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Catalogação elaborada na Fonte. Ficha catalográfica elaborada pela Bibliotecária responsável: Rosiane Maria - CRB-14/1588 U588s Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Ciências da Saúde. Departamento de Saúde Pública. Curso de Atenção Integral à Saúde das Mulheres – Modalidade a Distância. Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres [Recurso eletrônico] / Universidade Federal de Santa Catarina. Organizadores: Mariana Santos Felisbino Mendes; Cássia Elena Soares. – 2. ed. – Florianópolis: UFSC, 2019. 83 p. : il. color. Modo de acesso: www.unasus.ufsc.br Conteúdo do módulo: Unidade 1 – Saúde sexual e saúde reprodutiva: um direito à saúde. – Unidade 2 – Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades. – Unidade 3 – Saúde sexual e saúde reprodutiva na atenção primária. ISBN: 978-85-8267-151-1 1. Saúde sexual e reprodutiva. 2. Atenção primária em saúde. 3. Saúde das mulheres. I. UFSC. II. Mendes, Mariana Santos Felisbino. III. Soares, Cássia Elena. IV. Título. CDU: 612.6 5 GOVERNO FEDERAL Ministério da Saúde Secretaria de Atenção Primária em Saúde Departamento de Ações Programáticas Estratégicas Coordenação Geral de Ciclos de Vida Coordenação de Saúde das Mulheres Universidade Federal de Santa Catarina Reitor: Ubaldo Cesar Balthazar Vice-Reitora: Alacoque Lorenzini Erdmann Pró-Reitora de Pós-Graduação: Cristiane Derani Pró-Reitor de Pesquisa: Sebastião Roberto Soares Pró-Reitor de Extensão: Rogério Cid Bastos Centro de Ciências da Saúde Diretor: Celso Spada Vice-Diretor: Fabrício de Souza Neves Departamento de Saúde Pública Chefe do Departamento: Fabrício Augusto Menegon Subchefe do Departamento: Lúcio José Botelho Coordenadora do Curso de Capacitação: Elza Berger Salema Coelho Créditos 6 EQUIPE TÉCNICA DO MINISTÉRIO DA SAÚDE Coordenação-Geral de Saúde das Mulheres Gestora geral do Projeto Elza Berger Salema Coelho Equipe de produção editorial Carolina Carvalho Bolsoni Deise Warmling Elza Berger Salema Coelho Equipe executiva Dalvan Antonio de Campos Gisélida Vieira Patrícia Castro Sheila Rubia Lindner Consultoria técnica Carmem Regina Delziovo Créditos 7 AUTORIA DO MÓDULO Mariana Santos Felisbino-Mendes Cássia Elena Soares Assessoria pedagógica Márcia Regina Luz Identidade visual e Projeto gráfico Pedro Paulo Delpino Esquemáticos Laura Martins Rodrigues Naiane Cristina Salvi Diagramação, Ajustes e finalização Adriano Schmidt Reibnitz Design instrucional, revisão de língua portuguesa e ABNT Eduard Marquardt Fonte para imagens e esquemáticos Fotolia Créditos 8 9 Este módulo traz conteúdos importantes para a atenção às mulheres e parcerias no contexto da Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva (SSSR). Foram construídas três unidades a partir das quais você poderá conhecer as melhores evi- dencias e recomendações atuais nesse cam- po de prática, respeitando os direitos sexuais e reprodutivos das usuárias e suas parcerias, quando presentes. Na unidade 1 são abordados os principais marcos históricos e políticos, internacionais e nacionais, que organizam a atenção à Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva. Além disso, re- lembramos os direitos sexuais e reprodutivos que devem sempre ser respeitados, norteando a prática. Na sequência, a unidade 2 aborda a questão de gênero e a sexualidade feminina, além de revi- sitar as Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e o planejamento reprodutivo, atuali- zando seus conhecimentos para aplicá-los na Atenção Primária. Para finalizar, a unidade 3 elenca estratégias de abordagem para a SSSR tendo em vista as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS). Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres A discussão deste conteúdo visa fortalecer suas habilidades e conhecimentos para resol- ver os problemas na atenção às usuárias. 10 Neste módulo o aluno deverá reconhecer a Saúde Sexual e a Saúde Reprodutiva como direito à saúde das mulheres, assim como as intercorrências mais comuns deste tema e as estratégias de abordagem na Atenção Primária. Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres Objetivos de aprendizagem para este Módulo Ao final deste módulo, você deverá ser capaz de reconhecer a Saúde Sexual e a Saúde Re- produtiva como direito à saúde, identificar e tratar as Infecções Sexualmente Transmis- síveis, conhecer os diferentes métodos an- ticoncepcionais e as estratégias de aborda- gem na Atenção Primária, tendo em vista as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS). Carga horária de estudo recomendada para este módulo 30 horas 11 Unidade 1 – UN1 Saúde sexual e saúde reprodutiva: um direito à saúde 12 1.1 Marcos internacionais e nacionais 14 1.2 Impactos nos ciclos de vida 19 1.3 Influências das construções de gênero 21 1.4 As expressões da sexualidade feminina 22 Unidade 2 – UN2 Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades 26 2.1 Ciclos de vida e vulnerabilidades 28 2.2 Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) 34 2.3 Atenção ao planejamento reprodutivo 47 Unidade 3 – UN3 Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva na Atenção Primária 60 3.1 Estratégias para garantir a atenção à Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva 63 3.2 Papel dos profissionais da Atenção Primária 65 3.3 Corresponsabilização dos homens 70 3.4 Organização do serviço de saúde em rede 71 Resumo do módulo 76 Referências 78 Sobre as autoras 82 Sumário 12 UN1 Saúde sexual e saúde reprodutiva: um direito à saúde 13 14 14 UN1 Saúde sexual e saúde reprodutiva: um direito à saúde Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres A Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva (SSSR) é questão de preocupação global, uma vez que se trata de um tema que envolve questões de direitos humanos e saúde. Seu impacto ultra- passa o indivíduo, família e sociedade, e pode- mos afirmar, além disso, que não existe área na saúde na qual as iniquidades sejam tão marcantes (COOK; DICKENS; FATALLA, 2003). Além dos direitos sexuais e reprodutivos, as questões de gênero e a sexualidade feminina atuam como pilares desta primeira unidade, pois são fundamentos imprescindíveis que devem o tempo todo nortear a prática neste campo. Assim, o objetivo desta unidade é discutir os direitos, a SSSR, tomando por base as diretri- zes do Sistema Único de Saúde (SUS) e a Po- lítica Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM). 1.1 Marcos internacionais e nacionais Ao abordar a Saúde Sexual e Saúde Repro- dutiva (SSSR), é necessário revisitar alguns marcos legais que envolvem os direitos sexuais e reprodutivos. São documentos in- ternacionais e nacionais que contribuíram para o avanço nesta área e que norteiam as práticas voltadas para tal. No cenário internacional, em 1948, com a publicação da Declaração Universal dos Di- reitos Humanos pela Organização das Na- ções Unidas (ONU), estabeleceu-se como direitos fundamentais “o direito à vida, à ali- mentação, à saúde, à moradia, à educação, ao afeto, os direitos sexuais e os direitos re- produtivos” (ONU, 1948). Apesar do reconhecimento desses direitos como fundamentais, somente em 1994 a dis- cussão sobre os direitos sexuais e reproduti- vos, bem como ao conceito de saúde sexual e reprodutiva, foi retomada em nível internacio- nal. Neste ano, a Conferência Internacional da ONU sobre População e Desenvolvimento, que ocorreu no Cairo, Egito, constituiu-se como marco dentro do contexto da SSSR, uma vez que reafirmou e conferiu um papel primordial à saúde, aos direitos sexuais e aos direitos reprodutivos, abandonando a ênfase na ne- cessidade de limitar o crescimento populacio- nal como forma de combater a pobreza e as 15 15 UN1 Saúde sexual e saúde reprodutiva: um direito à saúde Saúdesexual e saúde reprodutiva das mulheres desigualdades, focalizando no desenvolvi- mento do ser humano (OMS, 1994; BRASIL, 2013). Fonte: elaborado pelos autores Marcos Internacionais Marcos Nacionais 1948 Declaração Universal dos Direitos Humanos 1970 Explosão demográfica 1984 Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM) 1988 Constituição Federal do Brasil 1994 Conferência Internacional da ONU sobre População e Desenvolvimento (CIPD) - Cairo 2015 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 1995 IV Conferência Muncial sobre a Mulher - Pequim 1996 Lei do Planejamento Familiar 2000 Conferência do Milênio, Organização das Nações Unidas 2005 Política Nacional dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos MS/2005 2007 Programa “Mais Saúde: Direito de Todos” 2011 Rede Cegonha 2004 Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM) Marcos Internacionais e Nacionais da Saúde sexual e saúde reprodutiva Abaixo, tem-se uma linha do tempo que ilus- tra e resume os marcos principais, continue acompanhando. No ano seguinte, 1995, ocorreu a IV Conferên- cia Mundial sobre a Mulher, em Pequim, China, na qual se avançou na definição dos direitos 16 16 UN1 Saúde sexual e saúde reprodutiva: um direito à saúde Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres sexuais e direitos reprodutivos como Direitos Humanos (ONU, 1995; BRASIL, 2013). Enten- de-se que as conferências de Cairo e Beijing contribuíram para que abordagens coercitivas de controle de natalidade fossem oficialmen- te banidas, para que o planejamento repro- dutivo fosse de livre escolha dos indivíduos e casais, para que as mulheres se tornassem parceiras igualitárias em todas as decisões no âmbito da família, e, por fim, para que as mulheres formalmente tomassem posse dos seus destinos. Ambas as conferências foram fortemente influenciadas por movimentos fe- ministas da época, que lutaram e discutiram ativamente durante os eventos. No ano 2000, a Conferência do Milênio, tam- bém organizada pela ONU, foi um evento que estabeleceu uma agenda de compromisso denominada Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Essa agenda foi compos- ta por oito objetivos a serem alcançados até 2015, e dentre eles, quatro possuíam relação direta com a saúde sexual e com a saúde reprodutiva: a promoção da igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres; a melhoria da saúde materna; o combate ao HIV/AIDS, malária e outras doenças, e a re- dução da mortalidade infantil (PNUD, 2004; BRASIL, 2013). Observa-se que apesar de não ter sido cumprida em sua totalidade, a agenda se constituiu como um grande estí- mulo e compromisso para todas as nações envolvidas e alguns avanços foram alcan- çados: diminuição da desnutrição infantil, redução da mortalidade de crianças meno- res de cinco anos e melhora discreta na ra- zão de mortalidade materna (VICTORA et al., 2011). Em 2015, essa agenda foi revista e atuali- zada em 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas a serem al- cançadas até 2030 (ONU, 2015). Nesta nova versão atualizada da agenda, observa-se um ODS específico no contexto da Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva: “Objetivo 5 – Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas”, e, dentre as me- tas, um número maior de itens relacionados aos direitos, além da Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva. Figura 1 – As reivindicações das conferências de Cairo e Beijing: direitos das mulheres 17 17 UN1 Saúde sexual e saúde reprodutiva: um direito à saúde Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres “Transformando nosso mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”, leia o documento na ín- tegra em: <https://nacoesunidas.org/ wp-content/uploads/2015/10/agenda- 2030-pt-br.pdf>. Você sabe quais são os diretos sexuais e os direitos reprodutivos? Acompanhe no esque- mático abaixo: Concomitantemente a esses acontecimentos e compromissos internacionais, no cenário nacional, na década de 1970, destaca-se uma explosão demográfica com um forte conflito entre as estratégias de planejamento reprodu- tivo e o controle de natalidade, levando a uma prática descontrolada da esterilização femini- na (SOUZA et al., 2010). As políticas voltadas à mulher desde a década de 1960 possuem enfoque na assistência ao ciclo gravídico puerperal, observando-se uma incorporação da saúde da mulher às políticas nacionais de saúde com programas referentes a esta temá- tica (SOUZA et al., 2010). Importante! Em 1984 lançou-se a pri- meira política de saúde da mulher do país que buscava olhá-la como protago- nista da sua própria saúde, denominada Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM) (BRASIL, 1984). Essa proposta contou com participação ativa do movimento feminista e apresentava uma abordagem global da saúde da mu- lher em todas as fases do seu ciclo vital, e não apenas no ciclo gravídico puerpe- ral (SOUZA et al., 2010; BRASIL, 2013). Mais adiante, em 1988, com a promulgação da Constituição Federal do Brasil, estabeleceu-se no Título VII da Ordem Social – Capítulo VII, artigo 226, § 7o deste documento, a responsa- bilidade do Estado no que se refere ao plane- jamento familiar (BRASIL, 1988). Apesar desse avanço, somente em 1996, promulgou-se a Lei no 9263 que regulamenta este artigo da Cons- tituição Federal, também conhecida como Lei do Planejamento Familiar, regularizando o exer- cício das medidas de planejamento familiar DIREITOS REPRODUTIVOS • Direito das pessoas decidirem, de forma livre e responsável, se querem ou não ter filhos(as), quantos filhos(as) desejam ter e em que momento de suas vidas. • Direito de acesso a informações, meios, métodos e técnicas para ter ou não ter filhos(as). • Direito de exercer a sexualidade e a reprodução livre de discriminação, imposição e violência. DIREITOS SEXUAIS • Viver e expressar livremente a sexualidade e orientação sexual sem violência, discriminações e imposições, e com total respeito pelo corpo do(a) parceiro(a). • Escolher o(a) parceiro(a) sexual e se quer ou não ter relação sexual. • Viver plenamente a sexualidade sem medo, vergonha, culpa e falsas crenças, e independentemente de estado civil, idade ou condição física. • Ter relação sexual, independentemente da reprodução. • Sexo seguro para prevenção da gravidez e de infecções sexualmente transmissíveis (IST) e HIV/Aids. • Serviços de saúde que garantam privacidade, sigilo e um atendimento de qualidade, sem discriminação, bem como à informação e à educação sexual e reprodutiva. https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2015/10/agenda2030-pt-br.pdf https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2015/10/agenda2030-pt-br.pdf https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2015/10/agenda2030-pt-br.pdf 18 18 UN1 Saúde sexual e saúde reprodutiva: um direito à saúde Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres no país, bem como estabelecendo a proibição de qualquer ação que visasse controle demográfi- co (BRASIL, 1996). Destaca-se que desrespeitar o que está previsto nessa lei significa estar su- jeito a penalidades. Em 1948 foi estabelecido como direito humano os direitos sexuais e repro- dutivos, e na Constituição Brasileira, de 1988, o planejamento familiar. En- tretanto, somente 12 anos depois a lei no 9263/1996 regulamentou o plane- jamento familiar no Brasil, proibindo ações de controle demográfico. Como são as ações de planejamento reprodu- tivo oferecidas na sua unidade? A partir do ano 2000 observou-se um esforço e investimento para promover a ampliação da oferta de métodos contraceptivos reversíveis no Sistema Único de Saúde (BRASIL, 2013). Na sequência, em 2004, lançou-se a Política Na- cional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM) que incorporou o enfoque de Gênero e a Promoção da Saúde à política integral an- teriormente proposta,ampliando a assistên- cia aos grupos historicamente excluídos das políticas públicas nas suas especificidades e necessidades, dentre elas as mulheres negras, lésbicas e indígenas (BRASIL, 2004). A PNAISM é a política, vigente nos dias atuais, que reflete o compromisso com a implemen- tação de ações de saúde que contribuam para a garantia dos direitos humanos das mulhe- res e reduzam a morbimortalidade por cau- sas preveníveis e evitáveis. Também enfatiza a melhoria da atenção obstétrica, o planeja- mento reprodutivo, a atenção ao abortamento inseguro e às mulheres e às adolescentes em situação de violência doméstica e sexual. Em 2005 foi publicada a Política Nacional dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos, com os seguintes propósitos: ampliar a oferta de métodos contraceptivos reversíveis; incen- tivar à implementação de atividades educati- vas em saúde sexual e saúde reprodutiva para usuários(as) da rede SUS; capacitar os pro- fissionais da Atenção Primária em saúde se- xual e saúde reprodutiva; ampliar o acesso à esterilização cirúrgica voluntária (laqueadura tubária e vasectomia); implantar e implemen- tar redes integradas para atenção às mulheres e aos adolescentes em situação de violência doméstica e sexual; ampliar os serviços de re- ferência para a interrupção legal da gestação, garantia de atenção humanizada e qualificada às mulheres em situação de abortamento, en- tre outras ações (BRASIL, 2013). Figura 2 – A Política Nacional dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos, de 2005 Fonte: Universo da Mulher (2017). Em 2007, com o lançamento do Programa “Mais Saúde: Direito de Todos”, como parte do Programa de Aceleração do Crescimento, 19 19 UN1 Saúde sexual e saúde reprodutiva: um direito à saúde Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres o Ministério da Saúde promoveu a expansão das ações do planejamento reprodutivo (BRA- SIL, 2013) e, em 2011, criou a estratégia Rede Cegonha. Um dos princípios que integram a Rede Cegonha é a garantia dos direitos se- xuais e dos direitos reprodutivos de mulheres, homens, jovens e adolescentes. Uma das suas diretrizes é a garantia de acesso às ações do planejamento reprodutivo (BRASIL, 2011). As- sim, a Rede Cegonha, instituída no âmbito do SUS, consiste numa rede de cuidados que visa assegurar à mulher o direito ao planejamento reprodutivo à atenção humanizada à gravidez, ao parto e ao puerpério, bem como à criança o direito ao nascimento seguro e ao crescimento e desenvolvimento saudáveis (BRASIL, 2011). 