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Atividade 01 Farmacologia Técnico em Enfermagem ERROS NA MEDICAÇÃO: ANÁLISE DAS SITUAÇÕES RELATADAS PELOS PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM* MEDICATION ERRORS : ANALYSIS OF SITUATIONS REPORTED BY NURSING STAFF Viviane Tosta de Carvalho1 & Silvia Helena De Bortoli Cassiani2 1Enfermeira. Mestre pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto-USP; 2Docente do Departamento de Enfermagem Geral e Especi- alizada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto-USP. CORRESPONDÊNCIA: Viviane Tosta de Carvalho. Rua Otto Benz, 523. Nova Ribeirânia. CEP 14096-580 Ribeirão Preto; São Paulo; Brasil. e- mail: vtrbarros@uol.com.br. CARVALHO VT & CASSIANI SHB. Erros na medicação: análise das situações relatadas pelos profissionais de enfermagem. Medicina, Ribeirão Preto,33 : 322-330, ,jul./set. 2000. RESUMO: Os erros na medicação são alguns dos indicadores da qualidade de saúde pres- tada aos pacientes hospitalizados. O objetivo deste estudo foi analisar as situações que conduzi- ram os profissionais de enfermagem aos erros na administração de medicamentos, com base em relatos de erros ocorridos. O local de estudo foi um hospital no interior do Estado de São Paulo. Foram entrevistados sete enfermeiros, um técnico de enfermagem e 23 auxiliares de enfermagem do setor de clínica médica do referido hospital. O referencial metodológico adotado foi uma adaptação da técnica do Incidente Crítico. Da análise foram identificadas 56 situações, agrupadas em quatro categorias: falha no cumprimento de políticas e procedimentos (25), falha no sistema de distribuição e preparo dos medicamentos pela farmácia (15), falha na comunica- ção (10) e falha no conhecimento (06). Fornecer um ambiente seguro com disponibilidade de recursos humanos e físicos faz-se necessário para a prevenção de futuros erros de medicação, assim como investimentos no conhecimento sobre administração de medicamentos aos profis- sionais de enfermagem, visando a uma assistência de enfermagem com qualidade. UNITERMOS: Erros de Medicação. Medicamentos. Enfermagem. 322 Medicina, Ribeirão Preto, 33: 322-330, jul./set. 2000 ARTIGO ORIGINAL *Estudo subvencionado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Resumo de Dissertação de Mestrado, apresentado à Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP. 1- INTRODUÇÃO Com o advento de inúmeros medicamentos no mercado e o avanço tecnológico da indústria farma- cêutica, a administração de medicamentos tornou-se uma tarefa extremamente complexa, requerendo dos profissionais da saúde cada vez mais responsabilida- des, conhecimentos farmacológicos, de anatomia e fi- siologia e habilidades técnicas. O enfermeiro, no decorrer da sua formação pro- fissional, adquire conhecimentos específicos que o ca- pacitam a exercer com habilidade a função de adminis- trar o medicamento; sendo assim, é de sua responsabi- lidade o preparo e a administração de medicamentos aos pacientes, em diversas instituições hospitalares. Entretanto, vários autores têm apontado o es- casso conhecimento de farmacologia, fisiologia e ana- tomia e, conseqüentemente, complicações após a ad- ministração de medicamentos injetáveis e a não-ob- servância de procedimentos técnico (1/4) . O despreparo dos profissionais na administra- ção de medicamentos tem causado sérias conseqüên- cias ao paciente, muitas vezes debilitantes, desenca- deando reações indesejadas, como complicações advindas de procedimentos técnicos inadequados ou incorretos decorrentes dos erros na medicação. 323 Análise de situações sobre erros na medicação Erro na medicação é definido como: “qualquer evento previsível que pode ser cau- sado ou surgir do uso inconveniente ou falta de uma medicação ou causar prejuízo (dano ou injúria) ao paciente, enquanto a medicação está sob o controle dos profissionais da saúde, pacientes ou consumidor. Tais eventos podem estar relacionados à prática pro- fissional, aos produtos para o cuidado à saúde, pro- cedimentos e sistemas, incluindo a prescrição, comu- nicação da prescrição, rótulo do produto, embala- gem e nomenclatura; à composição, à distribuição; à administração; à educação dos enfermeiros e paci- entes; à supervisão e uso” (5). Diversas instituições e pesquisadores, preocu- pados com a questão dos erros de medicação, têm de- senvolvido estratégias para reduzir ou prevenir erros na medicação. Bates et al.(6) afirmam que, em cada 100 pacientes admitidos nos hospitais, 4,8% apresen- tam eventos adversos e os erros com a medicação ocor- rem mais freqüentemente nos estágios da prescrição médica (56%), transcrição da prescrição médica (6%), distribuição do medicamento (4%) e administração do medicamento (34%). Medicamentos administrados erroneamente po- dem ter efeitos drásticos e resultar em sérios prejuízos ou danos ao paciente. Wolf et al.(7) classificam os da- nos aos pacientes nessa ordem: lesões do sistema ner- voso central, reações de hipersensibilidade, amputa- ção de membros, diminuição da acuidade visual e au- ditiva, aumento de dor quando há omissão do medica- mento e até a morte. Há, também, conseqüências para o profissional que cometeu o erro. Geralmente, a “culpa” recai so- bre o profissional que executou a ação final do pro- cesso de administrar medicamentos, mesmo que tenha se iniciado em outros setores. Assim, a enfermagem é a responsável direta, pois está na linha final do siste- ma, cabendo medidas disciplinares que vão desde uma orientação até a demissão. Desta forma, cria-se uma subnotificação dos erros, face ao medo das punições. É imprescindível que, na avaliação do erro, os supervisores considerem não só os aspectos técnicos, mas, também, os outros fatores que podem desencadeá-lo. Fatores relacionados à organização do traba- lho, como o acúmulo de atividades, recursos humanos insuficientes e malqualificados, locais desprovidos de materiais, aparelhos e recursos financeiros; fatores ambientais, como planta física inadequada, freqüentes interrupções de outros profissionais durante o preparo da medicação pelo profissional de enfermagem, pre- sença de ruídos, luminosidade são alguns que devem ser considerados nas situações de erros na medicação. Consideramos, ainda, que, na nossa realidade, os profissionais de enfermagem também assumem du- pla jornada de trabalho, com vínculo empregatício em duas ou mais instituições de saúde, o que gera sobre- carga de trabalho, promove a fadiga, estresse e desa- tenção no ambiente de trabalho e predispõe à ocorrên- cia do erro na medicação. Portanto, na ocorrência de um erro, o hospital deve iniciar, imediatamente, uma investigação comple- ta, determinando e documentando os detalhes exatos da natureza do acontecido como: horário, pessoal en- volvido, turno, tipo de erro e, entre outros aspectos, possíveis riscos nas fases anteriores à execução do erro e o que o desencadeou, o estágio do processo em que o erro ocorreu e possíveis falhas do sistema, a fim de amenizá-lo, evitando que a culpa recaia somente no in- divíduo profissional. Infelizmente, pouco é realizado, nas instituições de saúde brasileiras, para a verificação do motivo do erro. As intervenções adotadas pela chefia frente à ocorrência do erro, em geral, são ações punitivas e in- dividuais de censura, advertências verbais, relatórios, transferência para outro setor e possíveis demissões da instituição. Raramente, treinamentos e reciclagem ne- cessários à prevenção de futuros erros são efetivamente realizados. O indivíduo é penalizado conforme a gravi- dade e conseqüência do erro ao paciente(8). Dessa maneira, este estudo foi planejado com o objetivo de resposta à seguinte questão: “Em quais situações os erros de medicação ocorrem?”. Pre- tende-se identificar e analisar os erros na medicação de uma instituição hospitalar no interior do Estado de São Paulo a partir dos relatos dos profissionais de en- fermagem. 2- MATERIAL E MÉTODO 2.1 Local de estudo O estudo foi realizado em um hospital no interior do Estado de São Paulo, setor de clínica médica. 2.2 População e amostra A populaçãoem estudo e atuante no setor era composta por dez enfermeiros, quatro técnicos e qua- renta e seis auxiliares de enfermagem. Foram excluí- dos os enfermeiros no cargo de chefia. VT Carvalho & SHB Cassiani 324 A amostra ficou constituída por sete enfermei- ros, um técnico de enfermagem e vinte e três auxilia- res de enfermagem, haja vista que, do total de enfer- meiros, um enfermeiro estava de licença-saúde, um recusou-se a participar do estudo e houve um relato inválido. Do total de quarenta e seis auxiliares de en- fermagem alocados, onze recusaram-se a participar do estudo, um estava de licença-saúde, um tinha sido demitido, um transferido para outro setor. Do total de trinta e dois auxiliares de enfermagem entrevistados, oito não recordaram nenhum fato e um apresentou o relato inválido. Dos quatro técnicos entrevistados: um não re- cordou nenhum fato, um recusou participação e um apresentou um relato inválido. Consideramos relatos inválidos os relatos incompletos, que não apresenta- vam as situações que conduziram os profissionais de enfermagem aos erros na administração de medica- mentos. Assim, foram realizadas 31 entrevistas com 46 relatos válidos. 3- REFERENCIAL METODOLÓGICO 3.1 A técnica do Incidente Crítico A técnica do Incidente Crítico é um método in- direto de análise que permite o registro de comporta- mentos específicos, favorecendo observações e avalia- ções de forma sistematizada. “Essa técnica consiste de um conjunto de pro- cedimentos para a coleta de observações diretas do com- portamento humano, de modo a facilitar sua utilização potencial na solução de problemas práticos e no desen- volvimento de amplos princípios psicológicos, delinean- do também procedimentos para a coleta de incidentes observados, que apresentam significado especial e para o encontro de critérios sistematicamente definidos” (9). Incidente é definido como “qualquer atividade humana observável que seja suficientemente completa em si mesma para permitir inferências e previsões a respeito da pessoa que executa o ato”(9). Portanto, o incidente crítico prevê a análise de uma ocorrência crí- tica que marcou as pessoas. Neste estudo, utilizamos uma adaptação da técni- ca do Incidente Crítico já que foram abordados somen- te os aspectos negativos. Acreditamos que não há as- pectos positivos na ocorrência de um erro de medicação. 3.2 Coleta dos dados. Ética na pesquisa O instrumento de coleta de dados constou de um formulário para a obtenção de relatos de erros ocor- ridos na medicação, de acordo com o objetivo do estu- do. O instrumento foi submetido a um pré-teste com uma (01) enfermeira mestranda, atuante em um hos- pital privado, um (01) técnico de enfermagem e uma (01) auxiliar de enfermagem, atuantes no hospital em estudo, porém, em outro setor. Findo o período pre-teste, iniciamos a coleta de dados, nos meses de agosto e setembro de 1999, após aprovação do estudo pelo Comitê de Ética em Pesqui- sa do Hospital em questão e o consentimento da divi- são de enfermagem e da diretoria de enfermagem da unidade. Após o consentimento informado dos partici- pantes do estudo, as entrevistas foram marcadas e realizadas na própria instituição hospitalar, durante o período de trabalho, e transcorreram, em média, em 15 a 30 minutos. A questão abordada foi: “Pense em alguma coisa negativa, ruim que ocorreu na adminis- tração de medicamentos, recentemente, com pacien- tes da sua unidade. Pense em uma ocorrência que lhe chamou a atenção e resultou em um erro de medi- cação. Conte-me qual foi a situação?”. As entrevis- tas foram gravadas em fita cassete e transcritas na íntegra, imediatamente após o seu término. Foram man- tidos o sigilo das informações e o anonimato dos en- trevistados. 3.3 Organização dos dados para análise Após o término da coleta dos dados, iniciou-se a análise das entrevistas, procedendo-se à leitura dos relatos e identificação das situações. A SITUAÇÃO foi definida como o fato ou circunstância que levou o profissional ao erro. Os dados foram agrupados por semelhança de conteúdo, totalizando 56 situações agrupadas em qua- tro categorias. A seguir, apresentaremos a identifica- ção e análise das situações categorizadas. 4- RESULTADOS E DISCUSSÃO As situações foram agrupadas em quatro cate- gorias: Falha no cumprimento de políticas e proce- dimentos, Falha no sistema de distribuição e prepa- ro de medicamento pela farmácia, Falha na comu- nicação e Falha no conhecimento. Apresentamos, na Tabela I, as categorias de situações, seus conteúdos e as freqüências em que os erros ocorreram, segundo os profissionais de en- fermagem. 325 Análise de situações sobre erros na medicação As categorias serão discutidas separadamente. Falha no cumprimento de políticas e pro- cedimentos A categoria Falha no cumprimento de políti- cas e procedimentos, foi definida como “falhas no cumprimento de procedimentos para administração segura de medicamentos” (10). Fuqua & Stevens(10) reconhecem que essa falha é um dos maiores fatores de erros na administração de medicamentos. Nessa ótica, agrupamos um total de 25 rela- tos na categoria, subdivididos nas subcategorias: falha na execução da técnica (15) e na identificação do pa- ciente(10). Falha na execução da técnica foi definida como a falha do profissional de enfermagem em não executar corretamente o procedimento durante o pre- paro e administração do medicamento. Correspondem à falha os seguintes relatos: falha na leitura da dose medicamentosa durante o preparo do medicamento (06); na observação da punção venosa em quimiote- rapia (04); falha em não conferir a via de administra- ção com a prescrição médica (01); falha em não con- ferir o medicamento disponível com a prescrição mé- dica (01); em não identificar a medicação preparada (01); em não circular o horário da medicação de um paciente diabético em jejum (01) e no controle do gotejamento de solução intravascular (01). Os relatos abaixo podem ilustrar essas situações: “...fui fazer a medicação das 14 hs e não tinha nada assim, eu não estava nervosa, eu não sei como eu enxerguei 1 ½ cp, foi mesmo falta de atenção...”(E.13). “... eu não li, não percebi que era via oral, nem pelo cartão nem na prescrição que estava 1 cp de aminofilina de 8/8hs...” (E.08). Tabela I - Distribui ção das cate gorias de situa ções em que os erros ocorreram , segundo os profissionais de enfermagem, seus conteúdos e freqüências absolutas, 1999 Situações Conteúdo Freqüência Nº 1. Falha no cumprimento de políticas e procedimentos • Falha na execução da técnica • Falha na identificação do paciente 15 10 Subtotal 25 • 2. Falha no sistema de distribuição e preparo dos medicamentos • Atraso no horário de envio do carro à clínica • Medicamentos com rótulo e embalagem semelhantes • Muitos medicamentos no mesmo horário • Medicamento enviado com apresentação errada • Carro com cartão em casela errada • Carro com medicamento psicotrópico 06 04 02 01 01 01 Subtotal 15 3. Falha na comunicação • Entre equipe de enfermagem sobre mudança de leito • Entre médico e equipe de enfermagem sobre medicação suspensa, alteração da prescrição médica quanto à via de administração • Prescrição médica ilegível e por telefone 06 02 02 Subtotal 10 4. Falha no conhecimento • Conhecimento deficiente • Cálculo errado do padrão de infusão intravascular 04 02 Subtotal 06 Total 56 • i VT Carvalho & SHB Cassiani 326 “... não identificou a seringa, o nome da me- dicação, o número do leito, o nome do paciente, não anotou a via de administração, se tivesse feito teria evitado este erro...” (E.21). Temos conhecimento de que, para assegurar uma administração de medicamento correta, ausente de fa- lhas, algumas estratégias são utilizadas e observadas como os cinco “certos”: medicamento certo, paciente certo, dose certa, via de administração certa e horário certo. Mesmo assim, continuam ocorrendo muitos er- ros, cujas causas os profissionais desconhecem, con- forme a percebida nesta fala "olha e não prestaaten- ção, pensa que vê uma coisa e vê outra, a gente aprende no curso que tem que ler e reler o que vai dar" (E. 22). Acreditamos que, em tais situações, as falhas nas “tendências de confirmação” podem justificar tais erros; entretanto, há de se considerar que, atre- lado a esses fatores, está o número inadequado de funcionários e excesso de atividades diárias, ocasio- nando sobrecarga de trabalho e estresse, que contri- buem para a geração do erro, aumentando, assim, a sua incidência. Falha na identificação do paciente foi consi- derada como aqueles relatos em que não houve a iden- tificação correta do paciente por: ausência de pulseira no antebraço do paciente, leitos não identificados e não perguntar o nome do paciente no momento da ad- ministração do medicamento. Em relação à falha na identificação do pacien- te, os profissionais de enfermagem referiram, em qua- tro relatos, que não havia pulseira de identificação no paciente, os leitos não estavam identificados em três relatos e, em outros três, não perguntaram o nome do paciente, administrando o medicamento somente pelo número do leito. Em relação ao uso da pulseira de identificação, no hospital em foco, os profissionais de enfermagem referiram que não é colocada no paciente nem no mo- mento e nem após a sua admissão no hospital, uma vez que essa prática somente é observada quando o paciente vai ser submetido a algum procedimento ci- rúrgico. “...nós colocamos pulseiras de identificação na clínica somente quando o paciente vai para a cirurgia ...” (E.1). “... os leitos não estavam identificados por- que eram dois leitos e não é necessário, os pacien- tes também não tinham pulseira de identificação porque só usa quando vai para a cirurgia”(E.30). Em estudo conduzido anteriormente por Miasso & Cassiani(11), identificou-se que somente 6,8% dos pacientes hospitalizados faziam uso das pulseiras de identificação. Deles, somente 3% colocaram a pulsei- ra após a internação, 21% já usaram a pulseira como preparo cirúrgico e 20,3% nunca fizeram uso da pul- seira. Verificou-se, assim, que 76,2% dos pacientes não estavam identificados com a pulseira no antebra- ço; o que é um dado alarmante face às dificuldades de identificação correta do paciente. Como podemos, enquanto profissionais de enfer- magem, assistir aos pacientes sob nossos cuidados e identificar o “paciente certo” se ele não faz uso da pulseira de identificação, e o seu leito não está identi- ficado ? Podemos até depender do questionamento ver- bal, perguntando o seu nome, o que também pode con- duzir ao erro, quando não se entende o nome correta- mente ou quando pacientes são mentalmente confusos. O método mais seguro ainda é o uso da pulseira para a identificação do paciente, ressalvando que pa- cientes com deficiência de audição e lesões cerebrais são pessoas que podem responder incorretamente acerca do nome. Assim, não checar a pulseira ou o nome do paciente é uma falha no cumprimento de políticas e procedimentos(10). Através dos relatos obtidos, percebemos difi- culdades na identificação do paciente, seja através do antebraço ou do leito que ele ocupa. Há a necessida- de do cumprimento de normas ou procedimentos, ado- tados pelo sistema, para evitar a troca de medicamen- tos no momento de atender os pacientes. Entendemos que as instituições hospitalares, através de adequação dos recursos humanos disponí- veis em número suficiente, qualificação profissional com educação contínua e procura de uma supervisão junto ao auxiliar de enfermagem, fornecerão condi- ções essenciais para que ações de enfermagem se- jam desenvolvidas com qualidade, sem acarretar da- nos ou prejuízos aos pacientes e prevenir o erro na administração de medicamentos. Falha no sistema de distribuição e preparo dos medicamentos pela farmácia. Na categoria Falha no sistema de distribui- ção e preparo dos medicamentos pela farmácia foram considerados os relatos relacionados às falhas no sistema de distribuição e preparo dos medicamen- tos pela farmácia. 327 Análise de situações sobre erros na medicação • Medicamento enviado com apresentação errada. “... era uma medicação endovenosa que veio da farmácia, era para ser feita via oral, mas como veio em ampolas, eu fiz por via endovenosa...” (E.8). • Atraso no horário de envio do carro de medicação à clínica. “ ...o carro chegou às 18 horas, transbor- dando de medicação para conferir, é parenteral, é fungison, a gente tem que conferir item por item com o cartão, tem que checar, vem comprimido mis- turado, leva no mínimo 1 ½ hora para dar uma conferida e na medicação a gente fica sozinho, isso mexe com a cabeça de qualquer um, daí o motivo da pessoa acabar cometendo alguma coi- sa” (E.11). • Muitos medicamentos no mesmo horário com atra- so na administração “... por ser um só e muito paciente, ninguém toma medicação na hora certa, um só toma, uma meia dúzia no horário os demais não, as insulinas eu faço primeiro porque senão eu vou chegar na enfermaria do paciente diabético uma hora e ½ depois, dizem que é a melhor maneira de adminis- trar medicamentos, apesar de dar a medicação adiantado ou atrasado para uns e uma meia dúzia no horário” (E.19). Uma das maiores freqüências de relato (06) nes- ta categoria abordou o atraso no horário do envio do carro de medicação pela farmácia, o que interferiu na administração do medicamento ao paciente no horário certo, devido ao pouco tempo disponível para a confe- rência e administração dos medicamentos. Discussões entre enfermeiros e farmacêuticos a respeito do atraso no horário de envio do carro de medicamentos, assim como a possibilidade de im- plantação do sistema de distribuição por dose unitá- ria, devem ser realizadas a fim de evitar as situações mencionadas. O sistema de dose única, ao contrário do utiliza- do nesse local de estudo, é usado em aproximadamente 90% dos hospitais americanos. Dentre as vantagens mencionadas no sistema de dose única, estão a redu- ção da freqüência dos erros de medicação, redução dos custos dos medicamentos, aumento no controle e uso do medicamento pela farmácia(12). Bradburry et al.(13) afirmam que “a freqüência dos erros de medicação varia entre 10% e 20% no sistema tradicional comparada a 2 % a 5% no sis- tema de distribuição por dose única”. Medidas administrativas devem ser tomadas também com respeito ao atraso no horário de envio do carro à unidade de enfermagem, que foi a situação que mais levou à ocorrência de erros dentro da cate- goria Falha no sistema de distribuição e preparo dos medicamentos pela farmácia. Falha na comunicação. Neste estudo há um total de 10 relatos agrupa- dos na categoria Falha na comunicação. A defini- ção desta categoria foi considerada neste trabalho e também por Fuqua & Stevens(10) como as falhas que envolveram a leitura, a audição e documentações in- corretas, tais como caligrafia ruim, prescrições médi- cas verbais ou transcrições incorretas. As autoras acima citadas salientam que as falhas na comunica- ção são responsáveis por 39% dos erros registrados em um hospital. Entendemos que essas situações foram deriva- das da falta de integração e articulação entre a equipe multiprofissional envolvida na administração dos me- dicamentos. Observe as falas ilustrativas da situação: “...o médico suspendeu a aminofilina em bomba de infusão e não sei o que aconteceu, ele não comunicou e passou para comprimido” (E.29). “...foi falta de entendimento da prescrição médica, não era uma letra legível e os nomes eram parecidos, confundi amicacina com ampicilina...” (E.2). A comunicação e a documentação de mudan- ças de leitos existentes no decorrer do plantão pelo enfermeiro são de extrema importância para o profis- sional de enfermagem que está responsável pelo car- ro de medicação visto que, muitas vezes, ele se ba- seia, erroneamente, somente no cartão de medicamen- tos para administrar os medicamentos, ao invés de ve- rificar a prescrição médica. Notamos que a letra ruim, ilegível ou mal escri- ta, associada aos nome de medicamentossemelhan- tes podem conduzir os profissionais de enfermagem ao erro. Segundo Fuqua & Stevens(10),“ uma das fon- tes potenciais para o erro ocorrem quando pres- crições ilegíveis são combinadas com o uso de numerosos medicamentos cujos nomes são seme- lhantes quanto ao som”. Enfermeiros e farmacêuticos não devem tentar decifrar caligrafias ruins ou ilegíveis, e sim, consultar i VT Carvalho & SHB Cassiani 328 o médico, quando possível, visando a esclarecimentos sobre a prescrição, o que deve ser estimulado, assim como, o uso de prescrições eletrônicas permitirá uma comunicação livre de interferências, dúvidas e más interpretações. Prescrições médicas ilegíveis são, por- tanto, consideradas situações de risco para a ocorrên- cia de erros na medicação. Falha no conhecimento A categoria Falha no conhecimento foi defi- nida como aquelas falhas que envolveram o despreparo teórico e prático dos profissionais de enfermagem a respeito da administração dos medicamentos e de suas propriedades farmacológicas. “... fez a medicação psicotrópica pensando que era a outra, não conhecia, não sabia o nome da medicação, para que servia...” (E.4). “... ela não sabia o que estava dando, que era um quimioterápico, não conhecia os princí- pios farmacológicos....ela não tinha a menor no- ção do risco que ela oferecia de um erro pela falta de conhecimento...” (E.5). “... o médico prescreveu leucovorin, que vem como ácido folínico, por causa do nome da medi- cação, a funcionária não tinha conhecimento que era o mesmo nome, não sabia que ácido folínico era a mesma coisa...”