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Breve História das Instituições – A Tutela Pública da Revelação e Aproveitamento de Recursos Geológicos 5
Cristina Lourenço - Subdiretora-Geral da DGEG
Preâmbulo 9
Luís Martins - Presidente do Conselho de Administração do Cluster Portugal Mineral Resources
Rochas Ornamentais em Portugal
Granitos Ornamentais do Norte de Portugal - Caraterísticas, Potencialidades e Constrangimentos 11
Luís Sousa, Paulo Pita, Jorge Carvalho e José Lourenço
No norte de Portugal localizam-se os principais núcleos de pedreiras de granito ornamental. A evolução
dos últimos anos alterou as perspetivas de crescimento que vinha sendo verificada, forçando as empresas a
adaptaram-se a uma nova realidade. A reconversão de unidades extrativas, por ampliação e fusão, contrasta
com a inatividade de muitas outras. Neste trabalho apresenta-se uma caraterização dos núcleos de pedreiras
dos granitos de Monção-Valença, Ponte de Lima, Alpendurada-Penafiel, Mondim de Basto, serra da Falperra
e Pedras Salgadas. São enumerados os principais problemas que afetam a extração, os intrínsecos ao material
ou aos maciços, os derivados das condicionantes ao uso do território e também aqueles relacionados com
a dimensão e estrutura das empresas. Apresentam-se propostas para melhorar o acesso e a gestão deste
importante recurso natural.
Exploração Sustentável de Recursos no Maciço Calcário Estremenho 31
Jorge M. F. Carvalho, Jorge Cancela, Cristina Martins, Daniel Pires e Sónia Malveiro
No Maciço Calcário Estremenho ocorre, desde há décadas, uma intensa atividade de extração de blocos de
calcário para fins ornamentais. Dos condicionalismos de ordenamento do território, designadamente pelo
facto dessa atividade decorrer num espaço territorial consignado para a proteção da natureza – o Parque
Natural das Serras de Aire e Candeeiros, resultaram numerosas e prolongadas situações de conflito pelo
uso do território. Por um lado, os naturais anseios de desenvolvimento do setor industrial, por outro, o
cumprimento dos objetivos de conservação da natureza.
Visando o estabelecimento de equilíbrios para a resolução da conflitualidade nos principais núcleos de
exploração consignados no Plano de Ordenamento daquele parque natural, desenvolveu-se um projeto com o
objetivo específico de encontrar mecanismos conducentes à compatibilização da gestão e exploração racional
dos recursos em calcários ornamentais com a conservação da natureza, no âmbito dos planos municipais de
ordenamento do território.
Com base nos resultados alcançados, para cada uma das cinco áreas estudadas foi apresentada uma proposta
de ordenamento na qual foram considerados quatro fatores determinantes para a decisão: a existência de
áreas de ocorrência de calcários com aptidão ornamental, áreas com altos e excecionais valores ecológicos,
património geológico de valor relevante e áreas anteriormente recuperadas do ponto de vista ambiental.
Gestão Sustentável da Indústria Extrativa no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros 51
Manuel Duarte
A extração de inertes no Maciço Calcário Estremenho, em particular na área abrangida pelo Parque Natural
das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC), é uma atividade secular ligada à vida das gentes que povoaram esta
região, que fundamentalmente a partir dos finais dos anos 80 do século passado ganhou nova dinâmica e se
transformou numa atividade económica de grande expressão e com relevo em termos nacionais e internacionais.
A gestão da atividade extrativa tornou-se assim num dos desafios mais importantes ao nível da gestão do
PNSAC, dada a necessidade de conciliar a exploração de um recurso natural não renovável (e com forte
impactos sobre os valores e a paisagem), com a salvaguarda e valorização do património natural, cultural e
paisagístico desta área protegida.
Vol. 54 • Lisboa 2019-2020
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Anticlinal de Estremoz: Geologia, Ordenamento do Território e Produção de Rochas Ornamentais após 2000
Anos de Exploração 59
Luís Lopes
No panorama mineiro de Portugal o Anticlinal de Estremoz constituí um caso único por diversos fatores:
1) trata-se de uma estrutura geológica reconhecida por todos e não apenas pelos especialistas; 2) tem um
passado de produção de mármores de excecional qualidade que remonta ao Período Romano; 3) os mármores
aqui extraídos têm reconhecimento internacional constituindo-se como uma verdadeira Marca Nacional; 4) é
seguramente uma das regiões do Pais com o registo geológico melhor conhecido, quer à superfície quer em
profundidade. Para tal contribuíram vários estudos académicos e as várias campanhas de sondagens profundas
realizadas pelas entidades governamentais e as sondagens de prospeção geológica efetuadas pelas empresas.
Também a cartografia geológica de base foi realizada à escala 1:5.000 ou maior e encontra-se disponível às
escalas 1:25.000 e 1:10.000; 5) há um passado de projetos de investigação, teses de fim de curso, mestrado e
doutoramento, para além dos planos de pedreira e vários estudos realizados pelas empresas, etc. que constituí
uma enorme base de dados.
Deste modo, os estudos realizados em diversas áreas (geologia; biologia; ecologia; avaliação de impacte
ambiental; caracterização dos geomateriais (rochas e solos); avaliação geomecânica do maciço marmóreo; Planos
Diretores Municipais; planos de pedreira; etc.) constituem a todos os níveis um acervo de conhecimento enorme
que, complementado com a avaliação de riscos (materiais e humanos), permite a curto prazo a implementação
de um efetivo projeto de reordenamento do território.
A Rocha Ornamental Portuguesa e a Evolução na sua Caracterização 85
Cristina Isabel Paulo de Carvalho
Neste documento, relata-se o extenso trabalho desenvolvido pelo Laboratório Nacional de Energia e Geologia
e pelas suas instituições antecessoras, no âmbito da caracterização das rochas ornamentais portuguesas.
Tendo como ponto de partida o primeiro “Catálogo de Rochas Ornamentais Portuguesas”, apresentam-se as
motivações que estiveram na origem da criação desta obra literária ímpar e das obras literárias que a sucederam,
culminando-se no site “Rochas Ornamentais Portuguesas”. A caracterização das rochas ornamentais assenta
no conhecimento das suas propriedades, determinadas através de ensaios. Por este motivo, dá-se particular
enfase aos métodos de ensaio e ao seu progressivo e gradual desenvolvimento, fruto da adesão de Portugal à
Comunidade Económica Europeia. Termina-se, abordando as repercussões desta adesão na comercialização
dos produtos em pedra natural, de modo a dar cumprimento à legislação europeia atualmente em vigor
(Regulamento (UE) N.º 305/2011).
Microscopia e Microanálise no Estudo de Pedras Ornamentais Carbonatadas 103
Luís Dias, Fabio Sitzia, Carla Lisci, Luís Lopes e José Mirão
A crescente competitividade de economias emergentes tem criado dificuldades aos países Europeus produtores
e exportadores de Pedra Ornamental. Para acrescentar valor, estes países terão que adicionar tecnologia aos
seus produtos.
São apresentados três casos de como as técnicas de microscopia e microanálise permitem antecipar e
compreender o comportamento das rochas, em diversas condições climatéricas. Estas metodologias podem
ser usadas em rocha de obra nova, eventualmente seguindo as normas vigentes ou em objetos património.
A Revolução Tecnológica e Humana do Setor da Pedra 117
Joana Frazão, Jorge Frazão e Inês Frazão
As mudanças aceleradas no mercado exigem que as empresas desenvolvam capacidades dinâmicas para
se manterem competitivas. Isto significa que as empresas têm de ter capacidade para integrar, construir e
reconfigurar competências internas e externas para abordar ambientes em rápida mudança.
Estas capacidades têm de ser desenvolvidas em várias vertentes, o objetivo deste artigo é explorar as áreas
tecnológicas e humanas no setor das rochas ornamentais em Portugal. As tecnologias da Fravizel são autónomas,responsivas e digitais o que vai permitir o progresso técnico do setor. Este deve ser acompanhado pela evolução
das competências digitais da força de trabalho do setor.
A Indústria 4.0 (quarta revolução industrial) surge como resposta ao desafio de automatizar processos e
aumentar a atratividade para os mais jovens para o setor.
Rochas Ornamentais Portuguesas: Operações Indústria4.0 como Resposta ao Procurement BIM 121
Agostinho da Silva, Andreia Dionísio e Luís Coelho
O setor das Rochas Ornamentais (RO) gera em Portugal mais de 16.000 empregos diretos, registou um
crescimento das exportações em 2019 de 15% e centra a sua principal âncora competitiva na produção
customizada com escala. Sendo previsível que a prazo o Building Information Modelling (BIM) seja a tecnologia
de projeto e gestão de obras a nível global, a qual orienta o procurement para produtos standard. O presente
estudo avalia a resposta da Indústria 4.0 (I-4.0) às ameaças decorrentes do procurement BIM na Arquitetura
Engenharia e Construção.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Cluster dos Recursos Minerais – Um Modelo de Mobilização de Conhecimento, Cooperação e Inovação 127
Marta Rocha Peres
A política de Clusters surgiu em Portugal, a partir de 2008. Nessa altura, foi criado o Cluster da Pedra Natural. Em
2016, com a entrada em vigor de outro programa político de clusterização, forma-se uma parceria mobilizada
para os objetivos comuns dos Recursos Minerais em Portugal. Esta mobilização culmina na evolução para um
Cluster dos Recursos Minerais reconhecido em 2017, que hoje conta com 67 Associados e mais de 100 parceiros
a nível mundial.
Em mais de dois anos de operacionalização, o trabalho em rede e cooperação tem gerado maior conhecimento,
mais desenvolvimento. Os resultados do sistema de clusterização são visíveis ao nível da tendência de crescimento
das exportações, do volume de negócios e do valor acrescentado das Empresas que pertencem ao Cluster.
O modelo adotado pelo Cluster dos Recursos Minerais, tem evidenciado que este é o caminho a prosseguir
além de 2020.
LIOZ – Rocha Património, foi Real em Portugal e Transportou Arte e Cultura para o Brasil 137
Zenaide Carvalho G. Silva
O estudo do calcário português lioz, abordado neste artigo, abrange uma breve referência à sua história geológica e
uma outra, mais extensa, ao seu papel como veículo de divulgação de arte e cultura portuguesa e europeia no Brasil.
O lioz, sendo um calcário microcristalino com propriedades físicas e tecnológicas próprias para a construção,
é também utilizado como elemento decorativo, uma vez que tem coloração diversa, em branco-marfim,
rosa claro e escuro, amarelo dourado e amarelo forte, recebendo por esta razão denominações diferentes
na indústria das rochas ornamentais. É um calcário de ambiente recifal, portador de fósseis rudistas que lhe
conferem uma textura singular. Ocorre nas zonas de Lisboa e arredores, incluindo a região do município de
Sintra, principalmente em Pêro Pinheiro, de cujas pedreiras saiu a maior parte do material para construção
em Portugal e no Brasil, desde o século XVIII até o presente. Usado durante décadas em construções na área
de Lisboa, em estilos arquitetónicos diversos, em Mafra materializou o complexo arquitetónico emblemático
de D. João V, Convento, Igreja e Biblioteca, tornando-se a “pedra real”. Foi transportado para o Brasil como
lastro de navios que circulavam entre Portugal e a nova colónia, onde no século XVIII foi a rocha preferida para
as grandes construções, principalmente de igrejas e templos de culto religioso, cópias de igrejas portuguesas
ou nelas inspiradas, perpetuando a arte e arquitetura transportadas da Europa. Deixou em Salvador, na Bahia
uma exposição valiosa do património de arte e cultura portuguesas. O lioz tem hoje o estatuto de “Rocha
Património Global” por preencher os requisitos adotados pela Heritage Stone Subcomission (HSS) da UNESCO.
Labyrinthus in Petris
A Calçada Portuguesa nos Percursos da Ancestralidade 147
Ernesto Matos
A calçada artística à portuguesa, é desde os meados do século XIX, um método de pavimento que se tem
vindo a implementar numa forma persistente. Não só por Portugal, mas ultimamente, também muitos outros
países o têm vindo a assumir. Mais recentemente veio a tornar-se já uma referência de ícone internacional,
demostrando-o a cidade do Rio de Janeiro e o seu emblemático Calçadão de Copacabana. Não é assim por o
acaso que a Tocha Olímpica de 2016 teve na sua conceção gráfica também a referência a esse característico e
emblemático padrão de ondas, já imortalizado, até mesmo por Walt Disney.
Por Portugal, com os anos a passar, vão-se fazendo contas, não só pelo custo dos materiais geológicos provenientes
das mais valias extrativas em meio natural e sem auxílio a métodos industriais poluentes, como para o pagamento
de uma mão-de-obra desqualificada e que continua ligada a uma profissionalizada classe operária. Se por um
lado Almeida Garrett já designava de Arte a este método aplicado no velho Rossio e que recebeu o nome de um
país, por outro assistimos a uma cada vez mais descaracterização técnica e que vai fomentando a má imagem
que constantemente passa debaixo dos nossos pés. O que é certo, é que passados mais de 170 anos desde o seu
surgimento para benefício público e universal, não vemos este método como disciplina em nenhuma escola de
artes portuguesa.
O que temos hoje ou o que queremos no futuro para os nossos pavimentos em calçada? Calçada artística ou
calçadas de pedras no chão colocadas por uns arrumadores, formados no quintal ali da esquina?
Pretende-se assim com este texto, refletir sobre alguns destes parâmetros que o próprio país se vai confrontado,
perante as vicissitudes de uma profissão, de uma técnica, de uma arte, o que quer que seja... mas que faz parte
da nossa perseverança.
Louseira de Canelas
Atividade Extrativa e Ciência de Mãos Dadas Durante Três Décadas 157
Manuel Valério Figueiredo
A reabertura das Louseiras de Canelas em 1988, permitiu desde logo o fornecimento de lousas para os telhados
da região. Paralelamente, a empresa então fundada assume o papel de resgate sistemático dos novos achados
fósseis, que se vai intensificando ao ritmo da própria exploração, não encarando este património como um
entrave. A inauguração do Centro de Interpretação Geológica de Canelas, ou Museu das Trilobites, em julho
de 2006, impulsionou a criação do Geoparque Arouca.
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FICHA TÉCNICA
Propriedade e Edição:
Direção-Geral de Energia e Geologia
Av. 5 de Outubro, 208 - 1069-203 Lisboa
Tel: 217 922 800 - Fax: 217 939 540
energia@dgeg.gov.pt
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Diretor:
João Correia Bernardo
Comissão Editorial deste volume:
Luís Martins, Cristina Lourenço, Carla Lourenço,
José Alcântara Cruz, Patrícia Falé, J. Ferreira da Costa,
Miriam Cavaco e José Miguel Martins
Redação e Coordenação:
Direção de Serviços de Recursos Hidrogeológicos e Geotérmicos
Periodicidade: Semestral
Depósito Legal: Nº 3581/93
ISSN: 00008-5935
Atividade Mineira 173
Caducidades de Contratos de Prospeção e Pesquisa
Contratos de Prospeção e Pesquisa
Caducidades de Contratos de Concessão de Exploração
Transmissão da Posição Contratual de Concessão de Exploração
Contratos de Concessão de Exploração
Adenda ao Contrato de Concessão de Exploração
Contratos de Integração
Águas Minerais e de Nascente 179
Aprovação/Revisão do Plano de Exploração
Nomeação de Responsáveis Técnicos
Rescisão dos Contratos de Exploração
Contratos de Atribuição de Direitos de Exploração
Adendas ao Contrato de Exploração
Suspensão da Licença de Exploração
Atribuição de Licenças de Estabelecimento
Transmissão da Licença
Alteração do Sistema de Captação
Caducidade da Licença
Oficinas de Engarrafamento - Títulos de Exploração
Pedreiras 185
Responsáveis Técnicos Inscritos na Direção-Geral de Energia e Geologia
ElementosEstatísticos da Indústria Extrativa Nacional – 2019
Indústria Extrativa – Comércio Internacional 191
Evolução do Comércio Internacional – janeiro a dezembro de 2019
Informação Vária 197
Glossário Geral para o Setor da Pedra Ornamental
mailto:energia%40dgeg.gov.pt%20?subject=
http://www.dgeg.gov.pt
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Breve História das Instituições – A Tutela Pública da Revelação
e Aproveitamento de Recursos Geológicos
Século XIX
Há mais de dois séculos que o Estado exerce atribuições e tutela pública e administrativa no domínio dos recursos
geológicos. Os regimes jurídicos do séc. XIX, de que se dão como meros exemplos no caso das minas a Lei de 1850
e o Decreto de 1892 (este diploma foi alterado em 1907 para incluir o petróleo, cujos primeiros manifestos tiveram
lugar no nosso país em 1904), o Regulamento de 1884 (pedreiras) e o Decreto de 1892 (águas minerais), impunham a
necessidade de criação de estruturas públicas de tutela administrativa das atividades, sendo que a Intendência-Geral
das Minas e Metais criada em 18 de maio de 1801, até antecedeu estes diplomas mais estruturantes do conhecimento
e aproveitamento de recursos geológicos, sendo de referir que entre 6 de agosto de 1836 e 24 de novembro de 1953
foram concessionadas em Portugal continental 2883 minas.
Na segunda metade do século XIX foram criadas diversas estruturas públicas como a Repartição de Minas, Pedreiras
e Trabalhos Geológicos, a Comissão de Trabalhos Geológicos do Reino, o Conselho de Minas, a Repartição dos
Serviços Técnicos de Minas, as Circunscrições Mineiras de Lisboa e Porto, a Secção de Minas, Pedreiras, Águas
Mineromedicinais e Serviços Geológicos e o Conselho Técnico de Minas, entre outras, com atribuições ao nível
de autoridade pública no domínio dos recursos geológicos, com elevadas exigências ao nível da capacitação técnica
e administrativa dos respetivos quadros, sendo que em matéria de segurança em minas e pedreiras se refere, por
curiosidade, a previsão constante em portaria de 1875 sobre a necessidade de eventual requisição de apoio especializado
por parte de engenheiros ou de condutores de minas com ou sem vínculo ao Estado.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Século XX
No século XX importa evidenciar as importantes reformas no regime jurídico dos recursos geológicos com a entrada
em vigor do Decreto n.º 13642 de 1927 (pedreiras), do Decreto n.º 18713 de 1930 (minas) e do Decreto n.º 15401
de 1928 (águas minerais), sendo que foi pelo Decreto n.º 4641, de 13 de julho de 1918 que as estruturas do Estado
especializadas na tutela das atividades extrativas assumiram uma configuração que se manteve durante largas décadas,
a par dos regimes jurídicos enunciados. Com efeito, foi criada a Direção-Geral de Minas e Serviços Geológicos
subdividida na Repartição de Minas (integrando as Circunscrições Mineiras do Norte e do Sul, respetivamente
no Porto e em Lisboa), na Inspeção de Águas, na Inspeção de Pedreiras, no Laboratório Químico-Metalúrgico e
nos Serviços Geológicos, para além do Conselho Superior de Geologia e Minas, com as Secções de Minas, Águas,
Impostos de Minas e Águas e Serviços Geológicos e, ainda, o Corpo de Engenheiros de Minas e o Corpo Auxiliar
de Condutores de Obras Públicas e Minas. Em sede de regimes jurídicos importa igualmente referir o Decreto-Lei
n.º 227/82 e Decreto-Regulamentar n.º 72/82 (pedreiras), e o Decreto n.º 47973 de 1967 (petróleo).
Em 1983 é criada a DGGM - Direção-Geral de Geologia e Minas (Decreto-Regulamentar n.º 46/83, de 8 de junho) e em
16 de março de 1990 é publicado um novo regime jurídico para os recursos geológicos (DL n.º 90/90), regulamentado
pelo DL n.º 84/90 (águas de nascente), n.º 85/90 (águas mineroindustriais), n.º 86/90 (águas minerais naturais),
n.º 87/90 (recursos geotérmicos), n.º 88/90 (depósitos minerais - minas) e n.º 89/90 (massas minerais - pedreiras).
No que respeita ao petróleo de referir o DL n.º 141/90 e o posterior e ainda em vigor DL n.º 109/94, de 26 de abril.
É de sublinhar que com o “pacote de 1990” foram revogados regimes jurídicos com mais de 60 anos de vigência
(Decreto de 1928 – águas; Decreto de 1930 – minas). Em 1991 são criadas as Delegações Regionais do Ministério
da Indústria e Energia (posteriormente denominadas DRE - Direções Regionais de Economia) para onde transita a
área setorial das pedreiras.
A DGGM era uma instituição dotada de uma organização robusta de elevada capacitação científica, técnica e
administrativa, com três subdiretores-gerais a coadjuvarem o diretor-geral, com doze diretores de serviço e treze
chefes de divisão, integrando nos seus quadros investigadores e cerca de 120 técnicos superiores (maioritariamente
engenheiros de minas e geólogos), com diversas unidades tais como a Direção de Serviços de Cartografia Geológica,
a Direção de Serviços de Geologia Aplicada, a Direção de Serviços de Prospeção, a Direção de Serviços de Avaliação,
a Divisão de Sondagens, a Divisão de Geofísica, a Direção de Serviços de Minas e Pedreiras, a Direção de Serviços
de Águas Minerais e de Mesa, a Direção de Serviços de Gestão, a Direção de Serviços de Estudos, Planeamento
e Estatística, a Direção de Serviços de Administração Industrial, a Divisão de Informação e Relações Públicas, o
Laboratório e o Museu Geológico.
Em 1993 é extinta a DGGM e criado pelo DL n.º 122/93, de 16 de abril o IGM - Instituto Geológico e Mineiro instituição
ímpar em termos nacionais e internacionais que resulta da crescente importância do sector geológico e mineiro e
da respetiva indústria extrativa no contexto económico nacional e do novo enquadramento jurídico das atividades
(pacote legislativo de 1990), sendo que este organismo é dotado de autonomia administrativa e financeira e património
próprio, prevalecendo, na respetiva estruturação, o princípio da clara demarcação entre as áreas técnico-científica e
técnico-administrativa, o que permite o respeito pelas características próprias de cada uma e potencia as suas inter-
-relações pela coexistência na mesma entidade. Como eixos preferenciais de atuação assumiu-se o incremento do
conhecimento geológico do território nacional e o desenvolvimento de bases de dados geológicos mineiros e geofísicos
acessíveis aos utilizadores, bem como o reforço da indústria extrativa a prosseguir num contexto de segurança e de
sustentabilidade económica, ambiental e territorial, atento o novo quadro regulamentar de 1990. O conselho diretivo
é constituído por um presidente e três vice-presidentes, existindo 11 diretores de serviço e 10 chefes de divisão, com
investigadores e mantendo-se os cerca de 120 técnicos superiores.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Século XXI
Já no século XXI ocorre em 2003 a extinção do IGM (Decreto-Lei n.º 186/2003 de 20 de agosto), com as respetivas
competências a serem repartidas em 2004 pela então DGGE - Direção-Geral de Geologia e Energia (atual
DGEG-Direção-Geral de Energia e Geologia – DL n.º 69/2018– autoridade nacional no domínio da energia e
dos recursos geológicos) e pelo então INETI - Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação (atual
LNEG – Laboratório Nacional de Energia e Geologia – DL n.º 129/2014).
Com a extinção do IGM a área dos recursos geológicos perde uma instituição centenária, atentos os organismos que
o precederam, autónoma e exclusiva para o setor extrativo passando este a coabitar com a área da energia.
O Decreto-Lei n.º 186/2003, de 20 de agosto, que aprovou a orgânica do Ministério da Economia, criou a Direcção-
-Geral de Geologia e Energia (DGGE), que sucede à Direcção-Geral da Energia e, parcialmente, ao Instituto Geológico
e Mineiro, extintos por aquele diploma legal. A DGGE tem um subdiretor-geral para a área técnica e administrativa
dos processos de licenciamento das atividades de revelação e aproveitamento dos recursos geológicos, com umaúnica
direção de serviços para esta área setorial e cerca de 30 técnicos superiores à data de 2004 (oriundos do extinto
IGM). Com a alteração orgânica de 2007 (DL n.º 139/2007 e Portaria n.º 535/2007) a DGEG passa a contar com duas
direções de serviço: a Direção de Serviços de Minas e Pedreiras e a Direção de Serviços de Recursos Hidrogeológicos,
Geotérmicos e Petróleo.
Em 2007 foi aprovado um novo regime jurídico para as pedreiras (DL n.º 340/2007 que alterou e republicou o
DL n.º 270/2001).
Em 2015 verifica-se a extinção das DRE e respetiva reintegração da área setorial das pedreiras e dos estabelecimentos
industriais (p. ex. oficinas de engarrafamento) no organismo que tutela os recursos geológicos (DGEG) e em 2018
o mesmo sucede com o petróleo (pelo DL n.º 69/2018 a DGEG sucede nas atribuições e competências da ENMC,
E.P.E. – atual ENSE - Entidade Nacional para o Setor Energético, E.P.E., no domínio da prospeção, pesquisa,
desenvolvimento e produção de hidrocarbonetos).
Também em 2015, pela Lei n.º 54/2015, de 22 de junho é revogado o DL n.º 90/90 e são estabelecidas as bases do regime
jurídico da revelação e do aproveitamento dos recursos geológicos, estando em 2020 em processo de revisão os regimes
regulamentares das minas (DL n.º 88/90), das pedreiras (DL n.º 340/2007) e dos recursos hidrogeológicos e geotérmicos
(DL n.º 84/90, DL n.º 85/90, DL n.º 86/90 e DL n.º 87/90), sendo que os hidrocarbonetos são objeto de diploma
próprio (o mencionado DL n.º 109/94). No que respeita às pedreiras, em 2019 foi aprovado o Plano de Intervenção
nas Pedreiras em Situação Crítica (RCM n.º 50/2019).
Na atualidade e no contexto de autoridade nacional para os recursos geológicos, a DGEG mantém um subdiretor-
-geral para a área e conta com 3 diretores de serviço e 5 chefes de divisão (3 nos núcleos do Porto, Coimbra e Évora),
tendo 19 técnicos superiores para as minas e águas (11 “minas” e 8 “águas”) e 16 para as pedreiras (3 em Lisboa,
5 no Porto, 4 em Coimbra, 3 em Évora e 1 em Faro). A DGEG gere um setor com centenas de contratos administrativos
de revelação e de aproveitamento de recursos geológicos do domínio público do Estado (minas e águas) e mais de um
milhar de licenças de exploração de pedreiras, num contexto de sustentabilidade económica, ambiental, territorial e
de responsabilidade social, onde o saber técnico dos quadros deste organismo tem sido o pilar das nossas intervenções.
É pois fundamental assegurar a passagem do conhecimento intergeracional que ocorreu no passado, mas atentas as
aposentações e os constrangimentos dos últimos 20/25 anos no recrutamento externo para a Administração Pública
pode-se dizer que se perdeu uma geração, vendo-se com muita preocupação a possibilidade real desde organismo,
dentro de poucos anos, não ter recursos humanos que assegurem essa passagem de conhecimento.
Neste responsável objetivo de passagem do histórico institucional e do saber técnico será de contar com os quadros
da DGEG oriundos da Direção-Geral de Geologia e Minas1 e do Instituto Geológico e Mineiro2 para que se
1 DGGM: Teresa Cunha, Vítor Duque, Cristina Lourenço, José Cruz, Paulo Pita, J. Ferreira da Costa e P. Martins Nunes.
2 IGM: José M. Martins, Carla Lourenço, Paula Dinis, A. Calaim, Margarida Mateus, Mª José Sobreiro e Patrícia Falé.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
possa concretizar uma preservação da memória, que
fundamenta e explica a evolução das instituições e dos
regimes legais, para se ir perpetuando naqueles que
ingressaram posteriormente, e aos que é imprescindível
recrutar com ou sem vínculo ao Estado, todo o saber
técnico acumulado, preservando ao mesmo tempo a
história da tutela pública e administrativa dos recursos
geológicos do nosso país!
Cristina Lourenço
Subdiretora-Geral da DGEG
BIBLIOGRAFIA
NUNES, João Paulo Avelãs - (2001-2002) - Revista Portuguesa de
História, t. XXXV, - “A Indústria Mineira em Portugal Continental
desde a Consolidação do Regime Liberal ao I Plano de Fomento do
Estado Novo (1832-1953)”
RAMOS, José Luís Bonifácio - (LEX, 1994) - “O Regime e a Natureza
Jurídica do Direito dos Recursos Geológicos dos Particulares”.
GUIMARÃES, Paulo - (1999-2000) - Arqueologia & Indústria, 2-3 - “As
Minas Portuguesas do Antigo Regime ao Liberalismo”, p.p. 53-80.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Preâmbulo
Rochas Ornamentais em Portugal
Este número do Boletim de Minas, dedicado ao subsetor das Rochas Ornamentais de Portugal, pretende dar uma
imagem da sua variedade e importâncias económica, social e patrimonial.
Nos últimos 20 anos o subsetor soube construir a sua cadeia de valor de uma forma sustentável, fazendo com que
Portugal passasse de um mero exportador de produtos não transformados (em especial blocos e chapas) para um
produtor de peças finais das mais apreciadas no Mundo, melhoria esta também acompanhada pelas empresas
nacionais de equipamentos. A qualidade das rochas ornamentais portuguesas foi assim extremamente valorizada pelas
empresas extratoras, transformadoras e fabricadoras de equipamentos, conseguindo-se assim captar um relevante
valor acrescentado.
Relembremos que Portugal é um dos principais produtores mundiais de rochas ornamentais tendo registado, nos
últimos 50 anos, um crescimento médio anual, em toneladas, de 4% (Carvalho, Lopes, Mateus, Martins & Goulão, 2018).
Em 2015, Portugal ocupava o oitavo lugar do Mundo no Comércio Internacional, sendo o segundo no Comércio
Internacional per capita (Frazão, 2019). As exportações cobriram as importações em 823%, sendo que aproximadamente
45% das exportações foram para fora da Europa. O subsetor atingiu a segunda posição nacional em Valor Acrescentado
Bruto (VAB), estando as telecomunicações em primeiro (Assimagra, 2015).
Em 2019 exportou cerca de 8468 Milhões (valor superior ao dos minérios metálicos) para mais de 100 países e é
constituído maioritariamente por Pequenas e Médias Empresas (PMEs), aproximadamente 2.500, representando mais
de 16.100 postos de trabalho diretos, sendo um dos principais geradores de emprego privado nas regiões do interior.
Novos desafios adivinham-se, como a melhoria das condições de segurança e os relacionados com a tecnologia digital
e a Indústria4.0, mas todos os atores envolvidos no subsetor, instituições governamentais, académicas e empresariais,
saberão, uma vez mais, dar-lhes a resposta adequada.
Luís Martins
Presidente do Conselho de Administração do Cluster Portugal Mineral Resources
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
RESUMO
No norte de Portugal localizam-se os principais núcleos de pedreiras de granito ornamental. A evolução dos últimos
anos alterou as perspetivas de crescimento que vinha sendo verificada, forçando as empresas a adaptaram-se a uma
nova realidade. A reconversão de unidades extrativas, por ampliação e fusão, contrasta com a inatividade de muitas
outras. Neste trabalho apresenta-se uma caraterização dos núcleos de pedreiras dos granitos de Monção-Valença, Ponte
de Lima, Alpendurada-Penafiel, Mondim de Basto, serra da Falperra e Pedras Salgadas. São enumerados os principais
problemas que afetam a extração, os intrínsecos ao material ou aos maciços, os derivados das condicionantes ao uso
do território e também aqueles relacionados com a dimensão e estrutura das empresas. Apresentam-se propostas
para melhorar o acesso e a gestão deste importante recurso natural.
Granitos Ornamentais do Norte de Portugal - Caraterísticas,
Potencialidades e Constrangimentos
Luís Sousa
Departamento de Geologia e Pólo do Centro de Geociências (CGeo),
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Quinta de Prados,
5000-801 Vila Real, Portugal
Email: lsousa@utad.pt
Paulo Pita
Direção Geral de Energia e Geologia, Divisão de Pedreiras do Norte,
Rua Direita do Viso nº 120, 4269-002 Porto, Portugal
Email: paulo.pita@dgeg.pt
Jorge Carvalho
Laboratório Nacionalde Energia e Geologia, IP; Unidade de
Recursos Minerais e Geofísica, Estrada da Portela, Bairro do
Zambujal, Apartado 7586- Alfragide, 2610-999 Amadora, Portugal
Email: jorge.carvalho@lneg.pt
José Lourenço
Departamento de Geologia e Pólo do Centro de Geociências (CGeo),
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Quinta de Prados,
5000-801 Vila Real, Portugal
Email: martinho@utad.pt
Palavras Chave: Rochas ornamentais, granito, avaliação de reservas, ordenamento do território.
mailto:lsousa%40utad.pt?subject=
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1. INTRODUÇÃO
A produção de rocha ornamental constitui uma impor-
tante atividade económica em Portugal. A produção na-
cional encontra-se entre as dez mais importantes a nível
mundial, apesar das constantes mudanças no ranking em
virtude de existirem países com estádios de desenvolvi-
mento diferentes de vários continentes que apresentam
evoluções distintas (ANIET, 2017). Em 2017 o valor da
produção das rochas ornamentais foi de 179,6 x1068,
46,9 x1068 dos quais relativos a granitos (DGEG, 2018).
No mesmo ano as exportações de rocha ornamental
totalizaram 386x1068, maioritariamente constituídas
por mármore e calcário. Prevê-se que esta atividade
económica continue o seu crescimento observado nas
últimas décadas (Fig. 1), afigurando-se importante que
as empresas nacionais e as entidades com responsabili-
dade no setor contribuam para manter Portugal como
importante player global.
FIGURA 1
Estimativa da produção bruta e líquida de rocha ornamental
Baseado em Montani, 2017.
No norte do país localiza-se a maior percentagem de
empresas do setor, sobretudo associadas à extração e
transformação de granito, condicionada pela predomi-
nância dos afloramentos graníticos e existência de nú-
cleos tradicionais de extração. Em 2017 encontravam-se
em atividade 337 pedreiras de rocha ornamental em
Portugal, 111 das quais de granito (DGEG, 2018) e na
sua maioria localizadas no norte do país (Pita, 2017).
Nesta região, os núcleos principais de extração resultam
da evolução das pequenas pedreiras que começaram
a sua industrialização em meados do século passado.
Em muitos locais há evidências das pequenas pedreiras
artesanais (Fig. 2) cujos produtos eram utilizados nas
povoações vizinhas, obrigando a que a atividade dos
pedreiros estivesse dispersa pelo território de modo a
satisfazer as necessidades da população.
FIGURA 2
Fotografias aéreas obtidas em 1965 onde é possível observar locais de extração de granito
Pedras Salgadas, Vila Pouca de Aguiar S. Bento, Vila Real
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Em consequência da crise que afetou as atividades produ-
tivas em Portugal, com a diminuição rápida e acentuada
da atividade do setor da construção civil, as empresas fo-
ram obrigadas a procurarem novos mercados no exterior.
O setor da extração está hoje melhor apetrechado, sendo
comum a utilização do fio diamantado, com o conse-
quente aumento do aproveitamento das massas minerais
e redução dos desperdícios. O setor da transformação
também evoluiu, sendo cada vez menor a quantidade
de matéria-prima vendida para o exterior na forma de
bloco, aumentando as mais-valias na transformação.
Este caminho, muitas vezes forçado pelas circunstâncias,
fez-se com obstáculos e apenas as empresas com uma
situação financeira sólida puderam resistir.
Se a atividade dos antigos núcleos extrativos evoluiu de
acordo com a tecnologia de extração de transformação,
a sua apetência para fornecer material de qualidade e
em quantidade hoje é muito distinta do que era há 50
anos. A moderna indústria das rochas ornamentais exige
elevados padrões de qualidade, pois o comportamento do
material em obra deve seguir rigorosos padrões técnicos.
Assim, são vários os fatores que influenciam a capacidade
do maciço para fornecer rocha ornamental de qualidade,
tais como a composição mineralógica, textura, estrutura,
grau de fraturação, espessura do material de cobertura
sem interesse comercial, propriedades físico mecânicas,
impacte ambiental e ordenamento do território. Estes
fatores podem ser agrupados em três grandes grupos
relativos ao material, às caraterísticas do maciço e aos
fatores de explorabilidade (Tabela 1). Os dois primeiros
grupos englobam fatores intrínsecos da rocha e não são
suscetíveis de alteração ao longo do tempo, enquanto os
fatores de explorabilidade podem evoluir, facilitando
ou dificultando a atividade extrativa. De nada valerá
a existência de um maciço com boa aptidão para a
produção de blocos se as caraterísticas estéticas das
rochas não tiverem aceitação no mercado ou se a sua
exploração for interdita por questões de ordenamento de
território. Assim, são os fatores de explorabilidade que
ditam a possibilidade de instalar uma unidade extrativa
num dado momento.
TABELA 1
Exemplos de fatores que condicionam a exploração e utilização de rochas ornamentais
Material Afloramento Explorabilidade
Mineralogia Localização Aceitação pelo mercado
Textura Morfologia Distância aos centros de consumo
Heterogeneidade (cor, textura, …) Terrenos de cobertura Infraestruturas industriais
Meteorização Estrutura (estratos, dobras) Ordenamento do território
Propriedades físicas Variação de fácies Impactes ambientais
Propriedades mecânicas Fraturação (tipo, densidade)
Volume disponível
Adaptado de Carvalho et al., 2008; Fort et al., 2010; Sousa, 2010.
À luz destes fatores realiza-se uma avaliação dos
principais núcleos de pedreiras de granito do norte
de Portugal, nomeadamente dos localizados a norte
do rio Douro, referindo os constrangimentos e as
potencialidades. Serão considerados os centros de
produção localizados em Monção-Valença, Ponte de
Lima, Alpendurada-Penafiel, Mondim de Basto, serra da
Falperra (Vila Pouca de Aguiar) e Pedras Salgadas. Para
cada um dos granitos explorados referem-se os principais
fatores condicionantes do seu aproveitamento como
rocha ornamental e as ações que visam o ordenamento
das zonas de exploração.
2. CARATERIZAÇÃO DOS NÚCLEOS DE
EXTRAÇÃO
Nesta seção são enumeradas as caraterísticas dos granitos
e das respetivas pedreiras e são elencados os principais
fatores que condicionam a atividade. Dos granitos
selecionados, três possuem uma coloração amarelo-
-acastanhada (Ponte de Lima, Mondim de Basto e serra
da Falperra) muito valorizada nas últimas décadas,
dois são acinzentados (Alpendurada-Penafiel e Pedras
Salgadas) e um possui tonalidade rosada (Monção-
-Valença) (Fig. 3). Localizam-se em manchas graníticas
de diferentes dimensões e idades, com predomínio das
pós-tectónicas (Fig 4).
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FIGURA 3
Aspeto macroscópico dos granitos e imagens das pedreiras
Sequência: Monção, Ponte de Lima, Alpendurada-Penafiel, Mondim de Basto, serra da Falperra e Pedras Salgadas; granitos - Leite e Moura (2013);
pedreira de Monção-Rodrigues (2009); pedreira de Alpendurada-Penafiel - (https://www.gradul.com/pt/pedreiras).
https://www.gradul.com/pt/pedreiras
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FIGURA 4
Mapa geológico do norte de Portugal com indicação dos núcleos estudados
flanco de encosta. A fracturação é escassa e facilita a
obtenção de blocos com as dimensões desejadas, apesar
de nalguns locais mostrar uma densidade mais elevada.
Moreira (1992) evidenciou as principais famílias de
fraturação observadas no maciço: N20°W-N10°E e N70°-
90°W, sendo menos comuns as famílias N40°-50°E e
N40°-50°W.
Há 8 pedreiras licenciadas, embora seja possível observar
outros espaços intervencionados (Fig. 5). A zona em
questão possui amplas potencialidades para a exploração
de rocha ornamental, de acordo com os dados obtidos
por Moreira (1992) que delimitou as áreas potenciais
representadas na Fig. 5. Os recursos estimados para
essas áreas potenciais ascendem a 34,9x106m3 (Carvalhoet al., 2013).
A utilização do granito nesta região marcou a arquitetura
tradicional, com a utilização de pranchas de granitos
colocadas ao alto, a pasta. As pequenas pedreiras foram
evoluindo em função das necessidades e técnicas de
extração e transformação.
Monção-Valença
Nesta zona é explorado um granito de granulado
grosseiro, porfiróide, dominantemente biotítico, com
megacristais de feldspato potássico que apresentam uma
tonalidade rosada e conferem ao granito uma coloração
caraterística (Fig. 3) (Ribeiro e Moreira, 1986). Trata-se
de uma rocha explorada num maciço granítico tardi a
pós-tectónico que aflora na região de Monção-Valença
e continua para a Galiza. O espaçamento das fraturas
origina uma disjunção paralelepipédica, com formação
de importantes caos de blocos (Moreira e Simões, 1988).
Neste maciço, podem obter-se rochas com diferentes
nuances dentro do tom rosado.
Os af loramentos desde granito apresentam pouca
alteração, por vezes com saibro granítico com cerca de
um metro de espessura, sendo frequentes grandes lajes
e bolas de aspeto e coloração homogéneos. A presença
de nódulos biotíticos, pouco frequentes, e de encraves
metassedimentares, sobretudo perto do contacto com
estas rochas (Moreira, 1992) pode prejudicar o seu
aspeto. As pedreiras situam-se preferencialmente em
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FIGURA 5
Pedreiras licenciadas, zonas com índicos de exploração e áreas potenciais para o núcleo de extração de Monção-Valença
Ponte de Lima
O granito de Ponte de Lima possui granulado médio
e grau variável de alteração meteórica que lhe confere
um aspeto bandado ferruginoso secundário muito
caraterístico e apreciado pelos consumidores (Fig. 3)
(Cevalor, 2014). As propriedades físico-mecânicas são
variáveis em função do estado de meteorização, sendo
recomendado o seu uso para alvenarias, cantarias e
revestimentos, interiores e exteriores.
Os af loramentos desde granito mostram grande
densidade de faturação, obrigando ao aproveitamento
dos pequenos blocos para a obtenção de peças fendidas.
Os recursos estimados para a área potencial delimitada
na Fig. 6 ascendem a 2,3x106m3 (Carvalho et al., 2013),
embora a exploração do granito são, em profundidade,
permita aumentar o tempo de vida das explorações.
As pedreiras localizam-se no flanco de uma encosta
sobranceira ao vale do rio Lima e à autoestrada A3,
constituindo importante impacte visual.
Há 14 pedreiras licenciadas, quase todas dedicadas
à extração de rocha ornamental (Fig. 6). A Câmara
Municipal de Ponte Lima, assumindo o relevo deste setor
extrativo para o desenvolvimento socioeconómico do
município e ciente da importância do ordenamento do
território para a sustentabilidade do setor, implementou,
no âmbito do respetivo Plano Diretor Municipal a
Unidade Operativa de Planeamento e Gestão, UOPG
18 - Plano de Pormenor das Pedreiras das Pedras Finas
– Exploração de Granito.
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FIGURA 6
Pedreiras licenciadas, zonas com índicos de exploração e áreas potenciais para o núcleo de extração Ponte de Lima
As duas pedreiras localizadas mais a norte exploram xisto.
ticos, encraves biotíticos de pequeno tamanho e filonetes
de feldspato rosado constituem as heterogeneidades
presentes (Ornabase). Os blocos explorados possuem
dimensão média e os recursos estimados ascendem a
39,0x106m3 para as áreas potenciais representadas na
Fig. 7 (Carvalho et al., 2013).
Nesta região a exploração de granito assume algum
relevo económico CIMTS (2014). No concelho de Marco
de Canavezes foram identificadas 38 pedreiras licen-
ciadas e o novo PDM possui 510,5 ha de espaços afetos
à exploração de recursos geológicos, contra 542,0 ha
de espaços para indústrias extrativas consignados no
anterior PDM (CMMC, 2015), o que é demonstrativo de
maiores constrangimentos atuais no acesso ao território
por parte deste setor industrial.
