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Aspectos da Poesia Cearense 
Artur Eduardo Benevides 
A poesia te1n sido, ao longo da história da cultura, a lingua­
geill inicial e triunfal dos povos, figurando ao lado do conto e do 
romance, con1 qtle gt1arda parentesco fenomenológico, e que seri­
at11 derivados de Stla fonte, no processo de expressão do espírito 
hun1ano. Cronologicamente, porém, não se trata da primeira das 
artes, pois, antes de uma consciência mais ou menos globalizadora 
da natureza e da vida e de uma visão essencial do mundo, o ho­
mem teria desenhado e esculpido, além de haver dançado 
ritualmente, por vitórias pessoais ou venerações totêmicas. 
A poesia, ligando-se à música, originariamente, viria a ser 
na percorrência de vasto processo cultural, a coluna básica da li­
teratura, campo uni versai de fixação da história do homem, em 
seus sonhos, sofrimentos, esperanças, amores, glórias, fracassos 
e tudo mais que se liga à condição humana. 
Nos longes da história, porém, antes das epopéias dos gran­
des navegadores, que, nas "cavas e lombas do mar", para citar 
Ferreira de Castro, ampliaram não só as fronteiras do mundo, como 
as do próprio conhecimento, a poesia é uma constante na evolu­
ção social de todas as gentes, brilhando, já nas literaturas primiti­
vas, como a mais alta forma de manifestação artística, no campo 
da linguagem. . 
O assunto, aliás, é pacífico, pois há um consenso unânime 
sobre a importância do gênero e o seu caráter inaugurativo nas 
letras de qualquer nação. E nem poderia ser diferente, pois se tra­
ta da linguagem natural dos alumbramentos, das descobertas, das 
iluminações interiores, das adorações, das evocações, dos êxtases 
e das alegorias, sobretudo através do poder aliciante da metáfora. 
A prosa vem sempre depois, por ser, de modo geral, lógica, dire-
65 
I 
I 
ta, racional e dedutiva, ao contrário da poesia, simbólica, intuiti­
va, figurada. indireta e, nietzscheanamente, mais dionisíaca do 
qLle apolínea. 
No Brasil, para não fugirmos à regra, é através da poesia 
ingênua e mística de Anchieta e dos versos eruditos do injustiçado 
Bento Teixeira Pinto que as nossas letras se iniciam, como em 
Portugal se iniciaram com os poetas dos Cancioneiros, que rece­
beram as influências líricas provençais e compuseram suas canti­
gas de amor, de amigo, de escárnio e maldizer, abrindo caminhos 
para a fulguração do gênio camoniano. 
No tempo e no espaço, a poesia de todos os povos não cons-
titui apenas a linguagem da emoção e do sentimento, pois oferece 
. outros aspectos de importância, como monumento de cultura. Não 
é sem razão que se afirma ter o romance nascido dos poemas de 
Homero, o que dá à poesia uma significação de fonte essencial e 
histórica da literatura. Ela, em verdade, não apenas é veículo de 
expressão pessoal e social como linguagem, mas uma visão do 
mundo e uma atitude do espírito. 
"No princípio era o Verso", diz Geir Campos, em paráfrase 
ao Evangelho de São João, para significar que daí se inicia qual­
quer história da literatura, cujos passos inaugurais foram dados 
sempre pelos poetas. Henri Bars, escrevendo sobre o assunto, em 
seu livro La Littérature et sa conscience, afirma, enfaticamente, 
que "à Lorigine il n' y avait ni prose, ni vers; il y avait la poésie". 
E conclui afirmando que "les formes littéraires sont sorties, par 
différenciations sucessives, de la poésie". V êmo-la, assim, como 
leitmotiv de toda obra de arte, o que assenta no conceito 
heideggeriano, hegeliano e maritainiano do problema e, de certa 
forma, naquela opinião de Goethe, segundo a qual se trata, antes 
de mais nada, de um dom demoníaco bastante superior à lógica 
das análises. Já Carlos Bousõno a vê como a con1unicação 
vocabular de um conteúdo psíquico, afetivo-sensório-conceitual, 
aceito pela inteligência como um todo ou uma síntese. 
66 
St1a i111portât1citt, por isso, no catnpo da arte, en1 geral, e da 
literatLlra, en1 particular, é incliscutível, sobretudo por sua univer­
saJiclade e trat1scenclêtJc.ia, tnuito e1nbora, peJa natureza simbóli­
co-it1terpretativa qtte reveste, seja, q11ase sempre, hermética, sem 
a clílreza da prosa. Trata-se, ademais, ele um processo de liberta­
ção do ser, possibilita11do ao homem uma descoberta perene de 
seus can1inhos e um reencontro com o amor e o mistério dos seres 
e das cot1sas. Sem isso, aliás, a criatura humana não teria sobrevi­
vido à stla solidão, no curso dos tempos. 
Ela constitui a linguagem das auroras no sentido maior da 
expressão. Recria no homem, de acordo com o sentido de seu 
étin1o grego - poíesis - o mundo interior, ampliando, por outro 
lado, a visão da realidade objetiva, que se transfaz, sob o seu in­
fluxo, em imagens de incoercível beleza. 
E o homem é fundamentalmente poeta, pois sente a imperi­
osa necessidade de expressar, em palavras e em ritmos, em músi­
ca e em símbolos, a anima rerum ou aquilo que lhe vai nalma, em 
momentos de dor ou de alegria, fixando acontecimentos para a 
contemplação do presente e do futuro. 
