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Programa de Pós-Graduação Lato Sensu a Distância SAÚDE COLETIVA Epidemiologia e o Processo Saúde-Doença Segunda versão Autor: Karla de Toledo Candido Muller EAD – Educação a Distância Parceria Universidade Católica Dom Bosco e Portal Educação 2 www.eunapos.com.br SUMÁRIO UNIDADE 1 - ASPECTOS CONCEITUAIS E DEFINIÇÃO DE EPIDEMIOLOGIA 03 1.1 Conceitos de Epidemiologia ............................................................................. 03 1.2 Histórico da Epidemiologia ............................................................................... 04 1.3 Situação atual ................................................................................................... 16 1.4 Pilares da Epidemiologia atual.......................................................................... 18 UNIDADE 2 – PROCESSO SAÚDE E DOENÇA ................................................... 26 2.1 Conceitos de Saúde ......................................................................................... 26 2.2 Conceitos de Doença ....................................................................................... 28 2.3 História Natural da Doença ............................................................................... 31 2.4 Estudo dos determinantes sociais da saúde..................................................... 51 2.5 Prevenção das doenças e promoção da saúde ................................................ 56 UNIDADE 3 - ESTUDOS EPIDEMIOLÓGICOS ..................................................... 64 3.1 Pesquisa epidemiológica .................................................................................. 66 3.2 Desenhos de estudos epidemiológicos ............................................................ 74 UNIDADE 4 – VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA ................................................... 83 4.1 Sistemas de informação em saúde ................................................................... 83 4.2 Indicadores de saúde ....................................................................................... 85 TVNI Realce 3 www.eunapos.com.br UNIDADE 1 - ASPECTOS CONCEITUAIS E DEFINIÇÃO DE EPIDEMIOLOGIA A epidemiologia é uma disciplina básica da saúde pública que procura compreender o processo saúde-doença relacionado às populações. Este aspecto coletivo é a principal diferença entre a epidemiologia e a clínica, uma vez que esta última estuda o processo saúde-doença em um foco individual. Inicialmente precisamos conhecer a origem da palavra Epidemiologia, ou seja, a etimologia do vocábulo: 1.1 Conceitos de Epidemiologia "Epidemiologia é o estudo da frequência, da distribuição e dos determinantes dos estados ou eventos relacionados à saúde em específicas populações e a aplicação desses estudos no controle dos problemas de saúde" (LAST, 1995). De acordo com a Associação Internacional de Epidemiologia (IEA), a epidemiologia é a ciência que estuda o processo saúde-doença em coletividades humanas, analisando a distribuição e os fatores determinantes das enfermidades, danos à saúde e eventos associados à saúde coletiva, propondo medidas específicas de prevenção, controle ou erradicação de doenças, e fornecendo indicadores que sirvam de suporte ao planejamento, administração e avaliação das ações de saúde (ROUQUAYROL; ALMEIDA FILHO, 2003). Epí = sobre Logos = palavra, discurso, estudo Demós = povo Ciência do que ocorre (se abate) sobre o povo 4 www.eunapos.com.br Os conceitos de epidemiologia estão profundamente relacionados com o dia a dia de todos os cidadãos e não existe a possibilidade de ignorá-lo uma vez que todos nós fazemos parte dos dados epidemiológicos do nosso País. Neste momento cabe uma reflexão: O que é a Epidemiologia para você? Qual a sua utilidade em nossas vidas? Para respondermos a estas perguntas, precisamos conhecer a trajetória da epidemiologia ao longo da história da humanidade. 1.2 Histórico da Epidemiologia Desde a Grécia antiga as diferenças entre a medicina individual e coletiva já eram notadas. De acordo com Rouquayrol e Almeida Filho (2003), o cuidado em saúde refletia um antagonismo ancestral entre as duas filhas do deus da medicina - Asclépios: Panaceia e Higeia. A terapia com fins curativos, de foco individualizado e sobre o doente era realizada por meio de manobras físicas, orações e pharmakon (medicamentos) e tinha Panacéia como padroeira. Entretanto, era próprio dos adoradores de Higéia o entendimento sobre a harmonia entre o homem e os ambientes como promotor de saúde e o desenvolvimento de ações preventivas, buscando equilíbrio entre os elementos fogo, terra, ar e água. Deriva-se então o termo higiene e simboliza a promoção de saúde, principalmente no sentido coletivo. Os primeiros relatos de assuntos epidemiológicos datam de 2.500 anos atrás. Hipócrates analisava as doenças em bases racionais, como produto da relação do indivíduo com o ambiente. Ao analisar as doenças levava em consideração o clima, a maneira de viver, os hábitos de comer e beber. Traduzia seu direcionamento à tradição Higéica. Scliar (2007, p.32) afirma, sobre a história do conceito saúde, que: http://migre.me/4dq MA 5 www.eunapos.com.br Hipócrates postulou a existência de quatro fluidos (humores) principais no corpo: bile amarela, bile negra, fleuma e sangue. Desta forma, a saúde era baseada no equilíbrio desses elementos. Ele via o homem como uma unidade organizada e entendia a doença como uma desorganização desse estado. A obra hipocrática caracteriza-se pela valorização da observação empírica, como o demonstram os casos clínicos nela registrados, reveladores de uma visão epidemiológica do problema de saúde-enfermidade. [...] Essas observações não se limitavam ao paciente em si, mas a seu ambiente. O texto escrito por Hipócrates “Ares, águas, lugares” trata da relação entre a doença e os fatores ambientais, abordando o conceito ecológico de saúde-doença. Tal texto é o precursor da teoria dos miasmas, originário da crença de que a “má qualidade do ar” era responsável pelo desenvolvimento das doenças. A teoria defendia as emanações de regiões insalubres que tinham a capacidade de causar doenças como a malária (do latim “maus ares”), muito comum no sul da Europa (SCLIAR, 2007). Fonte: http://migre.me/4dqOJ Galeno, filósofo e médico hábil e experiente, desenvolveu um sistema totalmente contrário ao preconizado por Hipócrates, combatendo as doenças com substâncias que agiam sobre os sinais e sintomas, distribuídas em larga escala. Realizou, na Roma antiga, os primeiros censos periódicos de nascimentos e óbitos, descrevendo numerosas obras em grego. Fonte: http://migre.me/4dqRP Na Idade Média, os saberes foram suprimidos e a saúde passou a ter um caráter mágico-religioso. Este período é marcado pelas batalhas entre religiões, com um aumento na força do Cristianismo e invasões dos bárbaros. Seu período é delimitado entre o ano de 476 d.C., depois da queda do Império Romano do Ocidente até 1453, com a queda do Império Romano do Oriente. http://migre.me/4dqOJ http://migre.me/4dqRP 6 www.eunapos.com.br Fonte: http://migre.me/4dqX5 Alguns historiadores referem-se à peste negra como o pior desastre humano do continente Europeu em decorrência de sua alta letalidade. Sua transmissão se dava pelas pulgas dos ratos em contato com o homem. Entretanto, as más condições de higiene contribuíam para esta mortalidade (ROUQUAYROL; ALMEIDA FILHO, 2003). A salvação da alma era considerada superior a tudo e poderia ser paga com a perdição do corpo individual. Neste contexto, os menos afortunados tinham seus males “tratados” por religiosos em atos de caridade e também por outros leigos. Já na aristocraciahavia o cuidado com a saúde promovida por médicos (SANTOS, 2006). A doença era sinal de desobediência ao mandamento divino. A enfermidade proclamava o pecado, quase sempre em forma visível, como no caso da lepra. [...] Em primeiro lugar, porque tal tratamento não estava disponível; em segundo, porque a lepra podia ser doença, mas era também, e, sobretudo, um pecado. O doente era isolado até a cura, [...] ele era proibido de ter contato com outras pessoas ou enviado para um leprosário. Esse tipo de estabelecimento era muito comum na Idade Média, em parte porque o rótulo de lepra era frequente, sem dúvida abrangendo numerosas outras doenças. (SCLIAR, 2007, p.30) A Medicina árabe teve seu apogeu no século X com a prática precursora da saúde pública e suas valiosas bibliotecas. As casas e as ruas eram limpas e as cidades possuíam saneamento. Médicos mulçumanos, com acesso aos textos gregos originais, adotaram os princípios hipocráticos, desenvolvendo organização http://migre.me/4dqX5 7 www.eunapos.com.br social, com registros de dados demográficos, sanitários e de vigilância epidemiológica. Figura 1 – Médico árabe utilizando ferros em brasa para cauterizar as feridas dos leprosos, na Idade Média Fonte: http://migre.me/4dqYv Os precursores da ‘medicina do coletivo’ são figuras históricas de Avicena e Averróes (como eram chamados no Ocidente). O médico e filósofo persa Avicena (980-1037) foi autor do “Canon da medicina”, considerado o principal tratado clínico da era medieval tardia, que, dessa forma, trouxe novamente os ensinamentos de Hipócrates e Galeno para a medicina Ocidental (PEREIRA, 2006). Averróes (1126–1198), também filósofo e médico, além de promover as ações de saúde higiênicas, foi um dos principais tradutores e comentadores das obras de Aristóteles. Segundo Pereira (2006, p.2), “apesar de terem vivido em épocas http://migre.me/4dqYv 8 www.eunapos.com.br distintas e em pontos opostos do império mulçumano, ambos compartilhavam uma modalidade de filosofia materialista e racionalista [...]” O ensino médico e a organização sanitária tiveram um progresso rápido. Curiosamente, as primeiras leis higiênicas consideradas fundamentais para a saúde na época são atribuídas a Maomé (SANTOS, 2006). A retomada de processos preventivos no ocidente, marcado pelo Renascimento, somente foi possível pela conservação dos textos médicos nas bibliotecas árabes durante o sombrio período medieval. A clínica moderna tem como fundador o médico e político inglês Thomas Syderham (1624-1689), também considerado um precursor da ciência epidemiológica, de caráter hipocrático. Ele realizou meticulosas observações antecipadoras, a chamada medicina científica e desenvolveu o conceito de “história natural das enfermidades”, adotado no século XX como medicina preventiva (ROUQUAYROL; ALMEIDA FILHO, 2003). No século XVII, o inglês John Graunt (1620-1674) desenvolveu um tratado sobre as tabelas mortuárias em Londres, identificando as taxas de mortalidade por sexo e região (urbano e rural) e quantos óbitos ocorriam em relação ao total da população. Seus registros identificaram elevadas taxas de mortalidade infantil e a relação entre as variações sazonais e o aumento de doenças específicas na população. É considerado o precursor dos estudos de demografia e das estatísticas vitais, a bioestatística (LAST, 1995). Fonte: http://migre.me/4dr0N No século XIX a Europa foi o centro das ciências em decorrência da Revolução industrial, êxodo rural e a ocorrência das epidemias de cólera, febre tifóide e febre amarela. Os estudiosos se dividiam entre a teoria dos miasmas e a teoria dos germes. Em 1835, o Francês Pierre Charles Alexandre Louis (1787-1872) introduziu o método estatístico na contagem dos eventos, aplicando métodos de pesquisa quantitativa à medicina clínica e revelou a letalidade da pneumonia em relação à época em que era iniciado o tratamento por sangria (PEREIRA, 2006). 9 www.eunapos.com.br Louis Villermé (1782-1863) foi pioneiro nos estudos sobre a origem social dos agravos. Investigou a estreita relação entre a situação socioeconômica e a mortalidade (saúde dos trabalhadores das indústrias de algodão, lã e seda). Publicou um relatório com o resultado de seus estudos sobre a mortalidade nos bairros de Paris (Tableau del’état physique et moral des ouvriers), concluindo que havia uma íntima relação entre a mortalidade e o nível de renda (PEREIRA, 2006; SCLIAR, 2007). Fonte: http://migre.me/4dr76 Estes estudos eram necessários porque a industrialização estava gerando doenças. Os padrões de regime de trabalho em nada se pareciam com os atuais e a saúde do trabalhador era ignorada. O que se via então eram trabalhadores doentes e isto gerava perdas financeiras para as indústrias e preocupava os sistemas públicos de saúde. Foi a partir de estudos sobre morbidade e qualidade de vida de trabalhadores que, lentamente, houve modificações nas legislações trabalhistas. O inglês William Farr foi o primeiro investigador a examinar séries temporais de morbimortalidade para longos períodos. Trabalhou 40 anos no Escritório Geral de registros da Inglaterra onde desenvolveu uma classificação das doenças, descrição das leis das epidemias sobre mortalidades (lei de Farr). Fonte: http://migre.me/4dr9m Os estudos deste renomado médico sanitarista e estatístico lhe permitiram identificar a média de vida da população, de acordo com a idade. Posteriormente se juntou a John Snow no estudo da cólera (FERNANDES, 2002; PEREIRA, 2006). A Inglaterra mostrava-se avançada em relação aos demais países quando se tratava de registros epidemiológicos, apesar de não receberem este nome na época. Atitudes corriqueiras atuais de registros de número de pessoas que nascem e que morrem, ou o mapeamento de doenças infecto-contagiosas não eram consideradas http://migre.me/4dr76 http://migre.me/4dr9m 10 www.eunapos.com.br importantes. Havia uma visão muito pontual das doenças. Daí a importância de pesquisadores, na época gestores, com esta visão de controle sobre as doenças. As ações mais incisivas em saúde, desenvolvidas naquela época, surgiram das observações sobre o comportamento coletivo dos processos de doenças. O médico húngaro Ignaz Semmelweis (1818-1865) identificou uma alta taxa de morte puerperal na maternidade do Hospital Geral de Viena entre os anos de 1841-1846. Suas observações sistemáticas demonstraram que os estudantes vinham às enfermarias realizar exames nas puérperas, logo após dissecações na sala de autópsia, causando maior taxa de mortalidade em relação à outra enfermaria onde esta rotina não acontecia da mesma forma. Ele suspeitou que os estudantes contaminavam as mulheres com algo infeccioso, apesar de não se saber o que era, de fato. Após a implantação do hábito rotineiro de higiene e desinfecção nas mãos, a mortalidade de puérperas em ambas as enfermarias da maternidade diminuíram drasticamente, entretanto, suas conclusões não foram aceitas por seus colegas (PEREIRA, 2006) A observação sistemática de maior impacto na história da epidemiologia, com uma grande repercussão até para os dias atuais, foi a identificação da contaminação da água como desencadeadora do cólera, que ao longo da história humana já havia matado milhares de pessoas. Foi o médico inglês anestesiologista John Snow quem publicou em 1855 informações referentes às investigações sobre os modos de transmissão do cólera, décadas antes da descoberta dos micro-organismos, baseando-se em dados de duas epidemias que ocorreram em Londres nos anos de 1849 e 1854. Fonte: http://migre.me/4drd2 O médico, responsável pelo ministério da saúde da cidade, após severo mapeamento dos doentes identificou o consumo de água poluída como responsável pelos episódiosda doença e traçou os princípios de prevenção e controle de novos surtos válidos ainda hoje, contrariando a teoria dos miasmas. Precursor da epidemiologia de campo sistematizou a coleta planejada de dados (LILIENFELD; LILIENFELD, 1980; PERERIRA, 2006). http://migre.me/4drd2 11 www.eunapos.com.br A observação sistemática desenvolvida por Snow mostrava que algumas pessoas de locais não contaminados visitavam locais com grande número de casos, mas não desenvolviam a doença, enquanto outros contraíam o cólera. O que intrigava o médico era que quando o sujeito infectado voltava à sua região, este não contaminava os demais. Mas, identificar o modo de contágio era essencial para o controle da epidemia. Entrevistas individuais mostraram uma relação entre a ingestão de alimentos ou água e os indivíduos contaminados e por método de exclusão, chegou-se ao que havia de comum entre o estilo de vida e hábitos rotineiros dos indivíduos infectados. Deste modo, a relação entre a origem da água e os casos de cólera fica estabelecida, já que não havia apenas um reservatório de água na cidade, e que diferentes partes do rio Tâmisa abasteciam as diversas regiões e este fato explicaria por que algumas regiões tinham doentes e outras não. Um grande divisor no desenvolvimento de doenças foi a descoberta de Louis Pasteur (1822-1895) que identificou e isolou numerosas bactérias, identificou e estudou a fermentação alimentar (processo que originou as fermentações de alimentos e de bebidas alcoólicas), investigação de bactérias patogênicas e os princípios da “pasteurização” em 1865. A partir de então, com a descoberta dos agentes causais das doenças, a teoria dos miasmas perde força e credibilidade (PEREIRA, 2006). Na sua descoberta Pasteur associou o calor como um purificador de substâncias. Mas quando as substâncias entravam novamente em contato com o ar ambiente, perdia sua “pureza” e era possível encontrar colônias de bactérias neste material. Parte do material (meio de cultura) que ficava protegido, isolado, permanecia estéril. O início do século XX foi marcado pela grande influência da microbiologia. A formação do profissional sanitarista centrava-se no laboratório, e os demais ramos da medicina eram subordinados a este conhecimento. De acordo com Pereira (2006, p. 10): Fonte: http://migre.me/4drjx http://migre.me/4drjx 12 www.eunapos.com.br [...] comprovou-se fartamente que seres microscópicos, dotados de características especiais, minuciosamente descritas, desempenhavam papel predominante na gênese de muitas doenças. A clínica e a patologia tornaram-se subordinadas ao laboratório, que ditava também padrões para a higiene e para a legislação sanitária. Neste momento, a saúde coletiva fica fragilizada e perde seu principal foco, o contato direto com a população, com o coletivo. Havia uma tendência a explicar todas as doenças por meio da ação de um agente causal. As doenças infecto-contagiosas matavam em larga escala e atraíam a atenção de todos o cientistas da época. Apesar de sabermos quão equivocada é esta posição, ela foi, de certo modo, adequada para o controle das diversas “pragas” existentes naquele período. Graças às ações dos grandes médicos cientistas, foram erradicadas doenças letais. No Brasil, no início do século XX, Oswaldo Cruz (1872-1917) fundou, em Manguinhos (RJ), o Instituto que leva seu nome, nos moldes do Instituto Pasteur (Paris), propiciando pesquisas e investimentos na área, além de combate à febre tifóide, febre amarela, peste bubônica e a varíola. A campanha de vacinação contra febre amarela foi executada com disciplina militar. As vacinações, de modo geral, causavam grande insatisfação popular pelo descrédito em relação a elas, somadas às medidas de demolição de imóveis insalubres (que permitiam a proliferação de ratos e dificultavam o controle da peste bubônica), desencadeando a Revolta das vacinas que ocasionou a morte de 30 pessoas, com 110 feridos e centenas de prisões efetuadas (MEDRONHO et al, 2009). Outros sanitaristas como Carlos Chagas (1879-1934), Adolfo Lutz (1855- 1940) (febre amarela) e Emílio Ribas (1862-1925) se destacaram pelas suas contribuições no combate a diferentes moléstias (PEREIRA, 2006). 