(E.27). A falta de preparo teórico para subsidiar a im- plementação segura da terapia medicamentosa cons- tituiu-se em situações de risco para o paciente, atribu- ídas a uma falha no conhecimento farmacológico, cál- culos errados de infusões intravasculares do medica- mento e à falta de uma supervisão direta da tarefa pelo enfermeiro. Visto que o sucesso na terapia medicamentosa depende do conhecimento do diagnóstico do paciente e das indicações do medicamento, como podemos, en- quanto enfermeiros, delegar essa responsabilidade a profissionais de preparo educacional limitado sem uma supervisão direta da tarefa, como ocorre com freqüên- cia na maioria das instituições? Pierin et al.(14) concluíram em seu estudo que uma das causas de iatrogenia em enfermagem é a deficiência do conhecimento teórico e prático do en- fermeiro em relação a cálculos de gotejamento de soro, diluição, concentração e preparo da dosagem medica- mentosa prescrita. Os profissionais de enfermagem são os execu- tores; estão na ponta final do processo da administra- ção de medicamentos, tendo, portanto, que conhecer os medicamentos a serem administrados aos pacien- tes sob sua responsabilidade para não colocar o paci- ente em situações de risco. National Coordinating Council for Medication Error Reporting and Prevention-(NCCMERP)(5) re- comenda que os profissionais envolvidos na adminis- tração direta do medicamento devem conhecer: • indicações e contra-indicações do uso da medica- ção; • o resultado ou efeito esperado do medicamento ad- ministrado e as precauções, pois caso ocorra a ma- nifestação de uma reação inesperada com o uso do medicamento, ele deve ser capaz de reconhecer as reações adversas; • conhecer as possíveis interações que ocorrem com outras medicações ou alimentos, a fim de que ações sejam tomadas rapidamente com o paciente. Há a necessidade de um serviço de educação continuada atuante, no que diz respeito à adminis- tração do medicamento, a fim de proporcionar novos conhecimentos aos profissionais de enfermagem, dan- do-lhes a oportunidade de atualizarem-se, ou até de reciclarem os conhecimentos adquiridos, aprimoran- do-os. Entre as várias condutas a serem tomadas para prevenir os erros de medicação, “a mais importante, sem dúvida, é a educação, não se limitando so- mente à educação em serviço, função da institui- ção empregadora, mas também àquela relativa à formação profissional”(15). Para que haja uma diminuição da ocorrência de erros na medicação relativas às falhas no conheci- mento, torna-se imprescindível uma avaliação periódi- ca dos funcionários sob supervisão do enfermeiro, a fim de detectar as dificuldades encontradas no mo- mento do preparo e administração do medicamento. 5- CONCLUSÕES Este estudo identificou quatro categorias de si- tuações de riscos que conduziram à ocorrência de er- ros na administração de medicamentos: falha no cum- primento de políticas e procedimentos, falha no sistema de distribuição e preparo dos medicamentos pela far- mácia, falha na comunicação e falha no conhecimento. Na categoria falha no cumprimento de polí- ticas e procedimentos, há a necessidade do cum- primento e revisão dos cinco “certos” no preparo e 329 Análise de situações sobre erros na medicação administração do medicamento, principalmente, a iden- tificação do paciente através do uso da pulseira no antebraço, no leito ou perguntar o seu nome, assim como a verificação da dose, do medicamento, do ho- rário e via de administração. Fornecer um ambiente seguro para a adminis- tração de medicamentos envolve um grande número de recursos, tanto físicos (luminosidade, controle de tem- peratura, presença de ruídos, interrupções pessoais ou por telefone) como humanos (aquisição de conheci- mentos e anos de experiência). A adequação dos re- cursos humanos e carga de trabalho pareceu-nos fun- damental para que ocorra uma prática segura na ad- ministração de medicamentos. Na categoria falha no sistema de distribui- ção e preparo dos medicamentos pela farmácia, para minimizar tais falhas são propostas novas formas de distribuição do medicamento, como a implantação do sistema de dose única. Com o objetivo de melhorar a situação – falha na comunicação – entre a equipe multiprofissional, recomenda-se a automatização do sistema para pro- mover uma comunicação rápida, segura e atualizada sobre alterações da prescrição médica e mudanças na terapia medicamentosa do paciente. Em relação à categoria falha no conhecimen- to, há evidências da necessidade de educação contí- nua e reciclagem profissional pelo enfermeiro e sua equipe, no que concerne à atualização de conhecimen- tos acerca da administração de medicamentos, como preconiza o Código de Ética dos Profissionais de En- fermagem, no capítulo III - Das responsabilidades, no artigo 18, consta: “ manter-se atualizado ampliando seus conhecimentos técnicos, científicos e cultu- rais, em benefício da clientela, coletividade e do desenvolvimento da profissão”; no capítulo V- Das Proibições, artigo 47: “administrar medicamentos sem certificar-se da natureza das drogas que o com- põem e da existência de risco para o cliente”(16). As inovações tecnológicas, o avanço rápido e crescente do mercado farmacêutico transformam a nos- sa realidade profissional intensamente; novos conhe- cimentos ou atualizações contínuas são primordiais para a manutenção no campo da atividade profissional, prin- cipalmente para os que atuam na área da saúde. Ressalta-se a necessidade de atualizações, apri- moramento ou de reciclagem para atualização de co- nhecimentos adquiridos na formação básica curricular e assumir o aumento proporcional da responsabilida- de ética inerente aos profissionais da área da saúde. Assim, neste estudo, identificamos as situações que conduziram os profissionais de enfermagem aos erros na medicação, entretanto maiores investiga- ções de suas causas, índices e conseqüências de- vem ser motivadas pelas instituições hospitalares, pois os erros de medicação são indicadores de qua- lidade de assistência. AGRADECIMENTOS À FAPESP- Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo pelo recurso financeiro concedido. CARVALHO VT & CASSIANI SHB. Medication errors: analysis of situations reported by nursing staff. Medi- cina, Ribeirão Preto, 33 : 322-330, july/sept. 2000. ABSTRACT: Medication errors are one indicator of the quality of the health care provided to hospitalized patients. The purposeof this study was to analyze the situations of errors in medications related by nursing staff. The study was developed at the interior of the state of São Paulo, Brazil. Data were collected through interviews with 7 nurses, 1 nursing technician and 23 nursing auxiliaries from the medical clinic of the mentioned hospital. The author adopted as the methodological reference adaptation of the critical incident technique. The analysis enabled the identification of fifty six (56) situations grouped into four categories: failure in the accomplishment of policies and procedures (25), failure in the system of medications distribution and preparation by the pharmacy (15), communication failure (10) and knowledge failure (06). Thus, a safe environment with availability of human and physical resources is necessary for the prevention of future medication errors, as well as investments to provide knowledge on medication administration to nursing professional, aiming at a nursing care with quality. UNITERMS: Medication Errors. Drugs. Nursing. i VT Carvalho & SHB Cassiani 330 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1 - TAKAKURA MS. Avaliação morfométrica do efeito da mas- sagem e ou calor no músculo gluteus-máximus e ratos, Tese de Doutorado, Escola de Enfermagem de Ribeirão Pre- to da USP , Ribeirão Preto, p.1-109, 1988. 2 - ARCURI EAM. Reflexões sobre a responsabilidade do en- fermeiro na administração de medicamentos. 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Enferm.;16(2): 201-207, abr./jun., 2012 FATORES QUE PREDISPÕEM À DISTRAÇÃO DA EQUIPE DE ENFERMAGEM DURANTE O PREPARO E A ADMINISTRAÇÃO DE MEDICAMENTOS FACTORS THAT PREDISPOSE TO THE DISTRACTION OF THE TEAM OF NURSING DURING THE PREPARATION AND THE ADMINISTRATION OF MEDICINES FACTORES QUE PREDISPONEN A LA DISTRACCIÓN DE LOS ENFERMEROS DURANTE LA PREPARACIÓN Y ADMINISTRACIÓN DE FÁRMACOS Natália Romana Ferreira Lemos1 Vagnára Ribeiro da Silva2 Maria Regina Martinez3 RESUMO Nesta pesquisa, propôs-se testar a hipótese de que a distração, durante o preparo e a administração de medicamentos, pode conduzir ao erro. No Centro de Terapia Intensiva (CTI) de um hospital filantrópico, foram realizadas observações não participantes e diretas das atividades do processo medicamentoso desempenhadas pela equipe de enfermagem em todos os plantões. No período de observação, foram administrados 136 fármacos, totalizando 43 erros, dentre os quais omissão, velocidade de infusão, via, dose, diluição e horário. Durante a coleta de dados, foram identificados 100 fatores que poderiam causar distrações da enfermagem predispondo seu erro: telefone fixo da instituição ou celular tocando, interrupção por outros profissionais, mudanças não padronizadas de prescrições médicas, sobreposição de diferentes tarefas pelo mesmo profissional nos horários padronizados para medicação e ausência de planejamento formal da assistência. Embora 21% dos erros de medicação relacionados ao preparo e à administração de medicamentos em horário errado tenham sido induzidos pelo evento que causa distração“mudanças não padronizadas de prescrições médicas”, não houve correlação significativa entre os erros identificados e os fatores que poderiam conduzir à distração. Portanto, pode-se inferir que, na condição estudada, não existe relação direta entre os possíveis fatores que causam distração e os erros relacionados ao preparo e à administração de medicamentos. Palavras-chave: Equipe de Enfermagem; Erros de Medicação; Gerência. ABSTRACT This research intended to exam the theory that distraction, during the preparation and administration of medication, can lead to errors. Direct and non-participant observations of the medication process (performed by nursing team in all nursing shifts) were carried out in the Intensive Care Unit of a philanthropic hospital. During observation stage 136 drugs were administered totaling 43 mistakes, namely: dose omission, infusion speed, duct, dose, dilution and schedule. During data collection 100 factors causing the nurses’distraction and that could lead to errors were identified: telephone or mobile phone ringing; interruption by other professionals; non-standardized changes of medical prescriptions; overlapping job tasks in standardized medication times; and lack of formal care planning. Although 21% of the errors related to the wrong preparation and administration times of medication were caused by the distracting event “non- standardized changes of medical prescriptions”, there was not a significant correlation between the identified errors and the factors that could lead to distraction. Therefore it can be inferred that there is no direct link between the possible distracting factors and the errors related to the preparation and to the administration of medication. Key words: Nursing Team; Medication Errors; Management. RESUMEN En esta investigación se propuso analizar la hipótesis que afirma que la distracción durante la preparación y administración de fármacos puede conducir a errores. Se realizaron observaciones directas no participantes del proceso llevado a cabo por los enfermeros de todas las guardias de la Unidad de Cuidados Intensivos de un hospital filantrópico. Durante el período de observación se administraron 136 fármacos y se comprobaron 43 errores, entre ellos: omisión, velocidad de infusión, vía, dosis, dilución y horario. Durante la recogida de datos se identificaron 100 factores que podrían causar distracción de los enfermeros y predisposición a la equivocación: el teléfono fijo o celular que suena, interrupciónde otros profesionales, cambios no estandarizados de recetas médicas, superposición de distintas tareas del mismo profesional en los horarios estandarizados para la medicación y ausencia de planificación formal de la asistencia. El 21% de los errores de la medicación relacionado a la preparación y a la administración de fármacos en el horario equivocado se debió a“cambios no estandarizados de recetas médicas”; sin embargo, no hubo ninguna correlación significante entre los errores identificados y los factores que podrían llevar a la distracción. Por consiguiente puede deducirse que, en la condición estudiada, no hay relación directa entre los posibles factores de distracción y los errores relacionados a la preparación y administración de fármacos. Palabras clave: Equipo de Enfermería; Errores de Medicación; Gerencia. 1 Enfermeira pela Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG). Bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET/SESu). 2 Enfermeira pela Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG). 3 Professora adjunta da disciplina de Administração de Enfermagem III do Curso de Enfermagem da Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG). Endereço para correspondência: Rua Gabriel Monteiro da Silva, 700. CEP: 37130-000. Alfenas-MG. Fone: 35-3299-1380/1381. martinez@unifal-mg.edu.br. Fatores que predispõem à distração da equipe de enfermagem durante o preparo e a administração de medicamentos 202 remE – Rev. Min. Enferm.;16(2): 201-207, abr./jun., 2012 INTRODUÇÃO Nas instituições de saúde, o processo medicamentoso envolve profissionais qualificados de diferentes áreas. A prescrição é de responsabilidade médica, assim como a dispensação é tarefa farmacêutica e o preparo e a administração são funções da equipe de enfermagem.1 O objetivo com o uso de medicamentos no tratamento do cliente é obter melhoria no seu quadro clínico.1 No entanto, se houver falhas na sua realização, as consequências poderão ser diversas tanto para o profissional quanto para o paciente, que poderá sofrer danos irreparáveis.1,2 Define-se como erro de medicação qualquer falha em qualquer fase do processo de medicação, que compreende a prescrição, a transcrição, a dispensação e a administração, podendo ser decorrente das atitudes de vários profissionais diferentes, uma vez que se trata de uma atividade multidisciplinar.3,4 Como erros na prescrição estão incluídos omissões do nome da droga, da formulação da droga, da via, da dose, do regime de dosagem, da data, da assinatura e do dia de tratamento para os antibióticos. Nos erros relacionados à transcrição estão incluídas as discrepâncias entre a prescrição médica e as cópias relativas ao nome da droga, formulação da droga, dose, regime de dosagem, omissão da droga ou inclusão de droga não prescrita3. A caligrafia ilegível, o excesso de abreviações e a mistura de nomes genéricos com comerciais nas prescrições médicas podem resultar na incompreensão das outras equipes de profissionais.4 Quanto à dispensação, incluem-se os erros de entrega de droga não prescrita, dose não prescrita, omissão de dose ou erro na formulação da droga3. Além disso, nessa fase do processo, pode haver outras deficiências, tais como falta de políticas para revisão das prescrições médicas e ausência de dupla conferência na dispensação e de código de barra para identificação digital do medicamento, o que pode acarretar em erros caso o enfermeiro não realize prévia avaliação do material que possui.4 Nos erros relativos à administração, agrupam-se falhas na técnica de administração, principalmente de injetáveis, vias erradas, horários com erro de 60 minutos para mais ou para menos e entrega não direta da dose ao paciente.3 Alguns autores trabalham com categorizações mais simples de erro no processo de medicação, codificando- os como: paciente errado, droga errada, dose errada, via errada, hora errada e omissão5; ou, como previsto pela American Society of Hospital Pharmacists (ASHP), erro de omissão, erro de droga não autorizada, dose errada, via errada, razão errada, formulação errada e técnica incorreta de administração.6 Alguns autores incluem, ainda, erro na velocidade de infusão de medicações endovenosas.7 Dentre os erros detectados pelos autores de trabalhos científicos mais recentes, que estão relacionados à competência da equipe de enfermagem, podem ser citados: erros na diluição (volumes inadequados de diluente ou reconstituição incorreta); técnica errada de administração (por exemplo, passagem de medicação por sonda nasogástrica de maneira incompleta, ficando medicação na sonda e velocidade de infusão endovenosa acima ou abaixo do desejável); erros no horário da medicação prescrita; via errada; paciente errado; erro de omissão, erro na dosagem; e medicamento errado.1,5,6,8,9 Ao serem investigados os fatores que conduzem a esses erros, em diversos trabalhos, tem-se demonstrado que pode ocorrer sobrecarga de trabalho, dada a deficiência no número de funcionários.1 Ademais, deve-se ressaltar a falta de domínio nas operações matemáticas, principalmente com cálculos envolvendo números decimais.5 Outros fatores importantes podem ser acrescentados também, como baixo conhecimento sobre as medicações administradas, dificultando a atenção para dosagens discrepantes e aumentando o risco da realização de diluições inadequadas; qualidade das prescrições, que, por vezes, não contêm o registro correto do nome da droga, da via a ser utilizada, da dose a ser administrada, o regime de dosagem, bem como o registro de drogas a que o paciente é alérgico; além de distrações e de interrupções durante o preparo e a administração de medicamentos.6 As consequências clínicas de um erro de medicação podem ser classificadas como: potencialmente não significantes, quando não há nenhuma relevância clínica; potencialmente significantes, quando há a necessidade demonitorizaçãodopacienteemboranãosejanecessário nenhum tratamento corretivo; potencialmente sérias, quando resultam em efeitos colaterais sérios que requerem tratamento e prolongamento da internação hospitalar, gerando trauma físico ao paciente e encargos para a instituição; e potencialmente fatais, quando podem resultar em morte.3 Recentemente, em uma pesquisa envolvendo as clínicas médica e cirúrgica de um hospital, foram considerados erros de administração de medicação aqueles rela- cionados à omissão da dose ou administração de dose não prescrita, erro na técnica de administração e no horário e perda de controle da identidade da droga e paciente.3 Desses erros, 52% foram categorizados como potencialmente sérios ou significantes, demonstrando a importância da minimização desses erros no que se refere à integridade física do paciente e aos encargos econômicos para as instituições3 A equipe de enfermagem, composta pelo enfermeiro e pelo técnico de enfermagem, como responsável pela etapa final da complexa atividade medicamentosa, frequentemente sofre as punições atribuídas ao erro no processo de medicação.10 São apresentadas na literatura como medidas disciplinares tardias: orien- tação e advertência verbal, advertência escrita e notificação de ocorrência, suspensão e demissão, sendo que a penalização escolhida depende da gravidade, da repetição do erro e da consequência dele para o paciente.8 Por causa dessas intervenções, geralmente ocorre subnotificação dos erros por parte da equipe 203remE – Rev. Min. Enferm.;16(2): 201-207, abr./jun., 2012 de enfermagem. Portanto, mais importante do que penalizar, a instituição deve adotar uma política de reciclagem e educação continuada como método preventivo de novos problemas, no entanto, esses treinamentos raramente são os preferidos.10 Ao deparar-se com a realidade dos profissionais de enfermagem no que tange à execução das tarefas, ao relacionamento com seus pares e os pacientes e sua inserção no ambiente, levando em consideração a situação do trabalho, verifica-se que a distração é um importanteelementoquepodeconduziroprofissionalao erro no preparo e na administração de medicamentos.10 Essa situação pode ser evidenciadaquando o profissional é interrompido por outras pessoas, como o paciente ou o próprio colega de trabalho, pelo telefone tocando, por uma criança chorando, dentre outros barulhos e fatores que desviam a atenção no momento da preparação e administração do medicamento.4,6 Considerando-se a distração como um importante causador dos erros de medicação e diante dos poucos trabalhos que abordam o tema, nesta pesquisa apre- senta-se como objeto de estudo a investigação da presença de fatores que poderiam distrair o profissional de enfermagem durante o preparo e a administração de medicamentos e conduzi-lo ao erro em uma unidade de internação. METODOLOGIA Trata-se de um estudo descritivo do tipo exploratório com abordagem de análise quantitativa, realizado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), cujo propósito foi identificar fatores que poderiam levar a equipe de enfermagem a distrair-se durante o preparo e a administração de medicamentos e colaborar para a ocorrência de erros de medicação. A população estudada constituiu-se de enfermeiros e técnicos de enfermagem responsáveis pelo preparo e administração de medicamentos em uma instituição hospitalar na cidade de Alfenas-MG. Todos os sujeitos da pesquisa trabalhavam 42 horas semanais. A amostragem foi por conveniência, considerando-se que a escolha dos sujeitos foi baseada no maior número de atividades de administração de medicamentos que eram executadas na unidade assistencial.11 Foram definidas como variáveis importantes para o estudo a ocorrência de erros durante o preparo e a administração de medicamentos e de fatores que pode- riam distrair o profissional de enfermagem durante essa atividade. Foi considerado erro de medicação qualquer proce- dimento que resultasse na administração de medica- mentos a pacientes errados, na omissão de dose ou na dosagem errada, pela via errada, em horário superior ou inferior a 60 minutos do prescrito, com velocidade de infusão diferente do preconizado na prescrição ou na literatura, na diluição errada ou utilizando-se técnica errada durante seu preparo e administração. Na ocorrência de um erro foi observado todo o contexto em que esse ocorreu, e buscou-se identificar se algum fator relacionado ao ambiente, à equipe ou ao cliente poderia ter distraído a equipe de enfermagem durante o procedimento de preparo e administração da medicação, favorecendo, assim, a ocorrência do erro. Para a coleta dos dados, foram realizadas observações não participantes e diretas, durante quatro meses, seguindo roteiro de observação sistematizado. As observações abrangeram os diferentes turnos de trabalho, ou seja, os plantões da manhã, tarde e noite, sendo possível a descrição das atividades de administração de medicamentos durante as 24 horas de assistência. A observação não participante e direta foi realizada pelas próprias pesquisadoras, treinadas previamente para tanto, e obedeceu ao método de coleta de dados em que o pesquisador não oculta sua participação e posição de observador, revelando sua identidade e obtendo o consentimento livre e informado do sujeito da pesquisa que foi observado. O observador, nesse caso, não interveio tentando provocar ou mudar o comportamento do sujeito participante.11 O roteiro de observação continha campos para preen- chimento do nome do observador, data e horário de início e término da observação, nome dos pacientes internados e suas prescrições medicamentosas, contendo o nome dos medicamentos que deveriam ser administrados, bem como sua dose, via e horário. Continha, ainda, campos que descreviam o processo realizado de fato durante a administração dos medicamentos para os pacientes; ou seja, campos para o preenchimento do medicamento administrado e para qual paciente, dose administrada, via de administração utilizada, horário exato daadministraçãodomedicamentoedescriçãodequalquer erro no procedimento técnico de preparo e administração. Finalmente, eram descritos todos os fatores que poderiam causar distração que ocorressem durante o processo de preparo e administração dos medicamentos. Para a identificação de erros no procedimento técnico de preparo e administração de medicamentos, utilizou- se um roteiro que descrevia de modo sistemático os passos a serem seguidos pelos profissionais para o correto preparo e administração de medicamentos. Esse roteiro foi elaborado pelas pesquisadoras com base na literatura,12-15 contendo regras gerais sobre o preparo e a administração dos medicamentos, bem como a técnica correta de administração de medicamentos pelas vias oral, ocular, sublingual, retal, vaginal, otológica, nasal, cutânea, intradérmica, subcutânea, intramuscular (deltoideana, dorsoglútea, ventroglútea, região da face anterolateral da coxa) e endovenosa. O roteiro foi considerado um modelo para as observadoras; assim, quando o sujeito observado realizava alguma atividade diferente do procedimento preconizado, as pesquisadoras consideravam a ocorrência como um erro de técnica de medicação e o anotavam no roteiro de observação. Após a coleta e a organização dos dados, procedeu-se à análise por meio de estatística descritiva. Os dados foram apresentados em forma de tabelas e figuras. Fatores que predispõem à distração da equipe de enfermagem durante o preparo e a administração de medicamentos 204 remE – Rev. Min. Enferm.;16(2): 201-207, abr./jun., 2012 Para a realização da pesquisa, na Unidade deTratamento Intensivo, encaminhou-se uma solicitação à instituição hospitalar, por meio de ofício com o projeto de pesquisa. A pesquisa somente teve início após a autorização da direção da instituição. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG), de acordo com as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa em Seres Humanos, Resolução do Conselho Nacional de Saúde (CNS) nº 196/96.16 RESULTADOS A pesquisa foi realizada em um hospital de médio porte filantrópico, localizado na região sul de Minas Gerais. Foram observadas as atividades de preparo e administração de medicamentos pela equipe de enfermagem durante os diferentes plantões. A Unidade conta com quatro leitos, cuja média mensal de internações durante o período de coleta de dados foi de, aproximadamente, 19 internações de pacientes que necessitavam de cuidados semi-intensivos ou intensivos, totalizando uma taxa de ocupação de 62,50%. A área física é composta por dois quartos de internação com dois leitos e um banheiro cada, um posto de enfermagem com um banheiro e uma suíte de descanso médico. O quadro de profissionais da equipe de enfermagem é composto por oito técnicos de enfermagem e seis enfermeiros, que se dividem nos diferentes turnos – manhã, tarde e noite –, de modo a manter a cobertura nas 24 horas de toda a semana. Além desses profissionais, a Unidade conta com a presença periódica de acadêmicos e docentes supervisores (em supervisão direta ou a distância) do curso superior de Enfermagem da Unifal-MG. A responsabilidade do preparo e da administração de me- dicamentos nessa Unidade é dos enfermeiros, dos técnicos e dos acadêmicos de enfermagem (quando em supervisão direta do docente ou do enfermeiro). Durante o período de observação, foram adminis- trados, no total, 136 medicamentos, sendo 25% deles anticoagulantes/antiagregantes plaquetários/ trombolíticos, 23% antiácidos/antieméticos, 14% antibióticos, 10% anti-hipertensivos/diuréticos, 5% anti- inflamatórios, 4% anticonvulsivantes, 4% antidiabéticos, 3%antiarrítmicos,3%vasopressores,3%broncodilatadores e 7% outros medicamentos não pertencentes às classes farmacológicas citadas (GRÁF. 1). Os diferentes medicamentos foram administrados pelas vias endovenosa (53%), subcutânea (22%), oral (15%), sonda nasoentérica ou nasogástrica (8%) e nasal (2%) (GRÁF. 2). Com relação ao preparo e à administração de medi- camentos, registrou-se a ocorrência de 43 erros de medi- cação, divididos em erros de omissão (2,33%), velocidade de infusão (6,98%), via (6,98%), dose (11,63%), diluição (27,91%) e horário (44,19%)(GRÁF. 3). GRÁFICO 1 – Categorias de medicamentos mais comumente administradas durante o período de observação na UTI Fonte: Dados obtidos a partir da aplicação dos instrumentos utilizados na pesquisa GRÁFICO 2 – Vias mais utilizadas para administração de medicamentos na UTI Fonte: Dados obtidos a partir da aplicação dos instrumentos utilizados na pesquisa GRÁFICO 3 – Frequência relativa dos tipos de erros de medicação observados na administração de medicamentos na UTI Fonte: Dados obtidos a partir da aplicação dos instrumentos utilizados na pesquisa 205remE – Rev. Min. Enferm.;16(2): 201-207, abr./jun., 2012 Além desses erros, foram constatadas algumas irregula- ridades na técnica do preparo das medicações. Foi detectada a ocorrência de 186 irregularidades em técnicas básicas de preparo de medicações. Observou-se ausência de lavagem de mãos antes do início do preparo das medicações (50% das ocorrências), ausência de assepsia de ampolas (48,79% das ocorrências) e ausência do procedimento de lavagem de sondas nasoentéricas antes ou depois da administração de medicamentos (1,61% das ocorrências; GRÁF 4). tarefas de assistência. No entanto, em 21% dos erros de medicação relacionados à administração de medicamentos em horário errado, a mudança da prescrição médica em horário não padronizado pode ser considerada um fator que distraiu o profissional e ocasionou o erro. TABELA 1 – Distribuição da ocorrência de fatores que levaramàdistraçãodaequipedeenfermagemdurante o preparo e administração de medicamentos FATORES DE DISTRAÇÃO No % Ausência de planejamento formal da assistência de enfermagem 3 3,00 Telefone celular pessoal tocando 8 8,00 Sobreposição de diferentes tarefas 14 14,00 Mudanças não padronizadas de prescrição médica 20 20,00 Interrupção por outros profissionais 21 21,00 Telefone institucional tocando 34 34,00 TOTAL 100 100,00 Fonte: Dados obtidos a partir da aplicação dos instrumentos utilizados na pesquisa DISCUSSÃO As UTIs, pelas suas características de alta complexidade e alta tecnologia, poderiam ser os lugares mais seguros de tratamentodetodoohospital,noentanto,acomplexidade dos processos de tratamento e o comprometimento clínico dos seus pacientes tornam esses ambientes mais vulneráveis e suscetíveis à ocorrência de erros.17,18 Grande parte dos eventos adversos a que os pacientes internados em UTIs estão suscetíveis está relacionada ao processo medicamentoso. Em geral, as terapêuticas medicamentosas são complexas, com o uso concomitante de múltiplas drogas e alteração constante do esquema medicamentoso, dada a melhora ou piora de quadro clínico dos pacientes, aumentando o risco de ocorrer erros no preparo e na administração da medicação.17 Vários estudos da literatura relatam a ocorrência de erros no preparo e na administração de medicamentos. Apesar de ter-se encontrado uma porcentagem pequena de erros de omissão na administração de medicamentos na unidade estudada, alguns trabalhos relatam porcenta- gens maiores desse tipo de erro.5,19 A não realização de uma droga para um paciente em terapia semi-intensiva ou intensiva pode causar consequências desastrosas, uma vez que pode haver piora considerável do seu quadro clínico em um período de tempo muito pequeno. Observou-se neste estudo que, embora não muito fre- quente, dentre os erros observados, há pouca rigidez no GRÁFICO 4 – Frequência relativa de falhas em procedimentos básicos de preparo e administração de medicamentos na UTI Fonte: Dados obtidos a partir da aplicação dos instrumentos utilizados na pesquisa Durante o período de coleta de dados, foram identifica- dos 100 eventos que foram considerados fatores que poderiam causar distração da equipe de enfermagem predispondo ao erro durante o preparo e a administração de medicações. Observou-se que a ausência de planejamento formal da assistência, contendo um plano sistematizado de cuidado de enfermagem e uma sequência preestabelecida de assistência, foi capaz de distrair o profissional durante o procedimento de preparo e administração de medicamentos em 3% das ocasiões. As chamadas telefônicas, advindas do telefone institucional ou de telefone celular do próprio profissional, também foram capazes de distrair a atenção do preparo da medicação em 34% e 8% das vezes, respectivamente. A execução de atividades de assistência diferentes do preparo de medicação, com consequente sobreposição de tarefas, distraiu o profissional em 14% das vezes. Interrupções do processo medicamentoso por interferência de outros profissionais totalizaram 21% das vezes que o profissional de enfermagem se distraiu no preparo e administração de medicamentos e a mudança não padronizada da prescrição médica interferiu em 20% dos casos em que o profissional desviou sua atenção do processo de medicação (TAB. 1). Não houve associação entre a ocorrência de erros de medicação e a distração do profissional de enfermagem quando o fator que o distraiu estava relacionado com a ausência de planejamento formal da assistência, toque de telefone, institucional ou pessoal, interrupções por outros profissionais ou sobreposição de diferentes Fatores que predispõem à distração da equipe de enfermagem durante o preparo e a administração de medicamentos 206 remE – Rev. Min. Enferm.;16(2): 201-207, abr./jun., 2012 um fator que não leva ao erro, é considerado falha no processo medicamentoso. Os erros na técnica de preparo e administração de medicamentos também foram referidos em pesquisas, no entanto com uma ocorrência bem menor.9,19 Não foram encontrados erros de trocas de medicação ou de pacientes durante o período de observação. Essa situação pode ser decorrente da atenção dos trabalhadores na sua função e do reduzido número de pacientes internados nesse setor. No entanto, são erros mostrados em trabalhos anteriores, correspondendo a 17% relativos à administração de medicamento errado e 8% relacionados a troca de pacientes.5 Durante o período de coleta de dados, foram identificados 100 eventos que puderam ser considerados como fatores que poderiam causar distração da equipe de enfermagem, predispondo ao erro durante o preparo e a administração de medicação, tais como: telefone fixo da instituição ou celular pessoal tocando; interrupção por outros profissionais; mudanças não padronizadas das prescrições médicas; sobreposição de diferentes tarefas desempenhadas pelo mesmo profissional, como cuidados de higiene e conforto, nos horários padronizados para administraçãodemedicações;eausênciadeplanejamento formal da assistência, como rotinas escritas de admissão e sistematização da assistência de enfermagem. O telefone tocando, embora não tenha se mostrado um fator desencadeante de erro neste estudo, foi citado por outros autores como um efeito que pode levar ao erro.6 As mudanças não padronizadas na prescrição foram citadas em outros trabalhos como uma falha na comunicação entre as equipes médica e de enfermagem, uma vez que, após a mudança da prescrição, o medicamento continuava sendo administrado conforme prescrição anterior.10 Embora tenham sido observados vários fatores capa- zes de distrair os profissionais durante o preparo e administração da medicação, os erros aconteceram de modo independente, não se caracterizando como uma consequência. CONCLUSÃO Os resultados apresentados permitem inferir que, na condição estudada, não existe relação direta entre os fatores que podem ocasionar a distração da equipe de enfermagem e os erros relacionados ao preparo e à administração de medicamentos. Assim, faz-se necessário a continuidade deste trabalho a fim de serem conhecidos quais fatores podem estar levando aos erros de preparo e de administração de medicamentos por meio do relato dos indivíduos obser- vados, visto que há erros, porém não correlacionados a fatores de distração. AGRADECIMENTOS Ao Programa de Educação Tutorial (PET Enfermagem) da Unifal-MG; à direção da instituição hospitalar, que aceitou a realização da pesquisa; e aos profissionais do CTI, que permitiram ser observados. controleda velocidade de infusão de algumas medicações endovenosas. Outros autores corroboram esses achados, identificando esse mesmo erro em 6% dos erros de medicação que encontraram.9 A velocidade de infusão, dependendo do medicamento a ser utilizado, pode trazer diversos problemas para o paciente, como necrose tecidual, perda do acesso venoso, dentre outros.15 Dos erros de medicação relacionados à via de admi- nistraçãoobservou-searealizaçãodeinjeçõessubcutâneas em vez de intramuscular e mudanças sem autorização de via nasoenteral para via oral. Situação semelhante já foi observada na literatura, sendo responsável, em alguns estudos, por 28% dos erros de medicação encontrados.1 Foramobservadosalgunserrosnadosagemdamedicação prescrita que estavam estreitamente relacionados com sua técnica de preparo e administração, uma vez que o profissional, por vezes, não realizava a diluição correta, alterando a dose que deveria ser ministrada. Outra situação comum de erro de dose foi em ocasiões de trituração de medicação para posterior passagem na sonda nasogástrica ou nasoentérica, em que a equipe de enfermagem, por vezes, não utilizava todo o comprimido triturado, deixando resquícios dele na bancada de trabalho. Os erros relacionados à dose são comumente descritos na literatura, estando presentes em cerca de 20% dos erros de medicação encontrados.1,5,19 Foram encontrados, neste estudo, vários erros relacio- nados à diluição de medicamentos. Observou-se troca do diluente prescrito ou preconizado na literatura por outro disponível mais facilmente na instituição, como água bidestilada, e também a mistura de duas ou mais medicações no mesmo sistema fechado sem critério cientificamente estabelecido, favorecendo o risco do surgimento de interações químicas desfavoráveis entre os medicamentos. Trabalhos recentes descrevem a ocorrência de mais de 10% desse tipo de erro9,19 durante o processo de preparo e administração de medicações. Os horários das medicações foram considerados errôneos quando a diferença entre a hora prescrita e ministrada foi de + 60 minutos.3 Foi o erro mais frequente encontrado e o único que, em parte, pode estar relacionado a fatores que poderiam desviar a atenção do profissional durante o preparo e a administração de medicação, uma vez que 21% desses erros ocorreram concomitantemente a trocas em horário não padronizado da prescrição e não comunicadas pela equipe médica. Na literatura, podem- se notar resultados divergentes sobre esse mesmo erro. Alguns trabalhos mostram esse tipo de ocorrência em menosde10%doscasos,9,19 enquantooutrosdemonstram que este erro acontece mais de 30% das vezes.5,20 Chamou a atenção das pesquisadoras a grande inci- dência de falhas relacionadas a técnicas básicas durante o preparo e a administração de medicamentos. Foram observadas falhas na lavagem de mãos antes do início do preparo das medicações, ausência de assepsia de ampolas e do procedimento de lavagem de sondas nasogástricas e nasoentéricas antes ou depois da administração de medicamentos. A literatura considera essas situações como de consequência insignificante, entretanto esses são procedimentos básicos que devem ser respeitados, sendo que o último, mesmo sendo 207remE – Rev. Min. Enferm.;16(2): 201-207, abr./jun., 2012 REFERÊNCIAS 1. Carvalho VP, Cassiani SHB, Chiericato C. Erros mais comuns e fatores de risco na administração de medicamentos em unidades básicas de saúde. Rev Latinoam Enferm. 1999; 7(5):67-75. 2. Coimbra JAH, Cassiani SHB. Responsabilidade da enfermagem na administração de medicamentos: algumas reflexões para uma prática segura com qualidade de assistência Rev Latinoam Enferm. 2001; 9(2):56-60. 3. Lisby M, Nielsen LP, Mainz J. Errors in the medications process: frequency, type, and potencial. 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Atividade 03 Farmacologia Técnico em Enfermagem einstein. 2004; 2(3):182-6 182 Grou CR, Cassiani SHB, Telles Filho PCP, Opitz SP Conhecimento de enfermeiras e técnicos de enfermagem em relação ao preparo e administração de medicamentos Knowledge of licensed practical nurses and nursing technicians as to medication preparation and administration Cris Renata Grou1, Silvia Helena de Bortoli Cassiani2, Paulo Celso Prado Telles Filho3, Simone Perufo Opitz4 ABSTRACT Objective: The objective of this study was to identify, categorize and analyze questions raised by licensed practical nurses and nursing technicians regarding medication preparation and administration, as well as to propose educational strategies based on the data collected. Methods: Three clinics of a public hospital were randomly selected and the nurses were requested to write down all the questions that they were asked with regards to medication administration during one month. After approval by the Research Ethics Committee, data collection was initiated. Results: The questions (n = 103) were identified and categorized as: Patient’s conditions (21): medication administration in fasting patients with hyperthermia, hypotension and other alterations. General knowledge (19): medication knowledge, mathematical questions and prescription symbols. Dilution (17): type and amount of diluent used in certain medications. Preparation/Formulation (14): medication with a different formulation from that prescribed. Drug interaction (10): administration of two or more drugs at the same time and by the same route. Administration Route (09): form ofapplication of certain drugs. Dose (07): dose presented and dose to be administered. Generic and Brand names (06): equivalence between brand and generic names in the prescription. Conclusions: Continuous supervision and improvement as well as development and implementation of protocols are required for medication administration actions. Keywords: Professional practice; Health knowledge, attitudes, Practice; Pharmaceutical preparations; Nursing, team ARTIGO ORIGINAL RESUMO Objetivo: Este estudo teve como objetivo identificar, categorizar e analisar as dúvidas expressas por auxiliares e técnicos de enfermagem acerca do preparo e administração de medicamentos, bem como propor estratégias educativas a partir dos dados obtidos. Métodos: Três clínicas de uma instituição hospitalar pública foram selecionadas aleatoriamente e solicitou-se aos enfermeiros que anotassem, durante um mês, todas as questões a eles formuladas referentes à administração de medicamentos. Após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa, iniciou-se a coleta dos dados. Resultados: As questões foram identificadas e categorizadas como: alterações nas condições do paciente (21): administração de medicamentos em pacientes em jejum, com hipertermia, com hipotensão e com outras alterações; conhecimento geral (19): conhecimento de medicamentos, questões matemáticas e símbolos na prescrição; diluição de medicamentos injetáveis (17): tipo e quantidade de diluente utilizado em determinados medicamentos; preparo/apresentação dos medicamentos (14): medicação com apresentação diferente da prescrita; associação de medicamentos (10): administração de duas ou mais drogas em mesmo horário e via; vias de administração (9): modo de aplicação de determinados medicamentos; dose apresentada e dose ministrada (7): a ser apresentada e a ser administrada; nome genérico e comercial (6): correspondência entre nomes comerciais e genéricos da prescrição. Conclusões: Há necessidade de supervisão constante para a ação da administração de medicamentos, constante aprimoramento, bem como elaboração e implantação de protocolos. Descritores: Prática profissional; Conhecimentos, atitudes e prática em saúde; Preparações farmacêuticas; Equipe de enfermagem 1 Enfermeira do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. 2 Enfermeira. Professora Associada do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP. 3 Enfermeiro. Mestre e Doutorando pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP. Docente e Chefe de Departamento de Pesquisa de Universidade Camilo Castelo Branco – UNICASTELO. 4 Enfermeira. Mestre e Doutoranda pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP. Docente da Universidade Federal do Acre. Endereço para correspondência: R. Lafaiete, 805 - ap. 11 - CEP 14015-080 - Ribeirão Preto - SP - Tel.: 16 610 240 - e-mail: crgrou@bol.com.br. Recebido em 28 de novembro de 2003 - Aceito em 15 de abril de 2004 einstein. 2004; 2(3):182-6 183Conhecimento de enfermeiras e técnicos de enfermagem em relação ao preparo e administração de medicamentos INTRODUÇÃO Uma das principais funções da equipe de enfermagem no cuidado aos pacientes é a administração de medicamentos, a qual exige dos profissionais: responsabilidade, conhecimentos e habilidades, fatores estes que garantem a segurança do paciente. O sistema de medicação nos hospitais incorpora as etapas da prescrição médica, distribuição, dispensação, transcrição da prescrição e administração propriamente dita. Para tanto, vários profissionais estão envolvidos, o que o constitui como multidisciplinar e multissistêmico. Erros na medicação podem ocorrer em qualquer momento, já que há um sistema com várias etapas seqüenciais, dependentes umas das outras e executadas por uma equipe multidisciplinar, como já mencionado. Por constituir-se de várias etapas e envolver vários profissionais, o risco de ocorrência de erro é elevado. Os enfermeiros e suas equipes estão na linha final desse sistema, podendo ser responsabilizados por erros em quaisquer etapas. Duas abordagens explicam a causa dos erros: a abordagem centrada na pessoa e na situação. Na abordagem centrada na pessoa, o erro ocorre como resultado direto da falta de cuidado, negligência ou esquecimento. Como conseqüências responsabiliza-se o indivíduo e impõe-se alguma ação disciplinar ou restringe-se suas ações. Desta forma, essa abordagem enfatiza a punição como o principal elemento para qualquer ação corretiva. Já a abordagem centrada no sistema enfatiza a condição humana e antecipa que erros ocorram. Focaliza a identificação de fatores predisponentes no ambiente de trabalho ou no sistema. A abordagem punitiva não se mostra efetiva à medida que, responsabilizando o indivíduo, nada é feito em relação ao “sistema”, que continua com o mesmo problema e não se elimina o erro humano. Assim, o erro pode ocorrer a partir de um conjunto de comportamentos humanos não evitáveis, independentemente da capacidade ou experiência que os indivíduos possuem. Na grande maioria dos casos, o erro não é sinal de não-profissionalismo, mas sim conseqüência do fato de que é inevitável, humano e que muitas instituições possuem sistemas altamente condutivos a ele. Há uma positiva correlação entre erros de medicação e a piora do quadro do paciente, já que ocorrem em decorrência disto úlceras de pressão, infecções, queixas, aumento da estadia no hospital e óbitos(1). No Brasil, a equipe de enfermagem é constituída por auxiliares e técnicos de enfermagem, além de enfermeiros, sendo os primeiros responsáveis, na maioria das instituições, pelo preparo e administração de medicamentos. Estudos informam a insuficiência de conhecimento acerca da farmacologia entre tais profissionais. Além disso, acrescentam-se problemas como: a falta de um farmacêutico clínico, de literatura disponível e atualizada sobre medicamentos, despreparo da equipe de enfermagem, insuficiente qualificação profissional, inobservância de procedimentos técnicos, escassez de recursos materiais e inexistência de protocolos na assistência de enfermagem, dentre outros aspectos(2-4). Uma das causas da ocorrência de erros na administração de medicamentos é o conhecimento insuficiente acerca das indicações do medicamento, mostrando mais uma vez a insegurança e dificuldades enfrentadas por auxiliares e técnicos de enfermagem em administração de medicamentos, bem como suas conseqüências, confirmando a necessidade de estratégias educativas na melhoria da qualidade nesta ação(5). Dessa forma, falhas no sistema influenciam o trabalho da equipe e podem determinar que erros sejam cometidos. Assim, as investigações devem ser conduzidas buscando-se evidenciar aspectos do sistema que necessitam de modificações. O aspecto eleito para essa investigação foi o conhecimento de técnicos e auxiliares de enfermagem no que concerne ao preparo e administração de medicamentos. OBJETIVO O objetivo deste estudo foi identificar, categorizar e analisar as dúvidas expressas por auxiliares e técnicos de enfermagem acerca do preparo e administração de medicamentos, bem como propor estratégias educativas a partir dos dados obtidos. MÉTODOS A pesquisa realizou-se em uma instituição hospitalar universitária localizada no interior do Estado de São Paulo. Trata-se de um centro de referência e excelência, que presta assistência complexa, valorizando a otimização dos resultados. A população em estudo foi constituída por todos os auxiliares e técnicos de enfermagem atuantes em unidades de internação clínica, cirúrgica e psiquiátrica. A amostra foi constituída pelos membros da equipe que se reportaram aos enfermeiros durante o preparo e administração de medicamentos com dúvidas no período da coleta de dados. A coleta de dados realizou-se no período de um mês (março a abril de 2003) e constou de levantamento einstein. 