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Bioquímica Clínica Introdução ao laboratório de bioquímica clínica 1. Iremos estudar a importância do laboratório de bioquímica clínica; 2. Procedimentos analíticos; 3. Controle de qualidade; 4. Noções de biossegurança. Importância do laboratório de bioquímica clínica Ramo do laboratório clínico que emprega métodos químicos e bioquímicos na pesquisa de uma doença; Corresponde a aproximadamente 1/3 de todas as investigações laboratoriais de um hospital, de um laboratório ou de um setor diagnóstico; Amostras (sangue, urina e líquidos cavitários); Através dos testes bioquímicos é possível identificar condições como diabetes mellitus, infarto agudo do miocárdio, alterações hepáticas, renais, pancreáticas entre diversas outras; Usos dos testes bioquímicos: além do diagnóstico, estes testes são úteis no monitoramento do tratamento, monitoramento do curso da doença, avaliação do prognóstico, triagem. *Dosagem de glicemia (dosagem de glicose) é um tipo de teste bioquímico bastante usado em laboratório de bioquímica clínica, seja ele para diagnóstico ou monitoramento de tratamento. Procedimentos analíticos Fase pré-analítica (fase caracterizada onde ocorrerá tudo antes de analisar os resultados): Orientações ao paciente, coleta de amostra, transporte da amostra, processamento da amostra, armazenamento da amostra (obs: variáveis podem influenciar nos resultados). – Fase de extrema importância, pois se essa fase houver alguma falha, consequentemente o resultado pós-analítico não será fidedigno. Fase analítica (fase caracterizada pelo momento que recebemos a amostra e começamos a realizar o exame/análise): Dosagem do marcador bioquímico. Fase pós-analítica (fase caracterizada por expressar os resultados encontrados/obtidos): Expressão dos resultados, avaliação do controle de qualidade, emissão de laudo. Principais amostras utilizadas Líquor (LCR - líquido cefalorraquidiano) : - Tem como função o fornecimento de nutrientes ao cérebro, proteção mecânica das células neuronais. - É examinado na suspeita de acidente vascular cerebral, meningite, doença desmielinizante, leucemias, linfomas. - Dosagens bioquímicas: glicose e lactato (meningites), proteínas (redução nas leucemias), cloretos, ureia, lactato desidrogenase. Coleta do Líquor - Quem realiza essa coleta é um profissional da medicina em ambiete hospitalar, pois é uma coleta bastante invasiva, correndo o risco de paraplegia; - A coleta é realizada entre a 3 e 4 vértebra, ou da 4 e 5 vértebra; - Coleta realizada sem anticoagulante (tubo seco); - A coleta pode ser realizada em tubos diferentes para setores diferentes para não ocorrer uma provável contaminação. - Se a amostra estiver homolizada (com sangue), deverá informar no laudo e será necessário realizar uma nova coleta para analisar o diagnóstico esperado. Líquido Sinovial Tem como função o preenchimento dos espaços livres intra-articulares. Permite movimentos articulares sem causar danos, produção e reabsorção de líquidos, mantendo o equilíbrio fisiológico. É retirado das articulações (artrocentese – coleta com heparina (anticoagulante), dosagens bioquímicas podem auxiliar na diferenciação do tipo de artrite (infecciosa ou não). Dosagens bioquímicas: glicose (redução na artrite infecciosa), proteínas totais, ácido úrico. Pode acarretar uma patologia chamada de GOTA, no qual pode ser adquirido de maneira hereditária (genética) ou de desgaste do cotidiano. Líquido amniótico - Amniocentese Tem como função o crescimento externo simétrico do embrião, barreira contra infecções, proteção mecânica contra traumatismos, possibilita que o feto se mova livremente, função de nutrição e excreção. Diagnóstico pré-natal de doenças congênitas, avaliar a maturidade fetal e avaliar infecção intra-uterina. Dosagens bioquímicas: fosfolipídeos (lecitina, fosfatidilglicerol) alfa1-fetoproteína. Líquido Pleural – Toracocentese Tem como função lubrificação pulmonar; Classificação em transudato (insuficiência cardíaca congestiva, cirrose hepática) ou exsudato (tuberculose, neoplasia); Dosagens bioquímicas: proteínas, LDH, pH, amilase; A amostra deverá ser analisada dentro de um período de até 02 horas, e armazenada em uma temperatura de no máximo 25º na própria seringa que foi coletada, pois não deverá passar para um recipiente (tubo) devido acontecer a desnaturação de algumas proteínas que seriam as proteínas chaves para o diagnóstico da doença. Líquido ascítico Tem como função proteção da cavidade abdominal, lubrificando e reduzindo o atrito entre os órgãos; Dosagens bioquímicas: amilase e albumina; Determinar as causas da ascite (albumina soro/líquido