A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
125 pág.
Medicina Felina - Apostila

Pré-visualização | Página 7 de 38

de sangue em gatos é de 50 ml/kg, ex-
pressivamente inferior ao de cães (80 a 
Choque é definido como 
produção de energia 
celular inadequada 
e é comum ocorrer, 
secundariamente, a 
baixa perfusão tecidual 
devido a um fluxo 
sanguíneo reduzido ou 
distribuído de maneira 
desigual.
22 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 82 - dezembro de 2016
Figura 1 – Relação entre oferta 
(DO2) e consumo (VO2) de oxigê-
nio em estado de choque. A curva 
ascendente representa a fase pa-
tológica, na qual o consumo tor-
na-se dependente da oferta de 
oxigênio e ocorre acidose lática.
Figura 2 – Choque hipovolêmico: a perda de vo-
lume sanguíneo ou plasmático é a causa do cho-
que hipovolêmico. 
Adaptado de: Nature.com
 Figura 3 – Choque cardiogênico: há redução da 
contratilidade cardíaca devido a uma anormali-
dade do coração (ex.: arritmia, degeneração val-
var, ruptura de cordas tendíneas). 
Adaptado de: Nature.com
Figura 4 – Choque distributivo: ocorre redução 
da resistência vascular sistêmica, cursando com 
vasodilatação e aumento de permeabilidade vas-
cular. Pode ser dividido em séptico, anafilático e 
neurogênico. 
Adaptado de: Nature.com
Figura 5 – Choque obstrutivo: ocorre devido a 
um impedimento do enchimento ventricular 
durante a diástole (ex.: tamponamento pericár-
dico) ou impedimento do retorno venoso (ex.: 
síndrome da veia cava), culminando em redução 
do débito cardíaco. 
Adaptado de: Nature.com
232. Choque circulatório em felinos
90 ml/kg). Por isso essa 
espécie depende qua-
se exclusivamente do 
aumento da frequência 
cardíaca para manuten-
ção do débito cardíaco 
(Félix, 2009).
Uma das diferenças observadas 
é a ocorrência de bradicardia ou fre-
quência cardíaca normal, que pode 
ser considerada uma 
bradicardia relativa em 
um paciente hipoten-
so (Murphy e Hibbert, 
2013). Uma vez que 
o débito cardíaco é o 
resultado da contrati-
lidade e da frequência 
cardíaca, o fato de ter 
bradicardia ou uma fre-
quência normal reduz a 
resposta compensató-
ria do gato ao choque 
(Tello, 2006). Além dis-
so, ocorre comumente 
hipotermia - temperatura retal menor 
que 37˚C -, pulsos periféricos fracos a 
ausentes, depressão mental, mucosas 
de coloração pálida ou acinzentada e 
tempo de preenchimento capilar redu-
zido ou ausente (Murphy e Hibbert, 
2013), extremidades frias, fraqueza 
generalizada ou colapso (Laforcade e 
Silverstein, 2015). A hipotermia em 
felinos causa falha na resposta de va-
soconstrição periférica esperada em 
estados de hipovolemia (Musphy e 
Hibbert, 2013), falha 
parcial com uma tem-
peratura de 34˚C e 
total quando a tempe-
ratura atinge 32˚C ou 
menos (Rabelo, 2012). 
Tanto na falha parcial 
quanto na total, ocorre aumento da 
capacitância venosa. Desse modo, em 
um felino hipotérmico ressuscitado 
com grande volume de 
fluidos há elevado ris-
co de sobrecarga hídri-
ca (Murphy e Hibbert, 
2013), pois quando há 
normalização da tem-
peratura ocorre vaso-
constrição compensa-
tória e, consequente, 
redução da capacitân-
cia venosa (Rabelo, 
2012). Uma explicação 
para tais diferenças é a 
presença de fibras do 
sistema nervoso autônomo (SNA) 
parassimpático, próximas às fibras do 
SNA simpático, ocorrendo dessa for-
ma a estimulação de ambos os siste-
mas em resposta à hipotensão (Tello, 
2006). A contração esplênica ocorre 
com menos eficiência em felinos devi-
do a tal correlação entre as fibras ner-
vosas, podendo inclusive estar ausen-
te em alguns animais (Tello, 2009). O 
Quadro 2 resume os sinais comuns de 
felinos em choque.
A hipotermia em felinos 
causa falha na resposta 
de vasoconstrição 
periférica esperada em 
estados de hipovolemia.