Alpendurada-Penafiel
Trata-se de um granito cinzento de duas micas, com
granulado médio e alguns megacristais de feldspato
(Fig. 3), apresentando foliação com direção N25°W
(Ramos et al., 1985). As várias pedreiras da região estão
instaladas no bordo SW do grande maciço de granito
calco-alcalino, tardi a post-tectónico e com orientação
NW-SE, que se estende no NW de Portugal desde a
região de Viana do Castelo até às proximidades de Castro
Daire (Fig. 4).
A nível regional predominam as famílias de fraturas
N35°E e N-S, sendo menos importante a família
N30-60W, embora com variações locais em função da
proximidade a falhas (Ramos et al., 1985). Filões pegmatí-
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
O número de pedreiras licenciadas nos concelhos de
Marco de Canavezes, Penafiel e Cinfães é de 20, muitas
das quais também com produção de agregados como
forma de rentabilizar as zonas do maciço rochoso sem
aptidão para a produção de blocos devido a fraturação
intensa (Fig. 7). Há muitas zonas intervencionadas que
não estão licenciadas.
A localização de unidades extrativas em zonas com uma
grande densidade de núcleos urbanos implica alguma
degradação ambiental e pode causar focos de atrito
com as populações. Outras atividades económicas ou
ocupações do território podem usar esta degradação
ambiental como argumento em seu favor, como é caso
do Plano de Ordenamento da Albufeira de Crestuma-
-Lever que menciona as pedreiras como “atividades
geradoras de degradação e passivo ambiental, e assen-
tam na exploração de recursos não renováveis e com
baixo valor acrescentado para a região” POACL (2004). A
Comunidade Intermunicipal do Tâmega e Sousa, ciente
desta problemática, pretende implementar um programa
para a recuperação destes espaços, procurando
reconstituir os ecossistemas pré-existentes sempre que
possível CIMTS (2014).
Nesta região, como nas outras aqui mencionadas,
coloca-se o problema da continuidade da atividade por
falta de mão-de-obra. Cerqueira (2012) refere que 40%
dos trabalhadores das pedreiras do concelho de Marco
de Canavezes se encontram na faixa etária de 46-55 anos.
A existência de empresas de pequena dimensão,
pouco resilientes a períodos de crise económica e com
pouca adaptabilidade à evolução do mercado, origina
flutuações associadas aos ciclos económicos. No concelho
de Penafiel verificou-se uma diminuição do número de
empresas relacionadas com a indústria extrativa de 40
para 21, entre 2008 e 2016 (CMP, 2018).
FIGURA 7
Pedreiras licenciadas, zonas com índicos de exploração e áreas potenciais para o núcleo de extração de Alpendurada-Penafiel
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Mondim de Basto
O granito de Mondim de Basto é um granito de
duas micas, de granularidade média, por vezes com
megacristais de feldspato, com foliação aproximada
NW-SE (Fig. 3). Como minerais principais, apresenta
quartzo, microclina-pertite, microclina sódica, moscovite
e biotite (Pereira, 1987). O afloramento deste granito
possui forma circular e na sua zona central constitui
uma elevação com forma peculiar - o Monte Farinha. A
coloração caraterística deste granito, com tons amarelo-
-acastanhados, consequência da elevada meteorização
nos níveis superiores do maciço, confere-lhe um elevado
valor comercial.
As fraturas regionais N20°-30°E e N50°-60°E são
as mais frequentes em todo o af loramento, com
apreciável extensão, enquanto a família N-S tem maior
representatividade no setor este do afloramento e a
família N70°-80°W é mais frequente a noroeste do Monte
Farinha (Alves, 2010). A análise do diaclasamento a
nível de pedreira mostra o predomínio de duas famílias
predominantes (N-S e E-W), embora havendo em todas
as direções um número significativo de diaclases (Alves,
2010). Esta variabilidade direcional da fraturação
penaliza a obtenção de blocos com forma cúbica ou
paralelepipédica, que associada aobaixo espaçamento
médio das diaclases, 0,8m, dificulta a extração de
grandes blocos para transformação. Assim, e de modo
a assegurar a viabilidade económica das explorações,
é necessário o aproveitamento dos blocos de pequena
dimensão para obtenção de peças fendidas e serradas.
Há 18 pedreiras licenciadas e também aqui se verifica
haver áreas intervencionadas sem licença de exploração
(Fig. 8). Os recursos estimados ascendem a 7,5x106m3
(Carvalho et al., 2013), que aumentam caso seja
considerado também o granito são, explorado nos níveis
inferiores das pedreiras.
Aumentar as mais-valias na produção é fundamental
para diversificar mercados. Para tal, a Câmara Municipal
de Mondim de Basto está a dinamizar a 1ª edição da
Bienal do Granito, que decorreu entre maio e setembro
de 2019 em Mondim de Basto. Esta iniciativa pretendeu
envolver profissionais, estudantes e artistas na criação de
novos produtos, de modo a favorecer o investimento de
base inovadora e aumentar a diferenciação da produção.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 8
Pedreiras licenciadas, zonas com índicos de exploração e áreas potenciais para o núcleo de extração de Mondim de Basto
Serra da Falperra
O granito extraído nesta região, com a designação
comercial de Amarelo Real, possui grão médio ou médio
a grosseiro, é de duas micas, com predominância da
moscovite, e apresenta tendência porfiroide (Fig. 3). A
composição mineralógica modal é a seguinte: quartzo
(35,8%), feldspato potássico (23,6%), plagioclase (29,3%),
biotite (3,3%), moscovite (7,9%) e apatite (0,1%), que o
classifica como monzogranito (Sousa, 2007). A coloração
amarelo-acastanhada é a caraterística deste granito mais
valorizada pelo mercado.
Os lineamentos observados em fotografia aérea têm
a direção preferencial N30-60W, ocorrendo ainda linea-
mentos de menor expressão com as direções N20-40E
e N70-90E (Sousa, 2007). Com variações pontuais,
verifica-se uma estreita relação entre o diaclasamento
observado nas pedreiras e a fraturação regional. No
seu conjunto, as diaclases observadas nas pedreiras
englobam-se em duas famílias principais: N30-50W e
N20-60E (Santos et al., 2018). Nos afloramentos do granito
Amarelo Real foram obtidos, em quatro estudos
diferentes, valores do espaçamento médio de 1,0 m a
1,5 m (Sousa, 2007; Santos et al., 2018). Estes valores
variam de acordo com a tipologia de locais estudados:
pedreiras, áreas virgens ou áreas selecionadas de acordo
com algumas condicionantes, no entanto os valores do
espaçamento são baixos.
Na impossibilidade de obter granito com a coloração
mais valorizada em profundidade, onde a menor
meteorização confere uma tonalizada acinzentada,
as pedreiras avançam lateralmente, ocupando áreas
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
assinaláveis. Apesar dos blocos de grande volume para
a indústria transformadora serem o produto mais
valorizado, o baixo rendimento de muitas pedreiras
obriga ao aproveitamento dos blocos de menores
dimensão para outros fins. O número de pedreiras
em atividade, cerca de 10, é muito menor do que as
licenciadas, 28 (Fig. 9), com algumas discrepâncias em
relação às áreas intervencionadas. A crise da última
década levou ao encerramento temporário de muitas
unidades extrativas e à diminuição do volume extraído.
Os recursos estimados ascendem a 8,9x106m3 (Carvalho
et al., 2013), tendo em consideração as áreas potenciais
demarcadas na Fig.9. Perante as condicionantes legais
e as caraterísticas geológicas dos afloramentos, Santos
et al. (2018) refere uma quantidade inferior, 2,7x106m3,
considerando apenas a área de reserva. Também neste
caso as reservas serão muito maiores se considerado o
granito menos meteorizado explorado em profundidade.
O rápido crescimento da exploração deste granito levou
à definição da Área de Reserva na serra da Falperra
(Decreto Regulamentar nº6/2009, de 2 de abril), a pri-
meira em Portugal para este tipo de rocha, com uma
área de 1776 ha, englobando os concelhos de Vila Pouca
de Aguiar, Sabrosa e Vila Real. De acordo com o PDM
de Vila Pouca de Aguiar, a área de extração na área da
Falperra deverá constituir uma Unidade Operativa de
Planeamento e Gestão. Um plano de ordenamento e
gestão para toda a área de reserva seria de todo a opção
mais conveniente ao desenvolvimento harmonioso desta
área industrial.
FIGURA 9
Pedreiras licenciadas, zonas com índicos de exploração e áreas potenciais para a área de Reserva da Serra da Falperra
https://dre.pt/application/conteudo/603232
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Pedras Salgadas
Trata-se de um granito leucocrata, biotítico, com alguns
megacristais de feldspato potássico; estas caraterísticas,
aliadas ao grão médio a fino, conferem-lhe propriedades
ornamentais que o tornam um dos granitos portugueses
mais procurados (Fig. 3). A composição mineralógica é
a seguinte: quartzo (33,4%), feldspato potássico (28,4%),
plagioclase (33,2%), biotite (4,3%) e moscovite (0,7%)
(Sousa, 2000).
As pedreiras localizam-se no maciço granítico de Vila
Pouca de Aguiar, pós-tectónico relativamente à terceira
fase da orogenia Hercínica.
A fraturação regional é constituída por três famílias de
falhas: N10°-30°E, N40°-50°W e N60°-80°E. Estas falhas
têm faixas de alteração subparalelas e de largura variável,
podendo atingir 50 metros no caso da primeira família,
paralela ao importante acidente tectónico localizado
1000 m a este da área das pedreiras, a falha Penacova-
-Régua-Verín (Sousa, 2000). Moreira (1999) refere
também as famílias E-W e N30°W. O diaclasamento é
muito variável ao longo do maciço (Moreira, 1999; Sousa,
1995) e nem sempre coincide com a fraturação regional
ao redor das áreas em exploração. Contudo, as principais
famílias de fraturas identificadas na totalidade das
pedreiras englobam-se nas três famílias atrás referidas
(Sousa, 1995; 2000). O espaçamento das fraturas,
observado nas pedreiras em atividade e em áreas virgens,
é muito variável, sendo referidos espaçamentos médios
de 0,5m a 3,8m (Moreira, 1999; Sousa, 2007). Pese
embora a obtenção da informação seja condicionada
pela posição das frentes de trabalho, os dados mostram
a dificuldade em obter blocos de grande dimensão em
todas as pedreiras a todo o tempo (Sousa, 2007).
A parte superior do maciço apresenta uma fraturação
e meteorização muito elevada, em especial devido à
descompressão, inviabilizando a obtenção de blocos
comerciais nos primeiros 10 metros de profundidade
(Moreira, 1999; Sousa, 2000). As pedreiras desenvolvem-se
em flanco de encosta, na fase inicial da extração, e em
profundidade, onde a qualidade do maciço permite obter
mais rendimento.
Há 13 pedreiras licenciadas, embora nem todas em
atividade. Também aqui há áreas intervencionadas que
não se encontram com licença de exploração atribuída.
Os recursos estimados ascendem a 36,7x106m3 (Carvalho
et al., 2013) e foram calculadas em função das áreas
potenciais delimitadas na Fig. 10.
Dada a importância deste núcleo produtor, foi estabelecida
a Área Cativa de Pedras Salgadas (Portaria nº766/94, de
23 de agosto), a primeira em Portugal para este tipo de
rocha, com uma área de 1254 ha. De acordo com o PDM
de Vila Pouca de Aguiar, a área de extração na área da
Falperra deverá constituir uma Unidade Operativa de
Planeamento e Gestão.
https://dre.pt/application/conteudo/218695
https://dre.pt/application/conteudo/218695
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FIGURA 10
Pedreiras licenciadas, zonas com índicos de exploração e áreas potenciais para a área Cativa de Pedras Salgadas
3. AVALIAÇÃO GLOBAL E PROPOSTAS DE
ATUAÇÃO
A exploração dos diferentes granitos é condicionada pelas
condições dos afloramentos, em especial o padrão de
fraturação e o espaçamento das fraturas. Os afloramentos
dos granitos maismeteorizados (Ponte de Lima, Mondim
de Basto e serra da Falperra) apresentam uma maior
densidade de fraturação, resultando daqui um menor
aproveitamento nas pedreiras e consequentemente maior
acumulação de resíduos. Estas condicionantes, aliadas à
necessidade de explorar o granito em níveis superficiais,
levam à evolução das pedreiras dos granitos amarelos em
área e não em profundidade. No entanto, tal expansão
nem sempre é possível, limitando a área disponível para
explorar e consequentemente o volume de reservas. São
estes granitos os que possuem um menor volume de
recursos, de acordo com a avaliação de Carvalho et al.
(2013).
Mesmo nos af loramentos dos restantes granitos a
densidade de fraturação limita a extração de grandes
blocos. Este condicionalismo obriga as empresas a
efetuarem o máximo aproveitamento do granito
extraído, nomeadamente para a produção de peças
fendidas e serradas, as quais podem ser obtidas a
partir de blocos irregulares e/ou de pequena dimensão.
Assim, a capacidade de transformação nas pedreiras
tem aumentado de modo a permitir a sua viabilidade
económica. Não faz sentido, para o caso dos granitos em
apreço, falar de pedreiras viáveis apenas com a produção
de blocos para comercialização. O máximo de mais-
-valias deve ser obtido em unidades de transformação
24
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
localizadas nas pedreiras ou a ela associadas. As empresas
mais resilientes são as que possuem uma capacidade
de transformação instalada que lhes permita suprir
a eventual inconstância na extração da pedreira e
adaptar-se aos ciclos económicos.
A diminuição da atividade económica desde 2008 levou
ao encerramento de muitas unidades, maioritariamente
por incapacidade das empresas procurarem novos
mercados. Alguns estudos setoriais, como por exemplo
AEP (2015) e ANIET (2017), demonstram a necessidade
de investimento, inovação e internacionalização, os
quais apenas poderão ser conseguidos através de uma
cooperação efetiva entre empresas, à semelhança do
que aconteceu em muitas ações realizados no âmbito
do cluster da pedra natural com continuidade no
cluster dos recursos minerais. A reduzida dimensão
da maioria das empresas, com uma capacidade de
extração/transformação limitada, não permite o seu
posicionamento no mercado por falta de capacidade de
resposta. A efetiva cooperação poderá ajudar a colmatar
muitas das lacunas, mas este caminho nem sempre é
fácil de percorrer.
Um aspeto crucial para o desenvolvimento futuro
destes núcleos de extração de granito ornamental são
as condicionantes impostas ao nível do ordenamento do
território. A escassez “artificial” de matéria-prima por
questões de uso do solo/ordenamento do território é uma
nova problemática que afeta as empresas na tentativa
de expansão dos seus negócios junto dos mercados
externos. Com efeito, a contribuição deste setor para o
desenvolvimento económico e social apenas poderá ter
continuidade caso tenha acesso aos locais onde ocorrem
os recursos passíveis de exploração económica.
Mateus et al. (2017) desenvolveram uma metodologia
para a identificação e delimitação dos espaços para os
quais importa a salvaguarda dos recursos minerais nos
instrumentos de ordenamento do território, a fim de que
a esses locais não sejam atribuídos usos ou ocupações que
desnecessariamente inviabilizem a futura exploração dos
recursos minerais. Com base nessa metodologia, assente
no grau de conhecimento existente a diversas escalas
sobre os recursos, Carvalho et al. (2018) mostram que
dos 6 núcleos aqui apresentados, apenas para a Área
Cativa de Pedras Salgadas e para a Área de Reserva da
Falperra existe conhecimento suficiente para justificar
a sua inclusão nos instrumentos de ordenamento do
território, o que aliás está inerente à implementação
dessas mesmas áreas, pois elas constituem servidões
administrativas em sede de ordenamento do território.
Porém, para os restantes núcleos e respetivas áreas de
potencial expansão, a justificação para a salvaguarda dos
recursos aí existentes só poderá ser alcançada através
de um aumento do conhecimento específico sobre esses
mesmos recursos, o que demonstra a necessidade de um
esforço conjunto entre entidades públicas e privadas que
conduza à aquisição desse conhecimento.
Se é certo que as tecnologias inovadoras que têm vindo a
ser implementadas ao nível da extração e transformação
têm contribuído para o aumento da rendibilidade das
pedreiras, também é certo que não poderão suprir por
completo a necessidade de matéria-prima e como tal é
necessário manter o acesso aos locais onde os recursos
existem.
Os impactes ambientais associados à atividade extrativa
devem ser acautelados de modo a evitar a degradação do
meio ambiente até níveis irrecuperáveis. A localização de
pedreiras junto de núcleos urbanos (Fig. 11) aumenta a
perceção destes problemas e potenciais conflitos devem
ser evitados. A avaliação dos impactes ambientais,
obrigatória em muitas situações, permite um controlo
da atividade extrativa. A consulta da base de dados da
Agência Portuguesa do Ambiente (APA) (http://siaia.
apambiente.pt/AIA_Consulta.aspx) permite verificar
o elevado número de pedreiras sujeitas a controlo
ambiental no âmbito do processo de avaliação de impacte
ambiental, incluindo novas pedreiras e ampliações das já
existentes. De acordo com a informação disponibilizada
pela APA, indicam-se de seguida o número de pedreiras
com parecer favorável condicionado e o ano do processo
mais antigo para os concelhos onde se localizam as
pedreiras em análise: Monção 4 (2004); Valença 2 (2014);
Marco de Canavezes 1 (2008); Vila Real 1 (2009); Sabrosa
13 (2005); Vila Pouca de Aguiar 19 (1998); Mondim de
Basto 14 (2006); Penafiel 2 (2011). Os dados apresentados
incluem também um número residual de pedreiras
dedicadas à extração de inertes. Cumpridas as medidas
de minimização de impactes ambientais e os planos de
monitorização, estão reunidas as condições para evolução
do estado do ambiente dentro dos limites estabelecidos
aquando do licenciamento. No caso das pedreiras
localizadas em núcleos de extração, com várias unidades
próximas entre si, poderá haver benefícios em realizar
a recuperação ambiental e a monitorização de modo
integrado. No entanto, para que tal seja possível, deverão
ocorrer alterações no processo de avaliação ambiental.
http://siaia.apambiente.pt/AIA_Consulta.aspx
http://siaia.apambiente.pt/AIA_Consulta.aspx
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 11
Concentração de pedreiras junto a núcleos urbanos
Apresentam-se de seguida os pontos fortes, pontos
fracos, oportunidades e ameaças para os principais
núcleos produtores de granitos ornamentais no norte de
Portugal. Dadas as diferenças entre os diferentes núcleos,
apresentam-se os principais pontos em comum com base
na avaliação antes efetuada por AEP (2015), ANIET
(2017) e BES (2014), tendo em consideração também as
unidades de transformação associadas à extração.
PONTOS FORTES
A importância do setor para a economia nacional e
regional - Esta importância advém do emprego, da
criação de riqueza e aproveitamento dos recursos naturais
locais, em áreas por vezes em risco de despovoamento.
A existência de matéria-prima diversificada e com
caraterísticas reconhecias pelo mercado, facilita o
aproveitamento dos vários granitos. Os municípios
reconhecem a importância desta atividade.
O reconhecimento da qualidade dos produtos - A
tradição na exploração/transformação do granito é uma
imagem de marca do norte de Portugal. Poucos são os
países com operários qualificados capazes de trabalhar
tão bem a pedra como os portugueses.
A integração nas fileiras dos recursos minerais e da
construção civil - Os produtos da produção/transforma-
ção criam dinâmicas de desenvolvimento nas fileiras de
outros setores, quer a montante quer a jusante. Deve
referir-se tambémas atividades económicas indireta-
mente associadas ao setor, em especial os serviços, que
assumem maior importância em zonas frágeis do ponto
de vista económico e social.
A capacidade de ajustamento das empresas às alterações
do mercado e a internacionalização - É particularmente
importante nos períodos de menor atividade económica
para as empresas de maior dimensão.
PONTOS FRACOS
Ausência de cooperação empresarial – Devido à reduzida
dimensão das empresas, é urgente que a cooperação seja
efetiva de modo a promover vantagens competitivas,
através do efeito de escala e pela complementaridade
da oferta. Também na internacionalização, a ausência
de cooperação limita o crescimento nos mercados
internacionais e leva a ações redundantes por parte de
várias empresas e sem o efeito desejado.
Falta de investimento na inovação - Sem uma aposta
na investigação torna-se mais difícil a criação de valor
na oferta. Há alguma dificuldade em incorporar design
na transformação da pedra, desperdiçando o know-how
existente. A inovação também pode e deve englobar
ações relativas às ações de minimização dos impactes
ambientais, em especial nas zonas onde há uma pressão
maior sobre o meio ambiente devido à densidade de
unidades produtoras.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Acesso aos mercados internacionais - A reduzida dimensão
da maioria das empresas e a falta de informação
e/ou impreparação, determinam uma incapacidade
de realizar uma internacionalização bem-sucedida. A
dependência de determinados clientes e/ou mercados,
torna a internacionalização frágil e sem capacidade de
adaptação à evolução mercado.
A dimensão das empresas - A reduzida dimensão da
maioria das empresas é muitas vezes um entrave para a
promoção do investimento e do crescimento estrutural.
Quando dependentes de capitais alheios as empresas
mostram fragilidades que impedem o seu crescimento
para enfrentarem os desafios de um mercado cada vez
mais exigente.
O envelhecimento dos recursos humanos - A forte
tendência para a diminuição do número de efetivos e seu
envelhecimento contribuem para a perda de qualificação
empresarial no saber trabalhar a pedra durante o
processo extrativo e, sobretudo, durante o processo de
transformação.
OPORTUNIDADES
Aproveitar a oferta integrada do setor das rochas orna-
mentais - O setor português das rochas ornamentais
apresenta no seu todo uma imagem internacional forte,
devendo as empresas usar essa imagem positiva. Por
outro lado, a cooperação entre empresas permitirá tirar
partido da complementaridade da oferta.
O aumento da procura global - A utilização da pedra
natural mantém uma trajetória de crescimento, existindo,
portanto, oportunidades de crescimento nos mercados
internacionais. As oportunidades de crescimento,
sobretudo nos países mais desenvolvidos e com maiores
exigências em termos de produtos certificados, onde
a pedra natural portuguesa mantém uma imagem de
qualidade, devem ser aproveitadas.
Aproveitar as vantagens da economia digital - As
facilidades oferecidas pelos meios digitais, quer para os
contactos comerciais quer para o marketing, devem ser
aproveitadas pelas empresas. As ferramentas digitais
potenciam o contacto e a promoção da atividade da
empresa, a divulgação dos produtos, o acompanhamento
personalizado das obras em curso e os serviços pós-venda.
AMEAÇAS
Concorrência internacional - Nas últimas décadas a
produção aumentou em países terceiros, sobretudo
baseada numa política de preços baixos difícil de
combater. As empresas portuguesas devem colocar os
seus produtos baseados na qualidade, em produtos
inovadores e numa política comercial mais agressiva.
Instabilidade financeira - Os períodos de instabilidade
financeira mundial não permitem criar um ambiente
adequado à recuperação económica e ao investimento no
mercado da construção imobiliária e em obras públicas.
Produtos substitutos - As pedras naturais têm concorrência
feroz de outros substitutos, em especial os produtos
cerâmicos.
À semelhança das típicas análises às cadeias de valor
de sistemas produtivos, os estudos antes referidos e nos
quais se baseia esta caraterização da fileira dos granitos,
tomam como certo o pressuposto da existência infinita
de recursos, olvidando que os recursos minerais são
finitos e não renováveis. Se para o presente caso da fileira
dos granitos, a questão não se coloca tanto ao nível da
disponibilidade de recursos, ela coloca-se ao nível das
condições de acessibilidade ao território, tal como antes
referido. Nesse sentido, a presente análise carece, ao nível
das ameaças ao setor, da referência aos constrangimentos
decorrentes do ordenamento do território.
A resolução de muitos problemas atrás enumerados
dependem das empresas e da sua capacidade de resposta
a um mercado cada vez mais exigente. As propostas que
se seguem dizem respeito a questões de ordenamento da
atividade e de política de aproveitamento dos recursos
geológicos, transversais, portanto, a todos os núcleos
de extração.
Os núcleos de extração e respetivas áreas de expansão
devem ser alvo de estudos que permitam um aumento
do conhecimento sobre os recursos existentes de tal
modo que permitam justificar adequadamente a sua
integração em sede de planeamento territorial, em
contraponto às justificações para outros usos e ocupações
do território que inviabilizem a sua exploração. Por outro
lado, os núcleos de extração mais importantes deverão
ser eles próprios objeto de ordenamento de pormenor
através das figuras legais existentes para o efeito,
nomeadamente os Planos de Intervenção em Espaço
Rural. Este ordenamento deverá considerar não só as
valências geológicas, mas também considerar as valências
ambientais e sociais. Devido à sua vocação marcadamente
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
industrial, estas áreas devem ser consideradas como
uma unidade autónoma para efeitos de ordenamento do
território. Tal como já efetuado para outros locais (e.g.
Falé et al. 2006, Carvalho et al., 2014, Carvalho et al.,
neste volume), a sua demarcação deverá ser suportada
por estudos de âmbito geológico, ambiental e social que
permitam a elaboração de propostas de ordenamento
baseadas na aptidão geológica do território e sua
ponderação com os fatores ambientais e sociais.
Assim, os núcleos onde se verifica uma concentração
de unidades extrativas deverão ser considerados como
Unidades Operativas de Planeamento e Gestão, tal como
já se verifica nalguns municípios, devendo o respetivo
ordenamento ter os seguintes objetivos gerais, adaptados
a cada caso: a integração e articulação das diferentes
entidades de modo a compatibilizar os diferentes
interesses em presença; a valorização da matéria-prima
e a otimização da sua exploração de modo racional;
a valorização e requalificação ambiental; a criação de
pequenas áreas com capacidade edificatória e redes de
infraestruturas que sirvam as indústrias aí localizadas; a
elaboração de uma estratégia integrada de recuperação
das áreas já exploradas, onde se deve proceder à
recuperação paisagística e ambiental; a definição de
orientações para futuros licenciamentos.
O estabelecimento de áreas com valências específicas
para a exploração de recursos geológicos, neste caso
granito ornamental, poderá ser equacionada em alguns
destes núcleos, à semelhança do que acontece nas áreas
onde exploram o granito de Pedras Salgadas (Área
Cativa de Pedras Salgadas - Portaria nº 766/94, de 23
de agosto) e o granito da serra da Falperra (Área de
Reserva na serra da Falperra (Decreto Regulamentar
nº6/2009, de 2 de abril). O processo de definição
destas áreas classificadas para a exploração de recursos
geológicos deveria, ad initium, considerar as outras
valências do território e os valores ambientais a defender,
delimitando as áreas suscetíveis de serem exploradas e
evitando posteriores incompatibilidadesidentificados
na fase de licenciamento. Não tendo isso sido feito, mais
se realça a necessidade da implementação das Unidades
Operativas de Planeamento e Gestão e respetivos planos
de ordenamento de pormenor.
A comparação dos dados relativos às pedreiras com
licença de exploração e do número de pedreiras em
atividade mostra uma diferença assinalável. Deverá o
recurso geológico estar “reservado” até que haja uma
decisão de exploração por parte de quem possui os
direitos para tal, ou ser introduzido um mecanismo
de salvaguardada para tal situação? Pensamos que este
assunto merece uma discussão entre as entidades com
responsabilidade nesta temática.
O conhecimento da realidade no terreno, com dados
estatísticos que dependem da boa vontade das empresas em
fornecerem dados fidedignos, está longe de ser a perfeita.
A falta de colaboração pró-ativa dos agentes económicos
obriga a que novas soluções sejam consideradas, com
utilização das tecnologias de informação presentemente
disponíveis para cruzamento de dados e informações
relativos à produção/transformação/exportação.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
No norte de Portugal são explorados granitos com
caraterísticas texturais e cromáticas distintas. Nas
últimas décadas o número de unidades extrativas nos
granitos amarelos, Ponte de Lima, Mondim de Basto e
serra da Falperra, aumentou de forma significativa. Estes
granitos, conjuntamente com os granitos de Monção,
Alpendurada-Penafiel e Pedras Salgadas, constituem os
principais núcleos de extração de granitos do norte de
Portugal, tendo sido identificadas um total 101 pedreiras
licenciadas. A quase totalidade das pedreiras dedica-se
à produção de rocha ornamental, desde blocos para
posterior transformação até às peças fendidas.
O setor da extração e transformação dos granitos
constitui uma importante atividade económica, em
regiões em risco de despovoamento. A tradição na
exploração e transformação do granito é uma imagem
de marca do norte de Portugal, no entanto a falta de
atratividade desta atividade leva que muitas empresas
sintam dificuldades em contratar mão-de-obra. Esta
situação tenderá a agravar-se rapidamente, pois é muito
alta a faixa etária dos trabalhadores no ativo.
O número de pedreiras ativas é muito inferior ao
das que possuem licença de exploração, embora esta
avaliação resulte da realidade observada nos núcleos
de extração, não havendo um registo fidedigno das
áreas em exploração ativa. Refira-se que os dados
oficiais apontam para um total de 111 pedreiras de
granito ativas em Portugal (DGEG, 2018), logo as 101
identificadas nos núcleos agora estudados não poderão
estar todas ativas. A crise económica que de forma mais
https://dre.pt/application/conteudo/218695
https://dre.pt/application/conteudo/218695
https://dre.pt/application/conteudo/603232
https://dre.pt/application/conteudo/603232
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
evidente marcou a última década, levou à inatividade
de muitas pedreiras, cujo retoma se assegura difícil. O
controlo da atividade nas pedreiras, avaliada em termos
de volume extraídos nas frentes de lavra e depositado
nas escombreiras poderá ser facilmente realizado com
o recurso a meios aerofotogramétricos (p.ex. drones),
com a vantagem de muitas pedreiras se localizarem
contiguamente ou próximas umas das outras. Poderá,
assim, haver uma avaliação em tempo real dos volumes
extraídos, da legalidade das áreas intervencionadas e da
situação das pedreiras.
Os núcleos de extração e áreas de expansão deverão
ser alvo de estudos para obtenção de conhecimento que
justifique a demarcação das áreas de aptidão geológica
e a sua integração em ordenamento do território. Essa
integração deverá ser alcançada através de Unidades
Operativas de Planeamento e Gestão (UOPG) e respetivo
plano de ordenamento. Este, adaptado a cada caso,
deverá considerar a compatibilização das diferentes
valências do território e a valorização e requalificação
ambiental das áreas degradadas, entre outras julgadas
pertinentes.
As áreas potenciais de exploração de granito avaliadas
em trabalhos publicados recentemente pecam por falta
de rigor devido à insuficiência dos dados geológicos
disponíveis (Carvalho et al., 2013, 2018). Por essa razão,
essas áreas esbarram com limitações decorrentes de
condicionantes ao uso do território (Santos et al., 2018).
Pretende-se continuar esta primeira avaliação dos
granitos do norte de Portugal com uma análise dessas
condicionantes para os seis núcleos.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
RESUMO
No Maciço Calcário Estremenho ocorre, desde há décadas, uma intensa atividade de extração de blocos de calcário
para fins ornamentais. Dos condicionalismos de ordenamento do território, designadamente pelo facto dessa atividade
decorrer num espaço territorial consignada para a proteção da natureza – o Parque Natural das Serras de Aire e
Candeeiros, resultaram numerosas e prolongadas situações de conflito pelo uso do território. Por um lado, os naturais
anseios de desenvolvimento do setor industrial, por outro, o cumprimento dos objetivos de conservação da natureza.
Visando o estabelecimento de equilíbrios para a resolução da conflitualidade nos principais núcleos de exploração
consignados no Plano de Ordenamento daquele parque natural, desenvolveu-se um projeto com o objetivo específico
Exploração Sustentável de Recursos no Maciço Calcário Estremenho
Jorge M. F. Carvalho
Laboratório Nacional de Energia e Geologia, Unidade de Recursos
Minerais e Geofísica
Email: jorge.carvalho@lneg.pt
Jorge Cancela
Biodesign, Ambiente e Paisagem, Lda.
Email: cancela.jorge@gmail.com
Cristina Martins
Biodesign, Ambiente e Paisagem, Lda.
Email: cristinamartins@biodesign.pt
Palavras Chave: Maciço calcário estremenho, calcários ornamentais, valoração biológica, ordenamento do território.
Daniel Pires
Estudos e Divulgação em Ambiente, Lda.
Email: dpires@biota.pt
Sónia Malveiro
Estudos e Divulgação em Ambiente, Lda.
Email: smalveiro@biota.pt
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
de encontrar mecanismos conducentes à compatibilização da gestão e exploração racional dos recursos em calcários
ornamentais com a conservação da natureza, no âmbito dos planos municipais de ordenamento do território.
Com base nos resultados alcançados, para cada uma das cinco áreas estudadas foi apresentada uma proposta de
ordenamento na qual foram considerados quatro fatores determinantes para a decisão: a existência de áreas de
ocorrência de calcários com aptidão ornamental, áreas com altos e excecionais valores ecológicos, património geológico
de valor relevante e áreas anteriormente recuperadas do ponto de vista ambiental.
1. INTRODUÇÃO
No desenvolvimento de estratégias nacionais o orde-
namento do território é uma ferramenta tática para a
reconciliação dos interesses públicos e privados no que
ao uso do território diz respeito. Quando se considera
a necessidade de assegurar o fornecimento de matérias
primas minerais à sociedade está-se perante uma questão
pública, sejam essas matérias primas do domínio privado
ou público. Como os recursos minerais apenas podem ser
extraídos nos locais onde ocorrem, o ordenamento do
território é a ferramenta apropriada para a salvaguarda
desses recursos, inibindo a ocupação do território por
usos ou atividades que desnecessariamente impeçam a
sua exploração.
Neste contexto, o Maciço Calcário Estremenho (MCE)
representa um caso paradigmático dessa necessidade
de reconciliação de interesses. Grande parte da sua
área está sujeita a um regime de proteção da natureza
por intermédio do Parque Natural das Serras de Aire
e Candeeiros (PNSAC). Na respetiva área integram-
-se 5 núcleos principais de pedreiras onde, desde há
décadas, se desenvolve uma importante atividade de
extração de blocos de calcário que se destinam ao setor
de transformação de rochas ornamentais. Trata-se de
uma atividade determinante para o desenvolvimento
socioeconómico de toda a região, com repercussão a
nível nacional. Os dados mais recentes correspondem
ao ano de 2017 e apontam a produção aproximada de
1 milhão de toneladas, correspondentes a uma riqueza de
cerca de 60 milhões de euros (Fonte: DGEG - Estatística
de Recursos Geológicos da DSEF-RG).
Desde a criação do PNSAC e como resultado da neces-
sidade de licenciamento de novas áreas para exploração
dos recursos minerais, fruto do esgotamento das áreas
licenciadas e da inexistência de áreas alternativas consig-
nadas em instrumento de gestão do territóriocom uma
tipologia de uso compatível com este tipo de atividade,
foram numerosos os conflitos que ocorreram durante
mais de três décadas entre os objetivos de conservação
da natureza e de desenvolvimento da atividade extrativa.
A tomada de consciência da necessidade de compatibilizar
diferentes realidades, ou seja, por um lado, a proteção da
qualidade ambiental e conservação dos valores naturais,
por outro, o aproveitamento dos recursos minerais,
aproveitamento esse com forte impacto económico e
social a nível nacional, deu lugar a um processo de
reconciliação que culminou com a execução de um
projeto destinado a encontrar pontos de equilíbrio
para a gestão eficiente dos espaços onde a atividade
extrativa se encontra em desenvolvimento. Os resultados
obtidos permitiram encetar um processo formal de
compatibilização dos interesses instalados para o uso do
território que atualmente se encontra no início da sua
fase de implementação efetiva.
O presente trabalho visa dar conta, de forma sumária,
sobre o caminho percorrido e sobre a metodologia geral
aplicada à implementação de uma proposta de plani-
ficação territorial e ambiental dos principais espaços
afetos à indústria extrativa das rochas ornamentais na
área do PNSAC, designadamente os núcleos de Cabeça
Veada, Codaçal, Moleanos, Pé da Pedreira e Portela
das Salgueiras. Essa metodologia envolveu uma fase
de caraterização biofísica detalhada de cada um destes
espaços. Pelo caráter determinante para a definição
do modelo territorial, é feito destaque à caraterização
geológica e à avaliação ambiental dos valores naturais
de âmbito biológico.
2. O CONTEXTO GEOLÓGICO E A INDÚSTRIA
EXTRATIVA
2.1. O maciço calcário estremenho
O MCE (Figura 1) foi definido por A. Fernando Martins
(1949) enquanto unidade geomorfológica constituída
essencialmente por rochas calcárias que se elevam acima
33
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
da Bacia Terciária do Tejo, da Plataforma Litoral e da
Bacia de Ourém. É parte integrante da região central da
Bacia Lusitaniana (BL), a qual corresponde a uma bacia
intracratónica no bordo Oeste da microplaca Ibérica. O
seu desenvolvimento está associado ao período distensivo
que levou à abertura do norte do Oceano Atlântico
durante o Mesozoico. Está limitada por acidentes
longitudinais herdados da Orogenia Varisca e apresenta-
-se compartimentada transversalmente por acidentes
orientados NE-SW e W-E, também eles de herança
varisca e cuja atuação se reflete ao nível da distribuição
e espessura das fácies sedimentares. A partir do final do
Cretácico a sua evolução foi condicionada pela tectónica
compressiva alpina cujos efeitos maiores se fizeram sentir
durante o Miocénico (Wilson et al., 1989; Ribeiro et al.,
1990; Pinheiro et al., 1996; Pais et al., 2012; Kullberg
et al., 2013).
FIGURA 1
Mapa geológico simplificado do MCE e principais unidades geomorfológicas
(adaptado de Carvalho (2018).
Falhas principais: 1- Falha dos Candeeiros, 2- Falha de Moleanos, 3- Falha Rio Maior-Porto de Mós, 4- Falha da Mendiga,
5- Falha de Alvados, 6- Falha de Minde, 7- Falha de Reguengo do Fetal, 8- Cavalgamento do Arrife.
34
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
A morfologia do MCE está condicionada pela natureza
calcária das rochas que o compõem, ref letindo o
desenvolvimento de uma morfologia cársica bem
característica e bastante diversificada. As formas de
exocarso mais frequentes e notórias são as depressões
fechadas de tipo dolina ou uvala, os poljes, dos quais
o de Minde é o mais representativo, os vales secos e
os extensos campos de lapiaz. A rede de drenagem
superficial é praticamente inexistente, predominando a
drenagem subterrânea. Esta realiza-se por uma também
grande diversidade de formas, desde pequenas fissuras
a largas galerias subterrâneas. As conhecidas grutas
que ocorrem neste maciço são o testemunho de antigas
galerias de escoamento. Atualmente, esse escoamento
subterrâneo dá lugar a um reduzido número de nascentes
principais na periferia do MCE, das quais se destacam
os Olhos de Água do Alviela e do Almonda, as nascentes
dos rios Lena e Liz e ainda as nascentes de Chiqueda
(Figura 2).
FIGURA 2
Principais nascentes na periferia do MCE
a) Olhos de Água do Almonda, b) Nascentes de Chiqueda, c) Nascente do Lena, d) Nascente do Liz, e) Olhos de Água
do Alviela.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
A arquitetura do MCE resulta fundamentalmente da
movimentação tectónica das diversas falhas que o afetam
e estrutura-se em 3 regiões elevadas que se encontram
separadas por duas depressões alongadas (Figura 1):
• A Serra dos Candeeiros, orientada NNE-SSW,
encontra-se separada do Planalto de Santo António
pela Depressão da Mendiga. Esta também se apresenta
orientada segundo NNE-SSW e está associada à Falha
da Mendiga. Ao longo da Serra dos Candeeiros,
truncando o seu bordo oriental, distingue-se o
alinhamento tectónico diapírico de Rio Maior – Porto
de Mós – Batalha.
• O Planalto de Sto. António está separado do Planalto
de S. Mamede e Serra de Aire por um alinhamento
NW-SE denunciado pelas depressões de Alvados e
Minde, as quais estão condicionadas pelo sistema
de falhas escalonadas com o mesmo nome. A Serra
de Aire, estruturalmente associada ao Planalto de
S. Mamede, apresenta uma orientação NE-SW e
constitui a região mais elevada de todo o MCE.
A litostratigrafia do MCE está bem estabelecida a partir
do trabalhos de Manuppella et al. (1998, 1999) e Azerêdo
(2007). Os afloramentos datam do Hetangiano ao Plio-
cénico, contudo, a maioria corresponde a rochas carbo-
natadas do Jurássico Médio e Superior. As do Jurássico
Médio afloram, sobretudo, nas unidades morfostruturais
elevadas e compreendem calcários de cores claras que se
formaram em diferentes paleoambientes de um sistema
deposicional em rampa carbonatada (Azerêdo, 1998,
2007). As formações do Jurássico Superior afloram nas
regiões deprimidas e integram argilitos, arenitos e,
maioritariamente, margas e calcários de cores cinzen-
tas a castanho-claras que se depositaram em ambientes
continentais a marinhos pouco profundos sob condições
de subsidência controlada por falhas (Alves et al., 2003;
Kullberg et al., 2013).
No MCE ocorrem também rochas ígneas. São pouco
abundantes e estão dispersas por todo o Maciço, à
exceção da Serra de Aire e Planalto de São Mamede.
Maioritariamente estão associadas a falhas de orientação
NW – SE a WNW – ESSE, mas são também de realçar as
que ocorrem ao longo do acidente de Rio Maior – Porto
de Mós segundo NNE – SSW (Figura 1).
Os principais acidentes tectónicos que dominam o MCE
correspondem a falhas orientadas segundo três direções
principais: NNE-SSW, NW-SE e NE-SW. Estiveram ativas
durante o período distensivo Jurássico e foram reativadas
sob a forma de desligamentos e cavalgamentos durante
os episódios de compressão Alpina (Carvalho, 2013;
Kullberg et al., 2013). Para além de alguns dobramentos
apertados nas proximidades dos cavalgamentos, os
estratos no MCE apresentam-se sub-horizontais, em
associação com dobras amplas ou blocos ligeiramente
basculados.
2.2. A indústria extrativa no MCE
Os calcários ornamentais são explorados no MCE em
algumas dezenas de pedreiras, mas, a maioria delas está
agrupada em seis núcleos de exploração principais (Fi-
gura 3): Casal Farto, Cabeça Veada, Codaçal, Moleanos,
Pé da Pedreira e Portela das Salgueiras. Com exceção do
primeiro dos núcleos referidos, todos os restantes estão
inseridos na área do PNSAC.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 3
Mapa litostratigráfico simplificado do MCE com localização dos núcleos de exploração de calcários ornamentais
(adaptado de Carvalho & Lisboa (2018)).
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 4
Vista parcial de pedreiras noMCE
a) pedreiras em flanco de encosta no núcleo do Codaçal. b) pedreiras em poço no núcleo de Moleanos.
Os blocos comercializados correspondem a prismas
retangulares com dimensões na ordem de 2.8 m x 1.8 m
x 1.5 m. Dependendo da litologia mas também do modo
como é feito o corte dos blocos em chapas, são muitas
as variedades ornamentais provenientes do MCE: se o
corte é feito paralelamente à estratificação ou laminação
sedimentar resulta uma variedade com um padrão
textural diferente daquele que se obtém se o corte for
realizado perpendicularmente. Apesar disso e das muitas
designações com que as rochas são comercializadas, a
maioria pode ser englobada num número reduzido de
variedades ornamentais principais (Figura 5).
A alguns dos núcleos representados no mapa da Figura 3
corresponde, na realidade, apenas uma pedreira, como
é o caso dos núcleos de Boleiros e de Vale da Cruz. Nem
todas as pedreiras estão em atividade, sendo esse o caso
das pedreiras nos núcleos de Alcaria e Alvados, entre
outras inseridas nos restantes núcleos. Estas situações
de inatividade poderão corresponder a situações de
abandono, lavra suspensa ou, ainda, exploração sazonal.
