Prévia do material em texto
50 Unidade II Unidade II A partir de agora trataremos mais diretamente do Direito Contemporâneo e, para isso, é fundamental conhecermos os elementos essenciais que constituem a ideia de Direito, assim como sabermos os conceitos utilizados por diferentes pensadores do tema. Em seguida, veremos os sistemas e as fontes do Direito, ou seja, compreenderemos que ele é praticado de diferentes formas no mundo contemporâneo e que não é apenas a lei que caracteriza o conjunto de normas que consideramos jurídicas. Os costumes possuídos por distintos grupos sociais organizados e as decisões adotadas pelos tribunais que por vezes podem ser chamadas de jurisprudência, também são Direito e precisam ser estudados de forma sistematizada. Precisamos conhecer, ainda, os diferentes ramos do Direito na realidade contemporânea, fique atento, porque são muitos os ramos necessários para compreender tamanha complexidade. Se antigamente era possível dividir o Direito em Civil, Penal e Processual, na atualidade necessitamos de muitas outras divisões, umas das quais surgidas nos últimos 20 ou 30 anos, como é o caso de Direito do Consumidor, Direito Ambiental, Direito da Criança e do Adolescente, do Idoso, entre outros. Sobre cada um deles verificaremos as principais ideias norteadoras. Por fim, temos de compreender que Direito não é um instrumento de aplicação automática para aqueles que atuam nas carreiras jurídicas ou em áreas correlatas, como é o contexto do gestor de serviços jurídicos, notariais e de registro. Todos os que utilizam o conhecimento do Direito para sua atividade profissional precisam saber que não se trata de aplicação matemática, simplesmente pelo fato de que a vida não se desdobra similarmente em todas as circunstâncias. É preciso conhecer cada situação concreta para saber qual o campo a ser aplicado a fim de solucionar os conflitos e, a isso, damos o nome de interpretação do Direito, com vistas à aplicação aos casos concretos. Ainda podemos chamar a interpretação do Direito de hermenêutica, um nome que homenageia o deus Hermes, da mitologia grega. 5 DIREITO – CONCEITO E SIGNIFICADOS Um conceito de Direito pode até trazer as principais ideias sobre essa área do conhecimento humano, mas, certamente, não terá o condão de levar você, aluno, a compreender toda a multiplicidade de aspectos que esse saber contém. Portanto, antes de entendermos o conceito, devemos assimilar as possibilidades de utilização da palavra Direito e os diferentes significados que ela pode assumir. O professor André Franco Montoro (2005) ensina: não podemos nos limitar ao estudo do vocábulo. Devemos passar do plano das palavras para o das realidades. 51 TEORIA GERAL DO DIREITO II Consideremos as expressões seguintes: 1 – o direito não permite o duelo; 2 – o Estado tem o direito de legislar; 3 – a educação é direito da criança; 4 – cabe ao direito estudar a criminalidade; 5 – o direito constitui um setor da vida social. Se atentarmos para a significação do vocábulo “direito”, nessas diversas expressões, verificaremos que, em cada uma, ele significa coisa diferente. Assim, no primeiro caso – “o direito não permite duelo” – “direito” significa a norma, a lei, a regra social obrigatória. Na segunda expressão – “o Estado tem o direito de legislar” – “direito” significa a faculdade, o poder, a prerrogativa que o Estado tem de criar leis. Na terceira expressão – “a educação é direito da criança” – “direito” significa o que é devido por justiça. Na quarta expressão – “cabe ao direito estudar a criminalidade” – “direito” significa ciência, ou mais exatamente, ciência do direito. Na última expressão – “o direito constitui um setor da vida social” – “direito” é considerado como fenômeno da vida coletiva. Ao lado dos fatos econômicos, artísticos, culturais, esportivos etc., também o direito é um fato social. Temos, assim, cinco realidades diferentes a que correspondem as acepções fundamentais do direito. Um estudo mais detido nos revela que, partindo destas, podemos chegar, ainda, a outras significações, de menor importância (MONTORO, 2005, p. 55). Vitor Frederico Kümpel, por exemplo, identifica mais um sentido para a palavra Direito. Ele afirma Direito como Sanção Nessa acepção de direito a palavra sanção ganha significado de penalidade, ou seja, de coação legal sobre os sujeitos de direito. É o fator de eficiência da norma jurídica, prevista na norma como um dever-ser resultante da não prestação. É, portanto, uma consequência, boa ou má, agradável ou desagradável, de uma atitude perante o direito. 52 Unidade II [...] A sanção não é da essência do direito, pois o direito é valor, sendo a busca do justo. Porém, é da natureza do direito (KÜMPEL, 2009, p. 22). De fato, o que distingue o Direito da Moral é exatamente a sanção, ou seja, o resultado que o descumprimento da norma pode ocasionar. A desobediência a uma norma moral quase sempre acarreta apenas o desagrado do grupo social daquele que pratica o ato imoral. Já no campo do Direito, o descumprimento de uma norma ou dever jurídico, como, por exemplo, quitar a fatura de um cartão de crédito, vai gerar imediatamente uma sanção jurídica. No caso do não pagamento da fatura do cartão de crédito, a sanção pode ser de acréscimo de juros pela falta de pagamento (juros de mora), correção monetária e multa até o lançamento do nome do devedor no rol de negativados dos bancos de dados de crédito, como o Serasa e o SPC, por exemplo. Isso é uma sanção pela falta de cumprimento de um dever estabelecido pelo Direito em lei própria que regula as transações financeiras. No campo da moral isso se dá de forma diferente. De fato, é imoral que um homem se dirija a uma mulher com palavras inadequadas, fazendo referência a aspectos de seu corpo ou insinuando práticas sexuais. A chamada “cantada” pode ser feita de forma muito agressiva, sem nenhum respeito pelo gênero feminino e isso se constitui em grave incorreção moral, porém não gera nenhuma outra sanção senão a crítica social. Na atualidade, em que o tema do assédio tem sido tratado de forma mais aberta e dialogada com toda a sociedade, a sanção moral é maior. Muitas mulheres divulgam publicamente o assédio que sofreram e isso gera consequências graves para os homens, embora não de natureza jurídica, salvo se o assédio gerar danos que devam ser indenizados, como é o caso dos danos morais ou psicológicos. Recentemente, um ator de uma importante rede de televisão brasileira foi acusado publicamente de ter agido de forma contrária aos bons costumes morais, assediando uma mulher que trabalhava nos estúdios da emissora e se referindo a ela com palavras totalmente impróprias, inclusive ofensivas. Isso não gerou nenhuma repercussão jurídica. Ele não foi processado, demitido ou condenado ao pagamento de danos de qualquer natureza. No entanto, seu contrato de trabalho foi suspenso porque ele não foi convidado para nenhuma outra novela da emissora, seus possíveis contratos publicitários também foram afetados, porque nenhuma empresa aprecia ter sua marca vinculada a pessoas que não têm bom comportamento social e, no círculo de seus colegas de trabalho, atores e atrizes, as críticas foram muito fortes e simbolizaram que a sociedade brasileira não tem mais tolerância com esse tipo de comportamento. Muito embora as consequências morais tenham sido graves nesse caso, porque se tratava de um ator conhecido de uma emissora muito popular no país, a realidade é que as consequências morais são diferentes das consequências jurídicas, o que reafirma a diferença entre Direito e Moral. Vitor Frederico Kümpel (2009) tem importante reflexão sobre o Direito e a Moral. A moral é o conjunto de princípios reinantes nos atos resultantes da livre vontade humana, disciplinando os deveres do homem perante Deus, perante si próprio e perante a sociedade. 53 TEORIA GERAL DO DIREITO II Entre o direito e a moral existem duas principais semelhanças: 1 – Caráter prescritivo da norma: tantoa norma jurídica quanto a norma moral estabelecem objetivamente condutas (preceito primário), visando ambas à consecução dos fins que ao homem são próprios. 2 – Caráter ético: tanto o direito quanto a moral têm um fundamento ético comum, sendo que ao longo da história muitas vezes se confundiram, de forma a que haja uma tendência de a norma moral se transformar em norma jurídica. Existe uma implicação do preceito moral sobre a validade jurídica. O direito imoral é destituído de sentido, muito embora exista concretamente, tornando-se obrigação jurídica inválida. Sendo o direito uma organização das relações de poder, seu princípio constitutivo é a impositividade autoritária, mas seu princípio regulativo é que lhe dá o sentido de justiça. Isso significa que uma norma jurídica que estabeleça a pena de morte para o doador de sangue é possível, porém será totalmente destituída de sentido, da mesma forma que o direito imoral existe, mas sem nexo. [...] o direito mesmo sendo um ato de poder, não tem validade no poder. A validade do direito está no senso comum, ou seja, é algo que o homem experimenta em contato com outros homens e não solitariamente. Nessa linha de raciocínio, a moral é uma condição para a existência do direito, senão ele perderá toda a validade, gerando arbitrariedade e violência. (KÜMPEL, 2009, p. 27). Essa reflexão de Kümpel é muito importante. O Direito não é justo somente porque existe a lei. Ao longo da história da humanidade, milhões de normas foram criadas para atender interesses particulares do poder político, econômico ou social e elas não tinham nenhum traço de significado moral. Em outras palavras, eram leis, mas eram injustas, perversas, arbitrárias e abomináveis. Quer um exemplo? A lei que permitia, no Brasil, a escravidão de pessoas de raça negra. Figura 12 – Escravidão no Brasil (Castigo de Escravo, Jean-Baptiste Debret) 54 Unidade II Outras leis injustas e imorais foram as que determinaram que os judeus poderiam ser desapossados de seus bens (imóveis, comércio, joias, obras de arte, veículos etc.) e encaminhados para os campos de concentração durante o período do nazismo na Alemanha. Figura 13 – Foto de câmara de gás de Auschwitz, campo de concentração dos nazistas. Exposição sobre Auschwitz, Madri, 2018 Figura 14 – Foto de dormitório de prisioneiros judeus no campo de concentração de Auschwitz. Exposição sobre Auschwitz, Madri, 2018 Essas cenas nos impressionam até hoje, porque não fazia sentido algum que tanta maldade fosse praticada contra seres humanos, simplesmente por serem negros ou judeus. Todavia, o que mais impressiona e causa espanto é que nada disso foi praticado contra a lei, ao contrário, todos os atos de violência estavam amparados em textos que subtraíram aos negros e aos judeus, entre tantos outros na história da humanidade, o direito de serem sujeitos de direito. Em outras palavras, tais pessoas não tinham direito à vida, à integridade física, ao bem-estar porque o próprio Direito havia subtraído essa condição delas. As ações praticadas contra judeus e negros eram legais. Porém, a pergunta mais importante que devemos fazer é: eram atos morais? Ou, ainda, eram atos justos? 55 TEORIA GERAL DO DIREITO II Isso nos ajuda a compreender que às vezes o Direito será injusto. Ele nem sempre acompanhará as regras da moral. Porém, mesmo nessas situações, será um Direito amparado por um texto de lei. É preciso, portanto, ao analisar uma lei, verificar se ela é justa, se atende aos preceitos morais que especificam os valores de uma determinada sociedade. Com esses elementos esclarecidos, já podemos refletir sobre a definição do Direito e faremos isso a partir do estudo de importantes pensadores do tema. Gustavo Filipe Barbosa Garcia (2017, p. 15) ensina que: Definir um objeto significa definir o seu verdadeiro sentido, ou seja, a sua significação precisa. Ao se procurar apresentar uma definição do Direito, primeiramente, deve-se ter em mente que o vocábulo “direito” compreende enfoques e significados diversos. Exemplificando, o termo em questão pode ser utilizado para significar o justo, ou o conjunto de normas jurídicas, ou a prerrogativa que tem a pessoa de fazer valer determinada posição jurídica etc. O Direito, assim, pode ser visto sob diversas perspectivas, como as que seguem: Direito como justiça, Direito como ordenamento jurídico, Direito como direito subjetivo. [...] Apresentamos, aqui, o conceito de Direito em seu aspecto objetivo, entendido como a realidade, presente na vida social, que regula as relações entre as pessoas. Nesse enfoque, o Direito pode ser definido como o conjunto de normas imperativas que regulam a vida em sociedade, dotadas de coercibilidade quanto à observância. Os seres humanos, por viverem em sociedade, necessitam de regras e princípios que possibilitam o convívio entre as pessoas, permitindo a evolução, a harmonia e a paz nas relações sociais. O Direito é justamente esse conjunto de normas, estabelecidas com essa finalidade. Os preceitos jurídicos são normas imperativas de comportamento, no sentido de que a sua observância é obrigatória. Vamos pensar em um primeiro exemplo para a aplicação desse conceito. Todas as pessoas no Brasil têm direito de comprar um veículo, desde que possam pagar pela aquisição. Entretanto nem todas elas têm direito de dirigir um veículo. Só os maiores de 18 anos estão legalmente habilitados 56 Unidade II a guiar um veículo automotor, embora um menor com 16 anos possa comprar um automóvel se possuir recursos para isso e se estiver emancipado por seus pais ou responsáveis. Todos os indivíduos habilitados podem guiar um veículo automotor, porém, não podem agir livremente. Deverão obedecer às regras de trânsito de modo a garantir que a circulação seja organizada para toda a sociedade, impedindo, assim, que o tráfego fique tão caótico que não seja mais possível circular. Imagine o que aconteceria se cada um resolvesse estacionar no lugar que desejasse, ou andar com o veículo na velocidade que achasse mais adequada. Por fim, aqueles que descumprirem regras de circulação de veículos ou que estiverem guiando sem habilitação estarão sujeitos a sanções que poderão variar da simples aplicação de multas até a apreensão do veículo. Tudo isso é Direito agindo no nosso cotidiano. Podemos, ainda, pensar em exemplos mais complexos. Uma pessoa resolve vender um imóvel que pertence à sua família há muitos anos. Faz um contrato com o comprador no qual fixam o valor da compra e venda, o prazo de pagamento e a data em que o comprador tomará posse do imóvel. Na data fixada para tomar posse, o comprador é impedido pelos irmãos do vendedor, que alegam ser coproprietários do imóvel, que não desejavam vendê-lo, que consideram o preço de venda muito baixo e, por fim, que não receberam nenhum valor decorrente da venda. O comprador contrata um advogado que o instrui a desfazer o negócio, porque, em razão da lei, só pode vender quem for realmente o proprietário ou estiver autorizado por ele e, nesse caso, tudo indica que nenhuma das duas hipóteses estava contemplada. Isso também é o Direito atuando em nossas vidas, porque existem leis específicas para organizar a compra e venda de imóveis no Brasil. Prossigamos nossa análise com a contribuição dos estudos de Dimoulis (2014, p. 17): O que é Direito? Uma das tarefas mais simples e, ao mesmo tempo, mais difíceis do mundo é dar uma definição de Direito. Tarefa simples: todos os manuais de Direito apresentam uma definição do Direito e qualquer estudante ou profissional da área jurídica pode oferecer sua própria definição. Tarefa difícil: nunca houve e nem haverá uma única definição do Direito. [...] O Direito faz parte dos conceitos controvertidos porque a sua definição está vinculada a ideias filosóficas e políticas que possuem forte carga emotiva e em relação das quais não é fácil obter um acordo. [...] O estudante de Direito deve aceitar essa realidade. Direito significa semprecontrovérsia. E já que as pessoas entendem o direito de várias formas é de se esperar que sobre os problemas concretos de sua aplicação haja muitas opiniões, conflitos e contestações. E em seguida, o professor Dimitri Dimoulis nos fornece uma análise com quatro significados do Direito, para auxiliar a nossa compreensão do tema: 57 TEORIA GERAL DO DIREITO II [...] devemos iniciar distinguindo quatro significados diferentes do termo (direito): 1 – Direito é o justo, aquilo que cada pessoa deve fazer ou deixar de fazer em uma sociedade bem ordenada e justa. Esse significado está relacionado com o termo latino directum, que significa reto, bem direcionado, correto (como na expressão “fiz tudo direito”). [...] 