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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO LETRAS – ESPANHOL Docente: David Lira Discentes: Mayara Falcão, Narjara Onorato, Paula Oliveira e Rodrigo Tiete SÊNECA E O ESTOICISMO Liberdade e auto libertação em Sêneca Na presente resenha iremos analisar o livro “Sêneca e o Estoicismo” de Paul Veyne. O livro apresenta além de uma breve biografia de Sêneca, que foi o principal expoente da literatura latina na antiguidade, também alguns de seus pensamentos relacionados ao Estoicismo, corrente filosófica a qual o autor seguia. Portanto, essa resenha tratará de dissertar sobre como funciona o conceito de liberdade e auto libertação exposto no livro de Veyne. Primeiramente, é fundamental ressaltar que Sêneca, ainda que seguidor da corrente estóica, mudou alguns pensamentos e a forma de enxergar algumas situações. Esse conceito é importante pois dessa maneira o pensamento do escritor latino divergirá em certos pontos da visão que o Estoicismo grego possui. Segundo o Estoicismo, o processo de libertação é através da busca da felicidade, isto consiste em ser um homem virtuoso, captar os ensinamentos da natureza, ser um ser somente racional e obedecer ao cosmo, pois de acordo com essa corrente deve-se buscar somente o que se é adequado a conduta de um sábio, pois ser um sábio ou um deus mortal significa ser um homem livre. Os estóicos pregam que a filosofia é uma prática de vida e um de seus objetivos é alcançar a ataraxia, ou seja a tranquilidade da alma.O estoicismo é uma filosofia que entende que o homem tem uma profunda ligação com a natureza.Na concepção estóica, tudo seria determinado pelo logos. Era apresentado ao homem um ideal de vida predeterminado pelo divino e nesse sentido, entende- se que apesar do livre arbítrio ser inexistente, uma vez que essa doutrina é extremamente fatalista, essa ideologia estóica compreende que a liberdade reside em compreender que o universo é inteligente e deve permanecer coeso e ordenado. Nessa ótica, seria necessário alcançar a consciência de que não se deve censurar o que não pode ser alterado, por isso é preciso se conformar com as demandas do destino. Com isso, essa filosofia oferece diretrizes para viver num mundo governado pela razão e ter uma vida virtuosa. “A felicidade consiste na virtude”. Essa citação do estóico Crisipo de Solis constata que a ideia de virtude seria estar em estado de harmonia com o papel que foi designado ao homem pela natureza e somente agindo desse modo, o homem estaria seguro dos males que afligem a existência humana e alcançaria a felicidade pessoal. Assim, medo e desejo não podem perturbar aquele que com treinamento está livre desses vícios e se torna um sábio. Sêneca apresenta esse processo de libertação de forma diferente. O conceito de liberdade e auto libertação é um dos temas centrais nas obras do autor latino, para ele ser livre não é apenas não estar preso, como o estoicismo nascido na Grécia prega, mas é uma questão de autonomia sobre sua própria vida. O homem é considerado livre quando puder viver sem depender de terceiros. Para explicar esse conceito Sêneca apresenta dois termos fundamentais para a compreensão dele a Autarquia e a Auto governança, ambos falam que a maneira de alcançar a liberdade é ser autônomo e autossuficiente, trata-se de possuir o poder absoluto e a governança de si mesmo. Nesse caso o exemplo do escravo não se enquadraria mais, pois ser um homem escravo é ser dependente de seu patrão desde a alimentação até ter que possuir permissão para ir aos lugares, logo ele não é livre na visão de Sêneca. Para o estoicismo, a natureza impõe que cada homem se esforce individualmente para ser livre e feliz. Ser feliz trata-se de obter o estado de segurança e isto, implica muito treinamento para compreender que a humilhação, infortúnios e a morte são coisas sem importância, pois para a doutrina estóica somente era necessário cumprir com suas necessidades biológicas, então, um pouco de comida e água bastava. Logo, a evolução do treinamento desta doutrina, faz com que os homens cheguem cada vez mais perto de lograr a felicidade, esta que é livre de perigos, também faz com que os homens se aproximem cada vez mais da figura do sábio, porém só é livre aquele que se torna sábio por completo e não aquele que somente se aproxima. O sábio antigo era uma espécie de Deus ou um humano superior ao mundo pagão. Então, para o estoicismo de Sêneca, aquele que está em posição de sábio, se torturado ou humilhado e suporta-lo, ainda será tão feliz quanto não estivera sendo e isto coincidia com os antigos, se fosse pelo fato de ser por uma nobre causa. No entanto no mundo grego, quem determinava se um homem era feliz ou não, não era ele mesmo e sim os outros (em conjunto), porém isto, não poderia ser decretado antes de sua morte, o que já nos faz perceber certa diferença no estoicismo da Grécia em comparação com o de Roma. Para os estoicos a felicidade