Tipicamente, as explorações desenvolvem-se em
flanco de encosta e compreendem um ou mais pisos
de desmonte, totalizando alturas máximas na ordem
dos 50 m. Em Casal Farto e em Moleanos a exploração
desenvolve-se em poço.
FIGURA 5
Principais variedades ornamentais do MCE de acordo com a sua designação comercial
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Na grande maioria dos núcleos de exploração, as rochas
exploradas fazem parte de unidades litostratigráficas
do Jurássico Médio, designadamente da Formação de
Santo António – Candeeiros, integrando os membros
de Codaçal, de Pé da Pedreira e de Moleanos (Azerêdo,
2007). No geral, correspondem a calcarenitos e
calcirruditos biocalciclásticos de cor creme claro, com
textura marcada de forma mais ou menos intensa por
diversos tipos de laminações sedimentares (Tabela 1). A
sua deposição ocorreu numa plataforma carbonatada em
ambiente de alta energia (Azerêdo, 1998). O núcleo de
Moliana explora uma variedade conhecida por Brecha
de Santo António. Terá resultado de processos locais de
dolomitização dos calcários do Membro de Moleanos,
tendo sofrido posteriormente de dolomitização.
Localmente, nos núcleos de Alvados e Monsanto, são
explorados os calcários micríticos da Formação de Serra
de Aire. Correspondem a situações particulares em
que bancadas relativamente espessas destes calcários
estão afetadas por uma densa rede de estilólitos e de
veios irregulares de calcite resultantes de deformação
tectónica associada a dobras de arraste. Desses núcleos
é proveniente uma variedade comercial conhecida
genericamente por Alpinina. O núcleo de Alcaria,
donde é proveniente uma variedade comercial conhecida
por Pedra Bicho, corresponde a uma outra situação
particular na Formação de Serra de Aire: localiza-se
sobre duas unidades lumachélicas lenticulares, com
espessura até 1,5 m e de extensão espacial restrita.
Apenas em 3 núcleos as rochas exploradas integram
rochas do Jurássico Superior, designadamente da
Formação de Montejunto (núcleos de Cadoiço e Portela)
e duma unidade que integra as formações de Cabaços
e Montejunto indiferenciadas (núcleo de Covão Alto)
(Figura 3). Correspondem a calcilutitos de cor cinzenta
a creme, por vezes margosos.
TABELA 1
Principais caraterísticas das unidades litostratigráficas produtoras de calcários ornamentais no MCE
Unidade Espessura Espessura das camadas Facies Dominante Cor Textura
Formação
Serra de Aire Até 400 m
0.05 m - 0.50 m, Esporadica-
mente>1 m.
Mudstones e wackestones
oncolíticos, peloidais e
bioclásticos.
Creme
Variável de camada para
camada, sem laminações
sedimentares evidentes.
Membro de
Codaçal 120 m
Corpos de calcarenitos empilha-
dos com espessura 0.5 m – 3 m,
localmente até 20 m.
Grainstones e rudstones
bioclásticos, oolíticos e
litoclásticos.
Creme claro
Feixes tabulares decimétricos
a métricos maciços alternan-
tes com feixes de laminações
paralelas e oblíquas de baixo
ângulo.
Membro de Pé
da Pedreira Até 130 m
Corpos de calcarenitos empilha-
dos com espessura 0.5 m – 6 m,
localmente até 20 m.
Packstones, grainstones e
rudstones bioclásticos,
litoclásticos e peloidais.
Creme a
creme claro
Feixes de estratificação
entrecruzada decimétricos a
métricos.
Membro de
Moleanos 150 m
Corpos de calcarenitos empilha-
dos com espessura 0.5 m – 6 m,
localmente até 10 m.
Grainstones e rudstones
bioclásticos, litoclásticos e
peloidais.
Creme
Feixes de estratificação
entrecruzada decimétricos a
métricos.
Formação de
Montejunto Até 700 m 0.5 m – 1 m, localmente até 2 m.
Mudstones e wackestones
peloidais e litoclásticos,
por vezes margosos.
Creme ou
cinzento
escuro
Variável de camada para
camada, localmente com
laminações sedimentares.
2.3. O PNSAC e a Indústria Extrativa
Grande parte do MCE encontra-se abrangido por um
regime de conservação da Natureza que se traduz por
aí ter sido implementado o Parque Natural das Serras
de Aire e Candeeiros (Decreto-Lei n.º118/79 de 4 de
maio), de acordo com a delimitação apresentada no mapa
da Figura 6. Esta implementação teve como objetivo
primordial proteger os aspetos naturais associados à
morfologia cársica daquele que é considerado o mais
importante repositório nacional de formações calcárias,
à natureza do coberto vegetal, à rede de cursos de água
subterrâneos e a uma fauna específica de que se destaca
a cavernícola. A existência de habitats específicos, como
as lajes e vertentes calcárias, levou, inclusive, à sua
integração na Rede Natura 2000 (Sítio PTCON0015 –
Serras de Aire e Candeeiros).
https://dre.pt/application/conteudo/382832
https://dre.pt/application/conteudo/382832
39
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
de estudos geológicos de avaliação pormenorizada das
potencialidades em rochas ornamentais na área do
PNSAC. Esses estudos, realizados por parte do extinto
Instituto Geológico e Mineiro, incidiram sobre os
principais núcleos de extração de blocos, nomeadamente
os núcleos de Moleanos, Pé da Pedreira e Alvados
(Carvalho, 1996, 1997, 1998) e os de Cabeça Veada
e do Codaçal (Quartau, 1998, 2000). Para além de
corroborarem a aptidão de tais espaços para a exploração
de rochas ornamentais, vieram revelar potencialidades
superiores às previstas, incluindo o aumento das áreas
dos espaços em que tais recursos ocorriam.
Tais resultados, associados a um forte incremento da
atividade extrativa devido à intensa procura destes
calcários por parte do mercado chinês no início do
presente século, incremento esse muitas vezes de modo
desordenado, despoletaram o aumento da conflitualidade
e intensas discussões que conduziram à necessidade de
um processo de revisão do plano de ordenamento do
PNSAC que incluísse espaços especificamente designados
para a indústria extrativa de calcários ornamentais.
Culminaram com a publicação, em 2010, do novo Plano
de Ordenamento do PNSAC (RCM n.º 57/2010 de 12 de
agosto), no qual se demarcaram áreas envolvendo os
principais núcleos de exploração de rochas ornamentais
visando a compatibilização da atividade nesses núcleos
com os pressupostos de conservação da natureza
inerentes ao PNSAC. Em grande parte, a delimitação
de tais espaços teve em atenção os estudos geológicos
anteriormente mencionados.
O novo Plano de Ordenamento do PNSAC (POPNSAC)
definiu a área abrangente desses núcleos como Áreas
de Intervenção Específica (AIE), de acordo com a
sua representação na Figura 6. Devido ao seu caráter
essencialmente programático no que à indústria extrativa
diz respeito, neste plano preconizou-se que essas áreas
deveriam ser alvo de Planos Municipais de Ordenamento
do Território que objetivassem a implementação de
medidas de compatibilização entre a gestão racionaldos recursos e a conservação dos valores ambientais,
salvaguardando que também poderiam ser abrangidas
por projetos integrados de exploração. Eficientemente
anteviu-se a situação atual em que está em curso a
modificação do Plano de Ordenamento em Programa
de Ordenamento do PNSAC, ficando cometidas aos
municípios as responsabilidades pela implementação
e gestão do modelo de ocupação territorial através dos
O primeiro plano de ordenamento do PNSAC data de
1988 (Portaria n.º 21 de 12 de janeiro). Estabeleceu
um zonamento para o qual, relativamente às Zonas
de Conservação da Natureza e Zonas de Paisagem
Protegida, se colocaram grandes entraves à extração de
inertes e quaisquer alterações ao relevo, seja por aterro
ou escavação, não tendo sido devidamente ponderadas
nem consideradas as potencialidades do território para
outros usos, designadamente as atividades económicas
aí instaladas.
FIGURA 6
O limite do PNSAC e Áreas de Intervenção Específica para a
indústria extrativa no POPNSAC
Esses entraves colidiram fortemente com os interesses da
indústria extrativa instalada na área do PNSAC desde
os anos 70 e que entrou em franco desenvolvimento
em meados da década seguinte, em particular no que
respeita às explorações de calcários ornamentais devido
à conjugação de um período de expansão económica com
avanços tecnológicos no setor extrativo. Da necessidade
de assegurar o suprimento do mercado das rochas
ornamentais e dos naturais anseios de crescimento
industrial, resultaram numerosas situações de conflito
pelo uso do território aquando da atribuição de novas
licenças de exploração e da regularização das existentes
por motivos de expansão das áreas licenciadas.
Os primeiros passos para o estabelecimento de
equilíbrios na resolução dos conflitos existentes foram
dados pelos órgãos de gestão do PNSAC na década de
90. Tiveram como pressuposto a necessidade de conhecer
a efetiva aptidão do território nas áreas sujeitas a maior
pressão e consistiram, fundamentalmente, na promoção
https://dre.pt/application/conteudo/342856
https://dre.pt/application/conteudo/342856
https://dre.pt/application/conteudo/583813
40
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
instrumentos de ordenamento vinculativos de entidades
públicas e particulares.
Com efeito, o sistema de gestão territorial nacional
desenvolve-se, no essencial, em duas vertentes. Uma
vertente de natureza estratégica implementada por
programas nacionais e regionais que vinculam as
entidades públicas. Outra, de natureza regulamentar,
implementada por planos intermunicipais e municipais,
os quais estabelecem o regime de uso do solo definindo
os modelos de ocupação territorial e que vinculam as
entidades públicas e particulares. A nível municipal
considera-se o Plano Diretor Municipal, os planos de
urbanização e os planos de pormenor. É no âmbito
dos planos de pormenor, designadamente através de
Planos de Intervenção em Espaço Rústico que se prevê
o enquadramento das AIE para a indústria extrativa
do PNSAC no contexto do sistema de ordenamento do
território nacional.
3. O PROJETO EXPLORAÇÃO SUSTENTÁVEL
DE RECURSOS NO MCE
Visando o cumprimento dos objetivos de compatibili-
zação da gestão e exploração racional dos recursos em
calcários ornamentais na área do PNSAC com a con-
servação da natureza através de planos municipais de
ordenamento do território, foi implementado o projeto
Exploração Sustentável de Recursos no Maciço Calcário
Estremenho no âmbito do Projeto Âncora 2 – Sustenta-
bilidade Ambiental da Indústria Extrativa, integrante
do Programa de Ação do Cluster da Pedra Natural (CE-
VALOR, 2009).
Este projeto teve como pressupostos que o aproveitamen-
to e a potenciação dos recursos em rochas ornamentais,
a par com outros fatores caraterísticos do MCE, em
particular o seu património natural, podem constituir
um importante elemento de valorização económica e
contribuir para uma melhor aceitação (que não a sim-
ples tolerância) da indústria extrativa, situando-a num
patamar em que surja não só como fator de desenvolvi-
mento económico mas, correspondendo às expectativas
atuais de preservação ambiental e bem-estar social, surja
também como fator de identitário e de autoestima do
território em que se insere.
O projeto foi executado no período 2011 - 2014 através de
uma parceria inédita entre a ASSIMAGRA - Associação
Portuguesa dos Industriais de Mármores, Granitos e
Ramos Afins e o ICNF – Instituto da Conservação da
Natureza e das Florestas, IP. Ainda de forma inédita,
esta parceria contou com a colaboração estreita de enti-
dades públicas (Direção Geral de Energia e Geologia,
Laboratório Nacional de Energia e Geologia, IP e
municípios de Alcobaça, Porto de Mós, Rio Maior e
Santarém), um centro tecnológico, entretanto extinto
(CEVALOR - Centro Tecnológico para o Aproveitamento
e Valorização das Rochas Ornamentais e Industriais) e
empresas privadas de consultadoria (Visa Consultores,
Lda. e Biodesign, Lda.).
Visando contribuir para o planeamento e integração da
atividade extrativa de rochas ornamentais do MCE em
sede de Ordenamento do Território, como caminho a
percorrer para a melhoria do seu desempenho econó-
mico e ambiental, através do aumento da sua eficiência
e diminuição dos seus impactos, este projeto procurou:
• A definição de estratégias para o desenvolvimento
sustentável do sector extrativo;
• A criação de informação de base de âmbito geológico
e ambiental para o planeamento integrado das AIE
previstas no POPNSAC;
• A caraterização qualitativa e quantitativa das condições
hidrogeológicas do aquífero do MCE e sua monitori-
zação, visando a avaliação da sua vulnerabilidade face
à indústria extrativa;
• A inventariação, caraterização e proposta de gestão
do vasto património geológico e mineiro em torno
das rochas ornamentais, visando a sua valorização
conjunta como marcas identitárias da região;
• Um Programa de Comunicação e Sensibilização
para a valorização da atividade extrativa a par com a
conservação do património natural;
• A definição e implementação de um painel de
indicadores de aproveitamento sustentável para
a quantificação e monitorização do desempenho
ambiental, económico e social da atividade extrativa
no MCE.
Ao nível do contributo para a integração em Ordenamento
do Território, o projeto teve como principais resultados
a planificação territorial e ambiental das 5 Áreas de
Intervenção Específica, a elaboração de um projeto de
exploração integrada para cada uma delas, acompanhado
do respetivo Estudo de Impacto Ambiental e um plano
geral de gestão de resíduos de extração.
41
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 7
Esquema geral da elaboração do Plano de Intervenção em Espaço Rústico para cada uma das AIE
A planificação ambiental e territorial de cada área
desenvolveu-se através de 8 Planos de Intervenção em
Espaço Rústico (PIER) e respetivas avaliações ambientais
estratégicas, pois algumas das Áreas de Intervenção
Específica abrangem mais do que um município (Tabela
2). A sua elaboração envolveu diversas etapas, conforme
o esquema geral que se apresenta na Figura 7.
TABELA 2
Distribuição da área de cada AIE por concelho
AIE
Porto de Mós Santarém Alcobaça Rio Maior
Área (ha) % Área (ha) % Área (ha) % Área (ha) %
Cabeça Veada 26 90 3 10
Pé da Pedreira 548 40 826 60
Portela das Salgueiras 40 63.5 23 36.5
Codaçal 98 100
Moleanos 147 100
3.1. A planificação territorial e ambiental
3.1.1. Metodologia
A extração de rochas ornamentais carece de estudos
geológicos de base que possam suportar a eficiente
exploração e valorização dos recursos existentes. De
modo a que isso possa ser realizado numa perspetiva
ecológica, há que, simultaneamente, levar a cabo ações
de caraterização ambiental que permitam, em conjunto
com os estudos anteriores, contribuir instrumentalmente
para o ordenamento do território das áreas de explora-ção, designadamente com a distinção entre áreas com
concreta aptidão geológica e áreas passíveis de rea-
bilitação ambiental e requalificação territorial. Neste
pressuposto, a planificação territorial e ambiental das
cinco AIE seguiu o esquema metodológico apresentado
na Figura 8 em que se destacam duas etapas principais:
uma de caraterização e diagnóstico e outra correspon-
dente à elaboração de uma proposta de ordenamento.
Os estudos de caraterização e diagnóstico executaram-se
a três níveis:
• Análise dos Instrumentos de gestão territorial, a
fim de garantir a compatibilidade e conformidade
com os instrumentos de hierarquia superior e
suportar proposta de alterações ao regime de
proteção ambiental em vigor nas AIE definidos pelo
POPNSAC;
• Servidões e restrições de utilidade pública, a fim de
identificar as suas consequências e procedimentos
administrativos;
• Caraterização biofísica tendo em vista o estabeleci-
mento de um zonamento tradutor da conciliação entre
a exploração dos recursos, os valores ecológicos e a
sensibilidade ambiental.
42
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
A caraterização biofísica suportou-se em estudos de cariz
geológico e ambiental. Os primeiros centraram-se na
caraterização dos recursos em calcários ornamentais
e na delimitação das áreas mais favoráveis à sua
exploração para cada uma das 5 AIE – Áreas de Aptidão
Geológica. Envolveram, a par com a caraterização dos
litotipos aflorantes, cartografia geológica detalhada à
escala 1:2000, pois essa é a escala requerida legalmente
para a elaboração dos PIER. Os trabalhos geológicos
envolveram ainda a realização de sondagens com
recuperação contínua de testemunho, a fim de validar
e complementar as interpretações geológicas, e o
levantamento genérico da fraturação do maciço rochoso.
Ainda no âmbito geológico, mas já integrados na
componente de caraterização ambiental, foram
realizados estudos hidrogeológicos com o objetivo de
caraterizar e modelar os recursos hídricos subterrâneos
nas diferentes áreas, com particular destaque no que
respeita à avaliação da sua vulnerabilidade. Devido às
especificidades próprias do PNSAC, designadamente
no que respeita aos seus objetivos de conservação e
valorização do património geológico no seu sentido lato,
procedeu-se também à inventariação e caraterização
dos sítios geológicos, mineiros e geomorfológicos com
interesse patrimonial.
Quanto aos estudos ambientais, estes compreenderam a
caraterização dos solos, biologia, clima, recursos hídricos
superficiais, paisagem, qualidade do ar e ruído. Tendo
em conta que as áreas em estudo se situam numa área
FIGURA 8
Etapas e componentes de informação obtida para a elaboração de proposta de ordenamento das AIE
protegida abrangida pela Diretiva Aves, dedicada à
conservação das aves que vivem naturalmente no estado
selvagem, e pela Diretiva Habitats que visa a conservação
dos habitats naturais e das espécies da flora e da fauna
selvagens ameaçadas, a maior ênfase recaiu sobre a
caraterização biológica, nomeadamente sobre o estudo e
caraterização da flora e vegetação, habitats e fauna. Estas
componentes ecológicas foram alvo de um processo de
valoração de acordo com a metodologia utilizada pelo
ICNF nos planos de ordenamento das áreas protegidas,
tendo-se efetuado as adaptações consideradas necessárias
em função da realidade e escala das áreas em estudo.
A sistematização e gestão dos dados obtidos foi executada
num sistema de informação geográfica, o que permitiu
o estabelecimento de uma interação dinâmica entre
as diversas temáticas através do entrecruzamento dos
diversos níveis de informação. Dessa interação, em
particular entre a ponderação dos valores biológicos
e da aptidão geológica para a produção de rochas
ornamentais, resultaram propostas de ordenamento
territorial para cada uma das AIE.
3.1.2. Resultados
3.1.2.1. Aptidão geológica
Como resultado da cartografia geológica levada a
cabo nas 5 AIE foram produzidos os respetivos mapas
geológicos à escala 1:2000, dos quais aqui se apresentam
43
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Esta unidade Calcários Ornamentais é constituída,
genericamente, por calcários biolitoclásticos pelóidicos
de granularidade fina a grosseira e cimento sparítico
(packstones, grainstones e rudstones biointraclásticos
pelóidicos). Apresentam cor creme de tom mais ou menos
claro e uma grande diversidade de texturas marcadas
por laminações paralelas, oblíquas e entrecruzadas
mais ou menos evidentes. Contudo, essas laminações
estão organizadas em feixes de espessura decimétrica
a métrica, assim possibilitando que sejam obtidos
blocos texturalmente homogéneos e com dimensões
comercializáveis. Algumas variedades texturais (tipo
de laminação e granulometria) são mais caraterísticas
de umas áreas do que de outras, sendo essa a principal
razão subjacente às diferentes designações atribuídas
comercialmente aos calcários ornamentais do MCE.
FIGURA 10
Mapa geológico simplificado da AIE Pé da Pedreira com indicação
da área de aptidão geológica
versões simplif icadas e redimensionadas. Para a
nomenclatura das unidades estratigráficas utilizaram-se
as designações informais utilizadas localmente neste
setor industrial a fim de que os mapas possam ser
melhor compreendidos pelos respetivos técnicos. Não
se deixou, contudo, de estabelecer uma correlação
cronostratigráfica detalhada e, deste modo, possibilitar
correlação com a geologia regional.
Nas AIE de Cabeça Veada (Figura 9), Pé da Pedreira
(Figura 10) e Portela das Salgueiras (Figura 11), os
calcários ornamentais correspondem a uma mesma
unidade litostratigráfica – o Membro de Pé da Pedreira
da Formação de Sto. António – Candeeiros – datada
do Jurássico Médio, mais concretamente do Batoniano
superior (Azerêdo, 2007). Trata-se de uma unidade
lenticular, descontínua, com uma espessura máxima
que chega a atingir os 130 m em Cabeça Veada. Em
Pé da Pedreira a espessura é de 40 m e em Portela das
Salgueiras é de 105 m.
FIGURA 9
Mapa geológico simplificado da AIE Cabeça Veada com indicação
da área de aptidão geológica
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 11
Mapa geológico simplificado da AIE Portela das Salgueiras com
indicação da área de aptidão geológica
Nas 3 áreas referidas, os Calcários Ornamentais estão
enquadrados acima e abaixo por bancadas pouco
possantes de calcários micríticos (mudstones e wackstones),
mais ou menos bioclásticos e pelóidicos. Apresentam cor
creme de tonalidade variável. Localmente estes calcários
são denominados por Vidraços do Topo e Vidraços da
Base, respetivamente. Formalmente, correspondem à
Formação de Serra de Aire, de idade Batoniano, a qual é
equivalente lateral da Formação referida anteriormente,
interdigitando-se com os Calcários Ornamentais.
No que respeita à AIE Codaçal (Figura 12), os calcários
ornamentais correspondem a um empilhamento
de corpos maciços de calcários com espessuras que
podem atingir os 20 m. Em termos composicionais são
semelhantes aos das AIE antes referidas, mas com uma
componente oolítica ao nível dos elementos figurados
e cor creme de tons mais claros. Estão referenciados
no mapa da Figura 12 pelas designações comerciais de
Semi Rijo.
Estes calcários passam lateralmente e inferiormente a
calcários com fraca aptidão ornamental, designadamente
a Unidade da Base que se desenvolve essencialmente
para Norte e o Margaço que se desenvolve para Sul. O
conjunto constituído por estas duas unidades juntamente
com os calcários ornamentais é conhecido por Calcários
do Codaçal e tem uma espessura total que chega a
atingir os 120 m. Porém, as variedades com interesse
ornamental não ultrapassam os 80 m de possança total
devendo, contudo, ser considerada uma possança média
à volta dos 55 m devido às variações laterais de fácies
atrás mencionadas. Estão datados do Batonianoinferior
e formalmente correspondem ao Membro de Codaçal da
Formação de Sto. António – Candeeiros.
FIGURA 12
Mapa geológico simplificado da AIE Codaçal
com indicação da área de aptidão geológica
Os Calcários do Codaçal estão enquadrados acima por
uma unidade de Vidraços do Topo que correspondem
aos mesmos calcários micrítico descritos para as AIE
anteriores. Inferiormente estão limitados por uma
unidade a que se atribuiu a designação Lajes e Vidraços.
Esta integra o Membro de Vale da Serra da Formação
de Chão de Pias (Bajociano superior). Localmente
apresentam aptidão para a produção de lajes.
Na AIE de Moleanos (Figura 13), a unidade Calcários
ornamentais é, em termos genéricos, semelhante às
anteriores. Corresponde ao Membro de Moleanos
da Formação de Sto. António – Candeeiros, também
45
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
datado do Jurássico Médio, mas agora do Caloviano.
Trata-se de uma unidade muito espessa, mas incerta,
atingindo provavelmente os 200 m (Azerêdo, 2007). Na
área em causa os Calcários Ornamentais ultrapassam
os 100 m. São frequentes alguns níveis lenticulares de
calcários micríticos (vidraços) no seu interior em posições
estratigráficas distintas. Estão limitados inferiormente
pelos Vidraços da Base, os quais também integram o
Membro de Moleanos.
Superiormente os Calcários Ornamentais estão limitados
por uma unidade que se designou por Vidraços do Topo.
Correspondem a afloramentos do Jurássico Superior
constituídos por calcários mais ou menos margosos,
de cores cinzentas e castanhas. Sobre todo o conjunto
ocorrem depósitos recentes eluvionares mais ou menos
consolidados e constituídos por fragmentos bastante
angulosos de calcário. A sua espessura é reduzida, mas
bastante irregular, podendo alcançar a dezena de metros.
Estes depósitos são conhecidos localmente por Resmo.
FIGURA 13
Mapa geológico simplificado da AIE Moleanos
com indicação da área de aptidão geológica
Nos mapas geológicos das AIE também está representada
a área com aptidão para a exploração dos calcários
ornamentais. Para além do evidente condicionalismo
pela área de afloramento destes calcários, a sua definição
teve ainda em conta a existência de recurso em calcários
ornamentais sob rocha estéril. Estas áreas de aptidão
geológica serviram de base à delimitação das áreas com
efetivo potencial mineiro a considerar como áreas de
escavação no projeto de exploração integrado de cada
uma das AIE.
3.1.2.2. Avaliação ambiental
Os dados que suportaram a avaliação ambiental
resultaram de trabalhos de inventariação e caracterização
a partir de informação existente e levantamentos de
campo complementares. A recolha de informação incidiu
na identificação de:
• Espécies de flora, com relevância para as detentoras
de caráter conservacionista;
• Habitats, reconhecidos a partir das unidades de
vegetação e espécies de flora;
• Espécies de fauna, particularmente das mais relevantes
para o contexto ecológico local;
• Biótopos e comunidades faunísticas associadas, reco-
nhecidos a partir da cartografia dos habitats e do uso
do solo, nomeadamente de locais importantes para as
espécies de maior relevância ecológica.
Identificadas, caraterizadas e cartografadas as áreas
correspondentes a estas componentes ecológicas, elas
foram alvo de um processo de valoração em separado
para as componentes habitats/flora e biótopos/fauna a
fim de se obterem zonamentos de valoração distintos,
traduzidos por cartas de valores florísticos e cartas de
valores faunísticos para cada uma das áreas. Da agregação
dos resultados obtido para cada componente, resultaram
os mapas de valoração biológica que se apresentam
na Figura 14 em que o valor do património natural é
refletido numa escala de relevância ecológica variável
entre Baixa e Excecional. Importa notar nesta figura que
relativamente à AIE de Pé da Pedreira unicamente estão
representadas as classes de valoração correspondentes
à área de aptidão geológica para a produção de blocos.
46
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 14
Mapas de Valoração Ecológica
Áreas de: a) Cabeça Veada, b) Codaçal, c) Moleanos, d) Pé da Pedreira
(apenas na área de aptidão para blocos) e e) Portela das Salgueiras.
Da análise dessa tabela é evidente que, com exceção da
AIE Moleanos, para as restantes a classe de relevância
ecológica Excecional corresponde aos espaços dos habitats
Lajes Calcárias e de Vertentes calcárias e aos espaços
ocupados por espécies de flora relevantes. Em Moleanos,
os habitats Lajes calcárias e Vertentes calcárias não têm
expressão espacial.
Quanto à classe de relevância Alta verifica-se a sua atri-
buição aos espaços ocupados pelos habitats naturais mais
frequentes na área em estudo, desde que com elevada
expressão espacial e incluindo habitats prioritários da
Rede Natura 2000.
Já no que respeita às classes de Baixa e Média relevân-
cia ecológica e tal como seria de esperar, é evidente
a correspondência, na sua maior parte, com as áreas
artificializadas pelas pedreiras, designadamente as
escavações e as escombreiras. Efetivamente, foram estas
áreas artificializadas aquelas que foram categorizadas
com relevância ecológica Baixa, a par com outras zonas
em que a percentagem de ocupação por habitats natu-
rais é muito reduzida. As áreas de relevância ecológica
Média correspondem aos espaços com percentagens de
cobertura medianas de habitats naturais que apresentam
ampla expressão no PNSAC, como é o caso dos Carras-
cais e Matos Baixos Calcícolas, nos quais não tenham
sido identificadas espécies relevantes para a conservação.
TABELA 3
Elementos diferenciadores das classes de relevância ecológica Excecional e Alta para as áreas em estudo
no respeitante à componente habitats/flora
Relevância Ecológica Excecional Relevância Ecológica Alta
Cabeça Veada
- Lajes calcárias e Vertentes calcárias
- Áreas com núcleos populacionais das espécies Silene longicilia e
Saxifraga cintrana
- Zonas com dominância dos habitats naturais mais frequentes na
área em estudo em percentagens de cobertura elevadas, incluindo
os habitats prioritários Prados Rupícolas e Subestepes de Gramíneas
Codaçal
- Lajes calcárias e vertentes calcárias
- Áreas com núcleos populacionais das espécies Narcissus calcicola,
Arabis sadina, Silene longicillia, Saxifraga cintrana e Inula montana
- Zonas com dominância dos habitats naturais mais frequentes na
área em estudo em percentagens de cobertura elevadas, incluindo o
habitat prioritário Prados Rupícolas e os matos e ambientes florestais
Moleanos
- Áreas com núcleos populacionais de Silene longicilia - Zonas onde estão concentrados os habitats florestais
Pé da Pedreira
- Lajes calcárias e Vertentes calcárias
- Áreas com núcleos das espécies Narcissus calcícola, Arabis sadina,
Saxifraga cintrana e Inula montana
- Zonas com dominância dos habitats naturais mais frequentes na
área em estudo em percentagens de cobertura elevadas, incluindo
os habitats prioritários Prados Rupícolas e Subestepes de Gramíneas
Portela das Salgueiras
Lajes calcárias e Vertentes calcárias
Áreas com núcleos da espécie Narcissus scaberulus subsp. Calcícola
Zonas com dominância dos habitats naturais mais frequentes na áreaem estudo em percentagens de cobertura elevadas, incluindo os habitats
prioritários Prados Rupícolas e Subestepes de Gramíneas
No que respeita aos resultados da componente
habitats/flora, que envolveu a valoração e zonamento
individualizado para habitats e espécies, a Tabela 3
sintetiza os elementos diferenciadores dos espaços
valorados nas classes de relevância ecológica Excecional
e Alta para cada uma das AIE. Esta classificação foi
efetuada de maneira a refletir a importância dos habitats
e das espécies mais valoradas no contexto do PNSAC.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
A valoração ecológica dos biótopos foi efetuada de
maneira a refletir a importância dos biótopos mais
valorados em função das 50 espécies de fauna mais
relevantes associadas a cada um deles. Assim, a classe
de relevância ecológica Alta foi atribuída aos espaços
ocupados por estes biótopos mais valorados. Em todas as
AIE esses espaços de relevância Alta têm correspondência
com os biótopos Prados e Matos Rasteiros e Ambientes
Rochosos, correspondendo a classe de relevância Média
aos espaços ocupados pelos restantes biótopos ou ainda
pelos anteriores quando estes apresentam uma expressão
espacial muito reduzida. As zonas artificializadas
correspondem à classe de relevância Baixa.
A classe Excecional ficou reservada para os locais
considerados prioritários para o abrigo e nidificação
de espécies com grande interesse de conservação no
contexto do PNSAC, designadamente os morcegos e a
Gralha-de-Bico-Vermelho. Tais espaços correspondem
essencialmente a cavidades rochosas de caráter pontual,
razão pela qual se considerou um buffer de proteção
com 200 m de diâmetro para a maioria das situações
identificadas.
Importa notar que as áreas avaliadas se localizam numa
área protegida reconhecida como Parque Natural,
pelo que os resultados da valoração aplicada devem
ser interpretados nesse contexto, devendo-se ter em
consideração que as áreas que obtiveram menor valor
no exercício de valoração poderão ser áreas com elevado
valor de conservação no contexto regional e nacional.
3.1.2.3. Ordenamento
A estratégia de ordenamento para cada uma das AIE
baseou-se na apresentação de uma proposta de transfor-
mação do uso do solo compatível com as condicionantes e
aptidões de cada uma delas, numa perspetiva sustentável
das atividades humanas e da sua relação com o território.
Dos trabalhos de caraterização e avaliação das potencia-
lidades geológicas resulta como evidência uma forte
aptidão de cada uma das AIE para a produção de blocos
de calcário para fins ornamentais, isto é, uma forte
aptidão para o uso do solo por parte da indústria
extrativa. Por outro lado, os estudos de caraterização
e avaliação dos valores naturais, designadamente os
de âmbito biológico, mostram a existência de áreas
bastante relevantes ecologicamente, por vezes com
caráter excecional. A estes valores naturais somam-se
ainda outros, não abordados no presente trabalho, mas
que respeitam ao património geológico. Com efeito,
verifica-se a ocorrência de locais onde este tipo de valores
se revela bastante relevante no contexto dos objetivos
de conservação do PNSAC, pelo que importa a sua
consideração no modelo de ordenamento a implementar.
A estes três fatores identificados como determinantes
para a proposta de ordenamento – aptidão geológica
para a produção de rochas ornamentais, valores
biológicos de relevância ecológica excecional e alta
e património geológico – junta-se um quarto fator
decorrente do regulamento do POPNSAC e que respeita
às Áreas Recuperadas identificadas no seu Anexo III.
Tratam-se de áreas anteriormente afetas à indústria
extrativa que foram alvo de recuperação ambiental e
para as quais o regulamento do POPNSAC prevê a sua
conservação.
Perante este conjunto de fatores determinantes para o
modelo de ordenamento de cada AIE, coloca-se a questão
fundamental de resolver qual o peso de cada um deles.
Para responder a esta questão, três diferentes cenários
foram considerados:
• Dar primazia à valorização do território pela sua aptidão
geológica para a produção de calcários ornamentais,
ou seja, um cenário que vise a maximização do
processo extrativo;
• Dar primazia à valorização do território pelos recursos
naturais nele existentes, ou seja, em que os valores de
excecional e alta relevância ecológica suplantam os
interesses da indústria extrativa;
• Contemplar a compatibilização da aptidão geológica
para a extração de rochas ornamentais com os resulta-
dos da valoração dos recursos biológicos, a qual deverá
ser alcançada com o estabelecimento de medidas de
compensação.
No contexto do POPNSAC, o qual contempla e delimita
as Áreas de Intervenção Específica para a indústria
extrativa, a decisão caiu claramente sobre o terceiro
cenário, pois este preconiza um modelo territorial que
impõe a valorização o território pela atribuição do seu
uso a uma atividade que gera impactos significativos,
mas que também impõe a minimização e compensação
desses impactos.
Neste sentido, implementou-se uma metodologia de atri-
buição do uso da terra de acordo com o diagrama que se
apresenta na Figura 15. Da aplicação desta metodologia,
resultaram os mapas de propostas de ordenamento para
cada uma das AIE que se apresentam na Figura 16.
48
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Importa ressalvar que no mapa correspondente à pro-
posta de ordenamento para a AIE de Moleanos não foi
tido em conta, como condicionante ao uso do território,
o limite urbano aí existente, por este se encontrar em
fase de revisão.
FIGURA 16
Proposta de Ordenamento para as AIE
a) Cabeça Veada, b) Codaçal, c) Moleanos, d) Pé da Pedreira (apenas
na área de aptidão para blocos) e e) Portela das Salgueiras.
FIGURA 15
Diagrama metodológico empregue para o ordenamento territorial das Áreas de Intervenção Específica
Nas propostas de ordenamento para cada uma das
AIE, os espaços indicados como preferenciais para a
conservação da natureza têm correspondência com
todos os espaços onde não existem recursos em rochas
ornamentais. Excetuam-se os locais de ocorrência de
geossítios com valor excecional e que por esse motivo
deverão ser preservados, independentemente da
existência de recursos em rochas ornamentais.
Relativamente aos espaços onde foram identificados
recursos em rochas ornamentais passíveis de exploração,
classificaram-se como compatíveis com a indústria
extrativa, desde que sujeita a medidas de compensação,
aqueles coincidentes com a ocorrência de valores
ecológicos de relevância excecional ou alta, bem como
os coincidentes com geossítios sem relevância excecional
e as áreas recuperadas.
Quanto aos espaços onde existem recursos em calcá-
rios ornamentais passíveis de exploração e que estão
indicados como compatíveis com a indústria extrativa,
têm correspondência com os espaços cuja relevância
ecológica é média ou baixa e com as áreas licenciadas
para a exploração.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Projeto Exploração Sustentável de Recursos no MCE
teve como objetivo maior contribuir para o aumento da
competitividade da indústria extrativa de rochas orna-
mentais num contexto de valorização da matéria-prima
e dos valores ambientais caraterísticos daquela região do
território nacional. Para o efeito, foi desenvolvido segun-
do um processo metodológico assente numa estratégia
de compatibilização da exploração racional dos recursos
com a conservação dos valores naturais.
Uma componente fundamental desse processo foi a
elaboração de um modelo de ordenamento do território
a aplicar a cada uma das Áreas de Intervenção Específica
do POPNSAC que teve por base a identificação dos fatores
considerados críticos para a decisão, nomeadamente a
existência de recursos com aptidão para a produção
de rochas ornamentais, valores biológicosexcecionais
e altos, áreas recuperadas e património geológico
relevante. No essencial, tal modelo preconiza a afetação
à conservação da natureza de todos os espaços onde não
se verifica a existência de recursos minerais passíveis de
exploração e que os restantes espaços são compatíveis
com a indústria extrativa, desde que sujeita a medidas de
compensação ambiental quando na presença de valores
ecológicos com relevância excecional ou alta. A expressão
espacial desse modelo resultou na elaboração de uma
proposta de ordenamento para cada uma das áreas.
Todo o projeto foi desenvolvido holisticamente. As
propostas de ordenamento territorial, integradas em
PIERs e respetiva Avaliação Ambiental Estratégica, estão
acompanhadas por projetos integrados de exploração,
respetivos planos de recuperação ambiental e paisagística
e, ainda, por um plano geral de gestão de resíduos. No
seu todo, constituíram o suporte instrumental para os
procedimentos de Avaliação de Impacto Ambiental.
A chave para o seu sucesso assentou no desenvolvimento
de parcerias entre as entidades diretamente envolvidas,
os agentes nacionais, regionais e locais com responsabi-
lidades ao nível do ordenamento do território e ao nível
da gestão dos recursos geológicos e os industriais do
setor das rochas ornamentais através da sua participação
financeira direta.
Espera-se que este modelo de atuação possa ser replicado
para outras regiões, nomeadamente aquelas onde se
verifica a necessidade de valorizar os recursos minerais
e aumentar a competitividade do setor extrativo de um
modo sustentável tanto do ponto de vista social como
ambiental. Em particular, a metodologia de ordenamento
desenvolvida pode constituir-se como uma referência
para outras situações, adaptando-se às especificidades
de cada uma. De modo efetivo, mostra um caminho para
compatibilizar territorialmente a atividade extrativa e a
conservação dos valores naturais, mesmo se inserida em
áreas sujeitas a regimes de proteção ambiental, como
é o caso dos parques naturais e da Rede Natura 2000.
50
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
RESUMO
A extração de inertes no Maciço Calcário Estremenho, em particular na área abrangida pelo Parque Natural das
Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC), é uma atividade secular ligada à vida das gentes que povoaram esta região,
que fundamentalmente a partir dos finais dos anos 80 do século passado ganhou nova dinâmica e se transformou
numa atividade económica de grande expressão e com relevo em termos nacionais e internacionais.
A gestão da atividade extrativa tornou-se assim num dos desafios mais importantes ao nível da gestão do PNSAC, dada
a necessidade de conciliar a exploração de um recurso natural não renovável (e com forte impactos sobre os valores
e a paisagem), com a salvaguarda e valorização do património natural, cultural e paisagístico desta área protegida.
Gestão Sustentável da Indústria Extrativa no Parque Natural
das Serras de Aire e Candeeiros
Manuel Duarte
Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros
E-mail: manuel.duarte@icnt.pt
Palavras Chave: Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, indústria extrativa, Plano de Ordenamento, exploração
de massas minerais, recuperação de áreas degradadas, património geológico.
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Boletim de Minas, 54 - Tema emDestaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
A EXPLORAÇÃO DE MASSAS MINERAIS NO
PARQUE NATURAL DAS SERRAS DE AIRE E
CANDEEIROS
A extração de inertes no Maciço Calcário Estremenho
(MCE), em particular na área abrangida pelo Parque
Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC), é
uma atividade secular ligada à vida das gentes que
povoaram esta região, que fundamentalmente a partir
dos finais dos anos 80 do século passado ganhou nova
dinâmica e se transformou numa atividade económica
de grande expressão e com relevo em termos nacionais
e internacionais.
Assim, de atividade predominantemente artesanal com
ritmos de exploração relativamente baixos, esta atividade
passou para um grau de mecanização e automatização
que incutiram um ritmo de exploração muito mais
acelerado, que obrigou à adoção de estratégias que
garantam a sua compatibilização com a salvaguarda do
património natural e cultural dos territórios onde ocorre.
A gestão da atividade extrativa tornou-se assim num dos
desafios mais importantes ao nível da gestão do PNSAC,
dada a necessidade de conciliar a exploração de um
recurso natural não renovável (e com forte impacto sobre
os valores e a paisagem), com a salvaguarda e valorização
do património natural, cultural e paisagístico desta área
protegida.
Deste modo, a legislação aplicável ao PNSAC para o setor
da indústria extrativa foi sempre inovadora relativamente
à legislação que foi sendo elaborada para a pesquisa e
exploração de massas minerais.
Assim, o primeiro Plano de Ordenamento1 (PO) do
PNSAC sujeitou o licenciamento das pedreiras a parecer
prévio desta área protegida, através da apresentação e
aprovação do respetivo plano de recuperação paisagística
e do estabelecimento de uma garantia bancária que
permitisse a recuperação da área afetada, o que para o
resto do país só aconteceu a partir de 19902.
O Regulamento do POPNSAC previa ainda a apresentação
de um “estudo de impacte ambiental, segundo normas
a estabelecer pela direção do Parque” em situações
particulares.
1 Portaria n.º 21/88, de 12 de janeiro.
2 Decreto-Lei n.º 89/90, de 16 de março.
Com a revisão do POPNSAC em 20103, verificou-se
que neste setor de atividade, o plano foi também mais
além do previsto na legislação vigente para a pesquisa e
exploração de massas minerais (pedreiras)4.
Assim, o POPNSAC atualmente em vigor, estabelece os
regimes de salvaguarda de recursos e valores naturais
e fixa o regime de gestão a observar na sua área de
intervenção, com vista a garantir a conservação da
natureza e da biodiversidade, a geodiversidade, a
manutenção e a valorização da paisagem, a melhoria da
qualidade de vida e o desenvolvimento económico das
populações locais.
De igual modo, é objetivo do POPNSAC a requalificação
das áreas degradadas ou abandonadas, nomeadamente,
através da renaturalização e recuperação de habitats
naturais.
Assim, o Regulamento do POPNSAC veio criar novas
regras quanto à instalação e ampliação de exploração
de massas minerais nas áreas passíveis de licenciamento,
destacando-se as seguintes:
• Novas Explorações de Massas Minerais -
recuperação de área de igual dimensão, de outra
exploração licenciada ou de outra área degradada,
independentemente da sua localização no PNSAC, e
autorizada pelo Instituto da Conservação da Natureza
e Florestas, I.P. (ICNF);
• Ampliação Explorações de Massas Minerais -
recuperação de uma área de outra exploração licenciada
ou de outra área degradada, independentemente da
sua localização no PNSAC, e autorizada pelo ICNF,
nos seguintes termos:
- Nas explorações de massas minerais com área
superior a 1 ha, até 10% da área licenciada, sendo
que à área de ampliação acresce a área entretanto
recuperada;
- Nas explorações de massas minerais com área in-
ferior ou igual a 1 ha, até 15% da área licenciada,
sendo que à área de ampliação acresce a área en-
tretanto recuperada;
- As ampliações podem contemplar uma área
superior ao estipulado, desde que os planos de
pedreira considerem o faseamento da lavra e
recuperação, de modo a cumprir com o previsto
nas alíneas anteriores.