Dessa maneira, o Ceará não fugiria à constante universal 
assinalada na história da literatura. Começa a sua vida literária 
em 1815, nos "Oiteiros", reuniões palacianas promovidas pelo 
Presidente da Província, Manuel Inácio de Sampaio, quando os 
poetas glosavam motes e recitavam sonetos, odes, ditirambos e 
outras formas estróficas, sob o calor do aplauso oficial. Os 
"Oiteiros", diga-se de passagem, eram uma espécie de justa ou 
prélio intelectual, de origem portuguesa, realizando-se nos fins 
das festas de caráter religioso ou profano, após as solenidades 
maiores. Eles assinalaram, no Ceará, a abertura da vida intelectu­
al e artística, pois a literatura propriamente dita, isto é, a produção 
de livros marcados pela literariedade, só se inicia a partir de 1842, 
como lemos em Dolor Barreira, ao revés do qt1e pensan1 sobre o 
assunto Antônio Sales e Tristão de Ataíde. Par'l o pri111eiro, a li te-
67 
rattlra cearense te111 it1ício co111 J uve11al Galeno, nos Prelúdios 
p,oéticos, e111 qtle o aLltor sofre, de certa fornJa, influência de Gon­
çalves de Magalhães, nos setls St1spiros Poéticos e Saudades, pu­
blicado etn 1836, e111 Paris, e com que te1n começo o nosso Ro­
Il1clt1tist110. Para o segttndo, assin,llar-se-ia em 1859, com a chega­
da de Gonçalves Dias ao Ceafá, integrando a Comissão Científica 
de Exploração, e que exerceria salutar influência sobre a obra po­
ética de Jt1venal G'1leno, encaminhando-o para temas ligados à 
alma popular, etn suas lendas, costumes e tradições. O assunto, 
como se vê, é polémico, mesmo havendo, como há, certo equívo­
co sobre vida literária e literatura. 
/ 
E certo que, em fins do século XV III, por aqui esteve, du-
rante vinte anos, o humanista português Francisco Bento Maria 
Targini, tradutor do Paraíso Perdido, de Milton, do Ensaio Sobre 
o Homem, de Pope, e autor de sátiras e odes reunidas posterior­
mente sob o título de Poesias, conforme o registro do Barão de 
Studart, que descobriu o livro na Biblioteca Nacional de Lisboa. 
Pouco ou nada se sabe, porém, da vida literária em Fortaleza an­
tes do século XIX. 
/ 
Na prosa, o primeiro romance - Os Indios do Jaguaribe, de 
Franklin Távora, surgiria em 1862, trazendo aquela marca 
indianista que Alencar iniciara com O Guarani, em 1857, consoli­
dando-a depois através das páginas de Iracema, em 1865, e de 
Ubirajara, em 1875. E aqui cabe uma grande interrogação: por 
que motivo não se dá como início da prosa cearense o primeiro 
romance de Alencar, mesmo sem tema vinculado à terra natal? 
Não incluímos, na literatura do Ceará, prosadores e poetas de ou-
tros Estados, que lançaram livros aqui, alguns dos quais nada têm · 
a ver com a nossa terra? 
De qualquer forma, porém, começamos a nossa literatura 
pela poesia, sendo que o primeiro poeta cearense a publicar livro 
foi Juvenal Galeno. Não seria de admirar, porém, que tudo se 
• • • • • 
Iniciasse assim, pois somos uma terra em qt1e até os cegos peden1 
68 
• 
---� 111ola cat1tat1do, aolot1go das estradas, con1o assinalou Augusto 
Linhares. E, ao lado de vasta produção erudita, temos igualmente 
u111a riqt1íssi111a literatura oral, e de cordel, de que sobressaem, 
por sua belez'1 e originalidade, os versos dos cantadores, etn que 
se encontra111 i111agens arrojadas, travalinguas e outros artifícios 
verbais, e1n forn1as estróficas que vão da simples louvação e de­
safio à graça envolvente do mourão e do galope beira-mar, tudo 
revelando a alma nordestina. A primeira referência ao Ceará, ali­
ás, na poesia brasileira, está no Canto V II do Caramuru, de Santa 
Rita Durão, em que o poeta anuncia a existência de ostras, 
madre pérolas e conchas delicadas "nas costas do Ceará". Depois, 
em Portugal, Guerra Junqueiro nos olharia com ternura, lamenta­
do que, no Ceará, violentado por seca inclemente, os necessitados 
chegassem a pedir esmolas "na mesma língua em que a pediu 
Camões". 
Machado de Assis escreveu, por seu turno, dois sonetos em 
louvor de Alencar, sua maior admiração literária, e outro sobre o 
heroísmo de duas meninas cearenses que, em 1887, salvaram al­
gumas vítimas de um naufrágio. Humberto de Campos publicaria 
Na Serra de Maranguape, A Morte do Seringueiro Cearense, A 
Boiada Cearense, O Inverno Cearense e Pero Coelho, sempre 
exalçando as qualidades de nossa gente e a paisagem regional. 
Martins Fontes, em belo soneto, louvaria a figura de Tomaz Lopes. 
Manuel Bandeira, também em soneto, cantaria sua chegadá a For­
taleza e Gaston Figueira, do Uruguai, dedicaria poemas às janga­
das e à Praia de Iracema. 
O Ceará tem sido, assim, ele próprio, um personagem poé­
tico e romanesco, sobretudo pelo orgulho e amor com que o con­
tem.plam os seus escritores, desde o século passado. Os poetas 
eruditos, no entanto, mesmo não minimizando os motivos de na­
ture�a telúrica ou heróica, apegaram-se mais aos ten1as eternos, 
dentro de cujo elenco ressalta, com maior extensão e profut1dida­
de, o amor. As mais das vezes, corno no caso de tlm José Albano, 
69 
ftzemos uma poesia alegórica, mística e intemporal, sem qual­
quer compromisso com o efêmero ou a realidade social. Nesse 
tocante, aliás, não há, nas letras cearenses, uma poesia engagée, 
ou participante. Ela é social tanto quanto pode ser expressão indi­
vidual do sofrimento humano, já que o homem é um ser universal 
por excelência e suas dores, transportadas para o verso, podem 
ser a síntese de uma situação espiritual ou vivencial de muitos 
outros. Não encontramos nela, porém, acentos revolucionários ou 
reivindicatórios, a não ser como exceções raríssimas, como é o 
caso de poemas de Jader de Carvalho e Aluízio Medeiros, ou de 
alguns versos que tiveram o seu embasamento na campanha 
abolicionista. Mesmo o sentimento telúrico, emergente da 
cearensidade, é circunstancial, não constituindo o motivo maior 
ou de mais ampla e permanente utilização literária. 
