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22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 1/82 Unidade 04 0 Aula 01 Diferenciação entre Estereotipia e outras Estruturas Cognitivas Olá, estudante. Aqui nosso foco estará concentrado no estudo da diversidade cultural. Nesta aula, estudaremos a diferenciação entre estereotipia e outras estruturas cognitivas. Boa aula! Conceitos Básicos Alguns conceitos básicos são necessários para melhor compreensão da de�nição de diversidade, inclusão e multiculturalismo. Mesmo antes de se identi�carem com um ou mais grupos, os indivíduos desenvolvem estruturas cognitivas (ALLPORT, 1935), que são formas de se organizar o que conhecemos. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 2/82 Nós somos expostos a um número enorme de informações, de estímulos, todos os dias. Sem essas estruturas cognitivas, não conseguiríamos organizar nem armazenar essa quantidade tão grande de dados. Você já se deparou com os letreiros do shopping da sua cidade? Aquela in�nidade de luzes, palavras, �guras, coisas piscando... sem estruturas cognitivas, jamais conseguiríamos processar aquilo tudo. É por isso que acabamos nos focando em um ou dois letreiros apenas, enquanto que os outros “saem de foco”. O que nos faz conseguir “apagar” as demais informações e apenas nos concentrarmos em um número limitado delas são as estruturas cognitivas. Temos que saber que o ser humano tem uma capacidade muito limitada de processamento de informações. Aliás, mais limitada do que alguns outros animais. O tubarão, por exemplo, consegue processar muito mais informações olfativas do que nós. Um cachorro processa mais informações auditivas do que nós. Assim, o nosso cérebro desenvolve maneiras de �ltrar aquilo que os nossos órgãos dos sentidos captam, ou percebem, e processam apenas aquilo que é interessante para nós. A percepção é diferente da cognição. A percepção se refere à captação desses dados do meio e o envio para o córtex cerebral. Depois, o que fazemos com isso, é função das estruturas cognitivas. Uma das mais básicas estruturas cognitivas que temos são os esquemas. Os esquemas nada mais são do que redes de informação organizadas e mentalmente interconectadas, baseadas nas experiências pessoais e sociais anteriores. São como se fossem “caixinhas” que criamos para armazenar as informações. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 3/82 Quem já teve a oportunidade de ver como os Correios e Telégrafos separam as cartas e outros documentos que chegam, antes de serem distribuídos nos endereços dos destinatários, poderá ter uma boa ideia do que são os esquemas. Todos os dias, milhares de cartas (sim, ainda há pessoas que enviam cartas!), pacotes, encomendas etc. chegam aos Correios. Por meio do número do CEP (que é uma forma de categorização, semelhante às maneiras que categorizamos os grupos, conforme discutimos antes), os funcionários distribuem esses materiais em escaninhos, que representam bairros, regiões da cidade ou mesmo ruas. Depois é que esse material, que foi alocado em escaninhos especí�cos, é repassado ao carteiro que irá entregá-lo na sua casa. Os esquemas são parecidos com esses escaninhos. São formas de se organizar a informação. São critérios que usamos para saber que algo que experimentamos ou vimos, por exemplo, se parece a algum odor, ou cor, ou lugar. Você já comeu ou conhece alguém que comeu alguma carne de caça, como carne de jacaré, por exemplo? Quando perguntada com o quê se parece o gosto da carne de jacaré, a pessoa pode responder: “se parece à carne de frango”. Essa pessoa acabou de usar um esquema já estabelecido, a “caixinha” do gosto da carne de frango, para classi�car algo novo. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 4/82 E é assim que fazemos. Nós criamos esquemas, que são essas categorias cognitivas, para classi�car novas informações. Esses esquemas, assim como todas as outras estruturas cognitivas, são aprendidas. Não nascemos com esses esquemas prontos. Eles são desenvolvidos pela nossa criação, na escola, e no aprendizado do dia-a-dia da sociedade. Outra estrutura cognitiva são os protótipos ou modelos mentais criados sobre as qualidades típicas de certos grupos (e.g., líderes, criminosos, idosos). Nós aprendemos que líderes são poderosos, que criminosos não seguem as normas sociais estabelecidas, que idosos têm capacidades limitadas, que médicos podem nos curar ou diminuir a nossa dor e assim por diante. A de�nição do que é um representante de um grupo, o que é um líder, um criminoso, um idoso ou um médico “típico” são os protótipos. Uma vez criados, nós usamos essas estruturas para julgar situações atuais. Essas estruturas propiciam a categorização de outros indivíduos em grupos e a generalização para demais grupos e pessoas. Assim, conforme descrito por Pérez-Nebra e Jesus (2011), cognitivamente os seres humanos processam as informações sobre pessoas e grupos da seguinte forma: primeiro, juntamos pessoas em grupos para que possamos interagir com elas. Caso não �zermos isso, cada pessoa nova que aparecesse na nossa frente 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 5/82 não saberíamos o que fazer, seríamos catatônicos. Ou seja, se vemos alguém vestido de terno e gravata vamos reagir diferente de alguém vestido com chinelo e bermuda. Depois, e a partir deste agrupamento, fazemos julgamento sobre esses grupos. Assim, agrupamos os biólogos, advogados, heterossexuais, homossexuais e demais grupos, e julgamos que “heterossexual é normal e homossexual não é normal”, pessoas que fazem “biologia são bacanas e advogados são formais”. Destaca-se que nós agrupamos várias pessoas em vários grupos e que nós mesmos fazemos parte de diversos grupos sociais: homens, mulheres; jovens, adultos, idosos; orientação sexual, religiosa; cor de pele, formação acadêmica etc. Finalmente, o comportamento que ocorre em acordo com o julgamento que fazemos. Este é o momento que estamos com alguém que faz biologia e como nos comportamos na mesa do boteco, ou como tratamos um homossexual quando somos apresentados a ele ou ela. Essa categorização está intimamente associada ao processo de estereotipia, ou a generalização de crenças sobre características, positivas, negativas ou neutras, de um determinado grupo para todos os indivíduos pertencentes a esse grupo (DEVINE, 1995), que não necessariamente se relaciona às atitudes ou aos comportamentos perante o grupo em questão. O preconceito pode ser mais bem pensado como uma atitude negativa, com grande carga afetiva, perante um grupo e seus integrantes, que considera as diferenças entre os grupos como fraquezas. Finalmente, a discriminação se relaciona ao comportamento em si, a uma ação advinda do preconceito (SMITH; BOND, 1999; DEVINE, 1995), que quando institucionalizada é responsável pela formação de ismos sociais, como o racismo, sexismo, heterosexismo, entre outros. Vamos falar mais sobre esses conceitos a seguir. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 6/82 O Início dos Processos Antes ainda de entrarmos especi�camente nos conceitos que são chave para a compreensão da diversidade e inclusão, retomemos alguns pontos sobre contato intergrupal que discutimos antes. Como vimos, as pessoas se identi�cam e se classi�cam em várias categorias sociais e, por diferentes fatores situacionais, algumas dessas categorias se tornam mais salientes que outras em determinados momentos. Contudo, a percepção de uma identidade exige a existência de outra em contraste ou oposição (TAYLOR; MOGHADDAM, 1994). Um indivíduo que nunca tenha entrado em contato com umestrangeiro, não se VÍDEO Uma divertida forma de se compreender o que é o estereótipo é apresentada no vídeo abaixo: 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 7/82 identi�ca como brasileiro. O próprio termo identidade tem o sentido de idêntico, de mesmo e o reconhecimento das semelhanças pressupõe a existência de diferenças. A identidade está nas fronteiras e não na cultura que essas fronteiras encerram (GALINKIN, 2003). Existem quatro princípios básicos da identi�cação grupal. Em primeiro lugar, deve-se observar que identi�cação com um grupo social é um processo cognitivo, ou seja, que se relaciona à aquisição de conhecimento através da percepção. Como processo cognitivo, a identi�cação grupal não é necessariamente comportamental, não podendo tampouco ser equiparada à internalização – um processo essencialmente individual, no qual se assume os valores e modos de conduta de um outro indivíduo. Contudo, uma vez identi�cado com um grupo, o indivíduo experiencia os sucessos e fracassos desse grupo como seus, sentindo os prazeres e sofrimentos associados a esses sucessos e fracassos. Finalmente, é importante notar que a identi�cação com um grupo é similar à identi�cação com uma pessoa; todavia, é essencial para a identi�cação grupal que esse grupo seja um referente social, que tenha importância e relevância social (GALINKIN, 2003). A identi�cação com um grupo leva ao contato previsível entre grupos. Este contato salienta, naquele momento, uma ou mais identidades grupais. É interessante notar, porém, que não necessariamente os grupos devem estar �sicamente presentes para que haja o contato. Uma vez que o processo de identidade grupal se concretizou, seguindo os quatro princípios descritos acima, é apenas necessário que indivíduos de diferentes identidades grupais se conectem para que o contato intergrupal aconteça (ALFINITO; CORRADI, 2011). Cada indivíduo leva assim as posições e expectativas de seu(s) grupo(s). Cada indivíduo enxerga o mundo através das lentes daquela identidade social, agora saliente. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 8/82 Por exemplo, imaginemos uma situação quando, em uma mesa de bar, dois colegas, um rapaz e uma moça da mesma universidade que comentam sobre assuntos da faculdade, começam, por uma eventualidade, a discutir sobre diferenças de gênero na forma de dirigir. Neste momento o homem ou a mulher podem sentir a necessidade de responder como um(a) representante de todos os demais membros daquele grupo e podem expressar opiniões não necessariamente endossadas por eles, individualmente, mas que representam a maioria do seu grupo. O ponto demonstrado evidencia que essa interação não envolve apenas duas pessoas. Ela deixou de ser uma interação interpessoal. Ela passou a ser uma interação intergrupal, entre dois grupos de identidade distintos (i.e., masculino e feminino), e que muitas vezes estão em oposição. Claramente, nem sempre haverá um con�ito entre as identidades grupais. O que deve ser notado é que no decorrer desse contato intergrupal, várias outras estruturas cognitivas estavam em ação, notadamente os estereótipos. O Estereótipo O fenômeno do estereótipo é provavelmente o mais básico e um dos mais importantes quando discutimos diversidade e inclusão, no sentido em que se insere no campo das relações de dominação, exploração, segregação e isolamento. Rodrigues (1996) exempli�ca tal a�rmação ao conceber que os estereótipos se apresentam como preditores de comportamentos, de modo que o conhecimento dos estereótipos das pessoas, em relação a determinados objetos, permite a formulação de inferências acerca da probabilidade de ocorrência de certos 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 9/82 comportamentos. Tais inferências podem ser descaradas ou sutis e são cognitivas, já o afeto advindo desta inferência é denominado preconceito (PÉREZ-NEBRA; JESUS, 2011). Sem o estereótipo não é possível existir o preconceito. Por isso que é tão importante compreendermos bem o que ele signi�ca antes de partirmos para outros conceitos que também são centrais no estudo da diversidade. O estereótipo é uma atribuição de crenças que se faz a grupos ou pessoas (conscientes ou inconscientes). Desta maneira não é possível ter um estereótipo de um jornal, mas sim de jornalistas. Etimologicamente, deriva de duas palavras gregas túpos e stereos que signi�cam traço rígido, respectivamente (RODRIGUES; ASSMAR; JABLONSKI, 1999). Estereótipo refere-se, portanto, a crenças e atributos compartilhados sobre um grupo. Estas crenças compartilhadas são generalizações que se fazem sobre os grupos. Há uma tendência geral humana a generalizar a partir de similaridades que ela percebe e não se foca no que é diferente. Pelo fato de termos que reagir de maneira relativamente rápida, nos baseamos no que é comum a nós e a partir daí formamos generalizações, que podem estar corretas, ou não. Além disso, estereótipos podem ser positivos, negativos ou neutros e apresentam intensidades diferentes (PÉREZ-NEBRA; JESUS, 