta aos Colossenses. As ideias sobre diversos elementos mistéricos
desviavam da graça nascida do encontro com Cristo Jesus e da vida
em comunhão com sua vontade. Paulo insere em sua Carta esse
hino para dar o tom, apresentar o princípio fundamental da sua
argumentação.
É oportuno que você retome o hino cristológico de Filipenses 2,5–
11 e faça uma comparação com o hino de Colossenses 1,15–20.
Semelhanças, diferenças e perspectivas podem ser evidenciadas.
Os colossenses em Cristo (1,21–23)
Os colossenses estão em Cristo pela sua morte. Eles são res-
gatados em Cristo desde as obras más e pensamentos inadequa-
dos. Isso os tornava inimigos da verdade. Agora, eles estão alicer-
çados e firmes na fé. Tudo no céu e na terra, toda criatura deve a
ele, Jesus Cristo, sua existência e sentido. Paulo declara ser minis-
tro, isto é, servidor, dessa verdade e do sentido de tudo.
Paulo e os gentios (1,24—2,5)
Paulo inicia uma ação de graças e declaração de sua própria
identidade. Ele se associa aos sofrimentos de Cristo na medida em
que o dá a conhecer aos povos gentios. Ele se reconhece Apóstolo
dos gentios:
A estes quis Deus dar a conhecer a riqueza e glória deste mistério
entre os gentios: Cristo em vós, esperança da glória! A ele é que
anunciamos, admoestando todos os homens e instruindo-os em
© Cartas Paulinas170
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
toda a sabedoria, para tornar todo homem perfeito em Cristo. Eis a
finalidade do meu trabalho, a razão por que luto auxiliado por sua
força que atua poderosamente em mim (1,27–29).
Por isso, Paulo, embora não tenha fundado diretamente a
igreja de Colossas, preocupa-se e empenha-se por ela, bem como
pela igreja de Laodiceia, que também não o conhece. Certamen-
te, Paulo insiste nessa situação de interesse pelas igrejas que o
desconhecem pessoalmente em função dos constantes ataques e
calúnias de judaizantes e outros seus inimigos.
Segunda parte: consequências doutrinárias (2,6—3,4)
"Não" às doutrinas vãs, "sim" a Cristo (2,6–8). Os colossen-
ses devem andar em Cristo Jesus, não nos caminhos errados das
doutrinas da "filosofia".
Por "filosofia", não se devem entender os sistemas filosófi-
cos gregos e os instrumentos de pensamento que eles propõem,
mas, sim, as especulações mais próprias do Esoterismo, que en-
contram, no conhecimento dos elementos físicos, a razão da exis-
tência. É um conjunto de ideias mais relacionadas a um início de
Gnosticismo.
Cristo é o principal (2,9–15)
Em seguida, Paulo irrompe uma série de frases de grande
efeito, relativas a Cristo e sua identidade, sua missão e sua pessoa.
Ele é o Ressuscitado que dá vida, que conduz à verdade e ao per-
dão dos pecados. Tudo está a ele submetido, os "principados" e
as "autoridades". Essas são categorias de seres espirituais, cheios
de poder e ciência ("éons"), que marcam a vida e a conduta das
pessoas.
Costumes e atitudes falsas (2,16–23)
Paulo liberta os colossenses dos limites e padrões alimenta-
res ligados a correntes de pensamentos e comportamentos. Conti-
nua anunciando a superação de costumes relacionados às práticas
171© Nome da unidade
religiosas míticas e supersticiosas. Ele concentra tudo em Cristo.
Nele, os colossenses morreram para tornar tudo vivo nele. Todas
as preocupações e relações com a superstição e misticismo deixam
de ter sentido em Cristo. Tudo deixará de existir pela ação de Cris-
to na história e na vida.
Em Cristo, a vida nova (3,1–4)
Paulo continua com o ímpeto que lhe é próprio quando fala
de Cristo. Anuncia aos colossenses o Cristo e as "coisas do alto",
seguramente os valores do Evangelho. Apresenta, aqui, uma es-
pécie de dicotomia: as coisas do alto e as coisas da terra como
contrapostas. São os valores do mundo, da terra, e os valores do
Evangelho, como dissemos. A vida dos colossenses deve estar em
Cristo, em Deus. A ele se chega buscando os valores do Evangelho.