/ 
E certo que tivemos raros poetas de notas hugoanas ou 
condoreiras, destacando-se Barbosa de Freitas, considerado um 
dos valores indiscutíveis de nossa poesia. Juvenal Galeno, que 
integrou a segunda geração romântica, sendo referido por Otto 
Maria Carpeaux como participante do romantismo nacional e po­
pular, é dos poucos em quem a frase poética alcança, por vezes, 
fagulhas de protestos ou gritos de justiça, muito embora se carac­
terize pelo pinturesco simples ou certa tendência picaresca e pela 
predominância de uma linguagem e de uma temática ligadas ao 
' 
espírito do povo. A sua obra, no entanto, Antônio Sales, em seu 
estudo sobre a evolução literária do Ceará, dá ênfase especial, 
talvez por se tratar de um poeta que buscou encontrar caminhos 
• • • 
novos e originais. 
Há que destacar, porém, copioso número de poesias, em · 
publicações esparsas ou em livros, de exaltação à terra e ao ho-
mem cearenses, o que nos possibilitou a organização de u111 Can-
cioneiro do Ceará, ainda inédito, em que são enfeixadas cerca de 
400 composições, assinadas por 170 at1tores. Não se acha111 in-
cluídos aí os versos sobre Fortaleza, pois já os reut1íran1os, en1 
70 
• 
• 
1953, no Cat1cione.iro da Cidade de Fortaleza, com 79 poesias de 
61 poetas, acrescido, esse 11úmero, na segunda edição, coJnemo­
rativa do sesqt1icentet1ário ela Cidade, para 104 poetas, com 173 
poesias. Isso constitt.ti, se111 clúvida, clara n1anifestação de amor à 
terra e à gente cearer1ses, havendo, igualmente, peças de autores 
nacionclis e estrangeiros, ern que são elogiadas as belezas da pai­
sagetn e as virtttdes do povo. Entretanto, a constante maior é o 
lirist11o amoroso e perene, sob o influxo de temas imperecíveis. 
A nossa poesia oferece, em suas diferentes fases evolutivas, 
aspectos de irrecusável interesse de natureza crítica, lingüística e 
histórica, destacando-se também por um espontâneo espírito 
gregário dos poetas, através da fundação de revistas, jornais, clu­
bes, associações e grupos diversos; por uma tradição temática 
universalista e localista, com predominância da primeira; por cer­
tas reações à ortodoxia literária, como é o caso de uma Padaria 
Espiritual e de um Grupo Clã, que procuraram encontrar os seus 
próprios caminhos; pela permanência de um lirismo sonhador e 
romântico, tomado este mais como atitude espiritual do que como 
filiação doutrinária; pelas hostilidades do meio social ao trabalho 
criador dos poetas, quase impossibilitando a edição de livros ou 
periódicos; por uma comovente fidelidade dos artistas ao seu des­
tino histórico; enfim, pela autenticidade literária, linguagem no­
bre e plástica e imagismo belo e irradiante, sobretudo nos moti­
vos transcendentes, muito embora, nos de inspiração telúrica, te­
nhamos evitado os modismos regionais e as locuções caipiras e 
caricaturais. 
Abordando aspectos dessa riqueza literária, nem de todos 
conhecida, no País, já em 1952, nas páginas de abertura de sua 
Coletânea de Poetas Cearenses, escrevia Augusto Linhares: .. 'Só 
seria possível fazer ressaltar todo o valor dos poetas cearenses 
num acurado e percuciente estudo através da obra cotnpleta de 
cada um deles". Consideramos, no entanto, essa tarefa inócua ou 
impraticável, não apenas pela volumosa expressão quantitativa 
• 
71 
• 
r 
• 
• 
da produção poética, como ainda por sua desnecessidade para a 
. , . 
i11ferênci'l de tti11 cot1cetto crtt1co qtle a consagrasse, 1nesmo por-
que, na maioria dos casos, poetas se imortalizaram por um sim­
ples poema, soneto, ode ou canção, ou se distinguiram por suas 
imagens cheias de sortilégio lírico e essencial, em versos isola­
dos. Pouco importa, por outro lado, a filiação estética ou o pro­
cesso formal t1tilizado, pois o verd.adeiro artista se afirma, no tem­
po, solitariamente, e a grandeza de sua face literária provém, fun­
damentalmente, de sua vis poética, traduzida no poder 
transfigurante da linguagem, veículo de sua expressão espiritual, 
no campo da cultura. Isso poderemos sentir em poucos poemas, 
dispensando, assim, para a formulação de um conceito, a leitura 
de todo um acervo bibliográfico. 