13 www.eunapos.com.br Oswaldo Cruz http://migre.me/4dt6m Carlos Chagas http://migre.me/4dt8P Adolfo Lutz http://migre.me/4dt9M Emílio Ribas http://migre.me/4dtft Figura 2 - Grandes sanitaristas brasileiros Apesar de o saneamento básico ser uma preocupação antiga da humanidade, com relatos desde a era Romana, algumas modificações aconteceram, em decorrência da teoria dos germes. O foco do saneamento ambiental, no controle de doenças contagiosas, visava ao combate dos miasmas. Assim, procurava-se projetar ruas largas, com rica ventilação, reservatórios de água. Os médicos eram consultados pelos governos e influenciavam no desenvolvimento geográfico das cidades. A urbanização do centro da cidade do Rio de Janeiro, com a drenagem de pântanos e a demolição de morros, desde os meados do século XIX, foi profundamente influenciada pelos profissionais de saúde que, na época, comungavam da visão miasmática das causas das doenças. Mas as descobertas científicas, ocorridas na medicina e na biologia fizeram com que o meio ambiente pudesse ser estudado mais cientificamente, colocando em destaque seu papel na transmissão [...]. O campo de investigação expandiu-se, para incluir os vetores e os reservatórios de agentes, o que resultou no esclarecimento do ciclo dos parasitas, ampliando as possibilidades de prevenção (PEREIRA, 2006. p.10). Após o final da Segunda Grande Guerra (1945), a Fundação Rockefeller passou a influenciar fortemente a formação do pensamento sanitário no Brasil. Após a II Grande Guerra, ficava fortalecida a ideia do controle e até mesmo da erradicação de doenças endêmicas, com o apoio da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), sob influência do governo http://migre.me/4dt6m http://migre.me/4dt8P http://migre.me/4dt9M http://migre.me/4dtft 14 www.eunapos.com.br americano. Dentre estas ações, podemos citar a erradicação da malária e temporariamente do Aedes aegypti (MEDRONHO et al, 2009), Em 1960, com o desenvolvimento da campanha de erradicação da varíola assim como da poliomielite 10 anos mais tarde, torna-se respeitado e consolidado o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica no Brasil (MEDRONHO et al, 2009). Curiosidade Registros epidemiológicos sobre a varíola apontam um número aproximado de vítimas durante o século XX, de quase 500 milhões de pessoas. Esta foi considerada uma das doenças mais devastadoras da história da humanidade. A doença não tem cura e a vacinação é o único modo de controle. Em 1970, A OMS promoveu uma campanha mundial de vacinação O último caso de varíola no mundo foi registrado na Somália em 1977 (BRASIL, 2005). Fonte: http://migre.me/4dEvc Figura 3 - Criança infectada por varíola, com pústulas típicas desta enfermidade Na segunda metade do século XX houve uma grande mudança das doenças prevalentes de infecciosas para as doenças crônicas e degenerativas como causa de mortalidade e morbidade. O trajeto e desenvolvimento das doenças infecto- contagiosas era conhecido e muitas delas eram erradicadas em grande parte dos países. A qualidade de vida das populações, de modo geral, melhorou, aumentando a longevidade e permitindo o aparecimento de um novo desenho epidemiológico, http://migre.me/4dEvc 15 www.eunapos.com.br relacionado tanto à cronicidade de patologias como à degeneração natural do organismo (SOARES et al., 2001). Neste período, doenças de causas externas também ganhavam amplitude (acidentes de trânsito ou de trabalho, homicídios, envenenamentos,dentre outras), assim como os desvios nutricionais (obesidade, desnutrição, anemia). Diversos fatores de risco foram mapeados (tabagismo, hipercolesterolemia, atividade física, etc.) e o foco dos tratamentos também incluía a prevenção pela minimização de fatores de risco (SOARES et al., 2001). A determinação das condições de saúde da população (inquéritos de morbidade e de mortalidade) e a busca sistemática de fatores antecedentes ao aparecimento das doenças, que possam ser rotulados como agentes ou fatores de risco (rubéola, cigarro, e coronariopatias) fortalecem os estudos epidemiológicos e sua relevância. A avaliação da utilidade e da segurança das intervenções propostas para alterar a incidência ou a evolução da doença, através de estudos controlados (estreptomicina na tuberculose, fluoretação da água, vacina contra poliomielite) passa a servir de subsídios de ações em saúde (PEREIRA, 2006). Exercício 1 Marque a alternativa INCORRETA: a) a) Desde a Grécia antiga os cuidados em saúde são divididos entre a prevenção e o tratamento das doenças. b) b) Na Grécia, o médico Hipócrates analisava a origem das doenças e sua relação com o ambiente. Entretanto, tempos depois em Roma, Galeno preconizava o contrário, com medicações em larga escala. c) c) A peste negra foi considerada como o pior desastre humano do continente e foi amplamente estudada pelos epidemiologistas da Idade Média. d) d) Com o advento do Renascimento, houve uma retomada de processos preventivos disseminados por Hipócrates e outros estudiosos, graças à conservação dos textos médicos nas bibliotecas árabes. 16 www.eunapos.com.br e) e) Os primeiros registros de morbimortalidade foram desenvolvidos por John Graunt, em Londres, no século XVII. 1.3 Situação atual Praticamente todos os agravos à saúde já foram ou estão sendo estudados através de estudos epidemiológicos, levando-se em consideração o complexo modelo de multicausalidade. A partir deste modelo, surge a necessidade da epidemiologia analítica, com maior rigor nas análises estatísticas e metodológicas. Não cabe mais o estudo apenas de fatores físicos e biológicos (PEREIRA, 2006). Barata (2000) ressalta em seus relatos que “as explicações da teoria da multicausalidade caracterizam-se por incluir aspectos relativos à organização da sociedade e à cultura entre fatores que contribuem para a produção das doenças, sem que constituam necessariamente determinantes do processo”. É nesta incorporação dos princípios da psicologia e sociologia que se tornam evidentes as dificuldades de explicações sobre a grande maioria das questões de etiologia e prognóstico das doenças apenas pela ação dos agentes microbianos e físicos. A teoria da multicausalidade considera a saúde como sendo determinada por um conjunto de fatores agrupados, em quatro grandes categorias: estilo de vida; ambiente; organização dos cuidados; biologia humana . Para entendermos melhor a amplitude da Epidemiologia é necessário conhecermos como a população fica vulnerável às doenças, ou seja, o que nos torna mais ou menos propenso ao desenvolvimento de quadros patológicos. Mas, é fundamental uma visão que contemple a Saúde e somente depois o desenvolvimento de doenças e a distinção entre ações individualizadas e coletivas de saúde. Soares et al (2001, p.184) procuram diferenciar os tipos de ações em atenção clínica e coletiva fazendo o seguinte comparativo: [...] diferentemente da Clínica, que estuda o processo saúde-doença em indivíduos, com o objetivo de tratar e curar casos isolados, a Epidemiologia se preocupa com o processo de ocorrência de 17 www.eunapos.com.br doenças, mortes, quaisquer outros agravos ou situações de risco à saúde na comunidade, ou em grupos dessa comunidade, com o objetivo de propor estratégias que melhorem o nível de saúde das pessoas que compõem essa comunidade. Um dos meios para se conhecer como se dá o processo saúde-doença na comunidade é elaborando um diagnóstico comunitário de saúde. O diagnóstico comunitário, evidentemente, difere do diagnóstico clínico em termos de objetivos, informação necessária, plano de ação e estratégia de avaliação. O quadro abaixo demonstra as principais diferenças entre diagnóstico clínico e epidemiológico. Quadro 1 - Diferenças entre as características observadas no diagnóstico clínico e no diagnóstico epidemiológico Diagnóstico Clínico Diagnóstico Epidemiológico Tipo de Diagnóstico Individual Comunitário Objetivo Curar a doença da pessoa Melhorar o nível de saúde da comunidade Informação necessária História Clínica Exame Físico Exames complementares Dados sobre a população Doenças existentes Causas de morte Serviços de saúde, etc. Plano de ação Tratamento Reabilitação Programas de saúde prioritários Avaliação Acompanhamento Clínico Mudança no estado de saúde da população Fonte: Adaptado de Vaughan e Morrow (1992) Exercício 2 Marque a alternativa INCORRETA: a) a) Ainda hoje as doenças infecciosas são a principal causa de morte no Brasil, sendo foco principal dos epidemiologistas e das ações de políticas públicas em saúde. 18 www.eunapos.com.br b) b) No período em que vigorava a teoria dos miasmas, os hospitais eram remodelados ou construídos utilizando arquitetura que promovesse grandes passagens de ar, evitando o contágio de doenças e melhorando o ar das enfermarias. c) c) Na Era Medieval, as doenças eram atribuídas a espíritos malignos e o tratamento era realizado por orações e ervas sendo a cura atribuída a milagres obtidos através da súplica, mortificação e arrependimento dos pecados. d) d) Louis Pasteur identificou e isolou as bactérias identificando os agentes causais das doenças. Assim, a teoria dos miasmas perde força e credibilidade. e) Graças às pesquisas desenvolvidas por grandes sanitaristas brasileiros como Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Adolfo Lutz e Emílio Ribas doenças letais como febre tifóide, peste e varíola foram erradicadas no Brasil. 1.4 Pilares da Epidemiologia atual Com o desenvolvimento da epidemiologia, conforme já descrito, os estudos da epidemiologia expandiram-se para as áreas clínica e social e foram contemplados nos currículos de graduação de todos os profissionais da saúde. Desta maneira, Pereira (2006) subdivide o conhecimento em epidemiologia em três pilares: Ciências Biológicas, Ciências Sociais e Estatística, conforme discutiremos a seguir: Figura 4 – Pilares da epidemiologia atual Fonte: Elaboração própria PPIILLAARREESS DDAA EEPPIIDDEEMMIIOOLLOOGGIIAA AATTUUAALL CCllíínniiccaa ((CCiiêênncciiaass BBiioollóóggiiccaass) EEssttaattííssttiiccaa ((CCiiêênncciiaass EExxaattaass)) MMeeddiicciinnaa SSoocciiaall ((CCiiêênncciiaass SSoocciiaaiiss)) 19 www.eunapos.com.br a) Ciências Biológicas Nos conhecimentos biológicos encontramos o embasamento necessário para a compreensão das doenças e assim podemos identificar, descrever e classificar adequadamente os diversos tipos patogênicos existentes. A associação entre a clínica, a microbiologia, a patologia, a parasitologia, a imunologia, etc, de acordo com Pereira (2006, p.13), “contribui para que se atinja um maior grau de precisão na determinação da frequência com que estão ocorrendo na população, o que se reflete na qualidade dos estudos de correlação e nas pesquisas de maneira em geral”. Fonte: http://migre.me/4drMj b) Ciências Sociais A sociedade, como está organizada, oferece proteção aos indivíduos, mas também determina os riscos de adoecer, bem como o maior ou menor acesso à prevenção das doenças e à promoção e recuperação da saúde. Pereira (2006, p.13) completa suas fundamentações sobre as influências da sociedade sobre a saúde afirmando: Fonte: http://migre.me/4ds6ZAs ciências sociais dispõem de teorias e métodos, além de toda uma tradição em pesquisa, que estão sendo trazidos para epidemiologia como instrumentos e formas de abordagem a serem empregadas na investigação das relações entre a saúde e sociedade. c) Estatística “É a ciência e a arte de coletar, resumir e analisar dados sujeitos e variações” (LAST, 1995). Tem papel de destaque na determinação e seleção da amostra, na análise dos dados, nas associações e controle das variáveis, etc. Garante a aleatoriedade da amostra e o controle das variáveis que influenciam na leitura dos http://migre.me/4drMj http://migre.me/4ds6Z 20 www.eunapos.com.br dados coletados. A estatística deve estar presente desde o planejamento da pesquisa epidemiológica, estimando o tamanho da amostra necessária para garantir uma abrangência adequada da população ou evento estudado. A utilização da informática por meio dos programas estatísticos para análise de grandes grupos amostrais dinamizou as tarefas de cálculo, aproximando ainda mais as duas áreas. Fonte: http://migre.me/4dtRX Katz (2001) divide em 9 tópicos as contribuições da epidemiologia às ciências médicas. São elas: 1. Realizar investigação epidemiológica do modo de transmissão de novas patologias, possibilitando o conhecimento sobre os determinantes do processo saúde/doença. Principalmente a identificação do agente causal ou fatores relacionados à causa dos agravos à saúde. Estudos epidemiológicos e de vigilância em saúde permitem formulação de hipóteses sobre a história natural de doenças pouco conhecidas, como, por exemplo, gripe aviária (Influenza H5N1) e gripe suína (Influenza A H1N1). Fonte: http://migre.me/4g903 Vamos exemplificar para melhor compreensão, analisando a reportagem publicada pela Revista Veja.com, de Agosto de 2009. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/perguntas_respostas/gripe_suina/gripe- suina.shtml>. Tomamos como referência a gripe suína, por esta ser a epidemia mais recente. Os primeiros casos foram identificados em março de 2009, no México. http://migre.me/4dtRX 21 www.eunapos.com.br Centenas de pessoas começaram a procurar unidades de saúde com sintomas de febre acima de 38º, tosse, dor nas articulações, prostração e dificuldade respiratória. Inicialmente, pensava-se tratar de uma gripe comum, mas a quantidade de casos e os desfechos com vários casos de óbitos (em abril de 2009 somavam-se aproximadamente 149 mortes no México) alertaram os governantes, as vigilâncias sanitárias de diversos países, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas (ONU). Havia o risco de uma nova Pandemia Mundial, por um devastador efeito dominó. Este padrão de disseminação foi comprovado quando casos foram identificados em outras partes do mundo, incluindo os Estados Unidos, Canadá, América Latina, Ásia, Europa e Austrália. Para conhecer o tipo de patologia com que estavam lidando, médicos patologistas isolaram e identificaram o vírus Influenza A H1N1. A gripe recebeu o nome de ‘suína’ pois um teste de laboratório mostrou semelhança entre os genes deste vírus e do vírus precursor de gripe em porcos da América do Norte. Mais tarde, foi comprovada a diferença entre estes, demonstrando que o vírus da nova gripe continha material genético dos vírus humanos, de aves e suínos. Apesar do nome e do temor da população, ficou estabelecido que o contágio não ocorria por ingestão de carne de porco, mas por via aérea, de pessoa para pessoa, principalmente pelo contato com gotículas contaminadas expelidas em tosses e espirros. Ficou comprovada uma maior contaminação em locais fechados e entre indivíduos com menos hábitos de higiene, principalmente relacionado à lavagem das mãos. Depois de identificados epidemiologicamente os meios de transmissão desta nova doença, os estudos focaram-se em medidas de controle em que as pessoas infectadas foram tratadas com uso de medicamentos (Tamiflu®), mantidas em isolamento, assim como sua família também ficava em observação. A vigilância epidemiológica de vários países lançou mão de manter em quarentena as pessoas que viajaram para locais de maior incidência da doença, assim como os que tinham contato com pessoas contaminadas. 22 www.eunapos.com.br 2. Identificação das causas evitáveis, entendendo a causa dos agravos à saúde. Após identificação da causa da doença e seu modo de transmissão, é possível desenvolver ações para interrupção do processo patogênico (ex: vacinação, isolamento, hábitos relacionados, aconselhamento genético). Quadro 2 - Categoria de causas evitáveis (Fatores BEINGS) B Biológicos e Comportamentais E Ambientais (Environmental) I Imunológico N Nutricionais G Genéticos S Outros (Services, Social, Spiritual) Fonte: Adaptado de Katz (2001) 3. Compreensão da história natural das doenças, determinando os modos de transmissão, os fatores contribuintes aos agravos à saúde, e também identificar e explicar os padrões de distribuição geográfica das doenças. Estudos epidemiológicos permitem distinguir as causas sociais das ambientais, assim como os mecanismos biológicos das doenças. Por exemplo: a ingestão excessiva de gorduras e açúcares junto com o sedentarismo contribuem para o surgimento do diabetes. A hiperglicemia sanguínea caracteriza o mecanismo biológico da doença. 4. Conhecimento das características biológicas das doenças. A maioria das doenças apresenta uma variação da sua gravidade nos indivíduos, sendo que os casos mais graves de doenças desconhecidas certamente chamam mais a atenção. Esta variação é explicada pelo fenômeno de iceberg. A Organização Mundial da Saúde o define como uma evidência de pequena porção de casos clínicos em relação à elevada proporção de infecções inaparentes de determinadas doenças (BRASIL, 1983). 23 www.eunapos.com.br * Casos assintomáticos incluem casos sintomáticos que não procuram o serviço de saúde, os casos que procuram o serviço de saúde, mas não são diagnosticados e os casos diagnosticados, mas não registrados e/ou informados Figura 5 – Fenômeno de iceberg Fonte: Elaboração própria 5. Avaliação das intervenções em saúde coletiva, desenvolvendo tecnologias efetivas para a descrição e a análise das situações de saúde, fornecendo subsídios para o planejamento e a organização das ações de saúde. Por exemplo: vigilância de determinada doença após implantação de um tratamento específico ou vacina, também em avaliações sobre a eficácia de programas públicos de saúde provendo dados para a administração e avaliação de serviços de saúde. 