Terceira parte: ética (3,5—4,6)
Comportamento cristão (3,5–17). O Apóstolo indica compor-
tamentos para todos os colossenses, como ira, exaltação, malda-
de, conversas indecentes. Essas coisas são apresentadas por ele
como inadequadas ao fiel.
Paulo insiste, também, na situação da pessoa tocada pela
graça de Cristo: ele está renovado, transformado. Independente-
mente se for judeu ou grego, circunciso ou incircunciso, escravo ou
livre: o que importa é que Cristo está em todos. É a plenitude de
Cristo, conforme podemos ver na passagem a seguir:
[…]. Vós vos despistes do homem velho com os seus vícios, e vos
revestistes do novo, que se vai restaurando constantemente à ima-
gem daquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento. Aí
não haverá mais grego nem judeu, nem bárbaro nem cita, nem
escravo nem livre, mas somente Cristo, que será tudo em todos
(3,9–11).
Moral doméstica (3,18—4,1)
A moral doméstica é a indicação de comportamentos casei-
ros. Paulo indica-os às mulheres, aos maridos, aos filhos e aos pais.
São elementos práticos e absolutos, fundamentais.
© Cartas Paulinas172
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
Em seguida, dirige-se aos servos, parte integrante da socie-
dade da época. Ele fundamenta tudo em Cristo Jesus. Os senhores
devem, também, ser justos com seus servos, pois há, na realidade,
apenas um Senhor, que é Cristo.
Comportamento apostólico (4,2–6)
Para seguir como discípulos de Cristo, Paulo indica os princi-
pais comportamentos, que são a oração, a vigilância, a sabedoria,
a sensibilidade e a coerência.
Conclusão (4,7–18)
As notícias do Apóstolo são muitas. Ele envia Tíquico como
portador da Carta. Onésimo, motivo da Carta a Filêmon, também
é citado. Outros são citados: Aristarco, que parece estar com Paulo
na prisão, o que lhe vale a identidade de "companheiro da prisão";
e Marcos, primo de Barnabé, que, depois, será lembrado na 2 Ti-
móteo. Além disso, é citado um tal Jesus, o justo; e Epafras, identi-
ficado como de Colossas. Paulo cita, ainda, Lucas e Demas.
Depois, Paulo manda saudações aos da igreja de Laodiceia
e aos que se reúnem na casa de Ninfas. Todas as saudações ex-
pressam uma proximidade muito grande do Apóstolo e um círculo
grande de conhecimento. Talvez esse seja o testemunho de que
essa Carta não é deuteropaulina, mas protopaulina.
No final, há a menção de sua assinatura, feita de próprio pu-
nho (4,18) e o convite à lembrança da prisão ou "das prisões" de
Paulo.
6. CARTA AOS EFÉSIOSA cidade de Éfeso
A cidade de Éfeso acolheu Paulo por bem três anos, quan-
do de sua passagem pela Ásia. Recebeu do Apóstolo, certamente,
uma atenção especial. Era uma cidade muito grande, com intenso
173© Nome da unidade
afluxo de pessoas de todos os cantos do Império. Com isso, havia
muitas ideias e religiões em choque.
O Cristianismo anunciado por Paulo e por seus colaborado-
res era uma das muitas vozes que se apresentavam como porta-
doras da verdade. De fato, a proposta cristã era muito diferente
das demais e é essa sua apresentação única que poderia atrair os
efesinos.
Não há muitas notícias da cidade fora das Cartas paulinas. O
que há é a questão da origem da própria Carta e o sentido teoló-
gico que ela expõe.
Características da Carta aos Efésios
A primeira observação quanto à Carta aos Efésios é justa-
mente sua identidade. O primeiro versículo, na apresentação do
endereço, apresenta-se diversamente entre os manuscritos anti-
gos. Lemos, em muitas bíblias, a tradução: "Paulo, apóstolo de Je-
sus Cristo, pela vontade de Deus, aos cristãos de Éfeso e aos que
creem em Jesus Cristo" (1,1). Mas a localização "de Éfeso" não
consta em muitos manuscritos antigo, inclusive nos mais atesta-
dos. Assim, o título deveria ser: "Paulo, apóstolo de Jesus Cristo,
pela vontade de Deus, aos santos e que creem em Jesus Cristo".