2 – Direito é aquilo que alguém pode fazer, exercendo uma faculdade (direito de votar), exigindo uma prestação (direito do vendedor de receber o preço da mercadoria vendida) ou omissão (exigir que os vizinhos deixem de incomodar ouvindo música após a meia-noite). Esta é a definição do “direito subjetivo”. 3 – Direito é o estudo das normas jurídicas. Neste sentido, dizemos que alguém é estudante ou professor de Direito. Aqui, o termo “Direito” designa o conjunto das disciplinas jurídicas, que muitos denominam “ciências do direito”. 4 – Direito é o conjunto de normas que objetivam regulamentar o comportamento das pessoas na sociedade. Essas normas são editadas pelas autoridades competentes e preveem, em caso de violação, a imposição de penalidades por órgãos do Estado. Esta é a definição do direito objetivo (DIMOULIS, 2014, p. 18). Realmente é importante que todos esses elementos nos permitam perceber que o Direito é fruto da atividade humana, construído ao longo da história da humanidade e pode variar de sociedade para sociedade, porque cada grupo social possui valores diferentes e que são próprios de sua organização. Alguns princípios são tão importantes que, quase sempre, são respeitados em comunidades distintas. É o caso da vida humana, da liberdade de expressão, de circulação, de escolha de candidatos para cargos políticos, do direito de propriedade dos bens adquiridos de forma lícita, de constituir família, entre outros. Esses são direitos encontrados em sociedades díspares, com histórias e conceitos não semelhantes aos nossos, porém com esses importantes pontos em comum. Outros preceitos não são tratados de forma tão próxima em diferentes comunidades no mundo. É o caso da proteção ambiental. Alguns países como a Alemanha, por exemplo, possuem grande preocupação com a preservação do meio ambiente, enquanto outros, como o Brasil, por exemplo, apenas dão os primeiros passos no sentido da efetiva prevenção de danos ao meio ambiente. 58 Unidade II Saiba mais Na rede mundial de computadores é possível encontrar sites muito interessantes que tratam da Alemanha e de sua política de preservação do meio ambiente há 100 anos, por exemplo: ESTADO ALEMÃO PROMOVE PRESERVAÇÃO AMBIENTAL HÁ CEM ANOS. Europa. DW, Bonn, 30 maio 2006. Disponível em: <https://www.dw.com/ pt-br/estado-alem%C3%A3o-promove-preserva%C3%A7%C3%A3o- ambiental-h%C3%A1-cem-anos/a-2036392>. Acesso em: 1º ago. 2018. HÜBNER, C. História da Política de Energia e Clima da Alemanha: perspectivas da União Democrata Cristã 1958-2015. Lima: Fundação Konrad Adenauer, 2015. Disponível em: <http://www.kas.de/wf/doc/ kas_42301-1522-5-30.pdf?160203203259>. Acesso em: 1º ago. 2018. Todavia os estudos do professor Dimoulis (2014) nos ajudarão a entender como o Direito foi compreendido por importantes pensadores ao longo da história de humanidade. Esse exercício de conhecimento, análise e comparação das diferentes formas de percepção do Direito, nos auxiliarão a expandir nosso próprio discernimento e a formar nosso conceito e expressão sobre o assunto. Consequentemente, temos na obra do professor Dimoulis (2014, p. 19): Platão (427-348 a.C.), um dos mais notáveis filósofos da Grécia Antiga e aluno de Sócrates, tratou de assuntos jurídicos principalmente na obra Politeia (A República – 375 a.C.) e Nomoi (As leis – 350 a.C.). [...] Em sua visão, o direito consiste na busca de justiça, ou seja, é definido como regra que indica o justo. O princípio fundamental é dar a cada um aquilo que ele merece. Esse princípio deve ser garantido pelo Estado. [...] Aristóteles (384-322 a.C.) é o mais famoso entre os filósofos da Grécia Antiga. [...] Segundo o filósofo, o Estado define o que é direito, devendo empregar o critério da justiça. O direito é justo quando protege os interesses gerais da sociedade e, em particular, quando trata de maneira igual as pessoas que se encontram em situação igual. Há duas formas de igualdade. A igualdade aritmética e a igualdade geométrica. A primeira exprime a justiça comutativa (ou sinalagmática); e a segunda a justiça distributiva (ou atributiva). A justiça comutativa deve ser aplicada em caso de contratos ou danos. Todos devem cumprir suas promessas e indenizar pelos danos que causaram na exata medida da promessa ou do dano. Este é o princípio da igualdade aritmética (“um por um”). 59 TEORIA GERAL DO DIREITO II A justiça distributiva é uma forma mais elevada de justiça. Fundamenta-se na proporcionalidade e aplica-se na distribuição dos ofícios e das honrarias objetivando determinar a posição social das pessoas. Critério de justiça distributiva é o valor pessoal, que é diferente para cada indivíduo. Por isso, o resultado da justiça distributiva é a desigualdade social. Cada um deve ter uma posição corresponde ao seu mérito e valor. As ideias dos importantes filósofos ainda são bem contemporâneas. De fato, todos concordamos com Platão, que cada um deve receber o que merece e isso é o justo; e também com Aristóteles, que há uma justiça comutativa que tem de obrigar aqueles que causam danos a indenizar os prejuízos decorrentes das promessas não cumpridas, nos contratos, por exemplo, e nos prejuízos decorrentes. Contudo, há um forte desejo na sociedade de que todos sejamos tratados em razão de nossas particularidades, ou seja, os mais vulneráveis precisam ser mais protegidos pelo Estado e os menos vulneráveis, menos protegidos. A mãe abandonada pelo companheiro e que precisa trabalhar para sustentar os filhos tem mais direito à vaga da creche do que aquela que possui um companheiro, ambos empregados e com condições de deixar seu filho com outra pessoa, cujo salário podem pagar. Ambas são mulheres e são mães, mas a situação de vida de cada uma é completamente diferente. Analisaremos outras definições de Direito. São Tomás de Aquino, pesquisado por Dimoulis (2014, p. 22), afirma: Tomás de Aquino. Teólogo italiano (1225-1274) [...] ensina que as leis são mandamentos da boa razão, formulados e impostos por aquele que cuida do bem da comunidade, isto é, o Monarca [...] Trata-se do direito estatuído e escrito, do ius positivum. Porém, o príncipe não possui plena liberdade na criação do direito. Deve respeitar os mandamentos divinos, que constituem a lei eterna (lex aeterna). Essa lei eterna encontra-se nos ensinamentos da Igreja Católica e inclui o direito natural. Assim sendo, o príncipe é obrigado a criar normas que derivem da lei eterna e protejam o bem comum. Se houver conflito entre a lei positiva e a eterna, isso significa que a lei positiva é “corrupta”, “tirânica”, “perversa”, ou “simples violência”. Em tais casos, os súditos são liberados do dever de obediência à lei positiva. Esse pensamento ainda nos ajuda a entender a sociedade contemporânea, embora tenha sido criado no século XIII. Existem leis feitas pelo Estado, por meio do poder legislativo e que a comunidade não reconhece como justa, adequada, correta. E, nesses casos, a sociedade tem criado meios para não cumprir a legislação, para exigir que ela seja totalmente modificada. Um bom exemplo disso ocorreu em 2013, quando a notícia do aumento do preço da passagem de ônibus provocou grande movimentação nas ruas das principais cidades do país, em especial São Paulo.60 Unidade II Figura 15 Saiba mais O movimento para impedir o aumento das passagens de ônibus está retratado em vários portais na rede mundial de computadores, em especial no site da Empresa Brasileira de Notícias. <www.ebn.com.br>. O pensamento de Immanuel Kant (1724-1804) também é bastante importante para compreendermos o Direito. Dimoulis (2014, p. 25) em sua pesquisa reporta. Kant considera o direito como produto da sociedade e expressão de obrigações morais dos indivíduos. A diferença entre a moral e o direito está no fato de que o direito ameaça com coação em caso de descumprimento da norma e não se interessa pelos motivos da ação dos indivíduos, mas somente pelos seus resultados. O direito deve expressar uma regra básica: devemos atuar de forma que a nossa conduta possa valer como lei geral. Em outras palavras, não devemos fazer aquilo que não gostaríamos que os outros fizessem. Essa é a regra de ouro (um “imperativo categórico”) que impõe limites aos indivíduos. [...] O objetivo do direito é conciliar a liberdade de cada um com a liberdade dos demais, de forma que a liberdade possa prevalecer como regra geral. Nesse sentido, o direito deve limitar a ação do indivíduo para preservar a liberdade dos demais. [...] Kant sustenta que o direito não é simplesmente o útil, mas 61 TEORIA GERAL DO DIREITO II o certo. O direito positivo é aceitável somente quando respeita a regra de outro e preserva a liberdade de todos. Esse pensamento de Kant também é profundamente atual e se adequa com perfeição às reflexões que construímos na atualidade sobre o Direito e suas práticas. As sociedades são cada vez mais complexas, mas a regra de ouro ainda é a mesma, não fazer aquilo que não gostaríamos que os outros fizessem. Isso se aplica a todas as dimensões da vida: ao trabalho, à família, aos diferentes grupos sociais dos quais participamos, às questões mais amplas, como a proteção ao meio ambiente e a garantia dos direitos fundamentais. O pensamento de Hegel a respeito do Direito também se mostra extremamente atualizado. Dimoulis (2004, p. 26) ensina que o mestre alemão que viveu de 1770 a 1831 afirmava [...] não é possível dar uma única definição de direito. Cada época elabora um direito com finalidades e características diversas. O direito moderno é o mais elaborado de todos, porque exprime os valores supremos do gênero humano. Isso é devido ao fato de ser produto do Estado e não simplesmente de acordos entre indivíduos. O Estado exprime o interesse geral, garante a aplicação dos princípios morais e realiza a liberdade humana. O tempo se incumbiu de provar que Hegel não estava completamente correto, porque o Estado nem sempre exprime o interesse geral. Por vezes, ele apenas oficializa o interesse de grupos econômicos ou políticos que chegam ao poder e querem legislar em conformidade exclusiva com suas vontades. Isso ocorreu e ainda acontece em muitos lugares do mundo, mas graças às lições de Hegel e outros, nós podemos identificar que quando isso acontece os governantes do Estado estão agindo de modo errado e, consequentemente, aquele não é verdadeiramente um Estado de Direito. Na atualidade, a Coreia do Norte é um dos países mais emblemáticos em termos de ausência de direitos para a população. Isso porque tem um governo totalitário, fechado, do qual se sabe muito pouco. Saiba mais Para informações sobre a vida na Coreia do Norte com matérias jornalísticas importantes, acesse: BARRUCHO, L. A vida da única família brasileira na Coreia do Norte. BBC, 29 set. 2017. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/ internacional-41340519>. Acesso em: 1º ago. 2018. FOTOS: COMO VIVEM AS PESSOAS COMUNS NA COREIA DO NORTE? Insiderpro, 6 abr. 2017. Disponível em: <https://pt-br.insider.pro/ lifestyle/2017-04-06/fotos-como-vivem-pessoas-comuns-na-coreia-do- norte/>. Acesso em: 1º ago. 2018. 62 Unidade II O pensamento de Hans Kelsen também é bastante relevante para conhecermos definições sobre o Direito. Esse jurista austríaco que viveu no período de 1881 a 1973 notabilizou-se por sua obra Teoria Pura do Direito, bastante estudada no Brasil, e ficou conhecido também por ser adepto do chamado positivismo jurídico. Para ele, a tarefa da ciência jurídica era explicar como funciona o ordenamento jurídico. As normas em vigor devem ser estudadas pelos juristas sem interferência de outras disciplinas, tais como a Sociologia, a História, a Ciência Política, a Psicologia, a Teologia ou a Filosofia. Para Kelsen, o estudo do Direito deveria ser puramente jurídico, ou seja, sem maior preocupação dos juristas com as causas sociais que determinam o nascimento das normas. O Direito deve estudar as estruturas e mecanismos por meio dos quais ele funciona, em especial, a hierarquia das leis que forma uma pirâmide hierárquica em cujo topo está a Constituição Federal, norma mais importante de um Estado. No Brasil, a pirâmide de Kelsen pode ser representada da seguinte forma: Constituição Federal Leis complementares Leis ordinárias Medidas provisórias e leis delegadas Resoluções administrativas Figura 16 O estudo que Kelsen propõe leva em conta a obrigatoriedade de que leis inferiores não contrariem as superiores, entre outros aspectos puramente formais, sem envolvimento de outros saberes sociais. A maior crítica que se faz ao seu pensamento é exatamente essa: o Direito não pode ser pensado como uma estrutura apenas formal, porque sua aplicação é para seres humanos que vivem em sociedade, ou seja, obrigatoriamente tem de levar em conta a garantia do bem-estar das pessoas e, para isso, o conhecimento oriundo de outras áreas do saber é essencial. Por fim, o pensamento de dois juristas merece nossa reflexão: Robert Alexy e Eros Roberto Grau. A pesquisa de Dimoulis (2014) nos auxilia a compreender como eles definem o Direito. O professor Robert Alexy é alemão, nascido em 1945 e ministra aulas sobre Filosofia do Direito e Direito Público, tendo se tornado mais conhecido no Brasil a partir da publicação de suas obras sobre Teoria dos Direitos Fundamentais e Teoria da Argumentação Jurídica. Alexy acredita que 63 TEORIA GERAL DO DIREITO II [...] o ordenamento jurídico não compreende somente as normas explicitamente criadas pelo legislador, mas também os princípios morais aceitos pela sociedade. Tais princípios devem guiar a aplicação do direito, satisfazendo as exigências da moralidade e da justiça. Em outras palavras, o direito não possui somente uma “dimensão real” (normas criadas pelo legislador). Possui também uma “dimensão ideal” que lhe dá sentido enquanto conjunto de normas que objetivam satisfazer as exigências da justiça (DIMOULIS, 2014, p. 31). Alexy nos introduz ao tema dos princípios jurídicos que, no Direito Contemporâneo, assumem maior importância porque são mais facilmente aplicáveis aos casos mais complexos, que demandam debate moral mais aprofundado como, por exemplo, o uso de células-tronco embrionárias para a realização de pesquisa, decisão que o Supremo Tribunal Federal teve que adotar no Brasil, em 2008, em meio à enorme controvérsia entre os que eram favoráveis à utilização e aqueles que eram contrários por entender que as células já eram seres vivos e não poderiam ser mortas na utilização científica. Observação No Brasil, a Lei Federal nº 11.105 (BRASIL, 2005a), de 24 de março de 2005, havia regulamentado as pesquisas com o uso de células-tronco embrionárias. Porém, ocorreu a interposição de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade perante o Supremo Tribunal Federal, que foi objeto do julgamento em 2008. Por fim, conheceremos na pesquisa de Dimoulis (2014) o pensamento do professor brasileiro Eros Roberto Grau. Segundo ele, o objetivo de Grau é: [...] construir uma “doutrina real do direito”, fundamentada na observação das funções do direito na sociedade. Finalidade do direito é a solução de conflitos para encontrar um equilíbrio entre a liberdade do indivíduo e o interesse coletivo. Essa função é cumpridapor meio de normas e decisões jurídicas que constituem um sistema (DIMOULIS, 2014, p. 31). Curiosamente, essa é a ideia central que mereceu a reflexão de todos os principais pensadores e filósofos que conhecemos aqui neste trabalho. De fato, Hobbes, Locke e Rousseau também se preocuparam em criar um Estado que garantisse a cada cidadão o direito de ser feliz, de exercer todas as suas potencialidades sem ser importunado nem por outros homens e nem pelo próprio Estado. O problema é que desde os momentos mais antigos da história da humanidade, encontrar essa medida de equilíbrio entre permitir que o homem faça o que é necessário para sua felicidade e impedi-lo de algumas práticas porque elas poderão ser inconvenientes para outras pessoas se constitui no principal ponto do Direito. Até onde podemos ter direitos e em que momento é mais relevante que tenhamos deveres para cumprir, sob pena de sofrermos sanções? 