6. Classificação de prioridades no controle das doenças e auxílio no planejamento das medidas preventivas bem como o desenvolvimento de serviços de saúde. As prioridades referem-se não somente à magnitude do problema de saúde como nas projeções dos efeitos futuros. Determinação de como os recursos destinados à prevenção e controle de doenças possam ser melhor aproveitados. 7. Aprimoramento do diagnóstico, tratamento e prognóstico das doenças, identificando quais testes são mais apropriados e mais acurados, comparando diferentes tipos de tratamento e selecionando o mais eficiente. Melhora a compreensão da história natural de uma doença e seu prognóstico. Casos Invisíveis ou “portadores” Morte Doença clínica Quadros assintomáticos * Casos visíveis ou conhecidos 24 www.eunapos.com.br A triagem neonatal é um bom exemplo de diagnóstico precoce de várias doenças que podem ser identificadas desde o nascimento evitando agravos, por vezes irreversíveis, à saúde da população. A triagem neonatal é uma ação preventiva que permite fazer o diagnóstico de diversas doenças congênitas ou infecciosas, assintomáticas no período neonatal,a tempo de se interferir no curso da doença, permitindo, desta forma, a instituição do tratamento precoce específico e a diminuição ou eliminação das sequelas associadas a cada doença (BONINI-DOMINGOS, 2010, p.99). Fonte: http://migre.me/4dM3C 8. Melhora na qualidade de pesquisas em saúde com vistas ao controle de doenças. A metodologia epidemiológica pode ser empregada na avaliação de programas, atividades e procedimentos preventivos e terapêuticos, tanto no que se refere a sistemas de prestação de serviços quanto ao impacto das medidas de saúde na população. Os dados permitem diferenciar as necessidades regionais e direcionar novas pesquisas em saúde. 9. Testemunhando em processos legais. De acordo com Katz (2001), “os epidemiologistas podem testemunhar em processos relativos a produtos perigosos, riscos e efeitos da exposição ambiental, doenças ocupacionais, responsabilidade médica e de produtos”. 25 www.eunapos.com.br Exercício 3 Marque a alternativa correta: a) a) A epidemiologia é uma disciplina que eventualmente pode compor a grade curricular dos cursos da saúde que procura compreender o processo saúde-doença relacionado às populações. b) b) A epidemiologia é a ciência que estuda o processo saúde-doença no indivíduo, analisando os fatores que determinam as doenças. c) c) Dentre as ações do epidemiologista inclui-se determinar o modo de transmissão das doenças e racionalizar recursos de saúde. d) d) O aspecto coletivo é a principal diferença entre a epidemiologia e a clínica, porque não estuda o processo saúde-doença com foco individual. e) e) Quando não há controle das doenças por método terapêutico tradicional, a epidemiologia procura identificar os fatores complicadores e não totalmente compreendidos pelos profissionais da saúde. 26 www.eunapos.com.br UNIDADE 2 – PROCESSO SAÚDE E DOENÇA Para tornar possíveis as análises sobre a saúde, bem como sobre o processo de adoecimento de uma população, são necessários conhecimentos básicos sobre o conceito de saúde e doença. A partir de então, poderemos aprofundar as discussões sobre a história natural das doenças no homem. Para compreendermos melhor o conceito da mutualidade saúde–doença precisamos inicialmente fragmentá-las para depois reintegrá-las dentro dos demais fatores envolvidos. 2.1 Conceitos de Saúde Vários conceitos procuram denominar o termo saúde ou o que é ser saudável. Conforme já descrito acima, a OMS em 1948, definiu saúde como “estado completo de bem-estar físico, mental e social e não meramente ausência de doença” e implica o reconhecimento do direito à saúde e da obrigação do Estado na promoção e proteção da saúde (PEREIRA, 2006). Esta é uma visão um tanto utópica, já que o ser social está cotidianamente exposto a questões que podem momentaneamente ou de forma mais incisiva, desestabilizar esta situação. Vejamos um exemplo: Um homem, chefe de família, está passando por situação de estresse no trabalho, com rumores de corte de funcionários e suas características, como idade mais avançada, estariam na mira dos gestores da empresa. Fonte: http://migre.me/4dsfk Como poderemos afirmar que ele está com um completo bem-estar psíquico quando sofre tamanha pressão? http://migre.me/4dsfk 27 www.eunapos.com.br Em uma outra hipótese, podemos citar o caso de centenas de brasileiros desempregados, passando por situações de desfavorecimento social, onde pode ocorrer desde a diminuição da renda familiar a complicações maiores como perda de moradia, dentre outras. Mas, ao considerarmos este indivíiduo doente, temos que levar em consideração a maneira como ele interage com estes fatores complicadores, que por sua vez são co-dependentes das experiências de vida, valores culturais adquiridos ao longo do tempo e demais fatores que possam influenciá-lo na tomada de decisões e enfrentamentos. De acordo com Scliar (2007), um conceito formulado em 1974 por Marc Lalonde, titular do Ministério da Saúde e do Bem-estar do Canadá, analisava os fatores que interferiam na saúde pública, considerada o campo da saúde. Estes fatores englobam: Biologia humana: relacionada à herança genética e os processos biológicos próprios da vida; Meio ambiente: relacionado ao solo, à água, ao ar, à moradia, ao local de trabalho; Estilo de vida: relacionado às decisões que afetam a saúde: fumar ou deixar de fumar, beber ou não, praticar ou não exercícios; Organização da assistência à saúde. Engloba desde as ações preventivas relacionadas à alimentação adequada, não adesão aos vícios, até as diversas complexidades de tratamento. Fonte: http://migre.me/4dEzG O Canadá, desde então, mostrou-se celeiro do modelo de sistemas eficazes de saúde. Westphal (2006, p. 659), relata que em 1986, na 8º Conferência Mundial de Saúde, promovida pela OMS, foi elaborada a ‘Carta de Otawa’ que descreve 28 www.eunapos.com.br saúde como estado ideal e também como um conceito positivo que enfatiza as potencialidades dos indivíduos. A autora complementa com dados pertinentes ao nosso País, citando que “A Constituição brasileira no seu capítulo de Saúde, institucionalizou saúde como um direito humano básico, um direito de todos e dever do Estado”. Em uma visão mais ampla, saúde foi definida na 8a Conferência Nacional de Saúde em 1986 (p. 4), como: [...] resultante das condições de alimentação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra, acesso a serviços de saúde. É assim, antes de tudo, resultado de formas de organização social de produção, as quais podem gerar profundas desigualdades nos níveis de vida. As modificações sobre o entendimento do que seja saúde começam a ser realidade em todos os povos, com o objetivo único da melhoria da qualidade de vida das populações. Saúde deixa de ser apenas o estado de ausência de doenças e ganha um caráter mais amplo. No Brasil, os reflexos da 8º Conferência Mundial de Saúde, somada à 8a Conferência Nacional de Saúde, dentro de um momento repleto de reivindicações por meio dos movimentos sociais, subsidiaram a construção do Sistema Único de Saúde brasileiro além da regulamentação específica do seu conceito em nossa Carta Magna. Concordando com Scliar (2007, p.30), a frase “saúde não representa a mesma coisa para todas as pessoas” é pertinente, pois as pessoas são heterogêneas, em todos os aspectos, e suas concepções acerca da saúde assim como sobre demais conceituações estão relacionadas às histórias pessoais de vida, época, classe social, religião e suas impressões sobre todos os determinantes. 2.2 Conceitos de Doença Segundo Jenicek e Clérox (1982), A doença é um desajustamento ou uma falha nos mecanismos de adaptação do organismo ou uma ausência de reação aos estímulos a cuja ação está exposto. O processo conduz a uma perturbação da 29 www.eunapos.com.br estrutura ou da função de um órgão, ou de um sistema ou de todo o organismo ou de suas funções vitais. O Ministério da Saúde traz um simplificado conceito de doença, colocando-a como uma alteração ou desvio do estado de equilíbrio de um indivíduo com o meio ambiente (MS, 1987). Fonte: http://migre.me/4dsuz O médico e filósofo francês Canguilhem (2000), em sua tese de doutorado sobre “o normal e o patológico”, afirma que “a doença não é uma variação da dimensão da saúde, ela é uma nova dimensão da vida”. De acordo com Barros (1998), a doença pode ser encarada como um fator externo ao equilíbrio normal do organismo, resultado de uma reação saudável de defesa ou até mesmo de adaptação do indivíduo às condições novas e diferentes. Portanto, é bastante difícil designar se uma pessoa está saudável ou doente se levarmosem consideração o “normal” e o “anormal”, uma vez que estes são adjetivos um tanto subjetivos e por vezes nos faltam parâmetros comparativos de normalidade. Já disse em trovas e versos o cantor Caetano Veloso: “... de perto ninguém é normal”. Fonte: http://migre.me/4dsDd Bonetti (2004, p.1), ao analisar os textos de Canguilhem, cita que: O sujeito imagina o que é não estar doente e age na concretização deste imaginário. Para ser normal tem que se levar em conta o conceito de equilíbrio e adaptabilidade, é necessário considerar o meio externo e o trabalho que o organismo ou suas partes devem efetuar. Para Canguilhem (2000), a medicina existe porque há homens que se sentem doentes. Somente depois é que eles percebem em que consiste a doença. Levando-se em consideração a formação cartesiana da maioria dos profissionais de saúde, o Ser doente não é considerado como um todo, único, http://migre.me/4dsuz http://migre.me/4dsDd 30 www.eunapos.com.br integral, e sofre uma fragmentação terapêutica. Neste Ser fragmentado são exercidas técnicas que visam à cura ou, ao menos, minimização dos sintomas patológicos do fragmento em questão. Canguilhem (2000) se reporta à concepção patológica de Bichat, que considera que na vida existem dois fenômenos, o estado de saúde e o estado de doença, divididos em duas ciências diferentes, a fisiologia e a patologia, respectivamente. Para o autor, o estado fisiológico está mais relacionado ao estado saudável do que com o estado de normal. “O estado patológico expressa a redução das normas de vida toleradas pelo ser vivo, a precariedade do normal estabelecido pela doença”. Historicamente, doença, patologia e anormalidade representam um único estado, enquanto a terminologia normalidade significa saúde (BONETTI, 2004). Bonetti (2004) traduz de forma tão clara e objetiva o Ser doente que nos remete a uma realidade vivenciada cotidianamente por muitos profissionais da saúde, independente da área específica de atuação: Fonte: http://migre.me/4fdO1 ... percebe-se a dificuldade de avaliar e interpretar o ser doente, decorrente de vários fatores como a idade e as crises naturais da idade adulta ou a dos jovens; culturais; sexuais; afetivos; socioeconômicos, e, além disso, se move no tempo. Não há um doente efetivo, mas um processo em andamento e um “tempo doente vivido pelo ser”, com possibilidades de resultados positivos na busca de ser saudável. O ser doente não é um ser anormal, é um ser que vivencia uma doença e que tem várias possibilidades de restabelecimento do ser saudável, porém deverá encontrar para isso, o melhor caminho para compreensão de seu estado temporário para atingir novas dimensões de vida (BONETTI, 2004, p. 1). Uma vez diferenciados os conceitos sobre saúde e doença e para relacionarmos aos preceitos de Epidemiologia precisamos entender o processo saúde-doença associadamente, incluindo todos os fatores extrínsecos e intrínsecos entremeados neste processo. Passamos a analisar a partir de agora a história natural das doenças nas populações. 31 www.eunapos.com.br Exercício 4 Em relação às concepções de saúde e de doença expressas no texto, assinale a alternativa INCORRETA: a) Saúde é o estado completo de bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de doença. b) Biologia humana, Meio ambiente, Estilo de vida e Organização da assistência à saúde são fatores que determinam o estado de saúde do indivíduo. c) A doença não é uma variação da dimensão da saúde, ela é uma nova dimensão da vida. d) Os estados de saúde e doença independem da alteração ou desvio do estado de equilíbrio de um indivíduo com o meio ambiente. e) A doença pode ser encarada como um fator externo ao equilíbrio normal do organismo, resultado de uma reação saudável de defesa ou até mesmo de adaptação do indivíduo às condições novas e diferentes. 2.3 História Natural da Doença De acordo com Rouquayrol e Goldbaum (2003), a epidemiologia estuda as ocorrências em escala maciça de doença e não doença envolvendo pessoas agregadas em sociedades, coletividades, comunidades, grupos demográficos ou qualquer outro coletivo formado por seres humanos. A Epidemiologia está focada nos processos de doença, morte, ou outros agravos ou situações de risco à saúde de toda população de um determinado local (comunidade), ou em grupos dessa comunidade. Por meio de suas observações é possível propor ações que elevem o nível de saúde dessas pessoas. Esta postura do cuidado coletivo difere da atuação Clínica, que estuda o processo saúde-doença em indivíduos, com o objetivo de tratar e curar casos individualmente. Existem vários modelos de explicação do processo saúde-doença. O modelo biomédico entende doença como um desajuste ou falha nos mecanismos de adaptação do organismo ou uma ausência de reação aos estímulos a cuja ação está exposto, resultando em alteração da estrutura ou da função de um órgão, um 32 www.eunapos.com.br sistema ou ainda de todo organismo, ou de suas funções vitais. As doenças, sob o ponto de vista etiológico, pertencem a duas categorias: doenças infecciosas e não infecciosas, entretanto este modelo privilegia as doenças infecciosas. As doenças não infecciosas são definidas por exclusão. Sob o ponto de vista de duração, as doenças são crônicas e agudas. As crônicas são as que se desenrolam a longo prazo, enquanto que as agudas são de curta duração (ROUQUAYROL e GOLDBAUM, 2003). No modelo processual, utilizado neste momento, representa a história natural da doença, Os processos de ausência de saúde são estudados pela epidemiologia sob a classificação de doenças infecciosas (sarampo, difteria, malária, etc.) e não infecciosas (diabetes, hipertensão, depressão, etc.), além dos agravos à integridade física (acidentes, homicídios, suicídios) Nos casos de doenças infecciosas, existem muitas razões para que o agente causador do agravo esteja presente no ambiente do indivíduo, assim como se este estaria exposto ou não exposto ao agente e sendo variável sua resistência ou não a este agente causador de doenças (KATZ, 2001). Na prática diária do profissional da saúde, nos deparamos diversas vezes com situações típicas de agravos à saúde determinadaS por ação de um agente infeccioso. A varicela (catapora) seria um exemplo típico, pois o indivíduo quando exposto, pode ou não ser contaminado e apresentar quadros leves ou até mesmo severos da doença, sendo esta variação dependente de suas condições imunológicas. Fonte: http://migre.me/4dLSI As doenças não infecciosas apresentam frequentemente, uma interação múltipla de fatores de risco, podendo estar presentes tanto no genótipo, no hábito nutricional, no estilo de vida e o ambiente em que este indivíduo está inserido (KATZ, 2001). Para ilustração deste grupo de doenças vamos utilizar o acidente vascular cerebral (AVC), uma doença de origem multicausal, comumente fruto da relação entre o sedentarismo, colesterol alto, estresse e hipertensão arterial. 33 www.eunapos.com.br Algumas doenças são decorrentes de agravos à integridade física. Na atualidade, os politraumatismos, decorrentes de acidentes de trânsito, são próprios da interação de fatores, por vezes fatais, relacionados a comportamentos e sucessiva exposição ao risco. A epidemiologia, então, trabalha sobre o conjunto de processos sociais interativos e um, em especial, é o processo saúde-doença. Rouquayrol e Goldbaum (2003, p.20) definem o processo saúde-doença como: [...] o modo específico pelo qual ocorre, nos grupos, o processo biológico de desgaste e reprodução, destacando como momentos particulares a presença de um funcionamento biológico diferente, com consequência para o desenvolvimento regular das atividades cotidianas, isto é, o surgimento de doenças.Este processo de saúde-doença procura esclarecer todos os aspectos envolvidos no adoecimento dos indivíduos assim como em seus coletivos. E é importante entendermos que o processo de adoecimento começa muito antes da doença em si. Este é dependente da exposição aos riscos e da pré-disposição pessoal ou de uma população, para que a doença se manifeste. Um modelo de encarar o processo saúde-doença em um ponto de vista mais abrangente, dentro de um contexto social, é transmitido por Minayo (1988, p.363): O modo de pensar saúde-doença que é, ao mesmo tempo, o modo de pensar a vida e a morte, remete às raízes tradicionais desses grupos, mas também à sua inserção no mundo industrial; faz parte do imaginário social que ultrapassa os limites de tempo, do espaço e das classes, mas se projeta de forma específica, contribuindo tanto para definir como para questionar as políticas e os serviços oficiais de saúde. Pereira (2006) ressalta que a doença não é uniforme, podendo desenvolver diferentes variações de um caso para outro. Entretanto, apesar da variabilidade, as doenças decorrem seguindo alguns padrões que podem ser distribuídos em cinco categorias principais: Fonte: http://migre.me/4ffbV 34 www.eunapos.com.br Evolução aguda, rapidamente fatal. Doenças como a raiva, o tétano, meningite e exposição radioativa exemplificam este padrão de evolução de doenças, quando por muitas vezes, não há tempo hábil de intervenção clínica, ou mesmo que esta ocorra, não é eficaz. Evolução aguda clinicamente evidente e com rápida recuperação na maioria dos casos. As infecções respiratórias causadas por vírus ilustram esta evolução das doenças. Tão rápida como o aparecimento dos sintomas e o desenlace do processo patogênico – cura. Evolução sem alcançar o limiar clínico, de modo assintomático o que permite que o indivíduo não tome conhecimento do processo patológico, exceto nos casos em que realiza exames laboratoriais. Doenças como a toxoplasmose são típicas deste processo evolutivo. O indivíduo, por vezes, descobre ao acaso que já possui anticorpos para determinados agentes patogênicos (gestantes no pré-natal). Nesta mesma linha de raciocínio, podemos citar a rubéola, uma vez que pode ter sido tratada como um quadro viral típico, ou reação alérgica desconhecida, de curso rápido, sendo descoberto somente por hemograma. Evolução crônica, sintomática e apresentando evolução insatisfatória levando o doente a óbito após longo período. As doenças cardiovasculares de característica degenerativa, as doenças neuromusculares degenerativas e demais doenças classificadas como crônico degenerativas (Parkinson e Alzheimer) constituem esta parcela de evolução de doenças. Evolução crônica, oscilando entre períodos assintomáticos e intermitentes exacerbações clínicas, como as dermatites e afecções psiquiátricas. 