Tirando-se a menção a Éfeso, tudo o mais continua sem mudanças.
O que seria, então, essa Carta? Muitos opinam ser ela uma
carta circular, o que a tornaria uma obra não dirigida a uma igreja
em particular, mas a todas as igrejas da Ásia menor, visitadas ou
não pelo Apóstolo. Outros indicam que deveria ser, originalmente,
uma carta aos laodicenses. Um terremoto destruidor de Laodiceia
teria forçado seus habitantes a ir até Éfeso. Deram, assim, uma
nova identidade à Carta do Apóstolo. São hipóteses não de todo
impossíveis, mas difíceis de constatar, especialmente a segunda.
O fato é que a Carta não apresenta pormenores da igreja de
Éfeso, como era de costume nas Cartas de Paulo: ele citava situa-
ções das igrejas para onde dirigia suas Cartas; nessa carta, porém,
© Cartas Paulinas174
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
eles não existem. As frases, as afirmações e as ideias de Paulo re-
velam que não estão familiarizados com a vida e a situação dos
efesinos. Faltam, também, saudações a pessoas e a grupos da co-
munidade. Entretanto, em Efésios 1,15, lê-se isto: "por isso tam-
bém eu, tendo ouvido falar da vossa fé no Senhor Jesus, e do amor
para com todos os cristãos […]", o que sugere que o autor está se
dirigindo a um grupo específico de pessoas, as quais manifestam
uma notável expressão de fé.
Ainda em Efésios 6,21s, lê-se:
E para que também vós estejais a par da minha situação e do que
faço aqui, Tíquico, o irmão muito amado e fiel ministro no Senhor,
vos informará de tudo. Eu vo-lo envio precisamente para isto: para
que sejais informados do que se passa conosco e para que ele con-
forte os vossos corações.
Aqui, é mencionado o nome de Tíquico, colaborador de Pau-
lo, enviado por ele. Na carta, menciona-se que ele "[…] vos infor-
mará de tudo". Quem ele informará? O contexto supõe um grupo,
uma igreja! Mas onde estão os nomes, conhecidos e participantes
dessa igreja, que pode ser de Éfeso, de Laodiceia ou de outro local?
Assim, a questão dos destinatários da Carta aos Efésios con-
tinua em aberto. A questão do seu conteúdo é outro tema interes-
sante. Essa carta tem índole acentuadamente eclesiológica. Além
disso, apresenta extensos textos em que o comportamento cristão
é apresentado de modo a fazer compreender uma relação de vir-
tudes e condutas necessárias para o viver cristão.
Os temas de Colossenses repetem-se com muita frequência
em Efésios, quase que fazendo supor que aquela Carta serviu de
base para esta. As palavras e o sentido do pensamento do autor de
Efésios é, também, muito próximo do autor de Colossenses.
Estrutura e comentário à Carta aos Efésios
Veremos, agora, a estrutura da Carta aos Efésios; para isso,
inicialmente, observe o Quadro 2.
175© Nome da unidade
Quadro 2 Carta aos Efésios.
ESTRUTURA DA CARTA AOS EFÉSIOS
1,1–2
1,3—3,21
1,3–14
1,15–23
2,1–10
2,11–22
3,1–14
3,15–21
Saudação
Primeira parte: Cristo na Igreja
Hino a Cristo
Glorificação do Senhor
Ação de Cristo na história
Reconciliação dos gentios
Os gentios e Paulo
Oração
4,1—6,20
4,1–8
4,9–16
4,17—5,20
5,21—6,9
6,10–20
6,21–24
Segunda parte: Exortações e comportamento
Unidade em Cristo
Identidade dos cristãos
Vida em Cristo
Comportamento em família
Combate espiritual
Saudações finais
Saudação (1,1–2)
A saudação é de Paulo, que se identifica como Apóstolo de
Cristo Jesus pela vontade de Deus. Os destinatários, ou o endere-
ço, não existem, conforme nossa opção de seguir a tendência dos
manuscritos que não apresentam essas informações.
Primeira parte: Cristo na Igreja (1,3—3,21)
Na primeira parte, Paulo insiste, de modo muito poético, na
ação da graça em seus ouvintes e nele próprio. Cristo realiza tudo
em todos e marca todos com a sua graça. Se a recebemos, é por
pura gratuidade de Deus.