64 Unidade II Essas são reflexões que jamais terão um fim porque à medida em que a sociedade fica mais complexa na sua organização, mais teremos necessidade de organizar o Direito para regular a vida do homem e a garantia de segurança para todos. Analise os problemas que enfrentamos na sociedade com acidentes de trânsito, muitos dos quais resultantes da irresponsabilidade de pessoas que dirigem veículos em excesso de velocidade ou embriagadas. Já temos enorme quantidade de feridos e mortos, anualmente, em decorrência das más práticas dos cidadãos no tráfego. Agora, pense no que teremos que administrar de problemas quando os veículos guiados por sistemas de computador, portanto, sem motorista, se tornarem uma realidade mais presente em nossas vidas. O que vai acontecer quando o sistema tiver uma pane ou for invadido por hackers e criar acidentes que afetarão milhares de pessoas nas grandes cidades do país e do mundo? Só por esse exemplo conseguimos imaginar que o Direito não deixará nunca de se preocupar com seu conteúdo, com as regras e princípios necessários para que a sociedade viva em equilíbrio e paz. 6 SISTEMAS DO DIREITO René David (2014) é autor de uma obra muito importante para os estudos de sistemas do Direito, o livro denominado Os Grandes Sistemas do Direito Contemporâneo, que se tornou referência para todos os que estudam esse tema. Em seus estudos, ele organizou o Direito em famílias para poder compreender melhor e por meio de estudo comparado como cada uma das famílias trata os principais aspectos do Direito. Esse sistema adotado por René David (2014) teve por objetivo facilitar a análise das diferentes concepções do Direito no mundo contemporâneo, variável em cada comunidade social organizada. Agrupando por família, segundo o autor, é mais fácil identificar as semelhanças e diferenças da concepção do Direito em cada parte do mundo. Ele entende a partir de seu sistema de classificação que existem duas grandes famílias de Direito praticadas no mundo ocidental contemporâneo: • A família romano-germânica; e, • A família da common law. René David (2014) outrossim reconhecia a existência de uma família de direitos socialistas, porém, na atualidade, após a queda do Muro de Berlim em 1989 e do fim do chamado socialismo real nos países do Leste Europeu e daqueles que compunham a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, esse sistema perdeu aplicação e perdeu importância. A família romano-germânica se caracteriza pelo fato de que nesse sistema a lei é mais importante porque se caracteriza como regra de condutas necessárias para concretizar valores morais e de justiça. Portanto, todas as relações entre os cidadãos e entre estes e o Estado é regulamentada por leis. A origem dessa família de Direito é o Direito Romano, que nasceu na Europa, em Roma, como já estudamos. O Brasil foi colonizado por Portugal e, por isso, absorveu a prática daquele país que era pelo 65 TEORIA GERAL DO DIREITO II direito de família romano-germânica, em que a lei, em especial os códigos, são os textos jurídicos mais importantes, embora se aceitem outras fontes, porém, em caráter subsidiário. Paulo Hamilton Siqueira Júnior (2017, p. 125) ensina que: O sistema jurídico de influência romana é codificado e legislado, sendo assim a principal fonte do direito é a lei. De modo geral, o costume e a jurisprudência apresentam-se como fontes subsidiárias. Outrossim, no sistema jurídico romanístico as decisões do órgão superior não vinculam os juízes de órgão inferior, demonstrando a independência funcional do magistrado, que julga segundo a lei e a sua consciência. Ao sistema jurídico romano-germânico também se dá o nome de civil law, que traduzido de forma literal significa lei civil. As expressões são utilizadas de forma indistinta porque significam a mesma coisa, ou seja, o sistema jurídico em que a lei é o principal instrumento de solução de conflitos. Como funciona o sistema da common law? Primeiramente, é preciso lembrar que sua tradução literal significa lei comum, o que representa que a lei não precisa necessariamente estar escrita para ser conhecida, justamente porque é tão comumente aplicada a situações semelhantes que, mesmo quando não consta em um artigo de lei ou em um código, todos a conhecem e sabem que ela deverá ser aplicada àquele caso concreto. E, ao longo do tempo, são tantas as situações solucionadas da mesma forma que os tribunais criam precedentes e, dessa maneira, todas as ocorrências similares deverão ser assim julgadas. Esse sistema é utilizado na Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales, locais nos quais a principal fonte do Direito são os costumes praticados pela sociedade em diferentes momentos de sua vida e, a fim de preservá-los e protegê-los, os juízes decidem sempre da mesma forma quando estão diante de situações semelhantes, ou seja, invariavelmente em conformidade com os processos anteriores que já foram julgados pelos tribunais, tornando-os vinculados ao modo de decisão similar. Em outras palavras, para julgar, o magistrado deve conhecer como outras ocorrências idênticas foram julgadas e arbitrar seu caso atual em conformidade com os anteriores. Siqueira Júnior (2017, p. 126) acredita que no sistema jurídico da common law (anglo-saxônico), os tribunais inferiores estão obrigados a respeitar as decisões dos órgãos superiores na medida em que seus precedentes judiciais são emanados com força vinculante. É preciso compreender que no Direito brasileiro os magistrados também decidem com base em costumes e em julgados anteriores que foram aplicados em casos semelhantes, porém, aqui, não há maior obrigatoriedade para agirem dessa forma e, de fato, eles só o fazem se estiverem convencidos de que utilizar os precedentes seja a melhor solução para o processo que estão decidindo. No sistema anglo-saxão, os juízes não têm essa opção. Uma vez que estejam para julgar um caso para o qual já exista um precedente, são obrigados a adotá-lo. Aliás, além de obrigado a adotar a decisão anterior ou o julgado de um tribunal superior, os magistrados do sistema anglo-saxão ainda têm de fundamentar sua decisão, ou seja, explicar que julgado estão utilizando e por qual razão o fazem. 66 Unidade II Isso não é uma mera formalidade, ao contrário, é necessário para garantir segurança jurídica para toda a sociedade. Diante de um conflito entre duas partes ou de uma parte com o Estado, é possível prever como ele será decidido a partir do estudo de casos semelhantes cujos conflitos já tenham sido decididos pelo poder judiciário. Na atualidade, no Brasil, os magistrados têm decidido muitas vezes com fundamento em decisões anteriores, a chamada jurisprudência, que é o conjunto de decisões adotadas por tribunais na aplicação da lei ao caso concreto, que se constitui como a forma reiterada por meio da qual o tribunal decide situações concretas similares. Após muitas decisões no mesmo sentido em casos assemelhados, podemos afirmar que aquele tribunal “firmou jurisprudência” sobre aquele assunto e que, no futuro,decidirá da mesma forma outras situações parecidas. Uma única decisão de um tribunal sobre um determinado assunto não se constitui em jurisprudência. É apenas um julgado. Várias decisões também podem não ser jurisprudência. O que vai caracterizar realmente a formação de um pensamento uníssono sobre um determinado assunto será a quantidade e o transcurso de tempo, ou seja, há vários anos o tribunal julga sempre da mesma forma (respeitadas as peculiaridades do caso concreto), em situações semelhantes. Quando estivermos nessa condição, estaremos diante de uma circunstância concreta para a qual já existe jurisprudência de um tribunal e não apenas um conjunto de julgados sobre um determinado tema. A Constituição Federal brasileira de 1988 (BRASIL, 1988), no artigo 103-A, criou um instituto jurídico muito relevante denominado súmula vinculante. Esse artigo foi introduzido pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004, que introduziu a súmula vinculante que não existia na versão original da Constituição. Estabelece o referido artigo 103-A da Constituição Federal brasileira que: Artigo 103-A. O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, mediante decisão de dois terços dos seus membros, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional, aprovar súmula que, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua revisão ou cancelamento, na forma estabelecida em lei (BRASIL, 1988). Posteriormente, foi aprovada a Lei nº 11.417 (BRASIL, 2006) que regulamentou o artigo 103-A da Constituição Federal brasileira, para disciplinar a edição, revisão e o cancelamento de enunciado de súmula vinculante adotada pelo Supremo Tribunal Federal. Essa lei adota parâmetros importantes para a aplicação de súmulas vinculantes no Direito Brasileiro. Entre elas, a determinação de que a súmula com efeito vinculante tem eficácia imediata, mas o Supremo Tribunal Federal, por decisão de dois terços de seus membros, poderá restringir os efeitos vinculantes ou 67 TEORIA GERAL DO DIREITO II decidir que só tenha eficácia a partir de outro momento, para atender a razões de segurança jurídica ou de excepcional interesse público. Outro parâmetro importante adotado pela Lei nº 11.417 (BRASIL, 2006), é aquele do artigo 6º, que determina que a proposta de edição, revisão ou cancelamento de enunciado de súmula vinculante não autoriza a suspensão dos processos em que se discuta a mesma questão. Além disso, a lei supracitada determina que da decisão judicial ou do ato administrativo que contrariar enunciado de súmula vinculante, negar-lhe vigência ou aplicá-lo indevidamente caberá reclamação ao Supremo Tribunal Federal, sem prejuízo dos recursos ou outros meios admissíveis de impugnação. Com isso, fica estabelecido que o cumprimento de uma súmula vinculante é obrigatório para todos os magistrados do País. Lembrete Ao sistema jurídico romano-germânico também se dá o nome de civil law, que, traduzido de forma literal, significa, lei civil. Analisaremos um exemplo de súmula vinculante adotado no Brasil, a de nº 11, que emana do Supremo Tribunal Federal: Súmula Vinculante nº 11 Só é lícito o uso de algemas em casos de resistência e de fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros, justificada a excepcionalidade por escrito, sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual a que se refere, sem prejuízo da responsabilidade civil do Estado (BRASIL, 2008). O uso de algemas foi bastante discutido por ocasião das prisões, às vezes em caráter preventivo e provisório, de políticos e empresários envolvidos nas diversas fases da Operação Lava-Jato. Alguns dos detidos eram pessoas sem nenhuma condição de resistir com violência física ou de tentar empreender fuga, por isso, a utilização de algemas foi questionada por elas próprias e por seus advogados, obrigando o Supremo Tribunal Federal a decidir sobre o assunto, em caráter de súmula vinculante, de forma que não restasse mais dúvida sobre os critérios para utilização de algemas. É por isso que, na atualidade, podemos afirmar juntamente com Paulo Siqueira Júnior (2017, p. 127) que: 68 Unidade II O mundo ocidental conhece dois sistemas jurídicos denominados civil law e common law que convergem para um único sistema: o sistema jurídico ocidental. As diferenças apontadas entre os dois sistemas jurídicos estão sendo abandonadas e verifica-se uma aproximação entre eles, fazendo surgir em breve o sistema jurídico do mundo ocidental. No sistema jurídico romano verifica-se maior influência da jurisprudência como fonte criativa do direito. No direito anglo-saxão verifica-se um aumento gradativo da produção legislativa. De fato, no Brasil contemporâneo, além da previsão constitucional das súmulas vinculantes, é possível notar que advogados, promotores públicos e magistrados têm fundamentado seus pedidos e suas decisões (no caso dos magistrados) cada vez mais em jurisprudência de tribunais, que sinalizam antecipadamente qual a tendência para a solução de um determinado conflito. Isso ocorreu de forma natural, porém com objetivo de oferecer maior segurança jurídica para as decisões, de modo que cada pessoa física ou jurídica (empresas, principalmente), possa antever o resultado do conflito em juízo e, exatamente por poder avaliar fazê-lo, decidir se quer ou não levar a divergência para ser solucionada pelo Poder Judiciário ou se é mais conveniente formalizar um acordo de vontade para colocar fim ao problema. É nesse sentido que Paulo Hamilton Siqueira Júnior (2017) identifica a aproximação dos dois sistemas, de modo que, no futuro, é possível pensar que venhamos a conhecer no Ocidente apenas um único sistema, que utilizará aspectos relevantes dos dois que existem na atualidade: common law e civil law. 7 FONTES DO DIREITO Quando nos referimos às fontes do Direito estamos refletindo sobre quais as razões que fazem o Direito nascer e que instrumentos têm credibilidade para serem reconhecidos como origem do Direito que uma comunidade organizada pretende utilizar. As fontes serão diferentes conforme os objetivos de organização que cada grupo social traçar e, nesse sentido, estarão adequadas à história daquela sociedade, aos valores que cultiva e pretende preservar, aos fins que pretende atingir. Vitor Frederico Kümpel (2009, p. 59) nos lembra que “a própria palavra fonte nos remete imediatamente à imagem da água jorrando da terra, indicando algo que brota. Portanto, a fonte aponta para a origem de alguma coisa, sendo o ponto de partida, no caso, do direito”. Os estudiosos costumam dividir as fontes em dois tipos: material e formal. As fontes materiais são as razões humanas que justificam que uma sociedade escolha valores para serem a base de sua organização e, por isso, serem aplicados e cumpridos sob pena de sanção. Já as fontes formais são os instrumentos por meio dos quais esses valores se tornam conhecidos e obrigatórios para todos aqueles que vivem nessa comunidade, tais como a lei, os costumes e a decisão dos tribunais. 