35 www.eunapos.com.br Amarelo: Evolução aguda; Laranja: Evolução aguda clinicamente evidente e com rápida recuperação; Verde: Evolução sem alcançar o limiar clínico, de modo assintomático; Azul: Evolução crônica, sintomática e apresentando evolução insatisfatória; e Rosa: Evolução crônica, oscilando entre períodos assintomáticos e intermitentes exacerbações. Figura 6 – Padrões de evolução das doenças Fonte: Adaptado de PEREIRA (2006) Katz (2001, p.118) cita a definição Leavell e Clark de 1965, segundo os quais doença e moléstia deveriam ser encaradas como conceitos dinâmicos e não estáticos. As variações são observadas nas histórias naturais das diferentes doenças, dependendo de se “os estímulos produtores de doenças surgem no ambiente ou no próprio homem”. Ainda assim, são inúmeras as possibilidades de desfechos de doenças, co- dependentes dos demais fatores envolvidos como diagnóstico, acesso a tratamento, resposta do organismo ao tratamento proposto, dentre outros. Estes passos serão minuciosamente discutidos no decorrer deste material. Portanto, a expressão saúde-doença é um termo utilizado para denominar de modo geral, um processo social, independente do modo específico de sua capacidade de passar de um estado saudável para um estado de adoecimento. Descontextualizada, a expressão saúde-doença tramita entre vários estágios, desde um “estado completo de bem-estar físico, mental e social” (OMS) até a http://migre.me/4dMa1 36 www.eunapos.com.br doença em si, perpassando pela existência concomitante das duas condições de saúde em diferentes magnitudes (ROUQUAYROL e GOLDBAUM, 2003). Alguns autores preferem defini-lo em abordagem mais ampla, em uma expressão multivariada dos fatores causais em relação íntima com o sujeito. É importante observar que as teorias ou definições procuram englobar o perfil social e estilo de vida além da relação estreita homem– hospedeiro. Nesta linha de raciocínio, podemos mencionar o modo como Sampaio e Messias (2002) citado por Barbosa (2003) definem o processo: Fonte: http://migre.me/4g96t Processo particular de expressão das condições da vida humana em dada sociedade, representando as diferentes qualidades do processo vital e as diferentes competências dos sujeitos para enfrentar desafios, agressões, conflitos, mudanças. Tem tríplice e contraditória natureza: biológica, psicológica e social. Vamos dividir este processo denominado saúde-doença em três momentos, com características distintas e peculiares, conforme ilustrado na figura a seguir. O entendimento destes momentos permite que os objetivos de Epidemiologia sejam alcançados, conforme discutiremos ao longo do material. 37 www.eunapos.com.br Figura 7 – História natural da doença Fonte: Rouquayrol e Goldbaum (2003) O esquema clássico proposto por Rouquayrol e Goldbaum (2003) ilustra todas as inter-relações descritas acima, seguindo a linha de raciocínio de Leavell e Clark (1976). Esta esquematização gráfica demonstra a somatória entre a variável tempo de exposição e a força do estímulo patológico, assim como a somatória danosa ao organismo do tempo de permanência com a doença em si, relacionado à extensão do processo patológico. 2.3.1 Período pré-patogênico Este é o primeiro período relacionado ao processo saúde-doença (de acordo com o proposto por Leavell e Clark, 1976), também denominado Vertente Epidemiológica (ROUQUAYROL e GOLDBAUM, 2003). Neste período o indivíduo está sob influência de diferentes fatores, Rouquaryol e Goldbaum (2003, p.20) como “[...] a evolução das inter-relações dinâmicas, que envolvem, de um lado, os condicionantes sociais e ambientais e, do 38 www.eunapos.com.br outro, os fatores próprios do suscetível, até que se chegue a uma configuração confortável à instalação de uma doença”. O período pré-patogênico compreende também a descrição desta evolução. Conforme demonstrado esquematicamente na figura anterior. Quanto maior tempo o indivíduo fica exposto a determinado fator ou fatores de risco para desenvolvimento de danos à sua saúde, maiores são as possibilidades de desenvolver a doença. Esta variável tempo é potencializada pela força do estímulo patológico. É a Associação destas duas variáveis, que irá configurar desde o mínimo risco de desenvolver determinada doença, ao máximo risco. Um dos princípios básicos do raciocínio desenvolvido em epidemiologia baseia-se na constatação de que as pessoas não nascem iguais nem vivem iguais. Muitas passam as suas vidas em condições ou possuem características, atributos ou hábitos que facilitam ou dificultam a ocorrência de danos à saúde: são os fatores de risco ou de proteção (PEREIRA, 2006, p. 33). Vamos exemplificar utilizando uma patologia de contágio e evolução simples, a larva migrans cutânea, conforme descrita a seguir: A larva migrans cutânea é uma dermatite serpiginosa vulgarmente conhecida como bicho geográfico.O agravo se inicia com o contato da pele humana com areia infectada por parasitas nematóides presentes em fezes de cães e gatos infectados, pois os ovos eliminados nas fezes transformam-se em larvas. Os locais de contágio são praias, parquinhos, ruas sem asfalto ou terrenos baldios. Por esta característica, acomete mais crianças que adultos. O contágio é vinculado à prática do uso de calçados. A doença apresenta esta característica de túneis tortuosos e avermelhados na pele porque o parasita não consegue se deslocar até o intestino humano, como o faz nos animais. As lesões são geralmente acompanhadas de muita coceira. Os locais mais comumente atingidos são os pés e as nádegas. 39 www.eunapos.com.br Figura 8 – A dermatose larva migrans cutânea e sua lesão serpiginosa característica, denominando-a vulgarmente de bicho geográfico Fonte: http://www.dermatologia.net/novo/base/atlas/larva_migrans.shtml Ao analisarmos este padrão infeccioso pela ótica da vertente epidemiológica ou pré-patogênica podemos fazer algumas inferências: Há um maior risco de contágios em crianças por andarem descalços com mais frequência, ou seja, mais tempo exposto ao agente; Comunidades ribeirinhas ou nas periferias das cidades estão mais expostas ao risco pela pouca infraestrutura local, o que permite que o parasita sobreviva em areias, preferencialmente quentes e úmidas; Em locais com menor padrão de higiene e educação ambiental também aumenta o risco, pois os animais ficam soltos e evacuam nas ruas. Na região central de grandes cidades assim como regiões com padrões mais abastados não se observam comumente animais andando soltos pelas ruas e quando passeiam com seus donos, estes costumam recolher suas fezes. Diante do exposto, fica visível que quanto mais tempo o indivíduo permanecer em situações de risco e, quanto maior for a somatória de fatores de risco de desenvolver a doença a que o indivíduo estiver exposto, maior o risco de adoecimento. Mas, quando falamos em risco de adoecer, estamos considerando as pré- condições para que isto ocorra, seja individualmente ou em coletividades humanas, 40 www.eunapos.com.br e estas são tão interdependentes, que seu conjunto forma uma estrutura reconhecida como estrutura epidemiológica. De acordo com Rouquayrol e Goldbaum (2003, p. 21) Por estrutura epidemiológica, que tem funcionamento sistêmico, entende-se o conjunto formado pelos fatores vinculados ao suscetível e ao ambiente, incluindo aí o agente etiológico, conjunto este dotado de uma organização interna que define as suas interações e também é responsável pela produção de doença. É na realidade, um sistema epidemiológico. Cada vez que um dos componentes sofrer alguma alteração, este repercutirá e atingirá os demais, num processo em que o sistema busca novo equilíbrio. [...] e trará consigo uma menor ou maior incidência de doenças, modificações na variação cíclica e no seu caráter, epidêmico ou endêmico. Para o desenvolvimento de ações preventivas sobre o processo de saúde e doença em coletividade humana, é necessária uma análise crítica dos fatores envolvidos no nível pré-patogênico, ou seja, entendendo a produção de doença como parte integrante de processos sociais, ganhando força por meio das relações ambientais e ecológicas desfavoráveis. Estas ações atingem o indivíduo pela ação direta dos agentes físico, químico, biológico e psicológico que ao se depararem com o indivíduo suscetível em pré - condições genéticas ou somáticas desfavoráveis podem determinar o surgimento do quadro patológico. Estas pré-condições estão intimamente relacionadas ao sistema permeado por diversos fatores, dentre eles temos os Fatores Sociais (socioeconômico, sociopolíticos, socioculturais e psicossociais), os Fatores Ambientais, os fatores genéticos e a Multifatorialidade. Para maior compreensão, vamos discuti-los a seguir: a) Fatores sociais Segundo Rouquayrol e Goldbaum (2003, p.22), dois pontos de vista estão relacionados com as questões sociais na relação saúde-doença, sendo o primeiro considerado como uma categoria residual, onde há um conjunto de fatores “[...] que não podem ser classificados como componentes genéticos ou agressores viciosos, químicos e biológicos”. O segundo ponto de vista foi desenvolvido por epidemiologistas que consideram que na fase pré-patogênica do processo saúde- doença 41 www.eunapos.com.br [...] o ‘social’ já não é apresentado como uma variável ao lado dos outros fatores causais da doença, mas como um campo onde a doença adquire um significado específico. O social não é mais expresso sob a forma de um indicador de consumo (quantidade de renda, nível de instrução, etc.). Ele aparece agora sob a forma de relações sociais de produção responsáveis pela posição de segmento da população na estrutura social”. De qualquer forma, precisamos entender os fatores sociais considerados como influentes no processo desencadeador de adoecimentos: - Fatores socioeconômicos: São os fatores relacionados à capacidade econômica e probabilidade de adquirir doença. Existe uma associação inversa entre a capacidade econômica do indivíduo e sua probabilidade em adquirir doenças. Segundo Rouquayrol e Goldbaum (2003), desde o século XVII, os médicos e filósofos da época já consideravam que grupos sociais menos favorecidos apresentavam maiores índices de morbidade e mortalidade. Os grupos mais abastados, desde então, continuam estando menos expostos à ação dos fatores ambientais que facilitam a ocorrência de determinados agravos. Fonte: http://migre.me/4g8Ge Rouquayrol e Goldbaum (2003) citam as considerações de Renaud (1992) sobre os ‘pobres’, dizendo que estes são percebidos como mais doentes e mais velhos, são duas ou três vezes mais propensos a enfermidades graves, morrem mais jovens, geram crianças de baixo peso em maior proporção e têm sua taxa de mortalidade infantil mais elevada. A desnutrição é uma das patologias que podemos utilizar para exemplificar a influência de fatores socioeconômicos sobre a determinação de quadros patológicos. O trecho a seguir é parte do estudo intitulado ‘Desnutrição: um desafio secular à nutrição infantil’, desenvolvido por Monte (2000, p. 285) e exemplifica a transição nutricional no Brasil e a inter-relação com o fator socioeconômico: 42 www.eunapos.com.br No Brasil, como na maioria dos demais países em desenvolvimento, como resultado dos ganhos econômicos extraordinários e grande expansão de serviços e programas de saúde, a situação nutricional dos menores de 5 anos melhorou nos últimos anos. Entre 1975 e 1989, a prevalência da desnutrição foi reduzida em cerca de 60%, representando mais de 1 milhão de crianças. No entanto, o fato de que a forma atual mais comum de desnutrição infantil é a crônica, expressa principalmente pelo déficit de altura por idade, e a existência atual de um percentual, embora não muito alto, de crianças desnutridas graves, ao lado da sua concentração nas regiões mais pobres do País, as regiões Norte e Nordeste, indicam que o problema não está de todo controlado. É reconhecido que a existência de casos de desnutrição grave, mesmo que em pequeno número, representa o topo de um iceberg. Para cada caso grave há muitos outros que são menos graves, às vezes sem sinais clínicos típicos de desnutrição. A desnutrição moderada e leve muitas vezes se expressa apenas em termos de falha de crescimento. Fonte: http://migre.me/4g8Lw Neste texto, além da comparação entre as regiões do Brasil e sua condição socioeconômica existe a comparação entre os países subdesenvolvidos, em desenvolvimento e desenvolvidos. O foco não é apenas relacionado às posses do indivíduo em si, mas a somatória da sua situação e a do seu entorno perpassando o déficitdesde a capacitação dos profissionais da saúde para lidar com terapias atualizadas e eficazes por vezes com condutas simples de terapêutica e educação em saúde, até a falta de recursos como fator limitante, nos casos em que existe um conhecimento adequado. 43 www.eunapos.com.br Ao considerarmos o homem um ser ‘biopsicossocial’ não podemos ignorar que o conceito de classe social está atrelado ao econômico, jurídico-político e ideológico. É simplista a ideia de melhorar os indicadores de saúde infantil com o desenvolvimento de programas de incentivo à escolaridade, por exemplo, sem a estimulação de mudanças mais profundas (ROUQUAYROL e GOLDBAUM, 2003). - Fatores sociopolíticos Assim como os fatores socioeconômicos, os fatores políticos são indissociáveis do contexto no qual está inserido. Abaixo estão listados alguns dos fatores políticos que devem ser considerados em análise das condições de pré- patogênese no nível social (ROUQUAYROL e GOLDBAUM, 2003): Instrumentalização jurídico-legal; Decisão política; Higidez política; Participação comunitária efetivamente exercida; Participação consentida e valorização da cidadania; Transparência das ações e acesso à informação. - Fatores socioculturais Dentro do contexto social, devemos considerar os preconceitos e hábitos culturais e as crendices. Minayo descreve a interferência dos valores religiosos na desenvoltura do processo saúde-doença, independente da religião em questão, sendo que esta é uma questão sócio-histórica: A característica fundamental da visão religiosa da saúde-doença (ou melhor, da vida) é a relação intrínseca entre a fé e a graça. Pede-se a Deus, aos santos, aos orixás, exus, e aos espíritos de luz, a cura de todos os males. A relação religiosa está referenciada nas dificuldades do cotidiano e visa a prática, o resultado concreto: ela traz para perto o milagre e o torna parte do cotidiano, como solução, às vezes única, para as agruras do dia a dia (MINAYO, 1988, p.378). 44 www.eunapos.com.br Outros fatores são atribuídos às questões socioculturais, dentre eles os comportamentos e valores da população, valendo como fatores facilitadores ou não no processo de difusão e manutenção de doenças: Conceitos culturalmente transmitidos acerca de padrões de higiene, hábitos de vida, autotratamento são exemplos típicos. Os autores ressaltam o hábito de evacuar diretamente no solo ou próximo a mananciais, como costumes de moradores de zonas rurais, o que dissemina a esquistossomose (ROUQUAYROL e GOLDBAUM, 2003). Fonte: http://migre.me/4g9fU Outros fatores comportamentais estão mais relacionados às questões de natureza cultural/social/econômica/política. Dentre eles destaca-se a transferência de responsabilidade para a pessoa política acerca de suas próprias responsabilidades sociais; Participação passiva como beneficiário do estado (paternalismo); Desorganização; Passividade diante do poder exercido com incompetência ou má-fé; Alienação em relação aos direitos e deveres da cidadania; Incapacidade de se organizar para reivindicar, características de povos de países menos desenvolvidos, reforçado pela cultura política de privilégio de poucos às custas do prejuízo de muitos. - Fatores Psicossociais Alguns fatores têm influência direta sobre o psiquismo, com consequências somáticas e mentais de grandes magnitudes. Dentre eles encontra-se: [...] marginalidade, ausência de relações parentais estáveis, a desconexão em relação à cultura de origem, à falta de apoio no contexto social em que se vive, às condições de trabalho estressantes, promiscuidade, transtornos econômicos, sociais e pessoais, falta de cuidados maternos na infância, carência afetiva de modo geral, desemprego, etc. (ROUQUAYROL e GOLDBAUM, 2003, p. 25). 45 www.eunapos.com.br b) Fatores Ambientais Inicialmente, para melhor compreensão do contexto, vamos definir epidemiologicamente o conceito de ambiente como “o conjunto de todos os fatores que mantêm relações interativas com o agente etiológico e o suscetível, incluindo-os sem se confundir com os mesmos” (ROUQUAYROL e GOLDBAUM, 2003, p. 25). Diferente do ponto de vista da ecologia, o ambiente em estudos epidemiológicos tem uma maior abrangência de sentidos, pois além do ambiente físico, que torna possível a vida abrangendo todos os seres vivos, inclui também a sociedade que o rodeia onde ocorrem as interações sociais, políticas, econômicas e culturais. A situação geográfica, o solo, o clima, os recursos hídricos, a topografia, os agentes químicos e físicos formam os grupos de componentes do ambiente físico. Mais adiante, discutiremos aprofundadamente como cada um deles interfere na determinação de doenças. Fonte: http://migre.me/4g9kW Neste ambiente, alguns agentes são considerados agressores ambientais, ou seja, capazes de entrar em contato direto com o indivíduo de forma imediata, sem mais intermediações. Estes agentes agressores ambientais podem ser distribuídos nas seguintes categorias: agente habitualmente presente no meio, em convivência natural com o homem; agente pouco comum e que por mudanças de hábito, manipulação inadequada de recursos ou por importação passam a fazer parte do meio, característicos em alguns eventos epidemiológicos; agentes que explodem em situações anormais como as grandes alterações ecológicas, desastres naturais e catástrofes. 