© Cartas Paulinas176
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
Hino a Cristo (1,3–14)
O hino a Cristo é semelhante àquele de Colossenses, mas é
mais bem elaborado em vista do conteúdo parenético (exortativo
moral) que se seguirá. Ele é dirigido a gentios que, não conhecendo
as promessas a seu respeito, acabam por entrar na sua intimidade.
Todos são "filhos adotivos" (versículo 5), abençoados (versí-
culo 3), escolhidos (versículo 4), redimidos (versículo 7), conhece-
dores da vontade de Deus (versículo 9), predestinados (versículo
11), feitos herança (versículo 11) etc.
O hino faz a constante ligação do dom que é Cristo e sua
ação nas pessoas, em "nós", independentemente da identidade
e da expectativa anterior de quem está ouvindo ou lendo a Carta.
Glorificação do Senhor (1,15–23)
Em seguida, Paulo apresenta Cristo como objetivo do conhe-
cimento dos leitores. Ele mesmo deve iluminar a inteligência de
quem está vivenciando tudo o que a Carta reflete. Paulo faz votos
de que seus leitores saibam e conheçam a ação de Deus, realizada
de modo intenso e pleno.
[…] que ilumine os olhos do vosso coração, para que compreendais
a que esperança fostes chamados, quão rica e gloriosa é a herança
que ele reserva aos santos, e qual a suprema grandeza de seu po-
der para conosco, que abraçamos a fé. É o mesmo poder extraordi-
nário que ele manifestou na pessoa de Cristo, ressuscitando-o dos
mortos e fazendo-o sentar à sua direita no céu, acima de todo prin-
cipado, potestade, virtude, dominação e de todo nome que possa
haver neste mundo como no futuro (1,18–20).
Os leitores devem ficar alegres, pois receberam a graça da
presença de Cristo Jesus de modo gratuito. Tudo o que pode tocar
as pessoas e interferir em sua vida é tomado por Cristo, inclusive
os elementos míticos e mistérios, como já afirmado em Colossen-
ses. E isso tudo está na cabeça da Igreja, dando-lhe identidade e
segurança.
177© Nome da unidade
Ação de Cristo na história (2,1–10)
Aqui, Paulo trata da conversão operada por Cristo nos ouvin-
tes da Carta. A situação anterior deles é de morte, por conta dos
pecados. Sem Cristo, antes de seu conhecimento, todos andavam
nas trevas, mas sua presença tornou tudo salvo, resgatado. Tudo
pela graça, de modo espontâneo, sem condições prévias. Deus
manifestou assim sua bondade absoluta em Cristo.
Essa escolha é uma predestinação: todos podem e serão to-
mados pela graça de Cristo, independentemente de sua origem ou
condição. Mas é necessário aceitar tudo isso.
Reconciliação dos gentios (2,11–22)
Paulo cita os "circuncisos", no sentido de judeus, e os "in-
circuncisos", no sentido de gentios. Os incircuncisos não tinham a
herança de Israel, mas, agora, tudo mudou. Todos, pelo sangue de
Cristo, se tornaram próximos de Deus.
Em 2,14–18,temos mais um hino, no qual Cristo é destacado
como criador do "homem novo". Ele faz judeus e gentios possíveis
de encontrar o Espírito (versículo 19).
Os ouvintes da Carta já não são estrangeiros em relação a
Cristo. Estão íntimos da herança de Deus, sendo sua família. É em
Cristo que essa nova situação, que se assemelha a um edifício, se
eleva.
Os gentios e Paulo (3,1–13)
Paulo fala de si e de seu ministério. Ele conhece o mistério
revelado em Cristo e apresenta-o a todos os gentios, que podem,
assim, participar dele. Da leitura do texto, nota-se a altíssima esti-
ma que Paulo expressa pela sua identidade de Apóstolo, apresen-
tador ou anunciador do Evangelho.
A Igreja, comunidade dos que creem em Cristo, tem, agora, a
possibilidade de dar a conhecer a vontade de Deus.