2004; 2(3):182-6 184 Grou CR, Cassiani SHB, Telles Filho PCP, Opitz SP das dúvidas apresentadas pelos profissionais de enfermagem (auxiliares e técnicos de enfermagem)responsáveis pelo preparo e administração de medicamentos. Para tanto foi fornecido aos enfermeiros das unidades de internação clínica, cirúrgica e psiquiátrica um formulário composto pelos seguintes itens: título do trabalho, data a ser preenchido, clínica a ser aplicada e questões apresentadas pelos auxiliares e técnicos de enfermagem, com o objetivo de que anotassem as dúvidas apresentadas pelos auxiliares e técnicos de enfermagem responsáveis pelo preparo e administração de medicamentos. Diariamente, no período de manhã, os investigadores recolhiam os formulários e entregavam um novo ao enfermeiro. As dúvidas eram esclarecidas no mesmo momento e anotadas à parte para subsidiar a análise e elaboração da proposta educativa. O projeto em questão foi submetido ao Comitê de Ética na Pesquisa do hospital em que o estudo foi desenvolvido; somente após a obtenção da aprovação, foi dado o início à coleta de dados. A organização dos dados procedeu-se da seguinte forma: após a coleta de dados, categorizaram-se as dúvidas em oito categorias. É importante ressaltar que a categorização das dúvidas foi feita através do agrupamento das mesmas (códigos) e as categorias nominadas de acordo com a literatura, por exemplo: para as respostas dos enfermeiros relacionadas às alterações nas condições do paciente (categoria), teve- se administração de medicamentos quando o paciente está em jejum, com hipertermia, hipotensão, hemorragias e alterações nos sinais vitais. Tais categorias serão apresentadas a seguir sob a forma de tabela e posteriormente comentadas. Após os comentários, citam-se algumas das dúvidas de maior relevância para o estudo. RESULTADOS Foram registradas 103 dúvidas reportadas aos enfermeiros pelos auxiliares e técnicos de enfermagem referentes ao preparo e administração de medicamentos nas unidades clínica, cirúrgica e psiquiátrica de um hospital universitário. Os dados coletados foram agrupados em oito categorias, que quais podem ser observadas no quadro 1. A seguir, são descritas tais categorias. A categoria Alterações nas Condições do Paciente reporta-se àquelas dúvidas referentes à administração de medicamentos quando o paciente está em jejum, com hipertermia, hipotensão, hemorragias e alterações nos sinais vitais. Como as condições do paciente modificam-se no decorrer do dia, os técnicos e auxiliares recorriam aos enfermeiros na tentativa de se certificarem se a administração de determinado medicamento prescrito era apropriada ou não. Nesta categoria registram-se várias dúvidas, das quais citam-se como exemplos: “Paciente está em jejum para exames, deve-se fazer insulina?”; “Paciente em uso de anti-hipertensivo oral, PA 90 x 60 mm Hg, deve-se administrar”?” e “Paciente está apresentando vômitos contínuos, deve-se administrar medicação VO?”. A categoria Conhecimento Geral reúne as dúvidas dos profissionais em razão da redação das prescrições, o que se deve fazer caso o medicamento esteja em falta na instituição e uso de símbolos na prescrição. Destacam-se dúvidas quanto a prescrições manuais e mal redigidas, uso de símbolos e em situações que envolvem conhecimento de princípios farmacológicos dos medicamentos (efeitos colaterais, indicação, via de administração, tempo de ação, entre outras). Algumas frases ilustram tal categoria: “Está prescrito SF 1.000 ml e 1 ampola de carbonato de cálcio. Temos gluconato de cálcio. É a mesma coisa?”; “Paciente está usando varfarina VO, está prescrita também heparina SC, deve-se administrar ambas?” e “Qual proporção entre UI e mg?” A categoria Diluição de Medicamentos Injetáveis refere-se às questões apresentadas sobre o tipo e quantidade de diluente utilizada em cada um dos medicamentos. Neste momento, as dúvidas surgem relacionadas à diluição de medicamentos que precipitam quando em contato com os diluentes, como nos casos de sedativos e anticonvulsivantes (fenitoína), pois os auxiliares e técnicos de enfermagem não estão certos a respeito da eficácia do medicamento quando precipitado. Destaca-se, também, a dúvida freqüente quanto ao volume da diluição dos antibióticos a serem administrados por meio da via endovenosa, como gentamicina e amicacina. Surgem dúvidas, ainda, relacionadas à administração de medicamentos em crianças. Nesta categoria registram-se várias dúvidas, das quais citam-se como exemplos: “Deve-se ou não diluir fenitoína para administrar?” e “Como devo diluir a Quadro 1. Distribuição das categorias de dúvidas apresentadas pelos auxiliares e técnicos de enfermagem. São Paulo, 2004 CATEGORIAS FREQUÊNCIAS Alterações nas condições do paciente 21 Conhecimento geral 19 Diluição de medicamentos injetáveis 17 Preparo/apresentação da medicação 14 Associação de medicamentos 10 Vias de administração 9 Dose apresentada e dose ministrada 7 Nome genérico/comercial 6 TOTAL 103 einstein. 2004; 2(3):182-6 185Conhecimento de enfermeiras e técnicos de enfermagem em relação ao preparo e administração de medicamentos heparina para utilizar na heparinização de cateter venoso periférico?” A categoria Preparo/Apresentação da Medicação relaciona-se às condições em que o medicamento se apresenta para ser preparado e administrado, administração de medicamentos gelados e de parte das doses de medicações injetáveis pré-preparadas. A seguir, registram-se algumas das dúvidas mencionadas pela amostra: “Qual a validade da penicilina após diluída?; Onde deve ser conservada?” e “Como devo proceder para obter solução fisiológica a 0,45%?” A próxima categoria, denominada Associação de Medicamentos, refere-se à administração de dois ou mais medicamentos em mesma via e horário. Surgem dúvidas quanto à administração de medicamentos simultaneamente com soro e infusão de eletrólitos, com hemoderivados e duas drogas ao mesmo tempo. Citam-se as dúvidas: “Pode-se administrar tramadol em equipe y com soro e eletrólitos?” e “Pode-se administrar antibiótico em equipe y com nutrição parenteral?” A categoria Vias de Administração apresenta dúvidas relacionadas ao modo de aplicação de determinados medicamentos, por exemplo, fenobarbital IM ou EV. Os profissionais envolvidos no preparo e administração de medicamentos estão relativamente acostumados a administrar certos medicamentos em uma determinada via e, na vigência de alterações, surgem as dúvidas e incertezas, principalmente quando os medicamentos são para ser administrados IM, demonstrando, dessa forma, a insegurança quanto à técnica de administração de medicamentos intramuscular. As dúvidas surgidas, então, são quanto ao local a ser administrado, o músculo a ser atingido, bem como suas vantagens e desvantagens. Seguem-se as dúvidas coletadas: “Estava prescrito para o paciente fenobarbital EV, anteriormente estava prescrito IM, pode-se fazer EV mesmo?” e “Pode-se administrar cetoprofeno via intramuscular, geralmente é administrado EV?” A categoria Dose Apresentada e Dose Ministrada destaca dúvidas relacionadas à diferença entre a dose apresentada e a dose a ser administrada, por exemplo, diazepam 10 mg, apresentação de 5 mg, divisão de cápsulas e uso de porcentagem na medicação, ou seja, cálculos na diluição. Acrescenta-se, ainda, a presença de dúvidas quanto ao conhecimento em matemática, relativos a porcentagens e vigência da falta do medicamento na instituição. Como dúvidas, obteve-se: “Está prescrito enalapril ½ cp VO, o medicamento é cápsula, como devo preparar?”; “Está prescrito benzoato de benzila 25% tópico - 200 ml, posologia: 1:2, como devo administrar?” e “Está prescrito carvedilol 12,5 mg, 2 cp à noite, temos apenas carvedilol 3,125 mg, como devo administrar?”. A categoria Nome Genérico/Comercial trata das dúvidas referentes à correspondência entre nomes comerciais e nomes genéricos da prescrição. Neste momento destacam-se dúvidas referentes a medicamentos com nomes compostos como brometo de pancurômio, demonstrando a dificuldade dos auxiliares e técnicos para com os nomes genéricos dos medicamentos, tornando o preparo e administração dos mesmos uma tarefa pouco segura devido à falta de conhecimento.Têm-se as seguintes questões: “Comprimido de T3 ‘e o mesmo que a tiroxina (T4 PuranÒ)?” e “Vitamina K é o mesmo que kanakion?”. DISCUSSION Com relação a categoria Alterações nas Condições do Paciente, sabe-se que a idade, formas e vias de administração, peso, altura, anamnese, mudanças metabólicas e armazenamento da droga são considerados de grande importância, merecendo, portanto, especial atenção por parte dos enfermeiros. Para isto é necessária atualização dos profissionais responsáveis pelo preparo e administração de medicamentos quanto à farmacologia dos mesmos(6). Sugere-se, então, que no processo de enfermagem os dados relacionados aos medicamentos sejam valorizados e destacados, elaborando e aplicando protocolos conjuntamente com a equipe de enfermagem e multiprofissional. Em relação a categoria Conhecimento Geral, corroboram-se dados, um estudo que obteve registro de 6.180 pontos em categoria denominada “Preparo e administração de medicamentos”, o qual objetivou verificar necessidades educacionais de enfermeiros em um hospital universitário do interior do Estado de São Paulo(7) . Deve-se lembrar, no que concerne à categoria Preparo/Apresentação da Medicação, que as tendências atuais são de que os medicamentos sejam preparados para ser administrados pelos enfermeiros, auxiliares e técnicos, como no caso do sistema de distribuição por dose unitária, fato que já acontece nos casos de quimioterapia e nutrição parenteral na instituição em estudo. Há laboratórios que lançam no mercado determinados medicamentos na forma preparada já com a dose correta a ser administrada, como no caso da enoxaparina. Neste caso, a medicação vem do einstein. 2004; 2(3):182-6 186 Grou CR, Cassiani SHB, Telles Filho PCP, Opitz SP laboratório farmacêutico em seringa própria, especificando a dose contida na mesma, não podendo serem administradas frações de dose. Com isto, a atividade de quem administra a medicação torna-se difícil e confusa. No tocante à categoria Associação de Medicamentos, sabe-se que é imprescindível que a equipe de enfermagem, durante a terapêutica medicamentosa, observe e avalie o cliente quanto a possíveis interações medicamentosas e incompatibilidades farmacológicas, minimizando riscos ao mesmo(5) . Destaca-se que na categoria Vias de Administração alguns profissionais desconhecem a administração de medicamentos no músculo ventroglúteo, deixando clara a deficiência de conhecimento, inclusive quanto à técnica; daí necessitam de atualização a respeito dos princípios que permeiam o preparo da medicação (assepsia, diluição) e na administração (técnica, anatomia). Na categoria Dose Apresentada e Dose Ministrada, depara-se com situações cotidianas em que os profissionais apresentam dificuldades na realização dos cálculos dos medicamentos pelo não domínio de questões matemáticas. É fundamental, também, o conhecimento sobre os princípios que envolvem a administração de medicamentos, ações, interações e efeitos colaterais, uma vez que um erro pode trazer graves conseqüências aos clientes sob responsabilidade desses profissionais(8). Pôde-se identificar a maior parte das dúvidas na categoria Alterações nas Condições do Paciente, as quais podem estar relacionadas às diferentes condutas adotadas pelos enfermeiros ou determinadas equipes médicas, expressando, assim, a necessidade da elaboração de protocolos para que a conduta possa ser a mesma, facilitando tanto o trabalho dos enfermeiros quanto dos auxiliares e técnicos de enfermagem. O atual desenvolvimento tecnológico dos produtos farmacêuticos, envolvendo os medicamentos quanto a diferentes embalagens, apresentação, diluição, modo de preparo e administração gera dúvidas significativas. Neste contexto, ressalta-se a importância da educação continuada e do conhecimento atualizado por parte dos enfermeiros. Assim, estratégias educativas, tais como discussão em grupo a partir desses questionamentos, grupos de estudos, estudos clínicos, reuniões multiprofissionais e elaboração de protocolos a partir dessas questões e de outras que porventura vierem a surgir são propostas que se apresentam a partir dos dados emergidos. Há de se ressaltar a importância da utilização dessas estratégias educacionais, em conjunto, com a elaboração de protocolos que visem a um esclarecimento acerca de todas as categorias identificadas no estudo e conseqüentemente a uma maior segurança na realização do processo da administração de medicamentos. CONCLUSÕES Esse estudo identificou, a partir das dúvidas apresentadas, a necessidade de supervisão contínua para a ação do processo da administração de medicamentos, o constante aprimoramento através das estratégias sugeridas, bem como a elaboração e implantação de protocolos. A falta de conhecimentos e de atualização na temática “administração de medicamentos” tem possibilitado a ocorrência de erros no processo da administração dos mesmos(3,7,9). Tal cenário faz ressaltar a necessidade de educação permanente, já que na prática de pesquisa pode-se observar que a educação e supervisão contínua, realizada pelo enfermeiro em seus diversos ambientes de trabalho é prática altamente fecunda. A elaboração de protocolos especificando o que deve ser feito em determinadas situações auxilia significativamente a assistência de enfermagem. Reconhece-se que, em nem todas as situações, caberiam protocolos, mas em algumas poderiam ser implantados, facilitando e melhorando a assistência de enfermagem. Há de se destacar a importância da realização de outros estudos, com objetivo semelhante, que investigassem uma amostra maior de auxiliares e técnicos de enfermagem, bem como de outras instituições para a proposta de outras alternativas em busca crescente de estratégias que visassem a uma eficiente qualidade da assistência de enfermagem. einstein. 2004; 2(3):182-6 187 Grou CR, Cassiani SHB, Telles Filho PCP, Opitz SP REFERÊNCIAS 1. Reed L, Blegen MA, Goode CS. Adverse patient occurrences as a measure of nursing care quality. J Nurs Adm. 1998; 28(5):62-9. 2. Arcuri EAM. Reflexões sobre a responsabilidade do enfermeiro na administração de medicamentos. Rev Esc Enfermagem USP. 1991; 25(2):229-37. 3. Oliveira VT, Cassiani SHB. Análise técnica e científica da administração de medicamentos por via intramuscular em crianças por auxiliares de enfermagem. Acta Paul Enfermagem. 1997; 10(2): 49-61. 4. Cassiani SHB, Rangel SM, Tiago F. 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Atividade 04 Farmacologia Técnico em Enfermagem Revista da Rede de Enfermagem do Nordeste ISSN: 1517-3852 rene@ufc.br Universidade Federal do Ceará Brasil Azevêdo, Ozimar; Braz da Silva, Cícera Maria; Dantas Pinheiro de Araújo, Leonardo José; de Oliveira Costa, Edilma; da Conceição Dias Fernandes, Maria Isabel; Brandão de Carvalho Lira, Ana Luisa Dificuldades vivenciadas por técnicos de enfermagem no preparo de medicamentos Revista da Rede de Enfermagem do Nordeste, vol. 15, núm. 4, julio-agosto, 2014, pp. 585-593 Universidade Federal do Ceará Fortaleza, Brasil Disponible en: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=324032212005 Cómo citar el artículo Número completo Más información del artículo Página de la revista en redalyc.org Sistema de Información Científica Red de Revistas Científicasde América Latina, el Caribe, España y Portugal Proyecto académico sin fines de lucro, desarrollado bajo la iniciativa de acceso abierto http://www.redalyc.org/revista.oa?id=3240 http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=324032212005 http://www.redalyc.org/comocitar.oa?id=324032212005 http://www.redalyc.org/fasciculo.oa?id=3240&numero=32212 http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=324032212005 http://www.redalyc.org/revista.oa?id=3240 http://www.redalyc.org 585Submetido: 30/01/2014; Aceito: 02/09/2014. Rev Rene. 2014 jul-ago; 15(4):585-93. DOI: 10.15253/2175-6783.2014000400005 www.revistarene.ufc.br Artigo Original Dificuldades vivenciadas por técnicos de enfermagem no preparo de medicamentos Difficulties experienced by nursing professionals in the preparation of medicine Dificultades vividas por técnicos de enfermería en el preparo de medicamentos Ozimar Azevêdo1, Cícera Maria Braz da Silva1, Leonardo José Dantas Pinheiro de Araújo2, Edilma de Oliveira Costa1, Maria Isabel da Conceição Dias Fernandes1, Ana Luisa Brandão de Carvalho Lira1 Objetivou-se analisar dificuldades vivenciadas por técnicos de enfermagem durante o preparo de medicamentos. Pesquisa descritiva, realizada em hospital universitário de cidade do nordeste brasileiro. Foram entrevistados 25 técnicos de enfermagem, por meio de um roteiro de entrevista semiestruturado, durante janeiro e fevereiro de 2013. As dificuldades durante o preparo de medicamentos foram: prescrição médica pouco legível; rótulos dos medicamentos com letras pequenas e semelhantes; ausência de local exclusivo para essa atividade; dispensação errada pela farmácia; iluminação inadequada; e acúmulo de funções. Concluiu-se que foram identificadas dificuldades relacionadas ao preparo de medicamento. Assim, para garantir a terapêutica medicamentosa segura, são imperativas estratégias que favoreçam a eficácia desse processo. Descritores: Cuidados de Enfermagem; Erros de Medicação; Preparações Farmacêuticas; Segurança do Paciente. We aimed at analyzing the difficulties experienced by nursing professionals during the preparation of medication. It is a descriptive study conducted in a university hospital in a city in northeastern Brazil. 25 nursing professionals were interviewed, using a semi-structured interview script, during the months of January and February 2013. The difficulties during the preparation of medicine were: prescription barely legible; labels of medicine with small and similar letters; lack of exclusive venue for this activity; wrong expedition by the drugstore; inadequate lighting, and accumulation of functions. The conclusion is that difficulties related to the pharmaceutical process were identified. So, in order to ensure safe medicine therapy, it is necessary to have mandatory strategies which favor the effectiveness of this process. Descriptors: Nursing Care; Medication Errors; Pharmaceutical Preparations; Patient Safety. El objetivo fue analizar las dificultades vividas por técnicos de enfermería durante el preparo de medicamentos. Investigación descriptiva, realizada en hospital universitario de ciudad de nordeste brasileño. Fueron entrevistados 25 técnicos de enfermería, a través de un guión de entrevista semiestructurada, entre enero y febrero de 2013. Las dificultades durante el preparo de los medicamentos fueron: prescripción médica poco legible; etiquetas de los medicamentos con letras pequeñas y semejantes; ausencia de local exclusivo para esa actividad; dispensación errónea por la farmacia; iluminación inadecuada; y acumulo de funciones. En conclusión, fueron identificadas dificultades relacionadas al preparo de medicamentos. Así, para garantizar la terapéutica medicamentosa segura, son imperativas estrategias que favorezcan la eficacia de ese proceso. Descriptores: Atención de Enfermería; Errores de Medicación; Preparaciones Farmacéuticas; Seguridad del Paciente. 1Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, RN, Brasil. 