2011). Considerando que o estereótipo é uma crença, e a crença é uma estrutura cognitiva relacionada a um objeto, o estereótipo pode ser considerado como sendo o componente cognitivo do preconceito. Veja, porém, que não termos um estereótipo é algo impossível. O estereótipo é necessário para a sobrevivência VÍDEO Veja um vídeo sobre como podemos ligar os estereótipos ao preconceito: 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 10/82 do ser humano. Ele é útil para vivermos em sociedade e interagirmos com outros seres humanos. A di�culdade enfrentada neste caso é de que o estereótipo seja rígido e de que nos baseemos apenas nele para interagirmos. Como são baseados em generalizações bastante super�ciais, comumente nos impede de vermos as diferenças individuais, o que é o comum na maioria dos casos. Mas podem ser bastante funcionais e conquanto sejam baseados em algum levantamento ainda que assistemático, pode nos facilitar a interação com as demais pessoas (SMITH; BOND; KAĞITÇIBAŞI, 2006). Os estereótipos participam também, de maneira essencial, na formação da autoimagem das pessoas, de modo que, segundo Margareth Mead, as pessoas geralmente acreditam nos estereótipos acerca delas mesmas e se comportam como se fossem verdadeiros, endossando os estereótipos grupais no sentido de os transformarem em descrições de suas identidades (PÉREZ-NEBRA; JESUS, 2011). O estereótipo reduz a necessidade de atenção e processamento de informação do indivíduo, assim o indivíduo economiza energia e pode estar atento a outras questões na interação. Ele categoriza e simpli�ca um mundo social complexo. Outra função do estereótipo está em organizar a maneira como vamos interagir com o nosso grupo social ou qualquer outro grupo. Assim, decidimos como vamos reagir com uma pessoa baseado nesse estereótipo. Esta estratégia ocorre porque ligamos pessoas a algum grupo social conhecido de nós, ou que já ouvimos falar. Pode ser um viés cultural (essa pessoa é Italiana) ou por ela ser de um sexo especí�co, ou qualquer outra informação que tenhamos em mão. A partir daí assumimos que esta pessoa tem muito em comum com este grupo que conhecemos e vamos nos comportar desta maneira. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 11/82 Alguns estereótipos que podemos pensar estão na família brasileira, no nordestino ou sobre as mulheres. A família brasileira é de�nida pelos órgãos de pesquisa como o IBGE como contendo o pai, a mãe e uma média de 2,8 �lhos. Quantas famílias que você conhece são efetivamente assim? Outra questão a ser discutida que é muito frequente de ser ouvida sobrea família nordestina é que há uma taxa de crescimento muito grande nesta região. Além disso, é típico atribuir fragilidade a mulher. Será que todas se comportam da mesma maneira e são assim realmente? Vamos veri�car estas a�rmações: a média de habitantes por domicílio é abaixo de 4 (3,8 pessoas) o que signi�ca só com isso a impossibilidade de uma família típica ser de 5 pessoas Esta relação mantém-se estável tanto na área urbana quanto na rural (IBGE, [2010]).O IBGE ([2010]) apresentou que o Nordeste hoje é uma das regiões com menor taxa de crescimento anual, por motivos que não são os melhores (alta taxa de mortalidade infantil e migração). A mulher vive hoje em média pouco mais de 8 anos a mais do que os homens, neste caso, quem é frágil? Além disso, as mulheres são responsáveis por suas residências em quase 30%. Ou seja, 1/3 das casas hoje é sustentada por mulheres, sendo a cidade de Salvador onde as mulheres mais são responsáveis pelos lares (quase 40%). Número impensado há 20 anos atrás. Este dado interroga sobre dois pontos, a questão da família típica e da mulher típica. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 12/82 Um dado curioso é que a pouca informação sobre um grupo não in�uencia na possibilidade de formarmos um estereótipo. Nós formamos estereótipo de qualquer grupo de pessoas ou de uma pessoa individualmente, mesmo com pouca informação. O difícil torna-se depois mudar este estereótipo, pois mesmo com muita informação, costumamos nos basear nas primeiras que tínhamos, já que �cam arraigadas. Desta maneira, transmitir informações parece não ser um método adequado para a mudança do �uxo: estereótipo, preconceito e discriminação. Os estereótipos agem de modo tal que o mero conh ecimento de que um estereótipo existe, acerca de um grupo social, pode afetar negativamente o desempenho de membros desse grupo em tarefas em que os estereótipos se tornam fatores relevantes (PÉREZ-NEBRA; JESUS, 2011). Por exemplo, ter um estereótipo de que japoneses são bons em matemática, pode alterar negativamente o fator de que ele seja bom gerente, já que são bons apenas em matemática. A ativação do sistema cognitivo para tomarmos decisões baseados nos estereótipos está pautada em uma ativação automática que nos esforçarmos ao mínimo para buscarmos aquela informação. Normalmente ligada a crenças muito disseminadas culturalmente. Mas a boa notícia é que após esta ativação automática é possível re�etir sobre ela e controlá-la. Criar uma ativação ponderada fazendo uma avaliação e revisão desta crença que temos sobre 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 13/82 aquele grupo ou membro dele é uma das maneiras de fazê-las. Esta ativação controlada é uma das possibilidades de freio ou redução do preconceito e posterior discriminação (DEVINE, 1995). Smith e Bond (1999) sugerem que se soubéssemos mais sobre o grupo, como por exemplo, o quão individualistas, hierárquicos e expressivos aquelas pessoas daquela nação ou região são, provavelmente teríamos menos desentendimentos entre as culturas. Eles relatam dois estudos realizados na Europa sobre heteroestereótipo, onde mesmo depois de 10 anos, os estereótipos se mantiveram estáveis para as nações estudadas. Então, �ca uma questão: Será que estes estereótipos são colocados pelos outros grupos, ou será que nós, como membros do grupo também o mantemos? Vimos que a autoimagem é impactada pelo estereótipo, mas será que o contrário é verdadeiro? De certa forma o que ocorre quando um estrangeiro vem ao país e é assediado por muitas mulheres, de todas as classes sociais, é um re�exo disso; ou da corrupção que ocorre no país, pois acreditamos que somos assim e não é possível mudá-la entre outras. Este é um exemplo de que a resposta para esta pergunta é a�rmativa, estudos sustentam que o heteroestereotipo e o autoestereotipo convergem. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 14/82 Unidade 04 1 Aula 02 De�nição e Dinâmica do Preconceito Veremos nesta aula sobre o preconceito. O que o de�ne? Podemos medir o preconceito de alguém? Essas são as temáticas que estudaremos aqui. Boa aula! Preconceito: De�nição e Origem A palavra preconceito vem do latim praeconceptu e se refere a um conceito ou opinião formados antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos; ou um julgamento, ou opinião, formada sem se levar em conta o fato que os conteste; e ainda uma suspeita, intolerância, ódio irracional ou aversão a outras raças, credos, religiões (Novo Dicionário Aurélio). Relembrando o que vimos anteriormente, o preconceito nada mais é do que uma atitude. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 15/82 Lembremos que uma atitude é formada por um aspecto cognitivo, afetivo e de intenção comportamental, certo? No caso do preconceito, esse afeto é sempre negativo e nunca positivo. Ou seja, não existe preconceito positivo. O preconceito é sempre uma atitude negativa com relação a algum grupo, por alguma característica atribuída a ele. A causa do preconceito não é clara na literatura (PÉREZ-NEBRA; JESUS, 2011). Alguns autores argumentam que pode ser inerente à natureza humana, outros que advém de um processo de aprendizagem ou do contexto social e cultural do indivíduo. Estes processos não são excludentes, pelo contrário, são fatores com uma relação dinâmica e recíproca entre eles. Sabemos que todos in�uenciam em magnitudes diferentes a formação deste fenômeno tão complexo que é o preconceito. O preconceito, componente afetivo, tem relação e interage com a cognição. Sabemos também que as respostas afetivas são mais rápidas e mais intensas que as respostas cognitivas e que elas vêm de uma cognição avaliada, internalizada ao longo de anos (muitas vezes inconscientemente) e que podem gerar comportamentos. Essas emoções especí�cas têm um grupo especí�co como alvo e saber controla-las ou evita-las auxilia no processo de diminuição do preconceito e da discriminação (FISKE; TAYLOR, 2008). Algumas pesquisas relatam que a formação de atitude, e por sua vez do preconceito, são inerentes à natureza humana por se tratar de um mecanismo de defesa e de interação social. Outros ainda a�rmam que o preconceito pode ser uma expressão patológica do ser humano e assim fazer parte, por exemplo, da sua personalidade (DEVINE, 1995). E outros que há também um componente biológico nessa formação, para facilitar e agilizar comportamentos (FISKE; TAYLOR, 2008). 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 16/82 Havia uma teoria que foi criada nos anos de 1950, ou seja, logo depois da Segunda Grande Guerra, que propunha que o preconceito tinha origem em um traço de personalidade especí�co. Quando falamos de traços de personalidade, vem à mente uma ideia de coisas inatas, pois vários das características da personalidade são assim, inatas. Supunha-se que esse traço, que Adorno e colegas chamaram de autoritarismo, explicaria o preconceito e suas consequências mais graves, como aquelas ocorridas no holocausto, no decorrer da guerra. Adorno estava convencido que os movimentos nazistas e fascistas só puderam ocorrer porque as pessoas neles envolvidas carregavam o traço de autoritarismo. Por isso, tantas atrocidades puderam ser cometidas. Esses autores acreditavam que pessoas que carregavam esse traço de personalidade tinham sido criadas por pais obcecados por status (e da classe trabalhadora), que queriam transformar seus �lhos em adultos da classe média. Esses pais autoritários e punitivos criam adultos obedientes e conformistas, levando a uma relação que é o protótipo da autoridade idealizada, o qual se opunham a indivíduos não-conformistas (ou que nãocompactuam com as normas vigentes). Assim, o preconceito surgiria desta oposição. Essa teoria caiu por terra algum tempo depois de ter sido criada, por alguns motivos. Primeiro, porque estilos duros de criação nem sempre levam a indivíduos preconceituosos. Além disso, algumas pessoas com preconceito não 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 17/82 teriam um tipo de personalidade autoritária. Isso explicaria porque há preconceito com relação a alguns grupos, mas não a outros. Mas, principalmente, essa teoria não explica como grupos sociais (e.g., neo-nazistas) discriminam. Pelo modelo, todos os membros do grupo teriam personalidades autoritárias, o que é improvável. Teorias de contato intergrupal (como a Teoria da Identidade Social, que vimos antes) apresentam explicações bem mais plausíveis do que as propostas por essa teoria. Assim, sabemos hoje que o preconceito ocorre por aprendizagem. As pessoas aprendem a serem preconceituosas, não nascem assim. E essa aprendizagem ocorre de maneira sutil, como por exemplo, em �lmes que são exibidos em grande circulação, na escola e em casa. Questões culturais como a empregada doméstica entrar pela porta dos fundos para não ser vista, ter uma cozinha americana (em que todos se olham), e ao comer, ela se esconde e não come junto aos patrões ensinam padrões de comportamentos aceitos pelos grupos sociais (PÉREZ-NEBRA; JESUS, 2011). O papel educativo é fundamental na formação dos preconceitos. Nas palavras de Karagiannis (1999, p. 21), “excluded ga exclusão nas escolas lança as sementes do descontentamento e da discriminação social. A educação é uma questão de direitos humanos (...)”