© Cartas Paulinas178
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
No final dessa passagem, Paulo alega "tribulações" a seu res-
peito. Seus ouvintes não se devem abater por isso. Estará falando
ele do cativeiro, das perseguições ou das dificuldades comuns de
seu ministério? Talvez seja do cativeiro; possivelmente (segundo
nossa opinião), do cativeiro romano.
Oração (3,14–21)
Paulo ora pela realidade que vivencia. Pelo dom que é vivê-la
e pela situação que seus ouvintes, agora, podem conhecer na ade-
são ao mistério de Cristo. Na sua ação de graças, ele usa palavras
e expressões curiosas, que criam uma ideia de construção, confor-
me podemos ler na passagem a seguir:
[...]. Que Cristo habite pela fé em vossos corações, arraigados e
consolidados na caridade, a fim de que possais, com todos os cris-
tãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e
a profundidade, isto é, conhecer a caridade de Cristo, que desafia
todo o conhecimento, e sejais cheios de toda a plenitude de Deus
(3,17–19).
Segunda parte: exortações e comportamento (4,1—6,20)
Unidade em Cristo (4,1–8). Paulo exorta à unidade em Cristo
Jesus. Diz-se prisioneiro, certamente indicando seu cativeiro. Isso
causa uma importância maior às suas afirmações e indicações.
Ele insiste na necessidade de unidade, falando que existe
uma única cabeça e um só Espírito, isto é, um Cristo e um Espírito,
que inspira e elege a todos para que todos estejam na vida. Por
isso, há, também, um só batismo, uma só esperança, um só Senhor
e Deus.
A unidade dos fiéis é segurança de sua adesão ao mistério de
Cristo. Por isso a insistência nesse ponto.
Identidade dos cristãos (4,9–16)
Todos estão em Cristo, embora cada um tenha uma identida-
de, uma maneira de ser e de viver. Paulo elenca os carismas breve-
mente: apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Cada
um está a serviço da comunidade em nome do Senhor.
179© Nome da unidade
Todos podem crescer em Cristo e experimentar a realidade
de uma vida marcada pela graça e pela ação de Cristo-Cabeça, do
qual seus ouvintes, que formam a igreja, são os membros.
Vida em Cristo (4,17—5,20)
Descoberto tudo isso, o que é importante é a vida nova em
Cristo Jesus. Os gentios devem conhecer essa situação e vivenciá-
-la, pois é ele quem dá vida. Todo o longo período é uma insistente
apresentação da imitação de Cristo, da adesão a seu mistério e da
vida que daí emana.
Comportamento em família (5,21—6,9)
Bem articulada a longa passagem anterior, surge, agora, essa
passagem, também longa e bem articulada, que exorta à vida nova
de modo concreto, na família e nas relações humanas. Maridos,
esposas, filhos e pais têm uma palavra de exortação e de alerta
a respeito de sua conduta. Tudo deve estar em Cristo Jesus. São
incluídos, também, os servos e os senhores.
Combate espiritual (6,10–20)
Por combate espiritual, entende-se a capacidade de viver
em meio às crises e às contradições da vida a partir da intimida-
de com Cristo. Mais uma vez, surge, como em Efésios, a ideia de
poderes míticos, como autoridades, potestades etc. Paulo deixa
isso de lado em função da ação de Cristo Jesus sobre tudo e sobre
todos. É necessário revestir-se de Cristo. Para tanto, deve-se orar e
suplicar a coerência da vida e a adesão constante ao Senhor.
Paulo pede que seus ouvintes orem por ele também, pois ele
deseja, ainda, anunciar o Evangelho.
Saudações finais (6,21–24)
As saudações finais não têm o colorido de outras Cartas. Sua
simplicidade dá a entender o caráter mais amplo dessa Carta. Não há
menção de recordações. É mencionado Tíquico, portador da Carta.
© Cartas Paulinas180
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
7. CARTA (BILHETE) A FILÊMON
Questões introdutórias
Carta ou bilhete? Chamar esse interessante escrito paulino
de "Carta" a Filêmon talvez não seja o melhor modo de identificá-
-lo. É um texto bem reduzido, com apenas 25 versículos, mas ex-
pressa muitos elementos. Quanto ao status do escrito, se o con-
siderarmos "bilhete", ficam de fora algumas ideias fundamentais.