3 RCM n.º 57/2010, de 12 de agosto.
4 Decreto-Lei n.º 270/2001, de 6 de outubro, alterado e republicado
pelo Decreto-Lei n.º 340/2007, de 12 de outubro.
https://dre.pt/application/conteudo/583813
https://dre.pt/application/conteudo/333156
https://dre.pt/application/conteudo/342856
https://dre.pt/application/conteudo/621169
https://dre.pt/application/conteudo/641403
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
O POPNSAC prevê ainda que nas “áreas com caracte-
rísticas especiais que requerem a adoção de medidas ou
ações específicas que, pela sua particularidade, não são
totalmente asseguradas pelos níveis de proteção ante-
riores, é aplicado um regime de intervenção específica”,
tendo sido criadas “Áreas de Intervenção Especificas”
(AIE) para “Áreas sujeitas a exploração extrativa”5,
nomeadamente para as seguintes zonas:
a) Codaçal;
b) Portela das Salgueiras;
c) Cabeça Veada;
d) Pé da Pedreira;
e) Moleanos;
f) Alqueidão da Serra.
Nesse âmbito, o plano indica que “devem ser elaborados
planos municipais de ordenamento do território visando
o estabelecimento de medidas de compatibilização
entre a gestão racional da extração de massas minerais,
a recuperação das áreas degradadas e a conservação
do património natural existente tendo em conta os
valores e sensibilidade paisagística e ambiental da área
envolvente”.
Com a entrada em vigor deste plano de ordenamento,
e de forma a dar cumprimento a esta medida, a
ASSIMAGRA – Associação Portuguesa dos Industriais
de Mármores, Granitos e Ramos Afins, em parceria
com o ICNF, apresentou uma candidatura ao Programa
Operacional Fatores de Competitividade (COMPETE) no
âmbito do “Projeto-âncora - Sustentabilidade ambiental
da Indústria Extrativa”, onde se enquadrou o projeto
“Exploração Sustentável de Recursos no Maciço Calcário
Estremenho”6, que procedeu à elaboração dos planos
municipais de ordenamento do território para as AIE
“Codaçal”, “Portela das Salgueiras”, “Cabeça Veada”, “Pé
da Pedreira” e “Moleanos”.
5 artigo 20º e 24º da RCM n.º 57/2010, de 12 de agosto.
6 COMPETE - SIAC - AAC nº 01/SIAC/2011 - Projeto nº 18640 –
ASSIMAGRA.
A forma escolhida para a elaboração dos planos munici-
pais de ordenamento do território foi na modalidade de
Plano de Intervenção em Espaço Rural, sendo a respon-
sabilidade da sua elaboração das respetivas Câmaras
Municipais, processo que no entanto ainda não foi
concluído.
Na candidatura também se procedeu à execução de
Projetos Integrados7 para cada um dos núcleos de
pedreiras, sendo a entidade responsável pelos referidos
projetos a Direção Geral de Energia e Geologia.
Relativamente aos Projetos Integrados, foram sujeitos
a procedimento de Avaliação de Impacte Ambiental
os Núcleos de Pedreiras do Codaçal, da Portela das
Salgueiras, da Cabeça Veada e do Pé da Pedreira, para
os quais já foram emitidas as respetivas Declarações de
Impacte Ambiental.
CARACTERIZAÇÃO DAS EXPLORAÇÕES DE
MASSAS MINERAIS QUE OCORREM NO PNSAC
No essencial, poderemos distinguir quatro grandes
tipos de pedreiras que ocorrem no PNSAC, que depois
se subdividem conforme o tipo de material extraído:
• Pedreiras de Rocha Industrial:
- Agregados para a construção civil (britas);
- Dolomitos;
- Cal;
• Pedreiras de Rocha Ornamental (blocos);
• Pedreiras de Calçada (branca e preta);
• Pedreiras de Laje.
Ao nível dos processos ativos existentes no PNSAC, e
considerando apenas a base de dados do ICNF/PNSAC,
verifica-se o seguinte:
7 Nos termos do artigo 35º do Decreto-Lei n.º 270/2001, de 6 de
outubro, alterado e republicado pelo Decreto-Lei n.º 340/2007, de
12 de outubro.
Tipologia de Pedreira
N.º de Processos
Pedreiras Licenciadas Processos Ativos Explorações com caução
Rocha Ornamental 90 104 88
Rocha Industrial 18 22 18
Aterro 1 1 -
Calçada 184 220 183
Laje 24 45 44
TOTAL 317 392 333
Número de processosativos por Tipologia de Pedreira no PNSAC (janeiro 2019).
https://dre.pt/application/conteudo/342856
https://dre.pt/application/conteudo/621169
https://dre.pt/application/conteudo/621169
https://dre.pt/application/conteudo/641403
https://dre.pt/application/conteudo/641403
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Relativamente à evolução das explorações de massas
minerais, verifica-se que nos últimos anos não têm
ocorrido novos processos de Pedreiras de Calçada e
Laje, sendo que se tem procedido à recuperação de um
grande número desta tipologia de explorações para
efeitos de cumprimento do POPNSAC, no que se refere à
instalação e ampliação de Pedreiras de Rocha Industrial
e Ornamental.
Já no que diz respeito aos processos ativos não licencia-
dos, no que concerne às Pedreiras de Calçada e Laje,
e conforme já anteriormente mencionado, estas áreas
também têm sido objeto de recuperação para cumpri-
mento do POPNSAC, sendo que para as Pedreiras de
Rocha Ornamental têm-se verificado que para a grande
maioria foi solicitada a sua regularização8, razão pela
qual ainda se verifica um número significativo de ex-
plorações sem caução.
AÇÕES DE RECUPERAÇÃO DE ÁREAS DEGRA-
DADAS EFETUADAS NO PNSAC
O ICNF/PNSAC, entre 1995 e 2005, realizou ações de
recuperação de áreas degradadas através de Fundos
Comunitários, que teve como objetivos principais:
• A recuperação de áreas degradadas, essencialmente
pedreiras abandonadas para as quais não havia um
responsável a quem imputar a recuperação da zona;
• O aproveitamento de áreas degradadas para o
estabelecimento de outros usos, como por exemplo a
construção de pontos de água para utilização da fauna
e combate a incêndios;
• A realização de sementeiras e/ou plantações com
espécies autóctones, de modo a repor a vegetação
natural;
• Contribuir, através da demonstração de técnicas de
recuperação paisagística em zonas de grande concen-
tração da atividade de extração, com o consequente
efeito pedagógico sobre os exploradores das pedreiras;
• Ter um valor de referência real para o cálculo do
custo de recuperação/m2, com especial incidência
para as Pedreiras de Calçada e Laje, para efeitos de
estabelecimento da caução;
8 Nos termos do previsto no Decreto-Lei n.º 165/2014, de 5 de
novembro.
• Publicação de um Guia de Recuperação de Áreas
Degradadas, o qual ocorreu em 2005.
Em termos de tipologia pedreira/área degradada e área
recuperada foram efetuados as seguintes ações:
Tipologia de Pedreira Área (hectares)
Rocha Ornamental 11,0
Rocha Industrial 2,0
Calçada 122,0
Laje 38,5
Zona de deposição de entulhos e inertes 3,0
TOTAL 176,5
Recuperações efetuadas pelo PNSAC entre 1995 e 2005.
Conforme já mencionado anteriormente, com a revisão
do POPNSAC em 2010, o seu Regulamento veio criar
novas regras quanto à instalação e ampliação de
exploração de massas minerais.
Assim, desde que entrou em vigor o POPNSAC os ex-
ploradores já recuperaram as seguintes áreas, no âmbito
de processos para a instalação de novas explorações de
massas minerais e ampliação das existentes:
Tipologia
de Pedreira
Número
de Áreas
Pedreiras
Licenciadas
Área
Recuperada (m2)
Rocha
Ornamental 8 3 124.606
Rocha Industrial 7 1 65.180
Calçada 58 50 422.550
Laje 27 10 149.218
Outras Áreas
Degradadas 3 - 46.917
TOTAL 103 64 808.471
Recuperações efetuadas pelos exploradores (janeiro 2019).
PATRIMÓNIO GEOLÓGICO DO PNSAC
No decurso da última década, registou-se um notável
desenvolvimento da geoconservação em Portugal, quer
por via da criação de um inventário sistemático do
património geológico português, quer pela produção
de legislação sobre a sua conservação com a introdução
das noções de geosítio e de património geológico, bem
como a atribuição legal da sua gestão ao ICNF dentro
das Áreas Classificadas.
Tendo o PNSAC como objeto uma área significativa
do MCE, singular pela sua paisagem cársica e pelo
https://dre.pt/application/conteudo/58752835
https://dre.pt/application/conteudo/58752835
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
património geológico importante à escala nacional e
internacional, faz desta Área Protegida um importante
polo de visitação e de investigação, nomeadamente
devido à diversidade de formas do exo e endocarso, à
riqueza estratigráfica e paleontológica, às abundantes
evidências de processos tectónicos e à sua estreita
ligação com as formas de relevo e particularidades
da sua hidrografia, ao que se associam muitos outros
elementos de caráter cultural que convergem para o
elevado valor que se atribui ao património geológico
existente no PNSAC.
Decorrente desta situação, tornou-se evidente a neces-
sidade de se dispor de instrumentos que permitissem
a gestão e valorização dos elementos mais notáveis da
sua geologia, encontrando-se tal vertido no POPNSAC,
nomeadamente a “Jazida de Icnitos de Dinossáurios de
Vale de Meios e Outros geosítios e sítios de interesse
cultural9”, no qual estão identificados alguns dos sítios
de especial interesse geológico, paleontológico, geomor-
fológico, espeleológico e cultural, cuja conservação dos
valores neles existentes se afigura necessário assegurar.
De forma a melhorar o conhecimento sobre os Geosítios
que ocorrem no PNSAC, através da candidatura ao COM-
PETE no âmbito do “Projeto-âncora - Sustentabilidade
ambiental da Indústria Extrativa”, foi publicado em 2015
o “Roteiro de Geosítios do PNSAC” e a respetiva “Carta
Geológica Simplificada”, que tem como objetivo princi-
pal permitir a divulgação e uso alargado por parte dos
cidadãos destas áreas.
Decorrente dessa publicação, importa mencionar que
alguns dos geosítios identificados para o PNSAC foram
resultantes, em certa medida, da exploração de massas
minerais, destacando-se os seguintes geosítios:
Algar do Pena
A Gruta do Algar do Pena, posta a descoberto em
1985 pelo Sr. Joaquim Pena, explorador à data de uma
Pedreira de Calçada, é uma cavidade muito interessante
do ponto de vista paisagístico, integrando a maior sala
subterrânea conhecida em Portugal, localizada na
freguesia de Alcanede, concelho de Santarém.
De elevado valor cénico, científico e estratégico, dadas as
suas características biofísicas e localização geográfica, o
9 Anexo I da RCM nº 57/2010, de 12 de agosto.
Algar do Pena foi selecionado em 1993 pelo PNSAC para
instalar o Primeiro Centro de Interpretação Subterrâneo
em Portugal - CISGAP, o qual foi inaugurado em 5 de
junho de 1997.
O CISGAP é uma infraestrutura gerida pelo ICNF,
sendo que a sua missão está marcadamente dirigida
para a valorização do património espeleológico cársico,
a qual está assente em quatro vertentes funcionais:
apoio à investigação científica e tecnológica; divulgação
científica e educação ambiental; apoio às estratégias de
turismo e desporto de natureza adotadas pelo ICNF;
e finalmente como estrutura de apoio à formação de
espeleólogos.
Monumento Natural da Serra de Aire - Pegadas
de Dinossáurios
Trata-se de uma estrutura museológica de valorização do
Património Natural Paleontológico, sob a responsabili-
dade científica e técnica do ICNF. Após a descoberta de
um conjunto de pegadas de Saurópodes, em 1994, pela
exploração de uma Pedreira de Rocha Industrial, foram
efetuados diversos estudos científicos que culminaram
na criação de uma estrutura de visitação, inaugurada em
1997. O Monumento Natural das Pegadas dos Dinossáu-
rios da Serra de Aire10, também conhecido por Pedreira
do Galinha, situa-se na vertente oriental da Serra de
Aire, nos limites dos concelhos de Ourém (freguesia de
Nª Sra. das Misericórdias) e Torres Novas (freguesia de
Chancelaria).
Na jazida de icnofósseis, que ocupa uma superfície de
cerca de 60.000 m2, podemos observar várias centenas de
pegadas organizadas em cerca de duas dezenas de pistas,
entre as quais a mais longa pista (147 m de comprimento)
de dinossáurio saurópode até hoje conhecida no mundo.
Jazida de Pegadasde Dinossáurios de Vale de
Meios
A Jazida de Vale de Meios, localizada a 1 km da povoação
do Pé da Pedreira, na freguesia de Alcanede, concelho de
Santarém, e foi descoberta durante os trabalhos de ex-
ploração de 3 Pedreiras de Calçada interligadas entre si.
10 Classificado através do Decreto-Regulamentar n.º 12/96, de 22 de
outubro.
https://dre.pt/application/conteudo/342856
https://dre.pt/application/conteudo/226583
https://dre.pt/application/conteudo/226583
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Apresenta uma elevada quantidade de pegadas e trilhos
em bom estado de conservação, razão pela qual é a maior
e mais significativa jazida com pegadas de terópodes do
Jurássico Médio da Península Ibérica e uma das mais
importantes a nível mundial.
Jazida de Pegadas de Dinossáurios de Algar dos
Potes
A Jazida de Algares dos Potes, inserida numa antiga
Pedreira de Calçada, apresenta moldes e contramoldes
de pegadas tridáctilas de dinossáurios terópodes.
Jazida de Fósseis de Equinodermes do Cabeço
da Ladeira
A Jazida do Cabeço da Ladeira, também conhecida
como Praia Jurássica, localiza-se numa antiga Pedreira
de Laje, situada na freguesia de S. Bento, concelho de
Porto de Mós.
Esta jazida apresenta uma quantidade elevada de fósseis
equinodermes pertencentes a três classes distintas:
Echinoidea (ouriços-do-mar); Asteroidea (estrelas-do-mar)
e Crinoidea (lírio-do-mar), sob a forma de moldes e/ou
de restos fossilizados correspondentes aos diferentes
ossículos que compõem o endosqueleto destes animais.
Esta descoberta tem uma elevada importância científica
devido ao seu grau e modo de preservação, à sua idade,
raridade e elevada concentração de exemplares num
único local.
Observam-se ainda várias estruturas sedimentares, onde
as ripple marks (marcas de ondulação fossilizadas no
substrato rochoso) são um dos elementos mais marcantes.
Devido à sua importância, a Assembleia da República11
recomendou ao Governo a implementação de medidas de
proteção e valorização da “Praia Jurássica de São Bento”.
Pedra Bicho
Antiga Pedreira de Rocha Ornamental, localizada na
União das freguesias de Alcaria e Alvados, no concelho
de Porto de Mós, sendo que o termo que designa esta
variedade ornamental provém do rico conteúdo da rocha
em fósseis, que lhe confere um aspeto bastante peculiar.
11 Resolução da Assembleia da República n.º 20/2014, de 11 de março.
Os fósseis presentes são do tipo Nerinea (s.l.) da classe
gastrópodes, que indica uma deposição em ambiente
marinho de muito baixa profundidade, águas quentes
e salinidade normal.
Pedreira de Calcite
Nesta antiga Pedreira de Calcite situada na Serra dos
Candeeiros, ocorrem excelentes exemplares deste
mineral onde se podem observar as suas diferentes
caraterísticas morfológicas, com a forma (ou hábito)
romboédrico, com o ângulo de clivagem típico e a
translucidez ou a cor branca a transparente.
A calcite que foi explorada nesta pedreira era utilizada
como aditivo da indústria vidreira.
Pedreira de Moitas Vendas
Pedreira de Rocha Industrial, na qual foram explorados
agregados para a construção civil, localizada na freguesia
de Moitas Vendas, concelho de Alcanena, onde é possível
observar numerosas e diversas estruturas tectónicas,
nomeadamente rochas esmagadas em caixa de falha,
planos estilolíticos e dobras de arraste.
Plano de Falha de Vale de Barco
Pedreira de Rocha Industrial, localizada na freguesia
de Alcobertas, concelho de Rio Maior, onde se explorou
calcite que preencheu uma espessa caixa de falha que
integra o acidente tectónico de Rio Maior-Porto de Mós.
Observam-se extensos planos de falha, que estão
marcados por estrias, que por vezes são de grandes
dimensões, e que testemunham uma movimentação
polifásica, sobretudo em desligamento esquerdo com
forte componente normal.
Por fim, importa salientar que durante o ano de 201912
está previsto a realização de “projetos de prevenção
estrutural contra incêndios, de restauro, conservação e
valorização de habitats naturais e de educação ambiental
nos Parques Naturais da Serra de São Mamede, das
Serras de Aire e Candeeiros, da Arrábida, do Sudoeste
12 RCM n.º 14/2019, de 21 de janeiro.
https://dre.pt/application/conteudo/572408
https://dre.pt/application/conteudo/118051703
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Alentejano e Costa Vicentina e da Ria Formosa, na
Reserva Natural das Lagoas de Sancha e Santo André e
nas Paisagens Protegidas da Serra do Açor e da Arriba
Fóssil da Costa da Caparica”.
Em relação ao PNSAC, está contemplado a implementação
do “Projeto de valorização do património geológico do
Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros”, que
visa, entre outros aspetos, a revitalização dos Geosítios
“Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios da
Serra de Aire, Jazida com Pegadas de Dinossáurios de
Vale de Meios e Jazida de Equinodermes do Cabeço
da Ladeira”, através de medidas de geoconservação
que possibilitem a visitação, sem danificar o singular
património natural presente no território.
O projeto é para ser executado em três anos, tendo sido
estabelecido um investimento total de 830.0004, dos
quais 350.0004 se destinam à “Conservação e valorização
dos Geosítios”.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
RESUMO
No panorama mineiro de Portugal o Anticlinal de Estremoz constituí um caso único por diversos factores:
1) trata-se de uma estrutura geológica reconhecida por todos e não apenas pelos especialistas; 2) tem um passado de
produção de mármores de excepcional qualidade que remonta ao Período Romano; 3) os mármores aqui extraídos
têm reconhecimento internacional constituindo-se como uma verdadeira Marca Nacional; 4) é seguramente uma
das regiões do País com o registo geológico melhor conhecido, quer à superfície quer em profundidade. Para tal
contribuíram vários estudos académicos e as várias campanhas de sondagens profundas realizadas pelas entidades
governamentais e as sondagens de prospeção geológica efetuadas pelas empresas. Também a cartografia geológica de
base foi realizada à escala 1:5.000 ou maior e encontra-se disponível às escalas 1:25.000 e 1:10.000; 5) há um passado
de projetos de investigação, teses de fim de curso, mestrado e doutoramento, para além dos planos de pedreira e
vários estudos realizados pelas empresas, etc. que constituí uma enorme base de dados.
Deste modo, os estudos realizados em diversas áreas (geologia; biologia; ecologia; avaliação de impacte ambiental;
caracterização dos geomateriais (rochas e solos); avaliação geomecânica do maciço marmóreo; Planos Diretores
Municipais; planos de pedreira; etc.) constituem a todos os níveis um acervo de conhecimento enorme que,
complementado com a avaliação de riscos (materiais e humanos), permite a curto prazo a implementação de um
efetivo projeto de reordenamento do território.
Anticlinal de Estremoz: Geologia, Ordenamento do Território e
Produção de Rochas Ornamentais após 2000 Anos de Exploração
Luís Lopes
Departamento de Geociências da Escola de Ciência e Tecnologia
da Universidade de Évora; Instituto de Ciências da Terra, Pólo de
Évora; Conselho de Administração da Associação Cluster Portugal
Mineral Resources; Presidente da Associação Portuguesa de Geólogos
Email: lopes@uevora.pt
Palavras Chave: Anticlinal de Estremoz, geologia, mármore, ordenamento do território, rochas ornamentais.
60
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
ABSTRACT
In the mining panorama of Portugal, the Estremoz Anticlinal is a unique case for several reasons: 1) it is a geological
structure recognized by all and not only by specialists; 2) has an exceptional quality marble production dating back to
the Roman Period; 3) the marbles extracted have international recognition constituting themselves as a true National
Brand; 4) undoubtedly, is one of the better geological knownregions of the Country, surface and underground. To
this end contribute several academic studies and various deep-sounding surveys carried out by government entities
and geological exploration surveys carried out by the companies. Also, base geological mapping was performed at
1: 5.000 scale or greater and is available at 1: 25.000 and 1: 10.000 scales; 5) there is a past of research projects, final
course projects, masters and doctorates theses, in addition to quarry planning activities and other studies done by
the companies, which together makes a huge database.
In this way, the studies carried out in several areas (geology, biology, ecology, environmental impact assessment,
geomaterials characterization (rocks and soils), geomechanical marble mass evaluation, County Director Plans, etc.),
stands for a vast knowledge which, complemented by material and human evaluation risks, allows in short term the
implementation of an effective and complete territorial re-planning project.
Keywords: Estremoz anticline, geology, marble, spatial planning, ornamental rocks.
1. INTRODUÇÃO
O Setor das Rochas Ornamentais, incluído no Cluster dos
Recursos Minerais, com reconhecimento governamental
em Portugal em fevereiro de 2017, constitui uma
atividade económica relevante e de grande impacto nas
regiões onde se desenvolve. O “Triângulo do Mármore”
(Estremoz – Borba – Vila Viçosa), também designado por
“Zona dos Mármores” é um paradigma desta situação.
No Concelho de Vila Viçosa, é o setor económico mais
importante secundado pelo turismo. Em Borba e em
Estremoz a importância económica relativa do setor
decresceu imenso nos últimos anos. Oficialmente apenas
subsistem oito pedreiras em atividade em Estremoz e
seis em Borba. Os sectores agropecuário, em Estremoz,
e do vinho, em Borba, suplantaram o setor do mármore.
Nestas circunstâncias e credivelmente, não admira que
Vila Viçosa se intitule como a “Capital do Mármore”
onde o “ouro branco” ainda é o principal dinamizador
económico (Tab.1).
TABELA 1
Pedreiras no Anticlinal de Estremoz
Anticlinal de Estremoz - Situação de Licenciamento (maio 2019)
(Pedreiras de Classe 1 e 2)
Concelho Em exploração / recuperação
Abandonada em
tramitação
Suspensa com
autorização
Suspensa sem
autorização Total
Borba 6 (12%) 3 (50%) 14 (37%) 29 (30) 53 (27,31%)
Estremoz 8 (16%) - 1 (3%) 12 (12%) 21 (10,92%)
Sousel - - - 1 (1/%) 1 (0,52%)
Vila Viçosa 35 (71%) 3 (50%) 23 (61%) 56 (57%) 119 (61,25%)
Total 49 6 38 98 194
Fonte: Direção Geral de Energia e Geologia, maio de 2019.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
A tragédia ocorrida a 19 de novembro de 2018 na EM 255
em Borba, com o colapso parcial da estrada que causou
a morte de cinco pessoas (dois trabalhadores de uma
pedreira e três pessoas que se deslocavam em trânsito
no momento da queda), veio expor à opinião pública
as carências e fragilidades há muito identificadas por
industriais, académicos e órgãos de decisão. Efetivamente,
ao longo dos anos, a lavra em profundidade confinada
a explorações com área superficial reduzida originou
uma paisagem repleta de “poços” de exploração, por
vezes atingindo profundidades superiores a 100 m, onde
as áreas de defesa entre si e entre as pedreiras e as vias
públicas, já não existiam quando foi publicada a primeira
legislação específica para o Setor (Decreto-Lei 88/90 de
16 de março).
O momento é de alarme e de alguma preocupação que,
ocasionalmente peca por exagerada, mas também pode
ser de oportunidade se o bom senso imperar e se todos
os atores desempenharem o seu papel. Começando
pelos proprietários, pelos decisores políticos e entidades
licenciadoras e fiscalizadoras, todos devem tomar uma
atitude proactiva em prol de um setor que, apesar de
várias crises, se mantêm em atividade praticamente
contínua pelo menos há dois mil anos.
Esta atitude justifica-se tanto mais que em termos de
caracterização geológica e conhecimento científico
territorial, com enfâse nos estudos geológicos e avaliação
dos recursos minerais existentes, a Zona dos Mármores
é, seguramente, uma das áreas mais bem estudadas do
País. Apesar disso, constata-se que, por um lado, não há
cruzamento efetivo de dados entre os estudos prévios e,
por outro, que propostas de ordenamento do território
não foram efetivamente implementadas no terreno, além
de que necessitam estudos complementares cruciais
para assegurar, tanto a otimização da exploração como
a segurança de bens e pessoas.
Se alguma dúvida houvesse sobre a qualidade e
importância, histórica e contemporânea, do “mármore
de Estremoz”, o reconhecimento do mesmo como “Global
Heritage Stone Resource”, atribuído em janeiro de
2018 pelo Comité Executivo da “International Union
of Geological Sciences/UNESCO” , dissiparia todas as
dúvidas uma vez que este reconhecimento obedece ao
cumprimento de pelo menos vinte critérios e exige ainda
que haja bibliografia de referência em revistas e/ou livros
com revisão científica (Lopes &Martins, 2015; 2018).
O reconhecimento popular, pelo menos em Portugal,
como forma de distinção e homenagem a prestar a pessoas
e entidades, é validado pela utilização generalizada do
“mármore de Estremoz” em placas comemorativas.
Pode mesmo afirmar-se com alguma segurança que não
haverá uma localidade que não tenha alguma peça com
esta matéria-prima. Do mesmo modo, também assim
acontece um pouco por todo o Mundo, para onde foi e
continua a ser exportado (Lopes & Martins, 2015; 2018).
2. MÁRMORE: DEFINIÇÃO E SÍNTESE HISTÓ-
RICA
Os Mármores de Estremoz são uma matéria-prima de
inegável beleza estética e qualidade, graças aos variados
padrões cromáticos, texturas e características físico-
-químicas (Casal Moura et al., 2007; Lopes & Martins,
2015 e referências inclusas).
Só deste modo se pode justificar que tenham sido sempre
explorados desde a Antiguidade Clássica até aos nossos
dias, resistindo sempre a modas e tendências passageiras.
São explorados num dos principais polos extrativos de
rochas ornamentais do Alentejo e de Portugal (Lopes &
Gonçalves, 1997; Carvalho et al., 2013), o denominado
Triângulo do Mármore (Estremoz – Borba – Vila Viçosa).
Histórica e internacionalmente, os mármores da estrutu-
ra anticlinal de Estremoz são conhecidos por “Mármore
de Estremoz”, como já se referiu, atualmente é no
Concelho de Vila Viçosa que se situam as maiores
pedreiras e onde se extraí mais de 80% do mármore
português; apesar disso o nome já consolidado e
mundialmente reconhecido como marca “Mármore de
Estremoz” (Estremoz Marble) deve continuar a ser
utilizado, tendo sido reconhecido como Global Heritage
Stone Resource. Efetivamente desde o Período Romano
que Estremoz era a mais importante povoação e até há
pouco tempo a única cidade num raio de 50 km, pelo
que a referência aos mármores da região pelo nome
da maior urbe parece lógica e compreensível. Contudo
não deixa de ser curioso que a referência escrita mais
antiga do reconhecimento da utilização dos mármores
na região alentejana, date do ano 370 a.C., corresponde
a um importante achado arqueológico que está
representado por uma lápide mandada executar pelo
capitão cartaginês Maarbal na sua viagem de Faro para
Elvas e foi descoberta pelo investigador Padre Espanca
https://dre.pt/application/conteudo/333161
https://dre.pt/application/conteudo/333161
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
(tio da poetisa Florbela Espanca) em Terena (Alandroal)
(Brito da Luz, 2005).
Para os geólogos o termo “mármore” está bem claro
como sendo o resultado do metamorfismo, ou seja,
corresponde às transformações muito lentas, de rochas
carbonatadas, no estado sólido, por efeito da temperatura,
da pressão e, muito provavelmente, na presença fluídos
em circulação na crosta terrestre. No dia-a-dia não é
bem assim; em função do enquadramento em que é
utilizado, o termo “mármore” tem vários significados
peloque uma explicação prévia é exigida. Assim, a
etimologia da palavra “mármore” provém do grego
marmairein ou do latim marmor e significa “pedra
de qualidade” ou “pedra branca”. Para os geólogos
o mármore é uma rocha metamórfica cristalina e
carbonatada, composta por cristais de calcite (mármore
calcítico) ou dolomite (mármore dolomítico), resultante
de transformações, extremamente lentas, no estado
sólido sob efeito de pressões orientadas, incremento
de temperatura que provocam um rearranjo textural
que passa pela recristalização de rochas calcárias
previamente existentes, essencialmente de natureza
sedimentar. Um conceito comercial mais comum, reporta
ao significado que lhe era atribuído pelos romanos
e define o mármore como toda a rocha cristalina
sedimentar ou metamórfica, carbonatada ou não, que
apresentando um aspeto semelhante ao do mármore
Stricto sensu, que possa ser extraída em blocos, que
evidencie boas características para o corte e que seja
suscetível de adquirir bom polimento. Associados à
indústria e na nomenclatura internacional utilizam-se
ainda os termos “rocha ornamental”, que apela para
a função marcadamente estética que os mármores
desempenham e, principalmente no mundo anglo-
-saxônico é amplamente utilizado o termo dimension
stone, que se reporta à obrigação de estas rochas
serem extraídas em blocos de dimensão que permita
o processamento industrial em fábrica, gerando lucro
e riqueza para as respetivas empresas (Lopes, 2007;
Moreira & Lopes, 2019).
No caso do anticlinal de Estremoz, para fins ornamentais,
apenas se exploram os mármores calcíticos. Embora os
mármores dolomíticos sejam mais abundantes, estes
encontram-se muito fraturados não sendo possível
obter blocos com dimensão comerciável (dimensões
médias próximas de: 2-3m x 2-1,5m x 2-1m). Apenas
um apontamento à parte para referir que, para
além das explorações de mármore no anticlinal de
Estremoz, existem ainda outros mármores portugueses
intensivamente explorados no passado, por ordem
crescente de importância: Brinches, Escoural, Serpa,
Viana do Alentejo, Trigaches e Vila Verde de Ficalho
(Gonçalves & Lopes, 1992). Nestes locais exploravam-se
rochas únicas pelas cores e texturas, no entanto apenas
em Viana do Alentejo e Vila Verde de Ficalho há pedreiras
ativas. Apesar de distintos e facilmente distinguíveis, em
termos geológicos, todos estes mármores ocupam uma
posição estratigráfica similar (Lopes, 2007; Lopes &
Martins, 2015).
Existem inúmeras evidências para a utilização dos
mármores de Estremoz durante a Época Romana.
As modernas técnicas microanalíticas associadas
a um conhecimento profundo das características
macroscópicas, tem permitido confirmar que foram
utilizados, não só na Península Ibérica, mas um pouco
por todo o Império num vasto e diversificado conjunto
de elementos decorativos e arquitetónicos (e.g. Maciel,
1998; Lopes et al., 2000; Cabral et al., 2001; 2004; Fusco
& Mañas, 2006; Morbidelli et al., 2007; Tucci et al.,
2010; Lapuente et al., 2014; Origlia et al., 2011; Taelman
et al., 2013; Carneiro, 2019). Após o Período Romano a
utilização do mármore entra em grande declínio não
sendo certo que se tenham mantido pedreiras ativas
na região. Contudo há alguns exemplos de reutilização
em lápides e outros elementos romanos entre os séculos
V e X (Mourinha & Moreira, 2019 e referências inclusas).
Com a conquista de Faro ao califado Almóada, em
1249, o Algarve é incorporado no reino de Portugal
e os conflitos daí decorrentes com o reino de Castela
levaram à necessidade de construção de estruturas
fortificadas ao longo da fronteira; sendo matéria-prima
disponível na região, é natural que o mármore tenha
sido utilizado para esse fim. Entre vários exemplos, o
mais emblemático é sem dúvida a Torre de Menagem
do castelo de Estremoz (Mourinha & Moreira, 2019).
Desde então, as referências à utilização do mármore de
Estremoz em monumentos religiosos e obras públicas, em
Portugal e no estrangeiro, são inúmeras e a sua listagem
exaustiva não está no âmbito deste trabalho, mas podem
ser consultadas, i.e: Lopes & Martins (2015); Mourinha
& Moreira (2019); Matos & Quintas (2019) e Filipe (2019)
e referências inclusas.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
3. SÍNTESE GEOLÓGICA
Nas últimas décadas o conhecimento geológico de
Portugal cresceu exponencialmente e o Anticlinal de
Estremoz não é exceção (Pereira et al., 2012; Taelman
et al. 2013; Lopes & Martins, 2015; Moreira, 2017;
Menningen et al., 2018; Moreira & Lopes, 2019). De
seguida apresenta-se uma síntese relativa ao estado
atual do conhecimento geológico regional da Zona
de Ossa-Morena, parte integrante do Cadeia Varisca
(ou Hercínica) Ibérica, com enfâse no “Anticlinal de
Estremoz”.
Em termos mais simples, a designação “Anticlinal de
Estremoz”, às vezes também referido como “anticlinório”
apelando diretamente à existência de várias ordens de
dobramento, corresponde a uma estrutura enraizada,
dobrada e com a concavidade voltada para baixo,
grosseiramente simétrica, onde as camadas mais antigas
ocupam a parte central em dois núcleos separados, um
a norte de Estremoz e outro entre Vila Viçosa e Borba.
É intersetada, entre as cidades de Estremoz e Borba,
pela A6 e pela EN4, que fazem a ligação entre Marateca
e Caia. Tem aproximadamente 42 km de comprimento,
entre Alandroal e Sousel e cerca de 8,5 km de largura
máxima entre Estremoz e São Domingos de Ana Loura
(Figs. 1 a 3).
FIGURA 1
Localização do Anticlinal de Estremoz no território nacional e idade relativa das diferentes unidades
que constituem o território continental português.
Mapa geológico adaptado de LNEG, 2000 – Mapa Geológico de Portugal na Escala 1:1.000.000 (Lopes & Martins, 2015).
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
As figuras 2 e 3 ilustram de modo muito claro a
disposição desta estrutura e a forma como se desenvolve,
por mais de 40 km, de Alandroal a Sousel. Aqui, os
mármores explorados como rocha ornamental fazem
parte do “Complexo Vulcano-Sedimentar Carbonatado
de Estremoz” (CVSCE), que se representam em tons
de azul. Os mármores mais escuros (azuis e cinzentos)
estão representados em azul-escuro e todas as restantes
variedades em azul-claro. Ressalta desde logo que a maior
parte dos mármores afloram sobretudo no concelho
de Vila Viçosa onde, efetivamente, na atualidade, se
produzem mais de 80% dos mármores de Portugal.
FIGURA 2
Perspetiva tridimensional da região compreendida entre Sousel e Alandroal
Vista de SW para NE, obtida pela sobreposição do mapa geológico do anticlinal de Estremoz (Moreira & Vintém, coords., 1997) com a imagem digital
do terreno obtida no Google Earth (http://earth.google.com/download-earth.html, referente a 2007), sobrelevada 3x. Note-se o controlo topográfico
condicionado pelas litologias. A zona central correspondente ao Pré-câmbrico bem como os afloramentos correspondentes ao CVSCE ocupam as
zonas mais baixas enquanto a Formação Dolomítica corresponde a um planalto central no anticlinal de Estremoz. Nas regiões adjacentes os relevos
de resistência correspondem a níveis de rochas siliciosas de precipitação química e negras (liditos) de idade silúrica, muitas vezes fossilíferos. Os
níveis do CVSCE explorados para fins ornamentais encontram-se representados a azul claro (variedades de mármores cor-de-rosa, branco e cremes
mais ou menos venados) e a azul-escuro (variedades “Ruivina”).
Adaptada de Lopes & Martins (2018).
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 3
Representação da estrutura Anticlinal de Estremoz com destaque para a metade meridional onde se situam os Concelhos de Estremoz,
Borba e Vila Viçosa, mais ricos em mármores explorados como rocha ornamental
In: Lopes & Martins (2015); adaptada de Moreira, J. & Vintém, C. (coords.) (1997) Carta Geológica do Anticlinal de Estremoz, InstitutoGeológico
e Mineiro, Lisboa.
Em termos regionais, o Anticlinal de Estremoz localiza-se
no Maciço Ibérico, que se caracteriza pela presença de
rochas de idade ante mesozoica (Ribeiro et al., 1979;
2007). Este maciço é subdividido em diferentes zonas
tectonostratigráficas, de acordo com as sucessões de
unidades litológicas (sucessão estratigráfica) presentes,
as suas características tectonometamórficas e magmáticas
(Ribeiro et al., 1979; Apalategui et al., 1990; 2007; Dias
et al., 2016 e referências inclusas). De entre as diversas
zonas, destaca-se a Zona de Ossa-Morena, onde o
Anticlinal de Estremoz fica localizado no Setor de
Estremoz – Barrancos (Oliveira et al., 1991; Lopes, 2003)
(Fig. 4). Estas subdivisões ajudam a compreender o
enquadramento regional e explicam de forma sintética
as heterogeneidades que ressaltam ao observador mais
atento que faça uma transversal SW-NE pelo Alentejo.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 4
Domínios da Zona de Ossa Morena
Segundo Apalategui et al., 1990.
A – Cobertura sedimentar pós-paleozoica. B – Zona Centro-Ibérica. C – Batólito de Pedroches. D – Zona de Ossa Morena:
a – cinturas metamórficas. 1 – Domínio de Beja – Aracena; 2 – Domínio de Barrancos – Hinojales; 3 – Domínio de Elvas – Cumbres
Mayores; 4- – Domínios de Arroyo Molinos; 5 – Domínio de Zafra – Monesterio; 6 –Domínio da Serra Albarrana; 7 – Cintura
ígnea de Villaviciosa – La Coronada; 8 – Domínio da Valência de Ias Torres – Cerro Muriano (= Zona de Cisalhamento Tomar
– Badajoz – Córdova); 9 – Domínio de Obejo – Valsequillo – Puebla de Ia Reina. E – Unidade de Pulo do Lobo (inclui o Ófiolito
de Beja – Acebuches). I, II – Plutões graníticos; III – Antiforma de Peraleda; F. Zona Sul Portuguesa: a – Faixa Piritosa Ibérica.
G – Anticlinal de Estremoz.
3.1. Estratigrafia
Cartograficamente, a individualização do anticlinal de
Estremoz como unidade geológica distinta já constava
da edição de 1899 da Carta Geológica de Portugal à
escala 1:500.000 (Delgado & Choffat, 1899), no entanto
não apresentava qualquer separação litológica interna.
A primeira referência bibliográfica do anticlinal de
Estremoz que faz uma descrição geológica desta estrutura
e estabelece equivalências entre os xistos aflorantes no
núcleo anticlinal ("Xistos de Mares") com as formações
similares de Portalegre, Tomar e Abrantes, mas que
não separou as formações carbonatadas e dolomíticas
de Estremoz destes "Xistos de Mares" deve-se a Nery
Delgado (1905, in Gonçalves & Coelho, 1974). Na carta
geológica de Portugal na escala 1:1.000.000 de 1952,
estas unidades já vêm separadas. Foi Carrington da
Costa (1931, in Gonçalves & Coelho, 1974) primeiro,
e Teixeira (1953 e 1966, in Gonçalves & Coelho, 1974)
depois, que os separaram tendo-lhes atribuído “idade
câmbrica”. Silva & Camarinhas (1957) individualizaram
as unidades carbonatadas, distinguindo-as das restantes.
Particularmente interessante, por se tratar de um
trabalho orientado para aptidão geológica do anticlinal
como produtor de rochas ornamentais, é a cartografia
apresentada por Gonçalves (1972).
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Correspondendo à disposição litológica e à evolução
usual das plataformas carbonatadas, independentemente
da sua idade, verifica-se uma disposição assimétrica das
litologias, que constituem o anticlinal de Estremoz. Esta
assimetria corresponde a variações laterais de fácies
muito comuns em bacias de sedimentação em regime
distensivo, como é o caso do ambiente geodinâmico
preconizado para o Paleozoico inferior da Zona de Ossa-
-Morena. Por exemplo, existe uma simetria estratigráfica
que não tem relação com a simetria litológica; no flanco
SW da estrutura predominam as rochas carbonatadas
ao passo que no flanco NE são essencialmente as rochas
metavulcânicas que estão representadas (Fig. 1). Outra
particularidade tem a ver com a distribuição espacial
dos mármores de tonalidades escuras (comercialmente
designados por “Ruivina”), na Fig. 1 pode-se observar
que estas litologias só afloram a Sul de um paralelo
E-W entre as localidades de Barro Branco (Monte das
Salgadas) e Vila Viçosa (Lugar de Peixinhos), retirando o
efeito da dobra em antiforma anticlinal, esta orientação
sugere que originalmente a bacia de sedimentação
estaria a abrir para Sul (coordenadas atuais) pois estes
níveis representam as rochas mais recentes da sequência
estratigráfica local.
Em síntese, a sucessão de unidades estratigráficas no
Anticlinal de Estremoz inicia-se com a Formação de
Mares (de idade Neoproterozóica), composta por xistos
negros, metachertes negros e metagrauvaques que
ocupam uma posição central nesta estrutura (Fig.3;
Gonçalves, 1970; Oliveira et al., 1991). Esta formação
tem equivalentes noutras estruturas regionais da
Zona de Ossa-Morena correspondendo sempre aos
núcleos mais antigos das mesmas e com a designação
genérica de “Série Negra” (Gonçalves & Carvalhosa,
1994; Gonçalves & Oliveira, 1986). Segue-se, em
discordância, a Formação Dolomítica, composta por
mármores dolomíticos, essencialmente granoblásticos e
com textura fina, por vezes xistificados, pontualmente
intercalados com metavulcanitos ácidos e básicos; na sua
base surge um nível lenticular de metaconglomerados
e meta-arcoses intercalados com metavulcanitos ácidos
(Fig. 3; Gonçalves, 1972). Este nível foi datado em 542 Ma
(Pereira et al., 2012), correspondendo pois à base do
Câmbrico. Esta unidade já era considerada como sendo
câmbrica inferior, por correlação com a Formação
Carbonatada de Elvas (Oliveira et al., 1991; Lopes, 2003;
Araújo et al., 2013).
No topo da Formação Dolomítica ocorre um horizonte
silico-ferruginoso. A associação de quartzo com pseudo-
morfoses de pirite em óxidos e hidróxidos de Fe (a
pirite original foi sempre encontrada nas sondagens
profundas que intersetaram este nível), pela facilidade
de se encontrar e pela persistência no terreno,
constituí um excelente nível guia cartográfico (Fig. 5).
Sobre ele assenta o Complexo Vulcano-Sedimentar
Carbonatado de Estremoz (CVSCE, Fig. 3), caracterizado
pela presença de mármores calcíticos com interesse
ornamental, apresenta intercalações de calcoxistos e
de metavulcanitos ácidos e básicos (Gonçalves, 1972;
Oliveira et al., 1991; Lopes, 2003; Pereira et al., 2012 e
referências inclusas nestes artigos).
FIGURA 5
Dois aspetos de minerais euédricos que se encontram no
“horizonte silicioso”
A – aspeto encontrado à superfície e que corresponde a pseudomorfose
de pirite transformada em óxidos e hidróxidos de Fe, atente-se
na perfeição da substituição que preserva as faces estriadas tão
características dos cristais de pirite em maclas.
B – amostra recolhida aos 380 metros de profundidade, definindo a
mesma posição estratigráfica, numa das sondagens realizadas: py –
pirite; qtz – quartzo e, cc –calcite/dolomite. À superfície este horizonte
materializa um nível guia cartográfico.
Neste CVSCE encontram-se evidências de uma exposição
aérea dos carbonatos anterior ao metamorfismo regional
(Fig. 6). De facto, a irregularidade da forma e a diferença
de espessura entre os níveis encontrados dentro e em
torno destas estruturas, apontam claramente para uma
erosão do calcário, originando morfologias cársicas
posteriormente preenchidas por sedimentos mais finos.