1.2 Impactos nos ciclos de vida Na atenção em âmbito da Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva (SSSR), observamos fre- quentemente uma prática que oferece, às mulheres, serviços e cuidados referentes à reprodução, e, aos homens, informações e cuidados para com a sexualidade (PINHEI- RO; COUTO, 2013). Com todas as transfor- mações sociais e os avanços das políticas públicas de saúde, é urgente a necessidade de mudança dessa prática marcada pela de- sigualdade de gênero e cerceamento dos di- reitos sexuais e reprodutivos, principalmente das mulheres. Dentre as áreas a serem abordadas na Atenção Primária, a Saúde Sexual e Saú- de Reprodutiva tem destaque, consti- tuindo-se uma área prioritária devendo ser norteada pelos direitos sexuais e re- produtivos, considerando as diferentes conformações familiares, especialmente para adolescentes, que muitas vezes es- tão à margem da atenção à saúde nessa questão (BRASIL, 2013). Tendo em vista o conceito ampliado de saúde como completo bem-estar físico, mental, so- cial e espiritual (WHO, 1946; WHO, 1998), en- tende-se por saúde reprodutiva a capacidade de uma pessoa em manter uma vida sexual responsável, satisfatória, segura, bem como de ter condições de reproduzir e liberdade para decidir se, como e com que frequência fazê-lo, bem como regular sua fertilidade e experienciar um parto e nascimento seguro, com desfechos positivos (WHO, 1988; OMS, 1994; BRASIL, 2013). Trata-se de um conceito relativamente recente que recebeu atenção na Conferência do Cairo, citada anteriormente. A saúde reprodutiva inclui a saúde sexual, e o conceito de saúde sexual, também tendo-se em vista o conceito ampliado de saúde, deve incluir os seguintes componentes: capacida- de de aproveitar mutuamente os relaciona- mentos sexuais, estar livre de abuso, coerção e assédio sexual, prevenir-se contra ISTs e ter sucesso em alcançar ou evitar a gravidez (COOK; DICKENS; FATALLA, 2003). Uma mulher por volta dos 50 anos de idade é geralmente negligenciada na prática clíni- ca em relação à sua Saúde Sexual e Saúde Figura 3 – A saúde sexual deve ser contemplada em todas as fases da vida ESTÁGIOS DE VIDA DA MULHER Estágios de vida da mulher 20 20 UN1 Saúde sexual e saúde reprodutiva: um direito à saúde Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres Reprodutiva, pois pode estar vivendo o final da sua vida reprodutiva e por isso tem uma série de sintomas e queixas relacionadas ao clima- tério. Muitas vezes, sabe pouco sobre isto, e muito menos recebe os cuidados dos quais se beneficiaria nessa fase da vida. Isso se dá pelo enfoque reprodutivo das ações, muito comu- mente concentradas em pré-natal e puerpério. Estudo recente demonstra que são essas as mulheres que estão em atraso com as ações de rastreamento do câncer de mama e colo uterino, mulheres idosas, que têm baixa es- colaridade, que moram nas regiões mais po- bres do país, sem companheiro, desnutridas, e que possuem outros comportamentos ne- gativos em saúde (TIENSOLI et al., 2015). Figura 4 – Idosas e Adolescentes também devem receber atenção à Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva Por outro lado, as adolescentes que iniciam sua vida sexual também precisam de infor- mações relacionadas ao funcionamento do seu corpo, menstruação, desejo, relação se- xual segura, ISTs, gravidez, prevenção e méto- dos contraceptivos. Recentemente, vivencia- mos uma grande resistência à aceitação da vacinação contra o HPV em meninas de 9 a 13 anos, muitas vezes relacionadas à desin- formação do que exatamente seria a vacina, a doença e a prevenção da mesma. Esta in- formação nos remete a necessidade de abor- dagem e informação aos pais e responsáveis pelas adolescentes, pois quando melhor infor- mados, os pais não se opõem e reconhecem os benefícios na vacinação (OSIS; DUARTE; SOUSA, 2014). Estas são situações que têm sido ob- servadas na prática em Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva, mas que poderiam ser evitadas com uma atenção pautada pelos direitos sexuais e reprodutivos, bem como pelo reconhecimento da educação em saúde como fundamen- tal às práticas avançadas na Atenção Primária. Este âmbito de grande apro- ximação da população com a equipe de saúde da família, e desta com o territó- rio vivo, permite uma atenção à SSSR em todos os ciclos de vida, tendo a educação em saúde como forte aliada no empoderamento das mulheres em relação ao seu corpo, suas transforma- ções, cuidado e decisões. Pare e reflita se esses exemplos são próximos da sua realidade. Relembramos que a atenção em Saúde Sexu- al e Saúde Reprodutiva deve ser abrangente e englobar várias ações inter-relacionadas (BRASIL, 2013), confira no quadro a seguir: 21 21 UN1 Saúde sexual e saúde reprodutiva: um direito à saúde Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres Mas para atuar na ampliação da atenção a Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva é impor- tante reconhecer as questões de gênero re- lacionadas e os impactos para a saúde das mulheres, como veremos no ponto a seguir. 1.3 Influências das construções de gênero A construção do gênero leva em considera- ção papéis, atitudes e regras sociais, entre outros aspectos, para caracterizar mulheres e homens muito além do que a observação domésticos e cuidados com os filhos, casa e parceria. Aos homens, o papel do provedor e chefia familiar seria mais“adequado”, dada a sua racionalidade e praticidade frente às dificuldades e problemas cotidianos. A força física, outra característica muito associada ao universo masculino, muitas vezes é em- pregada para a obtenção da obediência ou ato sexual contra a vontade da mulher e par- ceira (MACHIN et al., 2011; UFSC, 2016). Importante! A violência contra mulher nem sempre deixa marcas físicas. Con- tudo, os danos psicológicos e morais muitas vezes deixam marcas tão pro- fundas que influenciam direta ou indire- tamente a saúde de suas vítimas (BRA- SIL, 2011; GUEDES, 2009). Muitas vezes a depressão, adição ou o desinteresse sexual da mulher pode estar vinculado à situação de violência psicológica, moral e física por parte da parceria. A descoberta masculina de sua função no pro- cesso de reprodução parece surgir também como um fator que naturaliza a submissão e passividade das mulheres frente aos homens (VITIELLO, 1998; WEREBE, 1998). Ações inter-relacionadas entre Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva ÎÎ Planejamento reprodutivo ÎÎ Educação para o exercício da sexualidade ÎÎ Cuidados frente a sofrimentos psicoemocionais ÎÎ Assistência pré-concepcional, pré e pós-natal e maternidade segura ÎÎ Cuidados com o climatério ÎÎ Prevenção de agravos reprodutivos e sexuais (ISTs, câncer, abortos provocados, violência doméstica e sexual, dentre outros) ÎÎ Proteção contra efeitos nocivos do ambiente e serviços de saúde sobre a saúde reprodutiva e sexual da genitália (sexo biológico) nos mostra. Baseia-se em um processamento elaborado de questões sociais e culturais que orienta o que é ser mulher e homem na nossa socie- dade. O comportamento e o modo de agir, que parecem tão “naturais” para cada gêne- ro, é na verdade ensinado desde a mais ten- ra idade (BRASIL, 2011; JESUS, 2012). Algumas características como fragilida- de, emoção e sensibilidade, muito asso- ciadas à feminilidade, tornariam a mulher “naturalmente” mais apta aos afazeres 22 22 UN1 Saúde sexual e saúde reprodutiva: um direito à saúde Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres A mulher que foge desses padrões sociais (que prioriza, por exemplo, a carreira profis- sional, não quer filhos, interesse sexual pelo mesmo gênero, entre outros) e que acompa- nha a sociedade ocidental há gerações ain- da enfrenta preconceito, na maioria. Na questão da SSSR esses estereótipos sur- gem claramente quando o uso de métodos contraceptivos ainda aparecem como uma função da mulher, desta forma a gravidez seria um problema da mulher. Ou, a sugestão por parte da mulher do uso do preservativo a ex- põe a dúvidas por parte do homem sobre a sua fidelidade. A liberdade do exercício da sexu- alidade está mais ligada aos homens, assim como a expectativa de que sua bagagem de experiência e repertório sexual seja maior que o da mulher. Os profissionais de saúde necessitam es- tar preparados para a atenção a esses direi- tos fundamentais das mulheres no exercício amplo da sua sexualidade, contemplando as especificidades dos diferentes grupos e suas necessidades. Figura 5 – O uso de contraceptivos é de responsabilidade de ambas as partes As influências culturais e o preconcei- to podem estar presentes durante os diferentes atendimentos efetuados na Unidade Básica de Saúde. Você con- segue garantir os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres nos seus atendimentos? 1.4 As expressões da sexualidade feminina Segundo a OMS (1975), a sexualidade humana é uma necessi- dade básica e um aspecto do ser huma- no que não pode ser separado de outros aspectos da vida. A sexualidade não é sinônimo de relação sexual e não se limita à presença ou não de orgasmo. Sexualidade é muito mais do que isso. É energia que motiva encontrar o amor, contato e intimidade, e se expressa na forma de sentir, nos movimentos das pessoas e como estas tocam e são to- cadas. É ser-se sensual e ao mesmo tempo sexual; ela influencia pensamen- tos, sentimentos, ações e interações e, por isso, influencia também a nossa saúde física e mental. Ao listar a sexualidade como um dos indicado- res de saúde, a OMS contribuiu na visibilidade do tema. Infelizmente, por longos anos, a se- xualidade feminina esteve associada à função reprodutiva. Com o surgimento da pílula anti- concepcional na década de 1960 abriu-se a perspectiva para as mulheres de desvincular o ato sexual da função reprodutiva, inclusive uma possível gravidez indesejada, e, mais além, ao possibilitar a liberdade do ato sexual para obtenção de prazer. No entanto, fatores morais e religiosos, muito presentes em nossa cultura, 23 23 UN1 Saúde sexual e saúde reprodutiva: um direito à saúde Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres limitaram e ainda limitam a exploração da sexualidade por parte das mulheres (ABDO, 2001). Para melhor compreensão das expressões de sexualidade feminina, faz-se necessário o do- mínio de alguns conceitos, tais como identi- dade de gênero e orientação sexual. À sensação interna de pertencimento a um determinado gênero é o que chamamos de identidade de gênero. Está refletida no modo de apresentar-se e em como se quer ser re- conhecido socialmente. Todas as vivências familiares, sociais, religiosas, de diferentes grupos por onde se circulou, experiências po- sitivas ou negativas marcam e influenciam essa certeza interior de ser mulher ou homem (JESUS, 2012). Com base na identidade de gê- nero podem-se classificar os indivíduos em dois grupos distintos. Quando existe concor- dância entre o sexo biológico e a identidade de gênero, temos o indivíduo cisgênero. E quando não há essa concordância, temos transgênero (transexuais, travestis etc.) (JESUS, 2012). Outra definição importante é da orienta- ção sexual. Nada mais é do que a atração afetivo-sexual entre as pessoas. Para os he- terossexuais a atração ocorrerá pelo gêne- ro oposto, os homossexuais por pessoas do mesmo gênero e os bissexuais por ambos os gêneros. Cabe aqui lembrar os assexuais, que não têm interesse sexual por qualquer gênero e os pansexuais, cujo interesse afetivo sexual não depende do gênero (JESUS, 2012; COSTA, 2005; SANTOS, 2010). A identidade de gênero e a orientação sexual são totalmente distin- tas, porém caminham juntas no exercício da sexualidade. Para o entendimento e acolhimento de inúme- ras angústias e queixas sexuais das mulheres no serviço de saúde, é importante também conhecer o chamado ciclo de resposta sexual, que nos mostra as fases que as mulheres vivem durante um encontro sexual. Para ilustrar essas fases, os estudos observa- cionais de Masters e Johnson sobre as reações do corpo durante o ato sexual os levaram a pro- por em 1970 um modelo de resposta sexual de quatro fases composto por EXCITAÇÃO – PLA- TÔ – ORGASMO – RESOLUÇÃO, baseado em respostas fisiológicas distintas em cada uma dessas fases (ABDO, 2001). Mais tarde, Kaplan surge com a proposta de acrescentar a fase de desejo no início do modelo inicial, publicada em 1987 pela Associação Psiquiátrica Americana (APA) no terceiro Manual Diagnóstico e Estatís- tico, revisado (DSM-III-R) (ABDO, 2001). O ciclo linear de resposta sexual modifica- do (DESEJO – EXCITAÇÃO – ORGASMO – RESOLUÇÃO) durante longo período era utili- zado como padrão para a avaliação de pos- síveis disfunções sexuais tanto em homens como mulheres. Somente em 1998 surgiria a publicação de um modelo mais dirigido às mulheres, proposto por Rosemary Basson, psiquiatra canadense. Em seus estudos sobre sexualidade feminina, Basson observou que a maioria das mulheres não seria funcional, conforme o modelo linear até então vigente, e que apesar disso as mes- mas sentiam-se extremamente satisfeitas sexualmente. Com base nessas observações, propôs o modelo circular de resposta sexual. Conforme este ciclo, o intercurso sexual não iniciaria necessariamente pelo desejo (mais presente nos relacionamentosrecen- tes). Para inúmeras mulheres, a excitação 24 24 UN1 Saúde sexual e saúde reprodutiva: um direito à saúde Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres subjetiva (sensação de sentir-se excita- da) ocorreria antes de desejar o ato sexual conscientemente. A excitação pode ser de- sencadeada por uma série de motivações (geralmente de cunho emocional), fazendo o desejo surgir e exercer um reforço positivo para mais excitação. O orgasmo não é uma fase obrigatória em todas as relações sexu- ais, conforme Basson. Um encontro sexual que reafirme a intimidade entre as parcerias e a ausência de dor poderia ser o desfecho positivo e suficiente para deixar a mulher disposta a um novo ato sexual (BASSON, 2008). Importante! Nos últimos anos, o estudo da sexualidade feminina ganhou força. O novo modelo de resposta sexual che- gou para mostrar que existem diferen- ças importantes no modo como homens e mulheres agem e reagem durante um encontro sexual. Estar atualizado com essas informações é fundamental para bem orientarmos as pacientes e evitar- mos inclusive a iatrogenia. Intimidade emocional Desejo sexual “espontâneo” Neutralidade sexual Estímulo sexual Excitação sexual Desejo e excitação sexual Satisfação emocional e física Modelo circular de resposta sexual Adaptado de: BASSON, 2008. Fonte: BASSON (2008). Como profissionais de saúde, precisamos ter claro que ainda há muito a ser desvendado no campo da sexualidade feminina, e novos avan- ços surgem a cada momento, a fim de atender às demandas cada vez maiores para os ques- tionamentos das mulheres da atualidade. Continue seus estudos com a próxima uni- dade e reconheça algumas estratégias para ampliar o acesso ao planejamento reproduti- vo, da sexualidade e da reprodução humana, além das descobertas mais recentes sobre as Infecções Sexualmente Transmissíveis. Para aprofundar seus conhecimentos no contexto dos marcos teóricos e direi- tos sexuais e reprodutivos, indicamos: CORRÊA, S.; ALVES, J. E. D.; JANNUZZI, P. M. Direitos e Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva: marco teórico-conceitual e sistema de indicadores”. Disponível em: <http://www.abep.nepo.unicamp. br/docs/outraspub/ind_mun_saude_ sex_rep/ind_mun_saude_sex_rep_capi- tulo1_p27a62.pdf>. Caso tenha interesse em ler um pouco mais sobre a existência de um modelo estereotipado de gênero que acarreta a (re)produção de desigualdades entre homens e mulheres na assistência a saúde, leia: MACHIN, R. Concepções de gênero, masculinidade e cuidados em saúde: estudo com profissionais de saúde da atenção primária. Disponível em: <http://www.repositorio.unifesp.br/ handle/11600/6684>. http://www.abep.nepo.unicamp.br/docs/outraspub/ind_mun_saude_sex_rep/ind_mun_saude_sex_rep_capitulo1_p27a62.pdf http://www.abep.nepo.unicamp.br/docs/outraspub/ind_mun_saude_sex_rep/ind_mun_saude_sex_rep_capitulo1_p27a62.pdf http://www.abep.nepo.unicamp.br/docs/outraspub/ind_mun_saude_sex_rep/ind_mun_saude_sex_rep_capitulo1_p27a62.pdf http://www.abep.nepo.unicamp.br/docs/outraspub/ind_mun_saude_sex_rep/ind_mun_saude_sex_rep_capitulo1_p27a62.pdf http://www.repositorio.unifesp.br/handle/11600/6684 http://www.repositorio.unifesp.br/handle/11600/6684 25 25 26 UN2 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades 27 28 28 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 Esta unidade relembra especificidades e vul- nerabilidades relacionadas à Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva (SSSR) das mulheres e al- gumas estratégias para ampliar o acesso ao planejamento reprodutivo como um exercício individual, livre e responsável, da sexualida- de e da reprodução humana. Inclui evidências científicas mais recentes sobre as Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e sobre o planejamento reprodutivo. 2.1 Ciclos de vida e vulnerabilidades Convidamos você a reconhecer algumas es- pecificidades e vulnerabilidades na Saúde Se- xual e Saúde Reprodutiva nos diferentes ciclos de vida das mulheres e em grupos específi- cos, incluindo estratégias para a atenção no contexto da Atenção Primária. Adolescência Período de vida compreendido entre os 10 e 19 anos, em que grandes mudanças físi- cas, psicológicas e sociais ocorrem. Lidar com um novo corpo, e que já apresenta ca- pacidade reprodutiva está longe de ser uma tarefa fácil (BRASIL, 2011). Nessa fase de vida a urgência em viver diferentes experiên- cias, pertencer a um grupo ao mesmo tempo em que os riscos parecem não existir, mar- cam a adolescência. A gravidez nesse mo- mento provoca profundas alterações do pla- nejamento do futuro, pois aumenta a chance da evasão escolar, entrada precoce no mer- cado de trabalho sem qualificação adequada e a assumir responsabilidades para as quais não se está preparado (BRASIL, 2013). Figura 6 – A adolescência: lidar com um novo corpo Precisamos de um serviço de saúde que aco- lha adolescentes e possa orientar quanto ao exercício da sexualidade com cuidados de pre- venção de doenças e gravidez indesejada e 29 29 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 não planejada, dar acesso aos métodos con- traceptivos e estimular o respeito nas relações afetivas, repudiando a violência. Vale lembrar que ações voltadas para esse público podem ser mais efetivas quando aplicadas nos locais mais frequentados por eles (escolas, por exem- plo) do que aguardar pela demanda espontâ- nea (BRASIL, 2013). Climatério e Menopausa Fase da vida das mulheres caracterizada pelo progressivo declínio até a ausência da capa- cidade reprodutiva (BRASIL, 2013). Em asso- ciação, mudanças físicas, emocionais, sociais e familiares podem gerar inseguranças e an- gústias às mulheres. Os avanços da medicina e os cuidados de prevenção contribuíram para um aumento significativo e progressivo dessa população de mulheres com mais idade. O preconceito envolvendo a sexualidade após uma determinada idade pode causar sérios danos a esse grupo. A vida sexual pode sofrer algumas modificações, como a diminuição da frequência e intensidade. Porém, sem dúvida pode e deve ser ativa (BRASIL, 2013). Figura 7 – A menopausa é um período que merece espe- cial atenção no atendimento O atendimento a ser realizado pela Atenção Pri- mária deve abordar a vivência da sexualidade de maneira saudável, acolher possíveis queixas e dar os devidos encaminhamentos quando necessário, bem como a prevenção para Infec- ções Sexualmente Transmissíveis (IST). População de mulheres lésbicas, bissexuais e transexuais A visibilidade social do grupo de mulheres lés- bicas, bissexuais e transexuais cresceu tão ex- pressivamente que fomentou a criação de uma política própria: Política Nacional de Saúde In- tegral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. O uso do nome social nos ser- viços de saúde foi uma importante conquista para esta população (BRASIL, 2011). A diversidade quanto à orientação sexual e identidade de gênero não devem dificultar ou impossibilitar o acesso aos serviços de saúde. Infelizmente, o preconceito e a discri- minação, também presentes nas instituições de saúde, afastam as usuárias desse grupo. O preconceito e violência, muitas vezes vi- venciados primeiramente no âmbito fami- liar, provocam abandono do lar, êxodo esco- lar, entrada precoce no mercado de trabalho (em muitos casos por baixa escolaridade e pelo próprio preconceito acabam por encon- trar na prostituição um meio de sustento) e maior chance de depressão, suicídio e uso de drogas (BRASIL, 2013). 