. No contexto escolar, principalmente o acadêmico, o trabalho de Allport no campo dos estereótipos negativos, analisado por Marx, Brown e Steele (1999), estipula que, entre estudantes, a presença de educadores que são membros competentes de grupos minoritários propicia o aumento dos níveis de desempenho pelos alunos. Este dado é uma das justi�cativas de ações a�rmativas (cotas) em universidades para grupos excluídos e para a diminuição do preconceito e consequentemente da discriminação, que trataremos em outra aula. Difícil é dizer quem é negro no Brasil! Hoje, diversas teorias e modelos explicam o surgimento do preconceito. A literatura está cheia desses modelos e sugerimos a leitura de textos já clássicos, como por exemplo Mor Barak (2011) para quem quer se atualizar sobre o assunto. Uma dessas teorias é a do Racismo Sutil, que basicamente pode ser traduzida pela seguinte ideia: 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 18/82 “dada a oportunidade de se ajudar a uma pessoa negra e outra branca, brancos ajudariam menos aos negros”. Mas outros modelos também buscam explicar o que hoje é conhecido como preconceito Moderno ou Sutil: o modelo do preconceito simbólico traz a ideia de que : “raiva dos negros não é mais justi�cada, uma vez que a discriminação não é mais um problema”. Assim, os negros e outros grupos discriminados sofrem preconceito por conta de uma ameaça percebida, isto é, a crença de que aquele grupo representa uma ameaça ao bem-estar individual. Uma justi�cativa econômica é dada ao preconceito, o que o torna sutil. Já o modelo do Racismo Ambivalente pressupõe que o preconceito representaria uma ambivalência, da seguinte forma: “os negros estão em desvantagem (logo, merecem ajuda) e são desviantes dos valores estabelecidos (não seguem as regras convencionais da sociedade)”. Assim, quanto mais intensa a ambivalência, mais forte seria a resposta do preconceito. O modelo de Devine (1995) é um modelo muito in�uente na literatura hoje em dia. A autora propõe o modelo da Dissociação, que sugere que as pessoas aprendem estereótipos culturais muito cedo, antes mesmo que possam avaliar criticamente a validade desses estereótipos. Tais estereótipos, então, tornam-se ativados de maneira automática. Contudo, as crenças pessoais (que podem complementar ou contradizer os estereótipos culturais) são desenvolvidas mais tarde. Por serem menos práticas, essas crenças são menos automáticas. Os indivíduos, então, automaticamente ativam seus estereótipos, ou os controlam com suas crenças, dependendo do nível de preconceito aprendido. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 19/82 Podemos Medir o Preconceito de Alguém? Há muito tempo, praticamente desde que a as ciências sociais começaram a se preocupar com o preconceito, junto veio a preocupação de como poderíamos medi-lo. Para mensurar o preconceito em crianças, uma estratégia interessante foi desenvolvida por Kenneth Bancroft Clark (1914-2005) – o primeiro psicólogo negro a obter doutorado em Psicologia pela Universidade de Columbia (EUA). Foi no ano de 1939 que Clark aplicou pela primeira vez o teste em grupos de crianças negras e brancas. O teste consistia em exibir quatro bonecas para as crianças – duas eram negras e duas eram brancas -, e requeria- se que as mesmas atribuíssem às bonecas determinadas características: bonita, boa, má, chata etc. Tanto em 1939, como depois em 1950 - quando Clark refez o experimento -, uma maioria esmagadora de crianças, tanto negras quanto brancas, atribuiu às características de boa e bonita às bonecas brancas e de�niram como má às bonecas negras. VÍDEO Em 2005, Kiri Davis objetivou averiguar se no transcorrer desses 55 anos algo havia sido modi�cado. Para isso a diretora montou o mesmo experimento e o registrou em um documentário entitulado Uma garota como eu (A girl like me). Assista ao documentário completo: 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 20/82 Das 21 crianças negras que participaram do seu documentário, 15 escolheram a boneca negra como sendo má. Dessa maneira, pode-se a�rmar que no que diz respeito à percepção que as crianças negras produzem sobre si mesmas quando a tensão racial está em jogo muito pouco foi alterado. Este estudo pode ser mudado com bonecas diferentes (ex.: princesas Disney; bonecas de pano; Susi e Barbie entre outras). Em adultos esta estratégia não seria e�caz, assim elaborar uma descrição de requisitos para uma vaga de emprego ou estágio e um currículo elegível seria outra possibilidade. A única diferença entre os currículos será no primeiro nome e na foto do currículo. Hoje em dia, também há trabalhos com imagem de ressonância magnética e saber qual área do cérebro está ativada quando determinadas �guras são apresentadas, ou com o tamanho da dilatação da pupila (FISKE; TAYLOR, 2008). Vale reforçar, porém, que o preconceito é diferente da discriminação. Enquanto que o preconceito, conforme discutimos antes, é uma atitude, a discriminação é um comportamento. Os dois não são sinônimos, já que uma pessoa pode ter preconceito e não discriminar, ou pode discriminar sem ter um preconceito, mas sim um estereótipo positivo, conforme falamos antes no exemplo sobre um asiático e cargos de gerência que citamos antes. Como falamos antes, nós criamos mecanismos cognitivos para podermos processar a quantidade de informações a que somos expostos. Isso nos transforma em avaros cognitivos, ou seja, evitamos pensar diferente e agirmos diferente do que já estamos habituados. Assim evitamos o desgaste de energia e tempo para o organismo, o que é funcional para o organismo e para a sociedade (FERES, 2006). Por outro lado, também faz com que acabemos por agir quase VÍDEO Você pode assistir uma síntese dos resultados no seguinte vídeo: 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 21/82 que mecanicamente, já que evitar pensar evita também rever sentimentos e características atribuídas, e assim, quando possível, conação e comportamentoconvergem. Logo, nós nos comportamos de maneira discriminatória com grupos sociais por sermos guiados pela lei do menor esforço, só não agimos assim quando algo no ambiente não permite. As diversas formas de discriminação são institucionalizadas nas organizações por meio de sistemas de opressão social amplamente conhecidos como os “ismos”, que nos referimos antes: racismo institucional, machismo, homofobia, entre outros. Tais práticas, em geral relacionadas ao assédio moral, podem convergir em qualquer forma de violência. No caso da homofobia, por exemplo, entendida como “medo, aversão ou ódio a homossexuais”, essa discriminação socialmente estabelecida tende a desembocar em um crime homofóbico, entendido como toda espécie de agressão, física, verbal ou psicológica, contra a pessoa natural em função da orientação sexual homoerótica da vítima ou do agressor, ou contra a pessoa jurídica em função de sua natureza ou funções de apoio à população homossexual, bissexual ou transgênero. Cada vez mais programas de mudança e de gestão da diversidade têm sido criados por �nanciamento internacional para lidar com o desa�o de enfrentar a estruturação dessas discriminações nos vários tipos de relações trabalhistas. Falaremos deles mais a diante. Por agora, basta lembrar aqui que as manifestações da discriminação se apresentam em todas as dimensões das relações de exploração, especialmente nos mundos do trabalho. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 22/82 Unidade 04 2 Aula 03 Diversidade Cultural Nesta aula, objetiva-se de�nir a diversidade cultural. Veremos suas dimensões e qual é a consequência da valorização das diferenças. Boa aula! Como Entendemos Diversidade? Conforme dito acima, cada vez mais programas de gestão da diversidade têm sido estabelecidos para se tentar reduzir ou eliminar o preconceito e, principalmente, a discriminação nas organizações, escolas, universidades e sociedade em geral. No nosso caso, temos que observar que o Brasil se destaca na literatura internacional como um dos principais exemplos de grupos sociais diversos convivendo em aparente harmonia. Porém, a palavra aparente aqui merece destaque. O tema da diversidade cultural vem conquistando crescente espaço na agenda de muitas organizações mundo a fora (tanto públicas, quanto privadas, além do terceiro setor), representando um movimento universal e irreversível nas 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 23/82 sociedades atuais. Todavia, muito ainda precisa ser feito para a gestão da diversidade nas organizações brasileiras. Ao mesmo tempo em que o Brasil �gura entre as maiores economias globais, permanece com indicadores sociais de uma das sociedades mais desiguais do mundo (Instituto Ethos de Responsabilidade Social [ETHOS], 2010). Embora sendo referência mundial de um grupo cultural diverso, o campo de estudos em diversidade cultural no Brasil ainda é muito incipiente com raras práticas sistematizadas na área de Gestão de Pessoas (ex.: Jabbour; Gordono; Oliveira; Martinez; Battistelle, 2011), a despeito das leis, dos planos nacionais relacionados à mulher, raça e homossexualismo; e do movimento político relacionado à inclusão não apenas nas organizações "tradicionais", mas em escolas e outras instituições e contextos (Ferdman; Dease, 2013). As empresas que ignoram este fato perdem potencial competitivo. Dessa forma, é importante compreender a diversidade e geri-la, obtendo, assim, o máximo de vantagens. As primeiras publicações cientí�cas nacionais datam do início dos anos 90, deixando clara a necessidade de que estudos sobre a área acompanhem a mudança da força de trabalho brasileira. A maioria da força de trabalho dentro das organizações tem modi�cado suas características depois dos anos 80 (BENTO, 2000; COX, 1994), mas as primeiras e talvez mais severas ocorreram no período das guerras na Europa e no pós-guerra quando as mulheres e negros começaram a adentrar no mundo das organizações e depois desta grande mudança, o mundo das organizações e a própria sociedade produtiva cada vez se diversi�cou mais. Portanto, além de ser um fenômeno muito recente na história, ele está ligado a uma contingência e necessidade localizada, impactando diretamente no fazer: como trabalhar, onde trabalhar, com quem trabalhar? 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 24/82 O aumento da diversidade da força de trabalho ocorre em dimensões tais como gênero, raça, nacionalidade, classe social, região cultural, idade, dentre outras (CASCIO, 2003). Porém, vale ressaltar uma dimensão que tem tido sua importância ressaltada nos últimos tempos, graças aos fenômenos de migração mundiais: aquela relacionada a diferentes grupos nacionais e étnicos. Como apontam Ferdman e Sagiv (2012), os campos da diversidade e transculturalismo nas organizações são claramente complementares. Ambos “se relacionam com e propõem variações importantes de in�uências contextuais em construtos e processos psicológicos” (Ferdman; Sagiv, 2012; p. 324), embora deem diferentes ênfases ao contato intercultural. Assim, observando-se os movimentos de migração mundiais e seu impacto no trabalho e nas organizações, o transculturalismo e a necessidade de desenvolvimento de competências interculturais têm ganhado cada vez mais espaço nas discussões sobre diversidade e inclusão (e.g., BENNETT, 2013). Graças a estas mudanças existe uma demanda para incluir o conteúdo de diversidade cultural na formação das ciências sociais (e.g. ROBBINS, 1999; SPECTOR, 2010). 