No Ceará, José Albano se imortalizou com a Ode à Língua 
Portuguesa e o soneto que começa com as palavras "Poeta fui" ; 
Juvenal Galeno ficou lembrado pelo canto de amor ao cajueiro, 
uma das nossas árvores nativas e cuja primeira imagem lírica foi 
lançada por Silva Alvarenga, em 1801, nos versos de O Cajueiro 
do Amor, do livro Glaura: poemas eróticos, sendo lembrado por 
Alencar, também, em Iracema; Paula Ney, que nunca publicou 
livro, ganhou foros de poeta nacional com o seu soneto dedicado 
a Fortaleza; Demócrito Rocha, poeta bissexto, entrou para a nos­
sa história literária com O Rio Jaguaribe; Antônio Sales foi 
antologizado por alguns versos de Minha Terra; Fernando Weyne 
tomou-se conhecido de todo o Brasil pelos versos sentimentais 
de Loucuras ( A pequenina cruz de teu rosário), que depois foram 
musicados, deles se servindo o compositor Paraguassu, por apro­
priação indébita, logo desmascarado; o padre Antônio Tomaz qtle, 
sem nenhum livroeditado, foi eleito Príncipe dos Poetas Cearenses, 
consagrou-se através dos sonetos "Contrastes", "Verso e reverso'' 
e "A morte do jangadeiro" ; Quintino Cunha ganhou prestígio 
com o seu poema "O encontro das águas" ; Ton1az Lopes ficou 
citado pelo "Hino ao Ceará" ; Américo Facó, que Carlos 
72 
Drummond de Andrade considera "dos mais altos poetas portu­
gtleses e br(tsileiros"
, 
, cl1egot1 ao público co1n o soneto em que 
descreve a figura de CatJistrano de Abreu; ·seni Carvalho foi aplau­
dido por SLta "Protofonia do Jagt1aribe" ; Júlio Maciel prestigiou­
se co111 os SOiletos "Verde" e "Jacclrecanga"; Otacílio de Azevedo 
projetou-se co111 "Carro-de-bois" ; Martins d' Alvarez tem a sua 
"C�l11ção do cri,tdor de Caminhos" incluída em muitas antologias 
; Yaco Fernandes, bissexto, destacou-se com "Alegria de Fortale­
za
,
' - e ta11tos ot1tros poetas. 
De modo geral, no entanto, não temos merecido atenções 
nacionais quanto à nossa literatura poética ou de ficção. Nem se 
diga que o fato decorre apenas da circunstância de que "a edição 
de tlm livro entre nós é, para um poeta pobre, um problema de 
· 
difícil solução", como assinala Antônio Sales, no seu estudo so­
bre a literatura cearense, o que seria posteriormente confirmado 
por Filgueiras Lima, na análise intitulada "A Literatura Cearense 
depois de 1920", publicada em O Ceará, livro organizado por 
Martins Filho e Raimundo Girão. 
Há outros aspectos a considerar, talvez mais válidos, como 
componentes do problema. 
De certa forma, porém, temos sido injustiçados na história 
literária do Brasil, muito embora Tristão de Ataíde, Afrânio 
Coutinho, Domingos Carvalho da Silva e Almeida Fischer, den­
tre poucos, venham proclamando a importância de nossa contri­
buição ao progresso das letras nacionais. No campo da Poesia, 
diga-se de passagem, esse fato parece ter sido mais acentuado. 
Otto Maria Carpeaux, na sua Pequena Bibliografia Crítica da Li­
teratura Brasileira, menciona apenas os nomes de José Albano e 
Juvenal Galeno. Nas "Noções de História da Literatura Brasilei­
ra'', de Afrânio Peixoto, de 1931, ocorre a mesma estranha omis­
são, sendo registrado, além desses dois, apenas Tomaz Lopes. José 
Osório de Oliveira, na sua História Breve da Literatt1ra Brasileira, 
publicada em 1939, em Lisboa, não registra nenhum poeta 
73 
I I 
cearense, e n1bora faça referências den1oradas a Alen�car, e, 
�e parsas, a Franklin Távora, Dotningos Olímpio, Adolfo Cami­
t111a, Gustavo Barroso, Capistrano de Abretl, Leonardo M.ota e 
Rachel de Qtleiroz. Sílvio Romero, na sua História da Literatura 
Brasileira, menciona, no Ceará, Juvenal Galeno, assim mesmo 
para incltlí-lo numa categoria que chamou de sertanejismo, ne­
gando-lhe, porém, cultura para ingressar na arte literária. José Lins 
do Rego, no seu estudo Presença do Nordeste na Literatura Brasi­
leira, editado pelo Ministério da Educação e Cultura, não menci­
ona um só poeta cearense. José Aderaldo Castelo e Antônio Cân­
dido, em Presença da Literatura Brasileira, publicado em 1968, 
não registram a existência de um grupo cearense no Modernismo, 
• 
embora mencionem os de Belo Horizonte, Rio Grande do Sul e 
Minas. No Nordeste, destacam apenas Pernambuco, Rio Grande 
do Norte e Paraíba. Sobre os poetas de hoje, nenhuma referência. 
Já no Panorama da Poesia Brasileira, editado, em seis volumes, 
pela Civilização Brasileira, apenas Juvenal Galeno, Lívio Barreto, 
Américo Facó, Cruz Filho, José Albano e Leopoldo Brígido são 
lembrados. Nessa mesma coleção, aliás, no Volume IV, Fernando 
Góes, no estudo introdutório ao tópico - Simbolismo, ignora a 
ação da Padaria Espiritual, embora cite grupos do Rio, Paraná, 
Minas, São Paulo e Bahia, desculpando-se das omissões com as 
palavras de Remi de Gourmont: "ce que je cite est representatif 
de ce que je oublie ... " 
Talvez decorra tudo da circunstância de que a história literá­
ria, como a entende Wilson Martins, "é feita de exclusões e se defi­
ne tanto pelo que recusa e ignora quanto pelo que aceita e consa­
gra". Esse mesmo crítico, responsável pelo Volume V I de A Litera­
tura Brasileira (Editora Cultrix), desconhece totalmente a existên­
cia de um grupo cearense na história do Modernismo, em que pese 
ter havido entre nós uma certa defasagem, cintando, porém, 
Pernambuco, Paraíba, Amazonas, Rio Grande do Sul e Bahia, sem 
esquecer os integrantes do "Verde", de Cataguazes, em 1927, com 
74 
• 
• 
Rosário Fusco e Guilhermino César, além de outros. Ora, só em 
1928 Carlos Chiacchio aglutinaria, na Bahia, alguns nomes em tor­
no dos icleais t11oclert1istas, após as tentativas de Godofredo Filho, 
etlqtultlto e111 Fortalez�tjá ocorri�t febrj] adesão à novidade literária. 