Primeiramente, Paulo não se dirige apenas a Filêmon, mas tam-
bém à igreja que se reunia em sua casa:
Paulo, prisioneiro de Jesus Cristo, e seu irmão Timóteo, a Filêmon,
nosso muito amado colaborador, a Ápia, nossa irmã, a Arquipo,
nosso companheiro de armas, e à igreja que se reúne em tua casa.
A vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e da parte do Senhor
Jesus Cristo! (1–3).
Para ser apenas um bilhete, ideia de um texto sem maiores
pretensões, não seriam nomeados esses outros elementos.
Se considerarmos o texto uma carta, ele parece ser muito
reduzido para tanto. Há um conteúdo específico, embora diluído
no conjunto. A questão da escravidão é o pano de fundo. O Cris-
tianismo, que, no dizer de Paulo, rompe as barreiras, como vai se
portar perante a escravidão? "Já não há judeu nem grego, nem
escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois
um em Cristo Jesus" (Gálatas 3,28).
Escravidão e liberdade
Se, para o cristão, não há mais diferenças, como encarar a re-
alidade concreta que se apresenta aqui: um escravo fugitivo, Oné-
simo, busca refúgio junto ao Apóstolo que marcou sua conversão.
E o mesmo Apóstolo marcou, também, a conversão de seu senhor,
Filêmon.
O Cristianismo e o próprio Paulo não trataram diretamente
do tema da servidão. Mas ele estava lá presente, pois grande parte
181© Nome da unidade
da população das cidades romanas era formada por escravos. A
igreja, como se pode imaginar, era composta, em sua grande maio-
ria, por escravos e, quem sabe, por alguns libertos.
Os escravos não o eram em função da raça, mas, sim, por
motivos econômicos: dívidas e outros problemas. Outro motivo
eram as guerras: os prisioneiros de guerra eram reduzidos à es-
cravidão.
A liberdade poderia ocorrer. O escravo poderia adquirir sua
própria liberdade mediante algum dinheiro que ele, de algum
modo, podia acumular. Não era fácil, mas era possível. Nessa cir-
cunstância, um ex-escravo podia ascender até à cidadania romana.
Porcio Festo, governador romano que substituiu Félix em Cesareia
e que mandou Paulo para Roma, era um liberto!
Para o Cristianismo, o importante era a criação de novas
relações humanas. A liberdade e a escravidão não têm lugar, em
função da eleição em Jesus Cristo. O Cristianismo não podia, cons-
cientemente, lutar contra a escravidão de modo aberto, pois seria
tornar a sociedade romana um caos. Toda ela se baseava no tra-
balho servil. Assim, o que o Cristianismo fez foi estabelecer essas
novas relações humanas, inspiradas em Jesus Cristo. Isso é muito
evidente na Carta a Filêmon.
Filêmon deve ser um convertido por Paulo, certamente
quando de sua permanência em Éfeso, que habitava em Colossos.
Quanto a Onésimo, há informação de que teria sido bispo de Éfe-
so, o que dá a esse pequeno bilhete um significado sem par.
Paulo fala, em vários momentos, que está preso. A Carta ou
Bilhete a Filêmon faz parte daquele grupo amplo de cartas do ca-
tiveiro, prescindindo da questão do protopaulinismo e do deute-
ropaulinismo. Em outras palavras, sem levar em conta essaclassi-
ficação moderna, consideram-se cartas do cativeiro as Cartas aos
Efésios, aos Colossenses, aos Filipenses e a Filêmon.
© Cartas Paulinas182
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
Estrutura e comentário à Filêmon
Veremos, no Quadro 3, a estrutura da Carta ou Bilhete a Fi-
lêmon.
Quadro 3 Carta ou Bilhete a Filêmon.
ESTRUTURA DA CARTA/BILHETE
1–3
4–7
8–20
8–11
12–16
17–20
21–22
23–25
Endereço e destinatários
Ação de graças
Pedidos
Situação de Onésimo
Filho espiritual de Paulo
Paulo e Filêmon: devedores
Paulo confia na situação
Saudações
Endereço e destinatários (1–3)
Paulo está com Timóteo, seu fiel colaborador. Dirige-se a Fi-
lêmon, que chama de "nosso amado colaborador", sugerindo, com
isso, que Filêmon foi companheiro de Paulo em algum momento
de suas missões. A Filêmon, Paulo acrescenta "nossa irmã Ápia",
"nosso companheiro de armas Arquipo" e, finalmente, "a igreja
que se reúne na tua casa"; esse "tua" se refere à casa de Filêmon.