Estes são essencialmente carbonatados embora sejam
composicional e quimicamente menos homogéneos que
os materiais encaixantes.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 6
Afloramento na região de Vigária, Vila Viçosa,
em corte perpendicular à direção das estruturas representadas
No centro da imagem representa-se um paleocarso anterior ao metamorfismo regional que afetou o
Complexo Vulcano Sedimentar Carbonatado de Estremoz.
Resultado da anisotropia estrutural induzida pela estru-
tura, é claramente visível uma partição da deformaçãoao
longo do afloramento. Observam-se dobras com diferen-
tes amplitudes, zonas de cisalhamento e pequenas falhas
e diaclases. A recristalização generalizada afeta toda a
massa e atenua de tal modo estas diferenças que, por
vezes, torna possível a obtenção de blocos comerciáveis
(não é o caso). Como seria de esperar estas estruturas
são pouco usuais e ocupam uma posição estratigráfi-
ca correspondente aos níveis mais baixos do CVSCE.
A anisotropia instalada pelo paleocarso, induziu a génese
de uma banda de cisalhamento. No geral, o conjunto
transmite uma informação estrutural em transtensão
(falha normal em compressão; embora o movimento
horizontal seja maioritariamente esquerdo, neste caso
não é possível defini-lo com rigor.
Em posição estratigráfica de confirmação difícil no
terreno por falta de afloramentos contínuos, entre o
topo do CVSCE e os terrenos silúricos/devónicos (Piçarra,
2000), envolventes ao anticlinal, ocorrem riólitos
alcalinos com baixo grau metamórfico e datados em 499
Ma (Pereira et al. 2012). Este vulcanismo é relacionável
com o vulcanismo principal associado ao rift do Câmbrico
médio (Chichorro et al., 2008; Sánchez-García et al., 2008,
2010). Como se referiu, em face do controlo estratigráfico
ambíguo e devido à falta de dados paleontológicos, não
se pode excluir a hipótese de que parte da sequência seja
mais recente. De facto, a comparação litoestratigráfica
entre o anticlinal de Estremoz e a sucessão do Pré-
-Câmbrico–Ordovícico em Danby, Vermont, Estados
Unidos da América é, no mínimo curiosa. Em Vermont
a estrutura corresponde a um amplo sinforma anticlinal
orientado N – S, com eixo mergulhante 8° para sul.
Estratigraficamente sobre os mármores dolomíticos
câmbricos (Formação de Dunham) e junto à base do
Complexo Vulcano-sedimentar-carbonatado, datado
do Ordovícico médio (Van Diver, 1987), também ocorre
um horizonte silicioso com as mesmas características e
em posição similar ao que encontramos em Estremoz.
Em Vermont, tanto o metamorfismo como a deformação
que afetou os mármores foram inferiores aos processos
análogos em Estremoz. Daqui resultou que a estratigrafia
inicial está perfeitamente preservada sendo possível
reconstitui-la. Desta estratigrafia resultam sete tipos
distintos de mármore explorados como variedades de
rocha ornamental (Ratte & Ogden, 1989). Obviamente,
69
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
ocorrem variações laterais de fácies que, no entanto,
nunca alteram esta sequência. Tal como em Estremoz
também em Danby os níveis de mármores mais recentes
são escuros. Outra particularidade é que, devido ao
metamorfismo menos intenso, apesar de também
ocorrerem níveis vulcânicos intercalados não se verificam
em associação com eles os mármores rosados que
sempre ocorrem no Complexo Vulcano-Sedimentar-
-Carbonatado de Estremoz (Lopes, 2003, 2007).
A idade do CVSCE tem sido alvo de discussão ao longo das
últimas décadas (e.g. Piçarra & Le Menn, 1994; Piçarra,
2000; Lopes, 2003; Piçarra & Sarmiento, 2006; Pereira
et al., 2012; Araújo et al., 2013; Moreira et al., 2016; 2017),
tendo sido atribuídas idades variáveis, desde o Câmbrico
ao Silúrico superior/Devónico inferior. No entanto, os
dados mais recentes (Pereira et al., 2012; Taelman et
al., 2015; Moreira, 2017), baseados essencialmente em
estudos isotópicos (U-Pb, 13C/18O; e 87Rb/86Sr e 86Sr/87Sr),
apoiados por uma comparação litostratigráfica (Lopes,
2003; Lopes & Martins, 2015) indiciam claramente uma
separação dos níveis superiores da sequência separada
por um evento discordante com brechificação associada.
Assim, a maior parte dos mármores do anticlinal de
Estremoz são de idade câmbrica (não se excluindo a
hipótese de chegarem ao Ordovícico), ao passo que os
níveis superiores de mármores escuros (com o nome
comercial de “Ruivina”), por vezes com níveis carbonosos
(grafite?) associados e que afloram no flanco SW segundo
o alinhamento Barro Branco – Bencatel – Alandroal que
poderão ser mais recentes (idade Silúrico/Devónica?;
Piçarra, 2000; Lopes, 2003; Moreira, 2017). Sublinhe-se,
porém, que estes mármores são macroscopicamente
distintos dos mármores escuros (com os nomes comerciais
de “Ruivina da Lagoa” ou “Ruivina de Pardais”) quase
sempre em sequência e sobrepondo-se aos mármores
com a designação comercial “Olho-de-Tigre” (com
manchas azuladas de dimensão centimétrica num
fundo branco), claramente pertencentes ao CVSCE e
consequentemente mais antigos.
De facto, estes mármores escuros, têm mais afinidades
com os “calcários” com crinoides que af loram na
estrutura de Ferrarias (a SE da terminação periclinal
do anticlinal) (Oliveira 1984; Piçarra, 2000). Neste
caso correspondem a brechas onde os fragmentos
apresentam duas fases de deformação e a matriz apenas
uma (Lopes, 2003). Recentemente, em pedreira que
explora os níveis superiores do CVSCE encontrámos o
contacto entre os mármores e as litologias siliciclásticas
envolventes à estrutura de Estremoz (Fig. 7). Trata-se
de um afloramento chave para os trabalhos em curso,
uma vez que este horizonte era conhecido (e.g. próximo
do vértice geodésico Carambo, Alandroal) mas em
afloramentos dispersos e com pouca exposição. O facto
destas brechas siliciosas não apresentarem qualquer
elemento carbonatado (Lopes, 2003), revela um período
erosivo importante que justificaria o hiato de idades
entre as rochas do CVSCE e as rochas encaixantes.
70
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 7
Bloco de mármore com cerca de 15 t (2,30 m x 1,80 m x 1,40 m)
Extraído na pedreira António Galego & Filhos, Lda., Lagoa – Bencatel.
A zona mais clara do bloco corresponde a mármore
com textura granoblástica média, deformada e com
alinhamento preferencial dos cristais de calcite
(corresponde a uma direção de anisotropia perfeitamente
definida e localmente identificada por “corrume”).
A zona mais escura, à direita, corresponde a litologias
siliciclásticas de grão fino e brechificadas. Em fase
posterior ao dobramento, esta massa foi afetada por
eventos de deformação frágil que originaram as fendas
de tração preenchidas por quartzo branco. Ainda que
estas fendas intersetem o contacto entre as diferentes
litologias, na parte carbonatada a penetração destas
fendas não ultrapassa um ou dois centímetros indicando
que, mesmo nestas condições de baixo grau metamórfico,
apresenta um comportamento essencialmente dúctil.
Como se depreende da exposição anterior, o CVSCE
apresenta diferentes variedades de mármores, sendo
que no topo se situam as variedades mais escuras; ao
descer na sequência ocorrem vários tipos de mármore
creme / branco e mais raramente cor-de-rosa na base
da sucessão (Lopes, 2007). Pela particularidade exótica
que representa, destacamos a variedade “Marinela” que
corresponde a uma brecha hidráulica desenvolvida nos
níveis escuros superiores (azul-acinzentados). Os veios
encontram-se preenchidos por uma calcite muito rica
em Fe (não chega a formar siderite!). Em superfície
polida a rocha apresenta um efeito de “ouro sobre azul”
esteticamente resulta muito bem e pode ser observado
na Sé Catedral de Maputo, Moçambique, para onde foi
projetada pelo arquiteto Marcial Freitas e Costa em 1936,
tendo a Sé sido construída em 1944 (Lopes et al., 2017).
Toda sequência do CVSCE é rodeada por unidades
xistentas do Devónico-Silúrico (Formações dos Xistos
com Nódulos e Colorada; Gonçalves, 1972; Piçarra, 2000;
Lopes, 2003; Araújo et al., 2013). O contacto entre estas
unidades de carácter xistento e a restantes unidades
previamente descritas é também alvo de discussão
(Araújo et al., 2013).
3.2. Geodinâmica
O Anticlinal de Estremoz resulta da interferência de
duas fases de deformação Varisca (Lopes, 2003). Assim, a
sequência estratigráfica do Anticlinal Estremoz foi defor-
mada e metamorfizada sob condições metamórficas na
fácies dos xistos verdes/anfibolítica baixa,durante a Oro-
genia Varisca (Carbonífero) (Lopes, 2003). Identificam-se
claramente duas fases de deformação em regime dúctil.
71
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
A primeira fase de deformação varisca (D1) origina do-
bras com planos axiais quase E-W (azimute 110º-170º),
pouco inclinados para S (inferiores a 20º) e vergência
para Norte. Nesta fase, mais tardiamente porque já
afetam a foliação milonítica D1, desenvolvem-se ainda
corredores de deformação subverticais (zonas de cisalha-
mento) dúctil e frágil-dúctil com orientação NNW-SSE,
±80º. As dobras D1 estão associadas ao desenvolvimento
de zonas de cisalhamento extensional e boudinagem
(Fig. 8). A foliação milonítica e a lineação de estiramento
paralelas à direção máxima de alongamento (170–180º)
e os critérios de cisalhamento (caudas assimétricas de
porfiroblastos, planos C – S) são consistentes com o movi-
mento com o topo para o norte (Pereira et al., 2012). Em
resumo, toda a cinemática associada a D1 é controlada
por movimentação para Norte, achatamento, estiramen-
to e movimento horizontal entre blocos adjacentes com
comportamento esquerdo.
FIGURA 8
Padrões de interferência D1+D2 em pedreira inativa em Borba
Repare-se como existem estruturas fechadas num plano indicando redobramento também evidenciado pelos planos
axiais de primeira fase que se encontram curvos. As dobras menores nos flancos são claramente assimétricas, por
vezes com estiramento do flanco curto, indicando o sentido de transporte inicial. O bloco no chão corresponde à
charneira da dobra que se encontra na parede. Afloramentos como estes permitem reconstruir a 3D a geometria da
deformação em regime dúctil ocorrida na região e são ponto de partida para a modelação digital da deformação.
A segunda fase (D2) apresenta indubitavelmente um ca-
rácter mais frágil e atua em andar estrutural superior e
é responsável pela orientação regional do Anticlinal de
Estremoz (NW-SE). Ao dobramento D2 está associado a
clivagem de plano axial (de crenulação nos xistos e cli-
vagem de fractura nos mármores), ambas mais ou menos
desenvolvidas e zonas discretas de cisalhamento dúctil-
-frágil ao longo das quais os flancos inversos das dobras
apertadas são estirados. A vergência desta segunda fase
é marcadamente para NE; as dobras com planos axiais
de direção 110º-130º inclinam até 60º para Sul.
Embora nem sempre sejam óbvias, uma observação
atenta em qualquer pedreira permite identificar estru-
turas de ambas as fases. A sobreposição das duas fases
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
gera padrões de interferência que localmente podem
ser observados. Corroborando estas observações, a car-
tografia geológica do Anticlinal de Estremoz (Moreira
& Vintém, 2007) apresenta vários exemplos de padrões
de interferência cartográficos.
Por todo o anticlinal de Estremoz ocorre uma segmentação
acentuada no sentido longitudinal (NNW-SSE) cuja
localização é principalmente controlada pelos flancos
verticais das dobras de segunda fase, mas também pode
corresponder à reativação em regime frágil – dúctil
de bandas de cisalhamento (zonas de concentração de
deformação) desenvolvidas anteriormente. Na maioria
destes acidentes NNW – SSE ocorreu a recristalização
sin a pós cinemática do mármore, pelo que, estas
descontinuidades estruturais nem sempre se refletem
em descontinuidades litológicas, com a ressalva que
existe modificação na variedade do mármore, o que
tem necessariamente consequências económicas (Figs. 9
e 10). O conhecimento prévio destas estruturas permite
definir melhor o plano de lavra adequando as direções de
corte e adaptando dinamicamente o espaçamento entre
os cortes de modo a otimizar o rendimento das massas a
desmontar. Quando os rendimentos na pedreira baixam
dos 15% qualquer ganho faz a diferença e poderá ser
fator decisivo para viabilizar a exploração.
FIGURA 10
Dobras na terminação periclinal SE
do Anticlinal de Estremoz, S. Marcos, Pardais
FIGURA 9
Exemplo de zona de cisalhamento
observada em pedreira no local de Lagoa, Vila Viçosa
Figura 9 - Este acidente é francamente discordante das estruturas, no entanto a recristalização permite uma continuidade cristalina pelo que é
possível obter blocos, ainda que heterogéneos. Os planos axiais das dobras aqui observadas tem direção NW-SE e são francamente vergentes para NE.
Pedreira António Galego & Filhos, Lda., Texugo n.º 3, Bencatel.
Figura 10 - Estão representadas dobras isoclinais de segunda fase com planos axiais verticais e eixos mergulhantes, cerca de 25º para SE. Têm
amplitude e comprimentos de onda variáveis e apresentam flancos estirados ao longo de bandas de cisalhamento tardias de segunda fase que,
neste caso, não condicionando de imediato a exploração, provocam alterações cromáticas e texturais perpendiculares ao bando metamórfico. No
caso limite, se estas condicionantes não forem consideradas no plano de lavra, as implicações no valor intrínseco da matéria-prima podem mesmo
inviabilizar a continuidade da pedreira, como já ocorreu em alguns casos no anticlinal.
Pedreira António Bento Vermelho, Lda. São Marcos nº. 9, Pardais-Vila Viçosa.
73
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
.Cronologicamente seguem-se falhas subverticais de
direção WSW – ENE, que apresentam movimentos
horizontais esquerdos (existindo em menor número o
conjugado NE – SW direito), com abatimento do bloco
a SE, na terminação periclinal SE do anticlinal e abati-
mento do bloco a NW na terminação NW. No conjunto,
estas fraturas refletem os estados finais da deformação
que originou a estrutura anticlinal de Estremoz, grosso
modo correspondem a fendas de tração da segunda fase
de dobramento quando a direção de tensão máxima
estaria próxima de NE-SW. Frequentemente estas falhas
estão sublinhadas por filões doleríticos (Fig. 11; “cabos
reais” na gíria local). Estes filões são contemporâneos do
grande filão do Alentejo (Messejana – Ávila) e indiciam a
transição para um regime distensivo que viria a culminar
com a abertura do atual Oceano Atlântico (Lopes & Silva,
2005; Lopes, 2007; Silva, 1997).
FIGURA 11
Pedreira inativa na zona de Lagoa, Vila Viçosa
Exemplo de filão dolerítico instalado em desligamento esquerdo ENE-WSW, 90º.
Para além da componente horizontal, também existe uma componente vertical associada que, nesta zona do anticlinal, é materializada
pelo abatimento do bloco a Sul. Ambas as deslocações não podem ser ignoradas pois os rejeitos podem ser superiores a 30 metros,
inviabilizando a continuação da exploração. Existem muitos casos em que as pedreiras estão limitadas a SE e NW por cabos reais
sendo distintas as variedades de mármore exploradas nas pedreiras adjacentes.
Como curiosidade, refira-se que num destes filões com
cerca de 35 metros de possança, localizado a Oeste
de Borba, entrou mesmo em laboração uma pedreira
de dioritos para fins ornamentais. A possança do
filão fez com que o arrefecimento do magma fosse
suficientemente lento para permitir a formação de uma
rocha com textura fanerítica
A conjugação das falhas WSW – ENE com os cisalhamentos
NNW – SSE é responsável por uma segmentação da
estrutura em blocos onde, pelo menos à superfície, o
mármore apresenta características texturais e cromáticas
distintas (diferentes variedades!). Embora Pereira (1981)
tenha chamado a atenção para os diferentes tipos de
mármore que ocorrem ao nível do solo ao longo do
anticlinal, definindo assim diferentes zonas, não houve
uma correlação entre estas zonas e a segmentação
induzida pelas falhas e cisalhamentos atrás referidos.
De qualquer modo, no passado o desconhecimento
destas variações foi responsável pelo insucesso de muitas
explorações, que não prevendo esta situação, se viram
espacialmente limitadas e cessaram a atividade.
No final da Orogenia Hercínica (ou Varisca) a exumação
do maciço e a libertação de tensões produziuuma intensa
densidade de descontinuidades: fraturas longitudinais
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
segundo N30°W, transversais segundo N60°E e diagonais
à estrutura dobrada, segundo N10°W. Fenómenos de
dissolução recente, com formação de cavidades cársicas,
são mais evidentes ao longo das fraturas orientadas
segundo N10°W. Estas são as principais responsáveis
pela compartimentação que se verifica nesta região do
Anticlinal de Estremoz (Almeida et al., 2000).
Em seguida atuam no anticlinal de Estremoz os campos
de tensão tardí-hercínicos e alpinos, a que se associa
a fragmentação por descompressão induzida pela
atividade extrativa e que no conjunto são responsáveis
pela extensa fracturação que o maciço apresenta. As
variáveis envolvidas no condicionamento da fraturação
dos mármores no anticlinal de Estremoz são tais que os
valores conhecidos regionalmente devem ser tomados
unicamente como referência pois, são as condições ao
nível da pedreira que vão determinar quais as famílias
que aí vão ser mais importantes. Análises detalhadas da
fraturação no anticlinal de Estremoz foram apresentadas
por vários autores (i.e., Silva e Camarinhas, 1960;
Ladeira, 1977; Gomes da Silva, 1989; Pereira, 1981;
Reynaud & Vintém, 1992 e 1994; Costa et al., 2001;
Gama et al., 2000; Lopes, 2003; Henriques et al., 2006).
Em resumo e mais importante que as variedades de
mármore que uma pedreira apresente, é o seu estado
de fraturação que lhe define o valor (Fig. 12).
Na parte mais profunda esta pedreira atinge os 150 metros. De qualquer modo as sondagens aqui realizadas confirmaram a existência
de mármore até aos 430 metros. A exploração para além dos 150 metros requer uma reformulação completa nos paradigmas até
agora aplicados uma vez que, considerando os riscos envolvidos e as áreas de exploração à superfície, é impossível avançar em
poço, além de que, por esta via, a exploração se tornaria demasiado onerosa e desde logo, economicamente inviável. Em primeiro
plano observa-se uma descontinuidade ondulada, muito provavelmente, correspondente ao bandado sedimentar original.
FIGURA 12
Pedreira da empresa F. J. Cochicho & Filho Lda.,
na terminação periclinal SE do Anticlinal de Estremoz
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 13
Pormenor da figura 12
O diferente comportamento mecânico à deformação entre as bancadas acima e abaixo desta descontinuidade é tal que a superior
apresenta um comportamento essencialmente frágil impedindo a obtenção de qualquer bloco; atente-se na densidade de fraturas
subverticais que terminam de encontro à descontinuidade. Já as bancadas abaixo desta descontinuidade apresentam comportamento
dúctil permitindo o dimensionamento da massa em blocos comerciáveis. Para as mesmas condições de deformação, ainda que
muito ténues, as diferenças composicionais, como é o caso, com um pouco de Mg a mais na rede cristalina da calcite confere à
rocha uma maior resistência mecânica e a rocha resiste à deformação até ao ponto de rutura onde acaba por fraturar ao passo
que os mármores sem Mg acomodam a deformação por ativação dos planos cristalográficos da calcite, originam uma anisotropia
planar materializada pela orientação preferencial dos cristais de calcite e, consequentemente, acabam por fluir. Esta fluência é
acentuada se houver níveis de filossilicatos intercalados nos níveis carbonatados.
A libertação de tensões acumuladas pode ser um cons-
trangimento muito importante nas fases iniciais de aber-
tura de uma pedreira. Mesmo à superfície o “mármore
canta”, como referem os trabalhadores. É impressionante
a fraturação induzida nos “cabeços” (carso superficial)
pelo corte com fio diamantado. O caso é ainda mais grave
se o mármore for homogéneo. Efetivamente, não havendo
direções de anisotropia estrutural bem definidas, as
fraturas induzidas pela descompressão propagam-se
aleatoriamente fragmentando todo o maciço impedindo
assim a obtenção de blocos comerciáveis. Para obstar esta
situação aplicam-se várias estratégias, i.e. cortes múltiplos
simultâneos, corte a velocidades reduzidas, fragmentação
de uma parte do maciço com pólvora negra, etc., todas
com resultados pouco satisfatórios.
Por fim a erosão causada pelos agentes meteóricos é
responsável pelo encaixe das linhas de água e génese do
modelado atual do relevo que é, em primeira instância,
condicionado pelas diferentes litologias: zonas mais bai-
xas no Pré-Câmbrico; planalto central correspondente à
Formação Dolomítica; patamar intermédio correspon-
dente ao CVSCE e zonas mais baixas correspondentes
aos xistos envolventes ao anticlinal.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
4. PONTO DA SITUAÇÃO
A valorização do território passa pelo equilíbrio da
exploração e usufruto dos seus recursos endógenos sem
comprometer a sustentabilidade de gerações futuras.
Se os recursos se esgotarem e não se preconizarem
alternativas aliciantes, os mais novos partem em busca
de desafios e oportunidades que lhes são negadas onde
nasceram. É neste ponto de viragem que se encontram
os concelhos do Anticlinal de Estremoz. Numa análise
que escapa ao presente trabalho, diremos apenas que nos
últimos anos a população tem vindo sempre a decrescer
e a curto prazo não haverá trabalhadores locais para
assegurar o trabalho nas pedreiras.
A par de toda a indústria extrativa e transformadora, o
sector das Rochas Ornamentais tem evoluído imenso.
Hoje, este é um setor altamente mecanizado onde o
esforço dos trabalhadores foi muitíssimo reduzido e, não
deixando de ser um trabalho duro que depende muito
das condições climáticas, não tem comparação possível
com o passado. De qualquer modo, esta mensagem de
inovação e avanço tecnológico, também potenciado por
empresas nacionais, não tem passado para os jovens e
o setor continua a ter uma imagem de trabalho árduo e
mal pago que, na maior parte dos casos, não corresponde
à realidade.
Como já se referiu, há um conhecimento geológico
muito completo dos principais centros de exploração
no Anticlinal de Estremoz, conhecidos por UNORs
(Unidades de Ordenamento do Território: Estremoz;
Borba; Vigária; Lagoa e Pardais. PROZOM, 2002; Vintém
et al., 2003; Falé et al., 2006; Carvalho et al., 2008). Assim,
integrando esta informação em termos litológicos, estado
de fraturação, variedades de mármore e comportamento
geomecânico expectável do maciço, com varáveis
regionais que definem o correto uso do território,
considerando o potencial de modelação numérica
atualmente possível pelo cálculo computacional, será
possível a curto prazo, elaborar modelos precisos da
jazida marmórea em profundidade e assim propor
planos de exploração otimizados e conservadores tendo
em vista a exploração sustentável do mármore (Fig. 14).
É claro que para ser implementado, tal plano terá de
assegurar à partida o compromisso e cumplicidade das
empresas e municípios, afinal de contas as partes mais
interessadas no negócio.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 14
Ortofotomapa e modelo 3D do núcleo de pedreiras de mármore de Pardais
As pedreiras representadas pertencem às empresas F. J. Cochicho & Filho Lda.; Cochicho, Lda.
e Mármores Galrão Lda., realizado com recurso a levantamento com drone e processamento das
imagens obtidas com recurso ao software Pix4D Mapper (https://www.pix4d.com).
O resultado, que é muito mais impressionante que a imagem estática demonstra, é alcançado com
um voo de 20 minutos onde se obtêm cerca de 200 fotografias que são posteriormente processadas
durante cerca de três horas, É claro que o tempo de processamento depende do computador,
estes valores são para um modesto Pentium i7 com 8Gb de memória RAM. Agradecimentos às
empresas pela utilização da imagem e a Maxim Bogdanowitsch pela cedência das imagens para
processamento.
O modelo assim criadopode ainda ser melhorado com
recurso a um sistema de aquisição de imagem LIDAR
aumentando a definição do modelo e completando o
mesmo com a integração de imagens inacessíveis ao
drone. Na figura 15 vemos precisamente um exemplo
da integração das imagens obtidas pelos dois métodos
https://www.pix4d.com
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
permitindo, no caso, a visualização tridimensional
nas galerias subterrâneas. O grau de rigor e detalhe
destes modelos permitem analisar as características
geométricas de descontinuidades que, devido ao
avanço da lavra, seriam fisicamente muito difíceis de
alcançar, ajudando a determinar potenciais situações de
instabilidade. Por outro lado, são também ferramentas de
apoio à exploração que de modo muito rápido e intuitivo,
permitem fazer cálculos de reservas e definição das
orientações preferenciais para o avanço de novos pisos.
As potencialidades desta tecnologia são impressionantes e
já estão a ser implementadas no terreno pela Universidade
de Évora no âmbito do Projeto INOVSTONE 4.0.
FIGURA 15
Ortofotomapa e modelo 3D da pedreira D’El Rei
A pedreira pertence à empresa Ezequiel Francisco Alves, Lda. O modelo foi realizado com recurso a imagens obtidas por drone e levantamento
fotogramétrico por LIDAR nas zonas inacessíveis ao drone. O processamento das imagens para a elaboração do modelo fez-se com recurso ao
software ContextCapture da Bentley (http://www.bentley.com/). Agradecimento à empresa pela autorização de utilização da informação e a Ricardo
Gaio pelo processamento e cedência do modelo 3D.
Os modelos 3D assim gerados revelam ainda a baixa
ef iciência deste método de exploração em poço,
principalmente nestas cavidades mais profundas, onde
grande parte da massa mineral fica por explorar.
Havendo possibilidade, é sempre preferível ampliar as
áreas de exploração. Um exemplo, pela positiva, está a
ser implementado pela empresa Solubema — Sociedade
Luso-Belga de Mármores, SA na Herdade da Vigária,
Vila Viçosa (Fig. 16).
Noutra vertente completamente distinta, podemos
afirmar que o potencial Geoturístico é virtualmente
inesgotável sendo que o Anticlinal de Estremoz contem
em si todas as valências (Geodiversidade, Biodiversi-
dade, Turística, Gastronómica, Enológica, Cultural e
Patrimonial) para se constituir como o “Geoparque da
Zona dos Mármores”.
http://www.bentley.com/
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 16
Sobreposição da estrutura geológica esquematizada sobre vista panorâmica para SE,
a partir do VG Mouro, do flanco SW do Anticlinal de Estremoz
A Geodiversidade está assegurada em consequência
da atividade mineira nos mármores, onde a sequência
litoestratigráfica se encontra bem representada e
acessível à observação direta o que desde logo constitui
caso ímpar na geologia nacional (Falé et al., 2008;
2009; Lopes & Martins, 2010; Lopes et al., 2013). Nela
se podem identificar e caracterizar in situ as unidades
geológicas mais antigas de idade pré-câmbrica;
a transição Pré-Câmbrico – Câmbrico; o Câmbrico
inferior dolomítico; o Complexo Vulcano-Sedimentar
Carbonatado (onde se incluem os mármores ornamentais),
de idade câmbrica provável, e, no topo da sequência, as
rochas de idade silúrica e devónicas mais recentes e
com conteúdo fossilífero que permitiu a sua datação
(Lopes, 2003; Piçarra, 2000). Alguns af loramentos
estão reconhecidos no inventário de sítios de relevância
nacional classificados como Património Geológico
Nacional, na categoria temática “Mármores Paleozoicos
da Zona de Ossa-Morena”, que reúne os principais
geossítios em Portugal com elevado valor científico e
que representam a geodiversidade nacional (Brilha
et al., 2010; 2012), permitindo compreender a história e
a evolução geológica do nosso território. Nomeadamente
a transição do Pré-Câmbrico ao Câmbrico, no Parque
Industrial de Vila Viçosa e os padrões de dobras
redobradas à escala da pedreira, na zona da Lagoa,
entre outros, são apenas alguns dos inúmeros exemplos
de ocorrências da geodiversidade com evidente valor
No primeiro plano observam-se as pedreiras da Herdade da Vigária e no horizonte situam-se as pedreiras da Lagoa. Na imagem
está representada, sem dúvida, a região mais produtiva e promissora do anticlinal. Embora haja pedreiras profundas, só num caso
a profundidade é superior a 100 metros. No entanto, as sondagens profundas indicam a existência de mármore para além dos
300 metros. O desenvolvimento em área e integração das várias pedreiras numa única cavidade, além de imperativo, pode ser a
solução mais adequada, pelo menos a médio prazo.
excecional que poderíamos referir (Lopes & Martins,
2010).
As pedreiras abandonadas (e as ativas também…)
constituem excelentes locais onde a fauna e flora tem
oportunidade de se desenvolver praticamente sem
qualquer tipo pressão humana. Estudo realizado por
Germano (2013), demonstrou que, no que concerne
à avifauna nas pedreiras abandonadas, não só que o
número de espécies é maior mas também que e o número
de efetivos por espécie é superior ao que se encontra
regionalmente (Germano et al., 2014).
Uma avaliação muito conservadora da matéria-prima
existente no anticlinal (Lopes & Martins, 2015), permite
estimar que mesmo aos índices de produção anuais
mais altos já atingidos, haverá mármore de qualidade
suficiente para mais 550 anos de lavra ininterrupta.
Para que tal aconteça e como se depreende do presente
texto, muito haverá a mudar, tanto nos métodos de
exploração, visando a otimização da lavra e mitigação
de riscos associados à mesma, como no próprio modelo
de negócio e organização das empresas.
Em conclusão, um conjunto de fatores geológicos
convergiram para que neste território pudessem ocorrer
mármores em abundância, diversificados e de excecional
qualidade pelo que, hoje, o Anticlinal de Estremoz e
particularmente o município de Vila Viçosa é uma das
mais importantes regiões mundiais para a extração desta
distinta matéria-prima.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
REFERÊNCIAS
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Unidade de Borba. Imprensa da Universidade - A geologia de
Engenharia e os Recursos Geológicos, Vol. II, pp. 309 - 321.
http://hdl.handle.net/10316.2/39229
APALATEGUI, O., CARRACEDO, M., EGUILUZ, L., IBARGUCHI, J.,
TORRES MARTÍNEZ, L., PALACIOS, T., SARRIONANDIA, F. (2007)
– El Nuevo Mapa Geológico de la Provincia de Badajoz. En Patrimonio
Geológico de Extremadura, Geodiversidad y lugares de interés
Geológico (P. Muñoz y E. Martínez, coord), Junta de Extremadura,
Consejería de Agricultura y Medio Ambiente, 68-69 pp.
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http://dx.doi.org/10.1016/j.jas.2012.12.030
http://dx.doi.org/10.1016/j.jas.2012.12.030
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
A Rocha Ornamental Portuguesa e a Evolução na sua Caracterização
Cristina Isabel Paulo de Carvalho
Unidade de Ciência e Tecnologia Mineral— Laboratório Nacional
de Energia e Geologia, I.P. – Rua da Amieira, Apartado 1089 –
4466-901 S. Mamede de Infesta
E-mail: cristina.carvalho@lneg.pt
Palavras Chave: Rochas ornamentais, pedra natural, catálogo de rochas ornamentais, propriedades, métodos de
ensaio, normas europeias, produtos em pedra natural, declaração de desempenho.
RESUMO
Neste documento, relata-se o extenso trabalho desenvolvido pelo Laboratório Nacional de Energia e Geologia e
pelas suas instituições antecessoras, no âmbito da caracterização das rochas ornamentais portuguesas. Tendo como
ponto de partida o primeiro “Catálogo de Rochas Ornamentais Portuguesas”, apresentam-se as motivações que
estiveram na origem da criação desta obra literária ímpar e das obras literárias que a sucederam, culminando-se
no site “Rochas Ornamentais Portuguesas”. A caracterização das rochas ornamentais assenta no conhecimento das
suas propriedades, determinadas através de ensaios. Por este motivo, dá-se particular ênfase aos métodos de ensaio
e ao seu progressivo e gradual desenvolvimento, fruto da adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia.
Termina-se, abordando as repercussões desta adesão na comercialização dos produtos em pedra natural, de modo a
dar cumprimento à legislação europeia atualmente em vigor (Regulamento (UE) N.º 305/2011).
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
1. INTRODUÇÃO
Portugal é geologicamente bastante diversificado. Nele
ocorrem maciços rochosos, de natureza variada, muitos
dos quais com características favoráveis à sua exploração,
para extração de blocos. Estes fatores foram determi-
nantes no estabelecimento de uma importante indús-
tria extrativa e transformadora da rocha ornamental
portuguesa.
O conhecimento das propriedades das rochas ornamentais
é indispensável para a sua seleção adequada, em função
do tipo de aplicação. É, igualmente, fundamental nas
campanhas de marketing. Em 1981, norteado por estes
objetivos e pelo previsível estreitamento das relações
económicas entre Portugal e os outros estados membro,
fruto da sua iminente adesão à Comunidade Económica
Europeia (CEE), o Laboratório da DGGM — Direção
Geral de Geologia e Minas (atual LNEG) arrancou
com a elaboração do primeiro “Catálogo de Rochas
Ornamentais Portuguesas”. Trata-se de um trabalho
único, de caracterização sistemática das principais
rochas ornamentais exploradas em Portugal continental,
durante todos os anos 80 e o início dos anos 90, do século
passado. A elaboração das Fichas Técnicas, constantes
no Catálogo, implicou proceder-se à determinação das
principais propriedades da quase centena e meia de
rochas ornamentais portuguesas presentes nos quatro
volumes, que compõem esta obra literária. O ideal
seria que esta caracterização assentasse em métodos
já estabelecidos, em normas. Contudo, as normas
portuguesas sobre esta matéria eram escassas. O recurso
a normas de ensaio doutro país europeu, selecionado
com base no seu volume de importação de rochas
ornamentais portuguesas, foi a solução encontrada para
colmatar esta lacuna.
Em 1986, Portugal aderiu à CEE. Em termos normativos,
esta adesão determinou a adoção das normas europeias
e a consequente revogação das normas nacionais.
As normas europeias relativas a rocha ornamental
são elaboradas pela CEN/TC 246 — “Natural Stones”,
comissão técnica tutelada pelo Comité Europeu de
Normalização (CEN). A DGGM integrou a CEN/TC 246,
praticamente desde a sua constituição. Grande parte
da atividade normativa inicial, desta comissão técnica,
centrou-se no desenvolvimento de normas de métodos
de ensaio. A sua publicação e entrada em vigor
conduziram ao abandono dos métodos utilizados na
caracterização das rochas ornamentais portuguesas e à
substituição progressiva pelos métodos estabelecidos nas
normas europeias. A implementação destas normas, não
acarretou apenas alterações do ponto de visto analítico.
Acima de tudo, implicou um significativo esforço
financeiro na renovação de variadíssimos equipamentos
e utensílios, que cumprissem as rigorosas exigências
das normas europeias. Este esforço foi igualmente
acompanhado pela indústria extrativa e transformadora,
em particular pelas empresas cujo principal destino
dos seus produtos já era o mercado externo europeu,
antes da adesão de Portugal à CEE. Estas empresas
foram confrontadas com necessidade de repetir toda
a caraterização até então efetuada às suas rochas
ornamentais, agora de acordo com os métodos definidos
pelas normas europeias, para que os seus produtos
continuassem a ser bem acolhidos pelos países da CEE.
Após a elaboração de um conjunto significativo de
normas europeias de métodos de ensaio, de terminologia
e de critériosde classificação, a CEN/TC 246 avançou
para o desenvolvimento de normas relativas a classes de
produtos em pedra natural, com disposições legais no
que se refere à sua marcação CE, cumprindo a legislação
europeia aplicável aos produtos de construção. A entrada
em vigor destas normas, marcou o início de uma nova e
importante etapa na caracterização da rocha ornamental
portuguesa. Pela primeira vez, esta passou a assumir um
caráter obrigatório.
O LNEG e as suas instituições antecessoras (Instituto
Nacional de Energia, Tecnologia e Inovação e Instituto
Geológico e Mineiro) foram procedendo à publicação
de mais obras literárias dedicadas à caracterização
das rochas ornamentais portuguesas, que constituem
atualizações do “Catálogo de Rochas Ornamentais
Portuguesas” e que foram acompanhando a evolução do
processo normativo europeu, neste domínio. O presente
documento, além de fazer a resenha dessas obras
literárias, apresenta previamente um pequeno relato
dos primórdios da exploração de rocha ornamental
no território português e uma apresentação de alguns
dados estatísticos atuais, relativos à exploração de rocha
ornamental portuguesa. Termina, com as repercussões
normativas e legislativas resultantes da adesão de
Portugal à CEE, na caracterização da rocha ornamental
portuguesa e na comercialização dos seus produtos.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
2. BREVE NOTA HISTÓRICA E PANORAMA
ATUAL
Os monumentos megalíticos constituem as evidências
mais antigas da utilização da pedra no nosso país, na
sua vertente ornamental. Porém, os primeiros registos
de utilização e extração de rocha, em território nacio-
nal, surgem durante a ocupação romana da península
ibérica, no principado de Augusto (27 a.C. - 14 d.C.),
na sua maioria associados ao seu projeto urbanístico
de “marmorização” do Império Romano (Maciel, M.
Justino, 1998). O conhecimento que se tem da utilização
das rochas ornamentais na província romana Lusitania
resulta, principalmente, da constatação do seu uso em
edifícios, epígrafes ou esculturas romanas (Cardoso,
J. L., Guerra, A., Fabião, C., 2011). O templo romano de
Évora (Figura 1), construído em granito estucado e com
as bases e capitéis das suas colunas lavrados em már-
mores do Anticlinal de Estremoz, constitui um exemplo
icónico deste facto (Ibidem). Apesar das dificuldades na
extração e no transporte terem ditado a sua utilização
parcimoniosa, estudos revelaram que a exploração de
mármores, no Anticlinal de Estremoz, sofreu um ex-
traordinário incremento na primeira metade do século
I (Ibidem). Esta constatação é posta em evidência através
das inúmeras decorações escultóricas, de grandes edifí-
cios públicos romanos, encontradas em distintas cidades
da Lusitania, localizadas quer em território nacional,
quer em Espanha, incluindo na sua capital provincial:
Augusta Emérita (Mérida). Além dos mármores do An-
ticlinal de Estremoz, encontra-se ainda documentada
a utilização romana do mármore de Trigaches (Beja),
embora os registos arqueológicos da sua aplicação sejam
menos expressivos que os anteriores e se encontrem
mais circunscritos à sua área de ocorrência (Ibidem).
Existem, também, registos arqueológicos pontuais da
extração romana de rochas ornamentais. No Alentejo, o
único testemunho conhecido está localizado na pedreira
“Herdade da Vigária” (Bencatel, Vila Viçosa), na qual
foi descoberta uma antiga frente de pedreira de idade
romana (Ibidem). Mais a norte, também foi identificada
uma única pedreira de idade romana, localizada na
Estação Romana de Colaride, em Sintra (Ibidem). Nesta
pedreira e noutras localizadas na região norte da atual
área metropolitana de Lisboa, particularmente em Pêro
Pinheiro, foram extraídos distintos calcários utilizados
na construção de edifícios de Olisipo (Lisboa), apesar de
este facto estar apenas patente em registos documentais
seculares, muitos dos quais associados à reconstrução de
Lisboa após o grande terramoto de 1755 (Ibidem).
FIGURA 1
Templo romano de Évora
(imagem gentilmente cedida pelo Prof. Rúben Martins, do Departa-
mento de Geociências, da Universidade de Évora).
Desde esses longínquos primórdios até ao presente
momento, a extração de rocha ornamental no nosso
país deu um passo de gigante. Atualmente, o cadastro
de pedreiras da DGEG — Direção Geral de Energia e
Geologia regista 324 pedreiras de rocha ornamental a
desenvolver atividade extrativa em Portugal continental
(dados do “site” http://www.dgeg.gov.pt/, atualizados em
09-03-2015), além das existentes nas Regiões Autónomas
da Madeira e dos Açores. A distribuição dessas pedreiras
ativas, em termos de tipo de rocha explorado, está
patente no Quadro 1.
QUADRO 1
Distribuição das pedreiras ativas de rochas ornamentais,
em Portugal continental, por tipo de rocha explorado
Tipo de rocha
ornamental explorada
Número de
pedreiras ativas
Granito 143
Calcário 108
Mármore 63
Xisto 8
Sienito nefelínico 2
(dados do “site” http://www.dgeg.gov.pt/, atualizados em 09-03-2015).
De acordo com dados estatísticos, também coligidos pela
DGEG (Estatística de Recursos Geológicos da DSEF-
RG), as produções anuais de rochas ornamentais em
http://www.dgeg.gov.pt
http://www.dgeg.gov.pt/
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Portugal continental, entre os anos de 2007 e 2017, são
apresentadas no gráfico da Figura 2. Da sua análise,
verifica-se que só no ano de 2017 a produção de rochas
ornamentais suplantou o nível existente antes da crise
económica global de 2007-2008 e que resultou na falência
de muitas empresas deste ramo de atividade.
FIGURA 2
Produção anual de rochas ornamentais em
Portugal continental entre os anos de 2007 e 2017
(dados: DGEG - Estatística de Recursos Geológicos da DSEF-RG).
3. O PRIMEIRO CATÁLOGO DE ROCHAS OR-
NAMENTAIS PORTUGUESAS
3.1 Retrospetiva
Em 1981, ano em que o Laboratório da DGGM
(atual LNEG) decidiu iniciar o seu projeto de elabo-
ração do “Catálogo de Rochas Ornamentais Portugue-
sas”, integrado nas políticas governamentais em curso
para a valorização dos recursos minerais, vivia-se um
período de recuperação económica, quer da crise
petrolífera de 1973-74, que teve impacto mundial e na
Europa desencadeou uma profunda recessão económica,
quer da Revolução de Abril de 1974. Nesse ano, de 1981,
registavam-se 365 pedreiras ativas de rocha ornamental.
As suas produções e valores monetários totais na
pedreira, entre os anos de 1977 e 1981, estão patentes
no Quadro 2 (Martins, O. R., 1982). Comparando os
dados estatísticos de 1981 com os de 2017, verifica-se
que em 1981 os volumes de produção eram quase 8 vezes
inferiores e os valores monetários totais na pedreira mais
de 16 vezes inferiores aos de 2017.
QUADRO 2
Pedreiras de rochas ornamentais — Produções e valores monetários
totais na pedreira entre 1977 e 1981
Ano Produção
(toneladas)
Variação Valor monetário
total na pedreira
(X × 1000)*
Variação
1977 286.053 — 2.608 —
1978 324.819 + 13,6 3.518 + 34,9
1979 359.337 + 10,6 5.278 + 50,0
1980 406.312 + 13,1 8.243 + 56,2
1981 415.772 + 2,3 10.908 + 32,3
(adaptado de Martins, O. R., 1982).
* Conversão para euros, à taxa de câmbio de 200,482 PTE (31-12-1998,
Conselho da UE - União Europeia).