O 111es1110 Chiaccl1io, poré111, no setl Modernistas e Ultramodemistas, 
publicado em 195 I, mencionaria a repercussão, no Ceará, daquele 
movimento de renovação cultural, registrando, porém, com alguns 
eqt1ívocos, qtte "a pal'1 da revolta" era liderada por Aldo Prado, 
Carlos Den1étrio, Leite Maranhão, Júlio Maciel, Pereira Júnior e 
Lúcio Várzea (que era o pseudônimo, por ele ignorado, de Júlio 
M'lciel) ... De todos, porém, apenas Mozart Firmeza (cujo pseudô­
nimo era Pereira Júnior) foi modernista. 
Em tudo isso, ficou esquecida a ação de publicações como 
Maracajá e Cipó de Fogo, mesmo de curta duração, e a presença 
de Jáder de Carvalho, Franklin Nascimento, Sidney Neto e Mozart 
Firmeza, que publicariam o caderno de poemas Canto Novo da 
Raça, destacado por Tristão de Ataíde. Segundo o depoimento de 
João Jacques, que viveu intensamente aquele momento literário, 
Cipó de Fogo, em letras encarnadas, constituiu uma reação ao 
tom melífluo de Maracajá, procurando ser um panfleto tipicamente 
revolucionário, em obediência aos cânones modernistas. Cipó de 
Fogo, dirigido por João Jacques, Heitor Marçal e Mário Sobreira 
. . , . 
de Andrade, valeu como um protesto contra o sincretismo estett-
co e filosófico de Maracajá, que harmonizava a revolução nas 
letras com tendências passadistas e peremptas. 
Destacam-se nessa época, por igual, os nomes de Rachel de 
Queiroz, Edigar de Alencar, Martinz d' Alvarez e Demócrito Ro­
,cha, este último considerado por Filgueiras Lima como a coluna 
mestra do nosso Modernismo, em seu período heróico. Depois é 
• 
que teríamos a publicação de Terra de Ninguém, de Jáder de Car-
valho, traduzido por um cunho social e telúric0; Meteoros, de 
Mozart Firmeza; Alguns Poemas, de Antônio Girão Barroso; 
Manhãs de Amor, de Manuel Albano Atnora; Car11aúba, de Edigar 
75 
de Alet1car; Xeré111 e Evangelização, de Sinobilino Pitlheir�o, e 
Festa ele Ritt11os, de Filgueiras Litncl, alé1n de o·utras publicações 
em que havia uma poesia nova e por vezes ousada, mesmo que se 
registrassem, ainda, alguns cacoetes neoparnasianos. 
Por outro lado, nas referências a at1tores cearense, quase 
sempre se cometem equívocos, alguns imperdoáveis. José Albano, 
na Enciclopédia de Conhecimentos Gerais, editada em 1966, foi 
dado como poeta português residente no Ceará. Jaime de Barros, 
no seu Poetas do Brasil, aponta José de Alencar como um dos 
poetas menores do Romantismo, ao lado de Juvenal Galeno, des­
tacando, no Ceará, tão - somente, os nomes de Leopoldo Brígido, 
Virgílio Brígido, Tomaz Lopes e Oscar Lopes. Parece primária, 
no entanto, a classificação de Alencar como poeta menor, mesmo 
porque Os filhos de Tupâ tiveram apenas três Cantos publicados 
na Revista da Academia Brasileira de Letras e nunca foram con­
cluídos. Os poemetos Niterói e Rio de Janeiro e as Trovas de um 
palerma, simples fragmentos, ficaram inéditos. 
No campo da divulgação das letras, destaca-se, porém, em 
relação ao Ceará, O Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira, 
organizado por Massaud Moisés e José Paulo Paes, em que o nos­
so Estado é contemplado com excelentes informações e inúmeros 
destaques para obras, personalidades, instituições e movimentos 
literários. Valem registro especial os tópicos referentes a 
Capistrano, JoséAlbano, Alencar, Araripe Júnior, Clóvis 
Beviláqua, Farias Brito, Adolfo Caminha, Américo Facó, Juvenal 
Galeno, Domingos Olímpia, Rodolfo Teófilo, Pápi Júnior, Oli­
veira Paiva, Antônio Sales, Franklin T ávora, Rachel de Queiroz, 
Fran Martins, Braga Montenegro, Moreira Campos, Moacir Lopes, 
Cordeiro Andrade e outros, sem esquecer os Congressos de Poe­
sia, o Grupo Clã, o jornal O José, além, é claro, da Padaria Espiri­
tual e de outros assuntos de igual interesse. Há registras especiais 
para livros como O Guarani, Iracema, Luzia Homem, O Quinze, 
A Normalista, No país dos Ianques e ot1tros. É o 111elhor traball1o 
76 
a cot1Stlltar sobre as letras cearenses - Poesia e Prosa - mesmo 
co111 o esqtteci111et1to dos J10ines ele OtacíJio Colares, Mozart 
Soriano Aderaldo, Jáder de Carvalho, Leonardo Mota, Cruz Fi­
lho, Lívio Barreto e outros. De qualquer forma, já se desenha ali 
um quadro mais amplo da literatura cearense e de sua projeção no 
País. Mencione-se tambétn o excelente Dicionário Literário Bra­
sileiro, de Raimundo Menezes, embora com algumas omissões. 
Existe e persiste, porém, em outros autores brasileiros, no 
gênero, o desconhecimento e o desinteresse por tudo quanto fize­
mos, do século passado aos nossos dias. Às vezes, dizem de nós 
cot1sas inacreditáveis, por falta, certamente, de um consciente es­
pírito de pesquisa ou de justiça literária. Os equívocos, a certa 
altura, chegam a ser jocosos. Pelo fato, por exemplo, de se cha­
mar Catulo da Paixão Cearense, esse poeta maranhense já foi dado, 
por mais de uma vez, como sendo de Fortaleza .. . 