69 TEORIA GERAL DO DIREITO II André Franco Montoro (2005, p. 379) ensina que: Os autores costumam distinguir as fontes formais, isto é, os fatos que dão a uma regra o caráter de direito positivo e obrigatório, das fontes materiais, representadas pelos elementos que concorrem para a formação do conteúdo ou matéria da norma jurídica. Como fontes formais do direito, indicam-se tradicionalmente: a) a legislação; b) o costume jurídico; c) a jurisprudência; d) a doutrina. Como fontes materiais podem ser mencionados: a) A realidade social, isto é, o conjunto de fatos sociais que contribuem para a formação dos conteúdos do direito; b) Os valores que o direitoprocura realizar, fundamentalmente sintetizados no conceito amplo de justiça. Em sentido próximo a esse entendimento, porém com peculiaridades que merecem nosso estudo, Gustavo Filipe Barbosa Garcia (2017, p. 104) ensina: As fontes materiais do Direito são os motivos éticos, morais, históricos, sociológicos, econômicos, religiosos e políticos que deram origem à norma jurídica. Envolvem, assim, os fatores reais que condicionaram o aparecimento da norma jurídica, as razões (econômicas, sociais, políticas etc.) que influenciaram a criação da norma do Direito. De fato, se observarmos atentamente as sociedades se organizam a partir de valores que se tornam regras de cumprimento obrigatório, como, por exemplo: da família, da liberdade, da propriedade, do exercício da atividade comercial com finalidade de lucro, da paz, entre outros. Essas ideias comuns a uma comunidade é que a impulsionam a elaborar um sistema jurídico de cumprimento obrigatório para todos e que, quando desconsiderado por alguém, vai gerar a aplicação de penas também previstas na lei. O corpo jurídico de uma nação, as leis, os costumes, os princípios, vêm ao encontro da necessidade que as sociedades têm para se organizar da forma que consideram mais adequada, em harmonia com sua história, seus valores e objetivos. 70 Unidade II Estudaremos cada uma das fontes formais que o sistema do Direito brasileiro adota. São elas: lei, princípios, costume e jurisprudência. 7.1 Lei No sistema jurídico brasileiro a lei é a fonte formal de maior importância. Aqui prevalece a existência de uma Constituição Federal escrita, que é a lei superior a todas as demais. Além dela existem inúmeras outras leis que, hierarquicamente, estão abaixo e que devem estar em consonância com ela. No Brasil a própria Constituição Federal determina a importância da lei, porque no artigo 5º da Lei Maior, no inciso II (BRASIL, 1988), está determinado que: “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. Em outras palavras, o que rege a vida da sociedade é a lei, ela é o instrumento formal de maior importância para o sistema jurídico brasileiro e sua relevância vem do fato de que ela é construída pelos representantes do povo, votados para o exercício da atividade legislativa no poder legislativo federal, estadual ou municipal. Portanto, quando votamos para eleger vereadores, deputados estaduais, deputados federais e senadores, estamos escolhendo aqueles a quem caberá redigir a legislação que deveremos cumprir obrigatoriamente por serem essas leis que organizam a sociedade, que podem garantir harmonia e justiça entre seus membros. Nossa escolha pelo voto é de fundamental importância, uma vez que só isso nos dará a garantia de que boas leis serão elaboradas. Além da escolha dos vereadores, deputados e senadores devemos acompanhar os projetos de lei que eles propõem durante o período de seu mandato para sabermos se estão sendo atendidos e protegidos valores relevantes para a sociedade. Esse papel é o real exercício da cidadania e é assim que será possível concretizarmos verdadeiramente o Estado Democrático de Direito que é o modelo ideal de Estado organizado. Nesse sentido, Barbosa Garcia (2017, p. 105) afirma: O Estado de Direito é o resultado da superação do Estado absolutista, em que prevalecia a vontade pessoal do governante. Nessa evolução, o parâmetro que rege a vida em sociedade passa a ser a lei regularmente aprovada, como expressão da vontade popular. Como degrau seguinte, a democracia, necessária à legitimação do Direito e do Estado, passa a exigir a participação social, direta (quando possível) ou indireta, na definição dos rumos a serem seguidos pelo conjunto de pessoas, instituições e organizações. O Estado Democrático de Direito, assim, é uma conquista histórica e essencial da civilização, alcançada após intensas lutas, caracterizada por avanços e retrocessos, firmando-se, na atualidade, como o regime necessário para a legitimidade da disciplina da vida em sociedade. 71 TEORIA GERAL DO DIREITO II A lei, como norma jurídica regularmente aprovada pelos representantes do povo, exerce o papel fundamental de reger a sociedade e o Estado segundo a democracia. A sua importância e o seu significado são tão notórios e evidentes que o resultado da produção legislativa adquire autonomia em face do ente que a produz. As matérias a serem tratadas pela lei, portanto, devem ser criteriosamente analisadas e selecionadas, pois o seu objetivo é estabelecer a disciplina geral das questões necessárias à harmonia da coletividade. O que podemos constatar é que, no Brasil, as leis federais, estaduais e municipais são as mais importantes fontes do Direito e conhecê-las é essencial para o desempenho das atividades jurídicas. Como somos um país organizado na forma de federação, temos leis federais, estaduais e municipais. A Constituição Federal (BRASIL, 1988) é que determina o que cada ente federativo poderá tratar nas suas leis e isso recebe o nome de competência legislativa, ou seja, com qual tema cada estado, município e o estado federal podem lidar. Por exemplo: organizar o trânsito nas cidades é assunto do município, por isso somente esse ente pode fixar leis sobre o trânsito de sua cidade. Já o regulamento do imposto de renda é uma lei federal e somente nesse âmbito tal assunto poderá ser tratado. O fato de a competência estar especificada na Constituição Federal não significa que não surjam conflitos entre os entes federativos na elaboração de leis. Quem resolve esses conflitos é o Poder Judiciário: nesse caso, o Supremo Tribunal Federal – STF. A expressão “lei ordinária” é comumente utilizada para significar que aquela lei foi criada pelo órgão que tinha poderes para isso, ou seja, o Poder Legislativo (seja ele federal, estadual ou municipal). O fato de receber o adjetivo ordinária não tem nenhum sentido pejorativo, ao contrário, representa que a lei foi elaborada no âmbito do poder legislativo, da forma como prevê a Constituição Federal (BRASIL, 1988), ou seja, de modo usual, corriqueiro, ordinário no sentido de comum. Além das leis elaboradas pelo Poder Legislativo (municipal, estadual ou federal), temos que cumprir os atos normativos que, quase sempre, são representados por portarias, instruções normativas, circulares e outros semelhantes. Elas são de caráter administrativo, criadas por órgãos do Poder Executivo e se constituem em forma de organização da administração pública. Eles têm caráter obrigatório para aqueles aos quais se destinam e, por isso, devem ser rigorosamente cumpridos sob pena de serem aplicadas sanções. É o que acontece, por exemplo, com as normas que são criadas por agências reguladoras como a Agência Nacional de Saúde Suplementar – ANS, ou pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa, que são de cumprimento obrigatório para as operadoras de saúde do mercado brasileiro e para todos os órgãos que devem atender as regras da Anvisa, como farmácias, laboratórios de análises clínicas, entre outros. 72 Unidade II Saiba mais Para informações adicionais sobre a atividade dos deputados federais e senadores, em especial, os projetos de lei que apresentaram durante o mandado e o resultado obtido, acesse o portal da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. <http://www2.camara.leg.br>. <https://www12.senado.leg.br>. 7.2 Princípios Princípios ou princípios gerais do Direito são instrumentos por meio do qual valores sociais são protegidos e, por isso se tornam inspiração para a prática da justiça e da equidade. O Decreto-Lei nº 4.657, de 1942 (BRASIL, 1942), atualizado pela Lei nº 12.376, de 2010 (BRASIL, 2010), chamado de Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, menciona os princípios gerais do direito em seu artigo 4º, com a seguinte redação: Art. 4º Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito (BRASIL, 1942). Maria CelinaBodin de Moraes (2016, p. 37) ao definir princípios, explica que eles “[...] são valores, extraídos da cultura, isto é, da consciência social, do ideal ético, da noção de justiça presentes na sociedade, são, portanto, os valores através dos quais aquela comunidade se organizou e se organiza”. E Geraldo Ataliba (2011, p. 52), ao definir princípios, afirma que: Princípios são as linhas mestras, os grandes nortes, as diretrizes magnas do sistema jurídico. Apontam os rumos a serem seguidos por toda a sociedade e obrigatoriamente perseguidos pelos órgãos do governo (poderes constituídos). Os princípios serão utilizados pelo magistrado para definir um conflito de uma situação concretamente levada ao judiciário. Todavia, só serão usados os princípios gerais do Direito quando o juiz não dispuser de lei para aplicar ao caso concreto ou, existindo, ela seja omissa quanto à questão específica que está sendo julgada. Nesse caso, o magistrado poderá ainda recorrer aos costumes, mas se não houver nesse instrumento nada que o auxilie na solução, os princípios gerais do Direito deverão ser utilizados. Os princípios quase sempre são expressões de caráter abstrato que impõem, necessariamente, a existência de um caso concreto para serem aplicados, ou seja, é preciso que exista uma situação fática para que ela possa ser analisada e, em seguida, o magistrado decida se cabe a execução de um princípio para solucionar aquela questão. 73 TEORIA GERAL DO DIREITO II Um exemplo de princípio geral do Direito é o princípio da boa-fé, segundo o qual as partes devem agir com veracidade e transparência em todos os atos que praticam, em especial naqueles como um contrato de compra e venda de imóvel, por exemplo. Outro princípio geral do Direito é a dignidade da pessoa humana, que consiste em garantir que todos os cidadãos sejam respeitados integralmente, ou seja, tanto em seus aspectos físicos como morais, psicológicos e sociais. Consequentemente, quando alguém é agredido em qualquer desses modelos, mesmo que a situação não esteja precisamente definida na legislação em vigor, o magistrado poderá proteger aquela pessoa com a aplicação do princípio da dignidade da pessoa humana, que é mais abstrato, mais amplo e pode resolver inúmeras situações que se caracterizam como agressão a uma pessoa, embora não tenham sido especificadas na lei. Uma pessoa é abordada por um segurança na saída de uma loja e acusada de ter furtado produtos que estavam à venda, mais especificamente um perfume. O segurança de forma agressiva toma a bolsa que o indivíduo utilizava, abre e derruba todos os pertences no chão e não encontra o perfume. Ele alega que a pessoa havia passado para outra, que já tinha saído da loja há mais tempo. Ele então obriga o indivíduo a acompanhá-lo até uma sala e começa a assistir a gravação das imagens das câmaras de segurança para provar a ocorrência do furto, mas não consegue achar uma única imagem comprometedora. Ele então libera a pessoa sem ao menos pedir desculpas por seu comportamento truculento e agressivo. A vítima ingressa em juízo e pede indenização por danos morais. Não há uma lei específica que determine ao magistrado em que situações ele deve aplicar a condenação por danos morais, mas neste caso ele identifica que existem elementos que provam a agressão ao princípio da dignidade da pessoa humana e, como consequência, condena o supermercado a pagar indenização por danos morais decorrentes do comportamento inadequado do segurança. Essa é uma das inúmeras situações em que os princípios gerais do direito serão úteis para solucionar casos concretos. 7.3 Costumes Os costumes são outra fonte do Direito e são bastante aplicados no âmbito dos negócios jurídicos. Entretanto, é preciso que fique esclarecido que estamos tratando de costumes jurídicos e não de meros costumes sociais, como se vestir de forma mais formal para ocasiões solenes como casamentos ou formaturas, por exemplo. Nesse caso, estamos tratando de um costume meramente social que, inclusive, varia muito no correr do tempo. Os costumes jurídicos não têm tanto grau de variação e, não raro, permanecem os mesmos por muito tempo. Dimitri Dimoulis (2014, p. 183) define os costumes da seguinte forma: O costume jurídico define-se como norma válida no âmbito do ordenamento jurídico, e seu descumprimento acarreta sanções negativas de natureza jurídica. [...] 74 Unidade II [...] o costume é uma fonte espontânea do direito. Não se cria pela vontade de um legislador, cujo mandamento entra em vigor imediatamente. O costume cria-se de forma gradual e silenciosa pela sociedade; somente após o longo uso é que as pessoas passam a considerá-lo juridicamente vinculante. E o mesmo autor destaca dois requisitos importantes para os costumes: Deve ser produto de uma prática social relativamente longa e constantemente repetida [...] Esse requisito é de natureza objetiva ou social. Os membros da sociedade devem estar convencidos da necessidade da regra costumeira, isto é, seu caráter obrigatório e não somente conveniente (DIMOULIS, 2014, p. 183). No Brasil, um dos exemplos mais claros de usos e costumes é a utilização do cheque pré-datado. A lei federal que regula a utilização do título de crédito chamado cheque determina que ele é uma ordem de pagamento à vista, ou seja, uma vez apresentado pelo devedor para o credor, deve ser imediatamente possível descontá-lo em uma instituição bancária ou depositá-lo em conta corrente sem esperar nem um dia. Ocorre que no Brasil as pessoas de menor renda geralmente apresentam dificuldade para conseguir empréstimos em instituições bancárias porque, são muitas as exigências, como a comprovação de renda, por exemplo, e elas nem sempre podiam ser cumpridas. Por se tratar de um país emergente, com frequência teve sua economia fortemente ligada à informalidade, ou seja, atividades que viabilizam renda para as pessoas, porém, sem vínculo formal de trabalho. É o caso das feiras e dos camelôs que existem em todas as cidades brasileiras e que, no entanto, quase sempre são atividades informais que não recolhem tributos e não pagam salários. Como esses indivíduos que vivem na informalidade poderiam comprovar renda? Conseguiam, porém, abrir conta bancária e dispor de um talão de cheques. Isso foi suficiente para que surgisse nova modalidade de crédito pessoal, independente dos bancos. Criou-se o costume de alguém comprar uma mercadoria, como um fogão, emitir um cheque para pagamento do valor integral do produto e pedir à loja que efetivasse o depósito somente alguns dias (30 ou 60 dias, por exemplo). E os lojistas passaram a aceitar esse pedido, criando, assim, um hábito que se tornou aceito em todo o país e, inclusive, fez os tribunais brasileiros aceitarem a prática e punirem com obrigação de pagar danos morais aqueles lojistas que depositassem o cheque antes da data que o pagador havia determinado como “boa para pagamento”. Com o passar dos tempos, o costume se aprimorou e uma pessoa podia pagar a mercadoria em parcelas, três ou quatro, por exemplo, emitindo o mesmo número de cheques e com datas diferentes para depósito. Nessa época, era muito comum emitir, por exemplo, um cheque no dia 14 de julho e receber do lojista um papelzinho que deveria ser colado ao cheque e no qual estava escrito: “bom para ..../..../....”