O setor das rochas ornamentais já tinha identificado a
inexistência de um Catálogo de Rochas Ornamentais
Portuguesas como um handicap para esta indústria
(Moura, A. C., Martins, O. R. et alia, 1983). Contudo,
perspetivava-se dificuldades de natureza diversa na
execução de um projeto desta envergadura. Além
dos avultados encargos f inanceiros em trabalhos
de campo, analíticos e tipográficos, previa-se ainda
outros obstáculos, principalmente na obtenção dos
provetes necessários para os ensaios, mas também
na determinação das propriedades, quer pela falta
de métodos, quer de meios técnicos. A entrada, a
curto prazo, de Portugal na Comunidade Económica
Europeia e asubsequente necessidade de promover a
rocha ornamental portuguesa junto deste mercado,
no sentido de incrementar a sua exportação, deram
o impulso necessário ao arranque deste projeto. A
execução do Catálogo envolveu um amplo conjunto
de quadros da DGGM, coordenado por uma equipa
de 12 técnicos superiores. Contou, ainda, com o apoio
de muitos industriais do setor da rocha ornamental,
nomeadamente na disponibilização e corte dos provetes
de ensaio, sem os quais não teria sido possível avançar.
A coordenação do projeto foi assegurada por António
Casal Moura (Geólogo da DGGM).
Também no ano de 1981 e igualmente no âmbito
da valorização das rochas ornamentais portuguesas,
decorreu, na FIL, o SIROR 81 — 1º Salão Internacional
de Rochas Ornamentais. A sua organização esteve a
cargo da DGGM, juntamente com o FFE — Fundo de
Fomento e Exportação e com o IAPMEI, tendo ainda
contado com a colaboração de diversas entidades, das
quais se destacam a ASSIMAGRA e a FIL. Ciente da
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
importância da apresentação do “Catálogo de Rochas
Ornamentais Portuguesas” nesta exposição, mas
não tendo sido este concluído, a equipa da DGGM
preparou uma versão bastante sintética do Catálogo
(Figura 3), para acompanhar o anúncio da sua elaboração
neste certame. A propósito da sua preparação, João
Farinha Ramos (Geólogo da DGGM) recordou que foi
necessário mobilizar uma dilatada equipa da DGGM,
quer do Laboratório, quer das Delegações de Aveiro
e de Coimbra, para proceder à colagem, manual, das
fotografias das 72 rochas ornamentais representadas
nesta obra literária percursora do Catálogo, em todos
os exemplares produzidos.
FIGURA 3
Percursor do “Catálogo de Rochas Ornamentais Portuguesas” preparado pela DGGM (atual LNEG) para o SIROR-81
a) b) c)
a) Capa. b) e c) Exemplo das 2 páginas que constituíam as Fichas Técnicas de duas rochas ornamentais portuguesas.
Além de aspetos de índole histórica, geológica e comer-
cial, o “Catálogo de Rochas Ornamentais Portuguesas”
contém uma caracterização detalhada das principais
rochas ornamentais exploradas no nosso país, entre 1981
e o início da década de 90. Esta está apresentada sob a
forma de Fichas Técnicas bilingues (português e inglês),
compostas por 3 páginas (Figura 4). Os restantes capí-
tulos têm a particularidade de estar escritos em quatro
línguas: português, inglês, italiano e francês.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 4
Catálogo de Rochas Ornamentais Portuguesas da DGGM (atual LNEG)
a) b)
c) d)
a) Capa. b), c) e d) Exemplo das 3 páginas que compõe cada Ficha Técnica, de uma rocha ornamental portuguesa.
A edição dos 4 volumes, que compõem o Catálogo, foi
faseada. O 1º volume foi editado em 1983 e inclui fichas
técnicas de 31 rochas ornamentais. Considerando os
principais centros de exploração de rochas ornamentais
da época (Figura 5), este primeiro conjunto foi composto
de modo a ser “representativo e equilibrado da produção
nacional” (Moura, A. C., Martins, O. R. et alia, 1983). Nos
anos seguintes foram publicados o 2º volume (Moura, A.
C., Martins, O. R. et alia, 1984) e o 3º volume (Moura, A.
C., Martins, O. R. et alia, 1985), contendo fichas técnicas
de mais 33 e 40 rochas ornamentais, respetivamente.
O enorme êxito do Catálogo motivou a reedição do 1º
volume em 1992, antes mesmo da edição do 4º volume,
que viria a acontecer dois anos depois (Moura, A. C.,
Martins, O. R. et alia, 1994), com fichas técnicas de mais
30 rochas ornamentais. Em 1996, foram reeditados o
2º e o 3º volumes. O detalhe inovador de o Catálogo
estar encadernado em capas de argolas, permitiu ainda
editar fichas técnicas complementares, para inclusão no
4º volume. Deste modo, foram editadas fichas técnicas
de mais 4 rochas ornamentais: duas no ano de 1995 e
duas no ano 1996. A última edição do Catálogo ocorreu
em 2000, com a publicação de fichas técnicas de mais 4
rochas ornamentais. No total, esta obra literária pioneira
congrega a informação de 142 rochas ornamentais
portuguesas.
91
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 5
Localização dos principais centros de exploração de rocha ornamental em 1983
(imagem do 1º Volume do Catálogo de Rochas Ornamentais Portuguesas, da DGGM).
3.2 Evolução até ao momento atual
A elaboração de livros dedicados à caracterização das
rochas ornamentais portuguesas, por parte da DGGM
e das entidades que a sucederam, não se esvaziou com
o Catálogo. Logo no ano de 2000, o IGM — Instituto
Geológico Mineiro (atual LNEG) publicou a monografia
“Granitos e Rochas Similares de Portugal” (Moura, A.
C. et alia, 2000). Coordenada por António Casal Moura,
a edição contou com o apoio do PEDIP II — Programa
Estratégico de Dinamização e Modernização da Indústria
Portuguesa, do IPQ — Instituto Português da Qualidade
e do FEDER — Fundo Europeu de Desenvolvimento
Regional. Esta obra literária (Figura 6 a)), que contém 51
Fichas Técnicas de granitos, outras rochas ígneas e um
serpentinito, teve por objetivo não só divulgar as rochas
graníticas portuguesas, setor que evidenciava uma franca
expansão, mas também atualizar os dados do Catálogo,
em particular os respeitantes à caracterização das rochas,
já considerando o novo normativo europeu. Contudo,
um dos aspetos mais relevantes desta obra literária foi a
inclusão de especificações técnicas (Figura 6b)), matéria
inexistente na legislação portuguesa, no que se refere a
produtos em pedra natural.
92
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 6
Granitos e Rochas Similares de Portugal (IGM, 2000)
a) b)
a) Capa.
b) Excerto das Especificações Técnicas.
Além desta monografia, em 2007 foi editada uma
segunda, intitulada “Mármores e Calcários Ornamentais
de Portugal” (Moura A. C. et al, 2007), que engloba
Fichas Técnicas de 49 mármores e de 37 calcários
(Figura 7 a)). Foi publicada pelo INETI — Instituto
Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação (atual
LNEG), contou igualmente com a coordenação de
António Casal Moura e com o apoio financeiro do
CEDINTEC – Centro para o Desenvolvimento e Inovação
Tecnológicos, da CCDRC — Comissão de Coordenação
e Desenvolvimento Regional do Centro (através do
Programa Operacional da Região Centro) e do FEDER.
Na origem da sua elaboração estiveram motivos idênticos
aos que determinaram a execução da monografia
relativa aos granitos e similares. Inclui, igualmente,
especificações técnicas para produtos fabricados quer
em mármore, quer em calcário (Figura 7 b)).
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 7
Mármores e Calcários Ornamentais de Portugal (INETI, 2007)
a) b)
a) Capa.
b) Excerto das Especificações Técnicas.
A temática das especificações técnicas foi abordada,
com mais detalhe, no “Manual da Pedra Natural para
a Arquitectura” (Pinto, A. C. R. et alia, 2006). Editado
pela DGEG e promovido pelo CEDINTEC, contou com
a coordenação de António Esteves Henriques (Revista
Rochas & Equipamentos) e de Jorge Simões Nunes Tello
(CEDINTEC) e com o apoio do INETI e da Ordem dos
Arquitetos.
A progressiva substituição do documento em papel pelo
ficheiro em suporte digital, o “universo” de possibilidades
que a internet nos trouxe e o caráter imprescindível que
ela já assume nas nossas vidas, motivou o IGM (atual
LNEG) a avançar, em 2002, para a informatização do
seu Catálogo de Rochas Ornamentais Portuguesas (link
atual: http://rop.lneg.pt/rop/). Da autoria de Mário
Machado Leite (atual Vogal do Conselho Diretivo do
LNEG) e de António Casal Moura, responsável também
pela coordenação do projeto, a preparação da versão
informatizada do Catálogo contou com a participação
de uma equipa de Quadros do IGM e com o apoio
financeiro da DGREI — Direção Geral das Relações
Económicas Internacionais, do PEDIP II e da UniãoEuropeia (Figura 8).
http://rop.lneg.pt/rop/
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 8
Portal de Rochas Ornamentais Portuguesas do LNEG
(excerto da atual página inicial).
O portal de Rochas Ornamentais Portuguesas é bilingue
(português e inglês) e apesar de a sua estrutura ser relati-
vamente semelhante à do Catálogo que lhe deu origem,
inclui importantes funcionalidades. A possibilidade de
se efetuarem pesquisas de rochas pela sua designação
comercial, pela localização municipal das suas explo-
rações e pelas características (aplicação, tipo de rocha,
cor e diversas propriedades), consideradas isoladamen-
te, ou conjugadas, são apenas algumas das inovações
desta plataforma. Desde a sua disponibilização on-line,
o portal tem sido alvo de permanente atualização dos
seus conteúdos. As mais abrangentes foram efetuadas no
âmbito do projeto AIZM — Ação Integrada da Zona dos
Mármores (financiamento: FEDER e Estado Português)
e do Projeto Âncora 1 — Valorização da pedra natural
portuguesa, do Cluster da Pedra Natural (financiamento:
COMPETE / QREN / União Europeia). Sempre que é
oportuno, tem-se procedido à inserção de novos litóti-
pos, alguns dos quais como resultado da participação
do LNEG em projetos. Este foi o caso do Quartzito de
Murça, cuja inclusão foi efetuada no âmbito da partici-
pação do LNEG no Projeto FCT - I&D “Schistresource”.
O portal de Rochas Ornamentais Portuguesas tem sido
uma preciosa “ferramenta” para industriais do setor
da rocha ornamental, arquitetos e outros prescritores,
comunidade académica e público em geral, sendo dia-
riamente consultado por inúmeras pessoas.
3.3 Os ensaios de caraterização
A caracterização da rocha ornamental, patente em cada
Ficha Técnica do Catálogo de Rochas Ornamentais
Portuguesas, inclui a sua petrograf ia, a análise
química dos seus elementos maiores e um conjunto de
propriedades cuja seleção teve por base três premissas:
1) serem fundamentais na caracterização de qualquer
rocha ornamental;
2) contemplarem aspetos relacionados com o
desempenho das rochas após a sua aplicação;
3) avaliarem a sua durabilidade, quer em função
da utilização, quer em termos de condições
climatéricas.
Face à quase inexistência de normas portuguesas de
ensaio, no domínio da rocha ornamental, foram ado-
tadas normas da República Federal Alemã (DIN) na
determinação da maioria das propriedades (Quadro 3).
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
QUADRO 3
Propriedades determinadas para o Catálogo de Rochas Ornamentais Portuguesas, métodos de ensaios aplicados e provetes utilizados
Propriedade físico-mecânica Método de ensaio aplicado Número de provetes e dimensões
Resistência mecânica à compressão (inicial e
após teste de gelividade)
Norma DIN 52105 6 cubos
71mm de aresta
Teste de gelividade
(25 ciclos)
Norma DIN 52104 6 cubos
71mm de aresta
Resistência mecânica à flexão Norma DIN 52112 4 paralelepípedos
(200×30×30)mm
Massa volúmica aparente Norma DIN 52102 6 cubos
71mm de aresta
Absorção de água à pressão atmosférica
normal
Norma DIN 52103 6 cubos
71mm de aresta
Porosidade aberta LNEC E 216-1968 6 cubos
71mm de aresta
Coeficiente de dilatação linear térmica Método interno 2 paralelepípedos
(24-25×5×5)mm
Resistência ao desgaste NP 309:1962
(máquina Amsler-Laffon)
4 paralelepípedos
(60×60×30)mm
Resistência ao choque Método interno 4 placas
(200×200×30)mm
4. A INFLUÊNCIA DA ADESÃO DE PORTUGAL
À CEE NA CARACTERIZAÇÃO DAS ROCHAS
ORNAMENTAIS PORTUGUESAS
No ano de 1986 Portugal aderiu à Comunidade Econó-
mica Europeia (atual UE – União Europeia). Uma das
consequências foi a obrigatoriedade de adoção das dire-
tivas europeias, em detrimento da legislação e normas
portuguesas, para todas as áreas de atividade económica.
O processo normativo europeu tinha tido início em1975,
ano em que foi oficialmente criado o CEN — Comité
Europeu de Normalização (https://www.cen.eu/Pages/
default.aspx). O seu Conselho Técnico assume o
controlo total do programa de normalização europeu
(CEN, Technical Board, 2018), sendo responsável pela
criação, coordenação e gestão da atividade normativa
desenvolvida pelas mais de 320 Comissões Técnicas
existentes neste Comité. Cada comissão, com designação
e domínio de atuação bem definidos, é constituída por
um ou mais representantes de cada estado membro. No
caso de Portugal, a nomeação dos representantes para
A escolha de normas DIN baseou-se no facto de, à data
do arranque da elaboração do Catálogo, a República
Federal Alemã ser a principal importadora de rocha
ornamental portuguesa. Com efeito, dados estatísticos
sobre a indústria extrativa portuguesa referentes ao
ano de 1981, reportam que das 308.431 toneladas de
rochas ornamentais portuguesas exportadas nesse
ano (considerando, globalmente, blocos e chapas em
bruto e produtos acabados), 135.185 toneladas (44%
do total) tiveram como destino a República Federal
Alemã (Romão, M. L., 1983). Seguiu-se a Espanha, com
apenas 11% (Ibidem). Em termos financeiros e efetuando
a conversão para euros (à taxa de câmbio de 200,482
PTE, adotada pelo Conselho da União Europeia em
31/12/1998), o valor global das exportações de rochas
ornamentais em 1981 foi de cerca de 14,6 milhões de
euros. O montante de exportações para a República
Federal Alemã correspondeu a 27% daquele valor
(cerca de 3,9 milhões de euros). Seguiram-se a Arábia
Saudita e a França, com cerca de 10% do valor global de
exportações, para cada país (Ibidem).
https://www.cen.eu/Pages/default.aspx
https://www.cen.eu/Pages/default.aspx
96
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
cada Comissão Técnica europeia é da responsabilidade
dos ONS - Organismos de Normalização Setorial. O IPQ
— Instituto Português da Qualidade é responsável pela
qualificação dos ONS, assim como pela coordenação da
sua atividade. Por seu turno, o IPQ assume a função de
Organismo Nacional de Normalização, no CEN.
Além de cada ONS ter como função acompanhar os
trabalhos de normalização das Comissões Técnicas
europeias a atuarem na sua área de atividade, também
gere o processo de elaboração das normas portuguesas
(tradução, redação e revisão) após a edição de normas
europeias. Estas atividades são garantidas através da
criação de Comissões Técnicas portuguesas (CT).
A Comissão Técnica europeia responsável pela elaboração
das normas europeias no domínio da pedra natural é
a CEN/TC 246 – “Natural Stones”. A sua congénere
portuguesa é a CT 118 – Rochas Ornamentais.
A CEN/TC 246 – “Natural Stones” está dividida em 4
grupos de trabalho (WG), cada um com as seguintes
atribuições:
WG1 ― Terminologia, classificação e características
WG2 ― Métodos de ensaio
WG3 ― Normas de produto
WG4 ― Pedra aglomerada
A atividade normativa da TC 246 é definida e discutida
em reuniões organizadas pelos diferentes estados
membros, em regime de rotatividade e habitualmente
com periodicidade semestral. A DGGM (e sucessoras:
IGM/INETI/LNEG) representou Portugal nesta Comissão
Técnica, na fase de arranque através de António Casal
Moura e a partir de 2005 através da Autora. No início,
estas reuniões nem sempre foram muito profícuas,
devido a diversas dificuldades, das quais se destacam: -
a barreira linguística; - a falta de competências técnicas
na matéria; - os objetivos antagónicos entre países
produtores e países importadores de rocha ornamental;
- as diferenças climáticas entre os países do norte e os
do sul da Europa.
O CEN tinha estipulado o inglês, como língua oficial das
reuniões das TC. Contudo, havia uma forte resistência
em cumprir esta regra, principalmente por parte dos
representantes franceses, sobretudo por falta de domínio
da língua. Iniciavam longos diálogos em francês, eram,
de imediato, acompanhados por representantes belgas
e italianos, deixando de fora representantes ingleses,
alemães e suecos, que habitualmente não dominam a
língua francesa.Despendia-se tempo precioso a repetir
em inglês tudo o que tinha acabado de ser discutido em
francês, por um grupo restrito.
O rendimento da atividade normativa das reuniões
iniciais da TC 246 era, também, afetado pela falta
de conhecimento técnico revelada por alguns repre-
sentantes. Era difícil progredir-se na elaboração de
normas, quando se tinha que estar, permanentemente,
a despender tempo a explicar conceitos básicos a
alguns representantes. Esta situação resultava de
serem oriundos de países com escassos recursos em
rocha ornamental e consequentemente onde esta não é
tradicionalmente utilizada como material de construção,
não existindo know-how nem na sua utilização, nem na
sua caracterização.
Um dos principais obstáculos a ultrapassar, nas primeiras
reuniões da TC 246, era a notória divergência de objeti-
vos entre países maioritariamente importadores de rocha
ornamental e países produtores, como Portugal. Os
primeiros pretendiam normas de ensaio excessivamente
exigentes, em particular as respeitantes aos ensaios de
durabilidade, por forma a garantir um excelente desem-
penho, por um longo tempo, dos produtos importados
em rocha ornamental. Este obstáculo entroncava no
último: a diferença de climas entre os países do norte
da Europa e os do sul. Um exemplo flagrante da difi-
culdade colocada à atividade normativa, da TC 246, por
estes dois obstáculos, foi a discussão gerada em torno
do ensaio resistência ao gelo, em particular do número
máximo de ciclos de gelo/degelo a executar, no ensaio
de identificação. Enquanto o grupo dos países impor-
tadores, do norte, pretendia a execução de um número
elevadíssimo de ciclos, o grupo dos países produtores,
do sul, desejava implementar métodos cujos resultados
não penalizassem demasiado algumas das suas rochas
e também mais adequados aos climas dos seus países,
considerando o comércio interno. No meio deste “braço
de ferro” e como em tantas outras situações, acabou por
“ganhar” a solução proposta pelos países com maior
peso económico. Assim, na primeira edição da norma
europeia da resistência ao gelo, o número máximo de
ciclos previsto, para o ensaio de identificação, era de
240. Muitas empresas portuguesas, exportadoras de
produtos fundamentalmente para o norte da Europa,
tiveram que submeter as suas rochas a este número de
ciclos. Além do avultado custo financeiro do ensaio e
97
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
do dilatadíssimo tempo de execução (quase meio ano),
havia ainda a incerteza de que a rocha resistisse durante 4
meses (tempo de permanência na câmara climática) a um
teste termicamente tão exigente (entre +20ºC e -12ºC).
Com o decurso do tempo, os obstáculos inicialmente
colocados à atividade normativa da TC 246 foram sendo
ultrapassados. O conhecimento sobre a pedra natural
e sobre o seu comportamento foi aumentando, em
particular pelos representantes de países com poucos
recursos nesta matéria-prima. Também passou a haver
uma boa plataforma de entendimento e de discussão
técnico-científica, fruto de anos de convivência nas
reuniões, a partilhar experiências da pedra. Esta nova
etapa tem permitido retificar alguns exageros iniciais.
A título de exemplo, refere-se novamente o ensaio
de resistência ao gelo, no qual na edição, atualmente
em vigor, o número máximo de ciclos de gelo/degelo,
para o ensaio de identificação, decresceu para 168.
Esta diminuição do tempo de permanência na câmara
climática, de 120 para os atuais 84 dias, permitiu
diminuir drasticamente o tempo do ensaio, bem como os
seus custos. Mais importante ainda, permitiu aumentar o
número de rochas ornamentais consideradas resistentes
ao gelo, face ao número máximo de ciclos estipulados
pela norma.
Pese embora as dificuldades, a CEN/TC 246 tem vindo
a desenvolver uma atividade relevante no domínio da
pedra natural, quer na preparação de novas normas,
quer nas revisões periódicas obrigatórias das normas já
editadas, para as quais cada estado membro é convocado
a pronunciar-se, através de voto, sobre a sua anulação,
reconfirmação, ou alteração. Das normas europeias
elaboradas até à presente data por esta comissão técnica
europeia, 32 encontram-se ainda em vigor, cobrindo
matérias como terminologia e denominação (Quadro 4),
métodos de ensaio (Quadro 5), blocos e placas em bruto e
conselhos de utilização (Quadro 6) e produtos em pedra
natural (Quadro 7). Algumas das normas inicialmente
elaboradas pela TC 246 têm vindo a ser anuladas, por
decisão desta comissão técnica, pelo facto de se terem
tornado inúteis, face ao seu objetivo e campo de aplicação
e, por consequência, terem deixado de ser utilizadas.
QUADRO 4
Normas elaboradaspela CEN/TC 246 no domínio da terminologia e denominação
Versão oficial (inglês) Título da versão oficial (inglês) Título (português)
EN 12440:2017 Denomination criteria Critérios de denominação
EN 12670:2001 Terminology Terminologia
QUADRO 5
Normas elaboradas pela CEN/TC 246 no domínio dos métodos de ensaio
Versão oficial (inglês) Título da versão oficial (inglês) Título (português)
EN 1925:1999 Determination of water absorption
coefficient by capillarity
Determinação do coeficiente de absorção de
água por capilaridade
EN 1926:2006 Determination of uniaxial compressive
strength
Determinação da resistência à compressão
uniaxial
EN 1936:2006 Determination of real density and apparent
density, and of total and open porosity
Determinação das massas volúmicas real e
aparente e das porosidades aberta e total
EN 12370:1999 Determination of resistance to salt
crystallisation
Determinação da resistência à cristalização
de sais
EN 12371:2010 Determination of frost resistance Determinação da resistência ao gelo
EN 12372:2006 Determination of flexural strength under
concentrated load
Determinação da resistência à flexão sob
carga centrada
EN 12407:2007 Petrographic examination Estudo petrográfico
EN 13161:2008 Determination of flexural strength under
constant moment
Determinação da resistência à flexão sob
momento constante
EN 13364:2001 Determination of the breaking load at dowel
hole
Determinação da carga de rutura ao nível do
orifício de ancoragem
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
QUADRO 5
Normas elaboradas pela CEN/TC 246 no domínio dos métodos de ensaio (continuação)
Versão oficial (inglês) Título da versão oficial (inglês) Título (português)
EN 13373:2003 Determination of geometric characteristics
on units
Determinação das características
geométricas de elementos em pedra
EN 13755:2008 Determination of water absorption at
atmospheric pressure
Determinação da absorção de água à pressão
atmosférica
EN 14066:2013 Determination of resistance to ageing by
thermal shock
Determinação da resistência ao
envelhecimento por choque térmico
EN 14146:2004 Determination of the dynamic modulus of
elasticity (by measuring the fundamental
resonance frequency)
Determinação do módulo de elasticidade
dinâmico (através da medição da frequência
de ressonância fundamental)
EN 14147:2003 Determination of resistance to ageing by salt
mist
Determinação da resistência ao
envelhecimento por nevoeiro salino
EN 14157:2017 Determination of the abrasion resistance Determinação da resistência ao desgaste
EN 14158:2004 Determination of rupture energy Determinação da energia de rutura
EN 14231:2003 Determination of the slip resistance by
means of the pendulum tester
Determinação da resistência ao
escorregamento por intermédio do pêndulo
de atrito
EN 14579:2004 Determination of sound speed propagation Determinação da velocidade de propagação
do som
EN 14580:2005 Determination of static elastic modulus Determinação do módulo de elasticidade
estático
EN 14581:2004 Determination of linear thermal expansion
coefficient
Determinação do coeficiente de dilatação
linear térmica
EN 16140:2011 Determination of sensitivity to changes inappearance produced by thermal cycles
Determinação da sensibilidade a alterações
de aspeto provocadas por ciclos térmicos
EN 16301:2013 Determination of sensitivity to accidental
staining
Determinação da sensibilidade a manchas
causadas acidentalmente
EN 16306:2013 Determination of resistance of marble to
thermal and moisture cycles
Determinação da resistência do mármore a
ciclos de calor e humidade
QUADRO 6
Outras normas elaboradas pela CEN/TC 246
Versão oficial (inglês) Título da versão oficial (inglês) Título (português)
EN 1467:2012 Rough blocks — Requirements Blocos em bruto — Requisitos
EN 1468:2012 Rough slabs — Requirements Placas em bruto — Requisitos
CEN/TR 17024:2017 Guidance for use of natural stones Orientações para a utilização de pedras naturais
QUADRO 7
Normas elaboradas pela CEN/TC 246 no domínio dos produtos em pedra natural
Versão oficial (inglês) Título da versão oficial (inglês) Título (português)
EN 1469:2015 Slabs for cladding - Requirements Placas para o revestimento de paredes — Requisitos
EN 12057:2015 Modular tiles — Requirements Ladrilhos modulares — Requisitos
EN 12058:2015 Slabs for floors and stairs — Requirements Placas para pavimentos e degraus — Requisitos
EN 12059:2008+A1:2011 Dimensional stone work — Requirements Trabalhos de pedra de cantaria — Requisitos
No que se refere aos produtos em pedra natural, além
da CEN/TC 246 – “Natural Stones”, existem atualmente
mais 3 Comissões Técnicas a desenvolver normas neste
domínio. As suas designações, objetivos e campos de
aplicação, assim como as normas editadas por estas
Comissões Técnicas, respeitantes a produtos em pedra
natural, estão patentes nos Quadros 8, 9 e 10.
99
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
QUADRO 8
Normas elaboradas pela CEN/TC 178, para produtos em pedra natural
CEN/TC 178 – “Paving units and kerbs” (Unidades para pavimentação e lancis)
Versão oficial (inglês) Título (português)
EN 1341:2012 Lajes de pedra natural para pavimentos exteriores – Requisitos e
métodos de ensaio
EN 1342:2012 Cubos e paralelepípedos de pedra natural para pavimentos
exteriores – Requisitos e métodos de ensaio
EN 1343:2012 Guias de pedra natural para pavimentos exteriores – Requisitos e
métodos de ensaio
QUADRO 9
Normas elaboradas pela CEN/TC 125, para produtos em pedra natural
CEN/TC 125 – “Masonry” (Alvenaria)
Versão oficial (inglês) Título (português)
EN 771-6:2011 Especificações para unidades de alvenaria. Parte 6: Unidades de
alvenaria em pedra natural
QUADRO 10
Normas elaboradas pela CEN/TC 128, para produtos em pedra natural
CEN/TC 128 – “Roof covering products for discontinuous laying and products for wall cladding”
(Produtos para o revestimento de telhados, para assentamento descontínuo, e produtos para o revestimento de paredes)
Versão oficial (inglês) Título em português
EN 12326-1:2014 Ardósias e outras rochas cliváveis para coberturas descontínuas e
revestimentos exteriores de paredes. Parte 1: Especificações para
ardósias e ardósias carbonatadas
As normas de produto em pedra natural contêm diversas
informações técnicas, designadamente:
- tipos, ou classes, de produtos por elas abrangidos;
- controlo das dimensões dos produtos e respetiva
periodicidade;
- propriedades que devem ser determinadas nas
rochas utilizadas no seu fabrico;
- regularidade da repetição, na determinação das
propriedades das rochas.
Porém, as normas de produtos em pedra natural
também incluem dados fundamentais, relativos à
legislação europeia aplicável. Na sua qualidade de
produtos de construção, os produtos em pedra natural
estão atualmente abrangidos pelas disposições do
Regulamento (UE) N.º 305/2011 (e pela sua retificação).
Este regulamento foi juridicamente transposto para a
legislação nacional através do Decreto-Lei nº 130/2013,
de 10 de setembro. Uma das alterações introduzidas por
este regulamento europeu, relativamente à diretiva que o
antecedeu (Directiva 89/106/CEE, de 21-12-1988), é que a
avaliação da conformidade de um produto (evidenciada
pela emissão da Declaração de Conformidade CE) foi
substituída pela avaliação e verificação da regularidade
do seu desempenho (AVRD). Esta deve ser evidenciada
através da emissão de uma Declaração de Desempenho
(sobre esta matéria deverá ser igualmente consultado o
Regulamento Delegado (UE) Nº 568/2014). As normas de
produto em pedra natural editadas mais recentemente
já incluem disposições relativas à AVRD. O modelo
da Declaração de Desempenho, que deve ser adotado
pelas empresas transformadoras de pedra natural,
consta do Regulamento Delegado (UE) Nº 574/2014. Na
Figura 9 apresenta-se, a título de exemplo, a estrutura
e informações que deverá conter uma Declaração de
Desempenho, de uma pedra natural utilizada no fabrico
de um só tipo de produto (placas para pavimentos
e degraus), embora este documento possa incluir
informações relativas a vários tipos de produtos.
https://dre.pt/application/conteudo/500018
https://dre.pt/application/conteudo/500018
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 9
Exemplo de uma Declaração de Desempenho, de uma pedra natural utilizada no fabrico de produtos regulamentados pela EN 12058:2015
101
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Por último, mas não menos importante, as normas de
produtos em pedra natural contêm disposições no que
diz respeito à sua marcação CE, cuja emissão atesta
que esse produto satisfaz as disposições da legislação
europeia aplicável, que atualmente é Regulamento (UE)
N.º 305/2011 e respetiva retificação.
5. CONCLUSÕES
Neste documento, foi efetuada uma breve descrição dos
primeiros registos de aplicação de rocha ornamental
extraída em território português, durante a ocupação
romana. Foi apresentado o estado atual da exploração de
rocha ornamental em Portugal continental, em termos
de pedreiras ativas, toneladas exploradas e respetivo
valor monetário. Relatou-se todo o trabalho documental
e digital, de caracterização e divulgação das rochas orna-
mentais portuguesas, levado a cabo pelo LNEG e pelas
suas instituições sucessoras, alavancado, maioritariamen-
te, pela adesão de Portugal à CEE. Descreveu-se como
se processa a atividade normativa europeia desenvolvida
no domínio da pedra natural, da responsabilidade da
Comissão Técnica CEN/TC 246. Abordou-se as normas
europeias de produto em pedra natural e as obrigações
legais inerentes ao seu cumprimento, em particular no
que se refere à emissão de Declarações de Desempenho.
Este documento destaca o empenho monumental do
LNEG, das suas instituições antecessoras (INETI, IGM
e DGGM) e dos seus quadros técnicos, na atividade de
caracterização e divulgação das rochas ornamentais
portuguesas, que contou com o apoio de industriais
da pedra e de diversas entidades (PEDIP II, IPQ,
FEDER, CEDINTEC, CCDRC e DGREI). A importância
e o impacto positivo que tem tido esta atividade,
particularmente na indústria extrativa e transformadora
portuguesa, legitimam a sua continuidade no futuro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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da mineração romana na Estremadura e Alto Alentejo. Lucius Cornelius
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MOURA, A. C., MARTINS, O. R., RAMOS, J. F. et alia (1983) - Catálogo
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Geologia e Minas. S. Mamede de Infesta.
MOURA, A. C., MARTINS, O. R. et alia (1985) — Catálogo de Rochas
Ornamentais Portuguesas, Vol. III. Laboratório da Direção Geral de
Geologia e Minas, S. Mamede de Infesta.
MOURA, A. C., MARTINS, O. R. et alia (1994) — Catálogo de Rochas
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ROMÃO, MARIA LUÍSA — Elementos estatísticos sobre a indústria extractiva
de Portugal —Produções, importações e exportações em 1981. (1983) -
Boletim de Minas, Lisboa, Vol. 20, Nº 2, pp. 85-109.
103
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
RESUMO
A crescente competitividade de economias emergentes tem criado dificuldades aos países Europeus produtores e
exportadores de Pedra Ornamental. Para acrescentar valor, estes países terão que adicionar tecnologia aos seus
produtos.
São apresentados três casos de como as técnicas de microscopia e microanálise permitem antecipar e compreender o
comportamento das rochas, em diversas condições climatéricas. Estas metodologias podem ser usadas em rocha de
obra nova, eventualmente seguindo as normas vigentes ou em objetos património.
Luís Dias
Laboratório HERCULES, Escola de Ciências e Tecnologia da
Universidade de Évora
Email: luisdias@uevora.pt
Fabio Sitzia
Laboratório HERCULES, Escola de Ciências e Tecnologia da
Universidade de Évora
Email: fasitzia@tiscali.it
Carla Lisci
Laboratório HERCULES, Escola de Ciências e Tecnologia da
Universidade de Évora
Email: clisci@uevora.pt
Palavras Chave: Microscopia, pedra ornamental, calcário, mármore.
Microscopia e Microanálise no Estudo de Pedras Ornamentais
Carbonatadas
Luís Lopes
Instituto de Ciências da Terra, Escola de Ciências e Tecnologia da
Universidade de Évora
Departamento de Geociências, Escola de Ciências e Tecnologia da
Universidade de Évora
Email: lopes@uevora.pt
José Mirão*
Laboratório HERCULES, Escola de Ciências e Tecnologia da
Universidade de Évora
Departamento de Geociências, Escola de Ciências e Tecnologia da
Universidade de Évora
* Autor Correspondente
Email: jmirao@uevora.pt
104
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
INTRODUÇÃO
Portugal possui um território com enorme diversidade
geológica que, ao longo da sua história, tem permitido a
extração e a produção de rocha ornamental. No mercado
atual, Portugal é um dos países líderes na produção de
rocha ornamental (Rana et. al., 2016; Lo Vetro& Martini,
2016), que oferece uma ampla variedade de Pedra
Natural, nomeadamente calcários, mármores e granitos.
Os calcários portugueses, assim como os mármores,
são caracterizados pela sua elevada beleza natural e
qualidade. As suas propriedades e características colocam
o país numa posição privilegiada na indústria mundial
da rocha ornamental.
No entanto, o surgimento de países onde os custos de
produção são mais baixos (e.g. China, Brasil. Turquia,
India) implica que a aproximação das empresas
portuguesas ao mercado terá que ser diferente do que
foi no passado. Esta diferença deve ser marcada pelo
input tecnológico que colocam nos seus produtos. Do
ponto de vista dos materiais (i.e. da Pedra), estes fatores
competitivos só podem ser adquiridos pela certificação
dos produtos e pelo conhecimento sobre a Pedra (e de
eventuais tratamentos da mesma).
Há muito, que a comunidade geológica sabe que a
complexidade inerente aos materiais e aos processos
geológicos só pode ser profundamente reconhecida
recorrendo a técnicas de microscopia e microanálise. A
sua aplicação a materiais de construção, nomeadamente
a Pedra, é mais recente, mas tem mostrado resultados
muito interessantes (Koestler et al, 1985; De los Rios &
Ascaso, 2005; Domingo et al, 2008; Marszałek, 2008;
Reedy, 2008).
DADOS E MÉTODOS
As técnicas de microscopia e microanálise permitem
obter a textura e a composição química e em fases (i.e.
composição mineralógica). A análise textural consiste
na capacidade de reconhecer a forma de cada objeto e
o modo como estes se dispõem entre si. Condiciona a
resistência mecânica, a resposta aos fatores climatéricos
e determina as possibilidades de valorização da Pedra
em fábrica. Requer um microscópio, normalmente um
microscópio petrográfico ou um microscópio eletrónico
(de varrimento). O primeiro é uma ferramenta funda-
mental em Ciências da Terra, com uma longa tradição
no seu uso. O segundo, de uso mais restrito, permite
ampliações várias ordens de grandeza superiores. Os
tradicionais modos de observação permitem observações
complementares, onde o modo de eletrões secundários
é especialmente eficiente com aspetos “topográficos “e
os eletrões retrodifundidos respondem à composição
química.
Se à fonte de eletrões num microscópio eletrónico
(ou numa microssonda eletrónica) for associado pelo
menos um detetor de raios-X (SEM-EDS) é possível
efetuar microanálise por espectroscopia de raios-X.
Trata-se do método mais eficiente para reconhecer
a distribuição de elementos maiores, com elevada
resolução espacial. Mas esta aproximação é pouco
eficiente no que concerne a identificação da mineralogia
para qual necessitamos de (micro-) difração de Raios-X
(micro-DRX) ou espectroscopias vibracionais como
micro-FTIR (Fourier-transform infrared espectroscopy) e
micro-Raman. A micro-DRX é extremamente eficiente
na identificação de fases cristalinas. Por outro lado,
a espectroscopia Raman tem muito maior resolução
espacial. O Micro-FTIR é especialmente importante na
presença de minerais com moléculas como água, sulfato
ou carbonato.
CASOS DE ESTUDO
Alteração dos calcários “azuis”
O calcário “azul” é um tipo de Rocha Natural de
diferentes idades, tipicamente utilizado como material
de construção em projetos de arquitetura contemporânea
em países como Bélgica, Portugal, Irlanda, Vietname e
China. Apesar da sua importância económica, sabe-se
que este calcário é suscetível a processos de meteorização,
induzindo alterações nos padrões de cor. Este fenómeno
tem provocado custos onerosos para as companhias
que o comercializam, principalmente na Pedra que é
exportada. Com o objetivo de determinar o processo
de meteorização natural da rocha, foi usada uma abor-
dagem multidisciplinar.
Os resultados obtidos por micro-difração de raios-X
mostram que as fases cristalinas da rocha são sobretudo
calcite, quartzo, birnessite e pirite (Fig. 1). Estes dados são
comprovados por microscopia eletrónica acoplada a um
sistema de microanálise por espectroscopia de Raios-X,
105
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
demonstrando-se que a abundância de sulfuretos de
ferro na matriz da rocha é relativamente elevada (Fig. 2).
Por outro lado, a superfície da rocha alterada revelou
um enriquecimento em cristais de gesso (Fig. 1), sendo
também detetáveis através da coexistência dos elementos
cálcio e enxofre nas mesmas áreas da superfície da rocha
(Fig. 3).
FIGURA 1
Fases cristalinas nos fragmentos de rocha
sem alteração ( ) e com alteração ( ).
Abreviaturas: g-gesso; b-birnessite; q-quartzo; c-calcite; p-pirite.
FIGURA 2
Presença de sulfuretos de ferro (pirite) na rocha
A formação destas estruturas está muito provavelmente
relacionada com o processo de meteorização natural da
pirite (Ritsema and Groenenberg, 1993; Móricz, et. al.,
2012). Com base em dados geoquímicos e mineralógicos
obtidos em estudosanteriores, o mecanismo de oxidação
da pirite tem sido sugerido (Chen et. al., 2014). Assim,
quando exposta à água e na presença de oxigénio, a
pirite poderá resultar na formação de ácido sulfúrico,
H2SO4 (eq1), que por sua vez reagirá com os carbonatos
da própria rocha, resultando na formação de gesso
(Móricz, et. al., 2012; Chen et. al., 2014), de acordo com
a reação eq2:
eq1: 2FeS2(s) + 7O2(g) + 2H2O 2FeSO4(s) + 2H2SO4(aq)
eq2: CaCO3(s) + 2H
+
(aq) + SO4
2-
(aq) + H2O CaSO4.2H2O(s)
+ CO2(g)
106
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 3
Formação de sulfatos de cálcio (gesso) na superfície da rocha, resultantes da sua meteorização natural
FIGURA 4
Revestimento da superfície da rocha através da precipitação de compostos
Metodologia ainda em desenvolvimento.
Os resultados obtidos demonstram que há uma alteração
na mineralogia da rocha, provocada pela sua meteoriza-
ção natural. Numa tentativa de evitar a oxidação natural
da pirite e a consequente reação química entre o sulfato e
o cálcio, têm-se realizado várias tentativas com o objetivo
de revestir a superfície da rocha, de forma a minimizar
o contacto entre este mineral e a água. Deste modo, foi
iniciado o processo de pré-tratamento da pedra através
da indução da precipitação de alguns compostos na
superfície da rocha (Fig. 4), estando ainda em curso o
desenvolvimento desta metodologia.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Caracterização petrográfica de rochas ornamentais
A caracterização petrográfica de rochas ornamentais
faz-se segundo a norma europeia EN 12407, de 2007,
elaborada pelo CEN/TC 246 “Natural Stones” cuja versão
portuguesa foi traduzida pela CT 118 (CEVALOR),
tendo sido homologada pelo Instituto Português
da Qualidade segundo o termo de homologação
n.º 386/2008, de 2008-11-07. Na aplicação da norma
são ainda indispensáveis a consulta dos seguintes
documentos: EN 12670 Natural Stone – Terminology e
EN 12440 Natural Stone – Denomination criteria. No
caso das ardósias o estudo petrográfico está definido
na norma EN 12326-2. A norma 12407 foi atualizada
em 2019 mas no essencial não sofre alterações. Não é
nosso objectivo transpor estas normas para o presente
texto, mas apenas transmitir o que, segundo a nossa
experiência, nos parece mais importante. Para detalhes
nos procedimentos e especificações de equipamentos,
materiais e consumíveis, devem-se consultar as normas
acima referidas.
Como refere a norma EN 12407 “a descrição petrográ-
fica de uma pedra natural é importante não só com o
objectivo de efetuar a sua classificação petrográfica,
como também para evidenciar aspectos que influenciam
o seu comportamento químico, físico e mecânico. De
igual forma, poderá ser necessária a determinação da
proveniência da pedra (por exemplo no caso da conser-
vação e restauro de edifícios históricos ou monumentos).
É assim essencial caracterizar as pedras naturais não só
do ponto de vista dos seus componentes minerais e da
sua textura ou estrutura, como também em termos de
outras características como: cor, presença de veios, de
fósseis, de descontinuidades, etc.”
Para uma identificação precisa, é fundamental que os
provetes analisados sejam representativos da rocha em
análise. Assim, a sua dimensão deve ser preferencial-
mente determinada em função da heterogeneidade e
dimensão dos constituintes. Usualmente, e na maior
parte dos casos, um cubo com 50mm de aresta e um
paralelepípedo com 200x200x30mm (Figs. 5 e 6), per-
mitem uma avaliação primária muito razoável. Casos
excecionais terão que ser avaliados pontualmente.
Numa primeira fase faz-se uma caracterização macroscó-
pica com auxílio de lupas de mão ou lupas binoculares. O
aumento de contraste facilita a identificação dos elemen-
tos constituintes e pode ser facilmente obtido molhando
a amostra. Este método expedito também nos permite
avaliar o aspeto que a rocha terá se o polimento for pos-
sível. Embora não esteja definido na norma, sempre que
possível, deve fazer-se o polimento manual de três faces
ortogonais de um provete cúbico com 50mm de aresta. Se
não for expressamente solicitado, a recolha das amostras
para análise não é da responsabilidade do laboratório
que faz a caracterização. Assim, preferencialmente as
amostras deveriam ser colhidas orientadas em relação
a alguma anisotropia observada no terreno (bandado
sedimentar, foliação, orientação preferencial dos cristais,
lineação de estiramento/interseção, etc.). Muitas proprie-
dades mecânicas e os aspetos texturais (corte “a favor” ou
“ao contra”) são fortemente controladas e condicionadas
pelas direções de corte. Assim, o desempenho, enquanto
rocha ornamental, pode ser comprometido se não se
respeitar a estrutura (aspecto macroscópico) e a textura
(aspeto microscópico) da mesma.
A caracterização petrográfica em amostra de mão inclui
a indicação da cor, ou intervalo de cores, que a rocha
apresenta, sendo aconselhável a utilização de uma carta
de cores (Rock Colour Chart), estrutura, dimensão do
grão, fraturas e sua abertura, existência de poros e ca-
vidades assim como a natureza do seu preenchimento,
referência ao estado de alteração e meteorização e indi-
cação de quaisquer manchas daí resultantes, presença
de macrofósseis, presença de xenólitos e outras obser-
vações pertinentes que auxiliam na caracterização da
rocha.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 5
Provete cúbico de mármores branco de Estremoz, com indicação do
plano de orientação cristalográfica preferencial
Neste caso as lâminas delgadas cujas imagens se representam adiante,
foram realizadas segundo este plano e segundo um plano perpendicular
que também contêm o estiramento mineral.