E por que isso? Poderão ser apontados alguns fatores 
determinantes dessa posição da Poesia e da Prosa cearenses na 
literatura brasileira, dentre os quais as limitadas edições que, por 
isso mesmo, ficam circunscritas ao meio, sem divulgação nacio­
nal. Nunca, porém, a falta de qualidade, a mesquinhez ou a pobre­
za de criação, pois temos poetas da maior categoria, ao estilo das 
diferentes tendências que seguiram, como é o caso de José Albano, 
Juvenal Galeno, Barbosa de Freitas, Lívio Barreto, Antônio Sales, 
Antônio Tomaz, Cruz Filho, Paula Ney, Otacílio de Azevedo, 
Mário Linhares, Júlio Maciel, Carlos Gondim, Leão de Vascon­
celos, Mário da Silveira, Epifânio Leite, Américo Facó, Jáder de 
Carvalho, Martins d' Alvarez, Beni Carvalho, Leopoldo Brígido, 
Silveira Filho, Carlyle Martins, Filgueiras Lima, Otacílio Cola­
res, Aluízio Medeiros, Antônio Girão Barroso, Gerardo Melo 
Mourão, Francisco Carvalho, José Alcides Pinto e Iranildo 
Sampaio. Claro está que nem todos os poetnas desses autores es­
tão "feridos de mortal beleza", para lembrar Mário Qt1intana, 111as 
muitos são peças de inegável grandeza', qtle só poderia111 ser es-
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• 
' 
I 
I 
critos por grat1des JJOetas. Não i111porta a sua filiação roinântica, 
pari1asia11a, si111bolista, 111odernista Oll de vangttarda, o seu senti­
do tltliversal, telúrico, I11Ístico, lírico ou filosófico, a su,a lingua­
getll hern1ética OLl cot11Ltnicante. Etn tudo, há uma autêntica men­
sagetl1 poética, 'lmpliando no leitor a visão das cousas e dos seres, 
pelcl projeção do Llniverso interior do poeta . 
., 
E indisctttível, portanto, a qualidade da poesia cearense, com 
a nota singular de alguns prosadores de renome haverem publica­
do livros de versos, como é o caso de Oliveira Paiva, com Zabelinha 
ou a tacha maldita (contos em versos), o poemeto Vinte e cinco de 
março e os sonetos de Sons de viola ; de Adolfo Caminha, com 
Vôos incertos ; de Gustavo Barroso, com As sete vozes do espíri­
to, e de Farias Brito, com Cantos Modernos, sem esquecer, por 
último, Djacir Menezes, com Poesias heréticas e heresias poéti­
cas, e os ensaístas Mozart Sariano Aderaldo e Stênio Lopes, com 
Apoemas. Rachel de Queiroz, que desfruta de prestígio nacional, 
como romancista, chegou a escrever um livro de poemas -
Mandacaru, cuja edição, porém, jamais autorizou. Conte-se, ain­
da, entre os bissextos, um elenco da categoria de Leonardo Mota, 
D. Helder Câmara, Clóvis Monteiro, Andrade Furtado, Raimundo 
Magalhães Júnior, Moreira Campos, José Pires de Sabóia, Fran­
cisco Alves de Andrade e outros. 
Fato digno de nota, na evolução da poesia cearense, é o re­
tardamento com que aqui chegou o parnasianismo, o que ocorreu 
/ 
apenas em 1903, com o soneto "A Aranha", de Alvaro Martins, 
como assinala Sânzio de Azevedo, na introdução das reedição de 
Os Dolentes, de Lívio Barreto. Isso porque o livro de Antônio 
Sales, ao invés de parnasiano, traz acentos tipicamente arcádicos, 
segundo a revelação de Otacílio Colares, em estudo sobre o as­
sunto. Enquanto isso, o simbolismo surge em Fortaleza no mes­
mo ano da publicação de Broqt1éis, de C111z e Sousa, e1n 1893. 
Em 1892, cria-se no Ceará a Padaria Espiritual, que teria 
tendência simbolista na poesia e naturalista na prosa, como assi-
78 
• 
nala Afrânio Coutinho, em nota à Obra Completa de Cruz e Sousa. 
A Padaria foi revolucionária em relação ao meio e precursora 
qtlanto ao te111po. Os setts poetas, e que1n o confessa é Adolfo 
Ca111inl1a, inspirava1n-se em Antônio Nobre, cujo livro - Só - era 
lido sofregatnente. Mas o sett poeta maior, Lívio Barreto, teve ,a 
intuição do movimento antes de sua repercussão no Ceará. É essa, 
pelo n1et1os, a conclusão de Mário Linhares. E o Simbolismo re­
pontaria na obra de Lopes Filho, Mário da Silveira e Silveira Fi­
lho, jc:l que Mário Sobreira de Andrade, profundamente intimista, 
Inesclotl-o con1 o n1odernismo nascente. � 
De toda forma, porém, a poesia cearense oferece aspectos 
partict1laríssimos, nos seus albores, no fin de siecle ou nos nossos 
dias, em que é visível, ainda, a sobrevivência de um 
neoparnasianismo, ao lado das experiências do concretismo e da­
quela terceira posição, mais grave e séria, que chamamos de 
essencialista, com ressurgências neoromânticas, simbolistas e 
metafísicas. Ao lado de poemas versilibristas, encontramos sone­
tos de bela e nobre feitura, de acentos modernos e despidos de 
lugar-comum, registrando-se, porém, a existência do velho e can­
sado sonetão derivado daquela tendência que Cassiano Ricardo, 
com ironia, chamaria de sonetococus brasiliensis ... 