. Nesse espaço, o cliente deveria informar para o lojista em que data (ou datas) o cheque teria de ser efetivamente depositado. 75 TEORIA GERAL DO DIREITO II Na atualidade as pessoas utilizam menos o pagamento por meio de cheque, mas, mesmo assim, o costume permanece e é muito respeitado por todos, tanto lojistas como compradores. Estes honram o cheque na data de pagamento para que ele tenha fundos suficientes para cobrir o produto comprado e os lojistas o depositam apenas na data indicada pelo cliente, fazendo com que a prática tenha se tornado um instituto jurídico, uma verdadeira fonte do Direito Brasileiro. Já que, como afirmamos, se o lojistadepositar o cheque antes da data indicada pelo comprador, ficará sujeito a indenizar os danos que causar, especialmente se ocorrer a negativação do nome do comprador em bancos de dados de proteção ao crédito. É preciso observar que esse costume de depositar ou sacar o cheque em data diferente daquela em que ele foi emitido não é um costume ilegal, ou seja, que contraria a legislação sobre o uso dessa modalidade de título de crédito. Ao invés disso, a lei não contém disposição a esse respeito, apenas determina que os cheques têm um prazo durante o qual eles podem ser utilizados e seis meses depois do qual não poderão mais ser cobrados por execução, que é uma modalidade de processo judicial prevista na lei processual brasileira. A característica de utilizar o cheque para pagamento futuro e, consequentemente, para garantia de um crédito promoveu a modificação do uso desse instrumento, mas não se trata de algo que se formou com prática ilegal porque, se fosse assim, não poderia se tornar fonte de Direito. 7.4 Jurisprudência Jurisprudência, como vimos no estudo do instituto da common law, é a tendência de os tribunais julgarem de forma semelhante casos concretos similares e, com isso, indicarem uma propensão para toda a sociedade de que em eventos iguais àqueles, a decisão será sempre a mesma. Barbosa Garcia (2017, p. 116) ensina que: A jurisprudência pode ser entendida como o conjunto de decisões uniformes e constantes dos tribunais proferidas para a solução judicial de conflitos, envolvendo casos semelhantes. [...] jurisprudência é a “forma de revelação do Direito”, resultante do exercício da jurisdição, decorrente de uma “sucessão harmônica de decisões dos tribunais”. E pondera o mesmo autor que: A jurisprudência deve ter certa estabilidade, evitando mudanças bruscas, repentinas, injustificadas, para que seja respeitada a segurança jurídica. Isso não significa, entretanto, a completa estagnação e a impossibilidade de evolução do entendimento jurisprudencial, o qual deve acompanhar a evolução social e jurídica. Exige-se da jurisprudência a integridade, de modo que as decisões dos juízes e tribunais estejam em consonância com o sistema 76 Unidade II jurídico, constituído, de forma harmônica, de regras e princípios, no qual merecem destaque os princípios constitucionais. A jurisprudência, ainda, deve atender à necessidade de coerência. Nesse sentido, questões iguais devem ser tratadas e decididas com isonomia substancial, aplicando-se a mesma tese aos casos que envolvam idêntica questão jurídica, como forma de concretização da justiça (GARCIA, 2017, p. 118). Dois aspectos são muito relevantes quando se trata de jurisprudência dos tribunais: nenhuma decisão pode ser contrária à lei e as decisões poderão ser modificadas com o passar do tempo, a mudança dos costumes sociais ou a transformação na interpretação da lei poderá gerar alteração no entendimento dos tribunais e isso é lícito e até desejável, porque dessa forma há evolução do Direito para que ele atenda sempre o fundamento maior de sua existência, que é garantir a justiça e a harmonia da sociedade à qual ele se aplica. Um exemplo de jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é a Súmula nº 726 (BRASIL, 2003), que determina: “Para efeito de aposentadoria especial de professores, não se computa o tempo de serviço prestado fora da sala de aula”. O que é uma súmula? Elas formalizam as teses que os tribunais adotam a respeito de um determinado tema e, quando publicadas no Diário Oficial, se tornam ponto de referência para as futuras decisões de juízes de primeira instância, bem como para outros tribunais inferiores em hierarquia àquele que publicou a súmula. No caso do STF, suas súmulas servem de referência para todos os demais tribunais do país, porque em matéria constitucional ele é o foro mais importante. Se analisarmos o comando da Súmula nº 726 (BRASIL, 2003), compreenderemos que um professor que deseja se aposentar e quer utilizar na contagem de tempo o período em que exerceu cargo de diretor ou de supervisor de ensino, não poderá fazê-lo, porque o Supremo Tribunal Federal só aceita para o cálculo do tempo de aposentadoria as atividades exercidas como professor, ou seja, na sala de aula. Podemos concordar ou discordar desse entendimento, porém, na atualidade, essa é a forma como o STF vai decidir todos os casos semelhantes a esse. Aliás, a Súmula cumpre o papel de indicar para a sociedade como as decisões serão tomadas em casos semelhantes e, por isso, desestimula que pedidos judiciais sejam feitos para contagem de prazos de aposentadoria utilizando período em que o professor exerceu atividades administrativas. Nada impede que, no futuro, o Supremo Tribunal Federal modifique seu entendimento a respeito da contagem de prazo para a aposentadoria especial de professores, reconhecendo que todas as atividades exercidas na área da educação devem ser computadas para aquisição do direito de se aposentar. Todavia, no momento, o consenso é que só contam para aposentadoria as atividades exercidas em sala de aula. Por tudo isso é que podemos afirmar que a jurisprudência produzida pelos tribunais é tão importante para o Direito, verdadeira fonte de onde nascem interpretações e aplicações que vão nortear milhares (ou milhões, em um país de grande população como o Brasil), de decisões sobre processos judiciais. E, por vezes, até mesmo impedir que as pessoas ingressem com demandas judiciais, porque já sabem que a tendência da decisão é negativa, contrária a seus interesses. 77 TEORIA GERAL DO DIREITO II É dessa forma que, pouco a pouco, as decisões dos tribunais auxiliam fortemente a construção da chamada segurança jurídica, ou seja, o cenário jurídico do país fica harmônico, sem grandes surpresas nas sentenças, permitindo que a sociedade viva em paz e que conheça os resultados que seus atos podem provocar. 7.5 Doutrina Nem todos os estudiosos consideram a doutrina como fonte do Direito. Existem críticos desse entendimento, cujas ideias precisam ser respeitadas. Doutrina é a produção feita por professores e pesquisadores de Direito a respeito de temas ou de determinadas área do Direito, como o Direito de Família ou o Direito do Trabalho, por exemplo. Há professores e estudiosos que se dedicam durante muitos anos ao estudo de uma área do Direito e que publicam estudos em livros, artigos em revistas especializadas da área, apresentam suas conclusões em congressos, seminários, encontros científicos, palestras e, por isso, se tornam respeitados por seus colegas, com reconhecimento de sua capacidade de estudo e reflexão. As análises que esses professores e pesquisadores realizam começam a ser utilizadas pelos advogados, promotores, defensores públicos em suas petições, como argumento de autoridade para embasar ideias apresentadas, reforçar os argumentos e demonstrar que alguns estudiosos pensam da mesma forma. De fato, quando alguém é reconhecido como uma autoridade em determinado assunto, mencionar o pensamento daquela pessoa fortalece a tese que está sendo defendida. E, muitas vezes, o magistrado vai fundamentar sua decisão em pareceres com a citação de estudiosos do tema, se valendo de opiniões publicadas em livros ou artigos para fortalecer a interpretação sobre algum caso concreto. Doutrinadores são, portanto, estudiosos de determinado tema e que se notabilizam, ao longo do tempo, como referência intelectual para outros estudiosos e, também, para professores, magistrados, advogados e promotores. Isso não acontece a partir de um único trabalho publicado, mas com sucessivas reflexões compartilhadas em textos de ótima qualidade, frutos de ampla pesquisa, inclusive em obras internacionais que tratam do assunto. Na atualidade, no Brasil, existem vários autores conhecidos e reconhecidos pela excelência de seu trabalho de pesquisa e por suas reflexões em áreas específicas do Direito. É possível afirmar que cada área tem dois ou três autores notáveis, cujos livros, palestrase artigos influenciam muitos outros profissionais do setor. Conhecer e estudar com profundidade o pensamento desses indivíduos auxilia os profissionais que atuam no campo do Direito e facilita a compreensão dos temas mais complexos e atuais que estão em discussão na sociedade. Lembrete Doutrina é a produção feita por professores e pesquisadores de Direito a respeito de temas ou de determinadas área do Direito, como o Direito de Família ou o Direito do Trabalho, por exemplo. 78 Unidade II 8 RAMOS DO DIREITO O Direito pode ser dividido em vários ramos de estudo e pesquisa, embora todos eles estejam interligados em razão da existência de uma hierarquia de leis, que tem a Constituição Federal como lei mais importante do país, acima das leis federais produzidas pelo Poder Legislativo. A divisão em ramos não indica, portanto, que as diferentes áreas não se comuniquem ou não tenham relação direta. Ao contrário, elas mantêm profunda inter-relação porque os problemas do cotidiano nunca estão separados em temas totalmente distintos. Os imbróglios são complexos exatamente porque envolvem vários setores do Direito ao mesmo tempo, e exigem do profissional que atua na área que tenha atenção e estude para identificar os conhecimentos diversos que terá que usar. A maior utilidade da divisão do Direito em áreas é facilitar os estudos, como veremos a seguir. A primeira grande divisão tradicionalmente realizada é entre Direito Público e Direito Privado. Direito Público é a área que estuda tudo o que diz respeito ao governo; enquanto o Direito Privado se refere aos interesses dos particulares. No âmbito do Direito Público, a relação é de subordinação do sujeito ao Estado, que é o ente do qual emanam as leis, a fiscalização da aplicação delas e as sanções pelo descumprimento. Essa área do Direito regula a relação do Estado com todos os setores da administração pública direta ou indireta, dos particulares com o Estado e os entes da administração e as relações entre os diferentes Estados, ou seja, a relação entre os países nos temas de imigração, comércio exterior, proteção de fronteiras, entre outros. Já no âmbito do Direito Privado, a relação é entre iguais, porque os diferentes sujeitos envolvidos nas relações jurídicas têm os mesmos direitos e deveres perante a lei, razão pela qual na análise do caso concreto a solução deverá levar em conta a proteção dos interesses preponderantes. Por exemplo, em uma situação de locação de um imóvel, as partes, locatário e locador, possuem direitos e deveres semelhantes, estabelecidos em um contrato regido pela lei que regula matéria. Se surgir um conflito entre as partes, é preciso analisar concretamente as circunstâncias, as provas e aplicar o Direito para proteger os interesses que naquele caso específico estejam sendo negligenciados. É o caso do locatário que não paga o valor mensal do aluguel e, nessa condição, tem menos direito a ser protegido que o locador que tem direito de receber o valor mensal e não está recebendo. Na área do Direito Público estão os estudos de: Direito Constitucional, Direito Administrativo, Direito Tributário, Direito do Trabalho, Direito Penal, Direito Processual e Direito Internacional Público. Na área do Direito Privado estão os estudos de: Direito Civil e Direito Empresarial. Vamos conhecer mais detalhadamente cada uma dessas áreas. 79 TEORIA GERAL DO DIREITO II Direito Constitucional Trata-se do principal ramo do Direito nos países como o Brasil, nos quais a Constituição Federal é a lei mais importante, acima de todas as demais na hierarquia. É no âmbito do Direito Constitucional que se encontra toda a organização política e administrativa do Estado, ou seja, os poderes e sua responsabilidade de atuação (Executivo, Legislativo e Judiciário); os órgãos que compõem a administração pública direta e indireta; os direitos fundamentais e sociais garantidos aos cidadãos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país; o funcionamento dos estados federativos e dos munícipios e de seus respectivos órgãos de administração (o município, por exemplo); a organização tributária do país; entre outros tantos temas relevantes que são tratados na Constituição Federal. Afirma Barbosa Garcia (2017, p. 233): [...] o Direito Constitucional estabelece as normas jurídicas pertinentes à estrutura fundamental do Estado, fixando a competência de cada ente público, além de assegurar os direitos humanos fundamentais. O Direito Constitucional pode ser definido, ainda, como o conjunto de normas jurídicas “relativas à forma do Estado, à forma do governo, ao modo de aquisição e exercício do poder, ao estabelecimento de seus órgãos e aos limites de sua ação. [...] O Direito Constitucional apresenta relevância, por conter as “normas supremas” do ordenamento jurídico, às quais as demais devem se adequar.” Os demais ramos do Direito apresentam como marco inicial fundamental o Direito Constitucional, o qual estabelece e exerce influências naqueles. Nesse sentido, o Direito Constitucional é o “cerne do Direito Público interno”, já que seu objeto é a própria organização básica do Estado e, mais que isso, o alicerce sobre o qual se ergue o próprio Direito Privado. Direito Administrativo Refere-se ao ramo do Direito que regula a atuação dos órgãos da administração pública direta e indireta, a atuação dos agentes públicos (funcionários públicos e prestadores de serviços), o regime dos bens públicos e sua utilização e todas as atividades públicas do Estado em seus três âmbitos (federal, estadual e municipal). É uma das maiores áreas do Direito, porque a atuação do Estado acontece em práticas muito diferentes, que vão da saúde e educação até o exercício do poder de polícia na repressão de crimes, julgamento e prisão de condenados. O Direito Administrativo regula, ainda, o funcionamento e a hierarquia dos poderes públicos, com objetivo de garantir que a organização seja racional e os serviços prestados de forma eficiente, uma vez que os recursos utilizados serão sempre os recursos públicos, angariados a partir do recolhimento de impostos de todas as pessoas que moram no país. 80 Unidade II Direito Tributário É a área do Direito que regula a