Provete cúbico de Calcário Moleanos, com indicação do plano de
estratificação, a vermelho, e superfície estilolítica, a azul
FIGURA 6
Provete paralelepipédico de diorito, isótropo e homogéneo à escala da amostra de mão
Representam-se as faces opostas, polida (à esquerda) e serrada (à direita).
O passo seguinte consiste na análise ao microscópio
petrográfico. Para tal, no mínimo e segundo os proce-
dimentos descritos na norma, elaboram-se duas lâminas
delgadas. Corta-se uma talisca da rocha que se cola
numa lâmina de vidro com 44x28mm, ou 75x50mm,
se a textura for muito grosseira, posteriormente faz-se
o desgaste até a rocha ficar com 0,030 ± 0,005mm
(Fig. 7). Duas das lâminas são sempre feitas em seções
ortogonais entre si de forma a controlar melhor eventuais
anisotropias presentes na rocha. A norma EN 12407
também refere a necessidade de se prepararem seções
polidas no caso de a rocha apresentar uma percentagem
elevada de minerais opacos.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 7
Talisca e lâmina delgada de dois mármores de Estremoz
O campo de visão nas duas fotos é sensivelmente de 4 centímetros. Neste caso as amostras foram orientadas e as seções
representadas são perpendiculares à orientação preferencial cristalográfica dos cristais de calcite.
A descrição microscópica deve incluir informações sobre a
estrutura e a partir daí indicar a que tipo de rochas, ígnea,
sedimentar ou metamórfica, a rocha em análise pertence.
Em seguida e em função da estrutura determinada,
faz-se uma avaliação dos constituintes (minerais/grãos)
quanto à natureza, dimensão, percentagem relativa
de cada família identificada, hábito, forma, grau de
calibração (nas rochas sedimentares), fronteira entre
elementos constituintes, orientação (Fig. 8), indícios de
meteorização e alteração.
A norma refere ainda que para assegurar que a classifi-
cação petrográfica seja objetiva, é essencial que a
caracterização do material seja, tanto quanto possível,
quantitativa. Deste modo, ao microscópio petrográfico
faz-se uma estimativa ótica, i.e. através da contagem de
pontos ou medição de áreas relativas ocupadaspelos
diferentes elementos constituintes. No caso das rochas
sedimentares consideram-se os elementos figurados
e a matriz envolvente, no caso de rochas ígneas e
metamórficas, avalia-se a percentagem relativa dos
minerais presentes.
FIGURA 8
Duas lâminas delgadas, observadas em nicóis cruzados, da mesma rocha
(mármore branco de Estremoz, referentes ao provete cúbico ilustrado na Fig. 5) obtidas em direções ortogonais
À esquerda segundo a direção preferencial da rocha, “corte ao favor” (segundo esta orientação a rocha apresenta uma
textura granoblástica de grão médio), e à direita segundo o corte “ao contra”. Nesta imagem é bem visível a orientação
preferencial dos cristais de calcite que definem uma microxistosidade localmente conhecida por “corrume”.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
No caso das rochas vulcânicas e sedimentares, deve ser
dada especial atenção à matriz que suporta os elementos
f igurados uma vez que o desempenho enquanto
rocha ornamental está intrinsecamente relacionado
com a mesma. Por exemplo, calcários esparíticos são
frequentemente mais pulverulentos e porosos que
os micriticos que se apresentam mais compactos e
menos porosos; em contrapartida são mais propensos
a apresentarem microfraturas e consequentemente são
mais frágeis. Outras propriedades como a presença de
descontinuidades, superfícies estilolíticas, fissuras e
fraturas abertas, com e sem preenchimento, também
devem ser referidas (Fig. 10).
Nos casos extremos em que a análise petrográfica, macro
e microscópica, não permita classificar da rocha com
rigor, podem ser utilizadas outras técnicas químicas ou
difração de raios-X.
Ao responsável técnico cabe a redação e assinatura do
relatório de ensaio referente à análise petrográfica.
Este relatório deverá ser redigido segundo o estipulado
pela norma e deve incluir todas as determinações que
fundamentem a classificação científica proposta para
a rocha.
FIGURA 9
Duas imagens do mesmo campo de visão, em nicóis cruzados à esquerda e em nicóis paralelos,
à direita, de uma lâmina delgada de calcário ooesparítico, preparada com solução da alizarina vermelha
Esta preparação permite a identificação da calcite em relação aos outros carbonatos. Na imagem à direita todos os pontos
brancos correspondem a espaços vazios deixados pela fragmentação da rocha. Este aspeto traduz-se nos vestígios pulverulentos
que a rocha deixa ao tato e indicia elevada porosidade da mesma.
Cabe ao proprietário ceder os provetes e indicar um nome
comercial para a rocha em análise. A nossa experiência diz-
-nos que, utilizando a tabela de classificação de Folk (1959,
1962) para calcários, rochas sedimentares carbonatadas
com nomes comerciais distintos podem corresponder ao
mesmo tipo petrográfico e, embora menos frequente mas
também acontece que, provavelmente devido a variações
naturais de fácies ou por amostragem seletiva e nem
sempre representativa, a mesma designação comercial
conduza a rochas com distinta classificação petrográ-
fica; i.e. oosparite/intrasparite/biosparite, neste caso o
cimento/matriz será sempre idêntico mas a natureza dos
elementos figurados varia. Em casos ambíguos, onde a
estimativa da percentagem relativa dos elementos figu-
rados, deixa dúvidas, é usual a proposta de nomes com-
postos, i.e. oobiosparite. Para um geólogo, isto é normal
e pode ser constatado em afloramento através de uma
variação lateral de fácies induzida por um processo
sedimentar de calibração. As propriedades mecânicas da
rocha não sofrem alterações significativas.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 10
Lâmina delgada de um calcário micritico com uma superfície
estilolítica sublinhada pelo depósito de minerais opacos, provavel-
mente óxidos de Fe e/ou argilas, resíduos insolúveis resultantes da
dissolução da rocha sobre pressão litostática. Maioritariamente estes
planos são subparalelos à estratificação da rocha
A observância das regras estipuladas nas normas é
condição de credibilidade para a correta identificação
das rochas ornamentais e permite a tradução para uma
linguagem universal dos nomes comerciais atribuídos
pelas empresas, permitindo deste modo aos prescritores
uma avaliação mais independente quando escolhem a
matéria-prima para as suas obras.
Estudo de Pedra em Património construído: o
calcário micritico Pietra Cantone (Sardenha, Itália)
Os calcários, particularmente os do tipo biomicrite,
são amplamente utilizados na construção de edifícios e
monumentos históricos nos países mediterrânicos (e.g.
Portugal, Espanha, Itália, Malta). Este facto resulta da
sua disponibilidade como matéria-prima e a facilidade
com que são trabalhados. O calcário biomicrítico
Pietra Cantone é especialmente importante na área do
Mediterrâneo (Columbu et al. 2017) e, em particular, no
sul da Sardenha (Itália). Este litótipo é frequentemente
usado na cidade de Cagliari como silhares (“cantone”
em italiano) para a construção de edifícios antigos e
contemporâneos como a muralha da cidade, palácios do
município, igrejas (Fig. 11a, b) e torres. Trata-se de uma
rocha de idade miocénica, marinha, formada com uma
coluna de água entre 60-80m (Cherchi 1974).
Para definir a composição mineralógica das rochas
e as suas características petrográficas como o fabric,
utilizou-se o microscópio ótico de luz polarizada. A
caracterização por microscopia ótica foi efetuada em
lâminas delgadas polidas com 30µm de espessura. A
caracterização de DRX em pó de rocha permite detetar
fases minerais não identificáveis no microscópio de
polarização, tais como produtos de alteração de rocha
e argilas. Uma análise detalhada por microscópio
eletrónico de varrimento com espectroscopia de raios-X
(SEM-EDS) realizada nas lâminas delgadas e fornece
dados composicionais por microanálise.
A rocha, caracterizada por microscopia ótica, mostra
cerca 75% de micrite e 25% de cimento de esparrítico
(Fig. 12a). Outros minerais estão presentes até 5% do
volume e consistem em quartzo, feldspato-K e minerais
opacos. Bioclastos de foraminíferos (i.e. Globigerinidae,
Fig. 12b), crinoides, braquiópodes, briozoários estão
dispostos aleatoriamente na matriz calcária (Lisci, 2014).
A fauna fóssil consiste em organismos marinhos de água
limpa e oxigenada com grau de salinidade normal,
indicando um ambiente de deposição próximo da costa
(Barroccu et al., 1981). De acordo com a classificação de
calcário Folk, esta rocha é considerada um biomicrito.
A difração de raios-X da rocha em pó confirma a
presença de minerais como calcite, quartzo e feldspato-K
já observados em OM e ainda illite (Sitzia, 2019).
112
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 11
Monumentos usando Pietra Cantone
(a) Basílica de Santa Croce (Cagliari, Itália). (b) Basílica de San Saturnino (Cagliari Itália).
FIGURA 12
Lâmina delgada da Pietra Cantone (Nicóis cruzados)
(a) Matriz micritica e esparrite. b) Detalhe de bioclasto de Globigerinidae.
Nos biomicritos amostrados nos monumentos da cidade
de Cagliari (e.g. Basílica de São Saturnino, São Pancrácio
e Torre do Elefante), a difração de raios-X mostra a
presença de fases minerais resultantes do processo de
sulfatação da matriz carbonatada, por External Sulphate
Attack (ESA). A ESA é causada pelo anião SO4
2- das
emissões antropogénicas (tráfego urbano) e de fontes
naturais, como ambientes marinhos.
A alteração da rocha produz minerais da classe dos
sulfatos, como Thenardite (Na2SO4) e a Mirabilite
(Na2SO4.10H2O), frequentemente sob a forma de
eflorescência (Fig. 13a), em ambientes específicos com
elevada humidade e oscilações geralmente cíclicas da
temperatura. A duas fases são solúveis e transformam-se
uma na outra quando as condições termo-higrométricas
se alteram. O volume destes dois minerais pode variar
em função da proporção de água na sua estrutura,
produzindo pressões consideráveis,causando fraturas
internas significativas, que podem comprometer a
integridade da rocha (Columbu et al. 2019).
A alteração da rocha nestes casos consiste em eflorescência
superficial, como mostrado na figura 13a, mas também
em crostas negras (Fig. 13b), alveolização / pulverização
(Fig. 13c) e colonização biológica (Fig. 13d) podem
ocorrer. A alveolização / pulverização consiste na perda
de detritos com tamanho de partícula 10 <φ <100µm.
Por exemplo, na Basílica de São Saturnino registam-se
deposições de resíduos na ordem de 470g/m2/ano, na
área da abside (Sitzia et al. 2020).
No biomicrito, o processo de sulfatação da matriz
de carbonato também é visível pela observação em
SEM-EDS (Fig. 14).
113
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Uma fração da textura biomicritica em lâmina delgada e
previamente observada por microscopia ótica (Fig. 14a)
foi mapeada por SEM-EDS (Fig. 14b). Neste caso, o SEM
provou ser uma técnica indispensável para identificar o
início da sulfatação da rocha que não foi identificada com
o microscópio ótico. Estes processos levam a mudanças
na mineralogia da rocha e consequente alteração in-situ
das características físicas e mecânicas.
FIGURA 13
(a) Eflorescências numa parede da Basílica de San Saturnino (Cagliari, século XII d.C.), (b) crostas negras com gesso na
torre San Pancrazio (Cagliari século XIII d.C.), (c) forte alveolização e pulverização das paredes em edifícios históricos da
cidade de Cagliari, (d) exemplos de biodegradação de calcário devido à proliferação de organismos em uma superfície
vertical.
FIGURA 14
(a) Microscopia ótica em luz polarizada de calcário
biomicritico.
(b) calcário biomicritico por SEM-EDS. A cor azul indica a
presença de enxofre (S) devido a um processo superficial
de sulfatação.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Assim, o calcário biomicritico, ou simplesmente
biomicrito, denominado Pietra Cantone, apesar de sua
disponibilidade e fácil trabalhabilidade, apresenta
problemas de alteração relacionados com as suas
características texturais, mineralógicas e geoquímicas
apenas percetíveis por técnicas como difração de
Raios-X e por microscopia ótica e eletrónica. Além
disso, a pedra possui uma porosidade efetiva de 35%,
o que favorece a absorção de grandes quantidades de
soluções aquosas. Outras características, como alta
higroscopicidade e baixa permeabilidade, devido
aos grandes teores de argila, facilitam a retenção na
pedra de soluções salinas prejudiciais. Além disso, a
fração microcristalina carbonatada da matriz, tem uma
forte apetência para reagir com os aniões sulfatados
da atmosfera, especialmente em áreas citadinas,
promovendo a formação de eflorescência e causando
problemas, como pulverização e alveoliozação. Este
fenómeno é particularmente nefasto em ambientes
húmidos e / ou mal ventilados, típico da área de Cagliari,
onde a humidade relativa média varia de 65% a 80%.
Neste ambiente, os processos de alteração progridem
rapidamente, envolvendo os blocos utilizados na
construção de elementos estruturais dos edifícios. Assim,
os mecanismos de meteorização estão relacionados com
as caraterísticas das rochas, a presença de aerossóis
marinhos e a poluição citadina.
CONCLUSÕES
A crescente competitividade de países como a China,
o Brasil, a Turquia e outros no setor das Pedras
Ornamentais aumenta a necessidade de países como
a Itália, Portugal e a Espanha acrescentarem valor aos
seus produtos.
Este aspeto está inegavelmente associado à capacidade
de identificar e antecipar o comportamento futuro
dos materiais. Considerando a natureza complexa e
heterogénea dos materiais rochosos, o uso de técnicas de
microscopia e microanálise é essencial. Só desta forma
é possível perceber a natureza dos materiais e a forma
como se alteram.
Este aspeto é importante em “obra” nova, onde alguns
procedimentos devem seguir as normas vigentes. E em
objetos de património, como património construído,
onde a importância económica destes objetos é medida
pelos impulsos turísticos que suscitam.
AGRADECIMENTOS
Este trabalho foi apoiado por diversas entidades e
projetos, nomeadamente pela Fundação para a Ciência
e Tecnologia (FCT), projetos UID/Multi/04449/2013
e UID/GEO/04683/2013, apoiado pelo FEDER e
COMPETE 2020 com os projetos POCI-01-0145-
FEDER-007649 e POCI-01-0145-FEDER-007690. As
atividades experimentais são apoiadas pelos projetos
INOVSTONE4.0 (POCI-01-0247-FEDER-024535)
e ColourStone (ALT20-03-0145-FEDER- 000017),
financiados pelo FEDER, Portugal 2020 e Alentejo 2020.
Luís Dias agradece ainda à FCT pela bolsa de doutora-
mento (SFRH/BD/111498/2015) cofinanciada pelo Fundo
Social Europeu (ESF) e fundos nacionais.
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
RESUMO
As mudanças aceleradas no mercado exigem que as empresas desenvolvam capacidades dinâmicas para se manterem
competitivas. Isto significa que as empresas têm de ter capacidade para integrar, construir e reconfigurar competên-
cias internas e externas para abordar ambientes em rápida mudança.
Estas capacidades têm de ser desenvolvidas em várias vertentes, o objetivo deste artigo é explorar as áreas tecnológicas
e humanas no setor das rochas ornamentais em Portugal. As tecnologias da Fravizel são autónomas, responsivas e
digitais o que vai permitir o progresso técnico do setor. Este deve ser acompanhado pela evolução das competências
digitais da força de trabalho do setor.
A Indústria 4.0 (quarta revolução industrial) surge como resposta ao desafio de automatizar processos e aumentar a
atratividade para os mais jovens para o setor.
A Revolução Tecnológica e Humana do Setor da Pedra
Joana Frazão
Gestora de Recursos Humanos
PHD em gestão
E-mail: ipfrazao@fravizel.pt
Jorge Frazão
Gestor de Qualidade e Ambiente
Eng. Mecatrónica
E-mail: ifrazao@fravizel.pt
Palavras Chave: Progresso técnico, recursos tecnológicos, recursos humanos, indústria 4.0.
Inês Frazão
Gestora de Marketing
PHD em gestão
E-mail: ifrazao@fravizel.pt
118
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
INTRODUÇÃO
A extração de pedras naturais tem desafios associados,
pois é um elemento natural com características intrínse-
cas, onde cada “pedra” é uma “pedra” o que influencia
os métodos de exploração (Frazão & Frazão, 2013).
Um dos grandes desafios é desenvolver tecnologicamente
os processos na extração de rocha ornamental bem como
desenvolver competências digitais nos intervenientes
nestes processos. Estamos perante uma produção
acelerada de conhecimento e tecnologia (Frazão,
Carvalho, Esperança & Frazão, 2018).
Existe uma transformação das profissões e dos tipos
de trabalho para uma cultura de base digital, onde
novos conceitos, tecnologias e processos se desenvolvem
continuamente (Gamboa, 2017). Assiste-se a um
desencontro entre as competências das pessoas e o
que as empresas precisam para poder competir a uma
escala internacional (Figueiredo, 2016). Neste sentido,
as empresas veem na falta de trabalhadores qualificados
o seu maior desafio na implementação da nova filosofia
de trabalho (Lorenz, Küpper, Rüßmann, Heidermann,
& Bause, 2016).
ESTADO DA ARTE
Como revisão da literatura desenvolvemos duas grandes
áreas importantes do setor: recursos tecnológicos e
recursos humanos.
RECURSOS TECNOLÓGICOS
Na extração de rocha natural, a necessidade de otimi-
zação constante de processos e recursos tem levado à
inovação tecnológica. Dessa constante necessidade de
otimização de processos e recursos, têm surgido aborda-
gens inovadoras que têm dado a este setor a capacidade
de se adaptar às tendências e exigências atuais. Segundo
a Fravizel, empresa que desenvolve tecnologia para o
setor, o processo de extração tem 4 fases (Fig.1).
Para a fase de perfuração, são utilizadas máquinas de
perfuração por martelo fundo furo (MFFR).
A fase de corte é caracterizada por utilização de má-
quinas de corte por fio diamantado (MFCR) de grande
capacidade.
Para a fase de derrube, existem sistemas de deslocamento
de alta potência Tomba Bancadas Hidráulico (TB) para
aumentar a produtividade neste processo em mais de
80% (Frazão & Frazão, 2013).
Por fim, para o processo de esquadrejamento, está a
Máquina de Perfuração com Rastos (MPL), que pode
aumentar a produtividade entre 30 e 70% (Frazão &
Frazão, 2015) ou máquinas de corte por fio diamantado
(MFER) (Frazão, André & Frazão, 2018) que permite
um aumento de produtividade e aumento do material
explorado.
A introdução de máquinas com cada vez mais tecnologia
tem permitido não só aumentos evidentes de produti-
vidade mas também de segurança para os operadores
pois os interfaces homem/máquina, permitirem operação
remota libertando operadores das zonas de perigo. Esses
FIGURA 1
Fases de extração da Pedreira de Rocha Natural
interfaces ao dar retorno de informação das máquinas e
dos parâmetros de funcionamento permitem ao opera-
dor a tomada de decisões fiável e segura. As tecnologias
vão permitir também aumentar a sustentabilidade am-
biental pois permitem gerir e otimizar recursos.
119
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
As que deixam de ser mais relevantes são a Atenção
aos detalhes, Confiabilidade e coordenação e Gestão
do tempo. As que surgem em 2022 são o Design de
tecnologia e Programação e análise e Avaliação de
sistemas.
Estas competências de base importam para a
transformação digital importante às organizações do
agora e do futuro.
A maquinaria industrial produtiva não processa simples-
mente o produto, mas o produto fala com a máquina
para lhe dizer, exatamente, o que fazer (smart products)
(Bechtold, Lauenstein, Kern, & Bernhofer, 2014)
buscando eficácia e eficiência.
Pelo que, os trabalhadores devem lidar com a informação
no momento em que estão a produzir. De acordo com
Ala-Mutka (2011) a competência digital envolve o uso
confiante e crítico da Tecnologia da Sociedade da
Informação para trabalho, lazer e comunicação.
CONCLUSÃO
A gestão de recursos tem um papel preponderante
para a otimização da exploração quer na componente
tecnológica quer na aprendizagem constante dos
colaboradores. Importa aprender a aprender e a
desaprender.
Prevê-se que cerca de metade das atuais profissões têm
uma elevada probabilidade de perda de emprego na
próxima década, sendo substituídas pela Tecnologia.
Esta nova era é caracterizada pela denominada
Quarta Revolução Industrial, ou seja, Indústria 4.0.
(Frey e Osborne, 2013). É através de acesso a novos
recursos humanos e tecnológicos que vai ser possível
dar resposta aos novos desafios e permitir o progresso
técnico no setor. O progresso técnico contribui para
o crescimento na medida em que diminui os custos
de produção, aumentando a produtividade (Carvalho,
2010). Os trabalhadores aprendem a trabalhar com novas
máquinas os empresários concebem novos produtos,
e mais setores da economia usufruem de melhores
padrões de vida, resultantes da melhoria dos métodos
de produção (Carvalho, 2010).O desafio é contínuo, pois se por um lado a otimização
de processos administrativos poderá parecer mais fácil
de implementar a digitalização, os conceitos da indústria
4.0 poderão representar grandes desafios na indústria
extrativa por causa das homogeneidades intrínsecas da
rocha natural.
Máquinas com manutenção preditiva e uma produção
mais automatizada necessitam de tecnologias base,
tais como, a realidade aumentada e a digitalização da
produção para serem eficazes.
O cenário de que o próprio equipamento comunica com
a cadeia produtiva permite uma produção inteligente que
propicia o aumento da cadeia de valor e uma diminuição
dos desperdícios produtivos, a nível de recursos materiais
e de tempo.
A possibilidade de termos uma rede que comunique com
o seu operador, permite a alteração de forma preventiva
e não resolutiva.
A tecnologia desenvolvida pelas máquinas Fravizel,
procura colmatar necessidades (innovation to market) e
corresponder a expetativas necessárias à customização
de forma economicamente viável, que implica a sobrevi-
vência no mercado. O Digital permite a interligação dos
sistemas e posterior comunicação com os seus líderes.
RECURSOS HUMANOS
Ao analisarmos a força de trabalho do setor em 2014
verificamos que a maioria dos trabalhadores estão na
casa dos 40 anos de idade, com o 3º ciclo do ensino
básico e a sua antiguidade na empresa a rondar os 10
anos e as qualificações variam entre qualificados e semi-
-qualificados (Frazão, 2016).
O desenvolvimento das suas competências vai além da
sua formação académica e profissional, passando por
uma aprendizagem e adaptação contínua à tipologia e
conteúdo do trabalho no momento em que estão a lidar
com ele.
A própria tecnologia tem um papel fulcral na interação
homem-máquina permitindo ao operador desenvolver
as competências de uma forma intuitiva.
O World Economic Forum (2018) ordenou as competências
consideradas mais importantes para 2018, tendências
e em decadência em 2022. O Pensamento analítico
e inovação e Aprendizagem ativa e estratégias de
aprendizagem são duas das que se mantêm em 2022.
120
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
REFERÊNCIAS
ALA-MUTKA, K. (2011) - Mapping Digital Competence- Towards a
Conceptual Understanding. European Union. Retirado de ftp://jrc.es/
pub/EURdoc/JRC67075_TN.pdf.
BECHTOLD, J., KERN, A., LAUENSTEIN, C. & BERNHOFER, L.
(2014) - Industry 4.0 - The Capgemini Consulting View Sharpening the Picture
beyond the Hype. Capgemini Consulting.
CARVALHO, R. M. (2010) - Compreender + África, fundamentos para
competir no Mundo (2 ed.). Lisboa: Debates, Círculo de Leitores e Temas
e Debates.
FRAZÃO, J., FRAZÃO I. (2013) - New Technological Approach for
the increased of Productivity in Quarries. Germany: 2nd International
Conference on Stone and Concrete Machining, pp 51-57.
FRAZÃO, JP., CARVALHO, R. M., ESPERANÇA, J.P., (2018) - The
Evolution of the Stone Workforce. Brasil: Global Stone Congress.
FRAZÃO, J., ANDRÉ, F., FRAZÃO, I. (2018) - Innovative optimization in
the diamond wire cutting process in Quarries. Brasil: Global Stone Congress.
FRAZÃO, J. (2016) - Evolução do Colaborador no Setor da Pedra (Tese de
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futuro. Moldes & Plásticos, p, 94.
FRAVIZEL (2019) - Retirado de www.fravizel.com
FREY, C. B. & OSBORNE, M. A. (2013) - The Future of Employment: How
Susceptible are Jobs to Computerisation? Oxford: Oxford University Press.
GAMBOA, R. (2017, Outubro) - Competências Profissionais - O Futuro.
Comunicação apresentada na conferência AIMMAP Formação Desafios
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LORENZ, M., KÜPPER, D., RÜßMANN, M., HEIDERMANN, A., &
BAUSE, A. (2016, May) - Time to Accelerate in the Race Toward Industry
4.0. Bcg.perspectives by The Boston Consulting Group, 1–5.
WORLD ECONOMIC FORUM. (2018) - The Future of Jobs Report.World
Economic Forum.
http://www.fravizel.com
121
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Agostinho da Silva
CEFAGE, Universidade de Évora, Évora, Portugal
MARE - Marine and Environmental Sciences Centre, Polytechnic
of Leiria, Portugal
ISG, Instituto Superior de Gestão. Lisboa, Portugal
CIIC, Polytechnic of Leiria, Leiria, Portugal
Email: a.silva@zipor.com
Palavras Chave: Indústria 4.0, BIM, Cyber-Phisical systems, rochas ornamentais.
Rochas Ornamentais Portuguesas
Operações Indústria4.0 como Resposta ao Procurement BIM
Andreia Dionísio
CEFAGE, Universidade de Évora, Évora, Portugal
Email: andreia@uevora.pt
Luís Coelho
CEFAGE, Universidade de Évora, Évora, Portugal
Email: lcoelho@uevora.pt
RESUMO
O setor das Rochas Ornamentais (RO) gera em Portugal mais de 16.000 empregos diretos, registou um crescimento
das exportações em 2019 de 15% e centra a sua principal âncora competitiva na produção customizada com escala.
Sendo previsível que a prazo o Building Information Modelling (BIM) seja a tecnologia de projeto e gestão de obras a
nível global, a qual orienta o procurement para produtos standard. O presente estudo avalia a resposta da Indústria 4.0
(I-4.0) às ameaças decorrentes do procurement BIM na Arquitetura Engenharia e Construção.
mailto:a.silva%40zipor.com?subject=
mailto:?subject=
mailto:?subject=
122
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Da transição da Terceira para a Quarta Era Industrial a
que assistimos, emergem paradigmas como o Building
Information Modelling (BIM) [1], uma tecnologia digital
com o qual as entidades governamentais buscam trans-
parência e eficiência na Arquitetura Engenharia e Cons-
trução (AEC) por via da abordagem global e “modelo de
compras” (procurement) orientado para produtos standard
(Figura 1).
Com impactos ainda imprevisíveis na cadeia de abaste-
cimento, o procurement BIM poderá implicar, em alguns
setores da cadeia de abastecimento da AEC, uma
reinvenção do próprio modelo de negócio, especialmente
naqueles que sustentam a sua competitividade na
customização dos produtos, como é o caso do setor das
Rochas Ornamentais (RO) em Portugal [2].
O setor das RO gera em Portugal mais de 16.000
empregos diretos e as exportações de 2019 superaram
em 15% o melhor ano de sempre que havia sido 2018,
com incrementos de valor anuais muito significativos.
Com a sua principal vantagem competitiva ancorada
na customização dos produtos em pedra, da deriva do
procurement na cadeia de abastecimento da AEC para
produtos standard, resultará um problema potencial à
sustentabilidade económica desta importante atividade
nacional [2].
FIGURA 1
Dimensões dos objetos BIM
Dimensões
BIM Significado Funcionalidade
3D Geometria sólida Construção digital 3D da obra
4D Tempo Planeamento temporal da obra
5D Custo Mapa de custos da obra
6D Sustentabilidade Pegada ecológica do edifício no
ciclo de vida
7D Gestão e
manutenção
Gestão e manutenção do
edifício no ciclo de vida
8D Segurança Segurança do edifício no ciclo
de vida
Sendo claro que da utilização do BIM a nível global
resultará uma nova realidade no “modelo de compras”
para a construção de edifícios, poderemos identificar as
seguintes ameaças que as empresas de RO Portuguesas
terão de enfrentar: (i) o modelo de procurement tenderá
a orientar-se para produtos standard; (ii) o tempo de
construção dos edifícios será tendencialmente inferior
ao atual; (iii) os custos de construção e manutenção dos
edifícios serão tendencialmente inferiores aos atuais; (iv)
a construção e manutenção dos edifícios terá tendência
para se tornar ecologicamente mais sustentável; (v) os
produtos terão de ser fornecidos sem erros, pelo que a
tolerância à não-qualidade tenderá a ser menor, quando
comparada com a situação pré-BIM [3].
Da mesma forma que o BIM é um Paradigma emergente,
também a designação “Indústria 4.0” (I-4.0) o é. O termo
I-4.0 começou por ser a designação deuma Iniciativa
Governamental do Governo Alemão, com vista à digita-
lização da sua indústria, acabou por se tornar popular
como significado de um novo conceito de operações que
combina e integra diferentes tecnologias digitais como
a robótica avançada, inteligência artificial, computação
em nuvem, Internet das Coisas, Big Data, Realidade
Aumentada, Produção Aditiva, entre muitas outras [4].
É hoje aceite por académicos e práticos que as operações
I-4.0 incorporam todos estes conceitos numa cadeia de
valor interoperável, partilhável e independentemente do
espaço geográfico. Porém, o que caracteriza a Quarta
era Económica a que assistimos é que pela primeira
vez na História, os clientes colaboram na conceção e
por vezes até na produção dos produtos que compram,
interagindo por isso mesmo, com o próprio Cyber-Physical-
-System (CPS) onde os produtos estão a ser fabricados.
Em modo I-4.0, o CPS “funde” o meio físico com o meio
digital [5]. Os bens começam por ser apenas o seu próprio
fingerprint digital, o qual, em modo metamorfótico,
passará à condição de smart object, a partir do qual se
vão tornando físicos ao longo do processo produtivo, até
serem expedidos e chegarem ao cliente.
Neste modelo de operações, a engenharia e o desenvol-
vimento do produto tendem a ocorrer a partir de
laboratórios virtuais, onde os clientes são cocriadores,
no qual os próprios produtos adquirem a sua forma,
por interação com os próprios meios produtivos. As
redes de máquinas que compõem o chão das fábricas
I-4.0 tenderão a tornar-se sistemas smart e flexíveis,
respondendo rapidamente, não apenas aos comandos
dados por humanos, mas também às suas próprias
perceções, transmitidas por interação com os objetos
em fabrico [6].
Foi neste cenário de paradigmas e ameaças sobre as
Rochas Ornamentais Portuguesas, que um grupo de
investigadores em estreita colaboração com o Cluster
Portugal Mineral Resources e a Assimagra, desenvolveram
e apresentaram em 2018, a partir da disciplina cientifica
123
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
emergente Service Science, um Modelo Conceptual
Avançado, designado por INOVSTONE4.0®, com o
duplo objetivo de: (i) conceber a arquitetura de um Cyber-
-Physical System que permitisse às empresas de RO operar
em modo I-4.0 e (ii) medir o impacto nas empresas, antes,
durante e após a transformação das suas operações para
o modo Indústria 4.0 (Figura 2).
Para mapeamento do processo, foi desenvolvido um
formato específ ico da ferramenta metodológica
service blue printing1 incorporando o novo modelo de
interações resultantes da digitalização dos processos e
permitindo dessa forma a avaliação dos resultados das
empresas na sua caminhada para o moderno modo de
operações I-4.0.
Aplicando o Modelo matemático INOVSTONE4.0® a
uma amostra de empresas representativa das melhores
práticas utilizadas no setor das Rochas Ornamentais, foi
possível prever a resposta destas empresas às ameaças
resultantes do procurement BIM, considerando dois
cenários diferentes: cenário (i) em que as empresas optam
por manter o seu modelo de operações atual, e, cenário
(ii) em que as empresas investem na mudança do seu
modo de operações para o modo I-4.0.
1 Apresentada pela primeira vez por Shostack (1982), esta ferramenta metodológica terá sido inicialmente desenvolvida para estudar processos
relacionados com o comércio e serviços, os quais eram interpretados como uma sequência de ações, onde cliente e fornecedor eram separados
por um conceito imaginário que Shostack designou por “linha de visibilidade”.
FIGURA 2
Arquitetura do Cyber-Phisical System Inovstone4.0
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Por via do INOVSTONE4.0®, concluiu-se que em
contexto de procurement BIM, nas empresas que optarem
pelo cenário (i), ou seja, que decidiram manter o seu
atual modelo de operações, a probabilidade de perderem
a sua principal vantagem competitiva será próxima de
100%, pois em BIM, existirá uma disfunção crítica entre
o modelo de procura e o modelo de oferta.
Por outro lado, nas empresas que optam pelo cenário (ii),
ou seja, naquelas em que o modo de operações evoluir
para I-4.0, verifica-se que no COCKPIT4.0 o fingerprint
de cada objeto da encomenda se transformará num smart-
-object, eliminando-se assim, do ponto de vista processual,
qualquer diferença entre produtos customizados e
produtos-por-medida. Conclui-se ainda que, neste
cenário, as empresas poderão manter a sua principal
vantagem diferenciadora atual, face aos produtos
concorrentes dentro da Cadeia de Abastecimento.
GRÁFICO 1
Ganhos Qualitativos, na perspetiva dos clientes
(Silva, A. 2018).
GRÁFICO 2
Ganhos Qualitativos, na perspetiva dos fornecedores
(Silva, A. 2018).
Da mesma forma, em termos de resposta às restantes
ameaças resultantes do procurement BIM na AEC, conclui-
-se que a evolução das operações para o modo I-4.0,
nas empresas de RO, poderá ter impacto relevante na
(i) redução do prazo de entrega dos seus produtos em
51%; (ii) redução nos custos dos seus produtos em 33%;
(iii) redução da pegada ecológica dos seus produtos em
32%; e na (iv) redução da taxa de não-conformidade dos
seus produtos em 31% (Gráficos 1,2 e 3) [3].
GRÁFICO 3
Ganhos Quantitativos, quando as operações nas RO evoluem do
Estado-da-Arte para Indústria 4.0
(Silva, A. 2018).
Como conclusão, e sem considerar o investimento
necessário para tornar a produção I-4.0, o Modelo
INOVSTONE4.0® permitiu identificar que a previsível
obrigatoriedade legal do BIM na cadeia de abastecimento
da AEC, poderá até tornar-se numa oportunidade para
as empresas de RO que evoluírem as suas operações
para I-4.0, uma vez que o impacto desta nova forma
de operações em ambiente de procurement BIM é
tendencialmente muito favorável.
AGRADECIMENTOS
Os autores deste artigo agradecem o apoio institucional
do Grupo CEI-Zipor, Assimagra e Cluster Português dos
Recursos Minerais.
125
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
REFERÊNCIAS
[1] J. VILAS-BOAS, V. MIRNOORI, A. RAZY, and A. SILVA (2019)
- Outlining a New Collaborative Business Model as a Result of the Green
Building Information Modelling Impact in the AEC Supply Chain. PRO-VE
2019. IFIP Adv. Inf. Commun. Technol. vol 568. Publ. Springer,
pp. 405–417.
[2] A. SILVA, A. DIONÍSIO, and L. COELHO (2020) - Results in
Engineering Flexible-lean processes optimization: A case study in stone sector.
Results Eng., vol. 6, nº. March, p. 100129.
[3] A. SILVA (2018) - Improving Industry 4.0 Through Service Science.
PhD Thesis - Univ. Évora.
[4] LI DA XU, ERIC L. XU & LING LI (2018) - Industry 4. 0: state of
the art and future trends. Int. J. Prod. Res., vol. 56, nº. 8, pp. 2941–2962.
[5] A. SILVA and I. ALMEIDA (2020) - Towards INDUSTRY 4.0 | a case
STUDY in ornamental stone sector. Resour. Policy, vol. 67, nº. March, p.
101672, 2020.
[6] J. VILAS-BOAS, V. MIRNOORI, A. RAZI, and A. SILVA (2019) -
Collaborative Networks and Digital Transformation Outlining.
127
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Marta Rocha Peres
Diretora Executiva - Associação Cluster Portugal Mineral Resources
Email: marta.peres@clustermineralresources.pt
Palavras Chave: Cluster, cooperação, estratégia, resultados.
Cluster dos Recursos Minerais – Um Modelo de Mobilização de
Conhecimento, Cooperação e Inovação
RESUMO
A política de Clusters surgiu em Portugal, a partir de 2008. Nessa altura, foi criado o Cluster da Pedra Natural. Em
2016, com a entrada em vigor de outro programa político de clusterização, forma-se uma parceria mobilizada para
os objetivos comuns dos Recursos Minerais em Portugal. Esta mobilização culmina na evolução para um Cluster dos
Recursos Minerais reconhecido em 2017, que hoje conta com 67 Associados e mais de 100 parceiros a nível mundial.
Em mais de dois anos de operacionalização, o trabalho emrede e cooperação tem gerado maior conhecimento, mais
desenvolvimento. Os resultados do sistema de clusterização são visíveis ao nível da tendência de crescimento das
exportações, do volume de negócios e do valor acrescentado das Empresas que pertencem ao Cluster.
O modelo adotado pelo Cluster dos Recursos Minerais, tem evidenciado que este é o caminho a prosseguir além de
2020.
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128
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
ABSTRACT
In Portugal, the clusters support policy was adopted in 2008. The Cluster of Natural Stone was created and recognized
in this framework.
In 2016, with a new clustering policy, a mobilized partnership is formed for the common objectives of Mineral
Resources in Portugal.
This mobilization culminates in the evolution towards a Mineral Resources Cluster recognized in 2017, which today
has 67 Associates and more than 100 partners worldwide.
In more than two years of existing, networking and cooperation has generated more knowledge, more development.
The results are visible in the growth trend of exports, turnover and value added of the Companies belonging to the
Cluster.
The model adopted by the Cluster of Mineral Resources, has shown that this is the way forward until and beyond 2020.
Keywords: Cluster, networking, strategy, mineral resources, results.
1. INTRODUÇÃO
Em 2008, o Governo de Portugal lança o programa
Estratégias de Eficiência Coletiva enquadrado no Quadro
de Referência Estratégico Nacional (QREN), de forma a
reconhecer iniciativas integradas num Programa de Ação
que visava a inovação, a qualificação ou a modernização
de um agregado de Empresas, através do funcionamento
em rede, entre Empresas e outros atores relevantes.
Os Clusters foram tipologias abrangidas por esta Estraté-
gia. Um Cluster, por definição é um grupo de empresas
interconectadas e instituições associadas numa área par-
ticular, ligados por semelhanças e complementaridades.
Não sendo um conceito novo, e já muito disseminado
noutros países, os Setores em Portugal organizaram-se e
foram reconhecidos em 2008, 11 Pólos de Competitividade
e 7 Clusters, onde se incluiu o Cluster da Pedra Natural.
Através do reconhecimento de um Plano de Ação assente
nos eixos da Internacionalização, Sustentabilidade e
Inovação, foi criada uma Rede de Empresas, Entidades
de Investigação e Inovação, Associações e Entidades
Públicas (32 membros), que desenvolveram iniciativas
em cooperação.
Em Setembro de 2012 é publicada a Resolução do
Conselho de Ministros nº 78/2012, com a Estratégia
Nacional para os Recursos Geológicos com o objetivo
de promover um setor mineiro dinâmico, que garanta a
captação e a realização de investimento e uma exploração
sustentável dos recursos, com impacto no crescimento
da economia nacional e no desenvolvimento regional.
Esta resolução provoca o desafio de evolução para
um Pólo de Competitividade dos Recursos Minerais
(integrando os recursos metálicos com os não metálicos).
Nesse sentido, em 2013, inicia-se a mobilização para
uma Estratégia Comum para os Recursos Minerais
que culmina na constituição da Parceria dos Recursos
Minerais (com 18 Entidades) que assinam a Carta
Constitutiva para o compromisso de construção de um
Plano de Ação para os Recursos Minerais. Com este
momento e a concordância dos Sócios, a VALORPEDRA
(entidade gestora do Cluster da Pedra Natural) começa
a liderar o processo de evolução do Cluster da Pedra
Natural para o Cluster dos Recursos Minerais.
Em 2017, com o lançamento do Programa Interface
que tem como objetivo a valorização dos produtos
portugueses, através da inovação, do aumento da
produtividade, da criação de valor e da incorporação
de tecnologia nos processos produtivos nacionais, foram
reconhecidos 19 Clusters em todo o país.
O Cluster dos Recursos Minerais é reconhecido como
um Cluster de Competitividade nacional e hoje é um
modelo para a mobilização de conhecimento, cooperação
e inovação, com mais de 100 parceiros em todo o Mundo
e 67 Sócios.
https://dre.pt/application/conteudo/176025
https://dre.pt/application/conteudo/176025
129
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
2. O MODELO PORTUGUÊS
A política de Clusters de Competitividade, em Portugal,
foi inspirada no caso Francês, que a partir de 2004 im-
plementou um programa de Clusters de Competitividade
e hoje tem cerca de 150 Clusters reconhecidos.
O modelo adotado para Portugal, teve que ter em
conta os Setores Tradicionais, a dimensão do País e a
localização Europeia.
O modelo assenta numa política industrial focada
no conhecimento e desenvolvimento e os Clusters
representam as ferramentas para a operacionalização
dessa política. Em 2016, e através do lançamento de
Concurso para o Reconhecimento, os setores foram
avaliados quanto à sua capacidade para a investigação e
desenvolvimento de inovação e internacionalização. Os
setores que cumpriram os critérios estabelecidos foram
reconhecidos como Clusters de Competitividade.
O reconhecimento de Cluster de Competitividade
é atribuído pelo Governo Português com base nos
seguintes critérios: apresentação de uma estratégia para
o desenvolvimento económico até 2020, a existência de
uma parceria entre os atores diretamente relacionados,
um modelo de governança operacional, a capacidade
de criar valor agregado através da investigação e
desenvolvimento e a capacidade internacional.
Cada Cluster é representado e gerido por uma Associação
com entidade jurídica. Estas Estruturas são compostas
por representantes dos atores Industriais, Academia e
entidades nacionais e/ou regionais. As associações têm
equipas permanentes para facilitar a implementação de
projetos em cooperação e colaboração entre os atores do
Cluster e entre estes e outros Setores.
O Estado contribui para o financiamento destas estru-
turas com base em Contratos-Programa, que rege as
relações entre Cluster e Estado.
O Contrato-programa cobre 3 eixos de atuação: (i)
Gestão Estratégica do Cluster através de um plano de
ação estratégico até 2020; (ii) Apoio ao desenvolvimento
do sistema de inovação e ao crescimento empresarial,
por meio de financiamento privado mais consistente;
(iii) Desenvolvimento de projetos estruturais, incluindo
as plataformas de inovação.
3. O CLUSTER DOS RECURSOS MINERAIS
O Cluster dos Recursos Minerais tem a sua génese
na Resolução do Conselho de Ministros nº78/2012 –
Estratégia Nacional para os Recursos Geológicos “A
exploração responsável dos recursos geológicos constitui
um meio importante de desenvolvimento, que pode
contribuir de modo relevante para o desempenho
da economia nacional. Para tal, é necessária a prévia
consolidação de uma política de sustentabilidade, que
contemple de modo integrado as vertentes económica,
social e ambiental, bem como a definição de um quadro
legal e institucional eficiente”...“considerando o potencial
dos recursos geológicos como fator de desenvolvimento
económico, o XIX Governo Constitucional incluiu nas
Grandes Opções do Plano para 2012-2015, aprovadas
pela Lei n.º 64-A/2011, de 30 de dezembro, no quadro
da 5.ª Opção - O Desafio do Futuro - Medidas setoriais
prioritárias, a apresentação de «uma estratégia nacional
para os recursos geológicos que estabeleça uma estratégia
de financiamento para a dinamização da fase de
prospeção e atração de investimento estrangeiro para
exploração e que promova o crescimento sustentado
do setor, o aumento das exportações de tecnologias e a
criação de emprego».”
