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Cristianismo puro e simples

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as pombas", mas também "prudentes como as serpentes". Um dos motivos pelos quais não é necessário grande estudo para se tornar cristão é que o cristianismo é em si mesmo uma educação. Foi por isso que um crente ignorante, como Bunyan, foi capaz de escrever um livro que espantou o mundo inteiro (o peregrino).
Temperança se refere aos prazeres em geral; a moderação e o não-passar dos limites. Um indivíduo cristão pode achar por bem abster-se de uma série de coisas por razões específicas - do casamento, da carne, da cerveja ou do cinema; no momento, porém, em que começa a dizer que essas coisas são ruins em si mesmas, ou em que começa a julgar as pessoas que usam essas coisas, ele se desviou do caminho.
A justiça pressupõe muito mais do que os afazeres de um tribunal. E apenas o antigo nome do que hoje chamamos de "imparcialidade", que inclui a honestidade, a reciprocidade, a veracidade, o cumprimento da palavra e todas as coisas desse tipo. A fortaleza, por fim, abarca os dois tipos de coragem - a que nos leva a enfrentar o perigo e a que nos leva a suportar a dor.
Há uma diferença entre executar um ato de justiça ou temperança, por um lado, e ser uma pessoa justa ou temperada, por outro. Alguém que não jogue tênis muito bem pode, vez ou outra, executar uma grande jogada. O jogador bom é aquele cujos olhos, músculos e nervos estão tão bem treinados pela execução de boas jogadas que já se tornaram de confiança. Existe nele um certo tom ou qualidade que transparece mesmo quando não está jogando.
Moralidade social 
" Posso repetir "faça aos outros o que gostaria que fizessem para você" até cansar, mas não conseguirei viver assim se não amar ao próximo como a mim mesmo; só poderei aprender esse amor quando aprender a amar a Deus; e só aprenderei a amá-lo quando aprender a obedecê-lo.”
O Novo Testamento, sem entrar em detalhes, nos pinta um quadro do que seria uma sociedade plenamente cristã. Talvez exija de nós mais do que estamos dispostos a dar. Informa-nos que, nessa sociedade, não há lugar para parasitas ou passageiros clandestinos: aquele que não trabalhar não deve comer. Cada qual deve trabalhar com suas próprias mãos e, mais ainda, o trabalho de cada qual deve dar frutos bons: não se devem produzir artigos tolos e supérfluos, nem, muito menos, uma publicidade ainda mais tola para nos persuadir a adquiri-los. Não há lugar para a ostentação, pata a fanfarronice nem para quem queira empinar o nariz. Essa é uma sociedade alegre: uma sociedade repleta de canto e de regozijo, que não dá valor nem à preocupação nem à ansiedade. A cortesia é uma das virtudes cristãs, e o Novo Testamento abomina as pessoas abelhudas, que vivem fiscalizando os outros.
Há um conselho, dado pelos gregos, pelos judeus do Antigo Testamento e pelos grandes mestres cristãos da Idade Média, que foi completamente desobedecido pelo sistema econômico moderno. Todos eles disseram que não se deve emprestar dinheiro a juros; e o empréstimo a juros , o que chamamos de investimentos, é a base de todo o nosso sistema. Não se pode, no entanto, concluir com absoluta certeza que estejamos errados. Alguns dizem que, quando Moisés, Aristóteles e os cristãos concordaram em proibir o juro, eles pensavam apenas no agiota particular.
No trecho do Novo Testamento que diz que todos devem trabalhar, ele dá uma razão para isso — "a fim de ter algo a dar para os necessitados". A caridade - dar para os pobres - é um elemento essencial da moralidade cristã. 
Posso repetir "faça aos outros o que gostaria que fizessem para você" até cansar, mas não conseguirei viver assim se não amar ao próximo como a mim mesmo; só poderei aprender esse amor quando aprender a amar a Deus; e só aprenderei a amá-lo quando aprender a obedecê-lo. 
Moralidade e psicanálise 
"Por mais que a psicanálise melhore a matéria-prima do homem, resta ainda outra coisa: a livre escolha do ser humano, uma escolha real feita a partir do material com que ele depara.”