instituição, arrecadação e fiscalização dos tributos. O Estado em seus três níveis (federal, estadual e municipal) recebe da Constituição Federal o direito de criar e cobrar tributos. A isso se dá o nome de competência tributária que, no entanto, tem que estar minuciosamente especificada nas leis sob pena de não ser aceita e, com isso, gerar conflitos tributários de grande extensão. A Constituição Federal (BRASIL, 1988) estabelece as linhas gerais do Sistema Tributário Nacional para que fique claramente determinado quem pode cobrar qual tipo de imposto. Portanto, por exemplo, o imposto sobre propriedade territorial urbana só pode ser cobrado pelo município; o imposto sobre circulação de mercadorias e serviços, ICMS, só pode ser recolhido pelo estado federativo e o imposto de renda só pode ser arrecadado pela união federal. No Brasil, o regime tributário ainda se submete às determinações do Código Tributário Nacional, lei federal que define os tributos, sua forma de cobrança, os casos de isenção e as sanções aplicáveis para aqueles que não pagam impostos. No sistema tributário brasileiro há uma divisão entre impostos e taxas. Impostos, em conformidade com o Código Tributário Nacional (BRASIL, 1966), artigo 3º, é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção a ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada. Taxa, conforme artigo nº 77 do Código Tributário Nacional (BRASIL, 1966), é o tributo que tem como fato gerador o exercício regular do poder de polícia ou a utilização, efetiva ou potencial, de serviço público específico e divisível prestado ao contribuinte. Consequentemente, tributos podem ser divididos em impostos ou taxas, conformedetermina a lei. Além dessas cobranças existem, por força de lei, as contribuições de melhorias, contribuições sociais e empréstimo compulsório. Ademais, os tributos no Brasil são cobrados pelos três entes políticos: Federação, estados e municípios. Isso torna a carga tributária brasileira uma das maiores do mundo e os recursos arrecadados, infelizmente, nem sempre são empregados em benefício da população. Nossos índices de qualidade em saúde, educação e segurança, por exemplo, demonstram que precisamos gastar melhor os recursos públicos arrecadados por meio dos impostos. Observação A lei prevê várias hipóteses de isenção tributária, ou seja, situações em que as pessoas ficam desobrigadas de ter que recolher um determinado tributo. Os portadores de necessidades especiais, por exemplo, podem adquirir veículos com isenção de Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI; Imposto sobre Veículos Automotores – IPVA; Imposto sobre Circulação de Mercadorias e 81 TEORIA GERAL DO DIREITO II Serviços – ICMS; e Imposto sobre Operações Financeiras – IOF. Isso representa um preço final de 20% a 30% menor do que o valor praticado no mercado. Direito Processual Trata-se da área do Direito que regula o processo judicial, ou seja, o instrumento utilizado no Brasil para a solução de conflitos entre partes. É pelo Direito Processual que se estabelece o funcionamento do Poder Judiciário estadual e federal (não existe poder judiciário municipal no sistema brasileiro), bem como a definição de quem pode ser parte no processo (autor e réu), das provas que poderão ser produzidas, de como deverá ser proferida a sentença, como serão realizadas as audiências, entre outros muitos aspectos. Essa esfera do Direito pode ser dividida em Direito Processual Civil, Direito Processual Penal e Direito Processual Trabalhista, de acordo com os temas que forem tratados no Judiciário. O Direito Processual Civil regula todas os processos entre particulares e entre estes e o Estado; o Direito Processual Penal cuida dos processos que discutem a prática de crimes e suas punições e o Processo do Trabalho regula as relações judiciais entre empregadores e empregados. Aspectos muito relevantes da vida prática na aplicação do Direito são estudados no âmbito do Direito Processual Civil: como ingressar com uma ação judicial, como devem ser citadas as partes que terão que participar desse processo; qual o momento e o modo corretos para apresentar a defesa contra a acusação feita; como se desenvolve a audiência e quem deve estar presente; quem pode ser testemunha e como poderá ser indicado para o exercício dessa atividade; quais documentos podem ser utilizados para fazer prova de um direito; quando pode ser utilizada a gravação de conversas como prova de fatos; quem pode ser membro do júri e o que deve fazer quando exercer essa função. São inúmeras situações as reguladas pelo Direito Processual em suas diferentes áreas de atuação e, elas precisam ser detalhadamente estudadas por aqueles que vão praticar a advocacia. No exercício da Gestão de Serviços Jurídicos, Notariais e de Registro, conhecer essa divisão do Direito é muito importante, porque ela fixa determinações fundamentais para a organização dos serviços, como, por exemplo, os prazos para apresentação de defesa, de rol de testemunhas, de recolhimento de custas processuais, todas elas atividades que o gestor deverá assessorar o jurídico para que sejam realizadas no tempo e no modo corretos. Direito Penal Refere-se à área do Direito que define o que são crimes e quais as penas aplicadas a cada um deles. Somente a União Federal pode legislar sobre Direito Penal, por isso, as leis que estabelecem a tipificação dos delitos serão sempre leis federais válidas para todo o território nacional. Não existe um fato que seja crime no Rio de Janeiro e não seja crime em Pernambuco. Sua caracterização é feita sempre em âmbito federal, válida, portanto, para todos os moradores do país independentemente de onde eles estiverem. 82 Unidade II O objetivo do Direito Penal é proteger os valores essenciais de uma sociedade, como a vida, a honra, a integridade física, o patrimônio das pessoas, a segurança, entre outros. Da mesma forma, como descreve (tipifica) as práticas que serão definidas como crime, ele estabelece as sanções que poderão ser aplicadas àqueles que forem condenados pela prática de atos criminosos. No Brasil, a lei penal prevê basicamente três tipos de penas que poderão ser aplicadas contra os criminosos condenados após o julgamento: penas privativas de liberdade, que serão de reclusão ou detenção; penas restritivas de direito, que são aquelas de prestação de serviços à comunidade; suspensão de habilitação para dirigir; interdição temporária de direitos (proibição de exercício de cargo público, por exemplo; pena de multa, que consiste na obrigação do condenado de recolher aos cofres públicos o valor em dinheiro da multa estabelecida pela decisão judicial. Reclusão é a pena que tem de ser cumprida em regime fechado, semiaberto ou aberto. E detenção é a pena que pode ser cumprida no regime semiaberto ou aberto. Fique atento: no Brasil nem todos os casos são julgados por um Tribunal do Júri. Muitas séries e filmes norte-americanos mostram os casos sendo julgados por júri, mas em nosso país isso não acontece da mesma forma. O Tribunal de Júri, formado por jurados que são pessoas comuns convocadas para o exercício daquela atividade pública e que é presidido por um juiz concursado é utilizado apenas para os casos de crimes dolosos contra a vida, ou seja, aqueles para os quais houve a intenção de matar. São crimes dolosos contra a vida: homicídio, infanticídio, aborto e instigação, auxílio ou induzimento ao suicídio. Em todos os demais crimes, o julgamento será feito por um juiz singular, sem necessidade de júri. Direito do Trabalho Possui normas jurídicas estatais e não estatais e, por essa razão, não se enquadra claramente como Direito Privado ou Direito Público. Para muitos estudiosos do tema, o Direito do Trabalho teria outra classificação, como Direito Social. Todavia isso não é um problema, porque tal categorização atende à finalidade exclusivamente didática, ou seja, apenas para facilitar a compreensão dos conteúdos tratados por cada ramo do Direito. O Direito do Trabalho regula as relações de trabalho, quase sempre representadas por associações entre empregador e empregado. Ele tem por objetivo criar normas (leis e princípios) que garantam às partes contratantes que seus direitos serão respeitados. Evidentemente, no âmbito das relações de trabalho, a parte mais vulnerável é sempre o trabalhador, razão pela qual seus direitos são em maior número e especificidade. Há, ainda, grande preocupação com que o Direito proteja a integridade física, moral, social e psicológica do colaborador, para não permitir que as relações de trabalho se tornem um espaço em que ocorram acidentes laborais ou práticas proibidas como assédio sexual e assédio moral. Os empregadores também possuem direitos e nessa medida é que se pode afirmar que os empregados possuem deveres que precisam ser fielmente cumpridos para que as consequências não sejam indesejáveis, como é o caso de demissão por justa causa, que sempre significa um prejuízo para o trabalhador. 83 TEORIA GERAL DO DIREITO II Regular as relações entre empregados e empregadores pode ser feito no âmbito individual ou coletivo, nesse caso, o Direito do Trabalho recebe o nome de Direito Coletivo do Trabalho e trata, principalmente, dos acordos coletivos de determinadas categorias profissionais como, por exemplo, professores, metalúrgicos, químicos, entre outros. Outrossim é no âmbito do Direito Coletivo do Trabalho que se discute se a greve deflagrada por uma determinada categoria profissional é legal ou ilegal. No Brasil, o direito de greve é previsto constitucionalmente e se constitui em um dos mais importantes direitos dos trabalhadores. No entanto, existem regras aserem cumpridas por uma categoria profissional quando ela convoca uma greve, o que pode tornar a greve ilegal e, em consequência, o sindicato organizador poderá ser condenado ao pagamento de multa. Os serviços classificados como essenciais possuem regras bastante específicas para tal prática, como é o caso das áreas de saúde pública, médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, motoristas de ambulância; todas essas se enquadram como serviços essenciais e devem cumprir as leis que organizam a greve de sua categoria para que não incorram em punições. Direito Ambiental Campo do Direito ao qual compete assegurar o meio ambiente ecologicamente equilibrado, como determina a Constituição Federal (BRASIL, 1988) no artigo 225. O mesmo artigo constitucional estabelece, ainda, que meio ambiente é bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Portanto, Direito Ambiental é o ramo do Direito que estipula as normas para proteção do meio ambiente e as sanções aplicáveis contra todos aqueles que descumprirem essas leis. A Lei Federal nº 6.938 (BRASIL, 1981), estabeleceu a Política Nacional do Meio Ambiente e definiu o meio ambiente como o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas. Em razão disso, toda a conduta humana, pessoal ou empresarial, deverá ser praticada com respeito ao meio ambiente, ou seja, com o intuito de preservá-lo e respeitá-lo. Barbosa Garcia (2017, p. 286) ensina sobre os princípios do Direito Ambiental: Podem ser destacados os seguintes princípios ambientais, ou seja, pertinentes ao Direito Ambiental: – princípio da prevenção: no sentido de se evitar qualquer perigo de dano ou prejuízo ao meio ambiente. [...] – princípio do desenvolvimento sustentável: no sentido de que o desenvolvimento econômico deve levar em conta a necessidade de defesa e preservação do meio ambiente, como prevê o art. 170, inciso VI, da Constituição Federal de 1988. 84 Unidade II [...] – princípio do poluidor-pagador: o poluidor deve, em princípio, arcar com o custo decorrente da poluição que causou. [...] – princípio da participação: no sentido de que a defesa e a preservação do meio ambiente são deveres tanto do Poder Público como da coletividade (art. 225, caput, da CF/1988). [...] – princípio da ubiquidade: [...] toda a sociedade e todos os povos devem se empenhar na preservação e na proteção do meio ambiente. O Direito Ambiental se tornou área de enorme importância para o Direito Brasileiro contemporâneo. Tanto na atividade privada como na atividade empresarial, é recomendável conhecer muito bem o âmbito da proteção ambiental para não incorrer em práticas que possam ser consideradas infração da lei e sujeitas à sanção por multa. Muitas vezes os empresários começam obras de grande porte sem se certificarem de que cumpriram todas as exigências da legislação ambiental e depois sofrem significativos prejuízos em decorrência disso. O Gestor de Serviços Jurídicos, Notariais e de Registro possui um importante papel na prevenção de riscos ao meio ambiente. Deve se conduzir de forma atenta para verificar previamente os riscos e as formas de preveni-lo e, em especial, dos procedimentos necessários para que sejam obtidas as licenças e autorizações públicas necessárias antes da realização de qualquer atividade empresarial. Direito do Consumidor A proteção do consumidor se encontra prevista na Constituição Federal (BRASIL, 1988), artigo 5º, inciso XXXII. Além disso, a própria Constituição determinou que fosse elaborado um Código de Defesa do Consumidor que se encontra consubstanciado na Lei nº 8.078 (BRASIL, 1990), que é chamado normalmente de CDC. O CDC estabelece as linhas gerais da proteção e define que o consumidor no Brasil é todo aquele que atua no mercado como destinatário final, ou seja, aqueles que retiram o produto ou o serviço do mercado para utilizá-lo para uma finalidade pessoal, sem objetivo de lucro. Quem compra para revender ou alugar não é consumidor. Apenas aquele que adquire o produto ou serviço com objetivo de utilizar em sua vida pessoal é considerado como tal e, portanto, protegido pela lei. Os princípios mais importantes do Direito do Consumidor são: • Protecionismo: determina que a legislação brasileira será de proteção do consumidor, porque reconhece que ele é a parte mais vulnerável da relação. 85 TEORIA GERAL DO DIREITO II • Vulnerabilidade: reconhece que o consumidor é vulnerável perante o fornecedor de produtos ou serviços, uma vez que possui menos informações técnicas e menor poder econômico. • Hipossuficiência: atribui direitos para que o consumidor possa exercer o seu direito, com vistas a garantir o equilíbrio da relação. Portanto, é em decorrência dele que o consumidor poderá requerer na ação judicial o benefício da inversão do ônus da prova, ou seja, requisitar ao juiz que obrigue o fornecedor a provar que não causou o prejuízo. No âmbito das relações processuais, a regra é que aquele que acusa deve provar, mas no Direito do Consumidor ela se inverte para proteger o consumidor e equilibrar a relação processual. • Boa-fé objetiva: estabelece que o fornecedor deve agir sempre com boa-fé, ou seja, com veracidade e transparência para não causar prejuízo ao consumidor. Este, por sua vez, também se obriga a agir de boa-fé na relação de consumo, sem pretender obter nenhuma vantagem que não seja efetivamente devida. • Dever de informar: estipula que o fornecedor deve prestar ao consumidor de produtos e serviços todas as informações necessárias para que ele usufrua do produto ou serviço com segurança e máxima utilização. • Solidariedade: designa que todos os envolvidos na cadeia de consumo serão responsáveis pelos danos causados ao consumidor. Esse princípio evita que as diferentes partes fornecedoras de produtos e serviços fiquem empurrando uma para a outra a responsabilidade pelo fato que causou dano ao consumidor, como habitualmente ocorria antes da entrada em vigor do Código de Defesa do Consumidor. Restam analisar dois ramos do Direito Privado: Direito Civil e Direito Empresarial. Direito Civil Refere-se à divisão do Direito que regula as relações entre os particulares em vários momentos diferentes de suas vidas, desde o nascimento até depois de sua morte. De fato, é no Direito Civil que encontraremos as regras que regulam o nascimento, quando tem início os direitos do nascituro, como as pessoas se tornam capazes para os atos da vida civil, as regras sobre maioridade civil, sobre casamento, responsabilidade com filhos, divórcio, morte e partilha de bens, aquisição e transferência de propriedade, danos que os indivíduos podem causar uns aos outros e como indenizar, contratos que podem celebrar e como devem fazer isso, ou seja, tudo o que é possível acontecer na vida do nascimento à morte e, depois da morte na divisão dos bens do sujeito que faleceu. É comumente definido como direito que regula as relações entre particulares em seus diferentes interesses privados, tais como: família, bens, sucessões e obrigações. Grande parte da regulação está contida no Código Civil brasileiro que é a Lei Federal nº 10.406 (BRASIL, 2002). Antes desse Código vigorou no Brasil, desde 1916, o primeiro Código Civil da história do país, fortemente inspirado no Código que Napoleão Bonaparte mandou fazer na França após a Revolução Francesa de 1789. 