São inúmeras as características da poesia cearense, o que, 
de resto, ainda não foi analisado suficientemente. Para nós, no 
entanto, seriam as seguintes as marcas de seu espírito e de sua 
evolução, ao longo do tempo: 
1- Sentido universalista e intemporal; 
2- tradição temática baseada em motivos perenes, na 
constância de um lirismo amoroso ou essencial; 
3- exaltação da terra e do homem cearenses; 
4- pouca expressão dos elementos míticos, heróicos, 
épicos e fantásticos; 
5- quase nenhuma expressão da sátira e do epigrama; 
79 
• 
6- abordagens de conteúdo filosófico, com interpretações 
de problemas existenciais e temas transcendentes; 
7- raras, mas expressivas, manifestações de simbolismo; 
8- persistência de uma tendência neoparnasiana, peJo 
fort11alist110 estrtttttral e linguagem erudita, por vezes 
• 
preciosa; 
9-presença do soneto como forma estrófica de maior 
utilização; 
lO-participação retardada, mas efetiva, no movimento 
modernista, sobretudo através de revistas e jornais, com 
acentuada inspiração verde-amarelista e pau-brasil; 
11- prevalência do gênero como atividade maior na 
literatura cearense; 
12- existência de um espírito gregário, através da 
criação de entidades nucleadoras de poetas de dife­
rentes tendências; 
13- inexpressividade da poesia de sentido social; 
14- dimensionamento essencialista da poesia contempo-
A 
ranea. 
Dentro dessas características, súmula de uma visão pessoal 
do problema, desenvolveu-se uma atividade de século e meio, com 
a publicação de mais de 350 livros, dos quais não teríamos dúvida 
em mencionar, como os mais representativos, os seguintes: 
Lendas e Canções Populares - Juvenal Galeno; 
Poesias - Barbosa de Freitas; 
Do lentes - Lívio Barreto; 
Rimas e Comédia Angélica - José Albano; 
Terra Mártir - Júlio Maciel; 
MinhaTerra - Antônio Sales· ' 
Coroa de Rosas e Espinhos - Mário da Silveira; 
Poemas do Cárcere - Carlos Gondin1· 
' 
80 
• 
• 
Terra ele Nitlgtlétn - Jácler ele Carvalho; 
J>oe111as elos Belos Dias - Crttz Filho· 
' 
Poe111as elo le1npo - Leopoldo Brígido; 
Poesia Perdida - An1érico Facó; 
A Obra Poética de Gerardo Melo Mourão. 
Claro est<:í. qtte a seleção se prende a livros fundamentais, d,e 
ati tores qttase todos falecidos, mas justo é destacar nomes como 
Caetano Ximenes Ar,1gão, Antônio Girão Barroso, Otacílio Cola­
res, Alttízio Medeiros, Francisco Carvalho, Soares Feitosa, José 
Alcides Pinto, Iranildo Sampaio, Pedro Henrique Saraiva Leão, 
Jt1arez Leitão, Linhares Filho, Carlos d' Alge, Sânzio de Azeve­
do, Jorge Tufic, Dimas Macêdo, os irmãos Maias (Luciano, Virgílio 
e Napoleão), Márcio Catunda, Batista de Lima, Manoel César, 
Horácio Dídimo, Francisco Nóbrega, Airton Fontenele Sampaio 
Xavier, João Dummar Filho, Hamilton Monteiro, José Teles, 
Wellington Alves, Sérgio Macêdo, Eduardo Fontes, Barros Pi­
nho, Guaracy Rodrigues, Pedro Lyra e tantos outros, sendo opor­
tuno mencionar, nas letras femininas do passado e do presente, 
/ 
Francisca Clotilde, Ursula Garcia, Aracy Martins, Jandira Carva-
lho, Marly Vasconcelos, Yeda Estergilda, Glice Sales, Regine 
Lima verde, Giselda Medeiros, Beatriz Alcântara, Inês Figueredo, 
Rose Aimée Dummar, Helena Macêdo, Ré via Herculano, Rita de 
Cássia, Fernanda Benevides e muitas outras, sem esquecer 
Henriqueta Galeno, criadora da Casa de Juvenal Galeno e grande 
incentivadora cultural. 
Por outro lado, há poetas que nunca publicaram livros, mas, 
mesmo assim, conseguiram nome e glória, como é o caso de Paula 
Ney, do Padre Antônio Tomaz, de Demócrito Rocha e de Rachel de 
Queiroz. Rachel, por motivo não revelado, proibitl a ptlblicação de 
seus poemas em livro, sendo dignos de menção, por sua beleza, os 
versos de Telha de Vidro, um poema da fase modernista, qtle teve a 
mesma repercussão de O RiO Jaguaribe, de Demócrito Rocha. 
81 
• 
• 
Entre a� publicações que atuaJmente divulgam poesia devem 
ser I1letlcionaclas a revista ela SOBRAMI3S - J_jtcrapia ; a r�evista 
Jangada, dirigida por GiseJda Medeiros; a revista Espiral, que 
tllLtito eleve a João Du111111ar Fill1o, alé111 ele outras, de e fê1nera 
duração. A grande revista literária do século passado, como todos 
sabe111, foi cl revista Clã, qLte chegou a eclitar 30 tlúmeros, proje­
tatldo-se it1tert1acional111ente. Mencione-se por justiça, na atuali­
dclde, o sttple111ei1to Cultttra, do Diário do Nordeste, o único exis­
tetlte 110 Ceará e dirigido pelo poeta Carlos A.ugusto Viana, bem 
assitn as ptlblicações da União Brasileira de Trovadores ( UBT), 
sob a coordenação de Fernando Câncio, sem esquecer a centená­
ria revista da Academia Cearense de Letras. 