Assim, a Carta não é um texto pessoal, dirigido apenas a uma pes-
soa. O assunto é, a princípio, com uma pessoa, mas, dirigindo-se a
mais pessoas, Paulo amplia suas possibilidades.
Provavelmente, Árquipo é o mesmo que foi citado em Colos-
senses 4,17: "Finalmente, dizei a Árquipo: vê bem o ministério que
recebeste em nome do Senhor, e desempenha-o plenamente". Sa-
bemos, então, que, por um tempo, Árquipo esteve em Colossos.
Dessa forma, Filêmon também pode residir ali.
183© Nome da unidade
Ação de graças (4–7)
Paulo dirige-se a Filêmon, reconhecendo nele um notável
colaborador. Ele agradece a Deus pelo amor de Filêmon e pela fé
que ele manifesta. Ao que tudo indica, Filêmon foi anteriormente
colaborador de Paulo ou alguém que permitiu que a igreja pudes-
se crescer.
Pedidos (8–20)
Depois desses períodos introdutórios, Paulo inicia seus pe-
didos.
Situação de Onésimo (8–11)
Paulo declara-se um velho; podemos considerar que isso indi-
que uma idade entre os 50 e 60 anos. Ele está prisioneiro de Jesus
Cristo, isto é, conduzido pelo Espírito para a missão da Evangelização.
É lembrada a situação de Onésimo, um "filho que gerei na
prisão" (versículo 10). Onésimo foi, seguramente, batizado em al-
gum momento de prisão de Paulo. Ele está próximo de Paulo, e
este o manda de volta a Filêmon.
Filho espiritual de Paulo (12–16)
O filho espiritual de Paulo, Onésimo, mandado de volta a Fi-
lêmon, é como se fosse o próprio coração do Apóstolo. Paulo suge-
re que desejava mantê-lo consigo, mas não o fez sem antes obter
a permissão de Filêmon. Ele espera, justamente, essa decisão de
seu amigo.
Onésimo foi "retirado" de seu senhor, Filêmon, certamente
com a permissão de Deus, para o auxílio de Paulo. Agora, seu se-
nhor poderá reavê-lo, não como escravo, mas, sim, como irmão.
Paulo compara Onésimo a si mesmo em relação a Filêmon. É uma
situação interessante: Paulo reconhece os direitos de senhor da
parte de Filêmon, mas indica que o modelo de relacionamento
cristão é mais necessário e oportuno. Ao mesmo tempo, confia na
oferta de Filêmon: que Onésimo possa servir a Paulo.
© Cartas Paulinas184
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
Paulo e Filêmon: devedores (17–20)
Filêmon deve receber a Onésimo gentilmente. Quaisquer
prejuízos que ele pode ter causado correrão por conta de Paulo.
O Apóstolo indica que ele e Filêmon se tornam, assim, devedores
mútuos. Mas, acima de tudo, está a bondade esperada de Filêmon
e o coração de Paulo.
Paulo confia na situação (21–22)
Paulo fala da obediência usando um interessante artifício:
a obediência é exigida de um escravo, e Onésimo é escravo. Mas
Filêmon também deve obedecer, certamente, ao Evangelho, que é
maior que a relação entre escravo e senhor.
O Apóstolo ainda anuncia que necessitará de um abrigo
quando estiver com Filêmon.
Saudações (23–25)
Por último, seguem os cumprimentos. São citados Epafras,
"companheiro de prisão em Cristo Jesus", Marcos, Aristarco, De-
mas e Lucas, colaboradores do Apóstolo. Ele conclui com a dedica-
ção da graça de Jesus Cristo ao espírito de Filêmon.
8. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS
Confira, a seguir, as questões propostas para verificar o seu
desempenho no estudo desta unidade:
1) Como posicionar a Carta aos Colossenses dentro do corpus paulinum?
2) Quais são os argumentos principais da Carta aos Colossenses?
3) Como Cristo é apresentado na Carta aos Colossenses?