ascético). Elevação neste gradiente: cirosse (causa acúmulo de um filtrado do plasma na cavidade abdominal). Transudato: é um fluido que tem pouca importância proteica, é um ultrafiltrado do plasma sanguíneo resultante de pressão hidrostática elevada. Exsudato: é um fluido com presença de pus, purulento inflamatório rico em neutrófilos e fragmentos de células. Urina Urina de 24 horas (teste mais robusto), urina com outros intervalos de tempo, urina aleatória (teste qualitativo) e primeira urina da manhã; Dosagens bioquímicas: urina de 24 horas (creatinina, eletrólitos, proteínas totais, albumina), urina com outros intervalos (amilase), urina aleatória (proteínas totais, albumina), primeira urina da manhã (EQU). Tem que ser armazenado em um recipiente específico. A entrega do material deverá ser de imediato, não deve existir parada para outras realizar outras obrigações. Sangue - Coleta de Sangue: Venoso, arterial ou capilar (escolha do local é muito importante); Uso de EPIs (exemplo: máscara, jaleco, luva, sapato fechado, calça); Realizar antissepsia do local da punção com álcool a 70%; Uso de garrote para auxiliar na calibração da veia que irá coletar o material; *não deixar o garrote por muito tempo no braço do paciente, para assim não acarretar uma hemólise. Coleta à vácuo, seringas ou lancetas; *lanceta normalmente é utilizada para coleta capilar (ex: teste do pezinho, teste de tempo de sangria – coagulograma) Tubo correto e identificado - Sangue Venoso As veias transportam sangue da periferia para o coração; Veias mediana, cefálica ou basílica; *Normalmente utilizamos a veia mediana, no qual é localizada na dobra do cotovelo, pois é uma veia bastante calibrosa); Dobra do cotovelo; Ângulo para coleta de aproximadamente 30°. - Sangue Arterial Sangue oxigenado pelos pulmões e bombeado pelo coração para os tecidos; Coletado em nível hospitalar devido ser um tipo de procedimento com probabilidade de acarretar hemorragia; Artéria radial, branquial e femoral; Ângulo para coleta de 30-45º (radial), 45-60º (braquial) e 45-90º (femoral) - Sangue Capilar Mistura de sangue arterial e venoso – vasos superficiais ; Ponta do dedo, lóbulo da orelha e planta do pé; Controle de glicemia, tempo de sangramento. Processamento das amostras de sangue - Amostra de sangue total significa que é uma amostra com anticoagulante, é uma amostra que não coagula. - Existem algumas amostras que não coagulam, porém mesmo assim elas passam por um processo de centrifugação, para assim conseguirmos trabalhar com o plasma da amostra; - Se for querer trabalhar com o soro do sangue, teríamos que deixar a amostra coagular (não iríamos utilizar anticoagulante) e após o processo de centrifugação conseguiríamos separar a amostra branca da amostra vermelha (hemácias). Tipos de tubos para coleta Soro: sem fibrinogênio Plasma: com fibrinogênio - Tubo de fluoreto de sódio é um tipo de anticoagulante no qual é utilizado para coleta de amostra de glicose, pois ele servirá para retardara degradação das moléculas de glicose. Erros na fase pré-analítica – Fase antes da realização do teste!! Tempo de jejum; Erro na identificação; Garroteamento prolongado (podendo acarretar hemólise); Tubo incorreto; Armazenamento incorreto; Amostra insuficiente; Hemólise e Lipemia (distúrbios de colesterol e triglicerídeos); Alguns exemplos de alterações relacionados a: Hemólise: - Transferência do sangue de forma inadequada; - Homogeneização brusca; - Uso do tubo secundário; - Temperaturas anormais; - Interrupção brusca da centrifugação. Lipemia: - Ingestão de alimentos gordurosos; - Usuários de retrovirais. Obs: quando a amostra do paciente estiver em condições lipémicas, devemos colocar essa informação no laudo, pois o médico quando for avaliar o resultado, irá observar que houve um problema fisiológico com o paciente e não um erro pré-analítico. Variáveis pré-analíticas Controláveis - Variáveis fisiológicas: postura (repouso prolongado aumenta a excreção de cálcio, sódio, ureia e creatinina), exercício físico (elevação na AST, LDH e CK), variação circadiana (insulina é mais elevada pela manhã), ciclo menstrual (colesterol e triglicerídeos tendem a estar elevados no meio do ciclo). - Viagens: durante um vôo prolongado, ocorre retenção de líquido e sódio; - Dieta: vegetarianos tem redução de LDL e VLDL.. Desnutrição reduz proteínas totais, albumina; -Tabagismo: elevação nos níveis de glicose, colesterol e triglicerídeos e redução de HDL; - Ingestão de etanol: aumento de triglicerídeos; - Administração de medicamentos: novalgina reduz creatinina, anticoncepcionais orais causam elevação na amilase, transaminases e colesterol. Hemólise: É uma