relacionava-se com o bem-estar, pois a felicidade estóica significava ausência de infelicidade, isto quer dizer que era preciso que os homens tivessem saúde. Baseava-se também naquilo que que fosse invejável a um homem honesto, logo, este ideal consistia em seguir o modelo da natureza e imitar o modelo do sábio. Então, para a doutrina estoica ser um sábio é ser livre dos vícios, logo, é ser um homem cheio de virtudes e o meio para lograr esta conduta é através da natureza, porque ela tudo dar e tudo ensina. Visualizamos também que no livro Sêneca e o estoicismo, para os estóicos a natureza é a base para a felicidade, pois ela dar o suporte necessário para os homens sobreviverem, pois ela os presenteia com as plantações, as estações do ano que fazem as sementes brotarem e crescerem e os fazem um ser racional para transformar o capim em leite, ela sabe de tudo que é necessário para os homens, mesmo quando ela os manda as pragas é com a condição de dá-los algum ensinamento, como por exemplo os ratos, ela os manda para ensinar que não deve-se deixar as coisas largadas. Então, com relação a natureza é virtuoso aquele que reside em executar o seu programa natural, pois ela uma vez que cria os seres vivos presenteia a eles com igualdade os meios necessários para a sua sobrevivência. No estoicismo, os homens precisam ser apenas um ser racional, pois é a razão que julga o que é realmente importante e bom para o homem, logo, ter sentimentos ou desejos são erros morais e vão contra a doutrina estoica, em relação aos sentimentos, isto não quer dizer que eles não os sentem, mas são ensinados para senti-los apenas como um fator biológico. Em relação aos desejos são treinados para nunca os pôs em prática, pois tudo isto não passa de um erro de juízo. Então, os sentimentos e os desejos são seres parasitas e sem eles faz com que o juízo do homem estoico passe a funcionar melhor. Na visão estóica com relação à natureza, todos os homens nascem livres e os vícios que os prendem não são coisas naturais, então deve-se livrar-se deles e por isto, a natureza os tornou educáveis. Então, todos os homens devem usar a razão e consequentemente não cometer erros morais, porém deve-se cumprir os seus deveres no mundo, como por exemplo, ser um bom pai e um bom filho. Tendo isso em mente, é importante ressaltar que Sêneca afirma que o relacionamento com o outro deve ser evitado ao máximo, visto que esse relacionamento lhe talharia a liberdade, pois o vizinho é uma ameaça em potencial para o homem estoico romano. Essa crença do escritor romano é curiosa, ele afirma que se a liberdade vem da autolibertação que se tem, inclusive da relação com o outro, um relacionamento com essas outras pessoas poderia ameaçar a sua liberdade. Pois nessa situação a pessoa pode acabar dependendo da outra o que, para Sêneca, o aprisionaria ainda mais. Todavia, o outro só irá talhar sua liberdade, se você ainda não conseguiu chegar no parte do intelecto, onde reina a razão e consegues ter autarquia;consegues um domínio tão grande sobre si que as coisas ao redor já não são tão relevantes a pontode tirar sua paz de espírito. É importante ressaltar que Sêneca não se isola da sociedade, pois o outro é importante para esse crescimento interior, porque ocorre uma melhora mútua. Ambos se ajudam nessa caminhada em busca da liberdade, porém só quem já conseguiu perceber que há algo maior que nossas vidas, e que por isso começou a tentar se entender, não precisará evitar as multidões. Os estóicos visualizavam a alma como sendo a mesma coisa que o deus cosmo, logo, eles se diziam microcosmo e o processo de libertação em Sêneca, consiste também em cumprir a sua função pré-determinada, isto tem relação com o fatalismo estoico. Então, esta afirmativa quer dizer que alguns seriam destinados a missões mais perigosas que outros e eles como soldados do cosmos, deveriam cumprir com o posto que os foi ofertado como uma espécie de fatalismo cósmico, ou seja, eles o aceitariam com felicidade a missão que os foi ofertada ou até mesmo o seu próprio sacrifício. Por último, para a doutrina estóica não importava qual função foi determinada aos homens no cosmo, pois todos eles poderiam ser livres e felizes, até mesmo em condição de escravo os seriam. Esta relação de felicidade e liberdade se sustenta, porque os escravos que se mantém nesta condição por obediência ao seu deus pode ser livre e feliz, pelo fato de que não há alguém melhor para dividir os papéis na sociedade e para instruí-los que o seu deus. Então, eles estavam assegurados que exercendo o seu papel na sociedade, seus senhores teriam que dar-lhes o que comer, beber e vestir, pois o básico era o bastante para o seu bem-estar, porém mesmos que os seus senhores falhassem em sua conduta e não os fornecessem o básico para sua vida feliz, os escravos deveriam continuar com o seu posto por obediência ao cosmo, pois esta é uma das condições de sua doutrina estóica, não se deve questionar, pelo fato de