A existência do Cluster da Pedra Natural, na altura com
mais de 5 anos de experiência, gerido pela Associação
Valorpedra, que desenvolveu um trabalho em rede
que permitiu a manutenção da Pedra Natural nos
primeiros 10 lugares do ranking mundial de produtores
e exportadores e contribuiu para o aumento do valor
acrescentado do setor, foi fator crucial para uma evolução
para um Cluster de Recursos Minerais. Com um total
de investimentode cerca de 56 Milhões de Euros,
durante este período foram desenvolvidos cerca de 50
projetos, 50% dos quais foram projetos conjuntos e ou
em cooperação.
Em 2017 nasce o Cluster dos Recursos Minerais, com
um plano estratégico desenhado até 2020, com metas
estabelecidas e com uma parceria já consolidada. A
Associação Valorpedra passa a ser a ASSOCIAÇÃO
CLUSTER PORTUGAL MINERAL RESOURCES.
Em 2016, foram estabelecidas as metas 2020, e embora
ainda sendo cedo, para avaliações, alguns indicadores já
evidenciam que o processo de Clusterização tem vindo a
assegurar níveis de competitividade interessantes.
https://dre.pt/application/conteudo/176025
https://dre.pt/application/conteudo/243768
130
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Foram definidas várias metas em termos de indicadores
económicos como o volume de negócios, valor acres-
centado bruto, exportações, emprego, investimento em
FIGURA 1
Metas Cluster dos Recursos Minerais 2020
Fonte: Contrato Programa – IAPMEI.
IDT, taxa de cobertura das exportações e número de
associados.
Relativamente às exportações, as estatísticas de 2019
demonstram que em termos de volume exportado existe
crescimento em todos os subsetores, quando comparado
com 2018. Apenas os Recursos Minerais Metálicos
apresentam variação negativa, quando analisamos
as exportações em valor vendido, devido às cotações
internacionais dos metais.
131
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 2
Comércio Internacional de bens
Taxas INE 2019/ DGEG 2019
132
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Frazão (2018), no seu estudo sobre a “Capacidade
Dinâmica das Alianças no Cluster dos Recursos Minerais”
defende que as Empresas de Pedra Natural pertencentes
ao Cluster apresentam uma tendência de crescimento de
Volume de Negócios contrária à verificada no Setor em
2011-2016.
TABELA 1
Volume de negócios no setor da Pedra e no cluster (5)
Variação
2011 2012 2013 2014 2015 2016 %
Volume de Negócios do Setor
da Pedra
1 177 197 4334 1 012 175 0714 968 689 6994 956 939 7904 1 001 629 6074 1 013 186 3444 -17%
Volume de Negócios das
empresas de pedra do Cluster
49 399 4794 46 039 4064 50 838 2334 55 555 0764 56 593 7874 60 565 7134 23%
Fonte: Frazão, Inês “Capacidade Dinâmica das Alianças no Cluster dos Recursos Minerais”, 2018 – ISCTE -UL.
Em 2020, a Associação Cluster Portugal Mineral Resources
já conta com 67 Associados, tendo ultrapassado a meta
proposta para 2020. Embora, o objetivo não é ter na
Associação o maior número de sócios possíveis, este
alcance representa o movimento de mobilização e
trabalho em rede em torno de objetivos comuns.
Um Cluster distingue-se de uma Associação Empresarial
pela sua missão de plataforma agregadora dos diferentes
atores e subsetores ligados aos Recursos Minerais,
de forma a promover a Investigação, a Inovação e o
Desenvolvimento.
Sem pretensões de representação comercial ou jurídica
do Setor, o Cluster agrega Associados que tenham
motivação e recursos para o conhecimento e para a
inovação.
Por este motivo, as Empresas do Cluster dos Recursos
Minerais, são denominadas de Early Adopters, as
Empresas com mais propensão para investir na Inovação
e que acabam por ser a que todo o Setor quer seguir,
mobilizando desta forma ao desenvolvimento de todo
o sistema.
O Cluster dos Recursos Minerais é constituído maiorita-
riamente por empresas de pedra natural (43%), empresas
de tecnologia (18%), entidades do sistema de investigação
e inovação (21%), empresas de recursos metálicos (10%),
entidades públicas (4%) e associações (4%).
FIGURA 4
Sócios ACPMR (%) – 2020
Para o alcance destas metas, o Cluster adota o modelo
expresso na Figura 4.
133
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 5
Modelo Cluster e eixos estratégicos - ACPMR
O Cluster dos Recursos Minerais mobiliza os atores do
sistema para as temáticas estratégicas do Plano de Ação.
Esta operacionalização é feita pela criação de Grupos de
Trabalho (16) que são compostos por todas as Empresas
e Entidades do Cluster que tenham interesse em realizar
em cooperação as iniciativas previstas no Plano de Ação.
Em pouco mais de 2 anos, o Cluster já tem a decorrer 3
Projetos do Plano de Ação e aguarda decisão de mais
4 projetos estruturantes para os Recursos Minerais.
Estes resultados, não são, contudo, os desejáveis, uma
vez que as políticas de Clusterização têm encontrado
constrangimentos nos instrumentos de incentivo à
realização das atividades estruturantes do Plano de Ação.
Ainda assim, a mobilização verificada em torno das
temáticas e dos objetivos comuns, deixam prever que o
caminho irá prolongar-se além de 2020.
O Plano de Ação do Cluster dos Recursos Minerais
que visa a competitividade pode ser esquematizado
em atividades para a Sustentabilidade, atividades que
contribuam para um maior conhecimento do ativo e
ainda as atividades de inovação/mercado.
134
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Em 2019, o Plano de Ação do Cluster apresenta o seguinte
ponto de situação:
4. CONCLUSÃO
Ketels (2017) defende que a dinâmica que pode emergir
nos Clusters, é impulsionada pela massa crítica em torno
de um conjunto de atividades de setores relacionados. À
medida que as atividades se vão realizando, as interações
possíveis crescem proporcionalmente, provocando o
crescimento.
I. Frazão (2018) estudou a importância da Clusterização
nas Rochas Ornamentais e as Empresas pertencentes
ao Cluster referem que o estabelecimento de parcerias e
o conhecimento são as maiores vantagens de pertença
a este sistema.
FIGURA 6
Plano de ação do Cluster dos Recursos Minerais - 2019
135
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
FIGURA 7
Vantagens de pertencer ao Cluster
(I. FRAZÃO, 2018).
Desde os anos 90, quando Porter apresentou a sua teoria
dos Clusters, que a Europa e os EUA têm vindo, cada uma
com modelos diferenciados, a apostar nestas políticas
económicas.
Os resultados e vantagens são evidentes ao nível da
criação de massa critica, de escala e da geração de
conhecimento e desenvolvimento.
A União Europeia tem vindo a apostar neste modelo e
promove a interação de mais de 1000 Cluster em toda
a Europa, através de uma plataforma colaborativa
(European Cluster Collaboration Platform).
Em Portugal, os Cluster ainda não atingiram a
maturidade e ainda há inúmeros desafios a empreender
nestes sistemas.
No CLUSTER DOS RECURSOS MINERAIS, os primei-
ros anos, deram força de validade quanto ao caminho a
prosseguir, e reforçaram a necessidade de se continuar
a trabalhar pelo reconhecimento dos Recursos Minerais
para a economia Nacional, para um uso sustentável e
eficiente dos recursos, para um maior conhecimento do
património geológico nacional, para a transformação di-
gital na Indústria, para um aproveitamento e uso cada vez
mais circular, para a inovação tecnológica e de produto
e para a defesa de uma cadeia de valor acrescentada.
REFERÊNCIAS
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Development”, report for Institute for Strategy and Competitiveness-
Harvard Business School.
EUROPEAN CLUSTER COLLABORATION PLATFORM (EU) (2019)
- Informação em www.clustercollaboration.eu.
GOVERNO DE PORTUGAL: “Enquadramento das Estratégias de
Eficiência Coletiva”, QREN – Quadro de Referência Estratégico
Nacional (2008).
INE – Instituto Nacional de Estatísticas, “Estatísticas do Co-
mércio Internacional 2017”, Edição 2018. Disponível na inter-
net: https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_
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Smodo=2. ISSN 0873-0687.
INÊS FRAZÃO (2018) - “Capacidade Dinâmica das Alianças no Cluster
dos Recursos Minerais”. Lisboa: ISCTE – Instituto Universitário de
Lisboa. Tese de Doutoramento.
LILIANA SCUTARU (2016) - “International Models andpolicies of
Successful Clusters“, Ecoforum- Volume 5, SpecialIssue.
REPÚBLICA PORTUGUESA (2019) - Clusters de Competitividade -
Informação em Programa Interface – www.programa.interface.pt/pt.
http://www.clustercollaboration.eu
https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_publicacoes&PUBLICACOESpub_boui=320462672&PUBLIC
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https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_publicacoes&PUBLICACOESpub_boui=320462672&PUBLIC
http://www.programainterface.pt/pt
137
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RESUMO
O estudo do calcário português lioz, abordado neste artigo, abrange uma breve referência à sua história geológica e
uma outra, mais extensa, ao seu papel como veículo de divulgação de arte e cultura portuguesa e europeia no Brasil.
O lioz, sendo um calcário microcristalino com propriedades físicas e tecnológicas próprias para a construção, é
também utilizado como elemento decorativo, uma vez que tem coloração diversa, em branco-marfim, rosa claro
e escuro, amarelo dourado e amarelo forte, recebendo por esta razão denominações diferentes na indústria das
rochas ornamentais. É um calcário de ambiente recifal, portador de fósseis rudistas que lhe conferem uma textura
singular. Ocorre nas zonas de Lisboa e arredores, incluindo a região do município de Sintra, principalmente em
Pêro Pinheiro, de cujas pedreiras saiu a maior parte do material para construção em Portugal e no Brasil, desde o
século XVIII até o presente. Usado durante décadas em construções na área de Lisboa, em estilos arquitetónicos
diversos, em Mafra materializou o complexo arquitetónico emblemático de D. João V, Convento, Igreja e Biblioteca,
tornando-se a “pedra real”. Foi transportado para o Brasil como lastro de navios que circulavam entre Portugal e
a nova colónia, onde no século XVIII foi a rocha preferida para as grandes construções, principalmente de igrejas
e templos de culto religioso, cópias de igrejas portuguesas ou nelas inspiradas, perpetuando a arte e arquitetura
transportadas da Europa. Deixou em Salvador, na Bahia uma exposição valiosa do património de arte e cultura
portuguesas. O lioz tem hoje o estatuto de “Rocha Património Global” por preencher os requisitos adotados pela
Heritage Stone Subcomission (HSS) da UNESCO.
Zenaide Carvalho G. Silva
Geóloga, Profª. Associada c/ Agregação, Jubilada, GeoBioTec,
Departamento de Ciências da Terra, Faculdade de Ciências e
Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa, Portugal
Email: zcs@fct.unl.pt
Palavras Chave: Lioz, rocha património, arte, Portugal, Brasil
Lioz – Rocha Património, foi Real em Portugal e Transportou
Arte e Cultura para o Brasil
mailto:zcs%40fct.unl.pt?subject=
138
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
ABSTRACT
The Portuguese limestone lioz is reported in this paper focusing two distinct approaches, a concise geological history
and a very different one characterizing the lioz as a vehicle of diffusion of European and Portuguese art and culture
in Brazil. Lioz is a microcrystalline limestone used in construction due to its technological properties suitable for
that purpose, being also used as a decorative stone as it has a unique texture and varied colors: ivory white, light and
dark pink, golden yellow, dark yellow. Due to that color variation and different appearance according to the way the
rock is cut, lioz answers for a variety of designations given by the stone industry. The rock has been identified as a
reef limestone and carries rudist fossils which give a pretty texture to it. Lioz occurs in Lisbon and vicinities, namely
in the Sintra region, mainly in Pero Pinheiro region where many quarries are located. Most of the material extracted
for construction both in Portugal and Brazil from the XVIII century to present, came from that area. During several
decades lioz was the preferred rock used in churches and other monuments, as well as in governmental buildings, in
very diverse architectonic styles. The monumental complex of Mafra (convent, church and library) under D. João V
reign was totally built and decorated in lioz in such a way that the rock got the designation of “Royal Stone”. During
the XVIII century lioz limestone was carried to Brazil as ballast in vessels that travelled across the ocean in commercial
missions. It was then used in the new Portuguese colony as building and decorative stone for many churches and
religious temples, which were similar as Portuguese counterparts, associated with several architectonic styles and
different artistic symbols. In Salvador, Bahia, the most important Brazilian town at that time, an expressive exposition
of that European art was left constituting a testimony of Portuguese art and culture. Today the lioz limestone has the
recognized status of a Global Heritage Stone as defined by the Heritage Stone Subcomission of UNESCO.
1. INTRODUÇÃO
O calcário microcristalino denominado lioz, de ocorrên-
cia na região de Lisboa e arredores, tem expressiva
atividade extrativa e de transformação na região
de Pêro Pinheiro e municípios limítrofes, de onde a
rocha tem sido fonte de matéria-prima para muitos
monumentos e construções, em Portugal e em outros
países, durante séculos. É esta rocha, clara e de textura
muito característica que alicerça as grandes construções,
reveste edifícios públicos e pavimenta muitas ruas da
cidade de Lisboa.
Sendo uma rocha património (Cooper et al., 2013),
reconhecida pela comunidade geológica e de património
global (Silva, 2019), além da sua história geológica, o
lioz tem uma outra história, fascinante, em especial
para Portugal e para o Brasil, graças ao papel que
desempenhou como veículo de arte e cultura europeias
para a nova terra Brasil, principalmente durante os
séculos XVII e XVIII. Foi transportado para a então
recente colónia como lastro (IPAC, 1997) das naus que
compunham frotas dirigidas ao Brasil e desembarcou
nos principais portos da costa brasileira que mantinham
com Portugal um comércio intenso de bens da
metrópole. Essas naus transportavam para o Brasil sal e
mantimentos, ouro e prata trabalhados, sedas, produtos
provenientes da Ásia, drogas, alfaias para a agricultura
(Arruda, 1980) e retornavam da colónia trazendo
produtos da terra como madeira, açúcar, tabaco, mel,
plantas medicinais (ipecacuanha) e, mais tarde, algodão,
couros, aguardente, ouro, pedras preciosas. Foi nas
localidades que abrigavam aqueles portos que o lioz
foi mais utilizado para construções, em especial em
edifícios públicos e monumentos, sobretudo em igrejas,
cuja construção manteve uma atividade muito intensa.
As igrejas satisfaziam os projetos de ordens religiosas,
como as jesuítas, franciscanas, beneditinas, carmelitas
e em menor escala, de associações de comerciantes que
também se organizaram em confrarias ou irmandades,
legitimando-as com a construção de templos religiosos
semelhantes aos de Portugal. Foi num clima de euforia
comercial e abundância de recursos, além do entusiasmo
e determinação protagonizados por D. João V, então rei
de Portugal, que o Brasil recebeu a herança artística
e cultural religiosa portuguesa, estampada nas suas
igrejas, com predominância na Bahia, que tinha a
cidade de Salvador como sede do governo no Brasil.
139
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Em menor escala, Rio de Janeiro, Recife, São Luís do
Maranhão e Belém do Pará também receberam parte
desta herança, mas é na Bahia que ela está mais patente,
em abundância e requinte. Hoje é possível identificar-se
e correlacionar-se em igrejas que foram construídas
em tempos próximos, no Brasil e em Portugal, com os
“parentescos” artísticos entre elas visíveis para além
do “toque” dos seus autores, arquitetos e artesãos que
nelas deixaram a sua marca. Foi através do seu saber
e arte que o Brasil recebeude Portugal, e também da
Itália e Espanha, uma enorme riqueza patrimonial. A
Bahia é hoje um museu vivo desta herança portuguesa,
traduzindo parte da história luso-brasileira cultural e
artística muito acentuada no século XVIII (Silva, 2007).
2. BREVE HISTÓRIA GEOLÓGICA E CARACTE-
RIZAÇÃO DA ROCHA
Ocorrência
O calcário lioz ocorre na região de Lisboa e aflora em
localidades situadas a noroeste de Lisboa, como Oeiras
e Paço d’Arcos e principalmente em Pêro Pinheiro,
Lameiras, Morelena, Pedra Furada, áreas estas que
estiveram submersas durante períodos geológicos que
correpondem ao Cretácico, com cerca de 120 milhões
de anos. Deve-se a Choffat (1900) a primeira descrição
destas rochas, pertencentes a uma unidade estratigráfica
referida como “calcário cristalino com rudistas”. Estes
organismos são identificados com faunas de águas rasas,
claras e quentes típicas de ambientes recifais. Na região
de Lisboa o lioz ocorre em várias localidades (Sousa, 1897;
Pinto, 2005), sendo que atualmente pouco se conhece dos
afloramentos, sendo exceção o do vale de Alcântara,
junto ao aqueduto das Águas Livres, local este que hoje
é reconhecido como um Geosite: o Geomonumento
Avenida Calouste Gulbenkian. Campolide, Rio Seco,
Monsanto, e Belém são também locais de ocorrência
do lioz, dentro de Lisboa, a partir das quais foi possível
Zbyszewski (1963) resumir a estratigrafia da sequência
descrita por Choffat, já mencionada. Também com
base nas ocorrências citadas de Alcântara, Negrais e
Pêro Pinheiro, Callapez (2008) tipifica o lioz como um
calcário de plataforma. A ocorrência do lioz em várias
localidades na região de Lisboa explica de certo modo
o seu uso nas construções locais, abrangendo longos
períodos da história da cidade, desde os romanos
aos tempos modernos. Contudo, é na zona de Pêro
Pinheiro, no concelho de Sintra, que atualmente estão
localizadas as maiores e mais conhecidas ocorrências
do lioz onde a rocha tem sido extraída e trabalhada
para comercialização durante séculos. A ocorrência
de algumas variedades de lioz está documentada por
Martins (1991) na região de Lameiras e Pêro Pinheiro
Este. Foi das pedreiras de Pêro Pinheiro (Figs. 1 e 2) que
saiu um grande volume de lioz, de muitas variedades
(branco-marfim, rosa, cinza, amarelo) para a construção
do Complexo arquitetónico de Mafra, no século
XVIII e é neste Complexo que se encontra uma vasta
exposição, concebida com arte e significado religioso,
das variedades desta rocha.
FIGURA 1
Pedreira antiga em Pêro Pinheiro
FIGURA 2
Blocos de lioz multicolor em pedreira de Pêro Pinheiro
140
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Caracterização Petrográfica
Do ponto de vista petrográfico, a rocha apresenta-se como
um calcário microcristalino, cuja cor mais frequente é o
branco-marfim, sendo também conhecidos o rosa claro,
o rosa escuro, às vezes referido como “Encarnadão”, ou
ainda menos frequente, o amarelo dourado discreto.
As diferenças de cor são resultantes da presença de
óxido de ferro, por vezes hidratado na matriz da rocha.
Estas diferenças dão origem a nomes específicos para
a rocha, atribuídos pela indústria, embora se trate da
mesma rocha, o lioz. Deve-se salientar que a orientação
do corte também é motivo para a atribuição de nomes
distintos, de que é exemplo o “chainnette”, resultante
de um corte da rocha não paralelo à estratificação.
A variedade amarelo-laranja recebe a designação de
Amarelo Negrais, mostrado na figura 2 e corresponde
a uma variação localizada de fácies do lioz. Contém
óxido de ferro hidratado e minerais argilosos, e é menos
resistente à ação da atmosfera agressiva, poluída. Perde
rapidamente o brilho em placas polidas quando expostas
à atmosfera, em fachadas exteriores.
A rocha contém fósseis bivalves, rudistas, de tamanhos
variados, imprimindo uma textura típica ao lioz, com
destaque nas variedades coloridas, devido ao contraste
entre a matriz cristalina, parcialmente oxidada e o
material conchífero, mais claro, os fósseis (Fig.3).
Atualmente é possível identificar-se acabamentos em lioz
cinza, lioz rosa claro, polido em colunas interiores, em
prédios construídos em meados do século XX, em Lisboa,
bem como lioz contendo fósseis de tamanho avantajado
(10-12 cm), como na escadaria do Teatro A Barraca, em
Santos. De aplicação mais rara, conhece-se uma outra
variedade de lioz, de cor vermelho roxo em decoração
de pavimentos, como na igreja de São Paulo, em Lisboa.
Esta variedade é também encontrada em pavimento de
capelas na igreja da Misericórdia, em Salvador, na Bahia.
FIGURA 3
Textura típica do lioz rosa escuro,
exibindo os vestígios fósseis (em branco)
Caracterização Química
O lioz é essencialmente um calcário formado por calcite
microcristalina. A composição química dos tipos mais
usados nas construções (lioz branco-marfim, chainnette,
encarnadão e amarelo Negrais está ilustrada na Tabela 1
e mostra que as diferenças de alguns óxidos são pequenas
entre elas e podem indicar apenas variações locais,
possivelmente em alguns horizontes da sequência
estratigráfica.
TABELA 1
Análise química das quatro variedades de Lioz mais conhecidas
Óxidos % Lioz Chainnette Encarnadão Amarelo Negrais
SiO2 0,31 0,55 0,35 1,59
Al2O3 0,48 0,18 0,25 0,25
Fe2O3 0,02 0,05 0,07 0,37
MgO 0,48 0,85 0,36 1,29
CaO 55,49 54,21 55,27 53,02
Na2O 0,05 0,18 0,06 0,07
K2O 0,07 0,07 0,04 0,07
L.O.I. 43,35 43,48 43,78 43,22
Total 100,25 99,57 100,18 99,83
(Segundo Casal Moura, IGM, 1992-1996).
141
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Caracterização Física e Tecnológica
As propriedades físicas ou tecnológicas que permitem
o uso do lioz como material de construção não variam
significativamente entre os tipos de lioz, em função das
pequenas variações na composição química (presença
de óxidos de ferro), mas são afetadas pelo modo como a
rocha é cortada, se paralelamente ou não à estratificação.
Sendo a rocha um calcário resultante da precipitação
de carbonato de cálcio e da deposição simultânea de
organismos que deram origem aos registos fósseis, os
modos distintos de corte deixam características parti-
culares na textura: ou expondo os contornos da concha,
arredondados, quando o corte é paralelo à estratificação,
ou exibindo seções diferentes da concha e mostrando as
linhas irregulares dos estratos, estilólitos, quando em
corte diferente dos planos de estratificação, motivando
uma textura distinta, utilizada pelos arquitetos como
realce decorativo nas construções.
Uma discussão mais alargada do comportamento
tecnológico dos calcários da região de Lisboa, incluindo
o lioz, está contida no trabalho de Figueiredo (1997).
A Tabela 2 mostra algumas propriedades tecnológicas
relativas às variedades de lioz realçadas neste trabalho.
Essas propriedades foram escolhidas para exemplificação
porque algumas são determinantes no uso da pedra
como material de construção com desempenho estrutural
e outras porque revelaram ter um papel essencial na
vulnerabilidade da rocha à alteração. Neste contexto,
verifica-se que rochas cuja porosidade tem valores
mais elevados, resistem menos à ação das atmosferas
agressivas, principalmente ao nevoeiro salino (Silva
& Simão, 2009). Nesta situação, observa-se que as
rochas calcárias perdem massa em relação direta com
a porosidade aberta, e no caso específico do lioz, é a
variedade amarelo Negrais aquela que mais perde,
correspondendo a 1.18% de porosidade aberta. Em
alguns locais de Lisboa é possível observar-se o tipo de
alteração exibida por esta rocha em fachada externa,
sendo notória a exposição na parede externa do Aquário
Vasco da Gama, em Algés, ao longo da Avenida Marginal.
A perda de brilho da rocha e consequente opacidade
da parede foi rápida e pode ser contrastada com o
aspeto de paredes internas da mesma rocha, observada
em várias outras construções. Finalmente, é de referir
o mais comum tipo de alteraçãodo lioz, patente em
vários monumentos portugueses resultante do efeito da
humidade sobre a rocha que, combinado com a presença
de SO2 na atmosfera, conduz à formação de gesso, um
sulfato de cálcio hidratado, desenvolvendo crostas negras
na rocha. Entre os exemplos bem conhecidos está o
claustro do Mosteiro dos Jerónimos que entre 1998 e 2001
foi sujeito a uma intervenção cuidadosa para limpeza e
remoção do material alterado. Estas e outras alterações
no mesmo local foram objeto de estudo cuja discussão
está disponível em Aires-Barros (2001). Na Torre de
Belém o mesmo autor (Aires-Barros, 2000) descreve
em pormenor a intervenção de conservação e restauro
naquele monumento, com alterações semelhantes.
TABELA 2
Propriedades geotécnicas das quatro variedades do calcário Lioz mais comuns: Lioz, Chainnette, Encarnadão e Amarelo Negrais
Propriedades
Geotécnicas
Lioz
(Lameiras)
Chainnette
(Lameiras)
Encarnadão
(Lameiras)
Amarelo Negrais
(Negrais)
Resistência mecânica à
compressão(kgf/cm2) 900 1296 937 1442
Resistência mecânica à
flexão (kgf/cm2) 185 221 198 203
Massa volúmica aparente
(kg/cm3) 2695 2708 2701 2674
Absorção de água à P.At.
(%) 0.16 0.07 0.10 0.44
PorosidadeAberta
(%)
0.42 0.17 0.28 1.18
Resistência ao desgaste
(mm) 2.3 1.8 2.6 2.8
(Segundo Casal Moura, IGM, 1992-1996).
142
Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
Faz-se a seguir uma breve referência ao papel do
acabamento das superficies das placas de lioz quando
aplicadas no exterior e a resposta que é observada
na rocha, em cada tipo de acabamento. De um modo
geral, as superficies polidas resistem mais à ação dos
agentes de alteração e as superficies bujardadas são as
que mais se alteram perante as mesmas condições (Silva
et al., 2013; Silva & Cruz, 2013). Em Lisboa, na Praça
do Império, em Belém, onde vários monumentos em
lioz estão expostos, tem-se um mostruário valioso para
a observação destes comportamentos. Nesta Praça, na
mais recente construção, o Centro Cultural de Belém,
as placas de lioz têm um acabamento distinto (Fig. 4), o
escacilhado, e embora ainda seja cedo para este tipo de
estudo, são um expositor ideal para tais observações e
acompanhamento da evolução das alterações no tempo.
FIGURA 4
Acabamento escacilhado das placas de lioz,
Centro Cultural de Belém, Lisboa
3. O LIOZ NA CONSTRUÇÃO EM PORTUGAL
O lioz é uma rocha que, por sua natureza física e
química, se enquadra num tipo petrográfico específico
de rochas que de um modo geral se comportam como
materiais mais frágeis, quando comparados com rochas
de natureza silicatada, como a generalidade dos granitos,
sienitos e outras rochas similares. Tendo uma composição
essencialmente calcítica, mineral de baixa dureza (3 na
escala de dureza de Mohs), tem características de “rocha
mole”, próprias para ser trabalhada. No entanto, a sua
história geológica e textura (microcristalina, compacta),
permite-lhe um comportamento específico, exibindo
propriedades tecnológicas comparáveis às de muitas
rochas de natureza silicatada. Esta circunstância confere-
-lhe o “estatuto” de rocha capaz de ser utilizada como
elemento estrutural nas construções, garantindo-lhes
durabilidade e de ser trabalhada manualmente com
alguma facilidade. Este tipo de calcário é encontrado em
construções e outras aplicações em todo Portugal, mas
por ocorrer na região de Lisboa e arredores, é nestas
áreas que o seu uso é mais expressivo.
Ao longo do tempo, o lioz foi material de construção
em grandes obras em Lisboa, como o Aqueduto da
Águas Livres (Fig.5), no vale de Alcântara, o Mosteiro
dos Jerónimos, a Torre de Belém (Fig.6), o Monumento
aos Descobrimentos, o Museu da Marinha, o Palácio da
Ajuda, a Assembleia da República, o Centro Cultural de
Belém e em muitas igrejas do centro e da periferia da
cidade, como a igreja de São Vicente de Fora e a Basílica
da Estrela, a Sé Catedral, a igreja da Madre de Deus, no
Beato, a do Menino de Deus, em Alfama, e muitas outras,
localizadas na Baixa lisboeta. Estas construções trazem
consigo testemunhos de várias épocas e de vários estilos
arquitetónicos, marcando a presença do lioz, algumas
com interiores exibindo um lioz bem trabalhado,
exemplificado aqui com os túmulos de Camões e de
Vasco da Gama e em arcos no claustro no Mosteiro dos
Jerónimos (Fig.7).
FIGURA 5
Aqueduto das Águas Livres, Lisboa
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FIGURA 6
Torre de Belém, Lisboa
FIGURA 7
Pormenor do claustro do Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa
Em algumas igrejas, os trabalhos artísticos que adornam
capelas e pilares expõem variedades de lioz numa
combinação artística do lioz marfim, lioz encarnadão
e amarelo Negrais, em geral partilhados com outro
calcário, este preto, de Mem Martins, em “embutidos”
delicados e de padrões diversos. É na igreja jesuíta de
São Roque, no largo da Misericórdia, que se encontram
talvez os melhores exemplos deste tipo de composição
exibidos em algumas das suas capelas (Fig.8). Trabalhos
semelhantes são encontrados em outras localidades,
como em Évora, na Igreja do Espírito Santo e na
Catedral. A norte de Lisboa, o lioz marca presença na
Catedral de Santarém e nos seus arredores, compondo
um ambiente agradável estendendo-se aos pavimentos da
área que contorna a catedral. Em Tomar, no Convento
de Cristo, monumento construído em calcário local
desde tempos medievais e trabalhado até o presente, o
lioz compõe parte da charola e é pavimento em algumas
dependências.
FIGURA 8
Embutidos em lioz policromado em capela
da Igreja de São Roque, Lisboa
A aplicação do lioz como pedra de revestimento em
edifícios, em residências e em pavimentos tem-se
de novo acentuado nas últimas décadas, depois de
um período em que a pedra parecia esquecida. A
construção do Centro Cultural de Belém (1989 a 1992)
e a expansão do metropolitano de Lisboa contribuiram
para esta “redescoberta” da rocha, referida por Lopes
(2017) e hoje a sua exposição está marcada como pedra
de revestimento e trabalhada em escultura, como
exemplificado em estátua do Marquês de Pombal, entre
as linhas do metropolitano na Estação do Marquês.
4. LIOZ – PEDRA REAL
O uso alargado do lioz na região de Lisboa deve-se
em primeiro lugar à sua ocorrência, já mencionada,
nas proximidades da cidade, tornando-se durante
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
décadas, desde tempos longínquos, a fonte de recurso
natural por excelência, facilitada pela sua localização
e disponibilidade. Tal facto está registado nas diversas
construções públicas, de palácios residenciais a
monumentos históricos e a edifícios públicos, alguns já
mencionados. Tendo atravessado períodos diversos de
história e de estilos artísticos, é natural que esteja presente
em construções de diferentes estilos arquitetónicos,
sendo que há registos da presença de mais de um estilo
na mesma obra, em especial naquelas cujo tempo de
construção foi longo. Um bom exemplo desta situação é
o complexo arquitetónico de Mafra, construído durante
o reinado de D. João V (1706-1750), em que há registos
de estilos arquitetónicos desde o Românico, atravessando
o Gótico, o Manuelino, Renascimento e Maneirismo e
que traduzem a influência daqueles estilos em voga na
Europa.
A construção do complexo de Mafra idealizado e
conduzida por D. João V corresponde a um período
da história de Portugal em que o comércio com a
nova colónia na América do Sul, o Brasil, era intenso.
Havia recursos provenientes da colónia, havia trocas de
mercadorias de Portugal para o Brasil e vice-versa e o lioz
presenciou e viveu esta movimentação. Havia, sobretudo,
a vontade de um rei, que pretendia construir em Portugal
algo que tivesse a grandeza de uma Versailles, de França,
ou de Schönbrunn, na Áustria, ou do Palácio Real de
Madrid, em Espanha. Na visão de Gandra (1998), a
construção do complexo de Mafra tinha o propósitode
ser “o centro espiritual do Quinto Império, réplica da
Nova Jerusalém, vaticinada no Apocalipse.” O estudo
daquela construção, dos pormenores relacionados com o
simbolismo de cada pedra, na sua cor, forma e colocação
naquela obra é objeto cuidadoso e até apaixonante
daquele autor (Gandra, 1995). Convento, igreja e
biblioteca, referido como o complexo arquitectonico de
Mafra é todo construído em lioz, o de Pêro Pinheiro. A
escolha desta rocha, pelas razões já mencionadas e pela
sua beleza, em tantas obras majestosas, com o patrocínio
oficial, conferiu-lhe o estatuto de “Pedra Real”, pois a
sua presença nas grandes obras e igrejas nunca faltou.
5. LIOZ – EMBAIXADOR DE PORTUGAL NO
BRASIL COLONIAL, VEÍCULO DE ARTE E CUL-
TURA
O século XVIII viu f lorescer no Brasil um tipo de
atividade na construção muito intensa, de certo modo
acompanhando atividades semelhantes em Portugal. A
escolha do lioz como pedra preferida para as construções
foi natural, uma vez que ela já era a pedra “da moda”
nas mais marcantes construções em Lisboa, havia reserva
disponível em Lisboa e lugares próximos, existia um
porto em Lisboa que já era o mais movimentado em
Portugal e de onde partia a maioria das frotas em direção
ao Brasil e oriente, facilitando o comércio de bens da
metrópole e, entre eles, a pedra para construções, o lioz.
A construção de igrejas foi, no século XVIII e no Brasil,
um grande motor de atividade cultural, tendo em vista
a pluralidade de Ordens religiosas que lá aportaram
e consolidaram a sua presença através dos templos
erigidos. Ao lado das Ordens, surgiram as irmandades,
que, na generalidade, eram expansão do que havia já
em Portugal, embora algumas tenham surgido por
influência de comerciantes abonados que desejaram
rever Portugal no Brasil, através das representações
religiosas. Várias cidades-portos receberam estes
templos, mas foi a cidade de Salvador, na Bahia, onde
eles foram erigidos em quantidade, testemunhando um
forte traço de cultura e arte portuguesa. O lioz esteve
sempre presente, também em peças de decoração nas
igrejas, desde pias de água benta a lavabos e pavimentos
decorativos com o lioz policromado. Tanto os estilos
arquitetónicos como os interiores dos templos trazem
traços de arquitetos e artistas que trabalharam em
Portugal, sendo bons exemplos as contribuições dos
discípulos de Filipe Terzio, arquiteto-mor de Filipe II, que
transportou a arte renascentista da Itália para Portugal
e mais tarde para o Brasil (Rocha & Mateus, 1977), de
que na Bahia são exemplos a Santa Casa da Misericórdia,
o Mosteiro de São Bento e outros. Mais tarde, um
discípulo de Frederico Ludovice, o arquiteto alemão
que trabalhou para D. João V em Portugal, construiu
a Igreja da Conceição da Praia (Ott, 1989), também
na Bahia. Esta igreja foi toda trabalhada em Portugal
nos telheiros de Paço d’Arcos, na região de Lisboa, em
lioz, por encomenda, e transportadada para montagem
na Bahia (Valladares, 1982, Santos, 2002). Esta igreja
é considerada a primeira manifestação do barroco de
D. João V no Brasil (IPAC, 1997). Na Conceição da Praia
são encontrados belos pavimentos com embutidos em lioz
policromado. A história da construção desta igreja está
descrita em pormenor por Silva (2007), onde a autora
também relata a chegada de D. João VI ao Brasil em
1808, na Bahia, por força de mudança de rota devido
aos ventos. No seu relato, escreve: ”Foi em 24 de janeiro
de 1808 que os sinos da Conceição da Praia dobraram
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
saudando a família real e em 4 de fevereiro era naquela
igreja celebrada a cerimónia religiosa em sua honra.
D. João, que deixara Mafra, obra de seu bisavô D. João V,
seu convento, igreja e biblioteca repletos de lioz, mais
familiar acolhida não poderia ter que a saudação branca
e limpa do lioz de Pêro Pinheiro, resplandecente, à frente
da Conceição da Praia, na Bahia.”
6. LIOZ, PEDRA PATRIMÓNIO GLOBAL
A ocorrência de rochas que se tornaram elementos
fundamentais para construções, por motivos os mais
variados, ou por serem o único ou o mais abundante ou
o mais apropriado material disponível em determinado
local, tem sido reconhecida pela comunidade científica
dedicada às rochas ornamentais. Esta circunstância
despertou a vontade de se fazer a divulgação destas
rochas, que, tendo sido usadas em determinado local,
ou locais, ao longo do tempo, fossem reconhecidas como
“Rochas Património Global”, embora o termo “Global”
ainda seja objeto de discussão entre os profissionais,
à procura de um termo mais adequado. Isto porque a
designação “global” pode excluir o enquadramento de
rochas que apenas tiveram uso em uma localidade, mas
cujo papel foi desempenhado ao longo de gerações.
Em 2016, no Congresso Geológico Internacional que
decorreu em Cape Town, na África do Sul, em reunião
da IUGS Council, foi ratificada a criação da Comissão
Internacional das Rochas Património, conjunta com os
Geoparques (Pereira e Cardenas, 2019) e, mais tarde,
foram definidos os requisitos para que uma determinada
rocha pudesse ser considerada como tal (Pereira &
Marker, 2016). O mármore de Carrara e o mármore
de Estremoz figuram entre as primeiras rochas que
obtiveram este estatuto e recentemente, de Portugal,
há mais duas: a brecha da Arrábida (Kullberg & Prego,
2019) e o lioz (Silva, 2017 e 2019).
O lioz com reconhecida presença em Portugal e no Brasil
ao longo de séculos, tendo desempenhado um papel de
relevo, já mostrado, na preservação de testemunhos da
sua presença em monumentos históricos em Portugal e no
Brasil, continua a ser utilizado como pedra de construção
e transmissor de conhecimento de arquitetura e arte
nestes países. A existência de pedreiras em exploração
na atualidade garante, adicionalmente, a possibilidade
da manutenção deste calcário nas construções antigas
e preservação do património arquitetónico, responde
a preocupação expressa por Pereira & Marker (2016).
Ainda neste contexto, faz-se referência à existência
dos chamados “Geosítios”, sendo conhecidos o de Rio
Seco (Lopes, 2017) e o de Alcântara, já referido. Este
conjunto de condições assegurou a referida atribuição
da designação de Rocha Património ao lioz.
7. CONCLUSÃO
O lioz com as suas características como rocha, compo-
sição mineralógica, propriedades químicas e tecnológicas
foi e continua a ser pedra de construção. As suas texturas
e as suas cores variadas conferiram-lhe uso requintado
como elemento decorativo e artístico. Foi usado durante
séculos em Portugal e não só, como elemento estrutural
e decorativo em muitas construções e o seu uso intensivo
no século XVIII, patrocinado por D. João V, conferiu-
-lhe o estatuto de “Pedra Real”. Ao longo de séculos teve
um papel de relevo na transferência de cultura e arte
da Europa para o Brasil e está presente em igrejas e
monumentos nas principais capitais costeiras, com relevo
em Salvador na Bahia. Um relato do percurso do lioz
como rocha e como património é feito por Silva (2007)
no seu livro “O Lioz Português – de Lastro de Navio a
Arte na Bahia”, onde testemunha e ilustra a sua presença
e papel de rocha património em Portugal e no Brasil.
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147
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Labyrinthus in Petris
A Calçada Portuguesa nos Percursos da Ancestralidade
Ernesto Matos
Email: ernest.matos@gmail.com
RESUMO
A calçada artística à portuguesa, é desde os meados do século XIX, um método de pavimento que se tem vindo a
implementar numa forma persistente. Não só por Portugal, mas ultimamente, também muitos outros países o têm
vindo a assumir. Mais recentemente veio a tornar-se já uma referência de ícone internacional, demostrando-o a cidade
do Rio de Janeiro e o seu emblemático Calçadão de Copacabana. Não é assim por o acaso que a Tocha Olímpica
de 2016 teve na sua conceção gráfica também a referência a esse característico e emblemático padrão de ondas, já
imortalizado, até mesmo por Walt Disney.
Por Portugal, com os anos a passar, vão-se fazendo contas, não só pelo custo dos materiais geológicos provenientes das
mais valias extrativas em meio natural e sem auxílio a métodos industriais poluentes, como para o pagamento de uma
mão-de-obra desqualificada e que continua ligada a uma profissionalizada classe operária. Se por um lado Almeida
Garrett já designava de Arte a este método aplicado no velho Rossio e que recebeu o nome de um país, por outro
assistimos a uma cada vez mais descaracterização técnica e que vai fomentando a má imagem que constantemente
passa debaixo dos nossos pés. O que é certo, é que passados mais de 170 anos desde o seu surgimento para benefício
público e universal, não vemos este método como disciplina em nenhuma escola de artes portuguesa.
Palavras Chave: Calçada portuguesa, arte e artesanato, espaço urbano, arte contemporânea, materiais e técnicas.
mailto:ernest.matos%40gmail.com?subject=
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Boletim de Minas, 54 - Tema em Destaque - Rochas Ornamentais - 2019-2020
O que temos hoje ou o que queremos no futuro para os nossos pavimentos em calçada? Calçada artística ou calçadas
de pedras no chão colocadas por uns arrumadores, formados no quintal ali da esquina?
Pretende-se assim com este texto, refletir sobre alguns destes parâmetros que o próprio país se vai confrontado,
perante as vicissitudes de uma profissão, de uma técnica, de uma arte, o que quer que seja... mas que faz parte da
nossa perseverança.
Minotauro seria encarcerado num labirinto de pedra
que Creta nos deixou em mosaico. Eis a pedra enquanto
fundamental elemento de memória à condição humana
caminhante sobre ela própria, sobre a sua história, sobre
a sua filosofia, sobre os seus caminhos por vezes também
labirínticos. A pedra como alavanca de conhecimento,
de progressão sobre caminhos construídos de pedra
sobre pedra. Pedra ligada à pedra entre recortes onde a
intimidade penetra, onde umas outras vidas vivem, onde
o solo respira, onde a luz do sol resplandece e se liberta,
libertando-nos também das amarras da gravidade.
A pedra, ao longo dos milénios, tem sido base do nosso
suporte de existência, quer no plano físico, para o mais
simples utensílio de sobrevivência, para alcançar a água
através de um poço, para chegar às estrelas ou no plano
transcendental e atingir a eternidade por via de uma
pirâmide ou de um sarcófago. Foi graças também a ela
que se fez a passagem entre as pontes do homo faber,
do homo sapiens até ao homo ludens, que ainda hoje,
no recreio da sua arte, se manifesta e se liberta como
elemento de uma humanidade larvar, transgredido
assim definitivamente a lei do trabalho. Escreve George
Bataille: «O homem de Lascaux criou do nada este mundo
de arte onde a comunicação dos espíritos começa. […]
Só pelo trabalho da pedra o homem se separava de uma
forma absoluta do animal.»1
São Bernardo de Claraval, nas campanhas dos
Templários comentava: «Acredita em mim, aprenderás
mais lições nos bosques do que em livros. As árvores
e as pedras ensinar-te-ão aquilo que não poderás
aprender dos mestres». As pedras dão-nos tudo, até a
pedra para dormirmos, como referia Padre António
Vieira: «Dormindo Jacob sobre uma pedra, viu aquela
escada que chegava da terra até o céu, e acordou atónito