30 30 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual esaúde reprodutiva das mulheres UN2 No tocante ao atendimento às mulheres lébiscas e bissexuais, a generalização da orientação sexual como heterossexual por parte de alguns profissionais de saúde pode afastar e inibir este público da procura por atendimento em saúde. Outro aspecto a considerar é o imaginário comum de que essa população específica estaria menos susceptível a adquirir ISTs. Trata-se de garantir o acesso a consultas gine- cológicas regulares para prevenção de câncer de colo uterino e mama, dar orientações sobre as práticas sexuais seguras em relações ho- moafetivas (higiene das mãos e unhas, sempre cortadas e limpas; uso de luvas em penetra- ção manual ou preservativo masculino; sexo oral com proteção; preservativo em acessórios sexuais, e não compartilhar o acessório com o mesmo preservativo; risco da relação sexual durante o período menstrual). Ainda para este público, não se deve medir esforços para evi- tar ISTs e ainda acolher, se for a demanda, por acesso a serviços especializados em repro- dução assistida (BRASIL, 2013; BRASIL, 2014; SANTOS, 2010). A capacitação de profissionais de saúde sobre a temática da diversidade sexual e dos direitos sexuais deve ser constante. O envolvimento dos movimentos LGBTs com os serviços de saúde pode facilitar a adesão e aproximação dessa po- pulação às unidades de Atenção Primária, quer seja para trabalhar sob o foco da prevenção, como garantir o acesso por outras demandas. Figura 8 – A Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais é um dos fortes indícios do crescimento deste grupo, com demandas em saúde específicas 31 31 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 Para essa população, demonstradamente com maior vulnerabilidade e menor acesso aos servi- ços de saúde, deve-se organizar e implementar um conjunto de ações de promoção da saúde e prevenção que vão além da oferta de preser- vativos. É preciso abordar por exemplo, acesso facilitado para testar ISTs e HIV, acolhimento e atendimento livre de discriminação nas unida- des de Atenção Primária e centros de testagens, bem como promover a humanização da assis- tência à saúde dessas usuárias. População negra Os sistemas de informação ainda pecam em não proporcionar dados mais fidedignos sobre a população negra. Observa-se, em dados gerais, um menor grau de instrução, poder aquisitivo e acesso a serviços de boa qualidade (BRASIL, 2011). Em comparação com a população branca, alguns agravos em saúde aparecem em maior proporção, como mortalidade materna e infantil e violência (BRASIL, 2011; BRASIL, 2010a). O racismo, que insiste em persistir nos dias atuais em nossa sociedade, é um fator que causa danos à saúde. O racismo institucional deve ser combatido energicamente, pois traz grandes prejuízos a essa população ao lhe difi- cultar acesso a serviços, atendimentos e medi- camentos (BRASIL, 2011). Serviços de saúde atentos às necessidades da população negra, proporcionando atenção de qualidade, sem dúvida contribuirão na geração de números mais positivos nas estatísticas específicas. População indígena Adequar os princípios da Saúde Sexual e Saú- de Reprodutiva (SSSR) com as diferentes cul- turas da população indígena constitui-se em um enorme desafio. No contexto da Atenção Primária, a saúde in- dígena está vinculada à Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI). Entre as suas atribui- ções está desenvolver ações de atenção integral à saúde indígena e educação em saúde, em con- sonância com as políticas e os programas do SUS, e observando as práticas de saúde tradicio- nais indígenas. Para executar essas ações, con- ta com estrutura administrativa dos 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI), tendo como base a ocupação geográfica das comuni- dades indígenas que abrangem mais de um mu- nicípio, e, em alguns casos, mais de um estado. Além dos DSEIs, há, ainda, os Polos Base, Casas de Saúde Indígena (Casais) e Unidades Básicas de saúde. Diversidade cultural Idioma Localização das aldeias Iniciação sexual e gravidez precoce Intervalo curtos entre as gestações Dificuldades no atendimento às mulheres indígenas Importante! No seu município há popula- ção indígena? Se sim, procure conhecer a equipe que atua com esta população integrando as ações desenvolvidas, quais as estratégias para trabalhar com as mulheres, trocando experiências. Você poderá conhecer as práticas de saúde tradicionais voltadas para as mulheres que são diferentes nos muitos povos indígenas do país. 32 32 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 Para compreender melhor o Subsistema da Atenção Indígena acompanhe a imagem abaixo: Figura 9 – Entenda o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS) Fonte: SESAI (2019) Ministério da Saúde: é o órgão do Poder Executivo Federal responsá- vel pela organização e elaboração de planos e políticas voltados para a promoção, prevenção e assistência à saúde dos brasileiros. SESAI: área do Ministério da Saúde criada para coordenar e executar o processo de gestão do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena em todo território nacional. DSEI: Distrito Sanitário especial Indígena é a unidade gestora descen- tralizada do subsistema e responde pela execução das ações básicas de saúde em área indígena. No Brasil são 34 DSEIs. Polo base: os 351 Polos Base existentes em todo pais, juntamente com os 966 postos de saúde, são as bases da atuação das equipes de saúde. Os Polos Base são classificados em Tipo I (localizados em terras indígenas) e Tipo II (localizado no município de referência). EMSI: As Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena são compos- tas por médicos, enfermeiros, odontólogos e auxiliares, além dos Agentes Indígenas de Saúde (AIS) e os Agentes Indígenas de Sanea- mento (AISAN). Os agentes moram em aldeias e são indicados pelos Conselhos Locais de Saúde Indígena. O total de trabalhadores em 2019 é de 13.989 profissionais para garantir a assistência primária à saúde e ao saneamento ambiental nos territórios indígenas. CASAI: No Brasil são 68 Casas de Saúde Indígena. A CASAI garante alojamento, alimentação e atendimento de enfermagem aos pacien- tes e acompanhantes, respeitando as especificidades culturas. Além disso, presta assistência farmacêutica e apoia o DSEI na articulação da rede de referência de Média e Alta Complexidade. 33 33 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 População de trabalhadoras do sexo A relação profissional e comercial, em que práticas sexuais são negociadas por dinheiro ou outros benefícios, é exercida principalmen- te por mulheres. Ao longo do tempo observou- -se a organização da população de mulheres trabalhadoras do sexo em busca da garantia de direitos básicos e reconhecimento da ativi- dade como profissão. A baixa escolaridade, a necessidade financeira e a dificuldade de per- suasão no uso de preservativo pela clientela as tornam mais expostas às doenças trans- mitidas por via sexual. Estão ainda mais ex- postas à violência e abuso de drogas (BRASIL, 2013; FIGUEIREDO, 2010). Os profissionais da Atenção Primária devem estar preparados para acolher as trabalhadoras do sexo sem discriminação, disponibilizando todos os serviços que sejam de necessidade da usuária profissional do sexo. Ações edu- cativas voltadas para informação sobre ISTs e meios de prevenção (uso correto e acesso facilitado aos preservativos), riscos do uso de drogas e dar acesso à redução de dano podem ser ofertados e facilitados para esse grupo específico. Trabalhadorasdo campo, da floresta e das águas As mulheres do campo, da floresta e das águas fazem parte de uma população bastan- te heterogênea, constituída por trabalhado- ras assalariadas e temporárias, agricultoras familiares, camponesas, trabalhadoras rurais assentadas ou acampadas, comunidades tra- dicionais (ribeirinhas, quilombolas), pescado- ras artesanais e marisqueiras, que habitam e utilizam reservas extrativistas em áreas de florestas ou aquáticas e atingidas por barra- gens (BRASIL, 2013; BRASIL, 2015). Figura 10 – As mulheres extrativistas possuem especifici- dades em saúde que devem ser observadas Este grupo populacional é afetado diretamen- te pela dificuldade de acesso aos serviços de saúde e por problemas de saúde ou acidentes decorrentes do trabalho que exercem (exposi- ção aos agrotóxicos, exposição solar e outras intempéries, violência) (BRASIL, 2015). O uso de saberes populares nos cuidados em saúde também está presente nesses gru- pos por questões culturais e pela dificuldade de acesso aos serviços de saúde (BRASIL, 2015). A desigualdade nas relações de gê- nero também está presente na vida familiar (violência doméstica), ao dificultar acesso a direitos como educação e na diferenciação de trabalho (BRASIL, 2015). Para uma atenção em SSSR adequada às necessidades desta população, são ne- cessárias estratégias para alcançar os mais distantes grupos, ter conhecimen- to das condições de vida local e promover ações preventivas (coletas de preventivo e exame de mamas, ISTs) e assistenciais frequentes na própria comunidade, faci- litando o acesso e acolhendo a deman- da específica do maior número de usuárias possível. 34 34 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 Mulheres vivendo com HIV e AIDS É cada vez mais significativo o número de mulheres adultas e jovens portadoras do HIV. Muitas destas jovens adquiriram o ví- rus por transmissão vertical, e muitas ou- tras pelo sexo sem uso de preservativo, mas por meio de acompanhamento e suporte de medicamentos adequado podem ter um planejamento de vida. É necessário acolher no serviço de saúde a mulher portadora do vírus, pois o medo e a discriminação, faz com que, uma pessoa se afaste de outras, inclusive daquelas com contato mais íntimo (BRASIL, 2008). Para essas pessoas existe a possibilidade de vida sexual saudável e segura (incluindo aqui as parcerias sorodiscordantes), bem como a possibilidade de planejamento de gestações (BRASIL, 2008). Para as mulheres que não desejam engravidar há a necessidade de reforçar a importância da dupla proteção (uso de preservativo além do uso de outro método contraceptivo) para si (prevenção de ISTs) e para a parceria (trans- missão do HIV) (BRASIL, 2008). É importante que você e sua equipe pesqui- sem e conversem sobre o assunto, e este- jam capacitados para fornecer informações e dispor de um atendimento de qualidade, por uso adequado de todos os protocolos na as- sistência das mulheres e jovens vivendo com HIV e AIDS, inclusive nos cuidados durante o pré-natal, parto e puerpério. Figura 11 – Pessoas vivendo com HIV podem ter uma vida saudável A seguir, dentro do contexto da Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva destacamos as infecções sexualmente transmissíveis. Abordaremos as evidências científicas atuais para atenção a estas doenças, com enfoque voltado para as mulheres. 2.2 Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) Conforme a OMS (2013), mais de um milhão de pessoas adquirem uma IST diariamente no mun- do (BRASIL, 2015). Em função das graves com- plicações em mulheres, recém nascidos e por ser fator de risco na transmissão do HIV, há um empenho mundial no combate a essas doenças. Na Atenção Primária deve-se promover o acolhimento com privacidade dos casos de possível ISTs, sem julgamento morais, a fim de facilitar o diagnóstico (inclusive de pos- sível ISTs associadas), tratamento e preven- ção. Atentar para o fato de que alguns grupos populacionais necessitam de atenção e abor- dagem específica, entre eles as profissionais do sexo, as mulheres em situação de rua e as usuárias de drogas, além das mulheres trans que apresentam maior prevalência de IST. E nos casos sintomáticos, deve-se priorizar o atendimento buscando o vínculo com a usu- ária e a segurança da mesma, de modo que o tratamento seja iniciado imediatamente. 35 35 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 As ISTs apresentam diversidade na etiologia e quadro clínico. Podem manifestar-se com corrimento vaginal e úlceras ou até não apre- sentar sintomas. As gestantes devem receber especial atenção para prevenir a transmissão vertical de sífilis, hepatites e HIV. A principal forma de transmissão é a sexual, porém, não se pode deixar de citar a contaminação san- guínea e a vertical (mãe-filho). Também é comum apresentarem-se em asso- ciação com outra IST. Sendo que os fatores so- cioeconômicos, comportamentais, questões de gênero, culturais e a dificuldade de acesso aos serviços de saúde influenciam desde o surgi- mento até a manutenção das ISTs. A principal forma de prevenção é o uso cor- reto e regular de método de barreira (preser- vativo masculino ou feminino) na relação sexual. Porém, o número de pessoas que usam o preservativo associado a outro mé- todo contraceptivo ou isoladamente é muito baixo, principalmente nos relacionamentos considerados estáveis. Deve-se lembrar ainda que algumas ISTs são de notificação compulsória: infecção pelo HIV, infecção pelo HIV em gestantes, parturiente ou puérpera e criança exposta ao risco de trans- missão vertical do HIV, AIDS, sífilis adquirida, sífilis em gestantes ou congênita, hepatites B e C, conforme portaria nº 204, de 17 de feve- reiro de 2016. Acompanhe no esquemático abaixo a triagem para ISTs que deve ser realizado no pré-natal. HIV Sífilis Hepatite B Hepatite C Na primeira consulta de pré-natal (ideal no primeiro e terceiro trimestre). No momento da internação para o parto (independente de tê-lo feito no pré-natal) deverá ser realizada testagem por ocasião da internação para o parto. Triagem para ISTs no Pré-Natal Na primeira consulta pré-natal (ideal no primeiro e terceiro trimestre) e no momento da internação para o parto (independente de tê-lo feito no pré-natal. Na primeira consulta de pré-natal. Caso não tenha realizado pré-natal deverá realizar a testagem por ocasião da internação para o parto. Testagem em gestantes de risco (infecção pelo HIV, usuárias de drogas, transfusão ou transplantes antes de 1993, hemodiálise, profissionais de saúde com histórico e acidente com material biológico e alterações de exames da função hepática sem outras causas). 36 36 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 Na atenção à saúde das mulheres e às IST, algumas atividades são de responsabilidade da equipe de Atenção Primária (BRASIL, 2015). Acompanhe: Lembre-se que a Unidade Básica de Saú- de precisa disponibilizar Testes Rápidos para HIV, Sífilis, Hepatites B e C. Você pode acessar mais informações sobre os testes rápidos para diagnóstico de sífilis, HIV, Hepatites B e C acessando: <http:// www.aids.gov.br/pt-br/profissionais-de -saude/testes-rapidos>. Conforme a Portaria n° 29, de 17 de de- zembro de 2013, que aprova o Manual Técnico para o Diagnóstico da Infecção pelo HIV em Adultos e Crianças, qual- quer profissional pode realizar o teste rápido, desde que tenha sido capacitado pessoalmente ou à distância. O Departa- mento de Vigilância, Prevenção e Contro- le das IST, do HIV/Aids e Hepatites Virais (DIAHV) fornece capacitação a distân- cia gratuitamente por meio do Telelab<http://www.telelab.aids.gov.br/>, onde estão disponíveis vídeos com procedi- mentos para a realização dos testes rá- pidos. Para o planejamento do acompanha- mento da mulher durante o ciclo grávi- dico puerperal, médicos e enfermeiros podem consultar as recomendações que estão publicadas no Protoco- los da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, que apresenta detalhada- mente todas as ações. Está disponí- vel em: <http://189.28.128.100/dab/ docs/portaldab/publicacoes/protocolo_ saude_mulher.pdf>. ÎÎ Garantir o acolhimento e realizar atividades de informação e educação em saúde. ÎÎ Realizar consulta imediata no caso de úlceras genitais, corrimentos genitais e de verrugas anogenitais. ÎÎ Realizar coleta de material cérvico-vaginal para exames laboratoriais. ÎÎ Realizar testagem rápida e/ou coleta de sangue e solicitação de exames para sífilis, HIV e hepatites B e C. ÎÎ Realizar tratamento das mulheres com IST e suas parcerias sexuais. ÎÎ Seguir o protocolo do MS para prevenção da transmissão vertical de HIV, sífilis e hepatites virais. ÎÎ Notificar as IST, conforme a portaria nº 204/2017. Os demais agravos são notificados de acordo com recomendações dos estados/municípios, quando existentes. ÎÎ Comunicar as parcerias sexuais do caso-índice para tratamento conforme protocolo. ÎÎ Referir os casos de IST complicadas e/ou não resolvidas para unidades que disponham de especialistas e mais recursos laboratoriais. ÎÎ Referir os casos de dor pélvica com sangramento vaginal, casos com indicação de avaliação cirúrgica ou quadros mais graves para unidades com ginecologista e/ou que disponham de atendimento cirúrgico. Atenção à saúde das mulheres com IST http://www.aids.gov.br/pt-br/profissionais-de-saude/testes-rapidos http://www.aids.gov.br/pt-br/profissionais-de-saude/testes-rapidos http://www.aids.gov.br/pt-br/profissionais-de-saude/testes-rapidos http://www.telelab.aids.gov.br/ http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/protocolo_saude_mulher.pdf http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/protocolo_saude_mulher.pdf http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/protocolo_saude_mulher.pdf 37 37 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 Caso você tenha alguma dúvida com relação às ações que pode realizar para diagnóstico e tratamento das IST você poderá acessar o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Se- xualmente Transmissíveis publicado em 2015 e atualizado em 2019 pelo Ministério da Saúde que está disponí- vel em: <http://www.aids.gov.br/pt-br/ pub/2015/protocolo-clinico-e-diretri- zes-terapeuticas-para-atencao-inte- gral-pessoas-com-infeccoes>. Figura 12 – Mais de um milhão de pessoas adquirem uma IST diariamente no mundo A seguir são elencadas algumas estratégias para a atenção integral às mulheres com IST na abordagem da prevenção combinada. Desta- ca-se a prevenção individual e coletiva, a oferta de diagnóstico e tratamento para as ISTs as- sintomáticas e o manejo das IST sintomáticas com uso de fluxogramas (BRASIL, 2019). Prevenção individual e coletiva ÎÎ Informação e educação em saúde. ÎÎ Preservativo masculino e feminino. ÎÎ Gel lubrificante. ÎÎ Busca adequada e acesso a serviços de saúde. ÎÎ Prevenção da transmissão vertical do HIV, sífilis e hepatites virais. ÎÎ Vacinação para HBV e HPV. ÎÎ Profilaxia pós-exposição ao HIV, quando indicada. Maiores informações disponível em: BRASIL. Proto- colo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pós-Exposição (Pep) de Risco à Infecção pelo HIV, IST e Hepatites Virais– Brasília : Ministério da Saú- de, 2018 ÎÎ Profilaxia pré-exposição ao HIV, quando indicada. Maiores informações disponível em: BRASIL. Proto- colo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) de Risco à Infecção pelo HIV / Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saú- de. Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV/ Aids e das Hepatites Virais. Brasília, 2018. ÎÎ Profilaxia pós-exposição às IST em violência sexual. ÎÎ Redução de danos. ÎÎ Testes Rápidos Oferta de diagnóstico e tratamento para IST assintomáticas (com laboratório) ÎÎ Triagem para sífilis, gonorreia, clamídia, hepatites vi- rais B e C e HIV para mulheres com IST e populações- -chave (profissionais do sexo, mulheres que usam drogas), quando disponível. ÎÎ Testagem de rotina para diagnóstico de HIV, sífilis e hepatite B durante o pré-natal e parto, conforme re- comenda os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêu- ticos (PCDT IST, 2019) do Ministério da Saúde para prevenção da transmissão vertical. ÎÎ Tratamento das infecções identificadas. Manejo de IST sintomáticas com uso de fluxogramas (com e sem laboratório) ÎÎ Condutas baseadas em fluxogramas. ÎÎ Queixa de síndrome específica. ÎÎ Anamnese e exame físico. ÎÎ Diagnóstico com e sem laboratório. ÎÎ Tratamento etiológico ou baseado na clínica (para os principais agentes causadores da síndrome). O serviço de saúde ao qual você pertence está atento e proporciona o diagnóstico e tratamento das ISTs? Tanto o diagnósti- co quanto o tratamento ocorrem em tem- po oportuno? Conseguem diagnosticar e tratar as parcerias sexuais? http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2015/protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeuticas-para-atencao-integral-pessoas-com-infeccoes http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2015/protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeuticas-para-atencao-integral-pessoas-com-infeccoes http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2015/protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeuticas-para-atencao-integral-pessoas-com-infeccoes http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2015/protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeuticas-para-atencao-integral-pessoas-com-infeccoes 38 38 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 2.2.1 Algumas abordagem das ISTs assintomáticas Doenças como sífilis, cervicites por gonorreia e clamídia, hepatites B e C e HIV são mais fre- quentemente assintomáticas, e complicações como infertilidade, AIDS, sífilis congênita e cir- rose hepática podem ocorrer caso o diagnós- tico demore a ser realizado. As assintomáticas ocorrem com mais fre- quência no caso de mulheres, nas jovens, nas mulheres trans e nas profissionais do sexo, grupos que muitas vezes têm mais di- ficuldade em acessar os serviços de saúde. Essas populações, assim como as usuárias de drogas e gestantes, devem ser priorizadas para a realização de exames diagnósticos. . Acompanhe no próximo esquemático, algu- mas doenças assintomáticas com possíveis manifestações clínicas e tratamento Doença Manifestação clínica Tratamento Gonorréia Cervicite (geralmente assintomática). Quando apresenta sintomas: dispareunia, disúria, sangramento intermenstrual. As principais complicações são: dor pélvica, Doença Inflamatória Pélvica (DIP), gravidez ectópica e infertilidade. Ceftriaxona 500 mg, IM, dose única ou (outra cefalosporina de 3a ge- ração) associado a azitromicina 500 mg, 2 cps, VO, Dose Unica. Importante: Está contraindicado o uso da ciprofloxacina em meno- res de 18 anos e gestantes. Também está contraindicado o seu uso nos estados de MG, RJ, SP onde observou-se cepas resistentes. Há indicação ainda de Ceftriaxona como medicação de escolha nas infecção por gonoco devido a alta resistência à classe das quinolonas. Clamídia Cervicite (geralmente assintomática). Quando apresenta sintomas: dispareunia, disúria, sangramento intermenstrual. As principais complicações são: dor pélvica, Doença Inflamatória Pélvica (DIP), gravidez ectópica e infertilidade. Azitromicina 500 mg, 2 cps, VO, dose única ou doxiciclina 100 mg, VO, 2x/d por 7 dias (contraindicado na gestante) Hepatite B Hepatite B aguda e a crônica são oligossintomáticas.Cerca de 30% dos adultos tem a forma ictérica na hepatite B aguda. Para abordagem de tratamento e profilaxia de hepatite B em gestan- tes, consultar o PCDT de Prevenção de Transmissão Vertical, dispo- nível em: <www.aids.gov.br/pcdt>. Hepatite C A hepatite viral C aguda apresenta evolução subclínica: cerca de 80% dos ca- sos têm apresentação assintomática e anictérica, o que dificulta o diagnóstico. A minoria dos pacientes eventualmente apresenta icterícia. Acessar o Protocolo Clínico e diretrizes Terapêuticas para Hepatite C e Co-infecções, disponível em: <www.aids.gov.br/pcdt>. http://www.aids.gov.br/pcdt http://www.aids.gov.br/pcdt 39 39 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 HIV Primeira fase (infecção aguda): sintomas e sinais inespecíficos da primeira a terceira semana da contaminação a chamada Síndrome Retroviral Aguda – SRA, que cursa com febre, mialgia, adenopatia, faringite, exantema e cefaléia. A soroconversão (surgi- mento de anticorpos anti-HIV) geralmente ocorre após a quarta semana da infecção. Segunda fase: assintomática, que podem durar muitos anos, dependendo da car- ga viral e imunidade da pessoa infectada. O surgimento das doenças oportunistas e neoplasias define a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS). Dentre as in- fecções oportunistas destacam-se: tuberculose pulmonar atípica ou disseminada, pneumocistose, neurotoxoplasmose, meningite criptocócica e retinite por citome- galovírus. As neoplasias que mais ocorrem são: linfoma não Hodgkin, sarcoma de Kaposi e câncer de colo uterino em mulheres jovens. Acesse: Protocolo Clínico e Diretrizes para manejo da infecção pelo HIV em Adultos. Disponível em <http://www.aids.gov.br/pcdt>. Fonte: Brasil (2019). Em gestantes com diagnóstico de gonorreia há maior risco de: parto prematuro, ruptu- ra prematura de membrana amniótica, óbito fetal, restrição de crescimento intrauterino e febre puerperal. No recém-nascido (RN) pode acarretar conjuntivite, artrite, sepses, abces- so em couro cabeludo, pneumonia, meningite, endocardite e estomatite. A infecção por clamídia na gestante pode- rá desencadear trabalho de parto prematuro, ruptura prematura de membrana amniótica e endometrite puerperal. No RN pode ser res- ponsável por pneumonia e conjuntivite. Figura 13 – As ISTs são especialmente perigosas quan- do afetam mulheres grávidas Em relação à hepatite B, nos RNs de mães HBsAg reagente deve-se administrar imuno- globulina específica para o vírus da hepatite B (HBIg) e a vacina nas primeiras 12 horas de vida. A vacina da Hepatite B entrou para a lista do calendário básico de vacinação desde 1998 para menores de um ano e ampliou para me- nores de 20 anos desde 2001. Recomenda-se a vacina para todas as gestantes HBsAg não reagentes em qualquer trimestre da gestação. Está indicada a investigação de hepatite C em gestantes, pessoas que receberam transfusão de sangue ou hemoderivados ou transplanta- dos antes de 1993, nascidos antes de 1975, usuárias de drogas, mulheres tatuadas ou com piercing, mulheres em hemodiálise ou com doença hepática, procedimentos com possí- vel contaminação com sangue (odontológico, manicure e pedicure) que não respeitam aos cuidados de biossegurança necessários, além das que se expõe ao sexo desprotegido. http://www.aids.gov.br/pcdt 40 40 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 Em gestantes, o acompanhamento da carga viral de HIV é muito importante, pois mostra o risco da transmissão vertical ocorrer. Por isto está indicada a terapia antirretroviral em todas as gestantes infectadas pelo HIV, bem como, a manutenção por toda a vida da mulher, e não apenas no parto e puerpério. O Brasil adota a es- tratégia de tratamento para todos, independen- temente da situação clínica da pessoa. Sabe-se que o risco de transmissão é muito baixo (cerca de 1%) nos casos em que a carga viral inferior a 1.000 cópias/mL em gestante em uso de antir- retrovirais e muito mais baixo nos casos onde a carga viral seja indetectável. As gestantes de- verão realizar a contagem de carga viral em três momentos: na primeira consulta de pré-natal, entre 2 a 4 semanas após a introdução ou a tro- ca do esquema com os antirretrovirais e em tor- no das 34 semanas de gestação para determinar a via de parto. Todas as gestantes em início de terapia antiretroviral têm indicação de realiza- ção de genotipagem pré-tratamento. Para mais informações sobre gestantes vivendo com HIV/AIDS acesse: Protoco- lo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para prevenção de Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites virais 2019. Dis- ponível em <www.aids.gov.br/pcdt>. A infecção aguda apresenta aumento das ami- notransferases, anti-HBc IgM (mais precoce, marcador do início da infecção) e IgG (mais tardio e permanece reagente ao longo da vida). O diagnóstico da infectividade da do- ença é realizado pela análise do HBeAg. O surgimento de anticorpos específicos para HBeAg e para o HBsAg indicam resolução fa- vorável da infecção. Importante! Os testes rápidos (TR) constituem imunoensaios cromatográ- ficos de execução simples, que podem ser realizados em até 30 minutos e não necessitam de estrutura laboratorial. Contudo, dependendo da amostra tra- balhada, podem ser necessários cuida- dos de biossegurança. Os TR são funda- mentais para a ampliação do acesso ao diagnóstico e aumentam a resolutivida- de do sistema. Além disso, permitem a imediata intervenção nos casos que re- querem tratamento. Se você ainda não está capacitado para realizar os testes rápidos, acesse o site <www.telelab. aids.gov.br>. As informações que você acompanhará no quadro 1 podem ajudar você e sua equipe na interpretação de ISTs assintomáticas. Quadro 1 – Interpretação dos resultados sorológicos (Ag-Ab) para hepatite B Testes sorológicos Resultados Interpretação HBsAg Anti-HBc total Anti-HBs Não Reagente Não Reagente Não Reagente Ausência de contato prévio com o HBV. Susceptível a infecção pelo HBV. HBsAg Anti-HBc total Anti-HBs Não Reagente Reagente Reagente Imune após infecção pelo HBV HBsAg Anti-HBc total Anti-HBs Não Reagente Não Reagente Reagente Imune após vacinação contra o HBV. HBsAg Anti-HBc total Anti-HBs Reagente Reagente Não Reagente Infecção pelo HBV Fonte: Departamento de DST/AIDS e Hepatites Virais/SVS/MS (2016). http://www.aids.gov.br/pcdt http://www.telelab.aids.gov.br http://www.telelab.aids.gov.br 41 41 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 Não esqueça que o diálogo e a investigação com a usuária são essenciais para um diag- nóstico com respeito e garantia do direito ao tratamento. Vamos em frente! 2.2.2 ISTs sintomáticas Para facilitar a abordagem das IST sintomá- ticas, dividem-se as infecções por quadros sindrômicos para as mulheres: corrimento Quadro 2 – Detalhes das ISTs sintomáticas Síndrome Doenças Agente etiológico Diagnóstico Sinais/Manifestações clínicas Tratamento Corrimento vaginal Tricomoníase T. vaginalis Presença de proto- zoários móveis em amostra de ectocér- vice (Gram, a fresco). Abundante corrimento amarelado ou esverdeado e bolhoso, prurido vulvar e hiperemia da mucosa. Pode ainda apresentar queixas urinárias. Metronidazol 500 mg, 4 cps, VO,DU(- total de 2g) OU metronidazol 250 mg, 2x/d, VO, por 7 dias. Em gestantes de primeiro trimestre optar por Clinda- micina 300 mg, VO, 2x/d por 7 dias. Úlceras genitais Herpes genital O HSV 2 é o agente mais relacionado às lesões genitais mas pode ser causado tam- bém pelo HSV 1 (mais associado às lesões perio- riais) em menor proporção. Isolamento do vírus em cultura de tecidodo material coletado das vesículas (mais rico em vírus), es- fregaço corados por Giemsa ou método Papanicolau, PCR e imunofluorescência (estes dois últimos com alta especifici- dade). Primoinfecção: Sintomatologia mais exuberan- te com lesões eritemato-papulosas que evoluem para vesículas dolorosas e múltiplas. Período de incubação de 6 dias. Geralmente acompanha o quadro: febre, mal-estar, mialgia e disúria. Em 50% dos casos há linfadenomegalia inguinal bi- lateral. Nas mulheres pode afetar o colo vindo a apresentar corrimento vaginal. Pode durar de 2 a 3 semanas. O vírus costuma alojar-se nos nervos periféricos sensoriais após a cura. Quadros de recorrência: Costumam ser mais leves associado a pródromos (prurido,ardência,- mialgia,fisgadas). São desencadeados por fatores que provocam diminuição da imunidade (estres- se, infecções e uso prolongado de antibióticos, por exemplo). As lesões podem ser cutâneas e / ou mucosas. Tendem a regredir em 7 a 10 dias. Primoinfecção: Aciclovir 200 mg, 2 cps, VO, 3x/d, por 7 dias OU Aciclovir 200 mg, 1 cp, VO, 5x/d por 7 dias. Recidiva: Aciclovir 200 mg, 2 cps, VO, 3x/d por 5 dias OU Aciclovir 200 mg, 4 cps, VO, 2x/dia, por 5 dias. Supressão de Herpes Genital (6 ou mais episódios ao ano): Aciclovir, 200mg, 2 cps,VO, 2x/d por 6 meses até 2 anos. vaginal, corrimento uretral, úlcera anogeni- tal e verruga anogenital. Acompanhe o quadro abaixo, que expõe mais detalhes sobre cada uma das ISTs sintomáticas. 42 42 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 Síndrome Doenças Agente etiológico Diagnóstico Sinais/Manifestações clínicas Tratamento Cancróide H a e m o p h i l u s ducreyi Identificação do agente em esfregaço de material obtido da base da úlcera ou as- pirado do bulbão co- rado pelo Gram. Nas mulheres as lesões,quando ocorrem, são mais frequentemente na fúrcula e grandes e pe- quenos lábios. São lesões múltiplas ou única, dolorosas, irre- gulares, com contornos eritemato-edematosos e fundo irregular, coberto com exsudato necrótico, amarelado e fétido. Ao fundo presença de tecido de granulação com sangramento fácil. Azitromicina 500 mg, 2 cps, VO, DU OU Ceftriaxona 500 mg, IM, DU OU Ciprofloxacina 500 mg, 1 cp, VO, 2x/d por 3 dias (contraindicados em ges- tantes, lactantes e crianças). Linfogranuloma venéreo Chamydia tra- chomatis soroti- pos L1, L2 e L3 Isolamento do agente em culturas do raspa- do da lesão inicial ou aspirado do bulbão. O método mais preci- so é o PCR Manifesta-se por linfadenopatia inguinal e/ou femo- ral. Apresenta três fases distintas: Inoculação: Inicia por pápula, pústula ou exulcera- ção indolor desaparecendo sem deixar sequelas. Na mulher localiza-se na parede vaginal posterior, colo uterino, fúrcula e outras regiões dos genitais. A adenopatia dependerá do local da inoculação. Como sequela ocorre supuração e fistulização por orifícios múltiplos. Proctite e proctocolite hemorrá- gica podem ocorrer pelas lesões em região anal. Glossite ulcerativa difusa com linfadenopatia regio- nal pode ocorrer por contato orogenital. Sintomas gerais: febre, mal-estar, anorexia, emagrecimento, artralgia, sudorese noturna e meningismo. Elefan- tíase genital por obstrução linfática crônica. Na mu- lher este fenômeno chama-se estiomene. Outros: fístulas retais, vaginais, vesicais e estenose retal. Doxiciclina 100 mg, 2x/d por 21 dias (contraindicado em gestantes) OU Azitromicina 500 mg, 2 cps, VO, 1 x/ sem por 3 semanas. Se sintomáticas tratar conforme o esquema anterior. Se assintomáticas: Azitromicina 500 mg, 2 cps, VO, DU OU Doxiciclina 100 mg, 1 cp, VO, 2x/d por 7 dias. 43 43 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 Síndrome Doenças Agente etiológico Diagnóstico Sinais/Manifestações clínicas Tratamento Verrugas anogenitais HPV Clínico na fase das lesões visíveis e con- firmado por biópsia ou por colpocitologia oncótica do colo ute- rino, citologia oncóti- ca anal, colposcopia, anuscopia e histolo- gia. Três formas distintas: Latente: A infecção pelo HPV não apresenta qual- quer manifestação. Pode nunca vir a apresentar lesões. O único modo de detectar o HPV é através de diagnóstico laboratorial (exames de bioloiga molecular por detecção do DNA viral) Subclínica: Quando as lesões serão visíveis ape- nas por meio de papanicolau, colposcopia e/ou histologia. Detectam-se lesões precursoras do câncer e colo uterino: Lesão intraepitelial de bai- xo grau (LSIL) e Lesão intraepitelial de alto grau (HSIL). Clínica: Verruga ou condiloma acuminado. São lesões única ou múltiplas, coloração variável e exofíticas. Estão associadas aos tipos não onco- gênicos. Na mulher localizam-se na vulva, perí- neo, perianal, vagina e colo Ácido Tricloroacético 80 a 90% (ATA) 1x/ sem até 8 a 10 semanas nas lesões. Podofilina 10 a 25% 1x/sem até o de- saparecimento das lesões. Contrain- dicado na gestação. Eletrocauterização: Remoção da lesão por meio de eletrocautério. Crioterapia: Remoção da lesão por destruição térmica da lesão. Exérese cirúrgica: Remoção da lesão com uso de bisturi, tesoura ou cureta sob anestesia local. Fonte: Brasil (2019). Depois de acompanhar este quadro com as prin- cipais IST sintomáticas, como identificá-las e o tratamento, gostaríamos de lembrar que o HPV é um DNA vírus, que apresentam mais de 200 sorotipos sendo 40 responsáveis por lesões anogenitais e pelo menos 20 sorotipos estão relacionados ao câncer de colo uteri- no. Pode ser encontrado em outros locais em menor frequência e causar câncer também no ânus, vulva, vagina, orofaringe, laringe e boca. Os tipos de baixo risco oncogênico es- tão presentes em lesões benignas e lesões intrepiteliais de baixo grau: tipos 6, 11, 40, 42, 43, 44, 54, 61, 70, 72, 81 e CP6108. Os ti- pos de alto grau oncogênico estão presentes nas lesões intraepiteliais de alto grau e nos carcinomas: 16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58, 59, 68, 73 e 82. No Herpes Genital as mulheres que apresen- tam úlcera genital estão altamente susceptí- veis a transmitir ou adquirir HIV. Em uma mes- ma lesão pode-se vir a encontrar associação de agentes. Estão extremamente associadas 44 44 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 a ISTs nas mulheres sexualmente ativas (prin- cipalmente jovens), podendo, contudo, estar relacionadas a outras causas e patologias, como câncer, drogas, dermatite de contato, dentre outras. Nos casos de herpes genital na gestação os riscos são maiores na primoinfecção. O feto corre mais risco quando há infecção ativa no momento do parto e se a via for vaginal. Há recomendação de via alta quando há lesão ativa. O tratamento tem por objetivo reduzir a intensidade e duração do episódio. Em ges- tantes o tratamento é o mesmo independente do trimestre da gestação. Primoinfecção é a primeira infeção pro- vocada por uma bactéria ou por um vírus, sem que existam necessariamente ma- nifestações clínicas (INFOPEDIA, 2017). Nos casos de verrugas anogenitais por HPV além da via sexual de transmissão temos a via vertical, esta responsável por papilomatose recorrente de laringe em crianças e RNs com condilomatose genital verificada por ocasião do nascimento. Importante! A cada nova parceria o ris- co de adquirir o HPV é de 15 a 25%. E na maioria dos casos a infecção é tran- sitória e auto-limitada, não causando danos. A prevenção do HPV pode ser feito através do uso de preservativo masculino ou o femi- nino. Desde 2014, instituiu-se a vacinação contra o HPV pelo Ministério da Saúde, fa- zendo parte do Calendário Nacional de Vaci- nação. A vacina está indicada parameninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos. O esquema é composto de duas doses, com intervalo de seis meses. A vacina é quadriva- lente contra o HPV 6,11,16 e 18 sendo efetiva na prevenção de verrugas anogenitais como lesões precursoras do câncer de colo uteri- no, vulva, vagina e anal. O Ministério daSaú- de (MS) recomenda a colpocitologia oncóti- ca em todas as mulheres entre 25 a 64 anos de idade que tem vida sexual ativa ou já tive- ram. As diretrizes do MS orientam realizar o exame a cada três anos, se os dois primeiros exames anuais forem normais. Para as mulheres vivendo com HIV/Aids, o re- comendado são exames semestrais por um ano, que se normais passam a ser realizados uma vez por ano. Devido à importância que vem ganhando nos últimos tempos, a seguir discutiremos de forma isolada, a sífilis, acompanhe. Sífilis A erradicação da sífilis congênita é uma preo- cupação mundial que conta com os esforços da OMS, OPAS e MS. O Comitê Regional para Validação da Eliminação da Transmissão Materno-Infantil de HIV e Sífilis definido pela OPAS em 2014 certifica os países que con- seguem alcançar alguns números. O Brasil lançou como resposta a Agenda da Sífilis Congênita. Acompanhe no esquemático da próxima página. 