2Hospital do Coração. Natal, RN, Brasil. Autor correspondente: Ana Luisa Brandão de Carvalho Lira Departamento de Enfermagem, Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Campus Universitário, S/N - Lagoa Nova. CEP: 59072-970. Natal, RN, Brasil. E-mail: analuisa_brandao@yahoo.com.br Azevêdo O, Silva CMB, Araújo LJDP, Costa EO, Fernandes MICD, Lira ALBC Rev Rene. 2014 jul-ago; 15(4):585-93.586 Introdução Apesar dos avanços e das tecnologias utilizadas atualmente na área da saúde, os riscos inerentes ao cuidar estão presentes no cotidiano dos ambientes hospitalares. Nesse contexto, a segurança do paciente deve ser uma prática inserida no processo do cuidar dos profissionais da saúde e não deve ser entendida somente como a ausência de erros na assistência à saúde, mas também como a garantia de um cuidado bem sucedido favorecendo a promoção, prevenção, proteção e recuperação da saúde do indivíduo em todos os níveis de atenção. Assim, a segurança do paciente deve ser preservada em todos os procedimentos terapêuticos, sobretudo no processo de preparo e administração de medicamentos, o qual envolve riscos potenciais ao paciente, podendo repercutir na morbidade e mortalidade dos mesmos, além de ser o responsável por 70% das iatrogenias com paciente(1). O processo de administração de medicamentos é delineado como um sistema complexo, de etapas interligadas, interdependentes e executado por diferentes profissionais da área de saúde. Dentre a equipe multiprofissional, destacam-se os profissionais de enfermagem que constituem a maior força de trabalho na área de saúde(2), especificamente os técnicos e auxiliares de enfermagem, profissionais responsáveis pela maior parte dos erros inerentes ao cuidar, conforme estudo sobre as iatrogenias na enfermagem. Esses possuem como atribuições, além de outras atividades, o preparo e administração de medicamentos, entretanto, essa e outras práticas devem ser executadas sob a supervisão de um profissional do ensino superior, como o enfermeiro, realidade nem sempre vivenciada(1,3). Embora a administração e o preparo de medicamentos sejam procedimentos básicos de enfermagem, exigem aprimoramento do profissional, tanto em relação aos conhecimentos científicos quanto às técnicas de manuseio e aplicação, priorizando estratégias de prevenção de erros com vistas à segurança do paciente. O processo de preparo e administração de medicamentos é passível de erros, pois faz parte da condição humana o ato de errar, sendo influenciado tanto por fatores pessoais quanto pelo sistema que rege as atividades a serem realizadas(4). Contudo, quando se trata do cuidado com a saúde do indivíduo, sobretudo aquele em uso de terapia medicamentosa, é imperativo promover a segurança do paciente visando benefícios para a sua saúde e o sucesso da assistência. Essa condição torna- se viável com a adoção de medidas de prevenção de erros no preparo e administração de medicamentos e estratégias de vigilância em saúde e de educação continuada. Na perspectiva do cuidar seguro, defende- se que o processo de trabalho dos profissionais de enfermagem deve se basear na prevenção de erros com o propósito de assegurar o direito à assistência livre de danos e assim oferecer uma assistência saudável e segura(4). Destaca-se que foi observada na literatura a existência de poucos estudos que abordassem a problemática sobre as dificuldades no preparo de medicamentos sob a ótica dos técnicos de enfermagem. Ademais, essa temática de estudo encontra-se inserida em uma das linhas prioritárias em pesquisa mencionada na Agenda Nacional de Prioridades de Pesquisa em Saúde, lançado pelo Ministério da Saúde(5). Diante do exposto, considera-se imperativo promover a segurança ao paciente durante a terapia medicamentosa, cujo processo pode incorrer com erros e estes são influenciados por fatores diversos, tanto relacionados a aspectos profissionais, físico- estruturais e de rotina. Assim, pressupõe-se que os profissionais de enfermagemexperimentam dificuldades durante o preparo de medicamentos, condições que podem favorecer a ocorrência de falhas, que por sua vez podem repercutir em danos de maior ou menor gravidade na vida dos pacientes. Nesse sentido, questionou-se: quais as dificuldades apontadas por profissionais de enfermagem durante Rev Rene. 2014 jul-ago; 15(4):585-93. Dificuldades vivenciadas por técnicos de enfermagem no preparo de medicamentos 587 o preparo de medicações? A partir da questão de pesquisa, o objetivo do estudo foi analisar dificuldades vivenciadas pela equipe de enfermagem durante o preparo de medicamentos. Método Pesquisa descritiva, a qual visa observar e descrever determinado fenômeno(6). Realizada em hospital universitário localizado no nordeste do Brasil, cuja população foi composta, especificamente, por 27 técnicos de enfermagem do referido hospital e amostra constituída por 25 servidores. Os critérios de inclusão foram: estar na escala de serviço no período da coleta dos dados; realizar atividades diretamente relacionadas ao preparo e administração de medicamentos. O critério de exclusão foi: idade inferior a 18 anos. O instrumento de pesquisa utilizado foi um roteiro de entrevista semiestruturado, contendo questões sociodemográficas e inerentes ao objeto de estudo. Os dados foram coletados até a saturação, obtida quando nenhuma informação nova surgiu em relação a uma categoria(7). As entrevistas foram gravadas utilizando-se um aparelho de áudio digital e identificadas após a transcrição por uma letra E seguidas de um número atribuído aleatoriamente, com o intuito de garantir o anonimato dos participantes. Ademais, ocorreram anotações em diário de campo, com a finalidade de registrar informações complementares aos depoimentos. O tratamento dos dados foi realizado de acordo com os preceitos da análise de conteúdo do tipo classificatório: as respostas às perguntas abertas de um questionário(8). Assim, as falas dos sujeitos foram transcritas, identificados os núcleos de sentido, e posteriormente codificadas e categorizadas. Desse processo, originou-se uma categoria: o técnico de enfermagem e suas dificuldades para o preparo de medicamentos. Tal categoria foi analisada e discutida a partir do levantamento da literatura sobre o assunto, envolvendo a segurança do paciente, terapia medicamentosa, erros de medicamentosos e assistência de enfermagem. Concernente aos aspectos éticos, a realização da pesquisa levou em consideração quatro princípios básicos da bioética que compreendem autonomia, não maleficência, beneficência e justiça, tendo em vista assegurarem os direitos e deveres relacionados à comunidade científica e aos sujeitos da pesquisa(9). Dessa forma, o projeto de pesquisa foi enviado ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sendo analisado e emitido parecer favorável por meio do número do processo 170.355. Resultados Referente à caracterização dos participantes, a maioria dos entrevistados era do sexo feminino (84%), tinha idade média de 50 anos, variando de 23 a 64 anos. Quanto ao estado civil, 44% eram solteiros, 32% casados e 24% possuíam união estável. Relativo à escolaridade 52% dos entrevistados possuíam nível médio completo, 36% nível superior completo e 12% o superior incompleto. Quando questionados sobre o tempo de trabalho na área de enfermagem, as respostas variaram entre um e 39 anos, com média de 28,36 anos. Concernente ao tempo de trabalho na instituição pesquisada, este variou entre um e 34 anos, com média de 24,16 anos. Sobre o setor de trabalho, 36% atuavam na pediatria, 28% no centro cirúrgico, 24% no alojamento conjunto e 12% na sala de parto. Apenas 8% afirmaram trabalhar em outra instituição hospitalar e 24% revelaram possuir mais de uma fonte de renda distintas da área da saúde, além daquela obtida como técnico de enfermagem. Ao serem indagados sobre alterações visuais, uma vez que essas poderiam implicar no preparo das medicações, 40% declararam-se míopes, 20% tinham astigmatismo, 8% hipermetropia e 8% eram Azevêdo O, Silva CMB, Araújo LJDP, Costa EO, Fernandes MICD, Lira ALBC Rev Rene. 2014 jul-ago; 15(4):585-93.588 portadores de miopia associado a astigmatismo. Todos os profissionais com alteração na visão utilizavam correção visual por meio de óculos. Destaca-se que apenas 24% dos entrevistados não apresentavam problemas oculares. No tocante ao número de medicamentos preparados por dia, considerando um plantão de 12 horas, 44% dos sujeitos afirmaram uma média de 10 vezes, 28% afirmaram de seis a nove vezes, 20% de duas a cinco vezes e 8% apenas uma vez. Em relação ao local de preparo do medicamento, 36% dos depoentes afirmaram que, por não existir um local exclusivo na instituição para a realização desse procedimento, este era realizado na “pia do posto de enfermagem”. Referente à iluminação do posto de enfermagem 52% a consideraram como “boa”. No que tange às dificuldades relacionadas ao preparo de medicamentos, a partir das análises dos discursos destacaram-se: a prescrição médica realizada manualmente e caligrafia pouco legível. Tal fato é ilustrado nos discursos a seguir: Primeiro, tem médico que tem a letra na qual não dá para a gente entender, a caligrafia é muito ruim. Às vezes ele coloca um dois e a gente não sabe se é um oito (E16). A letra dos médicos que precisamos adivinhar o que está escrito. Temos que procurar uma enfermeira para decifrar o que está escrito na prescrição (E24). Em seguida, emergiu das falas o problema em identificar precisamente a nomenclatura dos medicamentos grafados nos recipientes. Essa situação ocorre devido aos recipientes e rótulos dos medicamentos conterem letras com fontes pequenas e frascos parecidos, conforme evidencia os discursos a seguir: Os rótulos das medicações que têm a cor quase igual com a cor das ampolas. Existem medicações com rótulos parecidos, que se a gente não prestar atenção se atrapalha; O tamanho das letras dos rótulos que é muito pequeno, dificultando para ler (E17). Problemas com identificações de algumas medicações (letras pequenas, ofuscamento dos nomes quando refletido com a luz, medicamentos diferentes com identificações parecidas) (E8). O local impróprio para o preparo de medicamentos ou a falta de um lugar específico para este fim configuraram-se como outro obstáculo. Além disso, os depoentes mencionaram também as conversas e distrações como fator que predispõe a ocorrência de erro no preparo de medicamentos bem como o excesso de pessoas e ruídos no posto de enfermagem, como demonstrado nas falas a seguir: As dificuldades são a quantidade de pessoas no posto de enfermagem, as conversas, o fluxo de pessoas, o barulho. O posto de enfermagem é no corredor. Outros profissionais entram toda hora no posto para usar o telefone, para sentar e evoluir os pacientes. A visita médica é passada aqui. Eles chamam a gente toda hora. Você está preparando os medicamentos e o povo chama o tempo inteiro (E9). Muitas vezes estou preparando uma medicação e sou chamada para atender nas enfermarias, telefone, receber uma paciente que está chegando, dentre outros. Isso faz com que você desconcentre e venha a cometer um erro (E5). Verificaram-se ainda problemas como a dispensação pela farmácia de medicamentos errados e a desorganização no armazenamento de drogas no posto de enfermagem. Constatou-se também que os técnicos de enfermagem consideraram o excesso de atribuições/funções e o número elevado de medicamentos para prepararem como fatores que representam transtornos/empecilhos no preparo de medicamentos. Com menor frequência, outras dificuldades foram mencionadas pelos técnicos de enfermagem, tais como: leitos com identificação deficiente ou sem identificação; diferentes formas de administração de medicamentos, como a intramuscular, a endovenosa, a oral e a subcutânea; falta de conhecimentossobre os medicamentos, principalmente sobre o prazo de validade da droga após seu preparo; sistema de distribuição coletiva; falta de comunicação na equipe; e deficiência visual. Discussão O processo de preparo e administração de medicamentos em uma organização hospitalar pode ser definido como um sistema complexo, em virtude de possuir muitas etapas interligadas, interdependentes e constituídas por diferentes profissionais da área da Rev Rene. 2014 jul-ago; 15(4):585-93. Dificuldades vivenciadas por técnicos de enfermagem no preparo de medicamentos 589 saúde que compartilham de um objetivo comum: a prestação da assistência à saúde dos pacientes com qualidade, eficácia e segurança. Dentro dessa equipe multiprofissional, destacam-se os profissionais de enfermagem, especificamente os técnicos e auxiliares de enfermagem, que constitui a maior força de trabalho na área de saúde em nível mundial(10). No Brasil, em 2010, a quantidade de profissio- nais de enfermagem abarcava 1.449.583 indivíduos, desses 43,18% são técnicos de enfermagem e 36,80% são auxiliares, perfazendo mais da metade da catego- ria. A maior parte envolve indivíduos com faixa etá- ria de 26 a 55 anos de idade, sendo 86,85% do sexo feminino e a maioria deles solteiros e casados(11), em consonância com os dados da presente pesquisa. Nesse contexto, são os profissionais acima citados, os responsáveis pela realização correta do preparo e administração de medicamentos, a qual é vital para a assistência medicamentosa segura, uma vez que pode ocasionar erros de medicação. O erro de medicação é compreendido como qualquer acontecimento evitável ocasionado pelo uso inadequado de medicamentos. Vale salientar que seu uso impróprio pode causar danos ao paciente, mesmo que as drogas estejam sob o controle dos profissionais de saúde ou do paciente(12). A maioria dos erros de medicamentos acontece no processo de preparo e administração. Os principais erros observados foram à omissão na dose, no horário e na técnica de administração. Tais erros foram mais expressivos quando eram utilizados antineoplásicos, imunomoduladores e anti-infecciosos(13). Referente às condutas adotadas pelos profissionais de enfermagem diante da ocorrência do erro, destaca-se a sua omissão, a qual acontece em virtude do não reconhecimento de ter cometido o erro e/ou pelo medo das consequências inerentes ao ato e pela culpa(14). Nessa perspectiva, as dificuldades vivenciadas pelos profissionais de enfermagem durante o preparo de medicamentos podem ser determinantes para a ocorrência de erros. Destarte, nesse estudo, o principal problema vivenciado por técnicos de enfermagem durante o preparo de medicamentos envolveu a prescrição médica manual, cuja caligrafia desfavorecia a sua compreensão. Este fato corrobora com os resultados encontrados em outro estudo, no qual, dentre as 441 prescrições médicas investigadas durante o período de um mês, 363 continham algum tipo de erro, dos quais, 166 estavam ligados a ilegibilidade das prescrições e cinco com rasuras(15). Pesquisa multicêntrica identificou 1425 erros relacionados aos medicamentos, sendo 215 inerentes à dosagem, envolvendo siglas e abreviaturas nas prescrições, ausência do registro do paciente, falta da posologia e supressão da data(16). Desse modo, nas situações de prescrição médica ilegível, os técnicos de enfermagem devem solicitar uma segunda opinião, caso haja persistência na dúvida, deve-se acionar seu supervisor, ou enfermeiro. Se o problema não for solucionado, pode ser feito a consulta da prescrição anterior. E se ainda assim, a dúvida permanecer, a equipe médica deverá ser acionada(17). Nessa perspectiva, a utilização de sistemas informatizados para a prescrição da terapêutica, a torna mais segura, tendo-se em vista que a receita se apresentará legível e padronizada(18). Além da prescrição de medicamentos, os técnicos de enfermagem mencionaram a dificuldade na identificação correta, pois estes possuem recipientes com tamanho reduzido, de cores e formatos semelhantes e com grafia pequena das letras, fato que amplia a possibilidade de erros. Tal assertiva é reforçada por estudo em que 43% dos medicamentos avaliados foram considerados potencialmente parecidos, em função dos rótulos ou embalagens apresentarem semelhanças, contribuindo para a ocorrência de erros no processo de preparo de medicamentos(17). Devido à semelhança dos medicamentos e os fatores de risco relacionados ao preparo errado desses, há ampla discussão sobre a importância da implantação do sistema de distribuição de medicamentos por dose individual, evitando-se inadequações e garantindo-se maior segurança Azevêdo O, Silva CMB, Araújo LJDP, Costa EO, Fernandes MICD, Lira ALBC Rev Rene. 2014 jul-ago; 15(4):585-93.590 à terapêutica medicamentosa(17). Contudo, essa proposta envolve outros aspectos que precisam ser considerados como ampliação do pessoal da farmácia. Associado a isso há questões éticas envolvidas, uma vez que os profissionais de enfermagem não podem se responsabilizar por medicamentos não preparados por eles. Ademais, evidencia-se como dificuldade a presença de interrupções, nível de ruído elevado ou frequente e dificuldade para armazenamento dos medicamentos. Esta situação condiz com a falta de espaço reservado para o preparo de medicamentos, o que colabora para a ocorrência de distrações e interrupções. Estudo revela que o local de preparo de medicamentos deveria ser organizado, com iluminação adequada, com pouco ruído a fim de prevenir a ocorrência de erros, entretanto, essa realidade não é muito frequente nas instituições(18) e no hospital pesquisado, no qual os profissionais revelaram a inexistência de um local exclusivo para o preparo de medicamentos. Além disso, destaca-se a ausência de diretrizes e protocolos institucionais tendo como alvo o preparo de medicamentos e demais providências relacionadas(19). Outro fator desfavorável é o despreparo dos profissionais de enfermagem concernente aos aspectos que envolvem medicações. Dentre estes se destaca a carência de informações sobre o preparo e administração de medicamentos, sobrecarga e más condições de trabalho, repercutindo em erros de cálculos, de preparo e de administração(2). Referente ao despreparo, estudos afirmam que um extenso número de escolas técnicas funcionando com estrutura física inadequada e com corpo docente não satisfatório, reflete na formação de técnicos nem sempre qualificados, sendo fundamental a educação permanente desses profissionais nas instituições nas quais atuam, com vistas a sanar essa problemática(20). Nesse aspecto, é válido destacar que na presente pesquisa 36% dos técnicos de enfermagem possuíam curso superior e 12% o estavam cursando, realidade que denota a busca desses profissionais por melhores condições de ensino e preparo técnico e científico. Estudo acrescenta como causa de erros medicamentosos, a falta de atenção, associada à inexperiência de alguns profissionais e os problemas estruturais de algumas instituições(20). Nesse aspecto, a inexperiência não pode ser citada como um problema neste estudo, tendo-se em vista que a média de tempo de trabalho, na área de enfermagem foi de 28,36 anos. Os investigados também destacaram o excesso de funções, bem como a grande quantidade de medicamentos para preparem como uma das dificuldades vivenciadas, tendo-se em vista que a maior parte da amostra preparava em um plantão de 12 horas, pelo menos 10 medicamentos. Além disso, a maior parte trabalha na Pediatria e Centro Cirúrgico, local no qual se exigem maior atenção e trabalho. Pesquisa assevera que ao se associar à sobrecarga, falta de experiência e desatenção, a probabilidade de ocorrer um erro aumenta, decorrente do acelerado ritmo de trabalho exigido pelas instituições de saúde, elevado número de profissionais incapaz de suprir a demanda de cuidados aos pacientes, bem como à remuneraçãodeficitária, a qual induz a procura de outras instituições para melhorar a renda(20). Nessa perspectiva, essa realidade é verificada no estudo em questão, pois 8% dos técnicos trabalham em outra instituição hospitalar e 24% possuem outro tipo de fonte de renda que não a enfermagem. Os erros decorrentes da dispensação de medicamentos pela farmácia é destacado nesse estudo como um problema vivenciado. Sabe-se que as farmácias possuem como principal atribuição a dispensação adequada dos medicamentos, os quais devem ser distribuídos em comum acordo com a prescrição médica. Entretanto, muitos erros na dispensação de medicamentos ocorrem e não são detectados, e mesmo que não causem consequências graves aos pacientes, pois a maioria é visualizada a tempo pelo profissional de enfermagem, deve ser investigada, pois faz parte de uma etapa importante no processo medicamentoso(21). Outras dificuldades mencionadas pelos técni- Rev Rene. 2014 jul-ago; 15(4):585-93. Dificuldades vivenciadas por técnicos de enfermagem no preparo de medicamentos 591 cos de enfermagem, apesar de terem sido detectadas com menor frequência, são consideradas como impor- tantes causas de erros na terapêutica medicamento- sa, a saber: leitos com identificação deficiente ou sem identificação; diferentes formas de administração de medicamentos; sistema de distribuição coletiva; falta de comunicação na equipe e deficiência visual. Sabe-se que a identificação correta dos pacientes bem como a comunicação efetiva faz parte dos 10 passos para a segurança do paciente. A identificação imprecisa pode causar erros não apenas de medicamentos, mas também na transfusão de hemocomponentes, em testes diagnósticos, procedimentos em locais errados, dentre outros. Nesse sentido, para a identificação correta deve-se utilizar não apenas o número do leito do paciente, os quais nem sempre possuem identificação satisfatória, deve, portanto, utilizar-se pulseiras de identificação, prontuários, etiquetas e participação dos pacientes e familiares para confirmação de seu nome(22). Referente à comunicação, quando essa é ineficiente pode gerar erros medicamentosos pela equipe de enfermagem, podem ser decorrentes de falhas na prescrição, nas transcrições ou entre as equipes, sendo de vital importância a equipe de enfermagem atentar-se a esses aspectos(18). A distribuição coletiva além de confundir o técnico de enfermagem no momento da distribuição ao paciente, se cada medicamento não estiver bem identificado, gera grande quantidade de medicamentos que não são consumidos pelos pacientes, aumentando os estoques de medicamentos no setor, que pode repercutir em erros na administração de medicamentos, extravios, acondicionamento inapropriado e perdas de medicamentos por causa da validade vencida, gerando maiores gastos para o hospital(23). No que tange a alteração visual, a maioria dos investigados apresentava alguma alteração, entretanto, todos esses utilizavam correção visual. Assim, subtende-se que os erros relacionados à deficiência visual é sanado pelo uso de lentes corretivas, não havendo repercussões no trabalho profissional. Nesse sentido, os técnicos de enfermagem devem realizar o preparo e administração de medicamentos atentando para os requisitos básicos que garantam a ausência de danos ao cliente. Sendo assim, é indispensável o desenvolvimento de estratégias que favoreçam o cuidado seguro no que diz respeito à terapêutica medicamentosa. Tendo-se em vista que a ocorrência do erro medicamentoso poderá provocar danos não somente ao paciente, mas também aos profissionais que deles cuidam e às instituições de saúde(20). Conclusões Os técnicos de enfermagem vivenciam dificuldades para realizar o correto preparo de medicamentos, relacionados aos aspectos organizacionais, físico-estruturais e profissionais. Atinente aos aspectos organizacionais verificou-se a ocorrência de prescrições médicas ilegíveis ou pouco legíveis, problemas na distribuição dos medicamentos e poucos recursos humanos. Referente aos aspectos físico-estruturais destacam- se os rótulos dos medicamentos semelhantes, bem como a ausência de local próprio para o preparo de medicamentos e iluminação precária. Conclui-se que a terapia medicamentosa e, sobretudo, a segurança do paciente não são totalmente isentas de riscos decorrente de inúmeros fatores que se interligam. Sendo assim, a assistência integral, humanizada e livre de danos à saúde do usuário não é garantida em sua totalidade. Os erros fazem parte da condição humana e sempre existirão, haja vista, a incompletude do ser humano, os movimentos de mudanças e aperfeiçoamentos continuados da espécie. Entretanto, faz-se necessário o desenvolvimento de uma cultura do cuidado seguro com a ideia de minimização de erros e, consequentemente, danos à saúde do paciente. Azevêdo O, Silva CMB, Araújo LJDP, Costa EO, Fernandes MICD, Lira ALBC Rev Rene. 2014 jul-ago; 15(4):585-93.592 Colaborações Azevêdo O, Silva CMB e Araújo LJDP contribuíram para a concepção do estudo, coleta de dados, análise, interpretação dos dados e redação do manuscrito. Costa EO, Fernandes MICD e Lira ALBC contribuíram para a concepção final, redação do manuscrito e aprovação da versão final. Referências 1. Leal AA, Reis DS, Silva ALF, Barbosa AC. A iatrogenia na enfermagem. Rev Eletr UNIVAR [Internet]. 2013 [citado 2014 jun 20]; 1:102-8. Disponível em: http://www.revista.univar.edu. br/index.php/interdisciplinar/article/view/62. 2. Praxedes MFS, Filho PCPT. Erros e ações praticadas pela instituição hospitalar no preparo e administração de medicamentos. Rev Min Enferm. 2011; 15(3):406-11. 3. Arboit AL, Silva LAA. Eventos adversos relacionados à terapia medicamentosa na enfermagem. Rev Enferm. 2012; 8(8):140-53. 4. Coli RCP, Anjos MF, Pereira LL. The attitudes of nurses from an intensive care unit in the face of errors: an approach in light of bioethics. Rev Latino-Am Enfermagem. 2010; 18(3):324-30. 5. Ministério da Saúde (BR). Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Agenda Nacional de Prioridades de Pesquisa em Vigilância Sanitária. 