que o deus cosmo sempre sabe o que está fazendo de melhor para cada homem estoico. No entanto, esta relação de obediência se mantinha porque de acordo com a doutrina estóica todos os homens eram comuns uns aos outros, ou seja, não importava seu posto, pois não havia hierarquia entre eles. Segundo o Estoicismo, ter muitos bens não importam na questão da liberdade. Porém, para Sêneca, a liberdade é ser autossuficiente, como já pontuado, portanto imaginasse que a pessoa rica tem mais condições para ser autônoma, mas o autor latino afirma que ainda assim, sendo ele mesmo rico, essa riqueza não é importante. Pois na medida que ele tem mais liberdade ele ainda é tentado pelos sentimentos, que como já explicado são maléficos na visão estoica. Sêneca, então, tentava viver com seus bens sem ostentá-los e tentando ao máximo ter menos despesas para que assim alcance a tão almejada felicidade. Embora, a vertente estóica tenha impulsionado o modo de vida do filósofo Sêneca, vê- se que ele tem aprofundado em algumas questões que foram tidas como dicotômicas, como por exemplo a relação de liberdade pessoal e o destino que controlaria o comportamento dos mortais. Antes de tudo, é importante destacar que Sêneca viveu numa época extremamente conturbada, onde assassinatos, traições e hipocrisias regiam o mundo político. Logo, tais fatores influenciaram a filosofia desse pensador. Para ele, os talentos inatos, características físicas e capacidades cognitivas são determinados pelo destino, já que não há uma possibilidade de escolha. Contudo, a liberdade está exatamente nas ações com que o homem irá tomar de acordo com os determinismos impostos pela natureza. Entende-se, desse modo, que o homem, por meio da razão, possuiria a consciência moral de escolher, dentre as circunstâncias possíveis,o melhor caminho para se ter uma boa vida. Porém, para realizar tal feito, é importante superar os sofrimentos dos homens que surgem de um erro de julgamento, que são ocasionados pelos desejos e medos exagerados, uma vez que esses sentimentos corrompem a percepção dos homens. Nessa perspectiva, a fortaleza interior consiste em buscar apenas o bem moral A filosofia senequiana prega que a morte, sendo natural, é a libertação de todo mal. Com base neste ideal, a filosofia seria usada como uma ferramenta usada para educar o homem, pois ela faz o indivíduo crescer espiritualmente e racionalmente, posto que, assim, a morte não seria temida. Sêneca não defende o suicídio em qualquer circunstância, dado que ele não defende esse ato para evitar a dor física, Porém, quando existem condições exteriores que impedem o ser humano de ter uma vida agradável, essa prática é justificada. Exemplo disto é que as condições políticas da época podem privar um indivíduo de ter uma vida tranquila. Nesse aspecto, o suicídio se faz necessário para defender a dignidade humana. Essa reflexão pode ser notada diante das seguintes palavras proferidas por Paul Veyne. “[..]Seneca morre, agradecendo ao deus estoico por lhe ter dado meios intelectuais de morrer por vontade própria.” ( VEYNE,p.235) Diante tudo isto, concluímos que em Sêneca, esse auto domínio ocorre através da liberdade da alma,aprisionada ao corpo, por meio de um processo. Este processo se inicia com a filosofia ( técnica da vida satisfatória e feliz; modo de vida), conquistada pela sabedoria. Essa sabedoria é a raiz da liberdade, uma vez que o homem tem ciência do que é importante e preciso. Esse nível de sabedoria é alcançada pela fuga interior,quando o homem começa a tentar se conhecer. Além disso, essa fuga interior possibilita a autarquia no homem,o tornando assim livre, pois ao chegar nesse patamar, onde ele consegue um alto nível de indiferença, as coisas ao seu redor não o influencia mais, nem o afeta. Portanto, ele fica mais próximo das virtudes dos deuses. O homem consegue através dessas virtudes, ser sábio e ter liberdade. Todavia, vale ressaltar que ele não conseguiu esta proeza, visto que ele não se considerava sábio. No livro conseguimos observar o processo descrito acima. Sêneca vivia no âmbito político e era conselheiro do imperador Nero, porém ele sempre se interessou pela filosofia e portanto, desejava a verdade, a felicidade, a ataraxia. Porém por estar dentro desse meio percebeu logo que aquilo não o ajudaria em sua caminhada. Isso porque o ambiente político e principalmente, o imperador Nero, eram sujos, ruins, errados, causavam o caos.e assim sendo, só o afastava mais da ataraxia, com isso, ele decide sair desse espaço corrompedor e se volta para si, para a filosofia. É importante destacar que se não consegues autoconhecimento de si, se não usas a razão e logo não tens uma vida digna, é preferível a morte. “ A vida te agrada? Então, vive. Não te agrada? És livre de regressar ao lugar donde vieste”. (Sêneca) REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA VEYNE, Paul; *Sêneca e o Estoicismo*; Tradução de André Telles. São Paulo: Três Estrelas, 2016.