Um felino hipotérmico 
ressuscitado com 
grande volume de 
fluido tem elevado 
risco de sobrecarga 
hídrica ..., pois quando 
há normalização 
da temperatura 
ocorre vasoconstrição 
compensatória e, 
consequente, redução da 
capacitância venosa.
24 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 82 - dezembro de 2016
Quadro 1 – Classificação funcional do choque
A hipotermia em felinos causa falha na resposta de vasoconstrição periférica es-
perada em estados de hipovolemia.
Classificação Causa Exemplos
Hipovolêmico
Redução do volume sanguíneo 
circulante.
Hemorragia, desidratação grave, 
trauma.
Cardiogênico Falha da bomba cardíaca.
Insuficiência cardíaca congestiva, 
arritmias cardíacas, tamponamento 
pericárdico, overdose de drogas (beta-
bloqueadores, anestésicos, bloquea-
dores de canais de cálcio).
Distributivo
Aumento ou redução acentuada 
na resistência vascular sistêmica 
ou má-distribuição do sangue.
Sepse, obstrução do fluxo sanguí-
neo (tromboembolismo arterial), 
anafilaxia, excesso de catecolaminas 
(feocromocitoma), síndrome da 
dilatação-vólvulo-gástrica.
Metabólico Desarranjos celulares.
Hipoglicemia, toxicidade por cianeto, 
disfunção mitocondrial, hipóxia cito-
pática da sepse.
Hipoxêmico
Redução do conteúdo arterial 
de oxigênio.
Anemia, doença pulmonar grave, 
toxicidade por monóxido de carbono, 
metemoglobinemia.
Fonte: Laforcade e Silverstein, 2015.
Quadro 2 – Sinais de choque em felinos
Frequência cardíaca normal ou bradicardia (FC < 140bpm)
Hipotermia (TR < 37˚C)
Pulsos periféricos fracos ou ausentes
Estado mental deprimido
Mucosas pálidas ou acinzentadas
Tempo de preenchimento capilar reduzido ou ausente
Fonte: Murphy e Hibbert, 2013
252. Choque circulatório em felinos
3. Abordagem do paciente 
em choque
O manejo bem-sucedido de um feli-
no em choque depende de alguns fato-
res (Murphy e Hibbert, 2013):
• Identificação e tratamento de anor-
malidades ameaçadoras à vida;
• Realização de exame físico rápido, in-
cluindo cuidadosa avaliação do siste-
ma cardiovascular;
• Obtenção de acesso venoso e início da 
ressuscitação volêmica;
• Coleta de exame laboratorial e realiza-
ção de exame de imagem se o paciente 
estiver estável e conforme a suspeita 
clínica;
• Ser capaz de verificar os problemas 
presentes e acessá-los por ordem de 
prioridade;
• Providenciar cuidados de suporte 
para estabilização do paciente;
• Realizar exame físico completo, in-
cluindo reavaliação dos parâmetros 
vitais.
A abordagem inicial 
envolve o exame físico 
rápido das funções vi-
tais, com foco nos siste-
mas cardiovascular, res-
piratório e neurológico e 
por meio desses dados o 
clínico deve ser capaz de 
reconhecer um estado de 
choque. Se a parada cardiorrespiratória 
for identificada, o suporte básico à 
vida deve ser imediatamente iniciado 
(Murphy e Hibbert, 2013).
Alguns testes diagnósticos são ne-
cessários para avaliar a extensão da injú-
ria orgânica e para identificar a etiologia 
do choque. Entre os exames recomen-
dados estão a gasometria venosa ou 
arterial, o hemograma, o painel bioquí-
mico, o lactato sérico, o painel de coa-
gulação, a urinálise e o tipo sanguíneo. 
Uma vez que o paciente estiver estável 
radiografias torácicas e abdominais, ul-
trassonografias e ecodopplercardiogra-
fias podem ser realizadas. Além disso, 
destaca-se a necessidade de monitora-
ção constante do paciente, essencial ao 
diagnóstico e tratamento, por eletrocar-
diografia, monitoração da pressão arte-
rial e oximetria de pulso (Laforcade e 
Silverstein, 2015).
4. Tratamento
O tratamento do choque envolve o 
reconhecimento precoce da condição 
e a restauração do sistema cardiovascu-
lar para assegurar que o DO2 seja nor-
malizado rapidamente. 
Ressalta-se que definir 
a terapia pode ser difícil 
nos pacientes em cho-
que devido a necessida-
de de tomar decisões rá-
pidas e baseados em um 
histórico médico breve 
e, muitas vezes, incom-
pleto (Laforcade e Silverstein, 2015). 
Além disso, pacientes em choque de-
vem ser