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Eventos adversos relacionados a medicamentos:Eventos adversos relacionados a medicamentos:Eventos adversos relacionados a medicamentos:Eventos adversos relacionados a medicamentos:Eventos adversos relacionados a medicamentos: perperperperpercepção de técnicos e auxiliares de enfermagemcepção de técnicos e auxiliares de enfermagemcepção de técnicos e auxiliares de enfermagemcepção de técnicos e auxiliares de enfermagemcepção de técnicos e auxiliares de enfermagem Eventos adversos relacionados a medicamentos: percepción de técnicos y auxiliares de enfermería Medication-related adverse events: percepception of nursing aides VVVVValéria Laléria Laléria Laléria Laléria Lamb Corbelliniamb Corbelliniamb Corbelliniamb Corbelliniamb CorbelliniIIIII, Maria Cristina Lore Schilling, Maria Cristina Lore Schilling, Maria Cristina Lore Schilling, Maria Cristina Lore Schilling, Maria Cristina Lore SchillingIIIII,,,,, Solange FSolange FSolange FSolange FSolange Fassbinder Fassbinder Fassbinder Fassbinder Fassbinder FrantzrantzrantzrantzrantzIIIIIIIIII, T, T, T, T, Tatiana Gonçalves Godinhoatiana Gonçalves Godinhoatiana Gonçalves Godinhoatiana Gonçalves Godinhoatiana Gonçalves GodinhoIIIIIIIIIIIIIII, Janete de Souza Urbanetto, Janete de Souza Urbanetto, Janete de Souza Urbanetto, Janete de Souza Urbanetto, Janete de Souza UrbanettoIIIII RESUMORESUMORESUMORESUMORESUMO O processo de administração de medicamentos está relacionado a um índice elevado de eventos adversos e têm sido foco de investimento das instituições. Este estudo prepôs-se a conhecer a percepção de técnicos e auxiliares de enfermagem sobre eventos adversos relacionados a medicamentos. Foi realizada uma pesquisa qualitativa com dez profissionais técnicos e auxiliares de enfermagem de uma unidade de internação clínico-cirúrgica, em um hospital universitário da cidade de Porto Alegre, RS, Brasil. Os resultados evidenciaram que os fatores mais comumente envolvidos em erros de medicação são a sobrecarga de trabalho, a identificação incorreta do paciente, além de outros fatores associados. Conclui-se que há necessidade de se desenvolverem ações para favorecer uma mudança de cultura que garanta a segurança do paciente nas instituições hospitalares. Descritores: Descritores: Descritores: Descritores: Descritores: Erros de medicação; Enfermagem; Educação. ABSTRACTABSTRACTABSTRACTABSTRACTABSTRACT The process of administering medication is linked to an elevated rate of adverse events and has been the focus of institutional investments. This study aimed at uncovering the perception of nursing aides regarding medication-related adverse events. A qualitative research was carried out with ten nursing aides from a clinical and surgical inpatient unit in a university hospital in Porto Alegre,RS, Brazil. Results show that the factors most commonly involved in medication errors are work overload and incorrect patient/client identification, as well as other associated factors. It was concluded that there is a need for the development of actions that favor cultural change that guarantees patient safety in hospital institutions. KKKKKey worey worey worey worey words:ds:ds:ds:ds: Medication errors; Nursing; Education RESUMENRESUMENRESUMENRESUMENRESUMEN El proceso de administración de medicamentos está relacionado a un índice elevado de eventos adversos y ha sido foco de inversiones de las instituciones. Este estudio propone conocer la percepción de algunos técnicos y auxiliares de enfermería sobre eventos adversos relacionados a medicamentos. Fue realizada una investigación cualitativa con diez técnicos y auxiliares de enfermería en una unidad de internación clínica y cirúrgica en un hospital universitario de la cuidad de Porto Alegre, RS, Brasil. Los resultados evidenciaron que los factores más comunmente involucrados en los errores de medicación son: la sobrecarga de trabajo, la identificación incorrecta del paciente/ cliente, además de otros factores asociados. Se concluye así que hay necesidad de desarrollar acciones que favorezcan una mudanza de cultura que garantize la seguridad del paciente en las instituciones hospitalares. Descriptores:Descriptores:Descriptores:Descriptores:Descriptores: Error de medicación; Enfermería; Educación. Submissão: Submissão: Submissão: Submissão: Submissão: 06/12/2009 AprAprAprAprAprovação: ovação: ovação: ovação: ovação: 07/11/2010 PESQUISAPESQUISAPESQUISAPESQUISAPESQUISA IPontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Curso de Graduação de Enfermagem. Porto Alegre, RS IIHospital Máe de Deus. Porto Alegre, RS IIIHospital São Lucas. Porto Alegre, RS PESQUISAPESQUISAPESQUISAPESQUISAPESQUISA Valéria Lamb Corbellini. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Av. Ipiranga, 6681. CEP 90619-900. Porto Alegre, RS. E-mail: vlamb@pucrs.br AAAAAUTOR CORRESPONDENTEUTOR CORRESPONDENTEUTOR CORRESPONDENTEUTOR CORRESPONDENTEUTOR CORRESPONDENTE Revista Brasileira de Enfermagem REBEn 242242242242242 Rev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 mar-abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): 241-7241-7241-7241-7241-7..... Corbellini VL, et al.Corbellini VL, et al.Corbellini VL, et al.Corbellini VL, et al.Corbellini VL, et al. INTRODUÇÃOINTRODUÇÃOINTRODUÇÃOINTRODUÇÃOINTRODUÇÃO Quando uma pessoa procura um serviço de Saúde, pressupõe- se que o profissional esteja habilitado, capacitado, e qualificado para atendê-la com segurança nos procedimentos que integram a assistência de enfermagem. A segurança, frequentemente definida como estar livre de lesão psicológica e física, é uma necessidade humana básica que deve ser satisfeita. O cuidado de saúde, fornecido de maneira consciente, e um ambiente comunitário seguro são essenciais para a sobre- vivência e bem-estar do cliente e também contribuem para a redução de atos não seguros dentrodo sistema de assistência à saúde, assim como para a utilização de boas práticas visando a alcançar ótimos resultados para o paciente(1-2). Os hospitais têm buscado aprimorar a qualidade da assistência como forma de obter diferenciação no contexto da Saúde. Nesse sentido, algumas entidades certificam as organizações hospitalares, de acordo com critérios estabelecidos e metas a serem alcançadas. A Joint Commission Internacional é uma organização que esta- belece e avalia padrões assistenciais voltados à segurança do pa- ciente. Para os hospitais serem credenciados nessa Organização, devem apresentar conformidade com metas, dentre elas: identifi- car os pacientes corretamente, melhorar a efetividade da comuni- cação entre profissionais da assistência e melhorar a segurança de medicações de risco(3). Durante a graduação em enfermagem, aprenderam-se inúmeros procedimentos técnicos que são de competência do enfermeiro, do técnico e do auxiliar de enfermagem. Dentre eles citam-se o prepa- ro e a administração de medicamentos, como sendo um processo que envolve várias etapas: prescrição médica, dispensação, distri- buição, preparo e administração propriamente dita. Esse processo está associado a um índice elevado de eventos adversos nos hospitais e tem sido foco de atenção dos gestores de enfermagem. Os eventos adversos são definidos como lesão não intencional que resulta em alguma incapacidade, disfunção transi- tória ou irreversível e/ou prolongamento do tempo de permanência no hospital ou morte, como conseqüência do cuidado prestado(4). Para uma administração segura de medicamentos o profissional da Área de Enfermagem deve atender a seis acertos: medicamento correto, dose correta, paciente correto, via correta, hora correta e documento correto(5). Os erros na administração de medicamentos podem trazer danos e prejuízos diversos ao paciente, desde o aumento de tempo de internação hospitalar, necessidade de intervenções diagnósticas e terapêuticas e até conseqüências irreversíveis como a morte(6). Um dos problemas enfrentados, devido à ocorrência de erros de medicação, é a ênfase dada à punição e não à educação, o que leva à subnotificação e facilita a repetição do erro(7). Os erros de medicação podem ser classificados em: erros de prescrição, de omissão, de horário, administração de uma medi- cação não autorizada, dose incorreta, apresentação, preparo, té- cnica de administração inadequadas, medicamentos deteriorados, monitoramento ineficiente, erros em razão da aderência do pa- ciente e outros(8). Em estudo realizado no ano de 2003, encontrou-se como primeira causa mais frequente de erros de medicação a caligrafia ilegível do médico, de difícil leitura e como a segunda causa a sobrecarga de trabalho do profissional de enfermagem(8). Muitos profissionais da Área da Saúde não comunicam ou noti- ficam eventuais erros por sentirem vergonha, por terem “idéia pu- nitiva”, por medo de sofrerem sanções administrativas, punições verbais, escritas, demissões, processos civis, legais e éticos(9). Para evitar que erros aconteçam, as Instituições de Saúde têm se preocupado em adotar uma política de segurança do paciente. Para tanto, é necessário que os erros sejam relatados e notificados para que se conheça a causa do problema e se possa intervir em caráter educativo, preventivo e não punitivo. Assim, esse estudo teve como objetivo conhecer a percepção de técnicos e auxiliares de enfermagem sobre eventos adversos relacionados a medicamentos. MMMMMÉÉÉÉÉTODOTODOTODOTODOTODO Tratou-se de um estudo de caráter qualitativo desenvolvido em uma unidade de internação clínica e cirúrgica de um hospital uni- versitário, situado na cidade de Porto Alegre,RS, Brasil. A popu- lação pesquisada incluiu dez profissionais de enfermagem, de for- mação técnica ou auxiliar, que prestavam assistência de enferma- gem no referido setor desse hospital. A amostra foi selecionada a partir do número total de funcionários da Unidade, que trabalha- vam nos turnos da manhã, tarde, noite I e noite II e possuíam mais de um ano de trabalho na Unidade em estudo e/ou Instituição. Do número total de funcionários (86), somente 72 preenchiam os critérios de inclusão, e destes, apenas 10 técnicos e auxiliares acei- taram participar do estudo. Para a ocasião da coleta dos dados, as pesquisadoras foram até o campo de prática, apresentaram o propósito do estudo ao enfermeiro, aos técnicos e auxiliares de enfermagem da referida Unidade. A coleta dos dados foi realizada por meio de entrevista semi-estruturada com cinco questões aber- tas, no período dos meses de março e abril de 2009. As entrevistas foram realizadas em local reservado na institu- ição e em horário que melhor se adequou aos entrevistados, gra- vadas, transcritas e armazenadas em um banco de dados. Cada participante recebeu um nome fictício para a identificação das en- trevistas (E1 a E10) e também para a preservação do anonimato de sua identidade. Os dados coletados foram analisados, utilizan- do-se a análise de conteúdo pelo método de Minayo(10), cuja temática desdobra-se nas etapas: pré-análise, exploração do material e trata- mento dos resultados obtidos e interpretados. Os princípios éti- cos, a preservação da identidade, a privacidade e confidenciali- dade das informações foram respeitadas, de acordo com os pres- supostos em relação à pesquisa com seres humanos, conforme resolução 196/96(11) e o estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da instituição. RESULRESULRESULRESULRESULTTTTTADOS E DISCUSSÃOADOS E DISCUSSÃOADOS E DISCUSSÃOADOS E DISCUSSÃOADOS E DISCUSSÃO Com base na análise dos dados, identificaram-se três temáticas e seus respectivos subtemas, que serão apresentados a seguir. Etapas do preparEtapas do preparEtapas do preparEtapas do preparEtapas do preparo e da administração de medicamentoso e da administração de medicamentoso e da administração de medicamentoso e da administração de medicamentoso e da administração de medicamentos A literatura descreve que o processo da medicação envolve várias etapas que vão desde a prescrição até a administração do fármaco. A enfermagem atua na última etapa que é o preparo e a adminis- 243243243243243Rev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 mar-abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): 241-7241-7241-7241-7241-7..... Eventos adversos relacionados a medicamentos: perEventos adversos relacionados a medicamentos: perEventos adversos relacionados a medicamentos: perEventos adversos relacionados a medicamentos: perEventos adversos relacionados a medicamentos: percepção de técnicos e auxiliares de enfermagemcepção de técnicos e auxiliares de enfermagemcepção de técnicos e auxiliares de enfermagemcepção de técnicos e auxiliares de enfermagemcepção de técnicos e auxiliares de enfermagem tração de medicamentos. Neste momento deve-se atender aos seis acertos, que englobam: medicamento correto, horário correto, dose correta, paciente correto, via correta e documentação correta(5). Além disso, devem-se esclarecer dúvidas, identificar o medicamento com nome do paciente, leito, nome do medicamento, via de ad- ministração, gotejo e tempo de infusão, bem como verificar a vali- dade dos equipos e da medicação diluída(12). Nessa temática emergiu uma sub-temática que será descrita a seguir. Rotinas no preparRotinas no preparRotinas no preparRotinas no preparRotinas no preparo e administração de medicamentoso e administração de medicamentoso e administração de medicamentoso e administração de medicamentoso e administração de medicamentos Embora a maioria dos entrevistados não tenha referido a con- ferência dos seis acertos como etapa fundamental do preparo e administração dos medicamentos, alguns não se esqueceram desse conceito, porém o aplicam de modo parcial, como pode ser evi- denciado nas falas a seguir: [...] na hora de administrar tu dá uma olhadinha se é pra aquele paciente.(E3) [...] coloca o nome da medicação, a quantidade dela e a via a ser administrada. [...] o cuidado com as vias certas, o paciente certo, é isso aí? (E4) [...] rótulo com nome e sobrenome, leito, assinatura, horário, tudo certinho, em que foi diluído, coisas desse tipo. (E9) [...] conforme a prescrição é diluída, é separada por horários, rotulada com nome de paciente, leito, horário e via. (E8) As medicações devem ser devidamente etiquetados com o nome do medicamento, dose, data e hora em que foi preparado, velocidade de gotejo, duração da infusão e a assinatura do profissional(5). A rotina de preparo das medicações nas instituições de Saúde deveria, por via de regra, seguir uma sistemática padrão, respei- tando as recomendações fornecidas pela indústria farmacêutica e também priorizando os seis acertos descritos na literatura para o preparo e administração de medicamentos. Entretanto, para uma administração segura do medicamento deve-se: manter cada medicamento em seu recipiente e com o seu devido rótulo; protegê-lo da exposição ao calor e luz conforme a particularidade de cada um; refrigerar, de forma adequada, o fár- maco, quando o mesmo exige; verificar o prazo de validade; ler os rótulos cuidadosamente e seguir as instruções para o preparo, notificando ao médico efeitos colaterais que o paciente possa apre- sentar(1). Um entrevistado relatou como realiza o processo de preparo e administração de medicamentos, conforme a fala que segue: [...] A gente prepara o material, tudo na hora. Não podemos preparar mais que 30 minutos antes de administrar. Levo tudo numa bandeja [...]. Preparo a medicação no posto, deixo tudo arrumadinho na bandeja, levo tudo, equipo, caixinha descar- pack, para não precisar voltar no posto. Os comprimidos eu não levo aberto e abro na frente do paciente. [...] E medicações endovenosas eu já deixo tudo preparadinho e só coloco lá, rot- ulado tudo, com nome, leito, conforme manda a situação. (E7) Percebe-se, nesta fala, que muitas medicações podem estar sendo preparados trinta minutos antes do horário que deveriam ser ad- ministradas, expondo os fármacos a fatores ambientais como calor, luminosidade, armazenamento inadequado, podendo, assim, oca- sionar a inativação ou redução da ação desejada. Em contrapartida, outros entrevistados referiram que o preparo e administração [...] “ocorre no posto, preparamos a medicação e administra- mos em seguida, tudo rotulado (E5)”, e que “[...] O preparo de medicamentos é realizado no exato momento da administração da medicação, aqui na instituição é norma, é regra. [...] violar o frasco somente no momento da aplicação do medicamento no paciente”. (E1) Alguns entrevistados acrescentaram, em suas falas, a forma de diluição, o tempo de permanência dos equipos e a permeabilidade do acesso, além de outros cuidados importantes: [...] Dependendo da medicação, tu dilui em soro glico ou fisio, aí tu tem que ver a quantia do soro [...] (E2) [...] Na hora de dar a medicação, sempre conferi o equipo, se está com a validade. Cuidar se o paciente está com flebite, se o acesso está bom. Acho que é isso. (E10) Antes de administrar uma solução endovenosa deve-se avaliar a permeabilidade do acesso e os sinais inflamatórios que possam indicar uma possível flebite. Nestas situações deve-se providenciar um novo sítio intravenoso, observar a data de validade da solução e a freqüência da troca dos equipos e acessos venosos, de acordo com a política da Instituição(1). Ao avaliar o exposto nesta temática, considerando, sobretudo, as características individuais de cada sujeito, percebe-se que, mes- mo entrevistando pessoas que trabalham em uma mesma unidade, sob uma mesma rotina, inseridos em uma mesma realidade, existe condutas diferentes para a realização do preparo e administração dos medicamentos, propiciando um ambiente favorável a falhas e ocorrências de eventos adversos, relacionados a medicamentos. Os eventos adversos são injúrias não intencionais decorrentes da desatenção à saúde, não relacionadas à evolução natural da doença de base, que ocasionam lesões nos pacientes acometidos, prolongamento do tempo de internação e/ou morte(13). FFFFFatores que podem induzir ao eratores que podem induzir ao eratores que podem induzir ao eratores que podem induzir ao eratores que podem induzir ao errrrrro de medicaçãoo de medicaçãoo de medicaçãoo de medicaçãoo de medicação Como a enfermagem atua na última etapa do processo da medi- cação, ela tem oportunidade de verificar e evitar um erro ocorrido nas etapas iniciais, sendo uma das últimas barreiras de prevenção(14). Nas entrevistas, quando questionados quanto aos fatores que poderiam induzir ao erro de medicamento e de suas percepções quanto a eles, os sujeitos revelaram que os fatores que mais lhes induzem aos erros são: a sobrecarga de trabalho, a letra ilegível da prescrição médica e a identificação incorreta do paciente/cliente. SobrecarSobrecarSobrecarSobrecarSobrecarga de trabalhoga de trabalhoga de trabalhoga de trabalhoga de trabalho A literatura traz dados de outro estudo, no qual se identificou a sobrecarga de trabalho como a segunda causa mais freqüente para 244244244244244 Rev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 mar-abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): 241-7241-7241-7241-7241-7..... Corbellini VL, et al.Corbellini VL, et al.Corbellini VL, et al.Corbellini VL, et al.Corbellini VL, et al. a ocorrência de erros de medicação ou quando o profissional é distraído por colegas, pacientes ou ocorrências no seu local de trabalho(8). No que tange à sobrecarga de trabalho os entrevistados refer- em que: [...] Pode acontecer de o técnico dar uma medicação errada por [...], muita correria, muito paciente [...] (E3) Olha, às vezes tu pega escala com doze pacientes, [...] dois, três pacientes dependentes e mais as outras pessoas te exigindo, que tu leve pra exame, que tu colete sangue, que tu troque fralda, tudo isso, então fica uma rotina, às vezes, quase impossível de realizar. Então tu tens que se desdobrar em dois, três, para dar conta disso. Com certeza te induz ao erro, com certeza! (E4) “Eu acho que o erro de medicação ocorre mais quando tu está com muito serviço, muitos pacientes”. (E5) As falhas humanas como falta de atenção, de conhecimento, de interesse e a pressa foi considerada a razão dos erros de medi- cação em um estudo do tipo survey exploratório em um hospital geral universitário(19). Como exemplo disto, cita-se a fala desses entrevistados: [...] Mas, isso tudo ocorre devido à pressa pra terminar as tarefas, intercorrências que acontecem no plantão e também excesso de tarefas dos funcionários. (E8) [...] acontece alguns erros de troca de medicação, por causa da correria. O pessoal sai correndo que nem louco, dando medi- cação. Não olha. (E9) Os fatores ambientais, como interrupções da tarefa, podem in- terferir na atenção no momento do preparo da medicação, con- forme expressa a fala a seguir: “Eu acho que é a pressa, às vezes a campainha tá tocando, tem que atender, se tu te distrai mais, até na hora de tirar a medi- cação, alguém chama e aí quando tu voltou tu já não está mais no mesmo pensamento ou tem que fazer algum transporte. Eu acho que é a pressa, mesmo que atrapalha”. (E10) Acredita-se também que a pressa na execução do trabalho está fortemente ligada à sobrecarga de trabalho, conforme evidenciou- se nas falas dos entrevistados citados nesta subtemática. Prescrição médicaPrescrição médicaPrescrição médicaPrescrição médicaPrescrição médica Uma prescrição de medicamento somente é completa se pos- suir: nome completo do paciente/cliente; data em que a prescrição foi feita, incluindo dia, mês, ano, horário; nome do medicamento, escrita correta (essencial para evitar confusão com homônimos); dose do medicamento a ser administrado; quantidade e tempo de infusão (se medicação endovenosa); via de administração;horário, freqüência da administração e assinatura do médico, o que torna a prescrição um documento legal(1). Acrescido aos aspectos cima descritos, as prescrições devem ser legíveis, sem apresentar equívocos, datadas e assinadas com clareza para comunicação entre o prescritor, o farmacêutico e o enfermeiro(15). Em um estudo realizado em quatro hospitais de diferentes regiões do Brasil, com uma amostra de 152 profissionais que atuavam na clínica médica e farmácia hospitalar, os tipos de erros mais citados foram àqueles relacionados à prescrição/transcrição de medica- mentos(16). Muitos entrevistados do presente estudo citaram a prescrição médica como um fator que pode induzir ao erro de medicação e falaram sobre situações em que podem identificar o erro antes da administração, conforme pode ser evidenciado nos relatos a seguir: [...] Às vezes tem algumas letras meio difíceis de entender o que o médico quer prescrever [...] (E2) [...] uma medicação que é IM eles prescrevem EV [...]. Às vezes eles, também, não colocam a via de acesso [...]