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 25/82 Um mercado de recursos humanos diverso requer pessoal capacitado para gerí- lo (e.g., Ferdman, 1995; Thomas; Ely, 1996). Embora a heterogeneidade no mercado brasileiro de recursos humanos seja uma realidade, são poucos os esforços observados que tratam diretamente da inclusão e diversidade nos diversos níveis: do pro�ssional que ali atua, nas políticas organizacionais ou na sua interação a sociedade em geral. Não �ca claro para você que todos os membros de todos os grupos têm que ser tratados de maneira justa, com igualdade de oportunidades e com representação em todas as funções e níveis da sociedade? É sobre isso que a diversidade se debruça (Holvino; Ferdman; Merrill-Sands, 2004). Diversidade signi�ca dizer que pessoas diferentes efetivamente ocupam posições diferentes, nos mais variados níveis. Qual impacto as diferenças demográ�cas relacionadas a gênero, raça, habilidade física, orientação sexual, idade, etnia, história cultural, dentre outros, têm no Brasil? Em um país de dimensões territoriais bastante amplas, como no caso do Brasil, espera-se que exista uma clara heterogeneidade na sociedade. As diferentes formas de compreensão da realidade, suas crenças e seus valores in�uenciam diretamente o contexto e as relações nas organizações, assim como as experiências individuais ali vivenciadas. Ainda que a diversidade cultural já faça parte dos estudos da antropologia há mais de 150 anos (Presotti, 2011), o assunto só começou a ser abordado na literatura das organizações e da VÍDEO Uma interessante discussão sobre a diversidade no Brasil é apresentada no vídeo abaixo: 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 26/82 administração nos últimos 30 anos (Jonsen; Maznevski; Schneider, 201). Nesse período, a diversidade tem sido de�nida de diferentes formas, além de tomada como sinônimo para tantos outros conceitos (cota, ação a�rmativa, inclusão), o que re�ete um de seus dilemas, segundo Nkomo e Cox (1999) a falta de especi�cidade de conceito. Diversidade no sentido estrito é simplesmente outro ponto de vista ou falar de variabilidade,mas pode ser entendida como a representação de pessoas com diferentes identidades grupais em um sistema social (Cox, 1994), com a divisão da força de trabalho em categorias distintas, mas com similaridades intragrupais percebidas em um contexto cultural, que exercem impacto sobre os resultados e relações de trabalho (Mor Barak, 2011), como também as variadas perspectivas que membros de diferentes grupos de identidade integram ao trabalho. A primeira de�nição é simples e não causa reações, as outras duas tendem a pensamentos favoráveis ou desfavoráveis a elas. As diferentes de�nições de diversidade apontadas na literatura são complementares, sendo que o coração do conceito de diversidade se refere às diferentes formas de se pensar o trabalho, as organizações, a sociedade, o mundo, assim como de se abordar as situações a ele relacionadas, que são profundamente enraizadas nas identidades sociais. Ao mesmo tempo, para a diversidade as “categorias, rótulos e identidades também importam, em si e por si” (Ferdman; Sagiv, 2012, p. 325). Diversidade e Inclusão 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 27/82 Já a ideia da inclusão é um pouco diferente da de diversidade. A inclusão começou a ser discutida no �nal do século passado, indo além da gestão da diversidade. Para Hayes (2002) a inclusão se refere ao julgamento ou percepção de aceitação das pessoas, sendo o sentimento de ser bem-vindo em uma sociedade ou organização, como membro daquele local em todos os seus níveis. Como sabemos, para os indivíduos, o sentimento de pertença a um grupo é fundamental (Mor Barak, 2005), sendo esse o foco da inclusão: a pertença. Assim, a inclusão vai além da diversidade e sua concretização depende do gerenciamento da diversidade de modo a criar um ambiente organizacional que possibilite a todos o pleno desenvolvimento de seu potencial na realização dos objetivos da empresa (Thomas; Ely, 1996). Inclusão, comportamentos de inclusão, experiência de inclusão, dentre outras (Ferdman; Davidson, 2002) são algumas das variações em que o termo aparece na literatura. Isso de certa forma contribui para que não se tenha um conceito claramente de�nido de inclusão. Porém, há um ponto de concordância entre a maioria dos autores: inclusão se relaciona ao modo como o individuo percebe que está sendo tratado (na e pela sociedade) por conta de características que os ligam aos grupos que pertence, tais como raça, de gênero, religião etc. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 28/82 Assim, o que importa aqui é o efeito do tratamento na pessoa e não o que o outro gostaria de ter feito. Intenção e efeito têm, na maioria das vezes, impactos diferentes. Indivíduos pertencentes a grupos de maioria, sistematicamente, se focam na primeira (como por exemplo, quando ouvimos “...mas minha intenção foi das melhores possíveis!”), enquanto que pessoas de grupos minoritários se focam no efeito (isto é, “...mas o resultado é que eu fui discriminado!”). Mor Barak (2000) também insere na de�nição de inclusão a participação do indivíduo nos processos formais e informais da organização (i.e. na hora do cafezinho), que são encontros onde informações e decisões �uem informalmente. A autora vê o local de trabalho inclusivo baseado em uma estrutura de valor pluralista que con�a no respeito mútuo e em contribuições iguais em perspectivas culturais diferentes para os valores e as normas da organização. Outras de�nições referem-se mais às condições objetivas como às práticas formais e informais e às políticas organizacionais. A exclusão social, por outro lado, é explicada por enfoques teóricos tão diversos quanto a Sociologia do Trabalho e a Administração, por exemplo. Pereira e Hanashiro (2010) sugerem a existência de uma prática institucionalizada de exclusão e discriminação, que tem resultados desastrosos para fatores como baixa satisfação com a vida, autoestima, perda do signi�cado do trabalho etc. Na sociedade não inclusiva as pessoas entendem que são obrigadas a conformar aos valores e normas daquela sociedade como um dever, uma obrigação, algo que não tem relações com o afeto positivo. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 29/82 Os aspectos subjetivos e objetivos da inclusão e exclusão não podem ser dissociados. Ou seja, as condições da sociedade podem ser interpretadas como tanto como inclusão quanto exclusão, mas seus efeitos em termos de oportunidades são concretos e podem ser objetivamente medidos. Apesar dos esforços acrescidos para recrutar e reter talentos diversos nas empresas, por exemplo, os membros de grupos minoritários continuam a enfrentar a discriminação, o isolamento social e os problemas de rotatividade. Esses resultados sugerem que a diversidade não é garantia da inclusão, o que reforça a necessidade de explorar os indicadores da inclusão, diferenciando-os daqueles da diversidade. Nesse sentido, com o intuito de compreender o processo inclusão-exclusão na sociedade em termos gerais, Mor Barak e Cherin (1998) sugerem que a percepção de inclusão está fortemente relacionada à satisfação, desempenho no trabalho e ao bem-estar. Isto é, a inclusão, e a ausência dela, afeta profundamente as nossas vidas. Ferdman et al. (2009) distinguem dois conceitos pertinentes à inclusão. Segundo os autores, por ser um fenômeno multifacetado, a inclusão pode ser operacionalizada em duas partes: sentir uma experiência de inclusão, o que quer dizer se sentir aceito, respeitado e valorizado tanto do ponto de vista da sua identidade individual, quanto social. É o próprio senso psicológico de que a pessoa está de fato sendo incluída. Ao serem incluídas, as pessoas têm um sentimento de justiça não só individual, como também com relação a sua identidade social. Já o comportamento de inclusão se refere às ações, individuais e grupais, que são resultantes ou foram provocadas por políticas de inclusão, promovendo um bom clima para as pessoas. Delas depende o grau de inclusão dos indivíduos e grupos, logo, do comportamento também depende a experiência de inclusão. É bem interessante notar que juntas, essas duas coisas resultam em um ciclo virtuoso: os programas, políticas e ações inclusivas proporcionam o sentimento de que se é incluído. Vamos retomar alguns conceitos que estudamos há pouco e que são relacionados e extremamente importantes para a discussão da diversidade e inclusão. São eles: preconceito, estereótipo, discriminação e identidade social. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 30/82 Reforçando os Conceitos Centrais para a Diversidade e Inclusão Há três conceitos que estão mais profundamente ligados aos temas desta aula: estereótipo, preconceito e discriminação. Para relembrarmos: O estereótipo liga-se a caracterização de pessoas, mas sem julgamento, é um elemento cognitivo de organização. O preconceito apresenta o julgamento e a avaliação sobre esta caracterização (i.e., gosto e não gosto). Há ainda duas tipologias ligadas ao preconceito: interna e externa. O externo refere-se a tentativa de não demonstrar o preconceito, o interno, por outro lado, é a tentativa de não ter o preconceito, mas o indivíduo reconhece ter preconceito em ambos casos. A discriminação é o ato, o comportamento ligado ao preconceito que se relaciona ao fato do indivíduo ter e estar em contexto onde essa demonstração seja possível, aceita ou viável. Dada a centralidade do conceito de identidade social ou grupal para o estudo da diversidade e inclusão, é interessante que deixemos claro que a identidade social consiste na identi�cação física ou cultural com um grupo e a não- identi�cação com outro grupo, que é visto como de oposição (Tajfel; Turner, 1979). Também como já discutimos as pessoas se identi�came se classi�cam em várias categorias sociais e, por diferentes fatores situacionais, algumas dessas categorias se tornam mais salientes que outras em determinados momentos. Ainda que existam diferentes concepções acerca da diversidade, está mais ou menos claro que os estudiosos estão se referindo à diversidade de identidades com base na �liação a grupos sociais e demográ�cos e como as diferenças de identidades afetam as relações sociais nas organizações. Nesse contexto, é possível entender a diversidade e a identidade como conceitos complementares, uma vez que a identidade se faz no reconhecimento do outro, daquele que é diferente, que é diverso, e que a diversidade exprime as diferentes identidades. As explicações aos fenômenos de proteção e viés ao grupo da identidade de uma 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 31/82 pessoa variam entre discriminação, proteção entre outros. Um indivíduo que trabalha num local não se lembra sempre de sua principal concorrente, mas só no caso de um ataque frontal a sua identidade. A identi�cação com um grupo leva ao contato previsível entre grupos. Mas não necessariamente os grupos devem estar �sicamente presentes para que haja o contato. Uma vez que o processo de identidade grupal se concretizou é apenas necessário que indivíduos de diferentes identidades grupais se conectem para que o contato intergrupal aconteça. As teorias que estudamos até agora se complementam na predição do que pode resultar do contato intergrupal. Estas teorias oferecem contribuições generosas para a compreensão do contato entre os diferentes presentes na sociedade. Algumas dessas teorias foram estudadas. Porém, de�nitivamente a Teoria da Identidade Social apresenta uma contribuição signi�cativa para a compreensão da diversidade e da inclusão nas organizações, ao descrever o processo de formação de identidade de seus membros. Quais São as Dimensões de Diversidade e Inclusão Grande parte do apoio às iniciativas de diversidade e inclusão das quais falamos antes vêm de seus “consumidores �nais”, ou seja, dos grupos de minoria presentes naquele contexto especí�co. Assim, quando começamos a falar de diversidade, temos que pensar logo em aspectos demográ�cos e, em especial, nos grupos em desvantagem, também chamados de grupos de minoria. É importante lembrar que grupos de maioria ou minoria não se relacionam a sua representação numérica, mas do poder social que lhes é atribuído e garantido pelas instituições sociais, sejam elas formais ou não. Todos sabemos que há mais mulheres no mundo do que homens, porém, mulheres seguem sendo um grupo de minoria, porque têm menos poder na sociedade do que os homens. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 32/82 É por isso que dos tópicos mais comumente encontrados em intervenções que visam a diversidade e inclusão, a construção do auto-conhecimento de grupo de identidade destaca-se como aquele mais esperado (Ferdman; Brody, 1996). O objetivo aqui é o de explorar as próprias questões de diversidade encontradas nos grupos, encorajando o respeito a diferentes opiniões, a aceitação dessas diferenças e a cooperação. Torna-se essencial, então, que importância dada à diversidade e a um ambiente de inclusão seja demonstrada através do comprometimento com a iniciativa. Esta etapa de autoconhecimento prepara o caminho para uma intervenção mais profunda, com a identi�cação coisas na sociedade que geram a discriminação de certos ou diversos grupos de identidade e a proposição e implementação de novos sistemas baseados na tolerância e valorização das diferenças, que reduzam o privilégio de alguns grupos sobre outros e que levam à criação e VÍDEO Veja a relação dos grupos de maioria e minoria com as dimensões de diversidade no vídeo abaixo: 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 33/82 estabelecimento de uma cultura de inclusão. É importante que esses sistemas não se limitem a tratar a diversidade somente como uma questão de gênero e raça. Outras dimensões de diversidade (Loden; Rosener, 1991) são consideradas. São vários os grupos com os quais a diversidade e inclusão se interessam e por isso eles são tratados de dimensões de diversidade e inclusão. Além de gênero e raça, outras dimensões como habilidade física, orientação sexual, classe social, nacionalidade, religião, dentre outras, também devem ser contempladas. Embora se reconheça que todas essas dimensões são importantes para a diversidade, no Brasil, seguindo uma tendência internacional, as dimensões de raça e gênero têm sido as mais discutidas no contexto organizacional (Fleury, 1999). E, sistematicamente, uma dimensão tem sido pouco tratada, a