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Resenha sobre o Artigo de Michel Misse: O papel do Inquérito Policial no Processo de Incriminação no Brasil: algumas reflexões a partir de uma pesquisa.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIENCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
HISTÓRIA DO CRIME E DA JUSTIÇA CRIMINAL DO SÉC. XVIII, XIX E XX
PROFª. Drª Claúdia Mauch.
Resenha sobre o Artigo de Michel Misse:
“O papel do Inquérito Policial no Processo de Incriminação no Brasil: algumas reflexões a partir de uma pesquisa”.
por:
Adriano da Silva Nunes.
O presente artigo produzido pelo professor Michel Misse – professor do departamento de sociologia da UFRJ –, nos traz uma reflexão sobre como é executado o inquérito policial no Brasil, a partir de uma pesquisa elaborada em 4 capitais brasileiras ( Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife e Rio de Janeiro),e na capital federal, na qual foram analisada as praticas e aplicações do inquérito, o decorrer de seu andamento desde sua abertura na delegacia de policia, até seu encaminhamento ao Ministério Público, onde será ou não relevante para a conclusão do caso. Esta pesquisa se deu na decorrência de uma experiência de campo, com entrevistas com membros operadores do sistema judicial e uma experiência própria de um acontecimento vivido pelo autor.
O artigo será dividido em três partes, sendo a primeira uma analise empírica sobre a aplicação e estruturação do inquérito, qualificação de crime e incriminação e práticas antigas e modernas de caracterizar a criminalização dentro das sociedades, a partir do prisma do Estado como legislador dessa criminalização. Sempre tentando entender a lógica utilizada pelos legisladores, e seus operadores do sistema, para institucionalizar e reger as normas de transgressão moral, caracterizadas como crimes. Também caracterizando a diferença de um inquérito policial e investigação policial.
É sempre preciso insistir que, na modernidade, o crime não existe na “natureza” do evento, mas na interação social em que uma parte acusa moralmente a conduta da outra e, sendo bem-sucedida, obtém a institucionalização daquele curso de ação, idealmente tipificado como crime, nos códigos penais (...) (...) na modernidade, a reação moral vitoriosa – por ter dado continuidade à consciência moral tradicional ou produzido uma nova reação moral – foi capaz de institucionalizar, em código escrito, uma conduta como crime e definir institucionalmente os procedimentos necessários à sua elucidação, bem como as condições de adjudicação da pena ao sujeito do crime. (...) é suposto considerar que o Estado, se democraticamente instituído, buscará, de forma eficiente, incriminar igualmente todos os cidadãos que transgredirem essa norma moral, já que está, também agora, juridicamente institucionalizada. Desse modo, (...) (...) as transgressões serão comumente administradas pelo Estado, uma vez que os cidadãos as façam conhecidas de seus agentes. ( MISSE, 2011, p.16).
A segunda parte do artigo, o autor, dedica-se a descrição dos procedimentos de um inquérito policial sobre um caso de homicídio doloso, ao qual ele acompanhou. Ao narrar o caso de homicídio da vítima S.—assim caracterizada por ele —. Misse nos expõe sua experiência como interlocutor das falhas presentes no processo de elaboração do inquérito policial, caracterizando o despreparo, e, às vezes desinteresse dos agentes operadores judiciais, responsáveis pela elaboração dos inquéritos. Como por exemplo, pequenos detalhes na cena do crime que passou despercebido pelo perito, e que supostamente poderia auxiliar na conclusão do caso. 
Ao discorrer sobre o crime, o seu acompanhamento e envolvimento junto ao caso, o autor nos apresentada os procedimentos tomados pelos agentes responsáveis para elucidação do caso, utilizando de depoimentos dos supostos envolvidos – amigos e donos do estabelecimento onde a vítima estava antes do crime —, familiares da vítima e de outras pessoas–incluindo o do autor –, além das pressões através da imprensa, organizada pela família e amigos para a elucidação do crime. No decorrer de um ano, nada a havia sido provado contra os primeiros acusados (amigos da vítima pertencentes à classe média, um casal de homossexuais, não assumidos até aquele dado momento, e que foram as ultimas pessoas a estarem com a vítima antes de sua morte). Passado mais de um ano do não esclarecimento do caso, um terceiro elemento foi indiciado como autor do crime, por protagonizar outro tipo de violação de conduta moral – uma tentativa de estupro – nas imediações do crime anterior. Este suspeito, em um primeiro momento nega à participação ativa no crime ligado a vítima S., mas depois de preso vem à confissão de ser o autor do crime, sendo levado a julgamento e sentenciado pelo mesmo. 
No final de seu texto sobre o relato do crime mencionado acima, Misse não irá promover um julgamento sobre os procedimentos tomados pelos responsáveis do inquérito instaurado para resolução do crime, e sim demonstrar o peso do papel do inquérito dentro de um processo judicial, informando que no julgamento o inquérito não aparece por completo, mas sim por alusão.
Não se trata aqui se os procedimentos foram ou não corretos, mas de descrever o peso do inquérito policial em todo o processo, a sua força persuasiva transcrita em cartório com fé pública. No julgamento, o inquérito não comparece por inteiro, mas por alusão. (MISSE, 2001, p. 24).
A terceira e última parte do artigo o autor irá dedicar-se a apresentar dados específicos do peso do inquérito policial junto às taxas de elucidações dos crimes graves. O autor irá pegar como base para este estudo, uma delegacia premiada no ano de 2008, escolhida pela excelência de seu trabalho, apresentando uma tabela da movimentação da dos inquéritos naquela delegacia, e a discrepância dos inquéritos enviados ao Ministério Público, referente ao número de ocorrências registadas. O estudo divide-se em crimes de natureza grave – que são enviados ao ministério público e exigem investigação— e delitos de menor gravidade – que não necessitam de uma investigação. Com base nessa divisão, Misse irá entrevistar delgados, promotores e policiais para entender o funcionamento do papel do inquérito na justiça brasileira.
A primeira constatação que o autor chega é que nenhum agente judicial quer terminar com o modelo atual do inquérito brasileiro, devido ao seu valor jurídico nas instancias maiores; conferindo também grande poder a quem o manipula, podendo assim o legislador protelar a seu bel-prazer a ação judicial caso não haja interesse na resolução do mesmo.
O autor termina sua reflexão deixando claro que não se pode atribuir as problemas da justiça criminal apenas ao trabalho da policia ou o modelo de inquérito policial, tendo muitos outros fatores que protelam a resolução de muitos casos.

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