coloração avermelhada, ocasionada por uma destruição prematura das hemácias por rompimento da membrana plasmática, liberando diversos componentes intracelulares como a hemoglobina, é um aspecto que podemos controlar. Lipemia: Ocorre quando o soro ou plasma estão turvos e leitosos, ao invés de límpidos e de cor amarelo clara (coloração esbranquiçada/leitosa), é um aspecto que não podemos controlar, pois depende das condições físicas do paciente (distúrbios de colesterol e triglicerídeos). Não controláveis - Idade: CK, GGT e AST estão elevadas no RN. Icterícia fisiológica do RN. Redução de glicose no RN. O fosfato sérico diminui bastante após os 20 anos de idade. Redução na depuração de creatinina no idoso. - Sexo: Após a puberdade, a FAL aumenta nas mulheres. Albumina, cálcio, magnésio e LDL são maiores nos homens. HDL são maiores nas mulheres. - Obesidade: elevação de colesterol e triglicerídeos e redução no HDL. Com o ganho de peso, AST, proteínas totais e creatinina aumentam nos homens o cálcio aumenta nas mulheres. - Gravidez: TFG aumenta em 50% durante o terceiro trimestre. Hemodiluição leva à redução nas proteínas séricas. - Estresse: elevação de glicólise, colesterol e albumina. Fase analítica Calibrador (concentração fixa conhecida – não pode haver variância), soro controle (intervalo de confiança), essas dosagens podem ser realizadas em: amostras, kits laboratoriais, água destilada, vidrarias, micropipetas, banho maria, equipamentos de leituras. – todas as máquinas devem estar calibradas, pois quando estão desequilibrados podem dar erro na análise da amostra.. Equipamentos de leitura – Analisadores urinários - Analisador de tiras de urina: determinação de urobilinogênio, glicose, bilirrubina, corpos cetônicos, densidade, sangue, pH, proteína, nitrito e leucócitos. Avaliação de aspectos físicos e químicos e contagem de células totalmente automatizadas. - Fotômetro de chama: átomos de metais emitem luz, após aquecimento por uma chama. Dosa-se lítio (Li+), Sódio (Na+), potássio (K+), Magnésio (Mg2+). – automatizado. - Eletrodos íons seletivos: eletrodos que respondem seletivamente a alguns íons, medindo o potencial de um íon específico em solução. Serve para dosagem de cálcio, sódio, cloreto. – semiautomatizado. - Aparelhos de quimioluminescência: a quimioluminescência é a emissão de luz em consequência de uma reação química. Dosa-se T3, T4, TSH. - Turbidímetro: Dosa-se PCR, alfa1glicoproteína ácida, imunoglobulinas, ferritina, transferrina. - Espectrofotômetros: - Esse aparelho realizará praticamente todos os tipos de exame!! 1. Manual (visível ou visível e UV). Sem cubeta termostatizada; - máquina que iremos utilizar* 2. Semi- automático: com cubeta termostatizada. Requer utilização de reagentes líquidos. 3. Automático: método 100% automatizado. Analisador de tiras de urina Fotômetro de chama Eletrodos íons seletivos Aparelhos de quimioluminescência Obs: - Reação de ponto final: é onde a concentração do produto formado atingirá um valor máximo, permanecendo inalterada por algum tempo, após atingir esse tempo começa a ocorrer à perda de estabilidade do produto. Por tanto, ao analisar essa mostra com esse tipo de reação, não deverá realizar outro procedimento até a conclusão dessa etapa, pois caso perca o período de estabilidade do produto, isso prejudicará o resultado final. - Reação cinética contínua: é a reação no qual terá 03 intervalos (no mínimo) de tempo para medir a velocidade do produto. - Reação cinética de 2 tempos: É uma variante da reação cinética contínua.. Ela é realizada com tempo de leitura, sendo aos 30 e aos 90 segundos. Esse tempo podemos controlar, pois pode utilizar outros tempos, como por exemplo 120 segundos. Fase pós-analítica Cálculos e expressão dos resultados (mg/dL, U/L); Controle de qualidade; Comparação com o valor de referência; Comparação com o quadro clínico; Emissão de laudo O que o laudo deve conter no mínimo: 1) Identificação do laboratório (é essencial caso o médico tenha alguma dúvida a respeito do resultado o mesmo entre em contato para esclarecer); 2) Endereço e telefone do laboratório; 3) Identificação do Responsável Técnico (RT); 4) Número do registro RT no respectivo conselho de classe profissional (número do CRF); 5) Identificação do profissional que liberou o exame; 6) Número do registro do profissional que liberou o exame no respectivo conselho de classe do profissional; 7) Número do registro do laboratório clínico no respectivo conselho de classe profissional; Turbidímetro Espectrofotômetro manual Espectrofotômetro semiautomático Espectrofotômetro automático 8) Nome e registro de identificação do cliente no laboratório; 9) Data