45 45 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 O lançamento da Rede Cegonha foi em 2011 pelo Governo Federal, que entre seus objetivos busca facilitar o diagnóstico e tratamento por meio de testes rápidos em gestantes, princi- palmente o de HIV e sífilis. Em 2013 ocorreu um aumento das notificações dos casos de sífilis em gestantes em função da implantação da Rede Cegonha, que propor- cionou acesso mais facilitado ao diagnóstico por meio dos testes rápidos. O aumento cres- cente do número de casos de sífilis adquirida, sífilis em gestantes e sífilis congênita no Bra- sil representa um desafio para a saúde pública e torna a prevenção desse agravo prioridade do MS e do UNICEF. Segundo o Boletim Epidemiológico de Sífilis do MS (2017), no Brasil, a taxa de incidência de sífilis congênita (de 2,4 para 6,8 casos por 1.000 nascidos vivos) e a taxa de detecção de sífilis em gestante (de 3,5 para 12,4 casos por 1.000 nascidos vivos) aumentaram cerca de três vezes nos últimos cinco anos. A Agenda de Ações Estratégicas para Redução da Sífilis Congênita no Brasil foi lançada em 2016, como resultado de construção coletiva com ampla gama de parcerias internas e exter- nas ao MS, visando à implementação de ações estratégicas e prioritárias para redução da sífi- lis (UNICEF;MINISTERIO DA SAUDE, 2019). A infecção sistêmica causada pela bactéria Gram negativa T. pallidum vem apresentando crescimento de casos, inclusive a forma con- gênita da doença. A principal forma de trans- missão é a sexual, principalmente nos estágios iniciais da doença pela alta multiplicação bac- teriana. A transfusão de sangue e seus deriva- dos costuma ser uma forma menos frequente de transmissão. A transmissão vertical costu- ma ser mais frequente intraútero e traz compli- cações graves para o feto (manifestações con- gênitas precoces ou tardias e/ou morte do RN), abortamento e trabalho de parto prematuro, principalmente se a gestante apresentar sífilis primária ou secundária durante a gestação. A sífilis adquirida pode ser classificada con- forme o tempo de infecção em sífilis adquiri- da recente (quando apresenta até dois anos de evolução) e sífilis adquirida tardia (quando apresenta mais de dois anos de evolução) ou ainda conforme as manifestações clínicas, de acordo com o quadro 3, na próxima página. Taxa de transmissão vertical do HIV < ou igual 2% ou incidência de até 0,3 casos por 1000 nascidos vivos. Para Validação da Eliminação da Transmissão Vertical de HIV e Sí�lis, os países devem alcançar: Taxa de incidência de sí�lis congênita de 0,5 casos por 1000 nascidos vivos cobertura de pré-natal (mínimo uma consulta) > ou igual a 95%. Cobertura de testagem para HIV e sí�lis em gestantes > ou igual a 95%. Cobertura de tratamento com ARV em gestantes HIV+ > ou igual a 95%. Cobertura de tratamento com penicilina em gestantes com sí�lis > ou igual a 95%. 46 46 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 O diagnóstico pode ser realizado por diversos métodos, dependendo da fase em que se en- contra a doença. A pesquisa direta do T. palli- dum pode ser utilizada na sífilis recente primária Os testes treponêmicos detectam anticorpos específicos contra o T. pallidum. Tornam-se rea- gentes precocemente e são importantes para confirmação da doença. Geralmente permane- cem positivos mesmo após o tratamento. São eles: TPHA (Teste de hemaglutinação e agluti- nação passiva), FTA-Abs (teste de imunofluo- rescência indireta), EQL (quimioluminescên- cia), ELISA (ensaio imunoenzimático indireto) e testes rápidos (imunocromato-gráficos). Importante! Os testes rápidos permitem o diagnóstico em torno de 30 minutos. São o meio mais prático de realizar o diagnóstico e instituir rapidamente o tratamento. Em caso de teste rápido reagente, deve-se coletar uma amostra de sangue para a realização de teste não treponêmico. Os testes não treponêmicos detectam an- ticorpos não específicos para o T. pallidum, tornam-se reagentes após uma a três sema- nas após a ulceração. Pode ser qualitativo (indica se há ou não o anticorpo) e quanti- tativo (que titula o anticorpo). É utilizado para controle após o tratamento e o mais utilizado é o VDRL (Veneral Disease Research Laboratory). e secundária por meio da microscopia de campo escuro. Os testes imunológicos não treponêmi- cos e treponêmicos são os mais utilizados. Quadro 3 – Manifestações clínicas de sífilis adquirida, de acordo com o tempo de infecção, evolução e estágios da doença Estágios Da Sífilis Adquirida Manifestações clínicas Primária ÎÎ Cancro duro (úlcera genital) ÎÎ Linfonodos regionais Secundária ÎÎ Lesões cutâneo-mucosas (roséola, placas mucosas, sifí- lides papulosas, sifílides palmoplantares, condiloma pla- no, alopecia em clareira, madarose, rouquidão) ÎÎ Micropoliadenopatia ÎÎ Linfadenopatia generalizada ÎÎ Sinais constitucionais ÎÎ Quadros neurológicos, oculares, hepáticos Latente recente (até dois anos de duração) ÎÎ Assintomática Latente tardia (mais de dois anos de dura- ção) ÎÎ Assintomática, com testes imunológicos reagentes. Terciária ÎÎ Cutâneas: lesões gomosas e nodulares, de caráter des- trutivo; ÎÎ Ósseas: periostite, osteíte gomosa ou esclerosante, artri- tes, sinovites e nódulos justa-articulares; ÎÎ Cardiovasculares: estenose de coronárias, aortite e aneu- risma da aorta, especialmente da porção torácica; ÎÎ Neurológicas: meningite, gomas do cérebro ou da medu- la, atrofia do nervo óptico, lesão do sétimo par craniano, manifestações psiquiátricas, tabes dorsalis e quadros de- menciais como o da paralisia geral. Fonte: BRASIL (2019). 47 47 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 Para maiores informações sobre diagnós- tico da sífilis acesse o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas, Infecções Se- xualmente Transmissíveis, disponível em: <http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2015/ protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeu ticas-para-atencao-integral-pessoas- com-infeccoes>. O tratamento para a sífilis de primeira escolha é a penicilina benzatina. Importante! Em gestantes o tratamento é recomendado com o primeiro teste rá- pido positivo ,devendo-se considerar a parceria neste caso também, conforme protocolos em saúde. Preferencialmen- te no mesmo momento do diagnósti- co. Na gestação o tratamento eficiente (pois trata o feto) é o realizado com pe- nicilina.São considerados tratamentos adequados: tratamento completo para estágio clínico de sífilis com benzilpe- nicilina benzatina, iniciado até 30 dias antes do parto. Gestantes que não se enquadrarem nesses critérios serão consideradas como tratadas de forma não adequada. Para fins de definição de caso de sífilis congênita, não se considera o tratamen- to da parceria sexual da mãe. A resolução do COFEN orienta realiza- ção do Benzetacil na Atenção Primária: Decisão COFEN nº 0094/2015. Disponí- vel em: <http://www.cofen.gov.br/deci- sao-cofen-no-00942015_32935.html> Pacientes podem apresentar exacerbação das lesões cutâneas, febre, artralgia e mal-estar após a primeira dose do tratamento com penicilina, chamada reação de Jarich-Herxheimer. O tra- tamento não deve ser descontinuado, pois essa reação não configura alergia à penicili- na.O seguimento para avaliação da eficácia do tratamento deverá ser realizado com testes não treponêmicos mensais para gestantes. O monitoramento mensal das gestantes e da po- pulação geral aos três e aos nove meses não tem o intuito de avaliar queda da titulação, mas principalmente descartar aumento da titulação em duas diluições, o que configuraria reinfec- ção/reativação e necessidade de retratamento da pessoa e das parcerias sexuais. Atualmen- te, para definição de resposta imunológica ade- quada, utiliza-se o teste não treponêmico não reagente ou uma queda na titulação em duas diluições em até seis meses para sífilis recen- te e queda na titulação em duas diluições em até 12 meses para sífilis tardia (ROMANOWSKI et al., 1991; TONG et al., 2013; CLEMENT et al., 2015; WORKOWSKI; BOLAN, 2015; ZHANG et al., 2017). É possível observar a permanência de títulos baixos por muitos anos ou pelo resto da vida, esta é a chamada cicatriz sorológica. É importante que as ISTs sintomáticas sejam diagnosticadas o mais precocemente possível para que as medidas necessárias e o tratamento da mulher e sua parceria sejam iniciados da forma mais rápida e efetiva. Na sequência, abordamos os diferentes mé- todos anticoncepcionais e como os profissio- nais da Atenção Primária podem atuar junto às usuárias do Sistema de Saúde, fornecendo meios para que as mesmas possam escolher o método mais adequado, assim como o melhor momento para uma gravidez. 2.3 Atenção ao planejamento reprodutivo Nas últimas décadas, o planejamento repro- dutivo tem progredido consideravelmente em todo o mundo. Trata-se de um direito humano básico reconhecido e a maioria das mulheres http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2015/protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeuticas-para-atencao-integral-pessoas-com-infeccoes http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2015/protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeuticas-para-atencao-integral-pessoas-com-infeccoes http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2015/protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeuticas-para-atencao-integral-pessoas-com-infeccoes http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2015/protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeuticas-para-atencao-integral-pessoas-com-infeccoes http://www.cofen.gov.br/decisao-cofen-no-00942015_32935.html http://www.cofen.gov.br/decisao-cofen-no-00942015_32935.html 48 48 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 conhecem pelo menos algum método de pla- nejamento reprodutivo. Adotamos o termo Planejamento Reprodutivo e não o termo Planejamento Familiar, pois é mais inclusivo e se baseia no respeito aos direitos sexuais e reprodutivos. Lembramos que não pode ser confundido ou utilizado como sinôni- mo de controle de natalidade. Importante! O planejamento reprodu- tivo pode também se constituir em de- mandas referentes à concepção e não somente à contracepção! Ambos devem ser prioridade. No entanto, a prática ain- da não se mostra uma realidade no país como um todo. Cabe ainda ressaltar que o planejamento re- produtivo traz benefícios para todos, já que possibilita às mulheres planejarem uma gra- videz ou prevenirem uma gravidez indeseja- da. Permite ainda que a mulher e sua parce- ria sexual escolham o método que for melhor; beneficia mulheres e crianças, pois contribui para aumentar o intervalo entre as gestações, e favorece os homens, promovendo um maior envolvimento destes no cuidado da família, possibilitando proporcionar uma melhor qua- lidade de vida para todos. Acompanhe no esquemático a seguir, os prin- cípios básicos do planejamento reprodutivo. Aconselhamento Quatro princípios básicos para o planejamento reprodutivo Livre escolha informada Dupla proteção Aconselhamento Quatro princípios básicos para o planejamento reprodutivo Livre escolha informada Dupla proteção Acompanhamento 2.3.1 Teste rápido de gravidez O teste rápido de gravidez é uma estratégia de acolhimento na UBS para as mulheres que estão em dúvida quanto a estarem grávidas ou não. Permite a captação precoce para o pré-natal e o aconselhamento para planeja- mento reprodutivo no caso de não gravidez. Para maiores informações sobre o Teste rápido de gravidez na Atenção Básica, acesse: <http://189.28.128.100/dab/ docs/portaldab/documentos/nt_tes- te_rapido_gravidez_ab.pdf>. Para auxiliar nas suas condutas me- diante uma suspeita de gravidez, con- sulte o Protocolo da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, disponível em <http://189.28.128.100/dab/docs/ portaldab/publicacoes/protocolo_sau- de_mulher.pdf>. Após o teste, qualquer que seja o resultado trata-se de uma oportunidade especial de abordar as mulheres acerca da Saúde Se- xual e Saúde Reprodutiva, principalmente as adolescentes. Não se deve perder essa oportunidade! O teste rápido pode ser realizado dentro ou fora da unidade de saúde. O acesso é livre, e a entrega do insumo pode ser feita à mu- lher adulta, jovem, adolescente ou à parce- ria sexual. Não se esqueça de respeitar a autonomia e o sigilo das mulheres e seus companheiros. http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/documentos/nt_teste_rapido_gravidez_ab.pdf http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/documentos/nt_teste_rapido_gravidez_ab.pdf http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/documentos/nt_teste_rapido_gravidez_ab.pdf 49 49 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 Todos os profissionais da UBS podem parti- cipar desse atendimento. O teste deverá ser fornecido mediante aconselhamento. Antes do aconselhamento tem-se o acolhimento, que deve seguir as premissas apontadas no esquemático ao lado. 2.3.2 Anticoncepção de emergência Observamos a persistência de altas taxas de gravidez indesejada em todo o mundo, parti- cularmente em países de baixa e média ren- da, como o Brasil. Alguns motivos para isso, enumeramos abaixo: 1) Necessidades não satisfeitas de planejamento reprodutivo, devido à falta de acesso a métodos contraceptivos apropriados ou por informação e apoio insuficientes; 2) Todos os métodos contraceptivos podem falhar, sem exceção; 3) Nem sempre as mulheres têm relações sexuais voluntárias ou desejadas (BRASIL, 2013). A anticoncepção de emergência está disponível para uso na Atenção Primária desde 2001, e deve ser ofertada às mulheres que tiveram relação sexual desprotegida. Observamos que, mes- mo assim, ainda existe resistência por parte de alguns profissionais de saúde em ofertá-la. Esta anticoncepção é um recurso que deve ser usado em caso de emergência e não substitui outros métodos contraceptivos. Importante! Não disponibilizar a anti- concepção de emergência fere os di- reitos sexuais, os direitos reprodutivos das pessoas e a lei federal no 9.263, que regulamenta o planejamento familiar. Esse método também é muito importante para os adolescentes, porque pertencem a um grupo em maior risco de ter relações sexuais desprotegidas. No SUS, a anticoncepção de emergência dis- ponível é oLevonorgestrel 0,75 mg, e o modo de uso, pode ser: 1,5 mg de levonorgestrel, dose única, via oral (preferencialmente) OU 1 com- primido de 0,75 mg, de 12 em 12 horas, via oral (total de 2 comprimidos). Tida como mais efi- caz e causa menos efeitos colaterais (náusea e vômitos) que a anticoncepção de emergência combinada. Ela não interrompe uma gravidez já estabelecida. Seu efeito é inibir a ovulação, Acolhimento • Acolher a mulher criando um ambiente de confiança e respeito com os profissionais da equipe. • Responsabilizar-se pela integralidade do cuidado. • Favorecer o vínculo. • Avaliar vulnerabilidades. 1 Aconselhamento antes do teste • Aconselhar a mulher e suas parcerias sexuais levando em conta suas expectativas. • Avaliar riscos e vulnerabilidades, orientando-a e apoiando-a nas decisões a partir do resultado do teste rápido, inclusive abordar as ISTs. • Criar ambiente propício para confiança e diálogo de forma a criar vínculos e adesão ao serviço. • Apoiar emocionalmente a mulher no processo de testagem em vista dos impactos psicossociais da gravidez, e também de outras possíveis repercussões do sexo desprotegido, como infecção do HIV e outras IST. 2 Aconselhamento após o teste • Comunicar o resultado à mulher e apoiá-la emocionalmente. • Instrumentalizar a mulher com informações que contribuem em suas decisões. • Contribuir para adoção de práticas de cuidado e de prevenção, incluindo o uso correto dos insumos de planejamento reprodutivo. 3 50 50 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 bem como interferir na migração dos esper- matozoides para as tubas uterinas, impedindo assim a fecundação. Figura 14 – Ministrar a anticoncepção de emergência exige cautela A anticoncepção de emergência está indicada na relação sexual sem uso de anticoncepcio- nal, na possibilidade de falha ou esquecimen- to do uso de algum método e no caso de vio- lência sexual, se a mulher não estiver usando nenhum método seguro de anticoncepção. Importante! Quanto mais tempo se pas- sar entre a relação sexual desprotegida e a tomada do medicamento, menor a sua eficácia. O uso frequente e repetitivo também compromete o efeito desejado. Este método anticoncepcional pode ser tomado até 5 dias após a relação sexual desprotegida. O profissional não pode julgar ou infringir os direitos das usuárias de utilizar qualquer mé- todo de planejamento reprodutivo. Com re- lação à anticoncepção de emergência, uma relação desprotegida é uma situação que merece atenção e aconselhamento em Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva. Acompanhe as informações do esquemático e revise sobre o método regular contraceptivo, após a anticoncepção de emergência. Após acolhimento e oferta do medicamento, o profissional deve enfatizar que a anticon- cepção de emergência não protege contra posteriores relações sexuais desprotegi- das, fazendo-se necessária a instituição de método regular para anticoncepção. Deverá explicar também que a anticoncepção de emergência não protege contra IST/HIV/ AIDS, e considerar o oferecimento do pre- servativo masculino ou feminino para uso associado a outro método anticoncepcional, com vistas à dupla proteção e a prevenção combinada. A Prevenção Combinada associa diferentes métodos de prevenção ao HIV, às IST e às Fonte: Brasil (2013). Imediatamente após fazer uso da anticoncepção de emergência a mulher pode começar a usar métodos de barreira. Aguardar a próxima menstruação para começar a usar o DIU, os anticoncepcionais hormonais orais combinados e os anticoncepcionais hormonais injetáveis, se um desses métodos tiver indicação e for a escolha livre e informada da mulher. Aguardar o retorno dos ciclos menstruais regulares, caso a escolha seja o uso dos métodos comportamentais. Se a mulher optar por esperar a próxima menstruação para iniciar o uso de algum método anticoncepcional, deve ser orientada para usar preservativo até então. Quando iniciar o uso de método regular de concepção, após a anticoncepção de emergência? 