A psicanálise é a visão geral de mundo que Freud e outros vieram acrescentar a ela. Quando Freud descreve a terapêutica para casos de neurose, fala como um especialista no assunto; mas, quando discorre sobre filosofia geral, fala como um amador. Portanto, é sensato ouvi-lo falar sobre um assunto, mas não sobre o outro. A psicanálise em si mesma, porém, separada de todos os enxertos filosóficos feitos por Freud e por outros, não está de forma alguma em contradição com o cristianismo.
Quando um homem faz uma escolha moral, duas coisas estão envolvidas. Uma delas é o próprio ato da escolha. A outra, os diversos sentimentos, impulsos etc. que fazem parte do seu perfil psicológico e constituem a matéria-prima de suas escolhas. Essa matéria-prima pode ser de dois tipos. Por um lado, pode ser o que chamamos de normal: pode consistir nos sentimentos que são comuns a todos os homens. Ou, por outro lado, pode consistir em sentimentos antinaturais, provenientes de distúrbios em seu subconsciente. O desejo de um homem por uma mulher é do primeiro. O desejo pervertido de um homem por outro homem, do segundo.
Por mais que a psicanálise melhore a matéria-prima do homem, resta ainda outra coisa: a livre escolha do ser humano, uma escolha real feita a partir do material com que ele depara. O homem pode dar primazia a si mesmo ou aos outros. E este livre-arbítrio é a única coisa da qual a moralidade se ocupa. O mau material psicológico não é um pecado, mas uma doença. Não é motivo para arrependimento, mas algo a ser curado.
Lembre-se de que, como eu disse, a caminhada na direção certa leva não só à paz, mas também ao conhecimento. Quando um homem melhora, torna-se cada vez mais capaz de perceber o mal que ainda existe dentro de si. Quando um homem piora, torna-se cada vez menos capaz de captar a própria maldade. Um homem mau acha que está coberto de razão. Entendemos o sono quando estamos acordados, não quando adormecidos. Compreendemos a natureza da embriaguez quando estamos sóbrios, não quando bêbados. As pessoas boas conhecem tanto o bem quanto o mal; as pessoas más não conhecem nenhum dos dois.
Moralidade sexual
"Depois de cada fracasso, levante-se e tente de novo. Muitas vezes, a primeira ajuda de Deus não é a própria virtude, mas a força para tentar de novo.”
Não confunda a regra cristã da castidade com a regra social da "modéstia", no sentido de pudor ou decência. A regra social do pudor estipula quais partes do corpo podem ser mostradas e quais assuntos podem ser abordados de acordo com os costumes de determinado círculo social. Logo, enquanto a regra da castidade é a mesma para todos os cristãos em todas as épocas, a regra do pudor muda. Uma moça das ilhas do Pacífico, praticamente nua, e uma dama vitoriana completamente coberta, podem ambas ser igualmente modestas, pudicas e decentes de segundo o padrão da sociedade em que vivem. 
O momento atual tem pessoas de idades e tipologias diferentes não reconhecem o mesmo padrão. As pessoas mais velhas, ou mais antiquadas, não devem julgar que os mais jovens ou "emancipados" estão corrompidos sempre que agem de forma despudorada (segundo o velho padrão). Em contrapartida, os mais jovens não devem chamar os mais velhos de moralistas ou puritanos só porque não conseguem se adaptar facilmente ao novo padrão.
A regra cristã é clara: "Ou o casamento, com fidelidade completa ao cônjuge, ou a abstinência total." Isso é tão difícil de aceitar, e tão contrário a nossos instintos, que ou o cristianismo está errado ou o nosso instinto sexual, tal como é hoje em dia, se encontra deturpado. E claro que, sendo cristão, penso que foi o instinto que se deturpou.
O objetivo biológico do sexo são os filhos, da mesma forma que o objetivo biológico da alimentação é a conservação do corpo. Se comêssemos sempre que tivéssemos vontade e na quantidade que desejássemos, é bem verdade que muitos comeriam demais. O apetite pode sobrepujar um pouco a necessidade biológica, mas não de forma desproporcional. É fácil juntar uma platéia para um espetáculo de strip-tease para ver uma garota se despir no palco. Agora suponha