. Tu não vai dar uma medicação que seria VO, EV. Não são todas, tem medi- cações que são líquidas, não são todas que são tipo comprim- ido, Acho, mais por aí. (E6) [...] letra ilegível dos médicos [...] (E8) Outro fator também referendado pelos participantes do estudo foi o armazenamento incorreto dos documentos que devem per- manecer dentro do prontuário do paciente, como, por exemplo, o descrito na fala abaixo: [...] às vezes os médicos se enganam muito. Tipo assim, recebi medicação, tinha dentro da pasta apenas a medicação. E se aquela folha está avulsa ali, eu vou saber pra quem é? Não tinha nome, não tinha leito. Aí a gente precisa sair adivinhando, sair atrás de médico para descobrir pra quem é essa medicação. Aí fica difícil. (E7) Para corroborar os achados deste estudo, dados da literatura revelam que em pesquisa realizada com uma amostra de 256 profis- sionais (enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem), encon- trou-se como causa mais freqüente para a ocorrência de erros de medicação a caligrafia ilegível do médico e, como segunda causa mais freqüente, a sobrecarga de trabalho, ou quando o funcionário é distraído por pacientes, colegas de trabalho ou outras ocorrên- cias, na unidade(8). Identificação incorIdentificação incorIdentificação incorIdentificação incorIdentificação incorreta do paciente/clientereta do paciente/clientereta do paciente/clientereta do paciente/clientereta do paciente/cliente Um dos graves problemas da ilegibilidade é a ocorrência de interpretações equivocadas, levando à troca de medicamento, de paciente e/ou da via de administração(17). Realizar a prescrição médica apenas com o número de leito, sem conferir o nome do paciente é uma prática não recomendada e que não deve ser realizada, pois pode induzir a um erro de me- dicação, porque, com freqüência, o paciente tem seu leito troca- do, alterando assim, o número do mesmo: [...] Às vezes o médico tem dois ou três pacientes com o mes- mo nome e já aconteceu de prescrever para o paciente A achando 245245245245245Rev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 mar-abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): 241-7241-7241-7241-7241-7..... Eventos adversos relacionados a medicamentos: perEventos adversos relacionados a medicamentos: perEventos adversos relacionados a medicamentos: perEventos adversos relacionados a medicamentos: perEventos adversos relacionados a medicamentos: percepção de técnicos e auxiliares de enfermagemcepção de técnicos e auxiliares de enfermagemcepção de técnicos e auxiliares de enfermagemcepção de técnicos e auxiliares de enfermagemcepção de técnicos e auxiliares de enfermagem que era para o paciente B, digamos assim, e ele continua pre- screvendo pro A como se fosse a D. Maria, e é a D. Joana, aí tu tem que ver direitinho se é aquela medicação pra aquela pes- soa. (E2) Esta questão pode ser agravada pela mecanização excessiva das atividades realizadas pela equipe de enfermagem, como por exem- plo, quando um técnico ou auxiliar que está há vários dias na mes- ma escala e está familiarizado com os pacientes e suas respectivas medicações. E em determinado plantão, por necessidade da un- idade, de outros pacientes ou por outros motivos, o paciente é trocado de leito. Nesta situação pode ocorrer um erro associado à mecanização das tarefas. O profissional que se detém na mecaniza- ção, na rotinização das tarefas, e, sobretudo, por ventura, já esteja sobrecarregado de trabalho, com a atenção reduzida, é um profis- sional potencialmente perigoso para incorrer na situação de even- to adverso relacionado a medicamentos. Esta situação se afirma também nas falas abaixo: [...] Pode acontecer de o técnico dar uma medicação errada ou por troca de leito, que acontece muito, e às vezes não é troca- do na prescrição o número do leito [...] (E3) [...] algum número de quarto, de leito, se confunde na hora a medicação [...] (E4) [...] muito erro de medicação ocorre é, os médicos colocam um nome de um paciente e colocam o leito de outro [...] (E7) Em outra pesquisa realizada com enfermeiros, técnicos e auxi- liares de enfermagem, encontrou-se, como causa circunstancial do erro, a falha na identificação do paciente. Os profissionais de en- fermagem referiram, em quatro relatos, que não havia pulseira de identificação no paciente, os leitos não estavam identificados em três relatos e, em outros três, não perguntaram o nome do pa- ciente, administrando o medicamento somente pelo número do leito(18). PPPPPererererercepção do técnico e auxiliar de enfermagem frente à con-cepção do técnico e auxiliar de enfermagem frente à con-cepção do técnico e auxiliar de enfermagem frente à con-cepção do técnico e auxiliar de enfermagem frente à con-cepção do técnico e auxiliar de enfermagem frente à con- dução de um erdução de um erdução de um erdução de um erdução de um errrrrro de medicamentoo de medicamentoo de medicamentoo de medicamentoo de medicamento Nessa temática, evidenciaram-se duas subtemáticas: a percepção dos entrevistados sobre a sua conduta e a percepção de como deveria se conduzir diante de um erro de medicação. Para melhor compreendê-la, a percepção pode ser descrita como sendo o ato ou a faculdade de perceber pelos órgãos dos sentidos(20). PPPPPererererercepção sobre a sua condutacepção sobre a sua condutacepção sobre a sua condutacepção sobre a sua condutacepção sobre a sua conduta Aprender a encarar o erro de frente e comunicá-lo faz dessa ação uma fonte de análise sistemática e de prevenção em situações futuras. Ao compreender e analisar o erro de forma multidiscipli- nar pode-se aproveitá-lo para corrigir a prática(21). Quando os sujeitos foram questionados de como se conduziri- am ou reagiriam se ocorresse com eles a situação de evento adver- so, relacionado a medicamentos, a maioria referiu que se reporta- ria à enfermeira: “Prontamente informaria a enfermeira do ocorrido para que to- masse as medidas cabíveis”. [...] Quanto a isto não tem o que esconder, porque tem que ser dito. (E1) [...] Eu mostraria para ela (enfermeira) a prescrição e a gente entraria em contato com o médico pra saber qual seria o pro- cedimento correto. (E2) [...] quando é dada uma medicação errada, tu tem que ter noção daquilo ali que tu realmente fez errado e comunicar o enfer- meiro e deixar o paciente em observação. (E3) “Eu comunicaria a enfermeira, pararia a medicação e comuni- caria a enfermeira”. (E5) “Em primeiro lugar avisar a enfermeira, ela vai entrar em conta- to com o médico. Avisar porque tem medicação que não acon- teceria nada com o paciente, mas tem outras que poderiam alterar o quadro”. (E6) Direto pro enfermeiro. [...] Fala, tal medicação foi dada pra tal paciente e o paciente era errado. Aí ela entra em contato com os médicos. (E7) [...] imediatamente comunica o enfermeiro. E o correto seria ele comunicara equipe médica [...] (E8) [...] Eu ia, a primeira coisa, comunicar o enfermeiro para ele tomar a conduta certa. (E9) Pelas respostas, observa-se que os entrevistados preocupam-se em relatar a ocorrência do evento adverso, independente da de- cisão que será tomada frente ao erro. Corroborando essa afirma- tiva, a literatura nos diz que, diante da ocorrência de um erro, os benefícios ou complicações dependerão das condutas tomadas pelos envolvidos(9). Somente um dos sujeitos conduziria esta situação de uma ma- neira diferente das acima citadas: “[...] é muito difícil a gente assumir um erro pra uma chefia e tal. Eu ia reagir dependendo da medicação. Se ele não tem alergia, é lúcido e fala, eu não vou dizer pra minha chefia que eu dei errado. [...] se é uma coisa mais simples, um paraceta- mol, que não tem alergia, eu tento não falar. (E10) Esse fato decorre, provavelmente, pelo medo da punição ou outra conseqüência que possa levar à demissão do funcionário. Em um estudo com uma amostra de 36 profissionais de enferma- gem, observou-se que a maioria das condutas exercidas aos profis- sionais, frente a um erro de medicação, foi a punição, totalizando 66% das respostas obtidas(13). PPPPPererererercepção de como deveria ser conduzido um ercepção de como deveria ser conduzido um ercepção de como deveria ser conduzido um ercepção de como deveria ser conduzido um ercepção de como deveria ser conduzido um errrrrro de medi-o de medi-o de medi-o de medi-o de medi- caçãocaçãocaçãocaçãocação Em estudo realizado com uma amostra de 256 pessoas vincu- ladas a enfermagem, com cinco cenários apresentados, que repre- sentavam um erro de medicação, a equipe julgou tratar-se de um erro em quatro cenários e que, desses, três deveriam ser notifica- 246246246246246 Rev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 mar-abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): 241-7241-7241-7241-7241-7..... Corbellini VL, et al.Corbellini VL, et al.Corbellini VL, et al.Corbellini VL, et al.Corbellini VL, et al. dos ao médico(6). Ao serem questionados de como percebem que deveria ser con- duzido o evento adverso relacionado ao medicamento, os sujeitos do presente estudo disseram que o enfermeiro e médico deveriam ser comunicados e poucos falaram sobre a percepção deles de como deveria ser conduzida esta situação. Deveria ser conduzida pelo enfermeiro, no caso. A gente pas- saria para a enfermeira e ela iria ver o histórico, anamnese. Se achar necessário, falar com o médico responsável. (E1) Devido à reação do paciente, a gente espera a resposta do médico pra saber se eu poderia dar outra medicação no lugar daquela [...] (E2) [...] eu pararia a medicação e comunicaria a enfermeira. (E5) [...] Acho que o correto seria avisar a enfermeira, em primeiro lugar, e conforme [...] ela que iria tomar as atitudes [...] (E6) Em um estudo realizado no ano de 2005, verificou-se por meio da análise dos dados, que 116 enfermeiros da amostra indicaram um total de 346 condutas distribuídas conforme a frequência - comunicam ao médico (33,0%), intensificam os controles do pa- ciente (30,0%), repreendem o funcionário e anotam no prontuário (13,0%)(22). Para os entrevistados do atual estudo, prevaleceram as seguintes considerações: [...] Comunicar, imediatamente à chefia, no caso, a enfermeira. Que tenha a conduta de assumir a situação e comunicar ao médico [...] (E8) Bom, primeiramente comunicaria ao enfermeiro, que provavel- mente comunicaria ao médico da equipe. Que foi administrada uma medicação errada, pro médico avaliar se vai dar um efeito colateral, uma coisa. É isso. (E9) Muitos dos entrevistados acreditam que a enfermeira deve co- municar ao médico, como já evidenciado na subtemática anterior. Em estudo com enfoque nas percepções sobre o erro de medi- cação com auxiliares e técnicos de enfermagem e enfermeiros, eles foram unânimes, ao responder que o médico deveria ser comuni- cado e preenchido um relatório de ocorrências, fato que diferencia do resultado da presente pesquisa, onde o relato foi o de procurar o enfermeiro. Independente de quem o profissional procura, o mais impor- tante é que o erro seja ser comunicado para que as providências possam ser tomadas(23). Deve-se criar um ambiente que elimine a cultura da punição e substituí-lo por um de vigilância e cooperação(23): [...] Com respeito ao profissional, que neste caso errou. Nin- guém está livre de erros. Ele deve ser orientado melhor, conver- sar com ele, mostrar o quanto é importante que ele tenha atenção, se tratando de medicamentos [...] Mas as pessoas acabam, às vezes, só olhando o teu erro. Não, tu errou e não querem saber [...] (E4) Observa-se que, um dos sujeitos, ao responder a última questão norteadora, entendeu o fato “conduzir esta questão” como sendo referente à relação do enfermeiro com técnicos e auxiliares de en- fermagem, ou seja, relação superior versus subordinado, e eviden- ciou em sua fala temer punição: “Há, eu acho que deveria ser dito, o médico deveria ficar ciente de algum erro, pra que se desse alguma reação, pudesse prevê essa reação e pudesse dar uma medicação que revertesse esse quadro antes dele ficar ruim [...], deveria ser dito, mas é muito difícil assumir essas coisas até porque a gente é sempre avalia- do e pra não perder o emprego”. (E10) Relatos da literatura descrevem a opinião de profissionais, e muitos deles associaram os erros de medicação ao profissional, demonstrando a tendência de responsabilizar somente o indivíduo pelo erro, não valorizando as falhas em todo o processo de medi- cação da Instituição, apontando ainda uma prática de punição(24). 4 Considerações Finais Ao finalizar esse estudo, percebe-se a complexidade da temáti- ca. Quando os entrevistados foram questionados sobre como ocorre o preparo e administração de medicamentos, os seis acertos foram citados de forma parcial, evidenciando-se que muitas vezes são esquecidos aspectos fundamentais desse processo. Alguns apont- aram para a questão do tempo de preparo antes da administração da medicação, sendo que um referiu que deve ocorrer no máximo trinta minutos antes da administração e outros dois relataram que o preparo deve ocorrer no exato momento antes da administração. Evidenciou-se, ainda, a preocupação em atentar-se ao tempo de validade de equipos, a permeabilidade do acesso e sinais flogísti- cos no local de inserção do mesmo. Na percepção dos entrevistados, os fatores mais comumente envolvidos em erros de medicação são a sobrecarga de trabalho, a prescrição médica, a identificação incorreta do paciente/cliente, que também muitas vezes implica prescrição médica errônea. Sur- giram comentários em relação a interrupções, que podem distrair o funcionário, intercorrências que podem surgir no turno de tra- balho, e a pressa, a qual se concluiu estar relacionada à sobrecarga de trabalho, exigindo agilidade e concentração maior do funcionário. Quando questionados sobre qual seria a sua conduta correta, frente a um erro de medicação, os sujeitos responderam que ime- diatamente comunicariam ao enfermeiro e apenas um dos entrevis- tados relatou que só comunicaria se a medicação provocasse reações ao paciente. Os entrevistados acreditam que o enfermeiro deveria conduzir a questão sobre o erro de medicação. Ainda um dos entrevistados relatou que, na sua percepção, o correto seria comunicar à enfer- meira e a mesma deveria comunicar ao médico, mas mostrou-se relutante em tomar essa atitude, temendo punição. Pensa-se que não se pode partir da premissa de que os profis- sionais estão sempre realizando atualizações relacionadas à farma- cologia, visto que, muitas vezes, os mesmos possuem dupla jorna- da de trabalho, conseqüência exigida pelas necessidades socio- econômicas atuais, e isso implica falta de tempo, cansaço e des- gaste físico e mental. 247247247247247Rev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 marRev Bras Enferm, Brasília 2011 mar-abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): -abr; 64(2): 241-7241-7241-7241-7241-7..... Eventos adversos relacionados a medicamentos: perEventos adversos relacionados a medicamentos: perEventos adversos relacionados a medicamentos: perEventos adversos relacionados a medicamentos: perEventos adversos relacionados a medicamentos: percepção de técnicos e auxiliares de enfermagemcepção de técnicos e auxiliares de enfermagemcepção de técnicos e auxiliares de enfermagemcepção de técnicos e auxiliares de enfermagemcepção de técnicos e auxiliares de enfermagem REFERÊNCIASREFERÊNCIASREFERÊNCIASREFERÊNCIASREFERÊNCIAS Acredita-se ser necessário que as instituições busquem es- tratégias para manter a equipe de enfermagem atualizada, no que se refere a mudanças na apresentação dos medicamentos, armaze- namento, formas de administração, interações medicamentosas e aspectos farmacocinéticos e farmacodinâmicos, por meio de pro- gramas de capacitação. Outro aspecto que fica evidenciado com a conclusão desse estu- do é a necessidade de padronizar os processos na prática diária de enfermagem, visto que tal medida contribui para a redução de even- tos adversos. Necessita-se, ainda, instituir uma cultura de prescrição legível, quando realizada manualmente, pois conforme demonstrado, além de despender um tempo maior ao tentar executar a prescrição, o profissional da enfermagem pode interpretá-la erroneamente e pro- vocar danos ao paciente. A sobrecarga de trabalho é outro fator preocupante, pois mui- tas vezes resulta em eventos adversos relacionados a medicamen- tos. As instituições necessitam investir em recursos humanos para melhorar o cenário das condições de trabalho. A idéia punitiva deve ser substituída pela avaliação do processo, instituindo-se uma política institucional de notificação e a utilização de ferramentas de análise da causa desses erros, corri- gindo-se o sistema, prevenindo, assim, novas ocorrências de even- tos adversos relacionados a medicamentos. Assim, entende-se que a implantação de estratégias para a segu- rança do paciente é um trabalho amplo, que deve envolver todos os atores que participam da assistência, instituindo-se então, uma cultura de segurança do paciente nas Instituições hospitalares. 1. Potter PA, Perry AG. Fundamentos de enfermagem. 5a ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2004. 2. Neto AQ. Segurança dos pacientes, profissionais e organiza- ções: um novo padrão de assistência à saúde. RAS 2006; 8(33): 153-8. 3. Bork AM. Metas internacionais sobre a segurança do paciente. São Paulo; 2007. [citado em 2008 Jul 27]. Disponível em: http://www.einsten.br/sien/entrevista_anna.htm. 4. Fundação Osvaldo Cruz. Entrevista à Agência Fiocruz de Notí- cias – Walter Mendes. Pesquisador apresenta resultados de estudos sobre eventos adversos em hospitais. [citado em 2008 Nov 11]. Disponível em: http://www.fiocruz.br/ccs/cgi/ cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2023&sid=3 5. Clayton BD, Stock YN. Farmacologia na prática da enferma- gem. Rio de Janeiro: Elsevier; 2006. 6. Bohomol E, Ramos LH. Erro de medicação: importância da notificação no gerenciamento da segurança do paciente. Rev Bras Enferm 2007; 60(6): 32-6. 7. Santos JO, Silva AEBC, Munari DB, Miasso AI. Sentimentos de profissionais de enfermagem após a ocorrência de erros de medicação. Acta Paul Enferm 2007; 20(4): 483-8. 8. Bohomol E, Ramos LH. Erros de medicação: causas e fatores desencadeantes sob a ótica da equipe de enfermagem. Acta Paul Enferm 2003;16(2): 41-8. 9. Silva AEBC, Cassiani SHB, Miasso AI, Optiz SP. Problemas na comunicação: uma possível causa de erros de medicação. Acta Paul Enferm 2007; 20(3): 272-6. 10. Minayo MCS. 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Saúde São Paulo v.5 n.2 45-50 abr./jun. 2014 PREPARO E ADMINISTRAÇÃO DE MEDICAMENTOS: ERROS COMETIDOS PELA EQUIPE DE ENFERMAGEM PREPARATION AND ADMINISTRATION OF MEDICATIONS: ERRORS MADE BY THE NURSING STAFF PREPARACIÓN Y ADMINISTRACIÓN DE MEDICAMENTOS: LOS ERRORES COMETIDOS POR EL PERSONAL DE ENFERMERÍA RESUMO Objetivos: identificar os principais erros no preparo e administração de medicamentos cometidos pela equipe de enfermagem de um hospital público do estado do Piauí. Métodos: Estudo exploratório-descritivo, transversal de abordagem quantitativa, desenvolvido em um Hospital Público Estadual de nível secundário, localizado no município de Picos-PI, que atende pacientes oriundos de 42 municípios do Território de desenvolvimento Vale do Guaribas. Resultados: Os erros cometidos durante a preparação de medicamentos mais relatados foram: preparação de vários medicamentos de horários e pacientes diferentes na mesma bandeja (48,9%), ocorrência de conversas paralelas durante a preparação (44,4%), falhas relacionadas às normas de biossegurança (40,4%), horário errado (37,8%) e diluição errada do medicamento (35,6%). No que diz respeito a falhas relacionadas à administração de medicamentos, as mais encontradas foram: normas de biossegurança (55,6%), horário de administração errado (46,7%), omissão de dose (40,0%) e velocidade de infusão errada (37,8%). Conclusões: Os errosde medicação têm causas multifatoriais. Sendo assim, devem ser analisadas de forma multidisciplinar, para que medidas preventivas sejam implantadas. A proposta é que mudanças ocorram, devendo as mesmas começar pelos pequenos obstáculos, englobando todo o processo de medicação e identificando as mudanças que, provavelmente, resultarão em melhorias. Descritores: Erros de Medicação, Enfermagem, Segurança do Paciente. ABSTRACT Objectives: To identify the main errors in the preparation and administration of drugs made by the nursing staff of a public hospital in the state of Piaui. Methods: This exploratory-descriptive cross-sectional study with a quantitative approach, developed in a Public Hospital State secondary school located in the city of Picos -PI, which serves patients from 39 counties of Macro-region of the Valley of Guaribas. Results: The mistakes made in the preparation of most reported drugs were: preparation of various medicines schedules and different patients in the same tray (48,9%), occurrence of side conversations during the preparation (44,4%), failures related to biosafety standards (40,4%), wrong time (37,8%) and wrong medication dilution (35.6%). With regard to failures related to drug administration, the most frequent were: biosafety standards (55,6%), wrong administration time (46,7%), dose omission (40,0%) and speed of incorrect infusion (37,8%) . Conclusions: Medication errors have multifactorial causes. Thus, should be analyzed in a multidisciplinary way, so that preventive measures are implemented. The proposal is that changes occur, and that these should start with small obstacles, including the entire medication process and identifying the changes that are likely to result in improvement. Descriptors: Medication Errors, Nursing, Patient Safety. RESUMEN Objetivos: Identificar los principales errores en la preparación y administración de medicamentos realizados por el personal de enfermería de un hospital público en el estado de Piauí. Métodos: Este estudio transversal exploratorio- descriptivo, con enfoque cuantitativo, desarrollado en una escuela secundaria Estado Hospital Público ubicada en la ciudad de Picos -PI, que atiende a pacientes de 39 condados de Macro- región del Valle de Guaribas. Dayze Djanira Furtado de Galiza Orlando Francisco de Moura Valeria Lima de Barros Givaneide Oliveira de Andrade Luz Universidade Federal do Piauí Recebido em: 09/01/2014 Aceito em: 03/02/2014 Autor para Correspondência: Dayze Djanira Furtado de Galiza Universidade Federal do Piauí E-mail: dayze_galiza@hotmail.com 46 Rev. Bras. Farm. Hosp. Serv. Saúde São Paulo v.5 n.2 45-50 abr./jun. 2014 Resultados: los errores cometidos en la preparación de la mayoría de los medicamentos reportados fueron: preparación de diversos medicamentos y los horarios de los diferentes pacientes en la misma bandeja (48,9%), la aparición de conversaciones paralelas durante la preparación (44,4%), fallos relacionados con la normas de bioseguridad (40,4%), momento equivocado (37,8%) y la disolución del medicamento equivocado (35,6%). Con respecto a los fallos relacionados con la administración del fármaco, los más frecuentes fueron: las normas de bioseguridad (55,6%), el tiempo de administración incorrecta (46,7%), la omisión de dosis (40,0%) y la velocidad de infusión incorrecta (37,8%). Conclusiones: Los errores de medicación tienen causas multifactoriales. Por lo tanto, se deben analizar de forma multidisciplinar, para que se apliquen medidas preventivas. La propuesta es que se producen cambios, y que éstos deben comenzar con pequeños obstáculos, entre ellos la totalidad del proceso de medicación y la identificación de los cambios que puedan dar lugar a la mejora. Descriptores: Errores de Medicación, Enfermería, Seguridade del Paciente. INTRODUÇÃO O preparo e a administração de medicamentos é uma das atribuições da enfermagem, sendo o seu desempenho de grande relevância, por tratar-se de uma das maiores responsabilidades da equipe no que se refere aos cuidados prestados ao paciente. Atualmente, a administração incorreta de medicamentos constitui um grave problema nos serviços de saúde, sendo considerado um dos principais efeitos adversos sofridos por pacientes hospitalizados1. Nesse sentido, as instituições de saúde estão constantemente debatendo questões relacionadas com a busca pela qualidade da assistência e segurança do cliente, almejando assim evitar possíveis complicações. Com a finalidade de promover práticas seguras no cuidado prestado ao paciente, o Ministério da Saúde (MS) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) lançaram em 2013, o Programa Nacional de Segurança do Paciente2, cujo objetivo consiste em prevenir e reduzir a incidência de eventos adversos - incidentes que resultam em danos ao paciente, tais como quedas, administração incorreta de medicamentos e erros em procedimentos cirúrgicos - nos serviços de saúde públicos e privados. Este programa é composto por seis protocolos básicos de segurança do paciente, dentre os quais destacam-se aqueles que tratam da segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos, a ser aplicado em todos os estabelecimentos que prestam cuidados à saúde, em todos os níveis de complexidade, em que medicamentos sejam utilizados para profilaxia, exames diagnósticos, tratamento e medidas paliativas2. Por segurança do paciente entende-se a prevenção de erros no cuidado dispensado ao cliente, bem como de danos causados por tais erros. Dessa forma, os erros cometidos pela equipe de enfermagem, resultante ou não de uma ação intencional causado por alguma falha ou problema, durante a assistência ao paciente, bem como preparo e administração de medicamentos, comprometem a segurança dos pacientes3. Ademais, a National Coordinating Council for Medication Error Reporting and Prevention (NCC-MERP, 1998), organização não governamental americana, define erros de medicação (EM) como qualquer evento que pode causar ou induzir ao uso inconveniente dos mesmos, gerando danos ao paciente, enquanto a droga está sob o controle do profissional de saúde, paciente ou consumidor, estando o erro relacionado a diversos fatores4. Essa mesma organização sugere uma classificação para os tipos de erros, sendo eles: omissão de dose, diluição errada, cálculo de dose errada, técnica errada, via de administração errada, velocidade errada, monitoramento e duração errada, horário errado, cliente errado e administração de medicamentos errado ou deteriorados4. A administração e o preparo de medicação, para a enfermagem, é um dos procedimentos realizados com maior frequência e também uma das áreas de maior risco para a sua prática5. Esses procedimentos demandam conhecimentos científicos, técnicos, éticos e legais, que fundamentam os profissionais de enfermagem, levando ao cliente uma assistência livre de danos causados por negligência, imperícia ou imprudência6. Assim sendo, conhecer os principais fatores de risco (FR) que podem levar ao erro pode colaborar na prevenção dos mesmos7. Afinal, fornecer um ambiente seguro para o preparo e administração de medicamentos envolve um grande número de recursos, tanto físicos (luminosidade, controle de temperatura, presença de ruídos, interrupções pessoais ou por telefone) como humanos (aquisição de conhecimentos e anos de experiência), dentre outros8. Por estar presente na assistência de enfermagem, a terapia medicamentosa coloca em risco a segurança do paciente quando se comete erros, podendo trazer danos à saúde do cliente e prejudicar a instituição na qual o profissional trabalha, além de comprometer a equipe de enfermagem que fica sob pena da sua responsabilização perante os conselhos regionais e federal de enfermagem (COREN’S E COFEN), nomeadamente estabelecidas pela lei 7.498/86 do Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem e Resolução COFEN nº 311/079. Perante a possibilidade de prevenção dos erros de medicação,assim como do risco de dano em função da sua ocorrência, torna-se relevante identificar os principais erros cometidos pela equipe de enfermagem, como forma de conduzir as ações para a prevenção dos mesmos. Afinal, as falhas no processo de utilização de medicamentos são consideradas importantes fatores contribuintes para a redução da segurança do paciente10-11. Dessa forma, o objetivo desse estudo foi identificar os principais erros no preparo e administração de medicamentos cometidos equipe de enfermagem de um hospital público do estado do Piauí. MATERIAL E MéTODO Trata-se de um estudo exploratório-descritivo, transversal, de abordagem quantitativa, desenvolvido em um Hospital Público Estadual de nível secundário construído em 1977, que atende pacientes oriundos de 42 municípios do Território de desenvolvimento Vale do Guaribas, estando localizado do município de Picos-PI. A instituição possui 130 leitos, distribuídos entre as clínicas pediátrica, obstétrica, cirúrgica, médica e semi-intensiva. Realiza desde procedimentos de baixa complexidade até cirurgias ortopédicas e vasculares. Atualmente, o quadro de funcionários é composto por 17 médicos urgentistas, seis cirurgiões gerais, 11 obstetras, nove pediatras, quatro anestesistas, quatro ortopedistas, 217 profissionais de enfermagem, sendo destes 43 Enfermeiros e 174 profissionais de nível médio, além de assistentes sociais, fisioterapeutas, dentre outros12. A população do estudo foi composta pelos 217 profissionais de enfermagem de ambos os sexos que trabalham na instituição e são os responsáveis diretos pela preparação e administração de medicamentos. Para o cálculo do tamanho da amostra foi utilizada a fórmula para estudos transversais com população finita, usando como parâmetros o coeficiente de confiança de 95% (1,96), o erro amostral de 5%, a proporção de ocorrência do fenômeno de 50% e população de 217 profissionais. A partir da aplicação da fórmula encontrou-se um total de 54 profissionais de enfermagem. Os dados foram coletados através de um questionário, adaptado do estudo de Praxedes e Telles13, composto de informações sobre dados sociodemográficos e referentes à vida profissional. Após a adaptação, o instrumento foi previamente testado para verificar sua objetividade e pertinência. A coleta de dados ocorreu nos meses de agosto e setembro de 2013. Os dados foram tabulados e analisados pelo software Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 17.0, sendo a análise dos dados efetuada por meio de estatística descritiva, dispostos em tabelas, para facilitar a discussão utilizando literatura pertinente à temática. O estudo foi autorizado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Piauí, conforme CAAE nº05070612.7.0000.5214. 