51 51 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 hepatites virais (ao mesmo tempo ou em sequência), conforme as características e o momento de vida de cada pessoa. Entre os métodos que podem ser combinados, estão: a testagem regular para o HIV, que pode ser realizada gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS); a prevenção da transmissão vertical (quando o vírus é transmitido para o bebê durante a gravidez); o tratamento das infecções sexualmente transmissíveis e das hepatites virais; a imunização para as hepa- tites A e B; programas de redução de danos para usuários de álcool e outras substân- cias; profilaxia pré-exposição (PrEP); profi- laxia pós-exposição (PEP); e o tratamento de pessoas que já vivem com HIV. É bom lembrar que uma pessoa com boa adesão ao tratamento atinge níveis de carga viral tão baixos que é praticamente nula a chan- ce de transmitir o vírus para outras pessoas. Além disso, quem toma o medicamento cor- retamente não adoece e garante a sua qua- lidade de vida. Todos esses métodos podem ser utilizados pela pessoa isoladamente ou combinados (BRASIL, 2018). Figura 15 - Mandala da prevenção combinada M A RC OS LE GA IS E OUTRO S ASPECTOS ESTRUTURA IS Redução de danos Im un iz ar p ar a HB V e HP V P re v e n ir a T ra n sm is sã o V e rt ic a l P ro filaxia P ré-E xp o sição (P rE P ) Profilaxia Pós-Exposição (PEP) Tes tag em reg ular par a o HIV , out ras IST e H V Tr at ar t o d as a s p es so as v iv en d o co m H IV /a id s U sa r p re se rv a tiv o m a sc u lin o , fe m in in o e g e l lu b rific a n te Diagnosticar e tratar as pessoas com IST e HV PREVENÇÃO COMBINADA M A RCOS LEGAIS E OUTROS ASPEC TOS ES TR UT UR A IS P O P U L A Ç Õ ES -CH AVE E PRIO R IT Á R IA S Finalmente, é preciso que o profissional dê prosseguimento ao acompanhamento des- sa mulher para garantir adesão a contra- cepção que não à de emergência. Importante destacar que no momento de so- licitação do Teste Rápido de gravidez deve ser considerado o uso da anticoncepção de emergência. Esse método deve ser utilizado também nos casos de violência sexual. 52 52 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 2.3.3 Métodos contraceptivos A oferta dos métodos contraceptivos deve ocorrer após aconselhamento e livre escolha informada. O aconselhamento deve levar em consideração o perfil de cada mulher, pois assim lhe proporcionará uma maior satisfa- ção e permitirá que use o método de plane- jamento reprodutivo por mais tempo e com mais eficiência (WHO, 2011). O aconselha- mento pode ocorrer em diferentes espaços e constitui-se como a base das ações do planejamento reprodutivo. Importante! O método mais adequado para uma mulher usar é aquele que a deixa confortável e que melhor se adapta ao seu modo de vida e à sua condição de saúde. Além do aconselhamento, deve-se verificar os critérios de elegibilidade clínica, isto é, avaliar a existência de fatores de risco e condições preexistentes, que podem contraindicar o uso de um método ou outro, como é o caso de fu- mar e ter mais de 35 anos concomitantemen- te, hipertensão arterial e enxaqueca com aura, fatores que contraindicam o uso de anticon- cepção oral combinada. Para um bom atendimento de saúde, o profissional pode considerar alguns pontos importantes, acompanhe: 1) O modo de tratar cada mulher: Você precisa tratar a mulher com respeito e transmitir-lhe confiança, de forma que esta exponha todas as suas dúvidas.2) Interagir: Você precisa exercer uma escuta qualificada, ou seja, marcada pela presença, atenção e livre de preconceitos. Incentivar o diálogo e responder suas perguntas com calma. 3) Adaptar as informações de acordo com a necessidade da mulher e sua parceria: Durante a abordagem faz-se necessário utilizar uma linguagem acessível. A partir de uma escuta atenta fornecer informa- ções de acordo às necessidades. Esta abordagem individualizada possibilita a construção de vínculo. 4) Informar sobre todos os dados relevantes, utilizando uma linguagem acessível para melhor compreen- são da usuária: Fornecer informações suficientes para que conheçam as alternativas de anticoncepção e possam participar ativamente da escolha do método. 5) Oferecer o método de escolha da mulher e sua parceria: Ao buscar os serviços de saúde, a maioria já tem em mente um método que desejam usar. No momento do aconselhamento, você deve começar a partir deste método, explicando a eficácia, as vantagens e desvantagens, os benefícios, riscos à saúde, os efeitos colaterais e o modo de usar. Deve certificar-se de que ocorreu o entendimento das informa- ções e que está fazendo uma escolha consciente. 6) Ajudar a entender e relembrar: Como forma de facilitar a compreensão você pode utilizar mate- riais ilustrativos e uma amostra do material de planejamento reprodutivo e encorajar a manuseá-lo. O emprego de recurso visual é de fundamental importância para a assimilação da informação. Você pode conhecer mais sobre os crité- rios de elegibilidade clínica para o plane- jamento reprodutivo acessando a publi- cação da OMS, “Medical eligibility criteria wheel for contraceptive use”, disponível em: <http://apps.who.int/iris/bitstream /10665/173585/1/9789241549257_ eng.pdf?ua=1>. O aconselhamento e a avaliação da elegibi- lidade permitem que a mulher e sua parceria sexual escolham o método de planejamento reprodutivo, rompendo a prática impositiva e direcionada que observamos hoje. http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/173585/1/9789241549257_eng.pdf%3Fua%3D1 http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/173585/1/9789241549257_eng.pdf%3Fua%3D1 http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/173585/1/9789241549257_eng.pdf%3Fua%3D1 53 53 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 Dispositivos intrauterinos: Cobre Métodos definitivos: Laqueadura tubária e vasectomia Métodos hormonais: pílulas combinadas, minipílulas, injeção mensal combinada, injeção trimestral de progestágeno Métodos de barreira: preservativo masculino e feminino, diafragma Métodos naturais ou de monitorização da fertilidade: Billings, tabelinha, método da amenorreia lactacional Métodos de planejamento reprodutivo disponíveis no SUS Acompanhe no quadro 4 as características da anticoncepção oral. Você pode utilizar estas informações para orientar as usuárias no aconselhamento. Quadro 4 – Anticoncepção oral Tipo/ Características Combinada Minipílula Composição Baixas doses de progestágeno e estradiol sintético. Baixas doses de progestágeno. Mecanismo de ação ÎÎ Principalmente impedindo a ovulação. ÎÎ Principalmente, espessando o muco cervical e também impedindo a ovulação. Eficácia ÎÎ Depende da tomada diária no mesmo horário. Menos de uma engravida a cada 100 mulheres durante um ano de uso correto (3/1000). ÎÎ Depende da tomada diária no mesmo horário. Menos de uma engravida a cada 100 mulheres durante um ano de uso correto (9/1000). Caso a mulher esteja amamentando, essa eficácia é ainda maior (3/1000). Efeitos colaterais ÎÎ Mudanças no sangramento (menos dias, menor fluxo). ÎÎ Cefaleia, nausea, mastalgia, mudança no peso, no humor e na libido. ÎÎ Pode alterar a pressão arterial. ÎÎ Mudanças no sangramento (amenorreia após adaptação, sangramento de escape no período de adaptação). ÎÎ Cefaleia, náusea, mastalgia, mudança no peso, no humor e na libido. ÎÎ Para aquelas que não estão amamentando, aumento dos folículos ovarianos. Benefícios ÎÎ Protege contra gravidez, câncer de endométrio e de ovário, re-duz cólicas menstruais e sintomas da endometriose. ÎÎ Protege contra gravidez. Riscos ÎÎ Muito raros: tromboembolismo.ÎÎ Extremamente raro: ACE, IAM. ÎÎ Os riscos deste método são mínimos.. Fonte: Brasil (2010); WHO (2011). Como se pode observar, são muitas as possibi- lidades e a mulher pode e deve escolher aquilo que achar ser melhor dentro das suas circuns- tâncias de vida e demandas. Você deve respei- tar as escolhas e também apoiá-las e orientá- las para melhor uso continuado do método. 54 54 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 No quadro 5 confira as características da anticoncepção injetável. Quadro 5 – Anticoncepção injetável Tipo/ Características Anticoncepcional hormonal injetável combinado – injetável mensal Anticoncepcional hormonal injetável só de progestogênio – injetável trimestral Composição Contém um progestágeno sintético e um éster de um estrogênio natu- ral, diferentemente dos anticoncepcionais orais combinados, nos quais ambos os hormônios são sintéticos. Contém apenas progestogênio, que é semelhante ao produzido pelo organismo feminino. É também conhecido como acetato de medroxi- progesterona de depósito – AMP-D. Mecanismo de ação Principalmente impedindo a ovulação Principalmente impedindo a ovulação. Eficácia São altamente eficazes. A falha desse método é de 0,3% ou menor, com injeções regulares a cada mês, pontualmente. O uso rotineiro, acarreta em três gravidezes a cada 100 mulheres que utilizam o método. ÎÎ Altamente eficaz. A taxa de falha desse método é de 0,3%, com inje- ções regulares a cada três meses, pontualmente. O uso rotineiro acar- reta em três gravidezes a cada 100 mulheres que utilizam o método. Efeitos Colaterais ÎÎ Alterações do ciclo menstrual: manchas ou sangramento nos inter- valos entre as menstruações, sangramento prolongado e amenorreia. ÎÎ Ganho de peso. ÎÎ Cefaleia. ÎÎ Náuseas e/ou vômitos. ÎÎ Mastalgia. ÎÎ Alterações do fluxo menstrual: manchas ou sangramento leve (mais co- mum), sangramento volumoso (raro) ou amenorreia (bastante comum). ÎÎ Ganho de peso: aproximadamente 1,5 a 2 kg por ano; ÎÎ Cefaleia, sensibilidade mamária, desconforto abdominal, alterações de humor, náusea, queda de cabelo, diminuição da libido e acne. Benefícios ÎÎ Similares aos anticoncepcionais hormonais orais, com exceção dos efeitos hepáticos, uma vez que o injetável elimina a primeira passagem. ÎÎ Muito eficaz e seguro. ÎÎ Pode ser usado durante a amamentação. ÎÎ Não provoca os efeitos colaterais do estrogênio. ÎÎ Diminui a incidência de gravidez ectópica, câncer de endométrio, doença inflamatória pélvica, mioma uterino. ÎÎ Pode ajudar a prevenir câncer e cistos de ovário. ÎÎ Para algumas mulheres pode ajudar a prevenir anemia ferropriva e di- minuir a frequência de crises convulsivas, em portadoras de epilepsia. Î Diminuem os sintomas da endometriose. Riscos ÎÎ Estudos mostram que esse injetável é similar às pílulas combinadas. Î Deve ser evitado em lactentes até o sexto mês após o parto. ÎÎ Não deve ser utilizado antes dos 21 dias após o parto entre não lac- tantes (risco de doença tromboembólica puerperal). ÎÎ Podem causar acidentes vasculares, tromboses venosas profundas ou infarto do miocárdio, sendo que o risco é maior entre fumantes (mais de 20 cigarros/dia), com 35 anos ou mais. ÎÎ Seu uso poderia acelerar a evolução de cânceres preexistentes. ÎÎ Pode levar à redução da densidade mineral óssea. Fonte: Brasil (2010); WHO (2011). 55 55 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 E no quadro 6 acompanhe as características do Dispositivo Intrauterino, o DIUcom cobre que é disponibilizado pelo SUS. Quadro 6 – Dispositivo intrauterino Tipo/ Características DIU com cobre Composição ÎÎ Feito de polietileno estéril radiopaco e revestido com filamentos e/ou anéis de cobre, enrolado em sua haste vertical. É inserido pela vagina e cervix até o fundo uterino. Efetivo por cinco a dez anos. Alguns casos demonstram eficácia por 12 anos. Mecanismo de ação ÎÎ Age impedindo a fecundação, pois torna mais difícil a passagem do espermatozoide pelo trato reprodutivo feminino, pois estimula reação inflamatória e mudanças quí- micas que danificam o espermatozoide e o óvulo antes de se encontrarem. Eficácia ÎÎ Menos de uma a cada 100 mulheres no primeiro ano de uso engravidam (cerca de seis a oito gravidezes em 1000 mulheres). Efeitos Colate- rais ÎÎ Alterações no ciclo menstrual (comum nos primeiros três a seis meses). ÎÎ Sangramento menstrual prolongado e volumoso. ÎÎ Sangramento e manchas de escape (spotting) no intervalo entre as menstruações. ÎÎ Cólicas de maior intensidade ou dor durante a menstruação. Benefícios ÎÎ Protege contra gravidez a longo prazo. ÎÎ Não requer controle diário da mulher. ÎÎ Possível proteção contra câncer endometrial. Riscos ÎÎ Anemia, no caso dos sangramentos volumosos. ÎÎ Possível Doença Inflamatória Pélvica (DIP) se infecção presente no ato da inserção do DIU. ÎÎ Não protege contra DSTs. Complicações ÎÎ Gravidez ectópica. ÎÎ Gravidez tópica. ÎÎ Perfuração: é uma complicação rara (0,1%). ÎÎ Expulsão. ÎÎ Dor ou sangramento. ÎÎ Infecção. Fonte: Brasil (2010); WHO (2011). Os métodos cirúrgicos são definitivos e consistem na realização de um procedi- mento cirúrgico voluntário. Podem ser rea- lizados na mulher por meio da ligadura das trompas (laqueadura ou ligadura tubá- ria), e no homem por meio da ligadura dos canais deferentes (vasectomia) (BRASIL, 2010b). No Brasil, a esterilização cirúrgica está re- gulamentada por meio da Lei no 9.263/96, que trata do planejamento familiar, a qual estabelece no seu art. 10 os critérios e as condições obrigatórias para a sua execução, permitindo a esterilização voluntária nas seguintes situações: em homens e mulhe- res com capacidade civil plena e maiores de 25 anos de idade, ou pelo menos com dois filhos vivos, desde que observado o prazo mínimo de 60 dias entre a manifestação da vontade e o ato cirúrgico. Nos casos em que há risco à vida ou à saúde da mulher ou do futuro concepto. Na vigência de sociedade conjugal, a esterilização depende do con- sentimento expresso de ambos os cônjuges (BRASIL, 1996). 56 56 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 Figura 16 – Os métodos cirúrgicos são irreversíveis e os cônjuges devem estar de acordo Tendo cumprido os critérios, o casal deve- rá procurar a UBS mais próxima de sua casa, onde receberá o aconselhamento de todos os métodos existentes na tentativa de certificar sua decisão, uma vez que os métodos cirúr- gicos quase sempre são irreversíveis. Sua efi- cácia é cerca de 99,5%. É importante ressaltar que a vasectomia é uma cirurgia mais simples, realizada em nível ambulatorial, com anes- tesia local e sem necessidade de internação (BRASIL, 2010b). Cabe ainda ressaltar que a ligadura não pode ser realizada imediatamen- te após o parto, conforme legislação brasileira (BRASIL, 1996). usando o método corretamente ou se deseja um novo método. E se necessário, referenciar para um serviço apropriado (WHO, 2011). O acompanhamento evita a descontinuidade e o uso incorreto, geralmente relacionado à ocorrência de gravidezes indesejadas. 2.3.4 Cuidados pré-concepcionais Os profissionais de saúde devem estar aten- tos ao desejo de ter filhos(as) da mulher e de sua parceria sexual. Quando presente, precisa analisar a possibilidade de gravidez ou não. No caso de casal homossexual, pode informar sobre a possibilidade de reprodução assistida. Para casais heterossexuais, deve-se disponi- bilizar e incentivar a avaliação pré-concepcio- nal, ou seja, a consulta que o casal faz antes de uma gravidez, no intuito de identificar fa- tores de risco ou doenças que possam alterar a evolução normal de uma futura gestação (BRASIL, 2010b). Essa avaliação constitui ins- trumento importante na melhoria dos índices de morbidade e mortalidade materna e infantil (BRASIL, 2010b). As atividades a serem de- senvolvidas na avaliação pré-concepcional Em relação aos métodos de barreira, preser- vativos masculino e feminino, são os únicos métodos capazes de garantir dupla proteção (BRASIL, 2010b). Além disso, muitas mulhe- res utilizam esses métodos porque não têm efeitos colaterais dos hormônios, podem ser utilizados temporariamente e como méto- do de backup. Devem ser ofertados no SUS. Como profissional, você precisa orientar o uso correto, como retirar e colocar, quando e sua eficácia. Quando utilizado corretamente, a taxa de falha é de duas gravidezes a cada 100 mulheres em um ano, e cinco gravidezes a cada 100 mulheres em um ano de uso para a camisinha masculina e para a feminina (WHO, 2011). Dentre os métodos naturais, o Método Ovula- tório de Billings (MOB) e o método da Ame- norreia Lactacional (LAM) são os mais efi- cazes, com índice de 98%, quando utilizados corretamente. Você precisa oportunizar atendimentos sub- sequentes, que são oportunidades para es- clarecer dúvidas, auxiliar caso estejam com algum problema de saúde reprodutiva (como IST, sangramento vaginal), para avaliar se está 57 57 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 devem incluir a anamnese e exame físico, o exame ginecológico completo (incluindo exame das mamas) e a realização de alguns exames complementares de diagnóstico. Além dessa investigação e avaliação mais detalhada, deve-se estabelecer com a mulher a administração preventiva de ácido fólico no período pré-gestacional para a prevenção de defeitos congênitos do tubo neural, es- pecialmente nas mulheres com anteceden- tes desse tipo de malformações (0,4 mg, VO/ dia, durante 60 a 90 dias antes da concepção) (BRASIL, 2010b). Durante a avaliação pré-concepcional tam- bém deverão ser abordadas outras questões, tais como descritas no esquemático ao lado. 2.3.5 Infertilidade e não reprodução A infertilidade é a inabilidade de reproduzir, de ter um filho. Apesar de muitas vezes as mulhe- res serem responsabilizadas por isso, a infertili- dade pode ser tanto masculina quanto feminina. Em média, a cada 10 casais, um terá problemas de infertilidade. Um casal é considerado infértil após 12 meses de sexo desprotegido sem a ocorrência de uma gravidez. Cabe ainda ressal- tar que a infertilidade pode ocorrer mesmo após o casal já ter um filho(a). O abortamento recorrente também pode ser considerado outra forma de infertilidade. As causas de infertilidade ainda não são total- mente claras e definidas, mas fatores como doenças infecciosas, idade, procedimentos médicos, problemas anatômicos, endócrinos, genéticos e imunológicos são atrelados. As infecções sexualmente transmissíveis (IST) são as causas mais comuns e recor- rentes, pois ascendem o trato genital, cul- minando em doença inflamatória pélvica (DIP) e prejudicando, por exemplo, a perme- abilidade das tubas uterinas. A DIP pode ser assintomática. Orientação nutricional Adoção de hábitos de vida saudáveis Cessação do tabagismo Uso de bebidas alcóolicas e outras drogas O uso de medicamentos (e troca, quando incompatíveis com a gravidez) Orientar sobre o registro sistemáticos do ciclo menstrual Investigar doenças infecciosas prejudiciais a uma gestação (HIV/AIDS, sífilis, toxoplasmose, hepatites, rubéola e ISTs) Realização do preventivo se maior que 25 anos e investigar doenças crônicas (diabetes, hipertensão, epilepsia,dentre outras) Investigar doença falciforme ou traço Avaliação das condições de trabalho da mulher Investigação do histórico vacinal e atualização do cartão de vacina Avaliação pré-concepcional 58 58 Saúde sexual e saúde reprodutiva no contexto das especificidades e vulnerabilidades Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN2 O profissional de saúde precisa estar