46 www.eunapos.com.br c) Fatores Genéticos Determinam a maior ou menor suscetibilidade das pessoas em relação à incidência das doenças. Explica, por exemplo, por que pessoas diferentes expostas ao mesmo risco podem ou não desenvolver a doença. Fonte: http://migre.me/4g9om d) Multifatorialidade Ao considerarmos as condições já descritas para desenvolvimento de um processo patogênico, deve-se ter clara a impossibilidade de ação única de apenas um deles. O surgimento da doença então dependerá da variação na estruturação dos fatores contribuintes, havendo situações de mínimo risco ou mínima probabilidade até o ponto oposto de máximo risco ou máxima probabilidade. Desta maneira, podemos dizer que quanto mais estruturados forem os fatores envolvidos no processo de desencadeamento da doença, mais forte será o estímulo patológico. A esta estruturação de fatores dá-se o nome de multifatorialidade. Mas, esta multifatorialidade não é apenas uma justaposição de fatores e sim um sinergismo, uma ação conjunta onde um fator potencializa a ação do outro, com o desenvolvimento da doença mais forte do que uma simples soma de fatores. O agregado total resultante da estruturação sinérgica de todas as condições e influências indiretas – próximas ou distantes – 47 www.eunapos.com.br socioeconômicas, culturais e ecológicas, e pelos agentes que têm acesso direto ao bioquimismo e às funções vitais do ser vivo, perturbando-o, constituem o ambiente gerador de doença. (ROUQUAYROL e GOLDBAUM, 2003). O estudo da diarreia foi utilizado para ilustrar a estruturação sinérgica dos fatores que desencadeiam a doença e a mantêm. Figura 9 - Sinergismo multifatorial na produção e manutenção das doenças diarréicas Fonte: Rouquayrol e Goldbaum, 2003 2.3.2 Período patogênico Este segundo momento, também é chamado Vertente patológica. Em uma variação do raciocínio desenvolvido por Rouquayrol e Goldbaum (2003), Pereira (2006) subdivide este período em 2 etapas: fase pré-clínica e fase clínica. Fase pré-clínica: 48 www.eunapos.com.br Na fase pré-clínica o curso da doença pode ser considerada subclínica (abaixo do limiar clínico ou horizonte clínico) e evoluir para cura ou evoluir para a fase clínica. Um exemplo presente no dia a dia dos profissionais da saúde é a detecção ocasional da hipertensão arterial assintomática. Há umamaior probabilidade de sucesso no tratamento de doenças quando é realizado um efetivo diagnóstico precoce, justificando a efetuação de exames seletivos em grupos populacionais de risco (exemplo: mamografia em mulheres acima de 40 anos; preventivo de câncer de próstata em homens acima de 40 anos). A fase pré clinica compreende o período ‘interação estímulo-suscetível’ e o período de ‘alterações bioquímicas, fisiológicas e histopatológicas’. Em ambos os casos, há ausência de sintomatologia, apesar das alterações patológicas existentes. No período interação estímulo-suscetível, todos os fatores necessários para o desenvolvimento da doença estão presentes, porém a doença ainda não ganhou maiores proporções. As questões de homeostasia orgânica, incluindo fatores humorais (imunológico), nutricionais, genéticos são decisivas para o surgimento de algumas doenças devido ao fator cumulativo dos fatores adversos presentes. (ROUQUAYROL e GOLDBAUM, 2003). Quando a referência é sobre alterações bioquímicas, fisiológicas e histopatológicas, ainda no período pré-clínico, considera-se que a doença já está instalada no organismo. Apesar de não haver percepção clínica, exames laboratoriais orientados são capazes de revelar este processo patogênico não perceptível. Denomina-se horizonte clínico ou limiar clínico, a linha imaginária que separa a fase pré-clínica da clínica. Fase clínica: Nesta fase, a doença é exteriorizada clinicamente, variando conforme “a natureza do agravo, as características do indivíduo, as condições de observação, a capacidade do observador, a tecnologia empregada e o esmero com que é utilizada” (PEREIRA, 2006). 49 www.eunapos.com.br A doença pode apresentar nesta fase diferentes graus de acometimento, desde manifestações leves, de mediana intensidade ou até mesmo graves. O padrão de evolução das doenças também pode ser variável, indo de uma condição aguda a uma cronicidade do quadro patogênico. O período clínico é dividido em uma fase chamada sinais e sintomas e outra denominada cronicidade. A fase de sinais e sintomas traz de forma nítida a doença. Esta se inicia quando se atinge uma massa crítica de alterações funcionais no organismo do indivíduo acometido. A partir de então, “[...] a evolução da doença encaminha-se então para um desenlace; a doença pode passar ao período de cura, evoluir para a cronicidade ou evoluir para a invalidez ou para a morte.” (ROUQUAYROL e GOLDBAUM, 2003, p. 29). Fazendo uma correlação com o fenômeno de iceberg proposto pela OMS, uma grande parte da população pode ser afetada por um agravo, porém, não reconhecê-lo como doença, pois este fica na base no iceberg, chamado neste momento de período pré-clínico. Por vezes, doenças menos prevalentes, mas com sintomatologia mais agressiva, despontam no iceberg, com suas características clinicamente evidentes. Fonte: http://migre.me/4g9we A cronicidade pode ser desencadeada com a progressão da doença, até mesmo produzir lesões que permitam novos agravos à saúde. De um estado crônico podem surgir variados quadros de desenlace do processo saúde-doença. “Todo fenômeno patológico deriva de seu aumento, sua diminuição ou de sua alteração e todo fenômeno terapêutico tem por princípio seu retorno ao tipo natural de onde elas escaparam” (BONETTI, 2004, p.1) 50 www.eunapos.com.br 2.3.3 Desenlace Portanto, o final do processo culmina com situações caracterizadas por uma incapacidade funcional específica temporária, onde pode haver uma evolução para morte ou um estado de invalidez permanente, onde há uma estabilização da doença, há estabilidade das alterações anátomo-funcionais como resultado do tratamento ou do próprio curso natural da doença, deixando sequelas. Quando há a remoção dos fatores causais, o organismo passa por um período de convalescência e de acordo com a regressão do processo patológico, é possível alcançar a cura, em patamares considerados saudáveis. Após identificarmos as variações entre os diferentes períodos do processo saúde-doença, ou seja, a História Natural da Doença, devemos refletir sobre o pensamento de Leavell e Clark (1976), citado por Barbosa (2003, p.668): A História natural da doença compreende as inter-relações do agente, do suscetível e do meio ambiente que afetam o processo global e seu desenvolvimento, desde as primeiras forças que criam o estímulo patológico no meio ambiente, ou em qualquer outro lugar passando pela resposta do homem ao estímulo, até as alterações levam a um defeito, invalidez, recuperação ou morte. Exercício 5 Em relação ao processo saúde doença, assinale a alternativa INCORRETA: a) Na epidemiologia, os processos de doença são divididos em doenças infecciosas e não infecciosas e agravos à integridade física. b) Apesar de sermos diferentes, os processos de adoecimento típicos de determinado agente apresentam comportamentos semelhantes. c) A vertente epidemiológica caracteriza o contato do indivíduo com o estímulo e a maneira como seu organismo altera sua fisiologia para combatê-lo. d) Os fatores ambientais, sociais e genéticos interagem aumentando ou diminuindo o risco de desenvolvimento de uma patologia. 51 www.eunapos.com.br e) Quando o indivíduo tem seu quadro patológico de caráter crônico, os desfechos podem ser diferentes, desde a cura com remissão dos sintomas até invalidez e morte. 2.4 Estudo dos determinantes sociais da saúde Conceito atualmente bastante generalizado de que as condições de vida e trabalho dos indivíduos e de grupos da população estão relacionadas com sua situação de saúde. De acordo com a Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais da Saúde (CNDSS), os determinantes sociais de saúde (DSS) são os fatores sociais, econômicos, culturais, étnicos/raciais, psicológicos e comportamentais que influenciam a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco na população. A comissão da Organização Mundial da Saúde (OMS) adota uma definição mais curta, segundo a qual os DSS são as condições sociais em que as pessoas vivem e trabalham (CNDSS, 2008). Em 2005, a Organização Mundial em Saúde criou a Comissão sobre Determinantes Sociais da Saúde (Commission on Social Determinants of Health - CSDH), com a proposta de “promover, em âmbito internacional, uma tomada de consciência sobre a importância dos determinantes sociais na situação de saúde de indivíduos e populações e sobre a necessidade do combate às iniquidades em saúde por eles geradas”. Em 2006, surge, por meio de decreto presidencial, a Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais da Saúde (CNDSS, 2008, p.10). Diversos modelos procuram explicar as relações entre os vários níveis de determinantes sociais e a situação de saúde. Entre estes, o modelo de Dahlgren e Whitehead (1991) adotado pela CNDSS, pretende explicar com maiores detalhes as relações e mediações entre os diversos níveis de forma simplificada, de fácil e pela clara visualização gráfica dos diversos DSS. O modelo de Dahlgren e Whitehead dispõe os DSS em camadas, conforme seu nível de abrangência, desde uma camada mais próxima aos determinantes individuais até uma camada distal onde se situam os macrodeterminantes (CNDSS, 2008). 52 www.eunapos.com.br Figura 10 - Modelo de determinação social da saúde segundo Dahlgren e Whitehead Fonte: CNDSS, 2008 O primeiro nível deste esquema, os indivíduos estão no centro, com suas características individuais de idade, sexo e fatores genéticos que, evidentemente, exercem influência sobre seu potencial e suas condições de saúde relacionadas aos fatores comportamentais e de estilos de vida indica que estes estão fortemente influenciados pelos DSS, pois é muito difícil mudar comportamentos de risco sem mudar as normas culturais que os influenciam. Para atuar nesse nível sãonecessárias políticas de abrangência populacional que promovam mudanças de comportamento, através de programas educativos, comunicação social, acesso facilitado a alimentos saudáveis, criação de espaços públicos para a prática de exercícios físicos, etc. O segundo nível corresponde às comunidades e suas redes de relações. Os laços de coesão social e as relações de solidariedade e confiança entre pessoas e grupos são fundamentais para a promoção e proteção da saúde individual e coletiva. Fonte: http://migre.me/4g946 53 www.eunapos.com.br Aqui se incluem políticas que busquem estabelecer redes de apoio e fortalecer a organização e participação das pessoas e das comunidades, especialmente dos grupos vulneráveis. O terceiro nível se refere à atuação das políticas sobre as condições materiais e psicossociais nas quais as pessoas vivem e trabalham, buscando assegurar melhor acesso à água limpa, esgoto, habitação adequada, alimentos saudáveis e nutritivos, emprego seguro e realizador, ambientes de trabalho saudáveis, serviços de saúde e de educação de qualidade e outros. O quarto nível de atuação se refere à atuação ao nível dos macro determinantes, através de políticas macroeconômicas e de mercado de trabalho, de proteção ambiental e de promoção de uma cultura de paz e solidariedade que visem a promover um desenvolvimento sustentável, reduzindo a desigualdade social e econômica, a violência, a degradação ambiental e seus efeitos sobre a sociedade (CNDSS, 2006; BUSS e PELLEGRINI FILHO, 2007). 2.4.1 Fatores determinantes da doença A partir de agora, vamos dividir os fatores em endógenos e exógenos, em uma abordagem mais minuciosa sobre a ação destes fatores como determinantes de saúde na população (ROUQUAYROL e GOLDBAUM, 2003): a) Endógenos: Fatores determinantes que são inerentes ao organismo e estabelecem a receptividade do indivíduo. • Herança genética: Determinam maior ou menor suscetibilidade das pessoas em adquirir doenças. • Anatomia e fisiologia do organismo humano. • Estilo de vida. Fonte: http://genetica.no.sapo.pt/ b) Exógenos: Fatores determinantes que dizem respeito ao ambiente. • Ambiente biológico: determinantes biológicos. 54 www.eunapos.com.br - Acidentes, - Infecções (Microbiologia e Entomologia médicas - inseto parasita hospedeiro) Fonte: http://migre.me/4grzL • Ambiente físico: determinantes físico-químicos. - Naturais: Previsíveis: pode ser de certa maneira previsto, permitindo estimar as possíveis consequências e, desta forma, adotar medidas que possibilitem reduzir seus efeitos. Atmosfera: Clima. Hidrosfera e litosfera: Carência de elementos essenciais ou presença de agentes indesejados. Imprevisíveis: Acidentes naturais. Desastres ou calamidades naturais. Mortalidade Morbidade (epidemias ou doenças infecciosas) Desabilidades psicológicas Fonte: http://migre.me/4fWpy - Acidentais: Ambiente natural: “Efeito estufa”, “buraco na camada de ozônio”. Ambiente antrópico: Impacto de tecnologias sofisticadas que, fora de controle, atingem o próprio ambiente antrópico (energia nuclear, acidentes com produtos químicos perigosos). Fonte: http://migre.me/4feZK 55 www.eunapos.com.br - Produzidos: Poluição consequente (desenvolvimento industrial): Gases e partículas na atmosfera, substâncias químicas no meio hídrico e resíduos sólidos no meio terrestre. Poluição pressentida (consecução de certa finalidade): Defensivos agrícolas, medicamentos, agentes tóxicos e nocivos usados em conflitos armados. • Ambiente social: determinantes sócioculturais. A aquisição de conhecimentos sobre os determinantes sociais parte do estudo da desigualdade social, tida como geradora de agravos à saúde, traduzidos em morbidade e mortalidade. Dentre as categorias gerais desses determinantes temos as comportamentais e as organizacionais, conforme descrito a seguir: - Comportamentais Psicossociais: Relacionados à personalidade do indivíduo. Hábitos e estilos de vida: sexualidade, étnicos (relacionados à cultura), adquiridos. - Organizacionais Estruturais - Ocupação - Família - Nível socioeconômico Evolutivos: Relacionados ao Desenvolvimento - Intrassociais: convivência (mobilidade social); produção e desenvolvimento (apropriação dos recursos sociais); e competição. - Interssociais: agressões ao meio ambiente, migrações populacionais, intercâmbio social e conflitos. Fonte: http://migre.me/4fXgG Fonte: http://migre.me/4fXlQ 56 www.eunapos.com.br 2.5 Prevenção das doenças e promoção da saúde A partir da perspectiva da história natural das doenças, Leavell e Clark (1976, apud WESTPHAL, 2006) prepuseram medidas de intervenção nos diferentes estágios da doença, considerando diferentes ações para os períodos de pré- patogênese, período de patogênese e o período de reabilitação (Figura 10). Figura 11 – História natural e os níveis de prevenção de doenças Fonte: Leavell e Clark (1976, apud WESTPHAL, 2006) De acordo com Rouquayrol e Goldbaum (2003, p.29): Saúde pública e epidemiologia são indissociáveis quanto a seus objetivos sociais e quanto à sua prática, sendo a epidemiologia o instrumento privilegiado para orientar a atuação da saúde pública. Se a saúde pública é a face tecnológica, a epidemiologia será a face científica. A saúde pública intervém buscando evitar doenças, 57 www.eunapos.com.br prolongar a vida e desenvolver a saúde física e mental e a eficiência. A epidemiologia persegue a observação exata, a interpretação correta, explicação racional e a sistematização científica dos eventos de saúde-doença em nível coletivo, orientando, portanto, as ações de intervenção. Não podemos deixar de ressaltar que estamos nos referindo à prevenção em saúde coletiva, pois a epidemiologia é “[...] ciência que estabelece ou indica e avalia os métodos e processos usados pela saúde pública para prevenir as doenças” (ROUQUAYROL e GOLDBAUM, 2003, p. 29). Entender a origem da palavra é fundamental. Devemos compreender que prevenir é antecipar-se a um evento, ou mesmo evitá-lo. Rouquayrol e Goldbaum (2003) descrevem que prevenção em saúde pública é a ação antecipada, tendo por objetivo interceptar ou anular a evolução de uma doença. Fonte: http://migre.me/4gsph O uso da saúde pública como tecnologia abrange conhecimentos da medicina preventiva, com intuito de evitar doenças, prolongar a vida e desenvolver a saúde física e mental e a eficiência. Este padrão de prevenção não deve ser instituído apenas em atenção coletiva, mas deve abranger o componente preventivo da medicina individualizada. Rouquayrol e Goldbaum (2003) completam o entendimento da promoção da saúde visando uma sociedade sadia, ressaltando que esta não depende apenas da ação dos especialistas, pois a ação preventiva no âmbito coletivo deve começar ao nível das estruturas socioeconômicas, ao nível das estruturas políticas e econômicas ou as ações dos especialistas não terão efetividade prática. Este ponto de vista justifica a utilização da educação em saúde promovida pelo profissional de saúde, pois a prevenção só acontece efetivamente a partir da conscientização da comunidade envolvida, procurando sensibilizá-los para mudanças. Cabe a todos o questionamento sobre a verdadeira ação das instituições 58 www.eunapos.com.br sociais e econômicas, pois estas podem estimular desenvolvimento dos mecanismos de saúde ou de doença. Além das ações de prevenção desenvolvidas através da minimização dos efeitos da pobreza e ignorância, que é dever de todos, cabe, ao nível da prática de saúde pública, a interpretação de ações preventivas que agem na descontinuidade da cadeia patogênica, ou no ambiente físico ou social ou no meio internodos seres vivos afetados ou suscetíveis. Fonte: http://migre.me/4grZI Contudo, apesar de termos realizado referências generalizadas, existe diferença entre prevenção e promoção. De acordo com Westphal (2006), a promoção de saúde é uma ação de prevenção primária, acabando por se confundir com a prevenção ao nível da proteção específica. A prevenção secundária e a terciária visam minimizar os fatores de risco relacionados aos agentes patogênicos e ao ambiente. Com propostas voltadas para a adoção de medidas educativas e fiscalização para que sejam realizadas ações adequadas, assim como seu reforço, no que se refere ao enfrentamento de doenças. Mas, nem sempre as atividades em saúde pública eram executadas ou mesmo pensadas pelos governantes e profissionais da saúde. Historicamente, a promoção de saúde pode ser considerada recente. Abaixo, segue o desenvolvimento cronológico da promoção de saúde no mundo e no Brasil. 