86 Unidade II Direito Empresarial ou Comercial Trata-se do ramo do Direito que regula as relações empresariais, antigamente denominadas de relações comerciais, porém, com o passar do tempo e a evolução das formas de atividade econômica, hoje conhecidas como relações empresariais, visto que a maior parte da atividade econômica é exercida por empresas constituídas por sócios que se unem para organizar bens e pessoas com a finalidadede produzir produtos ou serviços para disponibilizar no mercado, com o fim de obter lucro. É uma das áreas do Direito mais antigas, praticada desde os primórdios da vida do homem na Terra, porque as atividades comerciais (mais tarde empresariais), datam do início da vida humana no planeta. Os homens sempre produziram para a subsistência, mas, também, pensando em vender o excedente da produção e conseguir com isso, outros bens que não produziriam sozinhos. Mais tarde, com a Revolução Industrial e a produção em massa a atividade econômica evoluiu muito e, tornou-se essencial para todos os povos do planeta. No Brasil essa área do Direito não está disciplinada por uma única lei, mas sim por vários textos legais que são aplicados em conformidade com a necessidade que cada situação apresenta. Portanto, por exemplo, coexistem o Código Comercial de 1850, Lei nº 556 (BRASIL, 1850), que tem apenas uma pequena parte em vigor; o Código Civil, Lei nº 10.406 (BRASIL, 2002), que tem um trecho que regula a atividade empresarial; e leis esparsas como a Lei de Recuperação de Empresa, Lei nº 11.101 (BRASIL, 2005b), que trata dos casos de pedido de recuperação judicial e extrajudicial, bem como dos casos de falência da empresa. Existem ainda, leis que regulam a atividade econômica com títulos de crédito, como é o caso da Lei do Cheque, ou seja, a Lei nº 7.357 (BRASIL, 1985), ou a Lei nº 5.474 (BRASIL 1968), que regula a emissão de duplicatas. O Direito Empresarial é uma área de grande importância para todos aqueles que atuarão como Gestores de Serviços Jurídicos em escritórios de advocacia e em departamentos jurídicos de empresa. Ele merece estudo muito aprofundado e detalhado. 8.1 Hermenêutica e aplicação do Direito A palavra hermenêutica tem origem na figura do deus Hermes, que, segundo a mitologia grega, foi o criador da linguagem e da escrita. Ele era o canal de comunicação entre os deuses do Olimpo e os homens, transmitindo mensagens. Tudo isso é parte da mitologia, ou seja, de mitos criados pelos homens para simbolizar as coisas que não conseguiam compreender ainda, por falta de conhecimento científico. Porém, na área do Direito a hermenêutica prosseguiu homenageando o deus Hermes. E o que podemos definir como hermenêutica? É a área do estudo do Direito à qual compete reconhecer os valores que estão presente na lei, ou seja, revelá-los para garantir que sejam aplicados a fim de proteger os direitos do homem e da sociedade. Em outras palavras, trata-se do conhecimento empregado para interpretar a lei e poder utilizá-la a cada caso concreto, não apenas com o objetivo de tornar a lei compreensível, mas, também, para garantir 87 TEORIA GERAL DO DIREITO II que aquele texto pensado de forma abstrata se torne real, adotado corretamente e preserve os valores essenciais para uma determinada sociedade. As normas jurídicas são criadas para prevenir o surgimento de conflitos na sociedade, contudo não conseguem fazê-lo totalmente. Portanto, quando ocorrem divergências, cabe ao intérprete conhecer a lei para entendê-la e aplicá-la ao caso concreto com objetivo de encontrar a melhor solução possível para, com isso, garantir que a justiça se realize e a comunidade obtenha paz e harmonia. O intérprete da lei, ou seja, aquele que pratica a hermenêutica, realiza o estudo das normas para extrair delas o sentido e o alcance necessários à solução correta do caso concreto que gerou o conflito que precisa ser solucionado. As leis são formuladas em termos amplos, gerais, fixam regras para todos, porém, cada caso concreto impõe o estudo da norma legal para que se possa verificar se ela é a melhor a ser empregada para aquela situação específica. Interpretar é, portanto, executar o duplo trabalho de conhecer detalhadamente o caso concreto e as normas a ele aplicáveis, para que se possa agir com justiça. A professora Maria Helena Diniz (2017, p. 37) diz: Interpretar é descobrir o sentido e o alcance da norma, procurando a significação dos conceitos jurídicos. Interpretar é extrair da norma tudo o que ela contém, revelando o sentido adequado para a vida real e conduzindo a uma decisão. Logo, o objetivo da hermenêutica é realizar a interpretação da norma jurídica para sua imediata aplicação ao caso concreto que precisa ser solucionado pelo Direito. Vamos analisar um exemplo. Um consumidor se dirige a uma loja e adquire um computador para ser utilizado em suas atividades domésticas, por exemplo, acesso à rede de computadores, ver filmes, escrever mensagens, entre outros. Ele explica isso para o vendedor quando realiza a compra. Acontece que o cliente resolve usá-lo para suas atividades empresariais e, em pouco tempo, a memória do computador se mostra insuficiente para dar conta do trabalho. O consumidor retorna à loja e quer trocar o computador sem custo nenhum, sob alegação de que foi vendido um produto ruim. O vendedor alega que não, apenas o produto adequado para as práticas que o consumidor queria realizar, e que nada pode ser feito se ele mudou a realidade da utilização da mercadoria. Lembrete As normas jurídicas são criadas para prevenir o surgimento de conflitos na sociedade, contudo não conseguem fazê-lo totalmente. O consumidor entra com uma ação no Juizado Especial Civil para exigir a troca do computador, sem pagamento de nenhum valor de acréscimo, porque entende que foi enganado. O vendedor se defende da acusação alegando que o consumidor descreveu de forma errada suas necessidades e, por isso, levou um produto mais barato, porém com menor capacidade de memória. 88 Unidade II Nesse momento é que o juiz deverá realizar a interpretação do direito, ou seja, estudar as normas que regulam a proteção do consumidor para verificar se elas se aplicam ou não àquela situação específica, àquele caso concretamente colocado, com provas testemunhais e documentais, que permitam ao magistrado avaliar a quem a norma deve socorrer, ou seja, aos interesses do consumidor ou do fornecedor. Para isso, o juiz ou qualquer intérprete poderá utilizar quatro métodos diferentes que poderão ser utilizados ao mesmo tempo, se for necessário. São eles: • Gramatical ou literal: ponto de partida da interpretação, porque nele se examina a redação da lei, os verbos, os vocábulos, os advérbios utilizados, enfim, a lei em si. Dificilmente esse dispositivo é utilizado sozinho, porque nem sempre ele permite compreender todo o sentido da lei. • Lógico ou teleológico: método que procura compreender o sentido e o alcance da norma, qual a finalidade que ela possui, para que foi criada, ou seja, qual a intenção do legislador no momento da elaboração. • Histórico: recurso que analisa o momento em que a lei foi criada, quais as condições políticas, econômicas e sociais que a fizeram surgir. • Sistemático: critério que leva em conta que o ordenamento jurídico de um país possui unidade e, por isso, uma norma nunca poderá ser analisada de forma isolada. O sistema jurídico é criado para ser um todo harmônico que possa produzir bons resultados para a sociedade, por isso, ao estudar uma lei e um caso concreto, deve-se considerar a Constituição do país, as principais leis que ele utiliza, que princípios de Direito são valorizados, para de forma sistemática, ou seja, por análise comparativa, extrair o sentido da lei. Interpretar os textos de lei é tarefa de todos aqueles que possuem atividade profissional que se relaciona com o Direito. Entretanto, sem dúvida, os magistrados, advogados, promotores de justiça, defensores públicos, entre outras profissões jurídicas específicas, possuem maior responsabilidade em compreender a lei e determinar a melhor aplicação a ser feita em cada caso concreto. Resumo A palavra Direito não possui um significado único, pode simbolizar realidades diferentes. O Direito não tem apenas a função de sanção, ou seja, de punir e é distinto da Moral, embora se relacione diretamente com ela, porque as normas jurídicas contêm conteúdo de valores morais, apesarde o resultado do não cumprimento de uma norma jurídica e de uma normal moral serem totalmente diferenciados. O Direito não pode ser confundido com a lei. Ela é somente um instrumento por meio do qual ele se manifesta, mas existem outros. 89 TEORIA GERAL DO DIREITO II Também não se pode misturar a lei com a justiça, porque, ao longo da história da humanidade, muitas leis foram criadas e não eram justas, como é o caso daquela que permitiu a escravidão de negros no Brasil, ou a que permitiu a violência contra judeus no nazismo. O Direito foi pensado por diferentes estudiosos ao longo da história da humanidade. Platão e Aristóteles, na Grécia Antiga, por exemplo. Tomás de Aquino trouxe contribuições do pensamento cristão para a concepção do Direito. Kant e Hegel também são importantes pensadores que ajudaram na definição de sua tarefa na sociedade. Kelsen é um dos responsáveis pela reflexão do Direito como positivista, ou seja, com base exclusivamente na lei. Ele também fundamentou suas ideias na existência de uma rígida hierarquia das leis, que tem no topo da pirâmide a Constituição Federal e abaixo dela todas as demais normas criadas por um Estado. Robert Alexy e Eros Roberto Grau, pensadores mais contemporâneos de nosso tempo, contribuíram para a concepção do Direito. O Direito possui dois grandes sistemas que, na atualidade, se entrelaçam em sua aplicação: romano-germânico, também conhecido como civil law; e, anglo-saxão, denominado common law. No Brasil, utilizamos o sistema romano-germânico, porém, atualmente, as decisões reiteradas dos tribunais, chamadas de jurisprudência, já são bastante empregadas para fundamentar as decisões judiciais. Os tribunais brasileiros também adotam súmulas vinculantes e esses precedentes contribuem para amparar as decisões dos casos concretos, tornando-as um modelo a ser seguido, embora não exista obrigatoriedade como acontece nos precedentes do método da common law. As fontes do Direito são os elementos que formam o conteúdo de que o Direito dispõe para cumprir seu papel: a lei, os princípios, os costumes, a jurisprudência e a doutrina. No Brasil, as duas mais utilizadas para solução dos conflitos judiciais são a lei e a jurisprudência. O Direito Brasileiro se divide, didaticamente, em Direito Privado e Direito Público. O Direito Constitucional é a área mais importante do Direito Público. Direito Civil e Direito Empresarial são os campos do Direito Privado. Além disso, existem vários ramos que cuidam de áreas específicas do Direito Público, como o Direito Administrativo, Direito Penal, Direito Processual e Direito Tributário. 90 Unidade II O Direito do Trabalho é considerado um direito social. O Direito do Consumidor e o Direito Ambiental cuidam de interesses que também possuem um forte viés social. O Direito Civil regula todas as relações entre os particulares, em especial nas questões de família, propriedade, casamento, herança e obrigacional e, por fim, o Direito Empresarial é parte do conjunto de regras que disciplina a atividade econômica privada no Brasil. Hermenêutica é a área do estudo da interpretação das leis para aplicação aos casos concretos. Os instrumentos que o intérprete utiliza na sua prática cotidiana são: interpretação gramatical ou literal; lógica ou teleológica; histórica e sistemática. Exercícios Questão 1. Não basta fundar racionalmente uma máxima moral para conseguir a sua observância jurídica; para uma regra ser efetivamente aplicada é necessário o Direito [...] Com a passagem da ética ao direito, o discurso se desloca do plano da validade ideal para o plano da eficácia das regras [...] Um princípio moral só se torna jurídico quando a desobediência às Leis leva a consequências negativas para o transgressor, produzidas pelo exercício do poder coativo (isto é, do uso da Força, reconhecido como legítimo) (BOBBIO, 2000, p. 690.). Considerando a distinção entre direito e moral, avalie as seguintes afirmações: I – Toda lei elaborada pelo Poder Legislativo é justa. Os conceitos de direito e justiça se confundem, pois as leis sempre são elaboradas para atender os interesses comuns ou majoritários de uma sociedade. II – As consequências do descumprimento de normas previstas no campo do direito e da moral são semelhantes. III – O descumprimento de uma norma jurídica pode produzir uma sanção jurídica, enquanto a violação de uma regra moral pode provocar apenas o desagrado do grupo social. É correto o que se afirma apenas em: A) I. B) II. C) III. 91 TEORIA GERAL DO DIREITO II D) I e II. E) II e III. Resposta correta: alternativa C. Análise das afirmativas I – Afirmativa incorreta. Justificativa: nem toda lei elaborada pelo Congresso Nacional pode ser considerada justa, adequada e ética. Ao longo da história da humanidade, muitos são os exemplos de leis criadas para atender interesses particulares de grupos políticos, econômicos e sociais predominantes, normas jurídicas totalmente injustas e até mesmo perversas, arbitrárias e abomináveis, como as que estabeleciam a escravidão dos negros na época do Brasil Colônia e Império, ou as que perseguiam os judeus e ciganos na Alemanha Nazista. II – Afirmativa incorreta. Justificativa: são diferentes as consequências do descumprimento das normas morais e das provenientes do direito. A transgressão de uma regra moral pode trazer uma repercussão social negativa, uma reprovação; enquanto a violação de norma jurídica pode trazer consequências legais. O que distingue o direito da moral é a imperatividade das regras jurídicas, é a possibilidade de se exigir um comportamento conforme a lei ou de se impor uma punição ao transgressor. Por exemplo, a pessoa que não quita uma dívida pode sofrer ação de cobrança judicial ou o indivíduo que desvia verba pública pode ser condenado criminalmente. III – Afirmativa correta. Justificativa: a distinção entre o direito e a moral é justamente a sanção jurídica, o resultado que o descumprimento de uma norma pode provocar. O descumprimento de uma normal moral pode ocasionar apenas o desagrado do grupo social; enquanto que, no campo do direito, o descumprimento de um texto normativo pode gerar uma sanção jurídica. Questão 2. O exame teórico da juridicidade dos princípios constitucionais é indissociável de uma prévia indagação acerca da eficácia normativa dos princípios gerais de Direito, cujo ingresso nas Constituições se faz com força positiva incontrastável, perdendo, desde já, grande parte daquela clássica e alegada indeterminação, habitualmente invocada para retirar-lhes o sentido normativo de cláusulas operacionais (BONAVIDES, 1998, p. 231). 