47Rev. Bras. Farm. Hosp. Serv. Saúde São Paulo v.5 n.2 45-50 abr./jun. 2014 RESULTADOS Participaram da pesquisa 45 profissionais de enfermagem, todos do sexo feminino, sendo 13 (28,9%) enfermeiros e 32 (71,1%) técnicos de enfermagem. Ademais, 68,9% possuem tempo de profissão menor ou igual a 13 anos, 71,1% trabalham cerca de 32 horas semanais, em turno definido, já que 68,9% trabalhavam nos turnos diurno ou noturno. Possuem vínculo empregatício efetivo 57,8% deles. Tabela 1: Caracterização da amostra quanto às variáveis de identificação de profissionais da equipe de enfermagem de um hospital público do município de Picos-PI. Variáveis N % Idade ≤39 anos >39 anos 27 18 60,0 40,0 Média: 39,6 DP: ± 12,4 Categoria Profissional Enfermeiro Técnico de enfermagem 13 32 28,9 71,1 Tempo de Profissão ≤13 anos >13 anos 31 14 68,9 31,1 Média: 13,8 DP: ± 13,0 Carga horária semanal ≤32 horas >32 horas 32 13 71,1 28,9 Média: 32 DP: ± 5,4 Turno Diurno Noturno Diurno/Noturno 18 13 14 40,0 28,9 31,1 Vínculo empregatício Efetivo Serviço prestado 26 19 57,8 42,2 DP: desvio padrão Fonte: dados do autor Com relação aos erros cometidos durante o preparo de medicamentos, pode-se observar que os mais relatados foram preparação de vários medicamentos de horários e pacientes diferentes na mesma bandeja (48,9%), ocorrência de conversas paralelas durante a preparação (44,4%), falhas relacionadas às normas de biossegurança (40,4%), horário errado (37,8%) e diluição errada do medicamento (35,6%). Tabela 2: Erros cometidos por profissionais de enfermagem de um Hospital Público do município de Picos-PI durante a preparação de medicamentos. VARIÁVEIS Sim (%) Não (%) Diluição errada do medicamento 16 (35,6) 29 (64,4) Dose imprópria 12 (26,7) 33 (73,3) Técnica de manipulação errada 12 (26,7) 33 (73,3) Local de preparo impróprio 11 (24,4) 34 (75,6) Horário errado 17 (37,8) 28 (62,2) Interrupções durante o preparo 14 (31,1) 31 (68,9) Não identificação do material e/ou do medicamento utilizado 08 (17,8) 37 (82,2) Vários medicamentos de horários e pacientes diferentes na mesma bandeja 22 (48,9) 23 (51,1) Conversa paralela durante a preparação 20 (44,4) 25 (55,6) Falhas relacionadas às normas de biossegurança 18 (40,0) 27 (60,0) Fonte: dados do autor Destaca-se, nesta tabela, o maior percentual de negação do acontecimento de erros e ainda que 11 (24,4%) participantes da pesquisa afirmaram nunca ter cometido nenhum erro durante a preparação e administração de medicamentos, ao longo dos anos de exercício profissional. Na tabela a seguir, observa-se que as principais falhas relacionadas à administração de medicamentos são: normas de biossegurança (55,6%), horário de administração errado (46,7%), omissão de dose (40,0%) e velocidade de infusão errada (37,8%). Tabela 3: Erros cometidos por profissionais de enfermagem de um hospital público do município de Picos- PI durante a administração de medicamentos. VARIÁVEIS Sim (%) Não (%) Medicamento administrado em paciente errado 11 (24,4) 34 (75,6) Via de administração errada 12 (26,7) 33 (73,3) Medicamento administrado errado 09 (20,0) 36 (80,0) Horário de administração errado 21 (46,7) 24 (53,3) Não monitoração do paciente após medicação 14 (31,1) 31 (68,9) Não avaliação prévia do paciente 07 (15,6) 38 (84,4) Técnica de administração errada 16 (35,6) 29 (64,4) Omissão dose 18 (40,0) 27 (60,0) Velocidade de infusão errada 17 (37,8) 28 (62,2) Administração de medicamento deteriorado 01 (2,2) 44 (97,8) Administração de medicamento não prescrito 08 (17,8) 37 (82,2) Falhas relacionadas ás normas de biossegurança 25 (55,6) 20 (44,4) Fonte: dados do autor DISCUSSÃO Em relação aos erros no preparo e administração de medicamentos, verificou-se que dos 309 erros citados na pesquisa, 72,8% foram cometidos por técnicos de enfermagem. Destes, a maioria (37,6%) foram citados pelos profissionais que trabalhavam no turno diurno. Estudo realizado em seis hospitais brasileiros demonstrou que os profissionais de enfermagem de nível médio são os responsáveis pelos maiores índices de erros no preparo e administração de medicação, visto que 84,3% foram cometidos por auxiliares e 14,3% por técnicos de enfermagem14. Essa ocorrência deve-se ao fato de que a administração de medicamentos nas instituições hospitalares é atribuição desses profissionais, que o fazem, muitas vezes, sem supervisão do enfermeiro, mais envolvido com os problemas administrativos, o que o afasta da supervisão direta desse processo, mesmo tendo a responsabilidade por toda sua equipe, propiciando, assim, uma situação de risco para o paciente, na implementação segura da terapia medicamentosa14. O maior número de erros ocorridos no turno diurno pode estar relacionado à dinâmica do serviço, pois, em geral, neste período há uma maior quantidade de admissões de paciente e maior número de medicações a serem preparadas e administradas. Além disso, o horário de visita, que ocorre no período vespertino, pode gerar um ambiente desfavorável para a realização das atividades da enfermagem. Ressalta-se, ainda, o fato de a maioria dos entrevistados trabalharem durante o dia. A abordagem acerca dessa temática é de granderelevância, pois os EM quando ocorrem podem causar sérias consequências, que vão desde o aumento do tempo de internação do paciente até sequelas irreparáveis e morte, além de processos judiciais que tanto a instituição como o profissional pode sofrer. A administração de medicamento almeja prioritariamente diminuir o sofrimento do paciente. No entanto, quando ocorrem erros, seja no preparo ou na administração, esse objetivo pode não ser alcançado e, nesse caso, o sistema de saúde, ao invés de tratar as doenças, acaba por produzir problemas para os pacientes. Nesse sentido, Wachter15 afirma que o campo moderno de segurança do paciente enfatiza a necessidade de reforçar os sistemas para evitar ou detectar erros, em vez de criar provedores individuais “à prova de mancadas”. Dessa forma, criar sistemas que antecipem erros e que os previnam ou os captem antes que eles causem danos, pode ser a pedra 48 Rev. Bras. Farm. Hosp. Serv. Saúde São Paulo v.5 n.2 45-50 abr./jun. 2014 fundamental para a melhoria do cuidado. No que se refere aos erros mais cometidos durante o preparo dos medicamentos, é importante ter em mente alguns cuidados que devem ser seguidos, caso contrário podem contribuir para a ocorrência de falhas. Portanto, a preparação medicamentosa para cada paciente deve ocorrer separadamente, atentando-se para os seguintes pontos: identificar o medicamento preparado com o nome completo do paciente; número da enfermaria/leito, número de registro do prontuário, nome do medicamento, dose, via de administração, iniciais do responsável pela preparação e horário de administração. Igualmente importante é certificar-se da checagem do medicamento na prescrição médica e se não há alguma incoerência na prescrição como, por exemplo, via errada. Outros aspectos a serem lembrados são: melhor comunicação entre os membros da equipe, esclarecer dúvidas antes de prepará-los e ler o rótulo dos medicamentos três vezes, pois muitos apresentam nomes e embalagens similares. A conversa durante a preparação dos medicamentos é outro ponto que merece atenção, pois pode levar à contaminação dos mesmos através de gotículas expelidas pela boca, como também desviar a atenção do profissional de seu foco principal, causando acidentes e erros. Nesse estudo, a diluição errada do medicamento foi o segundo erro mais frequente, superado apenas pelo horário errado. Muitas medicações são diluídas e preparadas de forma inadequada devido à dificuldade dos profissionais para lidar com cálculos matemáticos. Estudo conduzido em uma instituição hospitalar universitária, localizada no interior do Estado de São Paulo, encontrou que o maior percentual de dúvidas apresentadas ao enfermeiro pelos técnicos e auxiliares de enfermagem, foi quanto à diluição dos medicamentos (40,4%)16. Além disso, é importante que a preparação dos medicamentos seja feita imediatamente antes da administração, pois, dependendo da droga e do horário em que a medicação é preparada e exposta ao ambiente, podem ocorrer interferência na composição química, inativação e contaminação, gerando reações indesejáveis no paciente e diminuição da eficácia do fármaco, que não surtirá o efeito esperado no cliente que, por sua vez, poderá apresentar complicações no seu tratamento e até óbito. Quando comparado ao estudo de Freitas e Oda17, composto por 53 participantes e realizado em uma Instituição Hospitalar localizada em um município do noroeste do Paraná, nota-se que, entre os 13 (24%) erros apontados pela população da pesquisa, a diluição inadequada do fármaco aparece como um dos mais citados. A conversa paralela durante preparação, a não utilização das normas de biossegurança e a organização inadequada dos fármacos foram também relatados pelos entrevistados, ainda que com percentis em menores ocorrências, quando comparados aos encontrados neste estudo. Nesse contexto, Camerini e Silva18 afirmam que, muito embora o preparo de medicamento seja procedimento que demanda conhecimentos complexos, nos hospitais, a enfermagem costuma fazê- lo como tarefa simples, atribuída sem distinção a auxiliares, técnicos ou enfermeiros, e entendida como parte de uma rotina. No que se refere aos principais erros cometidos durante a administração dos medicamentos, as falhas relacionadas às normas de biossegurança foram as que mais se destacaram. Um dos cuidados para a redução dessas falhas seria a assepsia dos materiais para realização dos procedimentos, como também a lavagem das mãos, a utilização adequada de materiais estéreis e dos equipamentos de proteção individual (EPIs). Essas medidas, simples e de baixo custo, promovem considerável redução de erros de medicação e a não adoção das mesmas pode levar contaminação ao paciente, gerando infecções e o surgimento de patógenos resistentes aos fármacos. A velocidade de infusão errada esteve presente nesta investigação, evidenciando que este tipo de erro está intimamente relacionado à programação da bomba de infusão, em função de ajustes equivocados da mesma. Esse fato indica a necessidade de capacitação dos profissionais, uma vez que a falta de preparo e o desconhecimento do profissional são fatores de risco para a ocorrência de erros. O tipo de erro relacionado à omissão de dose, aqui classificado como o terceiro mais frequente, não é tão incomum na literatura. Teixeira e Cassiani14, ao analisarem os erros de medicação ocorridos em um hospital universitário e público de Ribeirão Preto (SP), puderam constatar a ocorrência de omissões, sobretudo relacionadas à rede venosa do paciente de difícil acesso, à alteração dos horários prescritos e a não administração de atrovent (brometo de ipratrópio) junto com soro fisiológico a 0,9% e berotec para inalações. Erros como esse sugerem a necessidade de propostas de mudanças nas etapas de distribuição, preparo e administração dos medicamentos para promover o adequado trabalho dos profissionais, bem como a supervisão do enfermeiro junto a técnicos e auxiliares de enfermagem, no intuito de oferecer ao paciente uma assistência de qualidade, livre de danos ou prejuízos. Outro problema que ocorre com bastante frequência em hospitais é a padronização dos horários de administração de medicamentos, fato que contribui para a interação medicamentosa, que pode interferir na absorção, distribuição, metabolização e eliminação dos fármacos, levando a um agravamento do quadro do paciente. Além das cinco regras básicas (medicamento certo, via, dose, hora, paciente) indicadas em várias literaturas, existem algumas outras que também podem servir de auxílio ao profissional durante a administração de medicamentos (registro certo, conhecer a ação, apresentação farmacêutica e monitorar o efeito), a fim de que imprevistos indesejáveis e fatais não ocorram19. Sabe-se que o enfermeiro é o responsável pelo planejamento dos horários de administração dos medicamentos. Cabe, portanto, a esse profissional, aprazar a prescrição medicamentosa, com o que é possível prevenir as interações medicamentosas e assegurar uma prática sem riscos. Ao analisar os tipos de EM, Yamamoto, Peterlini e Bohomol20 observaram que a velocidade de infusão errada (25,0%) e a omissão de dose (20,8%) foram os principais erros citados pelos profissionais. Os achados desses autores, quando comparados aos resultados do presente estudo, mostram semelhanças entre os erros encontrados de acordo com a percepção dos entrevistados, ainda que com percentuais bem diferentes. Por outro lado, Freitas e Oda17 encontraram que 26% dos erros correspondem a medicamentos administrados em hora errada, mostrando percentual abaixo do resultado desse estudo. O Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem, cap. III, das responsabilidades, art. 16 e 20 respectivamente, ressalta que é papel desses profissionais assegurar ao paciente uma assistência de Enfermagem livre de danos decorrentes de imperícia, negligência ou imprudência; responsabilizar-se por falta cometidaem suas atividades profissionais, independentemente de ter sido praticada individualmente ou em equipe. No art.30 diz ainda que é proibido administrar medicamentos sem conhecer a ação da droga e sem certificar-se da possibilidade de riscos21. Muitas vezes, o erro está relacionado a diversos fatores como estresse, sobrecarga de trabalho, cansaço, dificuldade de entender a prescrição, distração e ambiente físico inadequado, gerando problemas e prejudicando a assistência aos pacientes, como já evidenciado por Santana et al.22, em uma revisão crítica da literatura acerca dos fatores que propiciam os erros de medicamentos pela equipe de enfermagem. Podemos notar que, entre trabalhadores de enfermagem, a sobrecarga de trabalho é um dos principais fatores de estresse e cansaço ocupacional e que, juntamente com a privação do sono e problemas pessoais, pode reduzir a capacidade de atenção, aumentando a possibilidade de erros. A experiência demonstra que profissionais de enfermagem, com frequência, têm dupla jornada de trabalho com intuito de receber melhores remunerações, tornando-os vulneráveis à realização de procedimentos inseguros, sem falar na grande quantidade de tarefas para serem realizadas pelos mesmos. Fornecer ambiente seguro para a administração de medicamentos envolve um grande número de recursos físicos e humanos. Um espaço bem organizado, com boa luminosidade, ventilação e temperatura adequada, poucas solicitações e interrupções ao telefone, sem ruídos, além do conhecimento e experiência que o profissional possui, podem contribuir para a não ocorrência de erros. Outro cuidado é a padronização do armazenamento adequado e identificação completa e clara de todos os medicamentos utilizados na instituição. A redação manual da prescrição medicamentosa acarreta, muitas 49Rev. Bras. Farm. Hosp. Serv. Saúde São Paulo v.5 n.2 45-50 abr./jun. 2014 vezes, em dificuldades de leitura e compreensão, devido à letra ilegível dos profissionais médicos. Apesar de ser uma situação bastante frequente no cotidiano da equipe de enfermagem, não é obrigação da mesma a tradução das prescrições. De acordo com o Código de Ética Médica, Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) Nº 1931, de 17 de setembro de 2009, no art. 39, que trata da responsabilidade profissional, compete ao médico prescrever de forma legível23. Por outro lado, estudos vêm demonstrando que a escrita médica não é a pior do que a de muitos outros profissionais, e que a caligrafia ruim não é uma causa comum de erros de medicação, sendo, na verdade, muitas etapas ao longo da prescrição e da administração do medicamento responsáveis pelos erros, como demonstrado no presente estudo24-25. Contudo, é comum se observar que, muitas vezes, faltam nas prescrições informações importantes para a prevenção de erros, tais como via de administração e dosagem, entre outros. A falta de alguns itens nas prescrições constituem achados frequentes em estudos. Exemplo disso, Gimenes et al26, ao analisarem a redação da prescrição médica nos erros de doses, ocorridos em cinco hospitais brasileiros, identificaram ausência de dados do paciente (leito, registro), ausência de data e ausência de dados do medicamento (dose). Preocupada com a falta destes dados que concorrem para a incidência de erros, a National Coordinating Council for Medication Error Reporting (NCCMERP)4 recomenda que toda prescrição de medicamentos deve incluir claramente o nome da droga, a apresentação, concentração e a dose do medicamento. Além destas, há o alerta para o prescritor evitar o uso de abreviaturas27 que, aliado ao uso de siglas, constitui-se importante fator contribuinte para a ocorrência de erros de medicação26. Portanto, para que os profissionais de enfermagem executem com exatidão as determinações da prescrição médica, necessário se faz que as solicitações escritas sejam realizadas de forma precisa, clara, completa e sem rasuras, proporcionando plena leitura. Em relação aos direitos, o código de ética diz, no art. 37, que o profissional pode recusar-se a executar prescrição medicamentosa e terapêutica, onde não conste assinatura e o número de registro do profissional, exceto em situações de urgência e emergência. Além disso, no parágrafo único – especifica que o profissional de enfermagem poderá recusar-se a executar prescrição de medicamentos e terapêutica em caso de identificação de erro ou ilegibilidade21. Nesse sentido, Camerini e Silva18 apontam que, superar as falhas e problemas requer o conhecimento de que toda atividade de assistência à saúde possuí pontos frágeis que podem comprometer a segurança do paciente e que a chave para reduzir o risco é criar um ambiente sem a cultura da culpa e com cultura de vigilância e cooperação. CONCLUSÃO Este estudo permitiu a identificação de pontos de fragilidade, no que diz respeito à segurança do paciente, em relação ao preparo e administração de medicamentos. Segundo as opiniões dos profissionais participantes, os erros de medicação têm causas multifatoriais. Sendo assim, devem ser analisadas de forma multidisciplinar, para que medidas preventivas sejam implantadas. A proposta é que mudanças sejam feitas, devendo as mesmas começar pelos pequenos obstáculos, englobando todo o processo de medicação e identificando as mudanças que, provavelmente, resultarão em melhorias. Para que a continuidade de uma assistência sem intercorrências, devido a falhas individuais e/ou no sistema, seja alcançada, alguns cuidados devem ser seguidos, com vistas à prevenção de erros e danos aos pacientes como, por exemplo, o treinamento constante e a educação continuada da equipe, permitindo assim a sua atualização, pondo em prática seu conhecimento teórico- científico. A formação de grupos de discussão entre a enfermagem, para debates e orientações, aliadas à medidas administrativas, voltadas não somente para o indivíduo, mas também para o sistema, melhorias do ambiente físico de trabalho, utilização das prescrições durante o preparo e administração dos medicamentos, incentivo a notificação dos erros sem punições, implantação da prescrição computadorizada, pulseiras de identificação nos pacientes, fornecimento de informações aos pacientes a respeito dos medicamentos que serão administrados neles e supervisão da equipe pelo enfermeiro, são algumas estratégias que podem ser utilizadas, com o objetivo de proporcionar uma assistência com qualidade e segurança aos pacientes. Um sistema seguro de medicação irá auxiliar os profissionais na prevenção de inúmeros erros que possam vir a interferir drasticamente no quadro clínico do paciente. O desenvolvimento de medidas que tragam facilidades para o desempenho das atividades da enfermagem e dificuldades para as oportunidades de errar é fundamental nesse meio. O enfermeiro, ao detectar erros no seu ambiente de trabalho, deve exercer o seu papel de educador e interagir com a equipe, proporcionando a ela a possibilidade de interpretação das ocorrências dentro do sistema, para que assim melhorias sejam alcançadas. Acredita-se que este estudo contribua para alertar os profissionais de enfermagem sobre a importância do conhecimento acerca da ocorrência de erros durante a preparação e administração de medicamentos, permitindo um aprofundamento do tema e sua influencia na redução desses problemas, possibilitando, assim, uma equipe confiante e a realização de uma prática humanizada e segura. REFERÊNCIAS 1. Mendes W, Travassos C, Martins M et al. Revisão dos estudos de avaliação da ocorrência de eventos adversos em hospitais. Rev Bras Epidemiol. 2005; 8(4): 393-406. 2. Brasil. 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