idade. O problema disso é que, como sabemos, o mundo está envelhecendo. As pessoas têm uma perspectiva de vida cada vez maior, enquanto que a taxa de natalidade tem diminuído. Assim, por conta dessa importância da idade, essa dimensão será tratada mais detalhadamente depois. Mesmo institucionalmente as dimensões de diversidade e inclusão são reconhecidas. A nossa Constituição de 1988, em seu artigo 3º estabelece a promoção do “bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” como um dos pilares do Estado Social. Assim, tanto as organizações, instituições, universidades, quanto a sociedade em termos gerais, têm o dever social de contribuir para a consecução desses objetivos. Porém, embora sempre citada quando falamos desses grupos, a idade como uma dimensão de diversidade pouco trabalhada nas organizações brasileiras. Logo, vale a pena falarmos de idade como uma dimensão de diversidade. As diferentes formas de compreensão da realidade, suas crenças e 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 34/82 seus valores in�uenciam diretamente as relações entre grupos na sociedade e as experiências individuais ali vivenciadas, inclusive os estereótipos conscientes ou não. Ao mesmo tempo, a exclusão social é explicada por vários enfoques teóricos, cujas concepções estão presentes na sociedade. Isso implica em uma prática institucionalizada de exclusão social das minorias e discriminação, como a discriminação por idade, ou ageismo (do inglês - ageism), apenas para citar uma de suas formas. Assim, quando montamos alguma ação voltada para a diversidade e inclusão, é interessante que trabalhemos com o máximo de dimensões possíveis, ou então com dimensões que são muito pouco exploradas, como no caso da idade. Nos EUA, uma socióloga chamada Jane Elliot criou uma forma de trabalho que resulta num exercício de empatia por parte dos envolvidos na atividade. O objetivo do exercício é colocar pessoas de olhos azuis na pele de uma pessoa negra por um dia. Para isso, ela rotula essas pessoas, baseando-se apenas na cor dos olhos, com todos rótulos negativos usados contra mulheres, pessoas negras, homossexuais, pessoas com de�ciências físicas e vários outros grupos. Agora re�ita: você acha que essa realidade que Elliot fala no vídeo, que é localizada nos EUA em 1995, se aplica ao Brasil? Como? Discuta com amigos o conteúdo do �lme e pense sobre os conceitos que discutimos até agora. VÍDEO Assista ao documentário Olhos Azuis, que foi �lmado em um dos seus trabalhos: 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 35/82 Uma Dimensão Pouco Trabalhada: o Ageismo Agora vamos falar de uma dimensão pouquíssimo trabalhada, como discutimos antes: a idade. O ageismo signi�ca um conjunto de estereótipos, preconceitos e discriminação relacionados à idade, se manifestando em termos físicos, mentais e sociais, no dia-a-dia das pessoas idosas. Palmore (1999) de�niu ageismo como “qualquer preconceitoou discriminação contra ou a favor de qualquer grupo etário” (p. 4). O ageismo é formado a partir do exagero ou da omissão de um fato sobre o envelhecimento. As características favoráveis do idoso são omitidas ou insu�cientemente abordadas, como por exemplo, a crença de que a maioria das pessoas mais velhas é senil ou considerar que a velhice é geralmente a pior fase da vida das pessoas. Há ainda a ocorrência de estereótipos menos usuais, como por exemplo a noção que com a velhice vem a bondade, sabedoria, con�ança, riqueza, poder político, liberdade e felicidade. Veja que o ageismo é diferente da discriminação por idade. O primeiro seria um sistema de atitudes atribuído pelos indivíduos e pela sociedade em relação aos outros em função da idade, enquanto o segundo carrega na própria idade um fator decisivo para sua eliminação, sendo assim uma discriminação. A mídia tem um papel fundamental na quebra dos preconceitos frente ao envelhecimento. Os meios de comunicação têm abordado a questão do preconceito contra as mulheres, os negros, os homossexuais, mas ainda são 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 36/82 raras as denúncias de preconceito por idade. Essas talvez possam servir de impulso no processo de mudança da sociedade com relação ao respeito, à cidadania, à participação social, à aprendizagem e à violência cometida contra os idosos. O ageismo está presente em diversos contextos além do ambiente de trabalho, que pode ser o primeiro que nos vem à mente. Há uma prevalência do ageismo em situações cotidianas, entre elas oportunidades de emprego negadas devido à idade. Assim, dentre os três ismos, ou sistemas de opressão sistêmicos na sociedade - sexismo, racismo e ageismo, o último é o que menos tem sido debatido, principalmente no que diz respeito à capacidade cognitiva do idoso, o que impede a maior participação dos trabalhadores mais velhos no mercado. França e Soares (2009) ressaltam que pouco se sabe sobre o ageismo, diferentemente do que acontece com o racismo e o sexismo. Na verdade, há uma necessidade de estudos voltados aos preconceitos de idade, o que ajudaria nas tomadas de decisão por parte dos políticos, legisladores, pro�ssionais de saúde e sociedade em geral promovendo o respeito às pessoas idosas e melhorando sua qualidade de vida. Palmore (1999) não apenas reforça essa ideia como também chama a atenção para o agravo do sexismo em mulheres mais velhas, ou seja, na medida em que elas envelhecem o sexismo pode aumentar, dependendo do tipo de preconceito e discriminação presentes, o que evidencia uma interação entre diferentes dimensões de diversidade. É importante sabermos como o ageismo se manifesta no mercado de trabalho. A participação dos trabalhadores mais velhos nas economias desenvolvidas envolveu três fases: o enfoque do preconceito que as empresas utilizaram para justi�car as saídas antecipadas dos trabalhadores mais velhos; rotas de igualdade incorporando iguais oportunidades e políticas de diversidade; e o progresso da legislação contra a discriminação de idade. É vital as mudanças nas atitudes e nas práticas contra o uso de categorias de idade que discriminam os trabalhadores. O resultado dessa exclusão e discriminação estudadas em diferentes campos do conhecimento (Direito, Sociologia, Economia, Pedagogia e Psicologia) traduz-se, via de regra, na falta de comprometimento, de insatisfação no trabalho, no uso limitado do potencial dos trabalhadores e outras implicações 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 37/82 para os empregados e empregadores. Ao largo desse raciocínio, é evidente um impacto na organização em termos de um clima não propício para o trabalhador mais velho, com re�exos na baixa criatividade e produtividade. Conforme discutimos, a exclusão se dá pelas vias da idade, classe social, etnia, orientação sexual, raça, dentre outras – como uma combinação de discriminações, di�cilmente sendo um fenômeno isolado. De acordo com Palmore (1999), o maior exemplo de discriminação contra os idosos é a aposentadoria compulsória para os trabalhadores. Nos últimos anos, leis e políticas têm sido de�nidas para lidar com o ageismo. No Reino Unido, por exemplo, a aposentadoria de idosos não é mais uma obrigatoriedade. No Canadá, o governo e as empresas estão tentando encontrar o equilíbrio certo entre a proteção de seus trabalhadores e o apoio à �exibilidade no local de trabalho. Esta política discriminatória de aposentadoria compulsória não existe mais nos Estados Unidos e na maior parte dos países desenvolvidos. No Brasil, a Política Nacional do Idoso e do Estatuto do Idoso condenam a discriminação por idade, embora a aposentadoria compulsória ainda resista no serviço público. Assim, mais importante do que a legislação especi�ca que permite aos trabalhadores mais velhos �car mais tempo na força de trabalho, o ageismo precisa ser abordado nas organizações de forma a que as pessoas re�itam o quão nocivas estas praticas de exclusão representam para a sociedade. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 38/82 No caso especi�co da inclusão dos mais velhos, o problema passa pela sensibilização e atenção para o fato de que o Brasil envelheceu muito rapidamente, sendo preciso adotar medidas para assegurar o bem-estar da população idosa. Não apenas a economia do país requer que sua mão de obra especializada continue produzindo, mas também muitos trabalhadores que se sentem saudáveis e capazes de continuar trabalhando desejam continuar em atividade. Assim, medidas conjuntas devem ser tomadas pelas organizações e pelo governo para a atualização, retenção, inclusão e a reinserção dos trabalhadores mais velhos ou aposentados no mercado de trabalho. As organizações no Brasil ainda não adotaram amplamente políticas de inclusão para atender a essas demandas e diversidades. Assim, para tratarmos de mecanismos de exclusão nas organizações em termos gerais e do ageismo em termos especí�cos, temos que considerar o seguinte: no que diz respeito ao envelhecimento no contexto organizacional, estudos voltados para a retenção, produtividade, motivação e desempenho podem gerar subsídios para políticas 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 39/82 de manutenção e retenção dos trabalhadores mais velhos. Sem dúvida, trabalhadores que desejam continuar trabalhando devem ter a possibilidade de se atualizar e se manterem na força de trabalho. Se as pessoas irão viver 100 anos ou mais, será um absurdo descartar um trabalhador aos 70 anos, você não acha? É fundamental que os trabalhadores desenvolvam suas carreiras, tenham novas oportunidades, identi�quem necessidades especi�cas de treinamento ou mesmo interesses para a vida na aposentadoria. Já foi examinada a produtividade e a independência entre trabalhadores idosos em seis países: Canadá, França, Alemanha, Japão, Reino Unido, e Estados Unidos. Os resultados destes estudos mostraram que existe um grande potencial para que os idosos se tornem mais ativos. Aqueles que são mais bem educados estão mais propensos a continuar trabalhando além da idade de aposentadoria tradicional. Os trabalhadores mais velhos se percebem menos poderosos e produtivos que os trabalhadores mais jovens, mas admitem cometer menos erros, ser mais experientes e responsáveis. Souza, Matias e Brêtas (2010) analisaram o signi�cado do processo de envelhecimento no mercado de trabalho e veri�caram que a aposentadoria é responsável pela redução da qualidade de vida e do envelhecimento do indivíduo, principalmente se lhe faltarem habilidades e condições para incluir 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 40/82 atividadese valores em sua vida. Na Europa, apesar de alguns países terem eliminado o limite de idade para o trabalho, ainda há a existência de preconceitos dos trabalhadores mais novos com relação aos mais velhos, especialmente no tocante aos benefícios adquiridos pelos mais velhos nas recentes políticas organizacionais. O preconceito e discriminação envolvendo trabalhadores mais velhos estão profundamente enraizados no mercado de trabalho e podem in�uenciar as políticas referentes aos trabalhadores mais velhos e levá-los a exclusão. Isto ocorre não apenas por conta do julgamento dos empregadores, mas por conta das profecias autorrealizadoras – que é como chamamos quando crenças negativas são con�rmadas. O que é irônico é que a inteligência emocional e as habilidades cognitivas são aprimoradas assim que entramos na faixa dos sessenta anos. Tais resultados apontam que esta vantagem adquirida pelas pessoas mais velhas tanto pode ser utilizada no mercado de trabalho quanto nas relações interpessoais. Palmore (1999) foi o primeiro gerontólogo (estudioso de pessoas mais velhas) que abordou o ageismo positivo. Ele citou, como exemplo, a garantia do medicare – algo como um sistema de saúde pública dos Estados Unidos – para os mais velhos, em detrimento do mesmo benefício para os mais jovens, o que representa uma discriminação positiva a favor dos idosos e uma discriminação negativa aos mais jovens. No Brasil, os idosos tem livre acesso aos transportes, descontos nos cinemas e teatro e no imposto de renda, embora algumas pessoas mais velhas recebam proventos mais altos do que muitos trabalhadores. Esta forma de discriminação seria uma grati�cação pela idade que eles têm, ou de fato uma necessidade? Pense sobre isso. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 41/82 Tais pontos apontam para a necessidade de um avanço nas pesquisas, diretrizes e políticas sociais para que os gestores públicos e também de empresas privadas lidem melhor com o envelhecimento da população. Já sabemos que há maior insatisfação por parte dos trabalhadores mais jovens no que se refere à sobrecarga de trabalho, nível de estresse, nível de cobranças de resultados e saúde em geral. Os mais jovens sentem-se pressionados a equilibrar melhor a vida pro�ssional e pessoal por conta dos �lhos pequenos. Os trabalhadores mais jovens realizam uma grande quantidade de tarefas ganhando menos do que os mais experientes, gerando certa preocupação do trabalhador mais velho em não conseguir uma recolocação no mercado de trabalho. Por outro lado, as pessoas mais velhas se consideram mais leais do que os mais jovens, fazendo com que estes vivenciem discriminações associadas à falta de competência e consideram os trabalhadores velhos mais resistentes às mudanças e presos à práticas de gestão ultrapassadas. Assim, ainda há muito a fazer no que se refere ao envolvimento e comprometimento das organizações quanto à quebra de preconceitos frente ao envelhecimento, à retenção dos trabalhadores mais velhos por meio da educação e atualização e da oferta de mais controle, �exibilidade e de melhores condições de trabalho. Sendo assim, é preciso intensi�car os estudos sobre este tema e propor projetos que reduzam o ageismo, favoreçam a educação dos trabalhadores ao longo da vida e preparem as organizações para receber e manter, cada vez mais, um contingente de trabalhadores mais velhos. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 42/82 Possíveis Resultados da Valorização das Diferenças Sem dúvida, há uma grande necessidade de a sociedade civil e o governo criarem elementos para que as discriminações que discutimos aqui sejam minimizadas. Por exemplo, uma forma de se reduzir o ageismo é propiciar um espaço amplo de discussão com especialistas nas questões de envelhecimento e suas consequências na sociedade, dirigido inicialmente às pessoas que tomam as decisões e depois aberto para toda a sociedade. Essa discussão deve ser voltada para as mudanças demográ�cas e o papel das políticas públicas para manter as pessoas mais velhas satisfeitas e produtivas por mais tempo no mercado. Temos que nos sensibilizar com relação à relevância da diversidade etária e os ganhos das trocas entre gerações que podem gerar efeitos como a formação especi�ca para os mais jovens ou a atualização permanente dos mais velhos. Dentre do papel social, educativo e multiplicador na luta contra os preconceitos, todos nós temos que estimular a participação das pessoas de todas as idades no planejamento do futuro, estimulando a valorização das diferenças, aspecto fundamental para o bem-estar na contemporaneidade. Tornar a sociedade mais harmoniosa e receptiva à diversidade poderá estimular as pessoas a produzirem mais e se tornarem mais satisfeitas com isso. Uma das formas de se obter a harmonia é por meio da conscientização e da valorização das diferenças serem a solução para o enfrentamento da atual carência de mão de obra especializada no mercado, sobretudo se continuarem atualizados. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 43/82 Unidade 04 3 Aula 04 Multiculturalismo e Inclusão Continue estudando e aprimorando os seus conhecimentos. E saiba o que é Multiculturalismo! Bons estudos! De�nições Já discutimos que inclusão se refere ao julgamento ou percepção de aceitação coletiva das pessoas, sendo o sentimento de ser bem-vindo e valorizado como membro nas mais diversas instituições, das empresas às escolas, e na sociedade como um todo. Os seres humanos precisam ser incluídos no sistema social para que suas necessidades básicas sejam saciadas e a inclusão (ou exclusão) de todos é um determinante do bem-estar psicológico das pessoas. Porém, não pode haver inclusão se não há grupos diferentes para serem incluídos! E por isso a inclusão é dependente do multiculturalismo . 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 44/82 Multiculturalismo signi�ca a existência de diversas culturas em uma mesma sociedade. Você pode achar estranha a presença, em uma mesma cultura, de diversas culturas. Parece paradoxal, não é? Mas isso se pensarmos em cultura nacional apenas. Na maioria dos países, podemos considerar que há apenas uma cultura nacional, embora esse não seja o caso para vários países, como a Espanha por exemplo, que reúne diversos grupos nacionais, como os Bascos, os Catalães e até mesmo os Espanhóis. Porém, quando pensamos que a cultura nada mais é do que uma lente que usamos para entender a realidade, então podemos ver que outros grupos, como os raciais, de gênero e em especial, os grupos étnicos. Conceitos Básicos para Compreendermos o Multiculturalismo VÍDEO O signi�cado do multiculturalismo e a sua de�nição são muito bem explorados no vídeo abaixo: 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 45/82 A palavra "etnia" é derivada do grego ethnos, e signi�ca "povo". Esse termo era tipicamente utilizado para se referir a povos não-gregos, então também tinha conotação de "estrangeiro". Mais tarde, com o estabelecimento da religião Católica, essa palavra também ganhou a conotação adicional de "gentio", para designar aquelas pessoas que não eram católicas, como os pagãos e também pessoas da religião Judia. O uso atual da palavra, que é mais próximo do original grego, começou na metade do Século XX, tendo se intensi�cado desde então. Assim, um grupo étnico é um grupo de pessoas que se identi�cam umas com as outras, ou são identi�cadas como pertencentes a um mesmo grupo por outras pessoas, com base em semelhanças culturais ou biológicas. A ideia de etnia como temos hoje se desenvolveu no contexto das colônias europeias e se fortaleceu mais tarde, quando foramcriados os estados-nação. Porém os estados-nação sempre incluíram populações indígenas, que foram ou dizimadas, ou excluídas da noção de nação, e em vários casos, também tinham trabalhadores do exterior das suas fronteiras, que imigraram para lá por algum tipo de recrutamento (como foi o caso dos italianos, alemães, japoneses e outros grupos no Brasil) ou então foram trazidos à força, como escravos (como os diversos grupos étnicos africanos que foram escravizados no Brasil). Estas pessoas constituem tipicamente grupos étnicos. Consequentemente, os membros de grupos étnicos costumam conceber a sua identidade como algo que está fora da história de uma nação. Esta identidade se expressa muitas vezes através de "tradições" variadas que convivem com a cultura nacional de onde estão. SAIBA MAIS Um resumo sobre o que signi�cam os grupos étnicos é apresentado clicand o aqui. http://www.suapesquisa.com/o_que_e/etnia.htm 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 46/82 Assim, multiculturalismo na maioria das vezes se refere a diversos grupos étnicos que estão em uma mesma nação, ou em uma mesma cultura nacional. No nosso caso, todos os grupos indígenas que aqui estavam quando os colonizadores portugueses chegaram, os diferentes grupos africanos que foram forçados a virem para o Brasil colônia, os descendentes de italianos, alemães e outras nações europeias, os japoneses, atraídos para o Brasil nos séculos XIX e XX, mais recentemente os coreanos e chineses, e diversos outros grupos, todos constituem grupos étnicos. Multiculturalismo, então, se refere à forma que esses grupos são tratados, incluídos ou não, na cultura dominante brasileira. A discussão sobre multiculturalismo remete diretamente aos paradigmas de multiculturalismo que podem ser adotados por uma sociedade. Também de origem grega (“paradeigma”), paradigma é um termo que signi�ca modelo, padrão. No sentido geral, corresponde a algo que vai servir de modelo ou exemplo a ser seguido em determinada situação. São as normas orientadoras de um grupo que estabelecem limites e que determinam como um indivíduo deve agir dentro desses limites. Os paradigmas, ou modelos, sob os quais o multiculturalismo é enfocado em uma sociedade foram tomados emprestados dos três paradigmas que Thomas e Ely (1996) propuseram para as organizações e ressaltam os motivos da importância das empresas lidarem com multiculturalismo. Os autores nomeiam esses paradigmas como ‘discriminação e justiça’, ‘acesso e legitimidade’ e ‘aprendizagem e efetividade’. O primeiro deles é o paradigma moral. É prudente para uma empresa promover a responsabilidade social e a igualdade de chances de ascensão para todos os seus membros. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 47/82 Certamente os indivíduos preferem trabalhar em locais onde eles não são discriminados por sua cor. O segundo diz respeito a requerimentos legais. No Brasil, assim como em muitos países, exige-se que haja uma cota reservada para trabalhadores de algumas minorias. Isso obriga as organizações a conviverem com o multiculturalismo, como é o caso de cotas para de�cientes físicos no Brasil. O terceiro, e talvez mais importante tendo em vista o contexto mundial atual, é o do multiculturalismo como um fator de desempenho organizacional. Com certeza, esse é o paradigma que faz com que o multiculturalismo venha sendo cada vez mais procurado pelas organizações. Vamos detalhar esses paradigmas no que se segue. Paradigmas de Multiculturalismo e Inclusão Apesar de uma consciência generalizada da necessidade de se preocupar com o multiculturalismo, existem diferentes abordagens sobre como uma sociedade pode tratar essa questão. Thomas e Ely (1996) identi�caram três diferentes paradigmas de multiculturalismo e suas relações com os resultados nos grupos de trabalho e nas formas de lidar com as tensões advindas da convivência de diferentes grupos étnicos numa mesma sociedade. No primeiro paradigma, chamado de Discriminação e Justiça, o multiculturalismo é enxergado através da lente da igualdade de oportunidades, tratamento justo e cumprimento de requisitos legais. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 48/82 Sob esse paradigma, o progresso em lidar com o multiculturalismo é medido através do quanto a sociedade inclui formalmente, por meio de políticas de recrutamento, por exemplo, os diversos grupos. Essa talvez seja a forma mais dominante de se entender o multiculturalismo e, ainda que seja bem-sucedida em promover a inclusão das diferentes etnias em termos numéricos, normalmente adota uma postura de cegueira em relação à diferença cultural, a partir da pressuposição de que todos são iguais, o que permite pouco espaço às reais diferenças entre os grupos. Embora o foco, com essa perspectiva, esteja na promoção da diversidade numérica, existe a preocupação com a adaptação desses novos grupos na sociedade dominante. Para tanto, são adotados programas que visam “encaixar” as outras etnias na cultura mais ampla, a dominante. Quanto às características das sociedades que adotam essa perspectiva, podemos dizer que elas valorizam o tratamento igual entre os grupos, sendo que há uma hierarquia na sociedade, em que as ordens ou políticas são dadas de cima a baixo, fazendo cumprir iniciativas que se baseiam nessas atitudes. Além disso, pode-se considerar também que tais sociedades possuem culturas �rmemente estabelecidas e facilmente observáveis, nas quais os valores de justiça são difundidos e implantados profundamente e seus códigos de conduta são claros e inequívocos. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 49/82 Essa perspectiva traz como benefício o aumento da diversidade numérica e o tratamento justo entre as pessoas, no entanto, também possui claras limitações. O ideal de cegueira, por exemplo, sugere implicitamente a ideia de que somos todos iguais ou que aspiramos a essa condição. Sob esse paradigma, não é desejável que o multiculturalismo in�uencie a cultura dominante, que deve operar como se todas as pessoas fossem todas do mesmo grupo. Ele também impede que as pessoas se identi�quem pessoalmente com o seu próprio grupo (o que, como vimos, é crítico para a formação da identidade social) uma vez que não podem ser quem verdadeiramente são em suas diferenças. O segundo paradigma, de Acesso e Legitimidade, surgiu durante o clima competitivo dos anos 80 e 90 e fez emergir uma nova razão para se lidar com o multiculturalismo. Ele compreende e utiliza o multiculturalismo como estratégia para atingir diferentes segmentos da sociedade, garantindo acesso e legitimidade ao equiparar a demogra�a aos grupos que são importantes na sociedade no sentido de consumo, o que, em alguns casos, leva a um aumento substancial do multiculturalismo. As características que são comuns às sociedades que utilizam a perspectiva de Acesso e Legitimidade são estarem cientes que existe uma diversidade crescente de diferentes grupos de consumidores, vindos de diferentes grupos étnicos e usar isso como forma de alavancar a economia do país. Enquanto no 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 50/82 paradigma de Discriminação e Justiça as sociedades são rápidas em subverter as diferenças no interesse de preservar a harmonia, no Acesso e Legitimidade elas são ágeis em se darem conta que precisam atingir os nichos de mercado diferenciados e que não conseguirão fazer isso com a promoção de programas de quotas, mas sim com programas voltados para o incremento do consumo em grupos especí�cos. Mas ao fazer isso, deixam de compreender como as particularidades desses grupos podem ser integradas ao cotidiano da sociedade.Talvez essa perspectiva tende a ser mais notável por suas limitações, uma vez que as sociedades que adotam essa perspectiva tendem a limitar a participação efetiva dos diversos grupos étnicos, colocando-os em categorias diferenciadas e por demais especializadas, sem realmente analisar como essas diferenças afetam a vida das pessoas e como esses grupos podem ser incorporadas ao cotidiano. Muitas vezes, esse tipo de perspectiva pode gerar a sensação de que alguns grupos estão sendo explorados e desvalorizados quando estes percebem que oportunidades em vários setores da sociedade, como educação superior por exemplo, estão fechadas para eles. Além disso, eles tendem a serem os primeiros a serem excluídos em situações de crise, criando situações tênues e pouco sustentáveis para esses grupos na sociedade em termos gerais. A Aprendizagem e Efetividade, terceiro paradigma, é visto como uma perspectiva emergente. Nela, a sociedade reconhece que esses grupos têm valor e os inserem em termos das suas culturas, ou seja, das suas identidades grupais. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 51/82 Dessa forma, desenvolve-se uma visão que permite a incorporação das contribuições dessas pessoas, rede�nindo suas normas, práticas e sua própria cultura. Esse paradigma transcende aos dois modelos anteriores por, assim como a perspectiva de Discriminação e Justiça, promover a igualdade de oportunidades para todos os indivíduos; e por ,como a perspectiva do Acesso e Legitimidade, reconhecer as diferenças culturais e as valorizar. Levando a sociedade a internalizar as diferenças entre os grupos de forma a aprender a crescer com essas diferenças. Enquanto as duas anteriores representam respectivamente a assimilação e a diferenciação, a terceira representa a integração, por meio da internalização das diferenças de modo a aprender a crescer com elas. Desta forma, se pensarmos bem, várias oportunidades serão perdidas nos outros dois paradigmas. As tensões serão tratadas erroneamente e as contribuições que os grupos étnicos podem dar para a sociedade em termos gerais são perdidas. Então, podemos nos perguntar: o que acontece com as sociedades que seguem esse terceiro paradigma, como o Canadá ou a Nova Zelândia por exemplo, que faz com que elas obtenham o melhor do multiculturalismo? As linhas de pesquisa orientadas por Thomas e Ely (1996) 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 52/82 sugerem oito pré-condições que ajudam as sociedades a utilizarem as diferenças de grupos de identidade ao seu serviço e ao serviço do seu crescimento e renovação. Em resumo, essas pré-condições são: 1. Tem que �car claro que o multiculturalismo vai embasar perspectivas diversa s e novas visões e deve realmente valorizar a variedade de opiniões e descob ertas. A sociedade deve chegar a conclusão de que existe mais de uma manei ra de se obter resultados positivos. 2. Deve-se reconhecer tanto as oportunidades de aprendizagem e crescimento quanto os desa�os que a expressão de perspectivas diferentes pode trazer p ara a sociedade. Em outras palavras, a segunda pré-condição é que a socieda de esteja comprometida a perseverar durante o longo processo de aprendiza gem e reaprendizagem que requer essa perspectiva. 3. A cultura deve criar a expectativa de altos padrões para todos. Essa não é um a cultura que espera menos de alguns do que de outros. Algumas agem como já esperassem que as mulheres e as pessoas de outros grupos de minoria ten ham um baixo desempenho – uma pressuposição negativa que geralmente le va a um resultado negativo. Para entrar na terceira perspectiva, a sociedade deve acreditar que todos os seus membros podem e devem contribuir para u m bem comum. 4. A cultura deve estimular o desenvolvimento pessoal. Esse tipo de cultura ped e toda a amplitude dos conhecimentos e habilidades relevantes das pessoas – normalmente através de políticas públicas cuidadosamente elaboradas, qu e permitem o crescimento e desenvolvimento pessoal, além do desenvolvime nto do próprio país. 5. A cultura deve encorajar a abertura. Tal cultura instiga uma alta tolerância e debates que dão suporte aos con�itos construtivos nos assuntos relacionado s ao multiculturalismo. 6. Essa cultura deve fazer os seus membros se sentirem valorizados. Se essa pré -condição é satisfeita, os diferentes grupos se sentirão comprometidos com o ideal de formação de uma nação e logo se sentirão confortáveis para tomar in iciativas e aplicar suas experiências de forma a aumentar o bem comum. 7. A sociedade deve buscar alcançar coisas de maneira articulada e amplament e compreendida. Ela guia as discussões sobre mudanças relacionadas ao dia- a-dia que possam ser sugeridas pelos seus membros. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 53/82 8. A cultura deve ter uma estrutura relativamente igualitária. É importante ter uma estrutura que promova o intercâmbio de ideias e que aceite críticas con strutivas sobre o modo de se fazer as coisas. Talvez a maior limitação desse paradigma esteja na inabilidade da organização em atingir os benefícios esperados, vindos do propósito de se ter um verdadeiro multiculturalismo e cultura de inclusão implementados. A perspectiva da aprendizagem-e-efetividade está, sem dúvida, em uma fase ainda emergente. Espera-se que à medida que mais e mais países aceitem o desa�o de verdadeiramente se engajar em sua multiculturalidade, dilemas novos e desconhecidos apareção. Assim, talvez mais do que nada, a mudança para essa perspectiva requeira uma vontade para aprender mais com o novo, do que a com a segurança do que já é conhecido. Esse não é um desa�o fácil, mas permanecemos convencidos de que a não ser que as organizações deem esse passo, qualquer iniciativa de diversidade não conseguirá cumprir sua rica promessa. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 54/82 Unidade 04 4 Aula 05 Valorização das Diferenças: Como Fazer Uma Gestão da Diversidade e do Multiculturalismo? Veremos, nesta aula, as maneiras gerir as diferenças. Fique atento, nosso conteúdo está quase acabando. Boa aula! 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 55/82 O que é Exatamente a Gestão da Diversidade e Multiculturalismo? Sincronicamente à adoção de políticas de ação a�rmativa, observamos um crescente movimento nas empresas, principalmente em multinacionais estadunidenses, e também de políticas públicas em diversos países, incluindo o Brasil, no sentido de adotar programas de gestão da diversidade, inclusão e multiculturalismo. Porém, esse movimento não veio acompanhado de um aprofundamento da literatura nacional sobre o tema, sendo os movimentos sociais antidiscriminação e de responsabilidade social das empresas os principais agentes de difusão de práticas de gestão da diversidade para as empresas brasileiras. Enquanto as ações a�rmativas atendem às razões morais e legais de favorecer a diversidade nas organizações, o gerenciamento da diversidade e multiculturalismo surge atrelado à razão econômica, focada na perspectiva de que administrar a diversidade pode trazer benefícios �nanceiros, além de cumprir com a responsabilidade social e com a legislação. Hoje em dia há ideia de se usar a gestão da diversidade em substituição às ações a�rmativas. Contudo, ainda há a necessidade de administrar a diversidade crescente não só 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 56/82 nas organizações, mas também na sociedade em termos gerais, por ser esse um processo inevitável e irreversível diante das mudanças demográ�cas e das exigências do mercado.Por esse motivo, hoje nós temos apenas duas opções: gerenciar a diversidade e multiculturalismo ou não gerenciá-la, o que pode trazer consequências muito ruins do ponto de vista social. Administrar a diversidade e multiculturalismo signi�ca planejar e implementar sistemas e práticas incentivar e motivar pessoas de modo que as potenciais vantagens da diversidade sejam maximizadas, enquanto suas potenciais desvantagens são minimizadas. Em contraponto à ênfase sobre o recrutamento e seleção, característico da ação a�rmativa, a gestão da diversidade defende uma transformação sistêmica da sociedade, de modo que sua efetivação é iniciada com um diagnóstico acerca da diversidade cultural e da própria demogra�a, para ver o quanto multicultural uma sociedade é, só então se desenvolver um plano de diversidade, que inclui ações que vão desde treinamento das pessoas e sua melhor capacitação, até políticas públicas de subsídio à valorização e inclusão de diferentes grupos na sociedade, no serviço público e na vida social em termos gerais. A gestão da diversidade se distingue das ações a�rmativas em função de duas variáveis: os grupos atingidos e os efeitos nas empresas. Na ação a�rmativa, os grupos atingidos são as minorias ou grupos discriminados e as mudanças provocadas são decorrências de pressões coercitivas externas, como as leis de cotas. Na gestão da diversidade e multiculturalismo, todas as diferentes identidades são contempladas e a diversidade passa a ser vista como vantagem competitiva para a organização. No entanto, ainda que baseados em pressupostos e práticas diferentes, a promoção de diversidade voltada às políticas sociais de equidade e inclusão social e as políticas econômicas de gestão de diversidade podem se complementar, dependendo da perspectiva ou paradigma de multiculturalismo que foi adotado. Assim, mantenha em mente aqueles paradigmas que discutimos anteriormente. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 57/82 A compreensão da estrutura dos grupos e da sociedade ajuda a diferenciar as suas partes e, simultaneamente, a manter tais partes interligadas, criando e reforçando, no interior do grupo e entre os grupos, relações de interdependência, de previsibilidade e de hierarquia. Em vista disso, a compreensão dessa estrutura permite conhecer como se dão os mecanismos de controle e as funções dos diversos grupos e seus integrantes, indicando elementos de relações intergrupais e de poder, fazendo-se relevante na compreensão da diversidade e multiculturalismo numa sociedade. Um dos problemas de gerir a diversidade advém da di�culdade dos próprios líderes de compreender amplamente sua dinâmica e abstrair-se de suas próprias atitudes preconceituosas para desencadear o potencial dos grupos multiculturais. Daí a necessidade, como passo posterior ao diagnóstico, dos programas de treinamento e políticas públicas voltas à diversidade e multiculturalismo e com vistas à inclusão. Eles não devem enfocar apenas coisas operacionais, mas também o desenvolvimento de liderança em comunidades, especialmente destes grupos marginalizados. Isso signi�ca ir além da valorização da diversidade e criar um ambiente de inclusão, pois as iniciativas de inclusão contribuem para a efetividade das ações de diversidade. Dessa forma, o desa�o que se lança às pessoas interessadas na diversidade não é somente de promovê-la e valorizá-la, mas de alcançar sua meta última, a inclusão. VÍDEO A gestão da diversidade e do multiculturalismo começa na própria escola, conforme é apresentado no vídeo: 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 58/82 Como a Gestão da Diversidade e Multiculturalismo tem sido Pesquisada Atualmente? A gestão da diversidade e multiculturalismo tem se tornado uma questão central em muitas culturas. Contudo, existem poucas pesquisas empíricas que investigam como podemos usar melhor os modelos e teorias para mudar as práticas cotidianas de modo a criar um ambiente de trabalho diverso. As poucas pesquisas e estudos que temos tratam especialmente da gestão da diversidade e multiculturalismo no contexto das empresas e, na sua maioria, são internacionais. São poucas as pesquisas que encontramos no Brasil que tratam sobre essas questões. As pesquisas internacionais têm mostrado a associação do gerenciamento da diversidade à redução de custos e aumento de ganhos �nanceiros nas empresas e ressaltado sua importância para a redução da resistência aos programas de diversidade (para se aprofundar mais nessas pesquisas, veja os estudos de Holladay, Day, Anderson; Welsh-Skif�ngton, 2010). A principal conclusão, contudo, reside na constatação de que a diversidade pode tanto trazer malefícios à organização quanto benefícios, o que dependerá se a empresa a gerencia e de que forma o faz. Uma pesquisa conduzida ao longo de cinco anos sobre a relação entre diversidade e multiculturalismo com o desempenho nos negócios, concluiu que, a menos que uma atenção explícita seja dada para a gestão da diversidade e multiculturalismo, o seu impacto sobre o desempenho tende a ser negativo, o que está em consonância com grande parte dos defensores da diversidade nas organizações, que também defendem que os resultados da diversidade são determinados pela interação entre diferentes fatores. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 59/82 No âmbito das pesquisas nacionais, Fleury (2000) realizou uma pesquisa em sete empresas com representação no Brasil. Seis dessas empresas eram subsidiárias de multinacionais estadunidenses e apenas uma era nacional. Os resultados apontaram que a maioria das iniciativas de diversidade estava em estágio inicial e eram adaptadas das realidades das matrizes. O caráter das iniciativas revelou uma ênfase em práticas de recrutamento e seleção de pessoal, treinamento e comunicação, com a �nalidade de diversi�car a força de trabalho, treinar os gerentes e funcionários para o tema e investir em projetos e campanhas de comunicação interna para divulgar os objetivos do programa de diversidade aos empregados. Ainda com vistas ao levantamento de dados do gerenciamento da diversidade em empresas brasileira, Myers (2003) realizou um estudo com treze empresas a respeito de suas políticas e práticas para a inserção de negros e outros grupos historicamente excluídos. Ele encontrou que a maioria das empresas com iniciativas de promoção da diversidade estão sediadas nos Estados Unidos e a maioria delas têm iniciativas em função de políticas e programas de diversidade da matriz. Ainda, a maioria das iniciativas de diversidade são recém-lançadas e embora todas as empresas declarem que diversidade ou o respeito às pessoas e/ou diferenças é um valor corporativo , a maneira como elas tratam a diversidade varia bastante. O conceito de diversidade adotado pelas 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 60/82 companhias é geralmente restrito a um ou dois grupos de pessoas historicamente discriminados no mercado de trabalho, e mais frequentemente, mulheres ou pessoas com de�ciência. Um estudo conduzido por Carvalho-Freitas e Marques (2007) acerca das iniciativas de diversidade e multiculturalismo adotadas pelas organizações contratantes de de�cientes, con�rmou a existência de relações signi�cativas entre as concepções de de�ciência compartilhadas pelos gerentes e a adequação das condições e práticas de trabalho na organização. Além disso, foram constatadas implicações das concepções de de�ciência e da adequação das condições e práticas de trabalho para a satisfação das pessoas com de�ciência. Ainda, o estudo alerta para o fato de que as empresas têm priorizado as modi�cações nas condições de trabalho mais do que as ações de sensibilização e de Recursos Humanosque assegurem a inserção. Essas últimas pesquisas empíricas, realizadas no Brasil, dão algumas dicas da forma que as empresas brasileiras tem lidado com a grande diversidade cultural do país. A verdade é que não existem pesquisas no Brasil que podem ser utilizadas para ilustrar e avaliar como as perspectivas de gerenciamento da diversidade têm sido empregadas para gerenciar a diversidade cultural. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 61/82 Coelho (2012) realizou uma pesquisa sobre trabalhadores com de�ciência. A autora entrevistou diversos trabalhadores com diversas categorias de de�ciência e descreveu como as pessoas com de�ciência (PCD) se percebem no desempenho do seu trabalho. Em termos gerais, as PCDs não se percebem limitadas. Muito pelo contrário. Elas relatam o espanto das outras pessoas ao verem uma PCD trabalhando, talvez relacionando o trabalho a alguma forma de heroísmo e não à competência ou possibilidade de que aquele tipo d e trabalho possa ser desempenhado por pessoas diferentes. Há com frequência relatos de se comparar com pessoas com de�ciências mais severas para se sentirem melhores e mais capazes. O paradigma claro que vivem essas pessoas é o de discriminação-e-justiça, pois todos foram selecionados para o trabalho graças a sistemas variados de cotas. Vale notar, entretanto, que os pro�ssionais que trabalham em recrutamento e seleção muitas vezes sofrem com os progra mas governamentais e com o desinteresse de alguns grupos de PCDs em trabalhar. Algumas vezes se apresenta uma oportunidade de trabalho, o pro�ssional é localizado no mercado, mas não demonstra interesse no trabalho, uma vez que a bolsa provida pelo Estado é similar ou maior ao oferecido pela posição. Assim, os programas 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 62/82 assistencialistas acabam por também prejudicarem a entrada de PCDs no mercado de trabalho. Aparentemente, está-se provendo o peixe, mas não ensinando a pescar e isso tem sido um desa�o para a área e para o Estado. Observando-se os dados de 2012 do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos – DIEESE sobre os ganhos médios salariais de homens e mulheres nas seis regiões metropolitanas do Brasil, notamos que homens têm ganhos médios 55,7% superiores aos das mulheres. Em 2003, mulheres recebiam em torno de 500 reais, enquanto que os homens recebiam por volta de 790. Em uma pesquisa atual, foi demonstrada pelo mesmo órgão uma situação de desigualdade para os trabalhadores negros, de ambos os sexos, em todas as regiões brasileiras. Em média, os negros (entendidos aqui como pessoas que se declaram pretos e pardos, pela classi�cação do Censo do IBGE) têm taxas de desemprego em torno de 21,7% por região, que quando comparadas às taxas para indivíduos não-negros (16,5%), resultam em uma diferença de 31,5% a mais de desemprego para esse grupo de identidade. Vale ressaltar que para todas as regiões do país este quadro se repete, em maior ou menor grau (e que a diferença nunca �ca abaixo de 17%). 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 63/82 Dados do Centro Feminista de Estudos e Assessoria – CFEMEA, um organismo de defesa das mulheres, apontam um acréscimo signi�cativo (370,6%) do salário médio de um homem branco em relação ao da mulher negra. Nota-se que o rendimento médio nacional das diversas categorias sociais, em salários-mínimos, é distribuído da seguinte forma: homens brancos recebem 6,3 salários mínimos em média; mulheres brancas, 3,6 salários; homens negros, 2,9 e mulheres negras, 1,7 salários. A grande maioria (79,4%) da população que realiza trabalhos manuais (considerados mais vulneráveis na análise do organismo) é composta por mulheres negras. Dessas, 51% estão no emprego doméstico (e.g., lavadeiras, passadeiras, cozinheiras, serventes), sendo que apenas 49% das mulheres negras têm carteira assinada, contra 60,6% das mulheres brancas. Esses dados parecem nos sugerir que no Brasil, a discriminação racial alcança índices mais alarmantes do que a discriminação de gênero. Assim, não é de se estranhar que as mulheres negras tenham 25% menos chances de chegar aos 75 anos do que as mulheres brancas. Apesar de ser considerado um exemplo de convivência cultural, muito ainda deve ser melhorado no Brasil em relação ao seu contexto de trabalho. Os dados do DIEESE e do CFEMEA já justi�cariam, por si mesmos, projetos que objetivassem entender a fundo os aspectos relacionados às dimensões de diversidade e impacto que a diversidade e multiculturalismo tem sobre a sociedade. Com preocupações relacionadas à gestão da demogra�a, várias ideias têm sido geradas, assim como recomendações práticas sobre como fazer essa gestão. Por exemplo, reconhece-se hoje: que o recrutamento, seleção e retenção de uma força de trabalho diversa são imperativos para os negócios. Que existe a necessidade de se estabelecer uma cultura organizacional que seja receptiva à diversidade, com práticas cotidianas que demonstrem para os grupos de identidade menos privilegiados o seu valor competitivo. E que é imprescindível à seleção de supervisores que tenham a habilidade de 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 64/82 “desenvolver talentos”, de um ponto de vista técnico, gerencial e organizacional. A decisão de não se engajar em um diálogo sobre diversidade em qualquer empresa moderna é simplesmente estúpida. O que Podemos Fazer? As teorias de contato intergrupal que discutimos antes tentam entender a interação entre diferentes grupos de identidade e ajudam a explicar como o contato intergrupal tem implicações para a diversidade demográ�ca, o que nos fornece uma base teórica para o campo. Contudo, na prática, a gestão da diversidade e multiculturalismo tem passado por perspectivas diferentes, que orientam a maneira pela qual os grupos e seus membros compreendem esse fenômeno social e desenham estratégias, normas e valores que buscam, ao máximo, aumentar a vantagem competitiva representada pela diversidade. É importante notar que a maioria das pessoas acredita que diversidade e multiculturalismo se referem apenas ao aumento da representação racial, nacional, de gênero, ou classe. Considerando apenas essas fontes de diferença, ou esses grupos de identidade, nós podemos notar que se seguem um dos dois 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 65/82 caminhos na gestão da diversidade e multiculturalismo: em nome da igualdade e justiça, elas encorajam (e esperam) que as mulheres, as pessoas que não são brancas, idosos, pessoas com de�ciência etc. se misturem à sociedade. Ou então, essas pessoas são envolvidas em trabalhos que se relacionam especi�camente às suas características, sendo designadas, por exemplo, para áreas que requerem uma interface com clientes ou consumidores dos mesmos grupos de identidade. Nesses casos, as organizações e mesmo a sociedade estão operando com o segundo paradigma que falamos antes, de que a maior virtude que os grupos de identidade têm a oferecer é o conhecimento da sua própria gente. Essa pressuposição é limitadora – e limitada – dos esforços de diversidade e multiculturalismo. Mulheres, negros, indígenas, homossexuais, pessoas idosas e diversos outros grupos não trazem com eles apenas uma “informação peculiar”. Eles trazem conhecimentos e visões diferentes, importantes e relevantes sobre como pensar o mundo e como encontrar soluções para problemas – novas e inovadoras formas de se alcançar metas, pensar políticas públicas, comunicar ideias e liderar. Quando se permite, membros desses grupos podem ajudar a sociedade a crescer e a melhorar, já que desa�am as pressuposiçõesbásicas e antigas sobre como nos comportamos e sobre “o que é certo”. E, ao fazerem isso, são capazes de trazerem mais de si para o bene�cio de todos, o que resulta em uma maior identi�cação social, fazendo com que eles tragam ainda mais de si para a solução de problemas, dando início a um ciclo “virtuoso”. Certamente, pode-se esperar que os indivíduos vão contribuir com a sua familiaridade em primeira mão com certos nichos de mercado. Mas apenas nós começarmos a pensar sobre diversidade e o multiculturalismo de uma forma mais abrangente – como uma forma de se obter abordagens novas e importantes, que não tinham sido pensadas antes – e pararem de assumir que diversidade se relaciona simplesmente a como uma pessoa aparenta ou de onde ele ou ela vem, é que nós seremos capazes de tirar proveito dos seus incentivos. Gerir o multiculturalismo é, sem dúvidas, um desa�o. 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 66/82 Unidade 04 Amplie seu conhecimento Referências ACQUAVIVA, Marcus Cláudio. Dicionário Jurídico Brasileiro Acquaviva. São Paulo: Rideel, 2013. ADAMS, J. S. Inequity in social exchange. In: BERKOWITZ, L. (Org.). Advance s in experimental social psychology. New York: Academic Press, 1965, v. 2, p. 267-299. ADAMS, J. S. Toward an understanding of inequity. Journal of Abnormal and Social Psychology, v. 67, n. 5, p. 422-436, 1963. VÍDEO O que ele representa e uma boa revisão sobre o conceito é apresentado no vídeo que se segue: 22/08/2020 IESB https://iesb.blackboard.com/bbcswebdav/institution/Ead/_disciplinas/template/new_template/#/EADG588/impressao/4 67/82 AGLY, A. H.,; CHAIKEN, S. Attitudes structure and function. In: GILBERT D. T.; FISKE, S. T.; LINZEY, G. (Orgs.). The handbook of social psychology. 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