O poeta maior, contudo, o pontifex maximus da poesia 
cearense, foi José Albano, que Manuel Bandeira consideraria um 
dos maiores poetas da língua e cujo poemeto "Alegoria" Grieco 
chamou de "o último Canto dos Lusíadas". Braga Montenegro 
considera toda a sua obra poética de "superior categoria artística" 
e a ela fizeram referências elogiosas João Ribeiro, Graça Aranha, 
Mário de Alencar, Múcio Leão, Sílvio Júlio, Da Costa e Silva e 
outros. Aqueles que consideram os seus versos como pastichos 
camonianas por certo não analisaram , em profundidade, sua be­
leza imanente, em que o amor, sobretudo místico, esplende inten­
samente, numa linguagem de sabor quinhentista, dentro de uma 
técnica segura e perfeita. Seu discurso poético está todo inspirado 
em motivos transcendentais e intemporais. 
/ 
E certo que, em alguns momentos, não percebeu algumas in-
fluências que incidiam sobre sua arte. No soneto que começa con1 
o verso "Senhor, assim pregado ao duro lenho'' repete Gregório 
de Matos que, por sua vez, já repetia Camões no soneto cujo \7er­
so inicial é "Sôbolos rios, sôbolas tormentas", e em outros. Mas 
isso não desfaz o valor de ninguétn e é ocorrê11cia coi11lti11, en1 
literatura. Já Fernando Pessoa dizia que "chora Ca111ões a al111a 
minha gentil que te partiste, mas qttetn o sente é Petrarca'' ... 
82 
• 
José 1-\lbano, 1Jorén1., é LtJ11 poeta i111enso. Se outros gran�des 
\'Llltos não existissen1 na 11oss�t JJOesia, e] e, sozinho, daria nome e 
pr stígio ao gê11ero, 110 Ceará. O CJUe sentin1os dele no texto lírico 
é algo reaJJ11ente i11traduzíveJ, como u111a luz <.]Ue sobressai do rit­
IllO e da arqttitettlfíl do verso. 
Soi11os, entreta11to, tn<.tl conhecidc)s no País, quando não so­
ti·e111os i11jttstiças. Mclnttel Bandeira, por exemplo, na sua Apre­
setltctção d<l Poesia Brasileira, ignora a existência de outros poe­
tas cllé111 de José Albano, não registrando nenhum nome na súmula 
inve11tariante qtte fez naquela obra. Entretanto, segundo Cruz Fi-
111o, e111 artigo publicado em 1920, no Almanaque do Ceará, 
Alfredo de Castro foi o poeta que mais atingiu, no Brasil, "a per­
feição da arte parnasiana". 
Existimos, no entanto. E vivemos. O panorama da nossa Po­
esia oferece aspectos surpreendentes e múltiplos. Belo, sem dúvi­
da, é o espírito que emerge de suas obras, tocado, a um só tempo, 
de tlniversalidade e telurismo, de intemporalidade e de expressão 
do homem e da natureza, com poemas, sonetos e canções de pe­
netrante ternura e solidão, brotados de ampla visão criadora. 
Sílvio Júlio, em seu livro Terra e Povo do Ceará, editado no 
Rio em 1936, escreve: "O Ceará conta com opulenta poesia, e 
seus cultores, mal conhecidos fora da Província, merecem louvo­
res dos críticos imparciais". E dá ênfase aos nomes de Juvenal 
Galeno, Antônio Sales, José Albano, Quintino Cunha, Cruz Fi­
lho, Carlos Gondim, Mário Linhares, Sales Campos, Júlio Maciel, 
Beni Carvalho e Antônio Tomaz. 
Grandes poetas e escritores brasileiros qtle nos visitaram e 
entraram em contato conosco, como é o caso de Gonçalves Dias, 
de um Raimundo Correia, de um Guilherme de Almeida, de un1 
Augusto Frederico Schmidt, de um José Lins do Rego, de u111 
Vitorino Nemésio e de tlrn Humberto de Campos (qtte dedicotl 
inúmeras poesias ao Ceará), sempre revelara111 adn1iração pela 
riqueza da literatura cearense. Três dessas visitas foram particu-
1 
I 
I 
I 
Im·mente importantes, pela repercussão que tiveram em nossas 
letras; a de Gonçalves Dias, no século passado, que mudaria a 
feição da poesia de Juvenal Galeno; a de Raimundo Correia, no 
· 
fi111 do século, entranclo e111 contacto C(11TI a Padaria Espiritual, e a 
de Gt1ilhern1e de AJ111eida, etn 1925, prega11do o Modernis1no e 
realizando u111a conferência n o Teatro José de Alencar, ,a 29 de 
novembro do tnesn1o ano, na qual declarou, enfaticamente: "a 
poesia de hoje é criadora; cria livremente, subconscientemente, �o 
seu ritmo; não é mais ttma escrava de metros estabelecidos". O 
resumo dessa conferência foi feito por Gilberto Câmara e publi­
cado em O Ceará Ilustrado. 
Se não conseguimos projeção mais ampla, conquistamos in­
discutível personalidade literária, cujos frutos precisam ser divul­
gados e estudados nacionalmente, a fim de que se saiba que hou­
ve aqui permanente participação no processo cultural do País e 
uma evolução literária, lenta mas consciente, que nos levaria a 
uma Poesia de grande significação, dentro das letras brasileiras. 
E, para que possamos ter uma compreensão mais ampla da 
vida e do espírito cearenses, será através da Poesia, principalmen­
te, que isso se alcançará, pois os poetas, no entender de Shelley, 
são aqueles que melhor representam, com sua obra, a história de 
um povo, traduzindo-lhe as virtudes, as esperanças, os sofrimen­
tos, os sonhos, as glórias e o sentido dos caminhos espirituais e 
das fronteiras abertas ou conquistadas, no desenvolvimento de 
seu processo social e de sua afirmação humana e eterna. E isso 
mais se destaca num povo, como o cearense, que vive numa terra 
onde até governadores foram poetas: Costa Barros, Justiniano de 
Serpa e Beni Carvalho. 
Por tudo isso, a Poesia cearense merece o respeitoda Crítica 
e da História . 
• 
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