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ANGELO RICARDO DE SOUZA

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a maior parte dos estudos clássicos e críticos é composta por estudos
prescritivos, que apontam modelos e alternativas para as ações cotidianas da gestão
escolar e essas prescrições resultam de ser reproduzidas em algum grau na realidade
escolar, sendo parcialmente responsáveis pelo perfil real dos diretores e processos de
gestão. Por outro lado, há também alguma desarticulação entre o perfil das idéias sobre
a gestão escolar e o perfil do dirigente e da gestão escolar, devido especialmente ao fato
de que as concepções dos autores clássicos e críticos e, em menor medida, dos autores
mais recentes, decorrem de estudos teóricos, nos quais pouco se encontra pesquisas
empíricas. Isso leva a um distanciamento entre o que se escreve (e se propõe) e entre o
que de fato existe nas escolas brasileiras. Ademais, o perfil dos dirigentes e dos
processos de gestão, desenvolvidos nesta tese, se sustenta em dados de 2003, enquanto
que parte daquela produção acadêmica remonta a tempos bem anteriores, o que significa
que eram estudos que discutiam o fenômeno da gestão escolar em contextos e tempos
um tanto diversos daqueles em que encontramos os atuais diretores escolares.
Em síntese, o que o leitor encontra neste trabalho é um levantamento e um
conjunto de análises sobre quem são as pessoas que dirigem as escolas públicas de
educação básica no Brasil e como elas lidam com os processos e instrumentos de gestão
e em que medida as explicações para esse perfil advêm das idéias e concepções dos
autores que pesquisam o campo da gestão escolar.
No início da pesquisa avaliava-se que havia uma grande desconexão entre esses
objetos. Mas, como mencionado, há graus de articulação e de desarticulação entre eles.
É possível que uma avaliação mais aprofundada acerca dessa relação possa ser feita,
considerando que nesta tese não se dedicou à produção de um estado da arte da gestão
escolar no Brasil. De posse de um levantamento mais aprofundado e qualificado sobre a
produção acadêmica no campo no país, não possível de ser realizado nesta pesquisa,
amplia-se o conhecimento sobre as faces que compõem o perfil das idéias e,
consequentemente, facilita-se o cotejamento entre aqueles objetos. De outro lado, os
dados empíricos do SAEB podem ser melhor trabalhados, uma vez que o cruzamento
entre as variáveis pode alcançar dimensões mais detalhadas do que as produzidas nesta
tese. Se isto não foi produzido nesta pesquisa se deve às limitações do pesquisador com
a lida com dados estatísticos. Mas, ainda sobre os dados estatísticos do SAEB, há que se
reconhecer que trabalhar com questionários padronizados aplicados em grandes
populações permite uma boa base de comparação, mas não permite maiores
aprofundamentos, os quais são necessários para se conhecer melhor a realidade das
escolas. Esses questionários não conseguem expressar um conjunto grande de elementos
cotidianos das relações políticas e pedagógicas de cada uma das escolas que foram
avaliadas no SAEB 2003. As explicações para os perfis podem advir desses aspectos
não capturáveis pelos questionários.
Essas limitações e dificuldades estiveram presentes ao longo de todo o trabalho
com a base empírica e com os textos a serem revisados. A teoria de suporte ajudou na
trajetória de desvelamento dos dados, mas problemas como aqueles inerentes à natureza
dos questionários não são imediatamente solúveis. Ou melhor, há limites no uso desse
tipo de material, como também há no uso de resumos de teses e dissertações, base
utilizada para a produção de parte do perfil das idéias sobre a gestão escolar.
De qualquer forma, esses resumos, em que pese sua limitação, permitem ter um
panorama da pesquisa acadêmica no campo e por isso já são valiosos, assim como a
base empírica do SAEB 2003 também é bastante rica e expressa parte da realidade da
organização e gestão escolar no país. Ela deve ser lida desta forma. Não se pode cobrar
dela aquilo que os instrumentos utilizados na coleta dos dados não permitiam. Neste
sentido, adverte-se e convida-se o leitor ao procurar compreender o perfil da gestão
escolar no Brasil, observando o que os diretores responderam, que se atente às possíveis
razões que levaram àquelas respostas, buscando transpor a imediaticidade das respostas
dadas pelos respondentes para uma visão mais mediata, procurando compreender o que
os respondentes quiseram dizer e por que deram aquelas respostas.
PPAARRTTEE II
IIDDÉÉIIAASS
Os três primeiros capítulos desta tese são dedicados a considerar o perfil das
idéias no campo da gestão escolar no Brasil, destacando os estudos mais importantes de
destacados autores brasileiros do campo da administração/gestão escolar. Esse perfil é
importante academicamente na própria constituição do campo de estudos. Todavia, é
também relevante para a compreensão do fenômeno gestão escolar em todas as suas
dimensões, inclusive na prática dos dirigentes escolares em todo o Brasil ao longo do
tempo. Essas idéias são reflexo, por vezes, de uma vanguarda do pensamento
educacional, que intencionava projetivamente mostrar os rumos pelos quais os gestores
escolares/educacionais deveriam seguir. Outras vezes, as idéias refletem as tendências
presentes na ação desses gestores, pois se dedicavam a tratar de problemas que afetavam
o cotidiano das escolas brasileiras.
E o debate sobre essas idéias do campo da gestão escolar no Brasil poderia ser
produzido a partir de diferentes ângulos. Seria possível abordá-lo tomando as categorias
com presença mais marcante nos diversos autores e observando como se posicionam
sobre esses pontos, seria ainda possível tratar desta tarefa apresentando os conflitos
entre os autores dos mesmos períodos e em que medida esses conflitos contribuíram na
evolução das idéias centrais. Optou-se, nesta tese, pela identificação deste perfil
apresentando-se as principais idéias do campo no Brasil a partir de uma classificação
temporal, pois, durante toda a história da produção do campo, são flagrantes as marcas
do tempo no resultado dos trabalhos produzidos. Além disto, há uma forte característica
nesta divisão, pelo menos entre os autores do período aqui denominado de clássico
(1930 até 1980) e os autores do período aqui denominado de crítica ao clássico (entorno
dos anos 80), que diz respeito ao debate sobre a administração escolar ser ou não uma
especialidade da administração geral, e as conseqüências desta relação. Este debate é
central na própria denominação do campo, como se fará ver, e, conseqüentemente, na
compreensão da sua natureza e objeto.
Os autores apresentados nos dois primeiros capítulos são aqueles que aparecem
com maior destaque na produção brasileira do século passado. Há outros? Certamente
que sim. Todavia, os autores e obras aqui destacados resumem as principais idéias do
seu tempo, objetivo maior desta parte do trabalho. Daí a sua escolha. Isto não significa,
em absoluto, a diminuição da importância de outros trabalhos não apresentados, mesmo
porque a produção de um estado da arte da matéria não é objetivo desta tese.
O balanço da produção apresentado no capítulo III não deve ser considerado um
estado da arte. É apenas um levantamento realizado a partir dos resumos das
dissertações e teses defendidas no campo da gestão escolar entre 1987 e 2004, com
vistas à identificação daquele perfil, buscando perceber quais são os principais objetos
de estudo e como eles estão sendo apreendidos. Esse levantamento permite deduzir
tendências do pensamento nesse campo.
O objetivo geral dessa parte do trabalho é, assim, a apresentação do pefil das
idéias dos principais autores do campo da gestão escolar no Brasil. A identificação e o
reconhecimento das questões centrais desses pensamentos são importantes, pois serão
cotejados com o perfil da gestão e da direção escolar na parte III desta tese.
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