atendo e sensível, pois é comum não se procurar o ser- viço por medo ou vergonha. O aconselhamento do casal infértil é funda- mental, sendo que o recomendado é o casal ser aconselhado, e não somente a mulher, pois geralmente elas são culpabilizadas por essa questão. Incluir o homem com certeza auxilia no processo. Durante o aconselhamento, é importante: ÎÎ Reafirmar que tanto o homem quanto a mulher podem ser inférteis. Pode ainda não ser possível identificar qual deles é infértil (ou se os dois) e o que causou a infertilidade. ÎÎ Tentar a gravidez pelo menos 12 meses antes de se preocupar com a infertilidade. ÎÎ Sugerir o ato sexual no período fértil da mulher e ajudá-la a identificar o seu período fértil. ÎÎ Fazer a referência do casal infértil para a atenção secundaria. O casal também pode querer falar de adoção, incluindo a referência para assistente so- cial e psicóloga. Importante! Como profissional de saúde, é importante lembrar que a decisão de não reprodução deve ser respeitada, e que a mulher deve ter suas demandas e necessidades em relação ao método contraceptivo atendidas. Continue seus estudos. Infopédia, Dicionário da Língua Portu- guesa com Acordo Ortográfico [em li- nha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. Acesso em: 5 mar. 2017. Disponível em: <https://www.infopedia.pt/dicionarios/ lingua-portuguesa/primo-infeção>. https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/primo-infe%C3%A7%C3%A3o https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/primo-infe%C3%A7%C3%A3o 59 60 UN3 Saúde sexual e saúde reprodutiva na Atenção Primária 61 62 62 Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN3 Saúde sexual e saúde reprodutiva na Atenção Primária A grande maioria das demandas em Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva (SSSR) têm como assistência primeira a Atenção Primária. As- sim, questões como a sexualidade responsá- vel, infertilidade, a menstruação e suas altera- ções, o planejamento reprodutivo, disfunções sexuais, vulvovaginites, ISTs, gravidez, puer- pério, dentre vários outros fatores são deman- das reais, importantes, recorrentes e muitas vezes invisíveis e reprimidas no dia a dia da Atenção Primária. Tal fato leva a várias con- sequências que geram grande impacto social e econômico nas vidas dos indivíduos e famí- lias, como gravidez indesejada, doenças, infe- licidade, depressão, dentre outros. O que mais observamos na prática na Atenção Primária é resumir a SSSR às ações voltadas às mulheres que vivenciam o ciclo gravídi- co puerperal, ou seja, as mulheres grávidas e puérperas, por meio das consultas de pré- -natal, puerpério e promoção do aleitamento materno. Adicionalmente, observam-se em algumas equipes, reuniões mensais de pla- nejamento reprodutivo esvaziadas, burocráti- cas, e acesso facilitado à anticoncepção oral e preservativo, porém com aconselhamento au- sente ou insuficiente. Figura 16 – O atendimento à saúde exige aconselhamen- to, para além do ciclo gravídico puerperal Considerando essa realidade, é importante uma atuação profissional de saúde que reconheça a mulher como protagonista do seu corpo, saú- de, decisões e necessidades de cuidado. Ainda, há preconceitos, questões religiosas, culturais, conflitos pessoais que dificultam a abordagem de vários assuntos dentro des- sa área, bem como a assistência (PINHEIRO; COUTO, 2013). 63 63 Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN3 Saúde sexual e saúde reprodutiva na Atenção Primária Cabe ressaltar que a falta de atenção nessa área também contribui para uma visão re- ducionista da mulher, pouco participativa, submissa, e a uma assistência que medicaliza seu corpo e que muitas vezes a submete a de- cisões de terceiros. Esta unidade pretende, portanto, trabalhar no intuito de desconstruir essas práticas, muito medicalizadas, pouco centradas nas mulheres, muito concentradas na reprodução, e retomar quais são as estratégias de atenção à Saú- de Sexual e Saúde Reprodutiva no âmbito da Atenção Primária, tendo como base os direitos sexuais e reprodutivos, as numerosas deman- das nessa área e as políticas públicas vigentes. Estudo recente mostrou que não existe um estímulo para que as mulheres se preparem para uma gravidez saudável e planejada (BORGES et al., 2016), apesar do cuidado pré-concepcional ser preco- nizado e estar recomendando na políti- ca pública brasileira (BRASIL, 2012). Em contrapartida, a cobertura do pré-natal é alta. Isto demonstra a necessidade de rever e avançar as práticas na Atenção Primária, difundindo e aproveitando oportunidades assistenciais para reali- zar cuidados específicos. Você pode acessar este estudo na ínte- gra neste ink: <http://www.lume.ufrgs. br/handle/10183/149254>. 3.1 Estratégias para garantir a atenção à Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva Garantir a atenção à Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva (SSSR) não é tarefa fácil. O ce- nário que vem sendo descrito ao longo deste módulo aponta para a necessidade de se res- gatar ações, princípios e estratégias que são previstas na Atenção Primária, fazem parte do dia a dia da Unidade Básica de Saúde, mas que às vezes se perdem ou se tornam mecânicas. Deve-se efetivar uma abordagem integral da saúde das mulheres, trazendo para a assis- tência a articulação prevista nas políticas dos diferentes temas da saúde da mulher, com destaque à articulação da SSSR, sem perder de vista a tentativa de ultrapassar o reducio- nismo da mulher a mamas, útero e gestação (MEDEIROS; GUARESCHI, 2009). A integralida- de também exige uma visão ampliada que leve em conta as iniquidades e invisibilidades do cuidado às mulheres (AYRES, 2004). Outra estratégia importante é a continuida- de do cuidado, ou seja, o acompanhamento. Por exemplo, uma adolescente inicia o uso de anticoncepção oral após consulta com o enfermeiro e médico generalista da sua equipe. Essa jovem precisa ser seguida de forma a esclarecer dúvidas que podem surgir após o início do método e também monito- rada quanto ao uso correto deste. Atente-se para as mulheres e suas demandas e agende o novo atendimento para avaliar o desenvol- vimento dos novos cuidados, mudanças e tratamentos. Um exemplo de falha no segui- mento clássico é a não realização do exame de controle de cura após o tratamento para infecção urinária. http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/149254 http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/149254 64 64 Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN3 Saúde sexual e saúde reprodutiva na Atenção Primária Na sua atuação profissional frente às mulhe- res e suas parcerias, recomenda-se que você: Não tome decisões pelas mulheres e suas parcerias sexuais, não imponha escolhas, não emita juízo de valor Desenvolva atividades educativas e de aconselhamento Somente realize prescrições após avaliação clínica e ofereça acompanhamento periódico Primeiro ouça, pergunte e depois se posicione Não tome decisões pelas mulheres e suas parcerias sexuais, não imponha escolhas, não emita juízo de valor. Desenvolva atividades educativas e de acon- selhamento. Somente realize prescrições após avaliação clínica e ofereça acompanhamento periódico. Implicar o homem no cuidado à SSSR, des- mistificando a ideia de que a saúde nesse âmbito é apenas “coisa de mulher”, como muito ouvimos, também deve constituir uma estratégia que guie a assistência nes- sa área. Nesse caso, você pode auxiliar no processo de inclusãoe educação dos ho- mens em relação as suas responsabili- dades bem como a necessidades de tam- bém cuidar da sua Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva. A seguir, apontamos alguns elementos da atenção às mulheres nesse âmbito. Deve-se levar em consideração os direitos sexuais e reprodutivos, bem como as políticas vigentes. Protagonismo Revogar, reinvidicar direitos, concordar e discordar, escolher por si Educação em saúde Orientar e ajudar a desfazer mitos e tabus, abordagem individual ou coletiva, informar para emponderar Empoderamento Proporcionar o protagonismo e a autonomia da mulher Sigilo e privacidade Visual e auditiva Equidade Cuidado de acordo com as necessidades da pessoa Escolha livre e informada Oferecer o conhecimento, apresentar os riscos e benefícios Prática Baseada em Evidências Oferecer o melhor cuidado, desencorajando a manutenção de práticas excessivas e desnecessárias Escuta quali�cada Presença e atenção, livre de preconceitos Corresponsabilidade Responsabilizar as mulheres e promover o autocuidado Acolhimento Forma de concretizar e humanizar as práticas em saúde Busca ativa Identi�car situações de risco e vulnerabilidade das mulheres Aconselhamento Centrado na pessoa, família e comunidade Integralidade Enxergar e cuidar da mulher em todas as suas fases, incluindo sua sexualidade e outras questões afora a reprodução Resolutividade Solucionar os problemas e demandas das mulheres, atendendo suas necessidades em saúde e contribuindo para sua satisfação Valorização da queixa Estar atento, investigar e tomar condutas relacionadas à queixa da mulher 65 65 Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN3 Saúde sexual e saúde reprodutiva na Atenção Primária Finalmente, é preciso fortalecer as redes de atenção à saúde das mulheres e ter conhe- cimento sobre elas. Assim, você poderá com responsabilidade referenciar e contrarreferen- ciar as mulheres de acordo com a demanda, os atendimentos às especialidades, cirurgias, internações, entre outras. Ter conhecimento da rede é uma estratégia crucial que auxilia a resolver as demandas das usuárias, pois per- mite encaminhá-las para serviços específicos, quando não for possível atendê-las na UBS. 3.1.1 Estratégias para a atenção aos grupos vulneráveis no contexto da Atenção Primária Em relação à atenção à Saúde Sexual e Saú- de Reprodutiva (SSSR) no contexto das espe- cificidades e vulnerabilidades apresentadas na unidade 2, uma questão principal é como acessar essas populações, ou seja, como al- cançá-las, pois na grande maioria das vezes estão à parte dos serviços de saúde. Assim, a equipe de saúde tem como papel, primeira- mente, identificar esses grupos e os fatores que determinam sua condição de vulnerabi- lidade, e, consequentemente, vinculá-los ao serviço de saúde. Figura 17 – Identificar os grupos e suas vulnerabilidades é papel das equipes de saúde A busca ativa, a parceria com outros equipa- mentos sociais, bem como reconhecer o ter- ritório vivo são pontapés iniciais para chegar até esses diferentes grupos. A partir daí todos os elementos apresentados na seção anterior devem também fazer parte da assistência. É preciso ver essas mulheres em seus contex- tos de vida, antes de estabelecer intervenções e cuidados, que, por sua vez, devem ser adapta- dos às necessidades dos diferentes grupos da população. Portanto, é preciso reconhecer que essas mulheres têm necessidades diferentes, mas os mesmos direitos que qualquer outra mulher. Além de ampliar o acesso, é preciso qualificar a assistência prestada no âmbito da Atenção Primária. Observa-se uma dificuldade dos profissionais que atuam nesse nível de aten- ção reconhecer a necessidade de olhar para seu território vivo, ultrapassando as paredes da UBS. Esse reconhecimento é fundamental e as visitas domiciliares constituem em estraté- gia que permite conhecer o território, sua dife- rente composição, grupos e vulnerabilidades. A habilidade de comunicar-se com indivíduos de diferentes contextos também é crucial, permitindo troca de saberes. 3.2 Papel dos profissionais na Atenção Primária Os profissionais de saúde da Atenção Primá- ria devem procurar compreender as expecta- tivas das mulheres e suas parcerias no que diz respeito à reprodução e ajudá-las a con- cretizarem essas expectativas, respeitando suas escolhas (BRASIL, 2013). A assistência específica em SSSR das mulheres exige que o 66 66 Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN3 Saúde sexual e saúde reprodutiva na Atenção Primária Mas atenção: nem sempre estas três instâncias de comunicação são atingidas em um único mo- mento (BRASIL, 1998; BRASIL, 2003; BARBOZA et al., 2015; TAEGTMEYER et al., 2013). Nos di- ferentes contextos em que o aconselhamento pode ser uma estratégia fundamental, resu- mem-se seus principais objetivos em: diminuir o estresse das usuárias; refletir sobres seus ris- cos e prevenção; aderir ao tratamento ou cuida- do, e incluir a parceria sexual quando possível e necessário (BRASIL, 1998; BRASIL, 2003). A implicação da parceria sexual é uma barreira muito importante a ser ultrapassada. Demons- tra uma fragilidade do aconselhamento que ve- mos hoje, muitas vezes não acontecendo por falta de apoio institucional e prejudicando a interrupção da cadeia de transmissão de ISTs (BARBOSA et al., 2015). Muitas mulheres, mes- mo após se submeterem ao aconselhamento, sem o apoio de suas parcerias sexuais, costu- mam não revelar se tem ou não ISTs a estes por medo de acusações de infidelidade, violência, abandono e perda de apoio econômico (OSOTL et al., 2014; BARBOSA et al., 2015). Uma estra- tégia apontada para melhorar esta implicação é realização de visita domiciliar (OSOTL et al., 2014; BARBOSA et al., 2015). profissional de saúde realize três grupos de atividades principais: aconselhamento, ativi- dades educativas, e atividades clínicas. Estas ações devem ocorrer de forma integrada e se guiar pela promoção, prevenção e recupera- ção da saúde (BRASIL, 2013). 3.2.1 Aconselhamento O aconselhamento é uma prática que não se restringe a uma categoria profissional. Deve estar presente na Atenção Primária e mais precisamente em algumas áreas específicas, como o planejamento reprodutivo, as ISTs/ HIV/AIDS, que fazem parte da atenção à Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva (SSSR) (BRASIL, 1998; BARBOZA et al., 2015; TAEGTMEYER et al., 2013). O aconselhamento pressupõe disponibilidade, troca, escuta, reflexão, confiança, responsabi- lidade; requer esforço constante por parte dos profissionais, uma vez que não é compatível com julgamentos e muito menos com o mo- delo biomédico e curativista. Principalmente, deve ser centrado no usuário – ou seja, na mulher. Essa prática contribui para o resgate da integralidade, tem o foco na prevenção e garante o acesso a informações específicas, corresponsabilizando a mulher e permitindo que ela avalie e escolha o melhor para sua saúde tendo em vista seu contexto, desejos e necessidades em saúde. No contexto da SSSR, é uma prática altamen- te recomendada para informar, por exemplo, sobre os métodos e meios para a regulação da fecundidade e para a proteção contra as IST/HIV/AIDS. Trata-se de uma estratégia que também contribui para o empoderamento e o protagonismo da mulher. Essa prática exi- ge um embasamento científico para garantir sua fundamentação, consistência e coerência (PEQUENO et al., 2013). Assim, pode-se afirmar que o aconselhamento é composto por três principais componentes: Aconselhamento Apoio emocional Apoio educativo Avalia ção de ris cos 67 67 Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN3 Saúde sexual e saúde reprodutiva na Atenção Primária Outra estratégia é realizar o aconselhamento coletivo no qual você deve sempre ter o cuida- do de fazer abordagem de questõescomuns, necessitando identificar as demandas do gru- po, bem como os limites do que deve ser abor- dado apenas em momentos individuais (BRA- SIL, 1998; BRASIL, 2003). 3.2.2 Atividades educativas Muitas vezes, a falta de informação impede que as mulheres reconheçam suas necessi- dades de saúde, contribuindo ainda mais para que não protagonizem seu corpo, saúde e, consequentemente, suas decisões. Portanto, tendo em vista que as atividades educativas permitem oferecer às pessoas os conheci- mentos necessários para a escolha livre e in- formada, elas também contribuem para o em- poderamento da mulher e seu protagonismo. Você pode perceber que são as atividades de promoção e educação em saúde que tem uma abordagem coletiva e individual. Assim, as atividades educativas devem incluir não só informações e ações de promoção da saúde que implicam na corresponsabiliza- ção por sua saúde, mas também aquelas que discutam os direitos sexuais e reprodutivos, possibilitando maior protagonismo e posicio- namento crítico da mulher diante do seu corpo e das suas escolhas individuais, considerando as melhores evidências científicas. Figura 18 – As atividades em grupo podem favorecer a participação da mulher e o cuidar em saúde A educação em saúde tem sido uma importante ferramenta na Atenção Primária (AP) e requer boa comunicação e capacidade de explanação, possibilitando uma ampliação do cuidar em saúde (SALCI et al., 2013). A própria consulta, seja ela de qualquer profissional da APS, cons- titui-se em espaço importante para abordagem individual, desmistificando o caráter medicali- zado desses atendimentos, muito centrado em exames, procedimentos e prescrições medica- mentosas. Cabe ainda ressaltar que todos os momentos que compreendem interação com as mulheres nos serviços de saúde devem ser considerados propícios para desenvolver ações de educação em saúde (SALCI et al., 2013). Adicionalmente, recomenda-se que as prá- ticas educativas façam uso de metodologia participativa, com abordagem pedagógica centrada na mulher (BRASIL, 2013). O profis- sional de saúde precisa utilizar uma lingua- gem acessível, simples e clara, facilitando o entendimento. Deve lembrar também que mesmo em se tratando de atividades que be- neficiem mais a mulher, incluir as parcerias sexuais, implicando-as no processo é bas- tante positivo. Por outro lado, no caso da pre- venção de ISTs ou planejamento reprodutivo, 68 68 Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN3 Saúde sexual e saúde reprodutiva na Atenção Primária tanto mulheres quanto suas parcerias se beneficiam igualmente das informações. Trata-se de considerar as particularidades dos diversos temas da atenção à SSSR, evi- tando encontros repetitivos. Ainda, no que se refere à SSSR, é importante considerar o conhecimento e experiência das mulheres, permitindo a troca de ideias so- bre sexualidade, reprodução, relacionamento humano e sobre os fatores socioeconômicos e culturais que influenciam nessas questões, tendo em vista as questões de gênero e o quanto elas influenciam na relação delas com sua saúde. Todas as mulheres sempre trazem vivências próprias, que devem ser respeitadas e con- sideradas no momento das atividades, pois formatos do tipo palestras já foram demons- trados ineficazes e a escuta qualificada bem como o redimensionamento das demandas e cuidados por parte das mulheres exige que elas serem consideradas e incluídas no pro- cesso de educação em saúde. Grandes beneficiadores dessas práticas são os adolescentes. Os adolescentes ficam à parte desse tipo de atividades, demonstrando falhas das nossas ações na APS. Uma exemplificação disso é a manutenção e inclusive aumento das taxas de gravidez na adolescência, incluindo as mais jovens, entre 10 e 14 anos de idade. Abordar a temática Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva sob enfoque edu- cativo significa ofertar oportunidades as mulheres e suas parcerias sexuais de falarem sobre o que pensam do amor, do preconceito, da amizade, da família, da cidadania, do namoro, do “ficar”, da virgindade, das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), da raiva, da violência, das drogas, do sexo, da fome, da desigualdade, da arte, do medo, da gravidez dese- jada ou indesejada e outros temas. Por tudo isso, abordagens coletivas, ou melhor, conversas coletivas sobre esse assunto tornam-se fundamen- tais (BRASIL, 2013). Você se sente confortável em promo- ver essa discussão no seu campo de prática? Pense a respeito. Figura 19 – A discussão sobre SSSR deve fazer parte das atividades com os adolescentes Reconhece-se ainda que essas ações coleti- vas não bastam por si só. Devem ser acom- panhadas e reforçadas por ações educativas individuais (BRASIL, 2013). 