59 www.eunapos.com.br Quadro 3 - Promoção da Saúde no Mundo: uma breve cronologia. 1974 – Informe Lalonde: Uma Nova Perspectiva sobre a Saúde dos Canadenses 1976 – Prevenção e Saúde: Interesse para Todos, DHSS (Grã-Bretanha) 1977 – Saúde para todos no ano 2000 – 30ª Assembleia Mundial de Saúde 1978 – Conferência Internacional sobre Atenção Primária de Saúde – Declaração de Alma-Ata 1979 – População Saudável (EUA) 1980 – Relatório Black sobre as Desigualdades em Saúde (Grã-Bretanha) 1984 – Toronto Saudável 2000 – Campanha lançada no Canadá 1985 – Escritório Europeu da Organização Mundial da Saúde: 38 Metas para a Saúde na Região Europeia 1986 – Alcançando Saúde para todos: Marco de Referência para a Promoção da Saúde. Carta de Ottawa sobre Promoção da Saúde – I Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde (Canadá) 1987 – Lançamento pela OMS do Projeto Cidades Saudáveis 1988 – Declaração de Adelaide sobre Políticas Públicas Saudáveis – II Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde (Austrália) 1989 – Uma Chamada para a Ação – Documento da OMS sobre promoção da saúde em países em desenvolvimento 1990 – Cúpula Mundial das Nações Unidas sobre a Criança (Nova York) 1991 – Declaração de Sundsvall sobre Ambientes Favoráveis à Saúde – III Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde (Suécia) 1992 – Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio 92) Declaração de Santa Fé de Bogotá – Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde na Região das Américas (Colômbia) 1993 – Carta do Caribe para a Promoção da Saúde – I Conferência de Promoção da Saúde do Caribe (Trinidad e Tobago) 1994 – Conferência das Nações Unidas sobre População e Desenvolvimento (Cairo) 1995 – Conferência das Nações Unidas sobre a Mulher (Pequim) Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Social (Copenhague) 1996 – Conferência das Nações Unidas sobre Assentamentos Humanos (Istambul) Cúpula Mundial das Nações Unidas sobre Alimentação (Roma) 1997 – Declaração de Jacarta sobre Promoção da Saúde no Século XXI em diante – IV Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde (Indonésia) Fonte: Buss, 1998 60 www.eunapos.com.br Quadro 4 – Breve cronologia da Promoção da Saúde no Brasil Década de 1970 • Críticas ao modelo assistencial vigente, centrado na assistência médico-hospitalar. Medicina social. Ciências sociais em saúde • Tese O Dilema Preventivista, de Sérgio Arouca • Surgimento dos primeiros projetos de atenção primária/medicina comunitária (Montes Claros/MG, Sapucaia/RJ e Niterói/RJ) • Surgimento do “movimento sanitário” • Conferência Internacional sobre Atenção Primária e Declaração de Alma-Ata Década de 1980 • Movimento de redemocratização do país • Protagonismo político do “movimento sanitário” • Preparação da VIII Conferência Nacional de Saúde, com ampla participação social (1985) • VIII Conferência Nacional de Saúde, com afirmação de princípios da promoção da saúde (sem este rótulo): determinação social e intersetorialidade. No Canadá, aparece a Carta de Ottawa (1986) • Processo constituinte, com grande participação do “movimento sanitário” (1986-1988) • Constituição Federal, com características de promoção da saúde (1988) Década de 1990 • Lei Orgânica da Saúde, reafirmando os princípios promocionais da Constituição (1990) • Organização dos Conselhos de Saúde em todos os níveis: participação social, composição paritária, representação intersetorial (1991) • RIO 92, Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1992) • Plano Nacional de Saúde e Ambiente: elaborado, não sai do papel (1995) • (a partir de 1995) PACS e PSF; NOB 96 (Piso Assistencial Básico); Pesquisa Nacional de Opinião sobre Saúde; Debates sobre Municípios Saudáveis • Surgimento da revista Promoção da Saúde (Ministério da Saúde) e anúncio do I Fórum Nacional sobre Promoção da Saúde (1999) Fonte: Buss PM (2000) Adaptando os conceitos de Rouquayrol e Goldbaum (2003) e de Westphal (2006), apresentamos a seguir a distribuição das ações em cada uma das fases de prevenção. 61 www.eunapos.com.br a) Prevenção Primária Promoção da Saúde: feita através de medidas de ordem geral. Moradia adequada com comportamentos higiênicos relacionados à própria habitação como em seu entorno. Escolas, para além da formação básica, desenvolver reflexão e senso crítico. Áreas de lazer, prática de exercícios físicos e respeito ao repouso com medidas de contenção de estresse. Alimentação adequada, estimulando o hábito alimentar saudável. Educação em todos os níveis, melhorando a resistência e o bem-estar geral dos indivíduos (Estratégias para prevenir a exposição ao fator de risco: não utilização de drogas e de tabaco, ingestão de gorduras). Proteção Específica Imunização. Saúde ocupacional. Higiene pessoal e do lar Proteção contra acidentes. Aconselhamento genético. Controle dos vetores. O uso de preservativos em atos sexuais também é uma ação de proteção específica contra doenças sexualmente transmissíveis. b) Prevenção Secundária Diagnóstico Precoce: Utilizado em indivíduos sadios, porém potencialmente em risco, ou ainda na identificação de doentes assintomáticos. Inquérito para descoberta de casos na comunidade. Exames periódicos, individuais, para detecção precoce de casos (câncer de colo uterino, câncer de mama, câncer de próstata, exame de escarro para tuberculose e outros.) 62 www.eunapos.com.br Isolamento para evitar a propagação de doenças. Tratamento para evitar a progressão da doença, assim como mudanças. Limitação da Incapacidade: Nos casos em que a cura não é viável, garantir que o indivíduo permaneça funcionalmente ativo, evitando futuras complicações e morte prematura. Evitar sequelas. c) Prevenção Terciária: Focada nos indivíduos com sequelas oriundas de acidentes ou doenças e buscam sua recuperação ou sua manutenção do equilíbrio funcional Reabilitação (impedir a incapacidade total). Fisioterapia. Terapia ocupacional. Saúde mental Emprego para o reabilitado. Fonte: http://migre.me/4gsHN Após discorrermos sobre as áreas em que é possível desenvolver prevenção, fica um questionamento: por que as atividades propostas não são capazes de exercerem suas funções preventivas? Para Rouquayrol e Goldbaum (2003, p.32), [...] em alguns países subdesenvolvidos, as condições socioeconômicas aí vigentes, mantidas por uma perversa concentração de renda, pela má distribuição da propriedade fundiária e pela falta de visão dos detentores do poder econômico e político, fazem com que as classes pauperizadas sejam incapazes de se prover em termos de alimentação, moradia, educação, saúde e lazer. O cidadão pauperizado torna-se cliente e dependente do Estado e este, por não ser competentenaquilo que lhe é específico, torna-se paternalista. Este Estado, paternalista por incompetência, torna-se caritativo, distribuidor de alimentos, de habitação e de medicamentos e, mais uma vez, com incompetência. À sociedade cabe a prevenção ao nível das estruturas. Às organizações políticas, às organizações 63 www.eunapos.com.br civis não estatais cabe a ação preventiva mais abrangente de remover estruturas arcaicas impeditivas de se promover a saúde em todos os níveis. Exercício 6 Relacionado aos determinantes sociais de saúde e à promoção e prevenção, é correto afirmar que: a) Promoção de saúde contribui para prevenir várias doenças e para a manutenção do bem-estar por meio de alterações medicamentosas e terapêutica específica. b) Na prevenção primária procura-se diminuir as alterações anátomo-fisológicas presentes, prevenindo que estas causem danos. c) A proteção específica visa minimizar a força de agentes desencadeadores de agravos à saúde, com ações próprias para este agente agressor. d) Podemos mudar comportamentos de risco de uma população sem modificar suas influências culturais, apenas explicando os conceitos considerados corretos pela equipe de saúde e) Na prevenção terciária podemos tomar medidas específicas de prevenção, como por exemplo a fluoretação da água de uma comunidade (combate às cáries dentárias) e o acréscimo de iodo no sal (combate ao bócio). 64 www.eunapos.com.br UNIDADE 3 - ESTUDOS EPIDEMIOLÓGICOS Neste momento, devemos pensar em tudo o que estudamos e respondermos a pergunta: Quais as atuações do epidemiologista? Para respondermos a esta pergunta é necessário compreender qual o objeto de estudo do epidemiologista e quais mecanismos são utilizados por ele, ou seja, suas ferramentas. O objeto da epidemiologia é identificar os riscos e seus determinantes, uma vez que a premissa básica do ato de intervir é a de conhecer a situação. Entretanto, para conhecermos a situação precisamos identificar os determinantes do processo saúde-doença, a prevalência e a incidência dos diferentes agravos que acometem a população. Os indicadores de saúde são usados com esse propósito assim como o de estabelecer valor prognóstico. O risco em epidemiologia equivale a efeito, é a probabilidade de ocorrência de patologia em uma dada população, expresso pela incidência (MEDRONHO, 2009). O autor completa com as seguintes formas de apresentação do conceito: Perigo potencial, latente, ou oculto no discurso social comum; ‘Risco individual’ como conceito de clínica; ‘Risco populacional’ como conceito epidemiológico; ‘Risco estrutural’ nos campos da saúde ambiental/ocupacional. Outros autores conceituam risco como a probabilidade de ocorrência de uma doença, agravo, óbito ou condição relacionada à saúde (incluindo cura, recuperação ou melhora) em população ou grupo durante um período de tempo determinado (ROUQUAYROL e ALMEIDA FILHO, 2003). Fonte: http://migre.me/4gQcj 65 www.eunapos.com.br O risco também pode ser considerado como um conceito matemático de probabilidade. Grandes filósofos já descreveram que o risco é inerente à vida, ao movimento, e à possibilidade de escolha. Viver é correr risco e por isso a incerteza é um componente essencial da existência e igualmente do conceito de risco (ROUQUAYROL e ALMEIDA FILHO, 2003). Os fatores que se associam ao aumento do risco de se contrair uma doença são chamados fatores de risco. Fonte: http://migre.me/4gPx6 O fator de risco é pertinente a uma parcela da população que apresenta maior incidência de uma doença ou agravo à saúde, quando comparados com outros grupos definidos pela ausência ou menor exposição ao agente agressor. Deste modo, o fator de risco de um dano apresenta as características ou circunstâncias que acompanham um aumento de probabilidade de ocorrência do fator indesejado, sem que este fator intervenha necessariamente em sua causalidade. (CLAP- OPS/OMS,1988 apud ROUQUAYROL e ALMEIDA-FILHO, 2003) Portanto, nem todos os indivíduos têm o mesmo risco, por exemplo, as pessoas que vivem perigosamente possuem maior probabilidade de morrerem mais cedo (PEREIRA, 2006). Em outro extremo, está o fator de proteção sendo considerado o atributo de um grupo com menor incidência de um determinado distúrbio em relação a outros grupos (ausência ou baixa dosagem). Fonte: http://migre.me/4gPBf 66 www.eunapos.com.br Cabe ao epidemiologista a investigação dos fatores determinantes dos agravos, do mecanismo de ação destes agravos na população, caracterizar esta população o mais minuciosamente possível e procurar explicar suas características. Medronho (2009, p.173) atribui à pesquisa epidemiológica os objetivos de: Descrever frequência, distribuição, padrão e tendência temporal de eventos ligados à saúde em populações específicas e sub populações; explicar a ocorrência de doença e a distribuição de indicadores de saúde, identificando causas e os determinantes da sua distribuição, tendência e modo de distribuição nas populações; predizer a frequência de doenças e os padrões de saúde em populações específicas; controlar a ocorrência de doenças [...] através da prevenção de novos casos, cura de casos existentes, aumento da sobrevida e melhoria da saúde. Existem duas razões para o uso de populações em estudos epidemiológicos. A primeira é que o objetivo final da epidemiologia é melhorar o perfil de saúde das populações, a segunda razão é do ponto de vista metodológico, pois as populações são necessárias para se fazer inferências sobre a relação entre determinantes de fatores e a ocorrência de agravos. 3.1 Pesquisa epidemiológica A pesquisa epidemiológica tem caráter empírico, pois é baseada na sistemática observação, coleta de dados (ou informações) e quantificação sobre os eventos que ocorrem em uma população definida. O tratamento numérico dos fatores investigados decorre em três etapas: mensuração das variáveis aleatórias, estimativa de parâmetros populacionais e testes estatísticos de hipóteses (MEDRONHO et al, 2009). Fonte: http://migre.me/4gPpD A maneira como as hipóteses serão testadas de modo a serem aceitas ou rejeitadas depende do desenho de estudo escolhido. Temos dois grupos de estudos epidemiológicos distintos: a epidemiologia descritiva e a epidemiologia analítica. 67 www.eunapos.com.br O modo como as doenças ocorrem nas populações podem ser modificados ao longo do tempo, gerando uma estrutura epidemiológica, capaz de demonstrar o padrão de ocorrência da doença na população, como resultado da interação de fatores do meio ambiente, hospedeiro e do agente causador da doença. Essa estrutura é dinâmica, e continuamente apresenta modificações no tempo, no espaço e apresentando uma ocorrência “normal” ou “anormal” da doença em uma determinada população, em determinado tempo e espaço. (BRASIL, 1998). O primeiro passo para o entendimento de um problema de saúde ou de uma doença consiste em descrevê-lo pelas variáveis de Pessoa, Lugar e Tempo, respondendo às questões básicas da epidemiologia descritiva: Quem foram os atingidos pelo dano? Sobre quem ocorre determinada doença? Quando foram atingidos pelo dano? Existe alguma época do ano em que aumenta o número de casos? Onde foram atingidos pelo dano? Em que áreas do município ou regiões do país a doença é mais frequente? Há disparidades regionais ou locais? a) Variáveis relacionadas às pessoas Existem variados modos de se descrever ou mesmo classificar as características das pessoas envolvidas em um estudo epidemiológico. Deve-se entender que esta variável independe do tempo e do espaço. Para melhor compreensão, Pereira (2006) organizou as variáveis relacionadas às pessoas em três categorias: demográficas, sociais ecomportamentais. Os objetivos de conhecer como um agravo à saúde atinge diferentes segmentos populacionais são: expor a situação de saúde de um subgrupo, fornecer subsídios para explicação causal para levantamento de hipóteses e definir prioridades de intervenção (PEREIRA, 2006) 68 www.eunapos.com.br Exemplos de variáveis relativas às pessoas (PEREIRA, 2006): Variáveis demográficas: idade, sexo, grupo étnico. Variáveis sociais: estado civil, renda, ocupação, instrução. Variáveis que expressam estilo de vida: hábito de fumar, consumo alimentar, prática de exercício físico e consumo de drogas. Fonte: http://migre.me/4gPlE Responder a questionamentos sobre a existência de grupos especiais mais vulneráveis ou se o fato de pertencer a uma dada classe social determina diferenças nos riscos é fundamental para as ações de promoção e prevenção de saúde. Dentre todas as variáveis citadas, a idade é a mais relatada em estudos epidemiológicos, descrevendo incidência, prevalência ou mortalidade, sendo frequentemente expressa em grupos ou faixas etárias (exceto para faixas iniciais de crianças menores de 1 ano ou mesmo menores de 1 mês). A distribuição das idades por faixa depende do foco do estudo. Este tipo de classificação permite identificar em um grupo ou população em qual faixa etária existe maior risco de adoecimento ou de óbitos, de acordo com o agravo em questão. O trecho abaixo pertence ao texto intitulado: “um estudo sobre a prevalência de asma infantil cresce nos países em desenvolvimento” foi apresentado no 26º Congresso Internacional de Pediatria, em 05 de agosto de 2010 e aborda a asma infantil como um problema de saúde pública, demonstrando claramente o fator idade como a principal variável envolvida no processo de adoecimento. Esse estudo encontra-se disponível no endereço a seguir: http://boasaude.uol.com.br/lib/emailorprint.cfm?type=news&id=8620. [...] De acordo com especialistas da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, o aumento da prevalência nesses países tem sido atribuído a uma série de fatores. Entre as principais causas para o aumento dos casos de asma entre as crianças, os especialistas http://boasaude.uol.com.br/lib/emailorprint.cfm?type=news&id=8620 69 www.eunapos.com.br destacam a redução das infecções na infância, as mudanças na dieta ou estilo de vida, o desenvolvimento econômico e o aumento na exposição a alérgenos ou poluentes. Os pesquisadores ressaltam que, embora a prevalência seja maior na área urbana dos países em desenvolvimento, ela tem crescido ainda mais na zona rural. Além disso, a importância da asma não atópica - não causada por alergia - tem sido cada vez mais reconhecida em crianças nesses países. “As crianças com asma não atópica, geralmente, têm início mais precoce da asma, história mais frequente de pneumonia e aumento da exposição à fumaça ambiental do tabaco doméstico em comparação àquelas com asma atópica”, explicaram. Considerando que as crianças representam uma maior proporção da população em desenvolvimento, em comparação com países desenvolvidos, segundo os especialistas, mesmo um pequeno aumento na prevalência da asma pode ter importantes implicações para a saúde pública nesses países. “Dado o crescimento da população e a alteração do padrão de urbanização e de estilo de vida em países em desenvolvimento, pode ser esperado um aumento no número de crianças desenvolvendo asma”, explica o pediatra H.Zar. O especialista acrescenta, ainda, que “a pobreza está associada com asma mais grave, de maior morbidade. b) Variáveis relacionadas ao sexo A variável sexo é amplamente estudada por questões anatômicas e fisiológicas diferentes, onde cada um vive experiências específicas, privadas e não compartilhadas pelo sexo oposto. Sob o ponto de vista demográfico, em qualquer lugar ou idade, a população masculina e feminina são numericamente desiguais (ROUQUAYROL e BARRETO, 2003). Fonte: http://migre.me/4gQFL Com relação à morbimortalidade, esta é maior no sexo masculino, sendo que a mulher vive de 4 a 10 anos a mais; a mortalidade é maior no sexo masculino em todas as faixas etárias, inclusive nas crianças menores de 1 ano; algumas condições incidem mais no sexo masculino: coronariopatias, neoplasias do aparelho respiratório, úlcera péptica, cirrose hepática, gota, acidentes, suicídio, etc., enquanto outras no sexo feminino: varizes, tireoideopatias, cálculo biliar, lúpus, doenças 70 www.eunapos.com.br reumáticas, depressão, tentativa de suicídio; em geral as mulheres adoecem mais do que os homens e utilizam mais os serviços de saúde (PEREIRA, 2006) c) Variáveis relacionadas ao tempo O uso das informações sobre a distribuição temporal visa indicar os riscos a que as pessoas estão sujeitas; monitorar a saúde da população; prever a ocorrência de eventos e fornecer subsídios para explicações causais; auxiliar o planejamento de saúde e avaliar o impacto das intervenções (PEREIRA, 2006). Para abordarmos a variável relacionada ao tempo, é necessário que se trabalhe com, no mínimo, três conceitos propostos por (ROUQUAYROL e BARRETO, 2003). Fonte: http://migre.me/4fczF Intervalo de tempo: variável de tempo medida em número de horas, dias, semanas, meses ou anos. Caracteriza a quantidade de tempo transcorrido entre dois eventos sucessivos (exemplo: tempo decorrido entre a exposição ao fator de risco e o aparecimento dos primeiros sintomas). Intervalo cronológico: quando há referência a uma sequência de tempo, especificada no calendário, numerado sequencialmente, ou seja, datadas em anos, meses ou semanas (exemplo: a distribuição da incidência da poliomielite é feita para o intervalo que vai de 1979 a 1989). Período: denominação dada a uma parte delimitada do tempo. Períodos do ano (meses), período de mês (semana) ou períodos do dia (horas) podem ser utilizados delimitando o tempo de ocorrência de dado agravo (exemplo: no mês de janeiro há maior número de casos de dengue no Brasil). A partir de então, estudaremos os tipos de variações relativas ao tempo conforme proposto por Pereira (2006) e Medronho (2009): 71 www.eunapos.com.br Geral (histórica ou secular): Indica o que se observa, em longo prazo, geralmente décadas, na evolução de um evento. Seu objetivo é estabelecer se as frequências variam com o tempo e, se sim, quais as características desta variação. O estudo de uma série histórica é feito com a intenção de se detectar e interpretar a evolução da incidência de um evento. Cíclica: É caracterizada pelas oscilações periódicas de frequências. A colocação da frequência anual de certos eventos em gráfico permite detectar flutuações anuais de frequência de eventos e a periodicidade independe de a tendência ser ascendente ou decrescente Sazonal: Esta é a denominação usada para designar oscilações periódicas, cujos cíclos configuram ritmo sazonal por durarem um ano, ou seja, o ciclo de variação de incidência de uma doença coincide com as estações do ano, típico das doenças infecciosas agudas. Os máximos e os mínimos em uma distribuição cronológica ocorrem sempre no mesmo período, seja do ano, do mês, da semana ou do dia. Esta variação depende de um conjunto de fatores como a radiação solar, a temperatura, a umidade do ar, precipitação, etc. Irregular (acidental): São alterações na frequência dos agravos à saúde resultante de acontecimentos não-previsíveis ou não enquadráveis nas categorias já apresentadas. As epidemias são a expressão de frequências mais elevadas que as habituais. De acordo com Rouquayrol (2006), a palavra Epidemia foi utilizada por Hipócrates se referindo aos surtos de doenças em um sentido de visitar, demonstrando o caráter de temporalidade, de provisório, dos diversos aspectos da epidemia. A autora ressalta ainda sobrea definição de epidemia: [...] é uma alteração espacial e cronologicamente delimitada, do estado de saúde/doença de uma população, caracterizada por uma evolução progressivamente crescente e inesperada dos coeficientes de incidência de determinada doença, ultrapassando valores acima do limiar epidêmico pré-estabelecido (ROUQUAYROL, 2007, p. 338) Pereira (2006) ressalta que o aumento da frequência pode ser um episódio inusitado, mas comumente ele é decorrente da combinação de uma série de fatores e situações, de modo que os casos epidêmicos se misturam aos casos endêmicos 72 www.eunapos.com.br da doença. Salientando que o aumento deve ser brusco, diferenciando-o dos quadros endêmicos. Podemos exemplificar com os casos de dengue em nosso país. Esta é uma doença endêmica, mas no momento em que a população se depara com um novo vírus, surge um surto epidêmico. Na figura a seguir, apresenta-se a trajetória da mortalidade pela poliomielite no município de São Paulo de 1924 a 1995, diferenciando os períodos endêmicos, epidêmicos e o desaparecimento dessa doença como causa de óbito em consequência de sua eliminação a partir da segunda metade da década de 80. Figura 12 – Trajetória da mortalidade pela poliomielite Fonte: Waldman e Rosa (s/d) De acordo com Pereira (2006), as epidemias podem ser divididas em: Epidemia Explosiva: é a que apresenta uma rápida progressão, até atingir a incidência máxima, num curto espaço de tempo. Epidemia lenta: a qualidade de “lenta” refere-se à velocidade com que é atingida a incidência máxima. Epidemia Progressiva ou Propagada: o critério diferenciador é a existência de um mecanismo de transmissão de hospedeiro a hospedeiro. Neste caso a doença é difundida de pessoa a pessoa. 73 www.eunapos.com.br Epidemia por fonte comum: a veiculação do agente transmissor se dá pela água, alimentos, ar ou introduzido por inoculação. A endemia, conforme dito anteriormente, possui um padrão uniformemente distribuído e está habitualmente presente entre uma determinada população. Hipócrates utilizou o termo endemia no sentido de habitar o lugar, nele residindo de longa data ou nele se instalando por longo tempo. De acordo com Rouquayrol (2007, p. 336), dá-se denominação de endemia à [...] ocorrência coletiva de determinada doença que, no decorrer de um largo período histórico, cometendo sistematicamente grupos humanos distribuídos em espaços delimitados e caracterizados, mantém a sua incidência constante, permitidas as flutuações de valores, tais como as variações sazonais. A autora, em outra obra, define endemia como: Qualquer doença espacialmente localizada, temporalmente ilimitada, habitualmente presente entre os membros de uma população e cujo nível de incidência se situa nos limites de uma faixa endêmica que foi previamente convencionada para uma população e época determinadas (ROUQUAYROL e ALMEIDA FILHO, 2003). d) Variável relacionada ao lugar Espaço geograficamente restrito ou disperso (pandêmico). Está relacionado à água ou a alimentos, assim como grupos múltiplos ou não. Denomina-se espaço ou lugar a totalidade das coisas materiais, vivas e inanimadas, que pode ser organizado e subdividido em lugares delimitados e definidos. O uso das informações relativas ao lugar apresenta os seguintes objetivos: Indicar os riscos a que as pessoas estão sujeitas. Por exemplo: risco de infecção de malária na Amazônia e as epidemias de dengue em várias regiões do Brasil; Prever a ocorrência de eventos; acompanhar a disseminação de eventos. Por exemplo: a década de 1990 testemunhou a reintrodução e a propagação do vibrião colérico no continente. Os primeiros casos foram detectados no Peru, a partir do qual a doença alastrou-se rapidamente para outros países; 74 www.eunapos.com.br Fornecer subsídios para explicações causais. Por exemplo: consumo de pescado e doença coronariana. Estudos realizados na década de 60 indicaram que os esquimós apresentavam menor incidência de doenças coronarianas, em comparação às taxas existentes em numerosos países, embora consumissem dietas ricas em gordura, à base de peixes; Auxiliar o planejamento de saúde; definir prioridades de intervenção. Por exemplo: Em alguns países, como a Holanda, Suécia e o Japão, na década de 1990, apresentavam uma mortalidade infantil de 5 óbitos de menores de um ano por mil nascidos vivos. Se um outro país, estiver apresentando um número maior do que isso, por exemplo, 55 óbitos por mil, conclui-se que há 50 óbitos potencialmente evitáveis, no decurso do primeiro ano de vida, em cada mil nascidos vivos; Avaliar o impacto das intervenções. Por exemplo: Controle da esquistossomose. A aplicação de um veneno para caramujos visando controle da doença, levada a efeito em uma área, e não em outra, permite inferir os seus reflexos na redução da população de caramujos e na diminuição da incidência de esquistossomose. De acordo com Rouquayrol e Barreto (2003), as variáveis de lugar podem ser agrupadas em variáveis geopolíticas, variáveis geográficas e fatores ambientais. 3.2 Desenhos de estudos epidemiológicos De acordo com Pereira (2006), existem três enfoques para pesquisar um tema, com estratégias independentes de abordagem: Estudo de caso, Investigação experimental (laboratório) e Pesquisa populacional. a) Estudos de caso / série de casos É a primeira abordagem de um tema, utilizando uma avaliação inicial de problemas mal conhecidos com características pouco detalhadas. Consiste em relatos detalhados de um caso ou de um grupo de casos elaborados por um ou mais investigadores, focalizando características pouco frequentes de uma doença já conhecida ou buscando descrever uma moléstia possivelmente desconhecida. 75 www.eunapos.com.br Pode-se observar 1 ou mais indivíduos com a mesma doença ou evento, visando traçar um perfil das suas principais características. Apresenta a vantagem de ser um estudo relativamente fácil e baixo custo, permitindo a observação intensiva de cada caso, entretanto, é limitado pela falta de controle e n° pequeno de indivíduos, além da subjetividade na apreciação dos fatos, é difícil de contornar os vieses, pois o pesquisador já pode ter uma ideia pré-concebida do tema. b) Investigação experimental (laboratório) Este tipo de estudo apresenta um reduzido grau de subjetividade pelo uso de rigoroso controle que serve de parâmetro para comparação dos resultados (uso de animais). Frequentemente, por motivos éticos, o foco do estudo são os animais, porém, é limitado pela dificuldade na extrapolação dos resultados para os seres humanos. c) Pesquisa populacional Esta é a abordagem central da epidemiologia. Apesar de serem muitos os critérios utilizados para classificar os estudos epidemiológicos, distribuiremos os métodos conforme proposto por Pereira (2006), separando epidemiologia descritiva da epidemiologia analítica. 3.2.1 Estudos Descritivos A epidemiologia descritiva estuda a variabilidade da frequência e a distribuição das doenças ao nível coletivo, em função de variáveis ligadas ao tempo, ao espaço e à pessoa. Refere-se às circunstâncias em que as doenças e agravos à saúde ocorrem nas coletividades possibilitando o detalhamento do perfil epidemiológico, com vistas à promoção da saúde. A epidemiologia descritiva informa sobre a distribuição de um evento na população, em termos quantitativos (ROUQUAYROL e BARRETO, 2003) Seu objetivo é identificar os grupos de risco e sugerir explicações para as variáveis de frequência, servindo de base para novos estudos. Dentro do modelo de epidemiologia descritiva devemos considerar as variáveis epidemiológicas que se relacionam a fatos ou medidas de tempo, lugar ou 76 www.eunapos.com.br pessoa, procurando detectar uma associação causal entreuma doença e as características da pessoa ou um fator de seu ambiente. Os estudos epidemiológicos de cunho descritivo informam sobre a distribuição de um evento na população, em termos quantitativos, podendo ser de incidência ou prevalência. Prevalência é o termo que descreve a força com que subsistem as doenças nas coletividades. O coeficiente de prevalência é a medida que permite estimar e comparar, no tempo e no espaço, a prevalência de uma dada doença (casos já existentes) (Pereira, 2006). Incidência reflete a ideia de intensidade com que acontece a morbidade (casos novos) Não há necessidade de grupo controle. Para determinados estudos há bancos públicos de dados (Data SUS). A coleta pode ser prospectiva, retrospectiva ou transversal e a análise da distribuição das frequências de um evento visa identificar grupos de risco e sugere explicações para estas variações. Exemplos: Incidência de contágio de Hanseníase em Campo Grande – MS; Prevalência de hepatite B em voluntário doador de sangue; Perfil sociodemográfico dos usuários da UBSF ‘X’; Estado nutricional de crianças indígenas no Pará. 77 www.eunapos.com.br 3.2.2 Estudos Analíticos Investiga as causas dos problemas de saúde na população procurando analisar o papel dos fatores como sendo capazes de influenciar a incidência. A pesquisa analítica é subordinada às hipóteses previamente formuladas ou à busca por fatores determinantes de doenças, que relacionam eventos com o intuito de explorar a relação causa e efeito, assim como a relação de exposição e doença (PEREIRA, 2006). Existem 3 formas de iniciar a investigação: Partindo da causa e avaliando o aparecimento dos efeitos; Partindo do efeito com investigação retrospectiva dos fatores causais; A exposição e doença são detectados simultaneamente e os grupos formados após coleta dos dados. Em todos deve haver: grupo caso (doente / expostos) grupo controle (não-doente / não-expostos) a) Ensaio clínico randomizado A investigação parte da causa para o efeito e a distribuição da amostra tem caráter aleatório, garantindo que os grupos sejam homogêneos. Após intervenção do pesquisador em apenas 1 grupo, avaliam-se os resultados. Tabela 1 – Estudo experimental (ensaio clínico randomizado): investigação sobre a eficácia de um vacina quando comparada com placebo Grupos Caso de Doença Total Taxa de incidência (%) Sim Não Vacinados 20 980 1.000 2 Não-vacinados 100 900 1.000 10 Total 120 1.880 2.000 6 Risco/Relativo= 2/10 = 0,2 Eficácia da vacina = [(10-2)/10]X100=80% Fonte: Pereira, 2006 78 www.eunapos.com.br b) Estudos de coortes Analisam as associações de exposição e efeito por meio da comparação da ocorrência de doenças entre expostos e não- expostos ao fator de risco, Partindo da causa para o efeito. Tem característica de estudo longitudinal e observacional, podendo ser de forma prospectiva ou retrospectiva. Os grupos são formados por observação das situações (sedentários e ativos) ou alocação arbitrária de uma intervenção (operados e os que se recusaram a operar). Tabela 2 – Estudo de coorte: investigação sobre a associação entre o exercício físico e mortalidade por coronariopatias em adultos de meia-idade Atividade Física Óbitos Total Taxa de mortalidade por mil Sim Não Sedentários 400 4.600 5.000 80 Não-sedentários 80 1.920 2.000 40 Total 480 6.520 7.000 69 Risco Relativo = 80/40 = 2 c) Estudos caso-controle As exposições passadas são comparadas entre pessoas atingidas e não atingidas pela doença objeto do estudo, partindo do efeito e indo em direção à causa, caracterizada por ser uma pesquisa etiológica retrospectiva (realizada após o fato consumado). 79 www.eunapos.com.br Tabela 3 – Estudo de caso-controle: investigação sobre a solicitação entre toxoplasma e debilidade mental em crianças Sorologia positiva para toxoplasmose Deficiência mental Sim (casos) Não (controle) Sim 45 15 Não 225 285 Total 300 300 Risco: estimado pelo Odds ratio (razão dos produtos cruzados) OR = (45 X 285)/(15 X 225)= 3,35 Segundo os dados da tabela acima, quem tem sorologia positiva tem 3 X mais risco de ter DM d) Estudos seccionais ou de corte transversal Mede-se em um único ponto no tempo ou no decorrer de um curto intervalo de tempo a situação de um indivíduo em relação a determinada exposição e efeito. Quando efetuados em população bem-definida, permitem a obtenção de medidas de prevalência; por isso são também conhecidos por estudos de prevalência. Possuem a vantagem de serem frequentemente desenvolvidos com base em amostras representativas da população e não abrangem apenas pacientes que buscam atendimento em serviços de assistência médica, permitindo inferências causais mais fortes. Além disso, seu custo é geralmente mais baixo se comparado a outros tipos de estudo, em virtude de seu desenvolvimento em curto espaço de tempo. Para fatores que permanecem inalterados no tempo, como sexo, raça e grupo sanguíneo, os estudos seccionais podem oferecer evidência válida de uma associação estatística. Apresentam limitações em relação à dificuldade de separar a causa do efeito, uma vez que estes são mensurados em um mesmo ponto no tempo, o que torna difícil a identificação do momento da exposição, ou seja, se esta precede o aparecimento da doença ou se a presença da doença altera o grau de exposição a 80 www.eunapos.com.br determinado fator. Também apresenta maior dificuldade de identificação de doenças de curta duração se comparadas àquelas de longa duração. 3.2.3 Estudos ecológicos ou de correlação Análise de dados globais de populações inteiras, comparando a frequência de doença entre diferentes grupos populacionais durante o mesmo período ou a mesma população em diferentes momentos. Um exemplo de estudo ecológico é a verificação de taxas mais baixas de cárie dentária em população servida por água de abastecimento com níveis mais elevados de concentração de flúor, partindo da hipótese de que o flúor diminuiria o risco da cárie dentária. Neste caso, dispomos de dados relativos a um fator de exposição – a concentração de flúor na água de abastecimento – e a um efeito – a taxa de cárie dentária –, ambos referentes a toda a população; desconhecemos, porém, a frequência individual de exposição e do efeito. Quadro 5 – Vantagens e desvantagens dos tipos de delineamentos epidemiológicos observacionais TIPO DE ESTU DO RETROSPECTIVO PROSPECTIVO TRANSVERSAL C a ra c te rí s ti c a s Caso-controle Coorte (expostos e não expostos) Estudos de prevalência Frequentemente utilizado investigando no tempo, para trás, a presença ou ausência do fator suspeito. Estuda no tempo, para frente. O ponto de partida para o futuro é a exposição no fator em estudo. Estuda a situação da exposição e efeito de uma população em um único momento. 