da coleta da amostra; 10) Data da emissão do laudo; 11) Nome do exame, tipo de amostra e método analítico; 12) Resultado do exame e unidade de medição; 13) Valores de referência, limitações técnicas de metodologia e dados para interpretação; 14) Observantes pertinentes. Controle de qualidade Controle de qualidade interno: Necessário para o acompanhamento diário da precisão e acurácia do método analítico (todos os dias antes de iniciar a rotina, é necessário fazer essa checagem diária). – Realizado para verificar se as dosagens estão corretas e portanto se seus resultados são confiáveis e podem ser liberados, evitando erros. (exemplo: Calibrador e soro controle – são constituídos de soro humano, são liofilizados. Quando irão ser usados, são diluídos com água destilada). Controle de qualidade externo: Necessário para a manutenção da precisão de longo prazo dos métodos analíticos. Processo referido como teste de proficiência e programas externos de acreditação laboratorial (exemplo: PNCQ, Control-Lab, PALC). – São laboratórios terceirizados que lirão liberar resultados confiáveis. 1. Importância do controle de qualidade externo: 2. Assegurar que os resultados dos laboratórios situem-se o mais próximo possível do valor real dos marcadores analisados; 3. Visa padronizar os resultados de diferenteslaboratórios através da comparação interlaboratorial de análises de alíquotas do mesmo material. Obs: Nem todo laboratório tem esse controle de qualidade externo, porém todos os laboratórios deveriam ter. Controle de qualidade – Legislação - A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 302, de 13 de outubro de 2005, dispõe sobre o regulamento técnico para funcionamento de laboratórios clínicos. - Esta resolução determina, entre outras coisas, que o laboratório clínico deve assegurar a confiabilidade dos serviços laboratoriais prestados por meio do controle da qualidade. Biossegurança - O laboratório clínico e o posto de coleta laboratorial devem manter atualizados e disponibilizar, a todos os funcionários, instruções escritas de biossegurança, contemplando no mínimo os seguintes itens: 1. Normas e condutas de segurança biológica, química, física, ocupacional e ambiental; 2. Instruções de uso para os equipamentos de proteção individual (EPI) e de proteção coletiva (EPC); 3. Procedimentos em casos de acidentes; 4. Manuseio e transporte de material e amostra biológica. - O responsável técnico pelo laboratório clínico e pelo posto de coleta laboratorial deve documentar o nível de biossegurança dos ambientes e/ou áreas, baseado nos procedimentos realizados, equipamentos e microrganismos envolvidos, adotando as medidas de segurança compatíveis. Limpeza, Desinfecção e Esterilização: - O laboratório clínico e o posto de coleta laboratorial devem possuir instruções de limpeza, desinfecção e esterilização, quando aplicável, das superfícies, instalações, equipamentos, artigos e materiais. - Os saneantes e os produtos usados nos processos de limpeza e desinfecção devem ser utilizados segundo as especificações do fabricante e estarem regularizados junto a ANVISA/MS, de acordo com a legislação vigente. - Produtos saneantes (ANVISA) * Álcoois: etílico e isopropílico são os principais desinfetantes utilizados em serviço de saúde. Tem como características bactericidas, virucida, fungicida e tuberculocida. Não é esporicida. Concentração de uso 60% a 90% em solução de água volume/volume. * Composto inorgânicos libertadores de cloro: hipocloritos de sódio e cálcio. Características: bactericidas, virucida, fungicida, tuberculocida e esporocida, dependendo da concentração de uso. Concentração de uso: 0,02% a 1,0%. * Compostos quaternários de amônio: alguns dos compostos mais utilizados são os cloretos de alquildimetilbenzilamônio e cloretos de dialquildimetiamônio. Tem como características: bactericida, virucida (somente contra vírus lipofílicos ou envelopados) e fungicida. Não apresenta ação tuberculicida. É pouco corrosivo e tem baixa toxicidade. * Compostos fenólicos: os compostos fenólicos sintéticos compreendem os cresóis, fenilfenol e outros. Estão em desuso, devido à toxicidade. Características: bactericida, virucida, micobactericida e fungicida. Não é esporocida. NR 32 – Segurança e saúde no trabalho em serviços de saúde Proibições: - A utilização de pias de trabalho para fins diferentes dos previstos; - O ato de fumar e o uso de adornos (anéis, pulseiras, relógios) nos postos de trabalho; - Unhas compridas: unhas devem estar curtas e limpas; - O consumo de alimentos e bebidas nos postos de trabalho; - A guarda de alimentos em locais não destinados para este fim; - O uso de calçados abertos.