69 69 Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN3 Saúde sexual e saúde reprodutiva na Atenção Primária Entre as habilidades que o profissional de saú- de precisa buscar desenvolver para realizar a atenção às mulheres na SSSR, estão: Fonte: Brasil (2010). 3.2.3 Atividades individuais As atividades individuais estão relacionadas à consulta, incluindo anamnese, que deve Habilidades Sentir-se confortável para falar sobre sexualidade e sobre sentimentos Utilizar linguagem acessível, simples e clara Respeito e empatia Acolher o saber e o sentir das mulheres Ter conhecimentos técnicos Boa capacidade de comunicação Tolerância aos princípios e às distintas crenças e valores que não sejam os seus próprios Ser gentil, favorecendo o vínculo e uma relação de confiança conter a história completa da mulher, exame físico também completo e não somente re- sumido à mama e pelve. Você deve atentar a outros órgãos que podem sofrer repercussões devido a questões sexuais e reprodutivas, como o abdômen, por exemplo, e sinais e sin- tomas inespecíficos que podem remeter a um problema sexual e ou reprodutivo, como febre, anemia, dentre outros. A partir da anamnese e exame físico, podem-se levantar os proble- mas e necessidades de saúde da mulher ou casal, e oferecer soluções e cuidados basea- dos em evidências científicas, evitando a me- dicalização do corpo feminino e considerando as diferentes fases do ciclo de vida da mulher. Na Atenção Primária, muitos atendimentos são realizados individualmente, e por isso é necessário uma escuta qualificada do pro- fissional para garantir o respeito aos dese- jos e questionamentos da mulher. Na página do Ministério da Saúde você encontra alguns protocolos para o atendimento à saúde da mulher na APS que podem ajudar o profis- sional no planejamento deste atendimento. 70 70 Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN3 Saúde sexual e saúde reprodutiva na Atenção Primária 3.3 Corresponsabilização dos homens A implicação doa homens nos processos e necessidades de cuidado nessa área é um desafio e uma necessidade urgente. Trata-se de um desafio, pois os homens fre- quentam menos os serviços de saúde, por uma série de fatores, tais como a cultura da masculinidade, a reprodução pelos profis- sionais de uma concepção de gênero em que o homem não precisa de cuidado e pelas Ações clínicas especí�cas relacionadas à consulta • Identi�cação de di�culdades quanto às relações sexuais ou de disfunção sexual. • Ações de prevenção do câncer de colo de útero e de mama, com especial atenção para a orientação para a realização do exame preventivo do câncer de colo de útero. • Identi�cação da data da última coleta do exame preventivo do câncer de colo de útero e de mamogra�a e avaliação da necessidade de realização de novo exame, de acordo com o protocolo vigente. • Atenção pré-concepcional. • Atenção pré-natal e puerperal. • Atenção à saúde da mulher no climatério/menopausa. • Orientação para prevenção de IST/HIV/Aids, com incentivo à dupla proteção. • Orientação para a escolha dos recursos à concepção ou à anticoncepção,incentivando a participação ativa na decisão individual ou do casal. • Prescrição e oferta do método escolhido. • Acompanhamento da mulher e de sua parceria sexual. • Abordagem da infertilidade. • Assistência ao abortamento. • Assistência à mulher vítima de violência. dificuldades dos serviços em acolher, reco- nhecer as demandas e os cuidados de que necessitam (PINHEIRO; COUTO, 2013). Até hoje se observa uma forte tendência da feminização do planejamento reprodu- tivo e de outras práticas em Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva, ou seja, “isso é coisa de mulher”. Esse comportamento é levado para várias outras demandas de cuidado em SSSR. Por exemplo, o cuidado pré-na- tal: raramente observa-se a participação do homem. Por quê? Se você observar na sua prática, alguns companheiros das mulheres as acom- panham até o serviço de saúde, mas ao serem chamadas para consultas elas adentram ao consultório sozinhas. Eles ficam esperando. Por quê? Você já ex- perimentou chamá-los ou perguntar à mulher se ele não deseja também par- ticipar da consulta? Se você fizer isso, vai ver que a maioria deles quer parti- cipar. Outros vão por curiosidade ou até por constrangimento, e nesse momento tem-se a oportunidade de refletir e reco- nhecer seu papel no processo da repro- dução. Claro que muitos não apoiam as mulheres e nem as acompanham, mas 71 71 Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN3 Saúde sexual e saúde reprodutiva na Atenção Primária um passo de cada vez! Você já viu na nova Caderneta da Gestante o espaço para o pré-natal do homem? Conheça o Guia do Pré-Natal do Parcei- ro para Profissionais de Saúde acessan- do: <http://portalsaude.saude.gov.br/ images/pdf/2016/agosto/11/guia_Pre- Natal.pdf>. Figura 20 – O Guia do Pré-Natal do Parceiro Guia do Pré-Natal do Parceiro para Profissionais de Saúde A organização dos serviços de saúde prevê a Atenção Primária (AP) como o centro de co- municação das redes de atenção à saúde. Veja no esquemático a seguir, alguns atribu- tos e funções que são primordiais para orga- nização do serviço de saúde. Competência cultural Orientação comunitária Focalização na família Coordenação Integralidade Longitudinalidade Atributos Funções Primeiro contato Resolubilidade Comunicação Responsabilização Fonte: Ministério da Saúde (2016). Essa reflexão nos remete ao fato de que em vez de promovermos estratégias para incluir os parceiros das usuárias nas atividades ou nas discussões sobre saúde reprodutiva, re- forçamos em nossos discursos e práticas a responsabilização única das mulheres sobre a reprodução (COUTO, 2012). Ao convidá-lo a participar do pré-natal, pode ser uma for- ma inicial de aproximar os homens do ser- viço de saúde, como um ponto de partida. O convite pode e deve se estender às ativi- dades e assistência ao planejamento repro- dutivo. Ao perguntar à mulher onde está seu companheiro e por que ele não veio, planta- -se a semente para que elas também pen- sem no assunto e às vezes levem a pergunta para ser discutida em casa. Esse pode ser outro estímulo. Por fim, fazer uma avaliação dos fluxos de atendimentos de cada unidade é essencial, no sentido de observar possíveis fatores que po- dem desfavorecer e principalmente favorecer o acesso dos homens aos serviços de saúde. 3.4 Organização do serviço de saúde em rede http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2016/agosto/11/guia_PreNatal.pdf http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2016/agosto/11/guia_PreNatal.pdf http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2016/agosto/11/guia_PreNatal.pdf 72 72 Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN3 Saúde sexual e saúde reprodutiva na Atenção Primária Possivelmente, nenhum desses atributos ou funções são novidades para você que é profis- sional de saúde da Atenção Primária (AP). Na atenção à saúde da população, além da APS temos os níveis secundários (centros de es- pecialidades médicas) e terciários de atenção (hospitais e maternidades). Somando-se aos três níveis de atenção, temos os serviços de apoio, comuns a todos os pontos de atenção (diagnóstico e terapêutico, assistência farma- cêutica, sistemas de informação em saúde). A Rede de Atenção à Saúde (RAS) deve ser constituída de todos esses elementos. Muitas demandas referentes à Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva podem ser resolvidas na Atenção Primária. No entanto, algumas mu- lheres precisaram caminhar pela rede para obter a assistência necessária e depois retor- nar à Atenção Primária. Esse é o caso de uma mulher que teve altera- ções no exame preventivo do câncer de colo do útero ou mama, que precisa realizar uma mamo- grafia ou US obstétrico, que apresenta intercor- rências durante a gravidez, que vai ter seu parto, que tem IST/HIV/Aids, que precisa um processo de fertilização assistida, dentre outras. Um exemplo de rede é a Rede Viva Vida, estruturada pela Secretaria de Saúde do Estado de Minas Gerais para atenção materno-infantil. Acesse: <http://www. saude.mg.gov.br/cib/page/429-viva- -vida-sesmg>. O mais importante é que os profissionais tenham conhecimento da rede, de como ela se articula e se organiza para que informem corretamente e referenciem as mulheres, de forma a evitar situações do tipo peregrina- ção, que podem culminar inclusive em mor- te, afora a não resolução ou atendimento da demanda das usuárias. Cada município, região de saúde e estado tem um desenho próprio da rede. 3.4.1 Como superar as dificuldades de acesso às ações de Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva A primeira questão se refere à necessidade de desburocratização do acesso aos serviços de Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva (SSSR), oferecendo-os a todas as mulheres e homens, em todas as fases do seu ciclo de vida, in- cluindo adolescentes, idosos, independen- temente da condição socioeconômica, raça, escolaridade e de qualquer outro fator. Todos se beneficiam dessas ações. Assim, profissionais da Atenção Primária preci- sam capacitar-se constantemente e exercer sua responsabilidade e compromisso com essas ações. Quantas vezes não ouvimos “eu não falo de contraceptivo com adolescentes”? Figura 21 – A mulher pode ser encorajada a cuidar da sua saúde Em segundo, deve-se pensar a rede para além do ciclo gravídico puerperal. Ou seja, como é o fluxo para o indivíduo que foi diagnosticado 73 73 Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN3 Saúde sexual e saúde reprodutiva na Atenção Primária com HIV? Como é feito a referência da mulher infértil e que deseja usufruir da reprodução assistida? E no caso da vasectomia e da li- gadura tubária? Como orientar e encaminhar uma puérpera com sinais de choque ou então com psicopatia puerperal? E na identificação de um sangramento ativo durante um exame ginecológico? E as situações de violência e de abortamento, o que fazer? Terceiro, precisamos reconhecer que não se tra- ta apenas de reconhecer a rede e o fluxo, mas de cumprir o papel de centro dessa rede. A APS ainda precisa aprimorar suas ações e analisar quais não estão sendo oferecidas e por que. Figura 22 – O atendimento à mulher pode ser ampliado na Atenção Primária Enfim, o aconselhamento precisa aconte- cer, o foco do pré-natal precisa ser ampliado para as outras demandas. Outras demandas precisam melhorar, como a forma que o pla- nejamento reprodutivo se dá, seletivo, pres- critivo, burocrático, específico para um grupo populacional e não para todas as mulheres; a abordagem às ISTs, que desconsidera as parcerias sexuais; a persistência da exclusão do homem dessa assistência; a medicaliza- ção do corpo feminino; a não valorização da queixa da mulher; a escassez de atividades de promoção da saúde e prevenção de do- enças; a desconsideração de grupos vulne- ráveis, como os adolescentes, e também as iniquidades; a assistência pautada em pre- conceitos, mitos, e que por vezes não respei- ta os direitossexuais e reprodutivos, as leis e as políticas, desconsiderando as evidências científicas. Assim, o acesso ainda é um desafio para a atenção à SSSR das mulheres. E desta forma, a equipe de saúde pode avançar e redescobrir novas estratégias para o atendimento das mulheres na Atenção Primária. 3.4.2 Organização do serviço de saúde possibilitando o acesso de adolescentes A atenção dispensada à Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva (SSSR) de adolescen- tes ainda se apresenta de forma discreta na maioria das equipes de saúde da Atenção Primária. As adolescentes não conseguem muitas vezes acessar profissionais de saú- de, que, organizados para apenas entregar os métodos contraceptivos, acabam deixan- do muito a desejar no que se refere a orien- tações referentes a questões sexuais. Os profissionais de saúde precisam se aproxi- mar sem juízo de valor, com postura com- prometida, interessada na demanda da po- pulação adolescente, e para isso o ambiente precisa ser privativo e sigiloso. Faz-se necessária a busca ativa desse pú- blico e a conscientização do mesmo quan- to à importância de sua participação em ações de promoção da saúde e prevenção de doenças. 74 74 Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN3 Saúde sexual e saúde reprodutiva na Atenção Primária Figura 23 – Reconhecer o território do adolescente faz parte da busca ativa Importante! Não existe método que a adolescente deva ou não usar. Todos os métodos podem ser utilizados pelas adolescentes. É preciso atentar para não discriminar e não alijar ainda mais esse grupo, muitas vezes mais vulne- rável e alheio às informações corretas. Trata-se do grupo que mais se benefi- ciaria da maioria das ações discutidas neste módulo, em especial a prevenção de ISTs a gravidez indesejada. 3.4.3 Organização da rede de atenção à SSSR Uma estratégia para melhor comunicação entre os profissionais e para que as usuárias possam ter acesso as informações sobre a Rede de Saúde, as Unidades Básicas de Saúde poderiam ter uma listagem dos endereços e telefones das diversas instituições que com- põem a rede independentemente de situações emergenciais. A Atenção Primária resolve a grande maio- ria das demandas; no entanto, precisa ter 75 75 Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres UN3 Saúde sexual e saúde reprodutiva na Atenção Primária referência para a atenção especializada de diagnóstico e tratamento quando necessário. O mapeamento da rede não deve se limitar à mera catalogação; deve servir para avaliar la- cunas e as superposições de ações, estimu- lar a troca de informações e facilitar os enca- minhamentos. Esse mapeamento possibilita o reconhecimento dos pares, o que torna o trabalho mais articulado e integrado, além do encaminhamento responsável das usuárias na rede de atenção (BRASIL, 2007b) 76 Este módulo abordou a Saúde Sexual e Saú- de Reprodutiva (SSSR) das mulheres como um direito a ser respeitado e oferecido a todas as mulheres do território. Iniciamos mostran- do a SSSR garantida como um direito básico tanto no cenário internacional e nacional, as- sim como a evolução das políticas públicas relativas à saúde sexual e saúde reprodutiva da mulher, no Brasil. A visão do corpo femi- nino apenas sob o enfoque do ciclo gravídi- co puerperal foi mudando ao longo do tempo, observando-se na atualidade preocupação com as necessidades das mulheres no cam- po da SSSR de modo amplo, nos diferentes ciclos de vida, bem como respeitando suas especificidades e de forma a atender as suas vulnerabilidades. No tocante à temática de gênero, destaca- mos a importância de entender que este aspecto sofre influência de vários fatores e que, na prática diária, o atendimento das necessidades específicas das diversidades de identidade de gênero e de orientação sexual deve ser respeitado conforme a Po- lítica Nacional de Atenção Integral à Saúde de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Quanto à sexualidade feminina, foi aponta- do um novo modelo para avaliar a resposta sexual das mulheres. Apropriando-se desse conteúdo você será mais efetivo no esclareci- mento de dúvidas, derrubando mitos e tabus, assim como poderá ser capaz de reconhecer se está, de fato, diante de alguma disfunção sexual que necessite de um atendimento especializado. Abordamos também possíveis consequên- cias e demandas do exercício da sexualidade, como as infecções sexualmente transmissí- veis e a prevenção de gravidez indesejada ou não planejada, e a importância de saber identificar as diferentes infecções e seu tra- tamento, pelo risco e gravidade de possí- veis complicações e repercussões no futu- ro reprodutivo das mulheres. Com relação à prevenção da gravidez indesejada ou não planejada, é importante possibilitarmos o conhecimento dos métodos contraceptivos disponíveis no SUS, envolvendo as mulheres e suas parcerias sexuais na escolha destes. A participação da parceria deve ser incenti- vada tanto na escolha do método de plane- jamento reprodutivo quanto na decisão do melhor momento para que a gestação ocorra. Resumo do módulo 77 A avaliação pré-concepcional também deve ser oferecida como forma de preparação para a gravidez, avaliação de riscos, orientação e estímulo da modificação no estilo de vida. Finalizamos apontando como os serviços de saúde podem oportunizar ações em diferen- tes frentes: promoção de saúde, prevenção de doenças, acesso ao diagnóstico e trata- mento, de modo humanizado e com capaci- dade de atender às diferentes demandas. Esperamos que com o presente módulo você sinta estímulo para rever o que pode ser in- crementado em seu local de atuação, e, ao mesmo tempo, que este sirva de incentivo para a busca constante de atualização no tema, a fim de que você possa sempre melhor atender às demandas das mulheres na Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva no seu trabalho diário. Resumo do módulo 78 ABDO, C. H. N. et al. Sexualidade humana e seus transtor- nos. 2. ed. rev e ampl. São Paulo: Lemos Editorial, 2001. BARBOSA, T.L. et al. Aconselhamento em doenças se- xualmente transmissíveis na atenção primária: percep- ção e prática profissional. Acta Paul Enferm., v. 28, n. 6, p. 531-538, 2015. BASSON, R. Women’s Sexual desire and Arousal Disorders. 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É subcoordenadora do NIEPE - Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em Epide- miologia da EEUFMG e pesquisadora do centro co- laborador do VIGITEL. Tem experiência em saúde coletiva e epidemiologia, com ênfase em análise de dados com amostras complexas (tipo DHS), doen- ças crônicas não transmissíveis, saúde da mulher e saúde reprodutiva. Endereço do currículo na plataforma lattes: <http://lattes.cnpq.br/5074825535350952> <http://www.gfmer.ch/SRH-Course-2015/partici pants/Mariana-Felisbino-Mendes.htm> Cássia Elena Soares Médica, graduada pela Fundação Universidade Re- gional de Blumenau (1998). Residência médica em Ginecologia e Obstetrícia (2000) pela Maternida- de Carmela Dutra. Especialização em Sexualidade Humana (2011) pela USP. Atualmente é médica assistente e preceptora da residência médica em Ginecologia e Obstetrícia na Maternidade Carmela Dutra. Tem experiência em atendimento a mulhe- res vítimas de violência sexual e ginecologia e obs- tetrícia da adolescência. Sobre as autoras http://lattes.cnpq.br/5074825535350952 http://www.gfmer.ch/SRH-Course-2015/participants/Mariana-Felisbino-Mendes.htm http://www.gfmer.ch/SRH-Course-2015/participants/Mariana-Felisbino-Mendes.htm