81 www.eunapos.com.br V a n ta g e n s Simples, relativamente fácil e mais barato. Geram novas hipóteses de trabalho. Frequentemente utilizado. Informa incidência, permite calcular o risco relativo. Indivíduos são observados com critérios diagnósticos uniformes. Conhece-se com precisão as populações expostas e não expostas. Mais fácil de evitar vieses. Simples e rápido. Relativamente econômico. Permite conhecer a prevalência associada aos agentes suspeitos. Permite a descrição da população. D e s v a n ta g e n s Não determina a incidência. Pouco útil quando há baixa frequência de exposição ao agente causal. Dificuldade para determinar o grupo controle. Risco de vieses e distorções do investigador. Baseia-se na memória do caso e do controle. Resultado a longo prazo. Desenvolvimentocomplexo. Alto custo. Inadequado para investigar doenças de baixa frequência. Risco de vieses e distorções premeditadas do observador. Eventuais mudanças de investigadores Perda dos membros das coortes. Não quantificam o risco de desenvolver a doença. A sequência temporal do fenômeno não aparece. São limitados epidemiologicamente por não estabelecer associação causa efeito. Pode induzir facilmente associações ou interpretações falsas. Fonte: Adaptado de Waldman e Rosa (s/d) Exercício 7 1. Assinale a alternativa INCORRETA: a) A incidência é dada pelos casos existentes na população e a prevalência pelos casos novos. b) Epidemia está relacionada aos casos de ordem súbita, relacionados ao fator tempo. c) As variáveis tempo, lugar e espaço delimitam os eventos epidemiológicos, permitindo sua interpretação. d) Risco é inerente à vida e está relacionado à probabilidade de sofrer um agravo. 82 www.eunapos.com.br e) A maneira como as hipóteses serão testadas de modo a serem aceitas ou rejeitadas é dependente do desenho de estudo escolhido. 2. Assinale a alternativa correta: a) Os estudos transversais acompanham os casos ao longo do tempo, o que os torna de alto custo. b) Estudos de caso-controle são fáceis de serem aplicados por estudar um fenômeno que já aconteceu, procurando explicações para ele. c) Os estudos epidemiológicos descritivos desenvolvem análises a respeito dos fatores envolvidos, identificando o risco ou chances do indivíduo desenvolver determinada doença. d) A malária pode ser considerada epidêmica na região amazônica, pelo modo que ela se expressa na população. e) A dengue apresenta caráter pandêmico sempre que há uma mutação do vírus e novas pessoas são afetadas, incluindo as que já apresentaram a doença anteriormente. 83 www.eunapos.com.br UNIDADE 4 – VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA Um dos objetivos da epidemiologia é quantificar ou estimar a ocorrência de problemas de saúde em populações humanas, através da frequência com que os problemas de saúde ocorrem em populações humanas (MEDRONHO et al, 2009). “A vigilância epidemiológica constitui-se importante instrumento para o planejamento, organização e operacionalização dos serviços de saúde, bem como a normatização das atividades técnicas correlatas”. Tem como funções a coleta e o processamento de dados, análise e interpretação dos dados processados, recomendação das medidas de controle apropriadas, promoção das ações de controle indicadas, avaliação da eficácia e efetividade das medidas adotadas e a divulgação de informações pertinentes (Ministério da Saúde, 2005.) 4.1 Sistemas de informação em saúde Os estudos acerca da situação de saúde, assim como o estabelecimento de ações de vigilância epidemiológica necessitam de informação para subsidiá-los. Estas por sua vez são geradas a partir de dados fidedignos e completos, coletados em todos os níveis de atuação do sistema de saúde. A força e o valor da informação (dado analisado) dependem da precisão com que o dado é gerado. Esses dados podem ser registrados de forma contínua (como no caso de óbitos, nascimentos, doenças de notificação obrigatória), de forma periódica (recenseamento da população, por exemplo) ou podem, ainda, ser levantados de forma ocasional (pesquisas realizadas com fins específicos) (SOARES et al., 2001). Os dados e informações que alimentam o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica são (SOARES et al., 2001; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2005): Dados demográficos: permitem a quantificação de grupos populacionais, por meio de denominadores para o cálculo de taxas, levando-se em conta as variáveis: número de habitantes, nascimento, óbito, idade, sexo, raça, situação do domicílio, escolaridade, ocupação, condições de saneamento, etc.; 84 www.eunapos.com.br Dados socioeconômicos: renda, ocupação, classe social, tipo de trabalho, condições de moradia e alimentação; Dados ambientais: poluição, abastecimento de água, tratamento de esgoto, coleta e disposição do lixo, aspectos climáticos e ecológicos também podem ser necessários para a compreensão do fenômeno analisado. Dados sobre serviços de saúde: hospitais, ambulatórios, unidades de saúde, acesso aos serviços; Dados de morbidade: doenças que ocorrem na comunidade; Eventos vitais: óbitos, nascimentos vivos e mortos, principalmente. Entretanto, a fonte originária destes dados alimentam os bancos de dados para a vigilância epidemiológica, e esta por sua vez destina-se à tomada de decisões. A principal fonte de fornecimento de dados é a notificação, que consiste na “[...] comunicação da ocorrência de determinada doença ou agravo à saúde feita à autoridade sanitária por profissionais de saúde ou qualquer cidadão, para fins de adoção de medidas de intervenção pertinentes”. Historicamente, a notificação compulsória tem sido a principal fonte da vigilância epidemiológica, a partir da qual, na maioria das vezes, se desencadeia o processo informação/decisão-ação. (MINISTÉRIO DA SAUDE, 2005) Atualmente em nosso país existem cinco grandes bancos de dados nacionais, continuamente alimentados: SIM – Sistema de Informação sobre Mortalidade; SINASC – Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos; SINAN – Sistema de Informação sobre Agravos de Notificação; SIA/SUS - Sistema de Informações Ambulatoriais do Sistema Único de Saúde; SIH/SUS - Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde; É importante considerar que tanto a informação derivada de dados de doenças (morbidade), como de mortalidade, apresenta vantagens e limitações. As limitações são decorrentes da omissão de casos (dados de morbidade), pois os dados de mortalidade representam apenas uma parcela da população (a “ponta do 85 www.eunapos.com.br iceberg”): a que morre ou a que chega ao serviço de saúde e tem o seu diagnóstico feito e registrado corretamente (MINISTÉRIO DA SAUDE, 2005) A caracterização das estatísticas de mortalidade se referem, frequentemente, a uma única causa de morte (causa básica), quando, na realidade, a morte é um fenômeno causado por múltiplos fatores, sendo este um outro fator limitante deste tipo de dado. Existem outros bancos de dados que trabalham dados específicos e/ou que não têm abrangência nacional, dentre eles se destacam: o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), o Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB), o Sistema de Informação sobre Acidentes de Trabalho (SISCAT), o Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunização (SI-PNI) (SOARES et al., 2001). 4.2 Indicadores de saúde Após obtenção dos dados de saúde com vistas à qualidade e cobertura destes, é preciso transformá-los em indicadores para então comparar o observado em determinado local com o observado em outros locais ou com o observado em diferentes tempos. Portanto, a construção de indicadores de saúde é necessária para analisar a situação atual de saúde, fazer comparações e avaliar mudanças ao longo do tempo (VAUGHAN e MORROW, 1992). A organização das Nações Unidas, em 1952, identificou a necessidade de uma medida que pudesse expressar o nível de vida das coletividades humanas. Diante da diversidade de variáveis a serem analisadas foram desenvolvidas uma diversidade de ferramentas com focos diferenciados (ROUQUAYROL e ALMEIDA FILHO, 2003) Os indicadores de saúde são utilizados na prática quando apresentam uma comprovada relevância e viabilidade e também traduzem com fidedignidade (ou confiabilidade) e praticidade os aspectos da saúde individual ou coletiva (PEREIRA, 2006). 86 www.eunapos.com.br A expressão dos indicadores se faz numericamente (frequência absoluta), entretanto, números absolutos de casos de doenças ou mortes não são utilizados para avaliar o nívelde saúde, pois não levam em conta o tamanho da população. Dessa forma, os indicadores de saúde são construídos por meio de razões (frequências relativas), em forma de proporções ou coeficientes (SOARES, 2001; PEREIRA, 2006). Podemos simplificar dizendo que a frequência absoluta se reporta ao número total (de casos, de elementos), a frequência relativa representa o quociente entre a frequência absoluta e o número total. Por fim, a distribuição de frequências indica de que modo a variável se distribui. As medidas de frequência são dadas por dois conceitos epidemiológicos já descritos anteriormente: a incidência e a prevalência. Outras medidas de frequência utilizadas em saúde coletiva são relacionadas à mortalidade, letalidade e sobrevida (MEDRONHO, 2009) As proporções representam uma parcela do total de casos ou mortes, representando sua importância no todo. Os coeficientes (ou taxas) representam o “risco” de determinado evento ocorrer na população (que pode ser a população do país, estado, município, população de nascidos vivos, de mulheres, etc.). ( SOARES, 2001). 4.2.1 Resultados expressos em frequência relativa Para realizar a comparação de frequências absolutas (frequência de mortalidade e morbidade), é necessária a transformação para valores relativos e então surgem os conceitos epidemiológicos de mortalidade e morbidade de aplicabilidade em saúde pública e passam a ser chamadas de coeficientes e índices (KERR-PONTES E ROUQUAYROL, 2003) É preciso destacar que índices não expressam uma probabilidade (ou risco) como os coeficientes, pois o que está contido no denominador não está sujeito ao risco de sofrer o evento descrito no numerador (exemplo: relação médicos/habitantes é um índice, da mesma forma que o Coeficiente de Mortalidade Infantil como Materna não são coeficientes, mas índices) (SOARES, 2001). 87 www.eunapos.com.br a) Índices: Relações entre frequências atribuídas da mesma unidade. Os índices são apresentados sob forma percentual. Coeficientes e índices são valores geralmente menores do que a unidade, devido ao fato de serem as frequências dos eventos registrados no numerador, muito menor do que aqueles do denominador. O índice pode ser considerado um Indicador multidimensional. Por exemplo: índice de Apgar (PEREIRA, 2006). Fonte: http://migre.me/4fcrm b) Coeficiente ou taxas: Relações entre o número de eventos reais e o que poderia acontecer, sendo uma medida de risco de adoecer ou morrer de determinada doença. Podemos considerá-lo uma medida de probabilidade. No cálculo dos coeficientes, deve-se tomar o cuidado de excluir no denominador as pessoas não expostas ao risco. Dessa forma, geralmente, o denominador do coeficiente representa a população exposta ao risco de sofrer o evento que está no numerador (KERR-PONTES E ROUQUAYROL, 2003; PEREIRA, 2006). Exceções são o coeficiente de mortalidade infantil – CMI – e de mortalidade materna – CMM – para os quais o denominador utilizado (nascidos vivos) é uma estimativa tanto do número de menores de 1 ano, como de gestantes, parturientes e puérperas expostos ao risco do evento óbito. No caso do Coeficiente de Mortalidade Infantil, alguns nascidos vivos do ano anterior não fazem parte do denominador, apesar de ainda terem menos de um ano de vida no ano em estudo dos óbitos. No entanto, o termo “coeficiente” já está consolidado para ambos os indicadores. Coeficientes mais utilizados na área da saúde: De acordo com Soares (2001); Kerr-Pontes e Rouquayrol (2003) e Pereira (2006) os coeficientes mais utilizados na área da saúde baseiam-se em dados sobre doenças (morbidade) e sobre eventos vitais (nascimentos e mortes). a) Coeficientes de MORBIDADE (doenças): Coeficiente de incidência da doença: representa o risco de ocorrência (casos novos) de uma doença na população. Pode ser calculado por regra de três ou através da seguinte fórmula: 88 www.eunapos.com.br =_____________________________________ x 10n Coeficiente de prevalência da doença: representa o número de casos presentes (novos + antigos) em uma determinada comunidade num período de tempo especificado. É representado por: =_____________________________________ x 10n Quanto maior a duração média da doença, maior será a diferença entre a prevalência e a incidência. A prevalência é ainda afetada por casos que imigram (entram) na comunidade e por casos que saem (emigram), por curas e por óbitos. b) Coeficiente de letalidade: representa a proporção de óbitos entre os casos da doença, sendo um indicativo da gravidade da doença ou agravo na população, podendo ser uma característica da própria doença (por exemplo, a raiva humana é uma doença que apresenta 100% de letalidade) ou de fatores que aumentam ou diminuem a letalidade da doença na população (condições socioeconômicas, estado nutricional, etc.). Apesar do resultado ser dado em percentual (%), não deve ser confundido com coeficiente de mortalidade geral, que é dado por 1000 habitantes, e representa o risco de óbito na população: =_____________________________________ x 100 Casos NOVOS da doença em determinada comunidade e tempo Coeficiente de incidência População da área no mesmo tempo Casos PRESENTES da doença em determinada comunidade e tempo Coeficiente de prevalência População da área no mesmo tempo Mortes devido à doença “X” em determinada comunidade e tempo Coeficiente de letalidade Casos da doença “X” na mesma área e tempo 89 www.eunapos.com.br População estimada para 01 de julho do mesmo ano c) Coeficientes de mortalidade: Coeficiente geral de mortalidade (CGM): representa o risco de óbito na comunidade. É expresso por uma razão, e pode ser calculado, como todos os demais coeficientes, também através de regra de três simples, no entanto, não é muito utilizado para comparar o nível de saúde de diferentes populações, pois não leva em consideração a idade dessas populações e para uma população mais jovem estaria significando mortalidade prematura. =_____________________________________ x 1000 Coeficiente de mortalidade infantil (CMI): é uma estimativa do risco que as crianças nascidas vivas têm de morrer antes de completar um ano de idade. É considerado um indicador sensível das condições de vida e saúde de uma comunidade. O coeficiente de mortalidade infantil pode ainda ser dividido em coeficiente de mortalidade neonatal (óbitos de 0 a 27 dias inclusive), coeficiente de mortalidade pós-neonatal ou infantil tardia (óbitos de 28 dias a 364 dias inclusive) em relação ao total de nascidos vivos (por 1000). =_____________________________________ x 1000 Coeficiente de mortalidade materna: representa o risco de óbitos por causas ligadas à gestação, ao parto ou ao puerpério (42 dias após o término da gestação), sendo um indicador da qualidade de assistência à gestação e ao parto numa comunidade. Para fins de comparação internacional, somente as mortes que ocorrem até 42 dias após o parto entram no cálculo do coeficiente. Número de óbitos em determinada comunidade e ano Coeficiente geral de mortalidade Óbitos de menores de 1 ano em determinada comunidade e ano Coeficiente de mortalidade infantil Nascidos vivos na mesma comunidade e ano 90 www.eunapos.com.br Coeficiente de mortalidade por doenças transmissíveis: é uma estimativa do risco da população morrer por doenças infecciosas e parasitárias (tuberculose, tétano, diarreia infecciosa, aids, etc.), classificadas atualmente no Capítulo I da CID-10. Quanto mais elevado o resultado deste coeficiente, piores as condições de vida. Além destes coeficientes, temos o Coeficiente de natalidade e de fecundidade. Enquanto o coeficiente de natalidade está relacionado com o tamanho da população, o de fecundidadeestá relacionado com o número de mulheres em idade fértil. Por isso, é comum a fecundidade ser expressa também em média de filhos por mulher (por exemplo: 2,5 filhos por mulher). Para finalizar, deve-se considerar que os indicadores de medidas do nível de saúde baseiam-se em números que representam pessoas que vivem em determinada comunidade, que nasceram, adoeceram ou morreram. Além de servirem para avaliar o nível de saúde de uma comunidade, esses indicadores medem, indiretamente, seu nível de vida (condições de moradia, nutrição, etc.). É importante ressaltar, ainda, que os indicadores de saúde refletem “médias” do que está acontecendo em uma população. Dessa forma, é indispensável considerar que um indicador “médio” pode estar, na realidade, camuflando importantes desigualdades no interior dessas populações e outras formas de “medir” saúde (como as entrevistas com lideranças comunitárias, a observação da realidade, a desagregação dos indicadores em níveis geográficos menores) também devem ser buscadas, simultaneamente à análise desses indicadores de saúde tradicionais. (SANTOS, 2001, p. 208) Desta maneira, a epidemiologia deve fazer parte do planejamento e da organização de ações e serviços de saúde, e também destacar alguns instrumentos para serem utilizados cotidianamente, principalmente relacionados ao diagnóstico de saúde. 91 www.eunapos.com.br Exercício 8 O coeficiente geral de mortalidade (CGM) representa o risco de óbito na comunidade pela relação entre o total de óbitos da população de uma área num período de tempo. De acordo com os dados abaixo, calcule o CGM (por mil habitantes) para o Brasil e para os Estados Unidos da América (EUA), 1994: Estimativa da população e óbitos por todas as causas registradas no Brasil e nos Estados Unidos da América Brasil EUA População Óbito População Óbito 153.219.855 878.430 260.340.990 2.278.258 Assinale a alternativa correta para o CGM do Brasil e dos EUA, respectivamente: a) 114,2 e 175,42 por 1.000 habitantes. b) 8,8 e 5,7 por 1.000 habitantes. c) 175,42 e 114,2 por 1.000 habitantes. d) 5,7 e 8,8 óbitos por 1.000 habitantes. 92 www.eunapos.com.br REFERENCIAS BARATA RB. Epidemiologia e Ciências Sociais. In: Barata RB, Briceño-León R (org) Doenças Endêmicas: abordagens sociais, culturais e comportamentais. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ; 2000. BARBOSA, L M M, Glossário de epidemiologia e saúde pública. IN: Rouquayrol M. Z e ALMEIDA FILHO, N. Epidemiologia e Saúde. 6ed. Rio de Janeiro. Medsi, 2003. BONETTI, A. 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