4) Quais são as consequências éticas ou práticas que a Carta aos Colossenses
apresenta em sua argumentação?
5) Quais são as características principais da Carta aos Efésios e quais aspectos
estão ainda em aberto na compreensão dessa Carta e de sua origem?
185© Nome da unidade
6) Qual é o destaque que é dado a Cristo nessa Carta e a quê ele é relacionado?
7) Paulo cita circunstâncias particulares a seu respeito. Como considerar essa
citação e quais as possíveis soluções?
8) Em Efésios, bem como em outras Cartas, Paulo aborda a questão da iden-
tidade cristã: o ser cristão, com base em Jesus Cristo diante do mundo, em
especial ao mundo pagão. Quais elementos, relativos a esses argumentos,
são próprios da Carta aos Efésios?
9) Como identificar a Carta a Filêmon?
10) Quais os argumentos fundamentais da Carta a Filêmon e como posicioná-la
perante todo o corpus paulinum?
9. CONSIDERAÇÕES
As Cartas analisadas aqui contêm muito material interessan-
te, que deixa à mostra uma riqueza: as circunstâncias e situações
das igrejas das origens, especialmente as que têm algum tipo de
influência paulina. Em Colossenses e Efésios, vemos argumentos
insistentes na identidade de Jesus Cristo e na necessidade de bus-
cá-lo sem as mediações gnósticas. Já em Filêmon, o Apóstolo fala
a um amigo com a confiança que somente uma amizade intensa e
baseada em Cristo Jesus pode oferecer.
As Cartas de Paulo, embora episódicas e não sistemáticas,
são um retrato substancioso de aspectos importantes da Igreja pri-
mitiva. Paulo soube intervir na história das igrejas particulares, no
sentido de torná-las inseridas no mistério de Deus, que se revela
em Jesus Cristo. Sem esse esforço, é provável que o Cristianismo
se tornasse mais uma proposta original e até surpreendente, mas
sem uma adequada continuidade e influência na vida e na história
da sociedade da época e na posteridade.
10. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 485-486.
BALLARINI, T. et al. Introdução à Bíblia. Epístolas do cativeiro. Pastorais. Hebreus.
Católicas. Apocalipse. Petrópolis: Vozes, 1969. p. 59-164. Vol. V/2.
© Cartas Paulinas186
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
BARBAGLIO, G. As cartas de Paulo (II). Tradução de José Maria de Almeida. São Paulo:
Loyola, 1991. p. 415-430.
BRUCE, F. F. Paulo, o apóstolo da graça. Sua vida, cartas e teologia. Tradução de Hans Udo
Fuchs. São Paulo: Shedd publicações, 2003. p. 383-396; 397-412.
CARREZ, M. et al. As cartas de Paulo, Tiago, Pedro e Judas. São Paulo: Paulinas, 1987. p.
209-244; 235-239.
CERFAUX, L. O cristão na teologia de São Paulo. São Paulo: Paulinas, 1978. p. 445-483.
CROSSAN, J. D.; REED, J. Em busca de Paulo. Como o Apóstolo de Jesus Cristo opôs o
Reino de Deus ao Império Romano. São Paulo: Paulinas, 2007. p. 106-110.
FABRIS, R. As cartas de Paulo (III). Tradução de José Maria de Almeida. São Paulo: Loyola,
1992. p. 35-128; 129-208.
HAWTHORNE, G. F.; MARTIN, R. P.; REID, D. G. Dicionário de Paulo e suas cartas. Tradução
de Bárbara Theoto Lambert. São Paulo: Paulus, Vida Nova, Loyola, 2008. p. 247-255; 421-
439; 543-548; 603.
HEYER, C. J. den. Paulo: um homem de dois mundos. Tradução de Luiz Alexandre Solano
Rossi. São Paulo: Paulus, 2009. p. 137-140. (Coleção Bíblia e Sociologia).
MURPHY-O'CONNOR, J. Paulo. Biografia crítica. Tradução de Bárbara Theoto Lambert.
São Paulo: Loyola, 2000. p. 17-46; 169-194.
VAN DEN BORN, A. (Org.). Dicionário enciclopédico da Bíblia. 3. ed. Tradução de Frederico
Stein.Petrópolis: Vozes, 1971. colunas 280-282; 423-425; 576-577.