92 Unidade II Considerando a relevância dos princípios na atual ordem constitucional, avalie as seguintes afirmações: I – De acordo com a famosa pirâmide de Kelsen, todas as normas constitucionais, tanto os princípios como as regras, encontram-se em posição de supremacia em relação às demais normas jurídicas e administrativas. II – De acordo com os ensinamentos do jurista alemão Robert Alexy, o ordenamento jurídico abrange tanto normas jurídicas explicitamente criadas pelo legislador, as leis, como também princípios jurídicos, normas que devem guiar a aplicação do direito, satisfazendo as exigências da moralidade e da justiça. III – Princípios jurídicos, mesmo previstos na Constituição, enquanto não regulamentados por leis, constituem meras normas programáticas, dependentes de futura regulamentação, não gerando qualquer consequência jurídica em caso de descumprimento. É incorreto o que se afirma apenas em: A) I. B) II. C) III. D) I e II. E) II e III. Resposta correta: alternativa C. Análise das afirmativas I – Afirmativa correta. Justificativa: de acordo com a pirâmide de Kelsen, as normas constitucionais se encontram no topo, ocupando uma posição de supremacia em relação a todas as demais normas jurídicas e administrativas. Toda lei emanada do Poder Legislativo e ato administrativo editado peloPoder Executivo que estiver em desconformidade com a Constituição deve ser considerado inconstitucional, ou seja, deve ser inválido. II – Afirmativa correta. Justificativa: na Teoria Moderna de Direito Constitucional, tanto os princípios, como as regras são normas jurídicas, com maior ou menor densidade normativa, mas todas dotadas de efetividade, gerando consequências jurídicas em caso de descumprimento, como no caso de violação do princípio da dignidade da pessoa humana. 93 TEORIA GERAL DO DIREITO II III – Afirmativa incorreta. Justificativa: a concepção tradicional dos princípios, mesmo previstos nas constituições, como meras normas programáticas, dependentes de futura regulamentação pelos poderes constituídos, está há muito superada pelo constitucionalismo moderno. A Constituição de 1988 estabeleceu diversos mecanismos para assegurar a efetividade de todos os seus princípios, como a previsão de aplicabilidade imediata dos direitos e garantias individuais e coletivos; o mandado de injunção; a ação direta de inconstitucionalidade por omissão e a ação direita de inconstitucionalmente por descumprimento de preceito fundamental. 94 FIGURAS E ILUSTRAÇÕES Figura 1 HAMMURABI-1626388_960_720.PNG. Disponível em: <https://cdn.pixabay.com/photo/ 2016/08/28/16/53/hammurabi-1626388_960_720.png>. Acesso em: 3 ago. 2018. Figura 2 GREECE-1594689_960_720.JPG. Disponível em: <https://cdn.pixabay.com/photo/2016/08/15/08/22/ greece-1594689_960_720.jpg>. Acesso em: 3 ago. 2018. Figura 3 EL_IMPERIO_ROMANO_125.SVG. Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/ commons/2/25/EL_IMPERIO_ROMANO_125.svg>. Acesso em: 3 ago. 2018. Figura 4 1024PX-LONDON-PARLIAMENT2.JPG. Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/ thumb/3/32/London-parliament2.jpg/1024px-London-parliament2.jpg>. Acesso em: 3 ago. 2018. Figura 5 800PX-TJ_MEMORIAL_STATUE.JPG. Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/ thumb/a/a4/TJ_Memorial_Statue.JPG/800px-TJ_Memorial_Statue.JPG>. Acesso em: 3 ago. 2018. Figura 6 800PX-ANONYMOUS_-_PRISE_DE_LA_BASTILLE.JPG. Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/ wikipedia/commons/thumb/5/57/Anonymous_-_Prise_de_la_Bastille.jpg/800px-Anonymous_-_Prise_ de_la_Bastille.jpg>. Acesso em: 3 ago. 2018. Figura 11 ULYSSESGUIMARAESCONSTITUICAO_121012_AGENCIABRASIL.JPG. Disponível em: <http:// www.ebc.com.br/sites/_portalebc2014/files/styles/full_colunm/public/atoms_image/ ulyssesguimaraesconstituicao_121012_agenciabrasil.jpg>. Acesso em: 3 ago. 2018. Figura 12 SLAVERY_IN_BRAZIL%2C_BY_JEAN-BAPTISTE_DEBRET_%281768-1848%29.JPG. Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d2/Slavery_in_Brazil%2C_by_Jean-Baptiste_ Debret_%281768-1848%29.jpg>. Acesso em: 3 ago. 2018. 95 Figura 15 NINJA_0706.JPG. Disponível em: <http://imagens.ebc.com.br/k0zD3j679RtQTnRLmjTr8-xYh0A=/ 1100x370/smart/http://www.ebc.com.br/sites/_portalebc2014/files/atoms_image/ninja_0706.jpg>. Acesso em: 3 ago. 2018. REFERÊNCIAS Audiovisuais O GLADIADOR. Dir. Ridley Scott, 2000. 155 minutos. O NOME da Rosa. Dir. Jean-Jacques, 1986. 131 minutos. Textuais AMBAFRANCE. A declaração dos direitos do homem e do cidadão. 13 jan. 2017. Disponível em: <https://br.ambafrance.org/A-Declaracao-dos-Direitos-do-Homem-e-do-Cidadao>. Acesso em: 3 ago. 2018. ATALIBA, G. República e Constituição. 3. ed. São Paulo: Malheiros, 2011. BARRUCHO, L. A vida da única família brasileira na Coreia do Norte. BBC, 29 set. 2017. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-41340519>. Acesso em: 1º ago. 2018. BBC BRASIL. O escândalo de corrupção que derrubou premiê espanhol e deixou poder na mão dos socialistas. 1º jun. 2018. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-44330279>. Acesso em: 3 ago. 2018. BÍBLIA. A. T. Êxodo. In: BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada: contendo o antigo e o novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1966. BOBBIO, N. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1992. BOBBIO, N. Estado, governo, sociedade: para uma teoria geral da política. 10. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003. p. 14 BOBBIO, N. Teoria geral da política. Rio de Janeiro: Campus, 2000. BONAVIDES, P. Curso de Direito Constitucional. 8. ed. São Paulo: Malheiros, 1998. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado, 1988. Disponível em: <http://www.senado.gov.br/atividade/const/con1988/con1988_15.09.2015/CON1988. asp>. Acesso em: 31 jul. 2018. 96 ___. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Decreto-lei nº 4.657, de 4 de setembro de 1942. Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro. Rio de Janeiro, 1942. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del4657.htm>. Acesso em: 2 ago. 2018. ___. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Decreto-lei nº 12.376, de 30 de dezembro de 2010. Altera a ementa do Decreto-Lei nº 4.657, de 4 de setembro de 1942. Brasília, 2010. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/L12376. htm#art2>. Acesso em: 2 ago. 2018. ___. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 556, de 25 de junho de 1850. Código Comercial. Rio de Janeiro, 1850. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/Leis/L0556-1850.htm>. Acesso em: 3 ago. 2018. ___. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966. Dispõe sobre o Sistema Tributário Nacional e institui normas gerais de direito tributário aplicáveis à União, Estados e Municípios. Brasília, 1966. Disponível em: <http://www. planalto.gov.br/Ccivil_03/Leis/L5172.htm>. Acesso em: 2 ago. 2018. ___. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 5.474, de 18 de julho de 1968. Dispõe sobre as Duplicatas, e dá outras providências. Brasília, 1968. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/Ccivil_03/leis/L5474.htm>. Acesso em: 3 ago. 2018. ___. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras providências. Brasília, 1981. Disponível em: <http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/leis/l6938.htm>. Acesso em: 3 ago. 2018. ___. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 7.357, de 2 de setembro de 1985. Dispõe sobre o cheque e dá outras providências. Brasília, 1985. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7357.htm>. Acesso em: 3 ago. 2018. ___. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990. Dispõe sobre a proteção do consumidor e dá outras providências. Brasília, 1990. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8078.htm>. Acesso em: 3 ago. 2018. ___. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Brasília, 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/Leis/2002/l10406.htm>. Acesso em: 3 ago. 2018. ___. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 11.101, de 9 de fevereiro de 2005. Regula a recuperação judicial, a extrajudicial e a falência do empresário e da sociedade empresária. Brasília, 2005b. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004- 2006/2005/lei/l11101.htm>. Acesso em: 3 ago. 2018. 97 ___. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 11.105, de 24 de março de 2005. Regulamenta os incisos II, IV e V do § 1º do art. 225 da Constituição Federal, estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização de atividades que envolvam organismos geneticamente modificados – OGM e seus derivados, cria o Conselho Nacional[...]. Brasília, 2005a. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/ l11105.htm>. Acesso em: 1º ago. 2018. ___. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 11.417, de 19 de dezembro de 2006. Regulamenta o art. 103-A da Constituição Federal e altera a Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999, disciplinando a edição, a revisão e o cancelamento de enunciado de súmula vinculante pelo Supremo Tribunal Federal, e dá outras providências. Brasília, 2006. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11417.htm>. Acesso em: 1º ago. 2018. ___. Supremo Tribunal Federal. Súmula Vinculante nº 11. Só é lícito o uso de algemas em casos de resistência e de fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros, justificada a excepcionalidade por escrito, sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual a que se refere, sem prejuízo da responsabilidade civil do Estado. Brasília, 2008. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/menuSumario.asp?sumula=1220>. Acesso em: 2 ago. 2018. ___. Tribunal Superior do Trabalho. Súmula nº 726. Para efeito de aposentadoria especial de professores, não se computa o tempo de serviço prestado fora da sala de aula. Brasília, 2003. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/menuSumarioSumulas. asp?sumula=1498>. Acesso em: 2 ago. 2018. CARVALHO, S. Da Desconstrução do Modelo Jurídico Inquisitorial. In: WOLKMER, A. C. (Org.). Fundamentos de História do Direito. 4. ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2007. CRETELLA JÚNIOR. J. Curso de Direito Romano: o Direito Romano e o Direito Civil brasileiro no novo Código Civil. 31. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. CRISTIANI, C. V. O Direito no Brasil Colonial. In: WOLKMER, A. C. (Org.). Fundamentos de História do Direito. 4. ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2007. DAVID, R. Os grandes sistemas do Direito Contemporâneo. 5. ed. São Paulo: Martins, 2014. DIMOULIS, D. Manual de Introdução ao Estudo do Direito. 6. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014. DINIZ, M. H. Compêndio de Introdução à Ciência do Direito. 27. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. 98 ESTADO ALEMÃO PROMOVE PRESERVAÇÃO AMBIENTAL HÁ CEM ANOS. Europa. DW, Bonn, 30 maio 2006. Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/estado-alem%C3%A3o-promove- preserva%C3%A7%C3%A3o-ambiental-h%C3%A1-cem-anos/a-2036392>. Acesso em: 1º ago. 2018. FOTOS: COMO VIVEM AS PESSOAS COMUNS NA COREIA DO NORTE? Insiderpro, 6 abr. 2017. Disponível em: <https://pt-br.insider.pro/lifestyle/2017-04-06/fotos-como-vivem-pessoas-comuns-na-coreia-do- norte/>. Acesso em: 1º ago. 2018. GARCIA, G. F. B. Introdução ao estudo do Direito – teoria geral do Direito. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense. São Paulo: Método, 2017. HOUAISS, A. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. HÜBNER, C. História da política de energia e clima da Alemanha: perspectivas da União Democrata Cristã 1958-2015. Lima: Fundação Konrad Adenauer, 2015. Disponível em: <http://www.kas.de/wf/doc/ kas_42301-1522-5-30.pdf?160203203259>. Acesso em: 1º ago. 2018. JEFFERSON, T. et al. Declaração unânime dos treze Estados Unidos da América. Pennsylvania State House, 4 jul. 1776. Disponível em: <https://agal-gz.org/faq/lib/exe/fetch.php?media=gze- ditora:declaracao_da_independencia_eua.pdf>. Acesso em: 3 ago. 2018. KÜMPEL, V. F. Introdução ao estudo do Direito – lei de introdução ao Código Civil e hermenêutica jurídica. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2009. LIMA, L. L. G. O Tribunal do Santo Ofício da Inquisição: o suspeito é o culpado. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, n. 13, p. 17-21, nov. 1999. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S0104-44781999000200002&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 27 jul. 2018. LOPES, J. R. L. O Direito na História – lições introdutórias. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2008. MAXIMILIANO, C. Hermenêutica e aplicação do Direito. 19. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2003. MONTORO, A. F. Introdução à ciência do Direito. 26. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. MORAES, M. C. B. Danos à pessoa humana. 2. ed. Rio de Janeiro: Processo, 2016. O JOGO. Paolo Guerrero leva suspensão por doping ao TAD. 13 abr. 2018. Disponível em: <https:// www.ojogo.pt/internacional/mundial-2018/noticias/interior/paolo-guerrero-leva-suspensao-por- doping-ao-tad-9256158.html>. Acesso em: 3 ago. 2018. O POVO ONLINE. Lei citada por Trump para separar pais e filhos imigrantes não existe. 16 jun. 2018. Disponível em: <https://www.opovo.com.br/noticias/mundo/ae/2018/06/lei-citada-por- trump-para-separar-pais-e-filhos-imigrantes-nao-existe.html>. Acesso em: 3 ago. 2018. 99 PINTO, C. P. A. Direito e sociedade no Oriente Antigo: Mesopotâmia e Egito. In: WOLKMER, A. C. (Org.). Fundamentos de História do Direito. 4. ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2007. SANTOS, R. D. A institucionalização da dogmática jurídico-canônica medieval. In: WOLKMER, A. C. (Org.). Fundamentos da História do Direito. 4. ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2007. SIQUEIRA JÚNIOR. P. H. Teoria do Direito. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. SOUSA, B. Hamburgo limita circulação de veículos a diesel. Euronews, Mundo, Alemanha, maio 2018. Disponível em: <http://pt.euronews.com/2018/05/31/hamburgo-limita-circulacao-de- veiculos-a-diesel>. Acesso em: 3 ago. 2018. TOMÁS Y VALIENTE, F. Relaciones de la Inquisición con el aparato institucional del Estado. In: VILLANUEVA, J. (Comp.). La Inquisición Española. Nueva visión, nuevos horizontes. Madrid: Siglo XXI, 1980. Sites <http://www2.camara.leg.br>. <https://www12.senado.leg.br>. <www.ebn.com.br>. 100 Informações: www.sepi.unip.br ou 0800 010 9000